O Estado de S. Paulo
Deputados continuam vulneráveis às urnas, mesmo com recursos crescentes
Nunca os deputados federais brasileiros
tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Além
dos fundos Partidário e eleitoral bilionários, cada parlamentar dispõe de cerca
de R$ 40 milhões anuais em emendas individuais impositivas.
Seria razoável esperar que tamanha vantagem
tornasse a reeleição cada vez mais segura. Mas as urnas de 2026 contrariaram
essa expectativa. Segundo série histórica, apenas 54% dos deputados renovaram
seus mandatos, abaixo da média histórica de 63%.
Embora superior ao resultado de 2018, quando a reeleição atingiu seu menor patamar histórico recente (47%), o porcentual revela que a sobrevivência eleitoral continua longe de ser garantida. Nem mesmo a expansão dos recursos orçamentários à disposição dos parlamentares parece ter revertido essa trajetória.
Por que, afinal, tanto dinheiro não se traduz
em maior segurança eleitoral? No Brasil, a conexão entre deputados e eleitores
passa por uma complexa rede de intermediários: prefeitos, vereadores,
empresários, lideranças religiosas, sindicatos e associações locais. São eles
que frequentemente transformam recursos obtidos em Brasília em reconhecimento
político nos municípios.
Ocorre que distribuir dinheiro não equivale a
conquistar votos. É preciso que o eleitor atribua ao deputado o benefício
recebido e que as lideranças locais tenham incentivos para mobilizar apoio em
seu favor. Prefeitos e vereadores, porém, não pertencem a um único parlamentar:
negociam com diferentes aliados, recebem recursos de várias fontes e podem
mudar de lado. O deputado pode controlar a destinação da verba, mas não
necessariamente sua conversão em votos.
O sistema proporcional de lista aberta
intensifica essa incerteza. O incumbente disputa eleitores não apenas com
adversários de outros partidos, mas também com candidatos da própria legenda ou
federação. Quando muitos concorrentes dispõem de recursos, a vantagem
financeira individual diminui e a disputa pelas redes locais se acirra.
Daí o paradoxo: mais dinheiro pode elevar os
custos da competição sem assegurar a vitória.
Novas lideranças surgem, alianças se desfazem
e antigos redutos eleitorais deixam de ser exclusivos. Isso não significa
igualdade de condições. Deputados em exercício continuam privilegiados diante
dos desafiantes. Significa apenas que suas vantagens não são invencíveis.
Mesmo em um Congresso cada vez mais poderoso sobre o Orçamento, seus integrantes permanecem sujeitos ao risco da derrota. E essa incerteza, embora não garanta, por si só, boa representação, é indispensável à responsabilização democrática.

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