Folha de S. Paulo
O Nordeste não constitui um sistema
partidário distinto do restante do país
O peso do PT é menor nas bancadas federais do
Nordeste do que nas de outras regiões
Em 2022, mostrei nesta coluna que o núcleo do
centrão e o PL
haviam eleito 35% dos deputados
federais nordestinos. Os partidos de esquerda ficaram com 33%. A
participação de PL, PP e
Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à
observada nacionalmente.
Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, contra 69 em 2022, mas a participação do Nordeste nessa bancada caiu de 21 cadeiras —30,4%— para 20, equivalentes a 28,6%. Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, agora a diferença aumentou: são 20 contra 50.
Em 2022, o PT ocupava 13,9% das cadeiras
nordestinas e 13,3% das cadeiras do restante do país: virtual paridade. Hoje,
proporcionalmente, há menos PT
nas bancadas nordestinas do que nas demais: 13,2% no Nordeste e
13,8% fora dele.
Quando se calcula, em cada estado, quanto os
deputados do PT representam percentualmente dentro de sua bancada federal, o
valor que divide as 27 unidades da Federação ao meio é 12,5% —acima dos 11,8%
registrados em 2022. Três estados nordestinos estão acima desse patamar
(mediana), enquanto seis estão na mediana ou abaixo dela. O Piauí lidera, com
30%, mas dois estados de fora do Nordeste —Minas Gerais, com 22,6%, e Espírito
Santo, com 20%— superam a Bahia, maior colégio eleitoral nordestino, que
aparece com 17,9%. O Ceará registra apenas 13,6%, ficando também abaixo de
Paraná (16,7%), Rio Grande do Sul (16,1%) e São Paulo (15,7%).
O quadro dos demais partidos é ainda mais
revelador. PSD e PP, ao contrário do estereótipo, são proporcionalmente muito
mais fortes nas bancadas nordestinas. Nada menos que 41,8% dos deputados do PSD
foram eleitos na região. Sete dos nove estados nordestinos estão na metade
superior da distribuição; no PP, são seis; no Republicanos, cinco.
PL e União Brasil, esses sim, apresentam
maior concentração fora da região. Ainda assim, o PL ocupa 21,5% das cadeiras
nordestinas, apenas cerca de seis pontos percentuais abaixo de sua participação
nas bancadas das demais regiões (27,5%). O Nordeste não constitui um sistema
partidário distinto do restante do país.
Em 2019, ilustrei o mito do Nordeste vermelho
com um experimento natural. Nas eleições
municipais de 2012, o PCdoB elegeu cinco prefeitos no Maranhão. Quatro anos
depois, saltou para 46 —aumento de 820%—, concentrando no estado 58% de todos
os prefeitos eleitos pelo partido no país. O que ocorreu? Entre as duas
eleições, o PCdoB elegera Flávio Dino governador. A força centrípeta —para usar
um eufemismo— da máquina estadual operou.
O episódio ajuda a decifrar um enigma apenas
aparente: como a mesma região que dá votações esmagadoras ao PT para presidente
entrega prefeituras e cadeiras legislativas a partidos de centro e de direita?
O regionalismo é uma variável importante, mas
o eleitor não é ignorante. Ele arbitra racionalmente trade-offs entre ganhos
federais e locais. Na eleição presidencial, premia quem ele associa à oferta de
programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e políticas
sociais. Nas disputas subnacionais, responde às redes comandadas por
governadores (mas também prefeitos e parlamentares capazes de carrear obras,
serviços e emendas).

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