O Globo
Tem gente com carro financiado em 77
prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas não vive a vida
dele
Eu curto ouvir ideia de roda de favela. No
domingo, dia 4, fui votar nas Quadras, onde nasci, favela dentro da Aldeota,
bairro rico de Fortaleza, e levei minha mãe, Dona Fátima, que sempre vota
comigo. Na roda, o debate era política, e a palavra era polarização. Eu chamo
de espetáculo, que não é o vídeo que chega no celular. É quando ele passa a
decidir com quem a gente conversa, de quem tem medo e em quem vota. O principal
desse show não é o que mostra, é o que esconde.
Tem gente em casa sem banheiro, em rua sem saneamento, discutindo quem pode usar o banheiro do shopping. Quem mora na favela e quem mora no prédio ao lado até parecem iguais na passeata. No dia a dia, um é patrão e o outro é empregado, e não têm as mesmas demandas. O espetáculo cria a miragem de que são iguais numa sociedade desigual e injusta.
Um se declara pobre de direita, mas quer do
Estado o que a esquerda promete. O outro, de esquerda, chama o vizinho de gado,
mas não aceita crítica nem cobrança. Para alguns, favelado pensar em negócio e
grana é neoliberalismo. Só que parte da favela ainda precisa do Bolsa Família,
e outra quer crédito para abrir negócio. E aí? Esse racha é mais do espetáculo
que da vida real. A direita promete o trabalhador livre para trabalhar, mas sem
garantia. O trabalhador quer a garantia, mas quer prosperar.
A queixa comum eram os boletos. Perguntei
quem sabia a taxa de juros do cartão. Silêncio. Educação financeira ninguém
ensinou. Um disse que é contra o sistema, e perguntei o que é o sistema. O
político de estimação dele está doido por um filé do sistema. O antissistema
quer ser sistema. E qual é o sistema que favorece a gente?
No ônibus lotado, três horas de ida e volta,
vão juntos o de direita, o de esquerda, o umbandista, o crente, o inocente e o
safado. A vida não pode ser algoritmizada. Na vida real, somos todos obrigados
a viver as mesmas situações, acredite cada um no que quiser. O que nos torna
comuns é a realidade. A violência e a polícia tiram vidas na Bahia e em São
Paulo, governos de lados opostos, e a tragédia é a mesma. Tem gente com carro
financiado em 77 prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas
não vive a vida dele.
Não se trata de saravá ou aleluia, de tambor
ou de Bíblia. Um falou em nome de Jesus e da família, e tive que chamá-lo à
razão: família na favela, muitas vezes, é uma mãe solo se virando, e o rapaz
que fala de família tem um monte de namoradas e vive na casa da luz vermelha.
Dona Fátima é antipolarização: vai aonde o coração dela manda; um dia veste
branco, no outro canta hino no culto da rua com os meninos que saíram do crime.
Enquanto a gente briga por fé e costume,
Estados Unidos e China estão de olho no Brasil. A colonização chega pela
dívida, pela tela e pelo dono do algoritmo. Quero a Netflix e o carro chinês,
mas não quero nenhum dos dois mandando na nossa terra e na Amazônia. Já bastam
quase 400 anos de escravidão.
Poder é coisa de maioria, e a maioria que
trabalha e gera a riqueza não pode aceitar viver do mínimo. O Bolsa Família tem
que seguir para quem precisa, e quem saiu merece apoio para crescer. O direito
de votar tem que estar garantido para ninguém ter poder absoluto. É com essa
cabeça que a gente vai para a urna, e não como plateia apática do espetáculo.
Vote como os políticos fazem: analisando onde há condição de realizar e
pensando no interesse real da sua agenda. Ficou um silêncio pesado na roda de
amigos; entre amigos, não minto, nem para consolar.

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