Folha de S. Paulo
A infestação na vida política agrava-se com a
corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou
O que seria o 'coração' da Pólis republicana,
por arritmia burocrática com a nação, infartou.
A recordação de uma leitura da pequena
infância ajusta-se ao dito de Machado de
Assis de que "o menino é o pai do homem" (em
"Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma
parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade
quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos /
que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão /
da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra
suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos /
de noite aí vão..."
Dá para adivinhar o resto, uma fábula de predação.
Curioso que o baú mnemônico guarde ao pé da
letra a lenga-lenga infantil de uma escolinha do cafundó nordestino. Mas
lembranças engarrafadas às vezes se destapam em susto ou sorriso, como no
aforismo nietzscheano da "festa da memória". Brasília
evoca essa cidade para onde acorrem predadores ávidos pelas
"pitanças" do poder, isto é, o assalto à "despensa" das
verbas públicas e o acesso corruptivo aos donos da mais-valia decisória:
dirigentes, parlamentares, juízes. No escurinho dos porões.
A lembrança da fábula foi provavelmente
ativada pela fácil analogia entre "o porão da gorda ricaça" e o
"cofre da Viúva" (Elio
Gaspari). Também não terá sido coincidência a voracidade da família
de Ratusca Boduça e dos quatro Rafelhos com o notório clã de predadores
políticos. Até agora, eles amealharam um patrimônio imobiliário escandaloso,
navegando no fluxo corruptivo de milhões de dólares. Uma peste moral.
Por isso, o flagelo cabe na alegoria de ratos
mortos nas ruas como em "A Peste", de Albert Camus: a epidemia
metaforiza a condição humana frente ao dilema absurdo entre indiferença e
solidariedade no sofrimento. Pusilanimidade cívica ou anestesia da consciência
impedem de perceber a "destilação leprosa" ("leprous
distilment", Hamlet, ato 1, cena 2), tal como Shakespeare descreve a
passagem da corrupção
física à moral, capaz de contaminar o corpo da nação.
"O menino é o pai do homem", sim, o
passado nunca se cala, mas o adulto dialoga com sua meninice pela escrita da
experiência, dos livros, das linhas da sorte. Daí a prontidão da metáfora: o
Tesouro Nacional como despensa saqueada. A infestação agrava-se com a corrupção
transformada em lepra moral, que já se naturalizou. "Ladrões do dinheiro
público são agora campeões de voto", diz um político. Narcoestado
miliciano pentecostal? Pouco importa. Camundongos tornaram-se ratazanas bem
nutridas por focos internacionais do flagelo.
Não é mera divagação acadêmica a diferença
entre urbe, enquanto disposição arquitetônica num espaço, e a ideia de Pólis
como centro político da movimentação democrática de um povo. Vista apenas como
urbe, a cidade concebida por Lucio Costa e Oscar
Niemeyer nada tem a ver com o que terminou abrigando. Já o que seria
o "coração" da Pólis republicana, por arritmia burocrática com a
nação, infartou. Um corpo sem órgãos. Na historieta, um gato acaba com a festa
dos ratos. Em Brasília, Fifica Fogaça não mais consegue distinguir gatos de
gatunos.

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