Folha de S. Paulo
Parte que vazou do programa do candidato não
faz sentido sem corte social ou mais imposto
Negativas da equipe bolsonarista podem
esconder outros tipos de corte ou contenção
Flávio
Bolsonaro (PL)
e equipe desautorizam versões do plano econômico que vazam por aí. Parecem
negar o pacote mínimo de quase qualquer adepto da contenção de despesa.
Isto é: 1) negam que o reajuste
do piso de benefícios previdenciários e assistenciais venha a ser desvinculado
dos reajustes do salário-mínimo; 2) negam que a despesa federal mínima
obrigatória em educação
e saúde seria
desvinculada da receita do governo; 3) dizem que o salário-mínimo continuará a
ter reajuste real, acima da inflação.
Suponha-se que seja assim. Nem essas negativas dizem tudo.
O piso de benefícios sociais pode até
continuar vinculado ao valor do mínimo. Mas o mínimo pode não ter reajuste
quase algum além da inflação —reajuste real haveria, diz a campanha de Flávio
Bolsonaro. Um reajuste de 0,1 ponto percentual acima da inflação também é
aumento real, para exagerar o argumento.
A despesa federal obrigatória em saúde e
educação (afora Fundeb) equivaleu a 7,4% do gasto total do governo nos últimos
12 meses. A despesa discricionária (de escolha livre) foi de 4,7% do total. Em
tese, pois, é possível conter despesa de saúde e educação sem bulir com a
vinculação obrigatória.
Que fosse assim, "cortes
disfarçados". Cairia mal entre defensores do "ajuste" e "o
mercado". Não seriam medidas permanentes. Indicaria falta de compromisso
com "o fiscal".
Suponha-se o puro estelionato eleitoral:
desindexações e desvinculações de benefícios e despesas sociais, que também
foram plano de Bolsonaro 1. Vaza por aí que o corte de Bolsonaro 2 seria de uns
R$ 200 bilhões. A conversa é tão confusa que talvez se trate de contenção do
aumento de gasto de R$ 200 bilhões, não de corte. Em quanto tempo seria
cumprida essa meta? Um ano? Em 18 meses, como vazou?
Não se discute um plano aqui. Juntam-se dados e rumores para mostrar que essa
discussão ora não faz sentido algum. A coisa é ainda pior.
Em um ano, nos 12 meses até agosto, o aumento
da despesa federal foi de R$ 238,5 bilhões (em termos nominais). Mais de metade
desse aumento, R$ 131 bilhões, deveu-se a despesas adicionais obrigatórias
sociais: benefícios da Previdência ("do INSS"), saúde, educação,
abono salarial, seguro-desemprego, Fundeb. Não se incluiu aí o Bolsa Família,
que vai ter aumento a partir deste outubro. Juntada a despesa extra com folha
de pessoal (obrigatória), a conta vai para R$ 169,5 bilhões, para 71% do
aumento total da despesa.
Despesas com Previdência, pessoal, benefícios
sociais (Bolsa Família inclusive), seguro-desemprego, saúde e educação
(obrigatórias ou não) levam de resto 90% do total do gasto primário.
É fácil perceber que a mera contenção (não
corte) de R$ 200 bilhões do aumento da despesa implica não haver aumento
adicional algum em gasto social e pessoal (a alternativa é inviável: massacrar
o resto minguado da administração federal). Mesmo sem reajuste, despesas de
benefícios previdenciários crescem, porque mais pessoas os recebem.
O plano de contenção dos R$ 200 bilhões
talvez fosse viável em vários anos (quatro?). De qualquer modo, exigiria
estelionato eleitoral. A não ser que Bolsonaro 2 corte fundo no "gasto
tributário" (cancele reduções de impostos para pessoas, empresas, setores
e regiões). Na prática, por mais justo que seja, é aumento
de imposto, que o candidato da extrema direita prometeu não fazer. É outro
problema, para uma próxima coluna.
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