domingo, 11 de outubro de 2026

Medo como arma, por Merval Pereira

O Globo

Segundo o sociólogo Manuel Castels, o medo é a emoção primordial imposta pelos poderes para impedir mudanças.

A disputa feroz em que se transformou a campanha presidencial no segundo turno tem revelado mais dos candidatos do que a totalidade da curta campanha eleitoral anterior, que terminou com a vitória de Flavio Bolsonaro sobre Lula. Para o bem e para o mal. Os candidatos passaram a apresentar suas propostas de governo, o que evitaram fazer na primeira etapa da disputa. A correria com que foram buscar jovens petistas para ajudar no segundo turno teve seu lado bom, com os estudantes de diversas cidades promovendo manifestações públicas de apoio que energizaram a campanha. Mas a descoberta da deputada federal eleita Ana Elisa, de 21 anos, tão controversa quanto não necessitava Lula nesse momento em que procura os votos do centro e dos independentes para virar o jogo, trouxe de volta para o PT a imagem de radicalização repelida justamente por esse eleitorado mais centrista.

A onda de boatos que dominou as redes sociais esquerdistas trouxe junto a imagem antiga de um partido que não convive com a moderação. É verdade que a história da família Bolsonaro é marcada pela violência, pela corrupção, pela tentativa de golpe que foi prenunciado antes mesmo da eleição de 2018, quando o filho Eduardo Bolsonaro disse que para fechar o Congresso bastava “um cabo e um sargento”. É legitimo que se discutam esses temas na campanha, e que eleitores fiquem com o pé atrás com seu sucessor, mas daí a afirmar que haverá um golpe, vai uma distância considerável. É certo que Lula, desde que esteve no governo, mudou de posições várias vezes - afinal, é uma metamorfose ambulante, como ele mesmo se definiu -, e já foi propenso a um controle estatal de vários setores da economia, até mesmo da cultura. Na política externa, tem uma tendência clara pelos governos de esquerda, mesmo as ditaduras, o que não quer dizer que seja um ditador, como acusam os bolsonaristas. Uma coisa é sabida: Lula tem sido um presidente democrático.

Os escândalos do mensalão e do petrolão refletiram a tentativa de controle do Congresso através da corrupção, e marcaram o PT definitivamente. Agora mesmo, aparece um relato de Vorcaro envolvendo pessoas importantes do governo negociando um golpe na Previdência em troca de propina e financiamento de um filme sobre Lula. A gravação foi dada como verdadeira, mas não está esclarecido em que circunstâncias foi feita. Estranho que Vorcaro compare os dois financiamentos, afirmando que o do PT foi "por fora" e o do Bolsonaro legítimo. Parece coisa combinada. Normal que esses fatos sejam recordados nas campanhas, mas é triste que notícias falsas dos dois lados maculem a campanha presidencial. Um caso emblemático são as acusações petistas de que o candidato Flavio Bolsonaro vai cortar os benefícios sociais, não vai dar aumento real para o salário mínimo, não vai dar tratamento especial aos benefícios para idosos e pessoas com deficiência. Lula pergunta de onde sairá o corte de R$ 250 bilhões prometido pela adversário, insinuando que sairão dos benefícios sociais. Boa pergunta, que merece ser explorada.

Mas prenuncia, porém, que também Lula não tem resposta para essa questão, cuja solução é de sua responsabilidade desde que assumiu, há quase quatro anos, até o fim do ano, mesmo que perca. O PT é mestre em jogar com o medo da população para ganhar a eleição. Lembram-se da propaganda de João Santana contra Marina Silva na campanha eleitoral de 2014, para eleger Dilma Rousseff? A troco de criticar a defesa da autonomia do Banco Central, a comida ia desaparecendo do prato do trabalhador. Na campanha de 2022, o mesmo truque foi usado, o feijão, o arroz e a carne sumiam do prato para criticar a inflação.

Agora, dizem que o governo Bolsonaro vai acabar com o Pix, por pressão do governo Trump. É certo que o presidente americano não gosta de ser superado, e está uma bala não apenas com o Pix , que é melhor do que o sistema americano. Também é verdade que Eduardo Bolsonaro insinuou que poderia colocar o Pix numa negociação com os americanos. Criticar essa postura, chamar a atenção para a estupidez dessa proposta, é legitimo. Mas garantir que a decisão já está tomada é outra coisa. Segundo o sociólogo Manuel Castels, o medo é a emoção primordial imposta pelos poderes para impedir mudanças.

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