domingo, 4 de outubro de 2026

É possível dar bom-dia à democracia hoje? Por Dorrit Harazim

O Globo

Numa eleição da magnitude da atual, não há mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê novamente às turras

‘Bom dia, democracia. Como é lindo o teu rosto’, postou no 2 de janeiro o imortal da Academia Brasileira de Letras Marco Lucchesi. Assim começava a coluna aqui publicada sobre a posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente eleito do Brasil dois meses antes. Embora fosse a terceira subida de rampa do candidato do Partido dos Trabalhadores, a apertadíssima vitória sobre o incumbente Jair Bolsonaro (1,8% dos votos) retratava a fenda trevosa que continuaria a dividir o Brasil. Não deu outra: o novo governo mal havia se instalado quando ocorreu a delirante tentativa de golpe do 8 de Janeiro, com o consequente julgamento e condenação do derrotado insurgente a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.

Àquele assalto desvairado, o Estado Democrático de Direito sobreviveu. E a democracia, esse ideal fugidio eternamente em mutação e construção, pareceu retomar um curso menos acidentado. Haveria espaço para o país sair em busca de mais autonomia e igualdade, para exercer sua fé sem abrir mão do secularismo, expandir os direitos coletivos, ampliar escolhas individuais em diversas esferas. A ciência e a razão prosperariam, enquanto a superstição e a disseminação de teorias da conspiração diminuiriam.

Era uma visão do possível, não fossem o que são o Congresso, os partidos políticos, o Supremo Tribunal Federal, a Justiça, o próprio governo: democraticamente mais que imperfeitos. Também temos 58,2 milhões de eleitores que, em 2022, tinham aspirações diferentes, infensos à prometida lufada de vento democrático. Mas é o que temos. E, como escreveu o poeta laureado Robert Frost em 1914 , the best way out is always through (algo como “a melhor saída é sempre através”). Não adianta fugir ou tentar contornar a dor ou o obstáculo; a única maneira de se livrar deles é enfrentá-los por completo até conseguir chegar à outra margem. O famoso verso do poema “A servant to servants” cabe bem ao cenário em que nos encontramos hoje.

Numa eleição da magnitude da atual, não há mais espaço para o opcional. Após um hiato de quatro anos, o Brasil se vê novamente às turras, diante de uma bifurcação talvez até mais consequente que a de 2022. Desta vez, dependendo de quem for eleito, acrescente-se o potencial de apropriação externa na condução do futuro nacional. Make America Great Again e o governo do presidente Donald Trump encontraram terreno fértil no Brasil do candidato Flávio Bolsonaro.

Num ensaio publicado na revista progressista CounterPunch, o acadêmico americano-canadense Henry A. Giroux avisa que a noção de governo como bem público democratizante e instituição de responsabilidade social — que outrora responsabilizava o poder, protegia os vulneráveis e cultivava os ideais de justiça e responsabilidade coletiva — vem sendo metodicamente destruída.

— O bem comum — escreve Giroux, que ocupa a cátedra de pesquisa em interesse público da Universidade McMaster, de Ontário (Canadá) —, antes visto como essência da vida democrática, tornou-se o inimigo do Estado fascista neoliberal. O bem comum não tem sido apenas negligenciado; tem sido atacado, despojado e deixado apodrecer nas sombras da privatização, da ganância e da brutalidade. As instituições públicas são esvaziadas, os tribunais estão sob cerco, os órgãos reguladores são politizados e despojados de poder, e os mecanismos de governança servem agora apenas às formas mais implacáveis de poder financeiro e político concentrado.

Giroux, pesquisador emérito Paulo Freire em pedagogia crítica, não se referia ao Brasil, e sim ao país que reelegeu Trump apesar de ter tido quatro anos para refletir:

— Vivemos tempos perigosos. As paixões mobilizadoras do fascismo já não são um eco distante da História, elas estão aqui, percorrendo os Estados Unidos como uma corrente elétrica. Estamos num período de expurgo social, ideológico e racial. Essa é uma guerra não apenas contra as pessoas, mas contra a memória, a imaginação e a própria capacidade de pensar, estabelecer conexões e sonhar com um futuro diferente.

Ou, como diria Marco Lucchesi, de dar “bom-dia à democracia”.

 

 

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