Valor Econômico
Municípios com maior proporção de
empreendedores individuais votaram maciçamente no candidato do PL
Ao anunciar perdão de dívidas, Pix de R$ 5
mil e aumento do limite para o enquadramento de Microempreendedores individuais
(MEI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu fazer um aceno ao
eleitorado do adversário, a apenas 12 dias do segundo turno. O resultado da
eleição presidencial no primeiro turno é eloquente neste sentido.
Existem 13,7 milhões de MEIs no Brasil, com faturamento anual de até R$ 81 mil, de acordo com dados do Sebrae coletados pelo Valor Data. Pelas regras fiscais brasileiras, uma pessoa física só pode ter um MEI, portanto não erra muito quem estimar que praticamente 10% dos eleitores é passageiro desta nave (o total do eleitorado nacional é de 158 milhões).
A proporção por município indica que esse
contingente está mais concentrado em áreas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde
o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) obteve mais votos. Em Balneário Camboriu
(SC) existe cerca de um MEI para sete habitantes. Em Caucaia (CE), são um MEI
para 21 moradores. Em Belém são um MEI para 20 residentes. Em Praia Grande (SP)
um para oito, e assim por diante. Lula não faz aceno ao eleitor independente.
Faz aceno ao bolsonarista.
No grupo dos 200 municípios com maior
proporção de MEIs por habitantes, a votação em Lula no primeiro turno da
eleição presidencial caiu de 5,2 milhões para 4,8 milhões de votos entre 2022 e
2026, uma diferença que parece ter sido transferida para o adversário. O
ex-presidente Jair Bolsonaro teve neste microcosmo 8,1 milhões de votos há
quatros anos e Flávio recebeu agora 8,6 milhões.
Nesse conjunto de 200 municípios, Lula só
havia vencido em 18 em 2022. Agora ficou em primeiro lugar em 11. A votação da
família Bolsonaro cresceu em 193 deles. A de Lula se reduziu em 179.
O universo desses 200 municípios é bastante
heterogêneo, ainda que São Paulo e Santa Catarina respondam por mais da metade
do total. Há desde micromunicípios como Serra da Saudade (MG), em que o
percentual de MEIs em relação à população é de 17,5%, até uma metrópole como
Belo Horizonte , em que este percentual é de 10,1%.
O que não tem é Norte e Nordeste. Somente um
município em Pernambuco e outro em Tocantins estão no grupo dos municípios com
mais MEIs.
De acordo com o cientista político Felipe
Nunes, do Instituto Quaest, co-autor do livro “O dilema do aventureiro”, a ser
lançado nas próximas semanas, o empreendedor individual no Brasil tem maior
tolerância ao risco e maior convivência com a incerteza.
É predominantemente masculino e jovem.
Valorizam muito menos políticas sociais do governo e pendem para a direita. Uma
outra pesquisa conduzida pelo diretor da Quaest, desta vez no livro “Brasil no
Espelho”, concluiu que 74% dos empreendedores individuais achavam que programas
sociais fazem as pessoas quererem trabalhar menos.
O público dos MEI foi o principal alvo em
janeiro de 2025 do famigerado vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em que
o parlamentar insinuava que o governo poderia monitorar e taxar as operações de
Pix. “Microempreendedores representam 70% das empresas do país. Em 2025, o MEI
poderá faturar R$ 81 mil por ano, ou seja, pouco mais de R$ 6 mil por mês. Essa
maioria de brasileiros, muitos não declaram imposto de renda, porque é difícil
pagar as contas. Se é difícil sem declarar, imagine o PT tirando 27,5% do que
você ganha. Impossível sobreviver”, disse Nikolas na ocasião. Essa
desinformação gerou um clima de verdadeiro pânico no país e catalisou a
derrubada da aprovação de governo, que já se desenhava por outras razões e
nunca se recuperou plenamente.
Esse mesmo público foi o principal
destinatário das mensagens negacionistas de Jair Bolsonaro durante a pandemia
de Covid-19. Quando ele minimizava a doença que matou 760 mil brasileiros
durante seu governo, usava como principal argumento a dificuldade financeira
que os MEIs passariam caso a atividade econômica fosse paralisada.
Também essa foi a principal base que quase
levou o “coach” Pablo Marçal ao segundo turno da eleição municipal de 2024, em
São Paulo, e não por acaso o aceno de Lula ocorre na mesma semana em que
circula a informação de que vem por aí, se Flávio ganhar, um tal de “Ministério
da Prosperidade”. O presidente percebeu, tardiamente, que a direita criou
alicerces fora da elite nacional, o que minou a conexão de Lula com uma franja
que, se não se reconhece mais como pobre, está longe de ser rica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário