Esgota-se o modelo de estímulo ao consumo
Por Folha de S. Paulo
Premidas por dívidas, famílias reduzem ritmo
de alta das compras desde 2025, e tendência deve seguir
Gastos inflados por Lula manterão juros
sufocantes; momento do ajuste, adiado neste ano eleitoral, virá no próximo
governo
Mais uma vez, a estratégia de impulsionar a
atividade econômica por meio de gastos públicos encontra seu limite. Desta vez,
o freio é o esgotamento da expansão do consumo das famílias, endividadas ao
longo dos últimos anos por um modelo de política econômica que infla a demanda
sem bases produtivas sustentáveis.
Entre 2021 e 2025, segundo o IBGE, o consumo privado avançou em média 3,3% ao ano, com pico de 5,1% em 2024. Em 2025, o ritmo já caiu para 1,3%, e a expectativa é de somente 1% neste ano e ainda menos no próximo.
A principal causa está no elevado
endividamento das pessoas físicas. O volume de crédito a elas
direcionado cresceu de forma acelerada, com alta de 10,5% em 12 meses até
meados de 2026.
Dados do Banco Central
mostram dívidas equivalentes a 49,9% da renda acumulada em 12 meses até julho,
enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de juros
e amortizações chegou a 28,7%.
Segundo pesquisa da Confederação Nacional do
Comércio (CNC), mais de 80% das famílias carregam algum tipo de passivo, um
patamar recorde.
O roteiro se repete nas gestões petistas.
Assim como no primeiro mandato de Dilma Rousseff,
o terceiro governo Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
expandiu o gasto público de forma temerária, em particular com benefícios
sociais. Conseguiu assim sustentar o consumo por algum tempo, mas sem alicerce
correspondente em aumento da produtividade.
Os custos dessa política não deveriam
surpreender mais: pressões inflacionárias, necessidade de juros mais altos e
deterioração das contas públicas.
Na gestão atual, as despesas federais
cresceram em média cerca de 5% ao ano acima da inflação,
muito além do ritmo da economia.
O resultado inevitável é o aperto da política monetária sobre famílias e
empresas.
A deterioração das expectativas é clara. A
pesquisa Focus, do BC, projeta expansão do PIB de 1,85%
neste ano e apenas 1,4% em 2027, com viés de baixa para variação inferior a 1%.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de
reduzir suas estimativas, para 2,2% e 1,9%, respectivamente. É menos
pessimista, mas costuma chegar atrasado em relação a analistas locais. O
desemprego deve subir, de 6,2% para 6,8% em 2027.
Lula continua enfileirando benesses, como
nesta terça-feira (13), com o projeto de perdão de
dívidas para microempreendedores individuais (MEIs). O momento do
ajuste, adiado neste ano eleitoral, virá no próximo governo, qualquer que seja
o resultado do pleito presidencial.
Ainda que não se antecipe uma recessão
profunda nos moldes de 2015-16, quando o PIB caiu cerca de 7%, uma
desaceleração expressiva já está em curso —e se agravará de modo duradouro se
não houver correção de rota. Sem reequilíbrio orçamentário, os juros
permanecerão nas alturas e estrangularão a economia.
Trump abala a imagem dos EUA na América
Latina
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa aponta queda da opinião favorável ao
país, apesar da expansão da direita populista na região
No Brasil, 59% consideram boas as relações
com os EUA, enquanto a taxa da América Latina é de 71%; com a China, a
avaliação positiva alcança 65%
A expansão da direita populista na América
Latina nos últimos anos traduziu-se num alinhamento mais forte de
governos da região à agenda da Casa Branca.
Mas a imagem dos EUA entre os
latino-americanos se deteriorou desde a volta de Donald Trump
ao poder. Ademais, a agressividade do republicano pode ter beneficiado seu
principal rival econômico e estratégico, a China.
Segundo pesquisa recente do Latinobarómetro, a parcela da população
local que tem uma opinião favorável aos EUA caiu de 73%
em 2024 para 63% em 2026.
O país ainda é mais apreciado do que a China,
que alcançou 58% em 2026, ante 54% em 2024. Porém, pela primeira vez desde que
essa questão foi incluída na pesquisa, em 2020, os latino-americanos acham que
a influência chinesa é melhor do que a americana: 65%, ante 57% pró-EUA.
No Brasil, 59% consideram boas as relações
com os americanos, enquanto a taxa da América Latina é bem maior (71%). Com a
China, a avaliação positiva brasileira supera a dos EUA e alcança 65%, próxima
à média da América Latina (67%, a maior desde 2015).
É possível que os resultados sinalizem uma
repercussão negativa da política externa de Trump para a região, que trata
proverbialmente como seu quintal. É notório seu empenho em extrair benefícios
econômicos e comerciais sem atenção a contrapartidas, como no caso das tarifas
abusivas, e em priorizar os investimentos produtivos domésticos.
A truculência geopolítica do americano também
ficou explícita com a invasão da Venezuela
e o controle do seu governo de transição; o cerco a Cuba,
já degradada por um modelo
econômico arcaico e estatizante; e a deportação generalizada de imigrantes
nos Estados
Unidos, muitos deles latino-americanos.
A atual gestão internacional de Washington é
desaprovada na região por 59%, e seu impacto é tido como negativo por 55%. A
guerra dos EUA contra o Irã é
considerada danosa para 77%.
De zero a 10, a nota da América Latina a
Trump não passou de 4,7, sendo 4 no Brasil. No Chile
e na Argentina,
países que abraçaram a sua doutrina de segurança hemisférica, o Escudo das
Américas, as notas do republicano foram 3,3 e 4,0, respectivamente.
A pesquisa revela que a crescente preferência eleitoral por candidatos de direita na região não se traduz diretamente em apreço pelos EUA. Questões domésticas, principalmente em relação à segurança pública, um problema local crônico, podem se sobrepor aos temas mais distantes da geopolítica e do comércio global.
Falta prudência à Justiça Eleitoral
Por O Estado de S. Paulo
O poder excepcional de que dispõe o TSE
durante a campanha exige moderação. Não se trata de licença para controlar o
discurso político nem para punir o que se imagina que possa ser dito
A Justiça Eleitoral dispõe de um poder
excepcional para assegurar a paridade de armas entre os candidatos e o direito
do eleitor de votar com tranquilidade. Mas, justamente por ser excepcional,
esse poder precisa ser exercido com parcimônia e prudência. Afinal, nem o
Supremo Tribunal Federal (STF) nem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são
guardiões da moralidade do discurso político, tampouco árbitros do que vem a
ser a “verdade”. Quando se arvora em sê-lo, o Judiciário trata o eleitor como
um incapaz que precisa de tutela judicial para distinguir a propaganda
eleitoral da realidade que o cerca.
Ademais, nos estranhos tempos que correm,
todas as decisões de ministros que dizem respeito às eleições são desde logo
atribuídas a motivações políticas. Se a ideia é preservar a legitimidade dos
tribunais encarregados de garantir a lisura das eleições, cabe aos ministros
colaborarem para afastar essa impressão de parcialidade. Infelizmente, não é o
que tem ocorrido.
Nos últimos dias, os ministros Kassio Nunes
Marques e André Mendonça, ambos indicados ao STF pelo ex-presidente Jair
Bolsonaro, acolheram uma série de pedidos da campanha de Flávio Bolsonaro (PL)
contra seu adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que
resultaram em censura – o que é inconstitucional. Não se pode condenar quem
veja na decisão extrema dos ministros um favorecimento ao candidato vinculado a
quem os nomeou. É o mesmo comportamento condenável que vem sendo apresentado
por ministros claramente simpáticos a Lula.
Na raiz dos abusos da Justiça Eleitoral, de
parte a parte, está a ideia equivocada de que o Judiciário está autorizado a
controlar o discurso político. O caso recente do vaivém de decisões envolvendo
o grupo de WhatsApp “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado federal André
Janones (Rede-MG), exemplifica bem essa falta de moderação.
No domingo passado, Nunes Marques mandou
tirar o grupo do ar por presumir o risco de ali circularem conteúdos já
declarados “inverídicos” pelo TSE. O corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas
Bôas Cueva, reverteu essa decisão no mesmo dia e submeteu o caso ao crivo do
plenário da corte. Ontem, porém, Nunes Marques derrubou a decisão do colega,
reafirmou sua competência para decidir sobre o caso e manteve o “Exército do
Lula” suspenso até que a campanha do incumbente o registrasse na Justiça
Eleitoral – o que foi feito horas depois. Nunes Marques ainda proibiu Janones
de veicular determinados conteúdos e encarregou a Meta, empresa responsável
pelo WhatsApp, de vigiar “proativamente” o que circula por meio da ferramenta.
Exigir o registro de um canal de propaganda
eleitoral é correto. Já silenciá-lo pelo mero vislumbre do que lá possa ser
publicado é censura prévia, prática expressamente vedada pela Constituição.
Provocada por Nunes Marques, a própria assessoria técnica do TSE afirmou em
relatório não ter encontrado informação falsa no tal grupo de Janones, ainda
que tenha apontado riscos. Ou seja, puniu-se uma candidatura não pelo que foi
feito, mas pelo que se imagina que possa ser feito. Isso é inaceitável no
regime democrático.
O mesmo pendor censório está expresso nas
liminares de Nunes Marques e Mendonça que mandaram Lula, a primeira-dama
Rosângela da Silva e deputados governistas apagarem postagens segundo as quais,
se eleito, Flávio cortaria programas sociais ou imporia jornada de trabalho de
sete dias por semana. Ora, eleições convivem com esses exageros. Prognósticos
sombrios sobre o que um adversário político pode vir a fazer caso seja eleito
são a matéria-prima de qualquer campanha eleitoral desde sempre.
O TSE levou mais de 90 anos para construir
uma reputação de eficiência e neutralidade que serve de exemplo para o mundo
democrático. Porém, o que se vê desde 2022, quando o ministro Alexandre de
Moraes estava à frente da corte, é a desmoralização desse patrimônio simbólico
pela atuação excessiva, quando não interessada, de ministros que deveriam
pairar acima das disputas políticas. Lamentavelmente, 2026 será lembrado como o
ano em que o Judiciário foi o fator de instabilidade, e não de segurança
jurídica, das eleições gerais.
Um agro cada vez mais forte
Por O Estado de S. Paulo
Para ampliar suas conquistas, o agronegócio brasileiro precisa de pesquisa, infraestrutura, linhas de crédito acessíveis aos produtores e compromisso ambiental
O agronegócio brasileiro é uma história de
sucesso. Em 2025, respondeu por quase metade das exportações nacionais, com
vendas de US$ 169,2 bilhões ao exterior. Ano após ano, o setor dá uma
contribuição decisiva à economia, alcança novos recordes de produção e faz do
Brasil uma potência mundial no setor. Mas é possível ir além.
O Brasil produz com eficiência dentro da
maioria de suas fazendas, mas perde parte dessa vantagem quando precisa levar a
safra aos mercados externos e internos. A precariedade das estradas e portos
encarece o transporte, enquanto a falta de armazéns obriga muitos produtores a
escoar a safra em condições desfavoráveis. É um velho problema que atravessa
governos sem solução à altura. Um exemplo é a Ferrogrão, projetada há mais de
uma década para ligar a produção agrícola do Centro-Oeste aos portos do Norte,
que ainda não saiu do papel. A ferrovia poderia reduzir os custos de
transporte, hoje muito dependente das rodovias, e diminuir as emissões de
poluentes.
O Estado tem responsabilidade nisso. Um setor
exposto às intempéries, às oscilações das safras e a uma concorrência
internacional acirrada precisa de condições adequadas de financiamento e de
instrumentos para administrar seus riscos. Boas linhas de crédito e seguro
rural são necessárias. E convém lembrar que o Brasil está entre os países que
menos subsidiam seus produtores, segundo a Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE). Não seria razoável exigir que o agricultor
brasileiro competisse em condições desiguais com produtores de países que
recebem apoio público muito mais generoso.
Aliás, o sucesso do campo brasileiro é uma
demonstração do que o poder público pode fazer quando acerta a mão. A Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é talvez o melhor exemplo. Em
grande medida, foi graças à ciência desenvolvida pela Embrapa que o Cerrado se
transformou numa das principais regiões produtoras do planeta. Hoje, no
entanto, a empresa enfrenta restrições de recursos. Para este ano, dispõe de R$
371,5 milhões para pesquisa e manutenção, ante os R$ 500 milhões considerados
necessários pelo próprio órgão. É um contrassenso que uma instituição tão
importante para a economia nacional tenha de lutar por verbas para manter suas
pesquisas.
O agro que queremos também precisa ser
reconhecido internacionalmente por suas boas práticas ambientais. Há quem ainda
insista em avançar sobre a vegetação nativa como se a devastação fosse
requisito para produzir. Infratores precisam ser punidos com rigor pelo poder
público. Além dos danos que causam ao meio ambiente, oferecem um pretexto
conveniente para que concorrentes estrangeiros reivindiquem barreiras contra os
produtos brasileiros. Não é admissível que a motosserra de alguns comprometa o
trabalho de tantos. O mesmo vale para os que ainda submetem trabalhadores a
condições análogas à escravidão.
Também não basta produzir mais do mesmo. O
Brasil precisa aproveitar melhor o que sai de suas fazendas, aproximando o
campo da indústria e agregando valor aos produtos que exporta. Há espaço para
avançar na produção de alimentos processados, bioinsumos e biocombustíveis,
área em que o País já tem posição importante.
O setor dispõe, aliás, de uma das bancadas
mais poderosas e atuantes do Congresso. Não lhe falta capacidade de articulação
para defender seus interesses e obter atenção do poder público. Seria bom que
parte dessa força fosse empregada na construção de políticas duradouras, no
fortalecimento da pesquisa e na solução dos problemas de infraestrutura que há
décadas prejudicam a produção. Flexibilizar regras ambientais pode até render
dividendos políticos imediatos, mas dificilmente ajudará o agro brasileiro a
conquistar novos mercados.
O agro que queremos é mais moderno, mais
atento ao meio ambiente e às exigências dos consumidores, sem perder a
capacidade de competir com os melhores do mundo.
Policiamento não é barbárie
Por O Estado de S. Paulo
Abordagem que termina em execução com dezenas
de tiros, como aconteceu em SP, não é civilizada
A Polícia Militar (PM) de São Paulo precisa
urgentemente verificar se todos os seus integrantes estão preparados para
cumprir os protocolos de abordagem policial. A julgar pelo caso da execução a
tiros de um jovem de 20 anos por PMs na madrugada de sábado em Moema, na zona
sul, o treinamento não é satisfatório.
Não queremos acreditar que a PM de São Paulo
esteja irremediavelmente contaminada pela cultura da violência. Preferimos crer
que esse e outros casos semelhantes recentes sejam apenas desvios de conduta
pontuais numa corporação de milhares de soldados que todos os dias expõem sua
vida para dar segurança aos paulistas.
Ainda assim, não é aceitável, nem sequer como
exceção, que um grupo de policiais tenha dado 45 tiros num rapaz desarmado. O
jovem morreu crivado de 27 balas, número que atesta, acima de qualquer dúvida
razoável, que se tratou de barbárie, e não de legítima ação policial.
Para piorar, não se trata de um caso isolado:
na madrugada do dia 3 passado, na Vila Dionísia, na zona norte, um homem de 40
anos foi morto com 24 tiros, também numa abordagem policial. Conforme imagens
gravadas por uma testemunha, a vítima, já caída no chão e totalmente indefesa,
foi alvo de dezenas de disparos. Não há nada nos protocolos da PM paulista nem
da polícia de qualquer outro lugar civilizado que autorize esse tipo de reação.
Ainda há muito a ser esclarecido sobre os
dois episódios, mas uma coisa é certa: uma ação policial que acabe com tantos
tiros e a morte de dois inocentes jamais pode ser considerada bem-sucedida.
E as estatísticas de letalidade policial indicam
motivo de preocupação. Segundo os dados da Secretaria de Segurança Pública, o
número de pessoas mortas pela polícia vem crescendo paulatinamente, passando de
256 em 2022, último ano da gestão do PSDB, para 700, no ano passado, na gestão
Tarcísio de Freitas. Os abusos se sucedem – das operações policiais na Baixada
Santista com alto número de mortos até o caso de um estudante de Medicina morto
quando já estava rendido por policiais militares, passando pelo episódio da
morte de uma mulher que bateu boca com uma PM e pelos dois casos mais recentes
de execução.
É preciso que a PM retome o padrão civilizado do uso progressivo da força que outrora vigorou no Estado. Protocolos são elaborados, testados e atualizados para proteger todos os cidadãos, mesmo os bandidos, e para salvaguardar os policiais, valorizando os bons, que respeitam a hierarquia e trabalham dentro da lei. Aos maus policiais, aplique-se a mesma lei que ignoram: investigação rigorosa e célere, com a imediata análise das câmeras corporais dos PMs envolvidos, respeitando-se o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório. Somente a transparência e a responsabilização podem ajudar a resgatar a PM republicana que os paulistas querem e precisam.
Votar PEC da Escala 6x1 é oportunismo
Por O
Globo
Se aprovada, mudança levada ao Senado a 11
dias do 2º turno terá efeitos perniciosos para economia
É evidente o oportunismo do governo ao levar
hoje, a menos de duas semanas do segundo turno, para votação no Senado a
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de seis dias de
trabalho por um de descanso (6x1), reduzindo a jornada de 44 para 40 horas
semanais. A contaminação do tema por interesses eleitorais tem impedido um
debate equilibrado sobre o impacto nefasto da proposta na economia.
Na propaganda idílica do governo, os
benefícios têm sido superestimados. Não passa de fantasia imaginar que, com a
mudança, o brasileiro terá mais tempo para descanso e lazer e que, num passe de
mágica, a produtividade aumentará. Numa economia saudável, o normal é primeiro
aumentar a produtividade por meio de inovações tecnológicas ou avanços
regulatórios, para depois distribuir tal ganho com a redução de jornada. No
Brasil, refém de atraso atávico e de um ambiente hostil aos negócios, o
crescimento da produtividade tem sido pífio há décadas — e nenhuma PEC terá o
condão de resolver questão tão complexa apenas na base de slogans demagógicos e
boas intenções.
A aprovação da PEC inexoravelmente elevaria o
custo das empresas, que teriam de pagar o mesmo salário por menos horas
trabalhadas. Ora, não é difícil perceber que a conta não fecha. O cenário mais
provável seriam o aumento da informalidade e ondas de demissões para adequar a
mão de obra às novas escalas. É pura fantasia a ideia de que a mudança na
legislação geraria mais contratações.
A economia sofreria efeitos dramáticos. Estudo
dos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína
Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), aponta como prováveis
consequências queda do PIB, redução de renda per capita, fechamento de empresas
e cortes de empregos formais. Segundo eles, a aprovação da PEC reduziria a
produção de riquezas em 2,9%, com efeito idêntico na produtividade do trabalho.
Não bastassem os argumentos equivocados, a
propaganda da PEC tem disseminado um preconceito injustificável contra os empresários.
Ao longo da tramitação da proposta, a jornada 6x1 chegou a ser comparada à
escravidão, enquanto empreendedores foram chamados de exploradores insensíveis.
É uma injustiça, para dizer o mínimo, com quem gera emprego e faz a economia
girar.
Em vez de votar a PEC de forma açodada, os
senadores deveriam analisar a proposta alternativa do senador Rogério Marinho
(PL-RN) sobre trabalho flexível. Ela permite ao empregado ajustar sua jornada
de acordo com a necessidade, optando entre a CLT ou um regime baseado em horas
trabalhadas que garanta direitos como férias e décimo terceiro. O texto prevê
compensação de horários e redução da jornada mediante acordo. O combinado em
contrato individual prevaleceria sobre a negociação coletiva.
Não se deve discutir uma proposta como a PEC
às vésperas de um pleito em que os candidatos expressam divergências sobre o
tema. Há alternativa sensata que deveria ser analisada com mais calma. E o
debate está fora da realidade, escondendo os efeitos perniciosos da mudança. O
Brasil precisa crescer, se desenvolver e gerar riquezas. O caminho para isso é
aumentar a produtividade, e não diminuí-la.
Incêndios na Amazônia expõem falta de
integração entre esferas do governo
Por O Globo
Fumaça cobre Manaus há mais de um mês, mas só
nesta semana aviões de combate ao fogo chegaram à região
Os incêndios que se alastram na Amazônia têm
demonstrado o desencontro entre o governo federal e os estaduais. Enquanto as
autoridades perdem tempo discutindo de quem é a responsabilidade pelo atraso no
enfrentamento ao desastre ambiental, a floresta está em combustão, e pelo menos
36 municípios estão em situação de emergência.
O alerta para o desastre foi dado pela fumaça
que passou a encobrir Manaus há pelo menos um mês. Os primeiros registros de
fuligem no ar da capital do Amazonas são de 8 de
setembro, mas só na última segunda-feira dois jatos cargueiros KC-390 da FAB,
adaptados para combater incêndios, entraram em operação na região. Há um
improdutivo choque de versões entre o governo do Amazonas e as autoridades
federais, com atribuição mútua de responsabilidade pela omissão, como revelou
reportagem do GLOBO.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros
Militar do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, afirma que o governo federal não
atendeu a tempo ao pedido de aeronaves para combater o fogo, transportar
brigadistas e equipamentos. O Centro Integrado Multiagência de Coordenação
Operacional Federal, ligado ao Ibama, confirma ter recebido a solicitação em 23
de setembro e diz que começou a mobilizar equipes do Projeto Resposta em Ações
Integradas para Atuação em Situações de Desastres, subordinado ao Ministério da
Justiça e Segurança Pública. Mas alega que, em 30 de setembro, o governo do
Amazonas, devido às chuvas, comunicou que não precisava mais de apoio federal.
Ora, mesmo levando em conta que as
burocracias, em qualquer nível da administração, costumam ser lentas e demoram
a reagir, não dá para ignorar que, desde o primeiro semestre, se prevê um
período de seca severa, agravado pela previsão de Super El Niño no Pacífico.
Quando Manaus voltou atrás no pedido de apoio, e Brasília aceitou sem
contestações, as águas superficiais do Pacífico, sob constante monitoramento,
já haviam ultrapassado os 2°C de aquecimento, conforme monitoramento da
Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Será que faltavam
informações em Manaus ou em Brasília para saber que aquelas chuvas seriam
passageiras?
A demora na reação aos incêndios na Amazônia e o descaso com a situação propícia ao alastramento das queimadas são preocupantes. É evidente a falta de integração entre organismos ambientais estaduais e federais para o combate a uma temporada de incêndios que se anuncia devastadora. A seca amazônica estava na tela dos computadores de diversas repartições. Sem planejamento, recursos adequados e integração, será impossível enfrentar com alguma chance de êxito as consequências dela ou de outros eventos climáticos como o El Niño previsto para os próximos meses.

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