O Globo
O presidente do TSE foi com muita sede ao
pote
O Judiciário brasileiro nunca esteve com a má
fama de hoje. Não precisa piorar. Depois do vexame da censura contra o
“Exército de Lula”,
o ministro Kassio Nunes Marques terá aprendido que sua caneta não tem tanta
tinta quanto gostariam os bolsonaristas.
Nunes Marques, presidente do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE),
mandou calar o canal de propaganda “Exército de Lula” (4 milhões de
seguidores). Atendeu a um pedido da campanha de Flávio
Bolsonaro, que acusava o canal de divulgar notícias falsas.
O ministro viu-se contrariado pelo corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, um magistrado que atravessa incólume o annus horribilis do Judiciário brasileiro. Derrubada a censura, Nunes Marques pediu à área técnica do TSE que examinasse as postagens da plataforma.
Ontem, ele dobrou a aposta: voltou a censurar
o canal e, horas depois, liberou o funcionamento num prazo de 48 horas. O
presidente do TSE dispõe de canais e de normas capazes de evitar semelhantes
fuzuês.
A escalada do ministro ocorreu quando ele era
acusado de fraquezas mais graves, mais vulgares e muito mais impróprias. A
serem notícias falsas, seriam muito mais tóxicas que as do canal censurado.
Corre a lenda de que ele entrou no Palácio da
Alvorada pedindo para ser indicado ao Superior Tribunal de Justiça e saiu
escolhido para o Supremo Tribunal Federal (STF). Usufrui a amizade e as doçuras
de milionários. É uma espécie de Zagallo (“Vocês vão ter que me engolir”).
O contravapor tomado pelo presidente do TSE
mostra que esse tribunal tem a musculatura que escasseia no STF. Faltam menos
de duas semanas para o fim da temporada eleitoral. Deixado para trás o primeiro
turno, vê-se que a censura ao “Exército de Lula” foi a primeira grande
escorregada do ministro.
Na segunda-feira, Flávio Bolsonaro fez um
apelo aos seus seguidores:
— Ninguém está tomando mais risco do que eu
nessas eleições. Então, você toma um pouquinho de risco também. Estou te
pedindo. Eu sei que você fica preocupado às vezes de postar sua opinião aqui
nas redes sociais, de ser bloqueado, de ser banido, mas a gente tem que correr
esse risco. Vamos defender aquilo em que a gente acredita — disse.
Nunes Marques não tomou risco, comprou uma
parada perdida. Censurou notícias falsas, mas não sabia quais eram. Para ser
justo, pediu o apoio da área técnica do tribunal; ela veio e contrariou-o.
Alguém vendeu gato por lebre ao presidente do TSE, e ele correu para atender a
um dos lados da contenda eleitoral.
A campanha de Flávio mostrou as notícias
falsas. Por enquanto, o TSE já calou uma patranha, da campanha de Flávio, em
que se acusava uma mulher de consumir cocaína durante a manifestação lulista de
domingo na Avenida
Paulista.
A campanha de 2018, que levou Jair
Bolsonaro ao Planalto, nadou de braçadas nas notícias falsas. Quem não se
lembra do “kit gay”, que seria distribuído nas escolas?
O tempo passou, e todo mundo ficou mais
esperto.

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