Correio Braziliense
Enquanto aguarda explicações da Meta, o
Tribunal Superior Eleitoral admite restringir canais políticos de WhatsApp com
mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação
Na reta de chegada da campanha presidencial, aumentaram o contingente e a volatilidade dos indecisos, talvez porque a dureza dos ataques entre os candidatos tenha também provocado mais rejeição. Flávio Bolsonaro mantém o favoritismo numérico nas cinco pesquisas divulgadas ontem, mas sua vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva é estreita. O aumento dos indecisos gera instabilidade nas campanhas e mostra que, agora, sim, a maioria dos eleitores entrou no debate eleitoral. Lula e Flávio também intensificam a presença nas redes e a mobilização dos apoiadores. Nesse ambiente, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o funcionamento das plataformas podem interferir na capacidade de cada candidatura alcançar justamente quem ainda hesita.
A Quaest registra de forma clara a mudança.
Na pergunta espontânea, sem apresentação dos nomes dos candidatos, os indecisos
passaram de 7% para 14% em uma semana. Flávio recuou de 43% para 40%, enquanto
Lula passou de 42% para 40%. Na pesquisa estimulada, porém, quando os nomes são
apresentados, a indefinição fica em 2%, ante 1% anteriormente. Ou seja, a
hesitação é maior do que aquela captada pela escolha direta entre os dois
concorrentes.
A alteração é especialmente significativa
entre mulheres e independentes. No eleitorado feminino, as indecisas passaram
de 8% para 17% — Lula perdeu quatro pontos e Flávio, cinco. Entre os homens, a
indefinição cresceu três pontos. Entre os independentes, o salto foi ainda
maior: de 13% para 31%, acompanhado de recuos de 10 pontos para Lula e
cinco para Flávio. Na direita não bolsonarista, o candidato do PL caiu de 89%
para 82%, enquanto os indecisos chegaram a 9%. São segmentos nos quais as
fidelidades políticas oferecem menor proteção contra o desgaste da campanha.
O debate de domingo passado, marcado por
acusações recíprocas, ajuda a analisar esse desconforto, embora a pesquisa não
permita atribuir toda a mudança ao confronto: as entrevistas ocorreram entre os
dias 17 e 20, abrangendo momentos anteriores e posteriores ao encontro. Na
prática, com o confronto direto, os candidatos mobilizaram suas campanhas, mas
deixaram parte do público sem resposta para preocupações concretas. A
circulação incessante de cortes nas imagens do debate, para atacar os
adversários, prolongou as polêmicas nos celulares e pode ampliar tanto a
rejeição quanto a disposição de reconsiderar o voto.
Nos votos válidos, Flávio aparece com 50,7%
na Veritá, cerca de 50,6% na Quaest, 51,1% na Futura, aproximadamente 51% na
Palver e 51,1% na Ideia. Todas lhe dão vantagem numérica, dentro das
respectivas margens de erro. A distância para Lula diminuiu nas séries Veritá e
Quaest, mas aumentou na Futura e na Palver. O favoritismo permanece sendo de
Flávio, mas a disputa continua aberta e não se pode descartar uma virada de
Lula.
Mordaça
É nesse cenário que a atuação do TSE
preocupa. O Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente, reconheceu
falhas na aplicação das políticas antifraude às contas de anúncios de Lula e
cobrou revisão especializada. A manifestação dá substância às reclamações de
tratamento desigual. A empresa, por sua vez, nega interferência política e
atribui os episódios a problemas técnicos. O reconhecimento das falhas exige
apuração de seus efeitos e se houve favorecimento deliberado.
Os episódios apontados como interferência ao
impulsionamento de publicações de Lula e diferenças na geração de imagens pela
inteligência artificial. A Meta admitiu que seus filtros nem sempre reconheciam
candidatos identificados pela combinação de prenome e número eleitoral. O TSE
determinou correções e comprovação de tratamento igualitário e, ontem, deu
prazo de 24 horas ao Ministério Público Eleitoral para avaliar as medidas.
Houve providências, mas a demora é injustificável. Numa campanha tão curta, uma
oportunidade de comunicação perdida dificilmente pode ser restituída depois.
Enquanto aguarda explicações da plataforma, a
cúpula do tribunal discute restringir canais políticos de WhatsApp com mais de
200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação. O alcance formal seria
geral, mas o impacto político da mordaça seria desigual: o Exército do Lula,
com mais de 7 milhões de inscritos, tornou-se instrumento central da reação
petista nas redes e nas ruas, enquanto o canal Tropa do Flávio tem 2,5 milhões.
Após a repercussão negativa da iniciativa, Nunes Marques afirmou rejeitar
mudanças de última hora; Mendonça sustentou que a minuta resultou de discussão
coletiva. A Corte deverá tomar uma decisão ainda hoje.
Os precedentes são preocupantes. Nunes
Marques suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio. O relator Ricardo
Villas Bôas Cueva restabeleceu seu funcionamento diante da insuficiência de
provas. A análise técnica não localizou os conteúdos apontados, embora
registrasse lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Depois de
novo bloqueio, o registro formal pela campanha permitiu sua liberação.
Combater ilícitos exige provas, rapidez e proporcionalidade. Discutir uma restrição geral às vésperas da votação, depois desse vaivém, abala a previsibilidade que a Corte deve assegurar. Com indecisos em alta e diferenças mínimas nas pesquisas, a paridade de armas precisa ser demonstrada em decisões coerentes. A confiança no resultado também depende da confiança nas condições da disputa.

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