O Globo
A derrota de Trump e a vitória de Lula
significam a mesma coisa
A derrota de Donald Trump, demolidora,
instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política
interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do
continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os
arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado
“quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a
fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.
Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.
Do nosso ponto de vista interno, ao grupo
bolsonarista que se refugia nos Estados Unidos, capitaneado agora pelo derrotado
Flávio Bolsonaro, caberá conviver com um governo que terá problemas maiores a
resolver do que cair na rede de intrigas e fofocas que eles montam. A
fragilização de Marco Rubio, secretário de Defesa dos Estados Unidos, fará com
que os canais que o ligam à Casa Branca estejam fortemente obstruídos. A
derrota nas eleições faz Trump perder força na liderança mundial, mas temo que
ele perca também a cabeça e acelere algumas medidas.
É preciso ver o que acontecerá com o Brasil,
porque acredito que todas as taxações serão derrubadas pelo novo Congresso
americano, e Trump procurará algum meio de retaliar. Talvez, tendo crises mais
sérias para tratar agora que o Congresso está dominado pelos democratas, se
esqueça de perseguir todo mundo e pense mais em salvar-se da crise que criou
para si próprio.
Será um período difícil para o mundo, porque
não se sabe qual será o comportamento de Trump sem a perspectiva de poder.
Tratá-lo como “pato manco”, gíria americana para definir um político que não
tem mais cargo a aspirar, nem expectativa de poder, será mexer com seu ego
gigantesco. Sua primeira reação foi surpreendentemente civilizada, talvez
tentando se convencer de que a derrota não foi dele, que seu nome não estava na
cédula, como salientou. Mas o próprio Trump pediu que os eleitores votassem
como se estivesse, e a resposta não foi boa para ele.
Com seu enfraquecimento, a direita mundial,
amplamente baseada em sua liderança, ficará atordoada num primeiro momento. Mas
é muito claro que a tendência do pêndulo político favorece a centro-esquerda no
mundo. A movimentação popular e arregimentação de apoios por meio dos novos
meios de comunicação que aconteceu na eleição brasileira, dando a vitória a
Lula, é um fato relevante, e os americanos que não são de extrema direita têm
razão de comemorar a vitória do brasileiro como da democracia sobre os
extremistas.
A derrota de Trump é a vitória do
multilateralismo e da democracia. Mostra que não foi por acaso que o Brasil
viveu essa onda e que o país está conectado com a necessidade de equilíbrio
democrático e de tomar decisões com a maior amplitude possível. O Congresso,
agora dominado pelos democratas, provavelmente mudará a direção do apoio no
âmbito da Otan, e não apenas na guerra da Ucrânia. A guerra do Irã, considerada
por todos como um dos principais motivos da derrota, terá outra configuração,
em busca de acordo que permita a normalização do comércio internacional e a
queda do preço do petróleo, refletido duramente sobre a inflação americana.
Interessante constatar que a derrota de Trump e a vitória de Lula significam a
mesma coisa, mesmo guardadas as devidas proporções de cada uma.

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