sábado, 11 de abril de 2009

PENSAMENTO DO DIA

“Portanto, existe antes de mais nada um problema de cultura política diante de nós: a tarefa de restituir aos partidos reformistas a consciência de que, na elaboração dos programas, é decisivo o nexo nacional-internacional; a exigência de reafirmar que tal nexo é imprescindível para determinar quer os recursos, quer os vínculos da ação política; a necessidade de tornar claro que, da capacidade de combinar o elemento nacional e o elemento internacional do desenvolvimento, depende a passagem dos partidos da representação corporativa para a função dirigente política; e a necessidade de reiterar que o entrelaçamento do nacional com o internacional distingue os sujeitos políticos dos outros atores sociais. Trata-se, em resumo, de reestabelecer o princípio de que é a hegemonia a noção que os partidos devem recuperar, e só dela pode surgir uma regeneração da sua função e dos seus programas.”

(Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci, Roma, no livro “Por um novo reformismo”, - pág.96 – Fundação Astrojildo Pereira/ Contraponto, 2009)

O ponto crítico

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

Janeiro, pelo menos no que se refere ao bolso do brasileiro, foi o mês que marcou o ponto crítico dos efeitos da crise econômica internacional. A classe C, que vinha crescendo nos últimos cinco anos, chegando a 53,8% da população em dezembro de 2008, caiu para 52% em janeiro, perdendo 2,2% em apenas um mês, no primeiro e único sinal até agora de que a crise chegou ao bolso do cidadão médio. O economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, ressalta que em fevereiro a crise não se aprofundou, o que é uma boa notícia, mas também não vieram sinais de que será revertida tão cedo. A classe AB, que vinha crescendo num ritmo até maior — 35% nos últimos cinco anos —, vem caindo desde setembro.

Na última semana de fevereiro, passou a ser 13,2% da população, quando já fora mais de 14%.

A redução da desigualdade na distribuição de renda, e o crescimento da classe média, registrados por pesquisas da Fundação Getulio Vargas do Rio e do Ipea no ano passado, eram fenômenos em escala global antes que a crise financeira eclodisse, em setembro.

Segundo estudo da Goldman Sachs dos Estados Unidos, esse fenômeno teria uma longa duração, durante a qual haveria a mudança do poder de compra em direção às economias médias, a tal ponto que elas poderiam vir a dominar o gasto global pela primeira vez em décadas, à medida que os países de maiores populações, como os incluídos nos Bric, fortalecessem suas economias.

Nesse contexto, a classe média, grupo que vinha crescendo em escala mundial nos últimos dez anos, aumentaria sua participação na renda, fazendo com que a distribuição da renda mundial ficasse menos desigual.

Trabalho de Nora Lustig, professora da Universidade George Washington, publicado nos Cadernos do Conselho Mexicano de Assuntos Internacionais sobre “A pobreza e a desigualdade na América Latina e os governos de esquerda”, mostra que, entre 1990 e 2005, a incidência da pobreza extrema em nível mundial, medida com a linha internacional de pobreza de US$ 1,25 por dia, caiu de 42% para 25%.

Com relação à América Latina, entre 2002 e 2006 a pobreza extrema se reduziu em 14 países, entre eles o Brasil, enquanto em outros três países — Nicarágua, República Dominicana e Uruguai — a pobreza moderada subiu no mesmo período.

O índice de Gini, indicador usado pela ONU para medir a desigualdade de renda nos países, foi reduzido no Brasil e em mais dez dos 14 países pesquisados, e aumentou em quatro outros, além dos mesmos Nicarágua, República Dominicana e Uruguai, mais Honduras.

Portanto, a redução da desigualdade foi um fenômeno bastante generalizado na região na última década.

Segundo o estudo de Nora Lustig, em geral os países da América Latina governados pela esquerda experimentaram uma redução da desigualdade e da pobreza maior que nos governos anteriores, com exceção da Venezuela, que tem uma trajetória incerta nas políticas sociais, com a pobreza aumentando e sendo reduzida no mesmo governo Chávez, ao sabor do preço do petróleo.

No caso da Argentina, houve uma clara reversão, com a redução da pobreza e da desigualdade no governo justicialista de esquerda, enquanto aumentou nos períodos anteriores. No caso do Brasil, o estudo destaca que no governo Lula se detecta uma aceleração da pobreza e da desigualdade, que nos anos anteriores se mantiveram estáveis ou haviam sido reduzidos ligeiramente.

No Chile, a pobreza extrema foi reduzida durante todo o período do governo da Concertação, inclusive retomando essa tendência em 2001, com a chegada ao governo do Partido Socialista.

A partir de 2002, a pobreza extrema foi reduzida na região em uma velocidade maior do que em períodos anteriores, especialmente pelo benefício que a alta das matérias primas no mercado internacional trouxe às economias da região.

A professora Nora Lustig diz que, embora os números indiquem que os governos de esquerda da América Latina têm maior êxito em reduzir a pobreza e a desigualdade do que governos de outras tendências políticas, e que entre os governos de esquerda, os populistas têm mais êxito do que os social-democratas, é possível que esse melhor desempenho se deva mais à macroeconomia do que às políticas sociais assistencialistas.

Diz a professora que outra questão é se as políticas de redistribuição de renda são sustentáveis. Ela cita os casos de Argentina e Venezuela, que, enquanto os preços das matérias-primas estavam altos e crescentes, puderam disfarçar seus problemas fiscais, e agora, com a crise internacional, ficará mais difícil manter as políticas distributivistas.

Embora o estudo de Nora Lustig não se refira ao Brasil como país em dificuldade para manter suas políticas sociais, é sintomático que o índice de Gini, que vinha sendo reduzido na última década, tenha voltado a crescer.

O aumento médio da desigualdade na década de 60 do século passado foi de 2,28%, enquanto na década atual houve uma queda média de 2,6% ao ano.

A crise econômica internacional afetou em janeiro a desigualdade do trabalho de maneira contundente, de acordo com o estudo da Fundação Getulio Vargas. Em um mês, a taxa acumulada desde maio de 2002 passou de 3,32% para 2,09%.

O índice de Gini apresenta em fevereiro deste ano um número superior ao do mesmo mês do ano passado, a primeira alta da década.

Será o fim do longo período de redução da desigualdade iniciado em 2001? — pergunta o estudo da FGV.

(Continua amanhã)

Costas quentes

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Se estiverem corretas as conclusões do delegado Amaro Vieira, no relatório final das investigações sobre a atuação do delegado Protógenes Queiroz no comando da Operação Satiagraha, não há como escapar da evidência: Protógenes tinha as costas quentes. No mínimo, dentro da Polícia Federal, para não dizer no Ministério da Justiça ou até em instâncias superiores.

Não se trata de uma ilação leviana, mas de uma suspeita óbvia, pois um delegado não poderia cometer tantos e tão graves desvios de conduta funcional sem algum tipo de proteção que lhe permitisse agir com desenvoltura e autonomia.

Segundo Amaro Vieira, Protógenes subverteu a hierarquia interna, não prestava contas à diretoria de Inteligência Policial, reportando-se diretamente ao então diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, usou indevidamente servidores da Agência Brasileira de Inteligência, levou para a estrutura da PF agentes do antigo SNI, hoje dedicados a serviços de investigação particular, e lançou mão de parcerias heterodoxas com o Judiciário, Ministério Público e veículos de comunicação.

Um prontuário robusto, para ser analisado à parte do objeto da operação chefiada pelo delegado agora acusado, contra o banqueiro Daniel Dantas. Uma coisa são os crimes dos quais é acusado Daniel Dantas, outra são as suspeitas que pesam sobre o delegado Protógenes.

Misturar as duas não leva a nada senão ao equívoco de transformar em aceitáveis ações inaceitáveis do investigador para não dar a impressão de que, com isso, defende-se o alvo da investigação original. Os crimes de um não justificam os ilícitos do outro.

Da mesma forma, a eventual condenação funcional do delegado Protógenes não pode encerrar as investigações sobre o episódio.

Um homem só não mobiliza os recursos humanos e financeiros necessários para fazer funcionar a rede de ilegalidades que o delegado Amaro Vieira denuncia. Tampouco faz isso sem que encontre obstáculos.

Em seu primeiro depoimento ao Ministério Público, Protógenes Queiroz informou que atuava sob as ordens diretas do presidente da República, sob a coordenação do delegado Paulo Lacerda, com a colaboração de área de inteligência militar, com o conhecimento do procurador Rodrigo de Grandis e do juiz Fausto De Sanctis.

Depois disso, retificou várias vezes suas palavras, desmentiu a participação de todos os outros, admitiu apenas a participação informal e pontual de um ou outro agente da Abin, até que na última quarta-feira se apresentou à CPI dos Grampos em silêncio quase absoluto garantido por habeas corpus do Supremo Tribunal Federal.

Foi loquaz apenas ao acusar. Seja Daniel Dantas ou aqueles tidos por ele seus perseguidores dentro da PF, entre os quais, claro, o delegado Amaro Vieira.

Convidado a explicar, calou-se. Supostamente, portanto, porque não poderia fazê-lo sem se incriminar ou sem aprofundar ainda mais as contradições em relação a declarações anteriores.

Invocou o HC até mesmo para se recusar a responder a quem se reportava na PF durante a Operação Satiagraha.

De acordo com a investigação agora concluída, prestava contas diretamente ao diretor-geral Paulo Lacerda, a quem continuou a se dirigir mesmo depois da transferência de Lacerda para o comando da Abin.

Na primeira vez em que estiveram na CPI, sem habeas corpus, ambos negaram essa relação, tal como rechaçaram o uso da agência na investigação dos crimes de Daniel Dantas. Quando muito, falaram em "meia dúzia" de agentes para serem desmentidos pela revelação, logo em seguida, de que haviam sido 85.

Depois disso, a polícia descobriu que Protógenes armazenava monumental arquivo de informações sobre autoridades, jornalistas, gente comum, políticos, cuja utilidade é ainda desconhecida, embora possa ser presumida.

Por causa dessa descoberta, a CPI, que já se preparava para fechar as portas sem concluir coisa alguma, resolveu reabrir os trabalhos. Chamou Protógenes, chamará Daniel Dantas, prepara-se para obrigar Lacerda a comparecer.

E por que obrigar se o próprio Lacerda há 15 dias disse à CPI que voltaria quando fosse necessário e estaria sempre à disposição?

Porque o ex-diretor da PF, ex-chefe da Abin e atual adido policial na Embaixada do Brasil em Portugal mudou de ideia.

Na terça-feira passada mandou uma carta para a CPI dizendo que na condição de "agente diplomático" estaria impedido de comparecer, na próxima quarta-feira, pela Convenção de Viena.

Baseada na Constituição brasileira, contudo, a CPI decidiu manter a convocação. Já esperando que Paulo Lacerda vá lançar mão de algum subterfúgio e, no limite, invocar primeira vez, como fez Protógenes, o direito ao silêncio.

Mas, como pedir o habeas corpus sem se pôr sob suspeita? Protógenes alegou receio de ser preso. Era um artifício para obter o habeas corpus com o intuito exclusivo de não falar.

Paulo Lacerda, se também precisar calar, pode recorrer ao estratagema do colega e alegar constrangimento por parte da CPI.

TÔ SEM "TROCADO"


Cabral eleva previsão de gastos com publicidade

Alexandre Rodrigues, Rio
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que se prepara para concorrer à reeleição em 2010, triplicou a previsão de gastos com publicidade para este ano. Dados da execução orçamentária obtidos pelo Estado mostram que o governador fluminense reservou quase R$ 67 milhões para comunicação e divulgação em 2009.

Em 2007 e 2008, Cabral previu gastos de pouco mais de R$ 20 milhões com publicidade e acabou ultrapassando os R$ 80 milhões com essas despesas no final dos exercícios. Neste ano, o governo já partiu de uma dotação inicial de R$ 66.985.337. Desse total, foram gastos R$ 10,41 milhões nos três primeiros meses do ano.

O resultado pôde ser visto em anúncios em jornais do Rio e em comercial de TV veiculado em horário nobre nas últimas semanas, listando projetos de seu governo. No rádio, um comercial elogia seu plano de unidades de saúde de emergência, que têm colecionado filas.

Anunciando uma "prestação de contas", as peças contrariam a promessa de Cabral que, ao tomar posse, afirmou que só gastaria com campanhas de utilidade pública. Era uma crítica indireta ao estilo do casal Garotinho, que no último ano da gestão de Rosinha (PMDB) gastou R$ 113 milhões com propaganda para exaltar suas obras.

O incremento na publicidade pode estar ligado à tentativa do governador de superar os índices modestos de popularidade com que larga para a reeleição. Pesquisas divulgadas nas últimas semanas mostraram que a aprovação ao seu governo está abaixo de 40%.

As sondagens de intenção de voto revelaram a força de potenciais adversários como Fernando Gabeira (PV) e Marcelo Crivella (PRB) e indicaram que os desafetos Cesar Maia (DEM), Anthony Garotinho (PMDB) e Lindberg Farias (PT) podem dificultar os seus planos.

Instabilidade na América do Sul

Cesar Maia
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A DEMOCRATIZAÇÃO da América do Sul não se completou. Nos últimos 20 anos, 13 presidentes não completaram o seu período presidencial. O Equador foi o recordista, com seis (Bucaram, Rosalía, Alarcón, Mahuad, Noboa, Gutiérrez). A Argentina teve dois (Alfonsín e de La Rúa). O Brasil, um (Collor). A Bolívia, dois (Lozada e Mesa). O Paraguai, um (Cubas). E o Peru, um (Fujimori).

Regras do jogo foram alteradas no meio dos mandatos para permitir a reeleição: Fujimori, Menem, Fernando Henrique Cardoso. A partir daí -legitimada pelos exemplos-, essa regra foi multiplicada e ampliada, incluindo a convocação de assembleias constituintes em inicio de mandato, alterando as regras do jogo: reeleição, poder absoluto ao presidente... Aí estão Chávez (Venezuela), Morales (Bolívia) e Correa (Equador).

O plebiscito nacional passou a ser regra nesses países -aliás, usual instrumento dos autocratas, como Napoleão, Napoleão 3º, Hitler, de Gaulle... Na Grã-Bretanha e nos EUA nunca ocorreram plebiscitos nacionais. O Brasil já fez alguns que não resultaram -presidencialismo em 63, regime de governo em 93, armas em 99- e, grave, abriram o uso de um perigoso instrumento contra as instituições democráticas.

O Brasil viveu um longo e exemplar período de estabilidade das instituições políticas no império de d. Pedro 2º. Brasil e Inglaterra foram -quase- os dois únicos países com estabilidade institucional nesse período. Lembre-se as guerras do México e de Secessão nos EUA, as revoluções de 1848 na Europa, a Comuna de Paris, as unificações italiana e alemã...

Recentemente introduziram-se na América do Sul novidades desestabilizadoras. É o hiperpresidencialismo. Na Venezuela, na Bolívia e no Equador, o Poder Legislativo é simplesmente desconsiderado pelo Executivo e tem funcionamento de fachada. A Argentina legalizou esse sistema por meio de uma super lei delegada, dando ao presidente quase todos os poderes e micromizando o ato de legislar.

O Brasil tem situação parecida, com o caso de aluguel de mandatos (mensalão), abuso de medidas provisórias e uma convergência implícita no desgaste do Legislativo. A América espanhola viveu, a partir do período das independências, instabilidade permanente. Havia consenso para a independência, mas não para institucionalizar um novo regime. Não era simples substituir a legitimidade "divina" da coroa por regras de ocasião.

O processo de democratização da América do Sul, nesse sentido, não se completou. A observância das formalidades tem servido para mudar as instituições, abrindo, onde ocorreu, espaço inevitável a seu questionamento futuro. Chile e Uruguai são exceções.

Planalto quer aproximar Dilma dos sem-terra

Eduardo Scolese
Da Sucursal de Brasília
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O governo tenta amenizar a resistência de movimentos sociais à ministra Dilma Rousseff, principal nome petista à sucessão de 2010. A estratégia inclui uma reunião entre a ministra e líderes dos sem-terra, que a vêem como alinhada ao agronegócio

Planalto tenta aproximar Dilma de movimento social

Ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) é escalado como interlocutor

Apontada como potencial candidata do PT à sucessão do presidente Lula, ministra seria vista por sem-terra como aliada do agronegócio

O Palácio do Planalto decidiu se mexer para tentar amenizar a resistência dos movimentos sociais com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), principal nome petista para a sucessão presidencial de 2010.

O ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) foi escalado para organizar uma reunião informal e secreta da ministra com líderes desses movimentos, em especial dos sem-terra. Os primeiros contatos já foram feitos, mas ainda não há data acertada.

Outra determinação palaciana partiu para Rolf Hackbart, presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). A estratégia é que ele monte uma agenda "com a cara da ministra" nos assentamentos de reforma agrária pelo país afora.

Um dos principais entraves à ministra está no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), por isso essa agenda nos assentamentos será planejada de forma que ela consiga fugir do discurso de metas, acampamentos, violência no campo e desapropriações e possa ficar mais à vontade para falar sobre projetos de irrigação e inaugurações do programa Luz para Todos.

Agronegócio

A resistência dos movimentos à ministra não é nova. Ela é vista por eles como defensora de um modelo de desenvolvimento próximo ao que pensa o agronegócio, supostamente sem preocupação ambiental e com simpatia à entrada de empresas estrangeiras no país.

Por conta das hidrelétricas do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Dilma é mal vista no MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens). Já no MST é rotulada como uma "desconhecida" que se apega em sua história pessoal, mas não busca o diálogo com os movimentos.

No recente artigo "Por que Dilma?", o assessor da CPT (Comissão Pastoral da Terra) Roberto Malvezzi afirma que o PAC tem aspectos positivos, como o saneamento ambiental, mas "daí para frente o PAC é a cara dos militares e de Delfim Netto, numa lógica irremediavelmente predadora". "A visão de mundo de Dilma pertence a esse perfil. Não é a pessoa com a visão de mundo adequada para os atuais desafios brasileiros e mundiais", completa o texto.

A resistência aumentou no final do ano passado, quando, em um evento com movimentos no Planalto, Dilma foi saudada como candidata por alguns dos convidados.

MST e outros movimentos enxergaram as saudações pró-Dilma como algo encomendado pelo governo federal, o que acabou esvaziando o objetivo do encontro: pedidos por mudanças na política econômica.

Base de apoio

Tudo isso, porém, não significa uma inclinação dos movimentos a uma outra candidatura. Indica apenas uma pressão para que a candidata de Lula assuma compromissos setoriais de campanha e que a sua eventual eleição não signifique um distanciamento do Planalto com os movimentos.

A preocupação do Planalto não visa apenas o período de campanha. O foco está numa base de apoio em um eventual governo Dilma. Esses movimentos sociais foram importantes para o presidente Lula no auge da crise do mensalão, em 2005, quando saíram às ruas para defendê-lo da tentativa de impeachment sugerida pela oposição.

De olho em 2010, além da montagem de uma agenda e da organização de um encontro, o Planalto fez chegar ao MST que foi apenas uma "bronca", e não uma sinal de "rompimento", uma recente declaração pública do presidente Lula na qual chamou de "inaceitável" o argumento do movimento para a morte de quatro seguranças de uma fazenda em Pernambuco.

O recado conta ainda com a promessa de manutenção, mesmo com restrições, dos repasses de recursos para novos convênios com sem-terra.

POEMA DA AGONIA

Graziela Melo

Entra noite
Sai dia

E a mesma
Agonia...

Não há pão
Nem poesia

Só fome,
Aflição,

João
E Maria!!!

Entra noite
Sai dia...

Quem vai liderar este novo mundo multipolar?

Fernando Abrucio
DEU EM ÉPOCA


O G20 é um marco histórico, mas é preciso definir quem vai segurar o leme nos momentos críticos

A reunião do G20 foi um marco histórico. Sepultou o antigo clubinho dos desenvolvidos e incluiu mais países no centro decisório do mundo. O resultado mostrou uma ordem internacional mais multipolar, em contraste com a bipolaridade da Guerra Fria e com a dominância americana recente. Tudo isso é um avanço. O problema é saber quais serão as bases da cooperação entre as nações daqui para diante. Em outras palavras: como será o processo decisório da nova governança global?

A primeira hipótese seria a realização de acordos apenas com a aceitação de todos os atores globais. Mas quem seriam eles? Todos os integrantes do G20? Será que as outras nações não gostariam de ter um sistema de acesso a esse clube? Tais perguntas são embaraçosas e mostram que a multipolaridade pode ser um fato, mas não define por si quem serão os novos atores. Provavelmente, estamos assistindo ao surgimento de um mundo em que as principais potências terão de conversar e, em algumas situações, negociar com mais países – sem que isso, contudo, signifique que todos terão o mesmo poder de voto. Não se trata aqui apenas de um problema de distribuição de poder. A experiência da Organização Mundial do Comércio (OMC), baseada no princípio da unanimidade, revelou que também existe uma questão de eficácia do sistema decisório internacional. Basta ver a interminável novela da Rodada Doha, na OMC.

Caso se aceite a ideia de que alguns países terão mais poder que outros no final – embora só possam fazê-lo depois de ouvir e levar em consideração outras nações –, fica pendente a seleção dos “escolhidos”. Serão os poderes efetivos e os construídos internacionalmente que definirão esse processo.

O poder efetivo das nações vincula-se à riqueza e ao poderio geopolítico, este último ligado – mas não só – à capacidade militar. Estados Unidos, as peças centrais da União Europeia – Alemanha, Inglaterra e França –, Rússia, China e Índia detêm tais condições. Mas a legitimidade internacional construída pelos países também deve ser colocada como critério para estar no clube dos mais poderosos. A necessidade de obter legitimidade numa ordem internacional mais multipolar abre espaço a países sem tanta riqueza ou poder militar, mas que estejam numa rota de fortalecimento econômico e geopolítico, que atuem como intermediadores dos descontentes ou de regiões sem lugar cativo no clube dos poderosos. Essa é a possibilidade aberta a nações como África do Sul e Brasil.

Sai desse novo contexto a frase de Barack Obama ao presidente Lula. O líder americano sabe que a configuração multipolar não ignora os poderes efetivos, mas percebeu rapidamente que sua força depende cada vez mais da legitimidade de sua atuação, incluindo aí a simpatia de potências intermediárias, capazes de reduzir os custos da cooperação ou de abrir as portas a barganhas interditadas. Se a tradução deve ser “Ele é o cara” ou “Ele é meu chapa”, tanto faz. O que importa é a necessidade de construir alianças com nações como o Brasil, tanto por seus poderes efetivos como por sua capacidade de construir legitimidade internacional.

A ordem multipolar contará com algumas nações mais fortes à frente, outras intermediárias um pouco abaixo, embora estas possam ter poder de interferir no jogo entre os poderosos. Talvez tenhamos um G20 com sete ou oito nações no primeiro bloco e três a quatro no segundo. A definição do número e dos nomes dos atores globais não esgota o problema. De que maneira definirão o processo decisório? As instituições internacionais terão de ser reformuladas para a nova realidade, algo que demandará tempo. Mesmo quando isso ocorrer, as decisões serão mais eficazes à medida que houver lideranças capazes de mobilizar e convencer os demais. Uma ordem multipolar precisa, particularmente nos momentos mais críticos, que alguém ou alguns poucos segurem o leme. Nos próximos anos conheceremos os timoneiros da mudança – e quem o fizer terá mais legitimidade no futuro, como os EUA no pós-guerra.

Fernando Abrucio é doutor em Ciência Política pela USP, professor da Fundação Getúlio Vargas (SP) e escreve quinzenalmente em ÉPOCA

Pela transparência no setor público

Carta do diretor de redação Helio Gurovitz
DEU EM ÉPOCA


A estabilidade monetária no Brasil foi uma das mais duras conquistas de nossa sociedade – e é hoje nossa principal defesa contra a crise financeira global. Ela custou, ao longo de mais de duas décadas, um preço altíssimo: uma onda de hiperinflação e um sem-número de planos econômicos. Foram passes de mágica ou alquimias que se propuseram, basicamente, a revogar a lei da gravidade. Assim que o país aceitou que, para o bem de todos, era preciso aceitar os princípios que regem a economia, em vez de tentar resolver o problema por meio de malabarismos, o Brasil trouxe em pouquíssimo tempo a discussão inflacionária para um terreno sólido – o terreno da razão.

Os pilares sobre os quais se erguem todos os edifícios desse terreno se baseiam numa noção simples, que vale não apenas para a economia: questões técnicas devem ser resolvidas por quem as entende em toda a sua complexidade. Não adianta pedir a um engenheiro para fazer uma cirurgia, nem a um médico para construir uma ponte. Pelo mesmo princípio, a área de energia deve ser comandada não por alguém que agrade a interesses políticos ou partidários, mas por quem domine a complexidade de nossa questão energética. E um banco – seja ele público ou privado – deve ser regido pelos princípios inerentes à atividade e ao mercado bancários: concessão de empréstimos, cobrança de dívidas e atração de depósitos e investimentos privados. Trata-se de um problema para banqueiros resolverem, não para ministros, muito menos para o presidente da República.

É triste constatar que o governo parece, aos poucos, abandonar o terreno da razão nessas áreas. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu trocar o presidente do Banco Brasil, pois o ocupante do cargo não estaria, em seu entender, combatendo com a devida força o “spread bancário”. A intervenção política numa empresa de capital aberto gerou uma onda de incerteza no mercado. Ela prejudica não apenas os acionistas do Banco do Brasil, mas todos os cidadãos que dependem da estabilidade de nosso sistema financeiro. Um banco público em que manda este ou aquele político, de acordo com seus interesses – por mais nobre que pareça o combate ao “spread”–, pode se tornar um foco de manobras danosas a seus clientes e acionistas, quando não simplesmente de corrupção.

Uma situação ainda pior já vive a Agência Nacional do Petróleo (ANP), cujo comando foi entregue não a especialistas técnicos devidamente credenciados, mas a um grupo político ligado ao Partido Comunista do Brasil. Como revela a extensa investigação realizada pelos repórteres Isabel Clemente e Andrei Meireles nesta edição de ÉPOCA, a ANP se converteu num centro onde proliferam esquemas suspeitos e transações nebulosas, ligados a figuras obscuras. É o tipo de coisa que acontece quando os interesses políticos sobrepujam os critérios técnicos. ÉPOCA tem convicção de que a mesma força técnica e consciência moral usadas para domar a inflação devem ser empregadas em todas as agências reguladoras, como a ANP, ou instituições públicas, como o BB. Elas devem ser administradas de modo transparente, livres de intervenções políticas arbitrárias, portanto livres de corrupção.

HELIO GUROVITZ
Diretor de Redação

PSB defende 2 candidatos contra Serra e lança Ciro

Julia Duailibi e Christiane Samarco
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O PSB, que faz parte da base aliada do governo, vai promover um giro nacional para colocar em evidência o presidenciável Ciro Gomes. O partido acha necessário ter dois candidatos governistas para forçar um segundo turno na eleição presidencial de 2010, contra José Serra, do PSDB. “O governo não pode ficar só com a Dilma. É muito arriscado”, disse o senador Renato Casagrande (ES), da executiva do PSB


PSB alerta que crise ameaça Dilma e articula Ciro para forçar 2º turno

"Operação Pernambuco" prevê lançamento de dois candidatos da base governista em 2010 para enfrentar Serra

Com a tese de que é necessário lançar dois candidatos governistas para forçar um segundo turno na eleição presidencial de 2010, o PSB começou a executar um giro nacional para colocar em evidência o presidenciável do partido, Ciro Gomes.

A articulação já ganhou até um nome, a chamada "Operação Pernambuco". Trata-se de uma referência às eleições de 2006 naquele Estado, quando a oposição lançou dois candidatos, Eduardo Campos (PSB) e Humberto Costa (PT), contra o candidato do governo, Mendonça Filho (DEM), então favorito e apoiado pelo ex-governador do Estado, Jarbas Vasconcellos (PMDB). A oposição conseguiu forçar o segundo turno e Campos acabou vencendo.

"O governo não pode ficar só com a Dilma, é muito arriscado", advertiu o senador Renato Casagrande (ES) na reunião da executiva do PSB, na semana passada, em referência à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. "Uma economia em queda expõe as mazelas do governo", emendou o senador.

O temor da cúpula socialista é de que as dificuldades econômicas arrastem a candidatura da petista Dilma, abrindo espaço para a vitória em primeiro turno do candidato da oposição. O PSB aposta todas as suas fichas na candidatura do governador paulista José Serra (PSDB), e também não tem dúvidas de que grande parte do debate de campanha se dará em torno da gestão pública, área em que o tucano tem mais experiência.

Para Roberto Amaral, vice-presidente do PSB, lançar duas candidaturas é "uma forma de garantir a defesa do governo e de assegurar um segundo turno". "Há espaço para mais de um candidato da base. Temos dois exemplos, um bem-sucedido, que foi Pernambuco, e um malsucedido, que foi São Paulo. É o mesmo raciocínio para 2010", disse o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). O parlamentar se refere à eleição de 2008, quando o PT, de Marta Suplicy, foi vencido por Gilberto Kassab (DEM). À época, aliados dos petistas insistiam em ter mais uma candidatura de oposição, mas o PT preferiu se aliar ao PC do B, de Aldo Rebelo, já no primeiro turno. Alguns pessebistas também desconfiam do fôlego de Dilma para vencer Serra, o que dá mais combustível ao lançamento de outra candidatura da base.

TELEVISÃO

O partido pretende dar musculatura à candidatura de Ciro nos próximos meses. Deputado pelo Ceará, ele será a principal estrela do programa de TV do PSB, que vai ao ar no dia 16. No calendário, são articuladas viagens pelo País, cujo motor é crise econômica, tema que Ciro, ex-ministro da Fazenda (1994), debate com familiaridade.

Há cerca de quinze dias, ele esteve em Manaus, onde conversou com empresários locais. Neste fim de semana deve ir a Porto Alegre. Na agenda, há ainda viagens para Rio Branco, Cuiabá e Belo Horizonte. Na terça-feira, há uma reunião entre os líderes do partido para discutir, entre outros pontos, uma pesquisa nacional que está sendo realizada em todo o País.

É com base na pesquisa que os líderes do PSB pretendem conversar com Lula sobre a conveniência de se lançar mais um candidato da base governista. "Vamos mostrar ao presidente nossas razões. Em 2002, nossas assessorias se entenderam muito bem. Vamos tentar convencê-lo", disse Amaral. O partido acredita que pode melhorar o potencial de votos, que em 2006 ultrapassou 21 milhões. "Dos três candidatos (Serra, Dilma e Ciro), ele foi o que teve menos exposição. Ainda assim, aparece bem nas pesquisas", afirmou o presidente do PSB paulista, Márcio França.

ESPERA

Ciro demorou para começar a se posicionar como uma alternativa para 2010. Ex-ministro da Integração Nacional, ele tem boa relação com o presidente e temia que a antecipação da eleição fosse prejudicial ao debate. Por outro lado, dizem aliados, também esperava uma sinalização do presidente, que acabou por abraçar a pré-candidatura de Dilma. "Agora estamos organizando com ele a agenda do partido. Estamos dialogando com ele de uma forma mais intensa", disse Casagrande.

Lula ainda é reticente em relação à existência de dois candidatos da base. O parceiro preferencial é o PMDB, mas o partido pode entrar dividido na eleição, o que poderia propiciar uma indicação de Ciro ou Eduardo Campos para vice de Dilma. Amaral resiste a essa opção, mas afirma que "não é um determinismo o PSB ter candidato nem uma tragédia apoiar (o PT)". Em 2006, o partido não apoiou oficialmente a reeleição de Lula em razão da verticalização, que condicionava as alianças regionais à federal.

O partido quer que Ciro aproveite a vertente economista e mergulhe nos temas sobre o País. "Eu sei onde está o dinheiro", chegou a comentar o ex-ministro, em entrevista recente à Rede TV, ao ser indagado sobre as respostas para a crise.

Lições de Marcito

Cristovam Buarque
DEU EM O GLOBO


Faleceu, na sexta-feira da semana passada, um dos raros brasileiros símbolo , por seus gestos e suas falas. Foi sua fala na Câmara de Deputados, em 1968, que levou a ditadura a fechar o Congresso que ela mantinha aberto, passivo, dependente, inoperante e irrelevante, apenas um adorno do sistema ditatorial para dizer que aqui havia uma diferença em relação a outras ditaduras.

Marcio Moreira Alves tornou-se símbolo. Símbolo, para todos nós, da tomada de posição, do gesto daqueles que não querem ficar calados, e que falam independentemente das consequências das verdades ditas. Símbolo da intransigência com os poderosos, da política com base em princípios, dos políticos com causas. Marcito foi o símbolo da falta de transigência com o golpe militar, mesmo que sua tomada de posição tenha levado ao agravamento da repressão. A consequência foi um acirramento da maldade ditatorial, mas também o fim da falsa impressão de paz que resultava do silêncio dos que transigiam com a ditadura.

Marcito não queria fechar o Congresso; queria, na verdade, abri-lo.

Mas só tinha a força da fala, que às vezes espera anos para manifestar seu poder — como em verdade ocorreu, 17 anos depois. Ele não queria com seu discurso fechar o Congresso, mas não aceitava pagar o preço da tolerância para manter a ditadura disfarçada, aceita em nome do “menos mal”. Há momentos em que a política precisa ser intransigente, existir em nome da verdade, sejam quais forem as consequências.

Marcito foi um exemplo disso. Fez o que devia ser feito naquele momento, diante da omissão de muitos, tanto dentro do Congresso quanto nas ruas.

Ele e o Brasil pagaram um preço alto com o fechamento do Congresso, mas um preço que estava sendo pago aos poucos, e deixando a impressão de que não era pago. Em vez de admitirmos com clareza que o Brasil vivia uma ditadura, preferíamos dizer que a ditadura poderia ser pior. Márcio Moreira Alves é um símbolo do momento da verdade e do preço que se paga por ela.

Hoje, em tempos de democracia, Marcito não deixaria de denunciar que a democracia não está completa, que os avanços na educação, na transparência, na ética são insuficientes para fazer um Brasil justo e eficiente.

Ele não foi somente um político, foi sobretudo jornalista. E foi também um símbolo do jornalismo que faz a pauta e a matéria comprometidas com a verdade, conforme a verdade, sem manipulação. Marcio foi ao fundo da verdade como repórter, e nessa função descobriu que, além dos escândalos e vergonhas, há verdades positivas a serem ditas sobre a política.

Não duvidou em dizer as boas verdades na sua coluna, no jornal “O GLOBO”. Eram os “Sábados azuis”, em que descrevia as experiências de políticas públicas implantadas ao longo de todo o território brasileiro, por prefeitos e governadores que aos poucos iam mudando, localmente, a realidade brasileira.

Marcio foi um exemplo de jornalista e de político, por apresentar uma qualidade rara: a intransigência em defesa da democracia e da verdade, inteiras e completas. Seu exemplo é ainda maior em um tempo no qual a transigência, tanto na política quanto no jornalismo, tornou-se constante.

A transigência dos políticos que defendem as saladas partidárias, em nome da vitória eleitoral, da conquista de cargos e de evitar o pior. E do jornalismo que, em busca da venda dos jornais, tem preferência pelos escândalos e não pelo debate aberto, pela verdade, mesmo que em torno de fatos positivos.

Entramos em um tempo de transigências aceitas como a regra normal da política. Por isso, nessa semana, morreu a boa intransigência — contra a corrupção, a ditadura, a mentira.

Marcio fará falta como analista, jornalista, sobretudo como amigo de tantos. Mas sua falta será compensada pelo papel que desempenhará como símbolo, pela memória de suas falas e de seus gestos. Acima de tudo, pelo fato de sua defesa da democracia ter provocado o agravamento momentâneo do regime autoritário, como prova de sua fragilidade e fracasso.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF).

Consumo de crise

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O consumidor já mudou seus hábitos e está comprando menos produtos de maior valor agregado.

As pessoas admitem cortar gastos, trocar marcas e estão mais pessimistas do que na crise de 2003. A queda dos perecíveis começou no ano passado, com a alta das commodities. Para se manter no gosto do consumidor — e no bolso — alguns setores vão precisar inovar.

Uma pesquisa da Nielsen mostra que o consumo no primeiro bimestre já desacelerou.

Em algumas categorias, como perecíveis, já havia caído em 2008, para 2007, e neste início de ano caiu mais um pouco. A pesquisa mostra que os consumidores estão mais cautelosos e vão reduzir gastos.

Pelos dados, 45% dos entrevistados vão cortar despesas com refeições fora de casa, 44% com telefonia celular — que está em desaceleração este ano —, 37% com produtos eletroeletrônicos, 30% com roupas e 17% vão cortar no abastecimento do lar.

— Para as empresas, não é bom parar de investir ou de inovar, porque depois é mais difícil recuperar a preferência do consumidor — diz o analista de mercado da Nielsen, Ricardo Alvarenga.

De 1994 a 2007, dobrou o volume de vendas no país nas categorias auditadas pela Nielsen. Em 2008, o aumento foi só de 0,5%. Este ano, a tendência é de queda e de mudança de hábito. As classes C, D e E, até o ano passado, dividiram suas despesas do dia a dia com prestações dos novos equipamentos das casas. Na classe C, foram mais 800 mil novos lares com máquinas de lavar e mais 1 milhão deles com micro-ondas. Nas classes D e E, foram mais 650 mil lares com TV colorida. No setor de bebidas, uma novidade ganhou espaço: as feitas à base de soja entraram em mais 2,2 milhões de novos lares em 2008, e o maior crescimento deste setor foi nas classes D e E, que passaram a consumir 32% mais.

Com o pessimismo em alta, o primeiro item a ser cortado é alimentação fora de casa, e o segundo são os gastos com telefonia celular, que nos últimos anos ganharam espaço no orçamento doméstico. Alguns produtos têm marca consolidada, como creme dental, e não devem ter muita migração. Já refrigerantes, cervejas, margarinas e chocolates têm marcas conhecidas, mas há espaço para inovações em embalagens.

Outros produtos da cesta de consumo, como papel higiênico, iogurtes, biscoito, amaciantes, shampoo, lâmina de barbear, café, as linhas de pós-shampoo e tinturas têm mais risco de mudança de marca, segundo avaliação dos especialistas.

O ano passado marcou a fronteira entre a abundância e a crise. Foi de crescimento acelerado nos três primeiros trimestres e despencou no último. E isso de certa forma se vê no consumo. Os números de 2008 ainda são de crescimento, mas foi no fim do ano que o consumidor começou a pisar no freio.

— A produção de laticínios teve uma queda de 7,5% no primeiro bimestre de 2009, mais ou menos a mesma queda do setor de bebidas.

As bebidas light, segmento que vinha crescendo, está em queda um pouco menor. Esses setores dependem de poder aquisitivo e o consumidor está mais seletivo — diz o diretor de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação, Dênis Ribeiro.

A crise afeta a economia de forma diversa. O varejo sente os efeitos da crise. As empresas de cosméticos dizem não sentir queda nas vendas.

A Natura informou que está investindo em lançamentos de uma menor quantidade de produtos, mas com maior divulgação, e que acompanha o cenário com lupa.

— Estamos atentos ao que acontece na crise e flexíveis para reduzir ou ampliar o investimento. Até agora não fomos afetados, mas mês que vem podemos sentir os efeitos da crise. O nosso orçamento é quase mensal — conta o vice-presidente de negócios para o Brasil da empresa, José Vicente Mariano.

Outra indústria do setor, a Unilever, que também atua em alimentos, investe em divulgação e na manutenção de suas marcas principais no mercado.

— O consumidor não leva em conta só o custo. Se deixar de investir, perde participação de mercado e vai custar mais para recuperar depois. Tem de ter um portfólio, com marcas mais baratas e outras de valor agregado.

Até porque, se o consumidor já é fiel a uma marca, pode passar a ser fiel a outras marcas nossas — diz o vice-presidente de assuntos corporativos da empresa, Luiz Carlos Dutra.

Outros setores só conseguem manter o nível de vendas com promoções. Na quinta-feira, uma leitora da coluna nos contou que comprou óculos escuros depois de obter 40% de desconto e com parcelamento em seis vezes, tudo oferecido pela ótica e desta maneira: 30% do desconto eram da loja e os outros 10% eram da comissão da vendedora.

O presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Calçados, Marconi Leonel dos Santos, disse que o mês de março deve ter uma queda de 2% no faturamento, depois de um primeiro bimestre em que o volume de vendas cresceu, mas, com as liquidações, os preços foram menores e o faturamento ficou estável.

— Para o segundo trimestre estamos cautelosos, mas abril começou melhor.

O consumo em época de crise varia mês a mês. O consumidor é mais arisco.

Fica no mercado quem sabe usar as velhas armas da qualidade e do preço.

Com Leonardo Zanelli

Façam bancos tediosos

Paul Krugman *, The New York Times
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Há mais de 30 anos, na época em que eu acabava de me formar em Economia, somente os meus colegas de turma menos ambiciosos procuraram fazer carreira no mundo financeiro. E mesmo então, os bancos de investimentos pagavam mais do que as universidades ou o funcionalismo público - embora não muito mais, e, de qualquer modo, todos sabiam que trabalhar em banco era uma coisa tediosa.

Nos anos seguintes, evidentemente, o sistema bancário deixou de ser tedioso. As negociatas iam de vento em popa e os níveis salariais nas finanças dispararam repentinamente atraindo grande número dos melhores e mais dotados jovens da nação (bem, não tenho muita certeza quanto aos "melhores"). E os americanos tiveram a garantia de que no nosso superdimensionado setor financeiro estava o segredo da prosperidade.

No entanto, ao contrário, o mundo das finanças transformou-se no monstro que engoliu a economia mundial. Recentemente, os economistas Thomas Philippon e Ariell Reshef fizeram circular o estudo Wages and Human Capital in the U.S. Financial Industry, 1909-2006 (Salários e capital humano no setor financeiro dos EUA). Eles mostram que, no século passado, o sistema bancário dos EUA cobriu três épocas.

Antes de 1930, era um setor particularmente interessante, com várias personalidades cercadas por uma aura de grandeza, que construíram gigantescos impérios (que posteriormente revelaram-se baseados na fraude). Este ambicioso setor determinou um rápido aumento da dívida: o endividamento das famílias como porcentagem do PIB, quase dobrou entre a Primeira Guerra Mundial e 1929.

Durante a primeira fase das altas finanças, executivos de bancos percebiam, em média, salários muito maiores do que seus colegas de outros setores. Mas as finanças perderam seu glamour quando o sistema entrou em colapso com a Depressão.

O setor bancário que emergiu do colapso obedecia a uma rígida regulamentação, era muito menos interessante do que antes da Depressão, e muito menos lucrativo para os que o dirigiam. O sistema bancário tornou-se algo tedioso, em parte porque os executivos eram extremamente conservadores em matéria de empréstimos. O curioso é que esta era de bancos tediosos foi uma era de progresso econômico espetacular para os americanos.

Entretanto, depois de 1980, com a mudança dos ventos da política, foram eliminadas muitas regulamentações que haviam sido impostas ao setor e o sistema bancário voltou a ser interessante. O endividamento começou a crescer de maneira rápida, chegando quase ao mesmo patamar de 1929 em relação ao PIB. As dimensões do setor financeiro explodiram. Em meados daquela época, representava um terço dos lucros das empresas.

Enquanto estas mudanças ocorriam, uma carreira nas finanças voltou a ser altamente compensadora, com remunerações espetacularmente elevadas, para os que construíam novos impérios financeiros.

Não é preciso dizer que os novos superastros acreditavam que haviam merecido ganhar sua riqueza. "Acho que os resultados da nossa companhia, dos quais saiu a maior parte da minha riqueza, justificaram o que eu consegui", declarou Sanford Weill em 2007, um ano depois de se aposentar do Citi. Muitos economistas concordaram com ele.

Somente alguns advertiram que este sistema financeiro supercarregado poderia acabar mal. A Cassandra mais notável foi talvez Raghuram Rajan da Universidade de Chicago, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Numa conferência da qual participou em 2005, ele argumentou que o rápido crescimento das finanças aumentara o risco de um "derretimento catastrófico".

Mas outros participantes da conferência, como Lawrence Summers, atualmente diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, ridicularizaram os temores de Rajan.

E o derretimento aconteceu.

Grande parte do aparente sucesso do setor financeiro revelou-se então uma ilusão. Pior ainda, o colapso lançou no caos o restante da economia, enquanto o comércio e a produção industrial mundial caíam na realidade mais rapidamente do que durante a Grande Depressão. A catástrofe provocou apelos para uma regulamentação mais rígida do setor financeiro.

Eu acho que as autoridades econômicas ainda acreditam numa reformulação da área de supervisão dos bancos. Elas não estão absolutamente dispostas a fazer o que deve ser feito - ou seja, tornar novamente o sistema bancário um setor tedioso.

Em parte, o problema está no fato de que isto significaria executivos mais pobres; além disso, o setor tem muitos amigos nos altos postos. Mas é também uma questão de ideologia: apesar do que aconteceu, a maioria das pessoas que ocupam cargos de poder ainda associa finanças exorbitantes a progresso econômico. Encontraremos a vontade de adotar uma reforma financeira de fato?Se não for assim, a crise atual deixará de ser um acontecimento esporádico, mas determinará o próprio futuro.

*O autor é articulista

O cara, a coroa e o gozador

Samba de Orly

Chico Buarque e Toquinho
Vale a pena ver o vídeo

Clique no link abaixo


http://www.youtube.com/watch?v=68m7W9cVup4

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1296&portal=

sexta-feira, 10 de abril de 2009

PENSAMENTO DO DIA

“O “novo modo de pensar” é o cenário em que se projetam e para o qual talvez finalmente convirjam os princípios inspiradores da perestroika, aspectos do pensamento antropológico e sociológico da Igreja pós-conciliar, a busca de novas “idéias integradoras” que desde o início dos anos 1980 ocupa as principais socialdemocracias européias (o europeísmo socialista e o “eco-socialismo”, acima de tudo), o novo pensamento político dos grupos dirigentes mais avançados do Terceiro Mundo (às voltas com as conseqüências nefastas do neocolonialismo e com as “catástrofes” provocadas pelas reagnomics), as tradições políticas inspiradas na não-violência, as concepções do socialismo como desenvolvimento integral da democracia, a visão nova da constituição e do desenvolvimento do gênero humano inspirada no pensamento da “diferença sexual”, as novas ideais de progresso fundadas na “consciência do limite” e no conceito de “desenvolvimento sustentável” e outros filões de pensamento.”

(Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci de Roma, no livro, “Pensar o mundo novo”, pgs.196-7 – Editora Ática, São Paulo 1996)

Gestão anticrise

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


A repercussão da crise econômica nas finanças de estados e municípios já está se transformando em fonte de crises sociais e políticas graves, especialmente nas regiões menos desenvolvidas do país, que dependem de transferências do governo federal. Além do decréscimo da atividade econômica, também reduziu a arrecadação, a concessão de isenções, especialmente do IR e do IPI, com que o governo federal tenta reativar o mercado interno. O perigo é que muitas prefeituras paralisem os serviços básicos de saúde, educação e coleta de lixo por falta de dinheiro. O programa de apoio a estados e municípios que o governo deve anunciar na próxima semana objetiva amenizar essas perdas, que deveriam também ser compensadas pelos investimentos nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, no entanto, não conseguem deslanchar.

Em contraposição à ineficiência federal, que coloca em xeque a candidatura da ministra Dilma Rousseff, identificada para o bem e para o mal com o PAC, existem alguns governos estaduais, de diferentes filiações partidárias, mas todos identificados com a oposição, que estão demonstrando como atuar em momentos de crise. Todos são exemplos de gestão pública moderna, tema que estará no centro do debate sucessório.

O Espírito Santo, governado pelo peemedebista Paulo Hartung, é considerado pelo economista Cláudio Porto, da empresa de consultoria Macroplan, especialista em análises prospectivas e gestão pública, "de longe", como o estado que se antecipou mais e deu uma resposta mais organizada à crise.

Depois do Espírito Santo, o estado que teve uma posição mais proativa e agressiva foi São Paulo, governado por José Serra, provável candidato do PSDB à sucessão de Lula. Minas Gerais, governado pelo tucano Aécio Neves, outro potencial candidato à Presidência, e o Distrito Federal, governado pelo democrata José Roberto Arruda, são outros exemplos de boa atuação administrativa durante a crise, na avaliação de Cláudio Porto, que dá consultoria atualmente ao governo do Espírito Santo e já trabalhou com os governos de São Paulo e Minas, e por isso tem uma boa visão interna dos processos decisórios.

Com exceção do Distrito Federal, os outros três estados têm sua economia baseada nos setores mais modernos, ligados à exportação, e por isso sofreram mais fortemente os efeitos da crise.

O governo de São Paulo anunciou, em fevereiro de 2009, medidas para aquecer a economia e combater a crise financeira. Autorizou a antecipação, para o primeiro quadrimestre do ano, período em que a crise se abate com maior rigor, da compra de bens duráveis, e também inverteu as fases do processo licitatório, o que poderá torná-lo mais célere.

No campo dos incentivos aos investimentos privados, para desonerar setores estratégicos, autorizou o adiamento do Imposto sobre Mercadorias e Serviços (ICMS) pago na aquisição de bens de capital. Outra medida prorroga a redução de alíquota do ICMS de 18% para 12% até 31/12/2009.

Os micro e pequenos empresários terão acesso facilitado aos empréstimos do Fundo de Aval Estadual (FDA), e o governo irá equalizar a taxa de juros em financiamentos concedidos a micro e pequenas empresas, e reservar até R$80 mil às micro e pequenas empresas nas compras governamentais.

Já em novembro do ano passado, o governador de Minas, Aécio Neves, anunciou um conjunto de medidas de flexibilização tributária e de aumento de crédito para o setor produtivo (injeção de R$1,3 bilhão), para ajudar empresas de vários setores a enfrentar os efeitos da crise.

Prometeu ainda dar mais agilidade aos procedimentos fazendários em 2009. Além disso, o Orçamento de 2009 prevê investimentos do estado da ordem de R$11 bilhões, com a expectativa de executar a integralidade dos investimentos.

Por um período de seis meses, as empresas mineiras terão mais prazo para o recolhimento do ICMS, o que contribui para aumentar a liquidez das empresas.

O governo do Distrito Federal tem hoje R$1,6 bilhão em caixa e está priorizando as obras. As maiores intervenções foram feitas em relação ao serviço público. O GDF decidiu suspender novos concursos e congelar, por pelo menos três meses, os benefícios e reajuste dos servidores públicos (que seria, em média, de 5,5%).

Foi criada ainda uma comissão de avaliação da receita e das despesas que analisará, a cada três meses, a disponibilidade orçamentária e financeira a que ficarão condicionados os futuros reajustes salariais do funcionalismo.

Este tipo de estrutura também foi criada no Espírito Santo, que tem um Comitê Gestor do Programa de Controle e Eficiência do Gasto Público.

O governo do Espírito Santo anunciou um investimento de R$1 bilhão para o estado até 2010, o que só foi possível devido às medidas de contenção adotadas desde setembro do ano passado, quando a crise começou: o estado conseguiu fazer poupança e manter o nível de investimento.

Esta nova etapa do planejamento estratégico do estado reflete uma profissionalização da gestão cada vez maior no Espírito Santo, analisa Porto. Por trás desses bons resultados do governo capixaba está um esforço de modernização da gestão: a simplificação de processos e um sistema de gestão intensiva de projetos.

Praticamente não existem atrasos nos projetos do governo do Espírito Santo. Claudio Porto, presidente da Macroplan, destaca que uma das grandes dificuldades enfrentadas na esfera governamental é justamente conseguir realizar os investimentos previstos no orçamento. "Do governo federal, por exemplo, apenas 52% do orçamento de 2008 previsto para o Espírito Santo foram executados".

Ex-BBB no BB

Coluna do Ancelmo Góis
DEU EM O GLOBO


Max, o vencedor do "Big Brother", gravou ontem participação no "Casseta & Planeta" em que o personagem "Luís Bigbrotherácio Lula da Silva" o convida para assumir o Banco do Brasil:

- Companheiro, já que você se deu bem no "BBB", que são três bês, vai arrebentar no BB, que são só dois.

Mal desnecessário

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Dizer que a maioria dos congressistas brasileiros não convive bem com a democracia seria um exagero tão distante da realidade quanto afirmar que o Congresso em sua totalidade tem os preceitos básicos ligados mentalmente no piloto automático.

Boa parte considera relativos conceitos como liberdade de expressão, nela contido o direito da sociedade à informação, respeito às leis e decoro no exercício da função pública.

Justiça seja feita, essa inadequação a normas que em democracias mais avançadas nem são postas em discussão não se limita ao Parlamento.

Está latente e aparece, por exemplo, quando figuras proeminentes da cultura nacional resolvem por identificação ideológica fazer o elogio público das "mãos sujas"; teoria segundo a qual a malfeitoria é inerente à atividade política, um mal necessário na democracia.

Nesse aspecto, um artista que aceita crimes de corrupção quando cometidos por políticos de sua preferência não difere de um deputado ou senador que defende seu direito à transgressão porque as "coisas funcionam assim".

Não há, tampouco, distinção entre a alegação de que a divulgação de escândalos é coisa da imprensa inimiga a serviço da conspiração das elites e a mais nova teoria difundida na Câmara sobre a melhor maneira de reagir à recente série de denúncias sobre o Poder Legislativo.

Ao enunciado, na voz do presidente Michel Temer: "Vejam que a cultura política vai sendo construída de uma maneira que, se nós não repudiarmos um pouco, não tivermos uma ação muito concreta em relação a isso, não estaremos fazendo um benefício à democracia".

Uma sugestão de "ação concreta" benfazeja, de autoria do deputado Cândido Vaccarezza: alertar aos integrantes da Mesa Diretora para tomar "cuidado" ao escolher os temas de debate, "a fim de não ajudarmos aqueles que não querem difundir notícias, mas fazer disputa, em geral com posições conservadoras, contra o Parlamento brasileiro".

O arremate da lavra do deputado Ricardo Barros: "Cada vez que uma boa intenção não for valorizada pela imprensa e deixar de ser realizada, eles (os jornalistas) vão aprender que, quando decidirmos dar um passo na direção certa, ou eles valorizam ou o passo não será dado."

Em miúdos: se a Câmara de alguma forma não criar obstáculos à divulgação de informações sobre o que se passa lá dentro, a democracia correrá perigo, já que a liberdade de expressão é instrumento dos conservadores e estes, por princípio, combatem a existência do Parlamento. Defendem a ditadura, portanto.

Isso posto, qualquer decisão apresentada como restauradora da moralidade deve ser elogiada pela imprensa. Se não for, locupletam-se todos. Só de raiva.

Homem trabalhando

Extinta a fartura, o presidente Luiz Inácio da Silva começa a querer vender bravura no mercado eleitoral. O problema é que o outro mercado examina a mercadoria sob critérios mais objetivos: reage de acordo com o que as coisas lhe parecem ser e não conforme o governo diz que as coisas são.

Lula quis dar à demissão de Antonio Lima Neto da presidência do Banco do Brasil a conotação de uma guerra santa contra os juros altos com ele no papel de santo guerreiro.

Não levou em conta um dado: nessa seara, ninguém acredita em almoço grátis.

A reação negativa deveu-se à percepção nítida de que há uso político de um tema complexo, numa decisão cuja única medida de consequência é a popularidade do presidente.

Se o gesto for lido como heróico pela massa e servir de barreira de contensão a novas quedas nos índices de aprovação, Lula terá atingido seu objetivo. Esta, e não a " queda do spread", é sua verdadeira - e, dependendo do que mais vier por aí, desatinada - obsessão.

Carimbado

Não fez bem à pretendida imparcialidade investigativa de Protógenes Queiroz a aliança firmada com deputados do PSOL e do PT durante o depoimento de quarta-feira na CPI dos Grampos. Parceria esta evidenciada no veto à exibição de um resumo das contradições do delegado e na diferença de tratamento nas respostas dadas aos deputados. Aos amigos, algum esclarecimento era oferecido; aos outros, só o silêncio garantido pelo habeas corpus do Supremo.

Quando Raul Jungmann, do PPS, perguntou se a ministra Dilma Rousseff fora investigada, o delegado calou. Quando Nelson Pelegrino, do PT, repetiu a indagação, Protégenes negou, mas não o deixou sem resposta.

Para Jungmann recusou-se até a dizer se era verdadeira ou falsa a carta endereçada ao presidente dos Estados Unidos com ilações de suspeitas sobre as relações do presidente Lula com o banqueiro Daniel Dantas.

Não se sabe qual seria a resposta em caso de insistência, porque, a despeito do espanto com a ausência de negativa, ninguém voltou ao tema.

A PÁSCOA E A CRISE

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

FH diz que PAC é mais marketing do que realidade

DEU EM O GLOBO

- O presidente Lula falou em marolinha, mas já se sabe que a crise chegou ao Brasil e vai afetar fortemente as perspectivas de crescimento. Quando o governo fala em PAC, fala em investimentos em infraestrutura que não chegam a 1% do PIB. Se o governo não investiu em infraestrutura quando a economia ia bem, que dirá agora, que a crise começa a bater na porta. Enfim, o presidente Lula faz muita propaganda do que faz, mas pouca coisa sai do papel.

O ex-presidente participou da abertura de seminário em homenagem a Ruth Cardoso, falecida em 2008. O reitor de Columbia, Lee Bollinger, anunciou que a universidade, em parceria com a Fullbright Foundation, terá bolsa de estudos anual com o nome de Ruth Cardoso, para estudiosos dos temas de antropologia social, no valor de US$5 mil mensais. O programa do seminário promoveu uma revisão do trabalho da antropóloga e da influência que exerceu não só nas universidades brasileiras como também em centro americanos de estudos sobre América Latina. A organização coube à universidade, em parceria com Lilia Moritz Schwarcz, da USP.

Crise tende a fazer classe C voltar à pobreza, diz FHC

FERNANDO CANZIAN
De Nova York
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Tucano está nos EUA para evento sobre Ruth Cardoso

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) afirmou ontem que haverá um retrocesso na tendência de migração da chamada classe D/E para a C no Brasil por conta da crise econômica.

Em sua opinião, quanto mais longeva a crise, mais forte será o retorno para a classe D/E de parte dos 41 milhões de brasileiros que fizeram a travessia para uma vida mais confortável durante o governo Lula.

"Vai haver um retrocesso em termos. Entre o pessoal atendido pelo Bolsa Família, não. Pois continuará recebendo. As pessoas ligadas ao mercado é que são o problema", disse em entrevista a jornalistas.

FHC está em Nova York participando de seminário na Universidade de Columbia em homenagem a sua mulher, Ruth Cardoso (1930-2008). Um dos temas centrais do encontro foram os trabalhos e pesquisas conduzidos pela ex-primeira-dama em favelas e comunidades pobres brasileiras.

O seminário foi idealizado pelo brasilianista e professor da Columbia Albert Fishlow, e pretende rever a obra acadêmica e política de Ruth Cardoso. A homenagem reúne até hoje cientistas sociais, ex-alunos da antropóloga, políticos e membros da sociedade civil.

"Ruth sempre foi muito próxima desses estudos, dos movimentos sociais. Ela sempre foi muito criativa e inovadora na definição e no modo de abordar esses temas, sobretudo nos anos 1970 e 1980", disse FHC.

Ele afirmou que, até antes de morrer, a mulher estava fazendo pesquisas em Cidade Tiradentes, distrito pobre paulistano. "Ruth dizia que a quantidade de "lan houses" que havia por lá é incrível. Isso muda a política e deixa os partidos em posição complicada. Os partidos eram a expressão de um grupo social organizado. Hoje, como a mobilidade social é enorme, as classes não são estáveis. Os eleitores agora se identificam muito mais com o candidato, não com o partido. É tendência da sociedade contemporânea."

Em sua homenagem à mulher, FHC afirmou que ontem foi a primeira vez que falou sobre Ruth com "calma". "Talvez porque esteja falando em inglês. Pois o maior problema é a sua ausência", disse.

No seminário, o governador de São Paulo, José Serra , amigo de longa data do casal Cardoso, enfatizou que Ruth conseguiu, por meio do conselho Comunidade Solidária, apaziguar o conflito que existia entre o Estado e a sociedade civil. "Havia a ideia de que o Estado estava sempre errado e a sociedade civil, sempre certa." Para Serra, Ruth conseguiu criar políticas sociais, onde tanto iniciativas de cima para baixo quanto de baixo para cima conviveram e tornaram-se efetivas.

Mudança de presidente faz BB perder R$ 5 bi em 2 dias

Felipe Frisch, Eduardo Rodrigues e Lino Rodrigues
DEU EM O GLOBO

Na contramão da alta da Bolsa, ações do banco caem 10,75%

A mudança do presidente do Banco do Brasil levou a instituição a perder R$5,2 bilhões, em valor de mercado, em apenas dois dias. Na contramão da alta da Bolsa de Valores de São Paulo, as ações do BB caíram 2,82% ontem, acumulando perda de 10,75% em apenas dois dias. Para analistas, a tentativa do Planalto de usar o banco para forçar a queda de juros vai prejudicar os resultados do BB. Além disso, especialistas dizem que a simples troca no comando do banco, que será presidido por Aldemir Bendine, ligado ao PT, não levará à queda do spread bancário (diferença entre o custo de captação de dinheiro e a taxa dos empréstimos), como quer Lula. O primeiro ato do BB para reduzir o spread será nos empréstimos a microempresas, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Página 17

BB já vale R$5 bi a menos

Queda das ações em dois dias, devido à troca na presidência, reduz valor de mercado a R$43 bi

A ingerência política sobre o Banco do Brasil (BB) já custou R$5,211 bilhões em valor de mercado à instituição em apenas dois dias. Essa é a desvalorização do BB na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) - considerando o preço de todas as suas ações - depois que o governo demitiu Antonio Lima Neto da presidência do banco e o substituiu por Aldemir Bendine, ligado ao PT, com o intuito de forçar a queda do spread (diferença entre o custo de captação e os juros cobrados nos empréstimos).

Na terça-feira, os acionistas do BB foram dormir com papéis de um banco que valia R$48,491 bilhões. Ontem, depois da queda acumulada das ações de 10,75% em dois dias (de 8,15% na quarta e mais 2,82% na quinta-feira), o banco passou a valer R$43,280 bilhões. No mesmo período, a Bolsa subiu 3,91% pelo Índice Bovespa (Ibovespa).

Para analistas, as ações do BB sofreram um baque irreversível: mesmo que recuperem o que perderam nos últimos dias, serão por muito tempo avaliadas com um "desconto" maior frente a seus concorrentes. Isso já ocorre com a Petrobras em relação a similares estrangeiras.

- Parece que o mercado não estava dando atenção para o fato de que o BB era controlado pelo governo. Isso, com certeza, pode mudar a forma de avaliar a ação. Se você é acionista do banco, você quer lucro. Se o governo tira isso, o preço já mudou - disse Hersz Ferman, economista da Um Investimentos.

Para Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Ágora, o caso é mais gritante pelo fato de o BB fazer parte do Novo Mercado da Bolsa, segmento de companhias com relações mais transparentes com os acionistas. E a empresa deve se pautar pela competitividade, para dar retorno ao investidor, afirmou.

Para o coordenador técnico da consultoria Tendências, Márcio Nakane, a simples troca da presidência do BB não levará à queda do spread. Esta é a intenção do governo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a afirmar que reduzir o spread tinha se tornado sua "obsessão".

- Na marra a coisa não vai funcionar. O empréstimo é um contrato financeiro com o banco, e a taxa de juros é um de seus elementos.

Já para o professor de economia da Unicamp e diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) Júlio Gomes de Almeida o governo precisa "dar um empurrãozinho" para que os bancos estatais baixem suas taxas:

- Se pedir muita licença, os bancos não vão baixar os juros.

Analistas veem maior exposição a risco

O BB liderou, no período agudo da crise, a expansão do setor público no mercado de crédito. A participação das três principais instituições federais - BB, BNDES e Caixa Econômica Federal - na concessão de novos financiamentos passou de 46,9% em dezembro de 2007 para 48,7% no fim do ano passado, segundo a Austin Rating.

- É normal que os bancos privados tomem mais precauções ao emprestar em um momento de forte estresse econômico. Os bancos públicos, então, ficaram responsáveis por destravar o crédito - disse Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating.

Mas Rodrigues ressalta que o aumento na concessão de crédito pelo BB ameaça ultrapassar os limites de exposição a risco estabelecidos pelo Acordo de Basiléia. Estes dizem respeito à relação entre o crédito concedido e o patrimônio líquido de um banco. Atualmente, essa relação no BB estaria em torno de 15%, e não poderia ficar abaixo de 11%.

A avaliação dos analistas é que, para o BB expandir muito o crédito e derrubar juros e spreads, o banco teria de ser capitalizado pelo Tesouro. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou ontem ao GLOBO haver estudos nesse sentido.

- Nada mais justo do que o governo capitalizar os bancos públicos para ampliar o crédito. Mas é preciso tomar cuidado para não comprometer a qualidade das carteiras - disse Rodrigues, da Austin.

Um aporte de capital do Tesouro no BB esbarraria num obstáculo. O banco precisa aumentar seu percentual de ações em circulação, para atender ao que é exigido pelo Novo Mercado, de pelo menos 25%. Hoje, o BB tem 21,7% de seus papéis em livre circulação. E recentemente pediu mais prazo, até 2011, para se adequar a esses 25%, devido ao cenário adverso do mercado. Agora, os investidores estão ainda mais arredios às ações do banco. E, se o Tesouro fizer um aporte de capital, o BB terá de vender ainda mais papéis para atingir os 25%.

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Uma polêmica troca de comando
(A GAZETA/ES)

Brasil e FMI


DEU NO JORNAL A CIDADE DE RIO PRETO

Melhor assim

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

Chic é. O Brasil receber uma carta do FMI - Ah! As cartas do FMI! - propondo que o pais vire credor do Fundo e o governo poder responder que sim, que atende ao pedido. Isso no mesmo momento em que o México está pedindo empréstimos à velha moda e a Argentina pode também ir pelo mesmo caminho. Na longa e tumultuada relação do Brasil com o Fundo houve tudo, menos isso.

O fato mostra que o Banco Central estava certo, e seus críticos errados, em acumular reservas cambiais, ainda que a história seja mais complicada. Foi um péssimo negócio do ponto de vista de um investidor. O BC comprava dólar, que se desvalorizava, e investia em títulos do Tesouro americano que rendem cada vez menos, e ao mesmo tempo mantinha uma dívida numa moeda que subia e a juros espantosamente altos.

O BC foi criticado porque mantinha juros altos e isso derrubava mais o dólar, que já caía em outros países, por outras razões. O BC comprava dólar para tentar impedir a sua queda. Mas carregar moeda cadente, e se endividar em moeda que se fortalecia a juros altíssimos, era um péssimo negócio, diziam os críticos. E era. A diferença é que para um banco central a lógica é diferente do que para um investidor comum. Olhando para trás, pode-se dizer que o Brasil poderia ter crescido mais e aproveitado melhor a época de boom se os juros tivessem sido menores. Vários economistas dizem isso, um deles o diretor da Escola de Economia da FGV, Yoshiaki Nakano. Ele me disse isso na semana passada e repetiu ontem no Valor Econômico.

Outros economistas argumentavam que, com o histórico do Brasil na área inflacionária, só restava ao BC perseguir à risca a meta de inflação.

Seja errando no varejo, seja pagando um preço alto, o fato é que o Banco Central acumulou reservas cambiais num volume que dá mais conforto na travessia do momento de dificuldade.

Chic é. Inédito é. Mas quem viu a longa caminhada do Brasil até que esta carta chegasse a Brasília sabe o quanto custou cada passo da estrada: a renegociação da dívida deixada pelos militares, a abertura da economia, a estabilização, os vários ajustes fiscais, a flutuação do câmbio, o esforço dos exportadores, as privatizações, a superação da crise bancária, a Lei de Responsabilidade Fiscal, os superávits primários, a estabilidade de regras mesmo com mudanças políticas. Tudo jogou um peso nesse processo.

Uma das máximas do fim dos anos 70 e começo dos anos 80, no governo militar, quando o Brasil assinava cartas anuais com o FMI se comprometendo com metas que nunca cumpria, é que dívida não era para ser paga, mas sim "administrada". Foi impossível administrar o impacto no Brasil da quebra do México em 1982. O Brasil fez duas maxidesvalorizações e uma baita recessão para ter dólares para pagar o empréstimo do FMI.

No começo da democracia, o lema era "não pagaremos a dívida com o sangue do povo brasileiro". Mesmo assim, o país fez várias negociações, entremeadas por um período de suspensão do pagamento por absoluta falta de dólares em caixa em fevereiro de 1987. Da dívida velha herdada dos militares, acrescida pelos novos empréstimos para pagar os antigos, inadministráveis, o Brasil só se livrou numa longa renegociação, que envolveu troca de papéis velhos por novos bonds em que os credores aceitavam dar descontos na dívida.

Em 1995, o México quebrou de novo. O Brasil, no começo do Real, aguentou o primeiro tranco. Vieram outros colapsos na Ásia, na Rússia e depois no Brasil em 1999. Vieram novos socorros do FMI e do Tesouro americano. A melhora nos anos seguintes permitiu a recompra da dívida velha que começou no governo Fernando Henrique e continuou no governo Lula. Essa era a dívida que o quando oposicionista Lula da Silva tanto prometeu não pagar ou fazer auditoria.

Dos dois grandes momentos de sufoco, nas décadas passadas, ficou um trauma: sempre que o México quebrou, o Brasil, mais cedo ou mais tarde, o seguiu. Desta vez tudo parece diferente.

O México acaba de pedir socorro ao FMI. Recebeu US$46 bilhões de empréstimo por um ano na nova, e bem mais macia, linha de crédito: a Flexible Credit Line. O país vem sofrendo o impacto da queda da economia americana da qual é cronicamente dependente. O peso já perdeu um terço do seu valor desde agosto, e o país deve ter uma recessão de 3,3% este ano. O presidente do Banco Central do México disse que, com esse empréstimo, a economia mexicana estará "blindada". Essa palavra deveria ser evitada!

Ontem, os rumores eram que a Argentina também estaria negociando um acordo com o FMI, em que o país aceitaria uma supervisão nas contas nacionais. A jornalista Débora Thomé informa no seu blog Notícias das Américas, que está no site www.miriamleitão.com, que isso só aconteceria depois das eleições legislativas, porque a campanha contra o FMI é uma obsessão dos Kirchner. Como é ultrapassado esse antagonismo!

Emprestar alguns bilhões ao FMI não faz do Brasil potência, não abona os erros que têm sido cometidos na administração da crise, não impede que o Brasil sofra o impacto dela, como vem sofrendo. Mas faz o país mais próximo da Índia, que ontem também anunciou um aporte de US$11 bilhões, que do México ou da Argentina. Melhor assim.

Emprego industrial recua pelo 5º mês

Janaina LageSucursal do Rio
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Na comparação com fevereiro de 2008, nível de vagas no setor teve a maior queda desde o início da série, em 2001

Crescimento de 1,9% na folha de pagamento das empresas, segundo o IBGE, é consequência dos gastos relacionados às demissões

O nível de emprego industrial registrou queda de 1,3% em fevereiro na comparação com janeiro. O resultado representa o quinto mês seguido de taxas negativas. Segundo especialistas, os dados de fevereiro indicam que 2009 será um ano de corte de vagas no setor.

Ante fevereiro de 2008, o emprego industrial teve queda de 4,2%. Trata-se do pior resultado desde o início da série histórica, em 2001. "Essa queda reflete os efeitos da crise e a base alta de comparação. Em fevereiro de 2008, a economia estava aquecida e a indústria estava na fase de contratações", diz Ariadne Vitoriano, analista da consultoria Tendências.

Para Isabella Nunes, do IBGE, os resultados mostram que a reação da indústria no começo do ano não surtiu efeito sobre o mercado de trabalho.

"O movimento de corte de vagas atingiu 13 dos 14 locais pesquisados. As maiores pressões vieram de São Paulo, Minas Gerais e Centro-Oeste. A crise atingiu a maior parte dos setores, principalmente meios de transporte e máquinas e equipamentos." Somente em São Paulo, a queda no nível de emprego industrial foi de 3,6% em relação a igual mês de 2008.

De acordo com cálculos do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), desde outubro o nível de emprego na indústria caiu 5,2%. "Se a política econômica do governo brasileiro não agir de forma mais rápida e eficaz para a recuperação do crédito e do ânimo dos consumidores, o emprego industrial no país poderá sofrer, infelizmente, forte revés em 2009", diz o Iedi.

Em fevereiro, houve reação da folha de pagamento, com alta de 1,9% em relação a janeiro, após quatro meses seguidos de queda nesse tipo de comparação. Apesar disso, Nunes avalia que o aumento está mais relacionado ao pagamento de demissões e indenizações do que a uma melhora do mercado.

O indicador de horas pagas teve a maior queda desde o início da série, de 5,7% em relação a fevereiro de 2008. Na comparação com janeiro, o recuo foi de 0,4%.

Tradicionalmente, o primeiro passo para a ampliação da mão de obra é o aumento do número de horas pagas. O empresário tende a pagar mais horas extras antes de optar pela contratação de funcionários.

As boas notícias da inflação

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Com a capacidade ociosa muito alta em vários setores, a queda da inflação tende a se prolongar até 2010

A INFLAÇÃO no primeiro trimestre do ano surpreendeu -para melhor- os analistas do mercado financeiro. Para o IPCA esperava-se algo como 1,5% no período fechado de três meses. O resultado final foi de apenas 1,2%.

O mesmo ocorreu com a inflação medida no atacado, com o IGP-DI calculado pela Fundação Getulio Vargas fechando o trimestre com deflação de quase 1%, influenciada por cadeias fundamentais para a formação de preços na indústria, como petroquímica e metalurgia.

Com esses números, é possível esperar uma inflação ao consumidor em 2009 bastante abaixo do centro da meta fixada pelo Banco Central.

Mas as melhores notícias sobre o comportamento da inflação estão nos detalhes de alguns grupos restritos de preços. É o caso da inflação de serviços, que abrange itens como alimentação fora da residência e serviços pessoais de vários tipos.

Esse grupo sempre apresentou, no passado, uma dinâmica mais perversa devido à elevada inércia e aos resquícios de indexação. Seus componentes persistem em alta mesmo depois de uma fase de aceleração da inflação geral, e também são os últimos a responder à redução da demanda.

Pois foi aí que tivemos surpresas agradáveis no primeiro trimestre.

No grupo chamado pelos economistas da Quest Investimentos de Serviços Livres Diversos, que representa cerca de 10% do IPCA, tem havido uma tendência de acomodação nos últimos meses e o aumento em março foi de apenas 0,13%. A mesma dinâmica benigna pode ser encontrada no grupo de materiais de construção, que vinha apresentando taxas de inflação bem acima da média. Agora a moderação atinge uma gama muito grande de produtos. Se essa tendência se mantiver por mais tempo, teremos um sinal importante para a política monetária.

Esse comportamento favorável na inflação é resultado da desaceleração econômica verificada nos últimos meses. Com a capacidade ociosa muito alta em vários setores, inclusive no mercado de trabalho, a tendência de queda da inflação pode se prolongar até 2010: é possível que o IPCA fique abaixo de 4% no ano que vem. Com isso, haverá dois efeitos positivos sobre o crescimento da economia brasileira.

O primeiro virá da preservação do poder aquisitivo dos salários, na medida em que eles foram corrigidos a taxas nominais bem mais altas nos meses que antecederam a crise. Com a inflação na margem correndo perto de 4% ao ano, ou mesmo abaixo disso, o poder de compra da população empregada permanecerá defendido. Isso é valido principalmente para o salário mínimo. Medido em termos de cestas básicas, ele se encontra hoje no pico dos últimos anos. Essa é uma grande diferença em relação ao nosso histórico de crises, sempre agravadas por choques de inflação que corroíam a renda.

O segundo efeito positivo virá dos juros mais baixos, conforme o Banco Central se sinta confortável para continuar o processo de ajuste da taxa Selic. Com as informações que temos hoje, não há por que o Copom moderar o ritmo de redução dos juros em sua próxima reunião, marcada para os dias 28 e 29 deste mês.

É possível que a taxa Selic caia para algo perto de 8% até o último trimestre do ano, mesmo tendo em vista a gradual recuperação da economia esperada para os próximos meses. Juros em queda terão efeitos positivos sobre o Orçamento do governo e sobre a atividade econômica, compensando em parte a queda na arrecadação de tributos.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Não vá embora

Marisa Monte
Vale a pena ver o vídeo


Clique o link abaixo


http://www.youtube.com/watch?v=VBP8ifg-MdM

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1295&portal=

quinta-feira, 9 de abril de 2009

PENSAMENTO DO DIA

“Sobretudo a idéia fundamental com que representamos o século: o contraste entre capitalismo e socialismo. No plano conceitual, era (e é) uma idéia insustentável. De um ponto de vista rigoroso, o termo capitalismo designa um modo de produção; o termo socialismo, ao contrário, designa um critério de regulação da sociedade e da economia. O oposto de socialismo não é capitalismo, mas liberalismo, que designa os modos de regulamentação aos quais o socialismo se contrapõe.”

(Giuseppe Vacca, presidente da Fundação Instituto Gramsci, em Roma, no livro, Pensar o mundo novo - pgs, 175-6, Editora Ática, São Paulo 1996)