segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Marcos Nobre - O essencial e o acessório

Valor Econômico

• A crise exige cabeça fria e foco no essencial

Na última semana, a irresponsabilidade política se alastrou até onde a vista alcança. Tomou por completo os dois partidos que se revezaram nos últimos 20 anos no cargo de síndico do condomínio pemedebista, PSDB e PT. Tomou conta mesmo daquele que pretendia até então ocupar a posição de baluarte da serenidade e do equilíbrio, o vice-presidente Michel Temer.

Jogaram gasolina no incêndio para ver a crise queimar mais rápido. Tudo devidamente secundado por diferentes vozes, que, no debate público, bateram palma para o fogaréu. Dão-se todos o luxo de ignorar que a crise suspendeu temporariamente qualquer disputa política real e organizada, incluída aí a disputa em torno da política econômica, por exemplo.

Pouco importa se os atores são movidos pela sandice, por interesse próprio, ou pelas duas coisas. O fato é que não existe nenhuma força social e política em condições de fazer o rescaldo e dirigir a reconstrução depois do incêndio. Em uma situação como essa, a primeira atitude de quem legitimamente teme pelo futuro do país tem de ser a de manter a cabeça fria. Exige que se distinga na confusão o que é essencial e o que é acessório. Exige agir segundo o imperativo de fazer todos os esforços para preservar o essencial.

A causa maior da desorganização atual é a Operação Lava-Jato. O efeito manada provocado pelo pânico de ser alcançado pela operação desfez partidos, bancadas e grupos. Impera o salve-se quem puder, especialmente na forma de movimentos de autodefesa contra os braços da Justiça. Ao mesmo tempo, o que causa a desordem é também uma das mais importantes conquistas da redemocratização.

Pela primeira vez, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário tiveram liberdade de ação para atingir a cúpula do Legislativo e do Executivo. Tudo isso tem muito que ver com Junho de 2013 e com a fragilidade do segundo governo Dilma. Mas o fato é que, pela primeira vez, os famosos três Poderes se encontraram, face a face, na mesma praça, em igualdade efetiva de condições para negociar seu legítimo espaço de atuação constitucional.

A crise não cansa de produzir paradoxos. A causa da desorganização política é também o mais importante desenvolvimento a ser preservado. O que pode servir de plataforma para um aprofundamento da democracia funciona hoje como desestabilizador do sistema político. Mas o paradoxo não deve impedir de ver o essencial: é imperativo resistir a qualquer proposta de acordo e arranjo que pretenda bloquear politicamente a Lava-Jato.

Uma consequência imediata desse limite absoluto: é imperativo lutar contra qualquer linha de ação que possa ter como resultado a posse do deputado Eduardo Cunha na Presidência da República. Isso acontecerá com o afastamento de Dilma Rousseff e de Michel Temer, seja com uma dupla renúncia, com a impugnação da chapa ou com o impeachment sucessivo de ambos. Em todos esses casos, o presidente da Câmara dos Deputados assume a Presidência da República por 90 dias, até a realização de novas eleições.

Se isso acontecer, o essencial estará em risco. Um deputado investigado em um esquema bilionário de corrupção não tem condições políticas de ocupar a Presidência da República. A mesma Presidência que, constitucionalmente, tem sob seu comando a Polícia Federal e o Ministério Público, que indica juízes de três graus diferentes de jurisdição. A mesma Presidência que tem sob seu comando o serviço de inteligência do país, que tem acesso direto a informações privilegiadas das mais diversas ordens.

Pode-se querer o impeachment de Dilma, pode-se desejar novas eleições. O que politicamente não se tem o direito de ignorar é que ações nessa direção podem resultar em regressão democrática gravíssima. Manter a cabeça fria em momento de crise significa também reconhecer que, quando se olha para o essencial, não se vê até hoje indício de que Dilma tenha tomado qualquer atitude que pudesse significar uma tentativa de bloquear a Lava-Jato. Pelo contrário, seu ato mais recente foi propor a recondução de Rodrigo Janot para o cargo de procurador-geral da República.

Quem sonha com um impedimento apenas de Dilma, com a posse de Temer na Presidência, está aceitando riscos que vão muito além da troca de uma situação de razoável garantia do bom prosseguimento da Lava-Jato por um cenário de incerteza. Nesse cenário, não só Eduardo Cunha andaria mais uma casa no jogo da linha sucessória, tornando-se o substituto imediato de Temer. Cunha e Temer pertencem ao mesmo partido, o PMDB. O eventual Presidente da República estaria colocado em uma situação de dependência ainda mais estreita em relação ao presidente da Câmara dos Deputados do que Dilma Rousseff.

A atuação de Eduardo Cunha não demonstra apreço pela institucionalidade quando esta contraria seus objetivos e interesses. Sua gestão na Câmara dos Deputados vem sendo marcada pelo autoritarismo e pelo arbítrio de medidas nunca antes tomadas por qualquer outro presidente. Rasgou o regimento da Casa ao dissolver a comissão responsável pela elaboração do projeto de reforma política e nomear relator de sua confiança para apresentar proposta de seu interesse diretamente em plenário. Ao ser derrotado na emenda do financiamento privado de campanhas, Cunha afrontou a Constituição ao recolocar o mesmo tema em votação no dia seguinte. Repetiu idêntica manobra no caso da votação da redução da maioridade penal. Sendo presidente da Câmara, nada fez para impedir que deputados utilizassem uma CPI para constranger no livre exercício de sua profissão a advogada cujo cliente citou o próprio Eduardo Cunha em sua delação premiada na Lava-Jato.

Esses são apenas alguns elementos mais recentes do preocupante histórico de atuação do político que pode ser colocado no cargo de Presidente da República, ou na posição de seu substituto imediato. É uma perspectiva sombria para um país que produziu a duras penas a sua ordem democrática. É um preço alto demais a pagar por perder a cabeça no meio do incêndio, por desprezar a distinção política básica entre o essencial e o acessório.
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Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap.

Marcus Pestana - Instituições, democracia e prosperidade

- O Tempo (MG)

A humanidade perseguiu ao longo dos séculos a prosperidade, o bem-estar e a melhoria de sua qualidade de vida. Por linhas nem sempre retas, passando por guerras, catástrofes e epidemias, impulsionado por inovações e pela “destruição criativa”, desviado, às vezes, pelo acaso e pelas acidentalidades, o desenvolvimento foi deixando suas marcas pela história, delineando uma dinâmica com impactos desiguais sobre regiões, países e segmentos sociais.

O que determina as desigualdades sociais e regionais? Quais são as causas da prosperidade ou da miséria? Por que as Coreias do Sul e do Norte, partindo de situação econômica e social idêntica até sua divisão ao fim da Segunda Guerra, colheram resultados diametralmente opostos? Por que Portugal não se modernizou e a Inglaterra tomou a dianteira da Revolução Industrial? Por que a URSS perdeu a rota do desenvolvimento e desmoronou? Seria o clima, a etnia, a cultura, a geografia?

Finalmente, finalizei no recesso a leitura do extraordinário livro de Daron Acemoglu e James Robson “Por Que as Nações Fracassam – As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza”. Leitura obrigatória para os que querem entender o mundo contemporâneo e suas raízes, os autores desvendam, a partir de vasta análise histórica, as causas do sucesso ou do fracasso, da prosperidade ou da miséria.

E, de forma convincente, colocam o dedo na ferida: os resultados colhidos por um determinado povo são fruto essencialmente da qualidade das suas instituições políticas e econômicas. Instituições inclusivas e abertas tendem a produzir prosperidade e riqueza; instituições extrativistas e autoritárias levam fatalmente à estagnação e à pobreza.

Tudo que foi dito visa não só estimular a leitura do livro, mas procurar uma bússola sólida para nos ancorarmos na turbulenta realidade brasileira. O Brasil atravessa uma de suas maiores crises. É lugar comum repetir que crise é sinônimo de dificuldade extrema, mas também de oportunidades. Corrupção institucionalizada, vácuo de liderança, recessão profunda e falta de horizonte, dissintonia absoluta entre sociedade e governo, desarticulação política aguda.

Esta é a hora de defendermos a qualidade de nossas instituições. As pessoas e os governos passam, a sociedade e as instituições ficam. A América Latina e o Brasil têm uma péssima história – um movimento pendular entre autoritarismo e populismo. Mas vivemos o maior e mais profundo ciclo democrático de nossa história. A Lava Jato revela instituições fortalecidas, independentes, soberanas. O Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal mostram vitalidade. A Constituição e as leis são para todos. Ricos ou pobres, poderosos ou não. A imprensa é livre. Esse é o caminho, preservados os direitos individuais, o direito de ampla defesa, os ritos legais e os direitos humanos.

A democracia e as instituições inclusivas são o caminho para a prosperidade. Às vezes é doloroso, mas a travessia vale a pena.

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Marcus Pestana é deputado federal (PSDB-MG)

Affonso Celso Pastore - Custo do populismo econômico

- O Estado de S. Paulo

Na semana passada, o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, da FGV) informou que a atual recessão não começou com as medidas de ajuste fiscal postas em prática no início de 2015, e sim no segundo trimestre de 2014. O Codace não se pronuncia a respeito da duração das recessões, mas sabemos que, embora a atual não seja tão profunda quanto a de 2008, será bem mais longa, e, quando terminar, será seguida de fases alternadas de estagnação e de baixo crescimento.

Terminou a fase na qual era fácil acelerar o crescimento com o impulso contínuo do aumento dos preços internacionais de commodities e com os ganhos de relações de troca. Vários países, além do Brasil, beneficiaram-se da “bonança externa” que terminou em decorrência da inevitável desaceleração do crescimento da China. Os países que durante o período da “festa” fortaleceram suas políticas micro e macroeconômicas saíram-se melhor. Infelizmente, o Brasil não só gastou esse bônus como sacou contra o futuro, abusando da expansão fiscal e elevando a dívida pública, com consequências terríveis sobre o crescimento econômico.

A perda da nossa capacidade de crescer é consequência do populismo macro e microeconômico crescentemente adotado pelo governo, caracterizado pelo aumento de gastos sem o correspondente aumento de receitas e pelo intervencionismo excessivo na economia.

Nos últimos anos, acelerou-se o crescimento de gastos públicos, cuja estrutura já era pesada desde a Constituição de 1988. O País precisava de políticas públicas voltadas à redução da pobreza e à inclusão social, e há alguns exemplos de sucesso nesse campo, como é o caso do Bolsa Família. Mas cresceram exageradamente outros gastos, como o Loas e os impulsionados pelo aumento do salário mínimo acima da produtividade da mão de obra, entre outros. Mais grave ainda, o governo foi tomado pela ilusão de que o intervencionismo no campo da economia e a transferência de recursos para o BNDES, aumentando empréstimos com recursos que elevaram a dívida pública, libertaria o “espírito animal” dos empresários, elevando a taxa de investimentos e pondo o País na rota do crescimento acelerado.

Populismo macroeconômico. No campo da política fiscal, a atitude de distribuir benesses sem a devida correspondência de receitas caracteriza o que em 1989 Dornbusch e Edwards definiram como “populismo macroeconômico”. Revisitando esse tema, há 5 anos, Sebastian Edwards publicou um novo livro (Left Behind; Latin America and the False Promise of Populism, junho, 2010) no qual avaliou experiências mais recentes, e relata vários exemplos de sucesso em obter ao mesmo tempo a aceleração do crescimento econômico e a melhoria das condições sociais das camadas mais pobres, reduzindo a desigualdade na distribuição de rendas.

Um de seus exemplos de sucesso é o do primeiro mandato de Lula, no qual o Brasil cresceu ao lado da queda na concentração de rendas. Mas se Edwards escrevesse um novo capítulo avaliando o Brasil a partir do segundo mandato de Lula veria que ocorreu uma profunda mudança. O Brasil mergulhou em uma forma de populismo macroeconômico, que não chega ao extremo do relatado no artigo original de Dornbusch e Edwards, com o financiamento inflacionário dos déficits públicos e os desequilíbrios externos que levaram a crises cambiais, mas que impõe o risco que se chegue a isso, por causa da trajetória não sustentável de crescimento da dívida pública.

O diagnóstico do desequilíbrio fiscal foi exposto com enorme clareza em artigo recente de Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa (Ajuste Inevitável, Folha de S. Paulo, 19/07/2015). Nos últimos 20 anos, as despesas vêm crescendo aceleradamente em relação ao PIB, e por algum tempo não tivemos déficits primários elevados porque ocorreu um forte crescimento das receitas, que não foi provocado pela criação de novos impostos ou pela elevação de alíquotas de impostos já existentes, e sim pelo alargamento da base tributária gerado; pela formalização no mercado de trabalho; e pelo aumento das importações.

A formalização no mercado de trabalho foi a consequência de reformas estruturais bem-sucedidas, e o aumento das importações líquidas é uma consequência da “bonança externa”. Infelizmente, esses dois processos se esgotaram, e a menos que haja um aumento contínuo da carga tributária, que já tem a mesma intensidade da observada em países maduros, mas sem os correspondentes benefícios, e que inibe o crescimento econômico, o descompasso entre o crescimento da despesa e da receita leva a déficits públicos que colocam a dívida pública em uma trajetória de crescimento não sustentável.

A conclusão é que a retomada da normalidade fiscal requer muito mais do que o esforço de buscar receitas não recorrentes, como as vindas de uma possível e altamente discutível repatriação de capital, ou de um novo Refis. Estes nada mais são do que paliativos que apenas postergam a solução do problema. A solução correta consiste no controle do crescimento dos gastos, mas não apenas das despesas discricionárias, que são pequenas no total, e sim daqueles que são denominados de “obrigatórios”, no sentido de que sua alteração requer a mudança de leis. Uma dessas reformas é a da Previdência. Se o Brasil não enfrentar o problema do aumento da idade de aposentadoria, estará criando uma crise fiscal de grandes proporções no futuro, e esta não é a única reforma necessária.

Populismo microeconômico. Aos males do populismo macroeconômico somam-se os do populismo microeconômico, e nesse campo a lista de exemplos é enorme e os custos assustadores. A ilusão de favorecer a indústria levou ao aumento do índice de conteúdo nacional na produção de bens de capital, como as sondas na exploração de petróleo. Ignora-se que o aumento nos preços dos bens de capital reduz as margens de lucro em todos os setores que os utilizam, penalizando os investimentos. Em nome de gerar empregos, o País resolveu recriar uma indústria naval produzindo navios a custos exorbitantes. Buscando fortalecer o capitalismo nacional, hipertrofiou-se a ação do BNDES, que se dedicou à criação de “campeões nacionais”, quando o uso mais correto dos recursos seria na complementação dos investimentos privados em infraestrutura.

Em nome do estímulo à indústria, reduziram-se artificialmente as tarifas de energia elétrica, baixando o estímulo aos investimentos na produção de energia, e desonerou-se a folha de salários elevando a demanda de mão de obra quando a economia se encontrava em pleno emprego. Para combater a inflação, o governo resolveu subsidiar o preço da gasolina, prejudicando a capacidade de investir da Petrobrás e penalizando a produção de álcool. Um dos custos incorridos com o populismo microeconômico foi o aumento da inflação, que obrigou à forte elevação da taxa real de juros em um momento no qual a economia já se encontra em recessão.

Para que o País volte a crescer, é necessário desfazer essa tragédia de erros que se acumularam nos últimos anos e que empurraram o País para uma recessão extremamente custosa. Para tanto, é necessário que exista um diagnóstico detalhado dos problemas e das políticas que enderecem a sua solução, e felizmente um número crescente de economistas vem se engajando em analisar e propor as necessárias correções de rumo. Mas esta é apenas a condição necessária.

A condição suficiente é a existência de apoio político. Estamos diante de um governo inusitadamente enfraquecido, e, ainda que não estivesse, não há nenhuma indicação de que tenha um diagnóstico que se aproxime minimamente do exposto acima. Se adotasse esse diagnóstico, teria não somente de alterar radicalmente a política econômica, mas também de explicitamente reconhecer que errou e que praticou um estelionato eleitoral. A ausência de uma saída para a retomada do crescimento indica que o mais provável é que procure “empurrar com a barriga” por algum tempo, e temo que a solução somente seja encaminhada em um novo governo.

Angela Bittencourt - Reforma ministerial e protestos estão no foco

- Valor Econômico

• Excessos do mercado de câmbio retratam riscos políticos

A pressa é inimiga da perfeição e amiga da confusão. Esse ditado popular está fora de moda, mas serve de alerta ao governo para as consequências de decisões em caráter de urgência que possam vir a ser tomadas, na tentativa de recuperar algum crédito para sua própria imagem ou na ilusão de que é possível tirar o país do buraco em que está. É improvável que o governo dê conta dessas duas tarefas, ou mesmo de uma, com as condições que a economia oferece hoje e que o crescente risco político ajuda a solapar.

Vítima de intenso retrocesso nos principais indicadores econômicos, o Brasil só vai engrenar a primeira marcha se o setor privado colaborar. Mas para isso o governo terá de reconstruir pontes de acesso que ele mesmo dinamitou nos últimos quatro anos de política econômica pautada pela certeza arrogante de que apenas o governo faz as melhores escolhas para o país e pela prática de políticas setoriais tão intervencionistas que as distorções provocadas na formação de preços na economia poderiam levar alguns setores a um sucateamento se algumas regras perdurassem.

Esse risco diminuiu com a convicção da equipe econômica capitaneada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quanto à necessidade de realinhar preços e tarifas à realidade dos custos.

A inflação de quase 10% no cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses não é, portanto, obra do acaso e torna o objetivo do Banco Central (BC) de promover a convergência da inflação para a meta, de 4,5%, em 2016 uma epopeia. A perspectiva de a atividade ingressar em um ciclo sustentável de expansão também é grandiosa, ante as indicações de que a operação Lava-Jato deixará cicatrizes fundas em vários segmentos.

As repercussões da Lava-Jato, já em seu segundo ano, praticamente travaram a atividade em determinados setores da economia e ergueram barreiras nada flexíveis entre o setor público e o setor privado com prejuízo para a própria atividade que depende de investimentos.

Por essas fragilidades, entre tantos outros motivos, o governo não deve apressar iniciativas de limitar o alcance da operação da Polícia Federal ou de, no curtíssimo prazo de seis dias, esvaziar a manifestação nacional pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff, marcada para o próximo domingo, 16 de agosto. O risco de o governo provocar reação exatamente oposta - potencializar o movimento - está presente. E o Brasil só tem a perder se for instaurada a ideia de que a economia no chão e o desencanto com o poder podem patrocinar uma convulsão social.

A tensão existente entre o governo e o Congresso é grande o bastante para justificar a preocupação de grandes investidores com as perspectivas para o Brasil. No entanto, é exagero afirmar que está configurado um cenário de disputa pelo comando da Nação, inclusive, porque a economia brasileira reserva uma péssima herança para o próximo governante. Será surpreendente se o sucessor de Dilma Rousseff - o candidato vitorioso nas eleições de outubro de 2018 - encontrar a casa arrumada.

A expectativa de economistas para a atividade é tão ruim que chega a prometer algo bom: a redução dos preços de bens e serviços. Se isso de fato ocorrer, o BC estará bem mais confortável para perseguir seu mandato - entregar a inflação na meta a partir de 2016.

No mercado financeiro, 2015 é tido como um ano de travessia de um cenário "muito ruim" para outro apenas "ruim". E essa avaliação está bem retratada nos excessos do mercado de câmbio - ainda o melhor termômetro para monitorar riscos políticos.

Capaz de contaminar gravemente expectativas, o comportamento acirrado do câmbio é uma boa nova para exportadores e investidores internacionais em portfólio no Brasil porque 1 dólar compra uma boa quantia de reais. Em seis pregões consecutivos na semana passada, o dólar chegou a acumular valorização de 6,23%. Na sexta-feira recuou 0,81% e fechou a R$ 3,5073. No ano, a moeda sobe quase 30%. E a projeção para o fim do ano já oscila de R$ 3,60 a R$ 4,00.

Não convém descartar a possibilidade de o câmbio estressar um pouco mais, nos próximos dias, a reboque da agenda de votações no Congresso e da chance de a presidente Dilma ceder a pressões para antecipar uma reforma ministerial a fim de contemplar os aliados ainda fiéis e conter o aprofundamento da crise política. Andréa Jubé e Lucas Marchesini, do Valor, relatam que a presidente encomendou estudos para reorganizar a máquina pública e reduzir gastos. Cogitava viabilizar a mudança no final de setembro, mas auxiliares próximos tentam convencê-la a precipitá-la, a fim de nomear ministros que sejam capazes de liderar suas bancadas.

Na semana passada, três informações de conteúdo político pautaram o mercado. A primeira foi a declaração do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) de que "é "é preciso alguém para reunificar o país", afirmação interpretada como indicação do articulador político do governo de que Dilma não é essa pessoa. A segunda, a saída do PTB e PDT da base aliada do governo. A terceira, o resultado da pesquisa Datafolha que mostrou 71% de reprovação ao governo Dilma, com distribuição uniforme entre as regiões do país e 66% de apoio dos brasileiros ao processo de impeachment, apurou o jornalista Eduardo Campos.

Do Senado, o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) faz um aceno alentador para a presidente e para a equipe econômica ao colocar no topo da lista de votações do Plenário o projeto que retira a desoneração da folha de pagamento de 56 setores produtivos. A proposta entrou em regime de urgência e precisa ser votada ante de qualquer outra matéria.

Dilma tem de romper com a inércia e apaziguar Congresso – Editorial / Valor Econômico

Em reunião na semana passada, a direção do PSDB decidiu encampar a tese da antecipação das eleições presidenciais marcadas para 2018 como a saída mais eficaz para a crise política e econômica pela qual passa o país. Os tucanos devem levar a proposta para as manifestações contra o governo marcadas para o próximo dia 16, em todo o país.

A participação do PSDB nos protestos é mais uma demonstração de que a crise mudou de patamar. Até agora, o partido evitou as ruas. No entanto, a menos que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decrete a impugnação da chapa vitoriosa na eleição de 2014, a hipótese de antecipação das eleições somente seria razoável se a própria presidente Dilma Rousseff fizesse uma proposta nesse sentido ao Legislativo e abdicasse do restante do seu mandato.

O Congresso também poderia tomar a iniciativa, por meio de mudança na Constituição. Há exemplos como a instituição do parlamentarismo quando os militares se opuseram à posse de João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. Mas isso certamente seria tomado pelo que de fato é, um golpe, o que não mais cabe no atual estágio de amadurecimento das instituições democráticas do país.

Nada também garante que a antecipação das eleições presidenciais contribuiria decisivamente para o fim da crise. É certo que o eleito sairia das urnas fortalecido para liderar o processo de reformas necessário para recolocar o país na rota do crescimento, mas o Congresso Nacional, que também tem sua parcela de responsabilidade na crise, seria o mesmo, com os mesmos vícios e interesses. Seria o caso então de se convocar novas eleições para presidente, governador, Câmara, Senado e às Assembleias Legislativas? Inviável.

A proposta da direção do PSDB surge num momento em que várias outras alternativas para a saída da crise são discutidas no Congresso. Como bem disse o vice-presidente da República, Michel Temer, não há mais como ignorar que "a situação é grave" porque "há uma crise política se ensaiando e há uma crise econômica que está precisando ser ajustada". O vice-presidente, na realidade, é ameno no diagnóstico. Na prática há mais que um ensaio, a crise está em cena, sendo a crise política retroalimentada pela crise econômica e assim sucessivamente

Existe apenas um consenso no debate em curso: algo precisa ser feito, com urgência, diante da perspectiva real de aprofundamento da crise econômica. O ano de 2015 está perdido, a retração do PIB pode alcançar a marca dos 3% negativos, as projeções para 2016 também não são animadoras e o atual governo não demonstra ser capaz de achar e propor uma saída para evitar um desastre ainda maior. A falta de confiança no governo é tanta que ninguém mais acredita que Dilma e sua equipe serão capazes de realizar o superávit de 0,15% a que se propôs depois de ter abandonado a meta de 1,1%, para citar apenas um exemplo.

Na reabertura do Congresso, após as férias de julho, a presidente bem que tentou retomar a iniciativa política, convidando os líderes políticos para um jantar a fim de afinar o discurso da base aliada. Em vão. Em menos de 24 horas Dilma voltou a sofrer uma série de derrotas e constrangimentos no Congresso, numa demonstração cabal de sua fragilidade política. Não bastasse a ciranda de humilhações impostas pelo Legislativo, a presidente ainda teve de ouvir o vice Temer dizer que é preciso "alguém" para reunificar o país, praticamente excluindo-a de uma solução negociada para a crise.

Pode ter sido um escorregão, algo inusual num político com a vivência e a biografia de Michel Temer. Mas a entrevista do vice sem dúvida deve soar para a presidente da República como um alerta de que algo urge ser feito para retirar o governo do imobilismo. Se continuar refém da inércia, Dilma será atropelada pelas urdiduras feitas no Congresso, o escoadouro de todas as negociações, desde a transição negociada ao impeachment da presidente.

A proposta de um pacto político que juntasse governo e oposição já perdera substância com o vazamento da notícia de uma possível conversa entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Agora parece ferida de morte pelo programa partidário de televisão do PT que foi ao ar na semana passada, pois nem Dilma nem o seu partido demonstraram que podem vir a reconhecer os erros que levaram o país à atual situação, sem o que a oposição não quer conversa.

Desafios da modernidade

Willi Bolle – Folha de S. Paulo / Ilustríssima

• A Paris do século 19 em dois lançamentos

Resumo Dois lançamentos abordam o tema da modernidade tendo como objeto a Paris do século 19. O livro de David Harvey trata do processo de modernização urbana parisiense e suas implicações na divisão social. Já "Baudelaire e a Modernidade" republica textos de Walter Benjamin, referência nos estudos sobre o assunto.
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Como a sociedade moderna organiza seu espaço? Eis a questão-guia do geógrafo e antropólogo David Harvey em seu livro "Paris: Capital da Modernidade" [trad. Magda Lopes, Boitempo, 326 págs., R$ 69].

O leitor é introduzido à cidade por meio dos romances de Balzac, observações de Marx e mais de cem ilustrações, entre elas fotografias de Marville e caricaturas de Daumier. São focalizadas as radicais reformas urbanas feitas durante o Segundo Império (1852-70) pelo prefeito Haussmann.

As melhorias da circulação e do transporte coletivo pela abertura de bulevares e a criação de ampla rede ferroviária de Paris para o país todo são bem avaliadas.

Mas Haussmann é criticado por ter privilegiado as construções de alto custo. Retomando o lema "Enriqueçam-se!", proposto pela Monarquia de Julho (1830-48), ele favoreceu especulações financeiras cada vez maiores e a corrupção –o que faz lembrar "a nossa própria recente enxurrada de escândalos financeiros", comenta Harvey.

O resultado foi um aumento das desigualdades sociais e uma crescente segregação espacial entre burgueses e trabalhadores. Com as demolições ao mesmo tempo saneadoras e especulativas no centro da cidade e o forte aumento dos aluguéis, a população pobre foi empurrada para a periferia.

Houve também sérias negligências do governo na área social: alimentação, moradia, saúde e educação das classes populares.

Com espetáculos de diversão das massas –inaugurações de bulevares, paradas militares e exposições universais– os donos do poder procuravam maquiar as deficiências. Ora, as classes abandonadas acabaram se tornando "classes perigosas". Trabalhadores e burgueses culpavam-se mutuamente: uns denunciando a anarquia do livre mercado, que gerou desemprego; e os outros, temendo a desordem dos "subversivos", mobilizavam o aparato da vigilância e repressão policial.

Tudo isso levou ao confronto entre duas cidades, Paris Oeste e Paris Leste, cuja linha divisória acabaram sendo as barricadas da insurreição da Comuna em 1871, espalhadas por vários pontos.

Fazendo um balanço dessa época da modernidade –caracterizada ao mesmo tempo pelos movimentos sociais militantes de 1830, 1848 e 1871 e pela sua repressão–Harvey procura avaliar o legado do pensamento deixado por utopistas e revolucionários.

Entre eles, Charles Fourier, que buscava uma transição do "caos social para a harmonia universal", propondo a criação de "falanstérios", que seriam edifícios de produção, consumo, habitação e satisfação dos desejos, inclusive sexuais. Saint-Simon, mais pragmático, apostava no produtivismo, considerando como industriais todos aqueles que estivessem engajados em atividade produtiva útil: trabalhadores e camponeses, empresários, banqueiros e comerciantes, cientistas, pensadores e educadores. Auguste Blanqui, ao contrário, propagou a ditadura do proletariado, mas depois do fracasso da Comuna, caiu numa profunda resignação.

"Temos muito a aprender com o estudo dessas lutas", é a conclusão de Harvey; "nelas há muito para admirar e em que se inspirar". Com efeito, a principal conquista daquelas lutas foi o estabelecimento da República, em 1871, e, com isso, de uma das mais sólidas democracias –diferentemente do que aconteceu entre 1871 e os anos 1930 no país vizinho, a Alemanha.

O título do livro de Harvey faz eco ao texto "Paris, Capital do Século 19", de Walter Benjamin, cujos livros "Passagens Parisienses" e "Charles Baudelaire, um Poeta Lírico no Auge do Capitalismo" são comentados. Sobre esse conjunto temático, Benjamin produziu um labirinto de textos, na maioria inacabados, de modo que o leitor necessita de uma orientação. A mais atualizada é fornecida pelo livro "Baudelaire", organizado por Giorgio Agamben, Barbara Chitussi e Clemens-Carl Härle, lançado na França em fins de 2013 pelas Éditions La Fabrique.

Apoiando-me nessa publicação, farei um mapeamento dos textos mais significativos de Benjamin sobre Paris. Veremos que não apenas os seus conteúdos mas também suas formas de composição nos levam para dentro das contradições da modernidade.

O projeto de Benjamin era escrever uma história social da cidade de Paris no século 19. A base foi uma ampla coleta de materiais na Biblioteca Nacional da França, especialmente a partir de 1934, quando ele já se encontrava no exílio. Esse arquivo, organizado em 36 cadernos temáticos, com mais de 4.000 fragmentos em quase 1.000 páginas, constitui essencialmente a edição das "Passagens" (inédito até 1982, saiu no Brasil em 2006).

Como bolsista do Instituto de Pesquisa Social, que se transferiu para Nova York, Benjamin enviou em 1935 para o diretor Max Horkheimer um esboço do seu projeto: "Paris, Capital do Século 19".

É uma constelação de temas do arquivo: ícones urbanos –passagens, panoramas, exposições universais, moradia burguesa, ruas de Paris e barricadas– conectados a personagens da época: o "rei burguês" Luís Filipe, o prefeito Haussmann, o utopista Fourier e os artistas inventores Daguerre, Grandville e Baudelaire.

Acompanhando a perspectiva do poeta exemplar da modernidade, Benjamin resolveu em 1937 escrever "um modelo das Passagens" na forma do livro "Baudelaire, um Poeta no Auge do Capitalismo", que ficou inacabado.

Uma reunião dos trechos redigidos –que havia sido editada em 1969 e 1974 (as traduções brasileiras são de 1985 e 1989)– foi republicada em *"Baudelaire e a Modernidade" [trad. João Barrento, Autêntica, 352 págs., R$ 43]*, título que Benjamin nunca usou.

Livro-modelo Uma detalhada ideia do que ele efetivamente planejou está contida na planta de construção (mais de 500 páginas) do livro-modelo, descoberta por Agamben na Biblioteca Nacional Francesa em 1981 e publicada por ele agora. Dos 4.234 fragmentos do Grande Arquivo, Benjamin selecionou 1.745, resumindo cada um deles em uma linha e agrupando-os em 30 categorias construtivas.

A parte 1 do livro seria intitulada "Baudelaire como Poeta Alegórico". Benjamin, que concebeu a alegoria como um procedimento de desmontagem, destruição e fragmentação, mostra como Baudelaire substitui as visões harmoniosas de Paris por imagens de sua caducidade. A parte 3 do livro seria chamada "A Mercadoria como Objeto Poético". A partir desse fetiche do capitalismo –"Exposições universais são os locais de peregrinação ao fetiche da mercadoria"– é desenvolvida uma reflexão crítica sobre a modernidade, na qual todos nós nos tornamos mercadoria.

Dessas partes inicial e final do livro existe apenas um conjunto de 45 fragmentos de redação, com o título "Parque Central" (1974, edição brasileira de 1985), uma alusão a Nova York, para onde o autor tinha a intenção de emigrar.

Benjamin decidiu começar a escrita do livro-modelo pela parte 2, intitulada "A Paris do Segundo Império em Baudelaire". A protagonista passou a ser a metrópole, com os textos do poeta como "medium" para registrar as sensações que ela provocava nos habitantes. Essa parte central do livro, que ficou pronta em setembro de 1938, é subdividida em três capítulos:

O capítulo inicial, "A Bohème", focaliza a sociedade parisiense a partir do ambiente político e do mercado literário, com destaque para a importância crescente dos meios de comunicação de massas.

No capítulo do meio, "O Flâneur", Benjamin acompanha essa figura emblemática, precursora do escritor-jornalista moderno, que observa a multidão nas ruas e nas galerias de compras ou passagens.

Ao retratar a sociedade do Segundo Império, procura entender em que medida um certo tipo de mentalidade ressurgiu na República de Weimar (1919-33), quando a pequena burguesia e as massas se tornaram clientes oportunistas da demagogia "nacional socialista", no processo político que levou à ditadura do Terceiro Reich.

O capítulo final, "A Modernidade", procura sintetizar as experiências da política burguesa autoritária na França durante as décadas de 1830 a 1870: "O século 19 não soube corresponder às novas possibilidades tecnológicas com uma nova ordem social. Assim se impuseram as mediações falaciosas entre o velho e o novo. O mundo dominado por essas fantasmagorias é a modernidade".

Adorno criticou nesses três capítulos "a falta de mediação teórica" e as "montagens em forma de choque". Por exemplo, o modo de Benjamin confrontar os reclames do conforto do apartamento burguês com a situação dos moradores de rua. Com isso, "A Paris do Segundo Império..." foi recusado para publicação na revista do Instituto de Pesquisa Social.

Benjamin reescreveu o texto, concentrando-se no capítulo "O Flâneur", do qual resultou o artigo "Sobre Alguns Temas em Baudelaire" –título que tem uma conotação de dissolução.

Terminado em agosto de 1939, esse acabou sendo o único texto das "Passagens" que ele viu publicado em vida. Logo depois irrompeu a Segunda Guerra Mundial e, em junho de 1940, a França foi invadida pelas tropas alemãs. A tentativa de fuga de Benjamin terminou, como se sabe, em setembro do mesmo ano com o seu suicídio. Em sua memória, o Instituto publicou em 1942 as chamadas "Teses sobre o Conceito de História", redigidas no início de 1940.

Assim, o grande projeto das "Passagens", do qual fazem parte os escritos e esboços sobre Baudelaire, ficou inacabado, e os estudiosos ainda aguardam uma edição que reproduza fielmente todos os seus elementos constitutivos.

Como Benjamin propôs nas teses, trata-se de organizar a história a partir dos momentos de perigo.

Foi o que ele fez com a sua própria obra em termos de estratégia de escrita. Devido às referidas vicissitudes, ele não pôde concluí-la. Mas ele respondeu a essa fragmentação contingente com uma fragmentação construtiva.

Diante dessa obra toda estilhaçada, o leitor é incentivado a tornar-se um colaborador ativo. A partir da "desordem produtiva" deixada por Benjamin nós mesmos devemos montar o retrato da modernidade: a de Paris no século 19 e a do nosso aqui e agora.

Gal Costa - Antonico (Ismael Silva)

Carlos Drummond de Andrade - Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

domingo, 9 de agosto de 2015

Opinião do dia – Aécio Neves

“Não quero antecipar cenários. Mas o governo estabeleceu a mentira como método. A presidente da República não vai conseguir resgatar as condições de governabilidade, pelo menos enquanto não tiver a coragem de vir a público reconhecer sua parcela de responsabilidade pelos sofrimentos que esta crise está impondo aos brasileiros. Quanto mais insistir em falsear a verdade, atribuindo os problemas à crise internacional ou ao agravamento da seca, mais distante estará de recuperar essas condições. Em política, o ativo mais precioso é o tempo. E o PT perdeu esse tempo.”
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Aécio Neves é senador (MG) e presidente nacional do PSDB, em entrevista na revista Veja

Vice abriu caminho com estilo conciliador

• Com fama de 'bombeiro', Temer foi alçado ao centro das especulações sobre uma eventual substituição de Dilma

• O inusual tom emotivo de sua fala sobre a necessidade de 'alguém' para unir o país causou impacto no governo

Andréia Sadi, Gabriel Mascarenhas – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Michel Miguel Elias Temer Lulia, 74, chegou a um paradoxal ápice de carreira. Vice num governo sob risco, o peemedebista com fama de "bombeiro" se vê no centro das especulações sobre uma eventual substituição de Dilma Rousseff na Presidência.

Foi dele a frase que disparou a bolsa de apostas políticas. Foi quando o vice-presidente falou sobre a necessidade de "alguém" unir o país.

A amigos, Temer diz que a crise instalada desde a reeleição de Dilma, que começou econômica e logo virou política, a deixou com uma margem de manobra muito estreita.

Para o vice –visto por dilmistas como quem está "se colocando" para a vaga da chefe–, hoje tudo depende da petista para se recuperar. Ele não vê no entorno dela, porém, um plano viável para tal.

O paradoxo Temer começa em 2010, eleito vice de Dilma sob os auspícios de Lula.

Se Lula botou o empresário José Alencar na vice para aplacar temores do mercado, Dilma teria Temer para garantir a estabilidade política representada pelo PMDB.

No primeiro mandato, funcionou; Temer virou uma peça decorativa. Não foi ouvido quando Dilma propôs uma Constituinte exclusiva para reforma política após os protestos de junho de 2013, a que ele se opunha historicamente –a ideia não avançou.

Antes, era apelidado por aliados de Dilma de "aspirador de pó": só era usado para limpar sujeira, confusões com o PMDB. Que, à época, quando Dilma surfava em popularidade, eram pontuais.

No início de 2013, Temer foi peça central de um episódio capital. Ele bancou, contra a vontade de Dilma, a eleição de Eduardo Cunha para a liderança do PMDB na Câmara. Informado de que Cunha ganharia de Sandro Mabel (GO), disse a Dilma que sua vitória não seria problema e que poderia controlar o explosivo deputado fluminense.

Eleito, Cunha começou a dar dor de cabeça, como na votação da medida provisória dos portos. Dilma cobrou Temer, que tentou neutralizar o deputado, mas admitiu que não era possível. Isso é visto por rivais, hoje, como um jogo combinado.

Reeleita, Dilma tentou barrar a ascensão de Cunha à presidência da Câmara, em fevereiro. Não teve sucesso. Desde então é frequentemente humilhada em plenário por ele.

O clima azedou de vez quando Cunha e o presidente reeleito do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foram apontados como implicados no petrolão. Ambos passaram a acusar o governo de influenciar procuradores contra eles.

Articulador
Temer foi então escalado por Dilma para tentar driblar a crise instalada. Virou articulador político do governo.

Sua fama de "bombeiro" é antiga. Em 1992, a PM paulista matou 111 presos em uma rebelião no Carandiru. Com o escândalo, o então governador Fleury Filho entregou a cabeça do secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos.

Convocado para o cargo que já ocupara, Temer conseguiu apaziguar os ânimos na tropa e reduzir a letalidade.

Até aqui, seu sucesso foi relativo na nova missão, com a aprovação de medidas de ajuste fiscal no primeiro semestre. Não conseguiu, contudo, pacificar as Casas, em especial a Câmara de Cunha.

Rivais dizem que ele, Cunha e Renan alternam as posições de pacifistas e incendiários para manter o Planalto sob pressão controlada.

O agravamento da crise e a nanica aprovação de Dilma, 8%, deu a Temer outro protagonismo. Ele começou a ser visto como um fiador de estabilidade em caso de ruptura.

Sempre que abordado a respeito, Temer rejeita o impeachment. Teme a pecha de traidor. Não significa que as articulações não ocorram.

Suas conversas com o senador José Serra (PSDB-SP) deram margem à conclusão de que o tucano, visando cacifar-se para 2018, seria uma espécie de superministro num eventual governo Temer.

Pessoas próximas aos dois negam. Amigos do vice lembram que ele conversa usualmente com outros caciques da oposição, como o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP).

Aliados ressaltam o legalismo de quem é visto como referência no direito constitucional –ele é professor da PUC de São Paulo.

"Temer está fazendo tudo que pode para ajudar. Mas, se for impossível, vamos ver no que vai dar'', diz um aliado, revelando um pouco o espírito do momento.

Em público, Temer tem se pronunciado de forma ambígua. Já disse que Levy seria seu ministro se fosse presidente, ressalvando quase inutilmente o "em 2018".

Pela frieza, o vice já foi chamado pelo político baiano Antônio Carlos Magalhães de "mordomo de filme de terror". O tom emotivo de sua fala sobre o tal papel unificador assustou o governo.

Ele foi se explicar com Dilma. Pôs o cargo de articulador à disposição, ouviu um peremptório "Michel, você fica".

Paulista de Tietê, de família católica maronita do norte do Líbano, pai de cinco filhos e casado com a jovem Marcela, 32, Temer ficou.

Temer assume papel de fiador da gestão Dilma e preocupa cúpula do PT

Alberto Bombig e Erich Decat - O Estado de S. Paulo

• Movimentação do vice, que tem conversado com empresários e líderes da oposição, estimula dirigentes petistas a suspeitarem que ele esteja se colocando como ‘alternativa de poder’

BRASÍLIA - O vice-presidente Michel Temer decidiu assumir na prática o papel de fiador da gestão Dilma Rousseff no governo federal. Em conversas recentes com empresários e aliados políticos, o peemedebista demonstrou estar convicto de que qualquer caminho de saída da crise passa necessariamente por ele e pelo partido que comanda.

A decisão de Temer é uma inflexão na maneira como ele vinha encarando o desenrolar da crise. Até meados do mês passado, o vice acreditava que Dilma tinha plenas condições de enfrentar sozinha o desgaste e não aceitava nem sequer falar sobre a possibilidade de um processo de impeachment dela.

Em público, Temer continua refratário em relação à possibilidade de afastamento da presidente, mas, reservadamente, diz estar convencido de que o perigo é real e imediato e precisa ser combatido.

Nos últimos dias, Temer fez movimentos na tentativa de emergir do atual cenário como uma espécie de fiador da presidente. Mas, conforme um de seus aliados, a movimentação do vice também tem como horizonte uma tentativa de se “preservar” como alternativa de poder caso Dilma seja impedida de concluir o mandato.

Enquanto o PT e Dilma insistem em atacar a oposição como forma de sair de crise, o plano de Temer envolve uma concertação entre empresários, partidos da base aliada e também alas importantes do PSDB, principal adversário dos petistas. Com esse arranjo, o vice acha ser possível preservar o ajuste fiscal em curso no Legislativo e pacificar os ânimos de deputados e senadores. Para isso, Temer espera contar com a ajuda do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e também com a oposição.

O vice procura evitar o tema, mas a hipótese de ser uma alternativa de poder é vista como algo concreto entre representantes da legenda. Tanto que alguns peemedebistas intensificaram as conversas com lideranças da oposição na última semana, quando as pesquisas de opinião registraram impopularidade recorde da presidente. Aliado de Temer, o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, o ex-ministro Moreira Franco, almoçou na segunda-feira com o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), um dos mais próximos do presidente nacional dos tucanos, senador Aécio Neves (MG).

“Foi uma conversa de análise de cenários. O PMDB e PSDB são dois grande partidos e temos que conversar para construir alternativas. O que defendemos é que o caminho de uma mudança passe pela sociedade”, afirmou Pestana ao Estado. “Essa foi apenas mais uma das centenas de conversas que estão acontecendo.”

O próprio Temer esteve em São Paulo, em solenidade no Palácio dos Bandeirantes, com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Ambos mantém um bom relacionamento e têm no secretário Alexandre de Moraes (Segurança), do PMDB, um canal aberto.

Ajuste. Com Renan, o vice tem conversado constantemente no intuito de acelerar a aprovação das medidas de ajuste fiscal paradas no Senado. Qualquer que seja o desfecho da crise política, ele acredita que o desgaste do ambiente econômico e um aumento no rombo das contas públicas só vão acirrar a tensão social no País.

Segundo políticos que privam do convívio com o vice e com o presidente do Senado, Renan tem se mostrado “sensível” aos apelos. Ainda nesse aspecto econômico, Temer acionou seus contatos no meio empresarial em busca de respaldo para se movimentar, com ou sem a autorização formal de Dilma. Recebeu sinal verde da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

As dificuldades do vice-presidente estão na Câmara, onde seu aliado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) declarou guerra ao governo Dilma e está sob ameaça de ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal como receptor de propina do esquema de corrupção da Petrobrás.

Se Cunha não resistir no cargo, Temer tentará emplacar no posto o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), considerado um moderado e totalmente fiel ao vice-presidente. Se Cunha seguir na presidência da Casa, a solução será reagregar a base aliada para enfrentá-lo no trabalho de desarmar a chamada “pauta-bomba”.

Alerta. Apesar do discurso conciliador em relação ao PMDB, parte da direção nacional do PT está convencida de que o vice-presidente já embarcou no movimento pelo impeachment de Dilma. Para alguns cardeais petistas, a entrevista dada por Temer na quarta-feira, quando disse que o Brasil precisa de “alguém que tenha capacidade de reunificar” o País não foi fruto de um ato falho, mas de um cálculo político. Na opinião de parte da cúpula do PT, as explicações dadas pelo vice depois da repercussão da entrevista não colou e as notícias sobre a aproximação do peemedebista com o senador José Serra (PSDB-SP) são um motivo a mais para desconfiança.

Segundo eles, se as manifestações de rua contra Dilma marcadas para o dia 16 forem contundentes e o Tribunal de Contas da União (TCU) reprovar as contas da presidente, será “uma questão de semanas” até o vice apear do governo petista levando junto o PMDB.

Em imediata reação ao protagonismo de Temer, ministros do PT iniciaram um movimento interno no governo na tentativa de minar a ação do vice e devolvê-lo ao papel de negociador do chamado balcão do governo, composto pela liberação de emendas e nomeações de segundo escalão. A estratégia da reação também inclui intensificar a aproximação de Dilma com Renan sem passar pela mediação de Temer. (Colaborou Ricardo Galhardo)

Dilma e Cunha duelam em campo minado

José Casado – O Globo

• Ela se mostra perdida no labirinto do próprio legado e ele usa a pauta de votações da Câmara como arma

• Cunha organiza uma nova maioria legislativa, a dos adversários de Dilma. A presidente perdeu espaço para desfazer a trama em que enredou a economia

A crise cultivada nesta temporada de seca em Brasília tem nome, Dilma, e sobrenome, Cunha.
Ela completou sete meses no Palácio do Planalto perdida no labirinto do próprio legado, construído em parceria com Lula.

Do outro lado da rua, no Congresso, ele escolheu atirar com a arma de maior calibre que um presidente da Câmara dispõe: o controle da pauta de votações.

Atingido por denúncias de “crimes infamantes” — aqueles que desonram, rebaixam, aviltam e causam repulsa, segundo os manuais de Direito —, o deputado fluminense mostrou-se acuado. E apostou no confronto institucional como método para ofuscar seu protagonismo nas investigações sobre corrupção na Petrobras.

Cunha passou a liderar a organização de uma nova maioria legislativa, a dos adversários de Dilma. Até agora, a alquimia parlamentar permitiulhe catalisar sentimentos antigoverno em todos os partidos, inclusive no PT de Lula e Dilma.

Foi assim que numa simbólica votação, quartafeira, surpreendeu a presidente. Ela ficou com apenas 16 dos 400 votos governistas na Câmara.

O governo perdeu a bússola do Legislativo. No plenário na Câmara estavam 59 deputados petistas. Desses, 56 votaram contra Dilma. Somaramse ocasionalmente à oposição dispersa, cuja melhor proposta se resume à convocação de "novas eleições" — como pregam os líderes do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, e no Senado, Cássio Cunha Lima, alinhados ao senador Aécio Neves.

Essa exortação às eleições presidenciais antecipadas pode até ser útil para incentivar protestos, como os previstos para o próximo domingo. No entanto, soa delirante num país cuja Constituição impõe o regime presidencialista, com mandato de quatro anos e só passível de interrupção por morte, renúncia ou impeachment. Se o governante exerce as funções, a Carta reserva aos descontentes a alternativa de uma longa, tortuosa e imprevisível rota processual para o impeachment, na qual o Congresso submete-se ao império do Supremo.

Dilma e Cunha escolheram se confrontar em campo minado.

O governo tem sido reprovado por sete em cada dez eleitores, nas pesquisas, porque ela prometeu na campanha, faz o contrário no Planalto e, diante das consequências, refugia-se no imobilismo.

Quando decide se mover, produz lances de nonsense, como o elogio à mandioca ou a autorização ao vice, Michel Temer, para clamar em público por "alguém" com "capacidade" de pacificar a política e recuperar a economia.

A mensagem atrapalhada foi decodificada no Congresso de duas formas. Na versão benigna, o vice começou a dança de despedida da coordenação política. Na outra, exibiu-se com o compasso e o esquadro do moderado constitucionalista de 74 anos de idade, com meio século de parlamento, três vezes presidente da Câmara e segundo na linha sucessória republicana.

Desmentidos, na quinta e sexta-feira, só contribuíram para realçar o óbvio. Ou seja, a presidente perdeu a liderança no Legislativo. Em consequência, encurtou a margem de manobra para desfazer a trama em que ajudou a enredar a economia.

Dilma criou uma situação inédita. Em todas as crises recentes, o fator externo foi preponderante. Agora, ele está neutralizado por reservas razoáveis (mais de US$ 300 bilhões). Porém, o desarranjo nas contas públicas domésticas aumentou a inflação e o desemprego industrial.

A desordem resulta de uma década de gastos acima da receita, e com pagamentos adiados. As despesas realizadas e não pagas cresceram 45% no primeiro governo Dilma. Somam R$ 227 bilhões — seis vezes mais que a poupança governamental prevista em 2015 para pagar os juros da dívida pública (o chamado superávit primário).

Nas capitais e cidades médias, onde está a maior parte do eleitorado, prevalece a percepção da escalada inflacionária e do desemprego industrial. As demissões nas fábricas traduzem a decadência da indústria brasileira, a despeito do samba-exaltação governamental sobre sua regeneração na década que passou. Ela fica mais visível quando se observa a participação do setor na composição do Produto Interno Bruto (conjunto dos bens e serviços produzidos no país).

A fatia da indústria no PIB encolheu para pouco mais de 12%, conforme dados da Federação das Indústrias de São Paulo. Significa, proporcionalmente, retrocesso ao estágio de desenvolvimento que o Brasil possuía há 60 anos, quando o governo Juscelino Kubitschek lançou um plano para industrialização do Sudeste. Na década anterior a JK, quando o país era essencialmente rural, a embrionária indústria já contribuía com 11,3% do PIB.

Entre Lula e Dilma ( 2004 a 2012), a participação do setor industrial no PIB caiu 30,8%, diz a Fiesp: "Se o cenário não se alterar, em 2029 a indústria vai representar apenas 9,3% do PIB."

Foi sobre esse terreno instável que o deputado Cunha escolheu assentar baterias contra o governo, acelerando votações de contas, de pedidos de impeachment e de aumentos de gastos.

Ele culpa Dilma por suas agruras no inquérito sobre corrupção na Petrobras, tanto quanto se diz perseguido pelo procurador Rodrigo Janot e pelo juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba.

Queixou-se do juiz ao Supremo, mês passado, porque foi citado por Júlio Camargo, agente de subornos a políticos. Depondo em Curitiba, Camargo disse que deu uma propina de US$ 5 milhões ao deputado Cunha para garantir a contratação de dois navios-sonda pela Petrobras.

O juiz respondeu, segunda-feira: "A mera referência ao nome do titular do foro (em Brasília) não o torna acusado do processo (em Curitiba)." Complementou: "Aliás, o acusado Júlio Camargo declarou que, previamente à audiência (em Curitiba), teria prestado depoimento (em Brasília) relatando em detalhes o envolvimento do deputado".

O destino de Cunha começa a ser definido nos próximos dias quando a Procuradoria Geral decide se vai denunciá-lo. Havendo denúncia, o Supremo julga se abre processo. Se processado, o presidente da Câmara estará prisioneiro de duas batalhas simultâneas: uma contra a presidente, outra pela própria sobrevivência na política.

Líderes do PMDB buscam apoio para fortalecer Temer

• Aliados tentam criar condições para vice governar se desfecho da crise levar a afastamento de Dilma Rousseff

• Romero Jucá é apontado como um entusiasta da articulação; na BA, Geddel divulgou vídeo pedindo impeachment

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Líderes do PMDB começaram a trabalhar em várias frentes na última semana para dar ao vice-presidente Michel Temer condições de governar se o aprofundamento da crise política em que o governo Dilma Rousseff mergulhou levar ao afastamento da presidente antes da conclusão do seu mandato.

Os articuladores desse movimento estão em busca de apoio do empresariado e começaram a dialogar com líderes da oposição, numa tentativa de construir um caminho político que aponte Temer como alternativa mais segura para superar a crise.

Os aliados de Temer admitem que esse movimento ainda não está maduro, mas acreditam ter colhido uma primeira resposta positiva na quarta-feira (5), quando as federações estaduais das indústrias de São Paulo e Rio expressaram publicamente apoio ao vice, um dia depois de ele fazer um apelo por união para superar a crise.

Um dos responsáveis pela iniciativa, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, é filiado ao PMDB e comemorou seu aniversário em um almoço com Temer na sexta (7).

No campo político, tanto petistas que estão no governo como nomes da oposição apontam o senador Romero Jucá (PMDB-RR) como um dos entusiastas e artífices da articulação pró-Temer.

Na terça (4), Jucá participou de reunião entre líderes de PMDB e PSDB. Segundo relatos de três participantes, deixou evidente que não vê mais saída para a crise com Dilma no Planalto.

Ministros próximos à petista temem que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) também embarque no movimento pró-Temer, o que poderia enfraquecer ainda mais a presidente.

Políticos que estiveram com Renan na última semana disseram que ele ainda adota postura muito cautelosa e se diz disposto a colaborar com o governo, barrando ações da Câmara que ameacem o ajuste fiscal.

Enquanto líderes do Congresso tratam do assunto com reserva, aliados de Temer fora de Brasília têm assumido atitude mais agressiva. Amigo do vice, o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) reproduziu nas redes sociais vídeo que diz que "o impeachment de Dilma Rousseff só depende do PMDB".

O locutor do vídeo afirma que "o povo" quer que o PMDB escolha entre os "comparsas petistas" ou "o Brasil". "O PT quebrou o Brasil. O PMDB só tem uma escolha. Impeachment, já." O filme foi noticiado pelo colunista do UOL Josias de Souza.

Sempre que aborda o assunto publicamente, Temer desautoriza esse tipo de ação e afirma que trabalha pela governabilidade com Dilma.

"Ele não conspira e não pode parecer que faz isso", diz um aliado. "Ele precisa ser naturalmente visto pelos políticos, pela sociedade e pelo empresariado como único agente capaz de reagrupar o país, e a pecha de conspirador não cabe nesse cenário."

Nesta semana, Temer fez o movimento mais explícito desde o início da crise, ao falar em união nacional.

Ao saber que ministros próximos a Dilma avaliaram que seu gesto contribuiu para enfraquecer a presidente, Temer disse que poderia entregar o cargo de articulador político do governo, o que não foi aceito por Dilma.

No PT, decidiu-se que ele não será atacado publicamente, mas há uma operação em curso para reduzir o espaço de atuação do vice, estimulando agentes do PT a também dialogar com deputados da base sobre cargos e recursos para projetos em seus redutos eleitorais.

No PSDB, a reação ao avanço da operação pró-Temer veio da boca de aliados do senador Aécio Neves (MG). Os líderes da sigla no Congresso convocaram a imprensa, sem consultar os colegas de bancada, para indicar que não aceitarão compor com o vice.

Um risco para o movimento pró-Temer é o avanço da Operação Lava Jato. Apontado como o elo entre a corrupção na Petrobras e caciques do PMDB, o lobista Fernando Baiano começou a negociar um acordo de delação.

Aliados de Temer dizem que ele não tem preocupação pessoal com o assunto, mas acham que o vice pode sair chamuscado se revelações atingirem a cúpula do PMDB. Renan, Jucá e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), são investigados

Enfrentamento vira tática oficial anti-impeachment

Erich Decat - O Estado de S. Paulo

• Discurso de confronto adotado por Dilma segue linha lançada pelo PT na TV; para partido, aceno à oposição soaria como ‘fragilidade’

BRASÍLIA - O discurso de confronto direto adotado pela presidente Dilma Rousseff e pela cúpula do PT contra setores da oposição a favor do impeachment da petista será a tônica para tentar tirar o governo das cordas e constranger os adversários. Dilma seguiu o script traçado na última semana e pôs em prática um tom mais duro contra as ameaças de seu afastamento do Palácio do Planalto ao participar anteontem da entrega de 700 casas do Programa Minha Casa Minha Vida, em Boa Vista, capital de Roraima.

“A primeira característica de quem honra o voto é saber que ele é a fonte de minha legitimidade e ninguém vai tirar essa legitimidade que o voto me deu”, afirmou a presidente numa referência indireta às lideranças do PSDB que defenderam durante a semana a realização de novas eleições. Na quinta-feira, em Brasília, os líderes tucanos na Câmara, Carlos Sampaio (SP), e no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), defenderam o impeachment de Dilma e do vice-presidente Michel Temer para a convocação de uma nova disputa eleitoral.

As declarações de Dilma ocorreram um dia após a petista convocar reunião com integrantes da coordenação política do governo para tentar encontrar alternativas para contornar o pior momento da relação com a base aliada no Congresso e fazer um “plano de ação” contra as investidas dos opositores.

Segundo o Estado apurou, no encontro, foi feito o relato de que integrantes da base aliada e do próprio partido refutaram a iniciativa do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, de fazer afagos a opositores. Em audiência realizada na última quarta-feira, na Câmara, o ministro admitiu que o governo cometeu erros e pediu apoio da oposição. “Vocês têm experiências importantes na administração de Estados e do Brasil e precisamos ter pactos de política de Estado que vão além do governo”, disse Mercadante.

De acordo com um interlocutor de Dilma, a postura adotada por Mercadante ressaltou a ideia de fragilidade do Palácio do Planalto num momento em que é necessário uma reação diante das manifestações da oposição a favor de novas eleições presidenciais.

Imagens. Em outra linha de ação, o PT voltou a usar em seu programa partidário, que foi ao ar em cadeia nacional de TV na quinta-feira, o tom e a fórmula da campanha eleitoral de atacar a oposição e até ironizou os panelaços dos quais Dilma e o partido são vítimas em aparições televisivas. Também mostrou imagens de adversários - os senadores Aécio Neves (PSDB-MG), Ronaldo Caiado (DEM-GO), José Agripino Maia (DEM-RN) e dos deputados Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Paulo Pereira da Silva (SD-SP). Os petistas pouparam, entretanto, outros líderes da oposição como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o senador José Serra (PSDB-SP).

Ambos não têm militado pelo afastamento imediato de Dilma. Diante das atuais circunstâncias, Aécio Neves seria o principal beneficiado numa eventual nova eleição antes de 2018, quando o próprio Alckmin e Serra poderão disputar a vaga para a disputa presidencial dentro do PSDB.

Economia. Embora a presidente Dilma Rousseff e a cúpula do PT tenham colocado em prática uma linha de ação de enfrentamento em relação ao impeachment, há ainda grande preocupação com a condução das atividades no Congresso, onde lideranças da base aliada têm aplicado uma série de derrotas ao governo. Entre as preocupação de parte da coordenação política está a criação de pautas na área econômica que possam apontar um caminho para a saída da atual crise.

Há o entendimento de que o Executivo não tem uma pauta explícita para a retomada da economia, o que é considerado elemento fundamental para se retomar o equilíbrio na relação com os aliados descontentes. “Quem destaca crise, quer crise”, resume um ministro próximo à presidente.

Às vésperas de mais um protesto, a busca por uma rede de apoio

Vera Rosa - O Estado de S. Paulo

• Antes acuada, a presidente Dilma Rousseff agora irá para o enfrentamento político e usará a tática do medo para defender o mandato

A uma semana dos protestos contra o governo, a presidente Dilma Rousseff vai adotar nova estratégia para sair da crise. Antes acuada, Dilma agora irá para o enfrentamento político e usará a tática do medo. A ideia é defender o mandato pelo País, como fez anteontem em Roraima, e dizer que quem aposta em solução fora do script eleitoral põe em risco a estabilidade da economia.

Dilma pretende construir uma frente de apoio - formada por governadores, empresários, representantes da academia, dos movimentos sociais e parlamentares - para proteger o governo das ameaças de impeachment. Trata-se de mais um gesto simbólico para mostrar que não está isolada.

Ministros do PT têm conversado não apenas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas com políticos influentes da fraturada base aliada e até do PSDB. Aos tucanos que têm dúvidas sobre a conveniência de apoiar o afastamento de Dilma, o argumento dos petistas é o de que, se vencer as eleições de 2018, o PSDB não vai querer receber um País dividido, com ódio político e a economia em frangalhos.

A estratégia do Planalto é mostrar que um possível processo de impeachment terá sérias consequências no ambiente econômico, dificultando investimentos e ampliando as incertezas sobre o Brasil no cenário internacional.

Ao se reunir com a presidente e outros colegas de Esplanada, na quinta-feira, um ministro usou uma imagem sombria para resumir a tempestade perfeita que ataca o governo. “É como se a gente estivesse num túnel escuro, sem gordura para queimar”, disse.

Apesar de ter iniciado consultas para a reforma ministerial, Dilma não definiu as mudanças na equipe. Articulador político do governo, o vice-presidente Michel Temer, que comanda o PMDB, está sem munição suficiente para atender aos apelos da base, mas, por enquanto, continuará com a mesma tarefa.

Após uma derrota atrás da outra na Câmara presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o governo promete acelerar a liberação de cargos e emendas parlamentares, mas tem esbarrado no ajuste fiscal. Em conversas reservadas, ministros políticos argumentam que, para o ajuste não naufragar, o titular da Fazenda, Joaquim Levy, precisa “abrir a mão”.

Até o PC do B, que apoiou o PT em todas as campanhas presidenciais, está insatisfeito com o governo. “O modelo da base de apoio da presidente no Congresso faliu”, disse o deputado Orlando Silva (PC do B-SP), vice-líder do governo e ex-ministro do Esporte. “Ou o governo faz uma rearrumação ou não há saída. Não se trata só de reforma, mas de mudança no padrão de relacionamento. Não dá ministro que representa um partido não ter autoridade em relação à bancada do partido.”

Isso foi o que mais se viu na última semana, na volta do recesso parlamentar. “Vocês deixaram Temer sobrecarregado e lavaram as mãos”, esbravejou Dilma, em conversa com ministros petistas, reclamando da falta de “marcação” sobre o Congresso.

Antes da votação que reajustou salários de advogados públicos e de outras carreiras, na madrugada de quinta, a Secretaria de Relações Institucionais disparou e-mail para 20 ministros de partidos diferentes com os nomes dos deputados que haviam se posicionado contra a retirada da proposta da pauta. Era uma tentativa de fazer com que eles pressionassem os parlamentares, mas não adiantou.

Agora, Dilma vai tentar derrubar a pauta que aumenta os gastos do governo no Senado. É na Casa comandada por Renan Calheiros (PMDB-AL) que ela aposta para evitar o impeachment. A Operação Lava Jato e as CPIs na Câmara são tormentas na vida do governo, mas o perigo real e imediato será medido pela temperatura das ruas no 16 de agosto.

Dilma convoca ministros, que cobram cargos e corte de pastas

Por Simone Iglesias – O Globo

• Encontro deste domingo é tratado como ‘hora da verdade’ por aliados da presidente

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff reúne neste domingo a coordenação política do governo para discutir o esfacelamento da base e o agravamento da crise política na última semana. O tom da discussão foi antecipado no sábado por integrantes do núcleo da coordenação política do governo, que classificam o encontro como “a hora da verdade” para a presidente. Ela convocou o vice, Michel Temer, e os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), José Eduardo Cardozo (Justiça), Eliseu Padilha (Aviação Civil), Nelson Barbosa (Planejamento), Jaques Wagner (Defesa) e Edinho Silva (Comunicação Social), para encontro no Palácio da Alvorada a partir das 19h. A reforma e a redução do número de ministérios também serão discutidos.

— Há como fazer uma recomposição, mas o governo tem que cumprir o que promete aos aliados. Chegou a hora da verdade. Não dá mais para fingir que dá o que promete, mas no fim das contas, não dá. Não pode prometer mais nada se não vai cumprir — disse um ministro da coordenação política ao GLOBO.

O encontro foi antecipado porque a presidente tem compromisso no Maranhão, segunda-feira: uma cerimônia de entrega de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida.

Dilma vem recebendo sugestões de cortar pastas, como forma de sinalizar que está empenhada na contenção de gastos, e de fazer mudanças na estrutura dos ministérios, para melhor representar aliados. Na última quinta-feira, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), se reuniu com Dilma e voltou a pedir o enxugamento do número de pastas. Uma mudança vista como importante para a melhora das relações seria a saída de Mercadante da Casa Civil. Apesar de peemedebistas, petistas e o ex-presidente Lula defenderem seu afastamento, dentro do governo a saída é considerada praticamente impossível neste momento.

— Mercadante não sai — disse ao GLOBO um ministro.

A explicação é que, além de Dilma não abrir mão do auxiliar, Mercadante se tornou imprescindível por, na definição de integrantes do núcleo político, dominar muitas informações da administração.

Segundo um auxiliar presidencial, apesar da redução de ministérios ter pouco impacto nas finanças, a medida seria importante para fora do governo, um aceno à sociedade. Por outro lado, disse o assessor, uma reforma que desse mais poder aos aliados somada à troca de ministros não políticos e sem padrinhos por nomes mais expressivos dos partidos poderia aproximar a base.

— O problema do PDT (por exemplo) não é que ele saiu do governo. Ele nunca entrou. O partido tem apenas o ministro do Trabalho (Manoel Dias) nomeado. As demais secretarias são do PT. O mesmo ocorre com o PRB no Ministério do Esporte. Há muita reclamação dos aliados quanto a isso. Desta forma, fica realmente difícil — exemplificou um ministro.

Apesar do diagnóstico e dos recorrentes pedidos de mudança, há ceticismo entre ministros de que essas trocas ocorram imediatamente. A equação de reforma e redução de ministérios não é fácil de ser feita. Com o governo fragilizado e a relação com os partidos aliados deteriorada, cada mudança poderá gerar um novo conflito.

— Há mais clima para reforma do que para redução de ministérios. E assim mesmo tem que ser feita de maneira cirúrgica para evitar ainda mais problemas com os aliados — disse um integrante do governo.

Além do debate sobre a redução de ministérios, há apelo de petistas e peemedebistas para que Lula assuma algum cargo no governo. Uma
pessoa próxima ao ex-presidente descartou a ideia. Segundo a fonte, após deixar o governo, Lula nunca quis voltar como auxiliar.

PT avalia reconhecer erros éticos para estancar crise

A hora do mea-culpa

• Cúpula do PT já admite que reconhecer erros do partido é a única saída

• Ideia do mea-culpa cresce entre petistas históricos, diante de crise da legenda

Por Catarina Alencastro, Tatiana Farah – O Globo

BRASÍLIA, SÃO PAULO E RIO - Em busca de uma saída para o labirinto de denúncias, desacertos e paralisia que assombra o PT, cresce dentro da cúpula do partido a tese de que é preciso admitir que a legenda cometeu erros e reconhecer, inclusive, que desvios éticos e morais foram praticados por companheiros importantes, como José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil de Lula. Embora a ideia do mea-culpa não conte com o apoio unânime dos petistas, tampouco está concentrada em personagens isolados. A estratégia é vista por gente da cúpula do PT como condição de sobrevivência do partido.

Um ministro petista diz que não é possível ignorar a inteligência dos militantes e da população sobre o que vem sendo revelado nas investigações de corrupção ocorridas na Petrobras e que levaram Dirceu à prisão pela segunda vez. O ex-tesoureiro do partido João Vaccari também foi preso pela Lava-Jato. E, na era Lula, o então tesoureiro Delúbio Soares e o ex-presidente do partido José Genoino, assim como Dirceu, sucumbiram sob o mensalão.

— Estamos com o ex-ministro da Casa Civil preso, o ex-tesoureiro do partido preso. Já tivemos outro tesoureiro preso. Se não fizermos autocrítica, não vamos conseguir reconstruir o PT — afirma.

Segundo esse ministro, isso deveria ser o principal foco do partido neste momento. A visão não tem apoio do presidente do PT, Rui Falcão, que seria refratário devido aos efeitos da admissão de responsabilidade sobre os malfeitos cometidos no passado recente por alguns integrantes ilustres da legenda. Um petista histórico diz que os companheiros de partido vivem um misto de medo, decepção e irritação. A curto prazo, os desdobramentos da Lava-Jato e a manifestação de 16 de agosto são alguns fantasmas que os assombram.

A prisão de Dirceu por suspeita de enriquecimento pessoal e ilícito levou boa parte das forças e da confiança que os petistas tinham nos seus correligionários. Trouxe ainda decepção para os que ainda acreditavam no discurso de que a investigação estava sendo turbinada por forças que nutrem ódio histórico contra o partido, como a “mídia golpista”, tão falada em discursos inflamados de Lula.
— Eu me arrependo de não ter gritado: “Zé, não pode misturar o público com o privado. Não pode se locupletar” — disse um petista histórico ao GLOBO.

Sentimento de traição
Esse petista lamenta que esse tipo de atitude e a corrupção revelada pelas investigações estão “quebrando todo o projeto do PT” e jogando lama no legado de redução da pobreza e outras marcas do governo Lula. Mudar a política econômica e reatar com os movimentos populares são outras estratégias que têm sido discutidas no seio do PT. A perspectiva hoje, no entanto, é que a recuperação tanto do governo quanto da legenda só virá no próximo ano, quando há expectativa de melhora da economia.

Enquanto isso, o fosso entre PT e governo aumenta. Há menos de 2 meses, o ex-presidente Lula afirmou em reunião com religiosos que a presidente Dilma havia feito promessas que não cumpriu, que prometeu não mexer nos direitos trabalhistas e mexeu. Esse sentimento de traição, demonstrado por setores da sociedade que a apoiaram no 2º turno, é o mesmo nos bastidores do partido.

Em vista desse quase divórcio, dirigentes falam, em algumas ocasiões e sempre a sete chaves, que o melhor seria a presidente renunciar antes de atravessar um processo de impeachment, algo que, avaliam, ela não executará. Para esses dirigentes, um longo processo de impeachment não só “sangraria” o partido, mas deixaria o país mergulhado em crise ainda maior.

O problema de Dilma é que ela não ouve conselhos, avaliam Lula e dirigentes da legenda. Em encontro com parlamentares, o ex-presidente disse que, mesmo quando os aceita, demora a agir. Como Dilma não cumpriu promessas de campanha e abraçou política econômica de austeridade, os laços que estavam sendo refeitos com os movimentos sociais praticamente se partiram.

— Os movimentos não são braços do partido e nem devem ser. O governo tem de dialogar sempre. É preciso abrir canais de comunicação. As elites têm seus canais e seus instrumentos de pressão — disse Luiz Dulci, diretor do Instituto Lula, em reunião com os movimentos sociais quarta-feira em São Paulo, apontando que o país vive, como a América Latina, uma “ofensiva conservadora”.

Essa ideia de reação com apoio popular tem sido propalada por Lula e pelos principais dirigentes do PT. O problema é conciliar a luta popular com uma política econômica que corta gastos e ameaça direitos. E, mais que isso, abrir um diálogo com movimentos mais distantes do partido, como o MTST, que pede políticas de moradia.

Quanto a isso, Dilma sinalizou na quinta-feira que vai adotar as reivindicações do movimento, e Rui Falcão tem conversado com dirigentes sem-teto. O MST, por sua vez, cobra reforma agrária, e o governo acenou, também na semana passada, com o aumento do orçamento para a política agrária.

Para os petistas, a manifestação da oposição no dia 16 será “monstruosa”, levando multidões para a rua. A contraofensiva partirá dos atos de “apoio à democracia” marcados para o dia 20 em todo o país. Mas já se calcula que eles devem ser menores do que os da oposição.

Fundadores criticam busca por cargos
As culpas do governo, apontam os petistas, são muitas. Mas as do partido são sempre minimizadas pelos dirigentes. Fundadores do PT, que estavam à mesa da ata de criação do partido, 35 anos atrás, criticam a busca do partido por cargos e eleições. O ex-governador gaúcho Olívio Dutra diz que há eleições que é melhor perder:

— A ideia da política é construir o bem comum com protagonismo das pessoas, não essa coisa do “toma lá, dá cá”. As atitudes erradas violentaram essa arca do tesouro, que não é só petista.

Com reflexões como “baixamos a guarda” e “afrouxamos porque não estávamos em cima, cobrando”, Olívio diz que perdeu ilusões, “mas a esperança, jamais”, e que o PT tem de admitir erros.

— Tem gente até presa. Feriram o patrimônio ético e moral, e a direção (do partido) tem de dizer isso. Falta dizer publicamente e pedir desculpas ao povo, e não às elites — ressalta Olívio, para quem “há derrotas que ensinam mais que vitórias”.

O suposto enriquecimento pessoal de Dirceu deixou o partido constrangido, rompendo a ideia de que eventuais malfeitos serviriam apenas para a construção do projeto político.

Um dos nomes próximos de Lula, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, afirma que as investigações sobre Dirceu têm muito “diz-que-diz” e que não há comprovação de enriquecimento.

— Se comprovado (o crime), agrava a situação do Dirceu, não do governo — rebate, e diz que os delatores têm sido vistos pela mídia “como inocentes”.

Em ato de apoio ao Instituto Lula, na sexta-feira, Marinho também defendeu Dilma:

— A presidente admitiu erros. Vocês querem que ela fique de joelhos?

O sindicalista aposentado Paulo Skromov liderava o Sindicato dos Coureiros e coordenou a mesa de políticos que fundaram o PT.

— O PT hoje é um partido que só se ocupa de eleições. É só tocar mandatos parlamentares e executivos. É um partido que confiou demais na classe dominante — diz ele, que continua petista.

Para Skromov, a saída do PT é retornar ao seu pensamento inicial e migrar para a esquerda, porque hoje seria “de centro-esquerda”. Ele disse não acreditar nas denúncias de corrupção.

Além de enfrentar a pior crise de sua história, o PT pode ficar completamente sem dinheiro se perder a disputa com o TSE e ter 3 meses de repasse do Fundo Partidário suspensos, além de pagar multa de R$ 4,9 milhões ao tribunal. Até mesmo seu sistema online de recebimento de doações, anunciado no 1º semestre, ainda não opera. Márcio Macedo, tesoureiro do partido, que sucedeu a Vaccari, diz que o sistema de doações será implantado nos próximos dias.

Dirigentes do PT avaliam que o processo de reabilitação levará mais do que quatro anos e que Lula jamais concorreria à Presidência. Ele estaria muito mais preocupado com seu legado.

A existência do PT como partido forte, capaz de disputar o poder central, vai depender da autocrítica pública e de uma mudança de postura, na avaliação de outro ministro. Para esse petista, ou o PT faz esse mea-culpa e volta, ou vai se transformar numa legenda de “gueto”, “pequena e raivosa”.