domingo, 13 de março de 2022

Pedro S. Malan*: É assustador

O Estado de S. Paulo.

Há quem acredite saber exatamente ‘o que fazer’ e se dedique a convencer os demais a acreditar nisso em busca do poder

Começamos muito mal esta terceira década do século 21. É assustador imaginar os desdobramentos desta crise, que transcende em muito a questão ucraniana. Os horrores da guerra, o sofrimento causado ao povo da Ucrânia, terão consequências globais, geopolíticas e econômico-sociais que se projetarão por anos. As incertezas, os riscos e a volatilidade, que já não eram pequenos, acentuaram-se sobremaneira com os choques de oferta, as fortes pressões inflacionárias e a inevitável redução da taxa de crescimento global.

“É assustador imaginar que não sabemos algo, mas mais assustador ainda é imaginar que, em geral, o mundo é dirigido por pessoas que acreditam saber exatamente o que está acontecendo.” A frase de Amos Tversky poderia ser estendida para incluir as pessoas que acreditam saber exatamente o que fazer; e dedicam-se a convencer os demais a acreditar nisso – como forma de chegar ao poder, nele continuar ou a ele voltar.

Bolsonaro já está no poder e nele pretende continuar, para o que precisa obter 50% + 1 dos votos válidos nas próximas eleições. Conta, para tanto, com o relato de seus feitos neste primeiro mandato, turbinando a narrativa com o uso de sua ampla militância digital nas redes sociais. Conta, também, com os instrumentos do poder – a prerrogativa de nomear, demitir, cooptar, ameaçar, prometer e distribuir benesses. Esse poder do incumbente não deve ser subestimado, principalmente quando se está disposto a fazer o que for necessário, custe o que custar, para alcançar o objetivo de mais um mandato. Pouco importa que outros não concordem, desde que representem menos de 50% dos votos válidos. Se forem mais, é sempre possível alegar fraude; o modelo Trump vem sendo seguido à risca, desde 2016.

Rolf Kuntz: Guerra, inflação e populismo

O Estado de S. Paulo

Improvisação e ações populistas contra a alta de preços podem ser mais danosas que os reflexos econômicos da aventura de Vladimir Putin

Putin chegou atrasado, mas deu sua contribuição ao desarranjo econômico do Brasil. A inflação brasileira, uma das maiores do mundo, já superava 10% em 12 meses antes do primeiro tiro contra a Ucrânia. Em janeiro, bateu em 10,38%. Em fevereiro, atingiu 10,54%, mas a invasão do território ucraniano só começou no dia 24. A guerra e as sanções à Rússia agravaram as condições de um mercado internacional já inflacionado. Subiram as cotações de alimentos e do petróleo. A Petrobras acabou elevando os preços do óleo diesel, da gasolina e do gás de cozinha, encerrando um estranho congelamento mantido por 57 dias. A aventura russa abalou, finalmente, o dia a dia dos brasileiros, mexendo nos preços, aumentando a insegurança de uma economia emperrada e reforçando as tentações de jogadas populistas e de novos desatinos eleitoreiros.

Míriam Leitão: O desmonte do futuro

O Globo

O futuro exige de nós esperança. Mas a realidade a nega diariamente. A guerra transforma a Ucrânia em escombros e cria um ambiente de hostilidade crescente entre potências que têm o poder de destruir o planeta. Estão sendo desfeitos elos de décadas de cooperação. No Brasil, o governo Bolsonaro e suas forças bombardeiam edifícios legais que a democracia construiu em anos de debate, negociação e luta. Bolsonaro não age nesta destruição do futuro sozinho. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), é seu fiel escudeiro.

Lira colocou para votar a urgência de um projeto hediondo, no momento em que, na frente do Congresso, manifestantes pediam tempo para debater o assunto. O projeto permite mineração, exploração de óleo, gás, hidrelétricas, plantação de transgênicos em terras indígenas. Lira disse que criou uma comissão para debater o assunto. Não é verdade. Sua comissão é para inglês ver. Ele está impedindo o debate e há outras tramas sendo urdidas, como a de acoplar esse projeto a outro que já está com a tramitação mais adiantada. Essa matéria define o futuro dos indígenas, mas também o nosso futuro como país.

Elio Gaspari: Vozes do agro contra a boiada

O Globo

Para o bem de todos e felicidade geral da nação, a Coalizão Brasil Clima, que reúne empresas, bancos e associações de agricultores, dissociou-se dos agrotrogloditas e do garimpo ilegal que tentam passar a boiada da mineração em terras indígenas por conta da guerra na Ucrânia.

Na parolagem, o caso é simples: o Brasil precisa de fertilizantes, eles vêm de lá e da Rússia. Cortada a linha de comércio, seria necessário minerar o potássio que está em terras indígenas da Amazônia.

Faz tempo que Jair Bolsonaro fala desse potássio. É um aspecto de sua fixação em metais e produtos mágicos. Na pandemia, cloroquina, fora dela, grafeno e nióbio. Indo mais adiante, uma pesquisa para transmitir de energia por cima da floresta, sem cabos.

A Coalizão Brasil Clima bateu de frente contra esse avanço nas terras indígenas, que tramita em regime de urgência na Câmara. Para evitar que se passe a boiada, ela informa:

Vinicius Torres Freire: Gasolina sob Lula e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Preço de combustíveis em qualquer governo depende de dólar, mercado mundial e política

O preço médio da gasolina sob Lula 2 era equivalente ao do governo Bolsonaro antes da epidemia e até mesmo em fins de 2020. O diesel era um tico mais caro. O gás de cozinha, mais barato. A guerra fez estrago decisivo. Trata-se aqui de preços corrigidos pela inflação para o consumidor, o IPCA.

Sob Dilma 1 (que fez tabelamento informal e teve dólar amigável) e Temer (que liberou geral), diesel e gasolina eram mais baratos. A conta muda pouco se a gente medir o poder de compra do salário mínimo ou do salário médio em termos de combustíveis, vide gráfico.

Essa história dá o que pensar sobre preços importantes, combustível e comida. Dependem de dólar e preço mundial, sempre, e de políticas, várias com danos colaterais graves, como tabelamentos e subsídios perversos.

Bruno Boghossian: O chuchu e o socialista

Folha de S. Paulo

Ex-presidente ainda quer Alckmin para neutralizar discurso antipetista, mas tenta preservar bases

Lula abriu os braços para personagens de campos políticos opostos na última semana. Num canto, o petista reconheceu o avanço de suas negociações com Geraldo Alckmin e repetiu o interesse em ter o ex-tucano como candidato a vice. De outro lado, ele enviou uma mensagem ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e prometeu dar protagonismo ao grupo se vencer a eleição.

Esses dois aliados de Lula são mais do que tímidos adversários políticos. Guilherme Boulos (PSOL), líder do MTST, já acusou Alckmin de cometer uma barbárie ao ordenar a remoção da comunidade do Pinheirinho, no interior de São Paulo. O ex-governador, por sua vez, se referiu ao psolista como um "desocupado" num debate presidencial de 2018.

Janio de Freitas: São crimes de antibrasileirismo

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e deputados mercenários compõem espécie de milícia especializada em política como negócio imoral

Todas as propostas que partem de Bolsonaro ou mobilizam o seu empenho têm alguma ordinarice, de seu interesse pessoal, como motivação básica. Nem por isso a conduta por ele imposta à Presidência é o que mais compromete o futuro do Brasil como país —no conceito do mundo e no seu próprio sentimento de país envergonhado.

A aceitação da tragédia nacional pela quase total coletividade dos influentes, civis e militares, é ela mesma uma tragédia maior, por sua propagação incorrigível no futuro.

Tornar legal o garimpo em terras indígenas e a liberação prática do desmatamento são favorecimentos diretos às milícias criminais, que invadem as áreas preservadas, e ao empresariado que toma áreas imensas para plantio de soja ou criação de gado.

Hélio Sshwartsman: Sem fazer prisioneiros

Folha de S. Paulo

Para que não haja mais guerras, devemos travá-las como animais

Para que não haja mais guerras, devemos travá-las como animais, sem fazer prisioneiros e sendo tão cruéis quanto possível com o inimigo. Chocante? Hoje, sem dúvida, mas esse tipo de raciocínio era relativamente comum até o início do século 20. Ele está presente, por exemplo, nas reflexões que Leon Tolstói põe na boca do príncipe André, um dos protagonistas de "Guerra e Paz".

É verdade que, à medida que Tolstói foi se tornando um fanático religioso, também foi abraçando um pacifismo que soa menos paradoxal a nossos ouvidos modernos. Mas talvez o príncipe André não estivesse tão errado assim.

Cristovam Buarque*: Foto da insensatez

Blog do Noblat / Metrópoles

A decisão de Putin de invadir a Ucrânia muito provavelmente será um destes casos de insensatez que os historiadores futuro vão estudar

A insensatez é um processo, só pode ser captada por filme, mas a guerra da Ucrânia conseguiu fazer uma foto que concentra neste instante a falta de sensatez ao longo de décadas. Analisando casos concretos, historiadora Barbara Tuchman publicou clássico sobre a insensatez nas decisões políticas de governantes. Entre eles, a decisão de Troia de aceitar o presente dos gregos, um cavalo cheio de soldados dentro; o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnam; a arrogância do Papa esnobando um simples e jovem padre chamado Martin Lutero.

Merval Pereira: Compromissos

O Globo

Na posse da nova diretoria da Academia Brasileira de Letras (ABL), sexta-feira, enumerei alguns compromissos da principal instituição cultural do país, que passo a enumerar:

Diversidade

 “Nos últimos meses procuramos espelhar mais a diversidade brasileira ao escolher os substitutos para as cadeiras vagas. Renovamos nossa crença no empoderamento feminino elegendo a atriz Fernanda Montenegro, ícone da cultura brasileira e representante do teatro que já deu à ABL, entre outros, o crítico Sábato Magaldi e o dramaturgo Dias Gomes, cujo centenário comemoramos este ano. Em Gilberto Gil celebramos a poesia e a identidade afrobrasileira, que sempre esteve presente na Academia, desde o fundador Machado de Assis até o recente presidente Domicio Proença Filho e grandes negros do mundo da cultura brasileira, como Evaristo de Moraes Filho, Octavio Mangabeira e José do Patrocínio, entre outros. Num momento em que a ciência nunca foi tão necessária e ao mesmo tempo tão negligenciada pelas autoridades, elegemos o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, seguindo uma tradição de ter entre nós grandes médicos como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas Filho e mais recentemente Ivo Pitangui. A visão humanística de José Paulo Cavalcanti, jurista e escritor, especialista em Fernando Pessoa, e a visão modernizadora do economista, filósofo e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca foram as duas recentes homenagens feitas à diversidade cultural do país, um pernambucano de raiz, o outro mineiro, com atuação a partir de São Paulo”.

Bernardo Mello Franco: Ninguém fotografou a ditadura como Orlando Brito

O Globo

O fotógrafo não fotografa para si, mas para os olhos que estão distantes. A definição é de Orlando Brito, o grande repórter fotográfico de Brasília. Por quase seis décadas, ele transportou os olhos dos leitores para a capital. Desvendou o teatro da política e foi testemunha ocular da história do Brasil.

Nascido no interior de Minas, Brito migrou para o Planalto Central em 1957, antes de a cidade ser inaugurada. Aos 7 anos, ajudava o pai a levar tijolos aos canteiros de obra. Aos 14, servia cafezinho na sucursal da Última Hora. Foi promovido a laboratorista, aprendeu a revelar filmes, apaixonou-se pelo fotojornalismo. Em 1965, o acaso o presenteou com uma oportunidade. A redação estava sem fotógrafos, e o garoto recebeu a tarefa de acompanhar uma agenda do marechal Castello Branco. “A primeira foto que fiz foi de um presidente”, contava. A estreia seria o prenúncio de uma carreira única na imprensa.

Dorrit Harazim: Meu amigo, o fotógrafo Orlando Brito (1950-2022)

O Globo

Muito antes de o bicho homem tomar rumo semelhante, os animais já se aglomeravam em grupos mais amplos do que as famílias biológicas a que pertenciam. Fizeram bem, pois assim alongaram seu tempo de sobrevivência no planeta. A natureza das espécies foi generosa também com o ser humano, pois foi desse mesmo instinto de sobrevivência que deve ter emergido algo tão monumental e fugidio a definições como a amizade. Melhor nem pretender descrevê-la e recorrer logo a um desses filósofos da Antiguidade que sabiam pensar e escrever sobre tudo. Certo estava Sêneca quando escreveu que a amizade é um talento. E, como todo talento, um dom. Orlando Brito, o mais completo repórter fotográfico brasileiro, tinha esse dom. Foi meu amigo. O verbo no pretérito perfeito dói.

Luiz Carlos Azedo: Orlando Brito fez a crônica do poder, da glória e da solidão

Correio Braziliense / Estado de Minas

Era impressionante a sua capacidade de ler a alma dos políticos, suas verdadeiras intenções e agruras, pela simples postura. Mestre do fotojornalismo, captava o instante certo

Sua filha única, Carolina, cuidou dele até o último momento. Mobilizou a solidariedade dos amigos, acompanhou os cuidados dos médicos, tentou convencer o pai a aceitar a nova situação sem se rebelar contra os tubos e aparelhos que o mantiveram vivo nos hospitais públicos de Brasília. O jornalista Orlando Brito foi sepultado ontem no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, após 34 dias de muita luta. Depois de duas cirurgias no intestino, em decorrência de um câncer, teve falência múltipla dos órgãos. Morreu íntegro e pobre, como acontece com muitos jornalistas, no Hospital de Taguatinga.

Orlando Péricles Brito de Oliveira nasceu em 1950, em Janaúba, Minas Gerais. Como muitos jornalistas da sua geração, começou a carreira muito jovem: em 1964, aos 14 anos, começou a trabalhar como laboratorista no jornal Última Hora, uma porta de entrada das redações; as outras eram a revisão e o trabalho de office boy. A profissão somente viria a ser regulamentada em outubro de 1969. Fez carreira nos principais veículos do país: O Globo, Jornal do Brasil e revistas Caras e Veja. Ao deixar a revista, criou a agência de notícias Obrito News, organizou seminários, deu aulas, fez conferências e palestras. Andou pelos cafundós do Brasil e pelo mundo afora, mas especializou-se na cobertura política.

Cacá Diegues: Um dia santo

O Globo

Não vou com a cara de Vladimir Putin. Mas nem por isso considero Volodymyr Zelensky intocável, um herói da humanidade

Todo mundo tem meus telefone e endereço de email. Foi um princípio que Flora minha filha me ensinou; se eu não gostasse da cara ou não quisesse atender, simplesmente não tomava conhecimento da mensagem, ia adiante como se não tivesse recebido nada. Depois, se fosse o caso, culpava a telefônica ou coisa parecida pela falha. Sempre deu certo. Sobretudo em períodos como o atual, com uma guerra, suas notícias chocantes e suas terríveis imagens a nos sobressaltar a todo momento.

Não acho que seja um privilégio, não vejo graça nenhuma em disputar com parentes e amigos a visão inaugural dos piores desastres humanos, dos restos de um hospital pediátrico em Mariupol, hordas de mães ucranianas fugindo das bombas russas com seus bebês no colo mal protegido. Ainda mais porque, fora a observação do horror evidente nos rostos e nos gestos do povo da Ucrânia, não tenho como julgar o que se passa na cabeça e no coração dos russos responsáveis ou não pelas batalhas dessa guerra. Muitos deles podem ser também vítimas de seus comandantes mal intencionados.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Amazônia perto da devastação irreversível

O Globo

O sobrevoo da floresta em boa parte da Amazônia dá a impressão de um verde sem fim para qualquer lado que se olhe. A vastidão da vegetação faz quem não conhece a região perder a direção. Esse “mar verde” também tem efeito desorientador no debate público ao provocar questões descabidas como: por que tanta gritaria dos ambientalistas se ainda há tanta floresta? A resposta, mais uma vez, vem sendo dada pela ciência.

Um estudo publicado na semana passada na revista Nature Climate Change por três pesquisadores de instituições europeias reforça a hipótese de que a Amazônia esteja perto de um ponto em que a devastação será irreversível — ou “ponto de não retorno” na tradução do inglês. A partir de certo nível de desmatamento, a floresta provavelmente perderia a capacidade de se recompor e entraria em autodestruição, sem que nenhuma ação humana pudesse reverter seu destino. Não haveria árvores suficientes para manter o atual regime de chuvas.

Poesia | Bertold Brecht: Louvor ao estudo

Estuda o elementar: para aqueles

cuja hora chegou

não é nunca demasiado tarde.

Estuda o abc. Não basta, mas

estuda. Não te canses.

Começa. Tens de saber tudo.

Estás chamado a ser um dirigente.

 

Frequente a escola, desamparado!

Persegue o saber, morto de frio!

Empunha o livro, faminto! É uma arma!

Estás chamado á ser um dirigente.

Não temas perguntar, companheiro!

Não te deixes convencer!

Compreende tudo por ti mesmo.

O que não sabes por ti,

não o sabes.

Confere a conta.

 

tens de pagá-la.

Aponta com teu dedo a cada coisa

e pergunta: “Que é isto? e como é?”

Estás chamado a ser dirigente.

Música | Coral Edgard Moraes: Recife cidade lendária

 

sábado, 12 de março de 2022

Oscar Vilhena Vieira*: Doce indignação

Folha de S. Paulo

Margarida Genevois não parou de trabalhar, um só segundo, pela construção de uma sociedade mais justa

Margarida dificilmente termina uma frase sem um sorriso, ainda que seus olhos possam estar expressando uma profunda indignação. Nascida Bulhões Pedreira, tradicional família do Rio de Janeiro, em 10 de março de 1923, deparou-se com o analfabetismo, a desnutrição e a doença ao mudar-se com o marido, Lucien Genevois, para o interior de São Paulo. Desde então, Margarida não parou de trabalhar, um só segundo, pela construção de uma sociedade mais justa.

Nos anos 1970, combateu o arbítrio e a violência de Estado. Com suas filhas, "correu da polícia". Foi a primeira mulher a ter assento na Comissão de Justiça e Paz, que presidiu duas vezes. Ali ouviu, em primeira voz, o depoimento de quem havia sido torturado e dos familiares que buscavam desaparecidos.

Demétrio Magnoli: Tigre de papel

Folha de S. Paulo

Putin tem razão ao alegar que as promessas da Otan não foram honradas

O mapa da expansão da Otan pipocou em todos os lugares, geralmente por iniciativa dos papagaios de Putin, engajados na justificação da agressão à Ucrânia. No papel, impressiona: desde 1999, a aliança ocidental recebeu a adesão de 14 países, entre ex-integrantes do bloco soviético e as três antigas repúblicas soviéticas do Báltico.

De fato, porém, a Otan ampliada é, como diria Mao Tsé-tung, um tigre de papel.

Putin tem razão ao alegar que as promessas feitas à URSS em 1990 não foram honradas. Na hora da reunificação alemã, líderes americanos, britânicos e alemães asseguraram a Gorbachev que, com exceção da Alemanha Oriental que desaparecia, a Otan não avançaria nenhum milímetro rumo a leste.

Hélio Schwartsman: Até o estrogonofe é cancelado

Folha de S. Paulo

Em nome de combater uma violação moral, incorremos num punhado de outras

A grande surpresa na crise da Ucrânia foram a rapidez e a firmeza com que a comunidade internacional respondeu à invasão russa. Até então, o presidente Vladimir Putin vinha explorando com competência as divisões entre americanos e europeus. A mudança decorre, acredito, de uma troca de "framing" (enquadramento).

Enquanto se discutia a conveniência geopolítica de a Ucrânia integrar a Otan, a questão era tratada de forma pragmática, com abertura para divergências e a possibilidade de matizes. Mas, depois que Putin decidiu recorrer às armas para iniciar uma guerra de agressão contra um país soberano, provocando a morte de civis inocentes, a invasão passou a ser vista como uma violação moral. E isso faz toda a diferença.

Cristina Serra: Transfobia no MEC

Folha de S. Paulo

Visão do titular da pasta sobre o mundo é obscurantista e sombria

O pastor que ocupa o Ministério da Educação, Milton Ribeiro, pouco fala, mas quando abre a boca sempre provoca estupefação pela capacidade de expressar uma visão de mundo tão obscurantista e sombria.

Seu palavrório incita a discriminação, a hostilidade e a violência contra a população LGBTQIA+. Sendo titular do MEC, tudo o que fala, faz ou deixa de fazer reverbera no tecido social, tem consequências concretas. Por isso, o ministro precisa ser responsabilizado.

João Gabriel de Lima*: A ditadura explícita e a disfarçada

O Estado de S. Paulo.

Situação do Brasil não é comparável à da Rússia ou à da Hungria, mas é bom ficar de olho

É fácil se ver no meio de uma manifestação ao caminhar pelas ruas de Budapeste, a belíssima capital da Hungria. De um lado do rio Danúbio, em Buda, o partido ultraconservador Mi-hazank exibe seus símbolos patrióticos. Do outro, em Peste, militantes antivacina prestam solidariedade aos caminhoneiros canadenses. Todos os anos há uma enorme parada gay, sem repressão policial.

Parece uma democracia, mas não é. Livros de temática inclusiva são multados, uma universidade inteira acabou expulsa do país por abrigar intelectuais críticos ao governo e a

Constituição foi reescrita para permitir a reeleição eterna do Fidesz, o partido do primeiroministro Viktor Orbán.

Nas duas últimas semanas foram divulgados os resultados anuais de dois rankings de democracia, o da revista britânica The Economist e o do instituto V-dem, que é sediado em Gotemburgo, na Suécia. Tais rankings são especialmente necessários em casos como o da Hungria, em que o autocrata de plantão, Viktor Orbán, usa o manto da democracia para esconder um duro regime autoritário. Os dois estudos estão anexados à versão digital da coluna.

Bolívar Lamounier: Os dois pês (PPS) que nos globalizaram

O Estado de S. Paulo

Escusado dizer que estou me referindo à globalização engendrada pela pandemia e a agressão russa à Ucrânia

Na terça-feira passada (8/3), com sua habitual competência, o embaixador Rubens Barbosa publicou neste espaço um artigo apontando dramáticas vulnerabilidades do Brasil no tocante ao comércio exterior, a áreas estratégicas e a inovação e segurança.

Com sua vasta bagagem, Rubens Barbosa poderia ter estendido sua análise a mais umas 40 áreas. Não o fez, em parte por falta de espaço, mas em parte também porque sua boa alma não lhe permitiu empurrar os leitores para uma depressão mais profunda do que esta que já estamos vivenciando. Eu gostaria de seguir seu sábio exemplo, mas preciso me ater ao fato de havermos, agora sim, chegado à globalização. Não à globalização com que muitos sonharam, conduzida como opção e mediante critérios nossos. Escusado dizer que estou me referindo à globalização engendrada pelos dois pês (PPS), a pandemia e a agressão russa à Ucrânia. No que se refere ao Brasil, a pandemia já causou um belo estrago em nossas contas fiscais, mas teve o mérito de nos ensinar uma certa humildade, mostrando-nos que, sem o resto do mundo, muitos de nós morreriam por falta de imunizantes. A segunda, movida pelos coturnos, tanques e mísseis russos, reduziu-nos à mais completa impotência.

Ascânio Seleme: Presidente, o Estado é laico

O Globo

Alguém consegue imaginar Fernando Henrique Cardoso chorando copiosamente diante de pastores evangélicos e dizendo que conduziria o país na direção que eles desejassem? Ou Lula? Ou Michel Temer? Não, jamais. Trata-se de cenário impensável até três anos atrás. Agora, com Bolsonaro, um episódio desse não apenas é possível como de fato aconteceu. O presidente ofereceu a Nação brasileira a líderes evangélicos em cerimônia no Palácio do Planalto na terça-feira passada. E o que se viu? O Congresso reagiu com a força que a situação exigia? Não. O Supremo reagiu? Nada, ninguém se mexeu. Bolsonaro confrontou um dos princípios fundamentais da Constituição, que estabelece a laicidade do Estado, e ninguém se abalou.

Claro que Bolsonaro é um oportunista, estava fazendo campanha no horário de expediente e jamais conseguiria submeter o Estado brasileiro à vontade do grupo religioso que o abençoava com promessa de votos. Mas a simples intenção de terceirizar o poder concedido pelo eleitor é um absurdo que merecia a mais ampla desaprovação de todos. Não houve admoestação porque ninguém mais dá bola para as seguidas infrações ao bom senso e à ética e aos inúmeros crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente. O fato, contudo, escancara uma linha de ação que Bolsonaro vem seguindo desde a sua posse e será mantida no caso da sua reeleição. E se constitui em grande problema a ser enfrentado.

Eduardo Affonso: Imagens que gritam

O Globo

A menina de 9 anos corre, nua e descalça, de braços abertos, gritando de dor, as costas queimadas por napalm. Outra menina, de uns 5 anos — a esqualidez não permite avaliar bem sua idade — , está no chão, também nua, o corpo pendido para a frente, observada de perto por um abutre. O menino de 3 anos, camiseta vermelha, calças azuis, sapatinhos bem amarrados, jaz de bruços, o rosto tocado pelas ondas.

Quem viu essas imagens não as esquecerá. Kim Phuc, vietnamita, fugia de um bombardeio, em 8 de julho de 1972. A sudanesa, cujo nome não se sabe, estava à beira da inanição e tomava fôlego, a caminho de um posto de saúde, em 11 de março de 1993. Aylan Kurdi, sírio, cruzava o Mediterrâneo numa viagem desesperada, até a madrugada daquele 2 de setembro de 2015.

As fotos não puseram fim ao horror no Vietnã, no Sudão ou na Síria, mas mostraram ao mundo a tragédia numa escala que qualquer ser humano consegue apreender. Milhões de vítimas são algo impalpável — uma criança ferida, morta ou à morte é um filho, um sobrinho, somos nós mesmos.

Pablo Ortellado: A esquerda que apoia o imperialismo

O Globo

É perturbador acompanhar o debate na esquerda sobre a invasão à Ucrânia. Logo no começo do conflito, o perfil do PT no Senado no Twitter publicou nota dizendo que “condena a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às fronteiras russas”. Depois de ser criticada, a nota foi apagada, e manifestações individuais de senadores petistas contrários à invasão foram retuitadas. Mas a primeira nota ter saído mostra que forças relevantes no partido consideram a invasão justificada. A nota oficial do PT, publicada dois dias depois, reflete bem essa ambivalência, condenando uma solução militar, mas não a invasão: “Entendemos que a solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação em fóruns multilaterais”. Em sites de esquerda, predomina o apoio à invasão russa, em clima de torcida.

Carlos Alberto Sardenberg: É a Rússia, não a URSS, que ataca a Ucrânia

O Globo

Muita gente, lá fora e aqui, está cometendo um grande equívoco: pensar a Rússia como se fosse a União Soviética. Não é.

No tempo da URSS, Moscou tinha uma mensagem não apenas para a Europa, mas para o mundo todo. O marxismo soviético era uma construção completa: definia desde a organização da sociedade política, da produção e distribuição de riqueza até a vida cultural.

Mais importante: essa ideologia era partilhada mundo afora. Nos países já no âmbito da URSS, havia partidos, militância e apoios locais ao marxismo soviético.

Não se tratava de uma “simples” dominação externa, mas de identidade ideológica, pelo menos de parte das populações.

Mais ainda: em muitos países que estavam na órbita do Ocidente, havia partidos comunistas de sólida representação popular. Itália e França, por exemplo.

Marcus Pestana*: O peixe morre é pela boca

A sabedoria popular tem interessante forma de se expressar através de ditados, que se repetem por décadas e gerações. “O peixe morre é pela boca” aconselha administrar bem as palavras, não falar demais.  Uso o ditado popular para realçar um sábio conselho para a vida, particularmente na política, principalmente na era das frenéticas redes sociais. Mas existem outras formulações populares como “Quem fala demais, acaba dando bom dia a cavalo”, uma advertência àqueles que não sabem escutar, apenas falam, interditando o diálogo. Ou, ainda, “Em boca fechada, não entra mosquito”, recomendando prudência e ponderação nas opiniões.

Teve grande repercussão o evento envolvendo o apresentador Monark, do canal de entrevistas FLOW, um dos de maior audiência na internet, envolvendo também o deputado federal Kim Kataguiri (PODEMOS/SP). Refletindo um liberalismo ingênuo e um anarquismo radical, defenderam a possibilidade de existência de um Partido Nazista. Monark tem 31 anos e Kim, 26. Encontraram forte resistência da deputada Tábata Amaral (PSB/SP), 28 anos, que também estava no estúdio, e de forma consistente defendeu que não pode ter existência legal uma corrente que assumidamente conspira contra a democracia, defende o totalitarismo e carrega uma visão supremacista racial. Diga-se, de passagem, que nenhum dos dois defendeu ou defende o nazismo. E que o FLOW era um programa agradável, leve, inovador, descontraído. Vi várias entrevistas, era uma proposta interessante. Mas a irresponsabilidade com as palavras e o descuido com os conteúdos levaram à demissão do entrevistador e a um processo de cassação do deputado federal. Às vezes, a agressividade exagerada, a arrogância de quem acha que tudo sabe, a tentativa de ser excessivamente original, pode gerar um efeito bumerangue e abater o autor do abuso de expressão.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Não se equilibra o mercado de petróleo no improviso

O Globo

A guerra da Ucrânia afeta o preço do petróleo e a inflação no mundo todo, mas cada país reage a seu modo. A Europa debate como reduzir a dependência da energia russa. Estados Unidos e outros países liberam seus estoques estratégicos, mas ao mesmo tempo discutem até que ponto é razoável ampliar subsídios e isenções de impostos a combustíveis fósseis — de quase US$ 1 milhão por minuto no planeta. No Brasil, a questão é outra.

Pelas postagens de políticos nas redes sociais, parece que vivemos num planeta à parte, e nosso problema se resume à política de preços da Petrobras. Depois de semanas segurando aumentos, a estatal enfim reajustou os preços nesta semana, mesmo assim aquém do patamar do mercado internacional.

Não importa. Do governista Arthur Lira ao oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva, passando pelo presidente Jair Bolsonaro, todos os matizes do espectro ideológico parecem encarar a empresa como responsável pelos aumentos, apenas porque ela pratica os preços de mercado. É como se o histórico desastrado de intervenções e desabastecimento nada tivesse ensinado ao país.

Poesia | Bertolt Brecht - Aos que virão depois de nós

 

Música | Trenzinho Caipira - H. Villa Lobos - Letra Ferreira Gullar

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Vera Magalhães: Gasolina no palanque

O Globo

A guinada no discurso público de Jair Bolsonaro sobre o preço dos combustíveis mostra a dificuldade, até aqui, de o presidente conseguir equacionar este que é claramente o assunto que mais lhe tira o sono hoje, pelo potencial de estrago eleitoral que tem.

Nos últimos dias, as conversas interministeriais, com o mercado e com a direção da Petrobras tinham sobre a mesa algumas alternativas, todas heterodoxas e fora do receituário liberal clássico, para conter a alta da gasolina, do diesel e do gás de cozinha.

Enquanto isso, esses preços vinham sendo represados sem anúncio formal, desde janeiro no caso dos combustíveis, há 152 dias no do gás. Até que a Petrobras acabou abrindo as comportas, e as reações a uma alta significativa dos três itens foram de espanto e corre-corre em busca, de novo, de uma solução pretensamente simples para um problema cada vez mais complexo, em virtude da imprevisibilidade da guerra na Ucrânia.

Bernardo Mello Franco: O vai ou racha dos ruralistas

O Globo

A caravana dos artistas não comoveu os profissionais do Congresso. Na quarta-feira, uma trupe liderada por Caetano Veloso percorreu gabinetes e lotou a Esplanada num ato pela Amazônia. No plenário, os deputados ignoraram os visitantes ilustres e avançaram com o projeto que libera a mineração em terras indígenas.

O texto pró-garimpo passará a tramitar em regime de urgência. Pelos planos de Arthur Lira, deve ir a votação definitiva em abril, às vésperas do Dia do Índio. Parece provocação — e talvez seja mesmo.

O lobby da devastação perdeu o medo da opinião pública. Com a vitória de Jair Bolsonaro, madeireiros, garimpeiros ilegais e grileiros de terra já haviam conquistado as chaves do Planalto. Agora eles também contam com a cumplicidade e o apoio do presidente da Câmara.

Fazendeiro em Alagoas, Lira já comandou a aprovação de ao menos quatro projetos que criam riscos graves ao meio ambiente. “Em todos os casos, atropelou-se o processo legislativo com regimes de urgência e votações sem debate, baseadas em mentiras”, critica o advogado Mauricio Guetta, professor de Direito Ambiental na PUC-Rio.

Flávia Oliveira: Alta na bomba, risco à mesa

O Globo

A guerra na Ucrânia aporta na vida real das famílias brasileiras nesta sexta-feira, quando entra em vigor o reajuste da Petrobras nos preços da gasolina (18,8%), do óleo diesel (24,9%) e do gás de cozinha (16,1%) nas refinarias. O tarifaço segue a política de paridade da estatal ao câmbio e à cotação internacional do petróleo. Economistas foram às contas. Estimam impacto de 1 a 1,5 ponto percentual na inflação oficial no bimestre março-abril. O economista André Braz, responsável pelos índices de preços da FGV, estima que o IPCA de março pode chegar a 1,5%, se o aumento dos combustíveis for inteiramente repassado (0,9 ponto percentual) aos consumidores, a partir do dia 11. Confirmado, será o maior resultado para o mês desde os 1,55% de 1995, ano seguinte ao Plano Real. E ainda restaria resíduo de 0,4 ponto percentual para os dez primeiros dias de abril.

O impacto, sobretudo, da gasolina na inflação é o lado mais facilmente mensurável — mas não o pior —do choque global nos preços das commodities decorrente do conflito na Europa. O produto é o item de maior peso (6,58%) no índice da meta de inflação e interessa à classe média, fatia barulhenta do eleitorado. Em ano de corrida presidencial, foi içado pelo mundo político ao topo de um arcabouço de medidas de custo alto e efeito incerto. O governo acena com subsídio bilionário, que pode favorecer quem anda de carro e neglicenciar os que precisam do gás para cozinhar, mas podem nem ter comida para levar ao fogão.

Luiz Carlos Azedo: Impacto da guerra chega ao Brasil com aumento de combustíveis

Correio Braziliense

As sanções econômicas de EUA, Canadá, Inglaterra e União Europeia contra a Rússia serão mais duradouras do que a guerra da Ucrânia

Os efeitos da guerra da Ucrânia na economia brasileira chegaram muito mais rápido do que se imaginava, com o aumento de 24,93% dos combustíveis anunciado, ontem, pela Petrobras. O reajuste teve impacto imediato na opinião pública e em segmentos que apoiam o presidente Jair Bolsonaro, sobretudo os caminhoneiros, cujos líderes já estão estrilando nas redes sociais. O preço do gás de cozinha leva os ecos da invasão russa para dentro de casa. Guerras sempre foram momentos disruptivos na economia dos países, dessa vez mais ainda, em razão de um mundo globalizado e conectado em redes.

Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou minimizar os efeitos do reajuste dos combustíveis, a partir de medidas que estão sendo tomadas como a mudança no ICMS aprovada ontem pelo Senado: a criação de uma Conta de Estabilização dos Preços dos combustíveis (CEP). A proposta ainda precisa do aval da Câmara dos Deputados, cujo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), reagiu duramente em relação ao aumento: “Me causou espanto a insensibilidade da Petrobras com os brasileiros — os verdadeiros donos da companhia. O aumento de hoje (ontem) foi um tapa na cara de um país que luta para voltar a crescer”, disse.

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro ainda pode vencer

Folha de S. Paulo

Presidente é o primeiro direitista que consegue dar expressão popular à voz da reação porque fala aos simples

Chegamos a meados de março, e a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição não derreteu como muitos previam. Nunca apostei nessa possibilidade, como sabem os que me acompanham aqui e alhures. Ao contrário: escrevi, e mantenho a avaliação, que ele deve chegar competitivo ao segundo turno.

Subestimá-lo, ignorando a arena sanguinolenta das redes sociais em que também se trava a disputa, foi o erro mais tolo cometido em 2018. Por "competitivo", entenda-se: o presidente pode ser reeleito.

Lula parece ter a mesma avaliação. Em encontro com lideranças femininas na manhã desta quinta (10), foi direto: "A luta não será fácil. Não existe essa do ‘já ganhou’. Eleição, a gente só sabe o resultado depois da apuração".

Bruno Boghossian: Banco de reserva

Folha de S. Paulo

Manobra no PSD realça dificuldade na faixa que ainda tenta se espremer entre Lula e Bolsonaro

Notícias do território separatista da terceira via: o senador Rodrigo Pacheco desistiu de concorrer ao Planalto e deve ser substituído pelo governador gaúcho Eduardo Leite como presidenciável do PSD. Com o anúncio, sai um candidato que marcava 1% nas pesquisas e entra um nome que marca, no máximo, 3%.

A troca tem tudo para deixar a disputa eleitoral exatamente como está, mas também revela uma dificuldade crescente na faixa do mercado político que ainda tenta se espremer entre Lula e Jair Bolsonaro.

A busca do PSD por um candidato reserva realça a ideia de que o partido não está na corrida para valer. O lançamento de Pacheco era visto como uma manobra para evitar o alinhamento de políticos da sigla com o PT ou com o bolsonarismo ainda no primeiro turno. É difícil acreditar que Leite seja escalado para desempenhar um papel muito diferente.

Hélio Schwartsman: Segurar preço pode ser má ideia

Folha de S. Paulo

Russos experimentarão as piores dores das sanções, mas o resto do mundo também sofrerá

É possível que as sanções econômicas que a comunidade internacional baixou contra a Rússia surtam efeito. Empobrecer repentinamente a elite e a classe média de um país é uma receita infalível para minar a popularidade do governante de plantão. A incógnita é se Putin ainda depende do apoio de seus súditos para manter-se no poder ou se já criou uma estrutura sólida o bastante para resistir a pressões internas.

De certo, temos que, se são os russos que experimentarão as piores dores das sanções, o resto do mundo também sofrerá.