segunda-feira, 27 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

 

Não tem nexo subordinar agências reguladoras à Câmara

Por O Globo

Se aprovada, PEC as sujeitaria às ingerências políticas de que, por definição, devem ser preservadas

A independência das agências reguladoras está mais uma vez em risco. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição relatada pelo deputado Danilo Forte (União-CE), que transfere do Executivo aos deputados a prerrogativa de fiscalizá-las. Se for adiante, será um enorme retrocesso.

As agências, que atuam em setores como telefonia, energia elétrica ou petróleo e combustíveis, não surgiram do nada. Foram criadas na gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), sob a inspiração dos melhores modelos internacionais de supervisão dos serviços públicos prestados por empresas. Mesmo vinculadas ao Executivo, precisam ter liberdade para zelar pela qualidade desses serviços e ser blindadas contra influências político-partidárias e ideológicas, para que prevaleçam critérios técnicos. Aprovar a PEC equivale justamente a submeter as agências às ingerências de que, por definição, elas devem ser preservadas.

Vai jorrar petróleo. Mas vai demorar, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Na verdade, já há atraso considerável, determinado pelas dificuldades na obtenção do licenciamento ambiental

A Petrobras tem licença apenas para procurar petróleo na Margem Equatorial, no litoral do Amapá. Se encontrado óleo, precisará voltar ao Ibama e iniciar outro processo de licenciamento para a exploração comercial. Desde já, está claro que, encontrado o petróleo, como é provável, a empresa tocará a produção. Mais que isso: os comentários do presidente Lula mostram que ele já conta com o dinheiro do petróleo para “financiar a transição energética” e para “melhorar a vida do povo brasileiro”, como disse em sua passagem pela Indonésia.

Mas pode demorar, e muito. Na verdade, já há um atraso considerável, determinado pelas dificuldades na obtenção do licenciamento ambiental. Desde o início dos anos 2000, já havia fortes indícios da existência de óleo, e abundante, na Margem Equatorial. Em 2013, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) fez um leilão de blocos na Bacia da Foz do Amazonas. O poço que a Petrobras começou agora a perfurar foi então adquirido pela estatal, em sociedade com a multinacional bp (ex-British Petroleum).

Trump, pacifista, por Demétrio Magnoli

O Globo

Ele despreza a Pax Americana erguida por seus predecessores desde a Segunda Guerra Mundial

Donald Trump candidatou-se ao Nobel da Paz. Clama, sem corar, ter “solucionado oito guerras” e prontifica-se a resolver a “mais difícil”, na Ucrânia. Seu plano de paz para o conflito em Gaza reserva para si mesmo a função de CEO de um Conselho da Paz. Trump é o improvável pacifista destes nossos tempos belicistas.

Quem, senão um desalmado, preferiria a guerra à paz? Pacifismo, palavra bonita, remete a Gandhi, à contracultura hippie, a jovens manifestantes, flores à mão, diante de fileiras de policiais armados.

Bertrand Russell tornou-se um ícone do pacifismo por sua oposição ativa à Grande Guerra (1914-1918). Às vésperas da guerra seguinte, em 1937, opôs-se ao rearmamento britânico, propondo que as futuras tropas invasoras nazistas fossem “tratadas como visitantes”. Só desistiu do apaziguamento em 1940, reconhecendo que, em circunstâncias extremas, a guerra seria a menor de duas desgraças.

A favela na era IA, por Preto Zezé

O Globo

Se o Brasil quer ser protagonista na nova economia digital, precisa começar pela base

Outro dia, duas visões do Brasil se chocaram na minha cabeça. De um lado, minha mãe, orgulhosa, exibindo seus novos domínios digitais — Instagram, Zapzap, TikTok. Ela me manda áudios de cinco minutos, sabe mais da minha vida pelas redes do que eu mesmo e se acaba de rir com vídeos virais. Detalhe: uma mulher semianalfabeta, mas fluente no toque da tela. Do outro, em Salvador, a formatura dos jovens do projeto CrIAtivos da Favela — parceria da Favela Filmes, Instituto Heineken, Rede Bahia e governo estadual. Dezenas de talentos concluindo uma formação de ponta, com o brilho de quem se sente pronto para o mercado audiovisual.

Ver parentes e amigos celebrando foi emocionante. Eram duas pontas do mesmo país se conectando: minha mãe, que aprendeu a navegar, e aqueles jovens, que agora navegam rumo ao futuro.

O IPCA mais comportado e a chance de corte da Selic em janeiro, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Ter juros reais um pouco menos elevados daria um refresco para empresários e pessoas físicas com dívidas pesadas, tornaria o investimento produtivo mais atraente e reduziria as despesas financeiras do governo

A inflação dá sinais mais claros de arrefecimento, como mostrou o resultado de outubro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15), prévia do indicador que serve como baliza para o regime de metas. O índice teve alta de 0,18%, abaixo do consenso de mercado de 0,24%, com o acumulado em 12 meses desacelerando de 5,32% até setembro para 4,94% até outubro. Nesse cenário, aumentaram as chances de o IPCA fechar 2025 em 4,5%, o teto da banda de tolerância da meta, ou até um pouco abaixo disso. A possibilidade de um corte da Selic em janeiro entrou no radar com mais força, ainda que esteja longe de ser uma aposta consensual entre os economistas.

O que Trump pedirá a Lula e ao Brasil? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Experiência de outros países e itens de investigação apontam quais podem ser os tópicos que Brasil deve ceder para ter alívio no tarifaço

A aproximação entre Lula e Trump e o início das negociações entre os dois governos é motivo de comemoração e alívio, mas uma coisa é certa: o Brasil vai ter que ceder muito para, no máximo, ficar numa situação bem pior do que estava antes da posse do presidente americano.

Por mais poderosa que seja a lábia de Lula, o governo brasileiro terá que atender a diversos pleitos americanos para terminar, quando muito, com a tarifa inicial mínima de 10% aplicada a todos os países (muito superior à média de 2,6% vigente no mandato de Biden) e o alívio da Lei Magnitsky sobre algumas autoridades políticas.

Não se trata de pessimismo ou de descrédito da diplomacia brasileira. Até os poderosos Japão e União Europeia capitularam diante das ameaças de Trump. Ao final das negociações, contentaram-se com tarifas de 15% e ainda cederam a exigências de dar tratamento privilegiado a produtos americanos em seus mercados e a fazer investimentos de centenas de bilhões de dólares nos Estados Unidos.

A gestação da foto entre Lula e Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Trump impôs seu jogo, viu os danos causados à economia americana e agora começa a recuar, comenta um diplomata brasileiro

Na pose captada pelo fotógrafo oficial da Presidência, Ricardo Stuckert, a diferença de mais de 20 centímetros de altura, disfarçada pelas poltronas, aparece e é acentuada pelo lendário topete louro do presidente americano, que o deixa ainda mais alto. A altura não é o único atributo que sobressai em Donald Trump. O sorriso do presidente americano na pele bronzeada artificialmente deixa à mostra todos os dentes, enquanto o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva os deixa escapar mais discretamente. É ainda a mão do presidente americano que envolve a do colega brasileiro.

Naquela reproduzida pela Casa Branca o sorriso de Trump é ainda mais largo e os poucos dentes mostrados por Lula somem numa atitude mais apreensiva. A postura do presidente americano se traduz na frase usada para sintetizar o encontro nas suas redes oficiais: “Foi uma grande honra estar com o presidente do Brasil... Acho que seremos capazes de fazer bons acordos para nossos países... sempre tivemos uma boa relação - e acredito que isso deve continuar”.

O ‘first date’ entre Trump e Lula, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Após o tarifaço e Lei Magnitsky, Trump e Lula buscam relação pragmática – com menos ideologia e mais comércio

“First date” é o primeiro encontro entre duas pessoas que buscam entender se há afinidade e disposição para algo mais duradouro. No caso dos presidentes Trump e Lula, o flerte começou discretamente – um aceno na ONU, em 23/09, seguido de uma conversa telefônica em 11/10 – e culminou no primeiro encontro presencial ontem em Kuala Lumpur. Em pouco mais de um mês, os dois mandatários construíram uma aproximação tão veloz quanto calculada.

O pano de fundo não poderia ser mais tenso. O tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e a decisão de aplicar a Lei Magnitsky a ministro do STF criaram o pior cenário diplomático entre os dois países desde a Guerra Fria. Paradoxalmente, essa crise parece ter acelerado a reaproximação. Lula entendeu que confrontar Washington seria suicídio econômico. Trump, por sua vez, percebeu que isolar o Brasil abriria espaço para a China consolidar sua influência na América do Sul.

O colunismo anti-Supremo, por Georges Abboud*

Folha de S. Paulo

Sob verniz jornalístico, falar mal do STF rende engajamento, cliques e público fiel, ansioso por uma dose de indignação fantasiada de opinião

Acusar um magistrado de vender decisão é a mais grave ofensa possível: atinge não só a pessoa, mas o próprio Judiciário

Somos um país do humor e da piada: não à toa, o riso é a forma mais sutil de expor a ignorância, a arbitrariedade e as mazelas sociais. Rir é uma resistência inteligente ao sofrimento, mas cujo limite, sempre tênue, depende de uma leitura adequada do contexto.

Afinal, o humor depende de acordos culturais tácitos para existir. Essa regra básica do discurso me veio à mente ao ler coluna de Lygia Maria, nesta Folha, sob o cafona (e que se pretendia polissêmico) título "O STF virou piada" (19/10).

Brasil pode ser nova potência global, por Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Existem interesses de longo prazo na aproximação entre países que levou a encontro de Trump com Lula

Rubio diz que EUA querem ser parceiros preferenciais em detrimento da China, mas missão não será fácil

O Brasil é um país grande e importante. Essa foi a resposta de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, ao ser questionado sobre o objetivo do encontro entre Donald Trump e Lula em Kuala Lampur, na Malásia.

Ainda que as tarifas impostas por Trump tenham prejudicado a economia norte-americana, existem interesses de longo prazo em jogo na aproximação entre os dois países. Rubio afirma que os Estados Unidos querem se tornar os parceiros comerciais preferenciais do Brasil em detrimento da China. A missão não será fácil.

Vulgar especulação de cargos e propinas, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Em nome de uma criminalização da política o debate sobre corrupção foi interditado desde o mensalão e a Lava Jato

O desafio redobrou devido ao desmonte de práticas institucionais em vez da correção dos desvios

Que o Brasil viva, na conjuntura atual, um malaise político não deveria surpreender. Trata-se de um traço constitutivo da nossa experiência republicana, em que interregnos de entusiasmo cívico são espasmódicos. Há um século, esse malaise já se manifestava no desencanto da primeira geração republicana. Como escreveu Vicente Licínio Cardoso —cuja obra póstuma "À margem da História da República" (1933) reúne reflexões amargas sobre os fracassos dos governos republicanos—, "a grande e triste surpresa de nossa geração foi sentir que o Brasil retrogradou".

Falava-se, como hoje, em retrocesso democrático e de políticas. Para Cardoso, a história "não deve ser fabricante de elogios nem depósito sebento de críticas póstumas"; ela deve apontar o fracasso rotundo do país em áreas vitais, como a educação pública —"nossa tragédia".

50 anos numa noite mágica e cidadã, por Juca Kfouri

Folha de S. Paulo

Estavam lá os órfãos, o presidente da República e a do STM, que pediu perdão

Eloquentes foram as ausências do governador de São Paulo e do prefeito do capital

No sábado (25), à tarde, o Corinthians ganhou do Vitória, se afastou do risco de queda e aliviou o Santos.

À noite, o Flamengo conseguiu perder para o Fortaleza e alegrar o Palmeiras, que estava murcho com o desastre de Quito.

Também à noite, o São Paulo ganhou bem do Bahia.

Mais: a Ponte Preta ganhou sua primeira taça nacional em 125 anos de história, ao ser campeã da Série C.

De quebra, neste domingo, João Fonseca foi campeão no ATP 500 da Basileia, na Suíça.

Convenham, a rara leitora e o raro leitor, que assuntos não faltaram para a coluna, que dos cinco eventos citados viu dois, o que envolveu o sofrido e assaltado, pelos cartolas, Corinthians, e o do magnífico jovem tenista brasileiro.

A derrota rubro-negra e a vitória tricolor concorreram com o que de mais importante aconteceu na vida brasileira no fim de semana, mais importante até que o encontro entre Lula e Trump.

Porque na noite de sábado, na Catedral da Sé, os dois órfãos de Vladimir Herzog, Ivo e André, voltaram ao palco onde, em 1975, aconteceu o culto ecumênico que marcou o início da redemocratização do Brasil. Estavam acompanhados do neto e das netas de Vlado, a quem novo ato inter-religioso homenageou.

Poesia | Quando olho para mim | Poema de Fernando Pessoa

 

Música | Saudades da Guanabara - Xande de Pilares

 

domingo, 26 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

IA desperta temor de bolha similar à da internet

Por O Globo

O paralelo é intrigante, mas ninguém deve ter dúvida sobre o impacto futuro na produtividade

Desde que a OpenAI lançou o ChatGPT, em 2022, o mercado acionário americano valorizou-se 75% — e as empresas cujo negócio está atrelado à inteligência artificial (IA) responderam por 80% dessa valorização. Ao mesmo tempo, a geração de empregos nos Estados Unidos caiu 30% no período (apesar de o nível de desemprego continuar baixo). Não há registro de divergência semelhante, com alta nas ações e queda na criação de postos de trabalho.

Passado e presente, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Neste governo Trump está de volta o mau presságio, ou a realidade já em curso, da autocratização política e do acirramento das tensões sociais

Comecemos com uma curiosidade de duas ou três décadas atrás. Um respeitado historiador das coisas do comunismo, perguntado sobre a queda do Muro de Berlim, a implosão do edifício soviético e os naturais efeitos sobre sua disciplina, reconheceu sentir-se bastante deslocado no novo contexto. É que, sem poder negar o longo período de estudos e os muitos livros lidos e escritos, percebia ter passado subitamente da condição de historiador do presente para a de arqueólogo. Daí por diante, seus temas de eleição soariam esotéricos. O que teriam a dizer aos contemporâneos as escolhas dos antigos partidos comunistas – seja no poder, seja na oposição –, seus momentos de ascensão e declínio, suas incessantes idas e vindas diante da “questão democrática”?

Cadeia para as mulheres, por Paulo Celso Pereira

O Globo

Aborto é assunto evitado da centro-esquerda à centro-direita pelo risco de perda de votos

Em junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão histórica: ignorando a opinião de 67% da população, a Corte definiu que qualquer usuário poderia portar até 40 gramas de maconha sem risco de ser preso. A grita no Congresso foi grande. O então presidente da Câmara, Arthur Lira, anunciou a criação de uma comissão para analisar uma Proposta de Emenda à Constituição de autoria do comandante do Senado na ocasião, Rodrigo Pacheco, para reverter a decisão. Hoje, passados 16 meses, ninguém debate mais sobre o assunto. A regra estabelecida pelo STF está em vigor, e nenhum índice de violência disparou.

A descriminalização da maconha foi colocada em pauta em 2023 pela então presidente da Corte, Rosa Weber. Sóbria e coerente, a ministra passou quase 12 anos no Supremo sem dar nenhuma entrevista e tendo como marca a defesa institucional do tribunal. Em sua despedida, ela decidiu dar mais um passo histórico na defesa das liberdades individuais e proferiu um voto de 129 páginas para descriminalizar o aborto realizado até a 12ª semana de gestação.

Deus e o diabo na Câmara, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Diabo. Demônio. Satanás. Os três nomes do coisa-ruim foram invocados por deputados na noite de quarta-feira. Faltou citarem Tinhoso, Asmodeu, Lúcifer, Capiroto, Cramunhão, Belzebu...

Numa semana cheia de assuntos urgentes, a Câmara parou para debater o projeto que cria a bancada cristã. A ideia foi apresentada pelos líderes das frentes católica e evangélica. Eles se uniram para tentar emplacar uma nova instância de poder subordinada à fé.

A proposta significa um retrocesso em múltiplas dimensões: atropela a laicidade do Estado, discrimina adeptos de outras religiões, põe a Bíblia à frente da Constituição.

As cartas do embaixador, por Míriam Leitão

O Globo

Com linguagem poética e raciocínio lógico, o presidente da COP tem comunicado a urgência da ação, e o custo de nada fazer contra a crise climática

O embaixador André Corrêa do Lago escreve cartas. Já foram oito. É parte natural da presidência da COP que ele exerce. O alerta da semana passada lembrava um princípio da evolução das espécies. “Os sobreviventes não são os mais fortes, são os mais cooperativos”. Nós, os humanos, não temos cooperado. Os riscos são existenciais. Mas, perdidos em nossas emergências e fraturas, não vemos o essencial. As conferências da Convenção do Clima são o chamado à consciência, mais profundo do que em qualquer outra reunião da ONU, de que corremos perigo extremo diante do problema criado por nós mesmos. “A inação não representa uma falha técnica, mas sim uma escolha política sobre quem vive e quem morre.”

Lula atravessou o Pacífico para escorregar numa folha de coca em Jacarta, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Brasil deixou de ser apenas consumidor da droga, produzida na Bolívia, Venezuela e na Colômbia, para se tornar um corredor de exportação

Uma frase infeliz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o tráfico e o consumo de drogas, durante entrevista em Jacarta, na Indonésia, virou a nova dor de cabeça do governo — justamente quando o petista começava a voar em céu de brigadeiro nas pesquisas de opinião. Sua popularidade vinha em recuperação, apesar de contingenciada por problemas econômicos (déficit fiscal) e sociais (segurança) objetivos, que o governo tenta contornar com medidas voltadas à classe média e à população de baixa renda. Volta e meia, porém, Lula fala o que não deveria, como agora, e colide com o senso comum da maioria da sociedade.

Brasil e Sudeste Asiático: ampliando horizontes estratégicos, por Mauro Vieira

Correio Braziliense

A presença do Brasil na cúpula da Asean é um gesto de confiança na força do diálogo político como instrumento de transformação, com decidido apoio da diplomacia presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza, na atual visita à Ásia, mais uma missão diplomática inédita: será o primeiro presidente brasileiro a participar de uma reunião de cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). A visita inaugura uma nova etapa nas relações entre o Brasil e uma das regiões mais dinâmicas e estratégicas do mundo. A Asean é um exemplo de grande êxito na construção de confiança entre os países do Sudeste Asiático, por meio do diálogo político e da expansão de laços econômicos, em especial nas últimas três décadas.

Em 2023, durante visita a Jacarta, tive a honra de inaugurar oficialmente a Parceria de Diálogo Setorial Brasil-Asean, a única que a associação mantém com um país da América Latina. Desde então, em minhas viagens à região, pude constatar sua impressionante pujança econômica e diversidade. Com cerca de 680 milhões de habitantes e um PIB de aproximadamente US$ 4 trilhões, os 10 países-membros da Asean, em conjunto, equivalem à quarta economia do planeta.

Lula entre Jacarta e a luta pelo voto, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Num quadro de polarização política, a disputa eleitoral do próximo ano poderá ser mais dura e mais custosa, do que talvez se calcule neste momento

O mundo terá de recuar milênios, voltando talvez à fase inicial do comércio entre gregos e fenícios, para ficar ao gosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Guiado em assuntos internacionais por ideias singularíssimas, ele consegue misturar no mesmo discurso a defesa do multilateralismo e a pregação do comércio com moedas emitidas pelos parceiros – ou até sem moedas, como se fazia na aurora da civilização mediterrânea. Essa arenga foi retomada em Jacarta, em cerimônia com o presidente indonésio Prabowo Subianto, na reunião de líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Com o fortalecimento da União Europeia e com a crescente importância comercial da China, talvez o sistema de pagamentos evolua para novas formas de operação e para a consolidação de novas moedas de uso global. Mas essas transformações, normalmente complexas, podem ser lentas, envolvem a combinação de interesses variados e muito dificilmente – talvez nunca – se resolverão no interior de grupos como o Brics.

Mais que ‘um pedacinho de bolo’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A Argentina ‘está morrendo’, mas o Brasil está muito vivo e oferece lucro, alegria e bolo para Trump

Aqueda de braço com Lula na Malásia pela revisão do tarifaço e a vitória ou derrota de Javier Milei nas eleições legislativas da Argentina, neste domingo, serão duas ótimas oportunidades simultâneas para Donald Trump definir os rumos das relações dos EUA com a América do Sul e sua estratégia para retomar a influência norte-americana na região. Dois testes de fogo.

Para o bem ou para o mal, Trump mira nas maiores economias da América do Sul e as diferenças são estridentes. Como define um sagaz embaixador, as relações com o Brasil são de “lucro e alegria”, a Argentina virou “um peso”, ou um custo de bilhões de pesos, E a Colômbia, como a combalida Venezuela, atrai chuvas, trovoadas e até um ameaçador porta-aviões bem perto. O Chile e o Peru? Não estão no radar.

O jogo para 2026, por Fernando Schüler

O Estado de S. Paulo

As pesquisas mostram que uma maioria consistente de eleitores não gostaria de ver nem Lula nem Bolsonaro em 2026. Seria ótimo uma esquerda e uma direita renovadas, no País, discutindo o futuro. Mas não irá acontecer. Por vezes me lembro de meus 20 e poucos anos. Era a primeira eleição da Nova República, em 1989, e Lula já estava lá. Agora vamos para a décima eleição, e algo soa como a reprise infinita de um velho filme.

Lula sai na frente. Das quatro reeleições que tivemos, apenas uma não funcionou: Bolsonaro, em 2022. Na América Latina, o índice de reeleição chega a 85%.

Há exatos cinco meses, o governo chegou ao fundo do poço, com cerca de 40% de aprovação. De lá para cá, vem se recuperando. Grosso modo, uma reeleição é muito improvável com aprovação abaixo de 40%, e muito provável acima de 50%. Lula sabe disso. Se o governo crescer mais 4 ou 5 pontos, é difícil perder. Se a inflação está sob controle, desemprego baixo e as gratuidades correndo soltas, o curto prazo está bem resolvido. E o curto prazo é 2026.

O tiro pela culatra no agro americano, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

As tarifas não poderiam ter vindo em pior momento para a carne bovina dos EUA

Donald Trump está em condição mais vulnerável, do ponto de vista comercial, do que quando anunciou a tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, no dia 9 de julho. A carne e o café estão caros nos EUA e não houve impacto sobre as principais exportações do agro brasileiro.

As tarifas não poderiam ter vindo em pior momento, para a carne bovina dos EUA, que vive a pior queda de produção em 70 anos. Todo setor tem os seus ciclos. Dentro de um ou dois anos a produção pode aumentar de novo. Mas a escassez levou a aumento de 14% do preço da carne americana nos 12 meses encerrados em agosto.

Para uma economia estável como a americana, é muita coisa. O churrasco de hambúrguer no fim da tarde é sagrado para a família americana. Diante das pressões, Trump falou em importar carne argentina. Provavelmente para ajudar Javier Milei nas eleições para o Congresso argentino, hoje – como fez ao condicionar o swap cambial de US$ 40 bilhões à vitória de seu aliado nas urnas.

Trump tutela Argentina, ameaça Venezuela, se acerta com a Ásia. E Lula com isso? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente tem muita experiência para negociar, país tem pouca estratégia pensada

EUA preparam guerra na América Latina e transformam Argentina em protetorado financeiro

Luiz Inácio Lula da Silva tem meio século de experiência em negociações, a contar pelo menos desde quando assumiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, em 1975, conversando com a Fiesp e liderando um movimento político que contribuiu para o fim da ditadura. Disputou seis eleições presidenciais, ganhou três. Governou o país já por 11 anos, sempre em minoria no Congresso. Etc.

Não há líder político no Brasil com fração da experiência de Lula. Não obstante, Lula confia por demais no seu "taco", quando não diz disparates, em especial quando em boa fase e o "fracasso sobe à cabeça", vide a arenga de sexta passada sobre usuários de drogas que prejudicam traficantes. Parece também confiante de que vai levar Donald Trump na conversa, falando "de tudo", "igual para igual". Mas terá de pensar muito mais no que diz; o Brasil precisa de planos estritos, muito além de vago, velho e ideológico sul-globalismo.

Democracia no Brasil é um grande sucesso, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Esperar que regime corrija grandes problemas do país é exigir demais de um instrumento

O que quer dizer democracia? A resposta vai variar conforme o gosto do freguês, e o livro "A Palavra e o Poder" (Civilização Brasileira) traz um rico painel desse debate no contexto brasileiro ao longo dos 40 anos da Nova República.

Ao pé da letra grega, democracia é o poder do povo. É mais simples entendê-la no experimento ateniense da Antiguidade, pelo qual os cidadãos se juntavam na praça para deliberar, ao peso de um voto por cabeça, sobre temas da coletividade.

No seu mínimo denominador comum, a democracia é meio de satisfazer o apetite humano pelo poder sem recurso à violência. Nesse sistema, ninguém precisa decapitar o rei ou derrotar a milícia inimiga para tornar-se governante. Basta vencer as eleições. Simples de formular, difícil de implementar.

Há um componente da realidade que complica essa equação. As pessoas podem ser consideradas iguais diante da lei, mas elas não se sentem nem se comportam como se fossem iguais. Uma teia de relações de parentesco, de hierarquia e de posicionamento econômico desafia o ideal normativo.

Fux deu Nobel para o golpe, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Auge da performance do ministro foi comparação dos golpistas de Bolsonaro com María Corina Machado

Fux já começou tratando como indiscutível o que a defesa dos acusados nunca conseguiu provar

A polícia provou que Jair Bolsonaro e seus cúmplices sabiam que as urnas eletrônicas eram seguras.

Na investigação do golpe foram encontradas evidências irrefutáveis de que nem a auditoria do Exército nem a auditoria do PL encontraram qualquer irregularidade nas urnas eletrônicas. Há uma mensagem de Mauro Cid para outro oficial golpista dizendo com todas as letras: "Nada...nenhum indício de fraude".

Quantos brasileiros sabem que a polícia fez essa descoberta?

Suspeito que poucos.

Só por isso ainda há gente dizendo que o STF atacou a liberdade de expressão quando combateu o golpe: porque muita gente acha que os golpistas acreditavam, sinceramente, que a eleição havia sido roubada.

Essa hipótese da crença sincera na eleição roubada também ajuda a dar a impressão de que as ofensivas golpistas daqueles meses foram apenas explosões irracionais, realizadas sem comando central por cidadãos que, embora equivocados, exerciam seu direito ao protesto e à liberdade de expressão.

Tudo mentira.

Lula e o projeto Boulos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A ida do deputado para o Palácio não é uma troca como outras; tem jeito de plano estratégico

Primeiro, o presidente abre espaço em SP para deputados do PT, depois investe na formação de um sucessor

A substituição de Marcio Macêdo (PT) por Guilherme Boulos (PSOL) na Secretaria-Geral da Presidência não foi uma troca qualquer, como tantas outras nestes dois anos e dez meses de governo Lula.

Guarda alguma semelhança com o revezamento de lugares entre os petistas Gleisi Hoffmann e Alexandre Padilha nas pastas das Relações Institucionais e Saúde, devido ao perfil mais esquerdista e combativo da ministra. A simetria fica por aí.

Uma demanda de urbanidade política, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Em biorritmo encapsulado, a capital do país é mais federal do que do Brasil

A desastrosa ditadura e a degradação civil desligaram Brasília da criação

É possível que a cidade de Brasília tenha algo a ver com a deterioração qualitativa do Congresso. No governo Kubitschek, a transferência da capital para o Planalto Central não espelhava nenhuma grande transformação social, mas era a marca de uma reorganização simbólica, marketing do ímpeto industrialista da burguesia nacional. No sistema-mundo, vivia-se o apogeu do princípio anticolonial de autonomia dos povos periféricos, o Brasil despontava no Terceiro Mundo, com a ideologia do desenvolvimento à frente.

Brasília seria um símbolo forte disso tudo. Já em 1916, o sociólogo norte-americano Robert Park afirmava que cidade era algo mais que "um amontoado de homens, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas de bonde e telefone. A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes, tradições e sentimentos" (em "A Cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano").

Poesia | Não se mate, de Carlos Drumonnd de Andrade

Música | Paulinho da Viola - Argumento

 

sábado, 25 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Exceções destroem credibilidade do arcabouço fiscal

Por O Globo

Até o fim do mandato, governo terá gastado 1,3% do PIB fora das metas que ele mesmo estabeleceu

Repetindo um comportamento contumaz, o Senado aprovou mais uma despesa que ficará fora da meta fiscal. O projeto tramitou de forma célere, com apoio maciço de governistas e oposicionistas. Permite destinar até R$ 5 bilhões a investimentos estratégicos do Ministério da Defesa sem se preocupar com o impacto nas contas públicas. Com mais essa manobra, até o fim do mandato, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá superado R$ 150 bilhões em exceções às regras do arcabouço fiscal (elas já passam de R$ 140 bilhões). Não é montante desprezível. Corresponde a 1,3% do PIB, ou ao valor previsto este ano para o Bolsa Família.

Direitas e esquerdas, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A tensão entre esquerda e direita se acentuou, ao passo que o centro moderado se esvaziou. A política se tornou polarizada, sem mediações

Quando Norberto Bobbio publicou seu famoso opúsculo Direita e Esquerda, em 1994, corria solta a ideia de que a dicotomia esquerda x direita havia sido devorada pelas transformações do capitalismo e pelo avanço do neoliberalismo. Falava-se que direita e esquerda haviam perdido significado porque teriam os mesmos fins imediatos e poderiam enveredar pelo mesmo padrão de populismo.

Bobbio respondeu dizendo que não se pode negar validade àquilo que está colado no imaginário coletivo e na linguagem cotidiana. Esquerda e direita têm uma carga emotiva ineliminável e servem para organizar os conflitos políticos. Distinguem-se pelo modo como se relacionam com o igualitarismo (traço distintivo da esquerda), a democracia política e os direitos.

Um país que parece não querer existir, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A questão que tão cedo não se calará é quem, afinal, manda neste país

Euclides da Cunha foi não apenas o grande ensaísta de Os Sertões; foi também um exímio analista político e um pensador que enxergava longe. É dele esta expressiva reflexão: “Somos um caso único de um país formado por uma teoria política. Estávamos destinados a formar uma raça histórica, através de um longo curso de existência política autônoma. Violada a ordem natural dos fatos, a nossa integridade étnica teria de constituir-se e manter-se garantida pela evolução social. Condenávamos à civilização. Ou progredir ou desaparecer”. Atualmente, só meia dúzia de obtusos ignoram que “nossa integridade étnica” está constituída. A maioria de nossa população é miscigenada. Nem pretos nem brancos. Pardos, na terminologia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cabe, no entanto, a dúvida: queremos mesmo formar uma “raça histórica”, ou seja, um país de verdade, uma civilização? Muitos fatos levam-nos a cogitar a hipótese contrária. Às vezes penso que não temos uma identidade nacional e não queremos ser um país com consistência própria. Que nosso desejo mais profundo seria afundar no mar.

No STF, o terceiro parlamento nu, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Luiz Fux estava isolado na Primeira Turma. Isolado politicamente. À margem do bloco local de poder. Falamos sobre isso com naturalidade, como se fosse normal o tribunal constitucional se comportar e organizar tal e qual um parlamento, com grupos políticos, partidos mesmo, donde agentes políticos, que se articulam taticamente para responder ou se antecipar aos movimentos de Legislativo e Executivo.

Ministro tributarista, que resolve o IOF de Haddad. Ministro tesoureiro, que gere o fluxo das emendas parlamentares. Juízes de Corte constitucional percebidos – não sem razão – como resolvedores dos problemas do governo de turno. E, se há os que resolvem, questão de mercado mesmo, logo haverá os que dificultam.

Razões das coincidências, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Há um grupo de estudiosos que não acredita em coincidências porque elas sempre indicam tendências ou verdades escondidas; bem escondidas, aliás

Os últimos dias revelaram surpresas interessantes ou coincidências reveladoras. Há um grupo de estudiosos que não acredita em coincidências porque elas sempre indicam tendências ou verdades escondidas; bem escondidas, aliás. Não chega a ser surpresa o presidente Lula anunciar, na sua visita à Indonésia, que será candidato pela quarta vez à Presidência da República. Surpresa é ele declarar que está com saúde igual aos de seus longínquos 30 anos, mas não revelar que continua a pensar da mesma maneira que há 50 anos. Ele mantém sua visão da sociedade dividida e protegida por sindicatos. Longe da disputa pelo melhor preço e maior qualidade.

Câmara alivia Eduardo e Zambelli, deputados que não trabalham, por Alvaro Costa e Silva


Folha de S. Paulo

Hugo Motta permitiu que a Câmara se degradasse com motim e blindagem

Maior interesse dos deputados é defender casas de aposta e outros lobbies

Milagre. Hugo Motta priorizou um tema de consenso entre base e oposição e conseguiu aprovar um pacote de projetos que aumenta o combate ao crime, especialmente aquele conhecido como novo cangaço.

Os PCCs da vida, hoje sofisticadas empresas, aguardam a votação da PEC da Segurança, que inclui a Polícia Federal no enfrentamento aos bandidos infiltrados nas instituições, e da nova proposta antimáfia elaborada pelo governo, com penas mais pesadas.

Governo cobra coerência do Congresso para votar PL de corte de despesas, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Haddad deveria aproveitar negociação para apresentar novas medidas de contenção

Chama a atenção a insistência do governo em tentar limitar, pela terceira vez, o uso de créditos tributários de PIS e Cofins

O ministro Fernando Haddad (Fazenda) cobra coerência do Congresso para votar logo ao menos um dos projetos de lei com medidas de redução nas despesas após a derrubada da MP de alta dos impostos.

As medidas de corte de gastos estavam misturadas com outras propostas de incremento da arrecadação e acabaram ficando para trás com a decisão dos deputados de enterrar a MP. Após a derrota, o governo decidiu dividir as medidas de compensação em dois projetos, reciclando algumas propostas para fechar o Orçamento no ano eleitoral de 2026.