domingo, 23 de novembro de 2025

Opinião do dia – Montesquieu* (liberalismo forte)

“O amor pela república, numa democracia, é o amor pela democracia; o amor pela democracia é o amor pela igualdade.

O amor pela democracia é também o amor pela frugalidade.

Nesse regime, devendo todos gozar da mesma felicidade e das mesmas regalias, devem fruir dos mesmos prazeres e acalentar as mesmas esperanças, coisa que só se pode esperar da frugalidade geral.

O amor pela igualdade, numa democracia, limita a ambição unicamente ao desejo, à felicidade prestar à sua pátria serviços maiores que os outros cidadãos. Todos não podem prestar-lhe serviços iguais; mas todos devem igualmente prestar-lhos. Ao nascer contraímos para com ela uma imensa dívida da qual nunca podemos desobrigar-nos.

Assim, nas democracias, as distinções nascem do princípio da igualdade, mesmo quando essa parece destruída por serviços excepcionais ou por talentos superiores.”

*Montesquieu (1689-1755), foi um político, filósofo e escritor francês. Ficou famoso pela sua teoria da separação dos poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais; ‘Do Espírito das Leis’ p. 84. Editora Nova Cultura, 2005 (tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encarcerado e politicamente esvaziado

Por Folha de S. Paulo

Bolsonaro começa na prática a cumprir pena em regime fechado; direita busca opções para 2026

Prisão domiciliar será tema incontornável para o STF, dadas idade e saúde de Bolsonaro; debate sobre dosimetria seguirá aberto

Jair Bolsonaro (PL) começa a cumprir em regime fechado sua pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado. Esse, tudo indica, é o efeito prático da decretação de sua prisão preventiva neste sábado (22) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Já se previa que o STF determinasse o cumprimento da pena a partir de segunda (24), com o encerramento do prazo para os últimos recursos da defesa do ex-presidente —que havia pedido a permanência da prisão domiciliar em que ele estava desde 4 de agosto, alegando riscos de vida decorrentes de idade e condições de saúde. Essa possibilidade por ora parece fora da mesa.

Em sua decisão, Moraes apontou tentativa de violação da tornozeleira eletrônica, reportada pelo monitoramento do Distrito Federal, e risco de fuga para a embaixada dos Estados Unidos, agravado por uma vigília a ser realizada na noite deste sábado perto de sua residência. Em vídeo, Bolsonaro admitiu candidamente a uma agente distrital que aplicou ferro quente na tornozeleira.

Allende, Berlinguer e a esquerda hoje, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Na tradição da esquerda – como mostram Allende e Berlinguer – há um repertório alternativo a ser ‘aggiornato’ e requalificado

Um reel do escritor chileno Roberto Bolaño Ávalos, que circula nas redes, evoca comovidamente Salvador Allende e a tragédia do golpe de 1973. De modo contundente, Bolaño descreve a desilusão inicial dos jovens de então, que em vão esperavam as armas negadas pelo presidente em vias de ser deposto e morto. Allende aparecia como um conservador, capaz de cometer quase uma traição, fugindo à luta no momento decisivo. Sua imagem, no entanto, ao longo do tempo, iria se agigantar, ao evitar os horrores da guerra civil e poupar do aniquilamento toda uma geração ou a maior parte dela. É que a derrota de Allende e da Unidade Popular, naquele Chile tão distante, já estava definida pela política, não pelas armas, como se deduz das palavras de Bolaño.

Curiosidade proposital, por Merval Pereira

O Globo

A reação dos Bolsonaro indica que não pretendem se conformar com a prisão do pai e líder e mais uma vez estão se insubordinando contra a lei.

A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro foi provocada por uma “curiosidade” infantil de saber como funcionava a tornozeleira eletrônica que carrega na perna, alegou ele. Tal “curiosidade” irresistível ocorreu na madrugada, pouco depois da meia-noite, e foi detectada pelo equipamento de recepção dos sinais da tornozeleira na Polícia Federal. Usar um ferro de solda para tal ação demonstra não sinais de que preparava uma fuga, mas talvez que tenha feito de propósito essa violação para provocar uma reação política de seus seguidores.

Não há outra explicação para tamanha irresponsabilidade, que significa uma confrontação com a decisão judicial que o colocou em prisão domiciliar. É típico de Bolsonaro essa afronta, que sempre foi seguida de um pedido de desculpas, uma alegação de que estava transtornado pela “injustiça” que estão cometendo contra ele.

Formação de família, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ações desastradas de Eduardo e Flávio levaram ex-presidente mais cedo para a cadeia

Jair Bolsonaro mal havia vestido a faixa quando aliados começaram a reclamar das ações de seus filhos. O primeiro a se queixar em público foi o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Acabou demitido antes de completar dois meses no cargo.

“Os filhos do presidente atrapalham muito, são o maior problema do governo”, disse Bebianno, poucos meses depois da queda. “São mimados, nunca trabalharam na iniciativa privada, nunca enfrentaram um ambiente de trabalho normal. Sempre mamaram nas tetas do Estado”, acrescentou.

Eleito por um partido de aluguel, Bolsonaro não tinha quadros para montar o governo. Loteou a Esplanada entre militares e permitiu que os filhos Flávio, Carlos e Eduardo interferissem à vontade na gestão federal.

Alcolumbre no estilo de Eduardo Cunha, por Elio Gaspari

O Globo

Duas horas depois da indicação do advogado-geral da União Jorge Messias para a cadeira vaga no Supremo Tribunal Federal, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que vai pautar um projeto que regulamenta as aposentadorias de agentes de saúde.

Aprovado, será um tiro de bilhões nas contas do governo. Segundo o deputado Antonio Brito, relator do projeto, serão gastos R$ 5 bilhões federais até 2030. Já a Confederação Nacional de Municípios estima que sejam R$ 21,2 bilhões municipais.

Sem tirar nem pôr, é uma pauta-bomba, ao estilo de Eduardo Cunha detonando Dilma Rousseff.

Alcolumbre e muitos senadores foram contrariados com a escolha de Jorge Messias para o STF. Jogando pelas regras, o Senado pode rejeitá-lo. Se não der, pode escolher uma outra vítima, expondo sua insatisfação.

Pauta-bomba, gerando despesas, é teatro ou, na pior das hipóteses, jogo sujo. Eduardo Cunha jogou-o em 2015 e quebrou as pernas de Dilma. Por outros motivos, acabou na cadeia, até que em 2013 o STF aliviou-o.

Alcolumbre e alguns senadores queriam a indicação de Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa. Não deu, paciência.

O gesto de Alcolumbre tisna a pauta do Senado dando-lhe um cheiro de arma de conveniência.

‘Coisas acontecem’, por Dorrit Harazim

O Globo

A sacola de plástico contendo as roupas do morto foi jogada numa lixeira. Os restos mortais de Jamal Khashoggi jamais foram encontrados

Na semana passada o presidente Donald Trump recebeu o príncipe saudita Mohammed bin Salman (conhecido pelas iniciais MBS) em grande estilo, com caças F-35 e F-16 sobrevoando a Casa Branca. Nos céus, tudo azul. Em solo, nem tanto. Como de praxe, a mídia credenciada fora convocada ao Salão Oval para registrar o momentoso encontro. Mas nada parece dar muito certo naquele local histórico transformado em assombração kitsch — folheada a ouro, claro — por Trump.

Mais de sete anos haviam transcorrido desde que a CIA informara ao mundo considerar MBS responsável por ordenar o assassinato do jornalista saudita exilado Jamal Khashoggi. Era inevitável, portanto, que o tema fosse abordado na ocasião.

A repórter Mary Bruce, da emissora ABC News, dirigiu sua pergunta ao visitante com transmissão ao vivo:

— Vossa Alteza Real, os Estados Unidos concluíram que o senhor orquestrou o assassinato brutal de um jornalista. As famílias das vítimas do atentado do 11 de Setembro estão inconformadas por vê-lo no Salão Oval. Por que os americanos deveriam confiar em Vossa Alteza Real?

Bastidores da COP de Belém, por Míriam Leitão

O Globo

A grande divisão da COP foi a escolha entre sair de forma ordenada do petróleo e do carvão ou torrar na Terra e sermos varridos por tufões, enchentes e secas

foi em claro. Houve acordo em várias questões. Segundo o presidente André Corrêa do Lago, vai demorar para explicar todos os pontos positivos. O negativo é fácil de entender. Venceu o veto dos defensores dos fósseis ao mapa do caminho para a menor dependência das fontes de energia que estão ameaçando a vida na Terra. Belém rachou. Havia 80 países a favor, e o resto contra ou se abstendo. O embaixador disse que o mapa do caminho será uma decisão da presidência brasileira que tem ainda 11 meses pela frente. O problema é que, se não está no acordo, não vira mandato. Mas ele tem o respaldo de mais de 80 países para tentar construir uma fórmula que permita a sobrevivência da ideia.

Prisão não anula Bolsonaro na escolha do candidato de oposição a Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente do PL Valdemar Costa Neto não esconde o desejo de que Michelle seja a candidata. Os filhos preferem o irmão mais velho, o senador Flávio Bolsonaro

A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, após a convocação de uma vigília por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), não sela o destino do bolsonarismo nem esvazia seu impacto no pleito de 2026. O movimento político criado por Bolsonaro é maior que sua condição jurídica e, embora enfraquecido, permanece vivo entre milhões de seguidores.

Bolsonaro está sob custódia do Estado, inelegível e condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, mas continua sendo a principal referência política da direita brasileira, à qual hegemonizou. A prisão reduz seu raio de ação e aumenta sua vulnerabilidade, mas não dispersa de imediato a base eleitoral que construiu nos últimos 10 anos. A “sombra de futuro” do “Mito” contingenciará os candidatos de oposição.

Emprego vai bem, mas falta cuidar da inflação, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

As projeções do mercado ainda apontam inflação longe da meta no próximo ano e em parte de 2027

Desemprego baixo e comida na mesa têm garantido pontos para o governo, mas a economia perde impulso e nada prenuncia algum dinamismo nos próximos anos. A atividade tem sido puxada pelos serviços e pela agropecuária, enquanto o desempenho da indústria continua medíocre. O investimento produtivo – em máquinas, equipamentos, construções e tecnologia – oscila segundo os padrões do último quarto de século. O valor investido tem superado muito raramente os 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e com frequência tem ficado abaixo de 18%.

Preso e isolado politicamente, Bolsonaro deixa bastão com Flávio, que também pode ser alvo da PF, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Candidatura presidencial do filho zero um, entretanto, não une a centro-direita e ainda há temor de eventual investigação sobre o senador também inviabilize seu nome

Amigos e correligionários de Jair Bolsonaro (PL) já tinham acionado a contagem regressiva para a prisão do ex-presidente, antes mesmo de o ministro Alexandre de Moraes decretar a preventiva neste sábado, 22. Todos sabiam que o momento estava chegando, mas acreditavam que ocorreria entre as próximas terça-feira e quarta-feira.

Apesar do fim inevitável se aproximando, falar da prisão com Bolsonaro e da transferência de seu espólio político para 2026 virou um tabu. “Parece abutre à espreita”, resumiu à Coluna do Estadão uma liderança política da direita bolsonarista para expor o desconforto com o tema.

Discutir os palanques estaduais e a corrida ao Planalto com o capitão virou um problema. Seu quadro emocional e clínico cada vez mais prejudicado inibia as abordagens, segundo relato de pessoas próximas ao ex-presidente. Além disso, há as limitações judiciais. Para visitá-lo é preciso autorização prévia de Moraes, e o diálogo entre Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, está proibido.

Em nome de ‘Deus’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

“Meter ferro quente” foi teste de Bolsonaro para tirar a tornozeleira na hora H, da fuga

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes um dia depois da inclusão do deputado Alexandre Ramagem na lista da Interpol, pode ser definida como uma “ação antidebandada”. O bolsonarismo agonizando e o trânsito em julgado da trama golpista chegando detonaram um “salve-se quem puder”. A PF e Moraes estão de olho.

A prisão, que não é (ainda) pela condenação por tentativa de golpe de Estado, foi depois de PF e Moraes juntarem as peças do quebra-cabeça numa imagem nítida: Bolsonaro pretendia fugir do País, tal como os deputados Eduardo, agora réu, Ramagem e Carla Zambelli, já condenados.

Apesar da troca na linha de frente, do desastrado Eduardo Bolsonaro pelo até então moderado Flávio Bolsonaro, e do vídeo desesperado do 01 articulando uma “vigília” para salvar o bolsonarismo, parece tarde demais: escaldados pelas prisões do 8/1 e desencantados com o antipatriotismo dos seus ídolos, os militantes abandonam as ruas, enquanto os cúmplices políticos abandonam o País.

Descontando o futuro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de conceito econômico por trás de juros e prêmios de risco

Fenômeno também explica dificuldade para ações firmes no enfrentamento da mudança climática

Ao menos para economistas, o futuro vale menos do que o presente. Prêmio de risco e preço da paciência estão entre as razões evocadas para justificar o chamado desconto do futuro e fenômenos a eles associados, como a taxa de juros. O desconto do futuro é também um dos motivos por que é tão difícil coordenar as ações de países para enfrentar a mudança climática.

"Discounting the Future", de Liliana Doganova, é um interessante passeio pela lógica, contradições, cálculos interessados e falta de visão que nos levam a descontar o futuro.

O bolsonarismo sem Bolsonaro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Núcleo familiar deve tentar ganhar força na disputa contra bolsonaristas ditos pragmáticos

Cadeia precoce não deve mudar história real da direita ou força do bolsonarismo transformado

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro transforma em drama mais intenso o que seria a cena do encarceramento, o episódio em que o capitão das trevas seria levado a uma cela a fim de cumprir pena por tentativa de golpe. Vamos chamar de drama o que seria farsa, não fora tão tétrica.

A encenação não deve mudar a história real. Os integrantes mais aguerridos da seita farão mais propaganda fanática, como o fazia Flávio Bolsonaro. Inadvertidamente (ou não?), o senador do PL do Rio de Janeiro antecipou a prisão ao convocar para este sábado uma vigília para perto da casa do pai dele, com hipérboles bíblicas e denúncia da ditadura em que, diz, vive o Brasil. O bolsonarismo restante ou transformado continuará a cuidar da vida, pois a prisão era certa. Sim, o bolsonarismo é maior do que Bolsonaro. Transformou-se em ideia.

Ali está o maior criminoso da história, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Com a redução das tarifas de Trump, ex-presidente foi preso assistindo ao fracasso de seu último grande crime

Imaginem o tamanho do desastre que seria uma fuga de Bolsonaro

Jair Bolsonaro foi preso mais cedo do que se esperava. Preso sem estardalhaço, sem sensacionalismo, sem algemas, nos termos da lei. Preso preventivamente, por tentar fugir poucos dias antes do início do cumprimento da pena a que foi condenado por tentar roubar o voto da maioria dos brasileiros em 2022.

Jair tentou quebrar sua tornozeleira eletrônica para fugir em meio à confusão que seria criada pela vigília que Flávio Bolsonaro convocou. Estava a 15 minutos das embaixadas de Brasília.

Se tivesse que apostar para qual embaixada Jair fugiria, cravaria alguma das monarquias absolutistas árabes.

Bolsonaro conduziu seu infortúnio, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As escolhas beligerantes do ex-presidente e sua turma os levaram a pagar o preço da própria estupidez

Se ficassem inertes a reiterados atos de desafio à legalidade, autoridades incorreriam em grave omissão

Preso Jair Bolsonaro (PL) estava em casa, preso continuará na Polícia Federal até que o ministro Alexandre de Moraes decida lhe dar, ou não, o benefício da domiciliar ao fim do processo. Mais uma vez o ex-presidente e sua turma dada a reiteradas afrontas à Justiça lhe causam dissabores.

A ordem preventiva aconteceu devido à convocação de manifestantes para vigília feita pelo filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e à violação da tornozeleira eletrônica, o que por si justificaria a medida cautelar.

Os direitos de Bolsonaro na prisão, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

A Jair se garante o direito de respirar, de não ser torturado e tratamento digno

Decisão faz detalhada cronologia das múltiplas formas de o ex-presidente desafiar a Justiça e obstruir a aplicação da lei

A obra anti-intelectual de Jair Bolsonaro foi gritada, não escrita. Seus reptos contra a educação, a saúde pública, o meio ambiente, a ciência, os direitos e liberdades são ouvidos há décadas. Suas ações concretas, coerentes com o grito, lutaram por esgarçar a legalidade, incitar desmatamento da Amazônia, intimidar e sectarizar estruturas regulatórias do Estado, ameaçar professores e cientistas, estimular todas as formas de exposição ao vírus na pandemia.

Jair Bolsonaro se fez líder eleito graças à sua filosofia da prisão e da pessoa presa. Entende pessoa presa como não humana e define responsabilidade penal com base em presunção, não em provas. Se está preso, presume-se criminoso. Sua síntese primal: "Bandido tem que apodrecer na cadeia. Se cadeia é lugar ruim, é só não fazer a besteira que não vai pra lá. Vamos acabar com essa história de ficar com pena de encarcerado. Quem está lá fez por merecer." "É problema de quem cometeu crime."

As manchetes ausentes de um genocídio, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Italianos promoveram 'safári humano' para matar civis na guerra da Bósnia

A banalidade do mal, explicação de Hannah Arendt sobre Eichmann, parece então mais espantosa, pois acontece fora da máquina histórica de destruição nazifascista

Há fatos em que a reação da imprensa pode parecer tão chocante quanto os acontecimentos relatados. É o caso da investigação da Procuradoria de Milão sobre turistas italianos de "safáris humanos" durante o cerco de Sarajevo. Civis desarmados, incluindo crianças, eram vítimas de milionários que viajavam à região para praticar "tiro ao alvo humano". O acontecimento, lápide definitiva sobre quaisquer ilusões de humanidade em camadas ditas superiores da sociedade europeia, recebeu tratamento editorial secundário em jornais e televisões.

Poesia | O elogio da dialética, de Bertolt Brecht

 

Música | Celso Viáfora - Uma canção bonita

 

sábado, 22 de novembro de 2025

Opinião do dia - Manuel Castells* (Democracia)

"Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise. Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social: a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudanças; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Russia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

E, enfim, o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política."  

*Manuel Castells. "Ruptura – A crise da democracia liberal", p.144. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2017.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senado tem bons motivos para rejeitar Messias no STF

Por Folha de S. Paulo

Como já fizera Bolsonaro, Lula enfraquece instituição ao indicar ministros por fidelidade

Casa legislativa é o freio constitucional a ambição presidencial espúria; escolhidos por mérito mostram mais autonomia

Jorge Messias ficou nacionalmente conhecido em 2016, quando foi incumbido pela ainda presidente Dilma Rousseff (PT) de entregar a Luiz Inácio Lula da Silva um termo de posse como ministro da Casa Civil. A manobra, frustrada por liminar de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, daria a Lula, acossado por investigações de corrupção, foro especial no Judiciário.

É na mesma condição de homem de confiança que Messias recebe agora do chefe a indicação para ministro do STF —a condição que já o levou ao comando da Advocacia-Geral da União (AGU) e a diversas outras funções em gestões petistas.

Por que a segurança não decide eleições presidenciais no Brasil, por Antonio Lavareda

Folha de S. Paulo

Convivemos com elevados níveis de violência, mas as eleições continuam orbitando outros fatores

Enquanto polícias permanecerem estaduais, e a arquitetura federativa estimular a dispersão de culpas, a segurança seguirá como tema politicamente ruidoso

A afirmação pode soar paradoxal para um país que figura entre os que mais temem a violência no mundo. No entanto, ela busca explicar por que a segurança pública, apesar de ocupar lugar constante no debate nacional, dificilmente se converte em eixo determinante do voto para presidente.

A razão é estrutural: ao contrário dos demais países latino-americanos, que adotam forças policiais nacionais, o Brasil fragmenta sua segurança entre 27 corporações estaduais. É um modelo singular, que dilui a percepção de responsabilidade e reconfigura o peso do tema no processo eleitoral.

Nossa Polícia Federal conta com 15 mil agentes, ao passo que as Polícias Civil e Militar somam mais de 500 mil, e Guardas Municipais, em crescimento acelerado, em torno dos 100 mil.

Na maioria das democracias vizinhas, a equação é simples: se o policiamento é nacional, o presidente responde diretamente pelos resultados. Da Colômbia ao Chile, passando por Peru, Equador e El Salvador, a segurança tende a dominar as campanhas, impulsionar outsiders e organizar a disputa política.

Reflexões fáceis, problemas encardidos, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Como sobrevive um país desprovido de verdadeiros partidos políticos?

Sabe o leitor que, na vida pública, existem indagações fáceis de responder, indagações difíceis e indagações rigorosamente irrespondíveis.

Hoje, eu gostaria de falar sobre uma que tem aparecido nas três categorias. Refiro-me à questão dos partidos políticos. Suponhamos que você vá a Brasília e pergunta a um indivíduo qualquer, escolhido a esmo: o que você entende por partido político? O mais provável é que ele nada responda ou então diga algo assim: partido é um grupo de pessoas que comungam certos valores e se reúnem para tentar realizálos, disputando eleições. Eu retrucaria: um grupo de pessoas que comungam certos valores? De onde você tirou isso? Aqui em Brasília é que não foi, não é?

Onipresença Master, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ninguém levanta pirâmide como a que o Banco Master armou sem amigos influentes no poder. Nos poderes. No Banco Central? O BC, ainda que agindo bem afinal, demorou a agir. A propósito: o cronista não viu ministros do Supremo comentando o escândalo. Falam sobre todos os temas da República, inclusive aqueles a serem julgados no tribunal – e, desta vez, nada.

Dedicado patrocinador de eventos lobistas, o Master sempre soube contratar consultores. Só em “consultoria jurídica” foram empregados cerca de R$ 250 milhões em 2024. A banca tocada pela esposa de Alexandre de Moraes prestou-lhe serviços. Ricardo Lewandowski também, no intervalo entre sair do STF e se tornar ministro da Justiça de Lula. Outro consultor: Guido Mantega.

Emergência da desigualdade, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Vivemos uma verdadeira emergência de desigualdade, comparável à emergência climática

Artigo publicado nesta semana pelo Financial Times, assinado conjuntamente pelo presidente Lula, pelo presidente Cyril Ramaphosa (África do Sul) e pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez (Espanha), chama a atenção para o primeiro relatório do G-20 dedicado exclusivamente à desigualdade social. A principal conclusão é contundente: vivemos uma verdadeira emergência de desigualdade, comparável à emergência climática.

O relatório, elaborado por um grupo internacional de especialistas liderado pelo Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, soa o alarme sobre um dos fenômenos mais traumáticos e intoleráveis da humanidade e propõe a criação de um painel internacional sobre desigualdade, com a missão de monitorar tendências, causas e impactos desse processo. Os dados do relatório são contundentes. Segundo o documento, 83% dos países apresentam alta desigualdade de renda, utilizando a definição do Banco Mundial de coeficiente de Gini acima de 0,4, sendo que essas nações concentram cerca de 90% da população global. Embora a desigualdade entre indivíduos no mundo tenha diminuído desde 2000 – em grande parte devido ao crescimento econômico da China – ela permanece em patamar extremamente elevado, com um coeficiente de Gini de 0,61. A desigualdade de riqueza é ainda mais acentuada do que a de renda.

Linguagem e outras ‘crenças de luxo’, por Thaís Oyama

O Globo

Em vez de ostentar seu lugar no mundo com relógios e roupas finas, muitos passaram a usar pontos de vista, vocabulário

Foram poucas e tímidas as queixas sobre a sanção, pelo presidente Lula, da lei que baniu o uso da linguagem neutra na administração pública. A prática, criada para “incluir” pessoas que não se identificam com os gêneros masculino e feminino, chegou a ser adotada pela primeira-dama, Janja da Silva, e pelo ministro Alexandre Padilha. Sendo tempo de eleição, os temores de que protestos ruidosos fizessem a alegria da direita, na forma de viralizantes vídeos a inundar as redes sociais, podem ter abrandado as reações de defensores de termos como “elu” (“Elu saiu mais cedo”) e “delu” (“Eu gosto delu”). Outra leitura, mais benigna e menos provável, é que o silêncio dos grupos identitários revela a compreensão de que a ausência da linguagem neutra nos formulários do governo não fará falta alguma. E de que é um ato de sensatez reconhecer o despropósito de elevar a padrão oficial um dialeto que, se soa bem aos ouvidos de gente com curso superior e vida ganha, é grego demótico para a maioria dos brasileiros a quem o código pretensamente inclusivo acabaria por excluir.

Aversão ao diverso, por Flávia Oliveira

O Globo

Em pleno Dia da Consciência Negra, o presidente formaliza a indicação de Jorge Messias, fiel aliado na Advocacia-Geral da União, para o STF

É fogo. Em pleno Dia da Consciência Negra, o presidente da República formaliza a indicação de Jorge Messias, fiel aliado na Advocacia-Geral da União, para o Supremo Tribunal Federal. O ato, previsto desde que Luís Roberto Barroso anunciara saída antecipada, no início de outubro, poderia ter ocorrido antes ou depois do 20 de novembro. Mas Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o feriado que ele próprio sancionou em 2023, como a indicar ser imune ao desejo de representatividade de negros e mulheres, base eleitoral que sempre o sustentou. No Planalto, lealdade é via de mão única. O mandatário escolheu ser criticado pela grosseria, em vez de incensado por ter assinado, também anteontem, 28 decretos tornando de interesse social territórios quilombolas de 14 estados, do Piauí ao Rio Grande do Sul. O caminho para a titulação de 31 comunidades que abrigam 5.200 famílias afrodescendentes acabou eclipsado pelo Messias.

Tchau, querides! Por Eduardo Affonso

O Globo

Lei que cria a Política Nacional de Linguagem Simples não é aceno aos conservadores, mas ao bom senso

Durou pouco a fantasia autoritária do pequeno grupo que quis impor uma mudança estrutural no idioma. “Pouco” é modo de dizer. Durou o suficiente para causar treta, virar piada e demarcar a diferença entre os defensores da língua como organismo vivo, que evolui natural e incessantemente, e os que se acham no direito de moldar, segundo seu viés ideológico, o que é patrimônio de mais de 200 milhões de falantes.

A lei sancionada pelo presidente Lula criando a Política Nacional de Linguagem Simples não é um aceno aos conservadores, mas ao bom senso. Tem vários defeitos e uma grande virtude: propõe que órgãos e entidades públicas usem língua de gente — sem jargão, sem palavrório e respeitando a norma-padrão.

Uma indicação incômoda para o STF, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

O presidente resolveu publicizar a escolha no feriado nacional que celebra o Dia da Consciência Negra. Não há nenhuma explicação para essa atitude que não seja o interesse em demarcar um antagonismo com a demanda por maior representatividade na corte

Em movimento previsto, Lula indicou o atual Advogado-Geral da União, Jorge Messias, para a vaga no Supremo Tribunal Federal. O jurista indicado atende aos requisitos que, aos olhos do presidente, são importantes nesse momento: é de sua extrema confiança, evangélico, de boa formação. A preferência por Messias já era conhecida, mas não consigo pensar em momento mais inoportuno para comunicar a decisão.

Comecemos pela dimensão simbólica. O presidente resolveu publicizar a escolha no feriado nacional que celebra o Dia da Consciência Negra. Não há nenhuma explicação para essa atitude que não seja o interesse em demarcar um antagonismo com a demanda por maior representatividade na corte.

O parto do Messias, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indicação de Lula para o STF poderá trazer problemas políticos e institucionais

Escolha também frustra os eleitores mais fiéis de um presidente que prometeu diversidade

Sim, a indicação de nomes para ocupar um assento no STF é prerrogativa do presidente da República. Assim como é prerrogativa do Senado aprovar ou rejeitar o nome indicado. Os senadores não rechaçam nenhum candidato desde o governo Floriano Peixoto, no século 19, mas muitas coisas que não aconteciam na política brasileira passaram a acontecer nos últimos tempos.

Lula tem bastante autoconfiança ao indicar Jorge Messias contra a preferência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que fazia campanha aberta por Rodrigo Pacheco. Não é que o presidente da República deva subordinar-se ao presidente do Senado, mas é fato que Alcolumbre vinha sendo a boia de salvação de Lula no conturbado relacionamento do governo com o Legislativo. É preciso coragem (ou obstinação) para pôr em risco essa parceria.

Os desafios da nova ordem em disputa, por Roberto Amaral*

Vivemos as inquietações do processo de construção de uma “nova ordem mundial”, algo a lembrar as tensões sofridas em meio às duas últimas guerras mundiais, que, ao preço conhecido, redesenharam o mundo, sua política, sua geografia e sua economia.

Os tempos de hoje, herdeiros daquelas conflagrações e da “Guerra Fria” (sua continuidade em novos termos) — e de seu principal fruto, o colapso da URSS, com a reconfiguração do mundo e da visão de mundo que representava a promessa socialista —, não lograram proporcionar o convívio com a paz: guerra da Coreia, invasão do Vietnã, as guerras de libertação nacional espalhadas pelo mundo, a hecatombe que se abateu sobre o chamado Oriente Médio etc. Passamos a lidar com a amarga sensação de viver em intervalos de guerras, pois assim a humanidade atravessou todo o século passado, e assim estamos caminhando nas primeiras décadas deste terceiro milênio, sem sabermos que guerra é esta do nosso tempo, e muito menos para onde ela está nos levando.

Cupom vs. Copom, Parte II, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Até agora não entenderam o que o nosso Banco Central está fazendo

Na saga Star Wars, temos os Jedi, antiga ordem de cavaleiros que usam a Força para manter a paz e a justiça na galáxia, sempre agindo pelo lado luminoso. Os amantes da arte cinematográfica vão lembrar o Jedi mais famoso, Obi-Wan Kenobi, que dizia sempre: “Eu tenho a força!”

A regra de Taylor entende que o Comitê de Política Monetária seria uma espécie de Jedi: eu tenho a força e a independência de determinar a taxa de juros básica.

Guerra nas Estrelas é uma obra de ficção científica, assim como o regime de metas é uma ficção teórica construída por uma teoria macroeconômica inter­estelar, porque vive de crenças, não do mundo em que o capitalismo sobrevive.

Bandidos de estimação, por André Barrocal

CartaCapital

O relatório de Derrite, aprovado na Câmara, mira o criminoso pé de chinelo e alivia para a turma do colarinho branco

A CPI do Crime Organizado mal começou no Senado e é descrita como “morna” pela mídia. Não está agendado nenhum depoimento de chefes de facção, embora haja senadores doidos por um interrogatório do tipo, caso de Marcos do Val, que faz cosplay de agente da “Swat”. A comissão centra-se em uma investigação mais teórica, digamos assim. Seu relator, Alessandro Vieira, delegado de polícia, não está interessado “em dar palanque para bandido”, nem em alimentar demagogia barata. Também caberá a ele no Senado relatar o Marco Legal de Combate ao Crime Organizado que os deputados acabam de aprovar. Um texto escrito e reescrito pelo secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite, um auxiliar do governador-presidenciável Tarcísio de Freitas, que o Palácio do Planalto tentará mudar para que nem a Polícia Federal nem o combate a criminosos de colarinho branco sejam afetados.