O Povo (CE)
Para nós, mulheres, o abatimento é ainda mais
profundo, pois jamais poderíamos imaginar que teríamos de lidar, dentre outros
riscos, com uma tentativa infame de desacreditar o voto feminino e de nos
devolver à vida estritamente doméstica
Um sentimento definirá bem o humor de boa
parte do eleitorado com este pleito de 2026: a fadiga. Uma sensação geral de
falta de esperança, de que não vale a pena acreditar na mudança, porque o
cenário está de tal forma degradado que qualquer expectativa alimentada é tida
como crença ingênua. De que adianta um modesto voto? Pensa o eleitor, e a
resposta que tem dentro de si é a mais desencantada possível.
Para nós, mulheres, o abatimento é ainda mais profundo, pois jamais poderíamos imaginar que teríamos de lidar, dentre outros riscos, com uma tentativa infame de desacreditar o voto feminino e de nos devolver à vida estritamente doméstica. Obstáculos de toda ordem diminuem a competitividade das candidaturas femininas, e a violência política de gênero está aí mais viva que nunca, aparecendo na forma de comentários sexistas veiculados em rede nacional.
O fechamento das embaixadas americanas nas vésperas do primeiro turno também deveria deixar cada
eleitor cansado também alerta: a interferência estrangeira no nosso processo
eleitoral tem se mostrado inequívoca, com investimento de recursos em campanhas
de difamação de instituições e em candidaturas identificadas com um certo
espectro político. A combinação não poderia ser mais explosiva: uma população
cansada, desconectada das eleições, pode ser mais indiferente à evidência de
ameaça à soberania nacional. Afinal de contas, está tudo perdido para a
imoralidade mesmo.
Em face dessa desesperança disseminada,
sempre é tempo de nos perguntarmos sobre o significado do voto, da relevância
desse evento que iremos vivenciar amanhã, de forma simultânea, em todo o
Brasil. Por que acreditar, em quem acreditar, por que seguir adiante?
No ensaio "A resistência", Ernesto
Sabato afirma que "o ser humano sabe fazer dos obstáculos novos caminhos,
porque à vida basta o espaço de uma fresta para renascer. Nessa tarefa, o
primordial é negar-nos a sufocar a vida que podemos dar à luz. Defender, como
heroicamente fazem os povos ocupados, a tradição que nos revela quanto de
sagrado há no homem". Ser capaz de ter esperança mesmo em tempos de fadiga
extrema é, assim, a mais importante das virtudes democráticas, que nos impele a
seguir votando, apesar das decepções reiteradas.
Nesse jogo de tentativa e frustração, de expectativa e erro, há sempre algo que muda, que avança, que se transforma, nem que seja nosso limiar de tolerância e de experiência. A democracia amadurece também com seus erros, e renasce a cada novo ciclo eleitoral como insistência. Que cada eleitor possa refletir profundamente sobre a vida coletiva que deseja dar à luz, e que escolha suas candidatas e candidatos com a atenção a esse futuro que devemos construir juntos.

Um comentário:
Quanta torcida pro Lula disfarçada em análise Política, o jornalismo brasileiro realmente assumiu o lado é o lado do Lula é o lado do atraso da corrupção da mentira infelizmente mas o povo vai dizer ; fora Lula!!
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