Correio Braziliense
O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado
pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos, se tornou
alvo da campanha do Flávio Bolsonaro
O PT conseguiu, na última semana, dar forma política à reação de setores da
sociedade ao resultado do primeiro turno. Depois da perplexidade provocada pela
vantagem de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva
começou a encontrar nas ruas uma energia que lhe faltara antes da votação.
Universitários e secundaristas aparecem como protagonistas dessa retomada. A
mobilização ainda não comprova uma virada eleitoral, mas rompe a imagem de uma
candidatura paralisada diante do avanço do adversário.
Flávio busca preservar sua vantagem e conter a recuperação do adversário,
inclusive pela via judicial. Lula precisa fazer a energia dos estudantes e das
manifestações chegar às periferias, aos trabalhadores e aos eleitores que
rejeitam ambos. A rua devolveu iniciativa à campanha governista. A mudança
consiste em aproximar a estrutura partidária de uma disposição de resistência
política ampla, que ultrapassa suas fronteiras.
Há uma ligação direta entre essa ocupação das ruas e a tentativa de reduzir a
desvantagem digital do presidente. As redes convocam, distribuem argumentos e
fazem circular as imagens dos atos, enquanto as manifestações devolvem às redes
uma demonstração de força, que alcança pessoas que não frequentam reuniões
partidárias. O celular funciona como instrumento de organização, enquanto a
presença física oferece a experiência coletiva que as mensagens nas redes não
produzem.
Disputa judicial
É nesse circuito que se insere o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado
pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos. Seu alcance
ajuda a explicar por que se tornou alvo da campanha de Flávio Bolsonaro. Ao
pedir sua suspensão, sob a alegação de disseminação de desinformação, a
oposição procurou retirar de funcionamento um instrumento importante da reação
petista. A disputa judicial interfere na capacidade de mobilização do Lula.
O cabo de guerra no Tribunal Superior Eleitoral agrava essa dimensão. O
presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal
depois que a campanha de Flávio o procurou, embora o caso já estivesse sob
análise do corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva. O relator revogou a ordem,
considerou insuficientes os elementos para uma restrição tão abrangente e
remeteu a controvérsia ao plenário. Manteve, entretanto, a proibição de
divulgar conteúdos considerados ilícitos.Nunes Marques convocou as duas campanhas
para esclarecimentos.A área técnica do TSE não econtrou motivos para a
proibição do canal.
Combater informações falsas é necessário, mas bloquear integralmente um canal
exige fundamentação proporcional ao impacto da medida. A indicação de Nunes
Marques por Jair Bolsonaro não demonstra, por si, parcialidade, porém, torna
ainda mais importante a transparência de uma decisão que beneficia
eleitoralmente o filho do ex-presidente. A sobreposição de ordens tumultua o
processo. E oferece aos dois lados argumentos para contestar a atuação dos
ministros do TSE quando lhes é desfavorável.
Politicamente, a suspensão também produziu um efeito contrário ao pretendido. O
canal ganhou inscritos, Janones converteu a controvérsia em campanha contra a
censura, e Lula encontrou um episódio concreto para mobilizar seus apoiadores.
Isso não resolve a discussão sobre o conteúdo das mensagens nem autoriza a
divulgação de fake news.
A reação de Lula ocorre junto com uma reorganização do comando petista. Camilo
Santana passou a cuidar da articulação política; Rui Costa, da agenda; e Rafael
Fonteles, do aconselhamento na comunicação. Lula ampliou seu controle sobre as
decisões da campanha, enquanto Geraldo Alckmin deve ganhar espaço na
aproximação com eleitores não petistas. A redistribuição procura combinar
coordenação territorial, comunicação e ampliação de alianças.

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