O Globo
Ao errar nome do próprio país, ex-presidenciável mostrou que letra de Aldir Blanc continua atual
O Brazil
não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu
moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É
urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a
viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.
O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.
O Brazil
não merece o Brasil. Derrotado nas urnas, Flávio se negou a reconhecer o
resultado, despistou a polícia e fugiu num jatinho para a Flórida. Em carta
golpista, autoproclamou-se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”,
comparou-se a Rui Barbosa e humilhou os aliados que ficaram no país, dizendo
que passará a comandá-los à distância.
O Brazil
tá matando o Brasil. O Ministério da Justiça informou que dez
pessoas foram mortas em episódios de violência política no segundo turno.
Foram vítimas de espancamentos, atropelamentos intencionais, disparos de arma
de fogo. A brutalidade se intensificou na noite de domingo, quando
bolsonaristas atacaram eleitores de Lula que festejavam a vitória nas urnas.
Em “Querelas do Brasil”, Aldir Blanc descreve
uma elite colonizada que ignora a diversidade do país, despreza a herança
indígena e busca validação no olhar estrangeiro — o tal Brazil com Z.
Composta no fim da ditadura, em parceria com
Maurício Tapajós, a canção parodia o ufanismo da “Aquarela do Brasil” de Ary
Barroso. No lugar das “fontes murmurantes”, entram em cena o Arariboia e o
Pererê. No lugar da “terra boa e gostosa”, a vida dura nos subúrbios de
Madureira, Olaria e Bangu.
Flávio enfeitou a primeira versão de sua
carta golpista com um brasão da República e a inscrição “Estados Unidos do
Brazil”. O país não é chamado assim desde 1931, quando passou a ser grafado com
S. Em 1967, adotou o nome de República Federativa do Brasil.
Em outro ato falho, o candidato derrotado
iniciou a missiva com um agradecimento ao “maravilhoso povo americano”. No
décimo parágrafo, lembrou-se de mencionar os quase 60 milhões de brasileiros
que votaram nele.

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