O Globo
Em discurso da vitória, presidente disse ter
entendido necessidade de fazer governo diferente, mas velhas premissas aparecem
nas primeiras conversas
Lula deu poucos sinais sobre como pretende
implementar a promessa que fez de improviso, no discurso da vitória, de que o
novo governo será diferente do atual. Mas uma coisa a virada épica e os recados
das urnas e das ruas no segundo turno deixam clara: não é possível agir com as
premissas de sempre para chegar a um resultado novo.
São muitas essas premissas, a começar por uma clássica do modo lulista de compor equipes: premiar companheiros leais, tenham sido eles vitoriosos ou derrotados nas próprias disputas. Não há ministérios suficientes para recompensar a todos os que não se elegeram num primeiro turno que foi uma carnificina para a esquerda. Além disso, recorrer a esse expediente comum aos mandatos de Lula seria dar a seu derradeiro quadriênio uma cara de mais do mesmo que não condiz com o reconhecimento de que ele foi eleito não pelas qualidades do governo, mas pelo somatório de muitos e complexos fatores.
Na ausência dessa sinalização clara até o
momento, natural depois de uma campanha exaustiva e tensa, sobram especulações
e, principalmente, a tradicional autopromoção dos interessados em estar no
primeiro escalão. Das poucas conversas que o presidente reeleito teve até aqui,
algumas linhas gerais se destacam: ele disse a aliados próximos que este não
será, como foi Lula 3, um governo cheio de ministros oriundos do Senado.
Lula está ciente da força do PL e de outros
partidos da direita na Casa e não quer deixar um exército de suplentes para o
enfrentamento. Portanto serão poucos os destacados por ele entre os senadores
eleitos e os remanescentes para integrar o ministério. A Câmara, que sempre se
sentiu sub-representada no primeiro mandato, pode ganhar mais espaço. A
necessidade de compor uma nova coalizão para enfrentar o crescimento da direita
e da extrema direita deve dar a nomes específicos do Centrão maior
protagonismo.
Um que passou abaixo do radar de quem teve
muita interlocução com Lula no segundo turno da virada é o ex-ministro e
deputado reeleito Silvio Costa Filho, que pode ser designado para a Articulação
Política, dada sua condição estratégica de ter ótimo trânsito com o
correligionário e amigo Hugo Motta e de circular bem em praticamente todos os
partidos.
Lula também foi aconselhado a não fazer da
Casa Civil uma antessala da disputa de 2030 — a não designar para a pasta
responsável por tocar o governo um dos nomes que podem ser escolhidos lá na
frente como seu sucessor. Se acatar essa recomendação, nem Camilo Santana nem
Fernando Haddad se sentarão na cadeira que já foi de Rui Costa — outro que dez
entre dez aliados não veem de volta à Esplanada, pela quantidade de desafetos
que deixou na primeira passagem.
A pasta da Segurança Pública, a ser criada,
pode ser a incubadora de um candidato a presidente. O consenso no entorno de
Lula é que, se alguém conseguir implementar a pasta com sucesso, dando ao PT e
à esquerda um discurso numa área em que sempre perderam de goleada, estará
feito o caminho para uma candidatura competitiva daqui a quatro anos.
E a Fazenda? É a área em que há menos pistas.
Lula não acenou em nenhum momento com algum tipo de choque ortodoxo nas contas
públicas. O nome de Rafael Fonteles surgiu mais como iniciativa do governador
reeleito do Piauí de se colocar “à disposição” de Lula para algo que o
presidente talvez nem tivesse cogitado.
A política costuma punir quem dá as costas
aos eleitores assim, ainda mais com 70% dos votos nas costas. Além do mais, a
máxima de que existe fila e certa senioridade nesse tipo de passagem de bastão
é verdadeira, e há nomes no PT e na aliança, a começar pelo vice-presidente da
República, Geraldo Alckmin, na frente da jovem promessa petista.

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