sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O que esperar de novo para Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Em discurso da vitória, presidente disse ter entendido necessidade de fazer governo diferente, mas velhas premissas aparecem nas primeiras conversas

Lula deu poucos sinais sobre como pretende implementar a promessa que fez de improviso, no discurso da vitória, de que o novo governo será diferente do atual. Mas uma coisa a virada épica e os recados das urnas e das ruas no segundo turno deixam clara: não é possível agir com as premissas de sempre para chegar a um resultado novo.

São muitas essas premissas, a começar por uma clássica do modo lulista de compor equipes: premiar companheiros leais, tenham sido eles vitoriosos ou derrotados nas próprias disputas. Não há ministérios suficientes para recompensar a todos os que não se elegeram num primeiro turno que foi uma carnificina para a esquerda. Além disso, recorrer a esse expediente comum aos mandatos de Lula seria dar a seu derradeiro quadriênio uma cara de mais do mesmo que não condiz com o reconhecimento de que ele foi eleito não pelas qualidades do governo, mas pelo somatório de muitos e complexos fatores.

Na ausência dessa sinalização clara até o momento, natural depois de uma campanha exaustiva e tensa, sobram especulações e, principalmente, a tradicional autopromoção dos interessados em estar no primeiro escalão. Das poucas conversas que o presidente reeleito teve até aqui, algumas linhas gerais se destacam: ele disse a aliados próximos que este não será, como foi Lula 3, um governo cheio de ministros oriundos do Senado.

Lula está ciente da força do PL e de outros partidos da direita na Casa e não quer deixar um exército de suplentes para o enfrentamento. Portanto serão poucos os destacados por ele entre os senadores eleitos e os remanescentes para integrar o ministério. A Câmara, que sempre se sentiu sub-representada no primeiro mandato, pode ganhar mais espaço. A necessidade de compor uma nova coalizão para enfrentar o crescimento da direita e da extrema direita deve dar a nomes específicos do Centrão maior protagonismo.

Um que passou abaixo do radar de quem teve muita interlocução com Lula no segundo turno da virada é o ex-ministro e deputado reeleito Silvio Costa Filho, que pode ser designado para a Articulação Política, dada sua condição estratégica de ter ótimo trânsito com o correligionário e amigo Hugo Motta e de circular bem em praticamente todos os partidos.

Lula também foi aconselhado a não fazer da Casa Civil uma antessala da disputa de 2030 — a não designar para a pasta responsável por tocar o governo um dos nomes que podem ser escolhidos lá na frente como seu sucessor. Se acatar essa recomendação, nem Camilo Santana nem Fernando Haddad se sentarão na cadeira que já foi de Rui Costa — outro que dez entre dez aliados não veem de volta à Esplanada, pela quantidade de desafetos que deixou na primeira passagem.

A pasta da Segurança Pública, a ser criada, pode ser a incubadora de um candidato a presidente. O consenso no entorno de Lula é que, se alguém conseguir implementar a pasta com sucesso, dando ao PT e à esquerda um discurso numa área em que sempre perderam de goleada, estará feito o caminho para uma candidatura competitiva daqui a quatro anos.

E a Fazenda? É a área em que há menos pistas. Lula não acenou em nenhum momento com algum tipo de choque ortodoxo nas contas públicas. O nome de Rafael Fonteles surgiu mais como iniciativa do governador reeleito do Piauí de se colocar “à disposição” de Lula para algo que o presidente talvez nem tivesse cogitado.

A política costuma punir quem dá as costas aos eleitores assim, ainda mais com 70% dos votos nas costas. Além do mais, a máxima de que existe fila e certa senioridade nesse tipo de passagem de bastão é verdadeira, e há nomes no PT e na aliança, a começar pelo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, na frente da jovem promessa petista.

 

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