O Globo
Jerônimo Rodrigues cita Alckmin como possível
herdeiro político do presidente, diz que Planalto precisa ‘unificar o país’ e
cobra mais espaço para o Nordeste no partido e no quarto mandato
Enquanto o PT debate os próximos passos após
a vitória eleitoral, o governador da Bahia, Jerônimo
Rodrigues (PT), afirma que o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) não precisa, necessariamente, ser do partido. Em entrevista ao
GLOBO, ele defendeu que a discussão sobre o futuro seja construída a partir de
um campo político mais amplo, capaz de dar continuidade ao projeto do atual
governo.
Ainda que reconheça ser cedo para discutir nomes, Jerônimo citou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como exemplo de liderança que não integra a legenda e tem papel relevante. Reeleito no primeiro turno na Bahia, estado que deu seis milhões de votos a Lula, o governador cobrou mais espaço para o Nordeste nas decisões tomadas pelo PT e na formação do governo para o quarto mandato.
O presidente do PT, Edinho
Silva, defendeu mudanças “profundas” no PT após a reeleição de Lula. Concorda
com essa avaliação?
Claro, sempre precisa. Estamos vivos porque o
PT passou por mudanças. Não significa excluir ninguém. É a renovação. Podemos
renovar o próprio governo do presidente. Lula acena para isso e pede inovações.
Essa transição (para o quarto mandato) vai ser um grande exercício para o
processo sucessório no futuro, não agora. O sucessor não precisa ser
necessariamente do PT. Tem que ser de um campo que conduza o que fizemos até
aqui, para que o Brasil continue em boas mãos.
Quem pode ser o sucessor?
Lula nem montou o Ministério. Ele não surgiu
como líder pronto para ser presidente. Foi construindo os ambientes. Só que nós
temos pouco tempo. Os nomes colocados precisam aparecer numa posição adequada
(no governo) . O vice-presidente Geraldo Alckmin ajudou bastante e não é do PT.
Lula está fazendo um movimento dentro do Congresso e vai precisar de diversos
partidos. O que importa é o projeto para o país e quem está alinhado
politicamente.
Que características esse novo
líder precisa ter?
Saber ouvir o que as ruas estão dizendo.
Entender o que o mercado está falando e filtrar, porque tinha precificado a
vitória do Flávio Bolsonaro e agora resolveu apressar a nomeação de ministro da
Fazenda. É legítimo cobrar, mas não forçar. O Lula precisa de tempo adequado
para escolher o ministro. Ele já governou três vezes e nunca deu cavalo de pau.
Não é de fazer pirueta.
O PT do Nordeste necessita de
mais representatividade no governo?
O PT nacional precisa enxergar que são quatro
governadores do partido, todos do Nordeste. A maior parte dos senadores também.
Temos uma força para ser calibrada da forma adequada. Não existe uma balança:
“Foram seis milhões de votos na Bahia, então precisa de tantos ministérios”. A
matemática não é assim. Não significa impor ao Lula uma troca. Mas política se
faz com reconhecimento. O Nordeste precisa ser visto e pode contribuir. A Bahia
tem bons nomes. Queremos dividir com Lula a responsabilidade e dizer: “A
decisão é sua, mas estão aqui (os nomes)”.
A ex-senadora Kátia Abreu fez
uma crítica ao desempenho dos “paulistas sem voto” na coordenação da campanha
de Lula. O Nordeste merece ter mais espaço nas decisões do PT?
Não queremos ser só fonte de voto. Vamos nos
colocar como dirigentes de uma política nacional de desenvolvimento,
investimento na infraestrutura, pensamento na ciência... Dentro do governo e do
partido. É construção. Temos que ocupar espaço e colocar uma plataforma à mesa.
Como isso vai ser feito?
Onde se dão as decisões do partido? Em São
Paulo. O Diretório Nacional representa as forças das diversas regiões para que
as decisões sejam tomadas adequadamente? A composição dos ambientes de decisão
precisa expressar a representação das forças políticas.
Haverá tensionamento entre os
grupos do PT no Nordeste e no Sudeste na formação do governo?
Espero que não. Mas não é um toque de mágica.
A força paulista no partido é muito grande. É o histórico. O ABC Paulista e os
metalúrgicos influenciaram bastante. Reconhecemos e agradecemos por isso, mas
estamos em um momento adequado para dizer que o Nordeste precisa ser visto e
reconhecido no partido.
O que o senhor, o presidente
Lula e outras lideranças precisam mudar na forma de governar para atender às
demandas da população na campanha?
Precisamos fazer a leitura do que veio das
ruas. O recado das manifestações não foi só sobre a preocupação de a família
Bolsonaro voltar a sentar na cadeira presidencial, mas também sobre a perda de
direitos. O Lula tem um desafio grande, porque precisa unificar o país.
Precisamos responder às demandas do mercado e da sociedade com ações de
interesse social.
O governo apostou na
polarização durante o processo eleitoral.
Passadas as divergências eleitorais, não
temos que torcer contra, porque quem perde é o país. Encontrei evangélicos na
campanha e vi igrejas divididas. As famílias não podem se desagregar por conta
de uma opção.
O senhor teve menos votos na
Bahia do que o Lula. Por que uma parcela do eleitorado votou no presidente e no
seu adversário, o ex-prefeito ACM Neto?
Meu opositor trabalhou pelo voto Lula-Neto.
Foi oportunismo dele. E existem as querelas locais.
Houve uma ação deliberada da
prefeitura de Salvador para prejudicar o eleitor no segundo turno, com a
redução da frota de ônibus?
Existe uma investigação da Polícia Federal
aberta. É uma questão da Justiça. A prefeitura resolveu fazer uma reforma na
principal estação de transbordo no domingo da eleição. Não é coincidência. As
empresas deram folgas para os motoristas.
O senhor fez uma homenagem no
discurso da vitória ao senador Jaques Wagner (PT-BA), investigado no caso
Master. Defende que essa apuração avance?
Tudo tem que ser investigado. Nunca abrimos
mão disso. O Jaques tem as contas abertas, vasculharam a vida dele e foram à
residência. Nunca protegemos ou escondemos. Agora, o Jaques foi reeleito. O que
vale é o legado.
Lula endureceu discurso sobre
o crime, e o Congresso aprovou a PEC da Segurança. A esquerda precisa de um
discurso mais firme nessa área?
A regra da ressocialização é para todos. Mas
a punição tem que ser adequada. O crime organizado comete barbárie e precisa de
uma lei mais severa. Precisamos de polícia, leis e ações sociais.
A Bahia é um dos estados com
a maior taxa de letalidade policial no país. Como romper com esse modelo?
Não sei se estão acompanhando o outro lado da moeda. Reduzimos bastante nos últimos dois anos os indicadores de mortes violentas. Aumentamos as prisões e apreensões de drogas e retiramos mais armas do mercado informal. Contratamos quase 12 mil policiais, compramos câmeras corporais e de reconhecimento facial. Vocês vão ver nos próximos quatro anos a melhora de outros indicadores de segurança na Bahia.

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