sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Oásis fiscal paraguaio era uma miragem que atraiu empresas brasileiras, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte

A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado.

A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento.



A presença brasileira na economia paraguaia mostra que essa aposta era alta e ultrapassou o comércio de fronteira. Alcançou indústrias, fornecedores de grandes redes e pequenos empreendedores que transferiram negócios e economias. Para muitos, o Paraguai representava uma alternativa aos custos e à burocracia brasileiros. A crise trouxe uma conta que não estava nas planilhas de custos: o risco institucional. A vantagem fiscal se esvanece quando há perda de confiança no sistema financeiro.

O Ueno tornou esse problema concreto. É o Banco Master deles, sem o arcabouço institucional de um sistema financeiro robusto. A instituição cresceu rapidamente, recebeu recursos públicos e chegou a quase três milhões de clientes. Sua intervenção atingiu poupadores e comprometeu o acesso a dinheiro ligado à previdência. O episódio também colocou sob escrutínio as relações entre o banco, o governo e os responsáveis pela supervisão financeira. O colapso de uma instituição alcançou, assim, a própria Presidência.


Não se pode decretar a falência da economia paraguaia nem subestimar a capacidade instalada do sistema produtivo, do qual grandes empresas brasileiras fazem parte. Entretanto, estabilidade macroeconômica e segurança jurídica não são sinônimos. Inflação comportada e incentivos duradouros são vulneráveis quando faltam barreiras entre interesses privados, recursos públicos e poder político.

Para o Brasil, conter a crise paraguaia é muito importante. Empresas com dinheiro bloqueado atrasam salários, pagamentos a fornecedores e encomendas. Uma retração do consumo paraguaio afeta o comércio regional; dificuldades de crédito podem alcançar cadeias produtivas integradas ao comércio mundial. A dimensão desses efeitos dependerá da recuperação dos depósitos e da capacidade de conter a desconfiança. Não há contágio bancário no Brasil, mas há razões para acompanhar de perto essa crise.

Energia da Itaipu

A questão mais estratégica está em Itaipu. Um governo enfraquecido, pressionado a recuperar investimentos e credibilidade, pode negociar em condições piores o uso de seu principal ativo econômico. A crise amplia o poder de barganha de grupos capazes de oferecer bilhões de dólares e promessas de modernização a um país em crise. É nesse terreno que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial merece atenção.

Em outubro, a norte-americana Crusoe anunciou uma parceria com a paraguaia Araico para desenvolver infraestrutura de computação alimentada pela energia de Itaipu. O anúncio teve respaldo diplomático dos Estados Unidos. A imprensa paraguaia também levantou dúvidas sobre a transparência das condições de fornecimento pela administração elétrica nacional. São iniciativas anteriores à queda de Peña; a crise pode aumentar a pressão para apresentá-las como salvação econômica.

A “colonização” da economia paraguaia pelas big techs é um risco político, não ainda um fato consumado. O conceito faz sentido quando um país fornece eletricidade, território e benefícios fiscais, enquanto o controle tecnológico, os serviços de maior valor e as decisões permanecem no exterior. Centros de dados podem, sim, trazer desenvolvimento. Mais que obras e consumo de energia: formação profissional, precisam deixar fornecedores locais, arrecadação e capacidade tecnológica. Sem contrapartidas, a abundância energética pode sustentar uma nova dependência.

O Brasil arca com as consequências dessa escolha. O Tratado de Itaipu divide a energia igualmente e reconhece a cada país o direito de adquirir a parcela não utilizada pelo outro. Se o consumo paraguaio crescer, o excedente disponível ao Brasil poderá diminuir. Isso exige planejamento, sem negar ao vizinho seu direito ao desenvolvimento. Não há transparência nos compromissos assumidos e seus efeitos sobre a operação binacional.

O governo brasileiro tem a responsabilidade de combinar assistência aos brasileiros atingidos, diálogo institucional e defesa de transparência em Itaipu. Uma crise no Paraguai, mesmo que derrube um governo de direita adversário, não é motivo para comemoração. Trata-se de uma vulnerabilidade numa fronteira decisiva. O fracasso da promessa de um paraíso sem riscos não deve dar origem a uma saída que comprometa a energia barata por décadas, sem benefícios proporcionais para a sociedade. A miragem fiscal teria apenas mudado de aparência.

Um comentário:

Anônimo disse...

Outra APOSTA ERRADA dos empresários... Acreditam em qualquer discurso "liberal" e principalmente "ultraliberal", que em geral está cheio de mentiras como as contadas pelos bolsonaristas no Brasil e pelos trumpistas nos EUA!