terça-feira, 21 de março de 2023

Míriam Leitão - Os juros entre os dois polos

O Globo

BC decide juros sem ver mudanças na conjuntura, críticos no BNDES atacam juros sem apontar medidas para equilíbrio fiscal

No tempo das polarizações, a política monetária também está entre extremos. De um lado, o BC mantém juros em 13,75% e não dá sinal de que vá reduzi-los nesta reunião, apesar das mudanças fortes que ocorreram na conjuntura. De outro lado, a visão defendida ontem no BNDES é que a dívida pública brasileira é baixa, que os juros não combatem a inflação, mas são em si inflacionários. Não houve pluralismo no seminário do BNDES, os economistas internacionais, Joseph Stiglitz e James Galbraith, são conhecidos defensores do expansionismo fiscal e críticos do que eles definem como neoliberalismo.

A dívida pública brasileira é alta ou baixa? No mercado, o que se fala é que a dívida é alta e sua trajetória, explosiva. Hoje está em 73% do PIB, pelas contas do BC. Isso é dívida bruta. No BNDES, falou-se em dívida líquida de 56%, quando se desconta as reservas cambiais, ou de 45%, quando se deduz também o caixa do Tesouro.

Carlos Andreazza - Federação de patrimonialismos

O Globo

Documento histórico em que encontrar a síntese do presidencialismo de alcolumbre, o arranjo que, tomando o lugar do de coalizão, ora define as relações entre Parlamento e governo. Refiro-me à entrevista de Elmar Nascimento à Folha de S.Paulo.

O deputado ficou conhecido ao discursar contra o governo Bolsonaro, em 22 de maio de 2019. O mais leve que disse: não teria palavra. Líder do DEM, acusou o Planalto de “procedimento canalha” no Parlamento. Falou que não tinha plantação de laranja e que não se escondia da Justiça. Era véspera de manifestação convocada pelo presidente — e ele denunciava apoiadores do governo na Câmara, então no PSL, que pregavam pelo fechamento do Congresso. Faltaria equilíbrio, moderação, àquela Casa.

De lá para cá, engenhou-se o orçamento secreto (o equilíbrio pela distribuição?), veio a ascensão de Lira (a moderação pelo trator?) e, tudo indica, a palavra (a gestão das emendas?) passou a ser cumprida; porque Nascimento fecharia com Bolsonaro, deixando de se incomodar com a pregação contra a República.

Merval Pereira - Lições não aprendidas

O Globo

Se o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, conhecesse História, mesmo que não a Antiga, mas a recente, não teria provocado o desaparecimento do empréstimo consignado

É do conhecimento de todos que lidam com a questão que o tabelamento de preço determinado pelo Código de Hamurabi, na Mesopotâmia, congelou o preço do óleo e do sal, gerando uma estranha situação. A punição para os infratores era a morte em óleo quente. O congelamento do preço, porém, provocou a escassez do óleo, houve desabastecimento, e a terrível pena deixou de ser executada. Várias outras tentativas de controle de preços aconteceram na Antiguidade, resultando sempre em desabastecimento e crise.

Se o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, conhecesse História, mesmo que não a Antiga, mas a recente, não teria provocado o desaparecimento do empréstimo consignado. Depois que, na base da canetada, teve a “genialidade” de reduzir o teto dos juros para pensionistas do INSS, a maioria dos bancos privados suspendeu a oferta da linha de crédito, sendo seguida pelos estatais Banco do Brasil e Caixa, mesmo o PT querendo demitir seus diretores pela suposta “traição” às políticas sociais do governo.

Hélio Schwartsman - Escândalo à vista

Folha de S. Paulo

Evangélicos protocolam PEC que amplia imunidade tributária das igrejas

A bancada evangélica protocolou na Câmara uma proposta de emenda constitucional que amplia ainda mais a imunidade tributária conferida a igrejas. Se vingar, templos de qualquer culto ficarão livres também dos impostos sobre os bens e serviços que consomem. O Edir Macedo poderá comprar jatinhos sem pagar IPI, ICMS e Imposto de Importação; o sacristão poderá adquirir o vinho da missa sem recolher os impostos com alíquotas mais elevadas que recaem sobre bebidas alcoólicas, os "sin taxes" (impostos sobre o pecado). É o paraíso fiscal na Terra, mas restrito a igrejas e outros poucos eleitos, como partidos políticos e sindicatos.

Alvaro Costa e Silva - Puxaram o tapete do general

Folha de S. Paulo

Candidatura de Flávio Bolsonaro a prefeito do Rio é cartada de alto risco

Ao longo da sua ascensão e queda, Bolsonaro arregimentou dentro das Forças Armadas um seleto grupo de estafetas, despachantes e contínuos no qual manda e desmanda até hoje; em troca, concedeu a eles todo tipo de regalias, sobretudo financeiras. O general Braga Netto, vice na chapa derrotada à Presidência da República, é um dos mais destacados da turma.

Mordido pela mosca da política, como muitos de seus companheiros de farda, o general sonhava em disputar a Prefeitura do Rio, em 2024. O capitão lhe puxou o tapete. Exigiu do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que o partido trabalhe pela candidatura de Flávio Bolsonaro. O recado é claro: primeiro, os meus; depois, os militares. A vantagem da família é que Flávio, se perder, poderá retornar ao Senado, garantindo o direito ao foro privilegiado.

Eliane Cantanhêde - Overbooking

O Estado de S. Paulo

Brasil na expectativa, Lula otimista: missão de Xi Jinping na Rússia é de paz ou guerra?

Jair Bolsonaro foi à Rússia dias antes da invasão da Ucrânia e se declarou “solidário” com os russos. Lula vai à China dias depois do encontro de Xi Jinping e Vladimir Putin e torce pelo melhor cenário, mas trabalha com dois: ou a China aprofunda seu apoio à Rússia ou dá a largada para as negociações de paz. Como já me disse o chanceler Mauro Vieira, sem China e Estados Unidos, não tem paz.

A primeira reação ao anúncio do encontro de Xi Jinping com Putin foi muito negativa, com o temor, nos EUA e na Europa, de uma aliança mais concreta de China e Rússia e até de envio de armamento chinês para a guerra. Após uma guinada estonteante, a percepção (ou torcida) agora é de que Xi Jinping trabalha pela pacificação, o que converge para o “clube de paz” lançado por Lula.

Andrea Jubé - A “Dilma de calças” com política na veia

Valor Econômico

Elogios e recados de Lula fortalecem chefe da Casa Civil

Circulam nos gabinetes do Palácio do Planalto rumores de que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, não gostou de não ter sido apresentado previamente à nova regra fiscal desenvolvida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que substituirá o teto de gastos. Costa tomou conhecimento da proposta em uma reunião no dia 17, junto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Três dias antes, na terça-feira, durante reunião de ministros, Lula criticou auxiliares que tornavam públicas “genialidades” sem o aval prévio da Casa Civil, e determinou que todas as propostas sejam submetidas previamente a Rui Costa. Outros auxiliares souberam antes de Costa, todavia, de detalhes do novo marco fiscal.

Cristovam Buarque* - E agora, Jango?

Correio Braziliense

Em 13 de março de 1964, o presidente João Goulart fez manifestação popular de apoio às Reformas de Base que o país necessitava há décadas, ou séculos, para desamarrar seus recursos e avançar no progresso. Para evitar as reformas, que necessariamente tocariam em seus privilégios, a reacionária elite brasileira preferiu destituir o presidente. Quase 60 anos depois, o Brasil ainda espera aquelas e outras reformas nascidas nas cinzas do fracasso do desenvolvimentismo e nos desafios da realidade do século 21.

Em 1964, nossa principal reforma era a agrária. Nosso maior recurso potencial era a terra sem trabalhadores e os trabalhadores sem terra. O Brasil seria outro se tivesse feito a reforma agrária naquele tempo, permitindo a liberação e o uso desses recursos. Se ela tivesse sido feita, nossas cidades não seriam as monstrópoles de hoje, porque a migração em massa dos anos 1970 e 1980 não teria ocorrido. O Brasil não teria a fome que decorre da falta de renda, mas também da produção menor de alimentos para o mercado interno. Embora ainda necessária, essa reforma já não tem a mesma importância. O país caminhou para uma urbanização deformada em cidades inchadas; e a agricultura, para a modernização do agronegócio exportador.

Joel Pinheiro da Fonseca – Quem tem medo do comunismo?

Folha de S. Paulo

Talvez críticos que veem o risco no Brasil hoje apenas tenham noções distintas na cabeça

Pesquisa do Ipec revelou que, para 44% dos brasileiros, o Brasil corre risco de virar um país comunista. Os dados não dizem, mas ouso supor que há uma enorme correspondência entre esses 44% e os votos para Bolsonaro na eleição passada. Duas reações possíveis: a primeira —e equivocada— é ridicularizar nossa direita como estando em surto coletivo por manter viva a paranoia anticomunista que já era injustificada nos anos 60.

A outra é se lembrar que uma palavra pode ter vários significados, e que talvez o que os que responderam à pesquisa e seus críticos tenham noções diferentes de "comunismo" na cabeça.

Luiz Carlos Azedo - O fantasma do comunismo renasceu com o bolsonarismo

Correio Braziliense

No Brasil, o grande porta-voz do pensamento reacionário é o ex-presidente Jair Bolsonaro, que não conseguiu se reeleger. Esgrime o anticomunismo contra toda a esquerda

“Um fantasma ronda a Europa — o fantasma do comunismo. Todas as potências da velha Europa se aliaram numa caçada santa a esse fantasma: o papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães. Que partido oposicionista não é acusado de comunista por seus adversários no governo?”

As primeiras palavras do Manifesto Comunista de 1848 publicado por Karl Marx e Friedrich Engels em Londres, em inglês, francês, alemão, flamengo e dinamarquês, parecem saltar das estantes empoeiradas para a pesquisa Ipec divulgada no domingo pelo jornal O Globo.

Para 44% dos brasileiros, o Brasil corre o risco de “virar um país comunista” sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a pesquisa, 33% concordam totalmente com a afirmação de que um novo regime poderia ser implantado no país; 13% concordam parcialmente com a tese. Discordam total ou parcialmente da ideia 48% dos entrevistados.

A pesquisa mostra que a essência do bolsonarismo é o anticomunismo. O ex-presidente Jair Bolsonaro trata toda a esquerda e mesmo setores liberais como uma “ameaça comunista”. Na campanha eleitoral de 2022, teve nome e sobrenome: Luiz Inácio Lula da Silva. Continua sendo um divisor de águas da política brasileira: 81% dos que afirmam que a gestão Lula é “ruim ou péssima” concordam com o risco de comunismo. Já 71% dos que consideram o governo Lula “bom ou ótimo” rejeitam a afirmação.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Terceira via tem oportunidade diante de si

O Globo

Maioria está descontente com dois extremos políticos, mas até agora ninguém soube aproveitar a chance

A erosão do centro político desafia diversos países. Alimentada por sucessivas crises econômicas nas primeiras décadas deste século e pelo crescimento das redes sociais, a polarização entre esquerda e direita, amigos e inimigos, nós e eles se tornou o ingrediente decisivo em eleições mundo afora. Em muitas sociedades, na brasileira inclusive, a divisão em dois campos políticos opostos cresceu a ponto de a identidade social ser suplantada pela identidade política. Até pais e mães passaram a avaliar futuros genros ou noras pelo apoio a este ou àquele candidato.

Traz certo alento, diante desse quadro, a pesquisa Ipec noticiada pelo GLOBO. Dos entrevistados, 57% afirmaram concordar total ou parcialmente com a afirmação: “gostaria que o Brasil tivesse uma terceira via para evitar a polarização política no país”. Apenas 18% declararam discordar totalmente e 9% em parte. A opinião majoritária no Brasil, portanto, é que a divisão entre petistas e bolsonaristas que deu o tom nas duas últimas eleições presidenciais tem feito mais mal que bem ao país. É uma boa notícia. Despolarizar é mesmo necessário.

Poesia | Uma faca só lâmina, parte B - de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Teresa Cristina no Samba na Gamboa - Não tem tradução (Noel Rosa)

 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Marcus André Melo* - Debate sobre democracia

Folha de S. Paulo

A divulgação recente dos Relatórios 2023 do instituto V-DEM e da Freedom House sobre o estado da democracia no mundo provocou forte controvérsia na comunidade acadêmica e nas instituições multilaterais e de promoção na democracia. São duas instituições de grande influência e respeitabilidade sediadas respectivamente em Gotemburgo e Washington. A Freedom House produz o relatório desde 1973.

Os dois relatórios chegam a conclusões opostas: a Freedom House aponta para uma melhoria paulatina, enquanto o V-DEM alerta que avança o processo do que chama "autocratização" no mundo. O que causou mais perplexidade foi a conclusão totalmente implausível, neste último, de que a democracia teria retrocedido ao mesmo nível de 1986. Naquele ano o Leste Europeu continuava sob o jugo soviético, a Coreia do Sul era uma ditadura militar, Nelson Mandela ainda estava no cárcere e Pinochet ainda estava no poder.

Fernando Gabeira - Fake news e solidão

O Globo

Uma das causas profundas da crise democrática é a naturalidade com que se usou o termo realidade alternativa

A leitura de alguns temas complicados me leva a escrever sobre uma palavra simples do nosso cotidiano: solidão. Rumos políticos, ecológicos e filosóficos apontam para ela.

No momento em que se discute o controle das redes sociais, é preciso lembrar que vivemos uma política definida como pós-verdade. O tsunami de fake news, teorias conspiratórias e desinformação talvez seja apenas a face visível.

Uma das causas profundas da crise democrática é a naturalidade com que se usou o termo realidade alternativa. Refiro-me a governos, não apenas a indivíduos. Trump, que se sentia no direito de contar o número de pessoas na sua posse de forma diferente de todos os outros observadores.

Demétrio Magnoli - Nomeando a guerra

O Globo

Nomear é definir, singularizar: assumir o controle intelectual sobre um evento. Como nomear a guerra na Ucrânia?

Guerra imperial. Putin qualificou o colapso da União Soviética como “a maior tragédia geopolítica do século XX”. O chefe do Kremlin almeja reconstituir a Grande Rússia — ou, nas suas palavras, a “nação trina” Rússia-Ucrânia-Bielorrússia.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa moveu-se do paradigma imperial para a integração. A mudança decorreu de duas derrotas: da Alemanha nazista no conflito geral e, mais tarde, da França, nas guerras coloniais na Indochina e na Argélia. A União Soviética, porém, não sofreu hecatombes militares — e permaneceu presa ao sonho imperial. A eventual derrota na Ucrânia salvaria a Rússia da obsessão pela Grande Rússia.

Lygia Maria - Que feminismo queremos?

Folha de S. Paulo

Sanha punitivista dos cancelamentos fragiliza mulheres, que passam a encarar o sexo só pelo prisma do medo

O filme "Tár" não ganhou o Oscar, mas trouxe à tona o problema do chamado cancelamento. Na história, a brilhante regente Lydia Tár sofre uma escalada de acusações de assédio contra suas pupilas e colegas de trabalho. O tribunal das redes sociais rapidamente a condena. Tár é demitida, não consegue mais emprego de prestígio e acaba num país pobre do sudeste asiático.

Sem julgamento, contraditório ou defesa, a pena veio. A opacidade da narrativa cinematográfica —nunca sabemos ao certo se a regente de fato fez o que alegam que ela fez— mostra a postura que deveríamos ter sobre acusações online: a da incerteza. Caso contrário, corre-se o risco de destruir vidas de inocentes.

Ana Cristina Rosa - Ignorância e crueldade

Folha de S. Paulo

Estado deve ser responsabilizado nos casos de trabalho análogo à escravidão

O número de resgates de trabalhadores em situação degradante e análoga à escravidão —eufemismo para a "escravização contemporânea"— bateu recorde no primeiro bimestre de 2023.

Num país de miseráveis, ultimamente não há semana em que o noticiário deixe de trazer a descoberta de pessoas aliciadas com falsas promessas de trabalho decente para acabarem submetidas a jornadas de trabalho exaustivas, em condições precárias, algumas vezes mediante ameaças e castigos físicos.

Não bastasse isso tudo, em muitos dos casos os libertos —não me ocorre termo mais apropriado— são mantidos em cativeiro por conta de dívidas contraídas com os empregadores.

Carlos Pereira* - O orçamento secreto de Lula

O Estado de S. Paulo.

Lula resgata a moeda que dá força ao presidencialismo de coalizão, mas mantém o sigilo

Tem havido muita confusão sobre o que seria o “orçamento secreto”. O próprio presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), nega sua existência ao argumentar que seria possível identificar na sua execução onde e quanto dos recursos estariam sendo alocados e quais os parlamentares beneficiados.

Entretanto, o que confere o caráter público ao orçamento é o conhecimento ex ante dos projetos que foram aprovados pelas instâncias legislativas e suas respectivas justificativas técnicas, não bastando a divulgação ex post dos valores executados e do parlamentar beneficiado. Essa publicização prévia é o que permite que os órgãos de controle fiscalizem o orçamento.

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira* - Coisa pública não é coisa minha

O Estado de S. Paulo.

O comportamento do agente público deve se pautar pela obediência ao princípio de que não pode dispor como quiser do acervo que administra

Muito recentemente vimos a baderna e a selvageria colocarem em risco as instituições nacionais. A reação dos democratas e dos próprios Poderes constituídos, capitaneados pelo Judiciário, impediu que o caos e a barbárie se instalassem. Seria mais um passo na jornada próinstalação de um regime ditatorial para quem se considerava com direitos despóticos e ilimitados de governança.

Os bens públicos das Casas do Legislativo e do Supremo Tribunal Federal (STF) foram criminosamente danificados. A República foi atingida em seu conceito fundamental de “coisa pública”. Vandalizaram bens da sociedade, bens do povo.

Henrique Meirelles - As lições da grande crise de 2008

O Estado de S. Paulo.

Mudanças na regulação dos bancos americanos limitou crise do SVB aos bancos médios

O anúncio de que o UBS chegou a um acordo para comprar o Credit Suisse, numa negociação mediada pelo órgão regulador do setor financeiro da Suíça, deve tranquilizar um pouco um mercado ainda nervoso. A garantia que as autoridades americanas haviam dado de que os depositantes do SVB e do Signature receberão seus depósitos foi também importante. É uma oportunidade para examinar como uma grande crise, a de 2008, atingiu o Brasil.

O País sentiu os efeitos daquela crise na forma de uma interrupção das linhas de crédito externo, que representavam 20% d o financiamento para empresas brasileiras. Eu estava na presidência do Banco Central e lembro que o problema se manifestou num dia em que a Petrobras desistiu de lançar títulos no valor de US$ 1 bilhão no exterior porque não tinha mercado.

Bruno Carazza* - Vai todo mundo ganhar

Valor Econômico

Cuidado com as “contas de padaria” na reforma tributária

Numa das suas declarações confusas que acabaram virando memes nas redes sociais, a ex-presidente Dilma Rousseff afirmou durante o processo de impeachment: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder: vai todo mundo perder”.

O início das discussões sobre a reforma tributária no Congresso Nacional reacendeu os discursos fatalistas sobre seus impactos negativos sobre as empresas. Nas últimas semanas, análises e estimativas vêm sendo publicadas buscando demonstrar como determinados setores econômicos serão prejudicados caso as propostas sejam aprovadas.

A se pautar pelos recentes pronunciamentos de lideranças da agropecuária, do comércio e dos serviços, a velha máxima de Dilma mostra-se atual. Os números divulgados pelas entidades representativas desses segmentos sinalizam para uma elevação tão considerável da carga tributária que aparentemente todos vão sair perdendo.

Sergio Lamucci - A nova regra fiscal e a tentação populista

Valor Econômico

Proposta terá influência sobre os juros longos e as expectativas de inflação

O primeiro trimestre do ano se aproxima do fim e o cenário para a economia brasileira segue nublado. Com o anúncio do projeto da regra fiscal que vai substituir o teto de gastos, previsto para esta semana, o governo pode reduzir as incertezas em relação às contas públicas. Há sinais, porém, de resistência da ala política a medidas de controle das despesas. Isso pode resultar numa proposta menos crível, fazendo o Banco Central atrasar o início do ciclo de corte de juros tão desejado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC define na quarta-feira o rumo da Selic, devendo manter a taxa em 13,75% ao ano. Um sinal de que uma redução dos juros está mais próxima, ou menos distante, dependerá em boa parte da percepção sobre o novo conjunto de regras para as contas públicas.

João Saboia* - Mercado de trabalho e produtividade

Valor Econômico

Investimentos públicos e privados são complementares e precisam estar articulados

O Brasil realmente é um país cheio de contradições. Os dados do mercado de trabalho são um bom exemplo. Se por um lado alguns números são favoráveis, especialmente quando analisadas suas taxas recentes de variação, em valores absolutos são um verdadeiro fracasso.

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa média de desemprego no último ano (9,3%) foi a mais baixa desde 2016. Comparativamente a 2020, primeiro ano da pandemia, houve queda de quatro pontos percentuais, o que não é pouca coisa. Mas em termos absolutos havia impressionantes 10 milhões de pessoas desocupadas e 24 milhões de subutilizadas em 2022.

No interior do mercado de trabalho a inserção precária da população está disseminada. Das 98 milhões de pessoas ocupadas em 2022, apenas 36 milhões possuíam carteira de trabalho assinada. Em contrapartida, havia 13 milhões sem carteira assinada e 25,5 milhões de trabalhadores por conta própria, a maioria dos quais sem cobertura previdenciária. Destacam-se também as quase 6 milhões de pessoas no emprego doméstico, a maioria também sem carteira assinada. A população ocupada na informalidade representava quase 40% das pessoas ocupadas em 2022. Imaginem o desafio, tanto em termos econômicos quanto sociais, para o país sustentar os informais no futuro quando não puderem mais trabalhar.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Democracia ganha com fragmentação partidária em baixa

O Globo

Agrupamentos políticos no Congresso já caíram de 30 para 14. Previsão é que em 2026 não passarão de dez

Fracassaram na semana passada as negociações para criar a federação entre PP e União Brasil que formaria o maior partido da Câmara, com cem deputados. Mas que ninguém se engane: em meio às incertezas e percalços, vai ficando para trás a profusão de partidos no Congresso. Tal fato positivo vem se consolidando de modo gradual, mas incontornável.

É verdade que ainda há 32 legendas registradas na Justiça Eleitoral e que 22 têm representação no Legislativo. Mas sete delas integram três federações — PT, PCdoB e PV; PSDB e Cidadania; PSOL e Rede —, obrigadas a atuar como partidos únicos por quatro anos e vistas como embriões de possíveis fusões no futuro. É, portanto, como se houvesse apenas 18 legendas, quando em 2018 já houve 30. A consolidação não deverá ficar nisso. Mesmo com o fracasso da negociação entre PP e União, às três federações existentes poderá se somar uma quarta, a depender das conversas entre PSB, PDT e Solidariedade.

Poesia | Não! Só quero a liberdade - de Fernando Pessoa

 

Música | Teresa Cristina canta Noel Rosa - Cidade Mulher.

 

domingo, 19 de março de 2023

Luiz Sérgio Henriques* - ‘A rosa de Hiroshima’

O Estado de S. Paulo.

Mal podemos imaginar o grau de beligerância num mundo em que autocratas dos mais variados coturnos conseguissem acesso irrestrito às alavancas e às salas de comando

Desde 1945 imagens de “crianças mudas telepáticas” e de “meninas cegas inexatas”, entre outras, passaram a indicar, de modo irrevogável, a possibilidade de autodestruição da humanidade sob a nova condição atômica. E a tal ponto que a ameaça absoluta representada pelo cogumelo obsceno – a “rosa com cirrose”, na intuição de Vinícius de Moraes – seria percebida por políticos responsáveis de todas as correntes. A partir daí o gênio não voltaria mais à garrafa de origem e vez por outra nos assombraria. Em alguns momentos, como na crise cubana dos mísseis, escapamos por um triz.

Talvez surpreenda hoje a afirmação de que um líder comunista, forjado nos anos de ferro e fogo, tenha apreendido tal ameaça em toda a sua extensão e complexidade. Palmiro Togliatti, respeitado dirigente do antigo Partido Comunista Italiano (PCI), nos anos 1950 e 1960 do século 20 interpelaria em variados momentos a cultura católica “adversária”, buscando um terreno comum a partir do qual a “luta pela paz” saísse da esfera instrumental – inclusive da parte dos comunistas – e empolgasse multidões mundo afora.

Para Togliatti, a guerra já não era a continuação da política por outros meios, mas, antes, a abolição desta mesma política e, como consequência, “o possível suicídio de todos”. A Igreja de Constantino começava a definhar com os bons ares do Concílio Vaticano II e o tempo dos anátemas devia ficar progressivamente para trás. Seria, então, a hora do “diálogo” entre cristãos e marxistas, estes últimos, ainda por cima, chamados a deixar de lado aspectos ultrapassados da sua visão das religiões, herdados do iluminismo do século 18 e do materialismo do século 19.

Dorrit Harazim - Nada de novo

O Globo

Livros não são objetos mortos. Contêm uma potência de vida tão vibrante quanto a alma que os criou

Felizmente, nem tudo pode estar em todo lugar ao mesmo tempo, como pretende o filme multicampeão de Oscars de 2023. Há coisas que merecem ser contadas com vagar para ser sorvidas em profundidade. Assim fez Erich Maria Remarque quase cem anos atrás ao publicar sua obra-prima literária “Nada de novo no front”. A primeira edição, de 1929, esgotou-se no mesmo dia e, ao final daquele ano, mais de 1 milhão de cópias já haviam sido lidas com reverência. Até hoje Remarque continua sendo, ao lado de Goethe, o escritor de língua alemã mais lido no mundo.

O livro, como se aprende na escola, é baseado na vivência do autor como soldado na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O narrador é um jovem recruta, Paul Bäumer, que parte para a guerra voluntariamente ao lado de colegas de classe. Encontra a face do horror daquela que, com razão, é chamada de “A Grande Guerra”. No livro, combatentes se arrastam em trincheiras de lama e sangue, convivem com restos humanos pendurados em arame, cavalos são esturricados por bombas, explodem feio, e a soldadesca, ora faminta à beira da loucura, ora convulsionada por gases venenosos, vai silenciando. Poucos saem da narrativa com vida. O próprio protagonista, Bäumer, morre poucos dias antes da assinatura do Armistício que, na vida real, pôs fim à carnificina de mais de 40 milhões. Foi todo um mundo que ruiu e que Erich Maria Remarque compreendeu e descreveu sem retórica.

‘Ameaça comunista’ ronda 44% dos brasileiros

Por Nicolas Iory e Bianca Gomes / O Globo

Tema disseminado pela extrema-direita e frequente dos discursos de Bolsonaro, mudança de regime no país é uma hipótese totalmente plausível para 31%, enquanto 13% concordam em parte

Alardeado pela extrema-direita no mundo e tema recorrente nos discursos de Jair Bolsonaro mesmo antes de ocupar a Presidência, a hipótese de instalação de um regime comunista preocupa uma parcela dos brasileiros — ainda que a queda do Muro de Berlim, símbolo da derrocada do modelo, tenha ocorrido há pouco mais de 33 anos. Segundo o Ipec, a chance de um regime ao estilo soviético ser instaurado é plausível para 44% dos brasileiros.

No ano passado, ao longo da campanha, Bolsonaro associava o “risco” à vitória de Lula. Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump e outros representantes do Partido Republicano usavam o mesmo expediente contra Joe Biden, vitorioso no pleito de 2020. A pesquisa mostra ainda que, no Brasil, 31% concordam totalmente com a afirmação de que o comunismo pode vigorar no país; 13% dão aval em parte, enquanto 48% discordam total ou parcialmente da possibilidade.

— A maior parte das pessoas associa o comunismo na América Latina com as situações de Venezuela e Cuba, combinações de um regime autoritário com realidades como fome e desabastecimento. Isso esteve muito presente nas narrativas do Bolsonaro — diz a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Em setembro de 2022, em Sorocaba (SP), Bolsonaro chamou Lula de “capeta” e disse que o petista queria “impor” o comunismo no Brasil. Não à toa, a pergunta “o que é comunismo?” foi a que mais cresceu em uma das categorias nas pesquisas dos brasileiros no Google no ano passado.

Merval Pereira - De volta para o futuro

O Globo

Inteligência artificial conseguirá reproduzir a realidade?

Nos sentimos envelhecer quando, além da redução das capacidades físicas, presenciamos o início de processos que mudaram a vida do país e do mundo. Nasci em 1949, e de lá para cá usei diversas moedas: Cruzeiro; Cruzeiro Novo; Cruzeiro novamente; Cruzado; Cruzado Novo; Cruzeiro de novo: Cruzeiro real e Real. Passando pelas tablitas e o URV. Todas acompanhadas de sucessivas crises políticas e econômicas.

Também no jornalismo acompanhei mudanças radicais, como a passagem do linotipo de chumbo à era digital. As notícias que transmitíamos através de mensageiros ou telex, hoje podem ser enviadas pelo celular. Celulares, aliás, que foram sendo reduzidos de tamanho, assim como os computadores, enquanto aumentam exponencialmente sua capacidade.

O primeiro celular que vi foi com um correspondente estrangeiro, em Brasília. Era um tijolão, com uma antena enorme. Tenho ainda em casa um Macintosh Classic modelo 1991 que, ao lado de uma Remington do pós-guerra, me lembram do passado enquanto teclo um IPad última geração. A primeira telefoto a cores foi publicada no caderno de Esportes do Globo em 1979, de Recife para o Rio, num jogo do Flamengo. Mas, antes disso, a telefoto em preto e branco já representava uma evolução espantosa.

Bernardo Mello Franco - Vale a pena ver de novo

O Globo

Com pressa para apresentar resultados, presidente relança vitrines de governos petistas

Lula está com pressa. Na terça-feira, o presidente disse aos ministros que o mandato é “muito curto”. Acrescentou que quatro anos passam “rapidíssimo” para quem está no poder. “Nós não temos muito tempo para ficar pensando no que fazer. Temos que fazer”, cobrou.

O petista está preocupado com o calendário. Sabe que se aproxima dos cem dias de mandato. A data costuma marcar o primeiro balanço de um novo governo. É quando a imprensa e a sociedade começam a comparar o que foi prometido ao que foi entregue.

Lula informou que deve celebrar a efeméride com um pronunciamento na TV. Se o discurso fosse ao ar hoje, teria ares de “Vale a pena ver de novo”. Até aqui, o governo apresentou poucas novidades. Preferiu apostar na reciclagem de velhos programas.

Em fevereiro, o presidente relançou o Minha Casa Minha Vida. No início de março, recriou o Bolsa Família. Na semana passada, ressuscitou o Pronasci. Amanhã fará uma solenidade para anunciar a volta do Mais Médicos.

Elio Gaspari - Franklin recuperou a voz da rua

O Globo

Está nas livrarias “Quem foi que Inventou o Brasil?”, do jornalista e ex-ministro Franklin Martins. A pergunta é do compositor Lamartine Babo em 1934 e, na resposta de Franklin, o povo canta. Nesse volume, ele coletou 296 canções, indo da Independência à República, com algumas dezenas tratando da escravidão e do racismo.

A história de Pindorama deve muito à música. Basta dizer que o Hino da Independência tem letra de um jornalista político (Evaristo da Veiga) e música de D. Pedro I. Graças à música, conhece-se também o “Batuque de Palmares”, tão candidato que foi proibido em 1839:

“Folga nego, branco num vem cá

Se vié, pau há de levá”.

Com a colaboração de João Nabuco ao piano, foram trazidas de volta inúmeras canções, inclusive as “Cantigas Báquicas”, compostas em 1826 por José Bonifácio de Andrada, o poderoso ministro da Independência, exilado na França. Episódios que o andar de cima trata com gravidade; no de baixo as coisas eram mais simples. Quando o Banco do Brasil quebrou, em 1829, a rua cantava “piolhos, ratos e ladrões”. Quase meio século depois, quando quebrou um grande banco privado do Rio, cantava-se:

“E quem há de nos valer

Em momento tão sinistro?

Ah! Já sei, corramos todos

Ao palácio do ministro.”

Celso Rocha de Barros – A esquerda e o mercado

Folha de S. Paulo

Mercado só enxerga problema quando vira gasto

Uma pesquisa Genial/Quaest revelou que 98% dos gestores de mercado (em uma amostra de 82) reprovam os rumos da política econômica de Lula. A primeira coisa a ser dita é que se os 2% de gestores que discordam estiverem certos devem fazer uma boa grana nos próximos anos.

Em um certo sentido, o resultado da pesquisa era de se esperar. Os gestores de fundos certamente estão entre os 1% mais ricos da população, que não é território eleitoral fértil para a esquerda. E seria ridículo não reconhecer que os gestores, como todos os outros seres humanos, têm suas opiniões políticas.

Por exemplo, esta coluna está desde dezembro perplexa com o pessoal do mercado que achava que Haddad era um radical. Hoje não parece haver ninguém que ache isso, mas Haddad não mudou, o mercado é que se rendeu às evidências.

Aliás, bom lembrar: boa parte da turma que hoje tem medo de que "Lula não deixe Haddad trabalhar" teve a chance de eleger Haddad presidente em 2018. Ao invés disso, preferiram votar em um muambeiro genocida e golpista que quebrou o país e fugiu pra Disney.

Isso não quer dizer, entretanto, que a esquerda e o mercado nunca possam estar de acordo um com o outro, ou que a esquerda não cometa erros que reforçam a percepção ruim do mercado sobre ela.

Bruno Boghossian - Uma oposição doméstica

Folha de S. Paulo

Como não há força consistente de centro-direita, objeções à política econômica aparecem na esquerda

Quando foi torpedeado por petistas na briga dos combustíveis, Fernando Haddad disse que não era nada pessoal. O chefe da equipe econômica lembrou que Antonio Palocci também havia passado por maus bocados na primeira gestão de Lula, sob críticas de colegas de governo. "Isso é natural", sentenciou o ministro.

Palocci foi alvo de fogo amigo pesado. Economistas de esquerda diziam que sua equipe tinha infiltrados do mercado financeiro, intelectuais ligados ao PT fizeram um manifesto contra a política econômica e ministros de outras pastas falavam em buscar um plano B (o substituto favorito era Aloizio Mercadante), como conta Thomas Traumann no livro "O Pior Emprego do Mundo".

Luiz Carlos Azedo - Macron vive dias de Thatcher com reforma na França

Correio Braziliense

Ao pretender aumentar por decreto a idade mínima para a aposentadoria 62 para 64 anos, o presidente francês viu o povo voltar às ruas para protestar contra a reforma da previdência

Os franceses gostam de resolver suas contradições nas ruas, desde a Revolução de 1789, que acabou com o Antigo Regime os privilégios da aristocracia. A Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, espalhou a revolução por toda a França e mudou a História do Ocidente. Mutualistas e coletivistas, os trabalhadores franceses voltariam às barricadas em 1871, na Comuna de Paris, tomando o poder sem estarem preparados para isso. Mesmo assim, o assalto aos céus passou a ser o objetivo dos trabalhadores europeus, que se dividiram em duas grandes correntes: a social-democrata e a comunista.

Para a formação dos partidos operários contribuíram as teses do judeu-alemão Karl Marx, sustentadas na Conferência de Londres da I Internacional Socialista, em 1871: “Em sua luta contra o poder reunido das classes possuidoras, o proletariado só pode se apresentar como classe quando constitui a si mesmo num partido político particular, o qual se confronta com todos os partidos anteriores formados pelas classes possuidoras”.

Muniz Sodré* - Graxa em roupa branca

Folha de S. Paulo

Imbróglio das joias das Arábias borra imagem de rude simplicidade de Bolsonaro

Segundo um aforismo da tradição jeje-nagô, "quem usa roupa branca não se senta na graxa" (alaosála ki ilo ioko si-elépo, no original iorubá). Sentido prático: não se pode tocar em sujeira sem ser descoberto. Bem provável, assim, que o imbróglio das joias das Arábias venha borrar a pretensa imagem de rude simplicidade do ex-presidente, vendida aos incautos por redes sociais, políticos de baixa extração e aproveitadores.

O fascínio popularesco por essa imagem, responsável também em outras regiões do mundo pela identificação com personalidades toscas, é análogo ao exercido pelo objeto antigo. Numa análise datada dos anos 70, Jean Baudrillard, crítico dos signos culturais, opõe a funcionalidade dos objetos modernos à natureza mitológica do antigo (em "O Sistema dos Objetos"). Para ele, o objeto arcaico decorativo é puramente mitológico em sua referência ao passado. Ou seja, não tem nenhuma incidência prática, sua única função é significar os índices culturais de uma vida anterior. Dele não se exige utilidade, apenas autenticidade.