quinta-feira, 23 de junho de 2022

Luiz Werneck Vianna*: Como uma onda grande no mar

Se os que são capazes de avaliar o tamanho das concentrações populares estão certos foram cerca de 4 milhões de pessoas que estiveram presentes no último domingo na chamada parada gay que teve como palco a avenida Paulista, já há algum tempo lugar preferencial de protestos populares. Por tudo que lá foi celebrado, cantado e dito a plenos pulmões em favor das liberdades individuais e de culto religioso a contrapelo dos valores obscurantistas que o governo Bolsonaro se empenha em difundir tivemos ali uma manifestação plebiscitária de repúdio a tudo isso que aí está.

Os sinais de que uma mudança em grande escala está por vir também estiveram e ainda estão presentes na comoção provocada pelo assassinato dos heróis amazônidas Bruno Pereira e Dom Philipps que trouxe à luz o mundo de trevas a que estão condenadas as populações ribeirinhas e os indígenas das regiões da Amazônia profunda. A atenção que a opinião pública dos países do Ocidente democrático dedicou a esse trágico episódio, obviamente relacionado à questão ambiental, evidencia a importância de se isolar internacionalmente o infame governo do nosso país e de favorecer a ação de suas oposições democráticas, especialmente por parte do governo Biden, de forte significação em nosso continente.

Os ventos benfazejos que começam a soprar em Nuestra América do México a Argentina, passando pelo Chile, Peru, e agora com a boa surpresa da Colômbia, não terão como evitar, como o plebiscito da avenida Paulista sinaliza, que bafejem por nossas terras. De toda parte, o que se previa como uma irresistível maré neoliberal partem movimentos de contestação a ela, como na França em que a esquerda teve ampla votação nas eleições majoritárias e na legislativa, insinuando em futuro próximo resultados ainda mais incisivos. Outro indicador de mudança de rumos se faz conhecer no Reino Unido com a primeira greve nacional em 30 anos no setor ferroviário. No mesmo sentido, faz-se notar a União Europeia como nova presença afirmativa no cenário internacional em nome dos valores civilizatórios que representa.

José Serra*: A democracia representativa não será demolida

O Estado de S. Paulo

Polarização se repetirá se revisão do regime presidencial e do voto proporcional não obtiver apoio popular e empenho do Legislativo

Desde 2013, vem se acumulando a frustração entre os brasileiros com a resposta das elites dirigentes a suas demandas vitais – trabalho, meios de subsistência, moradia, saúde, transporte e, mais do que tudo, o direito a ser tratado com dignidade pelas autoridades públicas. As mesmas queixas têm-se repetido ao longo dos anos seguintes, sublinhando a relativa cegueira das elites a respeito da insatisfação popular.

Em todo o mundo, a incúria do poder público redundou numa enraizada desconfiança dos cidadãos com relação a seus representantes. A falta de confiança gerou perdas de legitimidade do sistema representativo, no pressuposto de que a democracia dá, aos representantes eleitos por voto popular, o direito de legislar em seu nome.

Em diferentes camadas da sociedade, sobretudo naquelas mais vulneráveis à instabilidade econômica e aos eventos adversos – como as catástrofes naturais, as guerras e as pandemias –, os cidadãos passaram a duvidar da legitimidade do mandato popular por eles concedido. As elites dirigentes vêm sendo acusadas de não respeitar os interesses e valores dos seus eleitores, não cumprir as leis que eles mesmos votam, fraudar a legalidade em benefício próprio e não retribuir aos cidadãos o mínimo do que lhes é devido.

Merval Pereira: Todo chamuscado

O Globo

A falação sem controle do presidente Bolsonaro sobre qualquer assunto acaba levando-o a situações delicadas como esta, envolvendo a prisão do ex-ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, e de vários pastores acusados de golpes no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Ao ser denunciado o escândalo de distribuição de verbas a prefeituras por meio do tráfico de influência dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, acusados de cobrar propinas para liberação de verbas no MEC, Bolsonaro reagiu com indignação, chegando a afirmar:

—Coloco minha cara no fogo pelo Milton.

Ontem, a internet estava cheia de memes do presidente todo chamuscado pelo escândalo, o que é péssima notícia para Bolsonaro neste início de campanha eleitoral — ele que empenhou a força de seu governo no Congresso para impedir a realização de uma CPI para investigação do Ministério da Educação.

No dia 18 de março deste ano, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, da Assembleia de Deus Ministério Cristo para Todos, tinham influência direta sobre as verbas do MEC, que tem um orçamento de R$ 159 bilhões, um dos maiores da Esplanada dos Ministérios. Com o desenrolar das investigações pela imprensa, ficou demonstrado que os dois pastores atuavam havia dois anos como intermediários de prefeitos que queriam liberar verbas do FNDE.

Malu Gaspar: Um presidente em chamas

O Globo

Prisão de Milton encontra Bolsonaro isolado e sem rumo

Não faz nem três meses que um indignado Jair Bolsonaro chamou de “covardia” a pressão para que seu então ministro da Educação deixasse o cargo. "O Milton, coisa rara de eu falar aqui, eu boto a minha cara no fogo pelo Milton, a minha cara toda no fogo pelo Milton", disse o presidente da República, numa live.

Na manhã de ontem, com a prisão de Milton Ribeiro e dos pastores que intermediavam a liberação de verbas no MEC, o governo entrou em autocombustão. “Desastre” era a palavra mais usada por diferentes aliados do presidente para definir a situação, entre transtornados com as prisões e apavorados com os estragos potenciais sobre a campanha para a reeleição.

Ribeiro saiu do governo dizendo que só acolhera os pastores no ministério por ordem de Bolsonaro. Logo depois das prisões, porém, o presidente já disse a uma rádio que “ele responda pelos atos dele”, acrescentando que, “se tem algum problema, a PF está agindo, está investigando”.

A estratégia de se descolar de Ribeiro pode até fazer algum efeito imediato, mas ninguém que conhece bem as engrenagens de Brasília aposta que durará muito. Basta revisitar a história de como o ministro chegou ao governo.

Míriam Leitão: A Educação entre a omissão e desvios

O Globo

Há o que o ex-ministro Milton Ribeiro fez, e há o que ele não fez na Educação. É difícil saber o que é mais condenável. A Polícia Federal investiga as suspeitas de corrupção no órgão, com a participação de pastores que liberavam verba, pediam propina e mandavam na agenda do próprio ministro. Enquanto o MEC era dominado por pessoas e agenda estranhas aos interesses públicos, o governo federal deixava de coordenar a educação brasileira numa crise de grandes proporções.

A pandemia chegou na educação como uma bomba de destruição em massa. Por causa dela, milhões de crianças ficaram sem estudar, meninos e meninas entrando na fase de alfabetização tiveram seus estudos interrompidos. Os dados mostram que houve uma perda forte de aprendizagem. O Brasil regrediu numa área em que tem um atraso crônico. O Ministério da Educação nunca foi tão necessário.

William Waack: Vitimização não servirá a Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro entrou em modo desespero e Lula não indica se entendeu o que vem em 2023

Neste momento político da corrida eleitoral os horizontes dos dois líderes se distanciaram bastante. O de Lula já está em 2023. O de Bolsonaro se reduziu aos próximos 101 dias (2 de outubro é a data do primeiro turno).

O presidente se envolveu numa custosa operação política de curtíssimo prazo para o tamanho do objetivo, que é baixar na marra o preço dos combustíveis. Até aqui não conseguiu, nem colocou de pé a ajuda para quem não tem como pagar gás e diesel. Sendo a mesma coisa as políticas de governo e a eleitoral, nenhuma está funcionando.

Tampouco estão ajudando “imponderáveis” para a campanha dele, como a prisão do ex-ministro da Educação, por quem disse que poria a cara no fogo. Ao eleitorado cativo pouco importa, pois populistas como Bolsonaro não dependem de coerência entre palavras e ações. Em situações adversas desse tipo, tornam-se “traídos” – mas é uma “vitimização” que não acrescenta votos.

Adriana Fernandes: Bombardeio

O Estado de S. Paulo

Prisão de ex-ministro deixou Brasília em estado de ebulição em meio à ofensiva contra a Petrobras

O impacto da prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, acusado de favorecimento de pastores na distribuição de verbas, deu impulso extra para o governo e lideranças do Centrão abrirem de vez a caixa de Pandora e ampliarem os gastos no pacote de medidas de redução do impacto da alta dos combustíveis.

O mandado de prisão preventiva, que arrastou o presidente Bolsonaro para o escândalo de corrupção a poucos meses da eleição, deixou Brasília em estado de ebulição numa semana em que a ofensiva estava toda direcionada para colocar a Petrobras no córner.

A estratégia política de buscar a renúncia do presidente da estatal com a ameaça da CPI, aumento da tributação e mudanças na política de preços da companhia tinha como principal objetivo provocar um estado tal de confusão para garantir o subsídio aos caminhoneiros e motoristas de táxi.

Vinicius Torres Freire: Pastores no país das rachadinhas

Folha de S. Paulo

Rolo com dinheiro picado é agora o modus operandi mais comum da política

Pastores entraram na dança do país das rachadinhas. São acusados de cobrar pedágio para fazer com que uma parte dinheiro do Orçamento federal chegue a um município, em geral uma cidadezinha. Pode ser dinheiro de emenda parlamentar ou de um arranjo qualquer entre o governo federal e a cidade.

O governo está quebrado e as empresas públicas haviam sido mais ou menos protegidas de roubança por causa da Lei das Estatais, essa que Jair Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara e o poderoso centrão querem derrubar. Sobrou a rachadinha, favorecida por um sistema de irracionalidade administrativa que banca os caciques chinelões da política brasileira.

Mandar dinheiro para as cidades governadas por amigos e parentes é um meio de usar o dinheiro público para manter o curral eleitoral e se reeleger. Há quem roube, picadinho, mas o caso em geral é uso picotado de recursos escassos em pequenas obras ou despesas sem qualquer avaliação de prioridade, eficiência ou necessidade. O importante é ter "força em Brasília", um deputado poderoso, um lobista, um pastor.

Bruno Boghossian: Loteamento religioso

Folha de S. Paulo

Se corrupção ficar comprovada, será difícil afastar o presidente da cena do crime

Jair Bolsonaro não instalou por acaso um pastor no comando do Ministério da Educação em seu segundo ano de governo. O presidente ofereceu a grupos religiosos um palanque ideológico e influência sobre operações milionárias com dinheiro público. Em troca, poderia reforçar suas conexões com o segmento evangélico e aproveitar os benefícios políticos dessa relação.

A aliança reproduziu a lógica de loteamento que Bolsonaro sempre tentou disfarçar. As suspeitas de corrupção sobre o ex-ministro Milton Ribeiro e os pastores que gerenciavam um balcão de negócios no MEC mostram que um dos principais grupos de sustentação política do presidente estava muito bem servido no acesso aos cofres do governo.

Ruy Castro: Bochechas em fogo

Folha de S. Paulo

A qual de suas caras Bolsonaro se referia quando defendeu seu ministro?

E agora, Bolsonaro? Como está a temperatura nas bochechas? Seu ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, aquele por quem Vossa Excelência "botaria a cara no fogo", foi preso pela Polícia Federal na manhã desta quarta (22), na sequência de uma investigação por crimes de corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência —por sinal, um menu de acusações que caberiam perfeitamente contra Vossa Excia. Ao lado de Ribeiro no camburão, seguiu o "pastor" Gilmar Santos, aquele a cujos pleitos Vossa Excia. pediu ao ministro especial atenção —leia-se facilitando-lhe as rapinas, de Gilmar e comparsas, em ouro ou espécie, aos cofres públicos. Enquanto escrevo, o tintureiro está em busca desses comparsas.

Conrado Hübner Mendes*: Corrupção bolsonarista, capítulo 3

Folha de S. Paulo

O sigilo, a desinformação e o apagão de dados neutralizam controle e facilitam crime

Todo governo corrupto pede ignorância, produz ignorância e depende da ignorância. Não há maior aliado da corrupção do que a ignorância. Não só a cultural e voluntária, efeito de falta de oportunidade educacional e do desinteresse pelo mundo e pelo outro. Mas também da institucionalmente forjada.

A produção institucional da ignorância é política "pública" no governo Bolsonaro. Não é qualquer desvio localizado num ou noutro ministério, de um ou outro agente. Ela se fez o mais transversal programa de governo em vigor. Bolsonaro precisa que desconheçamos o país tanto quanto possível para que a corrupção seja insondável e infalível.

A prática oficiosa combina três ações: fechar informação por meio de sigilo —o estado de sigilo; destruir ou deixar de construir informação— o apagão de dados; fabricar desinformação e catapultá-la por canais fora do escrutínio público para perturbar o juízo e os afetos. Três formas de supressão da esfera pública e manutenção da ignorância. Essa vasta "arcana imperii" bolsonarista pavimenta a corrupção.

Maria Hermínia Tavares*: Na Amazônia, a devastação como projeto

Folha de S. Paulo

Não faltam ideias para combatê-lo, mas os obstáculos são graúdos

O assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips escancarou o enraizamento do crime na região amazônica. Maior responsável pela devastação ambiental, a delinquência impune é ameaça perene à sobrevivência das comunidades indígenas, além de ser causa primeira da degradação moral dos moradores que alicia.

A crise não é nova. O que transbordou dos limites conhecidos foi a perversa proeza deste governo amigo do ilícito e aliado dos grupos mais atrasados do agronegócio em incentivar o descumprimento da lei, ao se dedicar a destruir os instrumentos de defesa da floresta e de seus habitantes: da Funai ao Ibama; do monitoramento por satélite ao Código Florestal; da demarcação de terras indígenas ao Conselho da Amazônia Legal.

Maria Cristina Fernandes: Traição aos evangélicos

Valor Econômico

Para fiéis acostumados a tirar de suas economias para contribuir com igrejas, e não o inverso, a prisão é danosa à sua identidade religiosa e, potencialmente, eleitoral

O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles já havia sido alvo de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal, mas foi Milton Ribeiro quem forneceu ao governo Jair Bolsonaro a primeira prisão do primeiro escalão.

Pior do que o ex-titular do Ministério da Educação só mesmo se a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, tivesse ido parar no xadrez. Foram os dois ministros mais estreitamente vinculados à base religiosa do bolsonarismo.

Se o negacionismo da pandemia e a crise econômica já haviam desgastado a base evangélica do governo, a prisão do ex-ministro tem potencial para anular a resiliente vantagem de Bolsonaro sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste eleitorado.

Estima-se que Bolsonaro tenha tido o dobro da votação entre os evangélicos que seu adversário, Fernando Haddad, no 2º turno. Foram esses 11 milhões de votos que selaram sua eleição.

Esta diferença estreitou-se. No Datafolha do final de maio, o presidente pontuava, no 2º turno, 47% entre os evangélicos e Lula, 45%. O Datafolha desta quinta mostrará se a prisão foi suficiente para a ultrapassagem.

Cristiano Romero: Guedes é um pote até aqui de mágoa

Valor Econômico

“Chamar o Benzema pra jogar no CSA não dá. Vou morrer em campo. Preciso de uma equipe melhor”, afirmou o ministro da Economia em uma roda de conversa

O jornalista Thomas Traumann lançou, em 2018, “O Pior Emprego do Mundo” (Ed. Planeta), compêndio de 344 páginas sobre as venturas e aventuras de 14 cidadãos que ocuparam o cargo de ministro da Fazenda no Brasil. Trata-se de livro obrigatório para quem tem a pretensão de saber como funciona o centro do poder, especialmente, num país desigual e com histórico de instabilidade econômica e política - se, nos Estados Unidos, a pior das crises é incapaz de abalar a República, por aqui, como nos ensina a História, quando a coisa aperta, “dane-se” a democracia!

Se quiser manter o livro na categoria dos clássicos, Traumann terá que escrever novo capítulo, ainda sem epílogo: a gestão de Paulo Guedes, iniciada em 1º de janeiro de 2019. Guedes é, sem dúvida, o mais injustiçado ocupante da cadeira onde se sentaram vultos como Fernando Henrique Cardoso, Mário Henrique Simonsen, Delfim Netto, Pedro Malan, Santiago Dantas, Luiz Carlos Bresser Pereira, Eugênio Gudin, Henrique Meirelles, Mailson da Nóbrega, Roberto Campos, Lucas Lopes, Oswaldo Aranha, Horácio Lafer, Ruy Barbosa, Octávio Bulhões...

Quando Antonio Palocci Filho comandou a Fazenda, entre janeiro de 2003 e março de 2006, a expressão “fogo amigo” tomou o noticiário porque, mesmo bem-sucedida, sua gestão era cotidianamente atacada por gente de seu próprio partido, o PT. No caso de Guedes, “fogo amigo” é eufemismo: sua vida, desde o início, é mar revoltoso e turbulência; calmaria e céu de brigadeiro são estados de exceção.

Memória | Graziela Melo*: Última noite no domicílio

Boatos se transformaram, de repente em realidade cruel. Governador preso. Sindicatos invadidos. Líderes populares eram levados aos quartéis. Encontrei-me com Gilvan e fomos para casa juntos. Foi a ultima noite que dormimos em nossa casa e junto com nosso então único filho. Arraes fora deposto e preso. Nesse dia, fatídico para nossas vidas e especialmente para a história do nosso país, 1º de abril de 1964, completei 26 anos. 

Na casa onde depois me escondi com Gilvan, minha mãe mandou-me um bolo de aniversário. Começou aí nossa peregrinação por algumas casas. Era prudente. Muita gente fazia o mesmo. Diante da dura realidade, minha mãe e minha sogra tomaram a iniciativa que cabia então: promover a liquidação do que fora "nosso lar". Gilvan Filho, com apenas 18 meses, junto com seus pertences, foi para a casa de minha mãe. O resto dos móveis para a casa de minha sogra. 

Nossos livros, o único patrimônio de valor que realmente possuíamos, uma biblioteca mediana com inúmeros volumes de filosofia, história, literatura, obra completa de Graciliano, Machado, Balzac, Jorge Amado, Aragon, entre tantos. Tudo, devidamente encadernado, foi parar num alagado. Pagaram um carroceiro, que, em três viagens de nossa casa até à beira do Rio conseguiu dar fim àquela preciosa papelada que fizera nossa cabeça de jovens progressistas. A única coleção salva, por acaso, porque se encontrava com meu pai, foi Machado, que um amigo, misteriosamente, nos devolveu quando retornamos do exílio.

Quando fomos presos, no dia 2 de maio, um mês depois do golpe, muitos destes volumes, enlameados e inaproveitáveis, já se encontravam recolhidos à delegacia política. Alguém viu o trabalho do carroceiro e informou à polícia. Olhei de soslaio para nossa desfigurada biblioteca enlameada dentro da sala do delegado e não consegui conter o choro. Metido a literato, um delegado que chegou à noite, manuseou um volume enegrecido de Jean Christophe, de Romain Rolland e falou pra mim com ar compungido: que pena!

Eram muitos os policiais que invadiram nossa "casa-esconderijo". Um chalé amplo, rodeado de terraços pertencente a uma tia de Gilvan, que, com muita bonomia e correndo risco, se dignou a nos guardar lá por alguns dias.

Estávamos na sala vendo e ouvindo Cid Sampaio falar na televisão quando o gato que até então estivera quieto, pulou de um extremo a outro da sala. Então, pela grade da porta da frente, se assomou um cano de metralhadora. Vários outros apareceram nas demais portas e janelas. Parecia até que iam prender a quadrilha de Lampião.

*Crônicas, contos e poemas, p. 88. Abaré Editorial / Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, 2008.

Memória | Graziela Melo*: A prisão

Memória | Graziela Melo*: Enfim, Santiago!!!

Memórias / Graziela Melo*: A fuga para Santiago

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Sob Bolsonaro, MEC se tornou caso de polícia

O Globo

No cercadinho do Alvorada, nas transmissões ao vivo, em postagens nas redes sociais ou entrevistas, o presidente Jair Bolsonaro sempre fez questão de martelar que, em seu governo, não há corrupção. Trata-se de estratégia de marketing para se distinguir do adversário petista Luiz Inácio Lula da Silva, cujas gestões foram marcadas por escândalos no aumentativo (mensalão e petrolão). Se a propaganda de Bolsonaro já era absurda diante das denúncias que assombram sua administração, com a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e dos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos, tornou-se insustentável. Bolsonaro agora tem um escândalo de corrupção para chamar de seu.

Ribeiro foi detido em meio à investigação das denúncias que culminaram com sua exoneração em março. Embora não ocupassem cargo, Arilton e Gilmar, também presos, mandavam e desmandavam no ministério. Intermediavam, junto a prefeituras, as verbas bilionárias do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE), que financiam o ensino básico, construção e reformas de escolas, móveis e veículos para transporte escolar.

As denúncias sucessivas de desvios do FNDE já formariam um escândalo sem tamanho. Mas era pior. Para liberar os recursos, função que não lhes cabia, os pastores cobravam propina até em barras de ouro. E era ainda pior. Numa gravação, o então ministro Ribeiro afirmou a prefeitos que a pasta dava prioridade àqueles cujos pleitos tivessem sido negociados pelos dois. Para piorar ainda mais, concluiu: “Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim”. Os dois pastores estiveram 35 vezes no Palácio do Planalto desde o início do governo.

Ribeiro jamais deu explicações convincentes. Quando o caso veio à tona, alegou que já denunciara a dupla à Controladoria-Geral da União (CGU), mas os lobistas continuaram com trânsito livre, e não só no MEC. As explicações de Bolsonaro são ainda mais constrangedoras. Ele resistiu quanto pôde a exonerar Ribeiro, embora sua gestão desastrosa fosse marcada por inépcia e escândalos. Diante das denúncias, fez questão de defendê-lo numa transmissão: “Eu boto minha cara no fogo pelo Milton. Minha cara toda no fogo pelo Milton. Estão fazendo uma covardia com ele”. Depois da prisão, Bolsonaro mudou de tom: “Ele que responda pelos atos dele”. Num esforço para conter os danos eleitorais, afirmou que a prisão é sinal de que não interfere na Polícia Federal. Governos petistas usavam a mesma ladainha.

Poesia | Joaquim Cardozo: As Alvarengas

Tous les chemins vont vers la ville"
(Verhaeren)


As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagadas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.

Música | Gilberto Gil e Elba Ramalho: Festa do interior / Pagode russo / Onde tu tá neném

 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Vera Magalhães: Até não sobrar país nenhum

O Globo

Diante da perspectiva, cada vez mais concreta, de não reeleição de Jair Bolsonaro, o Centrão parece empenhado em sugar até a última gota e não deixar sobrar país nenhum para quem assumir em 2023 — tornando, assim, seu apoio ao próximo presidente tão vital quanto custoso.

Arthur Lira, hoje, dá as cartas no Brasil. A partir da presidência da Câmara, opera coordenado com seu parceiro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e, depois de dominar o Orçamento-Geral da União, quer retomar para seu partido e o consórcio de legendas que comanda a ingerência perdida sobre as estatais, com a Petrobras como joia a recuperar.

É escandalosa em grau inaudito até para os padrões do bolsonarismo a ideia de rasgar a Lei das Estatais a menos de quatro meses de uma eleição em que o grupo que está no poder está em desvantagem.

É outro braço do golpismo que campeia na esfera institucional, aquela em que Bolsonaro articula as Forças Armadas e a Polícia Federal para questionar e, se possível, tentar empastelar o pleito.

A lei, aprovada no governo Michel Temer, foi uma resposta ao escândalo do petrolão, que, a despeito de revisões que tenham sido feitas em condenações decorrentes dos processos da Lava-Jato, foi um escândalo que resta comprovado.

Elio Gaspari: A chance da terceira via

O Globo

Num mundo de raposas, a vez do porco-espinho

A senadora Simone Tebet construiu sua candidatura com a precisão de um ourives e hoje é mais uma alternativa para a desejada “terceira via”. Articulou bases sólidas no MDB e no PSDB, mas, sendo necessário, isso não é suficiente. Com Ciro Gomes, ela patina na pobreza de um só dígito nas pesquisas.

Faltam menos de cem dias para uma eleição que parece polarizada. Bolsonaro quer um novo mandato, mas seu nome tem mais de 50% de rejeição. No caso de Lula, o repúdio oscila entre 33% e 43%. Especular sobre eleição antes do início da campanha é algo semelhante aos palpites sobre o desempenho das seleções antes do início dos jogos da Copa do Mundo.

Mesmo assim, 2022 produziu duas surpresas reveladoras: descarrilaram as candidaturas de João Doria e Sergio Moro. Um governava São Paulo com bom desempenho. O outro havia sido uma das personalidades de maior densidade política do país. Ajudou a eleger Bolsonaro, sentou-se a sua mão direita e desceu aos infernos.

Doria e Moro reluziam na pista como verdadeiros aviões e não decolaram. Ambos descarrilaram pelos mais diversos motivos, mas, na essência, deixaram de responder à seguinte pergunta:

— O que o senhor colocará na minha mesa, em matéria de emprego, saúde e educação, noves fora platitudes ou bondosas generalizações?

Bernardo Mello Franco: A guerra de Ciro

O Globo

Quando Ciro Gomes concorreu ao Planalto pela primeira vez, em 1998, o real valia um dólar e o litro da gasolina não passava de 80 centavos. O Brasil mudou, mas ele não desistiu do sonho. Aos 64 anos, lançará sua quarta candidatura presidencial.

Ao que tudo indica, será uma campanha mais solitária. Ciro é o único presidenciável relevante que ainda não conseguiu fechar alianças. Foi esnobado pela chamada terceira via e agora começa a amargar traições no próprio partido. No último Datafolha, apareceu com 7% das intenções de voto, bem atrás de Lula e Jair Bolsonaro.

“Não sou o favorito. Estou numa guerra contra o sistema”, desabafou ontem, em sabatina na rádio CBN. “Se eu ganhar, venci o sistema. É quase impossível, mas ciclicamente o povo brasileiro produz essas disrupturas”, disse.

Na dúvida, o pedetista toca seu realejo. Promete retomar 14 mil obras paradas, gerar 5 milhões de empregos, socorrer 65 milhões de endividados. Para tirar a numeralha do papel, projeta arrecadar R$ 300 bilhões por ano com o corte de isenções fiscais e a taxação de lucros, dividendos e grandes fortunas.

Roberto DaMatta: Espiões, capitalistas ou etnólogos?

O Globo

Dizem que “vivemos a vida”, mas, quando a vida nos vive, as frustrações assustam porque, sendo vividos pela vida, ela pouco liga para nossas reações.

Freud chama isso de “princípio de realidade”, porque o mundo não está em sincronia conosco. Daí o desapontamento que nos faz sofrer. E, no entanto, sem isso não teríamos história. Seríamos tão vazios quanto um balão. Pois a vida só se torna interessante quando se transforma numa singularidade — em alguma coisa que tem início, meio e fim. Ao sentir a dor das nossas feridas, escapamos da eternidade do nada.

Fui profissionalmente confundido algumas vezes. A profissão de etnólogo ou antropólogo social não tem uniforme ou emblema. Há apenas o sujeito estranho o suficiente para, numa comunidade diferente da sua, ser novidade ou causar suspeita.

Hélio Schwartsman: Festival de horrores

Folha de S. Paulo

Vítima de abuso, menina de 11 anos vive situação indistinguível da privação de liberdade

A legislação sobre o aborto no Brasil é um lixo, mas os médicos conseguem torná-la ainda pior. O Código Penal (CP) é uma norma jurídica autoaplicável, isto é, que dispensa regulamentações. O artigo 128 do CP estabelece que o aborto praticado por médico não é punível quando há risco de vida para a mulher ou quando a gravidez resulta de estupro e há o consentimento da gestante ou de seu representante legal. Não há necessidade de autorização judicial, nem limite de fase gestacional. O médico também não tem a obrigação de apurar previamente se a informação prestada é verdadeira.

Isso significa que, num país onde as leis, mesmo ruins, apenas funcionassem, qualquer mulher que chegasse grávida a um serviço de saúde dizendo ter sido estuprada conseguiria seu aborto sem muita burocracia nem necessidade de acionar a Justiça.

Mariliz Pereira Jorge: Método Damares

Folha de S. Paulo

Ela protagonizou uma das cenas mais grotescas da história deste país

Nada justifica separar da mãe uma criança de 11 anos, vítima de estupro. Não há fundamento para que a Justiça tenha mandado a menina para um abrigo e negado o direito ao aborto. A única explicação para a atrocidade que aconteceu em Santa Catarina nesta semana é o legado deixado pela ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

O caso revelado pelo Intercept mostra que o filme de terror que já havia começado pela violência sexual ganhou crueldade. O hospital negou o procedimento, a promotora Mirella Dutra Alberton pediu que a menina fosse para uma instituição, medida acatada pela juíza Joana Ribeiro Zimmer, que ressaltou a importância de "proteger o bebê".

Bruno Boghossian: Auxílios, vales e ameaças

Folha de S. Paulo

Com campanha de intimidação, Bolsonaro precisa evitar novos aumentos até a eleição

Depois de esbravejar, abrir uma guerra política e lançar ameaças públicas à direção da Petrobras, o governo decidiu fazer algo parecido com governar. A equipe de Jair Bolsonaro e aliados do presidente começaram a discutir a ampliação do Auxílio Gás que é pago aos brasileiros mais pobres e a criação de um vale-combustível para os caminhoneiros.

Nenhuma das duas propostas resvala no que Bolsonaro chamou de "lucro estúpido" da Petrobras ou na "ganância incontrolável" da empresa, nas palavras do presidente da Câmara. Elas também não mexem na definição de preços dos combustíveis, que continuam sob forte aperto no mercado internacional.

O governo pode até oferecer um alívio imediato a grupos mais sensíveis e desviar o foco das tensões com a companhia, mas tudo indica que a pressão política sobre a Petrobras vai continuar. Bolsonaro já deu repetidos sinais de que pretende manter sua campanha de intimidação contra a empresa para evitar novos reajustes até a eleição.

Alvaro Gribel: Os liberais que condenam o lucro

O Globo

Governo Bolsonaro pode reestatizar a gestão da Petrobras, se quiser. Só não pode dizer que é liberal na economia

A apresentação do ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, na Câmara, representou um dos maiores desserviços já prestados ao liberalismo econômico brasileiro. Sachsida condenou o lucro da Petrobras, o qual chamou de excessivo, sugeriu mudanças na Lei das Estatais, para permitir interferências políticas na companhia, e defendeu o corte de impostos sobre combustíveis, sem considerar os impactos fiscais da medida. Para completar, disse que o governo estará ao lado do Congresso caso seja instalada uma CPI para investigar a petrolífera.

A verdade é que apenas uma parte do lucro da Petrobras vem da área de refino. Se, por um lado, o faturamento da venda de combustíveis é elevado, por outro, os custos também o são, porque a principal matéria-prima para a produção de combustíveis, o petróleo, está em alta nos mercados internacionais.

Para se ter uma ideia, no primeiro trimestre deste ano, foram US$ 24,68 bilhões de receitas na área de refino, mas com despesas de US$ 21,54 bi apenas na compra de produtos. O lucro líquido na área foi de US$ 1,98 bi. Já no setor de exploração e produção, que sempre foi o carro-chefe da Petrobras, o lucro foi quatro vezes maior: US$ 7,95 bilhões. Culpar os combustíveis pelo lucro não encontra respaldo nos números.

Vinicius Torres Freire: Vamos chamar a bruxa da Petrobras

Folha de S. Paulo

Efeito da demagogia no preço será mínimo, mas Bolsonaro quer botar a culpa em alguém

Jair Bolsonaro quer queimar na fogueira a bruxa da Petrobras. Ainda que não consiga baixar o preço da gasolina e do diesel em alguns centavos, o que está mesmo difícil, tenta açular a horda contra um inimigo do povo, uma personagem do Ibsen do lixão dos desclassificados.

Parece se divertir com isso também, como um moleque arruaceiro surtado que desabafa seu ódio rindo com a destruição que causa: com a CPI, a Petrobras iria perder mais R$ 30 bilhões, como disse no final de semana.

A CPI talvez não venha, mas serviu como ameaça facinorosa, que acabou por derrubar o presidente da petroleira, mas não apenas. O poderoso centrão, presidente da Câmara e chefe da família que sustenta Bolsonaro e faz as vezes de governo, Arthur Lira (PP-AL) ameaçou pegar a família dos diretores da Petrobras e fuçar a vida deles por meio da Comissão Parlamentar de Inquérito. É um aviso a quem se meter a besta.

Marcelo Godoy: O populismo e a banda podre

O Estado de S. Paulo

Disputa pelos votos dos PMS faz com que França e Tarcísio sejam contrários às câmeras corporais

Por que dois candidatos ao governo de São Paulo – Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Márcio França (PSB) – atacam o programa de câmeras corporais da PM? Explicações simples, como a de que Tarcísio repete o padrão de negacionismo de seu mentor, o presidente Jair Bolsonaro, são insuficientes para entender a posição do candidato. Assim como acreditar que França, por querer separar as polícias estaduais em vez de integrá-las – política que nasceu com Mário Covas –, seja só mais um palpiteiro desinformado, desses que provocam desastres quando empalmam o poder.

O programa da PM tornou a polícia mais transparente, eficiente e moderna. Seja preto, branco, rico ou pobre, quem se relaciona com ela é filmado. Acabam o desacato, a cervejinha, a carteirada, o jeitinho que arredonda a vida para uns e desce o látego em outros. É a igualdade de todos perante a lei.

Nicolau da Rocha Cavalcanti*: O consequencialismo dos conservadores

O Estado de S. Paulo

Seria equivocado achar que esse grupo de apoiadores desconhece quem são Jair Bolsonaro e Donald Trump

Jair Bolsonaro não é liberal, tampouco conservador. Mas o fato é que parcela considerável dos que se definem como conservadores no Brasil continua apoiando o presidente Bolsonaro. Diante de tal fenômeno, há quem classifique esses apoiadores como ingênuos ou mal informados. Eles estariam sendo enganados pelo bolsonarismo – e seria urgente expor essa manipulação, para que essas pessoas e grupos, descobrindo quem é Jair Bolsonaro, deixem de apoiar aquele que, na realidade, é contrário a suas ideias e ideais.

Mesmo que haja diferenças expressivas entre o que ocorre aqui e nos Estados Unidos, fenômeno parecido é visto há alguns anos em relação a Donald Trump. Muitos membros do Partido Republicano têm dado consistente apoio a uma pessoa cuja história de vida é manifestamente contrária aos históricos princípios cívicos do Grand Old Party.

Fábio Alves: A política da inflação

O Estado de S. Paulo

Os Bancos Centrais têm surpreendido e adotado medidas mais duras do que o mercado esperava

É crescente a percepção do mercado de que a pressão política em razão da disparada da inflação – e não necessariamente ingerência de governos – acabou guiando as mais recentes decisões de política monetária dos principais Bancos Centrais do mundo, que surpreenderam por terem sido bem mais duras do que os investidores esperavam.

“É a política da inflação se sobrepondo à economia da inflação”, diz o chefe do Blackrock Investment Institute e exvice-presidente do Banco Central do Canadá, Jean Boivin. Ele se refere, especificamente, ao desfecho da mais recente reunião do Banco Central Europeu (BCE), no último dia 9.

Na ocasião, o BCE manteve a taxa de juros de referência inalterada e sinalizou duas altas nas reuniões de julho e setembro. Mas, enquanto muitos esperavam a sinalização de um ritmo de altas de 0,25 ponto porcentual por reunião, o BCE deixou em aberto a possibilidade de elevar os juros em 0,50 ponto em setembro. E, para além de setembro, prometeu um “ritmo gradual e sustentado” de aperto monetário.

Fernando Exman: Revisitando a greve dos caminhoneiros

Valor Econômico

Paralisação é risco para a economia e o ambiente político

Uma nova greve dos caminhoneiros está no radar de preocupações daqueles que enumeram os riscos à economia e à ordem pública até o fim do ano.

Deveria constar, também, da lista do presidente Jair Bolsonaro. No entanto, ao que parece ele acredita que pode se beneficiar politicamente de um movimento semelhante ao que paralisou o país quatro anos atrás. Afeito a criar cortinas de fumaça para distrair a opinião pública dos problemas que o seu próprio governo não resolve, Bolsonaro pode acabar tumultuando o que lhe resta de mandato se fizer essa aposta.

Anteontem, comentou que soube da possibilidade de um grupo se reunir na segunda-feira a fim de pressionar a Petrobras a reduzir o preço do diesel. O problema é que um dos organizadores do encontro é acusado de realizar atos antidemocráticos no 7 de Setembro: incentivar essa mobilização será um erro, o qual pode ainda ter efeitos danosos à economia e ao ambiente de negócios.

A experiência de 2018 precisa ser recapitulada.

Lu Aiko Otta: Dinheiro não aceita instabilidade

Valor Econômico

Empreendimentos de infraestrutura que já estão em operação enfrentam aumento de custo difícil de acomodar nas planilhas. Cimento asfáltico subiu 79% e pedágios, 16%

Manancial de boas notícias para o governo na primeira metade do mandato de Jair Bolsonaro, o programa federal de concessões vem acumulando problemas. Os empreendimentos que já estão em operação enfrentam um aumento de custo difícil de acomodar nas planilhas. Algumas concessões que estão na prateleira já encalharam, por dois tipos de incertezas: as comuns a todo o planeta e as made in Brazil.

Um dos dados mais impressionantes que o ministro da Economia, Paulo Guedes, usa para mostrar que o Brasil está “condenado a crescer” é a carteira de quase R$ 900 bilhões em investimentos que as concessionárias de rodovias, portos, aeroportos, de energia, de óleo e gás e de saneamento precisarão fazer ao longo da próxima década. São expansões de infraestrutura com as quais as empresas se comprometeram, ao obter a concessão.

No entanto, o ritmo de execução desses investimentos está ameaçado. As concessionárias de rodovia começam na próxima semana uma negociação com o governo sobre, por exemplo, o aumento de 79% do preço do cimento asfáltico nos 18 meses encerrados em março. A inflação, que corrige o valor das tarifas, subiu 16% no mesmo período.

Nilson Teixeira: Juros mais altos nos países desenvolvidos

Valor Econômico

A inflação muito acima de padrões históricos tem ampliado o risco de sua maior persistência

Os bancos centrais ocidentais mostraram-se mais sensíveis à dinâmica desfavorável da inflação nas reuniões das últimas duas semanas do que nos encontros anteriores - conforme apontei na minha última contribuição para esta coluna. O Banco Central Europeu (BCE) elevou suas taxas básicas em apenas 25 pontos base (pb), mas sua presidente, na entrevista após a divulgação da decisão, sinalizou possíveis 50 pb na reunião de 21 de julho. O Banco Nacional da Suíça (SNB) aumentou os juros básicos em 50 pb, surpreendendo a maioria dos participantes de mercado que esperava estabilidade ou alta de 25 pb. Já o Banco da Inglaterra (BoE), que iniciou o ciclo de aperto monetário no ano passado, subiu novamente sua taxa em 25 pb, com uma parte dos membros voltando a defender 50pb. Os documentos divulgados sugerem possível elevação de 50 pb em 4 de agosto.

O mesmo processo foi seguido pelo Fed, que aumentou sua taxa de juros básica (fed funds) em 75 pb na semana passada, acima dos 50 pb apreçados na curva de juros até alguns dias antes da sua reunião. A inflação ao consumidor PCE nos EUA - acompanhado com atenção pela autoridade monetária - alcançou 6,2% em abril, com o núcleo totalizando 4,9%. Apesar de uma parte importante do movimento dever-se aos preços de energia, a alta de preços tem se mostrado mais disseminada.