domingo, 13 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarifas são resposta errada a dilemas americanos

O Globo

A partir da constatação real de desequilíbrio na relação com a China, Trump tira conclusões absurdas

Desde o início do mês, Donald Trump fez o que pôde para implodir o regime global de transações comerciais. Levou pavor às Bolsas de Valores — trilhões de dólares viraram pó. Pôs em risco a estabilidade do sistema financeiro com a corrida inédita no mercado de títulos da dívida americana. E minou a confiança no governo mais poderoso do planeta — seu próprio governo. Por quê? Eis uma questão que intriga analistas. Os argumentos apresentados para justificar a escalada tarifária são negados pela ciência econômica e pelos fatos. As premissas de Trump são falsas, e seus objetivos não passam de miragem.

É certo que ele parte de uma constatação real: os Estados Unidos registraram déficit no comércio de produtos e serviços em quase todos os trimestres desde 1976 (a única exceção foi o primeiro trimestre de 1992). Desde 2008, o resultado negativo tem ficado em 3,1% do PIB. Mas a realidade acaba aí. A partir dessa constatação, Trump tira conclusões fantasiosas ou absurdas. Para ele, déficit é sinônimo de perda ou, pior, roubo. Nessa visão deturpada, se uma empresa de Boston compra uma máquina do Japão, isso significa que os japoneses espoliam os americanos. Trump esquece que, caso essa máquina seja melhor, a empresa de Boston será mais produtiva, e a economia americana ganhará. Foi assim que a Coreia do Sul se industrializou tão rápido: importando máquinas e registrando repetidos déficits comerciais.

Sem anistia - Merval Pereira

O Globo

A abrangência do projeto de anistia é tão ampla que atinge fatos antecedentes e subsequentes ao que chamam de “manifestações com conotação política ou eleitoral” entre os dias 8 de janeiro de 2023 e a entrada em vigor da lei

É impossível qualquer tipo de negociação em torno do projeto de lei de anistia apresentado pelo PL, simplesmente porque ele não prevê punição para ninguém, inclusive para os organizadores e financiadores da tentativa de sublevação ocorrida em 8/1/23 em Brasília. E não prevê porque o objetivo único da lei é salvar Bolsonaro da guilhotina política, permitindo que ele concorra à eleição presidencial do ano que vem. Não há referência a alteração de penas dos já condenados, mesmo porque parece um abuso de poder político a atribuição ao Congresso de anistiar, tanto na parte criminal quanto na civil, os envolvidos nos atentados.

O projeto de lei, da maneira que está apresentado, comete uma série de inconstitucionalidades que certamente serão questionadas no Supremo Tribunal Federal (STF), a começar pela determinação de que o Judiciário será acusado de abuso de poder se não aceitar as decisões do Congresso, o que transforma os ministros do Supremo em reféns de um golpe legislativo. A abrangência da anistia é tão ampla que atinge fatos antecedentes e subsequentes ao que chamam de “manifestações com conotação política ou eleitoral” entre os dias 8 de janeiro de 2023 e a entrada em vigor da lei.

Sorry, periferia - Bernardo Mello Franco

O Globo

O juiz Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield assinou milhares de sentenças, mas nunca existiu. Era invenção de José Eduardo Franco dos Reis, que nasceu no interior paulista, falsificou os documentos e mentiu a identidade por mais de 40 anos.

A história do magistrado caipira que queria ser lorde inglês impressiona, mas não chega a ser original. Antes de sua mãe dar à luz na pequena Águas da Prata, os cariocas já haviam sido apresentados a Jeff Thomas, o mais fleumático dos colunistas nativos.

Britânico de Paraú, no interior do Rio Grande do Norte, Francisco de Assis Veras diz ter sido vítima de um “acidente geográfico”. “Deveria ter nascido em London, mas a cegonha errou e me deixou lá”, explica.

Procriação seletiva – Dorrit Harazim

O Globo

Organizadores e participantes de evento no Texas convergem para promover, senão a eugenia, algo muito próximo dela

A cidade de Austin, capital do Texas, é um oásis liberal fincado num estado sulista majoritariamente conservador. Sua respeitada universidade também — dois terços dos 52 mil alunos que ali estudam se declaram liberais, e apenas 10% conservadores. Mesmo sem dados específicos sobre o corpo docente da bicentenária instituição, pode-se supor que os mais de 3,2 mil professores de suas 19 faculdades também espelham esse perfil arejado. Daí a estranheza com a realização, num dos 50 prédios do espaçoso campus, de um simpósio bastante exógeno ao saber acadêmico.

Pindorama, uma aula sobre o Brasil - Elio Gaspari

O Globo

Está na rede o documentário “Pindorama: Uma História do Brasil Ancestral” dirigido pelo jornalista Marcos Rogatto e produzido por Patrícia Ogando. Com 43 entrevistas de arqueólogos e paleontólogos, bem como visitas a dezenas de sítios históricos e museus, ele conta a vida de Pindorama há milhões de anos. Dura 98 minutos e traz belas lições.

A primeira expõe patrocínios culturais bem direcionados pela prefeitura de Campinas e pelo Ministério da Cultura. Com a segunda, valoriza gerações de cientistas e leva os curiosos da cultura dos povos que viviam nesta terra há uns 18 mil anos. O fóssil de Luzia, achado em Lagoa Santa (MG), tem 11,5 mil anos.

PL da Anistia autoriza golpe - Míriam Leitão

O Globo

Os projetos de anistia usam pretexto de salvar manifestantes, mas são para proteger e livrar líderes do golpe, os generais e Bolsonaro

As máscaras caem nos textos das propostas de anistia que tramitam no Congresso. Os projetos, uns apensados a outros, usam o pretexto de salvar as pessoas que quebraram as sedes dos Três Poderes, para anistiar todos os autores intelectuais e financiadores do golpe de Estado. O projeto, na versão de setembro de 2024, também ameaça a Justiça. A investigação, o ato de oferecer ou receber denúncia e a persecução penal contra esses “manifestantes" serão considerados “abuso de autoridade”. É um golpe do Legislativo contra o Judiciário e abre as portas para golpes de Estado futuros.

Só para os ‘inocentes úteis’? - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Boa pergunta: se fosse na sua casa, você pediria anistia para o 8 de janeiro? E no seu País?

Pergunta sugerida por um dos 11 ministros do Supremo para quem é a favor da anistia aos criminosos do 8 de Janeiro, principalmente, a deputados e senadores: “Se invadissem a sua casa, jogassem rojões, paus e barras em seus funcionários, destruíssem seus móveis e quisessem que o vizinho tomasse o poder e passasse a comandar sua família e sua residência… você pediria anistia?”

Protecionismo de Trump tem raízes no passado dos EUA - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Conselheiro de Lincoln, Carey via a política de livre-comércio como uma forma de dominação econômica britânica, mais ou menos como Trump faz agora com a China

Henry Charles Carey foi um economista do século 19, conhecido por ser o principal teórico econômico do protetorado industrial dos Estados Unidos. Sua defesa do protecionismo se contrapunha às ideias do “laissez faire” (livre-comércio) britânico representado por David Ricardo e Adam Smith. Quem me chamou atenção para a importância desse economista na história dos Estados Unidos foi meu velho camarada Gilvan Cavalcanti de Melo, editor do site Democracia política e novo reformismo.

Dele recebi duas páginas instigantes do livro Grundisse (Boi Tempo), os manuscritos de Karl Marx (1818-1883) intitulados “Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie” (Elementos fundamentais para a crítica da economia política), no qual o autor de “O Capital” destaca a originalidade das ideias de Carey àquela altura da expansão capitalista pelo mundo. Um dos manuscritos é “Formações econômicas pré-capitalistas”, que contraria o determinismo histórico stalinista. Esses textos somente foram publicados em 1941.

Faltam quase 200 semanas: é assustador - Pedro Malan

O Estado de S. Paulo

O futuro tornou-se muito mais incerto e perigoso com a chegada de Donald Trump ao poder

Este é mais um artigo neste espaço com a palavra assustador no título. As primeiras 12 semanas do governo Trump – e as quase duas centenas de semanas adicionais que o mundo e o Brasil têm pela frente – justificam a retomada da série. O futuro tornou-se muito mais incerto e perigoso com a chegada de Trump ao poder – como mostraram suas primeiras semanas no cargo.

Um dos artigos da série É assustador citava Adam Przeworski: “Não acredito que a sobrevivência da democracia esteja em jogo na maioria dos países, mas não vejo nada que possa acabar com o nosso descontentamento atual. (...) A crise não é apenas política; tem raízes profundas na economia e na sociedade. É o que me parece mais assustador”.

Outro artigo da série mencionava Amos Tversky: “É assustador imaginar que não sabemos algo, mas mais assustador ainda é imaginar que, em geral, o mundo é dirigido por pessoas que acreditam saber exatamente o que está acontecendo”. Notei que a frase deveria ser estendida para incluir as pessoas que acreditam saber também exatamente o que fazer; e dedicam-se a convencer os demais a acreditar nisso – como forma de chegar ao poder, nele continuar ou a ele voltar.

Trump, ordem global e Brasília - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Qualquer projeção se torna especialmente insegura no ambiente de incerteza imposto por Trump, mas a expectativa de negociações parece justificar, por enquanto, um moderado otimismo

Passados mais de 40 anos do desastre econômico do final dos anos 70 e início dos 80, o Brasil enfrenta mais um desarranjo global nos mercados de câmbio, com novas incertezas no comércio internacional. Agora, como naquele tempo, Washington é o centro e a origem da turbulência, mas com importante diferença política. Desta vez, o abalo foi imposto como demonstração de poder pelo presidente americano, Donald Trump, numa violação das normas internacionais de comércio e de padrões de convivência econômica. Tarifas comerciais irregulares foram impostas a países de todos os continentes, em alguns casos com revisão e ampliação dos novos valores, como se o presidente dos Estados Unidos estivesse acima de todas as limitações e pudesse agir como imperador absoluto do mundo.

Com Trump, o medo é grande de novo - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de suspender tarifas, EUA liberam importação de eletrônicos e máquinas até da China

O preço do iPhone e um começo de fuga bananeira de capitais e do dólar fizeram Donald Trump fugir da própria raia duas vezes na semana que passou.

Na quarta-feira (9), suspendeu impostos de importação mais economicidas. Na virada de sexta para sábado, por meio de nota burocrática da Alfândega, liberou importações de produtos e de peças e máquinas essenciais para a produção de eletrônicos, mesmo vindos da China.

Até Trump pisca de nervoso. Mas pode dizer que deu um oizinho amigo para a China, bastante para a abertura de negociações —pelo menos foi um oizinho para as "techs" que lhe dão dinheiro.

Acordão: uma proposta indecorosa a Lula - Catia Seabra

Folha de S. Paulo

A sugestão é que o presidente se sente à mesa pela anistia de quem planejou seu assassinato

O presidente Lula (PT) tem sido instado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a intermediar um acordo para redução de pena dos vândalos que depredaram as sedes dos três Poderes em 8/1 de 2023.

Ainda que sejam boas as intenções, a proposta beira o indecoroso. É sugerir que se sente à mesa pela anistia de quem planejou seu assassinato, pôs fogo em carros nas ruas de Brasília e pilhou o Palácio do Planalto.

Sem falar no alto risco de fracasso. Lula está preocupado com o acirramento dos ânimos e aberto ao diálogo, mas hesitante quanto à eficácia dessa articulação, relatam aliados.

É o estúpido, estúpido! - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

No bingo da semana passada, ganhou quem tinha 'Trump vai se render e declarar vitória'

No bingo da semana passada, ganhou quem tinha "Trump vai se render e declarar vitória" na cartela. Na quarta-feira, Trump suspendeu por 90 dias as tarifas maiores que 10% e aumentou as da China.

A Casa Branca está tentando vender a versão de que o plano sempre foi esse. Ninguém acreditou, e Trump tem mesmo que torcer para que as autoridades americanas não acreditem.

Afinal, horas antes de suspender as tarifas, Donald postou "ótima hora para comprar ações" em suas redes sociais. Se na hora da postagem ele já sabia que suspenderia as tarifas – e faria a Bolsa disparar – ele cometeu uma fraude financeira gravíssima.

O caso de ver para não crer - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Disso a vida pública brasileira passou a dar exemplos alarmantes para o senso comum, como a tentativa de golpe

Sempre se achou que é preciso ver para crer. Mas Engels, o brilhante parceiro de Marx, ponderava que em ciência a visão como prova definitiva é apenas uma suposição do empirismo radical, pois relações abstratas como na geometria ou na matemática são formalmente comprobatórias. Na vida prática, a tendência, exceto na vida religiosa, é acreditar no que se vê, porque o predomínio das noções comuns impõe ideias adequadas à realidade imediata.

E quando se vê e não crê? Disso a vida pública brasileira passou a dar exemplos alarmantes para o senso comum. É o fato da tentativa de golpe de Estado, motivo para que pela primeira vez na história do país um ex-presidente da República, militares e ex-militares da mais alta patente tenham sido indiciados como réus pelo Supremo Tribunal Federal.

Pensador nazista ajuda a entender Trump - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra como ideias do filósofo e jurista alemão Carl Schmitt podem ser apropriadas pelo trumpismo

O Trump 2.0 vem em versão bem mais autoritária do que a de sua primeira passagem pela Casa Branca. Um nome que me ocorreu ao notar a diferença de voltagem foi o do filósofo e jurista alemão Carl Schmitt, mas não havia topado com nenhum artigo ligando os dois personagens nos órgãos de imprensa estrangeiros que acompanho.

Resolvi dar um Google para sanar eventual cochilo e encontrei um livro inteiro dedicado ao assunto. Trata-se de "Trumpism, Carl Schmitt, and the Threat of Anti-Liberalism in the United States", de Roberta Adams.

A privação abre as portas para o mundo - Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Viver em grande déficit de cooperação é típico das sociedades modernas

Uma cirurgiã torácica vive em déficit de quase tudo, inclusive de operações no tórax, pois não consegue intervir em si mesma. O rizicultor tem um pouco mais de autonomia, porque a sua carência pode não abranger o arroz que consome. Para todo o resto —o que passa por iluminar a casa, educar os filhos, vacinar o cachorro, voar até Paris e aprender jiu-jitsu—, a médica e o agricultor dependem da cooperação de pessoas que detêm superávits em atividades específicas.

No córtex cerebral dos humanos abundam células talhadas para a modulação e a transmissão de impulsos elétricos, compondo uma rede responsável pela linguagem, o raciocínio e a criatividade. Miseráveis em outras funcionalidades, os neurônios morrem de inanição sem o abastecimento energético, para o qual concorrem hemácias, cardiomiócitos, fibroblastos, pneumócitos e tantas outras estruturas em regra superavitárias numa atividade e deficitárias nas restantes.

Foi Émile Durkheim quem, no final do século 19, propôs uma feliz alegoria entre a modernização da sociedade, de um lado, e a operação de organismos complexos, do outro. A baixa diferenciação de funções que caracteriza comunidades tribais e agropastoris deu lugar ao dínamo da divisão do trabalho. A coesão social passou a se assentar mais na interdependência entre indivíduos e grupos altamente especializados, o que o sociólogo francês batizou de solidariedade orgânica.

Poesia | Aquilo que a gente lembra, de Fernando Pessoa

 

Música | Chico Buarque - Futuros Amantes

 

sábado, 12 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso do Rei do Lixo expõe escoadouro das emendas

O Globo

Operação da PF desbaratou esquema abrangente que desviava verbas parlamentares em quatro estados

O avanço nas investigações da Operação Overclean, da Polícia Federal (PF), tem exposto a abrangência de um esquema criminoso suspeito de desviar recursos de emendas parlamentares e convênios por meio de licitações e contratos fraudulentos na área de limpeza urbana. Na decisão em que autorizou nova operação da PF no início do mês, o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou indícios de crimes em municípios de pelo menos quatro estados (Bahia, Tocantins, Goiás e Rio de Janeiro). As revelações expõem de modo eloquente os prejuízos impostos à sociedade pelo descontrole nos repasses de emendas parlamentares.

A conspiração dos infiltrados – Pablo Ortellado

O Globo

Ideia de que ativistas foram atraídos para uma armadilha orquestrada pelo governo Lula para criminalizar a direita é forte

O 8 de Janeiro segue dividindo a sociedade brasileira. Uma pesquisa inédita (ver abaixo) mostra que, para 45,8% dos eleitores de Bolsonaro, a violência e o vandalismo do 8 de Janeiro foram causados por infiltrados de esquerda. Entre os brasileiros em geral, a concordância é de 23,8%, um quarto da população adulta. A adesão gigantesca à tese conspiratória mostra o tamanho do problema em que estamos metidos.

Essa teoria da conspiração sustenta que, no 8 de Janeiro, ativistas foram atraídos para uma armadilha orquestrada pelo governo Lula para criminalizar a direita. É a tese geral que Bolsonaro enunciou, mais de uma vez. A partir daí, surgem variantes: o governo teria sido alertado com antecedência sobre a manifestação da direita pelos serviços de inteligência e não se organizou para proteger a Praça dos Três Poderes; as poucas forças policiais presentes teriam feito corpo mole, favorecendo a entrada dos manifestantes e induzindo o vandalismo; o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Lula, general Gonçalves Dias, teria auxiliado a entrada de vândalos pelos fundos do Planalto; imagens das câmeras internas do Ministério da Justiça teriam sido apagadas, de maneira suspeita. Tudo aponta, segundo essa teoria, para uma cilada.

A lógica da insensatez – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

As famílias comprarão produtos mais caros, terão menos empregos e ainda perderão parte de sua poupança

Os Estados Unidos são o principal destino das exportações chinesas, mas essa participação vem diminuindo nos últimos anos. Em 2018, o país recebeu cerca de 20% das vendas externas da China. Hoje, esse valor caiu para 14%. No sentido contrário, algo como 7% das importações chinesas tem como origem os Estados Unidos.

Portanto o impacto das tarifas é maior para os Estados Unidos. Olhando só os números, parece que não seria muito difícil para os americanos substituir as compras chinesas por produtos fabricados nos Estados Unidos, como é o propósito declarado de Donald Trump. Basta, entretanto, olhar alguns casos para verificar como essa substituição é praticamente impossível.

Lobos, tucanos e outras extinções - Eduardo Affonso

O Globo

No Brasil, sem precisar de tecnologia, desextinguimos o fascismo, o antissemitismo, a patrulha ideológica

Uma empresa de biotecnologia e engenharia genética anunciou ter desextinto um lobo pré-histórico (desextinto ou desextinguido, não sei, já que o verbo “desextinguir” ainda nem existe — pelo menos não no VOLP). A crer nas imagens divulgadas, o Aenocyon dirus sofria bullying onomástico: nada ali lembra um “lobo-terrível”.

A ressurreição biológica, ou revivalismo, pode ser um alento para conter os danos (alguns até agora irreversíveis) que temos causado à fauna e à flora. O foco da tal empresa, entretanto, é um pouco menos ecológico e colossalmente mais midiático. Citando “cientistas renomados” (mas sem dar o nome de nenhum), ela afirma que 30 mil espécies por ano, em média, estão a caminho da extinção. O que daria, pelas suas contas, seis por hora, 150 por dia. Sim, podem ser bons em ciências, mas faltaram a algumas aulas de aritmética.

O negócio da anistia - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A anistia está para negócio. Com Bolsonaro, por ora, sobrando. Ele já sacou o que vai em curso. É sujeito transparente. Só aceita a anistia “ampla, geral e irrestrita”. Anistia para si, pois. Os casos de Débora e de outros condenados a sanções desproporcionais lhe servindo de escada à própria impunidade. Já não lhe servem mais. Não exclusivamente. Bandeira doravante disputada.

Bolsonaro sacou que a escada agora é outra: a própria anistia. Escada àquilo – o justo – que não quer de jeito algum: a redução das penas dos agentes depredadores do 8 de Janeiro. Acomodação – com o Supremo, com tudo – que não o contemplaria. (Não com vistas a 2026.)

Economia dos EUA à venda - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Complexidade gera corrupção e o sistema tarifário está agora preparado para o desastre

Tarifas ainda estão no nível mais alto em mais de 100 anos, segundo Laboratório Orçamentário de Yale

Foi uma reviravolta aclamada em todo o mundo. Depois de insistir que não mudaria de ideia sobre suas tarifas e classificar qualquer um que o pressionasse a fazê-lo como um “Panican (um novo partido de pessoas fracas e estúpidas)”, o presidente Donald Trump mudou de ideia e suspendeu suas tarifas recíprocas por 90 dias (exceto sobre a China) enquanto negocia acordos com os países.

Mas pode ser prematuro suspirar aliviado. Por exemplo, as tarifas americanas ainda estão no nível mais alto em mais de 100 anos segundo o Laboratório Orçamentário de Yale, o que custará caro aos americanos. Ainda mais importante, essas negociações tarifárias inevitavelmente resultarão numa torrente de corrupção. A economia americana está se transformando do maior livre-mercado do mundo no principal exemplo de capitalismo clientelista.

Uma economia de mercado funciona melhor quando as restrições são limitadas – e especialmente quando essas restrições são claras, justas e aplicáveis a todos. Quanto mais complexos os impostos, as regras e as regulações, maior a ineficiência – conforme demonstram estudos realizados em vários países, como Índia, Nigéria e Marrocos.

Mais significativo, porém, é que quanto maior for a complexidade, maior será a corrupção. Junto com as tarifas vêm as isenções tarifárias, frequentemente concedidas a centenas de setores, empresas e até produtos específicos. Em 2018 e 2019, o governo Trump anunciou uma série de tarifas, incluindo 25% sobre o aço, e também um programa de isenções, que recebeu cerca de 500 mil solicitações.

Coragem dos ignorantes - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Donald Trump frequenta a categoria dos homens corajosos porque desconhecem os problemas que o cercam. São os destemidos ignorantes

Donald Trump não é um político tradicional. Ele frequenta a categoria dos homens corajosos porque desconhecem os problemas que o cercam. São os destemidos ignorantes. Ele avançou e chegou a preocupar o mundo das finanças quando as letras do Tesouro dos Estados Unidos começaram a ser vendidas em grandes quantidades e os compradores começaram a exigir juros mais elevados. Isso significa, na linguagem de quem lida com o assunto, que a confiança tinha acabado. Ao mesmo tempo, verificou-se grande quantidade de ordens de compra de títulos do governo alemão. As bolsas despencaram, e o previsível caos se anunciava no final da jornada. Diante da catástrofe iminente, Trump recuou. Limitou sua guerra a um alvo: a China.

O Capitalismo ainda é aquele? - Marcus Pestana

O novo presidente dos EUA, Donald Trump, está colocando o mundo de cabeça para baixo. O ciclo da economia capitalista, inaugurado com o fim da Guerra Fria e a aceleração da globalização das cadeias produtivas, sob a liderança do setor serviços e das novas tecnologias, parece ter chegado ao fim.

Com seu estilo sui generis, Trump acionou a metralhadora giratória de tarifas para os produtos importados pelos americanos. Embora o foco seja a China, sobrou para Canadá, México, União Europeia, outros países asiáticos, e, também, em menor grau, para o Brasil e a América Latina. As bolsas de valores despencaram, houve grande volatilidade cambial e a previsibilidade – característica essencial para a economia de mercado – foi implodida.

Trump e a História - Luiz Gonzaga Belluzzo

Entre o ensaio de uma nova ordem internacional e o pesadelo, o poder global quase absoluto apostou no desespero alheio

Este artigo pretende oferecer uma modesta interpretação dos movimentos que impulsionaram as convergências e divergências entre Estados Nacionais (e suas Economias) na posteridade da Segunda Guerra Mundial.

Já antes do término da 2ª Guerra Mundial, o projeto hegemônico dos vencedores, os Estados Unidos, foi desenhado com o propósito de eliminar os fatores políticos e econômicos que levaram às duas conflagrações globais.

A instabilidade econômica e as rivalidades entre os Estados Nacionais e suas economias – entre o final do século XIX e a Segunda Guerra Mundial – foram devastadoras do ponto de vista econômico, social, moral e político. Na Reunião de ­Bretton Woods em 1944, as forças vitoriosas trataram de criar instituições destinadas a impedir a repetição da desordem destrutiva que nascera da rivalidade entre as potências e da economia destravada.

Anistia e ecos de Preussenschlag - Pedro Serrano

Ao Judiciário cabe, nas democracias contemporâneas, a última palavra em termos de interpretação da ordem jurídica

O Supremo Tribunal Federal aceitou as denúncias formuladas pela Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros 33 acusados pelos crimes de organização criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Por essa razão, intensificam-se as discussões relacionadas à concessão de anistia por parte do Congresso. Ou seja, pretende-se atribuir ao Legislativo a determinação dos limites, bem como a extensão e o alcance, da nossa Constituição, substituindo o STF em seu papel de intérprete final e guardião.

Se, de um lado, a realização do Estado constitucional implica a preservação da esfera de livre decisão política do legislador, ele obriga a conformidade com a Constituição. É no espaço de tensão entre esses dois princípios que a análise da constitucionalidade da anistia deve ocorrer.

Mercados seguraram Trump; por enquanto - Rodrigo Zeidan

Folha de S. Paulo

Presidente pode ameaçar a China, mas não tem como retaliar investidores

A hipótese mais provável para Donald Trump ter recuado nas tarifas globais é que se curvou à disciplina do mercado de títulos públicos. Se os juros dos títulos americanos de 30 anos continuassem subindo, era provável que o processo de latino-americanização dos Estados Unidos se acelerasse, com crise cambial e financeira que só poderia ser evitada pelo Federal Reserve. Mercado acionário não é nada perto do mercado de títulos.

Por um breve momento na terça-feira (8) de noite, os juros implícitos nos preços dos títulos de 30 anos dos EUA passaram dos 5%, assustando os mercados mundiais. Se isso disparasse um comportamento de manada, poderia desencadear uma crise financeira global. Afinal, não é todo dia que papéis americanos pagam mais que os da Grécia, país sem autonomia monetária e com a segunda maior dívida pública do mundo, quase 170% do PIB.

Desejar a morte não é crime - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Não virei réu por desejar a morte de Bolsonaro, mas autoridades bolsonaristas trabalharam para que eu virasse

Já que meu nome vem sendo citado por bolsonaristas na tentativa de limpar a barra do deputado Gilvan da Federal (PL-ES), que disse desejar a morte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acho importante prestar alguns esclarecimentos.

No que diz respeito ao mérito da questão, o parlamentar pode dormir quase tranquilo. Enquanto houver juízes em Brasília, desejar, pública ou privadamente, a morte de alguém não será considerado crime. Trata-se de fato atípico, como deveria saber qualquer estudante de direito que não tenha cabulado as primeiras aulas de penal.

Perdido no idioma - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Oposição presa a Bolsonaro e tarifas de Trump impulsionam pré-campanha de Lula

Depois de Copacabana, a Paulista. O segundo fracasso sucessivo de Bolsonaro evidenciou que o extremismo perdeu a capacidade de mobilizar sua base. Na avenida, diante de quase 50 mil brasileiros, o réu pronunciou sons indecifráveis numa língua que imagina ser o inglês. Lula é um cara sortudo: desde a campanha eleitoral, ele tem Bolsonaro –e, agora, às vésperas de 2026, o tem ajoelhado diante de Trump.

A pesquisa Quaest apontou reprovação de 56% ao governo Lula, o patamar mais baixo de seu mandato. Mesmo entre mulheres e pardos, a reprovação supera a aprovação. A avaliação negativa iguala a positiva até no Nordeste e entre os mais pobres. O governo afunda sob o peso da inflação de alimentos e da criminalidade generalizada.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O vento no carnaval

 

Música | Al Jarreau - Mas que nada

 

sexta-feira, 11 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Efeito do tarifaço não se dissipa com recuo de Trump

O Globo

Guerra comercial com a China mantém risco de recessão global, mas choque pode trazer aprendizado

Com Donald Trump na Casa Branca, são vãs as tentativas de prever qualquer coisa. É uma incógnita se o pior da guerra comercial deflagrada por ele já passou. Uma semana depois de anunciar o maior choque tarifário na História dos Estados Unidos, Trump se viu forçado a dar meia-volta. Na quarta-feira, suspendeu por 90 dias as tarifas mais altas, mantendo a cobrança mínima de 10% de todos os países, com exceção da China, cuja taxa foi alçada a 145%. A Casa Branca fez grande esforço para vender uma versão segundo a qual tudo corria como previsto, pois o plano era forçar os países a negociar cortes nas próprias tarifas cobradas de produtos americanos. Pura lorota. A convulsão financeira chegou a ponto de lançar os mercados num precipício insondável.

Fernando Abrucio - Extrema direita leva o mundo ao abismo

Valor Econômico

Se muitos estão cegos para os impactos do extremismo, os dois últimos meses da loucura americana mostraram como é perigoso ignorar seu real significado

Os piores pesadelos estão se realizando neste início do governo Trump. Antes de sua posse, boa parcela do mercado financeiro, empresários de toda parte e políticos brasileiros que se dizem moderados sem conseguirem ter autonomia em relação a Bolsonaro acreditaram que o pragmatismo venceria. Naturalizaram o extremismo, e o mundo vai passar pela tempestade política mais terrível desde o nazismo. Para sairmos dessa desgraça, é preciso entender a perversidade e o desastre contidos no modelo político e de políticas públicas da extrema direita.

A extrema direita hoje abarca grupos de várias partes do mundo, crescendo na Europa, mas não tendo ainda vencido as eleições por lá, e está no poder na Hungria, na Argentina e nos EUA, como já esteve no Brasil. Há diferenças entre partidos e lideranças extremistas por conta de características locais - os imigrantes não são um tema no caso brasileiro, por exemplo. De todo modo, em todas essas experiências há uma característica central: uma liderança populista, carismática, iliberal e com um projeto autocrático. Seus seguidores e asseclas obedecem caninamente ao chefe.

José de Souza Martins - Pesquisa eleitoral extemporânea

Valor Econômico

É inútil e imprudente, num cenário de incerteza, considerar as pesquisas eleitorais fora de época como expressões de quais serão os resultados da votação

Passado pouco mais de metade do mandato do atual presidente da República, políticos e partidos já se lançaram na disputa por sua sucessão como se a eleição fosse na semana que vem. E como se aqui, costumeiramente, mesmo nos poucos dias anteriores ao de uma eleição, a decisão do eleitor já estivesse tomada.

Todos nós sabemos que um número grande de brasileiros só se preocupa com o ato de votar quase em cima da hora. É inútil e imprudente, portanto, num cenário de incerteza, indecisão e improvisação, considerar entre nós as pesquisas eleitorais fora de época como expressões objetivas e prováveis de quais serão os resultados da votação bem lá adiante.

Essas considerações resultam da observação confirmada de que o bolsonarismo introduziu na cultura política brasileira o uso da incerteza como forma de desordenar a lógica própria do processo político. E desse modo reduzi-lo àquilo que não é: expressão da opinião superficial e manipulável, antipolítica, mais resultado do acaso e do “chute” do que de uma consciência crítica fundamentada e propriamente política.

Tarcísio entre ser um 'líder' ou um 'episódio' - Andrea Jubé

Valor Econômico

Em meio às especulações sobre seu destino, governador de São Paulo avança tentando conciliar imagem de herdeiro do bolsonarismo com a de político moderado

“Quantos Napoleões a França teve?”, questionou o interlocutor, em conversa com a coluna, a propósito de um dos possíveis cenários para a eleição presidencial de 2026.

O mote era a estratégia pela qual o nome “Bolsonaro” poderia despontar na urna eletrônica na sucessão presidencial, mesmo com o ex-presidente inelegível. Para a hipótese se consumar, Jair Bolsonaro (PL) teria de reverter a inelegibilidade junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos bastidores, ele tem afirmado a aliados que considera factível uma vitória na Justiça Eleitoral, mas reconhece a possibilidade de derrota no STF. Ele se tornou inelegível até 2030 por decisão do TSE, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação por ter realizado uma reunião no Palácio da Alvorada, com embaixadores, quando atacou o sistema eleitoral, em ato transmitido pela TV Brasil.

O estardalhaço que mobiliza - Vera Magalhães

O Globo

Políticos como Trump e Bolsonaro conseguem catalisar as atenções da imprensa e das demais instituições com base em agendas personalistas

Enquanto o governo Lula abre a caixa de ferramentas de políticas públicas e lança uma nova campanha publicitária, tudo para tentar estancar a sua queda de popularidade, o espetáculo promovido por Donald Trump e o showzinho de Jair Bolsonaro para pressionar pela anistia aos condenados do 8 de Janeiro são os assuntos que mais mobilizam a imprensa e as instituições aqui e no mundo.

Em outras palavras: nos tempos atuais, é o espalhafato, o estardalhaço que gera engajamento e, muitas vezes, continua vencendo eleições, a despeito das evidências de quanto essa maneira de fazer política é deletéria para a democracia e para a economia.

Como sair da armadilha e retomar algum grau de previsibilidade em governos e relações entre países é uma pergunta cada vez mais difícil de responder de forma taxativa e aceita pela maioria de populações cada vez mais divididas e intolerantes.

Teatro da cassação - Bernardo Mello Franco

O Globo

Deputado entrou na mira ao se lançar em cruzada contra Arthur Lira e o orçamento secreto

Em cartaz em Brasília com o monólogo “Traidor”, Marco Nanini passou a quarta-feira no Congresso. Foi assistir à sessão do Conselho de Ética que discutiria a cassação do deputado Glauber Braga. “Como estou na cidade, me senti no dever de ir”, explica o ator, que enfrentou seis horas de falatório e gritaria numa sala cheia e abafada.

Glauber é acusado de quebrar o decoro ao agredir um militante do MBL que xingou sua mãe de “safada”. Não foi seu único entrevero com o provocador, que costuma se infiltrar em atos da esquerda para causar tumulto e viralizar nas redes sociais. Em 2024, ele usou a tática para se candidatar a vereador pelo Novo. Coincidentemente, o partido apresentou a representação contra o deputado do PSOL.

A era da desconfiança – Flávia Oliveira

O Globo

A falta de confiança pavimenta caminhos e baliza estratégias

Existe um motivo para argentinos preferirem guardar dinheiro dentro de nichos em paredes a depositar a poupança no banco; para brasileiros tremerem ao menor sinal de inflação, ainda que os preços hoje subam em um ano menos do que escalavam em uma semana no passado. Ou para países emergentes pagarem a investidores taxas de juros infinitamente maiores e verem reservas internacionais evaporar ao menor sinal de instabilidade. Desconfiança é o sentimento que ajuda a compreender o comportamento de consumidores, famílias, empresas, investidores e nações em reação aos traumas da História. Numa economia global ferida pelo tarifaço intempestivo e inconsequente imposto por Donald Trump, a falta de confiança pavimenta caminhos e baliza estratégias.

Ainda que o presidente americano, noutro rompante, recue de todas as sanções já anunciadas (ou temporariamente suspensas), a guinada terá deixado cicatrizes em seu próprio país. E no mundo. A variável desconfiança passou a integrar equações de análise de risco e planejamento de quem quer que se relacione com os Estados Unidos. Parceiros e desafetos sabem que Trump — e, por conseguinte, o país que preside — é capaz de rasgar acordos firmados, romper parcerias seculares. Não poderão desconsiderar o que é fato.