segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil tem exemplos positivos a mostrar na COP30

Por O Globo

Apesar de combate à devastação florestal apresentar resultado frustrante, país sabe o que fazer para zerá-la

A última avaliação global das metas de redução de emissões anterior à COP30, a Conferência do Clima de Belém, traz dados preocupantes sobre o Brasil, como revelou reportagem do GLOBO. Num ano em que a devastação alcançou 8,1 milhões de hectares de floresta tropical — ou 3,1 milhões acima da perda máxima que permitiria atingir as metas traçadas para 2030 —, o Brasil foi responsável por 47,3% dessa devastação, ou 3,84 milhões de hectares. Apesar de a Avaliação da Declaração Florestal reconhecer a queda de 22% no desmatamento no ano passado em relação a 2023, a área devastada ainda foi o triplo do nível compatível com a meta de desmatamento zero até 2030. Com um terço das florestas tropicais do planeta, o Brasil respondeu por 40% das emissões vinculadas à devastação florestal.

Sobre o conceito de partido político, por Antonio Gramsci*

Quando se quer escrever a história de um partido político, deve-se enfrentar na realidade toda uma série de problemas muito menos simples do que aqueles imaginados, por exemplo, por Robert Michels, considerado um especialista no assunto 

O que é a história de um partido? Será a mera narração da vida interna de uma organização política, de como ela nasce, dos primeiros grupos que a constituem, das polêmicas ideológicas através das quais se forma seu programa e sua concepção do mundo e da vida? Tratar-se ia, neste caso, da história de grupos intelectuais restritos e, em alguns casos, da biografia política de uma individualidade singular.

Herzog, 50 anos, por Miguel de Almeida

O Globo

Soube pelo professor de química que o jornalista fora assassinado no DOI-Codi. Eu tinha 16 anos

Passava da uma da tarde na esquina da Alameda Santos com Rua Leôncio de Carvalho. Era minha hora de almoço numa primavera com tempo nublado, 50 anos atrás. Sentado num muro baixo, lia o paulistano Jornal da Tarde. No pé da página, a notícia da morte de Vladimir Herzog.

De noite, na escola, soube pelo professor de química que o jornalista fora assassinado no DOI-Codi. Eu tinha 16 anos e lembro-me de sentir naquele momento o que uma ditadura faz com seus adversários: mata.

Dias depois, amigos mais velhos me contaram ter estado na missa em memória do jornalista, um ato ecumênico acontecido na Catedral da Sé e que reunira cerca de 8 mil pessoas. Pelos relatos, compreendi que não fora somente uma celebração religiosa, a reza compungida pela alma do morto. Além de tudo, os presentes lutavam em defesa da liberdade de viver sem temor e não ser subjugados por um regime autoritário. Ali se rezava por todos nós.

Bets e paternalismo, por Irapuã Santana

O Globo

É uma lógica que infantiliza o cidadão, tratando-o como alguém que deve ser impedido de escolher

A recente decisão do governo de impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de realizar novos depósitos em contas vinculadas a sites de apostas parte de uma boa intenção — proteger a parcela mais vulnerável da população do vício —, e isso é ótimo. No entanto a medida erra no alvo e na forma, com uma mera proibição.

Apostar não exige mais que um celular, um CPF e um Pix. A rede de cadastros paralelos, contas em nome de terceiros e promessas de “entrar para o time de investidores” faz com que a proibição funcione mais como obstáculo simbólico do que como mecanismo real de proteção.

O ministro que não foi e o legado de Niède, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Com ministro demissionário, falta de políticas de turismo gera oportunidades perdidas de desenvolvimento e inclusão

Em 26 de setembro, o ministro do Turismo, Celso Sabino, apresentou a sua carta de demissão, após pressão da liderança de seu partido, o União Brasil. Embora o ministro continue despachando normalmente, uma eventual troca no comando do ministério não será surpresa, dado o contexto político do governo, sempre às voltas com uma crise no Congresso.

Desde que foi criado como pasta independente, em 2003, o tempo médio de duração de um ministro do Turismo no cargo é de menos de 19 meses - Sabino está lá há quase 27. A consequência óbvia dessa permanente dança de cadeiras é a descontinuidade das políticas públicas, pois nem bem o indicado toma pé da situação, ele perde o cargo por denúncias de corrupção ou brigas políticas.

No FMI, Brasil tenso, estrangeiro tranquilo, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

As reuniões do FMI são um momento especial para capturar o humor dos investidores

O climão nas reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, na semana passada, pode ser resumido da seguinte forma: os investidores brasileiros estavam muito preocupados com a deterioração fiscal no Brasil, e os estrangeiros, pouco atentos.

Muita gente que esteve em Washington ficou incomodada com a complacência com que os investidores tratam não só o Brasil, mas também os vizinhos da região - a Colômbia, com sua deterioração fiscal, e o Chile, que terá eleições no mês que vem. Ambos não foram um tema relevante nos encontros.

Compadrio e o Supremo, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A maneira como as nomeações são feitas permite e incentiva o critério de compadrio entre os escolhidos

A possibilidade de Jorge Messias, advogado-geral da União, ser indicado para o STF provocou o fogo amigo de quem, à esquerda, defende uma mulher, de preferência negra, para a vaga. Uma das críticas é de que o favoritismo de Messias reafirma o compadrio nas escolhas de Lula, em detrimento de critérios que tornariam a corte mais representativa da sociedade brasileira.

Mesmo quem rejeita a ideia de que gênero ou raça devam balizar a nomeação há de concordar com o diagnóstico sobre as motivações de Lula para preferir Messias.

As redes de influência e amizade garantem a manutenção de favores não apenas na elite do poder político, mas também do sistema judicial. Nisso se incluem tanto o corporativismo que propicia penduricalhos salariais polpudos quanto os favorecimentos velados entre magistrados e seus familiares que exercem a advocacia. Não faltam exemplos no próprio STF, onde os “embargos auriculares” – aqueles feitos ao pé do ouvido – são valiosíssimos.

O plano de paz, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A criação de um Estado palestino é a consequência desse processo, o que implica que o seja por meio de uma convivência pacífica com o Estado judeu

É bastante curiosa a cobertura que tem sido dada ao plano de paz para o Oriente Médio, proposto pelo presidente Trump. Trata-se de uma proposta arrojada, delineando um caminho claro de execução. Não se contenta com propostas abstratas e inexequíveis, mas apresenta etapas a serem cumpridas. Nada será fácil, visto que muitos dos protagonistas tudo farão para torpedear. No entanto, mal essa proposta foi anunciada, os seus críticos contumazes se voltaram para condená-la, expondo simplesmente preconceitos e posicionamentos ideológicos.

Dilemas dos protestos feitos pela Geração Z, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Jovens levam energia às ruas em protestos, mas nem sempre isso resulta em mudanças reais

A chamada Geração Z – de jovens nascidos entre meados dos anos 1990 e início da década de 2010, a primeira a crescer inteiramente conectada à internet – vem ocupando as manchetes em países do mundo, como Peru, Marrocos, Madagáscar, Nepal e Indonésia.

No Peru, manifestações lideradas por jovens levaram o presidente interino José Jerí a decretar estado de emergência uma semana após assumir o cargo com a destituição de Dina Boluarte pelo Congresso. No Marrocos, um coletivo anônimo chamado Gen Z 212 vem organizando as maiores manifestações em uma década, denunciando a precariedade dos serviços públicos e a desigualdade econômica. Em Madagáscar, protestos encabeçados por jovens que se chamam “Gen Z Madagascar” contra apagões culminaram na queda do presidente Andry Rajoelina no dia 14 e na formação de um governo militar.

Entre o Planalto e o plenário, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

O que mudou no cálculo político quanto a atratividade de ocupar uma cadeira na Esplanada dos Ministérios?

Atribuir a mudança de posição exclusivamente à popularidade de Lula é uma leitura apressada

Em abril deste ano, quando Juscelino Filho, deputado federal eleito pelo União Brasil no Maranhão, anunciou a saída do Ministério das Comunicações, o também maranhense Pedro Lucas Fernandes, deputado do mesmo partido em seu segundo mandato, alegou que sua contribuição com o país seria maior na liderança da bancada do União Brasil na Câmara dos Deputados do que como ministro.

A recusa do deputado resultou na apressada conclusão de que o Executivo não tinha mais o que oferecer para fazer frente aos benefícios já controlados pelo Legislativo, e que ocupar uma cadeira na Esplanada dos Ministérios seria menos vantajoso do que permanecer na Câmara.

‘Pobreza não é fracasso pessoal’, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

As famílias muitas vezes entram e saem dessa condição de maneira cíclica

O combate à pobreza abrange a promoção da equidade racial, o acesso à justiça e a inclusão racial

A pobreza não é um fracasso pessoal, é uma falha sistêmica, uma negação da dignidade e dos direitos humanos. A afirmação feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/10), diz muito sobre a realidade do povo brasileiro.

Pessoas negras (pretos e pardos) representam a maioria dos que se encontram em situação de pobreza no nosso país. Para se ter uma ideia, entre 2012 e 2023, mais de 60% dos negros tinham renda de no máximo um salário mínimo. Nesse período, a renda média nos domicílios com pretos e pardos foi menos da metade da auferida nos domicílios sem negros (Cedra).

As crenças no centro das transições críticas, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Para Mokyr, o Nobel de Economia, o desenvolvimento é uma batalha de ideias tanto quanto de recursos

Países presos em ciclos de crise, o verdadeiro desafio não é apenas elaborar melhores políticas, mas cultivar os sistemas de crenças que tornam possível a mudança institucional crítica

O prêmio Nobel de Economia 2025, Joel Mokyr, mostrou como o conhecimento, modelos mentais e crenças impactam o desenvolvimento econômico. Como argumentou, a Revolução Industrial surgiu da "grande sinergia do Iluminismo: a combinação do programa baconiano centrado no conhecimento útil" —aplicado, não só teórico— "e o reconhecimento que instituições melhores criavam incentivos melhores".

Em outras palavras, ideias, crenças e valores importam para o desenvolvimento de longo prazo; não são apenas os incentivos materiais, mas a capacidade do "empreendedor cultural" de remodelar os modelos mentais que determina se as instituições evoluem de forma produtiva. Isto explica porque aquela revolução aconteceu na Grã-Bretanha e não na China (a análise recente de Bernardo Mueller aqui é primorosa).

Aliados de Bolsonaro veem Lula em alta e tentam frear pressão por escolha de sucessor, por Marianna Holanda

Folha de S. Paulo

Expectativa, mesmo na oposição, é de que EUA revejam ao menos parte das tarifas a produtos brasileiros

Entorno diz que não há urgência para anúncio sobre candidato à Presidência e estende prazo para 2026

Aliados de Jair Bolsonaro (PL) veem o presidente Lula (PT) lucrando politicamente com o avanço das conversas com Donald Trump. Eles acreditam que haverá uma redução de parte das taxas comerciais impostas a produtos brasileiros de determinados setores, como o café.

Mesmo sem conseguir a redução imediata das tarifas, integrantes do governo brasileiro avaliam que a reunião presencial entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na quinta-feira (16), representou a largada para uma negociação séria para a reversão das sobretaxas.

Este foi o primeiro encontro dos chefes da diplomacia dos países desde que os presidentes Donald Trump e Lula (PT) iniciaram contatos, no mês passado.

O avanço das conversas tende a ter um resultado positivo para o governo petista, que já vem numa sequência de boas notícias e resultados favoráveis em pesquisas. A expectativa, mesmo na oposição, é de que a negociação avance até o fim do ano.

O Brasil no espelho, por Fernanda Mena*

Folha de S. Paulo

'A Palavra e o Poder' reúne textos sobre democracia publicados pela Folha nos últimos 40 anos e artigos inéditos sobre o tema

Conjunto de textos forma um painel do pensamento crítico brasileiro, um diálogo entre tempos e olhares

[RESUMO] Livro "A Palavra e o Poder", que chega às livrarias em novembro, revê as conquistas e impasses do Brasil nas últimas quatro décadas, maior período de estabilidade democrática da história do país. Obra apresenta artigos de opinião do acervo da Folha, que são reinterpretados por textos inéditos de autores contemporâneos. Debates sobre desigualdade, economia, inclusão, segurança e Judiciário perpassam o conjunto, no qual passado e presente tentam decifrar o Brasil do futuro.

Em 40 anos de Nova República, o Brasil teve dez mandatos e oito presidentes. Três deles foram reeleitos, e dois acabaram destituídos por processos de impeachment. Essa conta, que parece não fechar, indica parte das provações a que nossa jovem democracia foi submetida neste período, durante o qual ela se mostrou resiliente, entre crises, recomeços e ameaças —ao menos até aqui.

Metade desses presidentes —Fernando Collor de Mello, Michel Temer, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro— chegou a ser presa após deixar o cargo: a de Temer foi preventiva, as de Collor, Lula e Bolsonaro, após condenação. Lula teve a sentença anulada depois de 580 dias de prisão. Bolsonaro foi condenado, entre outros crimes, por tentar abolir violentamente o Estado democrático de Direito.

Ninhos da desrazão, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Um filme mostra um filho que, doce em casa, é na rua um extremista movido a ódio

A ficção sempre gostou dos marginais. Pois, hoje, há mais gente do que nunca à margem da razão

Um filme recente, que ainda não vi, mas de que me têm falado, é o francês "Brincando com Fogo", das irmãs Delphine e Muriel Coulin. Trata de um assunto crucial de nosso tempo. Um pai tem dois filhos jovens, criados e amados por igual. O caçula é bom estudante, amável e expansivo. O outro, doce, mas recluso, introvertido e sem futuro à vista. Um dia, alguém relata ao pai uma agressão que presenciou na rua por um grupo de extrema direita e pensa ter visto entre eles o seu mais velho. O pai descobre que é verdade. Segue-se então a história —o drama de um pai ao constatar que seu filho é movido a ódio, terror e xenofobia.

Poesia | Ela Ama, de Paul Éluard -

 

Música | Marisa Monte - Elegante Amanhecer/A Lenda das Sereias

 

domingo, 19 de outubro de 2025

Opinião do dia – Antonio Gramsci

“Referências ao senso comum e a solidez de suas crenças encontram-se frequentemente em Marx. Contudo, trata-se de referências não à validez do conteúdo de tais crenças, mas sim a sua solidez formal e, consequentemente, à sua imperatividade quando produzem normas de conduta. Aliás, em tais referências, está implícita a afirmação da necessidade de novas crenças populares, isto é, de um novo senso comum e, portanto, de uma nova cultura e de uma nova filosofia, que se enraízem na consciência popular com a mesma solidez e imperatividade das crenças tradicionais."

Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, 4ª Edição, v,1, p.118. Editora Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sociedade brasileira está afastada dos extremos

Por O Globo

Maior pesquisa já realizada sobre polarização concluiu que apenas 11% monopolizam debate político

À medida que se aproximam as eleições de 2026, o país se encaminha para mais uma disputa polarizada entre candidatos de esquerda e direita, cindidos por posições aparentemente inconciliáveis em temas como aborto, porte de armas, religião ou cotas raciais. Paradoxalmente, a maior parte da população brasileira fica no meio do caminho entre as posições extremas abraçadas pelos dois polos. Essa é a conclusão mais relevante da maior pesquisa sobre a polarização no Brasil, realizada pela Quaest para a ONG More in Common.

Os pesquisadores aplicaram um questionário com quase 200 questões sobre temas que polarizam a sociedade a mais de 10 mil brasileiros com mais de 16 anos. Depois empregaram técnicas estatísticas capazes de classificar a amostra de acordo com a frequência das respostas às diferentes questões e aprofundaram a análise por meio de entrevistas em grupo.

Lula saiu das cordas, por Elio Gaspari

As pesquisas mostram que Lula saiu das cordas e voltou a ser o favorito para a eleição do ano que vem. Isso foi conseguido por dois fatores. O governo impôs uma agenda positiva com a isenção de imposto de renda para o andar de baixo.

O segundo fator foi o delírio trumpista da oposição, com a espetaculosa atividade de multidão desfilando uma gigantesca bandeira dos Estados Unidos na Avenida Paulista no 7 de Setembro.

Trump e suas tarifas não produzem um só emprego no Brasil. Ao associar-se a ele, bolsonaristas como o governador Tarcísio de Freitas atravessaram a rua para escorregar na casca de banana da outra calçada.

A esquerda brasileira era conhecida pela sua capacidade de se dividir. Lula tornou-se seu fator de união. A paixão pelas divisões migrou para a direita. Tarcísio, Caiado e Romeu Zema não se entendem e ninguém sabe porquê. Como se isso fosse pouco, o deputado Eduardo Bolsonaro age como um guerrilheiro avulso.

Lula no divã, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Às vésperas de completar 80 anos, Lula parece à procura de um divã. O presidente tem usado atos públicos para expor preocupações que o afligem. Entre as mais citadas, estão a crise da esquerda, o futuro do PT e as razões para disputar o quarto mandato.

O petista tratou dos três assuntos na quinta-feira, em encontro do PCdoB. Ele começou contando que havia penado para gravar um vídeo de incentivo aos socialistas europeus. “Fiquei pensando que mensagem poderia dar para as pessoas que ainda querem ser de esquerda. Não é fácil”, desabafou.

Depois de reconhecer o avanço da extrema direita, Lula admitiu que o campo progressista “não está convencendo”. Por isso, precisaria adotar novas táticas para se reaproximar do eleitorado. “Nós nos distanciamos do povo”, lamentou. “Do jeito que está, não dá. Temos que mudar”, pediu.

Ao tratar da disputa de 2026, o presidente destacou a necessidade de atualizar o próprio discurso. “Eu serei candidato para quê? Para continuar falando de Bolsa Família? É preciso pensar num país maior”, afirmou.

Contradições do projeto ambiental, por Míriam Leitão

O Globo

O PL da devastação e a exploração de petróleo na Amazônia não combinam com o projeto sustentável do país

O Brasil vive um momento de contradições. A preparação da COP tem trazido avanços, mas a proposta de eliminação de combustíveis fósseis está em retrocesso. No mundo e aqui. A Petrobras espera ter em breve a licença para explorar petróleo na Amazônia. O combate ao desmatamento é a maior parte da nossa contribuição, porém o país vive sob a ameaça do PL da devastação. Tudo o que se conseguiu foi adiar a derrubada dos vetos do presidente Lula a esta lei nefasta. A solução do adiamento foi um alívio no ambientalismo, ainda assim fere a lógica. A questão não é deixar essa derrota para depois que “as visitas forem embora”, ou seja, após a conferência de Belém. É encarar os lobbies empresariais e do agronegócio.

Ninguém quis ver o que aconteceu em Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

Grande jornalismo profissional aceitou que seu papel de testemunha-chave da História fosse bloqueado

Existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada dez anos atrás que obriga os Estados-membros à proteção de jornalistas durante conflitos armados. Não só porque jornalistas integram a população civil de países, como pela função social específica que desempenham no mundo. Assinada por unanimidade em 27 de maio de 2015, a 2222 especifica que “jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado” na cobertura de guerras não podem ser considerados alvo militar. Outra resolução, bem mais recente (2730, de 2024), aborda especificamente “os princípios da distinção, proporcionalidade e precauções em conflitos armados”, de modo a proteger civis e pessoal humanitário. Contudo, ao longo dos últimos dois anos, até o frágil cessar-fogo instaurado em 10 de outubro, tudo isso e muito mais foi pulverizado pela ação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.

Barroso desengaveta a descriminalização do aborto, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Na véspera da aposentadoria, ministro votou a favor da descriminalização do aborto voluntário até 3 meses de gestação. O caso estava parado desde 2023; liminar que autorizava enfermeiros realizarem abortos foi derrubada

Prêmio Nobel de Literatura de 2022, recebido aos 82 anos, a escritora francesa Annie Ernaux tinha 23 anos, em 1963, quando engravidou de um relacionamento sem expectativas. Jovem universitária, sua vida virou de ponta-cabeça. Sem contar para a família, que vivia no interior da França, tomou a dramática decisão de fazer um aborto. Seu livro O Acontecimento (Fósforo Editora), relata sua difícil e solitária trajetória em busca de um aborto, que era ilegal na França.

Annie Ernaux levou 30 anos para relatar essa história. “Faz uma semana que comecei esta narrativa, sem nenhuma certeza de continuá-la. Só queria testar meu desejo de escrever sobre isso”, registrou em seu diário. “Se eu não relatar essa experiência até o fim, estarei contribuindo para obscurecer a realidade das mulheres e me acomodando do lado da dominação masculina do mundo”. Houve violência médica e julgamento moral por sua decisão.

Um novo Toffoli no STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli era o típico “bom moço”, cheio de boas intenções e ambições, e o salto estonteante

Numa partida de futebol no Palácio do Jaburu, residência oficial dos vice-presidentes, o presidente Lula, em seu segundo mandato, apontou o dedo para o advogado e deputado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas e comunicou: “Você vai ser o próximo ministro do Supremo”. Sig, como era conhecido, não titubeou: “Tá louco, Lula? Eu não estou preparado para isso”. Houve outras investidas, ele nunca aceitou.

José Antônio Dias Toffoli não teve mesma prudência. Vestiu a toga do STF em 2009, aos 41 anos, e aos 50 foi o mais novo presidente da Corte desde o Império. Formado em Direito pela USP, foi advogado, assessor parlamentar e advogado-geral da União (AGU), mas não tinha mestrado nem doutorado, e carregava o fardo de ter levado duas bombas em concursos para a magistratura. Quem não conseguiu ser juiz virou ministro do Supremo.

Hora de mostrar destreza e paciência, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Cenário atual eleva o valor estratégico do Brasil e oferece oportunidades para o presidente Lula

A reaproximação entre os governos brasileiro e americano continua em curso, embora nada de substancial tenha sido negociado até aqui. O engajamento ocorre em um contexto de mudança do balanço comercial e tecnológico entre EUA e China. E de exacerbação da hostilidade do governo de Donald Trump em relação ao regime venezuelano.

O local escolhido para o encontro de uma hora entre o secretário de Estado Marco Rubio e o chanceler Mauro Vieira revela a dominância da política sobre a crise. Rubio acumula o posto de conselheiro de Segurança Nacional, e portanto tem gabinete também na Casa Branca.

Mudanças climáticas e as obrigações dos Estados, por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Os compromissos dos Estados em matéria de meio ambiente configuram novas dimensões de responsabilidade jurídica internacional

Estamos às vésperas da COP-30, a realizar-se em Belém. Daí a oportunidade de considerações mais abrangentes sobre as obrigações dos Estados em matéria de mudanças climáticas. Estas foram objeto de circunstanciado parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça de 23 de julho. O parecer foi solicitado por resolução da Assembleia Geral da ONU.

O parecer da Corte não é um comando jurídico. É uma vis directiva do que deve ser observado pelos Estados nas suas obrigações em relação às mudanças climáticas. Atende à necessidade de quem a pediu, os membros da ONU, e surgiu da consciência dos riscos das mudanças climáticas. As razões do acatamento do parecer da Corte residem na sua substância. As consequências danosas de seu não acatamento recaem sobre os seus destinatários, a comunidade internacional, pois os danos da mudança climática atingem a todos.

Terras raras não são uma mina de ouro para o Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Negócio pode ter interesse, até por estratégia diplomática, mas é pequeno e difícil

Ideias nacional-desenvolvimentistas de criar valor agregado podem dar em besteira

Terras raras tornaram-se assunto comum. Ficaram famosas por causa do conflito entre China e EUA. Alguns desses elementos químicos servem para fazer superímãs, utilizados em produtos de ponta da tecnologia de informação e da eletroeletrônica, insumos para carros, turbinas eólicas ou equipamento militar. A China domina tecnologias e a cadeia de produção de terras raras. Fabrica mais de 90% dos ímãs do mundo.

O Brasil tem possibilidades interessantes, embora difíceis, nessa área. Há indícios de que disponha de grandes reservas de terras raras. Mas o assunto já começa a render maluquices.

Lula encara o centrão, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Recuperado nas pesquisas, promessas de cargo do petista voltaram a ter validade maior

Cresceu a suspeita de que aliados estivessem trabalhando contra o funcionamento do governo

Lula começou a demitir um pessoal do centrão que tinha cargos no governo. É gente que foi indicada por partidos de direita que têm votado contra Lula no Congresso e deve apoiar Tarcísio na eleição do ano que vem.

Era como se, no governo Bolsonaro, houvesse ministros do PC do B que trabalhassem abertamente pela candidatura de Lula em 2022 e, enquanto isso, o PC do B derrotasse todas as propostas de Paulo Guedes no Congresso. Não tinha como durar.

Fisiologismo sem filtro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo reorganiza a 'base' sob o pantanoso pilar da troca de cargos por apoio à reeleição de Lula

Critério do escambo não autoriza o presidente a desqualificar o Congresso ou a olhar o centrão de cima

O governo começou a demitir bagrinhos para estimular os tubarões a levarem seus cardumes à rede do Palácio do Planalto.

É um jeito de falar sobre o expurgo nos partidos infiéis sem chamar a coisa pelo nome. Não que o princípio esteja errado: quem participa do bônus precisa arcar com o ônus.

O critério do fisiologismo sem filtro, porém, não credencia o presidente Lula (PT) a falar sobre o "baixo nível" do Congresso nem autoriza o partido dele a olhar de cima os adesistas do centrão.

A reunião do FMI, por Samuel Pessôa

Folha de S. Paulo

Na reunião do FMI o entendimento foi que os riscos geopolíticos se reduziram

Faltou a percepção de que haverá na próxima década desaceleração importante na economia mundial

Meu amigo e economista-chefe da Asa Investimentos, Fábio Kanczuk, postou no seu Instagram um ótimo sumário da reunião em Washington do FMI.

Na reunião de abril, havia forte pessimismo com a desaceleração da economia mundial com as tarifas de Trump. No entanto, a economia mundial não desacelerou.

De fato, o FMI esperava no final de 2024 que a economia mundial iria crescer 3,2% em 2025. Após as tarifas o FMI reviu para 2,8%, e agora voltou aos 3,2%. Para 2026, espera estabilidade da economia mundial, com crescimento de 3,1%. Assim, não há hoje o pessimismo que havia em abril.

Vento de proa na diplomacia, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Toda identidade é uma ilusão que produz efeitos reais, demarcatórios, com eventual papel político num contexto opressivo

Obsessão com marcadores (cor, religião, gênero) é autodefesa regressiva de vozes minoritárias

Para uma parcela atenta da comunidade afro-brasileira, foi auspiciosa a entrega das credenciais do diplomata Silvio Albuquerque como novo embaixador brasileiro ao rei Filipe da Bélgica. Em princípio, uma cerimônia protocolar.

Entretanto, reiteração histórica de meados do século 19, quando o baiano Francisco Jê Acaiaba Montezuma credenciou-se como ministro plenipotenciário (embaixador) junto ao Império Britânico. Um descompasso revelador: foram necessários dois séculos para que um homem negro voltasse a representar o Brasil num país europeu.

Hora de descancelar Carlitos, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Mostra integral de Chaplin no CCBB de São Paulo não tem uma sessão perdível

Hollywood o enxotou como comunista; mas, se os críticos o esquecem, é mentira que cinema seja uma arte

Imagine um homem que, por metade do século 20, foi um dos três ou quatro gênios de seu tempo –os outros, Freud, Einstein, talvez Picasso— e, aos poucos, foi sendo esquecido até se tornar quase ignorado. O artista é Charles Chaplin, criador de Carlitos e de tantos momentos nos filmes que realizou, de 1914 até 1952, e que por si justificariam a invenção do cinema.

A redescoberta da Amazônia, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Belém foi escolhida porque a ONU e o Brasil quiseram destacar a Amazônia como palco central do debate climático

A realização da Conferência do Clima, a COP30, em Belém do Pará, a partir de 10 de novembro próximo significa que o mundo e os brasileiros resolveram descobrir a Amazônia, que sempre foi território encoberto por lendas fantásticas, relatos de grandes contrabandos e descobertas misteriosas de remédios que curam várias doenças. A Amazônia é apenas uma grande floresta que recobre cerca de 50% do território brasileiro e, naturalmente, esconde grandes jazidas de minérios, petróleo, ouro, além da madeira de significativo valor.

Esse vasto território só se tornou brasileiro depois da Independência do Brasil. Até então era português, dirigido diretamente de Lisboa. Os brasileiros do Norte tinham pouco contato com os do Sul. A navegação entre Belém e Lisboa era mais rápida do que a que se dirigia ao Rio de Janeiro. Sob o comado de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, o território brasileiro foi divido em dois: o do Norte compreendia o Grão Pará e o Maranhão as outras províncias constituíam a colônia do Brasil. Foi ele quem deu nomes de cidades portuguesas a todos os núcleos habitacionais nas margens do Rio Amazonas. Assim, um território e outro tiveram gestões diferentes e problemas únicos. 

Poesia | Liberdade, de Paul Eluard

 

Música | Caetano Veloso e Gilberto Gil cantam ‘Cajuína’ | Altas Horas 11/10/2025

 

sábado, 18 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rubio e Vieira abrem caminho promissor para negociações

Por O Globo

Compromisso de encontro de Trump e Lula deixa clara boa vontade de ambos para superar as desavenças

Foi auspicioso o encontro entre o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, em Washington. Representa mais um passo no pedregoso caminho de reaproximação entre os dois países depois do tarifaço de 50% imposto às exportações e das sanções contra autoridades brasileiras, que esgarçaram uma relação de mais de dois séculos de boa convivência. O encontro deu enfim inicio à negociação entre os dois países para superar as desavenças. Comunicado conjunto informou que Vieira e Rubio trabalharão para que ocorra em breve outro encontro, entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda não há confirmação de data e local, mas, num cenário em que havia apenas incerteza, não é pouco.

Vieira chamou a conversa com Rubio de “produtiva e cordial”. Relatou que o foco foi a agenda econômica e que os dois países já trabalham na montagem de um cronograma de reuniões. Afirmou ainda ter reiterado o pedido de Lula a Trump, em conversa na semana passada, de reversão das sanções aplicadas ao Brasil pelo governo americano. Rubio também considerou a conversa “muito positiva”.

Pacificação política, participação e interatividade no espetáculo eleitoral, por Paulo Fábio Dantas Neto

Um amigo atento chamou-me a atenção para um comentário do jornalista Caio Junqueira da CNN: quem ganhar a próxima eleição presidencial vai ter o castigo de governar o país nos próximos anos. Foi feito há duas semanas, após a aprovação da nova legislação do IR e de indícios de que governo e congresso estariam negociando também novas janelas orçamentárias para aliviar a situação fiscal da União, sem cortes de despesas que cheguem a um nível que nenhum dos dois poderes parece disposto a assumir politicamente. O comentário amparava-se na hipótese de que se ensaia, em 2025, um modo de lidar com o orçamento público do ano eleitoral de 2026, que poderá se parecer com o adotado entre 2021 e 2022.

Mulheres apoiam mulheres? Depende de qual, por Thaís Oyama

O Globo

Uma juíza bolsonarista no STF serviria? Uma procuradora evangélica? Uma advogada da vertente pentecostal?

A esta altura, não resta dúvida de que o candidato favorito de Lula para a nova vaga no Supremo é Jorge Messias. O chefe da Advocacia-Geral da União é homem de confiança do petista, seu aliado histórico e, como evangélico, arma estratégica para a reeleição — precisamente o que André Mendonça foi para Jair Bolsonaro em 2021. A se confirmar o nome do advogado-geral da União para o lugar de Luís Roberto Barroso, estará confirmada também a preferência de Lula pelo critério da proximidade com o futuro julgador — o mesmo adotado por boa parte dos seus antecessores. Essa decisão deixará ao menos dois grupos descontentes.

Como preencher uma vaga no STF, por Eduardo Affonso

O Globo

Há dois flamenguistas, um corintiano, um palmeirense e um são-paulino, um placar justo. Mas santistas ocupam 18% das vagas

É só abrir vaga no STF que o assunto volta à tona: em nome da representatividade, passou da hora de ser indicada uma mulher preta.

Está implícito que deva ser uma mulher preta com reputação ilibada e notável saber jurídico — critérios assaz subjetivos, mas é o que diz a lei. Para ter o direito de ser a última a errar — e fazer jus a um assessor que lhe sirva cafezinho, carregue os processos e a ajude a vestir e desvestir a toga —, a aspirante ao cargo deve ter caráter íntegro e conduta ética e moral irrepreensível, além de reconhecido domínio do cipoal das nossas leis. E, claro, ser brasileira nata e ter entre 35 e 70 anos (alguma objetividade tinha de haver). Não há menção a outros atributos.