quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Politização não pode prejudicar combate a facções

Por O Globo

Projeto contra crime organizado deve ser encarado como política de Estado, não como fonte de dividendo eleitoral

Não resta dúvida de que o Projeto de Lei (PL) Antifacção que tramita no Congresso é vital para a sociedade brasileira. Por isso tem sido lamentável e deletéria a politização que cerca a proposta, com oposição e governo medindo forças em busca de dividendos eleitorais. Nem todas as desavenças foram superadas, mas é essencial que sejam.

A tramitação começou mal, quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), escolheu para relatar o projeto o deputado linha-dura Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de Segurança licenciado de São Paulo. Era previsível que a escolha acirrasse os ânimos. As primeiras versões propostas por Derrite continham equívocos, como a tentativa de equiparar facções criminosas a grupos terroristas e de engessar a autonomia da Polícia Federal (PF). A reação do Planalto foi descabida. Representantes do Executivo cogitaram até recorrer ao Supremo. Governo e oposição se esgrimiam para as respectivas claques nas redes sociais, esquecendo que o inimigo é outro. Motta e Derrite apresentaram uma versão corrigindo as principais distorções, mais próxima da proposta original, mas o Planalto continuou insatisfeito.

O ‘Agente Secreto’ secreta a gente, por Eugênio Bucci

 

O Estado de S. Paulo

Vá ao cinema. Você vai ver um Pernambuco como não imaginava ser possível, durante um horror difícil de conceber, numa obra sem paralelos

A viatura da polícia sai da estrada perrengue e passa a rodar no chão sem calçamento, para contornar o posto de gasolina que é uma biboca, um desterro. Estamos no meio do nada, sob o sol esturricante. Na bomba de gasolina, um Fusca amarelo acaba de ser abastecido. O motorista, camisa branca de manga curta, bem abotoada, tinha ordenado ao frentista barrigudo e suarento: “Pode completar”. Metros adiante, sobre a areia empedrada, um cadáver de pernas abertas, coberto por um papelão, atrai moscas sem rumo e cães sem dono. Fora isso, fede, empesteia o agreste. O ano é 1977. O lugar é Pernambuco.

A radiopatrulha estaciona. Descem dois agentes da lei. Óculos escuros. Nenhum deles dá a mínima para o defunto. O objetivo é outro. O sargento vai até o Fusca, pede a habilitação do moço e começa a implicar. Pergunta do extintor. Avisa que terá de entrar no carro para inspecionar alguma coisa lá dentro. Vai achacar. O tempo se arrasta, morno e seco. A fedentina avança. Quando o sargento fica de costas para a câmera, podemos observar que o cinto de couro escuro foi afivelado às pressas, estirado por cima de um ou dois dos passadores da calça cáqui.

Bolsonaro em declínio político acelerado, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro amarga derrotas jurídicas enquanto vê capital político murchar em reveses no Congresso

A temporada de reveses políticos e jurídicos de Jair Bolsonaro deve ser sacramentada com a chegada dele à Penitenciária da Papuda. Segundo fontes do Supremo Tribunal Federal (STF), esse é o destino penal mais provável do ex-presidente. Mas a definição do endereço do réu para os próximos anos, centro da polêmica em Brasília, escamoteia algo maior: o ocaso político acelerado do capitão.

No último mês, Bolsonaro deixou de ser quem define os rumos da oposição e passou a frequentar o noticiário a partir das derrotas judiciais amargadas. O plano de anistia perdeu tração. Deputados conservadores tentaram inserir no projeto Antifacção mecanismos para reeditar a blindagem a criminosos, mas nem cogitaram incluir o perdão a golpistas.

A nova velha Selic e a opção pela estagnação, José Serra

O Estado de S. Paulo


O BC poderia começar dizendo as razões que levam o Brasil a ser submetido a uma taxa real de juros que é a segunda mais alta do mundo

Semana passada o Comitê de Política Monetária (Copom) brindou a todos os brasileiros com uma decisão que só não surpreende aqueles que vivem do juro pago pelo Tesouro Nacional, aquele mesmo que todo brasileiro financia com seus impostos. Diversos indicadores recentes compõem um ambiente econômico que aponta a manutenção do juro em 15% ao ano como um equívoco de política econômica. E, por favor, não venham com a ladainha de que o Banco Central é um organismo meramente técnico. É da natureza da política monetária que ela seja uma política do Estado.


A famosa ata do Copom, que já parece estar sendo submetida a um maior número de exegeses do que a própria Bíblia Sagrada, declara a primazia do instrumento único da política monetária no Brasil. O ato declaratório, com soberbo ar científico, reza ao Brasil: “O Comitê avalia que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.

O real e concreto debate do clima, por Míriam Leitão

O Globo

Na COP, o que parece teórico é concreto. Entre siglas e discursos, o mundo tenta proteger pessoas contra as tragédias que são cada vez mais frequentes

O BID anunciou ontem, durante a COP30, a a primeira garantia de um banco multilateral para restauração florestal. Serão US$ 15 milhões para a Triunfo do Xingu. No mundo das COPs, em que se fala até em trilhão, o que são esses milhões? Quem já foi à APA Triunfo do Xingu valoriza a notícia. Foi a unidade de conservação mais desmatada em 2021. Fui lá em 2022. Viajei quilômetros sem ver árvore. No local, existem grileiros, bois, matas derrubadas. É um dos muitos pontos onde se luta na Amazônia para manter a floresta em pé. O BID vai garantir investimento para restauração feita em parceria público-privada.

A COP e as negociações sem fim, por Julia Duailibi

O Globo

Com tanto para debater, vem a impressão de que não dará tempo de a humanidade evitar o colapso

Uma das coisas mais angustiantes de cobrir uma COP é saber o que de concreto pode sair daqui para evitar que fritemos sob o calor em alguns anos. Muitas plenárias discutindo temas menos urgentes, linguagem diplomática repleta de generalidades e uma penca de chavões nos discursos dos participantes inundam os debates. É inevitável a sensação de que estamos patinando, e o gelo derrete sob os nossos pés.

A própria agenda da COP30 é um desafio por si só, composta por nada menos que 145 pontos, com assuntos que vão de gênero a financiamento. Desses, 20 são considerados o núcleo duro, justamente por demandarem resultados objetivos. É o caso da agenda da adaptação, que definirá em Belém cem indicadores de como os países devem lidar com os efeitos das mudanças climáticas. Para ter uma ideia, esse ponto da agenda é dividido em três. Para cada um deles, uma reunião específica. Com tanto para debater, vem a impressão de que não dará tempo de a humanidade evitar o colapso.

Ação iníqua, por Merval Pereira

O Globo

Segurança será mesmo ponto crucial na campanha da reeleição do presidente Lula, um ponto de preocupação generalizada.

A dificuldade para chegar a consenso sobre questões fundamentais da política de segurança pública do Estado brasileiro reflete o embate político entre polos opostos. Deveriam estar unidos em torno de um tema que não deveria ser politizado.

A escolha do secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite, para relatar o projeto foi uma decisão política do presidente da Câmara, Hugo Motta, claramente tendenciosa a favor da candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, à Presidência da República. O projeto do governo foi sequestrado pela oposição para transformá-lo em instrumento político, com a neutralização da ação da Polícia Federal para que parlamentares fossem protegidos de investigações.

Muita lambança, pouca substância, por Malu Gaspar

O Globo

A saga de Guilherme Derrite (PP-SP) e suas diferentes versões do relatório para o marco legal da segurança pública na Câmara dos Deputados serve bem como parábola do jeito brasileiro de lidar com problemas complexos. Diante de uma crise, logo surge uma nova lei criada às pressas como se fosse a solução mágica que faltava. A partir daí, todo o debate sobre o que realmente importa fica em segundo plano, quando não interditado.

Desde que a operação da polícia do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV) escancarou o fosso em que nos encontramos no combate ao crime organizado, estamos presos nessa espiral. O açodamento e o tumulto em torno de cada versão do texto só azedaram ainda mais o ambiente.

Aflito para mostrar liderança e alguma realização que melhore a imagem da Câmara pós-PEC da Blindagem, seu presidente, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou que aprovaria quanto antes uma proposta para atacar as organizações criminosas.

O governo Lula, que cozinhou em banho-maria por meses a PEC da Segurança Pública, enviou finalmente o texto ao Congresso. E a oposição, que há tempos busca uma forma de se pendurar em Donald Trump, pôs na roda seu Projeto de Lei que transforma facções criminosas e milícias em terrorismo.

Derrite dividiu até a bancada da bala, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Oposição se dividiu, adiou a votação mas mantém o domínio da pauta da segurança

O adiamento da votação do relatório do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) deveu-se ao temor de que se repetisse o desastre da PEC da blindagem. Esta pauta, conjugada à anistia, foi uma dobradinha entre Centrão e bolsonarismo. O relatório de Derrite, conjugado à equiparação entre facção criminosa e terrorismo, é a repetição da dobradinha, mas colocou em conflito interesses que extrapolam o dueto entre bolsonaristas e o Centrão.

Este conflito ficou patente na sucessão de versões do relatório. Foram quatro, em cinco dias desde a escolha do relator, a última delas protocolada na quarta, às 19h37. Obrigado a recuar na restrição de prerrogativas da Polícia Federal pela repercussão na opinião pública, e na equiparação entre facção criminosa e terrorismo por uma pressão que vai da Faria Lima ao STF, Derrite dificultou, em quatro versões, o confisco de bens dos líderes do crime organizado. O tema é de mais difícil digestão pelo grande público mas fica claro quando examinado à luz da guerra de classes do crime.

Direita complica a si mesma, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A disputa política em torno do “marco legal do combate ao crime organizado” é a evidência mais recente da falta de direção das correntes políticas de direita. Possuem o que é necessário: o abrangente e candente tema da segurança pública, no qual o governo perde e elas ganham. Mas o necessário é suficiente?

Em menos de uma semana essas correntes “perderam a mão” depois da euforia causada pelas pesquisas indicando enorme apoio popular à megaoperação contra o CV no Rio. Auxiliadas ainda pela soberba de Lula, que afrontou essa onda.

Foram ao Congresso dispostas a enfiar goela abaixo do governo seus postulados, seguras de que tinham consenso, votos, a razão e o apoio popular. Terminaram esse primeiro esforço adiando o que diziam ser inadiável, que é a aprovação de vastas alterações em leis.

Queda de braço sobre segurança pública tem viés de secessão, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Guilherme Derrite não é um caso isolado: ele expressa uma cultura política de extrema-direita que concebe o Estado como força tutelar e disciplinadora, não como mediador de direitos da sociedade

A disputa entre o governo federal e os governadores de oposição sobre a política de segurança pública e a legislação penal não é apenas técnica ou operacional, mas política, histórica e federativa. O impasse na definição do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), adiada mais uma vez na Câmara, revela a persistência de um modelo de poder local armado, forjado há mais de um século, e que hoje se expressa na política nacional por meio de figuras como o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), relator do PL Antifacção. Derrite é policial militar formado na cultura da antiga Força Pública paulista, que durante décadas funcionou como um verdadeiro exército estadual.

Criada em 1831 e consolidada na República Velha, a Força Pública de São Paulo foi a mais poderosa corporação policial do país. Seu efetivo, treinamento e armamento rivalizavam com os do Exército. Em 1932, ela constituiu o núcleo militar da Revolução Constitucionalista, quando São Paulo se insurgiu contra Getulio Vargas em nome da Constituição, mas, também, da autonomia estadual. Derrotada militarmente, a Força Pública manteve o prestígio político e a identidade castrense.

O PL pró-facção de Derrite, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Certas medidas parecem contrárias a facções, mas as beneficiam

Idas e vindas no projeto não surpreendem quem conhece trajetória de Derrite

A extrema direita brasileira ensaiou o nome de Guilherme Derrite para ministro da Justiça e Segurança Pública em um eventual governo Tarcísio de Freitas e em apenas 24 horas o ensaio virou tragicomédia. O périplo acabou com o deputado tendo que se justificar com um amadorismo constrangedor, por que incluiu medidas a favor do crime num projeto de lei que tinha como intenção combatê-lo.

Derrite entregou, originalmente, um PL pró-facção. Subordinar a Polícia Federal ao crivo dos governadores estaduais apenas beneficia o crime organizado, que, por essência, é interestadual e internacional. Derrite tenta resolver problema complexo com mais pena, não com mais inteligência. Em vez de apoiar a cooperação entre órgãos, blinda líderes do crime expandindo o foco da lei em tipos penais menores, como obstruir via pública, que atinge só o chão da fábrica do crime organizado, não quem manda nele.

Querem driblar o imposto dos milionários, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Lei que cria imposto mínimo nem foi sancionada, mas empresas buscam fórmulas para escapar do pagamento

Tentativas de drible serão teste para a equipe de Haddad

Mais ou menos como aconteceu em Serra Pelada nos anos 1980, na busca por ouro, empresas, tributaristas, consultorias e associações estão quebrando a cabeça para encontrar formas de escapar do pagamento de Imposto de Renda sobre dividendos, medida aprovada pelo Congresso Nacional e ainda pendente de sanção do presidente Lula.

Os dividendos são isentos de tributação no Brasil, mas essa renda obtida pelos acionistas de empresas será alcançada pela mordida da Receita Federal com a criação do imposto mínimo para os super-ricos, criado para compensar a perda de arrecadação com a isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000.

Criticado, Trump rever tarifaço no Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Popularidade do presidente americano está no nível mais baixo desde a posse

Derrota eleitoral, inflação e lobbies empresariais podem ajudar a aliviar tarifaço

A popularidade de Donald Trump está no nível mais baixo desde a posse. Mais que no fundo do poço de abril, de tarifaço e tumulto financeiro. Na média das pesquisas calculada pelo Silver Bulletin, 55% dos americanos desaprovam o desempenho de Trump, 41,4% aprovam. O saldo negativo era, pois, de mais de 13 pontos nesta quarta. No início do mandato, janeiro, o saldo era positivo, quase 12 pontos.

O Partido Republicano perdeu de lavada a eleição parcial da semana passada. Nas pesquisas de boca-de-urna, eleitores citavam o custo de vida como preocupação maior (é um problema mundial, desde 2022, convém prestar atenção).

A lição de Barack Obama ao Partido Democrata, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Ex-presidente comemora vitórias do partido em Nova York e na Virgínia

Para Obama, eleição dos democratas representa o pluralismo, característica da América

"Vencemos com Abigail Spanberger, vencemos com Zohran Mamdani. Eles são parte de uma visão de futuro", comemorou o ex-presidente Barack Obama no podcast Pod Save America, logo depois das eleições de 4/11.

Com a vitória de Abigail, o governo da Virgínia passará às mãos de uma ex-deputada ultramoderada, que foi agente da CIA e defende mão dura contra o crime; já a maioria dos nova-iorquinos sufragou um jovem imigrante muçulmano assumidamente socialista. Engajado na oposição ao trumpismo, o único negro a ocupar a Casa Branca pronunciou outro de seus discursos, nos quais a razão é sócia da empatia.

Poesia | Navegue, de Fernando Pessoa

 

Música | Um Índio por Caetano Veloso

 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regular criptoativos ajudará a combater o crime organizado

Por O Globo

Iniciativa do BC é essencial para apertar controles sobre esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro

O Banco Central (BC) fez bem ao aumentar o controle sobre o mercado de criptomoedas. Não é novidade que, em razão das características semelhantes ao dinheiro em espécie e da facilidade de armazenamento digital, elas se tornaram o recurso preferido para lavagem de dinheiro. Não haverá como asfixiar as finanças de organizações criminosas a cada dia mais sofisticadas sem dispor de mecanismos eficazes para vigiar os criptoativos. Pelas novas regras, para prestar serviço no Brasil, as empresas que operam nesse mercado deverão obter autorização formal do BC e cumprir diversos requisitos de transparência, em tudo similares aos já exigidos de bancos e instituições financeiras. Investimentos feitos por brasileiros em criptomoedas no exterior também terão de ser informados.

O Congresso entre a inação e o açodamento, por Vera Magalhães

O Globo

Votar a toque de caixa uma proposta complexa como a que muda toda a abordagem para enfrentar o crime organizado pode levar a judicialização

Um sintoma claro da falta de massa crítica que existe hoje no Congresso Nacional é o grau de improviso assustador que se percebe quando deputados e senadores se veem forçados a apresentar soluções para problemas complexos que vão além de seus próprios interesses. Nessas horas, eles saem da inação completa para um açodamento que sempre implica risco enorme de produzirem uma barbaridade.

O tema da segurança pública é o campeão em suscitar essa aflição por fazer alguma coisa (qualquer coisa) para “dar uma satisfação à sociedade” sem que se saiba direito o quê. Depois da megaoperação das polícias do Rio em 28 de outubro, foi dada a largada a mais uma dessas corridas malucas.

O golpe do voto distrital misto, por Elio Gaspari

O Globo

Como uma assombração, ele voltou

O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu articular, com o apoio do Centrão, a adoção do modelo de voto distrital misto a partir da eleição de 2030. Ele traria a vantagem de barrar candidatos ligados a organizações criminosas.

Trata-se de uma patranha. O voto distrital, simples ou misto, teria a mesma influência que os anéis de Saturno para conter o avanço do crime organizado na política. O que ele pretende, na proposta atual, é eleger candidatos sem voto, patrocinados pelas caciquias partidárias ou por quem quer que seja.

O professor Delfim Netto ensinava que aquilo que não foi conseguido na vigência do Ato Institucional nº 5 (1968-1978) jamais acontecerá. Por exemplo, a cobrança de anuidades nas universidades públicas ou o voto distrital. Ele ronda a política há mais de meio século.

A COP dos políticos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em ritmo de campanha, presidente comeu açaí, inaugurou obras e quase perdeu voz de tanto discursar

Deu no Diário Oficial: de 11 a 21 de novembro, a capital do Brasil fica transferida para Belém. Lula parece ter levado a Lei 15.251 a sério. Nos últimos dias, carregou 28 ministros para circular na cidade-sede da COP30.

Em campanha aberta à reeleição, o presidente apostou alto na conferência amazônica. Visitou aldeia indígena e quilombo, tomou açaí, inaugurou obras e quase perdeu a voz de tanto discursar. Só na cúpula dos líderes, fez cinco pronunciamentos em dois dias.

Guerra nas redes garantiu recuo, mas não o domínio governista da pauta, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Limitação proposta por Derrite à atuação da PF ameaçou impor à Câmara desgaste ainda maior que aquele causado pela PEC da Blindagem

O recuo do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) no relatório do PL antifacção aconteceu duas horas depois de um vídeo da Secretaria de Comunicação da Presidência sobre o tema ter sido colocado no ar. Nesta peça publicitária de menos de um minuto, o governo federal acusava as duas versões do relatório de Derrite, conhecidas até ali, de limitar a atuação da Polícia Federal no combate ao crime organizado e carimbava o texto de “PL antiinvestigação”. Ao seu lado, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não escondia seu incômodo: “Não são verdadeiras as narrativas de que a Câmara vai tirar o poder da PF.”

Naquele momento, Derrite ainda não havia apresentado aquela que seria a terceira versão do relatório. O texto, protocolado às 19h36, de fato, manteve as funções da PF e a Lei Antiterrorismo de 2016 inalteradas. Pareceu claro que Motta quis evitar a repetição, junto à opinião pública, do dano provocado pela aprovação, na Casa, da PEC da blindagem, que seria derrotada no Senado depois de expressiva mobilização nacional. Na entrevista de Derrite, ficou claro que o relator pretende ter protagonismo por meio do endurecimento penal mais reforçado, o que não impedirá a base governista de votar favoravelmente seu relatório se esta for a mudança mais substantiva. O PL insiste na equiparação entre crime organizado e terrorismo.

Corte de juro deve vir com Copom 100% Lula, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Redução da Selic pode ocorrer em março ou no meio do ano, quando comitê do BC for totalmente indicado pelo atual governo

“Gabriel não deveria ir agora”, disse à coluna um integrante da ala política do governo. Era 2023 e Gabriel Galípolo, então secretário-executivo do Ministério da Fazenda, havia sido indicado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma vaga na diretoria do Banco Central. Posteriormente, seria alçado à presidência.

Na visão do palaciano, Galípolo poderia seguir mais um tempo na Fazenda, onde fazia um bom trabalho na articulação com o Congresso Nacional para aprovar pautas da área fiscal, em vez de compor um colegiado majoritariamente composto por indicados do governo anterior. “Para quê?”, questionava a fonte.

A inflação do agro, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Em queda neste ano, preços de produtos agropecuários devem voltar a subir em 2026 no atacado

Um dos principais fatores de alívio no custo da alimentação no domicílio das famílias brasileiras em 2025, os preços dos produtos agropecuários no atacado devem voltar a subir em 2026. A dúvida é se a pressão desses preços sobre a inflação final ao consumidor no ano que vem poderá vir a ser uma preocupação ao Banco Central.

“Haverá uma aceleração moderada dos preços agropecuários no próximo ano”, diz Fábio Romão, economista sênior da 4intelligence. Segundo ele, a maior parte dos efeitos que puxaram esses preços para baixo e beneficiaram o consumidor neste ano deve se dissipar no ano que vem.

O que o Brasil tem para ensinar ao mundo? Por Fernando Mello Barreto

O Estado de S. Paulo

A lição dada pelo Brasil não é a da erradicação de ameaças à democracia, mas sim a da capacidade de repeli-las por meio dos meios institucionais

Em Ottawa, no início dos anos 90, pouco antes de iniciarmos uma série de palestras organizadas pela Câmara de Comércio bilateral, o então embaixador do Canadá no Brasil me fez uma pergunta: “O que o Brasil tem para ensinar ao mundo?” À época, pareceu-me ser uma indagação típica de país desenvolvido ansioso para ensinar os outros. Minha resposta inicial foi a de que nós, os brasileiros, tínhamos, naquele momento, mais a aprender do que a ensinar. Embora o Brasil vivesse tempos de efervescência democrática, ainda carregava o peso de décadas de instabilidades e crises (elevada dívida externa, inflação desenfreada, desigualdades sociais, entre muitas outras mazelas). O diplomata canadense, porém, insistiu que buscava uma lição global não baseada nos desafios conhecidos, mas nas características que, mesmo submersas, tornavam, a seu ver, o Brasil um país positivamente singular.

Cedi ao apelo de reflexão apresentado pelo afável colega. Comecei por descartar velhas ideias que o tempo havia provado serem equivocadas ou exageradas, tais como o mito da democracia racial, propagado por Gilberto Freyre, a cordialidade do brasileiro, cunhada por Sérgio Buarque de Holanda, e até a propalada ideia do jeitinho brasileiro.

A nova fatura do Centrão para Lula, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Banco do Nordeste e Cade podem ser moedas de troca para emplacar Messias no STF

Pouco depois de chegar a Brasília, o presidente Lula foi informado de que a temperatura das articulações contrárias à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) estava mais elevada do que a de Belém. Envolvido nos últimos dias com a Cúpula do Clima (COP-30), na capital do Pará, Lula não escondeu a irritação: decidiu dobrar a aposta.

Enquanto não anuncia que seu escolhido é Messias, no entanto, o chefe do Executivo fica refém do toma lá dá cá. Além disso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre – fiador de Rodrigo Pacheco –, ganha crédito na conta com o Palácio do Planalto.

Diante da desconfiança em relação ao presidente da Câmara, Hugo Motta – sobretudo depois que ele indicou o deputado Guilherme Derrite, secretário da Segurança do governo Tarcísio de Freitas, como relator do projeto Antifacção –, Lula precisa cada vez mais de Alcolumbre.

Eles negam o inegável, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

O negacionismo encontra campo fértil nas redes sociais, onde se nutre das fake news e de visões reducionistas e estereotipadas do mundo.

O negacionismo soa como atestado de ignorância mesclada a insensatez.  Encontra campo fértil nas redes sociais, onde se nutre das fake news e de  visões reducionistas e estereotipadas do mundo. O negacionista é cético não por convicção, mas por influência de uma massa de manobra que prefere agir de forma desarrazoada a perceber que serve a interesses alheios. Os antivax, por exemplo, agarram-se a uma crença sem qualquer base sólida ou comprovação empírica. Acreditam numa verdade que apenas lhes convém, ainda que tal crença lhes custe a própria vida. Convencem-se de que a vacina mina o sistema imunológico ou acarreta doenças, quando é exatamente o contrário que ocorre.

Um certo ex-presidente condenado chegou a propalar em alto e péssimo som que a imunização contra a covid-19 poderia infectar a pessoa vacinada com o HIV, o vírus causador da Aids. Durante a pandemia, preferiu agir como garoto-propaganda da ivermectina e da cloroquina — comprovadamente ineficazes contra o coronavírus — a acelerar a compra dos imunizantes. Agiu como caixa de ressonância do negacionismo. Quantas pessoas não morreram por acreditar em suas inverdades?

Darcy e Raul têm razão, Cristovam Buarque

Correio Braziliense

Darcy Ribeiro e Raul Jungmann têm razão: a guerra civil precisa que o Brasil desperte e que a União adote sistemas nacionais de segurança e de escolas com qualidade igual para todos

Há 40 anos, Darcy Ribeiro alertou que, se não fizéssemos escolas, seríamos obrigados a construir prisões. Faz quase 10 anos, Raul Jungmann avisou sobre a força e os riscos do crime organizado. O Darcy construiu os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), mas o exemplo não se espalhou pelo Brasil. Raul propôs a criação de um sistema nacional de segurança, mas a ideia não prosperou. Agora, a realidade mostrou que eles estavam certos. 

Além da repulsa àqueles que deram a ordem ou puxaram o gatilho na operação policial nos complexos do Alemão e Penha, no Rio, é preciso denunciar os que foram eleitos sem entender as causas da guerra civil e sem tentar fazer o que Darcy, Raul e outros recomendam desde então. A violência é tratada como apenas problema de insegurança pessoal, escaramuças entre indivíduos. Não compreendemos as causas estruturais de uma guerra civil, nem percebemos a necessidade de o Brasil nacionalizar tanto a questão da segurança pública quanto o problema da educação básica, com ambição na qualidade e na equidade. 

Combate às facções como terrorismo: um projeto de poder autoritário, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Derrite deixou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo para levar ao Congresso a mesma política de “tolerância zero” que, na prática, enxuga gelo contra o PCC em São Paulo

O romance Investigação sobre a Vítima (Companhia das Letras), de Joaquim Nogueira, é um clássico do realismo policial brasileiro. Ex-delegado, o autor não escreve de fora do universo policial — ele o recria com o olhar noir de quem conhece o cheiro das celas, o peso do inquérito e as sombras das delegacias. O resultado é um retrato sem concessões da violência e da corrupção que atravessam o aparelho de segurança e a própria sociedade paulista.

“Você ainda acredita em justiça, Venício?”, perguntou o escrivão, acendendo o cigarro com o crachá pendurado no pescoço.

“Acredito”.

“Então é pior do que eu pensava. Aqui ninguém investiga ninguém. A gente arquiva. O resto é conversa pra boi dormir”.

Venício o encarou em silêncio.

“Teu amigo morreu porque quis ser certo demais. O sistema não gosta de gente que não pede o troco”.

Sabotagem do combate ao crime, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Derrite, secretário de Segurança de SP, voltou à Câmara para enfraquecer Estado

Iniciativa direitista teve apoio de parlamentares que queriam PEC da Blindagem

A direita está assanhada. A matança do Rio animou uma contraofensiva contra um governo Lula que se recuperava da surra que levara de 2024 a meados de 2025. Incentivou projetos de leis de segurança pública de incompetência grosseira, selvageria proposital e escandalosa malandragem.

Na maré de sangue, voltou a subir o barco da candidatura a presidente do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na frente legislativa, essa onda tenta criar um sistema de investigação mais irracional, desconecta ainda mais as polícias, sabota o poder estatal contra o crime e ajuda parlamentares a escapar da cadeia.

A batalha do momento é o projeto de lei "antifacção", que em tese dificultaria a vida das organizações criminosas, de início elaborado pelo governismo. A iniciativa foi apropriada por várias direitas. Uma, bolsonarista, que admira o Estado policial mortífero de Nayib Bukele em El Salvador. Outra, por picuinha provisória, quer impedir que braços da administração federal (polícia, Receita) possam atuar nos estados. Uma terceira quer usar o projeto para blindar parlamentares de investigações de corrupção.

Governadores chocam o ovo da serpente ao apoiar matança policial, por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Estratégia busca ganhos eleitorais, mas corrói as bases da democracia liberal

Legitimar violência pode favorecer um novo outsider, mais radical e sem amarras a partidos

Com muito desembaraço, governadores de direita organizaram um espetáculo para anunciar o que chamaram de "Consórcio da Paz". Motivado pela operação policial mais letal da história brasileira, que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, o grupo escolheu um nome que beira a ironia na melhor das hipóteses, e o sadismo, na pior.

Parecia a oportunidade perfeita para transformar uma operação malsucedida (apenas 20% dos mandados de prisão foram cumpridos) em uma arma contra o presidente Lula. Especialmente quando aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro admitem, sob reserva, cansaço com a pauta da anistia.

Emendas avançam longe dos holofotes, por Mateus Vargas

Folha de S. Paulo

Estados e municípios reservam R$ 12,3 bi, aponta estudo, e governo federal tem emenda informal

Novo cenário desafia órgãos de controle a acompanhar sistema pulverizado e disposto a escapar da fiscalização

Verbas bilionárias indicadas por parlamentares têm avançado sobre terrenos menos expostos ao controle do Judiciário e da opinião pública.

Estudo feito por consultores da Câmara mostra que ao menos 23 unidades da Federação reservam cerca de R$ 11,1 bilhões em emendas impositivas de deputados estaduais, enquanto vereadores decidem o destino de mais R$ 1,2 bilhão em metade das capitais.

O levantamento encontrou cópias das chamadas emendas Pix em 20 estados, além de "uma diversidade de critérios" para definir o total de repasses. São situações que abrem margem para questionamentos jurídicos.

Um caminho de luz, por Ivan Alves Filho

O desenho, isto é, a forma como os corpos e os objetos se alinham no espaço, está na base de tudo. À nossa volta, não existe nada sem forma, tanto na natureza quanto fora dela, nas chamadas criações do espírito humano. O arquiteto Oscar Niemeyer, um mestre da forma, justamente, se considerava um desenhista. E era. 

As formas também possuem história, apresentando-se como mais um elemento dela. Não existe conteúdo desacompanhado de uma forma. Neste sentido, poderíamos dizer que a forma é o conteúdo da Arte. A profundidade de campo, que deixaria marcas indeléveis na pintura moderna e na fotografia, mais para frente, tem que ver com o alargamento das fronteiras trazido pelas navegações. E este alargamento se infiltra na estrutura mental dos homens, reconfigurando a nossa maneira de apreender ou ver o próprio espaço. O mundo agora é praticamente infinito para os homens. Na base desta aventura náutica se encontra o pequeno Portugal, um país que apresentou o Oriente ao Ocidente. O Brasil é resultado direto desta expansão, que a Arte tão bem captou. Na Galeria Uffizi, na belíssima Florença, podemos ter uma verdadeira aula a este respeito. 

Uma Europa fragmentada ainda pode prosperar? Por Martin Wolf

Financial Times / Folha de S. Paulo

O que antes tornou seus Estados poderosos agora pode impedir que continuem assim

Europeus criaram impérios no resto do mundo, mas não dentro do próprio continente

O que os romanos realmente fizeram por nós? No filme "A Vida de Brian", do grupo Monty Python, as respostas incluíam aquedutos, banhos e paz. Mas e se a resposta correta for: "seu império caiu"?

Em resumo, o papel transformador da Europa Ocidental na história mundial se deve à ausência de um império europeu unificado. Foi essa ausência que criou o que o historiador da Antiguidade Walter Scheidel chama de "fragmentação competitiva" da Europa Ocidental. A competição impulsionou as mudanças comerciais, intelectuais, tecnológicas, jurídicas e políticas que culminaram na Revolução Industrial. A partir daí, tudo mudou.

O benefício da fragmentação é a ideia central de "Escape from Rome" (2019), de Scheidel. O conceito não era novo, mas ele o revitalizou ao associar o progresso europeu à incapacidade de qualquer poder posterior repetir o feito de Roma. Diferentemente da China, do Oriente Médio ou da Índia, um império abrangente nunca mais retornou ao continente.

O ocaso de Trump já começou? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Republicanos sofreram derrotas importantes em pleitos da semana passada

Inflação é uma das causas do fenômeno, que pode reaparecer nas eleições de meio de mandato

Os republicanos, liderados por Donald Trump, tomaram uma surra nas urnas nas localidades em que houve eleições na semana passada. O destaque midiático é a vitória de Zohran Mamdani em Nova York, mas o fenômeno é mais generalizado.

É verdade, como observou o presidente americano, que seu nome não constava das cédulas, mas ainda assim ele tem muito a ver com a derrota de seus correligionários. A análise das pesquisas mostra que vários grupos demográficos que votaram em Trump no ano passado agora se rebelaram contra os republicanos em boa medida por insatisfação com os rumos econômicos do país.

Poesia | Aniversário, de Fernando Pessoa

 

Música | Marisa Monte e ‪Gilberto Gil ‬ - A Paz

 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

CPI do Crime Organizado tem oportunidade

Por O Globo

Se condução for ‘técnica’ e não partidária, comissão poderá contribuir para enfrentar criminosos

É comum que as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) se tornem palco de embates políticos, de olho nos holofotes e na opinião pública, em vez de nas respostas e soluções às questões que despertaram sua convocação. Foi por isso encorajadora a atitude do presidente da recém-instalada CPI do Crime Organizado, senador Fabiano Contarato (PT-ES). Em entrevista ao GLOBO, ele se disse comprometido com uma condução “técnica” dos trabalhos, para evitar que a CPI sirva de palanque voltado às eleições.