terça-feira, 9 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tarcísio agride democracia com radicalismo

Por O Globo

Ao aderir à anistia e radicalizar discurso, ele perde eleitor moderado, de que depende para vencer em 2026

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comete um erro e agride a democracia ao se lançar nos braços bolsonaristas em sua defesa pela anistia a golpistas. A submissão ao bolsonarismo que revelou na Avenida Paulista no domingo expõe oportunismo e mancha suas credenciais republicanas.

Depois de passar a semana articulando uma anistia descabida para Bolsonaro e os demais acusados de golpe de Estado em julgamento no Supremo — em aceno ao bolsonarismo, ele chegou a declarar que “não confia na Justiça” —, Tarcísio voltou à carga com um discurso incendiário. Quando a multidão gritava “Fora, Moraes!”, ele disse: “Por que vocês estão gritando isso? Talvez porque ninguém aguente mais. Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes. Ninguém aguenta mais o que está acontecendo neste país”. Noutro momento, voltou a desafiar o relator do processo contra Bolsonaro: “Nós não vamos mais aceitar que nenhum ditador diga o que a gente tem que fazer”.

Erro de estratégia. Por Merval Pereira

O Globo

Do jeito que vai, pode perder o grande apoio que poderia ter do centro. Na retórica, vai muito para a radicalização e ficará preso numa bolha.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está errando na estratégia. O discurso virulento de domingo, diante da multidão de bolsonaristas na Avenida Paulista, pode ter o condão de garantir-lhe os votos da parcela radical do bolsonarismo e provavelmente a boa vontade futura do ex-presidente. Tarcísio tenta dar provas de fidelidade para garantir o apoio de Bolsonaro, que, ambos sabem, não será elegível para 2026. Faz tudo para que o ex-presidente o apoie quando se convencer de que não disputará. No entanto está errando a dose. Pode estar ganhando apoio do bolsonarismo mais radical, mas perdendo o do eleitorado centrista.

Crime e castigo no país de hoje. Por Fernando Gabeira

O Globo

Penas aos amotinados de 8 de Janeiro deveriam ser mais curtas e associadas a processos pedagógicos

Julgamento no Brasil, desfile militar na China, navios americanos rondando a Venezuela, projetos de anistia na Câmara, implosão da compra do Banco Master, investigação sobre os Correios, CPI dos descontos aos aposentados — tudo acontecendo na mesma semana.

Para descrever esse intenso fluxo, só um estilo carretel, como o inventado por John dos Passos. Na verdade, houve um colunista no Brasil que unia todos os fatos da semana numa só crônica: assinava Van Jafa. Escrevia no Correio da Manhã. Nem ele nem o jornal existem mais.

Escolho o julgamento, apesar do bombardeio sobre o tema. Minha posição é que tentativas de golpe de Estado devem ser punidas. No entanto, nem sempre concordo com as características da punição.

Isso me vale constantemente ataques de pessoas com a faca nos dentes. Quanto mais severa a pena, melhor para elas, e quem duvidar disso está colaborando com o inimigo.

Quando o cálculo pode dar errado. Por Míriam Leitão

O Globo

Os cálculos de Tarcísio podem estar errados. Ele assustou o centro que precisa atrair e tentou agradar à extrema direita, que votaria nele contra Lula

“Cálculo eleitoral”. É essa a explicação que ouvi entre juristas e economistas para a radicalização do governador Tarcísio de Freitas. A dúvida é se ele tem mais a perder ou a ganhar com as afirmações incendiárias que fez. Ele estaria fechando a porta para um bolsonarista radical, ao ocupar o lugar, me explicou uma das fontes que ouvi. Outra fonte acha que ele pode perder apoio entre empresários definidos como “não partidários”, que seriam entre 25% a 30%. Analistas consideram que Tarcísio queimou a chance de se vender como moderado durante a campanha que se aproxima.

O perigo da anistia. Pedro Doria

O Globo

Ele acha que é esperto politicamente e não tem ideia do perigo que desperta

O governador paulista, Tarcísio de Freitas, deu início, na semana passada, a um movimento golpista. Não é paranoia ou hipérbole. É simples leitura da História. Tarcísio anda falando muito disso, de História, em sua pregação pela anistia de Bolsonaro e dos generais. Como, ao recontar essa história, fala muita bobagem, é razoável acreditar que não conheça como se formou a República que ele deseja governar. Por isso é possível dar-lhe o benefício da dúvida. Ele acha que é esperto politicamente e não tem ideia do perigo que desperta. Mas é importante deixar uma coisa clara: ele está mexendo com forças da nossa cultura política muito perigosas, que exigem de todos os democratas, à direita, à esquerda e, principalmente, ao centro, máxima atenção.

Escalada de tensões na etapa decisiva do julgamento de Bolsonaro. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O julgamento ocorre em meio a um ambiente político de forte polarização. O destino judicial do ex-presidente e seus generais se entrelaça com tensões políticas, diplomáticas e econômicas mais amplas

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus pela tentativa de golpe de Estado recomeça nesta terça-feira, na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), com uma escalada de tensões políticas. No domingo, num ato em apoio ao ex-presidente na Avenida Paulista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), fez duros ataques ao Supremo e ao ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.

Tarcísio tenta conquistar o apoio de Bolsonaro para se candidatar à Presidência da República e subiu o tom contra o Supremo. Enquanto manifestantes gritavam “fora, Moraes”, na Avenida Paulista, o governador paulista disparou: “Por que vocês estão gritando isso? Talvez porque ninguém aguente mais. Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes. Ninguém aguenta mais o que está acontecendo neste país”.

Entrevista | 'Harmonia pode ser sacrificada, independência, não', diz Ayres Britto

 

Por Camila Zarur / Valor Econômico

Ayres Britto diz que pacificação do país virá por respeito à Constituição, não por anistia

Perdoar eventuais condenações do ex-presidente Jair Bolsonaro seria uma “autoanistia”, e não há previsão para isso dentro da Constituição. É o que afirma o ministro aposentado e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Britto. Na visão do ex-magistrado, a tentativa do bolsonarista de reverter os resultados das eleições de 2022 e impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva foi feita enquanto o ex-mandatário ainda estava no cargo. “Ou seja, agiu em nome do Estado, em nome do Poder Executivo, de uma pessoa jurídica”, afirma Ayres Britto ao Valor. Nesse sentido, o ex-ministro continua, o Estado não pode perdoar ele próprio - muito menos para anistiar uma tentativa de abolição da democracia.

Indicado por Lula ao STF, Ayres Britto rebate os ataques frequentes à Corte em que ele atuou por quase uma década, de 2003 a 2012. Para o ex-ministro, o Supremo, como guardião maior da Carta Magna, deve ser quem dá a palavra final. E, diante das pressões americanas ao Tribunal e os atritos entre Judiciário, Legislativo e Executivo, é categórico: “A harmonia [entre Poderes] pode ser eventualmente sacrificada, mas a independência não.”

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Direita fica refém da escolinha de tio Silas. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Tarcísio fica a reboque do bolsonarismo sem garantia de apoio

O pastor Silas Malafaia masca chiclete enquanto reza o Pai Nosso e se coloca como o porta-voz do único mote que restou ao bolsonarismo depois daquela bandeira americana estendida em frente ao Masp no dia da pátria, a religião. No seu discurso, o presidente disse que, sem soberania, o Brasil volta a ser colônia. É uma obviedade que, ante a bandeira da Paulista, virou ativo. Se ainda se apostava na polarização com o governador Tarcísio de Freitas, o domingo na avenida mostrou que não há alternativa a Bolsonaro. Sua voz é Silas Malafaia, o pastor boca suja que representa mais o ex-presidente do que a unidade evangélica.

Um 'aluno' analfabeto da professora Conceição. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Economistas do Partido Republicano enfrentam um dilema: como defender seu líder político se ele contraria os fundamentos teóricos que sustentam há décadas?

Além de destroçar a geopolítica global, o tarifaço de Donald Trump suscita pitadas de ironia e humor.

Economistas ortodoxos estão obviamente desconfortáveis e, muitos, emudecidos. Acreditavam que a orientação econômica do presidente dos EUA, na hora que o jogo fosse para valer, iria espelhar, pelo menos parcialmente, a convencional política republicana, como a adotada por Ronald Reagan, Bush pai, Bush filho etc.

E, no entanto, funciona. Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A despeito de Trumps e Bolsonaros, a economia e as instituições brasileiras funcionam, como a OMC

Apesar de Trump, o mundo funciona – não tão bem como funcionaria sem as medidas truculentas impostas pelo presidente dos Estados Unidos aos demais países, mas funciona. O comércio internacional é um exemplo. Submetido a duro teste de resistência pelas tarifas que Trump espalhou pelo mundo a torto e a direito, mais a torto do que a direito, enfraqueceu, mas continua vivo.

Independência e política externa. Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Desde o início, os formuladores da política externa viam o Brasil como uma ‘potência transatlântica’

No dia 29 de agosto, há 200 anos, Portugal reconheceu a Independência do Brasil. Um dos objetivos da revolução liberal do Porto, em 1820, estimulada pela elite portuguesa, foi forçar a volta de D. João VI e restabelecer o reinado controlado por Lisboa. Seu filho, Dom Pedro, decidiu ficar no Brasil, rebelando-se contra as Cortes (Parlamento), e em 7 de setembro de 1822 proclamou a separação de Portugal.

O processo de Independência do Brasil foi difícil em razão da tentativa das Cortes do Porto de manter o País como colônia portuguesa. A consolidação da Independência não foi pacífica, em vista das sucessivas revoltas estimuladas e financiadas pelas Cortes, com intenção de dividir o País em dois: toda a Região Norte e Nordeste até Minas Gerais continuaria sob o domínio de Lisboa, e o Sul do País permaneceria independente. As revoltas no Pará, Jenipapo, no Piauí, no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia tinham esse objetivo.

Bolsonarismo de resultados. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Tarcísio de Freitas, pragmático tocador de obras, mostrou do que é capaz. Que fará de tudo para ser o candidato da direita em 2026. Quer muito. E alcançou o ponto de não retorno por essa querença.

Topa qualquer coisa. Esse é o destaque da manifestação de domingo. Auge de jornada que começara, menos de semana antes, com o governador de São Paulo declarando não confiar na Justiça – e se comprometendo, como primeiro ato, a indultar Bolsonaro, caso fosse presidente.

Tarcísio, um prático, acelerou. Não está – né, Ciro Nogueira? – sozinho. Tinha uma missão, meta combinada, obra a entregar – e a entregou. Maior ou menor o grau de encenação teatral, maior ou menor a crença na viabilidade da anistia, mexeu-se. Cumpriu etapas na “expectativa Malafaia”. Falou o nome de Alexandre de Moraes, associou-o à ditadura etc. Ganhou estrelinha no caderno.

Tarcísio completa em uma semana lista que bolsonarismo cobrava para candidatura. Por Ranier Bragon

Folha de S. Paulo

Governador dá cavalo de pau no discurso com ares de moderação e vai de promessa de indulto a Moraes 'tirano' na Paulista

Quatro anos separam o Dia da Independência mais radical do bolsonarismo deste domingo (7), quando Tarcísio de Freitas (Republicanos) parece ter completado o checklist que o grupo e os eleitores mais fiéis do ex-presidente lhe cobravam para chancelar sua especulada candidatura presidencial.

Se no 7 de Setembro de 2021 Jair Bolsonaro chamou Alexandre de Moraes de "canalha" e disse que daquele momento em diante não cumpriria mais decisões do magistrado, Tarcísio elegeu o mesmo alvo neste domingo.

O "ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como o Moraes", frase dita após uma pausa de alguns segundos na sua fala, é o mais recente capítulo público da inflexão no discurso que se vendia como moderado e que começou a mudar em 29 de agosto.

Moraes deve dar orgulho aos refundadores da democracia brasileira. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ministro não ignorou fatos cristalinos por medo de kid preto ou vontade de visitar Disney

Nesta terça-feira, 9 de setembro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes deve apresentar seu voto no julgamento dos golpistas de Jair Bolsonaro. É um momento histórico da democracia brasileira, e o ponto culminante da biografia de um dos mais importantes ministros da história do Supremo Tribunal Federal.

Escrevi "importante" e fiz questão de não acrescentar "controverso", como se costuma fazer quando o assunto é Xandão. O adjetivo caberia se entre os argumentos dos críticos e dos defensores de Moraes houvesse lastros factuais de ordens de grandeza ao menos similares.

Não há: descontados os que criticam Moraes porque apoiam os crimes que ele julga, descontados também os que esperam ganhar dinheiro ou subir na carreira dando-lhes crédito, as críticas legítimas a Alexandre de Moraes são só as que se poderia esperar em um julgamento desse tamanho, realizado em circunstâncias tão ruins.

Por que o julgamento de Bolsonaro não vai pacificar o país. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Valores que pareciam hegemônicos estão sendo contestados por novas forças políticas

A condenação de Bolsonaro não pacificará nada. A sociedade seguirá tão ou mais dividida do que estava. Bolsonaro não é apenas um indivíduo popular. Ele é popular porque surfa uma onda, a ascensão de uma nova direita mais radical, profundamente contestatória do establishment, que continuará a fluir mesmo que ele saia de cena.

O colapso do governo francês após um voto de desconfiança ao primeiro-ministro Bayrou tem o mesmo pano de fundo: um bloco de direita nacionalista com o qual o governo não compõe, e que, segundo pesquisas, representa 35% do eleitorado. No Japão, na renúncia do primeiro-ministro Shigeru Ishiba no domingo, a mesma história: seu partido quer recuperar um eleitorado que tem sido perdido para partidos de direita radical, inclusive o Sanseito, fenômeno de popularidade.

Amotinados continuam numa boa. Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Levante de 6 de agosto no Congresso completa um mês relegado a conveniente esquecimento

No sábado (6) fez um mês da violenta ocupação do plenário da Câmara com grave ameaça a Hugo Motta (Republicanos-PB) de interdição no seu trajeto rumo à cadeira da presidência da Casa.

Outro mês ainda vai transcorrer até completarem-se os 60 dias que generosamente o presidente afrontado deu à corregedoria para definir punição aos amotinados.

A julgar pelo silêncio em torno do caso e da vitória que obtiveram ao conseguir colocar a anistia na agenda, nada de mal lhes acontecerá. O episódio está com todo o jeito de que vai ficar por isso mesmo: o dito pelo não dito, os considerados agressivos naquele dia pelos reabilitados no transcurso do tempo.

Tarcísio é um bolsonarista moderado? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Não importa qual interpretação se dê ao termo bolsonarismo moderado, governador de SP erra ao atacar legitimidade do STF para julgar ex-presidente

Tarcísio de Freitas é o bolsonarista moderado que eleitores de direita querem ver surgir em 2026? A turma que acha que sim sofreu um baque após a manifestação do 7 de Setembro, em que o governador paulista lançou ataques diretos ao STF e a Alexandre de Moraes, a quem praticamente chamou de tirano.

Podemos generalizar mais e nos perguntar se faz sentido falar em "bolsonarismo moderado". O problema aqui, creio, é mais linguístico do que propriamente político ou filosófico. É que existem pelo menos duas maneiras de interpretar o binômio "bolsonarismo (ou bolsonarista) moderado", que remetem a universos bastante distintos.

Poesia | Minha terra, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | Chico Buarque - Todo o Sentimento

 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Há método e planejamento no caos de Trump

Por O Globo

Onda de demissões e tentativas de intervir em braços do Estado segue à risca plano traçado antes da eleição

O segundo mandato de Donald Trump é marcado por sucessivas intervenções da Casa Branca na máquina administrativa, com a demissão de quase 290 mil servidores federais (12% do funcionalismo), desafios a decisões judiciais e avanços do Executivo sobre braços independentes do setor público. Os dois casos mais recentes foram o anúncio da demissão de Lisa Cook, diretora do Federal Reserve (Fed), e de Susan Monarez, recém-nomeada para dirigir o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Ambas discordaram das diretrizes que Trump pretende impor às respectivas agências.

O marketing da extrema direita. Por Miguel de Almeida

O Globo

Quem não ajoelhar diante do pneu terá de procurar outro altar

Parece ser vontade confessa dos líderes do PL transmutar-se em partido de extrema direita de tendência apenas bolsonarista. Para a eleição de 2026, desejam apresentar somente candidatos identificados com o credo. Quem não ajoelhar diante do pneu terá de procurar outro altar.

Em princípio, é boa jogada de marketing. No mundo das redes, o que importa são as identidades. Nada opaco prospera, haja vista o deslustrado Hugo Motta, que não é nem cruz nem caldeirinha. Daí que uma marca, mesmo polêmica, soa como artifício publicitário adequado. Gruda na memória.

Com o tempo, até Geraldo Alckmin rendeu-se em paz à imagem de picolé de chuchu, e o PSDB nunca quis descer do muro, porque tucano voa baixo. Jânio Quadros jamais negou gostar bastante de uma birita — “bebo porque é líquido”, celebrizou. Difícil mesmo é não pensar no general Figueiredo e sua preferência olfativa por cheiro de cavalo. São adjetivos que ficam.

Brasil precisa de compromisso institucional. Por Irapuã Santana

O Globo

Autonomia do BC não deveria ser defendida apenas quando convém politicamente, mas sim como pilar da estabilidade monetária

O oportunismo político tem consequências diretas e nefastas na estabilidade e no desenvolvimento do país. Um exemplo notório é a oscilação de posições em relação às políticas comerciais. Quando a taxação das blusinhas estava em pauta, foi defendida por muitos como medida protecionista vital para a indústria nacional. O argumento era que a barreira tarifária protegeria empresas brasileiras da concorrência desleal de produtos asiáticos, gerando empregos e fortalecendo a economia interna.

No entanto essas mesmas vozes se levantaram em uníssono contra as taxas impostas pelo governo Trump a produtos brasileiros, classificando-as como ato de protecionismo injustificado e, ironicamente, passando a defender a abertura de mercado e o livre-comércio. A contradição é gritante: o protecionismo é bom quando defende a indústria nacional, mas ruim quando afeta as exportações do Brasil.

Entre a órbita chinesa e a europeia. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

China recebe antigos aliados dos EUA, mas Brasil faria melhor se diversificasse e ampliasse seu leque de alianças

O presidente Donald Trump escreveu em sua rede social: Parece que perdemos a Índia e a Rússia para a China mais profunda e sombria. Que tenham um longo e próspero futuro juntos. A rede tem o pretensioso nome de Truth Social, mas pode ser tudo, menos a expressão da verdade, muito menos da coerência. Trump já havia escrito ali, na semana passada:

— Dou-me muito bem com Xi [o presidente chinês, Xi Jinping].

Um dia depois, registrou:

— Xi e Putin conspiram contra os Estados Unidos.

Entre uma “verdade” e outra, a poderosa força militar chinesa foi exibida em Pequim, no maior desfile de sua história, tendo o presidente russo como principal convidado de honra. Foi no ambiente dessa demonstração bélica que Xi apresentou sua “verdade”. Disse que o mundo está hoje entre a paz e a guerra, entre a prosperidade e a estagnação — sendo a China, claro, a guardiã da paz e a promotora do desenvolvimento econômico. Não precisou dizer que, nessa versão, os Estados Unidos representam o contrário.

Política como negócios e negócios com política. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Fragilização de regras eleitorais, anistia a partidos e elevação de recursos do fundão e emendas dão sinal errado para quem faz da política um negócio e para quem negocia com políticos 

Em 10/02/2025, Donald Trump emitiu uma ordem executiva suspendendo qualquer investigação contra empresas americanas suspeitas de subornar autoridades de governos estrangeiros. Na prática, ele tornou sem efeito o Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), editado em 1977 quando uma apuração da Securities Exchange Commission (a CVM de lá) comprovou que centenas de empresas dos Estados Unidos mantinham um caixa dois para pagar propinas no exterior.

Esse retrocesso teve um preço - e ele foi apropriado justamente pelas multinacionais que eram alvo dos órgãos anticorrupção americanos. Analisando o desempenho do mercado acionário americano, os pesquisadores Lorenzo Crippa, Edmund J. Malesky e Lucio Picci constataram que as 261 firmas que tinham processos judiciais e administrativos envolvendo o FCPA tiveram uma valorização de US$ 39 bilhões apenas no dia da edição do decreto de Trump, quando comparadas com outras 236 empresas de setores similares que não possuíam problemas com a lei anticorrupção.

Falta de verbas leva BC a limitar as fintechs. Por Alex Ribeiro

Valor Econômico

No caso do Banco Master, BC foi pressionado em duas frentes para aprovar uma operação que, na essência, deveria observar apenas parâmetros técnicos

O Banco Central está sem dinheiro e funcionários para fiscalizar um sistema financeiro que, nos últimos anos, ficou muito maior e mais complexo - e virou presa fácil do crime organizado. Para evitar um colapso, baixou na sexta-feira uma série de restrições nas operações das fintechs.

Foi uma solução emergencial para uma situação de guerra, como colocar grades em torno do sistema financeiro. Todos ficam mais protegidos, mas a atuação de parte das fintechs, que injetaram competição e inovação no mercado, ficou limitada. Clientes enfrentarão transtornos para movimentar o seu próprio dinheiro.

Anistia e a defesa da ‘pacificação’. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Se houvesse necessidade de pacificação, o País estaria desde 2023 em um caos social

A aprovação de uma anistia aos acusados de tentativa de golpe de Estado, em qualquer de suas versões (incluindo ou não Jair Bolsonaro, limitando-se ou não aos vândalos de 8 de Janeiro), não vai pacificar o País. Para compreender o porquê, é preciso decifrar o que os bolsonaristas querem dizer com “pacificação”.

A tarefa é inglória. Na maioria das vezes, quando recorrem ao argumento da pacificação, os defensores da anistia aos golpistas não se aprofundam no conceito. Qual é a paz ou normalidade que eles querem ver restabelecida? Fora das redes sociais, não há conflitos políticos atravancando a vida das pessoas ou impedindo o funcionamento do Estado. Se houvesse necessidade de pacificação, o País estaria vivendo, desde 8 de Janeiro de 2023, um contexto de caos social, com violência política generalizada e instabilidade institucional. Não é o que acontece.

A patrulha do bem. Por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Imposto deveria ser tributação de renda, e não prescrição de comportamentos ‘bons’ e ‘saudáveis’

A reforma tributária, que deveria ser uma simplificação da arrecadação no Brasil, favorecendo a produção e o desenvolvimento nacional, desobrigando empresas a prestar obediência a um cipoal de leis, decretos e portarias dos mais diferentes tipos, ganhou uma dimensão fundamentalmente arrecadatória. Procura-se a aumentar a tributação mediante os mais diferentes tipos de subterfúgios, como é o caso do dito Imposto Seletivo. Pior ainda, esse último aparece revestido sob a ideia iluminada de que estaria fazendo o bem às pessoas, procurando impor-lhes um comportamento determinado e, mesmo, formas de pensar. Quem pensar ou se comportar diferentemente seria “desviante” ou “nocivo”, para si mesmo e os outros. Imposto deveria ser tributação de renda, e não prescrição de comportamentos “bons” e “saudáveis”.

O desconhecido Brasil rural. Por Zander Navarro

O Estado de S. Paulo

Que o conhecimento oferecido possa contribuir decisivamente para aprofundar o debate sobre o estado atual e o futuro do Brasil rural como um todo

Consolida-se no presente século uma percepção minimalista sobre “o rural”, compartilhada pela maioria dos brasileiros. Quase se tornou sinônimo, tão somente, de tratores, colhedeiras, drones e outras tecnologias definidas como modernas e avançadas. E desaparecem outras dimensões sobre a vida social em seus múltiplos aspectos. É uma errônea generalização, pois a história e as facetas mais abrangentes e reais do Brasil rural têm sido esmaecidas na memória dos cidadãos.

É provável que alguns processos principais tenham contribuído para esse “esquecimento do rural”. Primeiramente, lembrar que a maior parte das migrações do campo para a cidade ocorreram entre as décadas de 1950 e 1980 e, dessa forma, as novas e urbanas gerações sabem algo sobre a vida rural por meio, sobretudo, das lembranças de seus familiares mais idosos. Depois, ressaltar a influência de anos de propaganda sobre o “agro é pop”, fato que certamente contribui para enraizar um imaginário social relativamente distorcido.

Tarcísio enfrenta dilema e pode ser visto como capacho do bolsonarismo. Por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Ao se agarrar à anistia de Bolsonaro, governador arrisca perder a imagem de moderação essencial ao seu futuro político

O governador de São Paulo dedicou a última semana a se apresentar como defensor e articulador da anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tarcísio de Freitas (Republicanos) não conseguiu o endosso do ex-presidente antes de sua prisão domiciliar e não possui registros em áudio e vídeo que possa utilizar na campanha de 2026. Mais do que isso, sabe que Bolsonaro e sua família não são conhecidos pela fidelidade aos aliados políticos.

Ainda assim, o carioca que governa São Paulo acredita que precisa provar ao ex-presidente, sua família e, sobretudo, aos eleitores mais fiéis dessa turma sua lealdade. Essa aposta pode ser um erro.

Tarcísio abraça bolsonarismo radical e antecipa campanha de extremos. Por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Governador arrisca eleitorado centrista; Lula burila discurso dos 'traidores da pátria'

A 393 dias do primeiro turno da eleição presidencial de 2026, a campanha pela sucessão de Lula (PT) começou em grande estilo neste 7 de Setembro, data que nos últimos anos carregava forte sotaque golpista da era de Jair Bolsonaro (PL) no poder.

Em Brasília, o atual mandatário aproveitou para burilar a retórica dos "traidores da pátria", uma referência à campanha do clã Bolsonaro para que Donald Trump ataque o Brasil na esperança de melar o julgamento do seu patriarca pelo Supremo Tribunal Federal.

Já no pronunciamento da véspera, o tema de campanha que alude à soberania nacional foi repisado pelo petista. É um discurso eficaz, embora seja incerto em termos de prazo de validade —noves fora o fato de que governos têm de entregar à população, e Lula segue sendo mais mal do que bem avaliado.

A pouco mais de mil quilômetros dali, horas depois, a manifestação da direita bolsonarista na avenida Paulista apresentava as armas do outro lado, temperadas pelas lágrimas de uma Michelle Bolsonaro em modo pregadora.

Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro. Por Sidônio Palmeira

Folha de S. Paulo

Novo lema é um compromisso assentado em três pilares: a defesa do país, a luta contra os privilégios dos super-ricos e o cuidado com as pessoas

Ao apresentar seu novo lema de comunicação, o governo do Brasil realiza a síntese de uma história em construção e de um legado renovado, que aponta para o futuro. Aqui, peço uma pausa em forma de proposta: que os brasileiros passem a chamar o governo federal de governo do Brasil. Esse é o pontapé inicial dessa síntese. Pode parecer pouco, mas é muito.

É preencher de sentido aquilo que somos em essência. Mais do que apenas uma Federação, nos identificamos como nação, o "povo brasileiro", como escreveu o antropólogo Darcy Ribeiro. É a partir do governo do Brasil que se apresenta o passo à frente, com uma posição que vai além da simples coalizão.

Existem democracias consolidadas? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo  

O debate sobre a transição e a consolidação de regimes democráticos opõe pessimistas e otimistas

As democracias se consolidam ao longo do tempo? O debate sobre transição e consolidação democrática nas décadas de 1980 e 1990, no contexto da chamada terceira onda da democracia, opôs visões otimistas e pessimistas. Os primeiros, inspirados pela noção de fim da história, sustentavam que a democratização era inexorável e irreversível, impulsionada pela elevação generalizada da renda e pela expansão dos mercados em escala global.

Os pessimistas alertavam que nada garantia a perpetuação da democracia. Entre eles, Przeworski que, no entanto, estimou que a probabilidade de derrocada da democracia nos EUA era de 1 em 1,8 milhão. Seu ceticismo derivava da concepção da estabilidade democrática como um equilíbrio autoimposto, no qual a estratégia dominante dos atores é seguir as regras do jogo democrático. Trata-se, porém, de um equilíbrio instável: mantém-se apenas quando os stakes do jogo não são excessivamente altos e os ganhos sob a democracia superam os de uma alternativa autoritária. Para Przeworski, a leitura dominante da transição como um "pacto" entre elites era excessivamente ingênua.

Gilmar Mendes rebate Tarcísio após ataque a Moraes: 'O que o Brasil não aguenta mais são tentativas de golpe'

Por g1 

Brasília - Sem mencionar governador de SP, ministro afirmou que colegas não agem como 'tiranos' e que a Corte tem 'cumprido seu papel'. Apoiadores de Jair Bolsonaro foram às ruas em defesa da anistia e com críticas ao STF.

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, rebateu neste domingo (7) críticas à atuação da Corte.

Em publicação nas redes sociais, Gilmar afirmou que não há uma "ditadura da toga" e que ministros da Corte não agem como "tiranos".

Gilmar Mendes foi às redes horas depois de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fazer críticas ao ministro do STF Alexandre de Moraes e associá-lo à "tirania".

Ao discursar durante um ato pró-anistia na avenida Paulista, Tarcísio afirmou que "ninguém aguenta mais a tirania" de Moraes, relator de processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Gleisi critica bolsonaristas por uso de bandeira dos EUA em ato de 7 de Setembro

Por Bruna Lessa / O Globo

Em São Paulo, apoiadores de Bolsonaro levam 42,2 mil às ruas

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou neste domingo apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro que exibiram bandeiras dos Estados Unidos durante manifestações em defesa de anistia ao ex-mandatário.

— Essa é a nossa diferença com os bolsonaristas: batemos continência para a bandeira brasileira. Exaltamos a bandeira do Brasil, do povo brasileiro — escreveu a ministra em publicação nas redes sociais.

As críticas ocorreram no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do desfile de 7 de Setembro em Brasília, marcado pela ênfase na soberania nacional. Neste ano, a Esplanada dos Ministérios foi decorada com o slogan “Brasil Soberano”, e o governo buscou reforçar a imagem de independência diante do tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos.

Ao lado de Michelle, Tarcísio critica 'tirania de Moraes', e pede anistia: 'deixa Bolsonaro ir pra urna, qual o problema?'

Por Hyndara Freitas e Sérgio Quintella / O Globo

Governador de São Paulo pediu que Hugo Motta paute o projeto de anistia 'ampla e irrestrita', criticou STF e disse que não há 'nenhuma prova' ligando ex-presidente aos atos golpistas

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou, neste domingo (7), que "ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Alexandre de Moraes", disse que não há "nenhuma prova" ligando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e pediu que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, paute a anistia. Motta é do mesmo partido de Tarcísio

A fala foi feita durante discurso em ato na Avenida Paulista, que foi convocado por lideranças da direita em defesa do ex-presidente e da anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O governador clamou por "Bolsonaro nas urnas" e voltou a dizer que seu padrinho político, que está inelegível, "é o único candidato".

Tarcísio critica STF e pede aprovação de anistia ‘ampla e irrestrita’ durante ato na Paulista

Por Pedro Augusto Figueiredo, Daniel Weterman e Pepita Ortega / O Estado de S. Paulo

Junto com outros políticos, governador de São Paulo diz que não aceitará que um ditador “paute o que devemos fazer”, em referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes

Manifestantes ocuparam parte da Avenida Paulista, em São Paulo, para defenderem, mais uma vez o projeto de anistia que poderá beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros envolvidos na trama golpista. Políticos que participaram do ato, na tarde deste domingo, 7, atacaram o ministro do STF Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e cobraram que o projeto de perdão seja votado imediatamente pelo Congresso Nacional.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu a aprovação de uma anistia “ampla e irrestrita” e pediu para que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos) paute o projeto.

Tarcísio cobra anistia, pressiona Motta, ataca STF e chama Moraes de ditador e tirano

Arthur Guimarães de Oliveira e Gustavo Zeitel / Folha de S. Paulo

Governador está na linha de frente das articulações pela anistia e já discute vice para 2026

São Paulo - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu neste domingo (7), durante ato bolsonarista na avenida Paulista, uma anistia "ampla e irrestrita", disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve ser autorizado a ser candidato em 2026 e que pode ser condenado sem nenhuma prova.

Tarcísio pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar o projeto sobre anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e disse que o STF (Supremo Tribunal Federal) julga "um crime que não existiu".

O governador paulista disse que o julgamento não é justo, voltou a falar em "narrativas", fez críticas a Alexandre de Moraes e mandou indiretas ao STF. Disse ainda que a delação de Mauro Cid ocorreu sob coação e que a colaboração é mentirosa.

"Não vamos aceitar a ditadura de um Poder sobre o outro. Chega", disse em recado ao Supremo. "Não vamos aceitar que nenhum ditador diga o que temos que fazer."