segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Zygmunt Bauman*

“Se Marx e Engels escrevessem o Manifesto Comunista hoje, teriam de substituir a célebre frase inicial – “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo” – pela seguinte: “Um espectro ronda o planeta – o espectro da indignação”. Esse novo espectro comprova a novidade de nossa situação em relação ao ano de 1848, quando Marx e Engels publicaram o Manifesto. Falta-nos precedentes históricos para aprender com os protestos de massa e seguir adiante. Ainda estamos tateando no escuro.”

*Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês, “Vivemos o fim do futuro”. Entrevista à revista Época, nº 819, 10 de fevereiro de 2014.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ao atacar ditador da Venezuela, Trump pode entrar em atoleiro

Por Valor Econômico

Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999

Não há dúvidas de que Nicolás Maduro era um líder autoritário e corrupto, cuja violenta repressão provocou o êxodo de cerca de 20% da população venezuelana desde 2014. Porém, ao ordenar o ataque à Venezuela para capturar e sequestrar o ditador e sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos EUA, Donald Trump, cometeu um crime de agressão sob o direito internacional — um país não pode atacar outro salvo em legítima defesa contra uma agressão sofrida ou por aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo sob a lei americana, Trump violou a constituição ao não buscar o aval do Congresso para a ação militar — se os EUA ainda fossem um país que levasse isso a sério, a ação poderia suscitar o impeachment do presidente. E em um drástico afastamento de sua bandeira contrária a intervenções no exterior, Trump declarou que os EUA iriam “governar” a Venezuela até uma “transição segura” de poder e que iriam controlar a produção de petróleo do país — arriscando ficar preso em um atoleiro traiçoeiro, assim como o russo Vladimir Putin está há quase quatro anos na Ucrânia.

Entrevista | Ricupero: Esperar resposta internacional ao ataque contra a Venezuela é ilusão

Por Leonardo Miazzo / CartaCapital

Com Brasil de mãos atadas, China pragmática e ONU sem ação, Trump pode obter ganhos internos às custas de um precedente perigoso na América Latina

Não há qualquer possibilidade de resposta concreta da comunidade internacional ou de organismos multilaterais à agressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela. A avaliação é de Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil em Washington, em entrevista a CartaCapital.

Com passagens pelos ministério da Fazenda e do Meio Ambiente e pela Secretaria-Geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Ricupero afirmou que as declarações de líderes internacionais sobre o ataque buscam apenas reforçar a defesa de princípios do direito, sem qualquer efetividade.

O peso das eleições e do cenário externo para o câmbio em 2026. Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

A expectativa é de que o dólar terminará o ano na casa de R$ 5,50, mas incertezas sobre as contas públicas poderão pressionar o real

O comportamento do câmbio terá um papel muito importante para a economia em 2026, um ano eleitoral, com um ciclo de queda de juros já encomendado. A expectativa dominante hoje é de que o dólar terminará o ano na casa de R$ 5,50, próximo do nível de fechamento do ano passado, mas incertezas sobre as contas públicas, que dependerão em parte das perspectivas para o pleito presidencial, poderão pressionar o real e provocar volatilidade no mercado.

Além disso, o desempenho global do dólar será essencial para o rumo do câmbio por aqui - no ano passado, houve um recuo de quase 10%, segundo o índice DXY, que mede o valor da moeda americana em relação a seis divisas (euro, iene, libra, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço). Para 2026, a aposta é de alguma desvalorização adicional do dólar, num cenário de corte dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Um quadro mundial marcado por vários pontos de tensão, como a invasão dos EUA à Venezuela, também pode trazer instabilidade ao mercado de câmbio no Brasil.

A disputa pela hegemonia global. Por Adalmir A. Marquetti

Valor Econômico

A questão é se os países conseguirão administrar os conflitos inerentes dessa disputa

A ordem internacional desenhada sob a hegemonia incontestável dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais no pós-Guerra Fria está desaparecendo. Vivemos um período de intensa disputa hegemônica, no qual o conflito se manifesta em múltiplas frentes: econômica, tecnológica, geoestratégica, e, com o risco real de escalada para o confronto militar.

Ação reitera objetivo de Trump de um mundo sem lei. Por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

O ataque americano reafirma um padrão de comportamento de Trump de ignorar leis, acordos e normas internacionais, o que em outros presidentes era uma exceção

O principal argumento em favor da captura de Nicolás Maduro é que, ainda que os EUA tenham violado a carta da ONU com a agressão militar, tanto a Venezuela como a região estarão melhor com uma mudança de regime e uma eventual redemocratização do país. Os fins justificariam os meios.

Seria algo semelhante ao que ocorreu no Panamá em 1989, quando uma invasão dos EUA derrubou a ditadura de Manuel Noriega. O Panamá desde então tem sido uma democracia e um dos países que mais crescem no continente.

Trump agora é o dono da Venezuela. Por Edward Luce

Financial Time / Valor Econômico

Em termos de operações militares, o sequestro de Nicolás Maduro pelos EUA foi impecável. Mas a história de Donald Trump com a Venezuela está apenas começando. Tendo deposto seu líder, Trump agora assume com entusiasmo as consequências. “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, disse ele algumas horas depois. Em outras palavras, Trump se converteu à mudança de regime. O que acontecer na Venezuela daqui para frente será de sua responsabilidade.

Risco da democracia por intervenção. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Nem toda queda de ditador, como no caso de Maduro, fortalece a democracia

O grande receio de um autocrata personalista é sempre o mesmo: o de “perder a própria cabeça”. Maduro perdeu a oportunidade de negociar um ticket de saída quando se recusou a reconhecer sua derrota nas eleições presidenciais da Venezuela, contribuindo decisivamente para o colapso da democracia no país. Cometeu, assim, um erro recorrente entre ditadores: não saber quando iniciar uma transição pactuada e pacífica de poder.

Venezuela vive a era pós-Maduro. Por Demétrio Magnoli

O Globo

O chavismo crepuscular é odiado pela vasta maioria do povo

Exatos 36 anos depois de Manuel Noriega, Nicolás Maduro seguiu, algemado, para um tribunal dos Estados Unidos. A extração de Noriega exigiu uma invasão militar americana que deixou centenas de mortos, enquanto a captura de Maduro solicitou apenas uma operação cinematográfica de comandos coberta por bombardeios de alvos militares. É prova de que o autodenominado “regime cívico-militar-policial” venezuelano só sabia reprimir civis.

Relações impróprias de magistrados. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O caso Master coloca na mesa questões cruciais como as relações de ministros do STF e escritórios de advocacia de parentes

Chama a atenção uma frase curta numa das notas em que o ministro Alexandre de Moraes nega ter mantido conversas sobre o caso Master com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Diz a frase: “Por fim, (o ministro) esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central.”

Viviane Barci de Moraes, titular do escritório, não fez qualquer declaração sobre suas atividades nesse caso, desde que a colunista Malu Gaspar revelou a existência de um contrato milionário com o Banco Master. De amplo alcance, o contrato previa atuação junto a várias instituições, incluindo o Banco Central.

Como transformar raiva em projeto. Por Preto Zezé

O Globo

Desafio de 2026 exige a coragem de transformar o sonho solitário do ‘eu, CEO’ na esperança coletiva de um ‘nós, nação’

O Brasil chega a 2026 com um paradoxo escancarado. A economia não quebrou, o desemprego caiu, mas o país segue emocionalmente exausto. Tristeza, cansaço e medo viraram sentimentos políticos dominantes. Não é crise de número. É crise de sentido.

João roda de aplicativo. Maria vive de Pix. Lucas vende promessa digital. São personagens diferentes, mas presos ao mesmo enredo: o corre solitário. Cada um tentando vencer sozinho num país que parou de oferecer chão coletivo. João acredita que o Estado só atrapalha. Maria sonha em “estourar” nas redes. Lucas vende mindset como salvação individual. Nenhum deles é ignorante. Todos tentam sobreviver e sonhar dentro das regras que existem.

Edinho chama direita brasileira de submissa por aplaudir operação dos EUA na Venezuela

Por Catia Seabra / Folha de S. Paulo

Presidente do PT diz que ação militar americana na América do Sul 'abre precedente gravíssimo'

Petista ressalta que interesse dos EUA está na exploração de petróleo venezuelano

O presidente do PT, Edinho Silva, criticou neste sábado (3) integrantes da direita brasileira por comemorarem a intervenção do governo Trump na Venezuela e chamou de submissão os aplausos à operação militar em um país vizinho.

Edinho ressalta ainda que Donald Trump deixou claro, em entrevista, que seu interesse está na produção do petróleo, o que configura um precedente gravíssimo. Ele defende que o campo democrático brasileiro se una em defesa da democracia.

"Não dá para entender os aplausos da direita brasileira sobre o ocorrido na Venezuela, é muita submissão. É gravíssimo o governo Trump invadir um país só por conta das reservas de petróleo. O precedente é gravíssimo, é hora do campo democrático brasileiro se unir, a democracia tem que vencer, o conceito de soberania não pode ser derrotado", afirmou.

Editorial do NYT critica operação para capturar Maduro e questiona presidente Trump

Por O Globo

Publicação americana reconhece caráter autoritário de Maduro, mas afirma que captura do presidente venezuelano viola a Constituição dos EUA, o direito internacional e repete erros históricos

O New York Times criticou a escalada militar dos EUA contra a Venezuela e a captura do líder chavista, Nicolás Maduro, em um contundente editorial publicado neste sábado. Embora reconheça o caráter autoritário e repressivo do regime venezuelano, a publicação afirma que a operação anunciada pelo presidente americano, Donald Trump, é ilegal à luz da Constituição dos EUA e do direito internacional, e alerta que a iniciativa repete erros históricos da política externa do país, arriscando aprofundar ainda mais a instabilidade na região.

Reunião extraordinária da Celac sobre Venezuela termina sem consenso e grupo não deve emitir comunicado

Por Beatriz Roscoe / Valor Econômico

O chanceler Mauro Vieira representou o Brasil no encontro, que aconteceu por videoconferência

A reunião extraordinária ministerial da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) convocada para discutir a situação na Venezuela após o ataque dos Estados Unidos terminou neste domingo (4) sem consenso dos 33 países da região, segundo apurou o Valor. Não será divulgado um comunicado conjunto do grupo.

Um grupo de países entendeu que não havia sentido em emitir uma posição conjunta da região. Também não foi tentado, durante o encontro, buscar um consenso do grupo, de acordo com uma fonte da diplomacia brasileira que acompanhou a reunião.

Por outro lado, os governos do Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai divulgaram hoje um comunicado conjunto em que condenaram as ações militares dos Estados Unidos na Venezuela. Também demonstraram preocupação diante de "qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou de apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos", numa crítica à fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que levaria petroleiras norte-americanas para controlar o petróleo na Venezuela.

Fascismo e irracionalidade. Por Ivan Alves Filho

O fascismo e suas variantes são uma preocupação constante para os democratas ao redor do mundo. Suas principais características estão presentes na política externa norte-americana e, também, no populismo latino-americano.

Tanto Donald Trump quanto Nicolás Maduro são exemplos perfeitos disso.

Refiro-me aqui às características do fascismo clássico italiano. São elas: nacionalismo exacerbado, irracionalidade, corporativismo sindical, conluio com o grande capital, presença do líder carismático, desprezo pelas instituições, demagogia recorrente, autoritarismo frequente e corrupção sistêmica. Um pacote completo, logo se vê.  

Poesia | O Apanhador de Desperdícios, de Manoel de Barros

 

Música | Nara Leão - O Galo Cantou na Serra (Luiz Cláudio e Guimarães Rosa)

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Zygmunt Bauman

“Nós nos acostumamos a encarar o ser humano apenas como unidade estatística. Não ficamos chocados ao vermos indivíduos como força de trabalho. O poder de compra de uma sociedade ou a capacidade de consumo tornaram-se critérios cruciais para se avaliar o grau de adequação de um país para se associar ao clube do poder, ao qual aplicamos os sonoros títulos de várias organizações internacionais. A questão de saber se você é uma democracia só se torna relevante quando você não tem nenhum poder e, portanto, deve ser controlado por meio de varetas retóricas ou políticas. Se você é rico em petróleo ou pode consumir ou investir muito, isso o absolve de suas falhas em respeitar a política e as sensibilidades morais modernas ou permanecer comprometido com as liberdades civis e os direitos humanos.”

*Zygmunt Bauman (1925-2017), Filósofo polonês, foi o grande pensador da modernidade e deixou uma vasta obra. ‘Mal líquido’, p.191. Editora Zahar, 2019.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirania de Maduro não justifica ataque de Trump

Por O Globo

Violação da soberania venezuelana estimula pretensões imperiais da Rússia sobre Ucrânia ou da China sobre Taiwan

Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro. Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um “padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual” dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.

Razões mais profundas. Por Merval Pereira

O Globo

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada por Trump para a intervenção militar na Venezuela.

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada hoje pelo presidente Trump para a intervenção militar na Venezuela. Embora o narcoterrorismo seja a base das acusações, a questão econômica foi defendida pelo governo americano como razão fundamental para a ação, desde a alegada compensação pela estatização do petróleo, radicalizada pelo governo Hugo Chávez nos anos 2000, até a necessidade de exploração petrolífera mais eficiente devido à politização da PDVSA, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

Ilusionismos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições na agenda, convém lembrar o poder de manipuladores de massas

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.

É o petróleo, estúpido!. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao justificar derrubada de Maduro, presidente diz que "tomará de volta" o que foi nacionalizado por Chávez

Durou pouco, quase nada, o teatro americano para justificar a intervenção militar na Venezuela. Donald Trump iniciou o pronunciamento de ontem com acusações antigas e não comprovadas de que Nicolás Maduro estaria por trás de um cartel “narcoterrorista”. Minutos depois, escancarou que seu interesse no país é outro. “Vamos tomar o petróleo de volta. Francamente, já deveríamos ter tomado há muito tempo”, declarou.

A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A cifra é estimada em 303 bilhões de barris, o que põe o país à frente de fundadores da Opep como Arábia Saudita e Irã. Por décadas, os recursos do subsolo venezuelano foram explorados por petroleiras dos EUA. Isso começou a mudar em 1976, com a criação da estatal PDVSA. E ficou para trás em 2009, com as nacionalizações de Hugo Chávez.

Lembrai-vos da ‘Pasta Rosa’. Por Elio Gaspari

O Globo

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas

A “Pasta Rosa” foi achada em 1995, no gabinete do banqueiro e ex-ministro Ângelo Calmon de Sá. Com oito centímetros de espessura, ela continha a escrituração do ervanário despejado pela federação dos bancos e pelo Banco Econômico nas últimas eleições à época. Era o sonho do investigador, a clientela da banca ia de Roberto Campos a Antônio Carlos Magalhães. Cerca de 50 políticos passavam pela pagadoria do Banco Econômico.

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas. Nos seus dias de fama, a Pasta Rosa parecia instruir uma faxina nas relações dos políticos com a banca. Ilusão democrática. Aos poucos, a Pasta Rosa foi sumindo do noticiário, até virar História.

O risco do ataque vai além de Caracas. Por Míriam Leitão

O Globo

Mantido por fraude e força militar, Maduro era indefensável, mas a arrogância imperialista de Trump é uma ameaça a qualquer país

Quando alguém se coloca como um poder incontrastável, como fez o presidente Donald Trump, todos estão em perigo. Ele ampliou suas ameaças para além de Nicolás Maduro, capturado. Falou de outros governos, inclusive democráticos. Não por acaso Trump, na entrevista que concedeu para falar do ataque militar à Venezuela, fez referências às cidades e aos estados americanos aos quais impôs o envio de forças federais. Ao falar do Congresso , ele disse não ter comunicado antecipadamente, porque eles “vazariam” a informação. A operação foi contra Maduro, mas a ameaça foi bem mais ampla.

Geopolítica da paz pela força. Por Cristina Soreanu Pecequilo

Correio Braziliense

A Venezuela é um pivô para o efeito demonstrativo da contrarreação dos Estados Unidos à presença da China e de seu projeto da Iniciativa do Cinturão e da Rota (ICR) na América Latina

Em 3 de Janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma intervenção militar na Venezuela, retirando do poder e prendendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores. Após meses de deslocamento de embarcações dos Estados Unidos ao Caribe e ações militares marítimas, a operação chegou a termo. Sob acusações de patrocinar o narcotráfico e o terrorismo internacional (o narcoterrorismo), Maduro e Flores seguiram para os Estados Unidos em uma embarcação norte-americana, para enfrentar julgamento. Como compreender essa intervenção? Existem projeções possíveis?

Southern Spear e a Lei da Selva. Por Gunther Rudzit

Correio Braziliense

Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como precedente

A entrevista concedida por membros do governo de Donald Trump, incluindo o próprio presidente, após a operação militar denominada Southern Spear, foi decisiva para compreender o que tende a vir pela frente no sistema internacional e, em especial, no hemisfério ocidental. Mais do que esclarecer detalhes operacionais, o discurso oficial funcionou como mensagem estratégica, dirigida tanto a aliados quanto a adversários.

O Tio Sam está de volta! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no país e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.

Invasão à Venezuela impõe nova era à América do Sul. Por Lucas Pereira Rezende

Folha de S. Paulo

Para o Brasil, fica claro que não será aceito o papel de mediador em questões locais prioritárias para Trump, prejudicando sua liderança regional

Não existe mais em Washington qualquer visão sobre democracia liberal; é a política do poder em sua pura expressão

Muda-se tudo na política sul-americana a partir dos fatos ocorridos neste sábado (3). Mas, mais do que isso, muda-se mais ainda no xadrez da política internacional.

Donald Trump, com a invasão à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, ambos ilegais sob quaisquer legislações que se escolha, e independentemente do quão urgente fosse o fim do regime autoritário venezuelano, já tem uma guerra —e uma vitória— para chamar de sua.

Minhas regras para a eleição de 2026. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aconselho não dar ouvidos a ninguém que não as respeite na campanha deste ano

Proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha

Graças ao fracasso do bolsonarismo na eleição de 2022, ao fracasso do bolsonarismo no golpe de 2022-2023, ao fracasso do bolsonarista Luiz Fux no STF e ao fracasso do bolsonarismo na tentativa de mobilizar Donald Trump contra a democracia brasileira, o Brasil terá eleições livres para presidente no final deste ano.

Nessa primeira coluna de 2026, proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha.

Uma instituição que se decompõe. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Câmara tornou-se instrumento de abolição dos valores republicanos em benefício de irmãos e parentes

Seres vivos e civilizações morrem, assim como regimes e instituições, incapazes de autorreflexão: elas não pensam, e sim os indivíduos que as compõem

Ao sancionar o Orçamento de 2026, o presidente da República sanciona também a obscena transição no poder do velho patrimonialismo clientelista para o tribalismo predatório e extrativista das novas gerações, atraídas por Bolsa e fortuna política, agora acoitadas no Parlamento. O império da desfaçatez não comporta uma ética da vergonha na cara: os cortes nas verbas da Capes e do CNPq foram redirecionados para completar os R$ 61,2 bilhões em emendas. Escândalo que passa batido.

As desventuras em série do clã Bolsonaro. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

'Seu Jair' e família colecionam perdas cavadas pelas próprias mãos e a poder de reiterados tiros nos pés

A presença do sobrenome na eleição presidencial seria o último refúgio dos campeões de danos autoinfligidos

Uma das várias questões em aberto sobre a eleição deste ano é se Flávio Bolsonaro (PL) manterá sua candidatura à Presidência da República. Outra diz respeito ao grau de influência do sobrenome do ex-presidente nas disputas país afora e uma terceira tem a ver com o volume de perdas que atingem a família e companhia.

O pai, preso sem chance por ora de cumprir pena em regime domiciliar e apontado nas pesquisas como responsável pelos próprios erros; o primogênito, alvo de enorme rejeição, arrisca-se a perder a renovação quase certa do mandato de senador pelo Rio de Janeiro.

Quem manda agora na Venezuela? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Trump disse que acertou transição com vice, Delcy Rodríguez, para quem a luta continua

Os subs de Maduro, Delcy, general Padrino e Cabello, continuavam no poder até sábado de tarde

Donald Trump diz que os EUA vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura, adequada e criteriosa". Trump entraria em um pântano tal qual Afeganistão e Iraque? Improvável, pois a base popular dele detesta a ideia, que de resto custaria caro.

Como seria, então? Trump disse apenas que Marco Rubio, seu secretário de Estado, ferrabrás da direita, havia conversado com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro, presidente-ditador até sexta passada (2). Faz sentido?

Importa, até para discutir consequências do ataque. Por ora, sabe-se que: 1) O império fora da lei de Trump levou Maduro; 2) Houve "recado", como disse Rubio: Trump "não está para brincadeira", alerta para outros governos, pelo menos para aqueles que não têm armas, como as têm China e Rússia; 3) A América Latina pode levar bomba como um Irã e deveria entrar na linha, indicam os americanos.

Poesia | O menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros

 

Música | Roda Viva - Chico Buarque

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas

“Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países..

Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.

Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.

Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.”

*Jürgen Habermas (1929), é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pente-fino nos CACs não precisava ter demorado tanto

Por O Globo

Na posse, Lula assinou decretos revogando armamentismo, mas até agora não conseguiu controlar arsenal

No dia de sua posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto revogando atos do governo Jair Bolsonaro que facilitavam o acesso a armas. Até agora, porém, três anos depois, o governo se revelou incapaz de reduzir o arsenal em poder da população. Cadastrados legalmente como colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) se tornaram uma das principais fontes de suprimento dos arsenais do crime organizado. Depois de uma demora injustificável, a Polícia Federal (PF) se prepara enfim para realizar um pente-fino no cadastro de 1,5 milhão de donos de armas que expiram em 2026. Já não era sem tempo.

Bolsonaro estava escrito nas estrelas? Por Thaís Oyama

O Globo

Consultas recentes mostram que ex-presidente expressa crenças, preocupações e ressentimentos de boa parte dos brasileiros

Em 2011, quase ninguém dava bola para Jair Bolsonaro. Desprezado pelos jornais, o deputado do baixo clero contentava-se em ser entrevistado em programas humorísticos e de auditório, cuja audiência ajudava a levantar com respostas do tipo: não, ele não participaria de uma parada gay, acreditava “em Deus e na preservação da família” e não tinha o hábito de promover “maus costumes”. Eram falas sem grandes consequências porque Bolsonaro não era levado a sério —tratava-se praticamente de um zé-ninguém.

E como um zé-ninguém continuava sendo visto por seus pares em Brasília e por boa parte da imprensa quando, no final de 2016, passou a ser recebido nos aeroportos do país por multidões que o carregavam nos ombros e o chamavam de “mito”. Em 2018, candidato a presidente, foi primeiro ridicularizado; depois, subestimado. Com o crescimento de seu nome, analistas entraram em negação. Era uma piada que logo perderia a graça. Uma bolha das redes. Um Cacareco que atingira seu teto.

Nas miudezas, a vida. Por Flávia Oliveira

O Globo

Luiz Antonio Simas, autodefinido como historiador das miudezas, estuda, escreve, ensina sobre foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, cordelistas, meninos descalços, goleiros frangueiros, romances de subúrbio. O rol está em “Pedrinhas miudinhas – Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros” (Mórula, 2013), que voltei a folhear pensando no meu próprio inventário de virada de ano.

O ano de 2026 promete. Por Eduardo Affonso

O Globo

Caso o código de conduta do STF não vingue, a saída pode ser um Supremíssimo, formado por ex-presidentes da Corte aposentados

O ano de 2025 terminou com o pé esquerdo — vide o cancelamento das sandálias que deformam a defesa da democracia, têm cheiro de irresponsabilidade fiscal e não soltam a mão de ninguém (só dos que ousam pensar de forma diferente). É como se os críticos do politicamente correto aprofundassem o gosto pela problematização e, em vez de enxergar racismo, machismo e homofobia em tudo, passassem a farejar viés ideológico. No lugar de Monteiro Lobato, os banidos em 2026 poderão ser Noel Rosa e Vadico — que, com inequívocas segundas intenções, alertaram, 90 anos atrás: Feche a porta da direita/com muito cuidado.

A divisão do tempo. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O primeiro dia do ano não revela nada além do que vinho e espumante permitem sonhar

Quem dividiu o tempo em parcelas trabalhou com muita inteligência. A cada vencimento de ano, as pessoas renovam esperanças na expectativa de que um novo tempo se inicia. Na verdade, o tempo é contínuo, homens e mulheres caminham irreversivelmente para o fim, coisa difícil de imaginar, perceber e sentir. Melhor não pensar nisso. Ficamos todos mais velhos com o simples andar do relógio. Meia-noite, novo tempo, nova idade e novas expectativas que se baseiam nas realidades anteriores. É melhor ter esperança do que se angustiar com a realidade.