terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Rubens Barbosa*: Prioridades da diplomacia nos primeiros cem dias

- O Estado de S.Paulo

Repetindo promessas de campanha, medidas de política externa não surgem como surpresa

De acordo com o texto que teria sido apresentado em reunião ministerial, as propostas feitas pelo ministro Ernesto Araújo para os primeiros cem dias do governo Bolsonaro foram:

1) Visita do presidente Bolsonaro aos EUA e lançamento das bases de Acordo de Parceria Brasil-EUA ou instrumento similar, que incluirá o lançamento de um acordo comercial, bem como entendimentos em segurança, tecnologia e defesa;

2) visita do presidente Bolsonaro a Israel, com a criação de parcerias em segurança, tecnologia e defesa;

3) início do processo e revisão do Mercosul para aperfeiçoamento de instrumentos favoráveis ao setor produtivo, redução tarifária e dinamização da agenda externa;

4) retorno ao modelo de passaporte com o Brasão da República;

5) implementar a isenção unilateral de vistos para cidadãos norte-americanos e canadenses;

6) realização de auditorias nas embaixadas brasileiras que possam ter sido instrumentos de desvios durante os governos do PT.

Repetindo promessas de campanha e declarações depois das eleições, as medidas não surgem como uma surpresa. São prioridades genéricas que precisam ser trabalhadas para que se transformem em diretrizes para a ação diplomática.

Andrea Jubé: O comandante na tropa de choque do Planalto

- Valor Econômico

Villas Bôas estará um lance de escadas acima de Bolsonaro

Num momento em que o presidente Jair Bolsonaro atravessa uma turbulência mais persistente do que o esperado para 22 dias de governo - a crise envolvendo as movimentações atípicas do primogênito Flávio Bolsonaro, o iminente envio da reforma da Previdência ao Congresso, a terceira cirurgia - uma das principais lideranças políticas chega ao Planalto para reforçar o seu time de conselheiros. Um líder político que, por ironia, veste farda.

O general Eduardo Villas Bôas transmitiu o comando do Exército há dez dias para o general Edson Pujol. Perdeu o posto, mas não a liderança. O gaúcho de Cruz Alta assume nos próximos dias um gabinete no quarto andar do Palácio do Planalto, um lance de escadas acima do gabinete presidencial. Longe do quartel, estará mais próximo do que nunca de Bolsonaro.

Os laços de confiança e lealdade entre ambos ficaram evidentes no dia 2, na posse do general Fernando Azevedo e Silva no Ministério da Defesa. Diante de uma plateia de oficiais das três Forças, Bolsonaro atribuiu sua vitória nas urnas ao general, e em tom solene, disse que levarão para o túmulo os segredos que trocaram: "o que nós já conversamos morrerá entre nós, o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui".

A leitura automática dessa declaração remonta à polêmica postagem de Villas Bôas em sua conta no Twitter, que constrangeu os ministros do Supremo Tribunal Federal na véspera do julgamento do "habeas corpus" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais". A mensagem mobilizou os mais de 400 mil seguidores na rede social e estremeceu os pilares da República.

Ranier Bragon: Só não vê quem não quer

- Folha de S. Paulo

É preciso muita candura para aceitar a tática do avestruz adotada pelo presidente

Todo governo em seu início é beneficiado pela chamada “lua de mel” de que fala a surrada metáfora conjugal. Mas é preciso muito amor no coração, muita candura de espírito para considerar plausíveis as (não) explicações dadas até agora por Jair Bolsonaro sobre o suspeitíssimo caso de seu filho Flávio e do ex-motorista deste, Fabrício Queiroz.

Adota-se até aqui a covarde estratégia de cortes dessa e de todas as épocas de empurrar para auxiliares em desgraça —incluindo filhos— a responsabilidade exclusiva por desatinos. A velha tática do avestruz, a de “eu não tenho nada a ver com isso”.

Perdoem-me os embevecidos pela lua de mel, mas infelizmente Jair tem muita coisa a ver com isso.

O presidente recebeu na conta da mulher, Michelle, R$ 24 mil de Queiroz. Também empregou no gabinete em Brasília uma filha desse motorista, que repassava quase todo o salário ao pai e cuja atividade identificável era a de personal trainer no Rio.

Alvaro Costa e Silva: Rachadinha

- Folha de S. Paulo

A operação política dos velhos e dos novos tempos

Mesmo em recesso, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro recusa-se a perder o protagonismo que desfrutou nos últimos anos, quando pela presidência da casa passaram Sérgio Cabral e Jorge Picciani, ambos presos. As atenções no momento estão voltadas para a farra de saques e depósitos na agência bancária que serve ao Palácio Tiradentes.

Haja digitação no caixa eletrônico. Os “rolos” de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro, começaram com R$ 1,2 milhão, movimentado entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, mas podem chegar a R$ 7 milhões em três anos. No período de um mês, em 2017, 48 depósitos, todos de R$ 2.000, em dinheiro, foram parar na conta de Flávio, na época deputado estadual. Segundo o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, não foi possível identificar o autor dos depósitos, mas estes foram realizados no autoatendimento da agência da Alerj. Bingo!

Outros 22 deputados chamaram a atenção do Coaf devido a atípicas movimentações de dinheiro envolvendo 74 servidores.

Hélio Schwartsman: O enigma venezuelano

- Folha de S. Paulo

Teoria do seletorado é um bom modelo para entender a persistência do ditador Nicolás Maduro

Por que Nicolás Maduro ainda não caiu? Motivos para defenestrá-lo é o que não falta. Nos últimos cinco anos, o PIB da Venezuela caiu 50%. Milhões de cidadãos já fugiram do país, que experimenta retrocesso em praticamente todos os indicadores sociais.

Um bom modelo para entender a persistência do ditador é a teoria do seletorado, proposta pelos cientistas políticos americanos Bruce Bueno de Mesquita, Alastair Smith, Randolph Siverson e James Morrow no início dos anos 2000.

O quarteto, nos passos de Maquiavel, recomenda que esqueçamos todo o blá-blá-blá em torno de interesse público, vontade geral etc. Do pior tirano ao mais convicto democrata, o objetivo principal de quem chega ao poder é manter-se no poder.

Para fazê-lo, precisa lidar com três grupos distintos: o seletorado nominal (cidadãos aptos a participar da escolha do dirigente), o seletorado real (os que de fato participam) e a coalizão vencedora (os que asseguram a vitória). Uma vez entronizado, o líder precisa pagar a coalizão para não ser derrubado.

Joel Pinheiro da Fonseca: O bicho-papão marxista

- Folha de S. Paulo

O marxismo cultural vai além da mera constatação da predominância da esquerda

“Marxismo cultural” é uma teoria da conspiração que visa a explicar e dar um sentido a um fato que, esse sim, existe e é problemático: o predomínio intolerante da esquerda em diversos âmbitos da cultura nacional.

Um ponto de partida de que poucos discordariam: em certos âmbitos da cultural —como universidades, órgãos de imprensa, artistas— há mais gente com visões que podem ser classificadas no amplo balaio de gatos da “esquerda”. Em muitas redações ou faculdades, os votos foram muito mais para políticos de esquerda.

O marxismo cultural vai além da mera constatação da predominância da esquerda: ele dá a ela o sentido de um projeto.

Ele postula que essa realidade é produto da ação concertada de alguns indivíduos que planejam, infiltrando-se nessas instituições, dominar o país e instaurar o comunismo ou algum outro regime que conjure imagens de pesadelo. Recupera o medo dos “bolcheviques” que estariam prestes a dominar a sociedade (tão bem manuseado pelo nazismo alemão).

Assim, um professor universitário que defenda o Acordo de Paris ou um jornalista que votou no PSOL não são pessoas —assim como você— navegando um oceano de opiniões e atitudes, mas agentes de uma agenda em comum que visa a destruição da família, da religião e da propriedade.

E mais: de uma agenda dotada do poder de moldar a cultura. Esse projeto é tramado nas mais altas esferas do poder e controla os rumos da sociedade, e portanto é maléfico por definição.

Quando vai para o terreno da história, a teoria é risível. Os autores da Escola de Frankfurt, que passaram suas vidas tentando ler um mundo que parecia esmagar suas crenças e seus ideais, sendo hostilizados inclusive por grande parte da esquerda de sua época, foram transformados em grandes engenheiros por trás da transformação da cultura.

Bernardo Mello Franco: Tal pai, tais filhos

- O Globo

Bolsonaro já foi aconselhado a manter os filhos longe do palácio. A ideia era evitar que as confusões do trio causassem desgaste para o governo

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que os rolos do primeiro-filho geram “algum problema familiar, mas não para o governo”. Será mesmo?

Mourão não é o único aliado que gostaria de ver os herdeiros de Bolsonaro longe do palácio. O desejo é compartilhado por outros integrantes do núcleo militar do governo. Os generais temem que confusões envolvendo Flávio, Carlos e Eduardo contaminem a administração de Jair. Por enquanto, não conseguiram ser ouvidos.

No desfile da posse, o vereador Carlos posou de guarda-costas do pai na garupa do Rolls-Royce presidencial. Não foi só um ato de exibicionismo. Para políticos que esperavam Bolsonaro no Congresso, o “02” quis mostrar que será uma eminência parda do novo governo.

Pelo que se viu até aqui, ele tinha razão. Na sexta passada, o UOL informou que Carlos já teve mais audiências com o presidente do que 18 dos 22 ministros. Embora não ocupe cargo em Brasília, ele participou da primeira reunião ministerial da “nova era”. Passou o encontro tuitando, enquanto os titulares de pastas tiveram que deixar os celulares fora da sala.

José Casado: Preso no labirinto

- O Globo

Aos 69 anos, Paulo Guedes, ministro da Economia, começa a desvelar na mesa do jogo de poder a sua maior aposta como ativista do liberalismo. Na gélida Davos, Suíça, apresentará o projeto de uma “frente única” de conservadores e liberais-democratas para um programa liberal no Brasil.

Num dos textos publicados no GLOBO no final de 2017, sugeriu o desmonte do “Leviatã moldado pelo nacionalismo estatizante do regime militar”. Na travessia do tempo, ressaltou, ele “acabou —quem diria —aparelhado pelos petistas”.

“Esse aparelho de Estado”, prosseguiu, “antes dirigido por uma tecnoburocracia administrativa de comando central com foco em infraestrutura, foi saqueado por grupos de interesse corporativo e partidos políticos desidratados pela concentração de recursos no governo central. O capitalismo de Estado dos militares tornou-se o capitalismo de quadrilhas dos social-democratas.”

Guedes seduziu um de seus leitores, Jair Bolsonaro, na época candidato à procura de uma ideia.

A eficácia política dessa ideia de uma “frente” de conservadores e liberais-democratas será testada em temas como a reforma da Previdência, a partir da segunda-feira, 4 de fevereiro. É quando o Congresso começa a decidir sobre os limites da ação governamental na desmontagem desse “legado” do regime militar.

Merval Pereira: Plebiscitário e minoritário

- O Globo

Governos minoritários e plebiscitários, como se desenha este, tendem a ter fôlego curto, alerta cientista político

A propósito da coluna de domingo, em que analiso a correlação de forças entre Executivo e Legislativo, com base em um pronunciamento do juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Antonin Scalia, o professor Walter Costa Porto, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, um dos melhores especialistas em legislação eleitoral, autor do livro “O Voto no Brasil”, relembrou um diálogo tirado de Saul K. Padover em “A Constituição Viva dos Estados Unidos”, entre George Washington e Thomas Jefferson, dois dos “pais fundadores” dos Estados Unidos.

Jefferson voltara de Paris quando, em uma manhã, à mesa com Washington, lhe perguntou por que havia favorecido o Senado na convenção.

- Por que, rebateu Washington, derramaste esse café no pires?

- Para esfriá-lo, explicou Jefferson.

- Muito bem, prosseguiu Washington, nós derramamos a legislação no pires senatorial para esfriá-lo.

Também o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas no Rio, analisou a fala de Scalia e considera que ela não pode ser usada em relação à situação brasileira, já que, diferentemente dos EUA, o presidencialismo brasileiro opera em um ambiente multipartidário e, nos últimos anos, hiper-fragmentado. Embora tenha, como elogia Scalia em relação aos Estados Unidos, duas Casas Legislativas fortes.

Além disso, ressalta Pereira, “com um Executivo extremamente poderoso, também diferente do caso americano, onde o presidente é constitucionalmente fraco”. Quando o presidente americano tem a sorte de sair das urnas com seu partido ocupando a maioria de cadeiras nas duas casas legislativas, o sistema opera de forma muito similar ao parlamentarismo europeu, sem separação de poderes e, portanto, sem gridlocks (impasses).

Os “problemas” (ou virtudes, para Scalia) aconteceriam apenas nas situações de governo dividido, quando o partido do presidente não desfruta de maioria em uma (situação atual) ou nas duas casas legislativas. Para Carlos Pereira, o multipartidarismo opera como um controle endógeno de um Executivo constitucionalmente forte, mas ao mesmo tempo minoritário no Legislativo, o que o obriga a montar e a gerenciar coalizões multipartidárias pós-eleitorais se quiser governar.

Daí porque, sem “moedas-de-troca” capazes de gerar ganhos mútuos para o Executivo e o Legislativo, os riscos de gridlocks (impasse) quase que seriam permanentes, inviabilizando assim o funcionamento virtuoso do jogo.

Luiz Carlos Azedo: A confiança no Brasil

- Correio Braziliense / Estado de Minas

“Bolsonaro procura reposicionar o governo brasileiro no exterior. Não é uma tarefa fácil”

O presidente Jair Bolsonaro, ontem, em Davos, numa entrevista quebra-queixo para jornalistas brasileiros, disse que sua passagem pelo Fórum Econômico Mundial tem objetivo de restabelecer a confiança dos agentes econômicos no Brasil. “Queremos mostrar, via nossos ministros, que o Brasil está tomando medidas para que o mundo restabeleça a confiança em nós, que os negócios voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem o viés ideológico, que nós podemos ser um país seguro para investimentos. E, em especial, a questão do agronegócio, que é muito importante para nós, é a nossa commodity mais cara. Queremos ampliar esse tipo de comércio.”

O discurso de Bolsonaro foi discutido por sua equipe de governo, representada em Davos pelos ministros Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Paulo Guedes (Economia), Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também integra a comitiva para Davos, enquanto o irmão senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), continua ardendo na fogueira do caso Queiroz aqui no Brasil. O Fórum Econômico Mundial começa hoje e vai até sexta-feira, com previsão de uma redução de crescimento mundial, segundo anunciou a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde.

Os indicadores de crescimento de 2018 apontam para uma retração da economia mundial, que pode resultar numa grande recessão se suas causas não forem revertidas. Disputas comerciais entre as maiores economias do mundo, dívidas e eventos climáticos extremos (olha o aquecimento global aí, gente!) são alguns dos principais riscos previstos. A China teve seu pior índice de crescimento em 28 anos: no ano passado, a expansão do PIB chinês foi de apenas 6,6%; em 2019, será de 6,3%. A expansão induzida pelos incentivos fiscais nos Estados Unidos está se esgotando: a taxa de crescimento do PIB será de 2,5% em 2019 e apenas 2%, em 2020. Na Europa, a projeção é de uma expansão de 2% em 2019. Para 2019 e 2020, o crescimento global previsto pela ONU é de 3%, abaixo da taxa de 3,1% em 2018.

Ana Carla Abrão: A roda que gira

- O Estado de S. Paulo

Fronteiras antes tão bem definidas desaparecem em produtos e serviços financeiros

Regulação financeira era, até outro dia, sinônimo de imposição de requerimentos de capital e de controles de liquidez e solvência. Além disso, compunham o pacote tradicional, autorizações de funcionamento com critérios mínimos rigorosos; regras estritas de atuação para grandes conglomerados financeiros; e controles e colchões contra riscos operacionais, de crédito, ou de mercado. Recentemente, evoluiu-se para adicionar planos e fundos de resolução bancária, dando um passo adiante em relação aos sistemas de seguro-depósito, por definição mais limitados na contenção de crises financeiras sistêmicas.

Agora a regulação financeira enfrenta novos desafios e busca se adaptar aos novos tempos. Enquanto a crise de 2008 foi esvanecendo – e preenchendo todo o foco regulatório –, outros modelos de negócio surgiram, definindo um novo ecossistema financeiro. Padrões foram mudados, novos serviços e produtos passaram a ser ofertados e novas expectativas passaram a ditar as regras, numa disrupção que tem na relação com o consumidor o seu principal ponto de quebra.

Novas tecnologias abriram espaço para que as Bigtechs, como Amazon e Google, ou empresas como a Apple, alterassem padrões e impulsionassem mudanças de comportamento nas pessoas. Mas, acima de tudo, determinaram uma nova forma de se relacionar com um consumidor cada vez mais independente, exigente e muito ciente de suas escolhas.

Daniela Chiaretti: Clima: governo tem poucas ideias. E confusas

- Valor Econômico

Nenhum país pode sair do Acordo de Paris antes de 2020

Há 30 anos um amigo jornalista ouviu de seu primeiro editor, ao entregar o primeiro texto de sua vida profissional, a seguinte avaliação: "Suas ideias são poucas, porém confusas". A frase cômica se aplica tristemente ao reordenamento feito pelo governo do presidente Jair Bolsonaro no tópico "mudança do clima" nos ministérios pertinentes. Se há algum clima (com o perdão do trocadilho) nas pastas que eram protagonistas do assunto, a de Meio Ambiente (MMA) e a das Relações Exteriores, é o de "barata-voa". São só 22 dias de governo, é verdade, mas por enquanto reina o caos.

Caso esses ministérios tenham agora alguma atribuição verdadeira em termos de mudança climática, o tópico foi bem escondido no organograma que reestruturou o governo. O que era uma forte prioridade nas duas pastas foi enxugado, disperso e relegado a um plano indefinido. A Secretaria de Mudança do Clima e Florestas era a maior do MMA, com 140 pessoas. Produziu planos nacionais de adaptação aos impactos climáticos e levava adiante políticas de combate ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Agora, ninguém sabe, ninguém viu. No Itamaraty, que tinha um formidável time de negociadores climáticos e uma subsecretaria para lidar com o tema, o assunto foi pendurado em algum lugar da recém-criada Secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania. Imagina-se que esteja em "proteção da atmosfera".

Esse redesenho traduz desinformação, ideologia e uma inevitável dose de risco à economia e à segurança do país. As declarações de "saio-e-fico" do presidente Jair Bolsonaro sobre a permanência ou não do país no Acordo de Paris, iniciadas durante a campanha e repetidas por integrantes do governo, ilustram esses equívocos.

Míriam Leitão: Sem os estados, reforma ineficaz

- O Globo

Por Alvaro Gribel
(*A colunista está de férias)

Quem alerta é o economista Paulo Tafner, autor de uma das propostas de reforma que está sobre a mesa do governo Bolsonaro. Sem equacionar a previdência dos estados e municípios, uma reforma dura da União será praticamente inócua. Apesar da romaria de governadores com pires na mão a Brasília, Tafner avalia que o problema está tendo a abordagem errada: “Só elevar alíquota de contribuição de 11% para 14%, como fez a prefeitura de São Paulo, é pouco, não resolve. É preciso tirar a previdência do Orçamento, fazer cálculos atuariais e permitir a cobrança extra para ativos e inativos. É muito mais amplo e profundo”, explicou.

Risco não precificado
Tafner diz que até mesmo na conversa com economistas do mercado financeiro a gravidade do problema não está inteiramente precificada. “Não adianta somente resolver a crise fiscal da União, porque os principais serviços públicos são oferecidos pelas prefeituras e pelos estados. E não existe cenário de a União ir bem e o resto ir mal. É preciso que isso esteja no projeto do governo”, afirmou. O economista já alertou a equipe de Paulo Guedes, mas quem vai definir a abrangência final da reforma será o presidente Jair Bolsonaro. Ontem, Goiás foi o sétimo estado a decretar calamidade financeira.

Davos ajuda Guedes
Na queda de braço interna pela reforma da Previdência, a ida de Bolsonaro a Davos vem em boa hora para o ministro da Economia, Paulo Guedes. Isso porque o presidente fará um discurso para impressionar investidores internacionais e pegará mal chegar ao Brasil e desidratar a proposta da equipe econômica. Dentro do governo, Guedes quer uma reforma mais forte e rápida, enquanto o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e o próprio presidente entendem que um texto mais leve terá mais chance de aprovação.

Governo sem coalizão
O desgaste sobre o governo provocado pela movimentação financeira de Flávio Bolsonaro ainda é incerto, mas o cientista político Carlos Pereira, professor titular da FGV no Rio, avalia que a estratégia de demonizar as coalizões terá um custo político elevado para o presidente agora: “A coalizão serve não só para você aprovar, mas também para vetar agendas que vão trazer desgaste. Vai ser muito difícil ele impedir investigação sobre o seu filho. Bolsonaro pode se tornar vulnerável mais cedo, por não ter negociado apoio formal no Congresso”, disse.

Huck diz que aceita dialogar com Bolsonaro

Por Assis Moreira | Valor Econômico

DAVOS - "Se for convidado, lógico que vou conversar com Bolsonaro, o momento é para dialogar", diz o apresentador e empresário Luciano Huck. Ele considera necessário fazer o máximo para "cicatrizar as feridas abertas, porque o país saiu machucado" da campanha eleitoral do ano passado.

Em entrevista ao Valor, antes de chegar a Davos, Huck deixou claro que está decidido a participar mais ativamente do processo político daqui para a frente. "Se não construirmos pontes, vamos continuar com um país dividido, polarizado, nervoso, não aberto ao diálogo, e isso é ruim", diz. Para ele, o governo Bolsonaro está aberto ao diálogo.

A vinda de Huck a Davos ocorre no rastro da criação pelo fórum de um grupo de novas lideranças latino-americanas comprometidas com ética, eficiência e redução das desigualdades.

Huck vê país 'machucado' e afirma estar aberto a diálogo com presidente
"Se for convidado, lógico que vou conversar com Bolsonaro, o momento é para dialogar." É o que afirma o apresentador e empresário Luciano Huck, estimando ser necessário se fazer o máximo para "cicatrizar as feridas abertas, porque o país saiu machucado" da campanha eleitoral.

Em entrevista ao Valor, antes de chegar a Davos para participar pela primeira vez do Fórum Econômico Mundial, Huck deixou claro que está decidido a participar do processo político mais ativamente daqui para a frente.

"Se não construirmos pontes, vamos continuar com um país dividido, polarizado, nervoso, não aberto ao diálogo, e isso é ruim para o país como um todo", diz ele. "Temos que parar de reclamar e começar a apontar caminhos, discutir, colocar a mão na massa, e isso exige descer do palco e dialogar."

Davos e a sustentabilidade

Por Marina Grossi* | Valor Econômico

A sustentabilidade é importante para os países obterem melhores posições na nova geopolítica global

O ano de 2019 chegou com vários desafios, inúmeros questionamentos e uma certeza: chegaram ao fim os dias em que as empresas e governos poderiam pensar apenas em termos de seus resultados, sem avaliar causas e consequências socioambientais. Mais que isso, os próprios resultados agora dependem diretamente dessa variável. E a situação não é diferente para o poder público ou para a sociedade civil. A questão da sustentabilidade transcende o mundo acadêmico, invade sem cerimônia as principais salas de reunião de executivos, além de ser uma variável competitiva para os países conquistarem melhores posições na nova geopolítica global.

As empresas já perceberam valor nisso e investem. Estudo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lançado no final de 2018, apontou que suas empresas associadas investiram US$ 85,8 bilhões nos últimos dois anos em medidas que contribuem para a redução de emissões de suas unidades de produção. A maior parte envolveu o uso de tecnologias de eficiência energética, otimização de processos e busca por fontes energéticas de baixo carbono. Juntos, esses projetos foram responsáveis pela redução de 212,1 milhões de tCO2 e no período, o que corresponde a um volume equivalente a 27% da meta total de redução assumida pelo Brasil no Acordo de Paris até 2025.

Sustentabilidade é hoje sinônimo de bons negócios no mundo empresarial e também no político. A boa notícia é que no caso do Brasil já saímos na frente em relação aos outros países. Não só temos ativos ambientais ímpares, como podemos utilizar a própria preservação das nossas florestas como variável de competitividade, tornando-as modelos para o mundo todo, com técnicas avançadas de manejo, já comuns por aqui e pouco conhecidas lá fora. Além disso, temos energias renováveis em abundância e cada vez com custo menor e mais competitivo, sem exigir subsídios e oferecendo oportunidades inúmeras de investimentos.

Por isso mesmo há uma atenção especial à primeira viagem e primeiro pronunciamento internacional do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, na Suíça. Ele estará entre três mil tomadores de decisões da política, negócios e ciência. Ao lado do seu superministro da economia, Paulo Guedes, desperta curiosidade sobre o que terá a dizer em relação a políticas de desenvolvimento sustentável do país, cumprimento do Acordo de Paris, combate ao desmatamento e ampliação da exploração da rica biodiversidade nacional.

Roberto Freire: Levante contra Maduro é sinal de que ruptura na base militar do regime tende a crescer

-Portal do PPS

O presidente do PPS, Roberto Freire, disse em sua conta no microblog Twitter que a prisão de militares venezuelanos que se sublevaram contra o presidente Nicolás Maduro, nesta segunda-feira (21), na região de Cotiza, é sinal da crescente dificuldade política do regime ditatorial chavista.

“Apesar da prisão dos militares sublevados venezuelanos contra a ditadura de Maduro, o fato de ter ocorrido o levante é sinal de que a fratura que começa a surgir na base militar do regime ditatorial tenderá a crescer”, avaliou.

Freire disse não ser possível imaginar uma solução para o impasse na Venezuela com intervenção internacional. Para o presidente do PPS, a superação da grave crise enfrentada pelo País deve ser encontrada pelo próprios venezuelanos, diante do conflito da “dualidade de poder” no País.

“Conflito aberto na dualidade de poder na Venezuela. De um lado a ditadura de Maduro ainda forte mas em processo de isolamento. De outro a AN [Assembleia Nacional] forte no exterior e num crescente apoio interno”, escreveu Freire em outro post na rede social, ao comentar decisão do TSJ (Tribunal Supremo de Justiça), nesta segunda-feira (21), de considerar inconstitucional a cerimônia de posse do novo Conselho de Administração da AN.

Teresa Cristina - Lavoura

Carlos Pena Filho: A palavra

Navegador de bruma e de incerteza,
Humilde me convoco e visto audácia
E te procuro em mares de silêncio
Onde, precisa e límpida, resides.

Frágil, sempre me perco, pois retenho
Em minhas mãos desconcertados rumos
E vagos instrumentos de procura
Que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,
Desprendo-me do ouro do meu sangue
E da ferrugem simples dos meus ossos,
E te aguardo com loucos estandartes
Coloridos por festas e batalhas.

Aí, reúno a argúcia dos meus dedos
E a precisão astuta dos meus olhos
E fabrico estas rosas de alumínio
Que, por serem metal, negam-se flores
Mas, por não serem rosas, são mais belas
Por conta do artifício que as inventa.

Às vezes permaneces insolúvel
Além da chuva que reveste o tempo
E que alimenta o musgo das paredes
Onde, serena e lúcida, te inscreves.

Inútil procurar-te neste instante,
Pois muito mais que um peixe és arredia
Em cardumes escapas pelos dedos
Deixando apenas uma promessa leve
De que a manhã não tarda e que na vida
Vale mais o sabor de reconquista.

Então, te vejo como sempre foste,
Além de peixe e mais que saltimbanco,
Forma imprecisa que ninguém distingue
Mas que a tudo resiste e se apresenta
Tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado
E dividido em faces, mais te cerco
E se não te domino então contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
E sei que és mais que astúcia e movimento,
Aérea estátua de silêncio e bruma

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Opinião do dia: Luiz Sérgio Henriques*

"Uma esquerda tão desprovida, se não existisse, teria de ser inventada pela extrema direita que ora ensaia seus primeiros passos no governo do País. Deve-se constatar, de início, que a linguagem do poder, especialmente de vocação autoritária, nunca é muito original: também no universo da ultradireita temos de nos haver eternamente com inimigos internos e agentes de ideologias exóticas, como se homens e mulheres de esquerda não pudessem ser atores legítimos numa democracia digna do nome ou, ainda, como se fosse possível imaginar um Brasil sem Graciliano, Niemeyer, Portinari ou Gullar.

Mas não nos interessam tanto a cultura ou as infames “guerras culturais” que, envenenando generalizadamente o discurso público, poderiam justificar e até dar tons ainda mais obscuros ao proverbial pessimismo que orientou, ou desorientou, a obra de tantos pensadores que se debruçaram sobre a grande crise existencial moderna. Aqui não se trata de filosofia, mas da resposta dada por próceres do novo oficialismo à crise em curso da globalização – uma resposta mais vulgar, certamente, mas nem por isso menos capaz de incidir nos nossos destinos individuais. Curiosamente encontraremos pontos de contato significativos entre as posições extremadas, que, como sugere o senso comum, muitas vezes se tocam e vivem parasitariamente umas das outras"

*Tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil. Sobre vieses e viseiras, O Estado de S. Paulo, 20/1/2019

Marcus André Melo*: Bolsonaro em 3D

- Folha de S. Paulo

Resultado de focos de tensão definirá a natureza iliberal ou não do governo

Como pensar o governo Bolsonaro, que é liberal na economia, conservador nos costumes e ambivalente nas suas prática e retórica iliberais? Identifico focos de tensão cujo desenlace definirá a natureza iliberal ou não de seu governo. Retomo a questão após discutir essas três dimensões.

Os estudos empíricos de preferências do eleitorado passaram desde os anos 1980 a considerar duas dimensões —economia e comportamento.

Podemos, assim, identificar grupos do eleitorado que combinam, por exemplo, preferências pró-mercado com valores conservadores na dimensão do comportamento.

A onda populista recente, no entanto, trouxe à baila uma dimensão faltante: o posicionamento quanto ao “rule of law” (império da lei). Líderes populistas ascendem ao poder em eleições competitivas, mas aderem a uma pauta de pouco respeito à separação de poderes que combinam com uma retórica nacionalista e de intervencionismo governamental.

Retomando a questão do iliberalismo de Bolsonaro, o ponto a destacar é que a escolha de Sergio Moro representou aquilo que a literatura chama de “compromisso crível” —a promessa de que o governo não cruzará a linha demarcatória do iliberalismo.

A promessa é “crível” pelo custo político elevadíssimo de sua eventual saída, mas que pode acontecer numa sucessão de crises que afetem fortemente a popularidade presidencial. A primeira delas já se instalou.

O segundo foco de tensão diz respeito à economia na qual o anti-internacionalismo na política externa conflita com a agenda econômica doméstica, liberalizante e pró-mercado.

Celso Rocha de Barros*: Nova era para o baixo clero

- Folha de S. Paulo

A turma do PSL aderiu ao anticomunismo para ganhar dinheiro

Na semana passada, o senador Flávio Bolsonaro, filho menos maluco do presidente da República, entrou no STF (Supremo Tribunal Federal) para exigir foro privilegiado, interrupção das investigações do caso Queiroz e anulação das provas, bem como ativação da cláusula do acordo secreto com Netanyahu que prevê a reconstrução do Templo de Salomão e, consequentemente, a nova vinda de Jesus. Afinal, a essa altura, Flávio só se salva com milagre. Se Jesus não se prestar ao papel,talvez Renan resolva.

Com o passar da semana, a reputação de honestidade do governo Bolsonaro foi cada vez mais entrando em estado de “morreu ou foi para a Record?”.

Enquanto isso, o partido de Bolsonaro, o anticomunista PSL, resolveu aproveitar a boca livre oferecida pelo governo da China. Viajaram, comeram café da manhã de hotel bacana, devem ter descolado uns brindes, fizeram lá uma “farra dos guardanapos” do baixo clero.

A comitiva incluía o cara que rasgou a placa da Marielle no comício do governador Witzel. Vai lá, filho, vai para a praça da Paz Celestial e rasga a placa com o nome do premiê chinês. Vai lá, mostra contra o Exército Popular de Libertação a mesma macheza que mostrou contra militante pelos direitos dos favelados que já tinha sido assassinada. Cadê a marra, filho? Vai fugir chorando, filho, vai fugir ganindo?

Pessoalmente, acho que o Brasil tem que ter as melhores relações possíveis tanto com a China quanto com os Estados Unidos. Mas eu sou petralha, sou pago pelo George Soros, distribuo mamadeira com pênis na ponta, não fiz o curso do Olavo, só estou sendo consistente.

No fim das contas, os malandros do PSL ficaram impressionadíssimos com um recurso valioso a ser usado na luta contra a espionagem comunista, um programa de reconhecimento facial que diz para o governo comunista onde as pessoas estão.

Denis Lerrer Rosenfield*: Armas e direitos

- O Estado de S.Paulo

A ideia de que povo armado piora o índice de homicídios é falácia desarmamentista

Quem é contra o direito à legítima defesa? Não, certamente, a imensa maioria dos brasileiros que votaram no hoje presidente Jair Bolsonaro. Tiveram consciência da necessidade de resgate de um direito republicano que fora usurpado por sucessivos governos, com base em posições de esquerda e no politicamente correto. Saliente-se, aliás, que boa parte dos que são contra esse direito vive em condomínios com forte segurança e circula em carros blindados. É a elite, embora seu discurso seja supostamente antielitista!

O novo governo, em seu decreto, foi extremamente sensato, regrando objetivamente a posse de armas, deixando pouca margem para interpretações subjetivas ou politicamente corretas. Disciplinou a posse em domicílios e estabelecimentos comerciais de tal modo que cada pessoa possa ter quatro armas. Aliás, nem muito é, pois se uma família possuir duas ou três casas e igual número de negócios, sua cota já estará preenchida. Trata-se, diria, de um direito primeiro, o de a pessoa poder, em seus lugares próprios, usufruir sua vida, defendendo seu corpo, sua família e seu patrimônio.

Sem isso o cidadão fica claramente desprotegido, à mercê de qualquer ameaça. Quem se beneficia dessa situação são os bandidos, os criminosos, que podem invadir qualquer domicílio e estabelecimento sem medo algum. Meliantes têm “direito” à violência e à apropriação de corpos e bens alheios!

O Estatuto do Desarmamento cometeu a proeza de desarmar as pessoas de bem, deixando os criminosos à vontade, esses se armam a seu bel-prazer. Isso quando não são auxiliados por esses representantes do politicamente correto, que correm em seu apoio toda vez que são mortos, feridos ou presos. Quando um policial morre, silêncio absoluto; quando um criminoso sofre o mesmo destino, surge imediatamente uma imensa barulheira, como se seus supostos direitos não tivessem sido observados. É um mundo invertido!

José Goldemberg*: Aquecimento global e desinformação

- O Estado de S.Paulo

Questionar a realidade é obscurantismo, como o foi negar que a Terra gira em torno do Sol

Informação é um elemento essencial para a nossa sobrevivência e a tomada de decisões. É por isso que ninguém se lança de um edifício de dez andares, em lugar de descer as escadas, para ganhar tempo: jamais houve uma violação das leis da gravidade.

O mesmo acontece com tomadas de decisão. Se uma pessoa deseja viajar de avião para Nova York, ela se informa da hora da partida antes de ir ao aeroporto. Caso contrário, corre o risco de perder o voo.

Acontece muitas vezes que a informação não é completa. Nesse caso, o que funciona é saber a probabilidade de ocorrência do evento. Prever quando vai chover é um exemplo. Desde a mais remota Antiguidade a previsão do tempo foi essencial para saber quando plantar e quando colher, e erros graves nestas previsões – que eram frequentes – tiveram sérias consequências.

Nos dias de hoje, com o avanço da tecnologia, as previsões de tempo melhoraram muito e os meteorologistas já são capazes de nos dizer qual a probabilidade de chover amanhã ou no fim de semana, e acertar, na maioria das vezes.

O bom senso comum, que nessas áreas é aceito por todos, não existe, contudo, no tocante a outro problema de grande importância, que é o aquecimento do nosso planeta, que está em curso. A temperatura média já subiu mais de um grau centígrado desde 1800 e provavelmente vai subir mais dois graus até o fim do século 21.

Fernando Gabeira: Lições do terror

- O Globo

No fundo, a simples enumeração de ataques é, de forma involuntária, o jogo que interessa aos líderes de facções criminosas

Calor absurdo aqui no interior do Mato Grosso do Sul. Coisas do marxismo internacional. Acabo de ler o livro de Afonso Arinos, graças às longas viagens de avião: 1.780 páginas.

De tantos pedaços da história, discursos internacionais, personalidades, tenho espaço apenas para destacar uma frase da neta de Arinos. A mulher dele disse que ele andava triste. A menina resolveu consolá-lo:

— Vovô, não fique triste, o senhor tem sua casa, seus filhos, a sua bengala…

Livros como o de Arinos e Joaquim Nabuco me reconciliam com o Brasil. Fico orgulhoso de me dedicar ao estudo do país.

Em Fortaleza, vi um homem com um carrinho de pequenas frutas amarelas ao longe e disse: seriguelas. O homem se aproximou e, ao passar por nós, perguntei: que fruta é essa? Seriguelas, respondeu.

Fiquei feliz como um menino que passa na prova. Deveria ser um pouco mais sério porque estava cobrindo precisamente a onda de ataques no Ceará.

Acontece que estou reavaliando um pouco minha noção de jornalismo. Nossa tendência é dramatizar ataques, cortar as imagens de forma que o fogo e a destruição se destaquem.

Quando examino mais de perto, os ataques, na verdade, são feitos em lugares desertos e em altas horas da noite. Um exemplo disso foi a dinamite que apareceu no metrô. Não tinha detonante, seu objetivo era assustar.

Ana Maria Machado: Desconfianças

- O Globo

Poucos confiam tanto como nós em políticos corruptos e falsos. Ou em lideranças religiosas as mais variadas

Recente pesquisa internacional concluiu que somos um dos povos menos confiantes do mundo.

Desconfio que estão errados. Só se consideram quem não dá a menor confiança aos fatos. Mesmo evitando palavras como crédulo ou ingênuo, constato o oposto: nossa gente confia até demais. Pode desconfiar das instituições, mas confia em pessoas. E psicanalistas dizem que descrer do coletivo leva a buscar um salvador individual. Em manada, até gente inteligente dá fé a palavras ocas e versões suspeitíssimas. Longe dos fatos.

Poucos confiam tanto como nós em políticos corruptos e falsos. Ou em lideranças religiosas as mais variadas. Incontáveis igrejas proliferam, ancoradas na isenção tributária que lhes permite ganhar dinheiro de legiões de confiantes fiéis sem ter de pagar impostos. Inúmeras mulheres confiam em companheiros que passam a agressores quando elas decidem romper. E em espertalhões confiados que prometem juventude eterna e cirurgias plásticas mirabolantes. 

E há casos como Roger Abdelmassih, que traiu a confiança das clientes e foi condenado a 181 anos por estupros em série. Sem falar nas estarrecedoras revelações sobre o criminoso abuso de confiança por parte do médium João de Deus. Com direito a confiantes reações de quem quis culpar as vítimas. Centenas delas. Durante décadas. E o rebanho, ó, confiando...

Recentemente Verissimo escreveu sobre negadores da realidade e citou que a Paraíba, com o lema NEGO, é o único estado cuja bandeira tem algo escrito. Confiou demais na memória. Desconfio que se enganou. A bandeira do Espírito Santo, ainda que desafie a ministra Damaris, vestindo azul e rosa ao mesmo tempo, traz o dístico “Trabalha e confia.” Depende de em quem se confia enquanto se trabalha. Certas confianças podem ser arriscadas. De minha parte, desconfio de plebiscitos para decidir questões complexas. Vide Brexit ou posse de armas.

Fernando Pessoa alerta: “Ó sol que dás confiança só a quem já confia!” Mais vale desconfiar e abrir o olho.

Cacá Diegues: A cota das minorias

- O Globo

O cinema é a única cultura nacional que compete com o produto estrangeiro em pé de igualdade

O que está hoje em perigo em todo o mundo é o humanismo que iluminou o pensamento ocidental durante os últimos séculos. A ideia de que o ser humano é o centro do universo que interessa, o alvo de tudo que deve ser desenvolvido, protegido e preservado, começa a não encaixar mais em novas culturas políticas espalhadas por aí. Inclusive no Ocidente que o inventou desde a Antiguidade grega, e que depois o manteve subterrâneo até o Renascimento.

O apogeu histórico do humanismo se dá com o iluminismo, a ideia de que a razão pode tudo resolver. Foi graças a essa concepção do conhecimento como instrumento de nossa compreensão e atuação no mundo que construímos a civilização em que vivemos.

A partir do século XV, com a invenção da imprensa, uma nova tecnologia, parte da Europa se alfabetizou, e os monges copistas deixaram de ser os detentores únicos dos segredos do conhecimento. Grandes pensadores alteraram os padrões sociais e fizeram as culturas valorizarem o homem comum. Como a desgraça nunca desapareceu completamente do mundo real do presente, o ser humano teve que contar com o futuro para iluminar seu rumo. Os grandes humanismos, religiosos ou ateus, tiveram que inventar o paraíso celeste e a Parusia, a sociedade sem classes e a harmonia absoluta com a natureza, essas coisas que dão sentido à vida depois que ela acaba.

O humanismo inventou a democracia moderna. Os gregos já a haviam praticado, mas dela só se beneficiava a elite cidadã. O povo e os escravos não tinham direito a ela. Agora, no nascimento da democracia moderna, todos têm teoricamente direito a ela, aperfeiçoada de acordo com as tradições de cada lugar. Embora a democracia acabe sempre por servir às maiorias, nela o minoritário pode sempre sobreviver. John Stuart Mill, um inglês precursor de ideias que floresceram no século XIX, dizia que a democracia era a “tirania da maioria”.

Nessa segunda década do século XXI, outra nova tecnologia inventada pelo homem desbanca a imprensa e o audiovisual, as formas ilustres de conhecimento até seu surgimento. Com ela, os poderosos não precisam mais ser maioria para exercer sua tirania. Através dela, eles podem saber onde está cada um de nós, pensando o quê, e nos manipular na direção que julgarem mais conveniente. Se os cérebros de Adolf Hitler ou Joseph Stalin tivessem conhecido a ciência digital e a internet, o mundo hoje seria bastante diferente. Diferente para muito pior.

Leandro Colon: Aceno de Renan é sinal de perigo

- Folha de S. Paulo

Elogio de senador a Flávio Bolsonaro é mensagem de proteção a um governo enfraquecido

O presidente Jair Bolsonaro desembarca em terras suíças nesta segunda-feira (21) para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, deixando por aqui uma crise com potencial para causar sérios danos em um governo que ainda engatinha.

Uma consequência do caso Queiroz é a dificuldade que Bolsonaro terá para faturar politicamente as eleições às presidências da Câmara e do Senado, no dia 1º de fevereiro.

Salvo imprevistos, tudo caminha, respectivamente, para as vitórias de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Renan Calheiros (MDB-AL) em cada Casa.

O PSL de Bolsonaro abraçou a candidatura de Maia ao perceber que, mesmo com a maior bancada eleita, não teria condições de levar adiante um candidato competitivo.

O provável sucesso de Maia não será uma vitória de Bolsonaro. O atual presidente da Câmara não é um candidato do governo. Pode até, por circunstâncias da eleição na Câmara, ter se aproximado do Planalto, mas deve manter a relação política ambígua adotada no período de Temer.

O maior perigo para Bolsonaro está no Senado. Na última sexta-feira (18), em entrevista à Folha, Renan Calheiros fez um aceno ao defender o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente.

“Temos com relação a ele (Flávio) as melhores expectativas, de que é um moço que quer trabalhar, que quer fazer um bom mandato, que tem posições e defende-as”, disse.

Ricardo Noblat: Conta outra, Flávio!

- Blog do Noblat | Veja

Os rolos do senador

E o título de “Corretor do Ano” vai para… Flávio Bolsonaro, deputado estadual até outubro do ano passado quando se elegeu senador pelo Rio de Janeiro no rastro da eleição do seu pai para presidente da República.

Nas entrevistas à TV Record e à Rede TV, ontem à noite, ele contou que o título de R$ 1 milhão que pagou à Caixa em 2017 se refere à compra de um imóvel na planta da construtora PDG no valor total de R$ 1.700 mil.

O imóvel então passou a ser financiado pelo banco, do qual ele se tornou credor. Mas como a entrega do imóvel atrasou, ele o vendeu pouco tempo depois pelo valor de R$ 2,4 milhões.

Quer dizer: no período de um ano se tanto, com o mercado imobiliário em baixa por conta da crise econômica que ainda se arrasta, Flávio lucrou no negócio cerca de 40%. É de deixar os demais corretores de queixo caído.

Quanto aos 48 depósitos de R$ 2 mil feitos em espécie em sua conta entre junho e julho de 2017 em um caixa eletrônico da Assembleia Legislativa do Rio, Flávio explicou que se tratava de dinheiro dele mesmo.

Justificou que além de político ele é também empresário, e pelo visto muito bem-sucedido. Assim como Fabrício Queiroz, seu ex-assessor, comprava e vendia carros usados, Flávio comprava, vendia e trocava imóveis.

Segundo a Folha de S. Paulo, Flavio comprou entre 2014 e 2017 pelo menos dois apartamentos em bairros nobres do Rio, ao custo informado de R$ 4,2 milhões. O período coincide com depósitos suspeitos em sua conta.

Em parte das transações, registra o jornal, o valor declarado pelos compradores e vendedores é menor do que aquele usado pela prefeitura para cobrança de impostos.

Renan mata no peito

É dando que se recebe

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) está pronto para matar no peito qualquer pedido de CPI para investigar os negócios de Flavio Bolsonaro e de Fabricio Queiroz que venha a ser apresentado pelos partidos de oposição.

Naturalmente, desde que o governo não crie problemas para que ele se eleja presidente do Senado pela quinta vez (ou será a sexta?).

A disposição de Renan já chegou aos ouvidos do presidente Jair Bolsonaro, e muito o agradou.

Vinicius Mota: Presente do capeta

- Folha de S. Paulo

Custa crer que os britânicos tenham se metido em tamanha enrascada conscientemente

Nunca foi fácil ser o demônio —embora a coisa talvez venha ficando ainda mais dificultosa com a proliferação contemporânea de especialistas em expulsá-lo do corpo.

Veja a dedicação de Mefistófeles no cultivo da alma danada de Fausto. Por décadas atendeu a todos os caprichos do homem com a paciente expectativa de obter seu justo prêmio após a morte do doutor. Tomou um drible celestial na hora agá, uma quebra de contrato de dar pena.

Mas o capeta é o capeta não porque seja ruim ou porque seja velho. Ele é como o coiote do papa-léguas: jamais desiste. Em junho de 2016, meteu os britânicos numa arapuca da qual não conseguem escapar.

Foi o diabo. Apenas ele seria capaz de um ardil tão... diabólico.

O embuste veio embalado em papel nobre, a vontade popular. Perguntou-se à população se queria o Reino Unido fora da União Europeia, e uma pequena maioria disse sim.

Coube ao Parlamento, cuja maioria se opunha ao desembarque, desembrulhar o pacote-surpresa. Caiu o premiê que, decerto sob influência satânica, tinha parido o referendo. Assumiu a ex-ministra do Interior.

Um ano depois tentou-se, com uma eleição geral, sintonizar a vontade de cidadãos e representantes.

Cida Damasco: Depois de Davos, a realidade

- O Estado de S. Paulo

Começa o jogo na economia, mas caso Queiroz pode criar obstáculos no Congresso

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes desembarcam em Davos nesta semana em busca do aval da elite financeira internacional, reunida no Fórum Econômico Mundial. Ele repete o roteiro dos seus antecessores Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, que também participaram do encontro com o objetivo central de desfazer o clima de desconfiança criado com a chegada deles ao Planalto – ainda que por motivos diferentes.

Lula e Dilma tentavam provar que um governo de esquerda não faria loucuras na economia e conseguiria conciliar responsabilidade com prioridades sociais. Temer procurava se livrar do rótulo de golpista colado em sua imagem pelos militantes anti-impeachment. No caso de Bolsonaro e sua tropa, todo empenho será dirigido a convencer os investidores de que o presidente converteu-se de fato ao ideário liberal de Guedes e vai segui-lo à risca para corrigir os graves desajustes da economia brasileira.

Seu discurso como representante da América Latina vai repisar temas caros aos liberais, como reformas e abertura comercial, além do combate à corrupção – justamente num momento em que o clima de descontentamento global dá voz a teses nacionalistas e populistas, impondo mudanças às entidades internacionais para manter as bases da globalização, como relata o repórter Jamil Chade.

Bolsonaro aproveitará o evento para dar seu recado não só para o público externo, como também para o interno, que já demonstra uma certa inquietação, especialmente em relação à Previdência. A proposta para a reforma, discutida nos últimos dias em Brasília, deve estar no centro das conversas em Davos e aportará no Congresso no começo de fevereiro, depois da posse dos novos parlamentares e da definição dos comandos das duas casas.