segunda-feira, 25 de junho de 2018

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

• Na sua avaliação, por que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, tem um desempenho fraco nas pesquisas se comparado às pesquisas do mesmo período desde 1994?

Porque a sociedade mudou muito, os novos meios de comunicação estão à disposição do eleitorado e o momento é difícil para quem está no governo. Entretanto, é cedo para avaliar. O jogo eleitoral para o povo começa mesmo quando a televisão e o rádio entram.

--------------------------
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República. Entrevista: ‘Crise moral pôs todos partidos longe das ruas, O Estado de S. Paulo, 24/6/2018.

José Eduardo Faria*: Políticos e juízes, entre o destino e a tragédia

- O Estado de S.Paulo

Ao contrário das novas gerações, as mais antigas podiam ser menos informadas, mas sabiam operar com modelos capazes de sinalizar caminhos e antever cenários, mesmo que sombrios

Entre as consequências da velocidade do processo de destruição criadora, da financeirização dos capitais e da interconexão global dos mercados, destacam-se a erosão das certezas, a dificuldade de identificar as questões mais importantes e desorientação na formulação de respostas. Ao contrário das novas gerações, as mais antigas podiam ser menos informadas, mas sabiam operar com modelos capazes de sinalizar caminhos e antever cenários, mesmo que sombrios. As gerações atuais vivem um paradoxo: quanto mais informações recebem, mais ficam indecisas, revelando-se incapazes de fazer as indagações necessárias à compreensão do momento atual.

Uma dessas indagações é saber como proceder na interpretação de fatos, narrativas e teorias. Outra diz respeito ao tema da legitimidade: na democracia, quem tem a autoridade para impor obrigações aos cidadãos? Como interpretar declarações de políticos que, perplexos com a atuação da Justiça, passaram a perguntar quem manda – se os juízes de primeiro grau ou o presidente da República. “No mundo persa ou grego, o destino era uma atribuição dos deuses. Quando Roma inventou a política, deu o destino – e a tragédia – nas mãos dos homens. Às vezes tenho a impressão de que essas corporações querem substituir os deuses antigos”, afirma um desses políticos.

Num período em que a desorientação resulta do aumento das possibilidades de ação, o denominador dessas indagações se traduz pela incapacidade dos políticos de compreender a política a partir de seus componentes básicos – as relações de força, autoridade, mando e obediência. Outro denominador é a ideia de que os prognósticos com relação ao futuro são inversamente proporcionais ao seu conhecimento. Quanto mais se fala do futuro, menos se sabe sobre ele. Um modo de compreender esse cenário de dubiedades é retomar um ponto da obra de Max Weber, para quem os processos civilizatórios podiam ser vistos como processos de racionalização, como os que forjaram o mundo moderno. Uma das características da modernidade está na crise de seus fundamentos nos planos do conhecimento, da moral e da política. A angústia despertada no homem moderno após a libertação dos laços feudais, dizia Weber, levou-o a uma busca obstinada por calculabilidade e previsibilidade, valorizando a impessoalidade nas relações de dominação e uma ordem jurídica elaborada racionalmente.

Marcus Pestana: O Brasil que queremos

- O Tempo (MG)

Estamos a três meses e meio das eleições de 2018. Depois de um período turbulento, estaremos frente a frente com a mais decisiva e misteriosa eleição das últimas décadas. Vivemos de tudo um pouco nos últimos anos: recessão, Lava Jato, crise fiscal, impeachment, denúncias contra o presidente, desalento social, desarranjo institucional. O bom na democracia é que, de quando em quando, o poder político se reencontra com sua fonte original: a soberania popular.

Há uma curiosa e instigante contradição na relação entre representantes e representados. Ninguém chega a Brasília ou Belo Horizonte por decreto. A representação política e a correlação de forças nascem da vontade expressa do eleitorado. São espelho da vontade da sociedade. Mas, em momentos como os que vivemos, a população olha no espelho e não gosta do que vê.

Surge, assim, uma legítima aspiração por mudança e renovação. Oxigenar o sistema político é sempre positivo. Mas a experiência acumulada também é central. O novo pelo novo não diz muita coisa, mas velhas práticas precisam ser mudadas radicalmente.

Marcus André Melo: Voo sob neblina

- Folha de S. Paulo

Eleitorado pune e premia o desempenho e a probidade de governantes

Na teoria convencional da democracia, os eleitores escolhem representantes alinhados com suas preferências e que implementarão um conjunto de ações que expressam a vontade geral.

Essa visão convencional, que teve suas contradições criticadas por Joseph Schumpeter (1883-1950) há quase 80 anos e suas inconsistências técnicas expostas por Kenneth Arrow em 1951, vem sendo substituída por uma visão mais realista da democracia.

Nas democracias velhas e novas, quem governa conta com o apoio da maior minoria, não de uma maioria. O comparecimento às urnas é em geral da ordem de 65% e onde adotam-se distritos uninominais, como a Inglaterra, o ganhador das eleições conta com o apoio eleitoral de pouco mais de 50% desse percentual, ou seja, pouco mais de um terço do eleitorado. Este último percentual é ainda menor onde a representação proporcional é utilizada.

Mesmo no Brasil, onde o voto é obrigatório, em torno de 20% do eleitorado se abstém e pouco menos de 10% anula o voto. Em 2014, no segundo turno, Dilma Rousseff recebeu 54,5 milhões de votos, ou seja, 38,1% do eleitorado de 142,8 milhões.

Mais problemático para a visão tradicional da democracia é o fato de que o eleitorado não tem preferências formadas sobre a vasta maioria dos itens da agenda pública, para além das chamadas “valence issues” —questões sobre as quais há consenso quanto aos objetivos, mas não aos meios, como é o caso de melhor atenção à saúde.

Denis Lerrer Rosenfield*: Eleições e reformas

- O Estado de S.Paulo

Surpreende que, as eleições se aproximando, o País se encontre na quase ausência de um debate sério sobre o seu futuro

Surpreende que, as eleições se aproximando, o País se encontre na quase ausência de um debate sério sobre o seu futuro. Diferentes propostas populistas surgem dos mais diferentes recantos, revelando que a herança lulopetista não foi ainda exorcizada. Ideias das mais simplórias ganham a cena, como se os graves problemas nacionais pudessem ser equacionados sob as mais variadas formas de “vontade política”. Até parece que o Brasil nada aprendeu. Expressão disso são os altos índices de intenção de voto no ex-presidente Lula, hoje um presidiário que pretende apresentar-se como a solução de todos os problemas que estão aí, fórmula mágica usada para encobrir seus próprios erros e crimes.

Acontece que a sociedade está anestesiada ideologicamente, embora se tenha mostrado ativa politicamente. As pesquisas mostram que ela se manifesta contra a agenda reformista do presidente Michel Temer, confundindo-a com a imoralidade que contaminou membros do seu governo, além de o próprio ter sido atingido em sua imagem por duas denúncias ineptas. As reformas visam ao bem e ao futuro do País, não podem ser confundidas com a pauta da luta contra a corrupção, que tomou conta da opinião pública. Age-se como se essa luta fosse uma espécie de salvação nacional.

O Brasil apenas esboça a saída de uma grave crise, com o PIB se recuperando, inflação pequena, juros em baixa, emprego crescendo e um controle fiscal inédito nestes últimos anos. De terra arrasada, o País começa a apresentar números alentadores, porém nada disso é percebido pela sociedade, com um setor importante seu ainda atrelado a um eldorado lulopetista que nunca existiu. O País perdeu, a mensagem petista continua vingando.

Paradoxalmente, a sociedade clama por mudanças, porém age conforme parâmetros atrasados e ultrapassados. Combate a corrupção e pede mais intervenção estatal, como se esta não fosse a causa estrutural de desvio de recursos públicos. Quanto maior a presença do Estado, mais espaço é aberto para a corrupção e os seus agentes.

Fernando Limongi: O golpe do voto impresso

-
Valor Econômico


STF perdeu a chance de pôr uma pá de cal sobre as suspeitas

No início desse mês, por meio de uma decisão liminar, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a impressão dos votos na eleição de 2018. Como de costume, o STF adiou a decisão definitiva e, ao fazê-lo, deixou de se pronunciar sobre o que estava de fato em jogo, a saber, se procedem ou não as suspeitas sobre as urnas eletrônicas. Os ministros parecem não ter se dado conta da seriedade da questão que tinham diante de si.

Aprovado na reforma eleitoral de 2015, o artigo da lei posto no limbo é de autoria do deputado Jair Bolsonaro e visa, segundo seu autor, contribuir para a lisura do processo eleitoral. A premissa do artigo, portanto, é a de que restam dúvidas sobre a apuração dos votos no Brasil. Para ser mais claro: os defensores do voto impresso não confiam nas urnas eletrônicas. Não confiam é, na verdade, um eufemismo, estão certo de que as urnas abrem brechas para fraudes.

A despeito dessa certeza, os defensores do voto impresso nunca apresentaram provas ou fatos objetivos em defesa de sua tese. O argumento é tortuoso: como as urnas não são auditáveis, não há certeza que os votos dados são os contados. E por que não se dá essa certeza? Ora, porque assim se deixaria a porta aberta para a fraude. Mais um passo e se chega à conclusão de que a oportunidade seria necessariamente aproveitada. Assim, da suspeita se deriva a certeza. As garantias oferecidas pelo sistema são desconsideradas de forma olímpica. Vale a teoria da conspiração, que Bolsonaro reafirmou: a decisão do STF provaria o que vem dizendo faz tempo, que há um conluio entre TSE e Datafolha para fraudar as eleições de 2018.

Ricardo Rangel: Insanidade, esperança e despedida

- O Globo

No Brasil, quando uma experiência dá errado, é repetida até dar certo. Apesar disso, aos trancos e barrancos o Brasil avança

A polícia invadiu a Maré com blindados e helicópteros para cumprir 22 mandados de prisão. No fim do dia, nenhum mandado havia sido cumprido, mas jaziam no chão sete corpos sem vida, incluindo o de Marcos Vinícius, de 14 anos, vitimado em seu uniforme de escola por tiros disparados de um blindado.

A principal promessa da intervenção era a depuração da polícia e uma mudança em seus métodos, substituindo o confronto pela inteligência. Passados quatro meses (três do assassinato ainda não resolvido de Marielle), não se vê traço de inteligência, e a polícia continua idêntica. O que mudou foram os helicópteros, que agora cospem fogo.

Dois dias após o incidente na Maré, Jair Bolsonaro prometeu retirar o país da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que “não serve para absolutamente nada”. E, de novo, elogiou o coronel-torturador Brilhante Ustra, com o argumento de que “guerra é guerra”. O Brasil insensível anda de mãos dadas com o Brasil brutal: Bolsonaro é o favorito para o posto de presidente da República.

O capitão desconhece a Convenção de Genebra, o código internacional que regula a guerra — e do qual o Brasil é signatário —, que proíbe maus-tratos a prisioneiros desde 1864. Parece não haver “absolutamente nada” que Bolsonaro não desconheça.

Diz-se que fazer a mesma coisa repetidas vezes esperando diferentes resultados é a definição de insanidade. Simonsen, conhecedor da insanidade brasileira, dizia que, aqui, quando uma experiência dá errado, ela é repetida até dar certo. Talvez daí a insistência numa “guerra às drogas” que dá sempre o mesmo resultado.

A defesa de Lula, que não desiste de tentar a mesma coisa, pediu novamente sua libertação — felizmente, o resultado foi o mesmo.

Celso Rocha de Barros: Haddad e o discurso petista

- Folha de S. Paulo

Se o PT tiver um plano B, espero que também tenha uma retórica B

Desde que Fernando Haddad derrotou José Serra na eleição para prefeito de 2012, tornou-se presidenciável, e isso foi um dos problemas de sua prefeitura. Projetos que tinham sua assinatura foram criticados de modo completamente desproporcional, porque criticar Haddad era criticar o futuro candidato do PT a presidente. As faixas para ônibus, por exemplo, também foram introduzidas no Rio de Janeiro na administração Eduardo Paes, sem tanta controvérsia. Discussões sobre grafite e limpeza pública, ou sobre bicicletas, sempre foram debates sobre em quem votar para presidente.

De qualquer forma, com Lula fora do páreo, essa seria uma boa hora para Haddad começar a lucrar com a reputação de presidenciável, que até hoje só lhe causou problemas.

O ex-prefeito vem se mexendo. Na semana passada, entrou para a tendência “Construindo um Novo Brasil” (a antiga “Articulação”), grupo majoritário dentro do PT liderado por Lula. Até então, Haddad era próximo à “Mensagem para o Partido”, de Tarso Genro e José Eduardo Cardoso. Foi um movimento de candidato.

E Haddad tem seus trunfos. Sua administração combateu a corrupção, teve políticas bem avaliadas (em geral, muito mais bem avaliadas do que seu mandato) e foi fiscalmente responsável. Não há muito mais gente entre os quadros petistas de primeira linha que tenha esse currículo.

Mas aí é que está: se for para lançar Haddad com o discurso atual do PT, essas vantagens serão desperdiçadas. Porque o discurso atual do PT é uma porcaria.

Ricardo Noblat: Falta combinar com Marina e Meirelles

- Blog do Noblat

A incansável busca por um candidato de centro vencedor

É tamanha a desconfiança de que a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à presidência da República possa decolar, e a certeza de que a candidatura de Henrique Meirelles (PMDB) não irá a lugar algum, que nos laboratórios do governo testam-se as fórmulas mais exóticas para barrar o que por lá mais se se teme – uma eventual vitória do deputado Jair Bolsonaro (PSL) ou de um nome da esquerda.

A mais recente: Meirelles para vice na chapa de Marina Silva, candidata da REDE à vaga do presidente Michel Temer. Assim haveria a união do social (Marina) com a condução bem comportada da economia (Meirelles). E o PMDB garantiria a Marina tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão que ela simplesmente não tem dado ao raquítico tamanho do seu partido.

Os mais entusiasmados com a ideia lembram que em 2004, Lula chegou a indicar Meirelles para vice de Dilma, candidata à reeleição. Foi ela que não quis. Uma vez que Dilma se reelegeu, Lula sugeriu o nome de Meirelles para Ministro da Fazenda. Dilma rejeitou. Hoje em campanha, Meirelles usa sua proximidade com Lula como argumento à caça de apoios.

A Executiva Nacional do PMDB se reunirá amanhã em Brasília para discutir se mantém ou não a candidatura de Meirelles. Discussão haverá, decisão ficará para meados do próximo mês. A candidatura de Meirelles é moeda de troca para o PMDB, não passa disso. Será trocada por outra ou por nenhuma, o que liberaria o partido para apoiar em cada Estado o candidato a presidente que quisesse.

Paulo Fábio Dantas Neto -De luta e de labuta: em memória do político Waldir Pires

O desaparecimento do ex-governador Waldir Pires enseja um sentimento de consternação que, ultrapassando o campo de seus familiares, amigos, correligionários e aliados atinge, inclusive, adversários. Ao lado disso, também é geral o sentimento de perda compartilhado por todos os baianos e brasileiros minimamente informados sobre quem ele foi e sobre o fecundo e exemplar papel que cumpriu em momentos cruciais de nossa história contemporânea.

Em linha com esses sentimentos difusos afloram merecidas menções à integridade moral do seu caráter e ao sentido ético de sua conduta política, seja pela coerência ideológica, seja pelo respeito ao interesse e patrimônio públicos. A todas essas manifestações junto-me apenas como mais um.

Peço, contudo, licença para externar uma interpretação sobre dois traços de natureza política que me parecem relevantes na sua longa vida pública e que, a meu juízo, não têm merecido tanto destaque nas homenagens que se tem feito à sua memória. Ao lado do lutador nunca deixou de estar o homem de diálogo e, ao lado das convicções, sempre esteve nele a responsabilidade para com as consequências de suas decisões, inclusive quando as primeiras mostraram equívocos nas segundas.

Entre suas campanhas ao governo da Bahia (a derrotada de 1962 e a vitoriosa de 1986) Waldir aprendeu a não refugar alianças que viabilizassem a vitória da causa democrática. Em 62 chegou perto dela. A distância talvez fosse vencida com alianças mais diversificadas e afirmativas na capital (Virgildásio Sena a prefeito, não só Osório Vilas Boas) e um pouco mais de concessões veniais à política tradicional no interior, tendo Luís Viana Filho como opção mais realista ao Senado. O equilíbrio dos dois temperos baianos ajudou a eleger a dupla de candidatos de sua chapa ao Senado (Balbino e Josaphat Martinho) mas a escassez de alianças ao governo ajudou seu adversário populista, aliás apoiado pelo Presidente Jango. O hiato entre o bom, mas não bastante, desempenho eleitoral de Waldir e seu relativo isolamento na sociedade política antecipava, no cenário baiano, o impasse da estratégia nacional popular, cujo avanço nas eleições de 62 e no plebiscito de 63 em vez de inibir atiçou ânimos golpistas até a crise terminal do regime da Carta de 46.

Roberto Freire: A desnecessidade do voto impresso

- Diário do Poder

Recebo questionamentos sobre a lisura das urnas eletrônicas, que seriam sanados com o voto impresso.

As suspeitas partem de duas origens.

Algumas pessoas percebem o erro em que incorriam, após os devidos esclarecimentos.

Outros têm dolo.

Após o voto ser depositado na urna, reza nossa Constituição, ele não pode ser identificado, para nenhum propósito.

Essa interpretação acaba de ser confirmada, acertadamente, pelo Supremo Tribunal Federal.

Para que as diversas fases da votação, transmissão, apuração e proclamação dos resultados fossem fraudadas, seria necessário um monumental esquema, que abrangesse todos os juízes do Tribunal Superior Eleitoral, todos os juízes dos Tribunais Regionais Eleitorais, todos os funcionários públicos envolvidos no sistema eleitoral, todos os peritos técnicos indicados pelos partidos para fiscalizar os mecanismos eletrônicos, enfim, todas as instituições envolvidas antes, durante e depois das eleições.

Enviamos dados altamente sigilosos do nosso imposto de renda por processos eletrônicos; toda a movimentação financeira do país, estatal e privada, dá-se no mundo digital; as pessoas adquirem bens e serviços por cartão de crédito e débito ou por boletos, eletronicamente pagos; todas as peças dos processos que tramitam no STF – e nos tribunais superiores e em tribunais de outras instâncias – estão no mundo digital, com as devidas assinaturas eletrônicas.

Almir Pazzianotto Pinto: A cristianização de Geraldo Alckmin

- Diário do Poder

Um dos momentos mais nebulosos da política brasileira ocorreu nas eleições de presidenciais de 3 de outubro 1950, tendo como personagem central e vítima o mineiro Cristiano Machado.

Presidia a República o general Eurico Gaspar Dutra, eleito pelo Partido Social Democrático (PSD) em dezembro de 1945. Concorreria, pela União Democrática Nacional (UDN), o brigadeiro Eduardo Gomes, por ele derrotado naquela ocasião. Confinado em São Borja, Getúlio Vargas aguardava a evolução dos acontecimentos. Em silêncio estimulava o lançamento da sua candidatura pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Sabendo que era a grande liderança popular da política nacional, planejava, como hábil jogador de pôquer, a volta triunfal ao Palácio do Catete.

No dia 15 de junho Ademar de Barros, governador de São Paulo, em comício no Vale do Anhangabaú lançou o nome de Vargas como candidato à presidência pelo Partido Social Progressista (PSP). No dia seguinte o PTB homologou a candidatura do ex-presidente. Veja-se o que relata Hélio Silva, nesse sentido, no livro 1954: Um Tiro no Coração “ (Civilização Brasileira, 1978, pág. 75).

Cida Damasco*: Sem gol salvador

- O Estado de S.Paulo

Governo tenta chegar vivo às eleições, mas são consegue sair da defesa

Não fossem os dois gols no finalzinho do jogo contra a Costa Rica e o “dream team” do futebol brasileiro estaria crucificado. Principalmente Tite, incensado como símbolo da renovação dos técnicos, capaz de domar os rompantes de Neymar e recuperar alguns jogadores que haviam sucumbido àquele 7 a 1 de triste memória.

Não fosse a certeira cobrança de falta de Kroos, no último momento da partida contra a Suécia, e a campeã Alemanha quase com certeza seria despachada ainda na primeira fase da competição. Ainda vêm por aí muitas emoções, mas, por enquanto, a provável sobrevivência das equipes do Brasil e da Alemanha deve-se às vitórias dramáticas da sexta-feira e do sábado.

Na economia, pelo visto, o governo também parece à espera de um gol salvador. Inicialmente festejado pelos mercados e pelos setores produtivos por sua ação econômica, apesar da gigantesca impopularidade, Temer só se preocupa agora em chegar vivo às eleições. Tudo indica que mudanças de posicionamento e/ou jogadas de efeito não conseguirão mudar o resultado da partida.

O cenário externo continua instável, oscilando conforme o andamento da economia americana e as disputas no Oriente Médio. Internamente, o Congresso não faz outra coisa senão criar embaraços à gestão da economia, principalmente em termos de pressão sobre o caixa. Só na semana passada, deu passagem a novos benefícios fiscais a transportadoras e permitiu a venda direta das usinas para os postos de combustível, como mostrou a edição de sábado do Estadão.

Angela Bittencourt: Eleições, Lava-Jato e BC aceleram agenda

- Valor Econômico

As "condições financeiras" por Bradesco, Itaú, UBS

O primeiro semestre do ano termina nesta semana. Além do relevante calendário contábil, de fechamento de balanços de bancos, empresas e grandes investidores, neste 2018 julho abre a agenda eleitoral e uma maratona a pré-candidatos e partidos políticos interessados em disputar para valer a presidência da República em outubro. A maratona se estende ao governo que, em seus três níveis federal, estadual e municipal, se apressa a executar sobretudo transferências de recursos nos próximos 15 dias. A partir de 7 de julho, a administração pública estará impedida, pela Lei Eleitoral, de gastar mais do que o pré-contratado e justificado, demitir e admitir servidores.

Também neste fim de semestre, a Operação Lava-Jato acena com uma nova etapa, a partir da homologação do acordo de delação firmado entre Antonio Palocci e a Polícia Federal anunciada na sexta-feira. Palocci teve participação decisiva nas eleições dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto, comandou o Ministério da Fazenda de Lula e a Casa Civil de Dilma. E conquistou o setor privado tornando-se o ministro do Partido dos Trabalhadores (PT) com maior prestígio junto a empresários e banqueiros por mais de uma década.

O ex-ministro está preso desde 2016 e é um dos expoentes do PT que melhor conhece as mudanças que podem ocorrer em consequência de uma sucessão presidencial e num momento único da história do país. O momento é único pela judicialização da política, pela possibilidade de radicalização entre direita e esquerda no 2º turno de votação ao comando da República, pela péssima avaliação que os brasileiros fazem do atual governo e do presidente Michel Temer e também pela dificuldade de a economia brasileira engrenar um ciclo de crescimento.

PSDB chega aos 30 e passa de adversário a celeiro ruralista

Fortalecimento do agronegócio, porém, não garante apoio do setor à legenda

Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - De adversário dos ruralistas na Constituinte, o PSDB passou a celeiro do agronegócio 30 anos depois de sua fundação.

A mudança de perfil, no entanto, não tem sido suficiente para garantir apoio do eleitorado do campo, que hoje flerta com a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL).

Essa dificuldade é uma das facetas da crise por que passa o PSDB, que completa nesta segunda-feira (25) 30 anos.

O partido nasceu em 25 de junho de 1988 defendendo, entre outros pontos, a reforma agrária. O manifesto de fundação urgia por uma redistribuição de terra que combinasse tributação progressiva com desapropriação.

Naquele período, o então líder do PMDB no Senado e fundador do PSDB, Mario Covas, travou duro embate com o hoje senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), à época o principal articulador da UDR (União Democrática Ruralista).

O antagonismo tratou de colocar tucanos e ruralistas em lados opostos da disputa política.

A radiografia da bancada do PSDB na Câmara hoje mostra uma transformação nesse aspecto. Quase 40% dos deputados (18 em 49) têm atuação simpática aos interesses do agronegócio.

O líder, Nilson Leitão, é um dos mais ativos membros da bancada ruralista no Congresso. Ele é autor, entre outros projetos, de um que tipifica um crime específico para invasão de propriedade. Se aprovado, inibirá ações do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

Ele também apresentou, no bojo da reforma trabalhista, no ano passado, uma proposta que permitiria que trabalhadores rurais recebessem "remuneração de qualquer espécie", o que daria margem para a troca de salário por moradia ou alimentação. Atacado, recuou.

O deputado federal ambientalista Ricardo Tripoli (SP) disse que o PSDB se afastou de seus princípios fundantes.

"Realmente, não é uma postura que vai ao encontro daquilo que o PSDB sempre almejou", disse.

"Não que a gente seja contra o agronegócio. O setor hoje tem uma postura razoável. Não vemos surtos de radicalismo ruralista na bancada, mas, que há uma divisão nítida, há."

‘Aécio não vai definir sozinho sua candidatura’, diz Anastasia

Entrevista com Antonio Anastasia, senador (PSDB-MG)

Postulante tucano ao governo de Minas afirma que senador vai ouvir PSDB antes de decidir sobre disputa ao Senado

Pedro Venceslau e Jonathas Cotrim | O Estado de S. Paulo

BELO HORIZONTE - Pré-candidato ao governo de Minas Gerais, o senador Antonio Anastasia (PSDB) disse ao Estado que o senador Aécio Neves, seu padrinho político, vai ouvir o partido antes de decidir se vai disputar o Senado nas eleições 2018. Candidato à Presidência da República em 2014, Aécio se afastou dos antigos aliados depois que veio a público áudio em que ele pede R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, dono da JBS. Ele ainda não definiu seu futuro político.

• A prisão do ex-governador Eduardo Azeredo coloca o PSDB na vala comum da corrupção?

Ele sempre teve um conceito de um homem correto, mas tem de cumprir a pena. Não podemos adular as pessoas condenadas.

• É uma mancha que pode constranger o partido na eleição em Minas Gerais?

Não acho mancha, nem que constrange o partido. Azeredo é considerado uma pessoa que foi vítima de uma circunstância. E o candidato (ao governo de Minas) sou eu.

• Ele deve ser expulso do PSDB?

Não sinto o sentimento de necessidade dessa medida.

• O senador Aécio Neves ainda não decidiu se disputa ou não o Senado. Essa é mesmo uma decisão pessoal dele ou do partido?

Eu recebi uma carta branca para a montagem das questões relativas ao partido. Temos que aguardar um pouco. Ele vai tomar essa decisão, e não deve demorar muito, sobre ser candidato ou não. E, se for, para qual cargo. Os prazos estão afunilando.

• O sr. quer que ele seja mesmo candidato?

Nesse momento, ele próprio pondera sobre as dificuldades que teria em uma candidatura majoritária, do sim e do não. Mas temos que respeitar a decisão que ele tomar.

• Até o ex-governador Geraldo Alckmin, que preside o partido e tem a prerrogativa de vetar candidatos, deixou claro que não gostaria que Aécio disputasse o Senado.

Ele (Aécio) vai ouvir os companheiros na hora de tomar a decisão. Não tomará uma decisão isolada. Ele está dedicado à sua defesa e em mostrar o que foi alegado, que foi vítima de uma armadilha.

• Aécio se elegeria?

As pesquisas o colocam com uma votação positiva, mas em uma eleição a gente nunca sabe. Nem sei quem são os candidatos ao Senado. Há notícia de que Dilma (a presidente cassada Dilma Rousseff) seria candidata, mas isso não se confirma.

Lançamento livro de Luiz Werneck Vianna


Tom Jobim - João Ninguém (Noel Rosa)

Carlos Drummond de Andrade: Pombo-correio

Os garotos da Rua Noel Rosa
onde um talo de samba viça no calçamento,
viram o pombo-correio cansado
confuso
aproximar-se em vôo baixo.

Tão baixo voava: mais raso
que os sonhos municipais de cada um.
Seria o Exército em manobras
ou simplesmente
trazia recados de ai! amor
à namorada do tenente em Aldeia Campista?

E voando e baixando entrançou-se
entre folhas e galhos de fícus:
era um papagaio de papel,
estrelinha presa, suspiro
metade ainda no peito, outra metade
no ar.

Antes que o ferissem,
pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado
que o dos homens
e o dos homens costuma ser mortal
uma senhora o salva
tomando-o no berço das mãos
e brandamente alisa-lhe
a medrosa plumagem azulcinza
cinza de fundos neutros de Mondrian
azul de abril pensando maio.

3235-58-Brasil
dizia o anel na perninha direita.
Mensagem não havia nenhuma
ou a perdera o mensageiro
como se perdem os maiores segredos de Estado
que graças a isto se tornam invioláveis,
ou o grito de paixão abafado
pela buzina dos ônibus.

Como o correio (às vezes) esquece cartas,
teria o pombo esquecido
a razão de seu vôo?
Ou sua razão seria apenas voar
baixinho sem mensagem como a gente
vai todos os dias à cidade
e somente algum minuto em cada vida
se sente repleto de eternidade, ansioso
por transmitir a outros sua fortuna?

Era um pombo assustado
perdido
e há perguntas na Rua Noel Rosa
e em toda parte sem resposta.

Pelo quê a senhora o confiou
ao senhor Manuel Duarte, que passava
para ser devolvido com urgência
ao destino dos pombos militares
que não é um destino.

domingo, 24 de junho de 2018

Roberto Romano*: A sacralidade (paga pelo contribuinte) do STF

- O Estado de S.Paulo

Temos aí a síntese de temas examinados pela sociologia da forma estatal

Em editorial recente o Estado discutiu um ato do Supremo Tribunal Federal (STF) que ainda não foi devidamente discutido. Desde o título temos materiais para a diagnose do sistema estatal brasileiro: As celebridades do STF (9/6, A3). Após citar o aluguel de sala exclusiva para espera, embarque e desembarque dos magistrados no aeroporto brasiliense (ao custo de reais aos milhares), o autor do texto não mastiga palavras: “Agora, o STF tem não apenas uma área reservada para seus ministros, mas há um procedimento de embarque exclusivo. Acham melhor não se misturar com o povo. Contato com o populacho, só por intermédio das ondas esterelizadoras da televisão e do rádio oficiais”.

Temos aí a síntese de temas examinados pela sociologia da forma estatal. Desde a modernidade notamos um esforço para pensar o desempenho dos que operam o Estado em cenas trágicas ou bufas. Um livro que no Brasil teve pouco sucesso de venda expõe a lógica de quem manipula instituições e representa papéis diante das massas boquiabertas. Refiro-me ao volume de Richard Sennet O Declínio do Homem Público. Hoje os indivíduos, grupos, corporações desejam manter uma existência “íntima” no mesmo átimo em que brilham diante dos olhos populares. Impossível manter a contradição durante longo tempo. Logo, são ordenadas medidas para salvar a própria intimidade segundo a força econômica, política, social de cada setor. Celebridades que só atingem fama graças aos admiradores, paradoxalmente, fogem dos paparazzi que lhes dão renomada.

Volto ao texto do Estado: os juízes do STF gostam de aparecer nas telas, revistas, jornais. E são conhecidos por multidões que os admiram ou detestam. E tudo fazem para ter sua face lembrada. Entreveros no plenário ajudam. Como no telecatch examinado por Roland Barthes (Mitologias), temos no STF lutadores. Uns representam o Bem e outros, o absoluto Mal. A perversão e a bondade são reversíveis: os insultos voltam como bumerangues, fazem rir do herói, ontem trágico. Num processo o juiz desempenha o bom moço, mas noutro é execrado pelos pares ou pela plateia.

Bruno Boghossian: Disputando no escuro

- Folha de S. Paulo

Presidenciável quer evitar debates na TV e expõe divergências com seu economista

Jair Bolsonaro (PSL) não quer participar de debates no primeiro turno. O presidenciável também se recusa a discutir sua proposta de reforma tributária e diz que não vai mostrar o pacote de medidas econômicas preparado por sua equipe, “para não levar pancada por aí”.

Faltam 105 dias para a eleição, e o candidato que lidera boa parte das pesquisas ainda é um enigma. Bolsonaro ganhou o selo do livre mercado sem esforço, graças a sua aliança com economistas liberais, mas seu comportamento na corrida indica que ele esconde algumas surpresas.

Dissonâncias entre o candidato e seu guru Paulo Guedes se tornaram mais evidentes nos últimos meses. Em abril, o economista indicou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que Bolsonaro resistia a defender uma reforma da Previdência mais dura durante a campanha.

“Pô, Paulo, você faz o que quiser depois, mas se eu fizer isso, nem chego lá. O Lula está falando que vai mexer na Previdência? O Alckmin?”, disse Bolsonaro, segundo Guedes.

Vera Magalhães: PT preso a Lula

- O Estado de S.Paulo

Partido que venceu últimas quatro eleições não consegue apresentar uma ideia para o País

Pouco antes de ser preso, numa das cenas da narrativa épica em que tentou transformar o que, na verdade, era uma derrota sem precedentes, Lula cunhou a frase segundo a qual não era mais uma pessoa, mas uma ideia. Passados mais de dois meses de sua prisão, não houve comoção nacional, minguou a vigília, as tentativas de levar a sua soltura fracassam uma a uma e o PT, seu partido, segue preso à pessoa de Lula, sem uma única ideia a apresentar ao País.

Os debates presidenciais já começaram, a despeito do calendário eleitoral oficial ter sido propositalmente empurrado para a frente. Pré-candidatos reais e figurativos se revezam em encontros com associações, entrevistas e sabatinas de imprensa e ocupam as redes sociais com estratégias políticas e esboços de propostas.

Instados por jornais, portais, rádio e emissoras, expõem aos eleitores ainda muito céticos suas propostas para temas cruciais para o Brasil, como reforma da Previdência, reforma tributária, educação, segurança pública e ajuste fiscal.

O PT, por vontade própria, insiste em se ausentar deste debate. O partido que venceu as quatro últimas eleições presidenciais no País não consegue formular um programa com o qual se apresentar de novo ao eleitor depois do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de seu maior líder.

Insiste ad infinitum na tese segundo a qual foi vítima de um golpe envolvendo o Supremo Tribunal Federal, as duas Casas do Congresso, quase todos os partidos, a imprensa, as demais instâncias do Judiciário, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e quantas mais instituições houver. Haja perseguição!

Míriam Leitão: Ciro e o tempo

- O Globo

Ciro Gomes chega à terceira disputa presidencial confirmando certos defeitos e algumas qualidades. Continua sendo um atirador a esmo, como mostrou nos últimos dias quando mirou em um vereador de primeira legislatura. O tempo não conteve seu temperamento. Ele tem se preparado para o cargo e pode mostrar bons trunfos como gestor, mas suas ideias econômicas permanecem com muitos equívocos.

No Ceará, Ciro e depois seu irmão Cid, como governadores, fizeram uma revolução na educação e, curiosamente, ele tem falado pouco disso. Hoje são inúmeras as cidades cearenses que constam entre as mais bem avaliadas nos anos iniciais e finais do ensino médio. Em Sobral, onde ele foi prefeito, há várias escolas com as melhores avaliações. Esse bom desempenho se espalhou pelo estado. No excruciante problema da educação, há um caminho que passa pelo Ceará no fundamental, como há um caminho que passa por Pernambuco no ensino médio. Sei de visitar escolas nos dois estados.

Na economia, o ex-ministro da Fazenda continua confuso e com propostas mal explicadas. A ideia que ele defende de estabelecer um teto para o gasto com a dívida é a mais perigosa das que já defendeu nesta campanha. Segundo ele, seria um mecanismo parecido com o que existe nos Estados Unidos. Lá quando bate no teto, como se viu, ou o Congresso o eleva ou o governo fecha as portas. Mas o que espanta é ele não ter entendido ainda o que é ser emissor da moeda mais desejada do mundo, e da dívida que mais atrai investidores, e ser um país que sequer tem grau de investimento. Ao mesmo tempo que diz que sabe que a dívida é a poupança dos brasileiros, Ciro aproveita as entrevistas para defender a ideia, fácil e errada, de que os juros da dívida pública são pagos apenas aos banqueiros. Foi exatamente desse erro que o PT fugiu quando quis se tornar viável em 2002. Tantos anos depois, Ciro comete o mesmo equívoco. Limite para pagamento do serviço da dívida pode ser o primeiro passo para um calote.

Merval Pereira: O futebol como metáfora

- O Globo

A seleção de futebol da Rússia está prestes a se classificar para as oitavas de final da Copa do Mundo, o que só aconteceu em 1986, quando ainda existia a União Soviética. E já superou um tabu, pois nunca vencera duas vezes seguidas em uma Copa. A festa pelas ruas de Moscou ou São Petersburgo é muito mais simbólica do que em qualquer outra edição da Copa do Mundo, pois os russos, além de estarem no centro das atenções de bilhões de pessoas pelo mundo, com a realização de uma Copa do Mundo até aqui impecável como organização, reafirmam com a atuação da antes desacreditada seleção de futebol a reconquista do orgulho nacional.

Há uma explicação histórica para tal, a alma russa se impõe nas comemorações. Para o historiador russo Dmitri Trenin, do Carnegie Moscow Center, que antes de se juntar a esse prestigioso think tank serviu por 21 anos no Exército soviético e nas forças terrestres de segurança da Rússia, aposentando-se como coronel, o povo russo sofreu muito ao longo do século XX: “Dificilmente outros povos terão sofrido tanto”, definiu ele em recente palestra no Centro Brasileiro de Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

O povo russo, na concepção do especialista, se percebe como “um grande país solitário”. Faz fronteira, de um lado, com a Noruega e de outro com a Coréia, inúmeras etnias e idiomas, é a maior área geográfica do planeta e se sente traído pela União Européia, que atraiu seus ex-satélites.

Trenim resume assim os anos de sofrimento: “Convulsões sociais na alvorada do século, Primeira Guerra, 70 anos de regime comunista, única grande experiência humana no marxismo que naufragou depois de muito sacrifício de seu povo, Stalin, Segunda Guerra com 28 milhões de mortos, mais Stalin, fim da URSS, perda de suas repúblicas”.

Para ele, a ambição original pós-comunismo era uma integração com União Européia, desde a reunificação da Alemanha em 1990. O único pleito russo, feito por Shevardnadze a Kohl, da Alemanha, foi não crescer a OTAN. Apesar do compromisso, com Bush o Tratado do Atlântico Norte (OTAN) cresceu muito. Os russos se sentiram isolados e traídos, ressalta Dmitri Trenin.

Marcos Lisboa: Parlamento

- Folha de S. Paulo

Há o risco de discutirmos só a sucessão presidencial e nos esquecermos dos outros candidatos

O nosso presidencialismo mudou. Sem plebiscito ou emenda constitucional, o Brasil tornou-se um quase parlamentarismo.

A Constituição de 1988 concedeu ao presidente imensos poderes, como o de editar medidas provisórias com força de lei que podiam ser reeditadas sem qualquer restrição. O ministro da Casa Civil talvez fosse mais importante do que a liderança da Câmara.

Não mais. As medidas provisórias agora têm prazo de validade e são extintas caso não sejam aprovadas em 120 dias pelo Parlamento. O Orçamento público tornou-se impositivo, devendo ser cumprido pelo Executivo. Foi-se o tempo em que se bastava eleger o presidente para determinar os rumos do governo.

Nossas leis determinam gastos públicos que ultrapassam 100% das receitas correntes. O novo governo precisará do apoio do Congresso para reduzir seus gastos ou propor aumentos de tributos para evitar o crescimento explosivo da dívida.

Aprovar mudanças na legislação requer, em princípio, maioria simples do Congresso. Nas últimas décadas, entretanto, nossos parlamentares transformaram as principais políticas públicas em emendas constitucionais. Reformá-las exige a aprovação por parte de 60% da Câmara e do Senado.

O presidente ainda decide sobre nomeação de cargos, o que garante algum poder de persuasão, mas cada vez menor com as novas leis, como a das estatais, que restringem as nomeações políticas. O controle da sociedade sobre a escolha de ministros também tem evitado algumas nomeações típicas do Brasil Velho.

Samuel Pessôa: Economia política do teto dos gastos

- Folha de S. Paulo

Sem o teto e se não aceitarmos a volta da inflação, será necessário elevar a carga tributária

Têm sido correntes entre os candidatos críticas à emenda que estabeleceu que o gasto primário da União não pode, por dez anos a se iniciarem em 2017, crescer a velocidade superior à alta da inflação.

Considera-se que, se o gasto suplantar o teto constitucional estabelecido, a emenda terá fracassado.

Esse entendimento está errado. A força da emenda constitucional que estabelece um limite ao crescimento do gasto primário vem da elevadíssima probabilidade de o teto ser rompido, caso não sejam feitas reformas importantes nas regras que determinam o crescimento da despesa obrigatória. Se não houvesse possibilidade de rompimento, a emenda não seria necessária.

Explico-me: a função da chamada emenda do teto é levar a uma profunda discussão do Orçamento com a redução gradual da despesa primária (em percentual do PIB) para que o país consiga fazer o ajuste fiscal.

Adicionalmente, a própria emenda estabelece regras de ajuste compulsório da despesa pública caso o gasto público ultrapasse o limite.

Nesse caso, não será possível aumentar salários de servidores públicos, elevar o salário mínimo real, contratar novos servidores além do necessário para repor os que se aposentam, renovar ou ampliar programas de isenção de impostos (como atualizar a tabela do Imposto de Renda ou elevar o nível para enquadramento de uma empresa no regime tributário especial do Simples), criar despesas obrigatórias etc.

Estamos no meio de fortíssimo conflito distributivo. A dívida pública de mais de 70% do PIB e a carga tributária de 33% do PIB são elevadas para um mercado emergente. Por outro lado, tem sido muito difícil aprovar no Congresso medidas que reduzam o gasto público, como a reforma da Previdência. Também tem sido muito difícil aprovar no Congresso medidas que elevem a carga tributária.

Rolf Kuntz*: Um desastre muito maior que a crise do transporte

- O Estado de S.Paulo

Esqueceram o Brasil ao cuidar da crise dos caminhoneiros

Esqueceram o Brasil ao cuidar da crise dos caminhoneiros. O cartel do transporte, um monstrinho gerado no Palácio do Planalto, nem começou a funcionar plenamente, mas os brasileiros continuam pagando a conta, com preços mais altos, trava na atividade econômica e nova sangria no Orçamento federal. O efeito inflacionário pode ter sido passageiro, mas outros danos serão com certeza duradouros. O custo final é um mistério. A tabela de fretes criada pela Medida Provisória (MP) 832/18 deve ser consagrada em lei na primeira quinzena de julho. A votação deve ser completada no dia 11, segundo previsão divulgada pelo Congresso. Será a legalização de um cartel, mas quantos, em Brasília, se preocupam com detalhes tão desprezíveis?

Um parecer equilibrado foi prometido pelo relator da MP, deputado Osmar Terra (MDB-RS). É preciso, segundo ele, dar o peso adequado aos interesses dos caminhoneiros e das transportadoras. “Temos de buscar um acordo do tipo ‘ganha-ganha’, que não beneficie só um lado ou outro”, disse o relator, segundo informação publicada no portal da Câmara. Poderá ser um acordo “ganha-ganha” para os participantes do cartel. Para os brasileiros ficarão os custos. O acordo, dirão os defensores do governo, foi negociado para evitar uma paralisação mais longa e mais prejudicial a todos. Acredite nisso quem tiver suficiente boa vontade.

A história é obviamente outra. De fato, a autoridade cedeu a uma extorsão, quando podia ter reagido. Ao se livrar do problema, deixou em segundo plano os interesses da maior parte da população e também a legalidade, violada com o bloqueio das estradas.

Ricardo Noblat: O direito de Bolsonaro ao silêncio

- Blog do Noblat

O candidato que prega o confronto tem medo de debates

O líder das pesquisas de intenção de voto sem Lula, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) cogita não comparecer a debates no rádio e na televisão com os demais candidatos à sucessão do presidente Michel Temer. E por isso já começou a ser duramente criticado.

Ora, ele tem esse direito. Não será o primeiro candidato a presidente ou a qualquer outro cargo importante a fugir de debates. Até Lula já fugiu em 2006 quando foi candidato à reeleição – e venceu. Dilma também fugiu em 2010 e em 2014, e venceu.

No caso de Bolsonaro não será novidade. Ele evita até mesmo a conceder entrevistas. Alega que a mídia o persegue e só lhe deseja fazer mal. Convidado a expor suas ideias para plateias com o direito de lhe fazer perguntas, costuma faltar.

Candidatos procedem assim por cálculo político. Uns porque estão demasiadamente na frente das pesquisas e temem darem-se mal nos debates. Outros porque detestam correr riscos. Candidatos nanicos, esses não perdem um debate. São os mais assíduos.

De fato, Bolsonaro teme o confronto não por que lidera as pesquisas apenas, mas porque é um despreparado. Não sabe o que dizer sobre os principais problemas do país. Não sabe dizer como governaria. Na maioria das vezes, o que diz não resistiria ao contraditório.

Luiz Carlos Azedo: A decantação da Lava-Jato

- Correio Braziliense

A divisão no Supremo Tribunal Federal (STF) entre “garantistas” e “punitivistas”, revela um choque de concepções jurídicas que veio para ficar

Está em curso a decantação da Operação Lava-Jato, com reflexos na disputa eleitoral deste ano. Embora sejam dois processos distintos, têm um ponto de convergência: a situação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e 1 mês de reclusão em regime fechado.

Decantação é um processo da separação de substâncias líquidas ou sólidas que não devem ser misturadas. É o método utilizado para tratamento de esgoto e retirada das impurezas da água. Um processo simples, quase natural: a decantação ocorre devido à diferença da densidade e da solubilidade entre substâncias heterogêneas. No caso de dois líquidos – a água e o óleo, por exemplo —, a substância com maior densidade (óleo) tende a se acumular sob a menos densa (água).

A decantação também é usada para separar líquidos de sólidos, como a água e a areia. Em repouso, a força da gravidade fará pouco a pouco que as substâncias estejam visivelmente separadas. Também é possível acelerar esse processo. A centrifugação, por exemplo, faz com que a força da gravidade atraia a substância mais densa para o fundo do recipiente, como acontece com as roupas numa máquina de lavar.

No caso dos políticos com mandato envolvidos na Operação Lava-Jato, a decantação começou no Supremo Tribunal Federal (STF) com a absolvição da presidente do PT, Gleisi Hoffman, e o marido, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, por insuficiência de provas, pela segunda turma da Corte. Todos os ministros do chamado “Jardim do Éden” votaram contra a condenação por formação de quadrilha e corrupção passiva. O ministro-relator da Lava-Jato, Edson Fachin, porém, pediu a condenação da presidente do PT por falsidade ideológica (crime de caixa dois), mas foi acompanhado apenas por Celso de Mello, num voto de 100 páginas. Votaram contra a condenação os ministros Ricardo Lewandowski, presidente da turma, Gilmar Mendes e Dias Toffoli.

A decisão aparta as delações premiadas das provas do processo; ou seja, decanta as denúncias do Ministério Público Federal (MPF) contra os políticos baseadas na delação premiada de Emílio e Marcelo Odebrecht. E deve servir de base para a jurisprudência do tribunal que norteará os demais julgamentos de envolvidos na Lava-Jato, principalmente os com direito a foro privilegiado.

Há cheiro de manjericão e orégano no ar, mas ainda não há pizza. Tudo vai depender das decisões do pleno do STF, no qual o voto derrotado de Celso de Mello pode servir de fio da meada para uma nova jurisprudência. Se o julgamento fosse na primeira turma, apelidada de “câmara de gás”, não haveria nenhuma surpresa se o resultado fosse o inverso e Gleisi acabasse condenada por uso de caixa dois. O plenário do Supremo terá que se pronunciar caso a caso, examinando as provas de cada acusação, daí a decantação.

Bernardo Mello Franco: O último sobrevivente

- O Globo

Os golpistas já festejavam a vitória quando Waldir Pires se sentou pela última vez diante de sua Olivetti no Palácio do Planalto. Aos 37 anos, o advogado baiano era responsável pela forma jurídica de todos os atos do governo João Goulart. Na madrugada de 2 de abril de 1964, ele escreveu que o presidente havia voado para o Rio Grande do Sul, onde permanecia “à frente das tropas militares legalistas e no pleno exercício dos poderes constitucionais”.

O senador Auro de Moura Andrade ignorou a mensagem e declarou vaga a Presidência. Waldir tentou resistir no palácio com Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil. Às duas da manhã, ao ver os militares cercando a área, interpelou o comandante militar do Planalto, Nicolau Fico: “Mas general, o senhor traiu o presidente?”. Menos diplomático, Darcy chamou o oficial de “gorila”. Os dois se mandaram antes que fossem presos.

Nas 36 horas seguintes, Waldir e Darcy viveriam uma aventura de cinema. A primeira tentativa de sair de Brasília fracassou. A dupla quis embarcar num avião da FAB, mas foi informada de que a frota já estava sob comando dos golpistas. “Doutor Waldir, o que o senhor está fazendo aqui?”, surpreendeu-se um major. “Saia logo. Se virem o senhor, vão prendê-lo”, avisou.

No dia 3, o deputado Rubens Paiva começou a montar uma operação para levar os aliados até Porto Alegre. Na madrugada do dia 4, os dois rastejaram pela cabeceira da pista e correram até um monomotor. A torre tentou barrar a decolagem, mas Darcy obrigou o piloto a partir.

Na escala em Mato Grosso, outras más notícias. O combustível não chegou, e a aeronave teve que ser reabastecida com gasolina de caminhão. Pelo rádio, Waldir e Darcy souberam que a resistência havia fracassado. Jango estava em Montevidéu, era preciso mudar a rota para o Uruguai. Na tarde do dia 5, a poucos quilômetros do destino, os viajantes enfrentaram uma tempestade. O piloto precisou forçar o pouso no meio de um rebanho de ovelhas, conta Emiliano José no recém-lançado “Waldir Pires: A Biografia”.

Waldir era o último sobrevivente entre os dez primeiros cassados pela ditadura — a lista incluía Prestes, Jango, Jânio, Brizola, Darcy e Arraes. Mais tarde, seria governador da Bahia, deputado e ministro da Previdência, da CGU e da Defesa. Morreu na sexta-feira, aos 91 anos.