segunda-feira, 26 de junho de 2017

Opinião do dia – O Estado de S. Paulo

A saída da crise não virá, como alguns parecem fazer crer, de uma decisão judicial pondo o último corrupto na cadeia. Além de utópica, já que nunca chegará esse dia, tal crença só conduz à passividade, como se a população tivesse de esperar o fim da crise para empreender, trabalhar, contratar, etc. A esse respeito, deve-se aprender também com o governo de Michel Temer, por muitas que sejam suas deficiências. Mesmo com o cenário conturbado, realizou significativos ajustes na economia e continua disposto a levar adiante as tão necessárias reformas. O País está hoje melhor do que estava um ano atrás. E talvez os estrangeiros percebam esse fato mais facilmente do que os próprios brasileiros.

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Editorial “Como olhar a crise”, O Estado de S. Paulo, 25/6/2017

Câmara paralisa agenda do Senado contrária à Lava-Jato

Por Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - A agenda de retaliação à Operação Lava-Jato aprovada pelo Senado com apoio dos principais partidos travou na Câmara dos Deputados. A nova Lei de Abuso de Autoridade espera desde abril por um mero despacho para que passe a tramitar nas comissões. Os três projetos que visavam regulamentar os pagamentos de juízes e promotores do Ministério Público, discutidos em conjunto pelos senadores, foram separados e, quatro meses depois, estão parados.

Primeiro na linha sucessória da República e cotado para uma eventual eleição indireta, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), é o principal responsável por travar essa agenda. Segundo aliados, Maia tenta não "inflamar" os ânimos dos parlamentares num momento de tensão entre políticos e Judiciário.

Senado usará Conselho para se contrapor à PGR

Por Vandson Lima | Valor Econômico

BRASÍLIA - Um requerimento apresentado pelo líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB), pretende alterar radicalmente as atribuições do Conselho de Ética do Senado, tornando-o uma espécie de instrumento político para a Casa se contrapor à atuação do Ministério Público.

Órgão responsável por avaliar a conduta dos senadores, julgando denúncias que podem resultar até na perda do mandato, o Conselho vai, a partir da aprovação do requerimento, passar a requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) informações detalhadas de investigações e processos contra todos os seus parlamentares.

Segundo o presidente do Conselho de Ética, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), a ideia é passar a ter voz ativa: com base nas informações, o Conselho vai se manifestar oficialmente sobre os casos, pedindo a continuidade das investigações ou o arquivamento. Ou seja, ou Senado quer sair das cordas e passará a reagir, ter posição a cada investigação contra seus membros requerida pela Procuradoria-Geral da República (PGR). "A ideia é que se acelerem esses processos. Vamos ser cobradores do que existe contra o senador", contou ao Valor. "Queremos saber em que pé está a investigação e vamos posicionar o Conselho. Não dá para essas investigações ficarem se arrastando eternamente, prejudicando o Parlamento", reiterou.

Em oposição a Temer, PSB fará trocas na CCJ

Por Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA - O PSB continua enfrentando dificuldades para alcançar a unidade partidária em votações na Câmara dos Deputados e no Senado, mesmo depois de desembarcar do governo do presidente Michel Temer. Diante das divergências internas, o partido mudará dois integrantes da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara com o objetivo de garantir que todos os seus parlamentares que fazem parte do colegiado votem pela admissibilidade de uma eventual denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Temer.

Segundo apurou o Valor, o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, já deu o aval para que, assim que a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, for encaminhada à Câmara pelo Supremo Tribunal Federal, a legenda substitua os deputados Fabio Garcia (MT) e Danilo Forte (CE) na comissão. Mesmo pressionados, ambos já teriam sinalizado que votariam para barrar uma eventual denúncia contra o presidente na CCJ.

Planalto quer ação rápida na Câmara contra denúncia de Janot

Gustavo Uribe, Daniel Carvalho, Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Na semana decisiva para sua sobrevivência no cargo, o presidente Michel Temer tenta mobilizar a base aliada para barrar, já na primeira quinzena de julho, a denúncia que a Procuradoria-Geral da República deverá apresentar contra ele por corrupção.

Em reunião no Palácio do Alvorada neste domingo (25), o peemedebista discutiu com sete ministros, além de parlamentares, estratégia para lidar com denúncia preparada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O governo quer liquidar a denúncia em três semanas, mas não sabe ainda como será apresentada, se fatiada ou uma única peça, nem quando chegará ao Congresso.

Por isso, Temer deixou a equipe de sobreaviso para um novo encontro tão logo Janot conclua os trabalhos.

Gravação de Joesley prejudica fala de Temer, diz perícia

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Interrupções na gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer prejudicaram mais a fala do peemedebista, aponta perícia privada realizada pelo IBP (Instituto Brasileiro de Peritos), a pedido da Folha.

Análise do instituto já havia apontado, na última semana, que as interrupções devem ter sido causadas pelo próprio aparelho utilizado na captação de áudio. Novo relatório, finalizado no sábado (24), conclui que elas estão muito menos relacionadas à fala de Joesley e mais à do presidente, o que provocou "a falta de partes do seu discurso".

Segundo o IBP, equipamentos móveis como o utilizado suspendem a gravação enquanto não há som, para economizar bateria, e reativam mais eficientemente aos sons mais intensos.

Por isso, os sons emitidos de forma menos intensa –na gravação em questão, os de Temer– foram menos percebidos pelo equipamento. "Essas características não apenas suprimiram o início de muitas falas, mas também prejudicaram a inteligibilidade das partes subsequentes que foram gravadas", diz a análise.

Base não garante veto à denúncia

Líderes da base veem risco para Temer em denúncia

Representantes partidários na Câmara dizem que rejeição de acusação de Rodrigo Janot não é certa

Julia Lindner e Carla Araújo, O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Líderes da base aliada de Michel Temer na Câmara dos Deputados afirmaram ao Estado não ser possível assegurar a rejeição da denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve apresentar até amanhã contra o presidente da República. Mesmo com uma coalizão estimada em cerca de 400 deputados, parlamentares ponderam que o teor da acusação formal e os seus desdobramentos podem influenciar o posicionamento dos congressistas, aumentando o risco de Temer sofrer um revés.

A denúncia contra o presidente é apresentada no Supremo Tribunal Federal, que só pode julgar sua aceitação ou não com o aval da Câmara. Após ser encaminhada para a Casa, a acusação tramita primeiro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de seguir para o plenário. São necessários os votos de 172 dos 513 deputados para negar a autorização. Se aprovada por no mínimo 2/3 da Casa, retorna ao Supremo. Caso a Corte aceite a denúncia, o presidente é obrigado a se afastar do cargo por 180 dias.

Para Baleia Rossi (SP), líder do PMDB, partido de Temer e que tem a maior bancada da Casa, com 64 deputados, o governo não pode se descuidar. “No Parlamento nada é automático. Vai ter que trabalhar. Cada líder da base vai ter que trabalhar sua bancada. Vai ter que ter convencimento. Não dá para achar que está tudo resolvido.”

Temer reúne núcleo político para traçar estratégia contra denúncia de Janot

Encontro com ministros, parlamentares e advogado no Palácio da Alvorada durou duas horas; PGR deve apresentar denúncia nesta semana

Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer se reuniu neste domingo, no Palácio da Alvorada, com o núcleo político do seu governo. Em meio às crises política e jurídica, o Planalto articulou as ações da próxima semana para tentar se sustentar e também para traçar a estratégia para o recebimento da denúncia que o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, deve apresentar nesta semana.

Apesar de o encontro ter como pauta oficial as votações no Congresso, o Planalto confirmou que o advogado do presidente, Gustavo Guedes, também participou da reunião. De acordo com a lista oficial, divulgada nesta noite, ainda estavam presentes no encontro: Henrique Meirelles (Fazenda), Torquato Jardim (Justiça), Eliseu Padilha (Casa Civil), Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), Moreira Franco (Secretária-Geral da Presidência) e Sergio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também participou do encontro. De parlamentares só participaram os líderes do governo no Congresso, André Moura, e na Câmara, Aguinaldo Ribeiro.

Temor de um Supremo ‘imprevisível’

Presidente reúne ministros e líderes aliados para avaliar cenário com denúncia

Cristiane Jungblut, Manoel Ventura, O Globo

-BRASÍLIA- Em uma reunião que durou cerca de três horas ontem, no Palácio da Alvorada, a avaliação foi que é preciso “aguardar os acontecimentos” no Judiciário para o governo definir suas estratégias em relação à denúncia que será apresentada até amanhã pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Há uma constatação de que os movimentos dos ministros do STF se tornaram imprevisíveis, o que teria sido demonstrado pela sessão da semana passada, na qual a maioria dos ministros validou a delação da JBS. Por isso, a ordem agora é aguardar os movimentos de Janot; do relator no STF, ministro Edson Fachin; e da presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia.

O presidente Michel Temer se reuniu ontem à noite com seus aliados de maior confiança: os ministros Eliseu Padilha, Moreira Franco, Antônio Imbassahy, Aloysio Nunes Ferreira, Henrique Meirelles, Torquato Jardim e Sérgio Etchegoyen, além do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e dos líderes do governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e no Congresso, André Moura (PSC-SE).

Janot diz em parecer não ter dúvidas sobre culpa de Temer

Afirmação foi feita em documento entregue ao STF sobre Rocha Loures

Procurador-geral, que deve apresentar hoje denúncia, disse ser cristalina a atuação de presidente e deputado em crimes delatados pela JBS

No parecer que enviou ao Supremo para pedir a manutenção da prisão do deputado afastado Rocha Loures, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, dá uma prévia do que deve sustentar a denúncia que será apresentada até amanhã contra o presidente Michel Temer. No documento de 93 páginas, Janot afirma que não há dúvida de que Temer cometeu crime de corrupção. O procurador-geral classifica de “hialina” (cristalina) a atuação conjunta do presidente e de Loures nos crimes descritos na delação dos executivos da JBS, assim como a proximidade entre os dois. O presidente ontem reuniu ministros e líderes aliados para avaliar o quadro político. A tensão aumentou no Planalto, com a avaliação de que os ministros do Supremo se tornaram imprevisíveis.

À espera da denúncia

Em parecer, Janot já considerava não haver dúvida de que Temer cometeu crime de corrupção

André de Souza, O Globo

-BRASÍLIA- A previsão é que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ofereça hoje ou, no máximo, amanhã denúncia contra o presidente Michel Temer no Supremo Tribunal Federal (STF). Este será o primeiro passo para que o presidente possa se tornar réu. Em documento protocolado na semana passada, Janot já deu indicativos de que não vai aliviar nas acusações. Entre outras coisas, o procurador-geral disse que não há dúvida de que Temer cometeu crime de corrupção e sugeriu que a manutenção dele na Presidência contribui para a continuidade do cometimento de crimes.

Com crise, Congresso tenta salvação com ‘distritão’

Estrago da Lava-Jato nos partidos deu força à ideia de criar o sistema, que ajudaria quem quer se reeleger

Catarina Alencastro, Maria Lima, O Globo

-BRASÍLIA- No momento em que os partidos tradicionais, alvejados pela Operação Lava-Jato, procuram saídas para sua sobrevivência em 2018, cresceu no Congresso o apoio a uma polêmica proposta de mudança no sistema eleitoral. Tratase da alteração na eleição de deputados e vereadores, que passariam a ser eleitos pelo chamado “distritão”, sistema utilizado em apenas quatro países: Afeganistão, Jordânia, Vanuatu e Pitcairn (território britânico numa pequena ilha do Oceano Pacifico).

Pelo novo modelo, são eleitos para o parlamento os candidatos mais votados, independentemente do apoio que seus partidos recebam. Hoje, as cadeiras de deputados e vereadores são distribuídas primeiro de forma proporcional aos votos recebido pelos partidos ou coligações, e ocupadas pelos candidatos mais votados destes grupos.

No Senado, ‘distritão’ deve ter apoio de PSDB e PMDB

Líder do governo, Jucá diz que ideia é aprovar ‘o que vier da Câmara’

- O Globo

-BRASÍLIA- Mesmo os defensores do “distritão” reconhecem que o novo modelo enfraquece os partidos, e tende a manter os atuais detentores de mandatos, embora estimule a eleição de subcelebridades de fora da política. Mas, apesar das críticas, dizem que não há alternativa a curto prazo. O presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), um dos defensores do sistema, diz que os danos serão compensados pela vantagem, por exemplo, de acabar com o “efeito Tiririca”, em que candidatos que tiveram poucos votos se elegem na esteira de puxadores de voto.

— O “distritão” enfraquece os partidos, mas representa a vontade do eleitor. Na prática, acaba com as coligações proporcionais e com a criação de partidos que estão nascendo como cogumelos para viver como parasitas de grandes legendas. Ao contrário do que dizem, o “distritão” prejudica quem tem mandato, porque a política está no rés do chão — defende Eunício Oliveira.

Palocci é condenado por Moro a 12 anos de prisão

Por André Guilherme Vieira | Valor Econômico

SÃO PAULO - O ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil nos governos do PT Antonio Palocci foi condenado a 12 anos, 2 meses e 20 dias de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A decisão é do juiz federal Sergio Moro, que conduz os processos da Operação Lava-Jato na primeira instância da Justiça Federal do Paraná.

A ação penal tratou do recebimento de propinas por Palocci para atuar em favor do Grupo Odebrecht no governo federal, entre 2006 e 2013.


"O caso trata de macrocorrupção, envolvendo conta corrente geral de propinas entre o Grupo Odebrecht e agentes do Partido dos Trabalhadores, com cerca de R$ 200 milhões acertados, R$ 133 milhões repassados e um saldo de propina do remanescente. Antônio Palocci Filho era o principal administrador da conta corrente geral de propinas", diz Moro na sentença condenatória.

Apelo ao bom senso | Fernando Henrique Cardoso

- Folha de S. Paulo

Só o presidente pode reduzir o próprio mandato. Apelo a Temer para um que medite sobre a oportunidade de um gesto um gesto dessa grandeza

As dificuldades políticas pelas quais passamos têm claros efeitos sobre a conjuntura econômica e vêm se agravando a cada dia. Precisamos resolvê-las respeitando dois pontos fundamentais: a Constituição e o bem-estar do povo.

Mormente agora, com 14 milhões de desempregados no país, urge restabelecer a confiança entre os brasileiros para que o crescimento econômico seja retomado.

A confiança e a legalidade devem ser nossos marcos. A sociedade desconfia do Estado, e o povo descrê do poder e dos poderosos. Estes tiveram a confiabilidade destruída porque a Operação Lava Jato e outros processos desnudaram os laços entre corrupção e vitórias eleitorais, bem como mostraram o enriquecimento pessoal de políticos.

Não se deve nem se pode passar uma borracha nos fatos para apagá-los da memória das pessoas e livrar os responsáveis por eles da devida penalização.

A Justiça ganha preeminência: há de ser feita sem vinganças, mas também sem leniência com os interesses políticos. Que se coíbam os excessos quando os houver, vindos de quem venham –de funcionários, de políticos, de promotores ou de juízes. Mas não se tolha a Justiça.

Disse reiteradas vezes que o governo de Michel Temer (PMDB) atravessaria uma pinguela, como o de Itamar Franco (1992-1994).

Colaborei ativamente com o governo Itamar, apoiei o atual. Ambos com pouco tempo para resolver grandes questões pendentes de natureza diferente: num caso, o desafio central era a inflação; agora é a retomada do crescimento, que necessita das reformas congressuais.

Não basta indignação | Murillo de Aragão

-IstoÉ

Não há como não se indignar com a política nacional. A sucessão de episódios envolvendo corrupção é extraordinária, sem paralelos na história moderna do mundo. Ao consultar a Wikipedia, encontramos uma explicação solta, porém absolutamente pertinente: numa democracia, o direito à indignação é sagrado.

Mas a indignação é mais que um direito. É uma presença intensa e constante em nossa vida, por conta da repercussão do noticiário político e das explicações de especialistas sobre os acontecimentos. Nossa dose diária de indignação está assegurada – a ponto de seu excesso causar certa apatia e até mesmo afasia, que é o desejo consciente de não fazer juízo sobre alguma coisa.

O que parece ser intenso não é. Somos menos indignados do que deveríamos. Nossa indignação causa mais luz do que calor. Porque somos menos informados do que deveríamos e menos interessados em participar do que o necessário.

Os ventos que sopram da França | Marcus Pestana

- O Tempo (MG)

A política está sendo virada do avesso no mundo contemporâneo. As bases do sistema representativo clássico estão sendo erodidas. Os paradigmas ideológicos do passado vivem crise terminal. O mundo das ideias precisa ser reinventado.

A sociedade do Século XXI é diametralmente diferente do universo que envolvia a democracia em tempos passados. A estrutura social era mais nítida em sua clivagem. Os conceitos de esquerda e direita eram mais nítidos. Hoje a sociedade é diversa, fragmentada, plural. Sindicatos se esvaziam. Partidos políticos perdem a capacidade de vocalizar o interesse dos cidadãos. Múltiplos movimentos autônomos e independentes se organizam. Ambientalistas, gays, católicos, evangélicos, mulheres, coletivos culturais, moradores de bairro se organizam a margem dos partidos e das instâncias formais. Sem falar na participação direta e isolada das pessoas nas redes sociais.

Além de mocinhos e bandidos | Bernardo Sorj

- O Globo

É necessária a entrada em cena de um novo ator, que indique a saída. Caso contrário, no lugar de uma novela brasileira, teremos um filme de Tarantino no qual todos se matam

Durante os últimos dois anos, os brasileiros acompanham, embasbacados, uma novela que parece não mudar de rumo. Mocinhos pertencentes ao Poder Judiciário, ao Ministério Público e à Polícia Federal desmascaram políticos e empresários corruptos, usando todos os instrumentos da lei, e até por momentos extrapolando seus limites. Isso não diminui o justo entusiasmo dos espectadores com os mocinhos, pois estão revoltados e nauseados com os bandidos que roubaram o dinheiro do povo.

Símbolos nacionais | Denis Lerrer Rosenfield*

- O Estado de S.Paulo

Antes eleitoralmente ludibriada, a sociedade insurge-se contra o espetáculo da corrupção

Grandes empresários deveriam ser símbolos de sucesso, empreendedorismo e retidão. Homens feitos por si mesmos em processos concorrenciais de que saíram vitoriosos. Apareceriam, então, como exemplos a serem seguidos tanto por jovens em início de carreira quanto por aqueles que seriam objeto de emulação.

Uma sociedade se organiza em função de exemplos a seguir, numa encarnação de valores a serem repetidos. O mundo empresarial deveria, nesse sentido, mostrar o caminho dos que pretendem o sucesso na vida econômica, sem descuidar, evidentemente, de que esse sucesso obedeça a regras do ponto de vista moral e jurídico. Não se trata de um vale-tudo no absoluto desconhecimento do compromisso com valores éticos.

Amargo regresso | Ricardo Noblat

- O Globo

Estamos na maior crise política da nossa história contemporânea” JOSÉ SERRA (PSDB-SP), senador 

Esqueçamos a Federação Russa, um dos lugares mais corruptos do planeta. O que Michel Temer foi fazer na Noruega, o país mais honesto do mundo junto com seus vizinhos escandinavos? Foi levar uma carraspana da primeira-ministra, preocupada com os destinos da Lava Jato? Foi ouvir o anúncio do governo norueguês de que cortaria parte do dinheiro investido na preservação da devastada floresta amazônica?

OU TEMER FOI PARA SE reunir, como disse, com o Rei da Suécia que não mora na Noruega? Ou como parece mais certo, Temer foi para fugir da crise política que o ameaça desde que se soube do seu encontro no porão do Palácio do Jaburu com o empresário Joesley Batista, dono do Grupo JBS, provedor de campanhas eleitorais do PMDB? Pode ter tentado fugir da crise, mas ela não fugiu dele. Carrega seu nome.

TRISTE REGRESSO. Hoje ou amanhã, a Procuradoria-Geral da República denunciará Temer por crime de corrupção passiva, Mais tarde por crime de obstrução da Justiça. Em seguida, por organização criminosa. Temer entrará para a História por ter sido o primeiro presidente da República investigado e denunciado por corrupção. Para salvar-se, se agarrará a um Congresso povoado de bandidos.

O outono do patriarca | Gustavo H. B. Franco

- O Estado de S.Paulo

Hoje temos instituições que zelam pela integridade do Fisco e da moeda

A divulgação da gravação de Joesley Batista com o presidente no dia 18 de maio teve o curioso efeito de parar o tempo econômico. O mesmo dia recomeça todas as manhãs, sempre nublado, muda apenas o título da operação da Polícia Federal. Estamos como Bill Murray, o meteorologista aprisionado na comemoração do dia da marmota em O Feitiço do Tempo.

O Comitê de Datação de Ciclos Econômicos ainda não se pronunciou sobre esse estranho fenômeno, são poucos os precedentes, quase todos emanados do realismo fantástico latino-americano. Mas os relatos vão se acumulando entre nostálgicos empresários dividindo-se entre o lamento (“Estava tão perto ...”) e o ressentimento (“Nunca me iludi ...”).

Tentações autoritárias

RESUMO Pesquisa Datafolha e Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica que o país é terreno fértil para líderes autoritários. Diante do medo provocado pela violência urbana, maioria deixa de lado as leis e os planos políticos em busca de um salvador da pátria. Além de Bolsonaro, figuras como Lula e Doria se beneficiam desse cenário.

Medo da violência revigora tendências autoritárias e beneficia Bolsonaro

Renato Sérgio de Lima, Arthur Trindade Maranhão Costa, Folha de S. Paulo / Ilustríssima

O Brasil começa a flertar com o desmanche do Estado democrático de Direito inaugurado pela Constituição de 1988. A afirmação é forte, mas nem por isso menos verdadeira. Parcela significativa e crescente do eleitorado não vê nenhum problema nesse desmantelamento. Ao contrário, imagina que a adoção de uma linha dura deixaria o país perto do que há de mais moderno no brechó do mundo dos negócios e das economias desenvolvidas.

Entre indignados e perplexos, vamos nos dando conta dos riscos embutidos neste momento surreal vivido pelo Ocidente. Propostas salvacionistas dão o tom do tempo social: enquanto se valorizam líderes pretensamente capazes de restaurar a ordem e recolocar a sociedade nos trilhos, a democracia perde espaço e as tentações autoritárias se multiplicam.

A vitória de Donald Trump nos EUA e a votação expressiva da extrema direita em algumas partes da Europa atestam que o discurso do medo e da intolerância voltou a ser estratégia eleitoral bem-sucedida.

A retórica inflamada contra imigrantes, associados de forma genérica ao terrorismo, alimenta o temor cotidiano e pavimenta o caminho para arautos do ultranacionalismo e defensores de plataformas tipo "law and order" (lei e ordem).

A aposta nos livros de filosofia

Em vez de privilegiar as figuras sacrossantas como Kant, Hegel e Espinosa, a tendência são os franceses de 1968, como Foucault, Deleuze e Lacan

Felipe Cherubin*, Colaboração para o Estado /Aliás,Cultura

A leitura de um texto filosófico pode, preliminarmente, desencorajar leitores, fechando definitivamente as portas para o mundo do conhecimento. Nas universidades, o aluno não entra em contato direto com os originais, mas passa por uma introdução histórica mediada pelo corpo docente. A iniciação é indispensável, pois desmistifica aquele ar “hermético” do universo intelectual.

No entanto, o interesse pela filosofia começa antes e depende essencialmente de uma cultura que fomente essa curiosidade desde a infância e que percorra todos os níveis sociais. Em sua coleção Figuras do Saber, concebida pela Société d'édition des Belles Lettres em 63 volumes e organizada por Richard Zrehen (1949-2011), a editora Estação Liberdade visa justamente atingir o público não especializado.

A rebeldia suburbana de Lima Barreto

Homenageado na Flip, escritor emerge sempre que o País entra em crises éticas ou institucionais

Autor de 'Triste Fim de Policarpo Quaresma' ganha reedições, biografia e homenagens

Alexandre Rosa*, O Estado de S. Paulo / Aliás, Cultura

A escolha de Lima Barreto (1881-1922) como homenageado na 17.ª edição da Flip vem corroborar a tese segundo a qual o seu nome emerge sempre que o Brasil afunda em crises institucionais, morais, éticas, políticas. Curiosa gangorra. Isso porque, em cenários como este, o componente crítico-social da literatura ganha enorme relevo, bem como sua capacidade de fomentar debates sobre os problemas do país.

Consta na programação da Flip vários títulos a serem lançados: a nova biografia do escritor, preparada por Lilia Schwarcz, Lima Barreto, Triste Visionário (Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,90); uma reedição de Cemitério dos Vivos e do Diário do Hospício, livros póstumos do autor, organizados, agora, por Augusto Massi, também pela Companhia das Letras; uma edição especial de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá(1919), programada pela coleção Clássicos Ateliê, são alguns títulos que chegarão às livrarias no segundo semestre do ano.

O jogo da sobrevivência | Cida Damasco *

- O Estado de S. Paulo

A ordem agora é concentrar esforços na reforma trabalhista, cujo status no Planalto passou de “praticamente garantida” para “sujeita a riscos”

Michel Temer amanhece hoje de novo à espera de uma semana “decisiva” nessa roleta em que se transformou seu governo. Vêm aí as denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente e todos os desdobramentos que delas podem surgir, entre eles o tão anunciado – e tão emperrado – desembarque do PSDB da sua base parlamentar. No meio disso tudo, há a promessa de que a reforma trabalhista, que saiu de embates da última semana com algumas escoriações, passe pelo exame da Comissão de Constituição e Justiça, antes de ir para o plenário do Senado. Desafios de natureza e escala diferentes, mas que espelham as contradições do programa de Temer. Tudo para garantir a sobrevivência do governo no dia seguinte, e quase tudo para demonstrar que continua de pé a prioridade a um ajuste de médio e longo prazos, via aprovação das reformas econômicas.

Mudando o time | Fernando Limongi

- Valor Econômico

Jogo no STF não será o jogado no TSE. E Fachin não é Zavascki

Rodrigo Janot deve estar experimentando uma situação de déjà vu. O procurador-geral da República volta a se defrontar com adversários poderosos. A natureza do conflito é análoga a que viveu dois anos atrás. Naquela oportunidade, Rodrigo Janot enfrentou Eduardo Cunha. Perdeu. O adversário, hoje, é Michel Temer.

Em agosto de 2015, Janot protocolou denúncia contra o então presidente da Câmara e, a partir de então, empenhou-se em afastar o deputado da cena política. Cunha reagiu rompendo com o governo e ofereceu seus préstimos à oposição, usando o impedimento da presidente Dilma como tábua de salvação.

Entre agosto e dezembro, enquanto aguardava uma decisão do ministro Teori Zavascki, a denúncia contra o parlamentar permaneceu aberta à consulta dos cidadãos. A peça montada por Janot não deixava qualquer dúvida sobre o caráter e a integridade do parlamentar. As provas reunidas são avassaladoras. Cópias de cheques, registros de reuniões, transcrições de conversas, está tudo lá. Não faltaram elementos para formar convicções e juízos.

Guerra de trincheiras | Vinicius Mota

- Folha de S. Paulo

Parcelas da elite brasileira engajam-se numa guerra que ruma para o impasse. Ninguém mais avança, pois a linha de defesa do polo mais fraco, a Presidência e o Congresso, está prestes a fixar-se em trincheiras inexpugnáveis.

Não se derruba facilmente um presidente da República no Brasil de hoje. Não bastam as acusações graves contra o mandatário, a sua impopularidade vultosa, a carga pesada da Procuradoria, abonada pela maioria do Supremo, ou a manifestação de grupos de imprensa pela sua queda.

É necessário cumprir o rito constitucional, que passa, com a exceção da via já bloqueada do TSE, por obter 342 dos 513 votos na Câmara. Se 1/3 dos deputados entrincheirar-se com Temer, não haverá afastamento nem deposição.

Um governo em ruínas | Leandro Colon

- Folha de S. Paulo

Sábado, 13h. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, marca uma entrevista de última hora. Fala por menos de três minutos, foge das perguntas dos repórteres e deixa sozinho à mesa o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello.

Episódios constrangedores e de comunicação desastrosa sobram no governo de Michel Temer, mas esse merece um lugar cativo: um ministro convoca a imprensa para bancar a permanência de quem ele já decidiu trocar, faltando apenas coragem para fazê-lo. Aos jornalistas o mesmo ministro evita garantir Daiello na direção da PF e ainda o abandona na frente das câmeras.

O governo Temer vive dias de pré-queda do governo Dilma Rousseff. Sem rumo, agoniza na Esplanada expondo falhas de estratégia, erros primários de comunicação, agenda internacional desprezível, e deslizes em votações essenciais como a da reforma trabalhista no Senado.

Esperando 2018 | Celso Rocha de Barros

- Folha de S. Paulo

A democracia é confusa, mas é a única opção para o brasileiro não otário

O quadro político brasileiro se deteriora lenta e sonambulamente, sem enfrentar resistência das ruas. Mas há um grande momento da verdade chegando, as eleições de 2018.

Pela primeira vez desde o impeachment, a opinião do eleitor voltará a ter importância. O eleitorado é fortemente pró-Lava Jato. As reformas econômicas também terão que ser temperadas com concessões ou promessas críveis de crescimento robusto. Não será fácil conduzir a política em 2018 só em gabinetes de Brasília e congressos empresariais, como ela foi conduzida desde 2015.

Mas 2018 será mesmo uma ruptura? É difícil saber, e é aconselhável administrar bem as expectativas.

Dinheiro a qualquer preço é suicídio político | Angela Bittencourt

- Valor Econômico

Meta de 2019 e TJLP do 3º trimestre são decisões do CMN

O segundo semestre está no aquecimento para entrar no calendário e acumulam-se evidências de que o governo - com a baixíssima aprovação de 7%, segundo Pesquisa Datafolha - pode cometer um suicídio político se buscar dinheiro a qualquer preço para aliviar a corda que tem no pescoço. Com a meta de déficit primário de R$ 139 bilhões definida para o ano fora de alcance, o governo tentará, no mínimo, evitar o constrangimento de que o rombo nas contas públicas aumente em mais R$ 40 bilhões ou R$ 50 bilhões até dezembro. Esse é mais um risco que se soma ao político, neste momento em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentará denúncia contra o presidente Michel Temer.

Questão de prioridade – Editorial | O Estado de S. Paulo

Apesar da gravidade da crise, bem ou mal as instituições continuam funcionando e é assim que devem prosseguir

Independentemente da ampla exploração política que o tema favorece, é necessário que a Justiça siga seu curso com serenidade, dentro dos estritos limites da lei, na apuração e eventual julgamento das acusações de que políticos, empresários e funcionários têm sido alvo. Apesar da gravidade da crise, bem ou mal as instituições continuam funcionando e é assim que devem prosseguir, no interesse de todos os brasileiros, até que as eleições gerais do próximo ano abram perspectiva mais ampla à renovação das esperanças da Nação. Nesse contexto, não se pode desconsiderar o fato óbvio de que, a uma oposição descomprometida de tudo que não diga respeito à retomada do poder, interessa apenas a revanche pelo impeachment de Dilma Rousseff e a paralisação das reformas que contrariam o modelo populista da sua catastrófica “nova matriz econômica”. Essas reformas não podem parar, porque o Brasil precisa delas urgentemente e, por essa razão, o melhor caminho é permitir que o governo continue trabalhando nos incipientes, mas importantes, sinais de recuperação econômica.