sábado, 17 de novembro de 2018

Opinião do dia: Antonio Gramsci

A formulação do movimento do livre-câmbio baseia-se num erro teórico cuja origem prática não é difícil identificar, ou seja, baseia-se na distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de distinção metodológica é transformada e apresentada como distinção orgânica.

Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir em sua regulamentação. Mas, dado que a sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos, deve-se estabelecer que também o liberalismo é uma “regulamentação” de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva: é um fato de vontade consciente dos próprios fins e não a expressão espontânea, automática, do fato econômico.

Portanto, o liberalismo é um programa político destinado a modificar, quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do próprio Estado, isto é, a modificar a distribuição da renda nacional.
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Antonio Gramsci (22/01/1891- 27/ 04/1937) foi um filósofo, jornalista, crítico literário e político italiano. Escreveu sobre teoria política, sociologia, antropologia e linguística. “Cadernos do Cárcere, v. 3, p. 47. Editora Civilização Brasileira, 3ª edição, 2007.

*Murillo de Aragão: Agenda para um novo Brasil

- O Estado de S.Paulo

Mudança de mentalidade pós-eleição pode ser o gatilho para novos e prósperos tempos

Depois de um longo ciclo de políticas econômicas que oscilavam entre a social-democracia e o socialismo, o Brasil depara-se com uma saudável alternância de poder e de ideias que pode quebrar tabus e propor uma nova agenda de desenvolvimento para a sociedade. A Presidência da República que ora se instala pode destravar imensas potencialidades e provocar um ciclo de crescimento consistente.

Explicarei como.

O Brasil tem muitas circunstâncias excepcionais para deflagrar um vigoroso ciclo de prosperidade. São aspectos de relevância capital o espaço para investimentos em infraestrutura, um mercado consumidor ávido para consumir, reservas abundantes em moeda forte para garantir o fluxo de investimentos estrangeiros, bilhões de dólares que podem ser repatriados por brasileiros para investimentos e nenhum problema com o financiamento de nossa dívida interna, que, em grande parte, é financiada por brasileiros.

Todas essas condições estarão a favor do País para a construção de um bom ambiente de negócios, desde que a nova administração federal perceba o quanto isso é essencial. Pois com um ambiente saudável destravamos as condições para gerar empregos, renda, impostos e divisas.

Além do mais, existem condições internacionais que são favoráveis. A primeira delas é a abundância de liquidez para investimentos. A outra circunstância é a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, que nos abrem oportunidades únicas, que devem ser exploradas com inteligência.

Como melhorar o ambiente de negócios no Brasil?

Devemos tomar por base o ranking do Doing Business in the World, feito pelo Banco Mundial. Por esse índice, somos, de longe, o pior país do mundo – entra as maiores economias do planeta – para fazer negócios. Entre 190 nações, ocupamos o vexaminoso 129.º lugar.

O que significa isso?

Significa que o Brasil é um país que subaproveita a sua potencialidade, cria menos empregos do que poderia e, em consequência, arrecada menos impostos do que deveria. Em poucas palavras, é um país em que a economia, os recursos naturais e os humanos são subutilizados.

João Domingos: Bolsonaro e o Congresso

- O Estado de S.Paulo

O presidente da República não pode ficar neutro nas disputas pela Câmara e Senado

Depois de uma reunião na quarta-feira com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que busca apoio do presidente eleito para se reeleger presidente da Câmara, Jair Bolsonaro disse que pretende ficar neutro nessa questão. Lembrou que existem também outros candidatos se lançando ao comando da Câmara, todos eles “muito bons”, conforme entrevista à TV Record, no mesmo dia.

Muita gente entendeu que, ao falar da existência de outros candidatos “muito bons”, Bolsonaro quis dizer um não para Rodrigo Maia, embora com outras palavras. É possível que não seja exatamente isso. Que ele esteja interessado em ganhar tempo. O presidente eleito nem assumiu e quatro deputados que pertencem à sua base, ou por serem do PSL, ou por terem abraçado a candidatura de Bolsonaro, já lançaram suas candidaturas à presidência da Câmara: Delegado Waldir (PSL-GO), João Campos (PRB-GO), Capitão Augusto (PR-SP) e Alceu Moreira (MDB-RS).

Como já foi dito, há também a candidatura de Rodrigo Maia, e uma sexta, a do vice-presidente da Câmara, Fábio Ramalho (MDB-MG).

Bolsonaro assumirá a Presidência da República depois de exercer o cargo de deputado, seguidamente, por 27 anos e 11 meses. Nesse período, ele entendeu de sobra como é que funcionam os mecanismos do Congresso. O próprio Bolsonaro, que se declara um militante do baixo clero, e que nunca assumiu a direção de uma comissão qualquer, função pela qual seus colegas brigam até de foice, já se lançou candidato à presidência da Câmara. Sua única intenção era, ao pulverizar a disputa, atrapalhar a eleição de um deputado do PT. Isso quem revela é ele mesmo.

Adriana Fernandes: Salvação para os Estados

- O Estado de S.Paulo

Se fossem empresas privadas, os Estados já teriam fechado suas portas

Em crise financeira, os Estados querem mesmo é dinheiro novo no caixa, como deixou claro o próximo presidente Jair Bolsonaro na véspera da sua primeira reunião com os governadores eleitos na última quarta-feira. Boa parte deles se reelegeu prometendo reajustes e novos concursos para a contratação de servidores sem levar em conta que a crise generalizada nas finanças dos governos regionais é decorrente da explosão de gastos de pessoal com o pagamento do funcionalismo da ativa e aposentados.

É a receita de sempre. Por isso, o aceno do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, de divisão da arrecadação do megaleilão com Estados e municípios caiu como uma luva no cenário de penúria que os eleitos encontrarão a partir de primeiro de janeiro. É ouro para os governadores.

Guedes é defensor ferrenho da descentralização do dinheiro da União para prefeituras e governos estaduais, proposta prevista no plano de governo de Bolsonaro. É ponto central. Nada mais natural que o futuro ministro aceitasse a partilha da arrecadação para abrir caminho à aprovação do projeto pelo Senado que permite o acordo da revisão do contrato de cessão onerosa e a realização do leilão, quando se espera arrecadar mais de R$ 100 bilhões. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, já avisou que, sem a divisão do bolo do leilão, o projeto não passa este ano.

A promessa de descentralização de Guedes não pode, porém, se transformar em licença para os governadores gastarem mais sem fazer o ajuste necessário. Ao contrário, o superministro de Bolsonaro não pode perder a oportunidade de usar a divisão dos recursos do leilão como moeda de troca de mudanças estruturais.

Merval Pereira: Uma crise política

- O Globo

O programa pode ser feito integralmente por profissionais brasileiros, pois o fato é que o país não tem falta de médicos

A crise que pode afetar milhões de brasileiros com a saída imediata dos médicos cubanos deve ser atribuída, em primeiro lugar, ao governo de Cuba, que decidiu usar os carentes brasileiros para retaliar um governo de direita que venceu a eleição presidencial com críticas ao programa e a Cuba.

Ficou claro que o governo Bolsonaro iria exigir que os médicos cubanos fizessem o teste para revalidação do diploma, com o que Cuba não concorda. A exigência nem é uma decisão ideológica, mas as críticas ao que seria “trabalho escravo” dos médicos, sim, e com razão.

A forma de pagamento do trabalho, com o governo cubano ficando com a maior parte do salário, e a proibição de que as famílias dos médicos viajem junto, representam uma atitude de governo que não se coaduna com os hábitos e costumes de uma democracia, com uma ameaça implícita aos que deixaram suas famílias por lá.

A saída poderia ter sido anunciada com antecedência, para não deixar desamparados os milhões de brasileiros atendidos pelos médicos nos rincões do país. A solução, porém, é mais fácil do que parece.

No lugar dos cerca de 8 mil médicos cubanos que deixarão o país, basta convocar imediatamente os cerca de 8 mil médicos que se candidataram na mais recente seleção para o programa, para apenas 983 vagas oferecidas aos brasileiros.

O programa, na verdade, pode ser feito integralmente por médicos brasileiros, pois o fato é que o país não tem falta de médicos, mas o problema é a má distribuição deles pelo território nacional. Mais da metade está no eixo MG, RJ, SP, PR, SC E RS.

Segundo o médico Marco Lages, do hospital Miguel Couto no Rio, temos mais que o dobro da recomendação da Organização Mundial de Saúde, em vez de um mínimo de 1 médico para cada mil habitantes, temos 2,18.

Míriam Leitão: Risco concreto na política comercial

- O Globo

Diplomacia comercial exige visão estratégica e pragmatismo. No clima, o risco é não ouvir a ciência. Nos dois casos há perdas econômicas

Não adiantará ter mantido separados os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente se a pessoa indicada representar uma visão idêntica à do ruralismo. Há um temor entre climatologistas de que se repita no MMA o que houve no Itamaraty. A mistura pode ser explosiva. Se o Brasil sair do Acordo de Paris, reduzir ainda mais a ação dos órgãos de controle e tiver uma política que estimule o desmatamento, o agronegócio brasileiro enfrentará barreiras comerciais aos seus produtos.

O temor entre cientistas, no governo ou fora dele, é que, depois de um chanceler que nega a mudança climática, possa ser nomeado para o Ministério do Meio Ambiente alguém com essa mesma visão. O nome que mais inspira preocupação é o do pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda. Ele é conhecido na área por apresentar estudos como se fossem científicos, mas com metodologia e dados questionáveis. Certa vez, divulgou um estudo sobre o impacto das APPs na agropecuária brasileira. Foi rebatido por um trabalho coordenado pelo climatologista Antonio Nobre, feito pelo Instituto de Pesquisas Espaciais e Instituto de Pesquisas da Amazônia, em que se comprovou que Evaristo de Miranda havia exagerado em 309% esse impacto das APPs. Ele não é controverso pelo que acredita, mas pela maneira como usa suas bases de dados para confirmar sua teoria.

Demétrio Magnoli: Do castrismo ao criacionismo

- Folha de S. Paulo

Escola sem Partido persistirá na sua cruzada enquanto existir uma chama de inteligência nas salas de aula

Qual é o comprimento do segmento de reta que liga o ponto CAS, de castrismo, ao CRI, de criacionismo? A escola descobrirá a resposta nos próximos anos, cortesia do Escola sem Partido.

A teoria da geração espontânea asseverava que a vida nasce da matéria não viva, como os sedimentos dos rios ou o lixo. O Escola sem Partido nasceu do lixo —no caso, a sujeira ideológica acumulada ao longo de duas décadas. Terceira lei de Newton: a escola que conviveu com a cartilha da esquerda de botequim encontra-se, agora, sitiada por uma horda de bárbaros da direita de shopping center.

A Guerra do Paraguai foi arquitetada pela Inglaterra para evitar o surgimento de uma potência sul-americana. Cuba simboliza a esperança de redenção da América Latina. A democracia não passa de um manto protetor da exploração capitalista. Os EUA planejam roubar o pré-sal, as águas superficiais da Amazônia e os recursos subterrâneos do aquífero Guarani.

Israel é um Estado racista que precisa ser abolido. O terror jihadista é uma contraofensiva de povos humilhados pelas potências ocidentais. Os direitos humanos são uma proclamação do Ocidente destinada a destruir as identidades culturais de asiáticos, muçulmanos, africanos e afrodescendentes. O caldo borbulhante de sandices fez seu caminho até os manuais escolares, os vestibulares, o Enem. No fim, originou uma reação destrutiva que pretende converter a escola em anexo do templo.

Julianna Sofia: Porta de saída

- Folha de S. Paulo

País não se preparou para o fim da importação emergencial de médicos cubanos

Foi na fervura dos protestos de 2013 —início do processo de desestabilização que desembocou no impeachment da presidente Dilma Rousseff três anos mais tarde— que o então governo petista anunciou em julho um ambicioso pacote de medidas para socorrer a saúde.

O programa Mais Médicos aspirava rever de forma radical a formação de profissionais no país, com foco prioritário na atenção básica, reformulando currículo e propondo, entre outras iniciativas, uma espécie de serviço civil obrigatório: os alunos precisariam trabalhar dois anos no SUS para obtenção do registro. No pacote, também a ampliação de vagas nos cursos de medicina (principalmente no interior) e uma maior oferta de postos na residência médica. A meta era prover um adicional de 40 mil médicos até 2025.

Até lá, como medida emergencial, abria-se a contratação de intercambistas, com a destinação de profissionais nacionais e estrangeiros para áreas remotas ou de maior vulnerabilidade e pobreza. No anúncio, Dilma defendeu o que viria a ser uma das bandeiras de sua reeleição. “Até que tudo isso aconteça, eu pergunto a vocês: quem vai atender aos brasileiros que não têm acesso médico até que todo esse processo amadureça e aconteça?”

Hélio Schwartsman: Quem precisa de arte?

- Folha de S. Paulo

Precisamos aprimorar a Lei Rouanet, não acabar com ela

Como dar dinheiro público para artistas enquanto há gente morrendo nas filas dos hospitais? O argumento, frequentemente utilizado por aqueles que querem ver o fim da Lei Rouanet e outras formas de financiamento à cultura, é capcioso.

Ele é forte demais. Afinal, por melhores que sejam os serviços de saúde de um país, sempre haverá restrições de oferta, isto é, pessoas tentarão conseguir um tratamento e não terão sucesso. Se levássemos a ferro e fogo a ideia de que a vida tem prioridade absoluta, o Estado estaria impedido de realizar qualquer gasto que não em saúde até que todos os pacientes tivessem sido atendidos.

E, obviamente, o país não funcionaria. A própria rede hospitalar só se torna operacional se houver investimentos em infraestrutura, segurança, educação etc. O Estado é complexo demais para ser administrado por intuições.

Ruy Fabiano: A reinvenção da esquerda

- Blog do Noblat /Veja

O PT desgastou-se demais

A esquerda quer se reinventar (o termo é o que tem sido usado por ela própria). O primeiro passo é descolar-se de Lula e do PT, providência já em curso, sob a batuta de Ciro Gomes, do PDT.

Frustrado em seu sonho de encabeçar, nas eleições de outubro passado, uma chapa única das esquerdas, tendo o PT como vice, Ciro não se cansa de acusar Lula de “traição” – e burrice.

O acordo chegou a ser selado verbalmente, na cadeia, mas, na hora H, Lula, temendo o protagonismo de Ciro, optou por Haddad.

Muita gente na esquerda (até no PCdoB), chocada com a vitória acachapante de Bolsonaro – e com a perspectiva de longo jejum de poder -, subscreve a análise de Ciro, que, para além da mágoa, age pragmaticamente. Tanto assim que já baixou o facho de sua retórica.

O raciocínio é simples: o PT desgastou-se demais, associou-se de modo irreversível a corrupção e incompetência e não tem mais condições de cobrar do governo (qualquer governo) o que quer que seja. Pior: perdeu seus quadros principais.

Um alerta para os políticos: Editorial | O Estado de S. Paulo

Ao divulgar a pesquisa Latinobarómetro deste ano, Marta Lagos, diretora da ONG chilena que desde 1995 mede a percepção dos latino-americanos sobre a qualidade da democracia e a situação econômica em seus países, disse que 2018 foi um annus horribilis para a região. “Desde o início da transição para a democracia, a América Latina poucas vezes viveu um período mais convulsionado em sua história do que o atual”, escreveu a economista, lembrando “as acusações de corrupção, os presidentes presos, as empresas corruptas e as migrações em escala inédita na história”. Tudo isso somado mostra que a democracia, cuja consolidação parecia certa, está passando por uma perigosa mutação, em meio a uma onda de desencanto.

Essa malaise latino-americana é particularmente acentuada no Brasil, como mostra a pesquisa. Apenas 6% dos brasileiros consideram que o País está progredindo, mesmo nível verificado na Venezuela, que atravessa brutal crise econômica, política e social. A média latino-americana é de 20%.

Os motivos de tamanho pessimismo são bem conhecidos. Para 35% dos latino-americanos, o problema mais importante a afetá-los é derivado da situação econômica – especialmente desemprego e baixos salários. Em seguida aparece a criminalidade (19%). A corrupção e a degradação da política vão aparecer bem abaixo, ambas com 9%. O estudo conclui que a queda da renda, a instabilidade no trabalho e a violência passaram a ser os temas que mais mobilizam a atenção dos latino-americanos.

No geral, apenas 12% dos 20.204 entrevistados consideram que a economia vai bem – em 2013, eram 25%. No Brasil, apenas 6% estão contentes com a situação, enquanto na Argentina são 8%. O Chile lidera nesse quesito, com 26%.

A Venezuela, claro, é o país que tem o maior índice dos que consideram a situação econômica “ruim” ou “muito ruim” – são 83%. Em seguida vêm Brasil e Argentina, ambos com 62%, ante uma média de 42% no continente. Mas 58% dos brasileiros entendem que a economia vai melhorar, opinião que o estudo atribui à realização de eleições, que tendem a gerar otimismo – e isso indica o tamanho da expectativa que pesa sobre o novo governo.

As teses do chanceler: Editorial | Folha de S. Paulo

Escolhido para o Itamaraty, Ernesto Araújo abraça com fervor o antiglobalismo de Trump

De modo geral, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), tem dado sinais de moderação nas escolhas para seu ministério. Na maior parte dos nomes anunciados até aqui, vê-se mais qualificação técnica do que militância ideológica. Uma dúvida se criou, entretanto, na pasta das Relações Exteriores.

Não que sejam insuficientes as credenciais do futuro chanceler. O embaixador Ernesto Araújo está perto de completar 29 anos nos quadros do Itamaraty —uma das burocracias mais bem preparadas da máquina federal— e ocupa hoje o posto de diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos.

Já havia causado espécie, todavia, o apoio aberto do servidor público à candidatura Bolsonaro. Ainda na campanha, reportagem desta Folha mostrou que Araújo criara um blog em que defendia o capitão com o mesmo fervor dedicado a satanizar os adversários petistas.

Manifestações do gênero não são vedadas na diplomacia, embora destoem da discrição normalmente associada à atividade. Mais inquietantes se mostram teses esposadas pelo embaixador.

Refratário aos organismos multilaterais, ele se propõe a lutar contra o globalismo, tarefa que equipara ao cultivo da "fé em Cristo" —seu compromisso com a laicidade do Estado não parece sólido.

Nesse aspecto Araújo se alinha, portanto, ao presidente americano, Donald Trump, a quem atribui a missão de salvar o Ocidente do "marxismo cultural". Nessa pitoresca visão de mundo, a China estaria por trás de um "novo eixo socialista latino-americano".

Política externa é campo aberto ao radicalismo: Editorial | O Globo

É curioso que Bolsonaro repita Lula e coloque a diplomacia a serviço da ideologia do presidente

A diplomacia brasileira tem tradição de profissionalismo. Com o passar do tempo, consolidou-se como uma atividade típica de Estado, cuja característica é a estabilidade, independentemente do governo de turno. Grande símbolo deste aspecto positivo é que aquele considerado patrono da diplomacia na República, José Maria da Silva Paranhos Júnior, Barão do Rio Branco, era filho de importante personagem do II Reinado, Visconde do Rio Branco, também diplomata. Maior demonstração de continuidade, impossível. A era Bolsonaro causa preocupação com a política externa que seguirá a partir da indicação para ministro das Relações Exteriores do embaixador Ernesto Araújo, da chefia do Departamento dos EUA, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty. Araújo é conhecido, por meio de textos e do que escreve em blog, por defender posições ultraconservadoras, ser contra o “globalismo” e alinhar-se ao nacionalismo isolacionista de Donald Trump.

Além de ser preocupante, a escolha de Araújo gera o fato curioso de repetir com sinal trocado o que o PT, em seus 13 anos de poder, fez com a diplomacia brasileira, ao subordiná-la à ideologia dos ocupantes do Planalto. Com Bolsonaro e Ernesto Araújo, tudo se repete, neste aspecto. Bolsonaro sempre criticou o lulopetismo, e com razão, por atrelar a política externa brasileira ao nacional-populismo latino-americano, e ao privilegiar ditaduras africanas, deixando em segundo plano o chamado Primeiro Mundo (Estados Unidos e Europa).

Rede vai ao STF contra artigo que veta fusão

Legenda da candidata derrota ao Planalto Marina Silva discute internamente seu futuro após não atingir a cláusula de barreira

Marianna Holanda | O Estado de S.Paulo

Depois de não conseguir eleger deputados federais suficientes para ultrapassar a cláusula de barreira neste ano, a Rede Sustentabilidade vai ingressar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando artigo da lei dos Partidos Políticos (n.º 9.096) que impede fusão quando a sigla tem menos que cinco anos. O registro da Rede é de 2015.

A medida é uma das iniciativas da legenda da candidata derrotada à Presidência, Marina Silva, para garantir a possibilidade de se juntar ao novo partido que o PPS articula criar com os movimentos Agora! e Acredito. A Rede estuda hoje duas hipóteses de sobrevivência: fusão ou continuar como uma legenda própria, mas com mudanças na estrutura e no estatuto.

A decisão será tomada em um congresso extraordinário convocado para os dias 19 e 20 de janeiro do próximo ano. O estatuto já previa a realização de um congresso para definir a continuidade ou não da legenda no período de dez anos, mas foi antecipado após o desempenho nas eleições.

Se decidirem por continuar como um partido ou se juntar a outro, os membros da Rede já reconhecem que o mau desempenho nas urnas pôs em xeque o projeto político do partido nos moldes atuais. Um deles disse ao Estado, em anonimato, que a Rede como instituição “morreu” na apuração do primeiro turno. Uma reunião da executiva nacional, chamada de Elo, no final de semana passado em Brasília, estabeleceu a criação de dois grupos de trabalho que vão preparar teses das duas possibilidades – voo solo ou fusão – para serem apresentadas em janeiro.

Segundo membros da Rede, o partido está dividido. A própria Marina evita se posicionar para não “contaminar” os filiados, mas quadros históricos do partido, como Bazileu Margarido, são favoráveis à fusão com outra legenda. “Acho que a Rede vai ter muita dificuldade em superar a cláusula de barreira, que será crescente. E acho que é preciso, inclusive numa conjuntura de polarização extrema com o governo Bolsonaro, fortalecer esse campo democrático progressista”, disse. O dirigente ainda ponderou que, para as eleições de 2016, será importante ter estrutura e fundo partidário, o que o partido não terá caso continue como tal.

Entrevista / Marina Silva ‘Não posso fazer autocrítica por pertencer a um partido pequeno’, diz

A ex-ministra do Meio Ambiente, três vezes candidata derrotada à Presidência da República, se diz tranquila por receber da sociedade a 'autorização de exercitar a função de continuar sendo uma mantenedora de utopias'

Marianna Holanda | O Estado de S.Paulo

Ao perder o espólio de mais de 20 milhões de votos e conquistar apenas 1% nas urnas neste ano, Marina Silva parece estar aliviada. Nas suas palavras, ao estilo “marinês”, se diz tranquila por receber da sociedade a “autorização de exercitar a função de continuar sendo uma mantenedora de utopias”. A ex-ministra do Meio Ambiente, três vezes candidata derrotada à Presidência da República, dedicou os últimos anos de sua vida, desde que deixou o PV, para a construção de seu partido, a Rede Sustentabilidade, que foi autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2015. Neste ano, com apenas um deputado eleito e, portanto, sem atingir a cláusula de barreira, corre o risco de deixar de existir. A sigla pode continuar no voo solo ou se juntar ao partido que o PPS articula com o Agora! e o Acredito. Marina diz ainda não ter se decidido, mas retruca que não fará autocrítica por pertencer a um partido pequeno.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

• A Rede elegeu cinco senadores e uma deputada, em um ano que era importante eleger mais deputados para conseguir ultrapassar a cláusula de barreira e fundo partidário. Houve erro de estratégia?

Se a gente encarar ter uma bancada só como um sinônimo de ter fundo partidário, a gente vai só para a estrutura. Os partidos podem continuar sem fundo partidário. O que se tem que pensar na cláusula de barreira é que, a partir de agora, você não tem mais como fazer as coligações proporcionais. Os partidos pequenos sem recursos, sem tempo de TV, sem poder fazer coligações proporcionais, terão muita dificuldade. O sistema político brasileiro virou um processo senil, você dá todo o fortalecimento para os que estão ou velhos ou adultos, em termos metafóricos, e nada para o que possa prosperar, seja programático ou não. Mas tenho a clareza de que se a melhor forma for ir para um caminho de nos juntar para esse esforço do PPS é uma possibilidade. Ou, a desculpa não pode ser a ausência do fundo partidário.

• Mas houve erro de estratégia ao lançar nomes mais fortes ao Senado?

Nós elegemos cinco senadores e eles darão uma grande contribuição no Congresso. Se eles contribuíssem para a cláusula de barreira, certeza estaríamos contemplados. Nós respeitamos o desejo das pessoas. Se esses senadores tivessem saído para deputado federal, com certeza teríamos ampliado muito mais nossas possibilidades. Mas respeitamos essas pessoas e saíram para a função que gostariam de ter saído. E saímos com base nos nossos critérios de não fazer aliança proporcional de qualquer jeito só para conseguir o resultado eleitoral, mantendo a nossa coerência.

• A sra. sempre fala de autocrítica do PT. Olhando para trás, com 1% de voto, qual seria a autocrítica da sra. ou da Rede também?

Quando falo autocrítica do PT, todos os graves casos de corrupção, eu imagino que foram trazidos para sociedade brasileira em um contexto em que isso levou a uma descrença profunda na política e nas instituições políticas, com base em dados de realidade, materialidade, julgamento, com direitos aos advogados mais bem pagos, mas mesmo assim, condenações. Se nem com isso é possível fazer autocrítica, é muito difícil. As minhas autocríticas, as quero e as devo fazer. No entanto, eu não posso fazer autocrítica por pertencer a um partido pequeno, foi uma escolha. Alguém pode dizer, bem, que alguém fez a escolha de não se importar com a corrupção, é um direito. Alguém acha que devo fazer autocrítica por não fazer fake news? Por dizer que não devemos fazer o embate, não o debate?

Secretário-geral do PSDB propõe fusão com outras siglas

Iniciativa será apresentada pelo deputado federal Marcus Pestana (MG) à direção executiva da legenda; ideia, segundo ele, é que em maio os tucanos renovem o comando partidário e em seguida iniciem o processo

Veja abaixo a íntegra do documento - Marcus Pestana: Autocrítica, refundação e reposicionamento do PSDB

Pedro Venceslau | O Estado de S.Paulo

Após registrar em 2018 o pior desempenho eleitoral de sua história em uma eleição presidencial e perder 20 cadeiras na Câmara, o PSDB vai avaliar uma proposta de fusão com outras siglas para disputar as próximas eleições.

A iniciativa será apresentada pelo deputado federal Marcus Pestana (MG), secretário-geral do PSDB, à direção executiva da sigla. A ideia, segundo ele, é que em maio os tucanos renovem o comando partidário e em seguida iniciem o processo.

“O PSDB tem que se reinventar depois de organizar a bagunça. É insustentável essa quadro partidário pulverizado. Defendo que, após a renovação da direção, abra-se uma interlocução para um processo criativo de fusão”, disse Pestana ao Estado.

O deputado cita quatro siglas para a potencial fusão: PPS, PSD, PV e DEM. Segundo Pestana, ainda é cedo para dizer qual seria o modelo de fusão e a autonomia que cada partido dentro da nova legenda.

O combustível que alimenta esse debate é a proibição de coligação proporcional a partir das eleições municipais de 2020.

Outra ideia colocada na mesa do PSDB é formar uma federação de partidos para aturarem em conjunto no Congresso e até nas próximas eleições municipais.

O presidente do DEM, ACM Neto, descarta a possibilidade de fusão com o PSDB. “Isso não está na pauta. Isso não passa nem perto de nossa perspectiva. Eu não cogitaria nenhuma hipótese de fusão com o PSDB neste momento”, disse.

Dirigentes de outros partidos também evitam, por ora, falar em fusão. Avaliam que tudo vai depender do cenário em 2019 e da relação das siglas com o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Em caráter reservado, porém, reconhecem que a proibição de coligações deve empurrar muitos partidos para esse caminho.

Posição. Outro debate que permeia o PSDB é a posição em relação ao governo Bolsonaro. Enquanto parte da legenda, com Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso à frente, adotou uma postura crítica e é contrária ao alinhamento, o grupo do governador eleito João Doria defende o apoio ao presidente eleito.

Marcus Pestana: Autocrítica, refundação e reposicionamento do PSDB

Introdução
O Brasil experimentou a maior crise das últimas décadas. Combinação explosiva entre recessão aguda, estrangulamento fiscal profundo, desemprego alto, confiança e credibilidade abaladas, feridas abertas pelo impeachment, conflito na convivência entre os Poderes republicanos, insatisfação social represada, intolerância crescente e o maior escândalo de corrupção desvendado pela Lava Jato e operações congêneres.

Samba-enredo da Mangueira em 2019

João Cabral de Melo Neto: O Auto do Frade

O Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, escrito em 1984, conta a história do último dia de Frei Caneca, o dia de sua morte por fuzilamento. Herói da Revolução Constitucionalista de 1824, Caneca é condenado a morte após ter sido um dos líderes da chamada Confederação do Equador. No auto, temos seu cortejo por toda a cidade de Recife, aos olhos de toda a população, como numa procissão, até ser fuzilado, finalmente, longe dos olhos do povo.

Confira 12 trechos deste longo poema

Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira. (p. 17)

Padre existe é para rezar
pela alma, mas não contra a fome. (p. 23)

Por que será que ele não fala,
nem diz nada sua boca muda?
Senhor que ele foi das palavras,
não há uma só que hoje acuda. (p.26)

– Parecia que estava bêbado.
Era álcool ou sua desrazão?
– Bêbado da luz do Recife:
fez esquercer sua aflição.
– Mas pareceu falar em versos.
É isso estar bêbado ou não?
– Mesmo sem querer fala em verso
quem fala a partir do coração. (p. 31)

Eu era um ponto qualquer
na planície sem medida,
em que as coisas recortadas
pareciam mais precisas,
mais lavadas, mais dispostas
segundo clara justiça. (p. 36)

Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma folha
de papel, receptiva:
o mundo tem alma autônoma,
é de alma inquieta e explosiva. (p. 36)

Risco nesse papel praia,
em sua brancura crítica,
que exige sempre a justeza
em qualquer caligrafia;
que exige que as coisas nele
sejam de linhas precisas;
e que não faz diferença
entre a justeza e a justiça. (p. 37)

Parece que o sagrado é poeira:
Muito facilmente é raspado. (p. 45)

– Veio andando calmo e sem medo,
ar aberto de amigo, e brando.
– Não veio desafiando a morte
nem indiferença ostentando.
– Veio como se num passeio,
mas onde o esperasse um estranho. (p. 57)

– É um homem como qualquer um,
e profeta não se pretende.
– É um homem e isso não chegou:
um homem plantado e terrestre.
(…)
Viveu bem plantado na vida,
coisa que a gente nunca esquece. (p. 61)

O peso do morto é o motor,
porém o carrasco é o operário. (p. 69)

– Esperar é viver num tempo
em que o tempo foi suspendido.
– Mesmo sabendo o que se espera,
na espera tensa ele é abolido.
– Se se quer que chegue ou que não,
numa espera o tempo é abolido.
– E o tempo longo mais encurta
o da vida, é como um suicídio. (p. 74)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Entrevista - Fernando Henrique Cardoso

O ex-presidente se diz convencido de que a sociedade frearia uma deriva antidemocrática do novo Governo. Para ele, ser conservador não implica ser cego. “O Brasil continua sendo um país com muita desigualdade”

Carla Jiménez, Xosé Hermida | El País, 12 /11 2018

MADRI - -O tsunami político que tomou o Brasil destruiu lideranças tradicionais e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se inclui entre elas. “Cada um tem seu momento, agora a nova [liderança] tem que aprender”, diz o presidente de honra do PSDB, em clara alusão ao novo Governo liderado por Jair Bolsonaro.

Apesar de toda a retórica que assusta quem não votou no presidente eleito, Fernando Henrique prefere o benefício da dúvida. Depois de eleito, as ações de Bolsonaro vão desmentir ou confirmar os temores que desperta hoje. A vitória de um político de extrema direita, analisa o ex-presidente, é fruto de novos tempos que embaralharam valores, diante de eleitores mais emocionais que formam suas opiniões de olho na tela do celular.

De passagem por Madri na semana passada para assistir ao Foro Iberoamérica, o ex-presidente que durante seu mandato (1994-2002) conseguiu tirar o país da hiperinflação, defendeu sua controversa decisão de ter se mantido neutro nas últimas eleições. Seria contraditório, segundo ele, uma vez que o PT não se aproximou em termos políticos do PSDB, mas apenas pela eleição. “Quando as pessoas estão morrendo afogadas, pedem a mão para te puxar e morrer junto.”

Pergunta. A democracia está em perigo no Brasil?

Resposta. A democracia esta em perigo em todas partes. Mas o Brasil tem instituições fortes, a sociedade é livre, a mídia é livre, a justiça é independente e o povo gosta da liberdade. Então eu acho que é preciso tomar cuidado. Está em perigo? Está mudando, está em perigo por todos lados, mas não há um perigo específico do Brasil. Não acho que a eleição do Bolsonaro ponha em perigo [a democracia], até porque ele ganhou pelo voto.

P. Mas o presidente eleito e as pessoas que trabalham com ele falaram nos últimos meses de coisas como a possibilidade de um autogolpe, de um assalto ao STF... O senhor não leva a sério essas falas?

R. Não é que eu não leve a sério, eu acho que qualquer coisa dita por uma pessoa que tem importância política diz tem que tomar cuidado. Mas acho que isso não é suficiente para se sobrepor a nossa institucionalidade, a nossa vontade de manter a democracia. Mesmo que um ou outro tenha o impulso não democrático e as frases que foram ditas – que não são boas, e eu critiquei no meu Twitter – sejam contrárias ao espírito da democracia. Mas entre você falar e fazer tem uma diferença. Eu não estou dizendo que alguém não expresse atitudes antidemocráticas. Pode ser, existe isso no Brasil. Mas a despeito disso, nós temos forças democráticas que vão se contrapor a eventuais palavras e mesmo atos que sejam contrários à Constituição, à democracia e às leis.

P. Quando o senhor criticou essas palavras no seu Twitter falou de fascismo inclusive.

R. Eu sou muito cuidadoso quando falo. Eu disse que havia um certo cheiro de fascismo. Porque o fascismo supõe uma doutrina, uma organização, uma visão autoritária da sociedade. Eu não creio que eles tenham isso. Eles têm expressões autoritárias. O fascismo é uma coisa mais orgânica e não acho que no Brasil tenha algum partido com uma doutrina propriamente fascista. E se tiver, eu espero que perca. Eu serei contra.

P. Mas o senhor não acha possível que a democracia fique deturpada, em uma situação como uma espécie de Venezuela de direita?

R. Um autor americano, Levitsky [Steven] tem um livro interessante sobre como as democracias morrem. E hoje em dia elas morrem dessa maneira, não é preciso um golpe, mas que você deturpe as instituições. Eu tenho repetido uma frase que atribuo ao Sérgio Buarque de Hollanda, ainda que não sei bem se era dele: a democracia é uma planta tenra que precisa ser regada todo dia. A democracia não é dada para sempre. Agora está em perigo porque as sociedades e as formas de relação entre as pessoas mudaram muito. Você tem que prestar atenção, pode acontecer uma mudança antidemocrática, mas nós devemos lutar para que isso não ocorra.

Fernando Gabeira*: Sobreviver ao ano que vem

- O Estado de S.Paulo

Não sei se exagero, mas sinto-me como se fosse a luta pela sobrevivência de um país viável

É um momento de escolha de ministros, definição da estrutura do governo. Não importa o que saia daí, o que nos espera no ano que vem é inescapável: o Brasil pode quebrar. A reforma da Previdência não é só um momento de alívio para o governo Bolsonaro, mas também para 14 Estados em profunda crise financeira, entre eles Rio de Janeiro, Minas e Rio Grande do Sul.

Visitei Minas para ver melhor o que aconteceu nas eleições. Inédita na História, a vitória de Romeu Zema, do Partido Novo, contou com 71,8% dos votos. Foi um salto no escuro, preferível para os eleitores aos velhos partidos que dominaram o Estado: PSDB e PT.

A melhor forma de começar uma nova época é realizar a reforma da Previdência. Não resolve tudo, mas indica que o mais difícil foi feito. Paradoxalmente, a reforma é a maneira de seguir vivo até 2022, mas significa, no primeiro instante, uma perda de popularidade. Na Rússia, a reforma previdenciária roubou muitos pontos de aceitação do governo Putin. Sufocada pela Copa do Mundo, a resistência manifesta-se também numa desconfiança, uma sensação de perda.

Segundo o Moscou Times, essa reforma foi decidida por Putin, mas seu déficit talvez pudesse ser facilmente coberto pelos excedentes do petróleo. Mas e os investimentos, a defesa? O governo precisava se antecipar.

No caso grego, a reforma talvez não tenha desgastado tanto a esquerda no poder. Era claramente inevitável. E havia a pressão da União Europeia. O ressentimento acabou canalizado para Angela Merkel.

No caso brasileiro, a reforma da Previdência tem uma chance singular. Ela é claramente uma forma de neutralizar o processo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. Ela tem um quê de Robin Hood, mas esse encanto sozinho não basta para emplacá-la. Em primeiro lugar, será preciso convencer os pobres de que, no fundo, estão ganhando com as mudanças; em segundo lugar, e isso é colossal, vencer a resistência das corporações, algumas articuladas com partidos da esquerda.

O ajuste fiscal será a primeira grande prova tanto para Bolsonaro como para Zema.

O ano que vem marca o início de uma fase triunfante do liberalismo.

Eliane Cantanhêde: Pensamento de Bolsonaro

- O Estado de S.Paulo

Chanceler Ernesto Araújo dá revestimento teórico às falas do futuro presidente

O presidente eleito Jair Bolsonaro ficou fascinado com o diplomata Ernesto Araújo, não apenas porque ele endeusa Donald Trump e demoniza o PT, mas porque consegue uma façanha espetacular: conferir um arcabouço teórico para as ideias atabalhoadas e descoordenadas que Bolsonaro lança no ar nas mais variadas áreas.

“Brilhante intelectual”, na definição do futuro presidente, Ernesto Araújo usou os seus dons teóricos não apenas para instigar ou corroborar as posições leigas de Bolsonaro na política externa, mas também sobre família, religião, aborto, PT, Trump, China. Só não se meteu, por enquanto, na área militar e diretamente na economia.

Enquanto chanceler, ele estará mais para assessor do presidente, desses que escrevem seus discursos, desenvolvendo de forma articulada as ideias do chefe. Bolsonaro adora Trump? Araújo lhe fornece motivos teóricos. Implica com a China, maior parceiro comercial do Brasil? Lá está ele a postos para dar alguma sustentação à implicância.

O cruzamento entre o que Bolsonaro dizia e o que Ernesto Araújo escrevia na campanha presidencial mostra de forma clara, óbvia, que os dois têm o mesmo pensamento sobre a vida e o mundo, apesar de formas bem diferentes. Um sai falando o que lhe vem na cabeça. O outro em textos grandiloquentes.

Merval Pereira: Direita se organiza

- O Globo

José Dirceu já entendeu que Bolsonaro ‘tem muita base social, muita força e muito tempo pela frente’

José Dirceu, o outrora superpoderoso ministro de Lula, continua sendo o que melhor pensa estrategicamente no PT, mesmo com tornozeleira eletrônica e muitos anos de cadeia pela frente. Ele já entendeu que o governo Bolsonaro tem “muita base social, muita força e muito tempo pela frente. Vai transformar a segurança em pauta”. Dirceu diagnostica que, em 13 anos e meio de governo, o PT “se afastou do dia a dia do povo”.

A escolha do embaixador Ernesto Araújo para ministro das Relações Exteriores corresponde à ideia de dar ao presidente eleito Jair Bolsonaro um papel relevante entre os partidos do espectro direitista na América Latina e no mundo. Ele seria uma espécie de “Celso Amorim da direita”, em referência ao chanceler que inventou a imagem de Lula como grande líder popular no mundo, a ponto de pretender mediar o conflito do Oriente Médio e a crise dos Estados Unidos com o Irã.

Não deu certo, mas restam, principalmente na Europa, intelectuais e líderes de esquerda que ainda consideram Lula um preso político. Com uma imagem desgastada no exterior, devido a seu histórico político de radicalismos, Bolsonaro vai precisar se firmar como líder de sua tendência política, e quem está ajudando nessa tarefa é Eduardo Bolsonaro, eleito o deputado federal mais votado da história do país, e Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump e ideólogo de uma direita internacional que projeta um grupo para reunir os partidos de direita ou extrema direita da Europa em torno de discussões políticas comuns.

A indicação de Ernesto Araújo teve o entusiasmo de André Marinho, filho de Paulo Marinho, que é suplente do Bolsonaro senador, mas só começou a ser levada a sério com o apoio de Eduardo, que pretende ser o líder intelectual da direita na região. Ele viajara aos Estados Unidos, onde morou, para manter contatos com autoridades do governo Trump, já que seu pai não pode viajar.

Bernardo Mello Franco: Bolsonaro lançou o Menos Médicos

- O Globo

O discurso agressivo contra os cubanos esconde o verdadeiro problema. O novo governo parece não ter ideia de como substituir os 8.332 médicos que deixarão o país

A sete semanas da posse, Jair Bolsonaro contratou a primeira crise do novo governo. A saída de Cuba do Mais Médicos pode deixar 24 milhões de brasileiros sem assistência básica de saúde. Ninguém poderá dizer que ele não se empenhou por este desfecho. Na campanha, o presidente eleito fez ofensas e ameaças aos médicos vindos da ilha. Hoje eles somam 8.332. A maioria atua em periferias ou grotões onde os doutores brasileiros não querem trabalhar.

“Vamos expulsar com o Revalida os cubanos do Brasil”, discursou o então candidato em agosto, do alto de um trio elétrico em Presidente Prudente.

Em outra fala, divulgada nas redes sociais, ele inflou os números do programa e prometeu “dar uma canetada mandando 14 mil médicos lá para Cuba”. Acrescentou que os profissionais poderiam se alojar em Guantánamo, onde os EUA mantêm uma prisão militar.

Os médicos cubanos não escolheram o regime que governa sua terra natal, mas se tornaram alvo da cruzada de Bolsonaro contra os “vermelhos”. Na campanha, o discurso pode ter rendido votos. No governo, ameaça gerar um apagão na saúde dos mais pobres.

Clóvis Rossi: Só Deus pode salvar o novo Itamaraty

- Folha de S. Paulo

Novo chanceler é o cabo Daciolo intelectualizado

Lembra-se do Cabo Daciolo, aquele candidato presidencial cujo bordão permanente era “Glória a Deus"? Pois é, uma versão teoricamente intelectualizada do Cabo acaba de ser escalada para o Itamaraty.

Chama-se Ernesto Henrique Fraga Araújo e assim se apresenta em seu blog Metapolítica 17:

“Sou Ernesto Araújo. Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista.

Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante.

O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história".

Nada contra o Cabo Daciolo e sua fé, nada contra abrir-se para a presença de Deus. Mas vamos combinar que nunca deu certo colocar Deus na política. É uma pretensão messiânica que faria inveja aos aiatolás iranianos (ainda que o Deus deles seja outro).

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro acerta quando recua e erra quando avança

- Folha de S. Paulo

O problema não está em mudar de ideia. Preocupante é não ter ideia do que fazer

Sou fã dos recuos de Jair Bolsonaro. Até agora, eu os defendi a todos, sem exceção, antes mesmo que o presidente eleito voltasse atrás. Fusão da Agricultura com o Meio Ambiente? Bobagem. Insistir numa reforma da Previdência ainda neste ano? Bobagem. Extinguir o Ministério do Trabalho agora? Bobagem.

Transferir as universidades para o Ministério da Ciência e Tecnologia? Bobagem. O problema não está em mudar de ideia. Preocupante é não ter ideia do que fazer.

Os tais mercados, por enquanto, se divertem fazendo de conta que política não existe. E que as regras podem ser livremente governadas pela vontade. Em reunião do futuro presidente com governadores eleitos, anunciou-se a intenção de Paulo Guedes de dividir com os estados e municípios parte dos recursos do leilão do pré-sal, que poderia render de R$ 100 bilhões a R$ 130 bilhões.

É a velha engenhoca da "política de governadores", ineficaz com a Constituição que temos. Sem ajustes severos nos estados, a grana do petróleo pode fechar um rombo aqui, outro ali, e tudo seguirá na mesma. Vai ser preciso renegociar, de novo, as dívidas. No Congresso.

Hélio Schwartsman: O governo Bolsonaro vai dar certo?

- Folha de S. Paulo

Presidente terá de aprovar emendas constitucionais impopulares para ter sucesso

Não temos, é óbvio, uma resposta definitiva à pergunta do título, mas isso não nos impede de especular um pouco.

Cenários distópicos, que incluiriam a volta da ditadura, não podem ser descartados, mas também não me parecem uma aposta razoável. Até prova em contrário, Bolsonaro governará pelo Livrinho e submetido a controles institucionais.

Há potencial para o que progressistas chamaríamos de retrocessos em várias áreas. Destacaria o meio ambiente, a segurança pública e pautas da agenda cultural. Mas democracia tem dessas coisas. Desde que direitos e garantias fundamentais não sejam desrespeitados, perder faz parte do jogo.

A área mais crítica é a economia. Bolsonaro até que assume sob condições favoráveis. Os ventos internacionais sopram a favor, e o presidente eleito, embora não tenha detalhado suas propostas na campanha, tem mandato para implementar reformas necessárias. O tal de mercado parece confiar nas credenciais liberais de Paulo Guedes, ainda que ele possa ser descrito como uma personalidade difícil, que pode se desentender com qualquer um a qualquer momento.

Luiz Weber: Não o deixem só

- Folha de S. Paulo

Novo chanceler demonstrou pragmatismo no passado

Lançado há pouco nos Estados Unidos, o livro "Fear" (medo) sobre os dois primeiros anos do governo Donald Trump mostra a ação do "deep state", a burocracia enraizada e profissional em atuação na Casa Branca, na lapidação da agenda presidencial. São superegos que impedem a materialização dos impulsos irrefletidos do presidente em política externa e na defesa.

O presidente eleito Jair Bolsonaro até agora só tem seguidores no Twitter, gente que curte tudo o que diz. No Planalto, alguns freios serão necessários. Chamem os adultos à sala.

Indicado para chefiar o Itamaraty, o embaixador Ernesto Araújo é um profissional culto, alguém que recheia com filé a retórica ossuda de Bolsonaro. Não significa que o resultado seja palatável.

Admirador de Trump, o diplomata, em vários de seus artigos recentes (posts em blog, bem ao espírito do tempo), ataca a imprensa, o Partido Democrata americano, acordos climáticos, o multilateralismo.

José de Souza Martins: Novo cenário, novas personagens

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

É compreensível que no rescaldo da convulsão representada pelos resultados das eleições de 2018, o país ainda relute no deciframento do que as surpresas e os desapontamentos de fato dizem. Os derrotados mobilizam seu arsenal de estereótipos relativos a uma concepção binária da política, em que só existem eles e seus contrários. Continuam em campanha eleitoral, ao fazer de conta que as eleições ainda não se realizaram.

O que resta a quem perde eleição é tentar compreender os motivos de sua rejeição pela maioria eleitoral, a que nas urnas recebe a missão de manter as coisas como eram ou de modificá-las. E, se for o caso, como parece-me que é, abandonar ou reformular concepções e práticas, mudar de rumo, encontrar caminhos, repensar a própria identidade. Sobretudo, repensar e decifrar quem é o outro que teve a preferência do eleitorado.

Quem ganha eleição nunca está no melhor dos mundos. Mais que tudo porque não tem alternativa senão a de repensar-se, agora como expressão do descontentamento com a alternativa que o voto recusou. Porque terá que governar um país dividido, mas também contraditório e diversificado. Politicamente, o país pós-outubro de 2018 já é inteiramente outro.

Os primeiros passos na direção da constituição do governo são de visíveis altos e baixos, de um próximo futuro de certezas na questão da ordem e de incertezas na questão da ciência, da cultura, da educação, do combate à pobreza, dos direitos sociais. Certezas e incertezas que desafiarão tanto o governo quanto as oposições.

César Felício: Bolsonaro pode ter que rever isso aí

- Valor Econômico

A primeira crise do próximo governo já começou, na Saúde

O começo do governo de Jair Bolsonaro, do ponto de vista das consequências concretas na vida brasileira, começou de fora para dentro. A decisão do governo cubano de colocar um ponto final em sua colaboração no Programa Mais Médicos apresenta a Bolsonaro a sua primeira crise, já para o mês de janeiro, na hipótese mais extrema.

Tudo leva a crer que o presidente eleito articulava uma retirada planejada dos 8.332 médicos caribenhos. Só um louco, algo que Bolsonaro não é, deixaria a descoberto a atenção básica nos municípios mais vulneráveis do país. O presidente cubano Díaz-Canel pagou para ver, com o anúncio do fim da sua participação e do bate-boca pelo Twitter com o presidente eleito brasileiro.

Para que tal crise social não se suceda, Bolsonaro teria que recuar, de modo muito mais humilhante do que teve que fazer em relação a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Neste último caso, o ato unilateral em favor de Israel, já anunciado, saiu da mesa posta para a prateleira das hipóteses depois que o Egito cancelou uma visita do atual chanceler ao país.

Sob extrema pressão, Bolsonaro mostrou na quarta-feira que reage dobrando a aposta. Tornou público que destinava o Itamaraty a um defensor do "anticosmopolitismo radical". Poucas pessoas no Brasil superam Ernesto Fraga Araújo em ultraconservadorismo e ultranacionalismo, a julgar pelo que o diplomata andou escrevendo. Seu artigo "Trump e o Ocidente", com argumentação sólida e texto bastante cristalino, revela um opositor da Revolução Francesa. É difícil acreditar que um ideólogo por natureza como Fraga aja no governo pautado pelo cálculo político e pelo pragmatismo.

Dora Kramer: Se não mata, engorda

- Revista Veja

Corte ideológico do governo ajuda na reorganização da oposição

Um governo nítida e declaradamente de direita é uma novidade no Brasil do mais recente período democrático. Desde a retomada do poder civil, nenhum dos presidentes eleitos se apresentava com esse corte ideológico. Ao contrário, Fernando Henrique, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff são oriundos da esquerda. Fernando Col¬lor, o que mais se aproximava de uma definição a ser entendida como de direita, não se apresentou assim à sociedade, que tampouco levou o debate para o campo ideológico.

Os eleitos indiretamente pelo colégio eleitoral da transição, Tancredo Neves e José Sarney, in¬dependentemente do histórico político, apresentavam-se no máximo como “de centro”. Essa questão, aliás, não tinha peso específico. Importante mesmo era que estávamos livres da ditadura; a expectativa era que o poder civil tocasse o país na estrita observância do estado de direito.

A introdução da dinâmica do “nós contra eles” vem alterar esse equilíbrio. Do acirramento das rivalidades viemos parar num governo de corte ideológico nítido, e a direita perdeu a vergonha de dizer seu nome, saiu do armário. Pode até assustar quem não estava acostumado, mas não é o fim do mundo, muito menos justifica certos temores cuja exacerbação militante denota simples falta de traquejo para lidar com a realidade. Isso na melhor hipótese. Na pior, recende a fantasias saudosistas de combate numa luta não vivida. Ainda bem que os menores de 40 não sabem o que foi aquilo.