sábado, 21 de abril de 2018

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

• O que uma eventual 3ª denúncia contra Temer representaria para o País, às vésperas da eleição?

Acho que seria insensato, porque vai ter uma luta de novo. É difícil que o Congresso a dois meses da eleição vá tomar uma posição contra o presidente. Acho que deveria ter um pouco de pensamento institucional.

• Do Ministério Público?

Inclusive. Tem de ter uma certa visão institucional do País. Se houve coisa errada, ele vai deixar de ser presidente, vai ser julgado. Por que balançar mais ainda a situação que já é em si frágil? Tem coisas tão importantes para fazer, retomar o crescimento, dar emprego, botar segurança na rua. Se fosse uma coisa afrontosa... Mas se for começar ver pelo em ovo para poder arranjar argumento para fazer um impeachment, processar presidente... Se fosse no começo do governo, eu entendo. Mas no fim, com eleição à vista? Tem de ter um pouco de moderação.

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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República. Entrevista: ‘Geraldo é um corredor de maratona’, O Estado de S. Paulo, 20/4/2018.

Alberto Aggio*: Descaminhos e batalhas do reformismo


- O Estado de S.Paulo

A revolta e o rechaço unem duas pontas distantes num combate sem tréguas às reformas

Antes divisor de águas na esquerda e mais recentemente um tema capturado por liberais de todos os matizes, o apelo às reformas sofreu um deslocamento incontestável. Após o fracasso do “comunismo histórico”, as esquerdas fragilizaram-se e o liberalismo tornou-se a nova religião civil. O aprofundamento da crise fiscal favoreceu essa nova posição do liberalismo. Até quando isso vai durar não se sabe e ambos podem naufragar nas águas volumosas da transformação epocal em curso. É um desafio para a política, que lida com o contingente, embora também lhe seja próprio o esforço de fazer previsões.

No entanto, a identificação correlata a esse deslocamento não produziu uma renovação significativa na noção de reformismo, sempre rejeitado em latitudes como as nossas. Em função da vitória da revolução cubana de 1959, o reformismo tornou-se um anátema nas esquerdas latino-americanas e, mesmo hoje, nem sequer é considerado como parte do conjunto de culturas políticas que abrigamos entre nós. À direita as reformas são, em geral, reativas, se não reacionárias, enquanto na miríade de liberais as reformas não buscam nem organicidade nem projeção histórica. São “curativas” ante os desequilíbrios diagnosticados, embora isso não seja pouco. Mas trata-se de um reformismo que dispensa uma visão minimamente elaborada da sociedade que se almeja.

Fala-se muito em reformas, como a previdenciária e a tributária, por exemplo. Mas sem apoio da sociedade não se consegue estruturar um movimento em favor delas. Em passado recente vivemos um arremedo de reformismo, que não pode sequer ser chamado de ensaio, uma vez que nenhuma reforma digna do nome foi implementada. O primeiro caso é ilustrado pelo atual governo, de Michel Temer, e o segundo, pelos governos do lulopetismo. Mas o problema vem de longe.

Nos séculos 19 e 20 a esquerda se dividiu, de forma esquizofrênica, opondo reforma à revolução. Quando admitiu o lugar das reformas em suas estratégias, cujo horizonte mais visível eram os programas de estatização da economia, revelou que ainda concebia a proposição de reformas como antessala da revolução. Os políticos e ideólogos de esquerda que haviam aderido ao sistema da democracia adotavam, em geral, uma espécie de visão revolucionária das reformas. Foi o que se passou tanto com a social-democracia europeia (até o congresso de Godesberg de 1959, quando abandonou o marxismo) quanto com Salvador Allende, no Chile, entre 1970 e 1973. Não à toa, alguns analistas irão qualificá-lo ex post como um “reformista revolucionário”. O fato é que, mesmo com o fim do “comunismo histórico”, do fracasso de Cuba e da tragédia da Venezuela, a sombra da revolução paira sobre a esquerda, fazendo com que ela não tenha claro quais reformas propor e como transformá-las num feixe de referências para sua identidade como sujeito político reformista.

Fernando Gabeira: O bloco da saudade

- O Globo

Fica difícil olhar para a frente. A questão da impunidade não foi resolvida porque há um forte núcleo de resistência no STF

O verão está no fim. Sinto pela temperatura da água, pelos ventos mais frios. Na Europa, segundo Hermann Hesse, há verão que tem morte súbita: uma trovoada, dias de chuva e ele não volta mais.

Não é adequado falar das estações do ano numa página de política. Elas nos remetem à passagem do tempo, aos lances da vida passada, e só servem para ressaltar a tristeza do momento no Brasil.

Caminhamos para uma eleição imprevisível não apenas por causa das pessoas que a disputam, mas também pela falta de dados sobre o que farão, caso cheguem ao poder.

Fica difícil olhar para a frente. A questão da impunidade não foi resolvida porque há um forte núcleo de resistência no STF.

Os ministros desse núcleo não consideram o caso encerrado, pelo contrário, estão dispostos a uma luta permanente, a uma guerrilha técnica para soltar os que estão presos e impedir a prisão dos que ainda estão na rua.

Julianna Sofia: Por uma vida menos pacata

- Folha de S. Paulo

Provável candidato, Barbosa desperta interesse e precisará revelar ideário político-econômico

Em 1º de julho de 2014, um Joaquim Barbosa que se dizia com a “alma leve” deixava precocemente o STF (Supremo Tribunal Federal) após 11 anos. Nos últimos dois, comandara a alta corte em uma gestão ruidosa, com ataques à advocacia, à imprensa, e à própria magistratura, depois de ter relatado o histórico processo do mensalão.

“A política não tem na minha vida essa importância toda, a não ser como objeto de estudo e reflexão”, declarou naquela data quando questionado sobre as chances de uma candidatura futura, em 2018. Na disputa de 2014, mesmo fora do páreo, o então presidente do Supremo chegou a pontuar 14% no Datafolha.

De lá para cá, a Operação Lava Jato ganhou tração, uma presidente da República foi impichada, seu sucessor denunciado duas vezes por suspeitas de corrupção e o antecessor, condenado e preso. O Brasil aparentemente mudou, como também aparenta ter mudado Joaquim Barbosa.

O ex-ministro é hoje o presidenciável que mais desperta o interesse do mercado, dos investidores estrangeiros, dos empresários, da mídia e do mundo político. Sua (pseudo) hesitação em oficializar-se pré-candidato tende a seguir o mesmo roteiro da filiação ao PSB, de última hora. “Eu ainda não consegui convencer a mim mesmo de que devo ser candidato”, despista, elencando ainda resistência da família e divergências regionais do partido.

Merval Pereira: Tempos estranhos


- O Globo

Estamos vivendo tempos estranhos, vive repetindo o ministro Marco Aurélio, em tom crítico, quando alguma coisa acontece no plenário do Supremo com que ele não concorde. Os ministros que formam hoje a minoria no plenário fazem parte da maioria da Segunda Turma, que é vista como mais condescendente com os réus da Lava-Jato, e Marco Aurélio, que comunga com a visão dessa maioria, está deslocado na Primeira Turma, quase sempre saindo derrotado.

Foi na Segunda Turma, por exemplo, que a Lei da Ficha Limpa foi solenemente ignorada para permitir que o ex-senador Demóstenes Torres possa se candidatar ao Senado nas próximas eleições. Cassado por seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ex-senador estava inelegível automaticamente. No entanto, os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes deram-lhe o direito de concorrer sem que a cassação de seu mandato tenha sido anulada pelo Senado.

Só assim, em tempos menos estranhos, ele poderia se livrar da Lei da Ficha Limpa, que diz expressamente que políticos condenados em segunda instância ou cassados tornam-se inelegíveis. Se três ministros do Supremo se dão ao direito de ignorar uma lei em vigor, vivemos mesmo em tempos estranhos.

O ministro Lewandowski manteve o tom crítico em seu voto em reunião recente do Supremo ao defender o direito de Paulo Maluf aos embargos infringentes, mas acabou sendo derrotado. Insinuou que o país vive um momento de exceção, como se não estivéssemos numa democracia plena.

João Domingos: Barbosa pede calma


- O Estado de S.Paulo

‘Tudo está dando certo. As pesquisas indicam uma boa aceitação do meu nome’

O PSB é hoje um partido marcado pela ansiedade. Quer definir logo, no máximo até o dia 15, a data para anunciar a candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa à Presidência da República. O partido vê no ministro aposentado potencial tão grande quanto o que via em Eduardo Campos na eleição de 2014. Campos seria o novo, o diferencial da polarização PT/PSDB que se repetiu com as candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. Mas Eduardo Campos morreu num acidente aéreo cinco dias antes do início da propaganda no rádio e na televisão.

Agora, com Joaquim Barbosa, o PSB aposta que tem outro nome para apresentar ao eleitor brasileiro que pode ser qualificado como o novo, como o foi Campos. Mas Barbosa, com seu jeitão mineiro e arisco, suas dificuldades de lidar com uma massa afoita de militantes, como são as massas nas campanhas eleitorais, e com os meios de comunicação e as perguntas inconvenientes de seus repórteres, pede calma e tempo. Aos jornalistas, disse que ainda não conseguiu convencer a si mesmo de que deve ser candidato a presidente da República. À ansiosa direção do PSB, disse que tudo está caminhando e que tudo se resolverá a seu tempo e na sua hora.

No encontro reservado que teve com os dirigentes, governadores, deputados e senadores do PSB, anteontem, em Brasília, Joaquim Barbosa virou-se para o presidente da legenda, Carlos Siqueira, e comentou: “Vamos pôr a ansiedade de lado. Vamos devagar. Tudo está dando certo. As pesquisas indicam uma boa aceitação do meu nome. O que queremos mais? Em time que está ganhando não se mexe. Então, vamos tocando”.

Rosiska Darcy de Oliveira: A hora e a vez do novo

- O Globo

O crescimento das candidaturas de Marina Silva e Joaquim Barbosa sinaliza uma aspiração à decência na vida pública

É como se após uma sufocação, voltássemos a respirar ar fresco. Vínhamos há muito tempo condenados a uma polarização alimentada pelo ódio e pelo medo, sentimentos corrosivos, que dividem pessoas e sociedades.

A escolha entre Lula e Bolsonaro deixava órfão quem, perplexo, se perguntava que maldita máquina do tempo era essa que nos atirava de volta a 50 anos atrás, quando o confronto entre direita e esquerda desembocou em 20 anos de ditadura militar.

A cena política mudou. Lula foi preso depois de um discurso em que tentou transformar um político preso em um preso político. Pregou ódio e violência talvez apostando em um conflito mais grave que, instalando o caos, fizesse de um condenado por corrupção uma vítima do arbítrio. Não conseguiu.

Bolsonaro, por sua vez, que surfava na onda de violência que desgraça o país, prometendo como solução mais violência, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelo crime de racismo. Já havia sido denunciado pela mesma PGR ao mesmo STF por incitação ao estupro.

E, por fim, o resultado da pesquisa Datafolha de intenção de votos para a Presidência da República apontando para o colapso da velha política. Lula perdeu votos, Bolsonaro empacou na votação que tinha até agora. Ascendentes, duas candidaturas, um negro, Joaquim Barbosa, e uma mulher, Marina Silva, com trajetórias de afirmação pessoal e reputação ilibada. Ambos conheceram a pobreza na infância e juventude. Nem um nem outro esqueceu o que isso significa.

As agressões de Bolsonaro contra os negros e as mulheres, ampla maioria da população, esbarram na realidade de um país em que negros e mulheres vêm levando com coragem uma luta pelos direitos que vertebram uma verdadeira democracia.

Adriana Fernandes: Derrotas a caminho

- O Estado de S.Paulo

Como já esperado neste ano, a insatisfação política com a área econômica é grande

Não será nenhuma surpresa uma movimentação de lideranças da base do Congresso para impor nova e importante derrota à equipe econômica. Crescem as críticas à falta de diálogo com os líderes dos partidos aliados ao presidente Michel Temer.

Os parlamentares reclamam que o novo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, ainda não chamou nem mesmo para uma conversa as lideranças da Câmara. Uma praxe entre os muitos salamaleques da burocracia parlamentar de Brasília.

Foi a deixa para a insatisfação chegar ao ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun. Os parlamentares ensaiam uma derrota ainda maior do que a derrubada dos vetos presidenciais das dívidas rurais, no final de março, que vão custar R$ 13 bilhões só em 2018 e que ainda não é assunto resolvido, já que o governo não tem Orçamento para bancar essas perdas.

Recado político já foi dado na votação essa semana do projeto que altera as regras do cadastro positivo na Câmara dos Deputados. Por pouco, o governo não fracassa na votação.

Míriam Leitão: Longe da verdade

- O Globo

Explicações improváveis são o padrão entre os acusados de corrupção no país. Há um traço comum entre os acusados de corrupção no Brasil. Eles dão explicações inverossímeis para os seus atos. No caso do senador Aécio Neves, ele diz que a família estava pondo a venda o apartamento da mãe, que ele estima valer R$ 40 milhões, e por isso ofereceu o imóvel ao empresário Joesley Batista, pedindo um empréstimo de R$ 2 milhões, tendo em vista essa transação futura.

Na economia não funciona assim. Quando alguém quer vender um imóvel de alto valor procura empresas especializadas. A avaliação é feita por critérios técnicos dos corretores e consultores. Aí se coloca o imóvel à venda. Não faz sentido vender um apartamento desse valor de forma improvisada, falando com um amigo que sequer viu o imóvel.

Mesmo entre amigos, haveria, antes de o vendedor pedir qualquer adiantamento, um documento assinado de compromisso de compra e venda, com cláusulas que garantissem ambas as partes. Aécio diz que caiu numa armadilha montada por um criminoso confesso e que queria pegá-lo para usar como moeda de troca na negociação na delação premiada. Foi ele a procurar o criminoso confesso, a entrar na armadilha ao tentar fazer um negócio fora de qualquer padrão.

Demétrio Magnoli: O espelho imperfeito

- Folha de S. Paulo

Antes, Obrador denunciava os EUA pela criação do Nafta; hoje, denuncia Trump por pretender abolir o Nafta

No Zócalo, a extensa fachada barroca do Palácio Nacional à frente, constato que perdi as cerimônias de hasteamento da bandeira em honra a Emiliano Zapata (10 de abril) e a Benito Juárez (18 de julho). “Antes de serem uma realidade, os EUA foram, para mim, uma imagem. Desde crianças, nós, mexicanos, vemos esse país como o Outro. Um Outro que é inseparável de nós e que, ao mesmo tempo, é radical e essencialmente o estranho.” A passagem, de Octavio Paz (“O Espelho Indiscreto”, 1976), condensa uma relação de fascínio ritmada por ciclos de atração e repulsão. Juárez simboliza a atração: o México liberal, que queria a modernidade representada pelos EUA. Zapata simboliza a repulsão: o México da Revolução, hipnotizado pela política nacional-estatista, que queria ser o oposto dos EUA. A disputa presidencial mexicana recoloca o dilema, mas sob formas inesperadas.

Andrés Manuel López Obrador inaugurou sua terceira campanha presidencial em Ciudad Juárez, na fronteira com os EUA, local que concentra os dois simbolismos contrastantes. A cidade homenageia Benito Juárez, o presidente de humildes raízes indígenas que comandou a resistência à invasão francesa (1862-67). A ironia é especialmente aguda para a candidatura nacionalista de Obrador: Juárez restaurou a soberania mexicana graças ao apoio dos EUA, derivado da Doutrina Monroe. Hoje, 150 anos depois, Obrador lidera as pesquisas graças à repulsa universal dos mexicanos a Donald Trump. O parafuso da história dá mais uma volta e, pela enésima vez, o México pinta seu futuro com as tintas que escorrem da fronteira norte.

Mario Vargas Llosa analisa os pilares intelectuais do liberalismo

A economia de mercado, argumenta Llosa, traz desenvolvimento material e progresso

Ivan Martínez-Vargas | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Único ainda vivo entre os escritores de língua espanhola a vencer o Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa dedica seu livro mais recente a fazer uma ode ao liberalismo clássico.

"La llamada de la Tribu", ainda sem tradução, é um manual no qual o peruano esmiúça os pensamentos de sete grandes liberais: Adam Smith, Fredrich von Hayek, Ortega y Gasset, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

O ideário desses intelectuais é defendido como a receita contra o que Vargas Llosa nomeia "chamado da tribo" —o impulso humano de voltar à sociedade primitiva, em que o coletivo se sobrepunha ao individual e as decisões eram tomadas pelo líder tribal.

Entre os maiores riscos, está a tentação dos discursos de caudilhos carismáticos, quase sempre nacionalistas, que prometem às massas um paraíso terreno inviável e, na prática, eliminam a individualidade e a democracia.

Os pressupostos liberais, no argumento do autor, são o antídoto contra isso.

Estão presentes no ensaio ideias como a de que a diversidade de talentos na sociedade gera uma desigualdade econômica não necessariamente problemática, desde que haja um nível mínimo de oportunidades a todos.

Aparece também a defesa de que o livre mercado, associado ao Estado de Direito, garante o desenvolvimento e combate a miséria.

Os pensadores que protagonizam o livro são os que determinaram a conversão do escritor, ao longo dos anos 1970, de simpático ao socialismo e entusiasta da Revolução Cubana a liberal militante.

O peruano conta que começou a admirar a literatura liberal por meio dos discursos da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que citavam nomes como Hayek (1899-1992), economista expoente do liberalismo.

Ao longo de 256 páginas, "La Llamada de la Tribu" reitera críticas agudas à esquerda marxista, que identifica com o recorte às liberdades individuais, a intolerância à divergência e o autoritarismo.

Ao mesmo tempo, busca distanciar o "verdadeiro liberalismo" do conservadorismo.

Defende que aquele não deve ser considerado "como mais uma ideologia, com esses atos de fé laicos tão propensos à irracionalidade, às verdades dogmáticas".

Estaria mais para "uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica".

O liberalismo exclusivamente econômico é incompleto e nem sequer deve ser considerado liberal de fato, afirma.

A economia de mercado, argumenta, traz desenvolvimento material e progresso, mas a liberdade precisa ser "o valor supremo" também da política, da cultura e da vida social.

O respeito aos direitos humanos, o racionalismo, o pluralismo e a democracia, portanto, são itens cruciais dessa filosofia, segundo Vargas Llosa.

O princípio da igualdade de oportunidades, diz, também é profundamente liberal, "ainda que isso seja negado por pequenas gangues de economistas dogmáticos intolerantes e frequentemente racistas".

O livro tem o grande mérito de se debruçar sobre intelectuais que, embora relevantes, estão quase sempre ausentes de discussões na esfera pública atual. Como destaca o peruano, eles não recebem a mesma atenção que figuras como Sartre, Foucault, Simone de Beauvoir e Marx, seus antípodas ideológicos.

Apesar dos elogios a cada um dos intelectuais sobre os quais se debruça, Vargas Llosa critica de maneira pontual, mas incisiva, o que considera falhas de suas referências.

Entre os "erros garrafais" de Hayek, destaca seu alinhamento com o regime ditatorial de Pinochet, no Chile.

Ricardo Noblat: Trinta anos sem Tancredo Neves, o presidente que nunca tomou posse

Memórias do blog do Noblat (Texto do dia 20/04/2015)

1
Em fevereiro de 1985, Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil do último general-presidente da ditadura de 64, avisou ao presidente eleito Tancredo Neves que Délio Jardim de Matos, ministro da Aeronáutica, estava furioso. Dizia que Tancredo se comprometera a não escolher para sucedê-lo seus desafetos Moreira Lima e Dioclecio Lima. Mas que estava prestes a fazê-lo. Corria contra isso um manifesto de brigadeiros. Tancredo telefonou para Aureliano Chaves, que apoiara sua eleição: “Você tem cinco minutos para dizer quem será o ministro da Aeronáutica: Moreira ou Dioclecio”. Aureliano preferiu Moreira. Tancredo telefonou para seu Secretário de Imprensa e orientou-o a anunciar o nome de Moreira. Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, que a tudo assistiu, comentou: “Mas, o senhor fez o contrário do que o Leitão disse”. Tancredo: “Se existir um manifesto, quem assinou ainda terá tempo de retirar a assinatura. E quem não assinou não assinará mais”. Tancredo pediu a Dornelles: “Procure o Leitão. Diga que foi Aureliano quem indicou Moreira. E que a essa altura eu não pude fazer mais nada”. Não houve manifesto.
2
Ao saber que Alfredo Karan, ministro da Marinha, conspirava contra sua candidatura a presidente, Tancredo convidou-o para continuar no cargo. Karan aceitou radiante. Às vésperas de tomar posse, Tancredo explicou-se a um amigo: “Karan tentou me dar um golpe e eu dei um golpe nele. Não será ministro”.
3
Um dia, Tancredo recebeu um recado do deputado Gustavo Farias (PMDB-RJ): “Paulo Maluf me oferece 100 mil dólares para eu votar nele. E o senhor?” Tancredo: “Só prometo que não mandarei atrás de você nem a Polícia Federal nem a Receita”. Ganhou o voto de Gustavo.
4
Houve momentos difíceis na campanha de Tancredo para presidente. Num deles, reunido com auxiliares, as reclamações foram muitas. Um disse: “O senhor abandonou Minas.” Outro: “O comitê do Maluf tem mais computadores do que o nosso”. Um terceiro: “Maluf fala olhando para a câmera de televisão e o senhor não”. Tancredo perdeu a paciência: “Se Maluf é tão melhor por que vocês não vão apoiá-lo?” Ninguém foi.
5
Eleito governador de Minas em 1982, Tancredo ouviu do seu Secretário de Planejamento, Ronaldo Costa Couto: “Para pôr ordem nas contas teremos de demitir 10 mil funcionários”. Tancredo: “Posso contratar mil?” Surpreso, Ronaldo respondeu que sim. No dia seguinte, a manchete do principal jornal de Minas foi a notícia da contratação. A fonte dela: Tancredo. Que se justificou: “Mineiro só gosta de admissão”. O jornal não noticiou as demissões.
6
Governador, Tancredo telefonou para Dornelles. Quando a secretária de Dornelles passou a ligação, Tancredo já estava na linha. Dornelles: “Mas o senhor está aí? Pensei que fosse a secretária”. Tancredo: “Só cheguei a governador porque sempre entrei na linha na frente dos outros”.
7
A um amigo que o viu esperar mais de uma hora para ser atendido por um burocrata do Ministério da Fazenda, Tancredo, ainda deputado federal, ensinou: “Ele me humilha, mas libera minhas verbas. Ministro não manda em ministério. Quem manda é o segundo escalão”.
8
Crisanto Muniz, deputado do PSD, queixou-se a Tancredo: “Somos amigos, mas você dá mais atenção ao Ernane Maia” (deputado do PTB). Tancredo: “Faço isso por um só motivo: ele é doido. E doido tem que ser tratado com muito carinho”.

Murillo de Aragão: O lado bom dos desastres

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- Revista IstoÉ

Os infortúnios do Brasil são positivos. Não que eu seja masoquista ou sádico. O sofrimento faz parte do crescimento das nações

Seria viável dizer que existe um lado bom nos infortúnios? Para Nietzsche, sim. Segundo Alain de Botton, ele “viu nas dificuldades um pré-requisito decisivo de satisfação e concluiu que as formas açucaradas de consolação eram, em sua essência, mais cruéis do que úteis”. Seria a velha máxima das academias de ginástica: “No pain, no gain”?

Os infortúnios do Brasil são positivos. Não que eu seja masoquista ou sádico. O sofrimento faz parte do crescimento das pessoas e das nações. Para nascer, o pinto faz um esforço sobre-humano para quebrar a casca do ovo. O bebê também sofre ao sair do útero da mãe. O mundo não cresce por meio de cesarianas facilitadoras.

O Brasil sofre como parte natural do amadurecimento das nações. E as nações fortes, assim como os pitares de navio, aprendem com as dificuldades. Coreia do Sul e Japão floresceram após guerras trágicas. A Europa pós-Segunda Guerra Mundial se uniu. Os desastres do mundo foram pedagógicos para as nações.

O Brasil foi poupado pelas circunstâncias dos desastres que assolaram outras grandes nações. Não temos desastres naturais recorrentes, como terremotos e furacões. Nem temos vizinhos hostis com projetos de expansão à nossa custa. Não temos nazistas nem norte-coreanos por perto.

A maioria esmagadora dos desastres em nosso meio são de produção nacional. De nossa própria autoria. Nesse ponto, somos muito parecidos com os argentinos. O Rio de Janeiro está como está por conta das decisões de suas elites, onde se incluem a mídia, os intelectuais e os empresários que restaram.

São Paulo teria todas as condições para estar em situação pior que a do Rio de Janeiro. Não está porque as decisões tomadas pelos paulistas foram bem melhores que as decisões dos cariocas e dos fluminenses nos campos político, cultural e enconômico. Simples assim.

O Rio de Janeiro vai renascer lindo e forte. Como um Japão pós-explosão nuclear. Mas não agora. Terá de sofrer muito ainda para fazer a sociedade tomar pé da situação e se organizar. Não a partir de velhos chavões de uma esquerda conservardora ou de uma direita corrupta — ambas clientelistas. Novas forças devem emergir.

Mas melhor do que crescer com os desastres é escapar deles. Na linha do que disse o genial Gustavo Cerati: “Electrizado le escapé (…) De que desastre me salvé (…) En buena hora me solté.” Meus filhos me deram essa música de presente em uma situação difícil. Foi uma lição “nietzschiana” de filho para pai que muito me serviu.
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Murillo de Aragão é cientista político

Ensaios eleitorais: Editorial | Folha de S. Paulo

Pré-candidatos deste ano parecem mais propensos ao debate de temas econômicos espinhosos

Embora o início oficial da campanha esteja distante, os pré-candidatos declarados à Presidência já deixam transparecer algumas de suas ideias para o país.

São compelidos a tanto pela demanda da sociedade por clareza de propostas —sem dúvida mais palpável hoje, depois do estelionato eleitoral de 2014 e das crises política e econômica dele derivadas.

A grande dispersão de intenções de votos entre vários postulantes que disputam um lugar no segundo turno, ademais, em tese favorece um debate mais franco, na comparação com os últimos pleitos.

Quatro pré-candidatos assumidos que marcam mais de 5% nas pesquisas —Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB)— têm se manifestado, ainda que superficialmente em alguns casos, sobre temas econômicos essenciais.

De modo similar, o bom desempenho de Joaquim Barbosa (PSB) no último Datafolha já o leva a ser ouvido sobre grandes questões nacionais, ainda que não tenha declarado seu propósito de concorrer.

Do que foi falado até agora por esse grupo, é possível distinguir um consenso essencial —a atual situação do país demanda reformas das funções do Estado e do gasto público. Pode parecer pouco, mas trata-se de um avanço após o marketing enganoso da última disputa.

Mensagens de esperança: Editorial | O Estado de S. Paulo

É digno de nota que, no mesmo dia, quinta-feira passada, duas das mais importantes instituições do País, o Exército e a Igreja Católica, tenham se manifestado a respeito das eleições vindouras, cruciais diante da enorme crise política e moral que o País enfrenta. As profundas incertezas que cercam o pleito decerto motivaram essas declarações oficiais, pois o quadro atual, de crispação e virulência, não recomenda otimismo. Talvez por esse motivo, tanto os militares como os bispos salientaram a necessidade de forjar alguma forma de união e pacificação, superando-se minimamente as diferenças, pois é a própria democracia que, em sua visão, estaria em risco.

Em nota lida por ocasião do Dia do Exército, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, disse que os brasileiros não podem “ficar indiferentes aos mais de 60 mil homicídios por ano, à banalização da corrupção, à impunidade, à insegurança ligada ao crescimento do crime organizado e à ideologização dos problemas nacionais”. Esses fatores, segundo o general, são “as reais ameaças à nossa democracia”.

Ao destacar como principais riscos para as instituições democráticas a banalização da corrupção, a impunidade e a transformação dos problemas nacionais em questões ideológicas, o comandante do Exército foi ao cerne da crise. A corrupção aprofunda a desigualdade e intoxica as relações sociais ao dar vantagens indevidas a quem detém o poder econômico e político, castigando aqueles que cumprem a lei.

Privatização da Eletrobras está moribunda: Editorial | O Globo

Venda da estatal é projeto certo em governo errado, politicamente fraco, sem condições de convencer a própria base, que prefere usar a estatal para o clientelismo

O apoio à ideia da privatização da Eletrobras foi proporcional à descrença na possibilidade de o governo Temer conseguir viabilizar este necessário projeto no Congresso. O que era previsto fica cada vez mais incontornável.

Não se discute, de forma séria, que não seja necessária a venda do controle da estatal, desequilibrada de forma estrutural pelo intervencionismo populista da presidente Dilma Rousseff, para forçar, na base “da vontade política”, um corte de 20% nas tarifas, a fim de servir de cabo eleitoral na campanha da reeleição, em 2014. Inviabilizou a empresa sob controle estatal.

Sem que o Tesouro, abalado de maneira grave pelos desatinos macroeconômicos da política do “novo marco”, possa socorrer a empresa — como seria praxe, embora equivocado —, o único caminho lógico é a venda do controle da Eletrobras, pela oferta de ações de posse da União.

Emprego formal tem terceira alta seguida

Em março, foram criadas 56,1 mil vagas, melhor resultado para o mês desde 2013

Eduardo Rodrigues / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O emprego com carteira assinada voltou a crescer, pelo terceiro mês consecutivo, em março. O Brasil abriu 56.151 vagas de trabalho formal no mês passado, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho. Foi o melhor resultado para o mês desde 2013.

Apesar de positivo, o desempenho do mês passado foi inferior aos resultados registrados em fevereiro (65.058 vagas) e janeiro (82.855 vagas), já considerando o ajuste nos resultados desses meses. Mesmo assim, o presidente Michel Temer usou o Twitter para comemorar o resultado. “O Brasil não para de criar empregos com carteira assinada”, escreveu. “O Brasil voltou e está mais forte. Os empregos voltaram. Fruto da política econômica e social que adotei e que não pode sofrer retrocessos.”

Na avaliação de Fábio Romão, economista da LCA Consultores, a perda de ritmo da geração de emprego é um reflexo da retomada mais lenta da economia que o esperado pelos analistas. “A avaliação é de que os sinais parecem cada vez mais claros de que o ritmo de retomada da atividade é mais gradual do que se imaginava”, disse.

País cria 204 mil empregos com carteira no primeiro trimestre

Em março, foram geradas 56 mil vagas formais. Rio teve só 247 contratações

Geralda Doca | O Globo

BRASÍLIA - O país criou 204.064 empregos com carteira assinada no primeiro trimestre deste ano, informou ontem o Ministério do Trabalho. No mesmo período de 2017, o resultado foi bem diferente: foram fechados 64.378 postos. Apenas em março, o mercado formal de trabalho registrou saldo positivo de 56.151 vagas — terceiro mês consecutivo de alta. O Rio, embora tenha interrompido uma sequência de resultados ruins, registrou apenas 247 contratações no mês passado e não acompanhou o desempenho nacional favorável. Nos primeiros três meses do ano, o estado perdeu 12.335 empregos.

Dos 92 municípios fluminenses, 52 continuaram demitindo de janeiro a março deste ano. No ranking das cidades que mais demitiram estão: Rio, com saldo negativo de 4.213 postos; Duque de Caxias, onde foram fechadas 3.935 vagas; Niterói, que perdeu 1.977 empregos; e São Gonçalo, com menos 1.650. Por outro lado, entre os municípios que mais contrataram estão Macaé, que respondeu por 1.069 contratações, seguido por Itaperuna, Petrópolis, Resende e Itaguaí.

SERVIÇOS PUXARAM MELHORA
Embora o resultado do mercado formal de todo o país em março tenha sido o melhor para o período nos últimos três anos, o saldo ficou abaixo dos registrados em janeiro, de 77.822, e fevereiro, 61.188. Para especialistas, isso pode ser demonstração do ritmo lento de retomada da atividade.

No mês passado, os empregos foram puxados pelo setor de serviços, que registrou saldo positivo de 57.384, sobretudo nos segmentos de comércio e administração de imóveis, ensino, transporte e comunicação. A indústria de transformação ficou em segundo lugar, com 10.450 contratações, seguida pela construção civil, com 7.728 postos, e pela administração pública, com mais 3.660 vagas. Já a agropecuária fechou 17.827 postos por causa de fatores sazonais no cultivo de soja, no Mato Grosso, e de frutas (laranja), em São Paulo e Minas Gerais.

‘É fácil bater. Quero ver fazer’, diz Temer na TV

Renato Onofre e Tânia Monteiro | O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer assumiu um tom eleitoral em seu primeiro pronunciamento em rede de rádio e TV após anunciar a intenção de se candidatar à reeleição. Em vídeo que foi exibido ontem à noite, Temer também se comparou a Tiradentes, a exemplo do que já fez o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato.

“Que nesse 21 de abril, lembremos que Tiradentes foi acusado e condenado por lutar e defender um Brasil livre, forte e independente. Ao final, a história lhe deu a vitória maior. Seu exemplo de luta é exemplo para todos nós que trabalhamos para trazer mais conquistas ao Brasil”, afirmou Temer.

O presidente disse ainda que “bater no governo é fácil” e cobrou realizações dos adversários. “É fácil bater no Michel Temer! É fácil bater no governo, é fácil só criticar. Quero ver fazer. Quero ver conquistar. Quero ver construir e realizar o que nós conseguimos avançar em tão pouco tempo”, afirmou.

A intenção do governo é destacar medidas adotadas na gestão Temer. “A verdade é que o Brasil virou esse jogo. Alcançamos, nesses dois anos, vitórias expressivas, recordes após recordes, mas muitos teimam em não perceber a mudança. Em não admitir o nosso sucesso: o sucesso do Brasil.”

Temer abriu o pronunciamento citando versos do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. “Muito mais do que a independência sonhada pelos inconfidentes, hoje celebramos a liberdade da democracia, do direito de ir e vir, de pensar e expressar-se.”

Na TV, Temer não cita denúncias e rebate críticos: ‘É fácil bater’

Presidente diz que Tiradentes foi condenado ‘por defender Brasil forte’

Letícia Fernandes | O Globo

-BRASÍLIA- Num pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente Michel Temer afirmou ontem que existe uma “torcida organizada” pelo fracasso de seu governo e, ao mencionar Tiradentes, lembrou da injustiça contra alguém que foi condenado por “por lutar e defender um Brasil livre, forte e independente”. Pressionado pela delação da JBS e pelas investigações relacionadas à edição do Decreto dos Portos, o peemedebista, no entanto, não se defendeu — ou mesmo mencionou — as acusações que pesam contra ele.

No vídeo, Temer declamou versos do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, para enaltecer a liberdade. Ao citar Tiradentes, disse que o líder inconfidente foi acusado e condenado, mas a História lhe “deu uma vitória maior”.

No pronunciamento, o presidente Temer ainda disse que “é fácil bater no Michel Temer”, em referência aos críticos de seu governo.

“É fácil bater no Michel Temer! É fácil bater no governo, é fácil só criticar. Quero ver fazer. Quero ver conquistar! Quero ver construir e realizar o que nós conseguimos avançar em tão pouco tempo. A torcida organizada pelo fracasso tenta bater bumbo. Tenta perder o jogo todos os dias”, afirmou Temer, dizendo que alcançou “vitórias expressivas”.

Presidente faz apelo por fim de ‘disputa irracional’

Peemedebista disse que na democracia é preciso respeitar as ‘instituições’

Letícia Fernandes | O Globo

-BRASÍLIA- Em seu pronunciamento, Michel Temer lembrou ainda que o Brasil passará por eleições em outubro — das quais não descarta participar como candidato — e disse que é preciso dar fim à “disputa irracional” que, segundo ele, “joga uns contra outros”.

“Esse é um ano de eleições. É um ano de escolhas. E elas deverão transcorrer na maior tranquilidade e é isso que quero garantir-lhes a partir das minhas competências como Presidente da República Federativa do Brasil. E pra isso é preciso paz, justiça, segurança, responsabilidade. É preciso coragem. É preciso saber fazer. E estamos na direção certa”, afirma.

Temer enfatiza que, graças ao seu governo, o “Brasil virou o jogo”, e que há dificuldade em admitir suas “vitórias expressivas”.

“A verdade é que o Brasil virou esse jogo. Alcançamos, nesses dois anos, vitórias expressivas, recordes após recordes, mas muitos teimam em não perceber a mudança. Em não admitir o nosso sucesso: o sucesso do Brasil”, afirma.

No pronunciamento, Temer também elenca dados econômicos positivos de sua gestão, como a diminuição da inflação, o saque das contas inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e a diminuição da idade para saque do PIS (Programa de Integração Social) e do Pasep (Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público). Para ele, é preciso ter mais otimismo.

“Precisamos de uma injeção de otimismo no país. Precisamos, verdadeiramente, de bons sentimentos. O Brasil voltou para ganhar. E precisamos ter orgulho disso!”, diz o presidente.

INTERVENÇÃO NO RIO
Temer também aproveitou para comentar a intervenção federal no Rio, decretada em fevereiro. Ele disse que tanto a intervenção quanto a criação do Ministério da Segurança Pública, comandada por Raul Jungmann, foram iniciativas “inéditas”, que “governo algum” teve coragem de fazer.

Em cenário polarizado, celebridades entram na corrida eleitoral

De ator pornô a funkeira, candidatos tentam repetir o sucesso de votos de Tiririca

João Pedro Pitombo, Géssica Brandino | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO E SALVADOR - Com jaleco entreaberto, estetoscópio sobre os ombros e bandeira do Brasil nas mãos, Dr. Rey posiciona a câmera e começa a discursar com um forte sotaque americano.
“Qreedos Brazil, vocês deeeeemais. Eu me prrrreocupo vocês. Sonho com Brazil prrrrimeiro mundo”, diz o cirurgião plástico de celebridades radicado nos Estados Unidos e protagonista de um reality show na tevê. Ele conta que disputará uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PRB.

Nas eleições de outubro, terá um adversário de peso na busca pelo voto do segmento conservador em São Paulo: o ex-ator pornô Alexandre Frota, que filou-se ao PSL de Jair Bolsonaro e também vai tentar ser deputado federal.

Eles não são as únicas celebridades do meio artístico e do esporte que pretendem disputar as eleições deste ano. Nomes como o apresentador Otávio Mesquita, a funkeira MC Carol e o ex-treinador de vôlei Bernardinho podem surgir nas urnas.

A aposta em nomes já conhecidos é uma estratégia dos partidos para enfrentar um cenário de campanha eleitoral curta e com orçamento restrito.

Elis Regina: Exaltação a Tiradentes

Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência (trecho)

Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
– já louca e fora do trono –
na sua Proclamação.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados …
- liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
e o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentiras e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira…
Onde, os rostos? onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

FHC: O inevitável e o imprevisto

"Para fazer mudanças mais profundas, o Brasil precisa de lideranças que reflitam a emergência de uma nova sociedade"

"Políticos, jornalistas e intelectuais ficaram ligados na TV por São Bernardo, mas tinha mais gente vendo o jogo do Palmeiras"

Por Maria Cristina Fernandes | Valor Econômico

SÃO PAULO - "Na história, quando se pensa que acontecerá o inevitável, ocorre o imprevisto." Ao longo de 238 páginas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ora se rende ora se debate com a ideia-chave em novo livro, "Crise e Reinvenção da Política no Brasil". É a uma sociedade "mais forte porque desorganizada" que atribui possibilidades e riscos de uma crise cujo desfecho diz ser difícil prever.

As reflexões do ex-presidente foram colhidas, de setembro de 2017 a janeiro deste ano, em conversas com Sérgio Fausto, superintendente do instituto que leva seu nome, e Miguel Darcy, diplomata e seu assessor internacional. Delas emerge a ambiguidade da conjuntura: o indivíduo se fortaleceu frente ao Estado, mas a sociedade, sem o filtro dos partidos, se tornou mais vulnerável a aventureiros despreparados para o exercício do poder. E não apenas no Brasil.

O relato de sua passagem pelo poder está para ser concluído com o lançamento, talvez só em 2019, "quando já tiver passado o interesse pela sucessão", do quarto e último volume dos "Diários da Presidência". Já nas primeiras páginas de seu novo livro estampa a autocrítica do que deixou de fazer como senador, ministro e presidente da República. Com esse habeas corpus preventivo, põe-se a criticar a passagem do PT pelo poder e a tratar do porvir, a começar de tarefas historicamente retrancadas no Brasil, inclusive em seu governo, como a de impor concessões mais amplas àqueles que ganham mais.

A "utopia viável" com a qual conclui suas reflexões passa ainda pelo combate à impunidade, que hoje diz não ser mais um valor da classe média abastada, mas da maioria da população que vê se esvaírem os recursos de políticas públicas. É o apego ao oxímoro que parece levá-lo, nesta entrevista, a concordar mais com o ministro Luís Roberto Barroso, indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff, do que com o ministro Gilmar Mendes, seu escolhido para a Corte. FHC nega a seletividade da Lava-Jato e defende, em ordem decrescente, seus correligionários Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Eduardo Azeredo. No dia seguinte, o Supremo tornaria réu o senador mineiro.

Relativiza tanto a entrega do Ministério da Defesa, criado em seu governo, para um militar quanto o peso das declarações do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, às vésperas da votação do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - "falou para sua tropa" -, e diz que a intervenção no Rio só se justifica se for para pôr ordem na polícia.

Atribui a prisão de Lula à cota do imprevisto da história e diz que seu sucessor jogou bem ao buscar se sacralizar como "uma ideia". Não descarta que um dia, quando o gesto não se configurar como afronta à Justiça, possa vir a visitá-lo na prisão. Foi em seu apartamento, em meio a uma agenda de sucessivas reuniões, com tucanos e o presidente de um grande banco, que Fernando Henrique deu, ao Valor, a entrevista que segue:

Valor: O senhor diz no livro que, na história, quando se pensa que ocorreria o inevitável, acontece o imprevisto. Olhando para 2018, o que lhe parece inevitável e imprevisto?

Fernando Henrique Cardoso: Inevitável é que o Brasil de qualquer maneira vai continuar e tem lá seus valores, que procuro ressaltar no livro. O imprevisto é que, nos dias de hoje, não dá para saber quem vai ganhar. E se ganhar alguém que não tenha capacidade de levar o Brasil para diante? Já passamos por experiências difíceis nessa matéria. Mas na democracia você corre riscos. Espero que a população sinta o momento que estamos vivendo, as possibilidades que temos e que eleja alguém que permita ao Brasil avançar mais. Posso torcer, querer, mas a história, enfim, tem lá seus caprichos, que não são os meus. Nem sempre.

Valor: A derrota do ex-governador Geraldo Alckmin é inevitável?

FHC: Absolutamente não. Porque, primeiro, tem experiência aqui em São Paulo, com um partido que tem uma certa expressão e, segundo, porque acredito que no processo eleitoral seja possível mostrar que precisamos ter rumo e que não dá para você apostar em quem não se sabe o que pensa ou o que fez. O novo é quem está antenado com o que está acontecendo no mundo e no país, que saiba levar adiante. É bastante possível a vitória do governador Alckmin.

Valor: A prisão do Lula é o imprevisível?

FHC: É o imprevisto. Eu nunca imaginei que um ex-presidente com o significado do Lula fosse terminar sendo preso. Não acho bom - não estou criticando os juízes, porque eles têm os autos -, estou falando do significado histórico. Temos, no Peru, vários presidentes presos e um foragido. Alguns conheço, aliás acho que todos. E isso é bom para o país? Não, não é. Agora as instituições têm que funcionar. Os movimentos são muito importantes, mas é preciso também que haja filtros, para a história tomar um rumo e ter continuidade. A Justiça tem sua independência, e isso é inegável. Tanto é assim que você pode ver que, no momento atual, o PT não critica os outros partidos. Eles tentam dizer que há uma conspiração de vocês, da mídia. É importante mostrar que as instituições estão funcionando com independência dos interesses políticos imediatos.

Valor: Mas o PT não faz isso porque quer a solidariedade dos outros partidos, não?

FHC: Não é só por isso. O PSDB e os outros partidos não moveram a ação. Quem moveu a ação foi o Ministério Público. A narrativa fica capenga se disser que foi por interesse político.

Valor: O senhor disse que um líder hoje tem que ser capaz de transitar entre a sociedade e o Estado e entre a cidadania e as instituições. Qual a capacidade de Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Joaquim Barbosa, Marina Silva e Fernando Haddad cumprirem esse trajeto?

FHC: Primeiro, não sei se esses vão ser realmente os candidatos, né? Da minha experiência como presidente e senador sei que o governante que não conhece o Congresso tem dificuldade de fazer aquilo funcionar. Então, é preciso ver, desses aí, quem tem experiência de Congresso. Segundo, a máquina pública tem suas peculiaridades. Se você não souber que as Forças Armadas, o Itamaraty, a Receita Federal têm uma cultura própria, é difícil governar. Os grandes órgãos do Estado simplesmente não obedecem, eles têm uma dinâmica, e você tem que entendê-la. Por outro lado, se você não é capaz de falar com a nação, também é difícil governar. E a nação não são os ricos, nem são só os pobres. No mundo contemporâneo, não basta ao líder democrático ganhar a eleição. Tem que saber lidar com o Congresso, motivar a administração e falar ao país, para ter o apoio. Pela biografia a gente pode ver o que cada um desses aí é mais ou menos capaz, mas não cabe a mim julgar. Cabe ao povo.

FHC: ‘Geraldo é um corredor de maratona’

Entrevista com Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República

Ex-presidente minimiza mau desempenho de presidenciável tucano e diz que Lula ‘é um político preso’, não preso político

Marianna Holanda e Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

A seis meses das eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) minimiza o fato de o pré-candidato de seu partido ao Palácio do Planalto, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, aparecer estagnado nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, na faixa dos 8%. “Geraldo é um corredor de maratona, não de 100 metros”, disse na quarta-feira, 18, ao Estado, em seu escritório na capital paulista.

O tucano, de 86 anos, cita como exemplo sua própria campanha em 1994, quando só decolou em junho na esteira do Plano Real. Sobre uma eventual candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, Fernando Henrique afirma: “Foi um juiz competente, teve coragem, mas isso qualifica você para presidente? Por isso só, não”. “Não sei o que ele pensa.”

Questionado se o fato de o senador Aécio Neves (PSDB) ter se tornado réu pode contaminar a campanha tucana, Fernando Henrique cita o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Qual foi o impacto na inclinação pelo Lula? Até agora nenhum”. Ao comentar a prisão do petista, condenado na Lava Jato, ele rebate a tese do partido adversário, dizendo que não se trata de um preso político. “É um político preso.” Fernando Henrique lança hoje o livro Crise e reinvenção da política no Brasil, pela Companhia das Letras. 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

• No seu livro, o sr. fala que um líder deve ser capaz de explicar, passar uma mensagem. Que mensagem é essa e quem seria capaz de transmiti-la hoje?

Sempre fomos um País que achávamos que daria certo, grande pela própria natureza. Somos, mas não basta. Temos que ser grandes pela criatividade, tecnologia, capacidade. Tem que ter um rumo, essa é a mensagem. Para melhorar a vida das pessoas, com segurança, garantida a liberdade, crescendo a economia, emprego e bem-estar. Para isso, é preciso um governo que funcione. É simples, mas é preciso que quem emita a mensagem, tenha chama, toque no outro. O povo, por enquanto, não está nem aí. Política é assim, estamos aquecendo os motores.

• O livro fala ainda em uma “nova onda de direita”. Quem representa esse movimento?

No Brasil, temos gente que não é nem de direita nem de esquerda, é atrasada. O nome mais falado agora é o de (Jair) Bolsonaro. Não sei o que ele representa. Um sentimento de ‘quero ordem, mata bandido?’ É um sentimento que não tem expressão política. O que significa na economia, na vida social? É só uma explosão.

• Sobre o Judiciário, o sr. diz que teria se tornado mais consciente da sua autoridade e mais “permeável” à sociedade. O STF tem sido alvo de críticas por isso.

Fomos nós da Assembleia Constituinte que demos esse poder ao Supremo. Você pode requerer ao tribunal que, no vácuo da lei, ele legisle. Ele tem abusado? Não creio. Nas áreas comportamentais, como o Congresso fica receoso de avançar, às vezes o Supremo avança.

• E nos casos da Lava Jato?

A Lava Jato fez simplesmente o que todo mundo queria que se fizesse, pegou poderosos e ricos. O Supremo às vezes dá um habeas corpus e a população reclama, mas é que a lei permite liberar. Não acho que a Lava Jato tenha, no geral, extrapolado. E muito menos que ela seja facciosa, pegue um só partido. Estamos vendo agora, pegou os partidos que estavam no poder. Os que não estavam é natural que tenham menos foco na Lava Jato, porque não estavam metidos na cumbuca. Não é que a Justiça favorece os tucanos, favorece porque não estão no poder. Lava Jato foi um fato político muito importante, mas não dota aquele que foi o protagonista de qualidades para ser líder político. Mas há uma tentativa também de atacar o (juiz Sérgio) Moro. Acho que ele é apenas um juiz correto, tenta aplicar as leis tal qual ele entende.

• O STF tornou réu Aécio Neves e, na próxima semana, Eduardo Azeredo, outro ex-presidente do PSDB, pode ser preso. Qual o reflexo disso na imagem do partido do qual é presidente de honra?

Eu não posso ficar contente quando vejo personalidades importantes sendo julgadas e presas. O Lula, você acha que eu fico satisfeito? Não, mas não vou contra a Justiça. No caso do Aécio, foi apenas iniciado o processo. Ele disse que vai demonstrar que não havia dinheiro público envolvido. Eu não sei. Agora, eu não posso ser contra o que a Justiça decidiu. Nem num caso, nem no outro. Tem efeito claro, prejudica os partidos. Mas juiz não tem de ver se tem efeito político, tem de ver os autos. Tem indício de crime, abre o processo. Tem crime, condena. Foi o que eles fizeram.

• Isso pode ter algum impacto na candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin?

Digo isso até com constrangimento, mas qual foi o impacto na inclinação pelo Lula (nas pesquisas)? Até agora nenhum. Eu acho que devia ter, mas não sei se vai. É provável que as lideranças (tucanas) discutam esse assunto. Como ele (Aécio) tem direitos políticos, ele que vai decidir (se será candidato), mas acho que a liderança vai ponderar e dizer: ‘Presta atenção, olha as consequências’.

• Joaquim Barbosa se filiou ao PSB. O sr. acha que ele pode ser esse novo na eleição?

Não sei o que ele pensa. O que ele pensa sobre economia? Sobre a sociedade? Pode ser que sim, mas eu não sei. Um perfil parecido com o dele, no imaginário, é o de Moro. Eu não sei se o Moro seria um bom presidente. O Joaquim Barbosa foi um juiz competente, teve coragem, mas isso qualifica você para ser presidente? Por isso só, não.

• Alckmin, entre os nomes colocados, parece ser o candidato de centro que mais tem viabilidade eleitoral, mas não decolou. Como isso vai se resolver?

Quando eu fui ministro, deixei o Ministério da Fazenda para ser candidato à Presidência da República em abril, acho. Quando chegou em maio, eu falei à Ruth (Cardoso, ex-primeira-dama, que morreu em 2008), ‘não dá mais, vou desistir’, porque eu tinha apenas 11%, o Lula tinha 40%. Quem me apoiava? Ninguém. Que recurso eu tinha? Nenhum. Em junho, comecei a ganhar. Em agosto, estava na frente. Em outubro, ganhei no primeiro turno. O Geraldo é um corredor de maratona, não é de 100 metros rasos. Às vezes, você vai correr maratona e sai com velocidade de 100 metros e queima na largada. Vamos ver como vai ser, o que vai acontecer nesse jogo, que está apenas começando. Há elementos para (se viabilizar como o candidato), mas precisa ver se vai conseguir.

O que representa a prisão de Lula para o processo eleitoral?

Lula tem um peso simbólico, foi líder sindical, criou um partido. Ele não está sendo processado pelo que fez politicamente. O PT está dizendo: é um preso político. Não é. É um político preso. A narrativa do PT é de preso político. Se fosse, eu estaria protestando. É preso por outras razões. Você pode dizer: decisão não foi correta. Apela. A condição (de preso) vai pesar contra (no processo eleitoral), com o passar do tempo. Aí na campanha os partidos vão transformar um fato numa versão. Na política, não adianta eu ter razão, adianta ter capacidade de convencer, explicar. Melhor que não tivesse acontecido, mas aconteceu, e agora vamos ter que explicar à população. A força simbólica de Lula não é sobre o que ele faz e diz, mas sobre o que ele fez. E foi capaz de, ao fazer, cantar, cacarejar. Um dos defeitos do PSDB e meu é cacarejar pouco sobre o que se fez, quando se fazia. O Lula tem a virtude de que ele cacareja: eu fiz, eu fiz, agora sou ideia. A ideia pode ser boa ou pode ser má, não sei (risos). Mas foi uma boa sacada.

• O que uma eventual 3ª denúncia contra Temer representaria para o País, às vésperas da eleição?

Acho que seria insensato, porque vai ter uma luta de novo. É difícil que o Congresso a dois meses da eleição vá tomar uma posição contra o presidente. Acho que deveria ter um pouco de pensamento institucional.

• Do Ministério Público?

Inclusive. Tem de ter uma certa visão institucional do País. Se houve coisa errada, ele vai deixar de ser presidente, vai ser julgado. Por que balançar mais ainda a situação que já é em si frágil? Tem coisas tão importantes para fazer, retomar o crescimento, dar emprego, botar segurança na rua. Se fosse uma coisa afrontosa... Mas se for começar ver pelo em ovo para poder arranjar argumento para fazer um impeachment, processar presidente... Se fosse no começo do governo, eu entendo. Mas no fim, com eleição à vista? Tem de ter um pouco de moderação.

• E o que o sr. acha das manifestações de militares da ativa e da declaração do general Villa Bôas na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula?

Melhor que os militares não falem. Alguns ameaçaram, o chefe do Exército não fez isso. Basicamente, foi uma mensagem interna corporis. Ele falou antes que outros falassem coisas mais desabusadas. Não considero que a declaração do ministro tenha sido uma ameaça. Ele disse o que todo mundo diz: a impunidade não pode prevalecer, a Constituição diz isso. Ele não disse ‘condene fulano e beltrano’.

Fernando Gabeira*: Ganhar ou perder

- O Estado de S.Paulo

Esta será uma eleição singular, depois tudo o que vivemos. Atuação da sociedade é imprevisível

As pesquisas mostraram que há muitos candidatos à Presidência, mas ainda poucos votos. Conheço quase todos os candidatos pessoalmente, incluído Levy Fidelix, cuja campanha documentei em 2015, assim como outros considerados nanicos na época. Discutir suas qualidade e seus defeitos é um esforço válido, mas não é isso que farei em 2018. O que posso fazer apenas é ajudá-los a ganhar ou perder votos, lembrando grandes temas para a sociedade, nos quais nem sempre eles se fizeram presentes.

Poucos dos mais votados falaram, por exemplo, de duas questões muito discutidas no momento: a prisão em segunda instância e a revisão do foro privilegiado. É compreensível que mantenham uma certa distância. Abraçar esses temas e ampliá-los com uma perspectiva de combate à corrupção não é bem visto entre os políticos. Muitos candidatos são discretos nesse ponto porque não querem perder o apoio dos seus pares, muito menos arriscar-se a um confronto com o Congresso, em caso de vitória.

Como em todas as eleições, assumir uma linha política nem sempre representa apenas mais votos. É sempre um jogo de ganha e perde.

A própria esquerda será chamada a se definir, mas hoje, por uma questão de coerência, ela associa a prisão após segunda instância à presença de Lula na cadeia. E certamente terá de adotar a posição mais leniente, que prevê prisão após o trânsito em julgado.

Eliane Cantanhêde: Dispersão leva à derrota

- O Estado de S.Paulo

Depois de Lula, o centro também tenta reaglutinar suas forças políticas

Depois da pulverização desenfreada das candidaturas à Presidência, é hora de começar o movimento inverso, de reaglutinação das forças políticas. O ex-presidente Lula saiu na frente para trazer de volta a tropa unida, mas os articuladores dos demais, particularmente de Geraldo Alckmin e de Joaquim Barbosa, também se mexem. A união faz a força, a dispersão leva à derrota.

No seu comício de despedida antes de voar para Curitiba, naquele que teria sido o ato ecumênico para Marisa Letícia e não foi, Lula encheu Guilherme Boulos (PSOL) de elogios, acariciou o ego de Manuela d’Ávila (PCdoB) e convocou a militância para um projeto comum.

A questão é que Lula se esforça para reunir as esquerdas com a mesma intensidade com que as esquerdas se esforçam para se isolar de todo o resto. A invasão do triplex no Guarujá, comandada por Boulos, apavora a classe média. As investidas internacionais do PT, pela voz de sua presidente, Gleisi Hoffmann, margeiam o patológico e sacodem as redes sociais.

Difícil compreender o objetivo da invasão do apartamento, que só atende as alas mais radicais e imprudentes. Mais difícil ainda é entender o que a senadora petista pretende ao manifestar apoio ao regime calamitoso de Nicolás Maduro e fazer uma conclamação ao mundo árabe pró-Lula e contra o Brasil. O que Lula acha disso?

José de Souza Martins: Máscaras da história

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Os melancólicos e contraditórios acontecimentos destes dias de pessimismo e desesperança, dentro de alguns anos estarão nos livros de história que ensinarão às novas gerações uma concepção certinha do que hoje parece sem sentido. Uma história sem o peso dos fatos e dos fatores que envergonham os que vergonha têm. Nela não haverá corrupção, fraude, mentira, enriquecimento ilícito, injustiça, exploração dos frágeis, genocídio de índios e escravidão que persiste 130 anos depois da Lei Áurea. Será apenas a história pasteurizada dos cúmplices ou dos ingênuos. Uma história sem passado nem agora. Sem contradições, sem povo e sem cidadãos.

Tudo o que agora é incerteza, dúvida e falta de clareza, nas páginas desses livros será retilínea certeza de uma história que teria fluido serena e evolutivamente até o limiar do futuro. Não somos preparados para interrogar e conhecer os segredos e irrelevâncias do processo histórico: o meramente acidental que se tornou principal, as tramas inconfessáveis, sussurradas nos recantos escuros de lugares suspeitos, não vistos nem sabidos, onde nosso destino tem sido traçado bem longe da nossa consciência social e política.

Podemos rever episódios decisivos de nossa história, cujas ocultações aos livros escolares não têm a gravidade de episódios de dinheiro sujo escondido na cueca para pagar traficantes de influência e mercadores de votos. Nem os da mão leve dos pagadores de propina remunerando a desonra dos venais.

Mas desde há muito tramas invisíveis definem o que fomos e somos. Na Biblioteca Britânica há um documento de 1805 em que é exposto um plano de remover para o Brasil o príncipe herdeiro, dom João de Bragança, e sua esposa espanhola, Carlota Joaquina. E aqui induzi-los a proclamarem a independência das colônias portuguesa e espanholas de modo a assegurar o mercado do novo mundo para a economia inglesa.

Merval Pereira: Bombas desarmadas

- O Globo

Duas bombas foram desarmadas ontem no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), uma pela argúcia do ministro Edson Fachin, auxiliado pela presidente Cármen Lúcia, outra pela maioria mais uma vez apertada de 6 a 5. A questão dos embargos infringentes, que permitem reabrir um julgamento quando o réu não for condenado por unanimidade, era talvez a mais grave, pois a sua admissão nos julgamentos das Turmas, não prevista no regimento interno do Supremo, vai atrasar os processos, levando os recursos para decisão do plenário. No entanto, era uma decisão inevitável já que, no julgamento do mensalão em 2013, a existência dos embargos infringentes acabou sendo admitida, embora muitos juristas e cinco dos 11 ministros consideraram que eles não mais existiam, pois as normas que regem os procedimentos do STF e do STJ não se referiam a eles.

Mas eles subsistiram no regimento interno do Supremo, provavelmente por um descuido do Tribunal, que não atualizou seu regimento interno após a Constituição. Sua simples permanência num regimento ultrapassado fez com que seis dos ministros à época os aceitassem, proporcionando a alguns dos réus, entre eles José Dirceu, se livrarem de condenações por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Cometido o erro lá atrás, nada mais natural que também as Turmas, que só recentemente passaram a tratar de casos penais, os admitissem, para dar aos condenados uma possibilidade de usar os embargos infringentes da mesma maneira que os julgados no plenário.

O que demonstra certa manobra jurídica por parte do ministro Dias Toffoli é que ele considerou que Paulo Maluf tinha direito aos embargos infringentes quando o ministro Fachin havia decretado o trânsito em julgado, encerrando o processo. Alegando motivos humanitários, ele conseguiu levar o assunto ao plenário, e conseguiu a maioria para sua aplicação. O que ele queria, na verdade, era reabrir o processo de Maluf. Sua proposta de que apenas um voto divergente bastasse para dar direito aos embargos infringentes, seguida por outros quatro ministros, faria com que grande parte dos casos julgados nas Turmas acabasse no plenário, postergando uma decisão final e talvez mesmo possibilitando a revisão de penas.