quinta-feira, 25 de abril de 2019

Fernando Pessoa: Acordar

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palác ios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também..

Mariza - Maria Lisboa

quarta-feira, 24 de abril de 2019

*Alberto Aggio: Do fantasma Pinochet ao risco Savonarola

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro mantém seus apoios, mas já vê uma parte deles fugir por entre os dedos

Não foi preciso esperar cem dias para se admitir que os brasileiros elegeram um líder político com agudas dificuldades para o exercício do posto maior da República. Desde janeiro os atropelos se seguem, com bate-cabeça de auxiliares, recuo de ministros, demissão de dois deles, vários disse-desdisses do presidente, causando estupefação e desorientação. Tudo isso sem que houvesse influência direta da oposição.

Jair Messias Bolsonaro carrega um passivo de bravatas que lhe rendeu a imagem de homofóbico, racista, antiparlamentar, anti-institucional, antirreformista, antidemocrata, e assim por diante. Essa imagem negativa afeta o presidente da República e parece ser de difícil superação. Mesmo porque Jair Bolsonaro faz questão de se apresentar como o líder de um governo de “destruição” de tudo o que se havia construído nos 30 anos de vigência da Constituição de 1988, durante os quais se implementou, reformou e inovou, tanto quanto possível, o que previa a Carta Magna.

Não há sentido em sustentar a impostura de vincular os governos Fernando Henrique Cardoso ou mesmo os de Lula da Silva ao socialismo. Foram governos de políticas semelhantes e distintas entre si, dentre elas uma inclinação à privatização das empresas públicas e à manutenção do equilíbrio fiscal, pautas liberais que marcam os últimos decênios em nível mundial. Os problemas advindos do modelo de relação do Estado com a economia, que abrange excesso de estatização, controle de preços, hipertrofia fiscal, centralização de recursos, etc., vem de muito antes desses governos, em especial do período militar, que Bolsonaro louva tanto.

Quem bloqueou a adoção do modelo bolivariano no Brasil, que muitos petistas vocalizavam, foram a sociedade, a imprensa, a opinião pública e, em especial, os institutos políticos que emanam da Carta Constitucional de 1988. Isso precisa ficar claro, para que os bolsonaristas percam a ilusão de que foram eles que barraram a continuidade do petismo e também para que não imaginem que será fácil construir no Brasil, a partir da “destruição” a que se refere Bolsonaro, um novo regime político, fazendo sucumbir a nossa institucionalidade democrática perante uma plataforma de tipo iliberal. Bolsonaro admira um Donald Trump iliberal, mas se esquece de que os Estados Unidos permanecem uma democracia liberal institucionalmente consolidada.

Hélio Schwartsman: General a postos

- Folha de S. Paulo

Mourão está fazendo um excelente contraponto às temeridades de Bolsonaro

Já defendi algumas vezes neste espaço a extinção dos cargos de vice. Eles são uma relíquia do século 19 que não faz mais sentido no mundo de hoje, onde tudo pode ser controlado à distância e não há muita dificuldade em organizar rapidamente uma eleição em caso de impedimento definitivo.

O vice-presidente Hamilton Mourão ainda não me fez mudar de ideia —estamos falando não de um, mas de 5.598 cargos, aos quais se somam os de assessores, motoristas etc. Devo, porém, admitir que o general está fazendo um excelente contraponto às temeridades de Jair Bolsonaro. Tão bom que ele já se tornou o alvo principal da ala olavista do governo, a desbocada combinação de extremismo ideológico com paranoia.

Há uma diferença importante entre Mourão e Michel Temer, o mais recente vice a ascender ao poder. Enquanto o substituto de Dilma Rousseff atuou ativamente na costura política que levou ao impeachment da titular, o general se limita a emitir opiniões sensatas, deixando que o contraste com os desvarios do chefe o transforme numa alternativa potencialmente atraente. Objetivamente, não dá para apontar um único ato de deslealdade de Mourão para com Bolsonaro.

Bruno Boghossian: Alvará de demolição

- Folha de S. Paulo

Presidente dá alvará a 'olavistas' ao defender Carlos em guerra com Mourão

Os choques entre o grupo ideológico e a ala militar do governo superaram a disputa corriqueira por espaço e influência. Os “olavistas” sempre tentaram enfraquecer os generais que trabalham com o presidente. Agora, eles parecem dispostos a derrubar de vez esse pilar.

Com a participação direta dos filhos de Jair Bolsonaro, o fã-clube do escritor Olavo de Carvalho teve suas mãos amarradas pelos militares em uma série de embates nos primeiros meses de mandato. Além de conflitos públicos, como no Ministério da Educação, o time ideológico viu seus planos bloqueados por generais que atuam dentro do Planalto.

As últimas peças movidas pelo presidente e sua família escancararam o conflito. Depois de se ver repreendido pelo próprio governo, o vereador Carlos Bolsonaro decidiu tornar explícita a guerra pelo poder.

O filho do presidente foi considerado o responsável pela publicação, na página de Jair Bolsonaro, de uma gravação em que Olavo faz ataques pesados aos militares. A peça foi retirada do ar, e o Planalto afirmou que as críticas “não contribuem para a unicidade de esforços” do governo.

Rosângela Bittar: O cheiro do vento

- Valor Econômico

O processo decisório já tem a marca do presidente

Rigorosamente pontual, às 8 horas o presidente Jair Bolsonaro chega ao Palácio do Planalto e é recebido, na garagem, por uma comitiva de três ou quatro autoridades que com ele vão subir o elevador privativo em direção ao gabinete. Começa então a primeira reunião do dia da cúpula do governo. Nesse encontro, o processo decisório adotado por Bolsonaro, um tanto informal, meio compartilhado, às vezes errático, se inicia e já tem, antes de completar quatro meses de mandato, a marca do presidente.

Em volta da mesa estão, diariamente, nesse horário, o general Augusto Heleno (questões de inteligência e conjuntura), o general Carlos Alberto Santos Cruz (espécie de chefe de Estado-Maior do governo para tratar de problemas de dentro e de fora da Presidência), o general Rêgo Barros (Comunicação, porta-voz do presidente), o chefe do cerimonial, Carlos França, o chefe de gabinete Pedro Cesar, o chefe da assessoria especial Célio Faria Junior.

Integram esse grupo nuclear o líder do governo na Câmara, major Vitor Hugo, às vezes o general Floriano Peixoto Vieira Neto (que completa o pelotão do Haiti ao redor de Bolsonaro), e também às vezes o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

O presidente fala primeiro, expõe seus temas do dia; definem uma agenda e cada ministro se manifesta sobre as questões da sua área que precisam ser decididas. Há posições tomadas na hora e outras que ficam para depois. O encontro das 8h dura em média 40 minutos.

Instrumento para um tipo de decisão, a reunião da manhã no Planalto não tem a presença de ministros das áreas específicas. Os assuntos de cada setor não são discutidos nessa reunião estratégica, o presidente trata diretamente com o ministro da pasta, ao longo do dia, pedindo dados e enviando seu veredito por WhatsApp na imensa maioria das vezes. Um ou outro ministro entra na agenda para uma conversa pessoal.

Nesse tipo de linha das decisões de Bolsonaro se enquadram, por exemplo, alguns propósitos do presidente verbalizados pelo ministro Paulo Guedes, da Economia. Foi o ministro quem revelou recentemente uma decisão em tema tabu, a de que Bolsonaro já admitia a privatização da Petrobras, em estudos.

Bernardo Mello Franco: Uma babá para Carluxo

- O Globo

A última presidente que brigou com o vice não terminou o mandato. Bolsonaro poderia aprender com o exemplo de Dilma, mas prefere os conselhos de Olavo de Carvalho

Não durou 24 horas a trégua de Carluxo, o filho pit bull de Jair Bolsonaro. Na noite de segunda, o Zero Dois sinalizou uma pausa nos ataques a Hamilton Mourão. Na terça, já voltou a tuitar contra o general.

Ontem o vereador tirou mais um dia para torpedear o vice-presidente. De manhã, reclamou de uma palestra que ele fez em Washington. À tarde, ironizou uma declaração sobre a Venezuela. À noite, criticou uma frase sobre a facada sofrida pelo pai. Referiu-se ao general como “o tal de Mourão”.

As queixas de Carluxo sugerem uma tentativa de encontrar pelo em ovo. No caso da palestra, ele culpou o vice por uma carta de divulgação do Wilson Center. O texto diz que Mourão emergiu como uma voz moderada no governo, o que é difícil de contestar.

Ao falar da Venezuela, o vice ponderou que é preciso evitar uma guerra civil. Sobre a facada, disse que Bolsonaro não deveria fazer propaganda no hospital. O Zero Dois discordou. Tempos depois, postou uma foto do pai de cueca numa maca.

O presidente poderia conter o filho com medidas simples, como o confisco do celular ou a contratação de uma babá. Escolheu passar a mão em sua cabeça, o que sugere um aval aos ataques. Ontem o porta-voz do Planalto disse que Bolsonaro tem “consideração e apreço” pelo vice, mas “estará sempre ao lado” do herdeiro.

Zuenir Ventura: Faltando com a verdade

- O Globo

O poder, qualquer poder, de direita ou de esquerda, não se caracteriza pelo respeito à veracidade dos fatos, a não ser os que servem à própria conveniência. Mas para quem se orgulha de ter como lema as palavras do Senhor na voz do apóstolo João —“a verdade vos libertará” —o presidente Bolsonaro anda exagerando e faltando demais com ela, a verdade. Como, porém, a mentira tem pernas curtas, ele vem sendo desmentido por quem menos espera. Isso aconteceu, por exemplo, com o ministro Onyx Lorenzoni ao informar que o presidente “deu trava na Petrobras”, ou seja, fez o que o governo negava ter feito.

Ora, todo o esforço do presidente era provar que não tinha havido ingerência sua na Petrobras para vetar o aumento de preço do óleo diesel. Bolsonaro chegou a garantir isso ao lado do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, que, claro, confirmou a inverdade. A versão mais criativa do episódio partiu do ministro da Economia, Paulo Guedes, que imaginou um Bolsonaro brincalhão dizendo para o presidente da empresa: “agora que estou comemorando meus 100 dias de governo você quer botar diesel no meu chope!”.

Ricardo Noblat: Bolsonaro usa o filho contra Mourão

- Blog do Noblat / Veja

Bolsonaro assiste de camarote

De duas, uma. O presidente Jair Bolsonaro manda no seu filho Carlos Bolsonaro, mas ele não o obedece. Ou manda e ele obedece.

A hipótese mais provável é a segunda. Porque se não fosse assim, Bolsonaro já teria dito com todas as letras: Carlos não fala por mim.

Está bem que Carlos é um vereador do Rio. Como tem mandato, pode dizer o que quiser. É o caso dos seus irmãos Flávio e Eduardo.

Mas Carlos, Flávio e Eduardo são os filhos do presidente da República e sabem que tal condição reforça o que dizem e fazem.

Somente ontem, em poucas horas no Twitter, Carlos disparou seis tiros contra o vice-presidente Hamilton Mourão.

Jamais teria feito isso se não tivesse o respaldo do pai. Atirou e ficou por isso mesmo, e ficará. Tem sido assim desde o ano passado.

Carlos pôs na cabeça que Mourão quer derrubar seu pai. E Bolsonaro concorda com ele, embora não o diga.

O filho usa o pai que usa o filho. E quando a barra pesa para o lado de Carlos, o pai sai em sua defesa. Foi o que Bolsonaro fez outra vez.

Sangue é sangue, disse Bolsonaro por meio do seu porta-voz. Por isso não importa que os ataques de Carlos façam Mourão sangrar.

Também não importa que militares da ativa e da reserva corram em defesa de Mourão. Entre o filho e o vice, a escolha já foi feita.

Bolsonaro tem pelo menos duas grandes dívidas contraídas junto a Carlos e que ele considera impagáveis.

Como Flávio não quis, Carlos foi convencido pelo pai a ser candidato a vereador para impedir que sua mãe se reelegesse. Derrotou-a.

Carlos largou tudo o que fazia para cuidar da campanha do pai à presidência da República. Flávio e Eduardo cuidaram de se reeleger.

Nunca esteve nos planos de Bolsonaro se eleger presidente da República. Nunca acreditou que seria possível.

Saiu candidato pra ajudar os filhos a se reelegerem. Em seguida iria gozar a vida ao lado da sua nova mulher e da sua única filha.

A facada em Juiz de Fora que quase lhe custou a vida atrapalhou seu plano. Não estava pronto para governar. Não está. Mas, fazer o quê?

Ele simplesmente não sabe o que fazer. Seus ministros, os filhos e o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho lhe dizem o que fazer.

E ele vai tocando as coisas ao seu modo inseguro e atrapalhado. Assim será até o fim do mandato, se conseguir chegar até lá.

Bolsonaro manda, mas não comanda o governo. Muito menos as circunstâncias que o cercam.

Se mesmo assim der certo foi porque tudo o mais está errado.

Vitória de Rodrigo Maia

Bolsonaro assiste de camarote
Claro que sozinho ele não ganharia coisa alguma. Mas Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, fez muito mais pela aprovação da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça da Casa do que o governo com todos os seus ministros. E muito mais do que o presidente Jair Bolsonaro, que pouco fez.

*José Eduardo Faria: Os ultraliberais e o preço da liberdade

- O Estado de S.Paulo

Só o Estado assegura o funcionamento do mercado, corrige suas falhas, garante direitos...

A liberdade, nos regimes políticos que protegem garantias fundamentais, é gratuita? É possível afirmar que, quanto menor é o Estado, maior é o alcance da liberdade? Em vez de ser solução, o Estado seria um problema? Respostas favoráveis a indagações como essas foram apresentadas durante a campanha eleitoral por candidatos e assessores de candidatos que, contrapondo libertarismo ou ultraliberalismo econômico à social-democracia, defenderam medidas como redução drástica do intervencionismo estatal, enxugamento do aparato governamental e híper-responsabilização dos cidadãos por suas escolhas de vida.

O libertarismo econômico defende mercados inteiramente livres – ou seja, não regulados. Enfatiza as liberdades individuais. É avesso a qualquer forma de dirigismo. E faz a apologia do direito privado como a espinha dorsal da ordem jurídica.

Contudo quem protege os cidadãos quando seus direitos são violados? A quem pedir proteção senão à polícia e à Justiça, instituições sustentadas pelos contribuintes? Quem assegura o equilíbrio dos mercados e preserva os bens dos cidadãos no caso de roubos? Na realidade, direitos são serviços prestados por órgãos governamentais e financiados por tributos. E essa forma de custeio depende de receita fiscal, orçamentos equilibrados e cálculos econômicos que envolvem horizonte de tempo e regras capazes de gerar previsibilidade e calculabilidade.

Meus professores de economia política diziam que sem Estado, cuja máquina demanda recursos e orçamentos, não há predição, sem predição não há segurança jurídica e sem a segurança de que as normas são aplicadas do mesmo modo a casos idênticos o jogo de mercado tende se tornar instável e assimétrico. Por tabela, como os direitos dependem de receita fiscal para ser eficazes na prática, sem impostos não há como preservar a propriedade privada e garantir a liberdade de iniciativa. No limite, quem quer mercado concorrencial tem, igualmente, de querer tributos. Direitos não apenas custam dinheiro. Também custam caro.

Merval Pereira: Condenação mantida

- O Globo

Apenas se a segunda condenação de Lula for confirmada no TRF-4 e no STJ, ele voltaria para a cadeia em regime fechado

Só existe uma possibilidade de Lula não passar a cumprir sua pena em regime semiaberto a partir de setembro, depois da decisão de ontem do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de reduzir sua pena para 8 anos e 10 meses: se, nesse período, ele for condenado em segunda instância pelo sítio de Atibaia, processo no qual já foi condenado em fevereiro pela juíza Gabriela Hardt, então na 13ª Vara Federal de Curitiba, a 12 anos e 11 meses de prisão também pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Mas, se o Supremo Tribunal Federal mudar a jurisprudência para acabar com a possibilidade de execução antecipada da pena, não permitindo a prisão em segunda instância, Lula poderá sair mesmo condenado no outro processo em segunda instância.

Apenas se a segunda condenação de Lula for confirmada no TRF-4 e no STJ ele voltará para a cadeia em regime fechado, pois, nesse caso, a Vara de Execuções Penais fará a unificação das penas, e aumentará o tempo necessário para que ele tenha direito à progressão.

Já há uma maioria teórica no STF para acabar com a possibilidade da prisão em segunda instância. O mais provável é que o tema seja colocado em pauta antes de setembro, e a tendência é de que se chegue a um acordo para que a prisão possa ser decretada após julgamento do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Mesmo condenado ontem em mais essa instância, Lula tem direito ao regime semiaberto por ter cumprido já 1/6 da primeira pena. A progressão de regime na execução penal, estabelecida na Lei de Execuções Penais, tem o objetivo de fazer com que o condenado retorne gradativamente ao convívio social.

No regime semiaberto, há Centros de Progressão de Pena (CPPs), que são presídios mais liberais, com menos seguranças. Desde que autorizado pela juíza de Execuções Penais, Carolina Lebbos, o condenado tem permissão para sair durante o dia, desde que tenha um trabalho fixo e atenda a algumas exigências básicas, como o cumprimento de horários e constatação, através da apresentação de cópias de livros-ponto, de que ele realmente exerce a função.

Eliane Cantanhêde: O ambiente para Lula melhorou, mas há ainda muitas incertezas

- O Estado de S.Paulo

Regime semiaberto surge no horizonte do ex-presidente, porém o processo do triplex é apenas um dos muitos que assombram o petista

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma derrota e uma vitória ontem, porque a condenação foi mantida e a pena reduzida, mas a guerra judicialcontinua. Numa nova etapa, o Supremo Tribunal Federal poderá até repetir para Lula o remédio receitado para o também petista José Dirceu: mandar soltar o ex-presidente, até que a dosimetria da pena seja decidida em última instância.

Dirceu, ex-presidente do PT e ex-chefe da Casa Civil no governo Lula, foi solto pela Segunda Turma do Supremo em junho de 2018 sob o argumento de que não havia uma decisão definitiva sobre os anos que deveria cumprir de prisão. Está solto até hoje, enquanto a decisão não vem. O mesmo pode ocorrer agora com Lula.

O fato é que o ambiente em relação a Lula mudou. A unanimidade da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) a favor da redução da pena, de 12 anos e 1 mês para 8 anos e 10 meses, pelo processo do triplex do Guarujá (SP), deixou no ar a sensação de um grande acordão na turma para uma solução de meio-termo: a condenação de Lula foi mantida, mas com pena menor, que pode tirá-lo da prisão em meados de setembro, após cumprimento de 1/6 da pena. Além disso, houve uma drástica revisão da multa, de R$ 29 milhões para R$ 2,4 milhões.

Luiz Carlos Azedo: Lula mais perto do semiaberto

Nas entrelinhas / Correio Braziliense

“O outro lado da moeda, porém, é o recrudescimento da polarização com o presidente Jair Bolsonaro, que se retroalimenta”

A 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu a pena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de 12 anos e um mês para 8 anos, 10 meses e 20 dias de prisão. Como Lula terá que cumprir 17 meses para ir ao semiaberto e já cumpriu cerca de 13 meses, faltariam apenas quatro meses para o petista voltar às ruas, ao menos durante o dia. A multa por reparação de danos também foi reduzida de R$ 29 milhões para R$ 2,4 milhões. Atualmente, Lula está preso na Superintendência de Polícia Federal do Paraná, em Curitiba, em razão de jurisprudência que determina a execução imediata da pena após a condenação em segunda instância. Foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A decisão da Corte abre caminho para a revisão da jurisprudência que determina a execução imediata da pena após condenação em segunda instância pelo Supremo Tribunal Federal(STF), sem que a questão seja diretamente associada ao caso Lula. Nos bastidores da Corte, a proposta debatida como alternativa para flexibilizar a jurisprudência sobre execução penal vai na direção do regime fechado somente após o julgamento em terceira instância, ou seja, um tribunal superior, sem ter que transitar em julgado pelo Supremo. Essa interpretação é música para dezenas de políticos e centenas de envolvidos na Operação Lava-Jato já condenados ou na iminência de o serem, em primeira instância.

Voltando ao caso do ex-presidente Lula, a decisão de ontem não tem apenas repercussão jurídica. Seu maior impacto é político, porque abre uma contagem regressiva para que Lula possa voltar a atuar politicamente com mais desenvoltura, ainda que o regime semiaberto seja cercado de restrições quanto às atividades que possa realizar. Mesmo preso, Lula teve um papel extraordinário nas eleições presidenciais passadas, catapultando o ex-prefeito Fernando Haddad para o segundo turno. Manteve também domínio absoluto no comando do partido, com a recondução da deputada Gleisi Hoffman (PT-PR) à presidência da legenda.

O outro lado da moeda, porém, é o recrudescimento da polarização com o presidente Jair Bolsonaro, que se retroalimenta. Embora isso seja bom para Lula, pode ser muito melhor para Bolsonaro, que alavancou sua eleição no antipetismo. A decisão reforça o discurso anti-esquerda do presidente da República e seus aliados, frustrando as tentativas de construção de uma alternativa de centro por outros partidos derrotados nas eleições passadas. Serve também para unir a base do governo, diante da ameaça eleitoral representada pelo PT como principal força de oposição no Congresso, com projeção nas eleições municipais.

Vera Magalhães: Planos do Cebolinha

- O Estado de S.Paulo

Elucubrações de olavetes e derivados se assemelham cada dia mais aos planos ‘infalíveis’ dos gibis: bem maquinados, mas fadados ao fracasso à primeira coelhada

A experiência internacional recente do surgimento e êxito de uma nova direita mundial indica que o parquinho ideológico montado pela autoproclamada ala antiestablishment do bolsonarismo (que tem representantes no governo e na família presidencial) não vai cessar sua guerra de guerrilha, tendo alvos distintos.

Pode ser. Mas essas elucubrações de olavetes e derivados se assemelham cada dia mais, quando cotejadas à realidade econômica, social e política de um país como o Brasil, aos planos “infalíveis” do Cebolinha nos gibis: bem maquinados, com uma lógica própria, mas fadados ao fracasso à primeira coelhada. A Mônica, no caso, são os militares.

Os generais tiveram importância muito maior para a construção que levou à vitória de Jair Bolsonaro que livros e vídeos de Olavo de Carvalho. Enquanto o último animava uma militância aguerrida nas redes sociais – o que, claro, teve um peso na vitória –, coube aos militares reabilitar um ex-capitão que deixou o Exército sem honras, tido como agitador sindical, e passou as décadas seguintes como um deputado folclórico.

Foram os militares que viram em Bolsonaro, a quem antes destinavam certo desprezo condescendente, a melhor possibilidade de derrotar o PT em 2018. A importância que teve a fala do general Villas Bôas, então comandante do Exército, em abril do ano passado, por ocasião do julgamento do habeas corpus de Lula, levantando o risco de crise institucional caso o ex-presidente fosse solto, ainda está por ser devidamente contada, numa reconstituição de bastidores daqueles dias e dos subsequentes.

Que uma pessoa que vive entre rifles na Virgínia e tem contato com o Brasil pela tela de computador rebaixe o papel dos militares em benefício próprio se entende. Que integrantes do governo e da família de Bolsonaro incorram no mesmo erro, passa a ser risco de instabilidade constante para o governo e prova de uma leitura muito caolha da realidade.

Para registro: nas questões que realmente importam até agora, os militares vencem de goleada os olavetes e demonstram pragmatismo para ler a conjuntura. A embaixada do Brasil em Israel ainda não mudou para Jerusalém, não houve nem haverá intervenção militar na Venezuela e Vélez Rodríguez, um filho que Olavo se recusa a assumir, caiu sem deixar saudades.

Míriam Leitão: Vitórias e dúvidas em duas batalhas

- O Globo

Lula teve redução de pena, mas foi condenado em instância superior; governo está tendo muito mais dificuldade do que imaginava com a Previdência

Ontem foi o dia das duas batalhas. A que atraiu mais atenção foi travada no STJ, que discutiu o recurso do ex-presidente Lula. A redução da pena era previsível, costuma ocorrer em instâncias superiores, mas há dois fatos relevantes no julgamento. Primeiro, com o voto unânime, manteve-se a condenação de Curitiba e Porto Alegre. Segundo, supera-se, no caso do Lula, a discussão sobre o cumprimento da pena após a condenação em segunda instância. A outra batalha mostrou que o governo está tendo muito mais dificuldade do que esperava na tramitação da reforma da Previdência e isso basicamente pelos erros que tem cometido.

O que esse tempo em que Lula ficou — e ainda ficará —preso mostrou ao Brasil é que a esquerda não conseguiu ter novas lideranças. A sombra de Lula prevaleceu. O PT não tem conseguido liderar a oposição. Os maiores constrangimentos ao governo Bolsonaro foram criados por sua própria incapacidade de articular uma base parlamentar e pelas ferozes brigas internas.

O juiz que condenou Lula no dia 12 de julho de 2017, Sérgio Moro, é hoje um ministro do governo que se elegeu usando o discurso do combate à corrupção. Não se pode por isso fazer uma relação causal pretérita. Moro não o condenou com o propósito de ir para o governo Bolsonaro, que nem fora eleito ainda. Mas a sua decisão de ir para o Ministério, perseguindo o sonho lotérico do Supremo Tribunal Federal, jogou uma sombra sobre suas antigas decisões, a mais dramática delas, a de condenar o ex-presidente Lula. O dia de ontem, contudo, foi de alívio para Moro. Afinal, o STJ confirmou a condenação, apenas reduzindo a pena. Para Lula, também houve o alívio de uma vitória, depois de tantas derrotas jurídicas. Sua defesa agora passa a discutir a progressão de regime que pode levá-lo ao semiaberto em setembro.

Cristiano Romero: O perfil da recuperação judicial em São Paulo

- Valor Econômico

Observatório da Insolvência estudou RJs de SP de 2010 a 2017

Como ocorre em toda crise econômica, e a atual já dura meia década (três anos em recessão e dois com crescimento medíocre) e ainda não acabou, o número de empresas que entram em recuperação judicial (RJ) ou sofrem falência cresce de maneira significativa. Este é o resultado dramático de decisões equivocadas, em geral, tomadas em Brasília: milhares de empresas e seus fornecedores quebram, credores sofrem calote, milhões de pessoas perdem o emprego e a arrecadação de tributos encolhe, diminuindo a capacidade da União de prestar serviços públicos.

No Brasil, como se sabe, abrir e fechar uma empresa são tarefas igualmente difíceis. Muitas companhias se tornam inadimplentes (com fornecedores, clientes e o Fisco) e, mesmo assim, seguem funcionando por muito tempo. Uma das razões é a existência de dispositivos legais inexequíveis para recuperar negócios que enfrentam, muitas vezes, dificuldades temporárias.

As regras, em vez de facilitar, dificultam excessivamente a recuperação das companhias, principalmente, das micro e pequenas. Do total de 906 processos de RJ ocorridos no Estado de São Paulo entre janeiro de 2010 e julho de 2017, 92 (10,1% do total) foram requeridos por microempresas (ME), 94 (10,3%) por empresas de pequeno porte (EPP), 182 (20%) por grupos societários e 538 (59,3%) por médias e grandes empresas.

A leitura desses números mostra, portanto, que o contingente de empresas mais numeroso da nossa economia é o que menos requer recuperação judicial. As explicações para esse fenômeno seriam o custo dos processos - tanto em relação às despesas diretas com custas, advogados, assessores e administrador judicial, quanto pelo custo reputacional de assumir dificuldades publicamente -, o excesso de burocracia e, possivelmente, a dificuldade de acesso a crédito. O não recurso à RJ consolida uma característica muito forte das micro e pequenas empresas - operar na informalidade, mesmo tendo registro nos Fiscos municipais, estaduais e federal.

José Eli da Veiga*: A cisão das duas culturas

- Valor Econômico

As duas novas ciências querem revelar a interação entre as dimensões vivas e não vivas da História da Terra

Duas novas ciências têm a ousadíssima proposta de romper com inclinação comum às ciências naturais e sociais de só olharem para o próprio umbigo. Querem construir pontes que superem a histórica cisão entre humanidades e ciências. Mais: pretendem integrar os conhecimentos necessários ao estudo conjunto e simultâneo das quatro dinâmicas históricas da Terra - do planeta, da vida, da natureza humana e da civilização.

A mais consolidada é a "Ciência do Sistema Terra", que tomou corpo em meados dos anos 1980 por clarividente iniciativa da Nasa. Até 2015, avançou muito, graças ao trabalho estratégico dos pesquisadores do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP).

Há quem exagere ao afirmar que tal ciência já teria emergido no início dos anos 1970, com a famosa "Hipótese Gaia" de James Lovelock e Lynn Margulis. Ou exorbite recuando até mesmo à lenta virada paradigmática que acabou por levar a velha Geologia a admitir a teoria dos movimentos globais da litosfera, ou "tectônica de placas". Mas são visões que menosprezam a envergadura do desafio transdisciplinar, que só começou a ser realmente enfrentado em 1986, com o relatório da Nasa intitulado "Earth System Science".

A segunda, bem mais audaciosa, chama-se "Ciência da Sustentabilidade". Entre 2001 e 2011, ela só engatinhou nas páginas do periódico "PNAS" (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America). A partir de 2012, ganhou forte impulso com o surgimento da organização global "Future Earth" (http://www.futureearth.org/), em substituição à duvidosa "ESSP" (Earth System Science Partnership). E, em janeiro de 2018, foi autenticada pela primeira edição mensal da super-revista Nature Sustainability.

As duas novas ciências querem revelar as propriedades que emergem da interação entre as dimensões vivas e não vivas da História da Terra, como diz, quase ipsis litteris, o fértil jornalista científico Reinaldo José Lopes. Desnecessário dizer que o maior complicador advém da insigne importância conquistada por uma única espécie - a do Homo sapiens-demens-ludicus - e pelas poucas civilizações que foi capaz de fazer vingar.

Outra das maiores dificuldades congênitas de tão recentes ciências está na confusão entre o multidisciplinar e o inter/transdisciplinar. O prefixo multi (muitas) não implica qualquer pretensão de superar fronteiras disciplinares. Grupos de pesquisa multidisciplinares podem juntar experts em diversas áreas com a missão de apenas acrescentar conhecimentos disciplinares a serem justapostos. Já os prefixos inter e trans (entre e através), bem similares, denotam determinação de se aprofundar metodologias e modelagens que possam ir bem além das indispensáveis subdivisões disciplinares.

Vinicius Torres Freire: Governo tenta matar o pragmatismo

- Folha de S. Paulo

Reforma da Previdência ainda sobrevive, apesar de loucuras e vexames bolsonaristas

A reforma da Previdência deve chegar intacta até a discussão de seu conteúdo, que em tese começa em 7 de maio, em comissão da Câmara. Até as 20h32 desta terça-feira, havia progressos.

A tramitação da emenda não era até então prejudicada pelos escândalos intestinos do governismo, como o ataque do bolsonarismo puro contra Hamilton Mourão e, por tabela, a quem quer que pretenda desfazer a ideia de que o governo seja uma máquina de propaganda e combate feroz do “sistema” ou de “ideólogos”. Ou seja, contra qualquer dissidente ou recalcitrante que se meta no caminho da revolução moral-ideológica.

Apesar do desgaste extra que causa na imagem do Planalto, se isso ainda é possível, a turumbamba está limitada à cozinha do governismo —por ora.

Até a noite, não havia também notícia de nenhum surto novo de incompetência, embora ainda restem três dias na semana.

O que houve?

Primeiro, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, voltou a trabalhar intensamente pela reforma, que é também um projeto político seu e um acordo com a elite econômica.

Segundo, o governo promete um varejão de acordos, baseado em um plano de liberação de dinheiro extra para emendas ao Orçamento e de participação de deputados nas definições de convênios entre União e estados ou cidades. Em suma, o governo federal divide com os parlamentares a autoria das obras.

Terceiro, o governo deixou de bobagem excessiva e abriu mão de unsjabutis que vieram no pacote da reforma previdenciária. Como é óbvio para qualquer um que passou do jardim da infância parlamentar, o Congresso sempre mexe em projetos, a cada estágio de tramitação, nem que seja “para constar”, para não parecer pau-mandado do Executivo.

Estavam lá jabutis pesados, como a possibilidade de alterar, na prática, a composição do Supremo, um golpe branco, e a proibição de iniciativa do Congresso em matéria de lei previdenciária. Era o governo botando asinhas de fora. Nada a ver com o problema da Previdência.

Monica De Bolle*: O outono de Macri

- O Estado de S.Paulo

A Argentina opera com duas moedas, dólar e peso, o que torna o combate inflacionário extremamente complicado

Na semana passada, Mauricio Macri anunciou o “Plan Otoño” contendo drásticas mudanças na visão da coalizão Cambiemos acerca do combate inflacionário – em particular, ressuscitando o congelamento de preços de diversos produtos em acordo firmado com empresários. A medida heterodoxa recebeu duras críticas e poucos afagos, já que seu histórico de fracassos na Argentina e na América Latina mais amplamente é muito bem documentado. No Brasil, parte da esquerda se alvoroçou ao ver no congelamento o sinal de que o “neoliberalismo” de Macri havia naufragado. 

Contudo, um breve passar de olhos nos dados fiscais revela que Macri não conseguiu reverter a trajetória de gastos crescentes que prevaleceu durante toda a era Kirchnerista, e que se agravou quando Cristina estava no poder. Em 2015, Macri herdara da antecessora 41,4% de gastos públicos como proporção do PIB. Em 2017, esses gastos continuavam quase que estacionados no mesmo patamar. Portanto, as promessas de Macri jamais se cumpriram, o que explica parte do fracasso atual.

Macri foi eleito em outubro de 2015, prometendo consertar gradualmente os imensos desarranjos macroeconômicos do Kirchnerismo, a começar pela confusão com os fundos abutres detentores de parte da dívida não renegociada da Argentina que haviam impedido que o país tivesse acesso ao mercado internacional de capitais. 

Macri assumiu a presidência em dezembro daquele ano e imediatamente iniciou negociações intensas com os fundos que haviam comprado papéis de credores descontentes para reabrir o acesso aos mercados. O sucesso foi rápido e logo a Argentina recebia fluxos maciços de investidores estrangeiros e tornava-se o país emergente com as melhores perspectivas em 2016, razão para que muitos economistas – incluindo esta que vos escreve – achassem que a direção estava acertada, ainda que o caminho do ajuste fosse difícil. Tal impressão foi corroborada em 2017, quando o país não apenas conseguiria a proeza de lançar título soberano com prazo de cem anos nos mercados internacionais, como também asseguraria a vitória da coalizão de Macri nas eleições legislativas, marcando a desordem do Peronismo. 

Advogados lançam manifesto de apoio ao Supremo

Em meio a polêmicas envolvendo o STF, grupo vê ‘clima de pressão’ para que Corte se curve ao ‘populismo autoritário’

Sérgio Roxo /O Globo

SÃO PAULO - Um grupo de 500 advogados lançou ontem um manifesto de apoio ao Supremo Tribunal Federal (STF). No documento, os juristas afirmam que há um clima de pressão para que os integrantes da Corte “se curvem ao populismo autoritário”.

Entre os juristas que assinam o manifesto estão os ex-ministros da Corte Eros Grau e Sepúlveda Pertence, além do ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo.

“Com virulência, escondidos nos subterrâneos das redes sociais e até mesmo, em alguns casos, de forma institucional, autoridades, indivíduos e grupos pretendem constranger e intimidar os Ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça. O objetivo é a construção de um clima de pressão sobre as Cortes e seus integrantes, para que se curvem, definitivamente, ao populismo autoritário”, diz trecho do documento.

O manifesto será entregue para cada um dos 11 ministros do Supremo a partir do próximo dia 3. O grupo também está programando um jantar de desagravo ao tribunal, com a presença do presidente da Corte, ministro Dias Toffoli.

RESSALVAS A TOFFOLI
A elaboração do manifesto de apoio à Corte foi motivo de tensão entre os advogados, porque muitos têm críticas aos atos de Toffoli à frente do Supremo. O episódio da semana passada, de censura à revista “Crusoé” e ao site “O Antagonista”, determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, também foi mal visto. As reportagens publicaram documento que citava o presidente do STF e o relacionava à Odebrecht. Outra polêmica recente envolvendo o Supremo se refere a um inquérito iniciado recentemente no tribunal que investiga ameaças à Corte.

A avaliação que prevaleceu entre os advogados, porém, foi a de que era necessário redigir o manifesto, porque apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estão empenhados em enfraquecer o STF para criar clima para o impeachment de ministros ou para redução da idade máxima de aposentadoria para 70 anos.

Com essas medidas, Bolsonaro poderia construir uma maioria conservadora dentro do Supremo. O manifesto foi organizado pelo tributarista Marco Aurélio Carvalho, pelos criminalistas Alberto Zacharias Toron, Fábio Tofic e Roberto Podval e pelo jurista Lenio Streck.

Advogados divulgam carta de apoio ao Supremo em combate a fake news

Inquérito aberto por Dias Toffoli vem sofrendo críticas no Congresso e no Ministério Público

Wálter Nunes / Folha de Paulo

SÃO PAULO - Um grupo de 464 profissionais do direito divulgou um manifesto de apoio ao STF (Supremo Tribunal Federal) devido ao inquérito instaurado pela corte para apurar fake news, ameaças e ofensas contra ministros e seus familiares.

O Supremo, segundo eles, sofre ataques e tentativas de intimidação em redes sociais. O documento é publicado no momento em que há uma discussão sobre a regularidade da investigação instaurada pelo presidente do STF, Dias Toffoli.

“O STF, como Poder de Estado independente e como guardião maior da Constituição, da democracia e da vida civilizada do país, vem sendo vítima de ataques e injúrias, orquestrados por uma onda populista e autoritária”, diz a nota.

A carta de apoio dos advogados diz ainda que “com virulência, escondidos nos subterrâneos das redes sociais e até mesmo, em alguns casos, de forma institucional, autoridades, indivíduos e grupos pretendem constranger e intimidar os ministros" do STF e também do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

“A intenção é clara: fazer com que a Corte Suprema abandone definitivamente a defesa dos valores e dos princípios estabelecidos na Carta Constitucional”, diz.

Dallagnol responderá a processo por dizer que Gilmar, Toffoli e Lewadowski formam "panelinha"

Mônica Bergamo / Folha de S. Paulo

O processo contra o procurador já obteve maioria no Conselho Nacional do Ministério Público

O procurador Deltan Dallagnol, de Curitiba, terá que responder a um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) por dizer que os ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli formavam uma "panelinha" na 2ª Turma da corte.

Segundo afirmou a uma rádio, "os três mesmos de sempre que tiram tudo de Curitiba e que mandam tudo para a Justiça Eleitoral e que dão sempre habeas corpus, que estão sempre formando uma panelinha assim que manda uma mensagem muito forte de leniência a favor da corrupção".

O processo contra ele já obteve maioria no CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público). No fim da investigação, Dallagnol pode ser inocentado ou sofrer advertência, censura e até suspensão.

Em sua defesa, Dallagnol disse que não tinha a intenção de ofender os magistrados.

Senador protocola pedido de impeachment de Dias Toffoli e de Alexandre de Moraes

Para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), tema não é prioridade na pauta da Casa

Ricardo Della Coletta / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) protocolou nesta terça-feira (23) o pedido de impeachment do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, e do ministro da Corte Alexandre de Moraes.

Vieira justificou o pedido de destituição dos dois ministros do STF em razão da abertura do inquérito que investiga a divulgação de fake news contra integrantes da Corte.

O inquérito foi aberto por Toffoli e está sendo relatado por Moraes, que chegou a determinar a retirada do ar de reportagens da revista Crusoée do site O Antagonista sobre o apelido “amigo do amigo do meu pai” dado a Toffoli pela Odebrecht.

A determinação de Moraes gerou críticas até mesmo entre os demais ministros do STF e foi considerada um ato de censura por entidades que defendem a liberdade de imprensa.

Poucas horas depois de o pedido de impeachment ter sido protocolado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse que o tema “não é prioridade na pauta” da Casa.

No pedido de impeachment, Alessandro Vieira alega que tanto Toffoli quanto Moraes cometeram abuso de poder.

Reaproximação entre Supremo e PGR é animadora: Editorial / O Globo

Encontro de Dodge e Dias Toffoli atende ao estado de direito, mas falta o STF engavetar o inquérito

Voltar atrás na censura inconstitucional à revista “Crusoé” e ao site “O Antagonista” foi um correto recuo do presidente do Supremo, Dias Toffoli, e do ministro Alexandre de Moraes, nomeado por Toffoli responsável pelo não menos controvertido inquérito, aberto de ofício, para apurar ameaças a ministros, seus familiares e a origem de fake news contra a Corte.

O inquérito cometeu grave erro na repressão à suposta notícia falsa de que Toffoli, ainda advogado-geral da União, nomeado por Lula, havia sido citado em delação do empreiteiro Marcelo Odebrecht por ser a pessoa que este, em e-mails internos da empresa, tratava em código como o “amigo do amigo do meu pai” —Lula e Emílio Odebrecht.

A censura, além de ilegal, foi um rotundo fracasso. Ela teve como base atestado da Procuradoria-Geral da República (PGR) de que nenhuma referência ao “amigo do amigo...” havia chegado a ela. Porém, a informação existia nos autos, mas havia sido retirada do processo a pedido do Ministério Público, por não guardar relação com o objeto das investigações — falcatruas na obra da usina de Belo Monte.

Suspender a censura, além de voltar atrás em uma ilegalidade, serviu como providencial batida em retirada. Outro gesto correto do ministro Dias Toffoli foi reatar os contatos com a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, de forma também incorreta colocada de lado na decisão de instauração do inquérito.

Não ajudam ao estado democrático de direito rusgas entre o STF e o Ministério Público. Justiça e MP dependem um do outro, conforme estabelece a Constituição. Dodge visitou segunda-feira Dias Toffoli no Supremo, um encontro fora de agenda. O presidente da Corte garantiu não haver problema no relacionamento entre as duas instituições e até garantiu que o inquérito, ao ser concluído, será enviado ao MP Federal. Sensata decisão, que, em parte, restabelece a legalidade.

Nova vitória do cartel do frete: Editorial / O Estado de S. Paulo

O cartel do frete, uma aberração apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro, será defendido com fiscalização vigorosa, segundo prometeu o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, em reunião com representantes de caminhoneiros. O cartel chapa-branca poderá até funcionar com mais eficiência a partir dos próximos dias, se o preço do transporte for de fato corrigido com base no valor do diesel. Essa correção foi prometida pelo ministro, segundo um dos participantes do encontro. “Não houve um acordo, mas sim um compromisso de uma agenda positiva”, disse o presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), Diumar Bueno. Positiva para quem?

Essa agenda só pode ser negativa, como tem sido, para a indústria, para a agropecuária, para a maior parte dos serviços e para os consumidores. Será ruim para a balança comercial e, muito especialmente, para o ordenamento jurídico de uma economia de mercado. A tabela oficial de fretes, criada inicialmente por medida provisória (MP) e sacramentada pouco depois por lei, é a base de um escandaloso cartel chapa-branca. A MP foi editada pelo presidente Michel Temer em junho do ano passado, numa rendição a um movimento apoiado pelo deputado Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República.

Nesse movimento, caminhoneiros ocuparam rodovias como quiseram, bloqueando pistas ou ocupando quilômetros de acostamento. Impediram, usando até intimidação e violência, a passagem de quem pretendia passar transportando carga. Não faltaram irregularidades e atos criminosos. Só faltou disposição ao governo para impor a lei e defender os interesses nacionais. Prejuízos para a produção, o comércio, o consumo e o emprego foram enormes, como já deixaram claro as estatísticas oficiais.

Intrigas palacianas: Editorial / Folha de S. Paulo

Novo conflito consome energia que deveria se destinar à agenda nacional

Em mais uma crise interna tão ruidosa quanto plenamente evitável, o governo Jair Bolsonaro (PSL) desperdiça tempo e energia num confronto, forjado por sua ala ideológica, que coloca em campos antagônicos os seguidores das teses do escritor Olavo de Carvalho e o grupo de generais que integra a cúpula da administração federal.

O estopim do conflito foi um vídeo postado no sábado (20), numa página de internet do presidente. As imagens mostram Olavo nos Estados Unidos, onde vive, a disparar um rifle e a comentar de maneira irônica e agressiva o papel dos oficiais no atual governo e durante o regime autoritário de 1964.

Com seu característico vocabulário chulo, o escritor diz que a ditadura, que durou até 1985, serviu para destruir os políticos de direita, deixando livre o caminho para a esquerda. “Eles dizem: ‘Livramos o país dos comunistas’. Não, eles entregaram o país ao comunismo”, afirma o ideólogo, em meio a outras elucubrações do gênero.

Adversário declarado do vice-presidente Hamilton Mourão e discípulo do olavismo, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSL), autorizado a editar as intervenções do pai nas redes sociais, chamou atenção no domingo para o vídeo —que pouco depois, entretanto, seria retirado do ar.

A publicação, não resta dúvida, causou mal-estar entre militares, tanto reservistas que ocupam cargos no governo quanto os da ativa.

Economia desacelera e inibe a reação do mercado de trabalho: Editorial / Valor Econômico

Nos próximos dias, novos indicadores do mercado de trabalho serão divulgados pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia. Dificilmente serão motivo de comemoração no Dia do Trabalho, em 1º de maio. A expectativa é que os indicadores de emprego referentes a março não mostrem melhoria significativa diante da revisão para baixo realizada nas últimas semanas das perspectivas para a economia neste ano.

Um certo otimismo chegou a ganhar forma após os dados do Caged de fevereiro superarem as expectativas com a criação de 173, 1 mil vagas formais, o maior número para o mês desde 2014 e o sexto melhor desde o início da série histórica, em 1992. Com esse resultado, o ano acumulou 211,5 mil empregos criados. O levantamento mostrou a expansão do mercado de trabalho em sete dos oito setores econômicos no mês. O único que mais fechou postos do que abriu foi o agrícola. Como o carnaval ficou para março, houve impacto positivo do maior número de dias úteis no mês. Apesar das comemorações do governo, o salário médio real de admissão segue inferior ao de desligamento, refletindo a deterioração.

Os dados posteriores do IBGE confirmaram que há motivos para cautela. A taxa de desemprego ficou em 12,4% no trimestre móvel encerrado em fevereiro, de acordo a Pnad Contínua. Apesar de registrar declínio em comparação com os 12,6% do mesmo período de 2018, a taxa ficou acima da apurada no trimestre móvel anterior, encerrado em novembro, de 11,6%, e acabou sendo criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, descontente com o termômetro e incapaz de fazer a febre retroceder. A população ocupada, incluindo empregados, empregadores e autônomos, totalizava 92,1 milhões em fevereiro, 1 milhão a menos da mesma base de comparação.

Fernando Pessoa: Esta velha

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Carminho, Hamilton de Holanda: Nasci para sonhar e cantar

terça-feira, 23 de abril de 2019

Roberto Freire*: A irracionalidade anda a galope

- Poder 360 – 22/04/2019

Governo Bolsonaro está à deriva
Temos um ex-presidente preso
Tenta-se rebaixar o Judiciário
A República está desalinhada

Um espectro ronda o Brasil, o espectro da irresponsabilidade.

Desde o processo eleitoral do ano passado, em virtude da disseminação de novas tecnologias da informação e de certa falência do modelo político brasileiro, o debate sobre o futuro do país vem se dando sobre trilhas tortas, no qual ideias e propostas altruístas e legítimas convivem com mitos, mentiras, todo tipo de manipulação e enganos. E em uma escala monumental, envolvendo em tempo real milhões de brasileiros, eleitores, cidadãos.

O próprio resultado das eleições, inquestionável, pode ser analisado por esse prisma. Em um movimento de repúdio a gestões hegemonizadas pelo PT e apoiada em amplos segmentos do conservadorismo e da direita, a maioria dos eleitores que foram às urnas optou por um conjunto de ideias soltas, meramente ideológicas, e não por um projeto de desenvolvimento com rosto, linha, com um porto a ser alcançado.

Passado o processo eleitoral, veio a política real. Um governo à deriva, um presidente que diz não entender nada de economia e que nasceu para ser militar e não para ser líder maior do País, um ministro da Justiça que alçou o combate à corrupção à instância de ideologia, um ministro da Fazenda que acredita ser o presidente, um chanceler que busca revisar a história de maneira tosca e abusiva, um guru ao estilo Rasputin com um imaginário séquito de alunos convertidos a uma religião do atraso, um ministro do meio ambiente avesso e cético em relação às mudanças climáticas, um vice que surpreende e vivifica ideias realmente republicanas, um governo com base parlamentar em crise e seu próprio partido virando mais amontoado que ajuntamento e se dividindo publicamente.

É impressionante como tudo na República está desalinhado. À esquerda e à direita, cada um tentando se salvar em seu quadrado político, ou de interesse pessoal. O outrora partido no poder, que teve tudo para deixar ao país uma boa herança pela esquerda, ficou preso ao seu líder maior hoje na prisão e não vem a público trazer nada de novo.

Outrora grandes partidos de centro e social democrata também caíram na inação em virtude de a Justiça ter lançado redes sobre seus principais expoentes políticos. Partidos fisiológicos, principalmente ao centro e à direita, continuam esperando pela fisiologia. A contra-política, ou melhor, a “nova política” imperando e a economia afundando.

Uma democracia convive com ex-presidente da República e líderes outrora proeminentes presos, com empresários intocáveis recolhidos a celas, com impeachment, com o rigor da Justiça –que sempre deve ser rigorosa, amparada na Constituição e no arcabouço legal. Todavia, pode fenecer, se conviver com movimentos que visam desacreditar a política, os políticos e, principal e especialmente, as instituições democráticas e republicanas.

Estamos a ver nas últimas semanas uma escalada perigosa para desmoralizar o Judiciário, com foco maior no seu vértice, o STF (Supremo Tribunal Federal). Colaboraram para essa situação controversas decisões e posicionamentos do STF e de alguns dos seus ministros, ressaltando-se a recente e equivocada imposição de censura a alguns veículos de imprensa no país.

A história passada e recente nos oferece exemplos de que tal escalada resulta em colapso democrático nos países que a experimentaram. À esquerda, a Venezuela de Chávez/Maduro. À direita a Hungria e a Turquia, dentre outros.

Hoje vivemos uma corrida no Congresso Nacional para ver quem consegue atingir mais rapidamente os clássicos 15 minutos de fama, daí a multiplicidade de discursos, solicitações de comissões parlamentares de inquérito, pedidos de impeachment e outras iniciativas ligeiras, apressadas.

Tudo sendo replicado nas redes sociais por milhões de mensagens, avivando não o espírito democrático dos cidadãos críticos, mas a sanha autoritária e golpista que sempre esteve presente em movimentos de direita, em alguns partidos de esquerda antidemocráticos e, claramente, em grupos da campanha e que agora formam alas dentro do governo Bolsonaro.

Na democracia e dentro da lei a crítica deve ser livre e destemida. Nenhum Poder da República e suas instituições estão livres do crivo da cidadania, mas a liberdade corre risco se houver a desmoralização de qualquer uma delas. Se há de fato denúncia de crime de responsabilidade contra o presidente ou ministro do Judiciário então se façam articulações políticas sólidas no Congresso e se decidam em relação ao caso, porém sem o fogo-fátuo e as luzes da ribalta que se apagam.

Levar um ministro ao impeachment por um processo maduro não agride a democracia, porém abrir a caixa de pandora aos 7 cantos é irresponsabilidade. Até a esperança se solta.

*Roberto Freire é presidente do Cidadania