terça-feira, 19 de junho de 2018

Opinião do dia: Luiz Werneck Vianna

HU On-Line — Que balanço faz de Junho de 2013, cinco anos depois?

Luiz Werneck Vianna — As sociedades democráticas, quando conhecem pequenos abalos, têm mecanismos de sintonia com eles e mudam, procuram identificar a fonte desses abalos e mudam. Quando uma sociedade não é tão democrática assim, nem um terremoto como aquele foi capaz de propiciar mudanças: a sociedade ficou igual, o governo e o legislativo não providenciaram mudanças e tudo isso terminou no impeachment, como uma derivação natural, uma falta de reação a um grande sinal de que algo precisava mudar. E como esse sinal grande não foi registrado, metabolizado e assimilado, entramos numa descendente que terminou no impeachment, que é sempre um processo doloroso, que deixa marcas, as quais estamos experimentando agora.

IHU On-Line — Nada mudou desde Junho de 2013 para cá, ou houve mudanças em decorrência do impeachment?

Luiz Werneck Vianna — As jornadas de Junho foram uma sinalização forte, mas nada se fez para mudar o curso dos acontecimentos que estavam sendo desenhados nessas mesmas jornadas de 2013. As manifestações levaram a uma mudança, mas não a uma mudança controlada, e sim a uma mudança que acabou sendo precedida pelas instituições democráticas para o impeachment, que faz parte da nossa Constituição.

O impeachment introduziu outra lógica: nós nos desprendemos da política anterior, que deu sinal de exaustão, e foi isso que 2013 quis dizer — “não nos representam”. Junho de 2013 deu as costas ao sistema e aos partidos políticos, deu as costas à política econômica que o governo Dilma praticava e abriu-se a possibilidade de outra política econômica, uma política econômica para a qual não estávamos preparados. Isso significa uma ruptura, um afastamento e uma distância muito grande com a política centrada no Estado, com a qual vivemos desde 1930. Nós estamos vivendo agora uma nova configuração do Estado-Sociedade sem que a sociedade tenha pensado nisso, esteja querendo isso. Aliás, há candidatos que preconizam a volta do status quo anterior, quer dizer, a volta à experiência do governo de Dilma Rousseff, que foi uma experiência desastrosa para o país, com desemprego e inflação altíssimos.

----------------------------
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP, Entrevista em 14/6/2018

Raymundo Costa: Jobim pode compor o PSDB com o MDB

- Valor Econômico

Fracasso econômico é o que tira Meirelles da sucessão

Alas do PSDB e do MDB retomaram as conversas sobre uma aliança na sucessão presidencial. Nem todos os tucanos querem a companhia do partido do governo, seja pelo envolvimento de seus principais líderes com a corrupção seja pela reprovação recorde do presidente Michel Temer nas pesquisas eleitorais.

A ala do PSDB que quer a aliança com o MDB acredita que o partido aceitará a composição e pedirá a Vice-Presidência para o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro nos governos FHC e Dilma Rousseff Nelson Jobim. É o nome que agradaria Geraldo Alckmin, o pré-candidato do PSDB.

O PSDB se movimenta de novo para juntar o centro político, e nessa investida trabalha com mais de uma alternativa. Jobim é o candidato que mais agrada a Alckmin, mas o MDB indicará quem achar melhor. Ter a simpatia do candidato, no entanto, ajuda.

Jobim faz parte do chamado grupo ético do MDB. Em princípio seria o escolhido só pela preferência de Alckmin. Pode ser. Mas não se deve esquecer que o político gaúcho é polivalente. Além de trânsito fácil nas três legendas - MDB, PSDB e PT -, o ex-ministro já presidiu a instância mais alta do Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF).

Num momento de conflito entre os poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -, seria preciosa a experiência e o conhecimento que Jobim tem do Congresso (foi deputado constituinte), do governo (foi ministro de dois governos) e dos tribunais superiores.

Bruno Boghossian: Super-homem 2018

- Folha de S. Paulo

Ao ofender vereador, presidenciável evidencia risco a sua viabilidade eleitoral

Ciro Gomes é um eterno penitente. Em 2002, quando concorreu ao Planalto pela segunda vez, lamentou ter chamado de burro um homem que o atacara durante um programa de rádio. “Para ser presidente da República, eu tenho que ter a capacidade de nunca mais me deixar levar por uma provocação dessa natureza. É uma lição que eu aprendi.”

Faltou fazer o dever de casa. Em entrevista à rádio Jovem Pan nesta segunda (18), o presidenciável pelo PDT disse que se arrependia de declarações feitas ao longo de sua vida pública. “O povo precisa saber que, sob estresse, o seu futuro presidente sabe se comportar”, afirmou.

Em menos de cinco minutos, Ciro desferiu seu mais novo insulto. Chamou de “capitãozinho do mato” o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM). “A pior coisa que tem é um negro que é usado pelo preconceito para estigmatizar”, declarou.

Holiday é negro, crítico de ações afirmativas como cotas raciais e nem havia sido mencionado na entrevista. Foi usado gratuitamente como escada por Ciro para ressaltar suas divergências com o DEM.

Ana Carla Abrão: O Brasil é um sonho intenso

- O Estado de S.Paulo

Eleição, ao contrário do jogo do último domingo, não é só mais um jogo

A apatia parecia ser a característica dessa Copa, como que refletindo um sentimento mais amplo. Não havia bandeiras expostas nem ruas pintadas. Mas foi o Brasil entrar em campo que o verde-amarelo apareceu. Marca brasileira, o futebol nos dá alegria, nos traz o Brasil grande, forte, vitorioso. A Copa, em particular, nos resgata aquele orgulho canarinho e desperta nossa identidade. Ela expõe com orgulho nossas raízes, revive a mistura de raças e levanta aquela moral nacional, algo combalida nos tempos atuais.

Sonhamos com a vitória, com o gol, com o brilho de um país cheio de vontade. Mas vem um empate e hoje nos frustra mais que nunca. Talvez menos pelo jogo e mais porque estamos em busca de salvação, de redenção. Nos falta onde nos segurar e por onde resgatar a confiança de que os dias que virão serão melhores do que aqueles que já foram. Afinal, estamos órfãos de heróis, que teimam em não surgir, se negam a nos surpreender.

Na falta deles, um povo cansado se agarra a falsos salvadores, que só nos sensibilizam nas nossas raivas, decepções e frustrações. Não é desses que precisamos. O Brasil precisa de uma liderança que nos defenda a todos nós – e não aqueles que gritam mais e podem mais. Precisamos de alguém com legitimidade, que nos defina um rumo, um caminho, uma agenda. Precisamos de alguém que nos diga que chegamos ao limite e que assim não dá mais para continuar, pois, se assim formos, corremos o risco de perder tudo, inclusive o que merecemos. Precisamos de alguém que faça o que precisa ser feito, em nome de todos e não dos que já nos levaram quase tudo.

Míriam Leitão: Mudanças de cenário

- O Globo

O Banco Central deve manter a taxa de juros na reunião desta semana, mas espera-se alguma indicação sobre o futuro da relação entre o câmbio e a política monetária. Na reunião em que os juros caíram para 6,5%, o dólar estava cotado a R$ 3,29. De lá para cá, houve a greve do transporte de carga que pressionou os preços. A incerteza internacional também subiu. Tudo está em alteração na economia.

Desde que os juros caíram para 6,5% em 21 de março, o dólar já subiu 13,9%. No dia 21 de maio, quando teve início a greve, o mercado financeiro ainda esperava crescimento de 2,46% para o PIB de 2018, de acordo com a pesquisa feita semanalmente pelo Banco Central junto a bancos e consultorias. Ontem, o número já havia caído para 1,76%. Alguns economistas sustentavam, quando começou a paralisação, que os efeitos seriam pontuais e reversíveis.

Quem subestimou esse impacto já teve tempo de rever suas previsões. Primeiro porque aumentou a fragilidade fiscal do governo com as concessões feitas ao setor e as contas de 2019 ficaram ainda mais nebulosas. Depois porque os choques secundários permanecem na economia provocados pela novela do frete, que tem gerado um desdobramento por dia. A circulação de mercadorias não voltou completamente à normalidade e certos preços ainda não recuaram ao patamar anterior, o que tem provocado a retração do consumo.

Maria Clara R. M. do Prado: Insustentável prognóstico político

- Valor Econômico

Sem menosprezar a necessidade das reformas, é com o caos no curto prazo que todos devem se preocupar

Não basta um arrazoado de boas intenções contra a intolerância, o radicalismo e a instabilidade, ademais eivado de platitudes, para modificar o panorama político que se desenha a partir das eleições de 2018. O manifesto divulgado há cerca de vinte dias por um grupo de personalidades, sob o nebuloso título "Por um polo democrático e reformista", conclama forças de centro-direita à unidade política em torno de uma só candidatura à Presidência da República, mas esquece de indicar o nome do candidato com condições de atrair a maioria do eleitorado para o projeto nacional proposto.

A iniciativa é louvável, mas inócua. De um lado, o manifesto surge poucos meses antes da renovação do Congresso Nacional. Sim, porque além do presidente da República, também deputados federais e senadores, além de governadores e deputados estaduais passarão pelo escrutínio da população. É de se perguntar com que apoio político estariam os signatários contando para garantir a implementação dos 17 itens propostos no documento? De outro, mais imediatamente relevante, esbarra na consolidação das candidaturas de políticos que têm se sobressaído nas pesquisas de opinião a despeito, justamente, de flertarem com tudo o que o documento condena: "populismos radicais, autoritários e anacrônicos".

A ocasião mais propícia para uma virada, a partir não de um simples manifesto, mas de um grande pacto nacional entre representantes das diversas agremiações políticas, empresários e trabalhadores, passando pelo Congresso Nacional, aconteceu entre 2013 e 2014, quando a mobilização da sociedade nas ruas clamava por mudanças rápidas e efetivas. O que veio depois apenas confirmou o modus operandi da política brasileira, magnificando a insatisfação popular e abrindo caminho para candidaturas avulsas do tipo Jair Bolsonaro.

Ricardo Noblat: Marina Silva aposta no voto útil para vencer Bolsonaro

- Blog do Noblat

Vitória improvável, mas não impossível

Sem tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, sem partidos – fora o seu – que queiram apoiá-la, e com pouco dinheiro para pagar despesas de campanha, a ex-ministra Marina Silva só tem como se eleger presidente da República em outubro próximo se a sua candidatura, apesar de todas as desvantagens, for capaz de unir a maioria dos brasileiros.

Isso será possível? Possível, sim. Marina é vista pelos eleitores, mesmo por aqueles que não a admiram, como alguém que veio do andar de baixo e que sabe como poucos políticos o que é ser pobre e ter que lutar para sobreviver em um país tão desigual como o Brasil. Sobreviveu à miséria, a doenças que quase lhe custaram a vida, e aos preconceitos.

Soube abrir espaço à base de cotoveladas gentis e afirmar-se como uma figura pública que jamais abriu mão dos seus princípios. Passou incólume por todos os escândalos que destruíram a boa reputação do seu partido de origem, o PT. Serviu como ministra do Meio Ambiente ao primeiro governo Lula, mas nem por isso se deixou contaminar pela podridão do ambiente em torno.

Por duas outras vezes, já foi candidata a presidente e perdeu. Mas saiu de cada uma delas maior do que entrou. Em 2014, ao suceder como candidata a Eduardo Campos, morto em um acidente de avião, Marina chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto. Com pouco tempo de rádio e de televisão para se defender, acabou como vítima do formidável poder de fogo da dobradinha Dilma-Aécio.

Tucano poupa Alvaro Dias ao criticar infidelidade partidária

Adriana Ferraz, Pedro Venceslau | O Estado de S. Paulo.

Em busca de uma aliança ainda no primeiro turno, o presidenciável tucano Geraldo Alckmin poupou críticas ao senador Alvaro Dias (PR), pré-candidato do Podemos à Presidência, em novo vídeo de campanha que passou a circular ontem.

Para ressaltar o fato de Alckmin estar filiado ao PSDB há quase 30 anos, a equipe de marketing digital do tucano produziu um filme que enumera os partidos pelos quais já passaram Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Henrique Meirelles (MDB). Dias, que mudou oito vezes de sigla, ficou fora da lista.

O vídeo, cujo tema é “coerência na política”, também não cita que o próprio Alckmin já mudou de partido uma vez. Antes de o PSDB ser criado, em junho de 1988, o ex-governador era filiado ao MDB, informação omitida na propaganda feita para as redes sociais. “Veja o Geraldo Alckmin, há 30 anos no mesmo partido, o PSDB. Se você cobra coerência, seja coerente”, diz a mensagem.

Segundo a assessoria de Alckmin, a estratégia foi revelar a trajetória partidária dos pré-candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, além de Meirelles, classificado como o candidato do governo Michel Temer. Seria essa a justificativa para Dias não ter sido alvo, apesar de registrar cerca de 4% nas principais pesquisas de intenção de voto – o emedebista tem apenas 1%.

A campanha de Alckmin coloca Bolsonaro como o presidenciável recordista no troca-troca partidário, apesar de o deputado ter mudado de partido o mesmo número de vezes do senador. Sobre não ter divulgado a passagem pelo MDB, a equipe de Alckmin disse que ele está há 30 anos no mesmo partido e que o PSDB não existia quando o ex-governador iniciou sua vida pública. Não teria sido, portanto, uma troca como os demais presidenciáveis praticam, baseada em cargos ou interesses eleitorais.

Questionado sobre a decisão do PSDB de poupá-lo e a possibilidade de aliança com seu expartido, Dias disse que não guarda ressentimento e está disposto a conversar com os tucanos, mas considera “difícil” uma aliança no primeiro turno.

Aliança com Alckmin é ‘sentimento amplo’ no PSD, afirma Kassab

Pré-candidato e ministro jantaram juntos no fim de semana; tucano também tenta coligação com PPS, PTB e PV

Felipe Frazão, Vera Rosa | O Estado de S. Paulo.

/ BRASÍLIA - Diante da cobrança de tucanos pela criação de fatos políticos, o pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, decidiu acelerar as articulações para obter o apoio explícito de pelo menos quatro partidos à sua campanha. O primeiro passo foi dado no domingo, quando Alckmin jantou, em São Paulo, na casa do ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab, presidente licenciado do PSD.

O presidenciável estava acompanhado de Marconi Perillo, escolhido na quinta-feira como coordenador político de sua equipe, e do ex-prefeito João Doria, pré-candidato do PSDB ao governo paulista. Alckmin ouviu de Kassab que, se depender dele, a aliança está garantida e que “esse sentimento é o mais amplo no partido”..

Além do PSD, o tucano tenta fechar aliança com PPS, PTB e PV. Embora tenha compromisso com Alckmin, o PPS apresenta sinais de divisão e setores da sigla defendem uma composição com Marina Silva (Rede).

Alckmin pede calma a empresários

Por Fernando Taquari, Cristiane Agostine e Ricardo Mendonça | Valor Econômico

SÃO PAULO - Com o pior desempenho do PSDB em pesquisas eleitorais em quase 30 anos, o ex-governador e presidenciável Geraldo Alckmin pediu ontem a uma plateia de empresários para que não se "impressionem" com as sondagens. O tucano disse que suas chances de chegar ao segundo turno são "enormes". "Não se impressionem com pesquisa eleitoral fora de hora", disse Alckmin ao participar de evento promovido pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), na capital paulista.

Ao fazer o apelo, o tucano lembrou da recente eleição suplementar no Tocantins, cujos levantamentos anteriores ao primeiro turno apontavam para uma disputa no segundo turno entre a senadora Kátia Abreu (PDT) e o ex-prefeito de Palmas Carlos Amastha (PSB). Ambos foram derrotados na primeira fase da eleição.

Alckmin planeja lançar um movimento suprapartidário em apoio à sua pré-candidatura no início do próximo mês. O articulador político da campanha, ex-governador de Goiás Marconi Perillo, disse que o PSDB deve anunciar nesse evento os primeiros acordos partidários e que as conversas "estão avançadas" com PPS, PV, PTB e PSD.

Alckmin prioriza segurança para crescer no Nordeste

Presidenciável escolhe ex-delegada da Polícia Federal, hoje prefeita de Caruaru (PE), para elaborar programa para área

José Marques | Folha de S. Paulo

CARUARU (PE) - Com a escolha de uma prefeita que é ex-delegada da Polícia Federal para a equipe que elabora seu programa de segurança pública, o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) tenta aumentar suasintenções de voto no interior do Nordeste com a bandeira do combate à violência.

Além de o número de mortes ter estourado em cidades de médio porte da região nos últimos anos, o problema tem sido incorporado por apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL), adversário de Alckmin na campanha ao Palácio do Planalto.

Raquel Lyra (PSDB), 39, se elegeu com a promessa de tornar mais segura a cidade de Caruaru, no agreste pernambucano, que tinha uma taxa de 60 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2016, segundo os dados mais recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O município tem 360 mil habitantes.

Em comparação, a proporção no Rio de Janeiro era de 25/100 mil no mesmo ano.

Ela se junta ao professor de relações internacionais da USP Leandro Piquet e ao general do Exército João Campos na tarefa de elaborar um texto que apresente soluções para um problema que deve ser um dos principais pontos de discussão da eleição.

Adicionalmente, é apoiadora de Alckmin em uma região cujo candidato, no melhor cenário do Datafolha, alcança 5% das intenções de voto. No pior, está com 2%.

"Ser do PSDB, ser mulher e ser prefeita no agreste de Pernambuco e no Nordeste brasileiro não é uma coisa simples, e talvez seja por isso que ele tenha me escolhido", diz Raquel Lyra, numa sede de prefeitura decorada com imagens que remetem à literatura de cordel.

Junto com Piquet, que conheceu no gabinete do senador Armando Monteiro (PTB-PE), pré-candidato ao governo pernambucano apoiado pelos tucanos, a prefeita afirma que ajudará a elaborar o programa não como especialista, mas "como uma gestora que está lidando com segurança pública na sua cidade e buscando trazer do governo municipal seu papel para o apoio da segurança pública".

De sua parte, defende que haja um indicador único, nacional, sobre violência. Segundo ela, hoje cada estado usa parâmetros diferentes para levantar as estatísticas.

"Se a gente fizer um mapa disso, podemos ter um cruzamento de onde está ocorrendo a violência e buscar trabalhar as causas dela", afirmou.

A prefeita também negocia uma visita de Alckmin à região para apresentar suas ideias. A pré-campanha do candidato diz que a viagem está prevista para a sexta (22) ou sábado (23). O ex-governador de São Paulo deve ir ainda, no mesmo dia, à cidade de Campina Grande (PB), também governada por um tucano.

A viagem será feita no ápice da comemoração de São João nas duas cidades, que disputam o título de maior festa junina do país.

Coordenador da campanha de Alckmin busca comando do MDB e prega pragmatismo

Painel | Folha de S. Paulo

Vinde a mim O time de Geraldo Alckmin (PSDB) fez um gesto oficial ao partido de Michel Temer. Alçado à coordenação política da campanha do tucano ao Planalto, o ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO) marcou um encontro com o presidente nacional do MDB, Romero Jucá (RR). A conversa está pré-agendada para quinta (21). A pessoas próximas, Perillo defendeu pragmatismo nessa etapa da disputa: além de valioso tempo de TV, o MDB tem cerca de mil prefeitos, capilaridade nada desprezível.

Próxima vítima Se os acenos do tucanato ao MDB ganharem corpo, a situação de Henrique Meirelles, hoje pré-candidato do partido de Temer ao Planalto, tende a se agravar. O ex-ministro da Fazenda tenta calibrar o discurso, mas a patinada da economia acabou inflando ala que não vê vantagem em mantê-lo no pleito.

Cerco tucano

Poder em jogo / O Globo

O ex-governador Marconi Perillo recebeu como primeira tarefa na coordenação da campanha de Geraldo Alckmin “segurar” os partidos que têm caminhado com o PSDB. Depois de ver o DEM flertar com Ciro Gomes (PDT), o medo agora é com o rumo do PPS, que sinalizava apoio ao tucano. Com Alckmin estagnado nas pesquisas, porém, há integrantes da cúpula do PPS que defendem outro rumo. A Perillo, Alckmin pediu que as investidas da Rede, de Marina Silva, sobre o aliado não fiquem sem reação. A missão de Perillo é também a prioridade de Alckmin.

Ex-tucano, Álvaro Dias é entrave para crescimento de Alckmin

Pré-candidato do PSDB ofereceu cargos em troca da desistência do adversário

Cristiane Jungblut | O Globo

-BRASÍLIA- Companheiro de partido do pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, durante mais de uma década, o presidenciável do Podemos, senador Álvaro Dias, tornou-se, nesta eleição, um dos principais obstáculos ao projeto de poder tucano. Com 4% das intenções de voto no último Datafolha, Dias virou uma barreira para o crescimento de Alckmin nos estados de Sul e Sudeste, onde o PSDB costuma ter um bom desempenho.

Estagnado nas pesquisas — registrou 7% no último Datafolha —, Alckmin decidiu intensificar agendas de campanha no Sul para reconquistar o território perdido. Ontem, ele disse que precisar ser “mais conhecido” no país. O tucano já esteve no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Ele deve voltar a Florianópolis hoje.

Integrantes da campanha do PSDB admitem que os votos perdidos pelo crescimento de Dias estão fazendo falta no Sul e em São Paulo. Para estancar a sangria, os tucanos tentaram, há alguns meses, demover o Podemos de manter a candidatura de Dias a presidente. Emissários de Alckmin ofereceram à direção do partido secretarias no governo de São Paulo, mas o plano de cooptação não deu certo.

A relação entre Dias e a campanha de Alckmin passou a ser tensa desde então. Embora tenha pregado a união de partidos em torno de um candidato de centro, o senador do Podemos não pensa em associar seu projeto eleitoral ao tucano. Parlamentares do PSDB do Paraná, como o deputado Luiz Carlos Hauly, já avisaram ao comando que farão campanha para Alckmin, mas que não podem sair criticando Dias nem fazer campanha contra ele. Alguns tucanos ainda sonham que, na convergência dos partidos de centro, Dias volte a se aliar ao PSDB — o próprio senador, no entanto, tem descartado essa possibilidade em conversas com aliados.

Álvaro Dias já foi líder do PSDB no Senado, mas deixou o partido, em 2016, depois de muito desgaste e de bater de frente com as posições da sigla, especialmente no processo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele criticava a decisão do comando do partido de apoiar apenas a saída de Dilma, aceitando até mesmo a participação no governo de Michel Temer, que era vice e assumiu a Presidência com o afastamento da petista. Nas disputas internas, Álvaro também viu seus planos no Paraná serem preteridos pelo projeto do ex-governador Beto Richa (PSDB), aliado de Aécio.

Renovação enganosa

Segundo pesquisadores, movimentos de renovação na política estão errados

Rotatividade do Congresso brasileiro é uma das maiores do mundo

Marcos Augusto Gonçalves | Ilustríssima/ Folha de S. Paulo, 17/6/2018

[Resumo] Movimentos de renovação da política estão errados tanto em suas premissas quanto nas soluções que propõem, afirmam pesquisadores. Eles mostram que rotatividade do Congresso brasileiro é uma das maiores do mundo e dizem que país não precisa de salvadores da pátria.

Pelo menos desde a eclosão dos movimentos de junho de 2013, a sociedade brasileira atravessa um período de agudo questionamento da política e de seus representantes.

O fenômeno, que encontra paralelo em movimentações de outros países, ganhou aqui contornos inquietantes com o processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) e a ampliação do arco partidário atingido por denúncias de corrupção e condenações da Lava Jato.

O enfraquecimento das principais siglas e lideranças levou a uma busca por saídas não convencionais que se traduziu no repentino prestígio de nomes até então pouco considerados ou sem experiência no jogo eleitoral.

Jair Bolsonaro, que permanece em posição de destaque nas pesquisas, é o mais rumoroso deles, mas especulou-se também, entre outras, sobre as candidaturas do apresentador de TV Luciano Huck e de Joaquim Barbosa, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal.

Nesse cenário passou a prosperar a organização de movimentos da sociedade civil com o propósito de renovar a política. Em pouco tempo, a ideia de lançar nomes novos, éticos e jovens tornou-se coqueluche. Institutos e organizações se multiplicaram, e o discurso da renovação difundiu-se.

Seria imperioso renovar não só a Presidência, mas notadamente o Congresso, que se apresentou na TV, à época da votação do impeachment, em toda sua precariedade moral, vileza ética e despreparo cívico.

De uma hora para outra, assumiu-se em determinados círculos que o principal problema do país residia na perpetuação de políticos tradicionais, permeáveis à corrupção e ligados a interesses nebulosos.

Recentemente, uma dupla de pesquisadores brasileiros, Eduardo Cavaliere, 23, e Otavio Miranda, 24, arregaçou as mangas e partiu para levantar e analisar os números relativos à renovação do Congresso de 1986 a 2014 —o que eles chamam de "renovação orgânica" do Legislativo.

O esforço de Cavaliere, graduado em direito com concentração em matemática pela FGV do Rio, e de Miranda, pesquisador na área de economia política no Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, na China, traz à luz fatos pouco conhecidos e levanta questionamentos a certas premissas do discurso dos movimentos renovadores, como o primado da ética ou a ideia de que candidaturas mais jovens seriam mais adequadas ao país.

Por exemplo:

1 - No Congresso, reeleição não é regra, mas exceção; 75% dos deputados federais não ultrapassam o segundo mandato.

2 - O excesso de nacionalização do debate público negligencia a complexidade da política local. Erros de avaliação do desempenho dos partidos levam a conclusões equivocadas sobre o Congresso. Por exemplo, apesar do bom resultado em eleições presidenciais, ao longo da história o pior desempenho eleitoral do PT, por regiões, é no Nordeste. O partido, aliás, elegeu mais deputados federais que o PSDB em São Paulo.

3 - Um número muito baixo (2,88%) de deputados federais venceu eleições majoritárias seguintes ao mandato no Legislativo.

4 - Não existe nenhum exemplo concreto na história brasileira em que o fortalecimento conjunto de jovens, figuras inexperientes e ativistas tenha desaguado em imediata melhora qualitativa na resolução dos principais gargalos da vida pública.

Na entrevista que se segue, os dois apresentam os diversos aspectos da pesquisa e comentam o debate acerca da renovação política no país.

Zimbo Trio e Fabiana Cozza - O samba é meu dom

João Cabral de Melo Neto: A Ademir Menezes

Você, como outros recifenses,
nascido onde mangues e o frevo,
soube mais que nenhum passar
de um para o outro, sem tropeço.

Recifense e, assim dividido
entre dois climas diferentes,
ambidextro do seco e do úmido
como em geral os recifenses,
como você, ninguém passou
de dentro de um para o outro ritmo
nem soube emergir, punhal, do lento.
secar-se dele, vivo, arisco.
------------------
Ademir Marques de Menezes, o Queixada, craque famoso dos anos 40 e 50, foi artilheiro da Copa de 1950 com nove gols. Jogou a maior parte de sua carreira no Vasco da Gama, no famoso time do Expresso da Vitória. Em 1946 e 1947 jogou no Fluminense, sagrando-se campeão carioca na sua primeira temporada

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião do dia: Geraldo Alckmin

• Qual a prioridade na formação de alianças? Cogita fazer aliança com Marina Silva, por exemplo, como o ex-presidente Fernando Henrique teria sugerido?

Olha, seria indelicado com a Marina especular qualquer aliança na medida em que ela é pré-candidata, já foi candidata a presidente da República e acredito que vá ser candidata. Agora conversar é sempre bom. O presidente Fernando Henrique tem nos ajudado muito, é um homem do diálogo, das pontes.

------------------------
Geraldo Alckmin, ex-governador de S. Paulo e pré-candidato presidencial pelo PSDB. Entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, 17/6/2018.

Marcus André Melo: Para que campanha

- Folha de S. Paulo

Propostas não importam, apenas reputação e confiança contam

Há três argumentos rivais na ciência política sobre o comportamento eleitoral. O primeiro, conhecido como voto programático (“issue voting”), é que os eleitores avaliam as políticas defendidas pelos candidatos e escolhem aquele que apoia suas políticas preferidas. Os eleitores olham para a frente: votam no candidato que irá implementar o que julga ser o melhor programa.

Nessa abordagem convencional, os eleitores vão às urnas como se estivessem no supermercado: fazendo um check-list de medidas programáticas e candidatos, e escolhendo em quem votar. O eleitor examina o programa de —digamos, Marina Silva— e conclui, como um analista de mercado político: “ela é minha candidata”.

O segundo argumento é que o eleitor olha para trás: avalia o desempenho do candidato ou alguma característica individual sua, por exemplo, sua probidade. Conhecido no jargão como voto retrospectivo, esse argumento prevê que o eleitor pune ou premia desempenhos.

O terceiro argumento inverte o voto programático: o eleitor escolhe candidatos para depois adotar as políticas que defendem (o que é conhecido como “follow the leader”). O eleitor escolhe candidato ou candidata por razões que serão discutidas em outra coluna.

Marcus Pestana: A mão visível do intervencionismo

- O Tempo (MG)

Nunca a frase “não existe almoço grátis” teve tamanha atualidade no Brasil. Ela nasceu nas ruas e foi celebrizada pelo economista liberal norte-americano Milton Friedman, que a adotou como título de um de seus livros.

Independentemente de ter me associado a vertentes de pensamento que diagnosticavam as imperfeições no funcionamento dos mercados, as distorções produzidas por elas e a relevância da ação compensatória do Estado, paulatinamente fui percebendo a extrema fragilidade daqueles que imaginavam a possibilidade de uma economia de decisões centralizadas e planificadas como remédio contra crises e desequilíbrios, em substituição ao sistema de decisões descentralizadas do mercado, onde milhões de atores interagem em busca da maximização de seus ganhos e da defesa de seus interesses individuais, corporativos ou setoriais.

É inevitável admitir que a queda do Muro de Berlim, a dissolução da URSS, a atual crise venezuelana com inflação, recessão e desabastecimento e o próprio estrangulamento fiscal do Estado de bem-estar social evidenciaram os limites e as consequências nefastas do excessivo intervencionismo estatal. O mercado, essa invenção histórica humana, com suas imperfeições e eventuais distorções, revelou sua superioridade como centro de comando na alocação dos recursos disponíveis.

Demétrio Magnoli: A religião dos empresários

- O Globo

O jogo da liberdade econômica precisa de regras estáveis e árbitros independentes. As mágicas dos populistas produzem lucros imediatos, contratando catástrofes futuras

O“caso de amor” entre a elite empresarial dos EUA e Donald Trump foi manchete de capa da revista “The Economist”, em maio. No Brasil, uma longa série de indícios e algumas sondagens de opinião sugerem que Jair Bolsonaro é o presidente dos sonhos de significativa parcela do empresariado. Bolsonaro venera Trump, mas é um equívoco cravar explicações ideológicas para os “casos de amor” paralelos: afinal, poucos anos atrás, nossos empresários ajoelhavam-se no altar da devoção ao lulismo. A solução para o enigma situa-se no campo dos interesses — ou, mais precisamente, numa percepção rudimentar, quase infantil, sobre os interesses de negócios.

“Os executivos americanos estão apostando que o presidente é bom para os negócios”, escreveu a “Economist” no seu editorial. Na “era Trump”, as instituições estatais debilitam-se, os EUA conhecem inédito isolamento internacional, e o déficit fiscal tende a explodir. Contudo, os dirigentes das empresas preferem olhar para outra direção: os cortes de impostos corporativos, as iniciativas de desregulamentação econômica e as tarifas comerciais protecionistas prometem ampliar as margens de lucro – no horizonte de curto prazo. O futuro é amanhã: o cálculo político subordina-se aos tempos curtos e ritmos alucinantes da Bolsa.

Fernando Limongi: Resiliência encarcerada

- Valor Econômico

PT se isola e corre risco de alienar capital eleitoral

A Copa começou e ninguém está nem aí. Pelo menos é o que dizem as pesquisas. O Brasil está estranho, para lá de estranho. O pessoal que foi às ruas com a camisa da seleção para protestar não se anima a torcer. Mas o bicho vai pegar se o time acertar e aí o velho fanatismo desperta. Nas eleições, dá-se o inverso, agora é a hora de demonstrar a paixão e marcar posição. Mas, conforme o desfecho se aproximar, o realismo e o cálculo falarão mais alto.

Por enquanto, a opção por alternativas radicais prevalece. Bolsonaro e Lula mantêm a liderança nas pesquisas, mas nem um e muito menos o outro têm chances reais de chegar à final. Para Lula, dado que não poderá ser candidato, o realismo é inevitável. Quem herdará seus votos? O PT quer crer que a questão inexiste e se afinca à crença do poder demiúrgico de seu líder; que sua indicação produzirá o milagre da transferência dos votos. A estratégia de Bolsonaro não é menos irracional: o confinamento autoimposto dos tiros com silenciador.

Os dados da mais recente pesquisa do Datafolha indicam a resiliência da clivagem política sobre a qual gira a política brasileira de 2006 em diante. Bipartidárias desde 1994, as eleições presidenciais ganharam contornos sócioeconômicos claros na reeleição de Lula. Basicamente, o PT tem mais votos ente os mais pobres, enquanto o PSDB entre os mais ricos.

A natureza da relação dos dois partidos com seus eleitores, entretanto, não é a mesma. Quando perguntados se têm um partido, boa parte dos eleitores que votaram em Lula e Dilma se dizia petista. Já os que votaram em Serra, Alckmin e Aécio diziam não ter preferência partidária. Pesquisas acadêmicas recentes e as análises do Datafolha mostram que a despeito de não se declararem tucanos, boa desses eleitores se dizia antipetista.

Luiz Carlos Mendonça de Barros: O fim de um ciclo político no Brasil

- Valor Econômico

Há um risco de se voltar a uma agenda de busca a qualquer preço do crescimento, sem um mínimo de racionalidade

Faço parte de uma geração que viveu de forma intensa e com um certo protagonismo um longo ciclo político - quase 30 anos - que agora chega a seu fim. Poderíamos chamá-la de geração do Plano Real. Desculpe-me o leitor do Valor por um pouco de pessimismo que acompanhará minhas reflexões a seguir, mas este é o sentimento que tenho hoje.

Tudo começou em 1986 quando fomos chamados a trabalhar no governo José Sarney, depois que a equipe montada pelo presidente eleito Tancredo Neves foi descartada por divergências na condução da economia. O novo grupo chamado era composto por técnicos de três escolas de pensamento econômico, com divergências teóricas de grandes proporções. Mas a necessidade de enfrentar a perda de controle sobre a inflação falou mais forte e uma primeira tentativa de estabilizar o sistema de preços, fora da visão tradicional de combate à inflação, foi construída a seis mãos. Foi chamado pela imprensa de Plano Cruzado e que, depois de um sucesso inicial que mobilizou a sociedade, terminou em um retumbante fracasso.

Mas deixou uma mensagem clara de que a hiperinflação era o grande inimigo da sociedade e que ela estava disposta a grandes sacrifícios para voltar a ter a estabilidade monetária como padrão em suas vidas.

Com a ascensão de Itamar Franco ao Palácio do Planalto, e a entrada de FHC no Ministério da Fazenda, as lições do Plano Cruzado foram novamente colocadas no topo da agenda do novo ministro. Fernando Henrique Cardoso havia sido um dos poucos políticos que tinha entendido a mensagem das ruas durante o curto período de sucesso do Cruzado. Agora no governo, não perdeu a chance de liderar uma nova tentativa de lutar contra a hiperinflação.

O sucesso extraordinário do Plano Real permitiu que um político sem vínculos populares e com uma base partidária limitada chegasse, em uma eleição direta e com grande legitimidade, ao comando político da nação. Nos anos seguintes o novo presidente usou sua força política para redefinir as alianças partidárias, introduzindo de fato um sistema binário de poder e com referências claras com situação (PSDB e aliados) e oposição (PT e aliados).

Celso Rocha de Barros: É mais crise do que roubo

- Folha de S. Paulo

Parece óbvio que o dinheiro acabou porque roubaram, mas não é

Cerca de dois meses atrás, em uma das passeatas quase diárias que ocupavam o centro do Rio de Janeiro protestando contra atraso de salários pelo governo estadual, ouvi o seguinte grito de guerra: “Não é crise! É roubo!”. Os manifestantes acreditavam que o dinheiro que estava faltando para pagar salários havia sido roubado por Sérgio Cabral.

Essa parece ser a ideia mais enraizada na opinião pública brasileira nos últimos anos: o dinheiro acabou porque roubaram.

Isso é falso.

A coisa mais importante que você precisa ter em mente nos próximos anos é o seguinte: teve roubo, teve muito roubo, teve roubo em uma escala aterrorizante. Todo mundo que roubou tem que ser punido, nos termos da lei. Mas não foi isso que causou a crise econômica brasileira, e para resolver a crise brasileira faremos sacrifícios.

Não é verdade, por exemplo, que haveria dinheiro para pagar todas as aposentadorias se os políticos não tivessem roubado a grana. Não haveria. A expectativa de vida dos brasileiros subiu, e a regra atual foi pensada quando as pessoas só viviam poucos anos depois de se aposentarem. Se ninguém tivesse roubado nada, seria necessário reformar a Previdência do mesmo jeito.

Ricardo Rangel: Marcha irresistível

- O Globo

Falta sensatez no Supremo, no Planalto, no Congresso e também no setor privado: decisões irracionais conduzem país ao abismo

Na semana passada, o Supremo revogou a condução coercitiva: agora, se alguém se recusar a atender a uma intimação, não se pode obrigá-lo a comparecer perante o juiz. Em mais uma batalha entre o Brasil moderno e o Brasil do atraso, venceu o atraso: onde já se viu alguém ter o direito de se recusar a cumprir ordem judicial?

Tolstói observou que as famílias felizes são muito parecidas entre si, enquanto que as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. É fácil entender: para serem felizes, as famílias têm que ter sempre os mesmos requisitos (saúde, dinheiro, amor etc); quanto às infelizes, falta um requisito diferente a cada uma.

“Entendi”, disse o ministro ao assessor que lhe mostrava a evolução dos custos com aposentadorias e pensões. “A Previdência vai quebrar. Mas o que eu quero saber é o seguinte: vai ser neste governo?”

Gaudêncio Torquato: O vulcão social

- Blog do Blog

-O país está dividido

Os geofísicos ensinam que a fusão de rochas com materiais voláteis, submetidas a uma temperatura que pode chegar aos 1500º C, resulta em magma, substância existente no interior da terra em uma profundidade entre 15 a 1500 kms. Nas últimas semanas, contemplamos essa massa avermelhada de um vulcão na Guatemala, América Central, correndo por encostas, cobrindo cidades de fogo e cinzas e deixando um grande saldo de mortos e desaparecidos.

A imagem nos remete a uma leve sensação de conforto pelo fato de o Brasil não ter vulcões em atividade. Não significa que estamos imunes às desgraças por outros fatores. Nossa cultura política, por exemplo, é fonte de desvios e curvas que tiram o país de seu rumo civilizatório. Nem bem saímos da pior recessão da história, sob a sombra de reformas para recolocar o trem nos trilhos, eis que o pessimismo volta a abater o ânimo.

Apesar do alerta do ex-presidente Fernando Henrique (em seus tempos de mando) de que “não podemos cair no catastrofismo”, o futuro é tão sombrio que não há como escapar à ideia de magmas em formação subindo à superfície para explodir na erupção de um vulcão social, caso se eleja este ano um perfil de extrema direita ou esquerda. A sugestão do próprio FHC de se arrumar consenso em torno de Marina Silva (Rede) não resiste à evidente inferência de que essa figura pacata não reúne condições para enfrentar a real politik. Seria tragada pelo tufão político.

Neutralidade do PSB é insuficiente, diz dirigente petista

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - Em negociações que envolvem a eleição presidencial e a governador em Estados-chave para ambos partidos, PT e PSB buscam uma aliança que atendam aos interesses de cada um, mas a possibilidade de neutralidade dos pessebistas na disputa ao Planalto não deve agradar os petistas. A ideia de que o simples fato de o PSB não apoiar a candidatura Ciro Gomes (PDT) seria vantajoso para o PT não corresponde à realidade. Essa é a opinião da secretária nacional de Organização do partido, Gleide Andrade, para quem o PSB até pode encontrar uma "saída salomônica" e ficar neutro em relação a Ciro e o PT, mas isso não garantirá a principal reivindicação dos pessebistas, que é o apoio à reeleição do governador de Pernambuco Paulo Câmara. Sem a aliança nacional, os Estados estarão livres e o PT deverá lançar a vereadora Marília Arraes ao Palácio do Campo das Princesas.

"A joia da Coroa do PSB é Pernambuco, assim como é Minas Gerais para a gente. E o PT sempre foi um partido nacional. A coisa mais importante é o projeto nacional, a eleição de Lula. Agora, tem um monte de Estados em que eles têm interesses e temos os nossos", afirma Gleide, indicando outros espaços de negociação e de troca.

É o caso da Bahia, Piauí e Acre, prioritários para o PT; e do Amapá, Amazonas, Paraíba, Espírito Santo e Rondônia, onde o PSB quer apoio para eleger governadores. Figura central neste tabuleiro, o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda, do PSB, afirmou na sexta-feira que a tendência de seu partido é se coligar com Ciro Gomes ou optar pela neutralidade na corrida presidencial. Conferiu menos probabilidade a uma aliança com o PT. Lacerda, no entanto, é nome muito próximo de Ciro Gomes, de quem foi secretário-executivo no Ministério da Integração Nacional, durante a gestão Lula.

Para Gleide Andrade, essa relação pessoal entre os dois pesa na decisão do PSB, mas a secretária de Organização do PT diz que tem a impressão de que a candidatura de Ciro Gomes está "desidratando", pelo perfil "intempestivo" do pedetista. O irmão e coordenador de campanha Cid Gomes, também ex-governador do Ceará e espécie de alter ego de Ciro, a todo momento precisa aparecer para neutralizar as declarações polêmicas, ressalta.

Para a dirigente petista, Márcio Lacerda pode ser candidato a vice-governador na chapa de Fernando Pimentel, a vice-presidente na chapa encabeçada por Lula - ou seu substituto, provavelmente o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad - ou mesmo concorrer a uma das duas vagas ao Senado ao lado da ex-presidente Dilma Rousseff, num "casamento perfeito". "Seria uma chapa imbatível", diz.

Caso feche aliança com o PSB, o efeito direto das negociações é a retirada da candidatura de Marília Arraes, que está tecnicamente empatada nas pesquisas com Paulo Câmara. Para Gleide Andrade, não se deve interpretar a decisão como se o PT estivesse preterindo Pernambuco, e sim priorizando a eleição presidencial. "No PT, os interesse nacionais sempre preponderaram sobre os estaduais. Quem se filia entra no partido sabendo disso", diz.

Lamentar a retirada de candidatura seria apequenar a discussão. Gleide afirma que o PT é um partido democrático e lembra que já disputou a presidência estadual da legenda em Minas Gerais e perdeu. Cita ainda a eleição de 2010, quando o diretório mineiro realizou prévias que indicaram Fernando Pimentel como candidato a governador, mas depois a sigla foi obrigada a ser vice de Hélio Costa, uma das exigências do MDB para apoiar Dilma Rousseff à Presidência. A dirigente recorda ainda as vezes em que o diretório do Rio abriu mão de candidatos para coligações com Sérgio Cabral ou Anthony Garotinho, em prol de uma aliança nacional.

Ex-sombra de Marina, Neca Setubal se afasta da campanha

Em 2014, sua participação associou a candidata a interesses do mercado

Joelmir Tavares | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Ela foi uma espécie de “sombra” de Marina Silva (Rede) na campanha de 2014, mas agora está totalmente fora da nova tentativa da ex-senadora de virar presidente.

Socióloga, educadora e acionista do Itaú, Neca Setubal virou na eleição passada ao mesmo tempo amuleto e calcanhar de aquiles da candidata.

Ela coordenou o programa de governo, ajudou na aproximação com potenciais financiadores e andou para cima e para baixo com a presidenciável, atuando como assessora em debates e outros compromissos de campanha.

Mas sua presença também deu a adversários, sobretudo a aliados da então presidente Dilma Rousseff (PT), munição para atacar Marina e associá-la negativamente a interesses do mercado. A Setubal foi escolhida símbolo maior de influência dos bancos na chapa.

“Minha postura será apartidária”, afirma Neca à Folha sobre a campanha de 2018. Ela não diz se vai declarar voto na ex-senadora, mas frisa que continua falando com a pré-candidata. “Sou amiga dela.”

Doutora em psicologia da educação, a socióloga (que se chama Maria Alice) é presidente dos conselhos de duas entidades da área social, a Fundação Tide Setubal e o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

Filha do empresário e político Olavo Setubal (1923-2008), ela se incomoda quando é chamada de banqueira. Explica que fez carreira longe das empresas da família e que nunca ocupou cargo nelas.

A função de coordenação exercida por Neca foi assumida desta vez pelo ambientalista João Paulo Capobianco, que acompanha Marina desde a gestão dela no Ministério do Meio Ambiente, de 2003 a 2008, no governo Lula (PT).

Rede busca Roberto Freire para vice de Marina, diz Randolfe

Partido procura legendas para ampliar espaço de candidata na TV; PPS, no entanto, deve manter apoio a Alckmin

Felipe Frazão e Isadora Peron | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Em busca de alianças eleitorais, emissários da pré-candidata da Rede à Presidência da República, Marina Silva, começaram a sondar políticos de outros partidos para compor sua chapa presidencial. Nomes de peso da Rede, como o senador Randolfe Rodrigues (AP), citam o presidente nacional do PPS, o ex-ministro da Cultura Roberto Freire, como um dos políticos ideais para disputar o Palácio do Planalto como vice de Marina.

“Acho que o companheiro de chapa de Marina devia ser ou alguém do meio empresarial, que seja honesto, que seja sério, ou do perfil político do Roberto Freire. É um nome que encaixa perfeitamente. Talvez seja a pessoa do mundo político que reúna as melhores condições para ser vice de Marina”, disse Randolfe.

Marina e Freire já conversaram sobre o cenário político-eleitoral. Eles têm boa relação. Não houve, porém, um indicativo de aliança. Um dos encontros, na sede da Rede, foi intermediado pelo deputado Miro Teixeira (Rede-RJ), próximo a Freire. “Não podemos induzir um partido a nos apoiar”, diz Miro, cauteloso. “As coisas têm seu tempo, o PPS terá seu tempo de deliberação. Não sabemos os compromissos do PPS pelo País, em termos até de candidatura presidencial.”

Com dificuldade de articular uma coligação que amplie sua exposição na TV no horário eleitoral, Marina declarou que buscaria apoio de legendas que formaram sua coligação em 2014, entre elas, PPS, PSB, PHS, PRP, PSL e PPL. Sem partidos aliados, ela ficaria com cerca de 10 segundos na propaganda televisiva.

O PPS, no entanto, está comprometido em apoiar o pré-candidato do PSDB ao Planalto, Geraldo Alckmin. Ao Estado, Freire negou que tenha recebido convite formal da pré-candidata. Aliados do ex-ministro da Cultura, entusiasmados com a possibilidade, dizem que o PPS tende a decidir quem apoiará às vésperas do início da campanha, em agosto. Freire é aliado de longa data do tucano e diz que “está trabalhando” para que o partido confirme apoio a Alckmin.

Lições da eleição de 2002 para a campanha de 2018: Editorial | Valor Econômico

Muito se tem falado sobre as semelhanças da campanha presidencial de 2018 com a eleição de 1989, a primeira disputa direta para o Palácio do Planalto do período pós 64. Na semana em que se completam 16 anos da Carta ao Povo Brasileiro, talvez seja mais interessante comparar o atual momento com período idêntico da turbulenta sucessão de 2002, que terminou com a eleição de um operário para a Presidência da República.

A campanha de 2018, de fato, guarda muitas semelhanças com a de 1989. Ontem como hoje havia grande fragmentação partidária. Ao todo, 21 partidos apresentaram candidatos à primeira eleição direta para presidente depois de 25 anos de regime autoritário. O flagelo da época era a inflação, que o candidato afinal vencedor prometia derrubar com um só tiro. Era uma época de transição da ditadura para a democracia.

O ambiente eleitoral de 2002 também era de crise econômica, mas os pilares da estabilidade estavam assentados. A dúvida era se o governo seguinte teria o interesse de mantê-los, e o então presidente Fernando Henrique Cardoso, mal saído de um apagão de energia elétrica, emitia claros sinais de que não conseguiria fazer o sucessor. A oposição era favorita. Mesmo que FHC tivesse êxito, José Serra, o candidato do Palácio do Planalto, não inspirava confiança aos mercados. A pergunta, naquele junho, como hoje, era até onde poderia chegar o câmbio.

Serra também não ajudava. Era o candidato do governo Fernando Henrique, mas procurava se descolar das crises do governo FHC. O slogan da campanha era o da "continuidade sem continuísmo". O candidato só alimentava as especulações sobre suas diferenças com a equipe econômica da época, chefiada pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan. No Banco Central pontificava o economista Armínio Fraga - nada mais diferente que o desenvolvimentista José Serra.