segunda-feira, 18 de março de 2019

Gilvan Cavalcanti: Um olhar no pensar e no agir

Penso que, uma revisita as ideias dos pensadores clássicos do passado, ajudaria a pensar o novo mundo e o Brasil em sua interconexão digital, fenômeno mais visível das mudanças contemporâneas, poderá evitar se pensar e agir político na tentativa de um retorno ao velho, o antigo, como se novo fosse.

Há um consenso que o mundo material não é estático. Os pensadores clássicos, da Grécia antiga, já anunciaram: “Tudo flui” e “nada” é permanente, exceto a mudança”. Nos tempos modernos, com o surgimento do capitalismo, outro pensador sentenciou: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. O movimento da história já comprovou essa tendência. É incessante e permanente a mudança, inclusive na ciência e na tecnologia. No pensamento e no agir político, ocorre o mesmo processo continuo de mudança, conflito, interdependência globalista, ou como outros preferem, cosmopolita.

É o instante de pensar o nosso compromisso com o País. Isso sugere tentar desvendar essa complexa sociedade brasileira. Acredito que devemos partir dos elementos embrionários que definam nosso processo de afirmação do capitalismo brasileiro, seu êxito nesses longos anos de profundas modificações moleculares ocorridas. Entender esse caminho facilitaria muito o nosso caminhar futuro. E, só a democracia política é o porto seguro para um pensamento reformista. O caminho mais real é debruçar-nos sobre a conjuntura.

Como fazê-lo? Os clássicos da política já nos forneceram algumas sugestões, pelo menos metodológicas, para se analisar e fazer previsões e perspectivas. Posso lembrar algumas: Sócrates, na antiga Grécia, nos falava de persuasão, como arte política do discurso, dirigida à multidão; Maquiavel nos ensinou as relações da política com sua conexão de virtú e fortuna; Hegel nos advertiu que a cidadania tinha um conhecimento defeituoso; Montesquieu nos ensinou que o senso comum dobrava-se aos pensamentos e impressões de outrem; Tocqueville nos legou a relação circunstância e providência; Marx nos deixou as análises das relações entre estrutura e superestrutura; Lênin utilizava-se de estratégia e tática; Gramsci diferenciava o permanente e o eventual, o orgânico e o ocasional.

Essas ideais clássicas chegaram ao seu ponto mais avançado com a filosofia clássica alemã (Kant, Hegel e Feuerbach); a economia política inglesa (A. Smith e Ricardo); e o pensamento político de Maquiavel, Locke, Montesquieu, os teóricos da Revolução Francesa e Americana, o socialismo de Saint-Simon e Fourrier

Marx e sua filosofia da práxis entrou em cena com a tentativa de resolver os problemas mais avançados da humanidade. Surgia como a continuação direta e imediata dos maiores representantes da filosofia, da economia política e do socialismo. Procurava dá aos homens uma concepção unitária do mundo, que não poderia conciliar com nenhuma superstição. Apresentava-se como o sucessor de tudo aquilo que o gênero humano criou de melhor no século XIX. É conhecida sua tese inicial: ‘Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo’.

Já no século XX, Gramsci, em um balanço severo, afirmou que a filosofia da práxis tinha duas tarefas: a) superar o pensamento moderno em suas formas mais refinadas; b) persuadir o senso comum, cuja cultura era medieval. Esta segunda função absorveu todo o esforço tanto quantitativo quanto qualitativo. Por varias razões essa persuasão se confundiu com uma forma de cultura, um pouco superior à mentalidade do senso comum, incapaz, portanto de superar a mais alta manifestação cultural do seu tempo. Já outro italiano, pois o dedo na ferida. Nos idos de 1970, Berlinguer, então secretário do PCI, afirmava, em Moscou: ‘a democracia é um valor permanente e universal’. O resultado da história é por demais conhecido.

No período mais recente, final do século novecentos e início do vinte, com novos cenários projetaram-se um novos pensamentos que se poderia resumir assim: a) o pensamento antropológico e sociológico da Igreja pós-conciliar; b) as ideias integradoras das principais socialdemocracias europeias; c) o eco-socialismo; d) as tradições da não violência; e) a constituição e desenvolvimento do gênero humano inspirado na diferença sexual; f) as ideais de progresso fundadas na consciência do limite; h) e o conceito de desenvolvimento sustentável e outros..

Todos eles, de uma forma ou de outra deixaram para nós uma rica experiência para se analisar as conjunturas e as relações de forças. Isto é, como devemos estabelecer os diferentes graus de relações de forças e se prestar para uma exposição elementar sobre ciência e arte políticas. Em outras palavras, pensar como um conjunto de normas práticas de pesquisas e observações singulares, particulares úteis podem despertar o interesse pela realidade palpável e suscitar, ao mesmo tempo, faculdades de perceber, discernir ou pressentir políticas mais meticulosas e robustas.

Quais foram estes elementos metodológicos herdados e que nos permite diferenciar diversos graus de uma situação concreta?

Em primeiro lugar, verificar uma relação de forças sociais conectada muito de perto à estrutura que pode ser avaliada com os métodos das estatísticas. À base do nível de desenvolvimento das forças materiais de produção organizam-se os agrupamentos sociais, cada um dos quais representa uma função e ocupa uma determinada posição na produção. Esta é uma relação real, concreta, rebelde. O número de estabelecimentos da indústria, comércio, bancos, escolas, de serviços, etc, e o pessoal reunido no espaço circundante, o número das cidades com as suas populações, tudo isto é um dado factual. Este elemento nos permite avaliar se, em determinada sociedade, existem as condições suficientes para as mudanças. Possibilita-nos monitorar o grau de realismo e de visibilidade das diferentes ideias que o processo gerou.

A conjuntura, como já foi dito, não é estática. Apresenta sempre algo novo, distinto. Isto porque a correlação de forças e interesses no cenário político varia. Quando esse cenário muda, a política de alianças também sofre mudança. A sociedade experimenta uma sensação de turbulência, de insegurança ou crise. Foi, mais ou menos, o cenário das eleições de 2018. Quando saiu vitorioso um agrupamento político que se definia apolítico, apartidário.

Na minha opinião a questão mais importante na conjuntura mundial e no Brasil é o fenômeno do pensamento político populista e antiliberal. Atinge, simultaneamente, os Estados Unidos, Europa Ocidental, o Brasil, Turquia, Hungria e outros países. É um fenômeno único. É um movimento do antiglobalismo e do nacionalismo. De repúdio sistemático às instituições criadas a partir dos princípios liberais, divisão dos poderes, liberdades individuais, direitos sociais e políticos, tais como desenvolvidas nos últimos tempos. Hoje, se proliferam movimentos populistas que defendem interesses nacionais imediatistas, que solapam as liberdades, e solapam a atual ordem global.

Esse fenômeno é cada vez mais visível após a vitória eleitoral de Trump s sua principal bandeira: América primeiro, a campanha do Brexit, o grito da direita francesa a França para os franceses, os apelos dos atuais governantes italianos a Itália primeiro, a Hungria de Orbán sem esquecer o presidente Bolsonaro com seu ‘Brasil acima de tudo’

É um movimento regressivo, não produz futuro e se protege através de uma fantasia, foge do real e objetiva uma volta ao passado, o que é impossível. Tentam instalar o medo. E isso agrava a crise em vez de resolvê-la. Os exemplos são muitos.

A principal responsabilidade dos democratas, progressistas, é enfrentar esse tema e encontrar os caminhos para derrotar essa movimentação velha querendo se apresentar com o “novo”.

*Marcus André Melo: Populismo e instituições

- Folha de S. Paulo

O debate sobre populismo não pode fazer tabula rasa das instituições formais

“Se os homens fossem governados por anjos, o governo não precisaria de controles externos nem internos”. A afirmação é de James Madison (1751-1836), arquiteto do desenho institucional do presidencialismo. A melhor forma de exercer controles sobre governantes é maximizando —através do desenho institucional— a formação de interesses contrapostos.

O fechamento parcial do governo federal americano por 35 dias (de 22 de dezembro de 2018 a 25 de janeiro de 2019) não foi, assim, falha institucional, mas resultado antecipado. A perda de controlerepublicano na Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato, em novembro, é produto do desenho institucional. Com o governo Trump amordaçado dessa forma, quiçá o livro “When Democracies Die”, de Levitsky e Ziblatt, sequer fosse lançado.

No presidencialismo madisoniano, presidentes e Legislativo são eleitos em sufrágios separados e por maiorias distintas. O primeiro, por colégio eleitoral, os senadores pelas assembleias legislativas, e os deputados federais por distritos uninominais. E, claro: membros do Legislativo têm de renunciar a seus assentos no parlamento se passam a fazer parte do gabinete.

Para aumentar a probabilidade da contraposição de forças políticas distintas —sobretudo as extremistas—, os mandatos são defasados no tempo: o dos deputados é de dois anos, o dos senadores, de seis anos, e o do presidente, quatro anos sem direito à reeleição. As eleições de meio de mandato criam a possibilidade de que a maioria que elegeu o presidente seja distinta da que elegeu o Legislativo.

O presidencialismo latino-americano nos últimos dois séculos vem se desviando do desenho original. A lista é longa: todos os países da região passaram a adotar a representação proporcional ou sistemas mistos, inaugurando o multipartidarismo como forma modal. Os colégios eleitorais, adotados em Chile, Argentina, Paraguai, foram abandonados.

Houve também extensa delegação de poderes aos presidentes. Por sua vez, a reeleição consecutiva de presidentes foi permitida em quatro países, e a não consecutiva, em seis. As eleições legislativas não simultâneas foram abandonadas —desde 1980, 60% delas são concorrentes.

A principal consequência é que instaurou-se uma dinâmica parlamentarista no sistema presidencial, porque foram criados incentivos para a formação de coalizões de governo. Sob democracias, presidentes tipicamente governam com maiorias partidárias.

O debate sobre democracia e populismo não pode fazer tábula rasa do conhecimento acumulado sobre o efeito da renda e da história sobre regimes políticos. Muito menos do desenho institucional.

*Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA).

Fernando Gabeira: Navegação no nevoeiro

- O Globo

Pelo menos, houve uma vitória sobre a tese do crime perfeito no caso Marielle

Os dois fatos da semana no Brasil, o massacre de Suzano e a prisão dos matadores de Marielle Franco, inspiram posições firmes. Mas, vistos de perto, são na verdade uma espécie de areia movediça. Na verdade, a imagem que tenho é de um nevoeiro. Como tantas coisas na vida, precisamos navegar nele com cuidado, pois não temos ainda a visão completa da cena.

No caso de Suzano, falou-se na influência dos games? Mas temos poucas pesquisas nesse campo, e não indicam isto até agora. Bullying? Também se fala muito, mas cravar que a causa é bullying, de certa forma, é culpar as vítimas.

Assim como nos Estados Unidos, certamente haverá um debate sobre controle de armas. E os argumentos aqui parecem os de Trump, que aconselha aos professores uma arma de fogo.

O momento ainda é de velar os mortos e buscar o maior número de informações sobre os atiradores. O que se pode obter também, como nos Estados Unidos, é uma espécie de perfil dos criminosos e um inventário de traços comuns entre eles.

O caso Marielle também é um nevoeiro. Fiz um programa de TV sobre o tema, fui ao território das milícias em Gardênia Azul e Rio das Pedras. Confiava no caminho do delegado Giniton Lages, embora não o tenha entrevistado. Conheci Giniton como delegado de Homicídios na Baixada. Eu trabalhava num programa sobre a série de assassinatos de vereadores do interior, mortes que escaparam do radar da grande imprensa.

Alguns foram mortos pelas milícias, depois de serem eleitos por elas. Giniton parecia um conhecedor da ação e das táticas milicianas. Enquanto o visitei, ele conseguiu desmontar um grupo que roubava a Petrobras, não com propinas e superfaturamento, mas na veia: desviava o petróleo dos dutos para vendê-lo na Baixada.

Cacá Diegues: O elogio do homem armado

- O Globo

É como se estivéssemos desistindo do país que sonhamos ser, em nome de uma arma que possamos carregar para nos livrarmos do outro

Cada um de nós sempre sonhou com um país em que sonhávamos viver. Um Brasil que construíamos em nossas cabeças, para nos distinguirmos do resto do mundo. De direita ou de esquerda, liberal ou conservador, pacífico ou guerreiro, sonhávamos em nos livrarmos de lugares-comuns inaceitáveis, substituindo a prioridade de carnaval e futebol por características mais nobres que poderiam fazer de nós uma nova e louvável civilização.

Nos entusiasmamos e nos decepcionamos com políticos e partidos que nos levariam a essa rara glória, da qual nos julgávamos um dos poucos povos merecedores, em todo o mundo moderno. Não foi só a súbita descoberta da corrupção generalizada que nos tirou a esperança de salvar o mundo com nossa identidade. Foi também a perda da fé em nós mesmos, a dúvida sobre nossas virtudes, a incerteza do merecimento.

Durante esses últimos anos, vivemos sem regras e sem projetos, entregues ao acaso da história, procurando sobreviver às tempestades nacionais e aos furacões cívicos que não pararam de soprar. Nos acostumamos a não ser nada, a ser apenas um povo fugindo de sua própria ignomínia. Éramos os náufragos de nós mesmos.

Temos vivido um vendaval de paixões polarizadas e histéricas. Há um desejo latente, já adotado por grande parte da população, de valorizar a vulgaridade e o homem dito “normal”, aquele que só reproduz os piores valores de nossa ignorância, sem sonhos nem fantasias, num horizonte sombrio e sem surpresas. O homem armado que vive para a morte. Ou pela morte.

Ana Maria Machado: Palpite infeliz da ministra

- O Globo

É um acinte o que disse Damares

Entre tantas falsas imagens que nos cercam nesta labiríntica sala de espelhos do Brasil atual, dá vontade de entregar os pontos e chorar, já que tanta gente parece bater palmas e preferir a solução de avestruz.

Ficamos perplexos diante da barbárie e selvageria crescentes da violência urbana em todas as suas formas, da violência contra a mulher, da violência cheia de ódio no convívio social enraivecido. Às vezes se revestem de aparência política — na truculência das redes sociais, nos ataques a ônibus de petistas na campanha eleitoral, no atentado contra Bolsonaro, no assassinato de Marielle e Anderson. Outras vezes expõem sua gratuidade sem disfarces — nos espancamentos e assassinatos de mulheres, nos assaltos e latrocínios em nossas ruas, nas chacinas na periferia, ou nesse inconcebível massacre na escola em Suzano. Todos com o traço que nos marca desde a colonização e a escravidão — o da força bruta contra o fraco e desprotegido.

Bruno Carazza: "Protetores dos fracos e oprimidos"?

- Valor Econômico

Milícias atuariam como qualquer grupo de interesse

Centenas de estudos de sociologia e ciência política escritos em décadas não conseguiram dar uma dimensão tão completa do funcionamento da política brasileira quanto duas investigações realizadas nos últimos anos. Por terem acesso a informações e depoimentos de agentes que atuam à margem da lei, esses inquéritos conseguiram lançar luz sobre a política no seu estado bruto, que vai muito além do marketing eleitoral e das negociações para a formação de bases governistas.

Se as delações obtidas na Operação Lava Jato, que completou ontem 5 anos, revelaram como grandes empresas se valem de doações eleitorais, caixa dois e propina para obter toda sorte de benefícios governamentais, uma investigação parlamentar conduzida na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2008 expôs uma outra dimensão das verdadeiras relações de poder no Brasil: a infiltração do crime organizado no sistema político.

A chamada CPI das Milícias ouviu dezenas de delegados e comandantes de polícia, promotores, secretários de Estado e especialistas em segurança pública, além de acusados de envolvimento com essas organizações criminosas. Citando pesquisa realizada pelo sociólogo Ignacio Cano (UERJ), o relatório da CPI aponta que as milícias têm 5 traços distintivos principais: I) valem-se de grupos armados para controlarem um território; II) praticam coação contra moradores e comerciantes; III) buscam o lucro; IV) possuem um discurso de legitimação baseado na restauração da ordem e contra o tráfico de drogas e V) têm agentes públicos (em geral militares, bombeiros e policiais civis) em posições de comando.

Por meio do cruzamento de dados de votações eleitorais e de informações coletadas no Disque Denúncia, a CPI mapeou como milicianos usam sua força para eleger candidatos de seu interesse ou até mesmo a si próprios. E a partir de relatos de moradores, comerciantes e representantes de empresas de distribuição de gás, TV a cabo e transporte, demonstrou como a milícia obtém lucros monopolísticos com a exploração desses serviços e a cobrança de taxas de proteção nos territórios dominados.

Sergio Lamucci: A armadilha do baixo crescimento

- Valor Econômico

Situação no mercado de trabalho é especialmente grave

A fraqueza da economia brasileira impressiona. A recessão ficou para trás há mais de dois anos, mas o crescimento registrado desde 2017 é pífio. A esperada e necessária aceleração da retomada cíclica tem sido seguidamente adiada - hoje, boa parte das projeções aponta para uma expansão do PIB neste ano em torno de apenas 2%, um desempenho medíocre depois de dois anos de altas pouco superiores a 1%. O desemprego segue nas alturas, tendo alcançado 12% nos três meses até janeiro, o equivalente a 12,7 milhões de pessoas.

A avaliação de muitos analistas é de que um avanço mais forte tende a ocorrer no segundo semestre de 2019 ou mais provavelmente só em 2020, na hipótese de que uma reforma da Previdência relativamente robusta seja aprovada ainda neste ano. Isso diminuiria as incertezas quanto à sustentabilidade das contas públicas, abrindo espaço para os juros caírem um pouco mais e para o programa de concessões de infraestrutura deslanchar.

Enquanto isso não ocorre, os sinais desanimadores sobre a atividade se acumulam. Em janeiro, a produção industrial caiu 0,8% em relação a dezembro, ao passo que o o volume de serviços recuou 0,3%. Já o desemprego subiu pelo quarto mês seguido, na série com ajuste sazonal da LCA Consultores. Ao mesmo tempo, a inflação segue domada, rodando abaixo da meta deste ano, de 4,25%.

Essa combinação de atividade fraca com inflação baixa sugere que os juros estão fora do lugar, havendo espaço para uma Selic menor - a taxa está em 6,5% ao ano desde março do ano passado. Uma parcela expressiva dos analistas, porém, considera que a reforma da Previdência precisa pelo menos estar bem encaminhada no Congresso para o Banco Central (BC) cortar mais os juros.

*Denis Lerrer Rosenfield: Tuitar e governar

- O Estado de S.Paulo

O presidente não pode se arriscar, há toda uma liturgia do cargo que deve ser observada

O risco de identificar tuitar com governar tem uma alta carga explosiva. Ações e ataques se multiplicam numa guerra cujo armamento principal reside nas redes sociais. O pensamento tende a desaparecer em proveito de ações imediatas que se utilizam de meios de expressão limitados, até pelo número de caracteres. Em tal contexto, a concisão toma a forma de acusações, em que vale somente o valor retórico ou demagógico do que é transmitido, sem a necessária atenção à verdade do que foi comunicado.

Tuitar, como o exibiu a campanha do atual presidente, tornou-se um elemento imprescindível em eleições, em que prevalecem acusações e denúncias, sem que se estabeleça nenhum diálogo e, por consequência, nenhum debate ou troca de pensamento. Ganha quem souber transmitir uma mensagem, independentemente de sua coerência, falsidade ou consistência. É bem verdade que o contexto da vitória era propício a tal tipo de campanha, pois a sociedade brasileira estava farta da corrupção e dos governos petistas, clamando por mudanças. Logo, chamando alguém capaz de personificá-las. A hábil estratégia de comunicação da equipe do candidato Bolsonaro foi exímia ao alcançar tal objetivo.

Acontece, porém, que as demandas de governar são de outro tipo, exigindo um pensamento de outra espécie, mais elaborado, caracterizado pela consideração do outro como adversário, e não como inimigo, e por propostas de quais serão os programas de governo para uma transformação do Estado. Aqui intervém o tempo de elaboração de ideias, suas formas de implementação e seus instrumentos mais adequados. O twitter eleitoral, tornado twitter presidencial, pode ser de valia, sempre e quando acompanhado por uma comunicação digital institucional e uma atenção particular para a mídia tradicional, em particular a impressa.

*José Goldemberg: Movimento ambientalista é de esquerda ou direita?

- O Estado de S.Paulo

É preciso redobrar esforços para evitar que o aquecimento global seja ‘politizado’ de novo

Preocupações com a preservação do meio ambiente datam da mais remota Antiguidade. Platão, há 2.500 anos, comparou o desmatamento na Grécia do seu tempo com “o esqueleto de um homem doente: toda a gordura e a carne tenra se foram, deixando apenas a moldura nua da Terra”.

Alguns governantes, ao longo da História, se deram conta das consequências negativas da destruição das florestas. Os antigos egípcios penalizavam quem cortasse árvores e na civilização inca essa prática era punível com a morte.

Apesar disso, a expansão do Império Romano varreu as florestas de quase toda a Europa e da Inglaterra. O mesmo foi feito pelos colonizadores portugueses, que devastaram a Mata Atlântica até esgotar a produção de pau-brasil.

A situação começou a mudar no século 16, por diversas razões: em alguns países, como a Áustria, um reflorestamento foi feito por questões econômicas; em outros, pelo interesse dos aristocratas europeus em preservar as florestas em torno dos seus castelos para garantirem espaço para suas caçadas. Aliás, essa é a razão pela qual Londres tem hoje tantos parques. Na enorme expansão da conquista do território da América do Norte, reservas naturais foram criadas até por motivos estéticos, sob a influência de intelectuais como Thoreau.

Cida Damasco*: Eles estão voltando?

- O Estado de S.Paulo

Leilão de aeroportos foi bom sinal. Mas falta muito para atrair investidores

Se o termômetro fosse apenas o mercado financeiro, poderia até simular uma elevação de temperatura da economia brasileira. Afinal de contas, apesar das confusões protagonizadas pelo governo -- que não são poucas nem desimportantes --, os investidores voltaram a cobiçar os papéis do Brasil. E a bolsa, mesmo com alguns altos e baixos influenciados principalmente pelas idas e vindas da reforma da Previdência, ronda a marca dos 100 mil pontos.

Já é mais do que sabido, porém, que os mercados obedecem a uma lógica própria e nem sempre são acompanhados pela chamada economia real. Nem mesmo aquele papel de antecipar o desempenho dos setores produtivos tem se comprovado ultimamente.

Os indicadores mais recentes de intenção de investimentos mostram que o quadro, sob esse ponto de vista, ainda inspira preocupação. Especialmente levando-se em conta que o consumo, outro motor do crescimento, também está travado e a equipe econômica não parece disposta a ativar algum instrumento para acioná-lo a curto prazo.

O indicador de intenção de investimentos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), relativo ao último trimestre de 2018, apontou para cima, mas mantém-se bem abaixo dos níveis observados nos dois anos anteriores à recessão de 2014. Tudo indica que a melhora na confiança de empresários, detectada em pesquisas logo após as eleições, não está se convertendo em decisões de investimento. "Vamos esperar para ver" parece ser a palavra de ordem.

Vinicius Mota: Convicções confortam, emburrecem e matam

- Folha de S. Paulo

Estímulo a violência e ignorância é subproduto de algoritmos num mundo complexo

O ser humano cuja vida há 100 mil anos dependia de um punhado de parentes e pessoas conhecidas não se distingue, biologicamente, do que hoje se relaciona com milhões de indivíduos desconhecidos.

Na aldeia ou na metrópole, a consciência do tempo e, com ela, a incerteza do futuro tornaram-se um fardo a carregar. Daí a ubiquidade de sistemas simbólicos que, da religião ao direito, dos códigos de conduta às doutrinas políticas, atuam para estabilizar as expectativas do porvir.

De um lado, tais algoritmos da vida social produzem conforto e segurança. Induzem-me, por exemplo, a trocar todo o resultado do meu trabalho por uma cifra impressa na tela. De outro, podem estimular a solidariedade de tipo tribal e a violência contra quem não pertence ao grupo.

As redes sociais oferecem uma bússola eficiente e ansiolítica para navegar neste mundo complexo. Apresentam o indivíduo a seus símiles em pensamento e convicção, onde quer que estejam no globo. Expatriam e demonizam o contraditório, essa pedra no sapato da paz de espírito.

Leandro Colon: Pacto da carochinha

- Folha de S. Paulo

Não há nada novo no discurso a favor de um pacto. Outros governos tentaram e fracassaram

A expressão da moda na capital federal é pacto entre Poderes. Foi usada no dia da posse pelo presidente Jair Bolsonaro, depois pelo chefe do STF, Dias Toffoli, e agora virou um mantra do comandante da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Não há nada novo no discurso do trio. Outros governos, ministros do STF e dirigentes do Congresso flertaram com a mesma retórica em um passado recente. Fracassaram.

É impossível ter sucesso um pacto discutido em um churrasco pela cúpula dos Poderes, como ocorreu no último sábado (16), se os componentes da orquestra de cada um não tocarem como querem seus maestros.

O foco do tal novo pacto são as reformas, sendo a mais urgente a da Previdência, em fase de gestação na Câmara. O governo tem penado para arregimentar uma base aliada parlamentar confiável e coesa na largada da corrida da aposentadoria.

Na quarta (13), Bolsonaro disse em um café com jornalistas que o Congresso precisa jogar “juntinho” do Planalto ao menos no primeiro ano.

*Celso Rocha de Barros: Marielle e o bolsonarismo

- Folha de S. Paulo

Reação dos bolsonaristas diante do assassinato da vereadora é inédita no Brasil

É bem fácil ser gentil quando morre um adversário político. O sujeito já morreu, não está mais disputando nada com você. O procedimento padrão é desejar condolências, dizer algo como “apesar de nossas divergências, sempre respeitei a firmeza com que lutou por seus ideais”, e ainda sair com cara de bom esportista.

A reação dos bolsonaristas diante do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) foi o oposto disso. É um negócio muito esquisito, inédito no Brasil e raríssimo no mundo.

No dia do assassinato, o presidente disse que não se manifestaria porque sua opinião seria muito polêmica. Os bolsonaristas entenderam a dica e foram para a internet espalhar mentiras sobre Marielle, como o de que ela teria sido namorada do traficante Marcinho VP. Ninguém que fez isso, até agora, foi preso. Têm que ser.

Dois bolsonaristas, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira rasgaram uma placa com o nome de Marielle em um ato político na última campanha eleitoral —e se elegeram, respectivamente, deputado estadual e deputado federal.

Amorim guarda uma das metades da placa rasgada enquadrada em seu gabinete. Silveira participou de um ato, na última quinta-feira, que procurou atrapalhar uma homenagem a Marielle no Salão Verde da Câmara tocando uma gravação de latidos em alto volume. Os bolsonaristas mentiram que se tratava de um ato em defesa de animais maltratados.

O ato só não causou mais escândalo porque os passantes acharam que os bolsonaristas estavam reunidos assistindo a aula do Olavo.

Ricardo Noblat: Olavo, a estrela que brilha em Washington

- Blog do Noblat / Veja

E a visita de Bolsonaro mal começou...

Para não apagar o protagonismo do presidente Bolsonaro em sua viagem aos Estados Unidos seria melhor que o autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho saísse de cena hoje e amanhã.

Porque foi ele quem brilhou no primeiro compromisso que Bolsonaro teve em Washington – um jantar oferecido à comitiva presidencial pelo embaixador Sérgio Amaral, de mudança de lá.

Ficou em segredo até a madrugada de hoje o que Olavo fez ou deixou de fazer durante o jantar para que seu brilho fosse admitido pelos comensais — entre eles, o ministro da Justiça, Sergio Moro.

A imprensa não foi convidada para o jantar. Fotos da ocasião foram distribuídas pelo governo brasileiro. E migalhas do que ocorreu ali, pelo porta-voz da presidência da República.

Bolsonaro levantou um brinde a Olavo, mentor intelectual da família Bolsonaro e de parte do governo. E o ministro da Economia, Paulo Guedes, o apontou como “líder da revolução” liberal no Brasil.

Num surto de falsa modéstia, Olavo anunciara que iria ao jantar só “para comer”. Empanturrou-se de elogios, cortesias, reverências, e tudo mais o que o dicionário possa oferecer como sinônimos.

A véspera em Washington já fora dele, homenageado por expoentes da extrema-direita local com a exibição de um filme de louvaminhas a seu respeito. Olavo não perdeu a oportunidade.

Previu o futuro do governo Bolsonaro: “Se tudo continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal. É só continuar assim. Mais seis meses, acabou”.

Disse que Bolsonaro virou “uma camisinha” usada pelos militares que querem “restaurar o regime de 1964 sob um aspecto democrático. Se não é um golpe, é uma mentalidade golpista”.

Lembrou que só teve dois contatos com o professor Ricardo Vélez Rodriguez, indicado por ele para ministro da Educação. O segundo contato foi para manda-lo “enfiar o ministério no …”.

E, por fim, revelou seu grande desejo: “Eu quero mudar o destino da cultura brasileira por décadas ou séculos à frente. Estou tentando formar uma geração de intelectuais sérios”.

Encantado com as palavras de Olavo, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o novo presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, confessou: “Sem Olavo, não haveria eleição de Jair Bolsonaro”.

Coube ao ex-subsecretário para Assuntos Políticos dos Estados Unidos Thomas Shannon o comentário mordaz: “Nunca havia visto uma visita presidencial começar com um filósofo”.

Na verdade, Washington ainda não viu nada. A visita de mais um presidente brasileiro aos Estados Unidos — e logo de quem? — está mal começando. Promete.

O fabricante de fakes

Uma relação prioritária e equilibrada com os EUA: Editorial / Valor Econômico

Brasil e Estados Unidos - as duas maiores economias do continente americano e as duas principais democracias do mundo ocidental - inauguram nesta semana uma nova etapa em suas relações. Tudo conspira para uma boa química entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, que se reúnem pela primeira vez amanhã, na Casa Branca. Empatia entre mandatários é sempre elemento relevante, mas insuficiente, por si só, para viabilizar avanços transformadores numa relação bilateral, em um mundo regido por pressões e disputas de poder.

Movido pela convicção de que "só Trump pode salvar o Ocidente", conforme escreveu em uma revista do Itamaraty, o chanceler Ernesto Araújo vê a retomada de uma parceria negligenciada por seus antecessores nas últimas décadas. "Desperdiçamos muitas oportunidades por uma simples má vontade de sucessivos governos em trabalhar com esse parceiro tradicional", comentou Araújo, em entrevista na sexta-feira. Há exagero e simplificação nas declarações do ministro.

Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton tinham admiração intelectual um pelo outro, bem como as primeiras-damas, mas o tucano precisou lidar com crises econômicas durante todo seu segundo mandato e o democrata enfrentava restrições domésticas para soltar as asas em voos comerciais. Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, ambos com jeitão franco e pouco afeitos ao mise-en-scène diplomático, contrariaram quem esperava dificuldades ideológicas entre um petista e um republicano. Deram-se surpreendentemente bem, mas os Estados Unidos voltaram-se de tal forma à agenda de segurança, com os atentados terroristas e a Guerra do Iraque, que o Brasil desapareceu do radar americano.

Déficit de apoio: Editorial / Folha de S. Paulo

Relutância de deputados em assumir compromisso com a reforma da Previdência reflete articulação política frágil e falta de empenho de Bolsonaro

A retomada dos trabalhos legislativos trouxe novas evidências da insatisfação dos aliados do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e das dificuldades que o governo enfrenta para formar uma base de sustentação confiável no Congresso.

Líderes da bancada evangélica, um dos pilares da coalizão eleitoral que levou o mandatário ao poder, ameaçam boicotar projetos após a demissão sem aviso prévio de correligionários que ocupavam posições no Palácio do Planalto.

Partidos do chamado centrão, ressentidos com a indefinição sobre seu espaço no governo, articulam mudanças na medida provisória que redesenhou a estrutura dos ministérios, ainda pendente de aprovação no Legislativo.

Complicações desse gênero, que fazem parte da rotina dos regimes democráticos e poderiam ser tratadas como contratempos banais, acabam alimentando preocupações no caso de Bolsonaro.

O chefe do Executivo prometeu jogar fora o manual que guiou os antecessores nas interações com o Congresso, mas ainda não parece ter encontrado uma estratégia eficaz para promover sua agenda.

Com o início do debate da reforma da Previdência Social, passo essencial para tirar o país da semiestagnação econômica, os riscos criados pela fragilidade da articulação entre o governo e os partidos tornam-se mais inquietantes.

Excelente começo: Editorial / O Estado de S. Paulo

O governo do presidente Jair Bolsonaro iniciou na sexta-feira passada seu programa de concessões e privatizações. Não poderia ter começado melhor. O governo arrecadou R$ 2,377 bilhões na licitação para a concessão de 12 aeroportos situados nas Regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Juntos, os terminais representam 9,5% do mercado doméstico e recebem por ano, aproximadamente, 20 milhões de passageiros.

Do montante arrecadado, R$ 2,158 bilhões correspondem ao ágio pago pelos proponentes vencedores. O ágio médio foi de impressionantes 986%, de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A realização bem-sucedida de um leilão desse porte, por si só, já seria um grande feito do governo federal. O resultado do certame, realizado na B3, em São Paulo, só reforça o sucesso do pontapé inicial dado pelo governo de Jair Bolsonaro em seu programa de privatizações. Promessas de campanha, privatizar empresas estatais e vender outros ativos são consideradas medidas prioritárias pelo Palácio do Planalto e pelo Ministério da Economia para abater a dívida pública e reduzir despesas.

Ademais, é digna de nota a ausência da participação obrigatória da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), o que em boa medida explica o sucesso do leilão.

A espanhola Aena venceu o leilão pelo Bloco Nordeste ao ofertar um valor de contribuição inicial de R$ 1,9 bilhão, o que corresponde a um ágio de 1.010,69% em relação ao valor mínimo. Esse era o bloco mais atraente, na visão dos investidores, pela proximidade com a Europa. Dele fazem parte os aeroportos do Recife (PE), Maceió (AL), João Pessoa e Campina Grande (PB), Aracaju (SE) e Juazeiro do Norte (CE). O lance mínimo era de R$ 171 milhões, e os investimentos nos primeiros cinco anos de operação, de R$ 788 milhões.

Aumentam os sinais de colapso do regime bolivariano de Maduro: Editorial / O Globo

Apagão, desmontagem da PDVSA e crise humanitária são reflexos dos delírios do chavismo

Vitorioso nas eleições de 1998, Hugo Chávez colocou em prática, de maneira minuciosa, o plano de conversão da democracia venezuelana em um regime autoritário nacional-populista.

Aproveitou a popularidade, pressionou a Justiça a lhe permitir convocar uma Assembleia Constituinte, na qual fez maioria, e assim abriu os espaços para instituir um sistema inspirado na Cubados Castro, inclusive coma ajuda destes. Lançou o delirante projeto do “Socialismo do Século XXI”, inspirado no do século XX, que já não dera certo. Enquanto confiscava empresas privadas, intervinha de maneira suicida em fundamentos econômicos — juros e câmbio — e usava a estatal petrolífera PDVSA para financiar seus projetos populistas, Chávez permitia que se antevisse tudo o que aconteceu.

Substituído pelo sindicalista Nicolás Maduro, indica dopo rele mesmo antes de morrer de câncer, Chá vez lançou de fato as bases para o que se configura como a maior tragédia latino-americana nos tempos modernos.

O blecaute que atingiu o país a partir do dia 7 acelerou o colapso da Venezuela que era previsto a inda nos tempos de Chávez, caso ele prosseguisse com o seu “socialismo”. Maduro seguiu pelo mesmo caminho, e o resultado é um país cuja população migra para os vizinhos em busca do básico: alimento, atendimento médico, segurança etc.

Nos EUA, Bolsonaro critica 'defensores da tirania' e ataca 'antigo comunismo'

O presidente participou de jantar com cúpula do conservadorismo e irá se encontrar com Donald Trump nesta terça-feira

Beatriz Bulla e Ricardo Leopoldo / O Estado de S.Paulo

WASHINGTON - Em discurso durante jantar com integrantes do movimento conservador americano, o presidente Jair Bolsonaro enalteceu o que vê como aproximação entre Brasil e Estados Unidos e criticou o "antigo comunismo". Segundo o porta-voz da presidência, general Otávio Rêgo Barros, Bolsonaro apresentou ideias de "fortalecer o comércio, reconhecendo que os EUA são o segundo mercado para os produtos brasileiros, reconhecendo que a diplomacia de fortalecer a democracia neste lado do Ocidente é importante, reconhecendo que aspectos relativos ao antigo comunismo não podem mais imperar".

O evento é o primeiro de Bolsonaro na capital dos Estados Unidos, onde chegou na tarde de domingo. Estão entre os convidados do jantar o escritor Olavo de Carvalho, considerado um dos ideólogos do governo Bolsonaro e responsável pela indicação de dois ministros, e Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e apoiador de populistas de direita. A aproximação de Bolsonaro com Bannon gera desconforto em parte do governo americano, já que o ex-estrategista foi forçado a deixar o governo em 2017 e já foi chamado de traidor por Trump.

Na noite anterior à chegada de Bolsonaro a Washington, Bannon organizou um evento de homenagem a Olavo de Carvalho para convidados, no Trump International Hotel. Na ocasião, Olavo fez duras críticas ao que chamou de "traidores do governo" e criticou o vice-presidente Hamilton Mourão.

O porta-voz também afirmou que Bolsonaro falou que "liberdade e democracia" são os dois valores que unem Brasil e EUA nesse momento.

O jantar deste domingo aconteceu na residência do embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral. Bolsonaro já sinalizou que o embaixador será substituído, ao sugerir na semana passada que diplomatas brasileiros seriam os responsáveis por sua imagem ruim no exterior. Segundo o porta-voz, contudo, Amaral foi "muito fidalgo" com Bolsonaro. Ele confirmou, no entanto, que serão feitos "estudos necessários para identificar quem vem a ser o futuro embaixador, por reconhecer que é um posto de extrema importância". O diplomata Nestor Forster, quem apresentou o chanceler Ernesto Araújo a Olavo de Carvalho, é o nome cotado para o posto. Forster também esteve presente no jantar e foi um dos responsáveis pela elaboração da agenda de Bolsonaro nos EUA.

Ao deixar o jantar, Bannon falou que esse foi um "ótimo ponto de partida para a viagem de Bolsonaro" e disse que, na comparação com o evento em que Olavo criticou parte do governo, o jantar com Bolsonaro teve a "temperatura mais baixa".

"Antigo comunismo não pode mais imperar', diz Bolsonaro em Washington

Por Jussara Soares, enviada especial de O Globo, e Paola de Orte, especial para O Globo | Valor

WASHINGTON - Durante o jantar com pensadores da direita americana em Washington, neste domingo (17), o presidente Jair Bolsonaro disse que o “antigo comunismo não pode mais imperar neste ambiente que nós vivenciamos”. A informação foi dada pelo porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros.

O jantar aconteceu na residência do embaixador brasileiro em Washington, Sergio Amaral. Estiveram presentes a comitiva do presidente, o escritor Olavo de Carvalho e pensadores da direita americana, como o ex-estrategista de Donald Trump Steve Bannon, o acadêmico Walter Rusell Mead, a colunista do “Wall Street Journal” Mary Anastasia O’Grady e o editor da revista literária “The New Criterion”, Roger Kimball.

Segundo o porta-voz, o presidente também afirmou que “democracia e liberdade são os fatores mais essenciais que unem os dois povos neste momento”.

Bolsonaro também lembrou a atuação do Brasil ao lado de tropas americanas na Segunda Guerra Mundial.

Durante o jantar, foi servido mousse com ovas de salmão, beef Wellington, purê de nabo e quindim, além de caipirinha.

Ao final do jantar, Bannon comentou o encontro com Bolsonaro. Ele disse que foi "uma boa noite de abertura para o presidente." Quando questionado se Olavo fez as mesmas críticas que havia feito à Presidência no dia anterior, Bannon disse que não.

No sábado, Olavo afirmara que o presidente está “de mãos amarradas por militares próximos com mentalidade golpista” e advertiu sobre a necessidade de uma mudança de rumo para que o governo “não acabe daqui a seis meses”. O escritor classificou os militares, que vê associados ao que chama de “mídia oposicionista”, como um “bando de cagões”.

No jantar, no entanto, o escritor se sentou ao lado do presidente.

Bannon disse que o jantar contou com pessoas de várias linhas diferentes de pensamento.

'Você é o líder da revolução', diz Paulo Guedes a Olavo de Carvalho

Por Jussara Soares, enviada especial de O Globo, e Paola De Orte, especial para O Globo | Valor

WASHINGTON - O escritor Olavo de Carvalho foi a estrela da noite no jantar oferecido na neste domingo (17) na casa do embaixador brasileiro, Sergio Amaral, ao presidente Jair Bolsonaro, em Washington. O presidente convocou um brinde em homenagem ao filósofo, mentor intelectual da família Bolsonaro e de diversos integrantes do governo. O ministro da Economia, Paulo Guedes, o classificou como "líder da revolução" liberal no Brasil. “Você é o líder da revolução”, disse Guedes, atribuindo a Carvalho um papel importante da divulgação de ideias liberais aos brasileiros.

Segundo uma fonte presente ao jantar, o escritor "encantou a todos." O ministro da Justiça, Sergio Moro, aproveitou o clima para quebrar o gelo após ter sido criticado por Carvalho e seus seguidores pela indicação da especialista Ilona Szabó como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

No sábado à noite, horas antes da chegada de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, o filósofo afirmou que o presidente está de mãos amarradas por militares próximos com "mentalidade golpista" e advertiu sobre a necessidade de uma mudança de rumo para o governo não acabar daqui a seis meses. Ele chamou esses militares, que vê associados ao que chama de mídia oposicionista, como um "bando de cagões".

Um outro participante do jantar confirmou que o escritor causou boa impressão aos convidados, mas disse que o ponto alto da conversa foi a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre as perspectivas de crescimento econômico se aprovada a reforma da Previdência.

O presidente Jair Bolsonaro, segundo relatou a mesma fonte, fez uma fala diplomática apenas para agradecer à recepção do embaixador Sérgio Amaral e demais convidados.

França alerta que é preciso repensar sistema capitalista

Por William Horobin | Bloomberg, / Valor Econômico

PARIS - A França está soando um alarme às economias mais ricas: o capitalismo está provocando fissuras.

O presidente Emmanuel Macron e seu ministro das Finanças, Bruno Le Maire, estão usando a Presidência da França do G-7 (países mais industrializados) para argumentar que o sistema alimenta a desigualdade, destrói o planeta e é ineficaz em cumprir metas de interesse público. O país já enfrenta algumas das consequências com o movimento "coletes amarelos", que estourou há quatro meses.

Macron e Le Maire estão promovendo uma reinvenção que inclui tributação global mínima e impostos mais altos para gigantes da tecnologia, como Amazon e Facebook. Há ecos disso nos democratas autoproclamados socialistas nos EUA e na incendiária congressista Alexandria Ocasio-Cortez, que na semana passada disse que "o capitalismo é irremediável".

"Se não inventarmos um novo capitalismo, soluções econômicas absurdas vão ganhar força e nos levarão à recessão", disse Le Maire em entrevista no fim de fevereiro.

Um exemplo é a Itália, onde o governo populista chegou ao poder em meio a uma onda de indignação pública. A coalizão formada pelo antiestablisment Movimento 5 Estrelas e a Liga, de direita, abandonou rapidamente a responsabilidade fiscal, o que elevou os juros dos títulos da dívida e reduziu a confiança, ajudando a empurrar sua economia para uma recessão.

Le Maire, de 49, é o mais jovem ministro das Finanças entre seus homólogos do G-7. Sua ambiciosa plataforma inclui combate à desigualdade de renda, capacitar os governos a intervir na economia e forçar as empresas a serem socialmente responsáveis??e compartilharem uma parcela maior dos lucros com os trabalhadores.

Embora algumas medidas de desigualdade de renda tenham diminuído, o FMI diz que isso é reflexo do crescimento em muitas economias em desenvolvimento. Mas muitos ainda sentem que não estão recebendo uma parcela decente por causa da disparidade salarial, enorme concentração de riqueza e dos níveis de pobreza.

'Pastor Cláudio' expõe crimes da ditadura militar

Beth Formaggini vai além do resgate histórico e mostra como o horror autoritário permanece vivo no Brasil atual

Luiz Carlos Merten / O Estado de S.Paulo

Há muita coisa perturbadora em Pastor Cláudio, documentário de Beth Formaggini que estreou na quinta, 14. Diante de um quadro com fotos de vítimas da ditadura militar, o hoje pastor – ex-delegado e agente do SNI, Serviço Nacional de Informações, e do Dops, do Espírito Santo –, às vezes nem se lembra do nome das pessoas, mas é categórico. “Esse, eu matei”, “Esse, incinerei o cadáver”.

E Pastor Cláudio conta isso com frieza, essas histórias que pertencem a uma outra vida, ou outra pessoa. Desculpa-se – “Eu era uma mula, não tinha visão, só obedecia.” Reflete – “A tortura não acaba porque não teve punição para ninguém”.

Nesse sentido, o público que vê Pastor Cláudio deveria assistir também a O Silêncio dos Outros, de Almudena Carracedo e Robert Bahar, produzido pelos irmãos Almodóvar, sobre violações dos direitos humanos em outra ditadura, a de Franco, na Espanha. Ambos os filmes trazem embutidas discussões sobre a Lei da Anistia, nos dois países. “A lei de 1979 permite interpretações ambíguas.

 Desaparecimento político é um crime eterno. Violações de direitos humanos não deveriam prescrever. Pessoas como o Cláudio deveriam estar presas ou, no mínimo, ser julgadas”, diz a diretora de Pastor Cláudio. No Brasil em que um presidente se elegeu fazendo o elogio da tortura durante o regime militar, um filme como o de Beth corre o risco de atrair somente um tipo de espectador já (in)formado sobre tudo o que conta o criminoso pastor. Tudo? Em seu diálogo com o psicólogo e ativista de direitos humanos, Eduardo Passos, Cláudio Guerra confirma muita coisa que já havia contado em seu depoimento à Comissão da Verdade, em 2014. Vê-lo falar abertamente frente às câmeras é diferente, argumenta a diretora.

“A forma como ele fala torna ainda mais terríveis as violações que foram cometidas. É a verdadeira banalidade do mal, a que se referia (a teórica alemã) Hannah Arendt.” Eduardo Passos virou especialista no apoio a pessoas que sofreram violência do Estado. Pois a ideia é essa.

Não é a violência de um maluco isolado, mas de toda uma estrutura que foi montada no País, durante o regime militar. Pastor Cláudio admite que recebeu treinamento de especialistas norte-americanos, e que havia intercâmbio entre os serviços de segurança do Brasil e dos EUA. Para maiores informações, o cinéfilo dispõe de Estado de Sítio, o longa de Costa-Gavras com Ives Montand no papel de Dan Mitrione, o agente do FBI que foi contratado para treinar as polícias do Brasil e do Uruguai, ensinando métodos de tortura que se disseminaram nos dois países, resultando em inúmeros casos de violações de direitos humanos. A entrevista de Beth foi gravada durante quatro horas em 2015 e o que mais impressiona, ainda hoje, é ver Guerra falar sobre a ‘irmandade’.

Teoria da conspiração – empresários financiaram o aparelho repressivo da ditadura militar, isso também não é novidade, basta assistir a Cidadão Boilesen, de Chaim Litevski, sobre o empresário dinamarquês radicado no Brasil que arregimentou apoio para a ditadura e fundos para seus sicários. A novidade, mas será verdadeiramente novidade, é que pastor Cláudio diz que os financiadores do golpe de 1964 continuam na ativa, e são os mesmos.

Ele teme a ‘irmandade’, mas diz que possui provas que serão acionadas, se algo lhe ocorrer, ou a alguém de sua família. É o aspecto mais polêmico – o mais forte? – de Pastor Cláudio. Para Beth Formaggini, tudo começou quando gravava depoimentos para outro documentário. Ela encontrou uma mulher que falava com muito amor do marido desaparecido. Ficaram amigas. Mais tarde, Beth encontrou referências sobre esse homem no depoimento de Cláudio Guerra à Comissão da Verdade. Teve medo de confrontá-lo com a viúva, mas pediu a essa mulher, que não conseguiu enterrar seu ente querido, que formulasse algumas perguntas para o pastor. Veio daí a base para o filme.

Tão forte é o tema que quase não sobra espaço para discutir as opções estéticas de Beth. Afinal, trata-se de um filme. Naquelas quatro horas de entrevista, planejadas em detalhe anteriormente, ela previu tudo. Usou quatro câmeras. Nada lhe escapa. Beth aprendeu muito com Eduardo Coutinho, com quem trabalhou. Não importa o que diga o pastor, seu arrependimento, deveria estar pagando por seus crimes monstruosos.

Carlos Drummond de Andrade: Amor

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração para de funcionar
por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da
sua vida.

Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso
entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o
dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos
encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de
ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um
presente divino: o amor.

Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais
que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a
outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las
com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer
momento de sua vida.

Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela
estivesse ali do seu lado... se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos
emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que
está marcado para a noite... se você não consegue imaginar, de maneira
nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...

Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim,
tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela... se você preferir
morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma
dádiva.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou
encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem
atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer
verdadeiramente.

É o livre-arbítrio. Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as
loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Roberta Sá - Mutirão de amor

domingo, 17 de março de 2019

*Luiz Sérgio Henriques: A filósofa e o autocrata

- O Estado de S.Paulo

Agnes Heller adverte que a democracia liberal é nossa única chance de sobrevivência

Talvez não seja vezo, vício, muito menos viés o que tem garantido no debate corrente a fortuna do termo “ideologia”, especialmente no seu mau sentido, aquele segundo o qual, se não formos capazes de um esforço severo e constante, terminaremos por ver o mundo com lentes deformadas ou mesmo de ponta-cabeça. A acreditarmos em Agnes Heller, filósofa de sólida formação marxista e há décadas influenciada pelo liberalismo político, passamos rapidamente de uma sociedade de classes para uma sociedade de massas, em que, se as classes obviamente não desapareceram, foram fortemente redefinidas e deixaram de ser percebidas como o motor único ou mesmo principal do comportamento político.

Neste contexto de massas, ideologias tóxicas de novo tipo, manipuladas por aventureiros, tomam a cena, insuflam atitudes irracionais e servem de escora para modalidades inéditas de tiranos e tiranias. As palavras de Heller, registradas por Le Nouvel Observateur e reproduzidas por O Globo, provêm de um dos vários laboratórios atuais dessas perigosas experiências, a sua Hungria natal. Nela, com efeito, Viktor Orbán, personagem com quem nos familiarizamos já no primeiro dia do ano, com sua presença na posse do novo presidente, radicaliza o projeto de democracia iliberal, oposto ao liberalismo não democrático que, segundo ele, assinalaria uma Europa extenuada, sem cultura e sem alma, termos afins aos do nosso ministro das Relações Exteriores.

A “democracia cristã” do autocrata húngaro nada tem que ver com grupos e correntes da mesma denominação que, no segundo pós-guerra, reuniram partes muito expressivas de eleitores influenciados pelo catolicismo, muitas vezes em confronto aberto, mas institucionalmente regulado, com setores do mundo laico, fossem eles liberais ou socialistas. Conflitos ásperos à parte, a velha democracia cristã incorporava amplos contingentes populares à vida do Estado democrático, vitalizando-o e tornando-o mais representativo, transformando-o, por conseguinte, na arena por excelência da disputa política civilizada. Nessa arena preciosa, resultado de longo e cruento percurso histórico, o conflito, então, poderia ser produtivo para todos, tal como provado por décadas de políticas de bem-estar social que não se restringiram à Europa ou aos Estados Unidos de Roosevelt, mas deixaram marcas por toda parte, até no Brasil.

A nova “democracia cristã”, ao contrário, gostaria de generalizar ideias fora de lugar e de tempo – ideologias, exatamente –, como, em particular, o recurso demagógico a egoísmos nacionais e a extremado conservadorismo de valores. O primeiro de tais recursos choca-se, evidentemente, com os traços de uma época em que o gênero humano, provavelmente pela primeira vez, deixa de ser construção mais ou menos abstrata dos filósofos e passa a ser realidade imediata para cada indivíduo, em qualquer canto que esteja. Difícil contornar essa evidência apontando o dedo contra “globalistas”, uma vez que cada país se vê às voltas com fenômenos de todo tipo que escapam às próprias fronteiras. A interdependência, por isso, é o horizonte do nosso tempo para o bem ou, certamente, para o mal, se não soubermos construir os instrumentos capazes de governá-la.

*Celso Lafer: Ruy Barbosa

- O Estado de S.Paulo

Cabe destacar a atuação em prol da criação do espaço público democrático no País

Ruy Barbosa, que nasceu há 170 anos, usufruiu generalizado reconhecimento como ícone intelectual, admirado orador e advogado, homem de notável cultura e excepcional conhecimento da língua portuguesa. Seu legado permanece atual, cabendo destacar sua atuação em prol da criação do espaço público democrático em nosso país.

Na Oração aos Moços, discurso de paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – seu testamento político –, escreveu que estava encerrando seus trabalhos de vida sem os meios e as manhas do político tradicional. “Em compensação tudo envidei por inculcar ao povo os costumes da liberdade e à República as leis do bom governo, que prosperam os Estados, moralizam a sociedade e honram as nações.”

Entre seus serviços à Nação realço a ativa participação na campanha abolicionista. Sublinhou que a escravidão era a questão das questões, a que todas as outras se subordinavam, pois, “encarna em si o começo da solução de todas as demais”.

O Direito representou para Ruy o caminho do seu empenho político. Este foi o de ser “o mais irreconciliável inimigo do governo do mundo pela violência, o mais fervoroso predicante do governo dos homens pelas leis”, característica do civilismo que norteou suas duas campanhas presidenciais. A autonomia do jurista em relação ao poder é um traço marcante da sua personalidade e do sentido apostolar do seu percurso. Ele engloba na missão do advogado uma espécie de magistratura: a da justiça militante. Nisso inclui “não transfugir da legalidade para a violência”; “não antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patrocínios a estes contra aqueles”; não “quebrar da verdade ante o poder”; não colaborar em perseguições ou atentados, nem pleitear pela iniquidade ou imoralidade”; “não se subtrair à defesa das causas impopulares, nem à das perigosas, quando justas.”

Sua posição em defesa da inocência de Dreyfus, cuja relevância anteviu no calor da hora, repercutiu favoravelmente na diplomacia aberta, caracterizadora da Conferência de Haia de 1907, o primeiro grande ensaio da diplomacia multilateral no século 20 e momento inaugural da presença brasileira nos grandes foros internacionais.

Nela, como chefe da delegação do Brasil, Ruy contestou a igualdade baseada na força e sustentou, no âmbito do Direito Internacional Público, a igualdade dos Estados. Foi a primeira formulação brasileira da tese da democratização do sistema internacional e uma contestação ao exclusivismo, até então preponderante, do papel da gestão da vida internacional atribuído às grandes potências.

Clóvis Rossi: Brasil / EUA, se melhorar, estraga

- Folha de S. Paulo

Nunca antes na história os dois países foram tão amigos

O presidente Jair Bolsonaro embarca neste domingo (17) para Washington, para reaproximar o Brasil dos Estados Unidos.

De acordo com Bolsonaro e seu chanceler, Ernesto Araújo, o Brasil do PT havia se afastado de Washington por motivos ideológicos.

Bobagem. Pura fake news.

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, as relações entre Brasil e EUA estiveram em ponto ótimo, provavelmente o melhor da história. Assim continuaram com Luiz Inácio Lula da Silva.

Só sofreram um abalo com Dilma Rousseff, mas por culpa dos americanos (a espionagem nos telefones da então presidente), não por qualquer tipo de ranço ideológico do governo de turno.

Não é uma análise por ouvir falar. Fui testemunha direta de um punhado de cenas explícitas de engajamento muito amistoso de parte a parte.

Relembro uma, a mais emblemática delas, por envolver o sensível tema da proliferação nuclear.

Antes de uma visita de Lula a Teerã, em 2010, o presidente Barack Obama enviou carta a seu colega brasileiro indicando os pontos que deveriam constar de qualquer conversa com os iranianos.

A Folha obteve a carta depois e pôde comprovar que o acordo com o Irã (ao qual se somou a Turquia) seguia ponto a ponto o que Obama queria.

Inclusive no item crucial, de acordo com o presidente americano: o envio de 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para enriquecimento no exterior até o nível que só permitiria seu aproveitamento para finalidades pacíficas, nunca para a bomba.

Você acha, honestamente, que os EUA confiariam a um governante ao qual tivessem qualquer tipo de restrição, mais ainda ideológica, uma negociação nesse capítulo especialmente sensível?

O relacionamento entre os dois países chegou a um nível tão bom que, uma vez, o segundo homem da embaixada americana na época veio a São Paulo para uma conversa informal com dois ou três jornalistas.

Bruno Boghossian: O titereiro da Virgínia

- Folha de S. Paulo

Presidente dá poder a Olavo de Carvalho enquanto área sensível do governo fica parada

Jair Bolsonaro decidiu submeter mais um auxiliar a um espetáculo de humilhação. Nos últimos dias, ele drenou os poderes de Ricardo Vélez (Educação), forçou a demissão de pessoas de sua confiança e deixou o ministro pendurado no cargo como um morto-vivo. A campanha de degradação pública respinga no próprio presidente.

A crise começou quando Vélez resolveu demitir seguidores do ideólogo Olavo de Carvalho, responsável por sua indicação para a pasta. O padrinho não gostou e incitou um motim. Ele atacou militares e técnicos e, a certa altura, propôs que o ministro fosse posto para fora se não seguisse suas recomendações.

Bolsonaro interveio e acabou aniquilando Vélez. Primeiro, obrigou o ministro a demitir um assessor próximo que era criticado pelos olavistas. Depois, forçou a saída do número dois da pasta, alvo do mesmo grupo.

Na última semana, Bolsonaro disse que dera “carta branca” aos ministros para formar suas equipes, mas combinou que teria “poder de veto” sobre essas escolhas. Parece que, no caso da Educação, essa competência foi terceirizada para seu guru.

Janio de Freitas: A reação do cansaço

- Folha de S. Paulo

O fim da complacência com a Lava Jato ocorreu sob circunstâncias favoráveis

As quatro derrotas dos integrantes da Lava Jato, na última semana, oferecem uma percepção retardatária e bem-vinda. A força e a sequência das derrotas, apesar das pressões disseminadas pelo grupo, indicam o esgotamento da tibieza com que autoridades maiores se curvaram a tantos desmandos, à margem da ação legal contra a corrupção, daqueles juízes e procuradores associados. Alguns começam a ver as entranhas sob o papel corretivo da Lava Jato.

Se faltassem exemplos, o fundo financeiro idealizado por DeltanDallagnol e seus coordenados exibiria, por si só, todo o descaso do grupo, e de cada componente, por seus limites funcionais e legais. Deslocar R$ 2,5 bilhões de multa aplicada à Petrobras, tornando-os um fundo sob influência do grupo da Lava Jato, constituiu uma pretensão tão audaciosa, que exigiu práticas bem conhecidas dos procuradores e juízes moralizadores.

Primeiro forçar o acordo de desvio da multa devida à União ao Estado. Depois, firmar esse acordo, sem poder para tanto. Depois, incluir no projeto a ser examinado pela Justiça a afirmação falsa de que, nos termos negociados pela Petrobras para sua dívida nos Estados Unidos, ou os bilhões iriam para o tal fundo ou iriam para os americanos. É o grupo da Lava Jato aplicando os métodos de muitos dos seus presos e condenados por utilizá-los.

O Supremo Tribunal Federal destruiu o plano, dando motivo a uma decisão do ministro Alexandre de Moraes arrasadora, nos sentidos jurídico e moral. Já era a segunda derrota do grupo, porque sua chefe, a procuradora-geral Raquel Dodge, preferira abrir um conflito com a Lava Jato a admitir o negócio de fundo em nome do Ministério Público. Seu parecer pediu ao Supremo a rejeição do fundo e a anulação do acordo respectivo, por inconstitucionais no teor e inaceitáveis na forma de obtê-los.