*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-Rio. “A
senha do 11 de agosto”, Blog Democracia Política e novo Reformismo, 14/8/22.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*
Merval Pereira - O direito de escolha
O Globo
Segundo turno permite que o presidente da
República seja eleito por maioria absoluta
A campanha eleitoral que começa
oficialmente hoje já revela o retrocesso político a que estamos submetidos e a
ameaça de não termos futuro promissor à frente. A começar pela defesa do voto
útil no primeiro turno das eleições a favor do PT, uma contradição em termos.
Os dois turnos existem justamente para permitir que as forças políticas se
reagrupem no final, cada qual demonstrando sua capacidade de mobilização cívica
no primeiro.
Vencer no primeiro turno não deve ser uma
ação política, mas um movimento que revele a posição majoritária do eleitorado.
Enquanto houver uma múltipla escolha entre candidatos de posições distintas,
haverá a necessidade de um segundo turno para filtrar essas tendências e
permitir que o presidente da República seja eleito com maioria absoluta.
Essa maioria, no entanto, não deveria ser alcançada por sentimentos como medo ou abdicação da escolha do candidato que mais se aproxima do ponto de vista de cada eleitor. Escolher o menos ruim, como vem acontecendo reiteradamente nos últimos anos, deveria ficar para o segundo turno, assim como o voto nulo e outros tipos de protesto do eleitor insatisfeito com as escolhas que sobraram.
Míriam Leitão - No balanço dos números
O Globo
A corrida presidencial começa com o
favoritismo de Lula, e um ambiente econômico benéfico a Bolsonaro
A diferença a favor de Lula em São Paulo e
em Minas, de 10% e de 13%, reforça a posição do petista no Sudeste e confirma o
favoritismo de Lula nessa entrada oficial da campanha eleitoral, faltando
apenas 47 dias para a eleição no primeiro turno. O
resultado de 44% para Lula e 32% para Bolsonaro, pelo Ipec, marca um ineditismo.
Nunca um presidente disputou a reeleição numa situação tão desfavorável. Há
outros dados contra o presidente. No cenário do segundo turno, ele tem 35%, ou
seja, ganha apenas três pontos mostrando que tem mais teto que Lula. O
ex-presidente agrega sete pontos entre o primeiro e o segundo turnos.
Serão dias intensos. Todos os dias. Hoje, no Tribunal Superior Eleitoral, podem se encontrar Lula e Bolsonaro. Podem se ver também Dilma e Temer. O roteirista do Brasil capricha nas cenas emblemáticas. E eles estarão juntos na posse do ministro Alexandre de Moraes, que tem sido o mais duro com os bolsonaristas e foi indicado pelo ex-presidente Temer, que Dilma, ainda hoje, define como “o traidor”.
Carlos Andreazza - Bolsonaro contra a República
O Globo
Há graus de democracia. Algo de democracia
— geralmente a existência de calendário eleitoral — não raro legitimando a
atividade autoritária que mina os múltiplos mecanismos controladores do
exercício do poder.
A democracia que se pendura na realização
de eleições periódicas é frágil. A democracia brasileira está frágil. Mas ainda
uma democracia. É conversa de fácil convencimento. O senso comum associa
democracia à realização de eleições. Como pode ser golpista aquele que peleja
no voto?
Daí por que prefira falar em ataques à
República.
Bolsonaro foi eleito. Tentará a reeleição.
Tentará vencer a eleição cujo sistema desacredita. Não há incoerência nisso.
Trata-se de um populista autocrático. Depende da chancela do voto para
legitimar a posição que define o mito. Mesmo sob fraude, eleito por 58 milhões
de votos. Não é isso? Eleito com 58 milhões de votos; no entanto lutando contra
o establishment que não o deixa governar.
O voto é potência — fortaleza personalista — para o populista autocrático, que instrumentaliza a democracia e manipula o fetiche de que o eleito poderia tudo. Como pode um tribunal de togados sem votos limitar a vontade daquele que exprime o desejo soberano do povo? O voto é também disfarce — ou não será democrata o que disputa eleição?
Luiz Carlos Azedo - Campanha começa hoje com foco no Sudeste
Correio Braziliense
O confronto de Bolsonaro com
o ministro Alexandre de Moraes parece ter desanuviado, após o novo presidente
do TSE tê-lo convidado pessoalmente para a sua posse
A campanha eleitoral começa hoje com o foco
voltado para as pesquisas de intenções de voto realizadas pelo Ipec (sucessor
de Ibope) nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília,
Pernambuco e Rio Grande do Sul. Nos três estados do Sudeste, a disputa entre o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro começa
mais nervosa, porque são os três maiores colégios eleitorais do país. Os dois
deverão comparecer à posse do ministro Alexandre de Moraes na Presidência do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para a qual foram convidados todos os
ex-presidentes. José Sarney, Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff
confirmaram presença; Fernando Henrique Cardoso, não, devido a problemas de
saúde. A posse será um termômetro do clima da campanha eleitoral no plano
institucional.
O nervosismo que antecede os programas eleitorais de rádio e tevê, que somente começarão no dia 26 de agosto, já tomou conta das equipes de marketing dos candidatos. Por hora, está radicalizado nas redes sociais, principalmente entre petistas e bolsonaristas. O jogo bruto nas redes sociais tende a esquentar o clima político, mas essa pode não ser uma boa receita para os programas eleitorais de rádio e teve, a partir do próximo dia 26, que têm audiência difusa e não segmentada em bolhas de apoiadores como as redes sociais.
Alvaro Costa e Silva - Campanha de Bolsonaro vai além das fake news
Folha de S. Paulo
Na prática, explora o preconceito
religioso, ao lado de um caminhão de dinheiro
Rainha da ribalta na eleição de 2018, a
mamadeira de piroca é hoje uma vedete envelhecida que foi morar no Irajá. Ainda
resiste em programas de humor e marchinhas de Carnaval e se prepara para uma
tentativa de volta aos palcos na campanha ao Senado da ex-ministra da Mulher
Damares Alves. Acontece que ela perdeu o viço nas pernas longas e mentirosas.
Ao lado do kit gay e da Ursal, não consegue esconder a flacidez e as varizes.
Tanto que Damares foi chutada para escanteio por Bolsonaro, que preferiu apoiar a candidatura de Flávia Arruda, em mais um conluio com o centrão. Damares só voltou à disputa por artes de Michelle Bolsonaro, sincronizada com a ex-ministra no fanatismo religioso e, como a aliada, também useira e vezeira no artifício das fake news.
Hélio Schwartsman - Festival de fake news
Folha de S. Paulo
Embora deploráveis, só em raras ocasiões elas mudam o resultado de uma eleição
Começa oficialmente nesta terça (16/8) a
campanha eleitoral. A expectativa é que ela seja marcada por um festival de
fake news. Embora a humanidade conviva com mentiras ao menos desde o advento da
linguagem, não devemos desprezar seu potencial destrutivo. Elas não apenas
confundem como dificultam a manutenção e a formação de consensos sociais que
são importantes para a democracia.
Em algumas circunstâncias, podem revelar-se fatais. Não é pequeno o número de pessoas, em geral simpáticas a Jair Bolsonaro, que se deixou convencer pela pregação antivacinal do presidente e, por isso, não se imunizou. Paradoxalmente, os efeitos eleitorais das fake news tendem a ser mais restritos. É que a mesma arquitetura cerebral que faz de nós seres teimosos e interesseiros, pouco sensíveis às lições da ciência, nos protege parcialmente das fraudes de campanhas eleitorais.
Joel Pinheiro da Fonseca - Bolsonaro guarda um trunfo nas redes?
Folha de S. Paulo
Apesar da pesquisa
Ipec desta
segunda-feira (15), tudo indica que a corrida deve se acirrar nas próximas
semanas. A
economia trabalha a favor de Bolsonaro, mas não é só isso. Com o início da
campanha, a comunicação ganha ainda mais peso. E a fluência bolsonarista na
linguagem das redes sociais não foi igualada por ninguém, nem mesmo pelo Lula,
que construiu seu vínculo com o eleitorado numa outra era. Esse capital pode
ser o bastante para elegê-lo. Mas quando vai para as redes, fica claro que está
defasado.
Essa defasagem é recente. Dez anos atrás, nos
tempos daquele artefato pré-histórico chamado blog, o petismo reinava na
internet. Blogs a serviço do partido, que se faziam de sites de notícias,
veiculavam narrativas favoráveis ao mesmo tempo em que demonizavam a imprensa
séria, apelidada de PIG (Partido da Imprensa Golpista). O que mudou nesse meio
tempo foram as redes sociais e aplicativos de mensagem, que engatinhavam na
época e hoje dominam o espaço.
Há atores políticos que aprenderam a
navegar essas novas águas: André
Janones, que agora está com Lula, é um deles. O MBL é outro. Mas ainda são
poucos. Cabe elencar alguns pontos dessa nova comunicação.
Primeiro: para chegar a muita gente, precisa fazer barulho. Precisa chocar. Uma fala justa e ponderada terá dificuldade para ir longe. Uma afirmação taxativa e exagerada tem muito mais chance de viralizar. Atacar e ridicularizar o inimigo conta mais, infelizmente, do que um argumento sensato. Bom gosto, elegância; esses estão fora.
Adriana Fernandes - Bateria de bondades ainda não surte efeito nas pesquisas
O Estado de S. Paulo
Pesquisa Ipec em que Lula lidera com 12 pontos de vantagem é banho de água fria para a campanha do presidente
O início do Auxílio
Brasil turbinado de R$ 600, a redução dos preços dos combustíveis e o
anúncio da injeção de bilhões com “bondades” eleitorais até o final do ano não
foram até agora suficientes para alavancar a candidatura do presidente Jair
Bolsonaro (PL).
A primeira pesquisa eleitoral do Ipec feita neste ano,
contratada pela TV Globo e divulgada nesta segunda-feira, 15, pelo Jornal
Nacional, mostrou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança da
disputa para o Palácio do Planalto 12 pontos na frente de Bolsonaro. Lula com
44% e Bolsonaro atrás com 32% das intenções de votos
Foi um banho de água fria para a campanha do presidente na véspera do início oficial da campanha eleitoral, que começa esta semana. O time de Bolsonaro contava que a queda dos preços dos combustíveis, tema tão sensível para a população, já ajudaria a melhorar o apoio ao presidente com reflexo nas pesquisas.
Eliane Cantanhêde - Triângulo das Bermudas
O Estado de S. Paulo
Sudeste é decisivo e Lula tem vantagem em São Paulo e em Minas e empata com Bolsonaro no Rio
A pesquisa Ipec confirma a vantagem do
ex-presidente Lula, do PT, no Sudeste, região em que tanto ele quanto seu
principal oponente, o presidente Jair Bolsonaro, jogam todas as suas energias,
esperanças e fake news. Lula, para tentar uma improvável vitória em 1.º turno e
Bolsonaro, para conquistar condições de vencer.
No Rio, reduto eleitoral desde sempre de
Bolsonaro e onde o PT vem penando constante esvaziamento, a situação é
imprevisível, com empate técnico e leve vantagem para Lula, de 35% a 33%. Mas a
campanha petista pode comemorar os resultados em São Paulo e Minas Gerais.
A diferença de dez pontos em São Paulo, maior economia, maior população e maior eleitorado do País, tem peso e significado: 38% para Lula e 28% para Bolsonaro. Isso se reflete na disputa estadual, com Fernando Haddad, do PT, mantendo a liderança com folga (29%), e seus principais adversários disputando ponto a ponto.
Almir Pazzianotto Pinto* - O momento passou
O Estado de S. Paulo
Apesar do cheiro de golpe no ar, a
sociedade civil brasileira permanece em alerta. Sua arma é a Constituição
A ruptura violenta da ordem institucional é
algo que exige a conjunção de diversos fatores, para alcançar sucesso. Os
precedentes revelam ser indispensável cuidadosa preparação; que os agentes
sejam ousados, dispostos a morrer ou matar; que a opinião pública se deixe
apanhar de surpresa; e que o líder tenha inteligência, coragem e conte com as
Forças Armadas.
Em Técnica do Golpe de Estado, Curzio
Malaparte escreveu como Trotski, o teórico da revolução permanente, cujo nome
real era Lev Davidovitch Bronstein (1879-1940), dizia ser possível derrubar
qualquer governo quando a sociedade estivesse apática e desorganizada, se os
conspiradores dispusessem de pequeno grupo de homens bem armados, dotados de
coragem para ocupar, em poucas horas, posições estratégicas na capital do país.
O Brasil conhece algumas experiências de tentativas de golpes improvisadas, mal comandadas e fracassadas. A mais notória é a Intentona Comunista de 1935, liderada por Luís Carlos Prestes. Esmagada sem clemência pelo Exército, deixou como legado a implantação da ditadura de Getúlio Vargas em 10/11/1937, com a edição da Carta Constitucional de 10/11/1937. O preâmbulo, escrito por Francisco Campos, justificava o golpe, deflagrado para atender “ao estado de apreensão criado no País pela infiltração comunista que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda, exigindo remédios de caráter radical e permanente”.
Andrea Jubé - Três décadas de embates com a democracia
Valor Econômico
Passou da hora de Jair Bolsonaro rever sua
relação com a democracia, sistema aclamado pela maioria expressiva dos
brasileiro
Faz 35 anos que o então capitão do Exército
Jair Bolsonaro respondeu pela primeira vez pelo envolvimento em atos de
natureza antidemocrática. “Não há dúvida de que toda essa movimentação tem
ramificações, está articulada com a extrema direita militar e civil e tem o
objetivo real de desestabilizar o processo de transição democrática”, afirmou o
professor e coronel da reserva Geraldo Cavagnari Filho, um dos principais
estudiosos da questão militar no Brasil, em entrevista ao Jornal do Brasil, em
27 de outubro de 1987.
O Brasil não havia completado a passagem para a democracia, iniciada com a eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 (e subsequente posse de José Sarney) e que teria o seu apogeu com as eleições diretas para presidente em 1989, após um hiato de 29 anos.
Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Democracia representativa está sendo "comida pelas beiradas"
Ora, as eleições de outubro próximo devem tornar mais visível o chamado "mandado coletivo”, o novo modelo de representação popular, introduzido no Brasil, exercido, em conjunto, por co-parlamentares. Até segunda-feira (15) já haviam 217 candidatos inscritos no Tribunal Superior Eleitoral para mandatos compartilhados para vereador, deputado, senador. E se Darcy estivesse por aqui ele, certamente, estaria defendendo candidaturas para prefeito, governador e - quem sabe -até para presidente da República. Em vários estados o modelo está sendo adotado, especialmente em São Paulo - Seria o caso de Lula e Alkmin?!- e Pernambuco. Mas, os candidatos coletivos pernambucanos já estão recebendo votos até de Fernando de Noronha.
Pelo visto, está entrando em crise, no Brasil, a democracia representativa, em que o parlamentar é eleito por milhares de pessoas prometendo "mundos e fundos" à população, sem precisar cumprir, nem prestar contas: deputados, só fazem isso de quatro em quatro anos, em campanhas para a reeleição; e senadores, de oito em oito. Esse modelo tende a implodir ao longo dos próximos pleitos. O eleitorado vai, aos poucos, desiludindo-se do sistema representativo que alimenta interesses particulares e um populismo fantasioso.
O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões
Editoriais / Opiniões
Risco paternalista
Folha de S. Paulo
Na campanha, poder de censura de juízes
eleitorais deve ser usado com parcimônia
Ante a agenda autoritária do presidente da
República, ressalta-se no pleito deste ano a principal virtude do sistema de
votação brasileiro, a de ser conduzido pelo Tribunal Superior Eleitoral —um
árbitro nacional, constitutivamente neutro e distanciado das tarefas de
governar e aprovar as leis.
Já entre os aspectos desafiadores desse
modelo está o padrão excessivo das intervenções da Justiça nas liberdades de
partidos e eleitores.
O labirinto de restrições e minudências
parte da própria legislação e se acentua pela atuação dos juízes, dentro da
prática pouco moderna de considerar o eleitor alguém hipossuficiente, a ser
protegido das artimanhas dos candidatos.
A campanha começa oficialmente apenas nesta
terça-feira (16), mas o TSE já proibiu a veiculação de vídeos porque considerou
que continham pedidos de votos antes do período permitido, utilizavam
termos ofensivos, faziam conexões indevidas ou valiam-se de canais
oficiais para elogiar o combate federal à Covid-19.
Se depender da Procuradoria que atua na corte, vai para o índex dos vídeos proibidos a investida infame do presidente Jair Bolsonaro (PL) contra o sistema eleitoral brasileiro diante de embaixadores estrangeiros. Essa documentação histórica de um dos pontos mais baixos já atingidos pela diplomacia nacional jamais deveria ser apagada.