terça-feira, 30 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Déficit primário acende alerta sobre meta fiscal

O Globo

Mesmo levando em conta ressalvas sobre precatórios e auxílio a estados, resultado ficou aquém do previsto

O anúncio do Tesouro Nacional a respeito do desempenho das contas públicas em 2023 deve servir de alerta ao governo federal sobre os desafios para 2024. O resultado foi pior que o prometido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no início de 2023, quando falou num déficit inferior a R$ 100 bilhões. O número anunciado ficou acima da meta oficial, de até R$ 213,6 bilhões no vermelho. A União registrou déficit de R$ 230,5 bilhões, ou 2,1% do PIB. Foi o pior resultado desde o início da série histórica, em 1997, com a exceção de 2020, primeiro ano da pandemia.

É verdade que esse número precisa ser lido com ressalvas. Ele considera o gasto extraordinário para regularizar as pedaladas do governo Jair Bolsonaro com a quitação das dívidas sem possibilidade de recurso na Justiça, os precatórios. E inclui outro esqueleto da administração anterior: pagamentos para compensar estados e municípios pelas perdas em 2022 com a redução do ICMS. Descontando os precatórios do resultado primário — como determina decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) —, o déficit primário ficou em R$ 138,1 bilhões, ou 1,3% do PIB. E retirando a ajuda aos estados, em R$ 117,2 bilhões. Ainda assim, acima do que previa Haddad no início do ano.

Merval Pereira - A realidade se impõe

O Globo

As informações da PF, que investiga ações da Abin durante o governo Bolsonaro, levam à quase certeza de que realmente foi montado um esquema paralelo para servir de apoio ao presidente e a seus filhos

O estilo tosco e boquirroto do ex-presidente Jair Bolsonaro se volta contra ele na maioria das vezes. Pode até entusiasmar parte de seus seguidores, aqueles que querem sangue, mas acaba produzindo provas contra si mesmo. É o caso, para citar apenas um, dos ataques que proferiu de um palanque contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Tão grave foi a investida que Bolsonaro, assessorado por Michel Temer, teve de pedir desculpas numa carta pública.

É o caso, agora, da intervenção na Agência Brasileira de Inteligência com a intenção de formar uma “Abin paralela” para espionar adversários políticos e obter informações sobre investigações que pudessem atingi-lo e sua família. Nada mais espontâneo, justamente porque ele não vislumbrava a possibilidade de o vídeo ser divulgado, do que a exortação de Bolsonaro na famosa reunião ministerial de 2020 em favor de um sistema de informações mais eficiente para proteger sua família e seus amigos.

Dora Kramer - Amargo regresso

Folha de S. Paulo

Daqui em diante, Congresso será mais hostil do que nunca na relação com o Planalto

Congresso Nacional volta do recesso nesta semana mais hostil do que nunca em relação ao Planalto. O presidente da República teve um ano para ajeitar a base, fazer o que seria de se espertar de sua festejada competência política aliada à experiência dos mandatos anteriores, além de um aprendizado de escândalos decorrentes do convívio com o Legislativo escrito por linhas tortas.

Luiz Inácio da Silva (PT) teve outras prioridades em 2023 e dedicou-se a elas confiante na ideia de que o Senado lhe seria mais amigável e a Câmara estaria pacificada se não atrapalhasse a vida de Arthur Lira (PP-AL) na renovação do comando da Casa.

Alvaro Costa e Silva - O voto na arapongagem

Folha de S. Paulo

PL sabia que Alexandre Ramagem era investigado e pagou para ver

Maior e mais rico partido (R$ 863 milhões de fundo para as eleições deste ano), o PL, quanto mais tenta, mais se complica na escolha do candidato a prefeito do Rio. Se for mantido na disputa, Alexandre Ramagem —alvo da operação da PF que acusa a Abin de espionagem ilegal para Bolsonaro— terá de conviver ao longo da campanha com os desdobramentos do escândalo, que é daqueles que prometem mais revelações escabrosas. No momento, a mira é o filho 02, Carlos.

Bolsonaro ainda chorava (longe do Brasil, na Flórida) as pitangas da sua dupla derrota, na reeleição e no ensaio de golpe, quando surgiu a informação de que ele tentaria a volta por cima na cidade que o viu nascer como político. Provavelmente a candidatura era delírio de puxa-saco, e logo o ex-presidente se tornou inelegível.

Joel Pinheiro da Fonseca – Os fatos e tudo a seu redor

Folha de S. Paulo

Assunto do dia deixou de ser os fatos graves que motivaram a investigação e passou a ser o que fizeram com esses fatos

Naquela infame reunião ministerial de 22 de abril de 2020, cujo vídeo circulou o país na época da denúncia de Sergio Moro sobre a interferência presidencial na Polícia Federal, Jair Bolsonaro falou de um sistema particular de informação, em oposição aos oficiais, que não funcionavam a contento. Poderia isso ser uma referência a um uso ilícito da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), uma "Abin paralela" que, por meio do delegado Alexandre Ramagem passava ao presidente e seu núcleo duro informações sigilosas sobre operações policiais e adversários políticos?

A PF já tem algumas provas, como troca de mensagens entre assessora de Carlos Bolsonaro e auxiliar de Ramagem na qual ela pede informações sobre inquéritos policiais. Por esse motivo, celulares e computadores na casa de Carlos Bolsonaro foram apreendidos. A coisa já é grave o bastante por si só.

Eliane Cantanhêde - Abin e gabinete do ódio

O Estado de S. Paulo

Como na pandemia, quem deu pistas e provas sobre o ‘SNI particular’ foram Bolsonaro e os seus

Apesar da reação da família Bolsonaro e seus seguidores, qual a surpresa na operação da Polícia Federal para aprofundar as provas, que não são poucas, contra o vereador do Rio Carlos Bolsonaro? O próprio Jair Bolsonaro, como presidente, admitiu ter um SNI “particular”. O ex-ministro Gustavo Bebianno denunciou no Roda Viva que Carlos comandava “uma Abin paralela”. O general e exministro Santos Cruz saiu indignado com as traquinagens dos “meninos” no governo. E o “gabinete do ódio” revelado pelo nosso Estadão, era para quê?

Luiz Carlos Azedo - Inquérito da "Abin paralela" chegou ao clã Bolsonaro

Correio Braziliense

As ligações da "Abin paralela" com o chamado "Gabinete do ódio", supostamente comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro, é que justificaram as operações desta segunda-feira

Ward Littell, ex-agente do FBI, advogado de Howard Hughes, e Pete Bondurant, ex-agente da CIA, anticomunista fervoroso, são dois personagens noir de Tabloide Americano, de James Ellroy, considerado o melhor romance de 1996 pela crítica norte-americana. Descreve a trama política e mafiosa cujo desfecho foi o assassinato do presidente John Kennedy, em Dallas, no dia 22 de novembro de 1963. Os glamourosos bastidores da Casa Branca são devassados pelos serviços de inteligência.

John Kennedy tinha um caso escancarado com Marilyn Monroe; o magnata Howard Hughes, que financiava a extrema direita supremacista, era um paranoico drogado; Ava Gardner traía Frank Sinatra. O senador Robert Kennedy, que também viria a ser morto, investigava a máfia; o poderoso chefe do FBI, J. Edgard Hoover, vigiava os "comunistas" e o presidente da República; e a CIA investiga todo mundo. Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, era o pretexto para toda sorte de atividades ilegais.

Christopher Garman* - Brasil e os riscos geopolíticos de 2024

Valor Econômico

Desafio do governo é imprimir política industrial que atraia investimentos, mas sem os erros do passado

O Brasil já começou a receber as primeiras luzes dos holofotes externos deste ano: na última segunda-feira (29), o Rio de Janeiro sediou a reunião de abertura do B20 - grupo que representa o braço privado do G20, as maiores economias do mundo. A reunião desta semana é uma de várias que antecedem a cúpula do G20, que acontece no país em novembro.

A boa notícia é que o Brasil tem uma bela janela de oportunidade externa - que o país pode aproveitar durante sua presidência do G20. Muito provém das especificidades dos riscos geopolíticos à frente e das vantagens competitivas do país.

No topo da lista de riscos estão três conflitos que não dão sinais de melhora: as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e o conflito interno nos EUA, que ficará mais evidente com as eleições do país em novembro. Um quarto risco está associado à falta de governança da inteligência artificial - que, ao mesmo tempo em que oferece um enorme potencial de aumento de produtividade, exacerba o potencial de desinformação nas eleições.

Antonio Ricardo Alvarez Alban* - Quem é contra a nova política industrial é contra o Brasil

Valor Econômico

Novo plano para indústria se assemelha ao que tornou o Brasil a grande referência do agronegócio e tem ações direcionadas aos desafios postos pelo cenário atual

Abastece com etanol? Compra remédio mais barato? Viaja num dos aviões mais modernos e seguros do mundo? Consome proteína animal que abastece o mundo ou eletricidade com motores elétricos? Temos celulose com sustentabilidade e crédito de carbono? Agradeça à política industrial. O que nos leva ao acalorado debate que temos observado a partir do lançamento da Nova Indústria Brasil, em 22 de janeiro, sobre se o Estado deve exercer maior ou menor papel em conduzir os caminhos para o desenvolvimento do país.

Afinal, do que trata e o que pretende a Nova Indústria Brasil e por que ela deve ser apoiada não só pela indústria? De forma resumida, seu fio condutor é alinhar agentes públicos e privados para posicionar o Brasil frente aos desafios contemporâneos. Isso se dá por meio de quatro temas transversais: inovação, produtividade, descarbonização e exportações, tendo a indústria como elemento central na indução de um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social.

Andrea Jubé - Lula, Alckmin e as vítimas das eleições

Valor Econômico

Eleição municipal em São Paulo colocará o presidente e seu vice em palanques diferentes

Tancredo Neves, até hoje uma das raposas mais felpudas da política brasileira, dizia que “não se faz política sem vítima”. A eleição municipal em São Paulo testará essa máxima num cenário em que, após a vitória juntos em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) voltarão a se enfrentar em lados opostos. fará campanha para a chapa Guilherme Boulos (Psol) e Marta Suplicy (PT) para a prefeitura, enquanto Alckmin pedirá votos para a deputada Tabata Amaral, que lançou a pré-candidatura pelo PSB. Lula é esperado para o ato de (re)filiação de Marta ao PT nesta sexta-feira (2).

A seis meses do início da campanha, aliados do presidente especulam, em conversas reservadas, que Lula atuará para enterrar a candidatura de Tabata assim como fez com o ex-governador Márcio França (PSB) - hoje ministro do Empreendedorismo -, que desistiu de concorrer ao Palácio dos Bandeirantes em 2022 para apoiar o então postulante do PT, Fernando Haddad.

Maria Cristina Fernandes - Cercado, Bolsonaro acena a Ramagem e a militares

Valor Econômico

Investigações sobres suspeitas de 'Abin paralela' avançam sobre gestão do ex-presidente

decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, que autoriza a ação de busca e apreensão da Polícia Federal nos endereços do vereador Carlos Bolsonaro é de sábado, 27 de janeiro, e o mandado de busca e apreensão só sairia dois dias depois, na segunda, 29.

O intervalo, que é de praxe, permitiu que a família Bolsonaro realizasse a "live" que estava programada para a noite de domingo. Publicamente, o encontro se destinava a promover o site dos irmãos Flávio (senador), Eduardo (deputado federal) e Carlos que vende um curso para quem quiser disputar as eleições municipais. Dois comportamentos, porém, indicam que havia muito mais em curso.

Além do acanhamento do vereador, o que menos falou e mais foi interrompido pelo pai, entre os três irmãos que participaram do encontro, foi o ex-presidente Jair Bolsonaro que guiou a cena. Movimentou-se para blindar os entrepostos da operação que mira, como ficou claro, a si próprio.

César Felício - Judiciário fecha cerco a Bolsonaro e mantém protagonismo político

Valor Econômico

STF, que vem prorrogando inquéritos permanentemente, reembaralha as cartas todo o tempo

operação da Polícia Federal que teve como alvo o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos) foi desencadeada horas depois do lance inaugural do clã para as eleições desse ano, uma "superlive" (expressão deles) de Carlos, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por coincidência, transmitida da mesma casa em Angra dos Reis (RJ) de onde o patriarca e Carlos foram encontrados durante o mandado de busca e apreensão.

Essa circunstância, em um primeiro momento, energiza a base eleitoral da extrema-direita no Brasil. Assim como acontece com a de Donald Trump nos Estados Unidos, também sob cerco judicial. Assim como aconteceu com a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando foi preso em 2018.

Como “Carluxo” sabe de cátedra, o eleitor capturado por uma liderança carismática seleciona os fatos nos quais acredita. Só ganha o selo de verdade aqueles acontecimentos que coincidem com suas vontades.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - O Lutador

 

Música | Chico Buarque / Mônica Salmaso - Biscate