sábado, 24 de julho de 2021

Marco Aurélio Nogueira* - O poder, os tiranos e os piores

O Estado de S. Paulo

O poderoso tirânico cerca-se de cópias de si mesmo, incompetentes, ignorantes, vulgares

Seja no Estado, no mercado ou na sociedade civil, o poder arrebata. Não há quem escape de seu fascínio. Ele oferece vantagens e recompensas, mesmo que também traga sacrifício e sobrecarga.

São as recompensas que seduzem. Ver-se obedecido, admirado e elogiado faz brilhar os olhos de muita gente. É o que leva a que se cometam excessos e estripulias, cresçam as ilusões e os autoenganos. O poderoso nunca está sozinho. Seu círculo mais próximo é fonte permanente de intrigas, inveja e cobiça, o que provoca atritos e colisões. O poder não pode tudo. Numa democracia, tem de se haver com o povo livre, a sociedade civil, o sistema de controles, os demais poderes.

O poder fascina anjos e demônios, pessoas com vocação para o bem público e pessoas mesquinhas, agarradas aos próprios interesses. Quando um anjo se deixa seduzir pelo poder, ele perde integridade e pujança reformadora. Seus planos e projetos deixam de ser factíveis e se tornam dependentes de acordos espúrios, batendo às portas da corrupção. Quando um demônio chega ao poder, ele se realiza como excrescência perversa. Exala maldade por todos os poros e trafega pelos becos escuros da sociedade, onde vicejam a boçalidade, a ignorância, a violência, o desregramento. Alia-se a quadrilhas e redes corruptas, na ilusão de conseguir com elas uma base sólida de apoio e financiamento. Apela para manobras populistas para chegar ao povo, mas o seu é um populismo regressista, malévolo, mais nefasto que qualquer outro.

Cristovam Buarque* - As armas dos desarmados

Blog do Noblat / Metrópoles

Nossas Forças Armadas parecem estar sempre do lado das forças civis conservadoras que defendem o status quo

O Brasil tem o privilégio de não ter conflito com vizinhos, ou mesmo com países distantes, nem motivações imperialistas. Nosso Exército surgiu para consolidar o território nacional, Com exceção da guerra contra a invasão paraguaia e da heróica participação na defesa da democracia nos campos de batalha da Itália, nossos tanques de guerra, mesmo quando silenciosos, parecem apontar para os centros do poder civil, o Planalto, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal. A história mostra que nossas Forças Armadas se sentem um poder moderador, pronto para intervir diante da corrupção, de desmandos ou do que eles considerem desvios ideológicos dos políticos civis.

Com exceção da Abolição e da República, e da luta contra o fascismo na Europa, nossas Forças Armadas parecem estar sempre do lado das forças civis conservadoras que defendem o status quo contra a distribuição de riquezas e aumento nos direitos dos trabalhadores. Mas saíram delas líderes comunistas como Prestes e Lamarca, além de muitos oficiais, generais, almirantes e brigadeiros, presos, cassados e expulsos em 1964.

Ascânio Seleme - O cheiro do golpista

O Globo

Braga Netto tem sotaque de golpista, cacoete de golpista e é amigo e subordinado do golpista-mor da República. Só por um milagre ele próprio não seria um golpista potencial

Pode não ser verdade, mas é bem provável que seja. O episódio golpista que envolveu o general Braga Netto, ministro da Defesa, tem traços genuínos e cheiro de verdade. Só o “Estadão”, que publicou a matéria em que conta a ameaça às eleições feita pelo general, pode garantir a veracidade da informação. E o jornal não só garantiu como reafirmou sua convicção na correção da matéria. Todos os demais podem afirmar que ela é bem provável, ou muito provável, ou mais do que provável. O general tem sotaque de golpista, cacoete de golpista e é amigo e subordinado do golpista-mor da República. Só por um milagre ele próprio não seria um golpista potencial.

Braga Netto é também subserviente ao presidente de maneira absoluta. Parece um cão de guarda, com a diferença que o militar age por vezes por imitação. O cachorro só se manifesta se ordenado pelo dono. A ameaça do general teria ocorrido depois de inúmeras declarações de Bolsonaro no mesmo sentido. No dia 8 deste mês, o presidente reafirmou que poderia não haver eleição se ela não fosse auditável (que na linguagem golpista significa voto impresso). Bolsonaro falou no cercadinho do Alvorada ao grupo de cegos apoiadores que aplaudem e riem de todas as suas tolices. No mesmo dia, Braga teria mandado alguém avisar o presidente da Câmara que se a eleição não for com voto impresso e auditável não haverá eleição em 2022. Alguma dúvida?

Um acinte. Um abuso. Uma violência típica de generaleco de republiqueta. Pode não ter ocorrido, mas Braga já deu outras demonstrações de seu afeto ao golpismo. Na posse do comandante do Exército, no dia seguinte à sua própria posse na Defesa, o general disse que as Forças Armadas estariam prontas para garantir a manutenção do projeto escolhido nas urnas pelos brasileiros. Seria o mesmo se dissesse que os militares não aceitariam um revés que ameaçasse o mandato de Bolsonaro, o presidente que cometeu mais de 30 crimes de responsabilidade pelos quais poderia ser legalmente afastado. Sob qualquer ângulo que se veja, aquela declaração só poderia ser feita por um general golpista, querendo entrar com o seu coturno pesado num jogo para o qual não foi convidado.

Pablo Ortellado – E a Venezuela?

O Globo

Militantes de esquerda ficam muito irritados quando seus políticos são questionados por jornalistas sobre Cuba ou Venezuela. Acreditam que esse tipo de pergunta é capciosa, uma espécie de espantalho que busca amedrontar o eleitorado e desviar a atenção dos temas substantivos de políticas públicas.

O antigo mal-estar foi reavivado agora quando diversos políticos de esquerda, entre eles o ex-presidente Lula, deram declarações apoiando a ditadura cubana, que enfrenta uma onda de protestos.

A esquerda não gosta de ser comparada a Bolsonaro em sua falta de compromisso com a democracia. Em parte tem razão: nos 13 anos de governos petistas não houve nenhum movimento relevante de esmorecimento da ordem democrática. Apesar de declarações criticando a imprensa ou ataques a movimentos de protesto, não houve nenhuma ação dos governos de esquerda que minimamente se aproximasse das rotineiras ameaças de Bolsonaro à integridade das eleições, à independência dos Poderes ou à liberdade de imprensa.

Carlos Alberto Sardenberg - Os bilhões da velha política

- O Globo

Mantidas as atuais regras, os partidos políticos brasileiros receberão em 2022, ano eleitoral, algo perto de R$ 9 bilhões. Dinheiro do contribuinte para financiar o dia a dia dos partidos e suas campanhas eleitorais para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais.

É muito mais do que jamais receberam. É muito mais do que o país que mais gasta com financiamento público da política, a França (menos de R$ 300 milhões, feitas as devidas conversões de moeda — e conforme dados e observações obtidos por José Paulo Cavalcanti Filho, escritor e advogado).

Por aqui, será assim: o fundo partidário distribuirá R$ 1 bilhão. O fundo eleitoral, tal como aprovado na Lei de Diretrizes Orçamentárias, prevê R$ 5,7 bilhões para as campanhas. Os partidos terão ainda direito ao horário “gratuito” no rádio e na TV. É gratuito para eles, mas custa para o contribuinte, já que as empresas podem deduzir o custo do tempo cedido dos impostos que pagam. Não se sabe exatamente o valor dessa renúncia fiscal, mas não estará longe quem estimar algo entre R$ 1,5 e R$ 2 bilhões.

Ricardo Noblat - Está só começando o assalto do Centrão ao governo Bolsonaro

Blog do Noblat / Metrópoles

Para pelo menos completar o mandato, o presidente entrega os anéis, os dedos e o que mais for necessário

Fosse bem o governo, o presidente Jair Bolsonaro não precisaria abrir a porta para a entrada do Centrão, o que ele sempre negou que faria. Como o governo vai mal e o sonho da reeleição cada vez mais distante, restou-lhe dar o dito pelo não dito.

Não foi o Centrão que meteu o pé na porta, foi o presidente que lhe estendeu o tapete vermelho e pediu que entrasse. Nada tem a ver com um lance de ocasião do tipo ceder os anéis e preservar os dedos. Haverá de ceder os dedos e muito mais.

Consentido por Bolsonaro, o assalto do Centrão ao governo está só começando. Uns tantos quintos colunas ali já estavam instalados, mas perdiam de longe para os militares em matéria de influência. Em breve, o placar deste jogo será invertido.

Hélio Schwartsman - Está faltando coragem

Folha de S. Paulo

No Brasil de hoje o que mais vemos são militares fugindo da raia

Se você perguntar a uma criança de sete anos qual é a principal virtude de um militar, são grandes as chances de que ela responda "coragem". Nas historinhas infantis, que exercem forte doutrinação sobre a molecada, é onipresente a figura do bravo soldado que, ignorando riscos à própria segurança, enfrenta e subjuga o inimigo.

No Brasil de hoje, porém, o que mais vemos são militares fugindo da raia. Ao ministro da Defesa, general Braga Netto, parece faltar bravura para assumir a responsabilidade por suas próprias ações. De acordo com apuração do jornal O Estado de S. Paulo, o ministro mandou ao Legislativo um recado sugerindo que, sem voto impresso, não haveria eleição. Confrontado com o golpismo, se esconde atrás de negativas pouco convincentes.

Cristina Serra - Golpe? Que golpe?

Folha de S. Paulo

Demorou, mas finalmente as instituições se mexeram e foi criada a CPI da Covid

Vai ter golpe? Não. Já teve. Não sei se você lembra, mas foi em 2016, contra Dilma Rousseff. Como o espaço é curto, eu vou resumir. Teve o tuíte golpista do general Villas Bôas ao Supremo, Lula foi preso, não pôde participar da eleição e Bolsonaro foi eleito, enquanto as instituições, claro, funcionavam normalmente. Sim, teve o Moro, hoje, sabe-se, um juiz suspeito.

Tudo ia muito bem para essa gente. Mas, no meio do caminho tinha uma pandemia. Demorou, demorou, mas, ufa, finalmente, as instituições se mexeram e foi criada a CPI da Covid. Eis que os senadores descobrem fortes indícios de corrupção na negociação para comprar vacinas! As suspeitas envolvem coronéis e o general da ativa que foi ministro --e também encostam em Bolsonaro.

Alvaro Costa e Silva - Com centrão, com golpe, com tudo

Folha de S. Paulo

A máscara de Bolsonaro caiu, e ele está como pinto no lixo

Para aprender a sobreviver e evitar surpresas desagradáveis, o urubu de baixo observa o de cima. Dos 35 aos 63 anos, tempo em que exerceu o mandato de deputado federal, Bolsonaro catou as migalhas do bolo —um desvio de dinheiro público por funcionários fantasmas ali, um superfaturamento nos gastos com gasolina acolá— e caprichou na postura histriônica. Entre outros absurdos, propôs a obrigatoriedade de cantar o Hino Nacional com a mão no peito. Ninguém lhe dava bola, e ele foi remoendo o ressentimento e aprendendo como a grande máquina funciona.

Demétrio Magnoli - Três traduções do interesse coletivo

Folha de S. Paulo

França e Austrália combatem coronavírus com leis; no Brasil, é puro arbítrio

Na França, só se entra em cinemas e museus com prova de vacinação ou teste negativo —e logo a regra valerá para shoppings, cafés e restaurantes. Na Austrália, nova rodada de lockdowns atinge a maioria da população, enquanto a Europa volta à quase normalidade.

No Brasil, prefeitos cassam o direito à imunização dos chamados “sommeliers da vacina” —e recebem aplausos de ilustres comentaristas. Interesse coletivo versus direitos individuais, em três versões.

Vacinar é direito individual ou dever cívico? O governo francês decidiu-se pela segunda alternativa.

Manifestações populares conduzidas pela extrema direita ou pela extrema esquerda contestam o “arbítrio estatal”.

Há uma certa graça nas cenas de líderes extremistas, admiradores de Putin ou do castrismo, engajando-se na apologia dos direitos civis.

João Gabriel de Lima - As renas voadoras e o delírio do voto impresso

O Estado de S. Paulo

Temos demandas urgentes, e a urna eletrônica, que nunca deu problema, não está entre elas

Papai Noel existe e singra os céus em seu trenó de renas voadoras. Houve fraude nas eleições americanas de 2020. Só o voto impresso pode evitar que aconteça o mesmo no Brasil em 2022.

Em 2020, alguns americanos acreditaram em renas voadoras – ou melhor, no delírio de Donald Trump sobre fraude nas urnas. Trump passou. A democracia americana continua. Nem Trump impediu que o debate eleitoral de 2020 fosse um dos mais interessantes dos últimos tempos.

Uma das melhores coisas das eleições nos Estados Unidos são as primárias. Elas existem desde o início do século 20 – mas, como lembra o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, professor do Insper, só em 1972 adquiriram o formato atual. Carlos Eduardo, que cobriu várias campanhas americanas como correspondente internacional, é o entrevistado do minipodcast da semana.

As primárias americanas possibilitam que os pré-candidatos apresentem projetos para o país. Paralelo à polarização, o debate de 2020 foi especialmente rico. Joe Biden venceu com seu progressismo moderado, herdeiro de Barack Obama. Ficou no meio do caminho entre Bernie Sanders, que empolgou o eleitorado esquerdista, e a ala moderada do Partido Republicano, que entrou na conversa para dizer que nada tinha a ver com Trump. O eleitor americano acompanhou o debate em artigos de opinião publicados nos principais jornais e fez sua escolha.

Aloísio de Toledo César* - A defesa militar do voto impresso

O Estado de S. Paulo

Os assuntos políticos são da competência exclusiva daqueles que foram eleitos pelo voto

Aquele que tem a espada nas mãos pode sentir a compulsão de atirá-la sobre a mesa na hora da negociação. Essa é a conclusão que se extrai da ameaça que o general Walter Braga Netto, ministro da Defesa, fez ao País quando avisou ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que se não houver voto impresso não haverá eleição no ano que vem.

O general em questão está ocupando o cargo de ministro da Defesa para a defesa do Brasil, e não de uma posição política absolutamente torpe, que seria a continuidade do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Ele não tem que se meter nesse assunto político, que é da competência exclusiva daqueles que foram eleitos pelo voto.

Para agradar ao presidente da República, assim como se estivesse gostando muito de permanecer no cargo de ministro, o general não precisaria curvar-se tanto. A sua obrigação, assim como de qualquer outro brasileiro, é esperar que Jair Bolsonaro cumpra o seu mandato até o último dia, mas sem jamais encompridá-lo por mais tempo ao pretexto de não termos voto impresso.

Marcus Pestana* - Seria o semipresidencialismo uma boa alternativa?

O Brasil é um país jovem. Em 2022, comemoraremos 200 anos da nossa Independência, após três séculos marcados pelo escravismo colonial. A República fará 133 anos de existência. Até 1930, tivemos um período dominado pelas oligarquias regionais, onde analfabetos e mulheres não tinham direito a voto e as eleições eram visivelmente manipuladas. Mesmo a Revolução de 30 foi liderada por elites excluídas do pacto do poder. Logo à frente, Vargas decretaria o Estado Novo, iniciando seu período ditatorial.

Períodos democráticos foram poucos. De 1945 a 1964, tivemos a primeira experiência democrática. Ainda assim, os analfabetos não votavam, o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade, tivemos o traumático suicídio de Getúlio Vargas, sucessivas tentativas de derrubar JK, a renúncia de Jânio Quadros, o arranjo parlamentarista de 1962 e a queda de João Goulart. Experimentamos 21 anos de governos autoritários.

Derivado da histórica campanha das Diretas-Já, assistimos o reestabelecimento da democracia com a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985, e a nova Constituição democrática de 1988. Esse ciclo sobrevive até hoje, representando os 36 anos mais livres e democráticos de nossa história. Ainda assim, tivemos diversas crises econômicas desestabilizadoras e dois impeachments, com o afastamento de Collor e Dilma. Agora, novamente o Congresso analisa a possibilidade de um processo de impeachment.

Claudio Ferraz - Um golpe sem tanques?

O Globo

Uma quebra institucional terá consequências econômicas nefastas para o país, algo subestimado por boa parte da elite

A democracia brasileira viverá nos próximos meses sua maior prova de fogo desde a redemocratização, em 1985. Temos um presidente da República que desrespeita diariamente as instituições e ameaça as próximas eleições caso não seja aprovada uma reforma que introduza o voto impresso e auditável.

Para piorar a situação, ele conta com o respaldo das Forças Armadas, que ocupam um papel central em seu governo e ecoam suas ameaças.

A resposta institucional dos outros poderes é tímida e insuficiente. Alguns membros do Congresso, capturados por rios de dinheiro provenientes de emendas obscuras, já embarcaram na coalizão BolsoCentrão faz tempo. Outros buscam reformas políticas bizarras e casuísticas que visam equacionar a preservação do poder político com a continuidade democrática.

Adriana Fernandes - Põe na conta

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro quer recuperar popularidade com pacotão de emprego e passar fatura ao Sistema S

Sistema S é peça-chave nos planos do governo Bolsonaro de lançar um programa de estímulo à qualificação profissional e contratação de jovens e trabalhadores informais de baixa renda.

É um “pacotão” de emprego com dois programas dentro dele e dois tipos de benefícios (BIP e BIQ), que podem garantir pagamento direto de uma bolsa de R$ 550 para incentivar a contratação de jovens que não conseguem emprego e pessoas que estavam no Bolsa Família.

O BIP (Bônus de Inclusão Produtiva), de R$ 275, financiado com recursos do Sistema S, e o BIQ (Bônus de Incentivo à Qualificação), também de R$ 275, pela empresa.

Num segundo programa, o BIP de R$ 275 seria concedido para jovens com dificuldade de conseguir emprego e trabalhadores com mais de 55 anos sem vínculo formal há mais de dois anos.

Duas poderosas armas políticas para 2022, quando Bolsonaro espera conseguir recuperar a sua popularidade na esteira da retomada econômica e de outras medidas que estão no forno, como o reforço do novo Bolsa Família.

O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões

EDITORIAIS

O medo de Lula e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Eles temem que haja um terceiro candidato competitivo e não perdem oportunidade de desautorizar uma candidatura de centro

No mesmo dia, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro manifestaram por meios diferentes – um no Twitter, o outro numa entrevista à rádio – o mesmo medo. Os dois temem que haja um terceiro candidato competitivo nas eleições de 2022 e não perdem oportunidade de desautorizar uma candidatura viável de centro.

Além de mostrar a estreiteza de horizontes políticos que Lula e Bolsonaro querem impor à população, a tática revela a plena viabilidade de um candidato honesto, competente e equilibrado. De outra forma, Lula e Bolsonaro não estariam tão empenhados – quase que de mãos dadas, pode-se dizer – ridicularizando uma candidatura de centro.

“A terceira via – escreveu Lula em sua conta no Twitter – é uma invenção dos partidos que não tem candidato. Falam em polarização... O que tem de um lado é democracia e do outro é fascismo. Quem está sem chance usa de desculpa a tal da terceira via.” E explicitando o seu receio de que haja uma reunião das forças democráticas em torno de um candidato de centro viável, o ex-presidente petista concluiu: “Seria importante que todos os partidos lançassem candidato e testassem sua força”.

Poesia | Ferreira Gullar -Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria 
abre-te agora ao sofrimento 
que é fruto dela 
e seu avesso ardente

Do mesmo modo 
que da alegria foste 
ao fundo 
e te perdeste nela 
e te achaste 
nessa perda 
deixa que a dor se exerça agora 
sem mentiras 
nem desculpas 
e em tua carne vaporize 
toda ilusão 

que a vida só consome 
o que a alimenta. 
- Ferreira Gullar, em "Barulhos", 1987.

Música - Alceu Valença - Saudade

 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Fernando Gabeira - O preço e a saúde da democracia brasileira

O Estado de S. Paulo

O Centrão carrega na mão, sentindo-se à vontade para gastar o dinheiro público

Quando o Congresso aprovou uma verba de R$ 5,7 bilhões para o fundo eleitoral, muitos, como eu, protestaram. É o preço da democracia, falou-se em defesa do assalto ao Tesouro. De fato, as eleições têm um preço para todos, sobretudo depois que se decidiu transitar do financiamento privado para o público. Precisava ser um preço tão alto?

A ideia na transição era a de que os gastos excessivos, as campanhas rocambolescas dariam lugar a um processo de debates, e com custos mais modestos. Reconheço que a expressão custos mais modestos tem um valor subjetivo. No entanto, outro argumento se impõe: já que são gastos públicos, devem ser orçados com transparência.

Não foi o que aconteceu. A transparência desejada deu lugar a uma opacidade calculada. O fundo eleitoral deveria ser votado em destaque separado.

Nessa hipótese, os defensores da proposta deveriam explicar o sentido daquela soma de R$ 5,7 milhões. Por que esta soma e não outra, que cálculos os levaram a concluir por um volume de recursos quase três vezes superior ao que foi votado no passado recente?

Adianta pouco pessoas que conhecem a complexidade e os mistérios da política dizerem pura e simplesmente: o volume é esse e pronto, um custo democrático. O que se espera é uma discussão transparente e realista sobre os custos eleitorais, até porque podem ser feitos ainda num contexto de pandemia. Caem as internações, mas a variante delta avança no Brasil e já é a segunda encontrada entre as novas contaminações.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, argumentou numa entrevista que os gastos eram apenas um quarto dos custos totais das eleições. Mais uma razão para nos inquietarmos: se isso é verdadeiro, as eleições no Brasil custarão R$ 24 bilhões. As de 2018 teriam custado R$ 21,8 bilhões e não estávamos devastados pela pandemia. Não estou acrescentado a esse custo os R$ 2 bilhões necessários para implantar o voto impresso, uma bandeira de Bolsonaro que já está desbotando na Câmara, embora tenha sua votação apenas adiada.

Vera Magalhães - São todos cúmplices

O Globo

Não resta espaço para dúvida de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, mandou o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ameaçando caso o voto impresso não fosse aprovado.

Lira trucou a ameaça e, como o governo Jair Bolsonaro tem DNA golpista, mas é eminentemente composto de pessoas despreparadas e algo covardes, o presidente e seu general recolheram as ameaças, ao menos por ora, e o resultado foi que o PP e o Centrão avançaram algumas casas para tomar conta de tudo — se apossando de novo até de espaços dos militares.

Foi o Centrão que tirou o general Eduardo Pazuello da Saúde. Mantendo Roberto Dias, o assessor que o general e seu sub, o coronel Elcio Franco, não conseguiram demitir.

Agora é de novo um alto expoente do PP, seu presidente, Ciro Nogueira, que faz outro general pegar o quepe. Luiz Ramos, assim como Pazuello, verga a espinha e aceita ir para um ministério de menor importância.

O mesmo faz Paulo Guedes, ao bater continência para o capitão e para a ala política que já comanda a maior parte do Orçamento e aceitar perder um naco de seu “superministério” para acomodar outro demitido de luxo.

Bernardo Mello Franco - Recibo de estelionato

O Globo

A ida de Ciro Nogueira para a Casa Civil muda o desenho dos negócios em Brasília. Até aqui, o Centrão se limitava a fazer escambo: alugava apoio parlamentar e sacava sua parte em cargos e benesses. Agora o bloco vai trocar o balcão pela gerência da loja. Passará a mandar sem intermediários.

O chefão do PP se reaproximou do poder em junho de 2020, quando Jair Bolsonaro começou a sentir o cheiro do impeachment. Para socorrê-lo, Nogueira exigiu o comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. A autarquia cuida de temas que não costumam emocionar os políticos, como a aquisição de livros didáticos e a organização do transporte escolar. Seu segredo está no orçamento, que ultrapassa os R$ 50 bilhões anuais.

Em fevereiro deste ano, Bolsonaro ajudou outro pepista, Arthur Lira, a se eleger presidente da Câmara. A ascensão do deputado aumentou o poder de barganha do Centrão. O grupo capturou o Ministério da Cidadania, abocanhou a Secretaria de Governo e agora assume a Casa Civil, coração da máquina federal.

Pedro Doria - Um Brasil sem futuro

O Globo / O Estado de S. Paulo

Falta um ano para as eleições presidenciais, e só tem turbulência em volta. Mas, entre disparates golpistas, a Arena renascendo e os generais aloprados, temos outro problema grave. No longo prazo, talvez mais grave. Quem frequenta o circuito dos encontros com pré-candidatos, lê atento os jornais e conversa com políticos de todos os partidos logo percebe o tamanho. Quase nenhum dos principais líderes políticos vive no século XXI. Constroem suas ideologias, à direita ou à esquerda, sobre os alicerces de uma realidade que não mais existe. E isso quer dizer que, como está, não importa que grupo suceda a Bolsonaro. Governará o país sem um diagnóstico da transformação em curso.

Há exceções. Alguns deputados federais e mesmo senadores, um ou outro dirigente partidário, mesmo técnicos e acadêmicos que dão apoio às candidaturas. Mas são exceções e, quase sempre, gente com influência menor nos altos-comandos das legendas.

Isso não tem rigorosamente nada a ver com idade. Joe Biden é um político do tempo da Guerra Fria que já se candidatara à Presidência quando a internet apareceu, já concorrera duas vezes à Casa Branca quando se falou a sério de mudanças climáticas e, quase octogenário, redirecionou o Estado a toda no sentido da era em que vivemos.

Eliane Cantanhêde - Eleições, sim!

O Estado de S. Paulo

A nova cúpula da Defesa não percebeu que os militares estão perdendo a guerra para o Centrão e a realidade

Quanto mais o Centrão avança, mais os militares recuam do centro do governo Jair Bolsonaro e mais o Ministério da Defesa se transforma em fortaleza a favor do presidente e contra quem e o que sejam identificados como ameaça à continuidade de Bolsonaro, hoje e em 2022, seja um senador como Omar Aziz, presidente da CPI da Covid, seja a realização de eleições sem voto impresso auditável.

É por isso, e muito mais, que a informação divulgada pelo Estadão ontem, é daquelas que todos os lados tentam desmentir, mas todo mundo sabe que é verdadeira: no mesmo dia (8 de julho) em que o presidente ameaçava a realização das eleições, o ministro da Defesa mandava recado para o presidente da Câmara, Arthur Lira, de que, ou tem voto impresso, ou não tem eleição.

Além do fato de que as duas autoras, Andreza Matais e Vera Rosa, são grandes jornalistas, é preciso ver o conjunto da obra. As Forças Armadas encampam a tese do voto impresso; desde a troca da alta cúpula militar, paira um clima de agitação, com notas e ameaças; e Braga Netto trocou a imagem de discreto e eficiente por raivoso e beligerante. Deve ter sido posto lá para isso.

Logo, “si non è vero è bene trovato” que o ministro tenha enviado recado a Lira ratificando um apoio incondicional a Bolsonaro e às ameaças que ele insiste em fazer contra as eleições – quando não ao Supremo e ao TSE, a jornalistas e ao presidente da OAB. Nenhuma exatamente democrática.

Atenção aos “desmentidos”. Primeiro, Braga Netto foi contundente: “invenção”. Depois, leu nota dizendo que “não usa interlocutores” e que se trata de “desinformação que gera instabilidade entre os poderes”. Entretanto, ratificou o apoio ao voto com comprovante impresso e não disse, claramente, que não mandou recado, não ameaçou e não ameaçaria a eleição. Aliás, não fez sequer uma defesa enfática da sua realização.

Hélio Schwartsman - Centrão no poder

Folha de S. Paulo

E na Casa Civil de um presidente que prometera enterrar o toma-lá-dá-cá

Ciro Nogueira na Casa Civil. Interessante. Nogueira não é um representante qualquer do centrão. Ele é o tipo ideal mesmo do político sem apego a nenhum ideário e que apoia qualquer governo, desde que receba contrapartidas em cargos e verbas. Quando acha que já extraiu tudo o que poderia extrair, não hesita em abandonar o dirigente ao qual fazia juras de amor eterno.

A Casa Civil tampouco é um ministério qualquer. Ela é a coluna vertebral do governo. Por ela passam todos os atos da administração, para avaliação técnica e política. Quando seu ocupante é habilidoso, torna-se também o lugar de costura dos acordos que sustentam o governo.

Ver Nogueira num ministério nem é tão surpreendente. Ele é um político bem típico daquilo que eleições costumam produzir e é com esses parlamentares que é preciso compor. Mas fica um ruído quando alguém como Nogueira vai para a Casa Civil da gestão de um presidente que prometera enterrar o toma-lá-dá-cá e que pusera seu general de estimação para cantar que todos os membros do centrão eram ladrões.

Ruy Castro - O trem que passa por cima

Folha de S. Paulo

Para salvar o pescoço, Bolsonaro atropela até os amigos que o ajudaram a chegar ao poder

Pobre general Luiz Eduardo Ramos! Respeitou o regulamento do Exército que reprova a presença de oficiais da ativa em cargos comissionados e, a um ano e meio da aposentadoria, abriu mão de uma digna reforma para ser ministro do governo Bolsonaro. Ele não sabia que não precisava disso —poderia ter feito como o general Eduardo Pazuello, que foi de farda e tudo para um ministério de bilhões sob vista grossa de seus superiores. E como o general Ramos poderia imaginar que Bolsonaro, tão seu amigo, iria virar-lhe as costas, como já fizera com outros sem os quais não teria chegado à Presidência?

Ramos não precisava ser um estrategista como Napoleão ou Nelson para saber o que o esperava. Bastar-lhe-ia computar as bofetadas verbais que Bolsonaro estalava todos os dias na cara de seu ex-ministro da Justiça Sergio Moro, principal avalista de sua eleição. Ou o chute que Bolsonaro aplicou no ex-senador Magno Malta, cuja oração ao pé do seu leito no hospital o levantara dos mortos depois da facada em Juiz de Fora. Ou em seu cabo eleitoral Gustavo Bebianno, que, ao se ver traído por Bolsonaro, literalmente morreu de desgosto.

Reinaldo Azevedo - Se Aras se calar, que Senado o rejeite

Folha de S. Paulo

Se PGR não fizer nada sobre falas de Braga Netto, então a Casa precisa fazer alguma coisa

Braga Netto, ministro da Defesa, ameaçou as eleições. Se Augusto Aras, procurador-geral da República, não fizer nada, então o Senado tem de fazer alguma coisa com Augusto Aras. Haverá uma votação em breve para decidir a sua recondução ao cargo. Se estiver em silêncio até lá, seu nome tem de ser rejeitado. A revelação ilumina uma ocorrência que vinha sendo mal compreendida: a passagem do comando político do governo para o centrão, com a ida do senador Ciro Nogueira para a Casa Civil.

Os desmentidos em curso não mudam o fato. Buscam salvar as aparências, o que serve para manter em estado de latência a tutela que os militares julgam ter sobre a sociedade brasileira. Parte considerável dos fardados não se vê como força regulada pela democracia e pela Constituição. Entende o regime de liberdade como uma concessão das Armas.

Braga Netto nega que tenha feito o que fez —até porque, como eles mesmos diriam lá no ambiente da caserna, golpe se dá sem aviso prévio. Não lhe resta outra coisa a dizer. Roberto Barroso, presidente do TSE, sustenta no Twitter que tanto o ministro da Defesa como o presidente da Câmara "desmentiram enfaticamente qualquer episódio de ameaça às eleições". Pode contribuir para esfriar um tantinho os ânimos, mas não resolve a questão.

Luiz Carlos Azedo - O general linha-dura

Correio Braziliense

Braga Netto assumiu a Defesa para pressionar os demais Poderes e resgatar a tutela militar sobre as instituições. O que consegue, porém, é desgastar as Forças Armadas

Desde que assumiu o Ministério da Defesa, o general Braga Netto tem atuado para alinhar as Forças Armadas aos objetivos políticos do presidente Jair Bolsonaro. Extrapola, porém, as atribuições do cargo, ao se pronunciar sobre temas políticos que não dizem respeito nem demandam o posicionamento do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Como na desequilibrada nota contra a CPI da Covid, que foi emitida em nome dos comandantes militares, sem que saio menos um deles, com certeza, tenha sido consultado. Mesmo quando nega ter pressionado o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a aprovar a proposta de voto impresso, sob risco de as eleições não serem realizadas, Braga Netto se manifesta sobre o assunto de forma inapropriada, pois é prerrogativa do Congresso decidir a questão sem se submeter a chantagens. Na prática, a nota reverbera de forma ambígua as suspeitas e ameaças do presidente Jair Bolsonaro ao pleito.

Pode ser que Braga Netto esteja confundindo os papéis de antigo ministro da Casa Civil, no qual desempenhava importantes missões políticas, e de ministro da Defesa, que não deve se imiscuir nas relações entre os Poderes. Em vez de se espelhar no figurino dos ex-ministros da Defesa Joaquim Silva e Luna, o primeiro militar a ocupar um cargo criado para ser exercido por civis, e de seu antecessor Fernando Azevedo e Silva, que se recusou a desempenhar esse papel, Braga Netto vestiu a fantasia dos generais linha-dura que pontificaram durante o regime militar — até o presidente Ernesto Geisel demitir o general Sílvio Frota, seu ministro do Exército.

Ricardo Noblat - Disparo de Braga Netto contra o voto eletrônico mata voto impresso

Blog do Noblat / Metrópoles

Presidente e auxiliares trapalhões são candidatos à medalha de ouro na especialidade tiro no pé

Dá-se como certa a morte precoce da volta do voto impresso daqui a mais duas ou três semanas, quando a comissão especial da Câmara dos Deputados que trata do assunto reunir-se pela primeira vez depois do fim das férias de meio de ano do Congresso.

O disparo feito pelo general Braga Netto, ministro da Defesa, contra o voto eletrônico só serviu para consolidar a tendência da maioria da comissão de mantê-lo a qualquer custo. Dezoito votos seriam suficientes para isso. Fala-se que já existem 22.

O enterro da proposta de se restabelecer o voto impresso só não se deu antes das férias porque o presidente da comissão, bolsonarista de carteirinha, valeu-se de um recurso parlamentar para adiá-lo. Disso aproveitou-se o general para dar seu tiro infeliz.

Conta o jornal O Estado de S. Paulo que, no último dia 8, por meio de um interlocutor, Braga Netto mandou um duro recado ao deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara: sem voto impresso não haveria eleições em 2022.

Naquele mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro repetiu a mesma coisa em conversa com devotos. Por considerar a situação “gravíssima”, Lira procurou Bolsonaro e disse-lhe que não contasse com ele para qualquer ato de ruptura institucional.

O general negou que tivesse mandado recado a Lira, mas voltou a defender o voto impresso. Lira negou que tivesse recebido qualquer recado, mas deitou falação em favor da democracia. A especialidade do governo Bolsonaro é dar tiro no próprio pé.

Ricardo Rangel - O abutre e a carniça

Revista Veja

O apoio do Centrão não é barato, incondicional ou eterno

Bolsonaro chamou o senador Ciro Nogueira, um dos principais caciques do Centrão, para a Casa Civil.

É incontornável: quanto maior o desgaste do presidente na CPI e nos índices de aprovação, maior é a necessidade de apoio, e mais o presidente loteia seu governo e abre espaço ao Centrão. 

Nogueira andava afastado de Bolsonaro ultimamente. Resistiu a ceder a legenda ao presidente, reconheceu o direito de Renan Calheiros de ser relator da CPI, afastou-se das sessões da comissão para não defender o indefensável. Agora inverte a ponta e se joga de corpo inteiro nos braços de Bolsonaro, onde já está seu correligionário Arthur Lira, presidente da Câmara, que hoje bloqueia nada menos do que 126 pedidos de impeachment.

Com Ciro (e Lira), Bolsonaro aumenta o apoio parlamentar, reduz o risco de impeachment, encomenda uma legenda para 2022 e monta o quartel-general da campanha. Quem sabe até emplaca um candidato a vice. Ciro e Lira ganham vantagens e prometem boa vontade. Só. Por um preço. Por um tempo.

O chiste do general Augusto Heleno (“se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”) vai se tornando literalmente verdadeiro. Está cada vez mais difícil encontrar no governo alguém que não esteja ligado ao Centrão — até os militares governistas se tornaram uma espécie de Centrão verde-oliva, e o próprio Heleno diz que “nem reconheço hoje a existência desse ‘Centrão’”.

Dora Kramer - Dribles na tirania

Revista Veja

A insistência de Bolsonaro no voto impresso — até outro dia defendido por gente equivocada, mas de boa-fé — consolidou a aprovação ao sistema eletrônico

A ideia de que Jair Bolsonaro pode desistir de tentar a reeleição não saiu da cabeça de nenhum oposicionista signatário dos inúmeros pedidos de impeachment ora postos em sossego sob o derrière do presidente da Câmara, Arthur Lira.

Quem levantou a lebre foi o presidente. Não pode reclamar, portanto, se o assunto vier a tomar conta das mentes e das bocas Brasil afora. “Mas não é que pode ser uma boa?”, arrisca-se Bolsonaro a começar a ouvir daqui em diante.

É claro que essa não foi a intenção dele. Tampouco se tratou de um descuido. A hipótese foi aventada ao jogar a toalha e admitir a impossibilidade de o Congresso aprovar a reintrodução do voto impresso no sistema eleitoral. Mas podemos ir além.

Quais seriam as razões do presidente? Vejo duas. Estimular sua militância a embarcar numa espécie de “queremismo” revisitado inspirado em Getúlio Vargas para tentar conter o derretimento da densidade eleitoral é uma. A outra, se não der certo a primeira e as condições de competitividade descerem a ladeira a ponto de tornar a derrota inevitável, antecipar-se ao desastre saindo do jogo como se o fizesse por vontade e não por imposição das circunstâncias adversas.

A conjuntura lá na frente pode não ser a de hoje. Mas, na conta das probabilidades, tende a ser pior. Ainda mais se a comparação for com o cenário de 2018 e mesmo com a situação antes de a pandemia conferir a Jair Bolsonaro a medalha de ouro num hipotético pódio de maus governantes.

Murillo de Aragão - Jogando com a própria sorte

Revista Veja

A sociedade precisa se posicionar para resgatar o tempo perdido

Mesmo em meio à pandemia, estamos crescendo, aumentando a arrecadação e as exportações, expandindo a oferta de crédito, com uma bolsa de valores perto de 130000 pontos, mantendo reservas e produzindo safras recordes. São aspectos positivos que o país consegue oferecer e preservar.

No entanto, nosso resultado poderia ser muito melhor. Como? Bastava ter havido certas decisões corajosas dos poderes públicos, que, por covardia ou omissão, não ocorreram. A pandemia trouxe a possibilidade de atacarmos problemas centrais que nos acorrentam aos séculos XIX e XX. Mas nossas respostas são lentas e inconsistentes, pois existem interesses poderosos que querem que fiquemos no passado.

A recente decisão de inflar o fundo eleitoral para perto de 6 bilhões de reais é um exemplo. Um país pobre que debate migalhas para programas sociais e para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde não pode se dar o luxo de desperdiçar tanto e sob o controle de poucos. Mas, infelizmente, esse não é o único problema.

Fernando Exman - Reforma expõe disputa nos bastidores

Centrão e Forças Armadas mantêm embate em torno de espaço político e recursos orçamentários

Valor Econômico

A minirreforma ministerial anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro joga luz sobre uma disputa que ocorria, em silêncio, nos bastidores. Uma disputa por espaço político e recursos orçamentários, ou seja, por poder: é este o contexto dos crescentes atritos entre representantes da tradicional classe política, notavelmente o chamado Centrão, e segmentos oriundos das Forças Armadas.

Esse embate coloca o presidente numa situação delicada entre as bases de sustentação do seu governo. E tampouco ajuda sua relação com os chefes dos demais Poderes.

O episódio mais recente é a reportagem publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Autoridades das mais variadas áreas de atuação logo lembraram os limites constitucionais para a atuação das Forças Armadas, o que por si só já evidencia o longo caminho que a democracia brasileira precisa percorrer. No entanto, a despeito das negativas e notas de repúdio, as tentativas de se evitar uma escalada não esvaziaram o mal-estar entre os envolvidos.

Cesar Felício - Deus acima de todos

A intolerância está entre nós, e vem de baixo para cima

Valor Econômico

Joia do reacionarismo brasileiro, o dramaturgo Nelson Rodrigues certa feita pontificou que “quando os amigos deixam de jantar com os amigos, é porque estamos maduros para a carnificina”. Com muitas décadas de antecipação, ele se adiantou à visão descrita pela jornalista americana Anne Applebaum em seu livro “O crepúsculo da democracia - Como o autoritarismo seduz e amizades são desfeitas em nome da política”.

A polarização deixou de ser apenas uma estratégia de grupos para exercerem sua hegemonia. Ela penetrou na sociedade e a intolerância passou a vir de baixo para cima. Ela está no meio de nós. Um exemplo dos novos tempos está se desenrolando na Igreja Católica. Mais precisamente na paróquia da Paz, entre Aldeota e Meireles, área de classe média alta de Fortaleza.

Lá, no dia 4, missa de domingo, o padre Lino Allegri, 82 anos, adepto da Teologia da Libertação, fez um sermão que desagradou aos bolsonaristas presentes à celebração. Exaltados, eles o interpelaram depois do culto, na sacristia. Infelizmente não há registro disponível da cena. Essa missa não está registrada nas redes sociais. As que se seguiram sim, estão no canal da paróquia no YouTube.

Fernando Abrucio* – Soluções em busca de problemas

Reformismo de Arthur Lira é baseado em modelo inflacionado de propostas e com pouco tempo para debate

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Em muitos momentos da história, a elite política brasileira optou por ideias prontas que seriam capazes de dar conta de vários desafios do país. Quase sempre esse processo era pouco conversado com a sociedade e, geralmente, escondia agendas ocultas, enunciando apenas o “lado bom” das propostas. O presidente da Câmara, Arthur Lira, comanda hoje um debate sobre reforma política que segue esta linha de “soluções em busca de problemas”, na qual não há um diagnóstico claro sobre as causas do fenômeno e sobre a efetividade das mudanças. O que importa para o reformismo do Centrão é mudar para permanecer ainda mais forte no poder.

A lista de alterações no ordenamento do sistema político proposto por Lira e seu exército de reformistas do Centrão é realmente impressionante. Para ficar nas mais importantes, mudanças no modelo eleitoral, na forma de prestação de contas dos partidos, na atuação do Tribunal Superior Eleitoral, voto impresso e, agora, a troca do presidencialismo pelo semipresidencialismo. É verdade que, neste cipoal propositalmente confuso de modificações, surgem até medidas baseadas em dados objetivos e que seguem uma lógica correta, como as vinculadas à participação feminina nas eleições. Mas não adianta olhar para cada uma das partes sem entender a concepção mais ampla deste processo.

O modelo reformista de Lira e companhia baseia-se em cinco características. Primeira: fazer muitas reformas e rapidamente. Segunda: realizá-las sem o debate adequado com a sociedade e especialistas. Terceira: ter as soluções sem que haja um diagnóstico prévio que de fato embase as propostas de mudança. Quarto: ter o cuidado de fazer mudanças que reforcem o poder dos reformadores do Centrão e seus aliados ocasionais, mas gerando a impressão de que estão resolvendo problemas urgentes do sistema político. E, por fim, toda essa correria por diversas reformas, e não só no campo político-institucional, é uma estratégia do presidente da Câmara para se fortalecer no jogo com a Presidência da República e com certos setores sociais. No fundo, Lira propõe várias coisas ao mesmo tempo para não expor sua agenda oculta.