sábado, 11 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Petro repete reação antidemocrática de Trump e Bolsonaro

Por O Globo

Ao contestar resultado das urnas, colombiano mostra que agressão à democracia não está restrita à direita

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou no início desta semana o processo de transição de poder conduzido com a equipe do presidente Gustavo Petro. Mesmo depois que a autoridade eleitoral oficializou a vitória por margem apertada do ultradireitista Espriella sobre o esquerdista Iván Cepeda, candidato do governo, Petro continuou a contestar o resultado (o próprio Cepeda reconheceu a derrota).

A semelhança com o que fizeram Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil é evidente. É uma prova de que a veia antidemocrática não está restrita aos populistas de direita. Sem apresentar um única prova, Petro afirma que houve fraude, nega-se a passar a faixa presidencial no dia da posse em agosto e marcou uma manifestação de rua para o dia 20 de julho, que vem sendo descrita como um replay do 6 de Janeiro de Trump ou do 8 de Janeiro de Bolsonaro. Não surpreende que Espriella acuse Petro de tramar um golpe de Estado e peça às Forças Armadas que protejam a Constituição e a democracia.

Brasil é território hostil a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos

O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.

E por falar em saudade, por Eduardo Affonso

O Globo

É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais

Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade — essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade enjoada não vai embora.

Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor (saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).

Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos (diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria, da Bahia, dos tempos da Panair.

Prodígios congênitos do direito, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.

O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.

Uma nuvem que pesa toneladas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A IA está mudando a economia mundial, mas, para fazê-lo, usa uma quantidade gigantesca de capital

Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA) consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria exagero. Mas não é.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo. Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.

O Ceará na crise bolsonarista, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos, lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz o oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado "Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que ela tem projeto pessoal de consolidação de sua liderança no campo da direita

A intensificação da crise em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro tem desestabilizado os cenários estaduais, como é o caso do Ceará. A vinda do filho de Bolsonaro à Fortaleza para apaziguar os ânimos é uma prova do esforço que a sigla tem mantido para garantir alguma coesão na disputa cearense.

Embora tenha vindo justamente para fortalecer o palanque local, a presença de Flávio produz um efeito político ambíguo, especialmente após a veiculação da notícia de que o PSDB não lançará chapa própria para disputa da presidência. Isso se dá porque, em terras cearenses, Ciro precisa administrar o incômodo de se aliar ao bolsonarismo sem ser, na origem, um bolsonarista convicto. Sua aliança eleitoral com o PL criou uma contradição que desagrada a gregos e troianos, porque, do lado do bolsonarismo, a desconfiança com seu nome é real e, no campo progressista, ficou um gosto agridoce de um pragmatismo radical difícil para uma parte dos ciristas históricos digerir.

Linhagens do Estado de Direito, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Chineses têm participado de maneira cada vez mais ativa na formulação do direito internacional

O Brasil também deveria adotar urgentemente um plano de consolidação de seu Estado de Direito

O Fórum Mundial de Juristas levou a Pequim, neste mês, mais de 500 especialistas e profissionais do direito de diversos países, com o objetivo de promover o intercâmbio de experiências entre diferentes linhagens do Estado de Direito.

O momento não poderia ser mais apropriado. Apesar da crescente interdependência econômica e vertiginosa interconexão tecnológica, temos assistido a um forte declínio da capacidade das instituições baseadas no direito (rule based institutions) em responder aos múltiplos desafios globais, que vão dos conflitos armados à crise climática, passando pelo comércio e o respeito aos direitos humanos.

Essa crescente desordem internacional, agravada pela gestão Trump, está diretamente relacionada à onda de autocratização nos diversos continentes. A ascensão de líderes populistas, nacionalistas ou mesmo extremistas, tem contribuído para fragilizar a autoridade do direito, não apenas no âmbito doméstico, mas também internacional.

Obsessão por Trump vai derretendo candidatura do filho 01, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ao defender o tarifaço, Flávio Bolsonaro se afasta do meio empresarial e rompe com 'direita limpinha'

Para reduzir rejeição feminina, ele quer transformar a mulher, Fernanda, numa espécie de Michelle 2

Alguém pôs na cabeça de Flávio Bolsonaro –provavelmente o pai– que, sem a ajuda ou a interferência direta de Trump e a propaganda e as teorias da extrema direita internacional, ele não ganha a eleição. Até agora a sugestão teve um efeito contrário.

Na sua sexta viagem aos EUA neste ano, mais do que o número de idas a estados-chave durante a pré-campanha (cujo objetivo é o Palácio do Planalto, não a Casa Branca, é bom lembrar), o filho 01 esteve em uma audiência promovida pelo Escritório de Comércio para defender o tarifaço 2.0 –desde que a chantagem político-econômica entre em vigor só depois das eleições. Pediu o prazo de 90 dias, alegando que a medida pode vir no "pior momento possível" e beneficiar Lula. Um cálculo de quem teme não chegar ao segundo turno.

STF deveria ler Maquiavel, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corte deveria permitir que ministros envolvidos no caso Master sejam investigados

Medida, mesmo que não passe de simulação, ajudaria a recuperar imagem do Judiciário

A grande sacada de Nicolau Maquiavel foi ter separado a política da moral, o que lhe deu liberdade para analisar as relações de poder como elas são e não como gostaríamos que fossem. Não é uma coincidência que ele seja considerado o fundador da ciência política.

Está faltando ao STF ler um pouco de Maquiavel. Se os ministros da corte querem deixar para trás a crise de credibilidade em que se meteram, muito por causa do escândalo do Master, estão fazendo tudo errado.

IPCA mais baixo mostra que ruído contra BC foi exagerado, Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Pelos dados da inflação, o BC teria errado se tivesse parado o corte ou até subido a Selic

Que estrago adicional teria sido uma precipitação do Banco Central para uma economia que sofre com juros altos

dA desaceleração da inflação para 0,16% em junho, após marcar 0,58% em maio, mostrou que foi exagerado o barulho criado pelo mercado financeiro após a decisão do Banco Central de cortar os juros na última reunião do Comitê de Política Monetária.

Há menos de um mês, o cenário instalado no mercado era de fim do mundo com a decisão do Copom de continuar afrouxando a taxa Selic em um momento em que os índices inflacionários seguiam subindo para além do teto da meta de inflação.

Será um admirável mundo novo? Por Marcus Pestana

Ninguém é totalmente revolucionário, nem absolutamente conservador. O cidadão médio comum não gosta de instabilidade, rupturas radicais, mudanças desestabilizadoras. O novo, às vezes, assusta. Mas a história da civilização humana é tudo, menos a repetição monótona de um equilíbrio estático. Crises ocorrem ciclicamente. Se as pessoas gostam da conservação de tradições e estabilidade, por outro lado, a inquietação humana sempre persegue transformar a realidade. Se não fosse isso, não teríamos chegado, vindos da Idade da Pedra, à atual configuração do mundo contemporâneo. O medo do que é novo e a compulsão pela inovação convivem dialeticamente no desenvolvimento civilizatório.

Sobe o risco Brasil, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Fatores ligados à política, economia e geopolítica criam viés de alta

A normalização dos eventos extravagantes de nossa conjuntura institucional é um grave risco. Pior do que qualquer crise isolada é ignorar o empilhamento dos pontos polêmicos que se apresentam no presente e se anunciam no futuro. Nos anos 1930, Winston Churchill era ridicularizado por alertar para o perigo nazista — e por pouco a Inglaterra não sucumbiu. O acordo do então premiê Neville Chamberlain com Hitler em 1938 parecia trazer paz à Europa; Churchill não acreditou e preparou-se para o pior.

No Brasil, guardadas as proporções de comparação com uma guerra mundial, a situação é mais ou menos parecida. Aos riscos de sempre (rombo fiscal, conflito entre os Poderes, sanha tributária e decisões contraditórias do Judiciário) soma-se a deterioração externa. A química entre Trump e Lula está em baixa: afagos e elogios deram lugar à ameaça de tarifaço e, pasmem, ao temor oficial do Itamaraty de que os EUA possam ensaiar alguma operação militar em território brasileiro.

O inferno astral dos Bolsonaro, por Cláudio Couto

CartaCapital

A autofagia familiar e a subserviência ao governo Trump corroem o capital político do clã

A família Bolsonaro vive um inferno astral há semanas. Primeiro, a revelação das nada republicanas conversas de seu candidato, Flávio, com Daniel Vorcaro, pedindo ao pivô do escândalo do Banco Master mais de 134 milhões de reais para, supostamente, financiar o filme sobre a ascensão política do patriarca. Depois vieram novas revelações sobre contatos mantidos entre o senador e o banqueiro, consolidando o desgaste da candidatura e o declínio de suas intenções de voto.

Em clima de mata-mata, por Maurício Thuswohl

CartaCapital

Enquanto se defende das pautas-bombas, o governo corre para destravar a PEC do fim da escala 6×1

Em meio à frustração da sexta eliminação consecutiva do Brasil em uma Copa do Mundo, o governo redobrou seus esforços para também não sair derrotado em mais um confronto com o Congresso Nacional. Ao longo da semana, líderes governistas na Câmara e no Senado buscaram avançar em dua­s frentes consideradas fundamentais: a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6×1 e a reversão de nove projetos identificados pelo Executivo como “pautas-bombas”, que podem resultar em um impacto anual de 111 bilhões de reais nos cofres públicos. O presidente Lula deseja ver os dois nós desatados até 17 de julho, último dia antes do recesso legislativo, mas para conquistar essa vitória o time do Executivo terá que furar a retranca de Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

A bola e a vida, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Em sua universalidade, o jogo desencanta brasileiros, franceses, alemães…

A Seleção Brasileira foi machucada e eliminada por dois golaços de Haaland. Assim como todos os brasileiros, padeci as dores da derrota. Esporte universal e carismático, o futebol encanta e desencanta a vida de brasileiros, noruegueses, franceses, alemães e tutti quanti. Em sua universalidade, o jogo da bola imita a vida. Desencanta as almas nas derrotas e, logo depois, empolga os espíritos apaixonados dos torcedores com reviravoltas vitoriosas.

Nos anos 30 do século passado, os campeonatos mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram de palco para a competição entre sistemas políticos rivais. Correm rumores de que Benito Mussolini teria enviado uma mensagem à seleção italiana. A ordem do Duce clamava aos jogadores: “Ganhar ou morrer”.

Seleção sem alma, por Aldo Fornazieri

Carta Capital

O fiasco brasileiro na Copa também é resultado de uma crise de liderança

A Seleção Brasileira não tem alma. Perdeu-a na Copa de 2014, disputada em casa, na fatídica derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Uma seleção sem alma não tem ânimo, ímpeto, empenho, entrega, ousadia, brio nem determinação. A bronca não é porque o Brasil não vence um Mundial desde 2002. É natural que outras seleções conquistem o título, sobretudo em uma era de futebol globalizado. O problema está na forma como joga e reage – ou deixa de reagir – diante de uma situação adversa.

Poesia | A uma mulher que passa, de Charles Baudelaire

 

Música | Jura Secreta | Sueli Costa e Nelson Faria

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda de austeridade é bem-vinda no Rio

Por O Globo

Governador interino propõe enxugar máquina, sanear finanças e impor regras fiscais próprias

São sensatas e bem-vindas as medidas de austeridade defendidas pelo governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em entrevista ao GLOBO. O estado, frequentador assíduo de programas de recuperação fiscal, aderiu recentemente ao Propag, socorro federal a entes endividados. Certamente isso trará alívio necessário às contas estaduais. Mas a situação hoje é crítica. O Orçamento deste ano prevê um rombo de R$ 19,5 bilhões. São questão de bom senso o saneamento das finanças e o enxugamento da máquina pública promovidos por Couto.

Lições da Copa, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão

Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores. No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.

A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.

Michelle insiste e avisa que é ‘imparável’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ex-primeira-dama agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres

Se o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o autodeclarado “imbrochável”, com direito a distribuir medalhas com o título aos aliados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dobrou a aposta na rebeldia, e avisou que será “imparável”.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou na quarta-feira (8) que em até 20 dias fincaria a bandeira branca no partido, reconciliando-a com o enteado, o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Contudo, a ex-presidente do PL Mulher foi a público comunicar que tem outros planos. Para além de liderança feminina, ela agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres.

Alcolumbre não se entende com Lula e congela a agenda do Congresso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O rompimento entre o presidente Lula e o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, ocorrido após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, tornou-se o principal fator de bloqueio da pauta legislativa.

Com o Brasil fora da Copa e a política retomando o centro da cena, o Congresso Nacional entrou definitivamente em modo eleitoral. A sessão do Congresso prevista para essa quinta-feira foi cancelada por falta de acordo entre seu presidente, senador Davi Alcolumbre (União-AP), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Legislativo não deve votar mais nada de relevante antes do recesso e, muito provavelmente, tampouco antes das eleições de outubro.

A paralisia atinge temas como a PEC da Segurança Pública e a regulamentação da exploração de terras raras. Na prática, a agenda institucional foi sequestrada pela disputa de poder entre o Executivo e o Congresso. O rompimento entre Lula e Alcolumbre, ocorrido após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, tornou-se o principal fator de bloqueio da pauta legislativa.

Nos ouvidos do rei, por Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Formular propostas certas é a parte fácil. Fazê-las atravessar a desconfiança política e a real capacidade de execução é o verdadeiro trabalho

Com a aproximação das eleições de outubro, é curioso observar dois movimentos que parecem contraditórios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polarização política, confirmada e reforçada pelas pesquisas de voto, indica que estamos fadados a ter que escolher entre os candidatos menos ruins, responsáveis, cada qual à sua maneira, pela situação em que a maior parte do País se encontra, com a economia se arrastando, as contas públicas fora de controle, a má qualidade das políticas sociais e as instituições em frangalhos.

Os Bolsonaro, como os peixes, morrem pela boca, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Jair & filhos acabam prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que fazem e falam

Michelle, ao contrário, pensa no que diz, tem roteiro, frieza e, sobretudo, visão estratégica

Característica marcante em Jair Bolsonaro & filhos é a incapacidade de prever o efeito de seus atos. Acabam quase sempre prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que falam. São como peixes: morrem pela boca.

O pai perdeu a reeleição porque passou quatro anos falando e fazendo absurdos sem medir consequências. O primogênito vai pelo mesmo caminho da inconsequência, cujo exemplo mais recente é a tentativa vã de se livrar da jactância do irmão Eduardo batendo no peito e diante do tarifaço de Donald Trump ao Brasil, dizendo: "Fui eu".

A barreira do nojo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Técnicos precisarão convencer habitantes da Grande São Paulo que é ok abastecer represas com água (tratada) de esgoto

Repulsa a coisas que consideramos sujas tem valor adaptativo para prevenir doenças e dá base a nossas intuições morais

Eu não queria estar na pele dos técnicos que precisarão convencer os habitantes da Grande São Paulo de que é legal usar água de esgoto, tratada, frise-se, para irrigar as represas de onde tiramos o líquido que chega a nossas torneiras. Eles terão de enfrentar uma das mais poderosas emoções humanas, o nojo.

Encastelado num planalto, o conurbado paulistano fica perto demais das nascentes dos rios adjacentes, onde a vazão de água tende a ser baixa. Compensamos isso nos abastecendo em mananciais cada vez mais distantes. Não é uma solução que possa ser estendida indefinidamente.

Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

O futebol já cumpriu seu papel na formação de um ethos nacional marcado pela cultura imaginosa e mestiça

Continuar a ver no desempenho da seleção uma promessa ou um fracasso de nação é mecanicismo

A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro "Remédio Veneno".

Todas as fichas no Senado, por Vera Magalhães

O Globo

A composição daquela que é considerada a Câmara Alta do Congresso definirá se os quatro anos até 2030 serão marcados por uma grave e prolongada crise entre os Poderes

Jair Bolsonaro deu a largada antes na montagem de seu time para a disputa ao Senado, mas a estratégia derrapou nos últimos meses graças às disputas internas da própria direita. A dúvida quanto à candidatura de Michelle Bolsonaro é apenas a mais visível das fissuras no casco do navio com que o ex-presidente esperava dominar a Casa e, a partir dela, pôr em marcha seu plano de subjugar o Poder Judiciário, dando andamento a processos de impeachment contra ministros e a medidas para manietá-lo e, se possível, acelerar a mudança da composição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Cartola de toga, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Francisco Mendes é favorito para assumir confederação antes da próxima Copa

No último domingo, a seleção perdeu para a Noruega e encerrou sua pior campanha em Copas do Mundo desde 1990. Dois dias depois, Gilmar Mendes foi às redes expressar “gratidão” aos jogadores. “Meu agradecimento a cada atleta pela dedicação e pelo compromisso com que honraram (sic) a camisa do Brasil”, escreveu.

O supremo ministro aproveitou para anunciar o início de um “novo ciclo”. “A permanência de Carlo Ancelotti à frente da equipe dá solidez a esse recomeço, e a seleção que se renova encontrará no torcedor, uma vez mais, a sua maior força”, pontificou. Ao pé do tuíte de estadista, usuários do X acrescentaram uma nota informativa: “Gilmar Mendes não mencionou, mas ele próprio e o filho têm grande influência na CBF”. As 15 palavras expuseram o conflito de interesses que o decano do STF preferiu omitir.

Entrevista: "Melhor estratégia em Minas é candidato fora do PT', diz Camilo Santana

Por Jeniffer Gularte – O Globo

Novo líder do PT no Senado admite que "ficou um arranhão" na relação entre Lula e Davi Alcolumbre após Jorge Messias ser derrotado para a vaga do STF

Ex-ministro da Educação e atual integrante da coordenação de campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Camilo Santana (PT-CE) afirma que o PT não deveria ter candidatura própria em Minas Gerais, sob pena de sofrer um revés eleitoral importante no segundo maior colégio eleitoral do país. Santana admite que a memória de avaliação ruim do governo de Fernando Pimentel no estado dificulta a viabilidade eleitoral da legenda no estado.

O parlamentar defende que o PT apoie um nome de partido aliado e classifica essa indefinição como "a maior preocupação" da definição dos palanques, a poucos dias do início do período das convenções. Enquanto o governo anuncia um pacote de medidas com impacto fiscal às vésperas da eleição, o ex-ministro admite a necessidade de um ajuste nas contas no início de um eventual quarto mandato.

Ao assumir a liderança do PT no Senado, Camilo Santana afirma que tem atuado para distensionar a relação entre Lula e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), mas admite que "ficou um arranhão" após Jorge Messias ser derrotado para a vaga do Supremo Tribunal Federal. Defensor de que não se deve "fechar a porta para ninguém", Santana afirma que as sucessivas crises da campanha de Flávio Bolsonaro têm aberto diálogo para uma aliança da federação União-PP com Lula durante a corrida presidencial.

Poesia | O albatroz, de Charles Baudelaire |

 

Música | Paulinha da Viola - Quando bate uma saudade

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

Por O Globo

Entendimento já era frágil. Violações iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

Escolha de Sofia, por Merval Pereira

O Globo

Uma eleição em que os dois mais rejeitados são os escolhidos continuará levando ao impasse, independentemente de quem ganhar

É surpreendente que todos os esforços que a direita brasileira vem fazendo para perder a eleição presidencial não estejam dando certo. As desavenças familiares; as disputas pelo poder dentro do PL, maior partido do país, máquina de fazer dinheiro gerado por emendas parlamentares e fundos eleitorais; a dúvida entre mais radicalização ou uma aparente moderação — nada disso abala a posição do senador Flávio Bolsonaro, que lidera o voto da direita, que se une em torno dele num eventual segundo turno e o torna competitivo diante do presidente Lula.

Esquadrão suicida da direita, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Aliados provocaram o rompimento de Michelle com o enteado

‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de 1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres — desde que diplomadas, com bens e casadas.

Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não deveriam participar da vida pública:

— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

Quando os EUA reclamam do uso do comércio como arma, por Assis Moreira

Valor Econômico

Produtores rurais americanos tornaram-se vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump

O governo Trump 2.0 tem se caracterizado pelo uso explícito da força no comércio internacional. A imposição unilateral de tarifaços contra o resto do mundo e de acordos ditos recíprocos, nos quais sai sempre como o grande vencedor, rompeu o sistema multilateral baseado em regras comuns.

Agora, na presidência do G20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes em busca de cooperação na governança econômica global, o governo Trump elaborou uma agenda comercial para trabalhar com os demais membros do grupo “no estabelecimento de uma ordem comercial global baseada em um comércio justo, recíproco e equilibrado”.

O fogo amigo que ameaça a campanha bolsonarista, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aposta de que a crise na campanha de Flávio leve à sua substituição como candidato esbarra nas evidências de que desfecho desmoralizaria o bolsonarismo

“É fogo amigo”, respondeu o senador Rogério Marinho (PL-RN) em mensagem de celular durante um jantar tão logo recebeu a notícia de que a Gazeta do Povo publicaria pesquisa com quatro alternativas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Além de Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, foram incluídos na pesquisa a ex-primeira-dama, o astronauta e senador Marcos Pontes (PL-SP) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Se Marinho apressou-se em dizer ao pré-candidato do PL à Presidência que nada tinha a ver com isso, Damares limitou-se a achar graça.

Flávio Bolsonaro põe o clã acima de tudo, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É clara a intenção dos Bolsonaros de mobilizar o apoio americano a seu candidato

Em julho passado, ele celebrou as tarifas de 50% sobre produtos nacionais

A relação com os Estados Unidos é o maior desafio enfrentado pela política externa brasileira —pela importância que a potência sempre teve para nós e pela imprevisibilidade de seu prepotente presidente.
Desde a volta de Donald Trump, especialistas de diferentes quadrantes discutem a melhor maneira de defender seus países do ocupante de turno da Casa Branca.

Em artigo publicado na Cebri-Revista, há cerca de um ano, o professor da USP Feliciano de Sá Guimarães já defendia que o Brasil adotasse, diante da potência do norte, uma estratégia sofisticada, que combinasse contenção e engajamento em diferentes frentes, evitando seja o confronto total, seja a completa submissão. Discernindo quando e em torno do que é possível negociar e respondendo com firmeza à pressão exorbitante. Sobretudo, procurando não reduzir a relação a um tópico específico —comércio, conflitos mundiais ou segurança regional.

A fadiga de velhas propostas econômicas nas eleições, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidenciáveis e auxiliares são pródigos em repetir diagnósticos robustos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias

Na ausência de propostas, vai sobrar fake news; Pix é candidato número um a alvo

O debate de medidas econômicas pelos presidenciáveis nas eleições deste ano já nasceu pobre antes de começar para valer.

Os candidatos são pródigos em repetir diagnósticos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias de como resolvê-los por meio de uma abordagem moderna e inovadora.

Há uma fadiga de velhas propostas. É perceptível que as campanhas não estão preparadas para enfrentar o debate de ideias. Desenhar o plano de governo é apenas cumprir tabela.

A audiência, que são os eleitores, também não cobra profundidade e prefere se lambuzar no caminho fácil do Fla-Flu da polarização barata a serviço dos cliques das redes.

Mulheres que me ensinaram a votar, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Paulo Figueiredo disse que as mulheres 'votam mal pra c...'; não livrou nem as bolsonaristas

Eu, ao contrário, sou grato a muitas mulheres que me tornaram mais adulto e responsável

O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Onde falta cair a ficha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política

No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.

Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.