quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Direita latino-americana segue plano temerário de Trump

Por Folha de S. Paulo

14 países da região que integram o Escudo das Américas decidem tratar como terroristas facções como o PCC

Sob Trump, estratégia dá margem a arbitrariedades; para os brasileiros, não importa o nome dos grupos, e sim o combate a eles ser resolutivo

Se o Itamaraty foi apanhado de surpresa pela decisão de 14 países da América Latina de acompanhar os Estados Unidos na classificação do PCC e de outras quadrilhas como organizações terroristas, chama a atenção menos o conteúdo da declaração —às margens da Assembleia Geral da ONU— e mais o isolamento diplomático do Brasil.

Não é trivial articular uma negociação entre tantas nações sem que informações vazem para outras partes interessadas.

Entre os participantes do Escudo das Américas, a iniciativa envolvendo governantes latino-americanos simpáticos a Donald Trump, há vizinhos do Brasil, como Argentina, Colômbia e Bolívia. Seus corpos diplomáticos não são estranhos ao Itamaraty.

Escudo de Trump mira ponto fraco de Lula e cerca as fronteiras do Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O crime organizado virou uma patologia no Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já não são somente quadrilhas dedicadas ao tráfico

O beabá da sociologia moderna começa com uma grande provocação de seu criador, Émile Durkheim, sociólogo, antropólogo e filósofo francês, que forma a santíssima trindade dos pensadores clássicos das ciências sociais com Karl Marx e Max Weber. O seu principal mérito foi emancipar a sociologia como disciplina autônoma, elaborando um método científico próprio e diferenciando-a da psicologia e da filosofia. A provocação foi afirmar que o crime é um fato social normal, em As Regras do Método Sociológico (Martins Fontes).

Durkheim não pretendia justificá-lo. Ao contrário, assinalava que nenhuma sociedade conhecida havia eliminado as transgressões e que a reação a elas reafirmava as regras coletivas. Para o sociólogo, o “normal” é todo fenômeno recorrente em sociedades de um mesmo tipo e estágio de desenvolvimento. O “patológico” aparece quando esse fenômeno ultrapassa certos limites e compromete a vida coletiva. A fronteira, portanto, não separa sociedades com crime daquelas sem crime, mas sociedades capazes de fazer valer suas regras diante do crime daquelas em que o poder criminoso passa a disputá-las.

Futuro nunca passou tanto pelo Senado quanto agora, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Poder dos senadores sobre o mandato dos ministros do STF e sobre a reforma dos tribunais superiores despertou interesse inaudito na disputa

A disputa pelo Senado sempre foi a que menos mobilizou o eleitor. Desta vez, é diferente. Não há exatamente entusiasmo pela disputa porque o desalento grassa em todas as campanhas e para todos os cargos. Mas os desatinos do Supremo Tribunal Federal despertaram o interesse pela disputa na Casa que não apenas sabatina e vota os indicados à Corte como também pode definir sua degola.

Medir este interesse em pesquisa não é fácil por conta das duas vagas. Nomes que aparecem como segunda ou terceira opções do entrevistado podem acabar aparecendo na liderança pela soma das menções. Ainda que se dê o malefício da dúvida às pesquisas que circulam por aí, há convergência de que este basta ao STF não será suficiente para garantir uma maioria bolsonarista ao Senado. As projeções mais confiáveis indicam um equilíbrio entre Centrão e PL, ficando os partidos mais à esquerda como a terceira força da Casa. A renovação dará, ainda, um peso maior às mulheres.

O STF e as eleições, por William Waack

O Estado de S. Paulo.

Qualquer que seja o resultado eleitoral deste ano, a crise no Supremo vai se ampliar

O quatriunvirato que se vê dono do STF provocou a fusão da crise dessa instituição com as eleições, transformadas por eles mesmos em questão existencial quando aberta e publicamente apostaram as fichas em Lula. Trouxeram uma luta pelo poder disputada nas urnas para dentro do STF.

A Corte acabou sendo levada pelo mesmo quatriunvirato à condição de símbolo de proteção do patrimonialismo, isto é, quando grupos privados se apropriam do Estado em defesa de interesses próprios. É completa bobagem acreditar que uma derrota de Lula significaria o fim do patrimonialismo, ou do “sistema”, mas é desse jeito que uma enorme parcela do público “sente” a atmosfera política, fulanizada nas figuras dos ministros.

STF tem encontro com código de ética, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

A depender das decisões tomadas, Corte poderá evitar ou acelerar interferência externa

Passadas as eleições, dois assuntos que foram empurrados para debaixo do tapete vão pautar o Supremo Tribunal Federal. O primeiro é decidir o que fazer com indícios de que ministros receberam vantagens indevidas de Daniel Vorcaro. Em paralelo, Cármen Lúcia anunciou a pessoas próximas que vai apresentar o texto de um código de ética para os integrantes do tribunal.

Hoje, a probabilidade de um código ser aprovado no tribunal é mínima. Ainda assim, o presidente Edson Fachin insiste no projeto. A estratégia não é teimosia, mas uma espécie de redução de danos. Para ele, apontar desvios éticos ou indícios de cometimento de crimes dos pares não tira credibilidade do tribunal – ao contrário, mostraria que a Corte tem mecanismos internos capazes de resolver as próprias crises.

Uma eleição bem diferente, por Míriam Leitão

O Globo

A 10 dias do primeiro turno, o Brasil segue sem discutir propostas. Nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta campanha

A eleição deste ano não tem qualquer discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir. Em ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade. O candidato Flávio Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula por suposta relação com Daniel Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça. Vamos aos fatos. O Banco Central não permitiu a compra do Master pelo BRB, liquidou o Master e denunciou os indícios de crime. A Polícia Federal investigou e prendeu Vorcaro, o pai do Vorcaro, o primo e o cunhado. Em que o governo beneficiou o ex-banqueiro?

Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.

Campanha desanimadora, por Merval Pereira

O Globo

Os dois lados não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente.

A campanha presidencial está tão anódina que ambos os lados aguardam um escândalo para destravá-la. Não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente. A disputa de rejeições parece determinar os passos de cada um, não as qualidades próprias ou os projetos para o país. Nunca, também, houve tanto sexo nas elucubrações da boataria; a festa dos astronautas promovida pelo banqueiro-bandido Daniel Vorcaro parece que mexeu com a criatividade do pessoal de marketing das equipes.

Flávio mira voto útil na reta final, por Julia Duailibi

O Globo

Candidato aposta na tese de que é o principal destinatário dos votos dos demais concorrentes

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais fazer um apelo aos eleitores dos candidatos à Presidência que estão no terceiro pelotão das intenções de voto.

— Votar no FB no primeiro turno é tirar a chance de defesa do inimigo — afirmou, numa referência às iniciais de Flávio Bolsonaro, aos eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.

A ação faz parte de uma ofensiva maior pelo voto útil nos últimos dias, colocada em campo por Flávio e aliados, inclusive pelo governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas:

— Vamos olhar a coisa com pragmatismo. Não dá mais para ter o PT. Está na hora de todo mundo vir com Flávio.

O que fazer em uma eleição que pode ser decidida no primeiro turno, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

A esta altura de 2022, vantagem de Lula era maior, e rejeição, menor que a dos Bolsonaro

Pelas estatísticas das pesquisas, por ora, decisão ainda vai para o segundo tempo

A eleição para presidente vai ser decidida no primeiro turno? Na falta de debate com substância, a quase isso se reduz a conversa. Há dois cavalos disparados na frente, disputando a vitória cabeça a cabeça, enquanto parte dos espectadores mais poderosos ou bem mais armados atira nos cavalos-candidatos. São, por exemplo, balas de vazamentos de tantos escândalos, tiradas do arsenal dos porões das polícias e da Justiça. Desde agosto, Luiz Inácio Lula da Silva leva mais desses tiros.

Pelas pesquisas mais recentes, é possível que um candidato tenha agora mais de 50% dos votos? Na aritmética, não. Tudo mais constante, a migração de votos de outros candidatos para os líderes não seria suficiente para resolver a disputa na primeira volta. É o que se pode depreender com base no que diz o eleitorado sobre um possível voto alternativo no primeiro turno ou sobre sua preferência de transferência de voto no segundo turno, considerando os casos mais extremos de quantidade de mudança. No entanto, nessa aritmética mais extrema, as votações estão perto do limiar de 50%.

A Grande Ficha, ela tem que cair, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Está em jogo a renúncia da soberania territorial, financeira, tecnológica e ambiental

O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais

Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira. Fair-play é para losers.

Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.

E ficou muito mais difícil na última década.

A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.

O Brasil de sempre nas Nações Unidas, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Discurso de Lula é perfeito contraponto à fala arrogante e belicosa de Trump

Presidente reiterou compromissos que definem a personalidade internacional do Brasil

A cada ano, o primeiro dia da Assembleia Geral da ONU é um momento de alta retórica política. Ali, ao apresentar a sua agenda internacional, cada país projeta a imagem a que aspira.

Ao abrir a sessão deste ano, na terça (22), o presidente Lula reiterou compromissos que de há muito definem a personalidade internacional do Brasil; também enfatizou a agenda social, marca registrada do PT, e falou de prementes temas conjunturais.

Como seria um presidente amigo de miliciano? Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Flávio negociou liberação de emendas com miliciano envolvido no assassinato de Marielle

Imagine se Flávio decidir usar o Planalto para beneficiar amigos de longa data

Se ganhar a eleição para presidente da República —como tem chances reais de fazê-lo—, Flávio Bolsonaro seria o mais próximo que já tivemos de um chefe do Executivo federal com laços milicianos. Uso aqui milícia não como figura de linguagem, mas literalmente: em sua trajetória, Flávio Bolsonaro tem mantido relação direta com integrantes de grupos armados que usam de coação com discurso moralizante para aferir lucro individual por meio do uso da violência e outros negócios escusos.

Ainda há uma alternativa ao caos global, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Há dez anos, Guterres assumia a secretaria-geral da ONU, e a vitória de Trump nas eleições dos EUA era improvável

Mundo de hoje é o de Putin, Netanyahu e outros genocidas; as Nações Unidas acabaram por se resumir a papel defensivo

Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres como secretário-geral da ONU. A decisão já vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de expectativa.

Num banco a poucos metros de mim, Samantha Power, então embaixadora dos Estados Unidos, rascunhava o seu discurso para a ocasião, em que falou de Timor-Leste e do malogrado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Outros representantes falaram da reforma da instituição, de direitos humanos ou dos objetivos de desenvolvimento do milênio.

Por que debater ficou mais arriscado? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

O efeito Marçal mostrou como um candidato pode arrastar os demais para o conflito

Hoje, 15 segundos bem editados viram narrativas distribuídas milhões de vezes

Os principais candidatos à Presidência estão refugando os debates eleitorais de 2026. A explicação convencional é simples: quem está bem colocado nas pesquisas tem pouco a ganhar numa arena em que todos os outros têm interesse em atacá-lo. Isso sempre foi verdade. Mas talvez tenha se tornado muito mais verdadeiro depois de 2024.

A eleição para prefeito de São Paulo mostrou de forma impressionante o que um debate pode se tornar na era das redes sociais. Pablo Marçal percebeu que sua função já não precisava ser apenas comparar propostas. O debate podia ser também uma prova de estresse do adversário em público, que consistia em submetê-lo à pressão, tirá-lo do roteiro e usar sua reação como demonstração de caráter, equilíbrio ou capacidade. Em suas próprias palavras, tratava-se de descobrir "quem aguenta o tranco", "quem é de verdade" e até de "expor o caráter de cada um".

Mão na cabeça, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O que esperar de ministros do STF que não gostam de seus crânios nus e implantam cabelos?

Tardiamente careca, eu também deveria fazer isso; o problema é que não tenho nada a esconder

Está certo, não se deve passar a mão na cabeça de quem cometeu um erro. O erro ficará impune e continuará a ser alegremente cometido. Tome os vários juízes do Supremo Tribunal Federal acusados, e com razão, de erros terríveis. Passar a mão na cabeça deles significaria um aval para se colocarem acima das leis do país. Mas há uma atenuante: poderia também revelar um pouco de suas personalidades.

A cabeça do ministro Alexandre de Moraes, raspada a zero há cerca de 20 anos aos sinais de uma calvície precoce, é uma calva assumida, preparada para levar vento, chuva, granizo, tempestade de areia e o que mais vier pelos ares. Ou, pelo menos, era o que se pensava. Durante o processo da tentativa de golpe, Moraes a exibiu indômito, pouco ligando a ser chamado de careca pelos bolsonaristas. No atual caso Vorcaro, no entanto, Moraes está tentando cobri-la com um vergonhoso boné jurídico que, não importa o que faça, não conseguirá escondê-la.

Poesia | Brisa, de Manuel Bandeira

 

Música | Tom Jobim e Edu Lobo - Vento Bravo

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula manteve postura sóbria nas Nações Unidas

Por O Globo

Havia temor de que transformasse ONU em palanque. Mas, apesar das derrapadas, não foi o que aconteceu

A 12 dias da eleição, havia um temor fundamentado de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformasse o púlpito das Nações Unidas em palanque. Mas, apesar das previsíveis derrapadas, não foi o que aconteceu. Lula manteve postura sóbria e soube usar o discurso de abertura da Assembleia Geral — o décimo em sua carreira — para cumprir seu papel de chefe de Estado e transmitir aos líderes globais um recado em favor de causas associadas ao Brasil, como multilateralismo, defesa da democracia, do meio ambiente, da regulação digital e da paz mundial.

O Brasil de Zuenir Ventura, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em quase 70 anos de carreira, jornalista percorreu o país "para olhar e depois contar"

Zuenir Ventura estava em Paris em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou à Presidência e deixou o Brasil à beira do abismo. Pego de surpresa em viagem à China, o vice João Goulart arrumou as malas para voltar ao país. Ainda não sabia se seria empossado ou preso por militares golpistas.

Em escala na capital francesa, o trabalhista se viu diante de outro impasse. Ele não falava o idioma local, e os jornalistas não entendiam uma palavra de português. Sobrou para o correspondente da Tribuna da Imprensa, que precisou se virar como tradutor.

Recados recíprocos no encontro da ONU ampliam tensão entre Lula e Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Tarifas atingem interesses econômicos, porém, sanções contra autoridades alcançam instituições e ameaças de intervenção militar afetam a segurança regional

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump escalaram as tensões entre ambos ao discursar na Assembleia Geral da ONU, ontem, porém, sem citar um ao outro. Sem que ambos se encontrassem nos bastidores, como já era esperado, suas falas compuseram uma troca de recados na qual os Estados Unidos e o Brasil estão em polos opostos. Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”; Trump advertiu que os Estados Unidos usarão seu poder militar para proteger seus interesses no Hemisfério Ocidental.

Entre a defesa da soberania brasileira e a reafirmação da força americana, há uma tensão que vai muito além de uma divergência entre presidentes. Lula chegou a Nova York a menos de duas semanas da eleição. Diante dos demais países, declarou que o pleito brasileiro é “transparente e competitivo”, mas advertiu contra “interesses estrangeiros contrários ao país” que tentariam desvirtuar o debate público. A mensagem ficou ainda mais clara quando afirmou: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros.”

Um spoiler do Lula 4 na pauta do segundo turno, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Está sendo e será penosa - para candidatos, partidos políticos, sociedade organizada, formadores de opinião e eleitores comuns - a travessia até o segundo turno das eleições deste outubro de 2026. São quase desprezíveis as chances da fortuna nos aliviar, abreviando o processo e consumando-o no dia 4. Os desejos compreensivelmente ansiosos de ver essa batalha concluída em duas semanas, praticamente jazem na ordem do impossível. Serão mais cinco e não duas. Essa constatação básica requer dose adicional de paciência e razoável teimosia para ainda esperar que as três semanas de interregno entre os dois turnos possam dar vida a um processo distinto deste que tanto tem nos custado suportar.

As eleições à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas serão decididas no dia 4. As predições de especialistas convergem em apontar ampla vitória do campo conservador, em seus diversos matizes. Essa é tendência manifestada fortemente no varejo do eleitorado brasileiro há uma década, tanto em eleições legislativas municipais, como estaduais e nacionais. O efeito dessa microfísica de preferências sobre o perfil ideológico da representação política nessas casas legislativas é compreensível e não deve causar estranhamento ou censura. Um fator democrático, que é acompanhado, contudo, de recente aumento artificial de recursos de poder e de campanha disponíveis à atual elite legislativa para a sua reprodução. Aí se pode notar, no perfil da representação, distorções que, interagindo com preferências do eleitor, moldam um conservadorismo legislativo de duas faces, uma ideológica, outra patrimonialista.

Uma aposta perdida, por Elio Gaspari

O Globo

A jogatina faz seu estrago, e só

Está saindo do forno uma Medida Provisória que limita a jogatina liberada pelo governo. Lula gostaria de acabar com ela, mas, como já explicou, não é dono do país. A favor mesmo, só o Ministério da Fazenda. Ele calcula que, se as apostas fossem proibidas, a Viúva deixaria de arrecadar R$ 12 bilhões.

A teia de interesses que gravitam em torno da jogatina fortalece-se a cada dia. Basta dizer que os clubes de futebol ameaçam com o fim do esporte no Brasil caso as apostas sejam proibidas. Como o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo sem o patrocínio de casas de apostas, ninguém explica. Também não explicam por que no ano da Copa das Apostas, a seleção voltou para casa depois das oitavas de final.

Que aceno Lula fará ao PIB? por Vera Magalhães

O Globo

Expectativa para jantar do presidente com empresários é de reconhecimento de necessidade de mudança na política fiscal e, se possível, de nome para comandar a economia

Em dezembro, o clima no Planalto e no PT era de “já ganhou”. Jair Bolsonaro, condenado e preso, havia esnobado Tarcísio de Freitas e apontado um dos filhos, Flávio, que não era a primeira escolha nem na prole, como seu candidato a presidente. A reforma do Imposto de Renda havia sido aprovada, Lula havia surfado bem a onda do tarifaço, sua popularidade se recuperava de forma que parecia consistente.

Não demorou três meses para a maré virar. Os ganhos de avaliação obtidos no semestre anterior rapidamente se esvaíram. O bem-estar econômico sumiu das pesquisas. E Flávio, mesmo diretamente envolvido no escândalo do Banco Master, chega à reta finalíssima empatado com Lula no primeiro e no segundo turnos.

Depois de um período de negação da própria dificuldade, o presidente parece ter entendido o risco real de derrota. Tanto que encerrou seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU falando que isso representaria uma vitória do autoritarismo contra a democracia.

Um debate decisivo, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Nunca o eleitor esteve tão ansioso para ouvir os candidatos ao Senado Federal

Lá se vão 48 anos. Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso disputavam o voto do eleitor de São Paulo pelo MDB, enquanto Cláudio Lembo era o candidato da Arena. O regime militar estava no fim. Prefeitos das capitais, governadores e o presidente da República eram eleitos de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral. Restava ao eleitor apenas um pleito majoritário, em que a oposição e o governo mediam forças: a eleição para o Senado.

Já em 1982, o povo brasileiro pôde eleger pelo voto direto os governadores e, em São Paulo, escolheu Montoro, o senador eleito em 1978. A campanha, então, apresentou uma novidade: um debate eleitoral na TV entre os cinco candidatos ao governo. Ali apareceu pela primeira vez na cédula eleitoral o nome do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Candidato ao Palácio dos Bandeirantes, ele amargou o quarto lugar no pleito.

Lula deverá agir contra as bets, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Em busca de reeleição, presidente adota medidas com apelo popular

Risco é restringir demais e empurrar apostadores para mercado paralelo

Entre as medidas reeleitorais que Lula deve anunciar em breve, devem constar providências contra as bets. Dado que as casas de aposta se tornaram uma unanimidade negativa, podemos esperar ações contundentes. Meu receio é que Lula opte pelo que trará mais votos e não pelo que é melhor.

Sempre defendi e continuo defendendo que não cabe ao Estado proibir o cidadão de fazer o que achar melhor com o seu dinheiro ou seu corpo, incluindo jogar e consumir drogas. O alcoolismo é uma doença de maior prevalência do que a ludopatia e não seria difícil juntar várias histórias tristíssimas de dependentes. Mas ninguém cogita de resolver o problema proibindo o comércio de bebidas. Os EUA tentaram isso e não deu muito certo.

O mundo de Lula na ONU, por Gunther Rudzit*

Correio Braziliense

A visão de mundo que organiza o discurso de Lula reconhece a erosão da ordem internacional, mas ainda busca respostas na gramática criada durante sua expansão

O discurso do presidente Luíz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU contém uma das manifestações mais claras do governo brasileiro sobre a transformação do sistema internacional. A novidade não está na defesa da paz, do multilateralismo ou da reforma do Conselho de Segurança. Está na descrição de um mundo em que as instituições perderam capacidade de conter as grandes potências.

Lula afirmou não desconhecer as realidades do poder. E o restante do pronunciamento mostra o alcance dessa constatação. A ONU vive seu momento mais crítico, o Conselho de Segurança está imobilizado, a OMC respira por aparelhos e as tarifas se transformaram em instrumentos de coerção e chantagem. Uma nova corrida armamentista está em curso, enquanto zonas de influência e investidas por recursos estratégicos voltam a organizar o comportamento das potências.

Não é uma mudança pequena. Durante as últimas décadas, o Brasil interpretou crises internacionais como desvios que poderiam ser administrados pela cooperação, pela reforma das instituições e pela inclusão dos países emergentes. O discurso vai além: reconhece que a própria arquitetura construída depois da Segunda Guerra Mundial perdeu capacidade de proteger os mais vulneráveis.

O Bolsonaro mais perigoso pode ser o mais moderado, por Diogo Cunha*

Folha de S. Paulo

Flávio pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela

Ele parece mais disciplinado, integrado ao sistema partidário e capaz de negociar com aqueles que Jair preferia ameaça

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, é mais perigoso para a democracia do que o pai, Jair. Não por ser mais radical, mas por parecer mais moderado.

O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções —basta olhar a trajetória do 01—, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho. Diferentemente de 2018, em 2026 estão dadas as condições para que Flávio possa subverter a democracia por dentro.

Lula aposta tarde contra desgraça das 'bets' e da vida cara para o povo miúdo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente deve tentar limitar cassino virtual, com pouco efeito prático imediato

Governo parecia alheio a dívidas e nível de preços; gestão econômica piorou problemas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve editar medida provisória a fim de limitar apostas nas "bets". De prático, talvez renda uns votos para Lula 4. Talvez. Parte do eleitorado indeciso ou "nem-nem" pode reclamar do gesto tardio ou considerá-lo oportunista.

Questão interessante, a esta altura talvez acadêmica, é entender a reação tardia do governo e da campanha ao mal-estar do eleitorado em tantos assuntos. Além disso, a mera prudência, pois reflexão profunda não houve, consideraria o risco econômico, político e eleitoral de certas atitudes que Lula 3 adotou desde o início.

No fantasioso discurso de Trump na ONU, EUA vivem era de ouro, país derrotou Teerã e há paz de fato em Gaza, por Eduardo Graça

O Globo

Série de mentiras elencadas por presidente, que amarga recorde de insatisfação nas pesquisas, não moverá votos a 42 dias das eleições de meio de mandato

No mundo fantasioso de Donald Trump, os Estados Unidos vivem de fato a era de ouro que ele prometeu em sua posse, em janeiro de 2025. O país não entrou, por decisão própria, no atoleiro da guerra ao Irã. E há paz em Gaza, não um frágil cessar-fogo com ações militares rotineiras de Israel no enclave e a persistência do horror humanitário na ocupação.

Exatamente como fez na Convenção de Meio de Mandato do Partido Republicano, no início do mês, o presidente americano elencou em seu discurso na ONU uma série de inverdades e exageros autocongratulatórios. A gravidade, no entanto, é muito maior por ter sido feita no palco mais nobre do multilateralismo global. De suas muitas declarações infelizes, assombrou mais com a ameaça reiterada, feita do púlpito, de "aniquilar" um país-membro das Nações Unidas, se Teerã não aceitar um acordo com Washington. A tentativa de demonstração de força incluiu ainda o aviso de que novas ações militares podem ocorrer se adversários peitarem os EUA nas Américas, em um recado direto para Cuba.

Crítica à interferência externa em eleições, combate ao crime organizado e comparação com governo Bolsonaro: os recados de Lula na ONU, Por Sérgio Roxo, Jeniffer Gularte e Bruna Lessa

O Globo

Presidente brasileiro abriu Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York

Em discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU em Nova York, nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou uma série de recados sobre temas relacionados à relação do Brasil com os Estados Unidos e de questões internas. Sem citar o líder americano Donald Trump diretamente, Lula criticou a interferência externa em eleições de outros países.

A 12 dias da eleição, Lula também defendeu medidas do seu governo, como a aprovação da Lei Antifacção.

Conselho de Segurança da ONU

O presidente Lula iniciou seu discurso com críticas ao Conselho de Segurança da ONU e à organização. O brasileiro adotou um tom ainda mais duro do que o de costuma ao tratar do tema.

— Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez. A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.

Na ONU, Lula protesta contra projeção de poder de Trump na América Latina, por Lourival Sant'Anna

O Estado de S. Paulo

Em discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, Lula disse que ‘o Brasil não cabe no quintal de ninguém’

O presidente Lula aproveitou seu discurso de abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para protestar contra a projeção de poder dos Estados Unidos de Donald Trump na América Latina.

Lula denunciou “tentações hegemônicas”, afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e garantiu estar comprometido com o combate ao crime organizado, mas sem aceitar ingerências externas.

O presidente disse que os venezuelanos devem decidir seu próprio destino, formulação que pode ser lida tanto contra o autoritarismo chavista quanto contra a intervenção americana.

Lula pôs em xeque na ONU sua insurgência triunfante sobre a extrema-direita, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente que subiu à tribuna das Nações Unidas nesta terça-feira parecia menos candidato do que o de 2025

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas vai gerar uma infinidade de cortes para as redes sociais e programas eleitorais de sua campanha à reeleição. Foi carimbado pelos temas de sua campanha como a defesa da soberania, da jornada 6x1, do combate à lavagem de dinheiro do crime organizado. Era o esperado para um discurso a 11 dias do primeiro turno.

A despeito disso, o Lula que subiu à tribuna da ONU nesta terça-feira (22) parecia menos candidato do que o de 2025. A indignação deste ano estava mais no discurso do que na motivação. No ano passado, o Brasil tinha acabado de emergir do julgamento da tentativa de golpe, inspirada pelo trumpismo que acabara de ser empossado nos EUA, com tarifaço no mundo inteiro e bombardeio sobre o Irã.

Trump faz discurso de chefe do mundo no plenário símbolo do multilateralismo, por Fernanda Godoy

Valor Econômico

Discurso no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas foi uma afirmação cabal de sua visão como líder, ou melhor, chefe global, em detrimento do sistema multilateral

O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas foi uma afirmação cabal de sua visão como líder, ou melhor, chefe global, em detrimento do sistema multilateral erguido com esforço diplomático do mundo inteiro após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Trump ameaçou os iranianos com aniquilação e inferno. Também se autocongratulou pelo sucesso da operação das tropas de elite das Forças Armadas dos EUA que resultou na deposição do “ditador fora da lei e criminoso”, o então presidente (e ditador) Nicolás Maduro. Resta uma dúvida: existe ditador que não seja ou esteja fora da lei, que não possa ser considerado autoritário, ilegítimo, que não desrespeite as leis de seu país e as regras internacionais e a Carta das Nações Unidas?

Na ONU, Lula apresenta eleição como embate entre democracia e autoritarismo e faz vacina contra Trump, por Patrícia Campos Mello

Folha de S. Paulo

Mandatário gabaritou lista de críticas a americano, mencionando desde Irã e Israel até América Latina e IA

Presidente brasileiro usa pronunciamento para reforçar discurso de soberania e enfatizar plataforma de campanha

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na abertura da Assembleia Geral da ONU combinou vacinas contra interferências americanas na eleição brasileira com uma apresentação do pleito ao mundo como embate entre autoritarismo e democracia.

Na fala de quase 22 minutos, diante dos 18 minutos do ano passado, Lula caracterizou a eleição brasileira como uma luta entre o retrocesso autoritário simbolizado pela volta da família Bolsonaro ao poder e o aprofundamento de um projeto progressista que ainda não entregou resultados suficientes para parte da população. E, como esperado, o tema da soberania permeou o pronunciamento.

"No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo."

O discurso foi recheado de recados eleitorais e alfinetadas em Donald Trump.

"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse Lula. "Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano."