sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Vera Magalhães - Pressão total por auxílio turbinado

O Globo

A pressão sobre o ministro Paulo Guedes (Economia) por um Auxílio Brasil anabolizado nunca foi tão grande. No interior do governo, o discurso é que é preciso anunciar quanto antes um benefício permanente que substitua o Bolsa Família e o auxílio emergencial.

O sonho da ala política do Executivo, que já não esconde que resolveu mandar o ajuste fiscal e os escrúpulos às favas, é repetir o valor de R$ 600 da primeira rodada do auxílio emergencial.

Sozinho na savana, Guedes tenta avisar que não há nem espaço fiscal para pagar esse valor nem o “carimbo” de que o governo precisa no Orçamento para criar uma despesa permanente.

O primeiro teria de vir da renegociação dos precatórios, que nesta semana avançou para um acordo, mas ainda com inconsistências que precisam ser resolvidas, como a necessidade de combinar com os credores o tal “encontro de contas” que, ademais, não conseguiria atingir a todos os que têm dívidas a receber.

Bernardo Mello Franco - A arminha do chanceler

O Globo

Marcelo Queiroga roubou a cena na comitiva que acompanhou Jair Bolsonaro na ONU. O ministro da Saúde perdeu a compostura diante de um protesto e fez gestos obscenos para os manifestantes. Depois foi diagnosticado com Covid-19 e teve que adiar a volta ao Brasil. Cumprirá a quarentena num hotel cinco estrelas de Nova York.

Apesar da concorrência desleal, outro ministro também conseguiu se destacar negativamente na viagem. Na mesma van em que Queiroga exibiu o dedo médio, o chanceler Carlos França fez o sinal de arminha na direção de brasileiros que criticavam o governo. A atitude causou desalento entre diplomatas que se mantêm críticos à extrema direita no poder.

Flávia Oliveira - Desafios pós-Covid

O Globo

Não bastam desemprego e inflação, fome e miséria, distribuição errática de vacinas e má gestão do programa de imunização, evasão escolar e feminicídios, desmatamento e crise hídrica, racismo e violência policial. Preocupam — e muito — os indicadores de morte e invalidez por acidentes de trânsito, principalmente entre motociclistas, e a estruturação do sistema de saúde para atender os que sobreviveram com sequelas à Covid-19. Tal como o dólar, a taxa básica de juros, as mentiras do presidente, o rol de mazelas nacionais negligenciadas só faz crescer.

Nesta semana, duas instituições públicas se ocuparam de um par de problemas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou edição especial do boletim Radar, em atenção à Semana Nacional do Trânsito. Lembrou que o Brasil é quinto no ranking global de vítimas, atrás somente de Índia, China, EUA e Rússia. Aqui, a taxa de mortes é de 22 por 100 mil habitantes; um terço dos óbitos em ocorrências com moto. Até a pandemia, o país contabilizava, por ano, cerca de 40 mil mortes e 300 mil casos de lesões graves em acidentes com transportes terrestres. O total de mortos caiu para 30 mil com a supressão de viagens em decorrência das medidas de isolamento social, mas pode voltar a subir “de forma incontrolável e persistente” com a flexibilização das atividades, alerta o técnico Carlos Henrique Carvalho.

Ruth de Aquino - O dedo médio obsceno de Queiroga

O Globo

Nada me envergonhou mais nessa excursão vulgar a Nova York do que os dois dedos médios em riste do ministro da Saúde, o médico Marcelo Queiroga, exibidos para manifestantes que gritavam Fora Bolsonaro. Esse gesto, segundo antropólogos, é uma variante de primatas na pré-história. Eles mostravam o pênis ereto a seus inimigos para intimidar. 

O homem teria substituído o bilau pelo dedo erguido para insultar. Um dos primeiros registros surge numa peça grega de Aristófanes, que compara o dedo médio ao pênis. Da Grécia, o gesto chegou a Roma como digitus infamis, o ‘dedo obsceno’, ou digitus impudicus, o ‘dedo indecente’. O truculento imperador Calígula obrigava os súditos a beijar seu dedo do meio em vez de sua mão. Era para humilhar, conta o zoólogo britânico Desmond Morris.

Luiz Carlos Azedo - Lira passa o trator nos servidores

Correio Braziliense

Deputados do Centrão dominam a Câmara e não estão preocupados com a opinião pública, porque suas bases eleitorais são fidelizadas graças às verbas do Orçamento

O texto base da reforma administrativa, aprovada pela comissão especial da Câmara, ontem, desagrada tanto aos setores liberais que defendem a modernização do Estado brasileiro quanto aos seus opositores de esquerda, porque não tem coerência e mantém privilégios. Para os especialistas, também desconstrói pilares importantes da meritocracia, princípio que deve nortear o serviço público. O texto foi resultado de negociações de bastidor conduzidas pelo relator, deputado Arthur Maia (DEM-BA), com apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que tratorou os servidores e a oposição.

Desde setembro do ano passado, a reforma administrativa estava encalhada na Câmara. Seu objetivo é alterar as regras para os futuros servidores dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da União, estados e municípios. Ainda há muitos destaques a serem votados na própria comissão. Somente após a conclusão dessas votações, a proposta será encaminhada ao plenário, onde precisará ter pelo menos 308 votos a favor, em dois turnos de votações.

Reinaldo Azevedo - Terceira via não come pé de frango

Folha de S. Paulo

Os que insistem no candidato nem-nem estão sendo justos com a obra de Bolsonaro e com a terra dos 600 mil mortos?

Não sou instituto de pesquisa, mas, a exemplo dos que atuam com seriedade, não faço previsões nem antevisões. Aponto o que vejo na hora e tento entender por que as coisas se dão deste modo ou daquele. As certezas absolutas ficam para candidatos e coordenadores de campanha. Analistas lançam proposições antecipatórias, sendo, muitas delas, pressuposições. Se honestas, ancoram-se em fatos. Hoje, 23 de setembro de 2021, afirmo: só o PT pode pôr em risco a vitória de Lula no ano que vem.

Uma nota: é evidente que, para fazer essa afirmação, levo em conta as pesquisas, que registram, de resto, não o voto que o eleitor dará no dia da eleição, mas o que daria se ela ocorresse no momento em que ele responde ao questionário. É o famoso “retrato da hora”, não uma viagem ao futuro. Conhecendo o estado de coisas, candidatos podem ajustar suas estratégias. E existe o indeterminado. Mas também este não se dá no ventre do nada. Bolsonaro já tinha sido adotado por setores consideráveis das elites quando Adélio surgiu no seu caminho para lhe pavimentar a vitória. Voltemos ao ponto.

Bruno Boghossian - Uma janela para o nada

Folha de S. Paulo

A quase um ano do primeiro turno, presidente ainda não tem legenda para entrar na disputa

Os deputados que se elegeram de carona com Jair Bolsonaro brigaram com a cúpula do PSL há quase dois anos, mas foram forçados a ficar no partido para não correr o risco de perder o mandato. Agora, a fusão da sigla com o DEM, prevista para outubro, deve abrir uma janela para que eles sejam felizes em outra legenda. O problema é que boa parte dessa turma não sabe para onde ir.

Uma ala dos parlamentares negocia se filiar ao PP, que se tornou um representante institucional do bolsonarismo desde a eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara e a nomeação de Ciro Nogueira para a chefia da Casa Civil. Mas outro grupo faz conversas no varejo com partidos que flertam com o presidente, como PTB, PSC e PRTB.

Ruy Castro - Nojo do Brasil de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Para a opinião internacional, esse Brasil que mostra seu sórdido dedo para o mundo somos nós

Há tempos, desde que a vacinação contra a Covid dividiu o mundo —de um lado, governantes dispostos a proteger sua população; do outro, Jair Bolsonaro decidido a matar o maior número possível de pessoas—, comecei a me perguntar como seria quando Bolsonaro tivesse de fazer uma viagem internacional. Como os serviços diplomáticos relatam a seus superiores o que acontece nos países em que estão baseados, não era segredo para nenhum chefe de Estado que Bolsonaro não apenas se recusava a se vacinar como fazia tudo para o vírus grassar no Brasil.

Hélio Schwartsman - Autonomia demais

Folha de S. Paulo

Médico pode às vezes seguir palpites, mas o sistema tem de operar com evidências sólidas

Ainda não entendi bem o que aconteceu na Prevent Senior, mas as suspeitas são graves. Quaisquer que sejam os resultados das investigações, já dá para dizer que há algo de podre no modo como a regulação médica é praticada no Brasil. Como os buracos são muitos, limito as observações de hoje à questão dos protocolos. É sob essa rubrica que a Prevent teria distribuído a seus clientes o tal do kit Covid.

A medicina precisa encontrar um equilíbrio entre a abertura à inovação e a confiabilidade da experiência. Protocolos clínicos são a resposta que as instituições tentam dar a esse dilema. Quando um hospital ou rede adotam um protocolo, isto é, um roteiro mais ou menos padronizado para tratar uma afecção, eles buscam assegurar que todos os pacientes receberão terapias semelhantes, independentemente dos profissionais que os atendam. Num país em que a formação médica deixa a desejar, a tendência é que os protocolos fortifiquem o sistema. Eles, afinal, fazem com que o saber dos especialistas chegue aos médicos que põem a mão na massa. A padronização também favorece a redução de iatrogenias (a prática leva à perfeição) e permite ganhos na compra de medicamentos.

Eliane Cantanhêde - Crise de abstinência

O Estado de S. Paulo

CPI precisa parar de insultos e se concentrar no relatório final. De pizza, basta a de NY

Vagabundo, picareta, ladrão, vigarista... Com essa profusão de insultos mútuos, os senadores Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, e Jorginho Mello, da tropa de choque bolsonarista, deixaram claro que a comissão não está no seu melhor momento e chega à reta final com ameaças de sopapos entre seus próprios integrantes. Renan caiu na armadilha dos governistas e só quem perde é a CPI. Foco, senhores! Foco!

Criada para investigar, divulgar e responsabilizar os negacionistas, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, pela sua coleção de erros pavorosos durante a pandemia, a CPI não só cumpriu esse papel como atirou no que viu e acertou no que não viu – nem previu: um esquema tão primário quanto nocivo de empresas e lobistas para tirar uma casquinha da desgraça com o dinheiro público.

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira* - Patativa, tico-tico ou carcará?

O Estado de S. Paulo

Pensava-se que após o 7 de setembro nosso mandatário mudaria de plumagem. Ledo engano

De início, peço desculpas aos belos pássaros da nossa fauna, pois neste texto serão comparados com quem emite sons na forma de palavras que não honram a beleza do canto das nossas aves e a inteligência do nosso povo. O contraste será entre a patativa, o tico-tico, o sabiá, o beija-flor, que emitem chilreados, gorjeios e trinados belíssimos, e o carcará, que tem um canto sinistro e sombrio.

As escusas são extensivas aos grandes oradores nacionais, advogados, parlamentares, pregadores que honraram a arte de falar e usaram a palavra com objetivos nobres e edificantes, mesmo que em tons contundentes e críticos.

Nós já tivemos dois presidentes, Epitácio Pessoa e Afonso Pena, com alcunhas de aves. Patativa e tico-tico, respectivamente. E, agora, está surgindo um terceiro cognome, que se amolda a outro mandatário: carcará, pássaro predador, cujo canto anuncia maus agouros e destruição.

Pois é, cada época com o pássaro e com o presidente que lhe são próprios. Digo ser a nossa época própria do presidente que aí está porque ele foi eleito e, portanto, parte da sociedade o quis. Agora, ela está amargando as consequências de sua má escolha, provocada por uma ave que sobrevoa e ameaça a nossa já combalida harmonia social, as nossas instituições, e continua a macular a nossa imagem no exterior com a sua conduta deletéria, antítese do que se espera de um chefe de Estado.

Marcelo de Azevedo Granato* - A outra polarização

O Estado de S. Paulo

A desigualdade econômica tem efeitos que alcançam outras esferas da vida social

Já é assunto no Brasil a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro na disputa pela Presidência da República no ano que vem. Atropelando a pandemia, o eventual impeachment de Bolsonaro e as articulações da chamada terceira via, essa discussão encobre uma outra, não menos importante, polarização.

Trata-se da distância entre ricos e pobres no Brasil. De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano para América Latina e Caribe, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), os países da região são presas de uma armadilha que combina alta desigualdade e baixo crescimento, num círculo vicioso que limita a capacidade destes países de favorecer o desenvolvimento humano de seus habitantes.

Lê-se neste relatório, publicado no fim do semestre passado, que, no ano de 2019, os 10% mais ricos do Brasil detinham 57% da renda nacional; o 1% mais rico detinha 28%, atrás apenas dos chilenos e dos mexicanos na comparação entre dez países latinoamericanos.

César Felício - Os fracos não têm vez

Valor Econômico

Erros de Bolsonaro o tornam menor do que o antipetismo

 “O Congresso não perdoa quem está fraco”. Com essa frase, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), reajusta suas previsões para as eleições do próximo ano. Até o ano passado, Casagrande estava pessimista com as perspectivas da oposição. Em conversa com este colunista, ele fez um prognóstico sombrio para quem é contra o presidente Jair Bolsonaro: “Vamos pensar em 2026. Melhor esquecer que existe 2022”, disse na ocasião.

Mais do que a pandemia, mais do que a economia anêmica, mais do que os arroubos golpistas do presidente, o que faz o governador capixaba a analisar o cenário de modo diferente é a captura do Orçamento pelo Congresso.

Casagrande não diz, mas o mercado também não perdoa governo fraco. Diante de um governo fraco, o teto de gastos se torna um anátema. Fica claro que há uma desconfiança profunda de que a equipe de Paulo Guedes consiga entregar o que vende: reformas do Estado que sejam de fato efetivas, contenção da despesa pública de modo estrutural, privatizações. Sobra a defesa do teto de gastos como a âncora.

Claudia Safatle - Decreto pode aumentar Bolsa Família

Valor Econômico

Benefício não é gasto obrigatório de prestação continuada

O reajuste dos valores do Bolsa Família não precisa de compensação de receitas, conforme o artigo 24 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Portanto, o aumento do benefício em até 50% para manter o seu valor real, considerando a cesta básica e não o IPCA, assim como a ampliação de 14 milhões para 17 milhões de famílias atendidas poderiam ser feitos por decreto presidencial. Não precisaria nem da tributação do Imposto de Renda sobre juros e dividendos, como condicionou o ministro da Economia, Paulo Guedes, nem da ponte feita pelo aumento transitório do IOF como fonte de financiamento para os dois últimos meses do ano.

No parágrafo 1º do artigo 24 está escrito: “É dispensada da compensação referida no art. 17 o aumento de despesa decorrente de: I - concessão de benefício a quem satisfaça as condições de habilitação prevista na legislação pertinente; II - expansão quantitativa do atendimento e dos serviços prestados; III - reajustamento de valor do benefício ou serviço, a fim de preservar o seu valor real”.

Foi com base neste artigo que houve reajustes de valores do Bolsa Família em outras ocasiões do passado, sem que tenha sido providenciada a compensação de receitas de que trata o artigo 17 da LRF. O mesmo aconteceu com a renda familiar per capita que caracteriza a situação de pobreza e extrema pobreza, necessária para participar do programa, que eleva para cerca de 17 milhões o número de famílias atendidas.

Maria Cristina Fernandes – Para sair da legalidade e entrar no direito

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Em “Código de Machado de Assis” Miguel Matos varre a obra do escritor à cata de suas migalhas jurídicas e compila as idiossincrasias da justiça e do mundo forense sob a lente irônica do bruxo do Cosme Velho

Com as “quatro linhas da Constituição”, o presidente Jair Bolsonaro tirou o “cabo e o soldado” da legalidade para entrar no direito. É estapafúrdio, mas não passa de um plágio.

Corria o ano de 1893 e Machado de Assis, a propósito de comentar uma efeméride, os 70 anos do golpe de Estado de Pedro I, o compara, em crônica para a “Gazeta de Notícias” do Rio, àquele de Luiz Napoleão Bonaparte. A frase de Napoleão - “saí da legalidade para entrar no direito” - marcou Machado desde um tempo em que ele não sabia o que era direito nem legalidade.

E para quem está perdido no direito, na legalidade e na história, Miguel Matos recupera a crônica em “Código de Machado de Assis” (Editora Migalhas, 2021). Ainda acrescenta o breve relato da invasão do plenário da Câmara dos Deputados, em 12 de novembro de 1823, a mando de D. Pedro I, quando foram presos e exilados vários parlamentares.

A invasão interrompeu os trabalhos constituintes que, a partir daí, foram conduzidos por dez luminares de sua algibeira que redigiram a primeira Constituição do Brasil, em 1824.

Ao longo de 590 páginas, Miguel Matos garimpa toda a obra de Machado de Assis - romances, poesia, dramaturgia, crônicas, críticas literárias e contos - para recuperar os personagens do direito, de advogados a ministros, passando por desembargadores, juízes, bacharéis, promotores, tabeliães e escrivães.

José de Souza Martins* - As novas invasões do MST

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Movimento estimula investidor a aplicar R$ 100 em CRA, com juros de 5,5% ao ano por cinco anos; recursos serão aplicados em sete cooperativas de assentamentos de reforma agrária

A notícia de que o MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra captara no mercado de capitais R$ 17,5 milhões causou surpresa a quem, durante quase 40 anos, engoliu as satanizações que definiam o MST como comunista, invasor de terras e violador do direito de propriedade. Uma captação já fora feita no ano passado.

O MST é historicamente a negação desses atributos. É também a negação do modelo brasileiro de capitalismo, antissocial, predatório e autoritário. Sua grande luta social tem sido contra a usurpação de terras pelo latifúndio improdutivo, rentista e especulativo, até mesmo não legitimadas pela cadeia dominial nem pela legislação de reforma agrária do regime militar.

Concebido por uma equipe coordenada pelo general Golbery do Couto e Silva, o Estatuto da Terra, de 1964, reiterava a constitucional função social da propriedade e o direito de acesso à terra para quem nela vive e trabalha. Em tese, o golpe não fora dado para apoiar o latifundismo.

FH defende frente ampla, incluindo PT: 'Eu não discrimino'

Ex-presidente acredita que PSDB deve participar de atos contra o governo convocados por oposição

Gustavo Schmitt / O Globo

SÃO PAULO — O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entende que o PSDB deve participar das manifestações dos partidos de oposição contra o governo do presidente Jair Bolsonaro. A declaração difere da postura de líderes tucanos que têm sinalizado que existe resistência interna a adesão aos atos junto com o PT, entre outras siglas.

Embora o PSDB nacional tenha decidido recentemente que será oposição ao governo, há contrariedade nas bancadas de deputados e senadores do partido, já que muitos parlamentares são de estados ruralistas e sofrem pressão de eleitorado conservador e evangélico. 

— Não importa quem convoque. Havendo uma convocação que seja possível de participar, dizer o que pensa é bom — afirma o ex-presidente em entrevista ao GLOBO. 

A participação nos protestos contra Bolsonaro foi definida em reunião de partidos de esquerda como PT, PSOL, PCdoB, PDT e PV, além de outros de centro, como Cidadania, Rede e Solidariedade. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também deve marcar presença. 

Candidato de esquerda no Chile promete levar Piñera à Justiça por repressão nos protestos de 2019

Liderando corrida eleitoral, o ex-líder estudantil Gabriel Boric deu a declaração no primeiro debate entre os candidatos à Presidência, cuja votação ocorrerá em novembro

Da AFP / O Globo

SANTIAGO — O candidato presidencial de esquerda Gabriel Boric, que lidera as pesquisas a dois meses das eleições presidenciais chilenas de 21 de novembro, prometeu nesta quarta-feira que, se eleito, levará o presidente Sebastián Piñera à Justiça pela repressão aos protestos de 2019, no que foram as maiores manifestações da História do país.

— O senhor Piñera está avisado, será  processado pelas graves violações dos direitos humanos — disse o deputado e ex-líder estudantil de 35 anos no primeiro debate entre os candidatos à Presidência, organizado pelos canais Chilevisión e CNN Chile.

Os responsáveis pela repressão “não devem apenas pedir desculpas, devem responder [à Justiça]”, acrescentou Boric, afirmando que “é possível construir um novo Chile”.

Boric referiu-se aos 34 mortos nos protestos entre 2019 e 2020, além dos 445 manifestantes que sofreram ferimentos nos olhos devido a projéteis supostamente disparados pela polícia (35 perderam um olho e dois ficaram cegos), segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile (INDH). À época, os atos foram inicialmente motivados por um aumento da passagem do metrô de Santiago, mas foram engrossados por demandas mais amplas, incluindo reformas nos sistemas de aposentadoria, educação e saúde.

Cinco dos sete candidatos participaram do debate, realizado no primeiro dia de campanha, entre eles Sebastián Sichel, segundo colocado nas pesquisas, representando a coalizão de direita de Piñera.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Cobaias humanas de cientistas inescrupulosos

O Globo

A pandemia trouxe a ciência ao centro da vida dos brasileiros e do debate político. Epidemiologistas, virologistas e infectologistas de ocasião passaram a debater uso de máscaras, eficácia de vacinas, taxas de contágio, distanciamento social, imunidade de rebanho — e tudo o que tivesse relação com o coronavírus. O conhecimento avançou rápido, produziu vacinas em tempo recorde e acumulou quantidade sólida de evidências sobre prevenção e tratamento da Covid-19.

Lado a lado com a ciência, porém, proliferou também a ignorância. Como a ciência trabalha diante do desconhecido, tenta reduzir o espaço para dúvidas, mas sem nunca extingui-lo, é incapaz de fornecer o tipo de certeza que a população gostaria de ter. Políticos se aproveitaram dessa limitação para disseminar desinformação e arrebanhar apoio entre incautos.

Poesia | Vinicius de Moraes - Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Música | Gal Costa: Bloco do Prazer / Balancê / Massa Real / Festa do Interior

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Merval Pereira - Mãos irresponsáveis

O Globo

A condescendência das autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) com o presidente Bolsonaro, permitindo que assumisse o púlpito para fazer o discurso de abertura da sessão inaugural sem estar vacinado, não se justifica, pois, como ficou comprovado, ainda não há segurança de que quem já teve Covid-19 esteja protegido de ser infectado novamente ou de infectar alguém.

Bolsonaro, do alto de sua ignorância prepotente, disse ao primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que “ainda” não havia se vacinado, mas que sua imunidade estava bastante alta. Não se sabe se o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, “já saiu com o bichinho” do Brasil, como disse o vice-presidente Hamilton Mourão, ou se o apanhou por fazer parte da comitiva de um presidente que menospreza os cuidados básicos e trabalha contra a vacinação, embora a defenda da boca para fora nos fóruns internacionais.

O Brasil levou uma comitiva enorme, mas completamente inútil para a reunião da ONU em Nova York. Não havia nada marcado para ninguém, a não ser passear de avião e ouvir o discurso do presidente Bolsonaro. É impressionante que ainda nos comportemos dessa maneira, reafirmando nossa regressão atual a republiqueta de bananas.

Malu Gaspar - O julgamento da História não basta

O Globo

Embora escasso em surpresas, o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU trouxe um trecho que chamou a atenção. Ao fazer uma defesa enfática do “tratamento precoce” contra a Covid-19 (leia-se cloroquina), apoiando-se na recomendação do “nosso Conselho Federal de Medicina”, Bolsonaro cobrou os líderes presentes:

— Não entendemos por que muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A História e a ciência saberão responsabilizar a todos.

Bom, se o presidente não entende, não há o que se possa fazer. O que a ciência tem dito é que o “tratamento precoce” não tem eficácia contra a Covid-19. Como disse a microbiologista Natalia Pasternak na CPI da Covid, a cloroquina só não foi testada nas emas. Tudo o mais foi experimentado, infelizmente sem resultados. Mesmo o governo de Donald Trump descartou seu uso. No resto do mundo, essa discussão já foi superada faz tempo.

Míriam Leitão - Escalada de juros e outros riscos

O Globo

Os juros subiram um ponto percentual e subirão outro ponto percentual na próxima reunião. A questão é até que nível terá que subir para garantir a queda da inflação no ano que vem. Economistas começam a projetar a Selic acima de 9%. A taxa está perto do que estava no começo do governo Bolsonaro, mas a inflação que era de 4,31% agora beira os 10%. Se o BC mantiver o ritmo, os juros chegam ao fim do ano em 8,25%, uma mudança radical, porque há seis meses estavam em 2%. Há várias outras sombras na conjuntura, como a crise hídrica, que tem efeito de reduzir ainda mais o crescimento, e a pedalada fiscal, que está sendo preparada no Congresso.

Segundo o Banco Central há muitas pressões sobre a inflação. Sobem preços industriais e dos serviços, persistem as pressões sobre combustíveis, energia e alimentos, “que refletem fatores como câmbio, preços de commodities e condições climáticas desfavoráveis”. O BC alertou também que “o risco fiscal segue elevado” e isso dá uma “assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante da política monetária”. É isso, inflação disseminada com várias pressões e risco fiscal.

Cora Rónai – Do baixo clero a baixa presidência

O Globo

O país parece destinado a passar vergonha, seja em restaurante estrelado em Paris, seja em calçada de Nova York

Bolsonaro não existe mais. Depois da tentativa de golpe do dia 7 de setembro, quando ficou claro que o Brasil consegue funcionar a despeito do que ele, as milícias e os caminhoneiros propõem, deixou de ter qualquer importância. Vai continuar esbravejando e causando, vai continuar fabricando Medidas Provisórias e PLs cheios de más intenções, mas o seu show acabou. Morreu. Se vai ser enterrado nas urnas ou antes disso só importa porque há muito a reconstruir no Brasil, e cada dia perdido é mais um prejuízo.

Bolsonaro juntou o que tinha e o que não tinha para a sua cartada golpista. Ao longo dia 7, mas sobretudo na noite tenebrosa do dia 6, o bolsonarismo veio com tudo. Felizmente havia adultos em Brasília, e eles tomaram providências. O tudo se fez nada muito rápido porque era nada desde o começo: onde o Messias se via como um leão rugindo, foi fácil perceber o pato, manco das duas patas.

Luiz Carlos Azedo - Ministro da covid-19

Correio Braziliense

Queiroga resolveu entrar na onda de Bolsonaro e desacreditar a CoronaVac, a vacina do Butantã, que salva as vidas de milhões de brasileiros na pandemia de Covid-19

Tem coisas que realmente só acontecem no governo de Jair Bolsonaro. Por exemplo: ministros e outras autoridades descobriram que a melhor maneira de se manter no cargo, apesar de fracassarem por incompetência, é atacar a imprensa, defender as teses mais estapafúrdias e apoiar as atitudes negacionista do presidente da República. A fórmula foi adotada logo no começo do governo pelo então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que já assumira o cargo enrolado por causa de denúncias de crimes eleitorais — porém, logo virou um padrão de comportamento, toda vez que alguém começa a colecionar desgastes no cargo. Nem sempre o expediente garante a posição, mas, ao menos, prolonga a permanência no posto e permite uma retirada em ordem, como no caso de Marcelo Álvaro.

Quem agora se supera com esse estratagema é o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que está com covid-19 e teve contato com várias autoridades na viagem que fez a Nova York, integrando a delegação brasileira à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Bolsonaro foi a grande atração do evento internacional, depois do presidente norte-americano Joe Biden, não por causa de seu discurso na abertura da assembleia, mas devido ao fato de não ter se vacinado e não poder fazer as refeições nos restaurantes da cidade, conforme as normas sanitárias adotadas pela Prefeitura de Nova York. Além de mostrar os dedos médios das duas mãos para manifestantes, pela janela da van que transportava a comitiva presidencial, Queiroga voltou às manchetes porque testou positivo e terá que ficar 14 dias de quarentena na cidade.

William Waack - ‘Canudos não se rendeu’

O Estado de S. Paulo

A boçalidade registrada em Nova York é constrangedora para nossas elites

Provocou em muita gente um sentimento de “vergonha alheia” a boçalidade da comitiva presidencial em Nova York.

As peripécias envolvendo a comitiva presidencial para participar da Assembleiageral da ONU em Nova York demonstram que boçalidade é contagiante. É até possível por hipótese admitir que um político disputando votos, como é o caso de Jair Bolsonaro, calcule ganhar vantagem eleitoral com comportamentos boçais em público. Faz tempo que “tosco” virou “autêntico” (Collor dizia ter aquilo roxo).

Também por hipótese pode-se admitir que ministros de Estado que fazem gestos obscenos para manifestantes (o da Saúde) ou macaqueiam símbolos usados em campanha política pelo presidente (o das Relações Exteriores) – como aconteceu em Nova York – jogaram fora compostura e decoro para agradar ao chefe. Puxa-saquismo e apego ao cargo são reconhecidamente parte da condição humana. Talvez imperdoável, mas compreensível.

Eugênio Bucci* - O pior negacionismo

O Estado de S. Paulo

Sem memória e sem caráter, o negacionismo que beneficia o negacionista se restaura

Na ressaca do descalabro que foi o discurso do presidente brasileiro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira, em Nova York, a gente se acabrunha. O grau do vexame extrapolou as piores expectativas. Em meio a mentiras ofensivas, distorções estúpidas e apologia de fármacos abstrusos, a saraivada de despautérios não convenceu ninguém e constrangeu o mundo inteiro. Aos conterrâneos do orador – dito mito, mas, de fato, mitômano – só restou engolir a humilhação. Vergonha – este foi o título do editorial do Estado em sua edição de ontem. Palavra bem aplicada.

Somos uma nação envergonhada, com as costas pensas sob o próprio fracasso. No ritmo em que as florestas deste país fumegam delirantemente, a esperança vira cinzas. O desastre ecológico e a tragédia sanitária se adensam num malogro político depressivo. Quando a autoridade máxima desta terra ardente (“qual fogueira de São João”) vai à ONU e pronuncia tudo o que pronunciou, em nosso nome, e nada lhe acontece, é sinal de que alguém aqui abdicou da dignidade.

Nestas horas, pouco adianta o sujeito sacar o celular e “postar” nas redes que o chefe de Estado é genocida. A inquietação lamurienta dos descontentes é seu triunfo. Cuspindo ácido sulfúrico, ele desfila sobre cadáveres de gente e de sonhos. Chamado de negacionista, mostra os dentes: negacionistas são vocês.

Talvez seja isso mesmo. Como já se percebeu, o pior negacionismo não é o dele, que rejeita a ciência, o saber e o diálogo, mas o daqueles que se negam a ver que estamos diante de um inimigo declarado da democracia, obcecado em preparar um golpe de Estado. O pior negacionismo é aceitar a permanência do governante que aí está e, nessa aceitação tácita, assinar um pacto de sangue com o projeto de ditadura que ele pretende pôr em prática.

José Serra* - Governar é preciso

O Estado de S. Paulo

Governo que dá costas ao vácuo de governança corre o risco de ser engolido por ele

Para Sigmund Freud, grande observador das manifestações da alma humana, três profissões são impossíveis: educar, governar e analisar – aquela a que ele mesmo se dedicou. Dado o número dos que buscam, a cada dois anos, uma função sujeita ao escrutínio eleitoral, parece que muitos não concordam com Freud. Isso porque essas três funções não dependem de quem quer exercê-la, pois ninguém cura quem não se dispõe a ser curado, nem ensina a quem não quer aprender, nem muito governa quem não aceita ser governado.

Há mais de uma década tem-se observado, nas democracias representativas, um descolamento entre os eleitores e seus representantes, que se expressa num número significativo de sociedades, sob a forma de uma profunda insatisfação com a maneira como o povo é governado. Em muitos países, em todos os continentes, essa insatisfação tem sido manipulada por demagogos aventureiros, autoritários e populistas, para chegarem ao poder pela via eleitoral.

Uma das características desses aventureiros parece ser a crença subjacente de que, para governar, basta ter um botão em uma das mãos e um chicote na outra. Apertado o botão, seriam remotamente coletadas as receitas públicas, a máquina burocrática se encarregaria de sua gestão e a vontade do chefe seria cumprida num estalar de dedos. E os insatisfeitos seriam corrigidos a chicotadas, que é o que ocorre nas “repúblicas democráticas”, “populares”, socialistas ou teocráticas.

Lembro-me bem de minha primeira função pública, como secretário de Economia e Planejamento de São Paulo e encarregado de estabilizar as contas do Estado. Era frequentemente assediado pelos jovens militantes empolgados com a vitória, conquistada nas urnas, pela oposição ao regime burocrático militar. Diante da ausência de recursos para realizar seus sonhos legítimos, recorriam à noção de que se tratava de decidir politicamente, e não de acordo com o orçamento disponível. Muitas vezes perguntei o que seria decidir politicamente: encher o carrinho no supermercado, chegar ao caixa e, em vez de pagar, fazer um discurso?

Adriana Fernandes - Casamento de Guedes

O Estado de S. Paulo

Resta torcer para que o Senado reformule o texto do IR e desative bomba fiscal

O acordão Pacheco-Lira-Guedes para a aprovação da PEC dos precatórios, com um texto que abre R$ 17 bilhões de espaço fiscal no Orçamento de 2022, envolve a aprovação do projeto do Imposto de Renda pelo Senado. Mesmo que seja modificado.

O que o presidente da Câmara, Arthur Lira, e ministro da Economia, Paulo Guedes, esperam do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, é que ele acelere a votação do projeto, aprovado na Câmara sob uma saraivada de críticas pelas distorções que traz ao sistema tributário.

Pacheco colocou o projeto na geladeira assim que ele chegou ao Senado, mas no dia do acordo dos precatórios o nome do relator saiu da cartola. Do partido de Gilberto Kassab, o senador baiano Ângelo Coronel (PSD) foi o indicado para relatar o projeto na Comissão de Assuntos Econômicos da Casa e deve ter uma postura menos alinhada com o governo.

Por isso, causou alvoroço nas redes sociais, ontem, uma postagem do relator da PEC 110 de Reforma Tributária ampla, senador Roberto Rocha.

Com a publicação de uma foto ao lado de Guedes, Rocha atestou que o ministro acabara de confirmar apoio do governo à PEC que cria o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) para impostos sobre consumo. “Pela 1.ª vez na história, União, Estados e municípios estão de acordo sobre a mesma proposta de Reforma Tributária da base consumo”, escreveu.

Maria Hermínia Tavares* - Nu em Nova York

Folha de S. Paulo

Positivo, esforço de recuperar a tradição diplomática não restitui o respeito internacional perdido

Depois da saída de Ernesto Araújo, o Ministério das Relações Exteriores trocou o delírio reacionário do seu bisonho titular por uma discreta tentativa de regresso à tradição da diplomacia brasileira.

Sumiram as falas apocalípticas contra o “globalismo”, o “ambientalismo” e o “marxismo cultural”; jovens quadros foram dispensados da desonrosa incumbência de censurar a palavra “gênero” nos documentos do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Cessaram as louvações a Donald Trump e a afronta ao sucessor democrata Joe Biden, cuja vitória o Brasil foi um dos últimos países a reconhecer —uma grosseria que o barão do Rio Branco jamais poderia imaginar que a sua casa viesse a cometer.

Bruno Boghossian – Escândalos da cloroquina

Folha de S. Paulo

Presidente decidiu permanecer ao lado de protagonistas de escândalos da cloroquina

Jair Bolsonaro facilitou o trabalho da CPI da Covid. No momento em que os senadores levantam suspeitas de uma operação que empurrou cloroquina para milhares de pacientes, falsificou a eficácia de medicamentos e ocultou mortes pela doença, o presidente mostrou que aquela era uma política oficial do governo.

A defesa do "tratamento precoce" foi levada sem pudor à sede da ONU. Em seu discurso na Assembleia-Geral deste ano, Bolsonaro disse que sempre apoiou "a autonomia do médico" para receitar remédios comprovadamente ineficazes.

O presidente permanece ao lado dos protagonistas dos escândalos da cloroquina. Na prática, ele demonstra que existe, até hoje, apoio político aos responsáveis por experimentos que utilizaram pacientes como cobaias e podem ter adulterado prontuários para forjar resultados positivos do chamado "kit Covid".

Ruy Castro - Muita merda para passar o pano

Folha de S. Paulo

Bolsonaro pode trocar a eleição pela blindagem do centrão, mas precisa combinar com a Justiça

Jair Bolsonaro declarou outro dia que o futuro só lhe reservava três opções, lembra-se? A prisão, a morte ou a vitória. A primeira ele descartou: "Eu não vou ser preso". A segunda delegou ao imponderável: "Só a morte me tira daqui". Restou-lhe a vitória, que ele via como inevitável, fosse através da fraude dos votos impressos ou de um golpe. O golpe broxou, como sabemos, e as pesquisas apontam que até um poste o derrotará no segundo turno. Ciente disso, o centrão, seu sócio no poder, cogita oferecer-lhe uma saída: renunciar à disputa presidencial, em troca de blindagem no Congresso contra o que o espera fora do Planalto —a cadeia.

Vinicius Torres Freire - Brasil malparado até 2023

Folha de S. Paulo

Não há muito mais o que fazer na economia, apenas evitar inflação e algo pior

Lá pelo início do ano que vem, a gente vai voltar a ver um Brasil parecido com o do meião do governo de Michel Temer, fins de 2017, em termos de taxa básica de juros. Isto é, uma Selic perto de 8,5%, com inflação do ano seguinte rondando 3,5%, se o arrocho monetário funcionar. Não é improvável que o crescimento da economia fique perto de 1%, padrão Temer, embora a esta altura previsões de PIB para o ano seguinte costumem ser muito chutadas e muito erradas.

De maior, mais importante e mais visível adiante é que a economia do Brasil é um barquinho sem motor, com um leme que mal funciona; que a vida da larga maioria do povo não vai mudar no ano que vem. Dados o desgoverno agora praticamente sem conserto e as turbulências pelas quais o país vai enfrentar, teremos sorte se evitarmos naufrágio.

A contar de agora, temos adiante:

Maria Cristina Fernandes - Acordo dos precatórios sela cumplicidade

Valor Econômico

Ao dar folga no Orçamento a um presidente que já não demonstra capacidade de governar, Congresso se torna cúmplice do desfecho de sua gestão

A lógica que move o adiamento da sabatina do ex-advogado- geral da União, André Mendonça, indicado ao Supremo Tribunal Federal, é a de que se o presidente da República quer fechar a Corte o Senado não deve se apressar em confirmar o próximo ministro.

Transponha-se o mesmo argumento para o acordo do Orçamento da União de 2022 e se tem a massa de que é feita a política hoje em Brasília. Por que o Senado vai viabilizar um acordo no atropelo de regras fiscais para dar uma folga orçamentária ao Executivo de quase R$ 50 bilhões no próximo ano se o presidente já deu demonstrações de sobra de que não tem condições de governar?

É nas respostas a esta pergunta que está o mapa da cumplicidade não apenas de aliados do bolsonarismo mas de todos os Poderes. A primeira resposta oferecida é a de que negar este acordo equivaleria a acender um fósforo para ver se tem gasolina no tanque. Sem a recalibragem do Auxílio Brasil, por exemplo, poderia haver saques no país, que é tudo o que o presidente Jair Bolsonaro quer para tumultuar o ano eleitoral.

Lu Aiko Otta - Eleições de 2022 sob o impacto do meteoro

Valor Econômico

Resolver impasse dos precatórios interessa ao governo e ao Congresso

Quando assumiu o Ministério da Fazenda usando uma camisa e uma gravata compradas às pressas num shopping em Brasília para a formalidade, o ex-ministro Guido Mantega passou a ocupar o gabinete do 5º andar do Bloco P da Esplanada dos Ministérios com uma certa desconfiança. Dizia sentir fluidos de seu antecessor, Antonio Palocci, no ambiente.

Hoje, o fantasma que assombra o mesmo gabinete é outro: o do impeachment presidencial motivado por “pedaladas” nas contas públicas. É por temê-lo que o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem redobrado a cautela na construção de uma solução para o “meteoro” dos precatórios, uma conta de R$ 89,1 bilhões a ser paga em 2022.

Pagar essa conta extraordinária “sem ir para a cadeia”, como exagera um interlocutor do ministro, é o centro das preocupações no Ministério da Economia. Avalia-se que a solução que começou a ser construída nesta semana precisará alterar a Constituição Federal, para dar a devida cobertura jurídica aos integrantes da equipe econômica.

Por isso, o desenho discutido por Guedes com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), será acomodado na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 23/21, já em tramitação.

Senado rejeita coligações em eleição para o Legislativo

Proposta que foi articulada pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi aprovada apenas em parte e será promulgada

O Estado de S. Paulo

Daniel Weterman / Camila Turtelli / O Estado de S. Paulo

O Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição com mudanças eleitorais, mas rejeitou o retorno das coligações em eleições para o Legislativo, que havia passado na Câmara e era uma reivindicação dos pequenos partidos. Outro ponto vetado pelo Senado é o que estabelecia que decisões do STF e do TSE sobre processo eleitoral teriam de ser tomadas, no máximo, um ano antes para valer no pleito seguinte.

O Senado aprovou ontem Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com mudanças eleitorais, mas rejeitou o retorno das coligações em eleições para o Legislativo. O novo texto foi aprovado por 70 votos a 3 no primeiro turno e 66 a 3 na segunda etapa de votação. A aprovação de apenas parte da PEC original, sem possibilidade de nova votação pelos deputados, reduziu o impacto do projeto. Os senadores contiveram a iniciativa do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), que foi derrotado.

Desidratada de pontos que não eram consensuais e atendiam a interesses dos deputados, a proposta aprovada ficou mais restrita. O Senado ainda terá de examinar outra proposta de modificações eleitorais mandada pela Câmara sob a liderança de Lira. Ela unifica a legislação das eleições em um único código. Com mais propostas controversas, como a censura a pesquisas eleitorais e o afrouxamento de punições a transporte de eleitores e boca de urna, a proposição tem pouca chance de ser votada até 2 de outubro, para vigorar para a eleição de 2022. Na semana passada, a avaliação entre senadores era que o mais provável seria que as mudanças valessem em 2024.

Desaprovação a Bolsonaro sobe dez pontos em sete meses e alcança 68%, diz Ipec

Pesquisa também indica que o grupo de eleitores que não confiam no atual chefe do Executivo já somam 69%

Filipe Vidon  / O Globo

RIO — A desaprovação dos eleitores brasileiros ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) subiu dez pontos percentuais em sete meses e alcançou a marca de 68%, segundo pesquisa divulgada pelo Ipec nesta quarta-feira. No último levantamento, em junho deste ano, o mandatário era desaprovado por 66% dos eleitores entrevistados e, em fevereiro, a marca era de 58%.

A alta nos números negativos vem na esteira das investigações de supostos casos de corrupção envolvendo a compra de vacinas contra a Covid-19 e o avanço da CPI da Covid sobre figuras centrais do governo Bolsonaro. A pesquisa também mostra que o número de eleitores que aprovam a gestão oscilou dois pontos percentuais em relação à pesquisa feita em junho, totalizando 28%. Em fevereiro, a aprovação ao governo era de 38%. Os que não souberam ou não responderam são 4% dos entrevistados.

O governo também passa por um momento turbulento na economia, com a inflação em alta, o que impacta diretamente na renda dos brasileiros. O número de desempregados também permanece subindo, atingindo 14,6% da população no trimestre encerrado em maio segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que compreende um contingente de 14,8 milhões de pessoas buscando por uma oportunidade no mercado de trabalho no país.

A pesquisa Ipec também mostra que para 53% dos entrevistados o governo está sendo ruim ou péssimo, o que representa um crescimento de quatro pontos percentuais quando comparado ao levantamento de junho (49%), e 14 pontos percentuais em relação a fevereiro (39%).  Os que consideram o governo de Jair Bolsonaro ótimo ou bom somam 22%, eram 24% em junho e 28% em fevereiro. A avaliação regular é de 23%, ante 26% e 28% em junho e fevereiro respectivamente.

O índice de confiança no governo Bolsonaro caiu dois pontos percentuais, totalizando 28% na pesquisa divulgada hoje, ante 30% em junho e 36% em fevereiro. O grupo de eleitores que não confiam no atual chefe do Executivo alcançou 69% dos entrevistados, o que representa um crescimento de um ponto percentual em relação a pesquisa de julho (68%), e sete pontos percentuais quando comparado aos dados de fevereiro (61%). 3% dos entrevistados não souberam ou não responderam a pergunta.

O instituto ouviu 2.002 pessoas em 141 municípios entre os dias 16 e 20 de setembro. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95% de os resultados retratarem o atual momento eleitoral.

O Ipec foi criado por ex-executivos do Ibope Inteligência após o seu encerramento. O novo instituto atua na área de consultoria e inteligência em pesquisas de mercado, opinião pública e política.