segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Justiça falha ao corrigir seus próprios erros

Por O Globo

Pedidos de revisão criminal crescem, mas análise é lenta, e medidas para acelerá-la ainda são incipientes

A Justiça se legitima perante a sociedade quando pune no tempo certo e revê seus erros com a presteza necessária. No Brasil, o Judiciário fica a dever nos dois aspectos. É lento na apreciação de processos e na revisão de equívocos. O diagnóstico é conhecido. Os pedidos de revisão na Justiça Criminal cresceram de 8.167 em 2020 para 25.487 no ano passado, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Não há informações consolidadas sobre quantos foram aceitos, mas só nos Tribunais de Justiça do Rio e de São Paulo houve 1.438 revisões no período de 2020 a 2024.

Precisamos de menos Janja e mais cultura, por Miguel de Almeida

O Globo

A bonita ideia de reparação condena o país a uma falsa clivagem, sem incentivar a criação ou a qualidade

“Barreto, essa história de cultura é lá com a Janja, fale com ela”, disse Lula. Barreto é Luiz Carlos Barreto, lendário produtor cinematográfico, responsável pela hagiografia “Lula, o filho do Brasil”. Janja é a primeira-dama Janja da Silva. O diálogo ocorreu no início do Lula 3, e Barretão, desconsolado, o narrou a diversos interlocutores. A insatisfação com a política cultural explodiu num manifesto da classe artística, pouco divulgado, à beira do primeiro turno. Em meio ao apoio, destacam-se as pauladas na orientação praticada pelo MinC:

— Queremos um salto não apenas quantitativo, de orçamento, mas sobretudo qualitativo na visão, compreensão e gestão da cultura e das artes por parte do próximo governo Lula.

Assinado por cerca de 600 nomes da área artística, entre eles Fernando Morais, biógrafo de Lula, as atrizes Glória Pires e Irene Ravache, a carta se posiciona contra diretrizes caras à atual gestão:

— As políticas devem ser mais que meramente simbólicas: devem ter resultados artísticos, econômicos e sociais relevantes.

O que vem primeiro: a dívida ou os juros? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Mercado reage na base do medo. Medo de quê? Da crise que pode vir se não for feito o ajuste das contas públicas

‘Desequilíbrio fiscal, pressões inflacionárias, juros altos e baixo crescimento. Romper esse nó górdio deve ser a tarefa número um dentre as ações do futuro governo. Sem um ajuste fiscal consistente, não haverá retomada relevante dos investimentos estratégicos, crescimento acelerado, criação de empregos de qualidade, incremento da renda e dinheiro para financiar políticas públicas essenciais.’

Esse é o resumo do Relatório de Acompanhamento Fiscal de outubro, publicado pela Instituição Fiscal Independente, um órgão de reconhecida credibilidade. O documento descreve a situação econômica como muito grave, podendo piorar se não forem tomadas medidas de corte de despesas.

Entrevista |Tabata apoia Alckmin na Fazenda, admite disputar SP em 28 e quer pressão popular para rever emendas

Reeleita para o terceiro mandato, deputada quer discutir ainda neste ano regras que deem mais transparência ao algoritmo e ao financiamento das redes sociais nas eleições

Por Bianca Gomes e Pedro Augusto Figueiredo\ O Estado de S. Paulo

Reeleita para o terceiro mandato como deputada federal, Tabata Amaral (PSB) faz coro à defesa de Geraldo Alckmin (PSB) para o Ministério da Fazenda, sob o argumento de que o vice-presidente da República tem uma visão que “concilia o social e o fiscal”. Em entrevista ao Estadão, a parlamentar defendeu que a estratégia de mobilização das ruas e das redes sociais utilizada para impulsionar a virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) seja adotada para pressionar o Congresso a aprovar pautas que contrariam o interesse de deputados e senadores, como mudanças nas regras das emendas parlamentares.

Terceira deputada federal mais bem votada na capital, Tabata afirmou que disputar a Prefeitura de São Paulo em 2028 é um “desejo” seu e do PSB, embora a decisão dependa de uma construção política. Na última disputa municipal, marcada pela ascensão do ex-coach Pablo Marçal, ela ficou em quarto lugar, com 9,91% dos votos.

A deputada fez críticas à atuação de Ricardo Nunes (MDB) na campanha deste ano, citando a redução da frota de ônibus no último domingo e a mobilização de servidores municipais em prol de Flávio. Procurada, a Prefeitura de São Paulo não se posicionou

Para Tabata, o crescimento de Lula na capital, com cerca de 800 mil votos a mais no segundo turno, é uma demonstração de que “São Paulo não é bolsonarista”.

Ela afirmou ainda que conversou com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para votar ainda nesta Legislatura um código eleitoral para as redes sociais, em paralelo à discussão sobre a adoção do modelo de voto distrital misto. A proposta de Tabata é exigir mais transparência das plataformas sobre seus algoritmos e o financiamento de publicações impulsionadas.

Leia os principais trechos da entrevista:

Bravata contra big techs, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

No discurso após sua reeleição, no domingo, dia 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais, que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de leis para evitar que o poder das novas tecnologias fique concentrado nas mãos de grandes corporações privadas — insistindo na velha lógica da disputa sobre quem tem o controle dos meios de produção.

Há quem, corretamente, alerte para o risco de exagerar na dose da regulação, permitindo ao Estado praticar censura ou inibir a inovação.

Lula e o mercado, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade produzem consequências nefastas para a sociedade

O governo Lula e os petistas em geral padecem de uma grave enfermidade. Desconhecem como controlar o mercado, acreditando que o Estado é uma espécie de demiurgo que tudo pode dominar. Têm uma crença desmedida em suas ações, como se elas obedecessem, em seus efeitos, à sua vontade. Ocorre que decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade, como se o mercado fosse constituído por relações pessoais e não por regras impessoais, produzem consequências nefastas para a sociedade. A política, quando bem pensada e conduzida, deveria corresponder a ideias fundadas na racionalidade econômica.

Preservar o social ou fazer ajuste fiscal é um falso dilema, por Marcos Lisboa

Folha de S. Paulo

Principal desajuste é a expansão obrigatória de despesas em meio à distribuição de benefícios para grupos de interesse

Solução depende de debate com sociedade e negociação com a política e é agenda para Presidência

As escolhas de política econômica passaram a dominar o debate depois da eleição.

Existem sinais de problemas econômicos à frente, como, por exemplo, o número recorde de empresas em recuperação judicial, o elevado endividamento privado e as graves dificuldades de algumas companhias em setores como varejo e agronegócio.

As dificuldades se disseminam com o desequilíbrio das contas públicas e as altas taxas de juros.

Os problemas devem se agravar em 2027, mas o tamanho da encrenca dependerá das decisões do governo já na transição para o novo mandato.

No debate, contudo, têm sido criados espantalhos retóricos. Um exemplo é o suposto dilema: ajuste fiscal ou preservar os programas sociais? Isso pode ser verdade em outros países, mas não é o nosso caso.

A conta mudou para o PL: o partido quer tirar Moraes, mas não quer que Lula escolha o substituto, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Com o petista reeleito, afastar o ministro do STF significa dar ao presidente mais uma indicação ao Supremo

Sem fatos novos, Moraes tem grandes chances de sobreviver

A partir de fevereiro, o PL terá 29 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988. Na campanha, o partido e seus candidatos ao Senado defenderam o impeachment de ministros do STF. Alexandre de Moraes era o alvo preferencial.

O resultado do último domingo mudou a conta. Com Lula reeleito, cada ministro afastado abre mais uma vaga para o presidente preencher. E se há algo que o PL rejeita tanto quanto Moraes, talvez mais, é ver Lula escolher outro nome para o Supremo.

Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon, por Alexandra Moraes - Ombudsman

Folha de S. Paulo

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald Trump

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral de 2026 mostra racismo cada vez mais escancarado no Brasil

PEC da redução da maioridade penal é exemplo mais revelador da situação

A campanha eleitoral de 2026 foi bastante reveladora a respeito do quanto o racismo, essa deformação moral que se instalou na sociedade brasileira, está arraigado e cada vez mais escancarado no Brasil. Para refrescar a memória, cito alguns atos e fatos marcantes.

Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?

Da armadilha da democracia de qualidade média à cleptocracia, Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Instituições brasileiras são capazes de preservar o regime, mas não de conter sua apropriação pelos próprios ocupantes

Indignação, que pode produzir punição eleitoral, não desfaz, por si só, os mecanismos de captura e abuso

No início da redemocratização, o diagnóstico parecia consensual: o Brasil era ingovernável. Partidos fragmentados impediriam maiorias, presidentes seriam reféns do Congresso e governadores comprometeriam a estabilização econômica. Mas o presidencialismo multipartidário aprovou reformas difíceis, a hiperinflação foi domada e a alternância de 2002 ocorreu pacificamente. O julgamento do mensalão mostrou que integrantes de uma força política ainda no governo podiam ser responsabilizados. Havia motivos para acreditar em um processo cumulativo de aprendizado.

Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado; Durigan nega discussão no governo

Por Tamara Nassif, Douglas Gavras e Catia Seabra / Folha de S. Paulo

Tese de um dos pais do Plano Real prevê conselho conjunto para metas fiscais e monetárias, com 'tabelamento' dos juros

Gestores veem risco de perda de autonomia do BC, desancoragem de expectativas e 'desastre' para ativos brasileiros

Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e já provoca apreensão no mercado financeiro.

A possibilidade de aproximação entre o economista e o presidente surge em meio à pressão para que o próximo governo Lula apresente uma agenda fiscal crível.

A preocupação com o rumo das contas públicas levou aliados do petista a defenderem a antecipação da definição da equipe econômica do quarto mandato, para enviar sinalizações mais concretas ao mercado e conter a alta do dólar observada nesta semana após o resultado do segundo turno.

Poesia | É noite. A noite é muito escura, de Fernando Pessoa

 

Música | Marisa Monte - Gentileza

 

domingo, 1 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula tem chance de fazer governo mais responsável

Por O Globo

Aceno ao centro depois da vitória foi positivo. Espera-se que, desta vez, ele honre a frente ampla que o reelegeu

Logo depois de confirmada sua vitória na eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso em São Paulo. Antes de falar, fez questão de passar a palavra ao vice, Geraldo Alckmin, e de dizer que ele ocuparia espaço maior em seu próximo governo. “Estas eleições me ensinaram muitas lições”, disse. “Posso garantir a vocês que vamos mudar o jeito de governar o país.” Espera-se que, desta vez, Lula honre suas palavras.

Há dúvidas pertinentes, pois não foi o que aconteceu no mandato que se encerra. Em 2022, depois de uma eleição turbulenta, marcada por contestação aos resultados, atos antidemocráticos e até uma tentativa de golpe, Lula foi incapaz de entender que sua vitória sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), pela margem estreita de 2,1 milhões de votos, só havia sido possível graças à formação de uma frente ampla reunindo setores da sociedade que não orbitavam em torno dele ou de Bolsonaro — e estavam simbolizados na escolha do próprio Alckmin (antes ferrenho adversário do PT) para a Vice-Presidência.

Duas táticas de esquerda: hegemonismo do PT ou aliança com os liberais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mobilização popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de Lula

A discussão sobre a composição do novo governo Lula e sua política econômica remete-se a controvérsias históricas da esquerda: como combinar identidade própria, mobilização popular e alianças com forças que não compartilham seu projeto? Vladimir Lênin, o líder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior marxista ocidental, protagonizaram esse debate na Rússia autocrática de 1905 e na Itália fascista da década de 1930. Entre ambos e a Constituição de 1988, há uma distância intransponível.

Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (Boitempo), Lênin sustentava que a burguesia liberal russa não levaria até o fim a luta contra o czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobrevivência da autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolução democrática. A questão era quem comandaria a transformação, antes mesmo da passagem ao socialismo. Isso admitia convergências circunstanciais com liberais, mas recusava a subordinação política a eles. Essas teses permanecem vivas na esquerda brasileira.

A virada dos estudantes, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo

Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes. Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que se seguiu ao primeiro turno.

Alarmados com a votação do candidato da extrema direita, alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em passeata rumo à Praia de Icaraí.

O voto distrital é coisa séria, por Elio Gaspari

O Globo

Este é um assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto

No meio da quizumba provocada por Flávio Bolsonaro, o presidente da Câmara, Hugo Motta, reuniu líderes para começar a desenhar um projeto de reforma eleitoral. Parece bobagem, mas pode resultar numa tunga parcial do direito de escolha dos parlamentares. É um assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto.

A novidade viria com a criação do voto distrital. O país seria dividido em distritos e os candidatos disputariam as cadeiras no mano a mano. Quem tiver mais votos, ganha. É o sistema americano. Simples, antigo e eficaz.

Falta dizer quem vai desenhar os distritos. Tome-se um exemplo grosseiro do Rio de Janeiro. Se o distrito tiver um formato, do Leblon à Barra da Tijuca, a Rocinha pobre nunca elegerá um deputado. Desenhando-se o distrito em outro sentido, indo de São Conrado e da Gávea até Cidade de Deus, a banda próspera da cidade nunca elegerá um deputado.

As multidões digitais, por Merval Pereira

O Globo

A pergunta fundamental não é quantas pessoas um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza

Confesso que não tenho muita simpatia para mobilizações como as do “Exército do Lula”, embora admita que foi fundamental para a virada nas eleições presidenciais. Mas sempre me incomodou a linguagem militarizada utilizada pelo deputado Janones para arregimentar os apoios. Achei até engraçado quando Lula disse que se alistara no exército com o codinome de “Marechal Silva”. O caso oferece uma oportunidade para refletir sobre os limites entre a legítima mobilização política e a transformação de cidadãos em instrumentos de uma estratégia de poder. Principalmente agora que, passada a eleição, o tetra-presidente anuncia que vai usar o seu “Exército” para se aproximar dos cidadãos.

O risco da escolha errada na economia, por Míriam Leitão

O Globo

A luta democrática se trava também na economia. Se o novo governo Lula errar, vai fortalecer o discurso antidemocrático

Na economia, um erro de diagnóstico é fatal. E há uma discussão dentro do Planalto que pode levar a um erro de diagnóstico. O presidente Lula quer evitar o que houve no começo do segundo governo Dilma em que a inflação subiu e o PIB entrou em forte recessão, deteriorando o apoio popular. Está certo. Mas, como evitar? Um grupo diz ao presidente que o erro foi cometido pela tentativa de ajuste em 2015, ou seja, por Joaquim Levy. Outro grupo diz que foram os erros acumulados no primeiro mandato da presidente, ou seja, por Guido Mantega. Quem tem razão é o segundo grupo. É a doença que se combate e não o remédio. O presidente está com mais ouvidos para o primeiro.

Elefante, por Dorrit Harazim

O Globo

Bibi tinha contra si o fatídico massacre terrorista do 7 de Outubro de 2023, ainda sem explicação pelas falhas na segurança

Na semana passada, o jornal Financial Times qualificou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de “Houdini de Israel” ao analisar o quadro eleitoral resultante da votação de terça-feira. Em parte a comparação é acertada. Harry Houdini foi o genial mágico, ilusionista e prestidigitador da virada do século XX que fascinou multidões globais com sua arte de se desvencilhar de correntes e cadeados múltiplos, cofres submersos, amarras sufocantes. Bibi Netanyahu, por sua vez, conseguiu emergir das urnas pronto para lutar pelo poder que já ocupa há quase duas décadas (seis mandatos em três períodos distintos). Aos 77 anos, sua sobrevida política pôs um freio à recente lufada de vento democrático que brotou nas ruas — e reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, derrotou o regime autoritário de Aleksandar Vucic na Sérvia e pretende dar uma sova em Donald Trump nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3 de novembro.

Entrevista | 'Bolsonarismo não está derrotado, está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula', diz filósofo Renato Lessa

Para Renato Lessa, da PUC-Rio, carta de Flávio Bolsonaro após derrota para Lula foi tiro no pé, porque o desqualificou como líder mesmo após votação notável.

Por Vinícius de S. Mendes BBC New/ Correio Braziliense

A ida de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na eleição presidencial, para a Flórida, nos Estados Unidos, terá efeitos significativos na vida política do Brasil — sobretudo para o campo da direita que, na análise do filósofo político Renato Lessa, professor do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), tem agora uma chance de voltar à superfície.

É que, à medida em que o bolsonarismo ficará politicamente desorganizado, com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) preso, e seus filhos mais velhos, Flávio e Eduardo, no exterior, diz Lessa, a direita democrática — que estava "colonizada" — poderá reequilibrar o jogo de forças com a esquerda, tal como aconteceu depois da Constituição de 1988 até os anos 2010.

"Sempre que se fala em autocrítica, é para se referir à esquerda, mas a direita também precisa fazer uma autocrítica. Talvez esse seja o momento. Seria importante se a política brasileira voltasse ao eixo", diz ele à BBC News Brasil.

Mas isso não quer dizer que o bolsonarismo, como fenômeno social, ficará mais fraco. Na verdade, observa ele, é só indo além dos dados quantitativos que se pode compreender a magnitude dele em sua essência.

Lessa defende que se expressa como força eleitoral (Flávio teve 59,8 milhões de votos no segundo turno) existe, fora dos intervalos entre eleições, como um padrão de comportamento cada vez mais comum espalhado pelo "terreno da brutalidade brasileira".

"Não é apenas político. Isso também produz subjetividade, um sujeito", afirma ele, que também é pesquisador da Universidade de Lisboa, em Portugal.

Lessa o chama, desde 2020, de homo bolsonarus: um sujeito "violento", para quem os adversários são "inimigos que devem abatidos" e que almeja estabelecer uma espécie de liberdade natural como norma do convívio social do país, sem mediações das leis ou convenções.

"Tudo o que constitui o 'estado de natureza brasileiro".

Mas a irrupção do homo bolsonarus na política brasileira só foi possível, na análise do filósofo, após a ruptura na trajetória de aprofundamento da democracia causada pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), entre 2015 e 2016.

Até ali, esse processo — reiniciado com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, então no PSDB, em 1994 — vinha ampliando os direitos coletivos (sociais, políticos, etc.) e forjando o que ele chama de um homo democraticus.

"O bolsonarismo é a extrema politização de uma coisa que existia [antes de 2018] apenas na forma não politizada. Ela estava espalhada pela sociedade e, ali, passou a ser um fato político. Daí foi para o mundo eleitoral, tomando os partidos políticos, conquistando cargos e, enfim, chegando à Presidência".

O bolsonarismo é, assim, um fenômeno inédito na história política do Brasil, por ser o único movimento que surgiu espontaneamente, sem herdar nenhum traço de dinâmicas do passado.

Ele lembra, nesse sentido, que mesmo a ditadura militar, entre 1964 e 1985, manteve algumas lógicas da Constituição de 1946, tanto quanto do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), como as leis trabalhistas, por exemplo.

"Mas o que aconteceu de 2019 em diante é apenas destruição", sentencia. "É um fenômeno da categoria de patologia política".

No entanto, a derrota de Flávio nas urnas, a segunda de um Bolsonaro diante de Lula, não decreta o fim do bolsonarismo, pelo contrário. "O homo bolsonarus está disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

EUA, Brasil e a realidade, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O último capítulo da novela Flávio Bolsonaro começou a ser escrito no “esbarrão” do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado Marco Rubio, na sexta-feira, quando eles abriram o caminho para boas relações entre Brasil e Estados Unidos no quarto mandato de Lula, como impõem a realidade, a diplomacia e o bom senso.

Flávio se deu uma importância que não tinha, passou vergonha para o mundo e logo será apenas um imigrante a mais nos EUA, enquanto o pragmatismo de Lula e Donald Trump entra em ação e os reais interesses dos dois países serão postos na mesa da diplomacia, e não dos negócios, como seria entre Flávio e Trump.

O Brasil de Lula pode virar alvo de Trump, por Lourival Sant’Anna

Donald Trump tem interesse em difundir a percepção de que a esquerda vence eleições mediante fraude. E de que não abandona seus aliados estrangeiros. Mas, por ora, não pretende deteriorar as relações com o presidente Lula. Isso fica claro nas declarações de Trump e na forma como o governo americano ajudou Flávio Bolsonaro a chegar aos EUA. O avião do trecho Puerto Iguazú-Miami foi fretado por Jason Miller, assessor de comunicação de Trump para as eleições ao Congresso de terça-feira.

Miller não é funcionário da Casa Branca, e o envolvimento do Departamento de Estado no acolhimento a Flávio foi burocrático, por meio da emissão de vistos. Não que no departamento não haja o desejo de acuar o governo Lula. Mas seu envolvimento institucionalizaria a aliança entre Trump e os Bolsonaros, prejudicando a relação com o Brasil.

Alivio democrático, por Rodrigo Nunes*

Folha de S. Paulo

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

A última dança de Lula, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Direita decente escapou de se tornar cúmplice do que teria sido um novo governo Bolsonaro

Flávio da derrota nos mostrou o que teria sido o Flávio da vitória: golpe, Willer Tomaz e Trump

A última campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva passou pela avenida celebrando o que Silas, Décio e Manoel chamaram de brisa que a juventude afaga, chama que o ódio não apaga.

Passaram pela avenida jovens com esperança e velhos com memória; mulheres que apavoram o fascismo, Ana Elisa, Ana Júlia, Tábata, Érika, Marina, Benedita, Simone; o ex-cobrador de ônibus André Janones lutando nas redes e os velhos sindicalistas lutando nas ruas; a garotada de esquerda tentando repensar as utopias e direitistas que, quando votaram em Lula, passaram em um teste de convicção democrática em que pouca gente passaria; artistas e atletas que merecem respeito infinito por terem dado a cara a tapa na hora do vamos-ver.

Ódio excepcional, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história de como as cortes dos EUA trataram o antissemitismo

Autor propõe equilibrar melhor liberdade de expressão e proteção a minorias

Um dos grandes debates jurídicos da atualidade é sobre o alcance da liberdade de expressão num contexto de instrumentalização política dos chamados discursos de ódio amplificada pelas redes sociais. Nesse quesito, os EUA, por colocarem a defesa do "free speech" num pedestal quase inviolável, despontam como exceção entre os países democráticos.

Imagens fortes de uma campanha, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cena no Rio condensa herança escravista e hierarquia racial

Multidão em São Paulo expressa diversidade etária e alegria

É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.

O ambiente é de reequilíbrio de forças no Congresso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As vitórias no primeiro turno não garantem à direita o predomínio da oposição nas atividades legislativas

O Parlamento não se conduz pela lógica da eliminação do adversário que preside as disputas eleitorais

No domingo, 18 de outubro, enquanto a direita já se organizava em torno da presumida vitória dali a uma semana, Gilberto Kassab lançava olhar de águia sobre o debate na Band que terminara no zero a zero e vaticinava: "Vai ganhar o Lula".

Segundo o presidente do PSD, era o que dizia a curva ascendente das intenções de voto nas pesquisas, diante do empate. Essa avaliação explica por que o partido não se afobou na corrida do centrão rumo a Flávio Bolsonaro (PL) e manteve a neutralidade, preferindo equilibrar-se entre as duas canoas em disputa na regata.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista, por Mariliz Pereira Jorge

Folha S. Paulo

Lei protege o cidadão na frente da urna, mas deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão

Quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente

Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois, esse espaço segue intacto —quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.

Entrevista | Boulos* fala em chantagem do mercado sobre ajuste fiscal e defende corte em desoneração e supersalário

Por Arthur Guimarães de Oliveira e Juliana Arreguy\Folha de S. Paulo

Ministro diz que vitória de Lula indica apoio popular a políticas públicas e que cortes devem mirar emendas e supersalários

Mobilização nas redes e nas ruas, afirma ele, será necessária para garantir governabilidade do presidente

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), diz ver uma chantagem do mercado no debate sobre ajuste fiscal no novo governo do presidente Lula (PT) e afirma que os cortes devem mirar privilégios, não o "lombo dos mais pobres".

A receita para economizar, segundo ele, inclui discutir temas como desonerações fiscais, supersalários e emendas parlamentares impositivas.

"Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", diz o ministro em entrevista à Folha.

Do fim de 2022, antes do terceiro mandato de Lula, a julho de 2026, a dívida pública passou de 71,7% do PIB (Produto Interno Bruto) para 82,5%.

Sobre a sucessão de Lula, Boulos afirma que o momento não é o de discutir quem será a próxima grande liderança progressista, mas sim o de garantir um "mandato biográfico" para a quarta passagem do petista pelo Palácio do Planalto.

Poesia | Verdade, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Que tal um samba? com violão Hamilton de Holanda