terça-feira, 3 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra duradoura trará maior pressão sobre a inflação

Por O Globo

Ao fechar Estreito de Ormuz, Irã impede transporte de um quinto dos barris de petróleo exportados

Quatro em dez barris de petróleo exportados no mundo saem do Oriente Médio. Desses, pelo menos dois atravessam o Estreito de Ormuz, que separa o Golfo Pérsico do Oceano Índico. É daí que vem a ameaça de contágio da economia global pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Fechar Ormuz, como fizeram ontem os iranianos, é uma estratégia eficaz para infligir perdas aos inimigos. No plano de sobrevivência do regime dos aiatolás, a prioridade é mirar em refinarias e navios enquanto houver forças.

Marcelo Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela

A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.

Conheci Cerqueira na campanha eleitoral de 1978, quando foi candidato a deputado federal pelo MDB, a convite do falecido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Antônio Ribeiro Granja, com apoio no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Fez dobradinha com o deputado estadual Alves de Brito (MDB), que concorria à reeleição. Lembro-me de seu principal panfleto de campanha, intitulado “Dá-lhe, povo”, inspirado no lendário jóquei Luiz Rigoni.

Formado em direito, Cerqueira construiu sua trajetória na interseção entre a advocacia e a política. Não era apenas de um advogado militante, mas um jurista atento às garantias constitucionais e aos limites do poder punitivo. Ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), ingressou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) pelas mãos do falecido cineasta Leon Hirszman (Cinco Vezes Favela, Eles Não Usam Black-Tie, entre outros).

A única meta do STF é parar de piorar, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula resiste à pressão da Corte sobre a PF e ministros se inquietam com a mudança interna no pêndulo do poder

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca rompeu com Emílio Odebrecht. Os desdobramentos do envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, sugerem que, além daquelas da Lava-Jato, Lula também colheu lições da relação entre Emílio e seu filho, Marcelo Odebrecht.

Corria o segundo semestre de 2016 quando a Odebrecht começou a negociar o acordo de delação premiada. Marcelo queria ser o primeiro dos 77 delatores pela simples razão de que a primazia, num acordo cujo ativo mais valioso é a informação, lhe daria vantagem. Emílio não permitiu. O filho ameaçou implodir tudo, Emílio pagou pra ver, manteve-o no fim da fila e a delação seguiu seu curso.

Contra os ataques americanos, Irã ameaça as bombas de gasolina nos EUA, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Reação de Teerã sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer: nas urnas

Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.

Quando a guerra ignora limites: a urgência de reafirmar o direito internacional, por Nasser Zakr*

Correio Braziliense

A estabilidade duradoura depende da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa

O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.

Relações perigosas, por Merval Pereira

O Globo

A posição diplomática do Brasil é ideológica, com viés esquerdista de antiamericanismo, mas não tem sentido na vida real para o país

A política externa brasileira, no afã de mostrar-se independente dos Estados Unidos num anti-imperialismo infantiloide, se une a países como o Irã, que financia o terrorismo internacional, e se coloca em situações embaraçosas. Exemplo de como ser um vice-presidente leal é tarefa delicada, Geraldo Alckmin já ouviu em posição de sentido a Internacional Socialista no aniversário do PSB e apareceu numa foto ao lado de líderes de milícias que integram o autoproclamado “eixo da resistência”, aliança informal liderada pelo Irã. Na cerimônia de posse do presidente iraniano em 2024, em que representou o governo brasileiro, Alckmin ficou ao lado de representantes dos grupos terroristas Houthi, Jihad Islâmica, Hezbollah e Hamas, todos financiados pelo Irã.

Aposta de Trump na guerra do Irã, Por Míriam Leitão

O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

Irã entre a ditadura e a paz americana, por Fernando Gabeira

O Globo

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

A IA vai à guerra, por Pedro Doria

O Globo

É provável que os Estados Unidos tenham usado inteligência artificial para ter certeza da localização do aiatolá

Quão legítimo é o uso de inteligência artificial numa guerra? Da semana passada para cá, essa discussão veio para o centro do debate político americano. E, pela primeira vez, o Vale do Silício rachou. Mais que isso. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse “não” ao governo Donald Trump. Nunca um líder havia dito “não” para esta Casa Branca, bem pelo contrário. No último ano e pouco, houve um festival de homenagens, elogios e até troféus dados ao presidente por CEOs da alta tecnologia. Ainda assim, mesmo tendo havido ruptura formal, a tecnologia da Anthropic fez parte do arsenal americano neste ataque ao Irã. Em quê? Ainda não sabemos.

A guerra em quatro pensamentos, por Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo

A queda do regime iraniano contribuiria para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva, mas não será fácil derrubá-lo

Devemos lembrar das ameaças à democracia e ao estado de direito de Trump e Netanyahu em seus países

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

Lula, um olho lá, outro cá, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que é mais explosivo para Lula, as bombas contra o Irã ou contra o Lulinha?

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã se espalha pelo Oriente Médio, impacta as bolsas ao redor do mundo, chacoalha o preço do petróleo e, por óbvio, é um problemaço para o Brasil e para o presidente Lula. A principal preocupação de Lula no ano eleitoral, porém, não é essa. E qual seria?

O interditor, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Esqueça o debate jurídico sobre a forma como Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos da empresa de Dias Toffoli pela CPI do Crime Organizado. Discuti-la sob os valores e as leis da República significaria legitimar o que só pode ser compreendido como movimento autoritário – reação abusiva de poder – contra a imposição-exposição da verdade. A verdade é que o decano interveio – foi chamado e resolveu – porque a cousa avançava descontroladamente sobre os trânsitos e outros tráfegos dos ministros-empresários do STF pela rede-laranjal do Master.

Entrevista: Lula e a família tradicional: é possível conquistar o voto conservador?

Por Amado Mundo/Matinal (GO)

Socióloga e vereadora de Goiânia pelo PSB, Aava Santiago, que é cristã pentecostal, critica relação da esquerda com religiosos e diz que eleitor evangélico está cansado do histrionismo de Malafaia e da ostentação de André Valadão

O Palácio do Planalto traçou uma linha clara para as próximas eleições: não é possível governar o Brasil de 2026 ignorando que o “valor família” é o amálgama que une brasileiros independentemente da vertente ideológica. Desde as eleições de 2022, o governo de Lula tem operado uma diplomacia silenciosa para reduzir os índices de rejeição de evangélicos e conservadores ao seu nome, utilizando reuniões estratégicas, diálogo direto com lideranças e a interlocução com nomes que transitam bem no meio religioso.

No entanto, a comunicação governamental segue enfrentando o desafio das “guerras culturais”. O recente desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no carnaval do Sambódromo do Rio, tornou-se combustível para a oposição com a ala “Família em Conserva”, uma crítica aos conservadores, mais alinhados à direita.

No Irã, celebrar é uma coisa, esperar por milagres é outra, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Esperança é terreno movediço demais para começar uma guerra

Caos, endurecimento do regime e guerra civil também estão no cardápio

Penso nos meus alunos iranianos, passados e presentes, quando olho para essa guerra. Que jovens admiráveis!

Deixaram o país que amavam porque a repressão era imensa. As moças, então, comeram o pão que o Diabo amassou. Se você acha que o patriarcado é um problema sério no Ocidente, experimente uma temporada no Irã, onde nem os cabelos estão a salvo.

Mas não são apenas os iranianos que sofrem nas mãos do regime. Desde 1979, Teerã se converteu em um dos principais financiadores do terrorismo internacional —Hamas, Hezbollah, houthis, milícias xiitas no Iraque; a lista é longa. E as suas vítimas se estendem pelos quatro cantos do mundo —do Líbano à Argentina, de Tel Aviv ao Mar Vermelho.

Se o regime cair sob as bombas americanas e israelenses, serei o último a derramar uma lágrima pela teocracia dos aiatolás. A pergunta, porém, é outra: será que vai cair?

A última conversa, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Trump tenta reproduzir no Irã fórmula usada na Venezuela

País persa coloca cenário muito mais incerto e desafiador

A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a sair do salão oval.

Presidenciáveis do PSD enfrentam risco de perder comando de seus estados para o bolsonarismo, por Raphael Di Cunto

Folha de S. Paulo

Governadores Ratinho Jr. e Eduardo Leite têm dificuldades para emplacar sucessores

Caiado ainda negocia aliança com o PL, mas tem o cenário mais confortável dos três

Os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior, do Paraná, enfrentam dificuldades com o bolsonarismo em seus estados e correm o risco de perder o comando local para a direita após ensaiarem candidaturas presidenciais. O impasse tem sido levado em conta nos planos nacionais de ambos, segundo aliados.

Dos três presidenciáveis do PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é o que tem a situação mais confortável na eleição regional. Seu vice, Daniel Vilela (MDB), já figura em pesquisas como primeiro em intenção de votos e tem como principal adversário o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que perdeu força após ser citado na Operação Lava Jato.

Lula tropeça e abre espaço para o adversário, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A conferir se as pesquisas registram uma tendência ou só captaram um momento ruim para o governo

Seja como for, presidente perdeu a aura de imbatível e deve a isso à ação do ego inflado, seu pior inimigo

Aguardemos as próximas pesquisas para conferir se as primeiras depois do desastroso Carnaval apontaram uma tendência ou se apenas captaram um mau momento para o governo.

Seja como for, um dado é inquestionável: Luiz Inácio da Silva (PT) perdeu a aura de imbatível e pode perder o lugar de favorito habitualmente reservado aos ocupantes do poder. Escrita quebrada na derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, e sinal de que o instituto da reeleição não tem taxa de sucesso garantido.

O elo da política com o crime organizado no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Segundo a PF, Rodrigo Bacellar capturou o governo para proteger Comando Vermelho

Ex-presidente da Alerj fez nomeações em batalhões da Polícia Militar e delegacias

O que fez e ainda faz Cláudio Castro no Palácio Guanabara? A julgar pelo relatório da Polícia Federal sobre a conduta e influência criminosas de Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Assembleia Legislativa que transformou o Rio de Janeiro num posto avançado do Comando Vermelho, Castro exercia uma função subalterna no esquema político-miliciano de captura das instituições. Governador de fancaria, era o serviçal da família Bolsonaro e a marionete nas mãos de Bacellar.

A força dos mitos, por Ivan Alves Filho

Os mitos são resistentes. Durante a ditadura militar, alguns setores se valiam da expressão capitalismo selvagem com o objetivo de denunciar a política econômica em curso então no país. A fórmula tinha um efeito propagandístico - e só. Pois ela carecia de base mais sólida: afinal, ela deixava supor que poderia existir algo como um capitalismo civilizado. As diferenças existentes entre diversas práticas no interior da ordem capitalista passavam para a linha de frente das análises, o adjetivo selvagem escamoteando o substantivo capitalista.

Poesia | Morte na madrugada, de Vinicius de Moraes

 

Música | Vanessa Ortiz Quarteto - Castigo (Dolores Duran)

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim

Por O Globo

Líder de um dos regimes mais cruéis do planeta está morto, porém fatos ainda poderão frustrar as ambições de Trump

Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.

PT aguarda alianças com partidos para anunciar palanques

Por Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

O Supremo risco de os heróis virarem vilões, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Supersalários, contrato com escritório de familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de cultura para revolta

Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.

Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.

O aumento de novas fontes de renda e o consumo, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Em comparação a 2019, há 21,6 milhões fontes adicionais de rendimento na economia, o que tem dado fôlego à demanda das famílias

O consumo das famílias tem um papel de destaque no crescimento da economia brasileira nos últimos anos, especialmente no período entre 2021 e 2024. Nesses quatro anos, avançou a uma média anual de 3,85%, acima dos 3,6% da média do PIB. Novas fontes de renda ajudam a explicar esse desempenho do consumo privado, cujo ritmo arrefeceu em 2025 e pode ter alguma reaceleração em 2026, mas sem voltar ao ritmo de 2021 a 2024, dado o nível elevado dos juros e do endividamento das famílias, que tem provocado o aumento da inadimplência. Nesse cenário, a demanda das famílias deve passar de um crescimento na casa de 1,5% no ano passado para 2% neste ano.

O município é o protagonista, por Preto Zezé

O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

Países ricos podem trabalhar menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias

A jornada de trabalho tem caído ao longo da história mundial. Isso decorre de uma combinação de três fatores: o enriquecimento das sociedades, a introdução de tecnologias que aumentam a produtividade e a democracia. Já voltaremos à última questão, mas podemos adiantar um fato observado por toda parte: os trabalhadores têm jornadas maiores nas ditaduras.

Na Europa da social-democracia, trabalha-se em média 30 horas semanais. São sociedades que já chegaram lá, têm padrão de vida elevado e boa educação, que favorece a introdução de novas tecnologias. Em ambiente democrático, sindicatos, partidos e organizações civis tomaram a decisão de trabalhar menos para já desfrutar a riqueza acumulada. Dito de outro modo, essas sociedades consideram que seu atual nível de consumo já é suficiente para uma boa vida, de modo que se pode desacelerar a produção. Mas todas elas trabalharam duro, com longas jornadas. Não existe almoço grátis.

Segredo judicial, uso e abuso, por Demétrio Magnoli

O Globo

A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem

Nos sistemas democráticos, a sociedade deposita confiança extrema nas autoridades encarregadas de gerenciar a Justiça. A prova encontra-se no instituto do segredo judicial. Aceitamos que elas detenham informações temporariamente vedadas a nós — concordamos com uma radical assimetria de poder. A implicação: vandalizar o privilégio do monopólio da informação é uma traição maior de confiança. O STF envereda por esse caminho, sob a alegação paradoxal de que vivemos em excepcionalidade permanente.

Quem pode investigar quem? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A intervenção do Supremo em CPI desafia os contornos práticos da separação de poderes

Quando a interferência do Supremo Tribunal Federal na política é indevida? A pergunta não é retórica. Ela ganha concretude quando o Judiciário intervém no funcionamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – instrumento clássico de controle político exercido por minorias parlamentares.

Uma CPI é, muitas vezes, o que resta a uma minoria legislativa para fiscalizar governos, expor condutas potencialmente ilícitas e produzir informação qualificada. Em democracias ancoradas no princípio da separação de poderes, trata-se de mecanismo legítimo de controle.

Paradoxalmente, porém, raramente uma CPI consegue impor perdas políticas reais a governos. A maioria parlamentar tende a esvaziar investigações inconvenientes. Por isso mesmo, a Constituição protege o direito de minorias instaurarem CPIs desde que preenchidos requisitos formais.

Uma vez instalada, a comissão não é estática. Ao longo das investigações, fatos novos surgem, conexões inesperadas aparecem e o escopo original pode ser ajustado. A dinâmica investigativa não é linear. CPIs não são peças processuais imutáveis; são arenas políticas de produção de informação.

Federação da Esquerda para disputar o futuro, por vários autores (nomes ao final do texto)

Folha de S. Paulo

Com o avanço do bolsonarismo, não existe espaço para gastar nossas energias em disputas internas menores

É claro que também traz dificuldades, que podem ser enfrentadas com um debate aberto sobre organização interna

Há momentos de encruzilhada na história que exigem decisão. Estamos vivendo um deles. A extrema direita avança no mundo e, mesmo com Jair Bolsonaro preso, segue com força política e social no Brasil.

Os Estados Unidos, com a reedição da Doutrina Monroe por Donald Trump, comandam um movimento aberto de recolonização na América Latina, buscando tomar nossas riquezas naturais e destruir nossa soberania.

Isso exige da esquerda brasileira grandeza política e responsabilidade para colocar diferenças em segundo plano e construir um amplo movimento de unidade. Não apenas na disputa eleitoral de 2026, mas na disputa da sociedade e de um projeto de futuro.

A reação institucional a Trump finalmente mostra sua face, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Estripulias autoritárias geraram dissenso em sua base legislativa e na sociedade civil pujante

O Legislativo vetou a política do ICE, cortando seu orçamento, o que implicaria em sua virtual paralisia

A velocidade dos desvios do governo Trump em relação às normas legais e constitucionais durante seu segundo mandato tem sido dramática. John Burn-Murdoch, com base em um índice agregado de retrocesso democrático, trouxe evidências de que, em seus primeiros anos no cargo, ela foi muito maior do que a de outros líderes populistas (veja aqui os fatores que explicam essa característica do decisionismo trumpista).

Marcello Cerqueira, um lutador da democracia - Sergio Augusto de Moraes*

Conheci Marcello Cerqueira no movimento estudantil, nos idos de 1963/4, quando ele era vice-presidente da UNE. Anos depois, em 1978, eu estava asilado na Suiça, em Genebra e Giocondo Dias me chamou para um encontro com Marcello, então deputado federal, num bar nos arredores da cidade.

Alí discutimos sobre a situação política no Brasil e a avaliação do Comitê Central do PCB, então no exílio, de que se fazia necessário organizar o trabalho dos comunistas na Câmara dos Deputados. Giocondo sugeriu que eu deveria voltar ao Brasil e, junto com Marcello, assumir esta tarefa.

Partiu Marcello Cerqueira, um sonhador, por Edmílson Martins de Oliveira*

Marcello Cerqueira partiu. Foi ver outras paisagens e encontrar velhos amigos de sonhos e de lutas. Está, certamente, no lugar com que sempre sonhou: um mundo de liberdade, paz e harmonia, fraterno, sem tirania, sem perversidade, sem ganância, onde só há eternidades.

Partiu ontem, sábado, 28 de fevereiro de 2026, e está, com euforia, participando da grande festa, organizada em sua homenagem, por muitos amigos e companheiros de luta, que já estão no país de eternidades.

Marcello viveu intensamente a vida aqui neste planeta. Lutou, com todas as suas forças, por um Brasil mais justo, por um mundo melhor, com igualdade e condições de vida justas para todos. Foi um sonhador e não estava sozinho.

Eu e o Marcelo conhecemo-nos e nos tornamos amigos desde 1978. Naquela ocasião, eu era candidato a deputado estadual e Marcello a deputado federal pelo então MDB.

Havia somente dois partidos: ARENA, que apoiava o governo da ditadura militar, e o MDB, de oposição. Nós militávamos no grupo chamado de “Autênticos do MDB”, que fazia a verdadeira oposição ao regime.

Poesia | Desencanto, de Manuel Bandeira

 

Música | Chico Buarque & Wilson das Neves - Sou Eu - Tereza da Praia

 

domingo, 1 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Passou da hora de encerrar inquérito das fake News

Por O Globo

Instrumento criado para defender ordem democrática se transformou em risco para a própria democracia

É incontestável o papel crucial que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenhou na preservação da democracia brasileira, quando submetida a abalos e ameaças. Sem a ação do Supremo, é provável que o desfecho da intentona golpista tivesse sido outro. Esse é um fato que a História reconhecerá para sempre. É justamente para honrar essa trajetória que o STF deve finalmente pôr fim a um instrumento jurídico heterodoxo que, desde 2019, tem dado à Corte poderes excepcionais que não cabem numa democracia: o inquérito 4.781, apelidado “inquérito das fake news”.

Freire deixará comando do Cidadania e indica Alex Manente seu sucessor, Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

“O velho líder comunista encerra sua trajetória com melancolia e perda de dimensão histórica. Seu gesto sucessório, em vez de estabilizar, implodiu a legenda”

A literatura latino-americana já descreveu com precisão clínica o momento em que um ciclo de poder se encerra. A cena de abertura de O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, permanece como uma das metáforas mais contundentes da decomposição política: “Durante o fim de semana os urubus entraram pelas varandas da residência presidencial, bicaram as telas metálicas das janelas e o alteio de suas asas agitou o tempo estagnado lá dentro, e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou de sua letargia de séculos com a brisa morna e macia do grande homem morto e apodrecido…”.

A passagem simboliza o fim do “tempo interminável” do caudilho. O que parecia eterno já estava morto — apenas ninguém ousava admitir. Guardadas as proporções entre ficção e realidade, a metáfora de Gabo ilustra a crise do Cidadania, que ultrapassa a disputa sucessória. Tornou-se existencial.

Acordões com gosto de pizza, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Até onde o Supremo Tribunal Federal vai se lambuzar com ‘pizzas’ mal assadas?

Brasília evolui, a olhos vistos, do surrado “toma lá, dá cá” para o “você me livra, eu te livro e todos nós nos livramos”. Um método se abastece do dinheiro público e o outro abusa das brechas que garantem a impunidade geral, mas ambos têm a ver com corrupção e mobilizam mundos e fundos, tudo e todos, em torno de “negociações”.

Objetivo desta vez é substituir o regime, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Incapacitado, Irã poderia conduzir guerra assimétrica, que incluiria ataques terroristas

O bombardeio lançado na manhã de ontem no Irã por Estados Unidos e Israel tem escopo fundamentalmente distinto daquele realizado na chamada “guerra dos 12 dias” em junho: desta vez, o objetivo não é apenas conter os programas nuclear e de mísseis iranianos, mas criar as condições para a população substituir o regime.

Trata-se de ameaça existencial, da óptica da teocracia em Teerã, à luz dos protestos de dezembro e janeiro, os mais contundentes desde a Revolução Islâmica de 1979, esmagados com o massacre de milhares de manifestantes. Os bombardeios visaram à decapitação do regime.

A aposta mais arriscada de Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Operação sem objetivos claros expõe EUA a retaliações, instabilidade regional e pressão inflacionária

Ao atacar o Irã e conclamar os iranianos a derrubarem o próprio governo após o fim da operação, o presidente Donald Trump assumiu um risco elevadíssimo, sobretudo porque o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA. Pelo contrário: avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país está militarmente enfraquecido após os bombardeios do ano passado. Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta, com risco real de escalada. O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas — linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.