segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva: mas o que é esta realidade efetiva? Será algo estático e imóvel, ou, ao contrário, uma relação de forças em continuo movimento e mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, baseando-se naquela determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para fazê-la triunfar, significa continuar movendo-se no terreno da realidade efetiva, mas dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). Portanto, o “dever ser” é algo concreto, ou melhor, somente ele é interpretação realista e historicista da realidade, somente ele é história em ato e filosofia em ato, somente ele é política.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 13 – Cadernos do Cárcere, v.3. p.35. 3ª Edição. Editora Civilização Brasileira, 2007.

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais

Por O Globo

Retrocesso na agenda de conservação é um dos riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito

Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.

Abstenção ou desilusão, por Carlos André Machado*

Correio Braziliense

Abstenção não é voto nulo nem voto em branco. Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe ninguém. Quem se abstém nem chega à urna

Trinta e três milhões e meio de brasileiros estavam no colégio eleitoral na eleição de domingo e decidiram não decidir nada. É a maior abstenção de primeiro turno desde o recorde de 1998 (21,49%) e quase o alcança: 21,08% do eleitorado ficou em casa nesta eleição, contra 20,95% em 2022. O índice sobe há cinco eleições seguidas. E, como toda ausência em política, essa também fala — só que mais baixo, e é preciso prestar atenção para ouvir o que ela diz.

Tapete vermelho na Paulista, por Maria Beatriz Giusti

Correio Braziliense

Mobilizada, especialmente, por estudantes, uma multidão ocupou a famosa avenida, tradicional centro econômico paulistano. Houve manifestações em mais de 300 locais do Brasil. Também em São Paulo, Flávio encontrou-se com prefeitos

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, reuniu ontem, na Avenida Paulista, mais de um milhão de apoiadores, segundo cálculo dos organizadores.  O ato "Marcha pela Democracia" contou com a participação de artistas e de lideranças políticas de São Paulo.

Tradicional centro econômico de São Paulo, a avenida abriga sedes de bancos comerciais, consulados e sindicatos. Também é conhecida como importante polo cultural, onde está o Masp, IMS, Japan House, Sesc, além de diversos cinemas e livrarias.

"Estamos nas ruas para defender nossos direitos, nossa democracia e um Brasil que respeite os interesses do povo brasileiro! Ninguém vai nos calar! Quando o povo se une e ocupa as ruas, a democracia avança e o Brasil muda! Vamos ocupar as ruas e as redes, enfrentar as ameaças de retrocessos e lutar por mais direitos, justiça e oportunidades para todos!", escreveu Lula em uma rede social. 

A falta que ainda nos faz uma boa direita, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem esperava algo ao menos parecido com liberalismo econômico no governo Bolsonaro topou com o populismo

Em 2007, escrevi neste jornal que o Brasil precisava de uma boa direita. Voltei ao assunto em 2013. E outra vez em 2019. Quase 20 anos depois da primeira coluna, faz todo o sentido perguntar: a direita apareceu? Apareceu uma direita. Ganhou eleições, mobilizou milhões de pessoas, construiu um movimento político. Em 2019, colocou seu presidente no Palácio do Planalto e, hoje, tem o candidato favorito para este segundo turno. Além disso, se tornou a principal força do Congresso. Mas não é a direita de que eu falava.

Pensava numa direita liberal na economia e democrática na política. Defendia menos Estado onde o Estado atrapalha, mais eficiência onde ele é indispensável, contas públicas equilibradas, economia aberta, competição, investimento privado, liberdades individuais e de imprensa.

O governo Jair Bolsonaro obviamente não cabe nesse figurino. Sua inspiração assumida era a ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Além da opressão política, da tortura, dos assassinatos e da censura à imprensa, a ditadura aplicou um modelo econômico que nada tinha a ver com o liberalismo. Bem ao contrário, foi uma política estatizante e intervencionista.

Vivemos a política do espetáculo, por Preto Zezé

O Globo

Tem gente com carro financiado em 77 prestações, comendo arroz puro, que se enxerga no rico, mas não vive a vida dele

Eu curto ouvir ideia de roda de favela. No domingo, dia 4, fui votar nas Quadras, onde nasci, favela dentro da Aldeota, bairro rico de Fortaleza, e levei minha mãe, Dona Fátima, que sempre vota comigo. Na roda, o debate era política, e a palavra era polarização. Eu chamo de espetáculo, que não é o vídeo que chega no celular. É quando ele passa a decidir com quem a gente conversa, de quem tem medo e em quem vota. O principal desse show não é o que mostra, é o que esconde.

Tem gente em casa sem banheiro, em rua sem saneamento, discutindo quem pode usar o banheiro do shopping. Quem mora na favela e quem mora no prédio ao lado até parecem iguais na passeata. No dia a dia, um é patrão e o outro é empregado, e não têm as mesmas demandas. O espetáculo cria a miragem de que são iguais numa sociedade desigual e injusta.

Mulheres que querem voltar ao passado fazem barulho na política, por Ana Paula Araújo

O Globo

Antifeministas capturaram um movimento crescente, em que ‘influencers’ romantizam a dependência de marido

Meu único tio por parte de mãe fumou a vida inteira. Eu me dei conta do risco que ele corria quando tinha uns 7 anos e fizeram uma campanha antitabagismo na escola. Recolhi todos os panfletos e cheguei assertiva despejando a papelada em cima do meu tio querido, discorrendo sobre os males do cigarro e exigindo que ele parasse de fumar. Ele me ouviu com paciência, agradeceu, mas não pestanejou:

— Meu amor, se eu não puder viver do jeito que eu quero, de que adianta?

A pergunta dele me deixou com outras, que me acompanham até hoje, nas mais variadas situações. Admiro quem banca os próprios desejos e se dispõe a assumir os efeitos colaterais. Mas como discernir entre coragem e inconsequência? Quando o livre-arbítrio se transforma em autoengano? O que estou disposta a sacrificar?

A culpa pela derrota de Lula no 1º turno é do povo, por Demétrio Magnoli

O Globo

Justificativas ensaiadas têm algo em comum: eximir o presidente e seu partido de qualquer responsabilidade

Quem é o culpado? Sidônio Palmeira, Janja, Alexandre de Moraes, o “imperialismo ianque”, a “imprensa entreguista”, o mordomo? Todas essas hipóteses circulam na campanha de Lula e na base militante petista. Contudo, no fundo, a teoria mais permanente é outra: a culpa seria do povo.

Há muito, quando o PT perdeu uma eleição em São Paulo, a filósofa Marilena Chauí acusou a “classe média fascista”. Era estranho, pois o PT daquele tempo triunfara várias vezes nas grandes cidades do Sudeste, inclusive com o voto majoritário dos bairros de classe média. Afinal, essa camada social tornava-se fascista apenas quando o PT perdia?

A incerteza continua, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Deputados continuam vulneráveis às urnas, mesmo com recursos crescentes

Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Além dos fundos Partidário e eleitoral bilionários, cada parlamentar dispõe de cerca de R$ 40 milhões anuais em emendas individuais impositivas.

Seria razoável esperar que tamanha vantagem tornasse a reeleição cada vez mais segura. Mas as urnas de 2026 contrariaram essa expectativa. Segundo série histórica, apenas 54% dos deputados renovaram seus mandatos, abaixo da média histórica de 63%.

Embora superior ao resultado de 2018, quando a reeleição atingiu seu menor patamar histórico recente (47%), o porcentual revela que a sobrevivência eleitoral continua longe de ser garantida. Nem mesmo a expansão dos recursos orçamentários à disposição dos parlamentares parece ter revertido essa trajetória.

Direita política não é sinônimo de responsabilidade fiscal, por Cláudio Adilson Gonçalez

O Estado de S. Paulo

O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento

O avanço da direita na eleição de 4 de outubro provocou otimismo incomum no mercado financeiro brasileiro. De 2/10 até a tarde da sexta-feira, 9/10, o Ibovespa subiu 9%, o real valorizou 4,6% e os juros futuros longos registraram quedas expressivas, em torno de 1,5 ponto porcentual ao ano.

Há fundamento para parte dessa reprecificação. A probabilidade de alternância de poder aumentou, e o Congresso de 2027 será, em princípio, mais favorável a privatizações, desregulamentação e reformas pró-mercado. O risco é confundir essa mudança política com a solução dos problemas fiscais e de crescimento.

Flávio Bolsonaro quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo, por Édouard Louis*

Folha de S. Paulo

Se eleito, senador tentará apagar uma liberdade que existe em poucos países

Político quer uma sociedade do medo e tornaria a vida dos pobres mais difícil

Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.

O mito do Nordeste vermelho, outra vez, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O Nordeste não constitui um sistema partidário distinto do restante do país

O peso do PT é menor nas bancadas federais do Nordeste do que nas de outras regiões

Em 2022, mostrei nesta coluna que o núcleo do centrão e o PL haviam eleito 35% dos deputados federais nordestinos. Os partidos de esquerda ficaram com 33%. A participação de PL, PP e Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à observada nacionalmente.

Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, contra 69 em 2022, mas a participação do Nordeste nessa bancada caiu de 21 cadeiras —30,4%— para 20, equivalentes a 28,6%. Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, agora a diferença aumentou: são 20 contra 50.

Ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Falar em mudança da Constituição apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual

Carta de 1988 representa um marco nacional na consolidação do Estado Democrático de Direito

Fiquei aterrorizada com essa conversa sobre "mudar a Constituição" com vistas a "redemocratizar o Brasil". O assombro se fundamenta na certeza de que nossa estrutura institucional estabelecida atualmente garante, em regra, o respeito à Lei Maior do país. Salvo melhor juízo, há 41 anos este país é uma democracia.

As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.

O clique da glória e da amargura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Um soldado prisioneiro de guerra volta do Vietnã e descobre que sua esperança foi em vão

A bela foto daquele momento é premiada e liga o fotógrafo e seu personagem para sempre

A foto, excepcional, correu o mundo em 1973. Mostrava um soldado americano, prisioneiro de guerra durante cinco anos no Vietnã, desembarcando recém-libertado numa base aérea na Califórnia. O homem é um major e se chama Robert Stirm. Está fardado, de costas para a câmera, e sua bela família corre euforicamente para abraçá-lo. São duas meninas, uma já adolescente, dois garotos e a esposa. Parecem estar no ar, os pés fora do chão, e a alegria em seus rostos é indescritível. A foto é de Slava Veder, também americano, da Associated Press.

Jornal também precisa descer do salto na cobertura eleitoral, por Ombudsman \ Alexandra Moraes

Folha de S. Paulo

Surpresa e tom de caricatura prejudicam reportagens sobre mulheres conservadoras eleitas para o Legislativo

Atenção que faltou para deputadas parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro, que leitores veem tratado como já eleito

Os resultados que geraram uma semana de críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).

Já na reta final da campanha e diante dos primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas voltassem ao "cercadinho" onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre pena.

Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.

Nos jornais, um climinha de "já ganhou" antes da hora, por Ombudsman \ João Marcelo Sena

O Povo (CE)

É necessário um pouco mais de cautela ao reportar a postura adotada pelas campanhas após o primeiro turno. Nos principais jornais, prevaleceu um clima de "já ganhou" antes da hora presente no otimismo que Flávio tentou demonstrar

O Brasil parece estar vivendo desde a noite do último domingo, 4, em função dos resultados das eleições e dos desdobramentos do apurado das urnas de todo o País. Não faltaram análises nos principais veículos sobre a composição do próximo Congresso, acerca do elevado número de governadores eleitos ou reeleitos num só turno e, claro, sobre a disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contrariando o que projetavam as pesquisas.

Com poucas disputas em segundo turno pelos governos estaduais, a corrida pelo Palácio do Planalto fica ainda mais em evidência no noticiário. Ao longo da última semana, as agendas e estratégias de Flávio Bolsonaro e Lula pautaram a cobertura.

O candidato do PL vestiu a roupa de “futuro presidente”. O noticiário em torno de Flávio Bolsonaro baseou-se nos apoios recebidos para o segundo turno, nas projeções de cortes no orçamento que animaram os mercados e nas promessas de mudanças na Constituição sob o argumento de “redemocratizar” o País.

Poesia | Procura-se um amigo, de Vinicius de Moraes

 

Música | Elis Regina - Romaria

 

domingo, 11 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Flávio e Lula têm de cumprir promessa de ir aos debates

Por O Globo

Depois da ausência de confronto entre os dois no primeiro turno, ambos afirmaram que comparecerão

Depois da resistência injustificável no primeiro turno da eleição, é bem-vinda a disposição dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de participar de debates nesta segunda — e decisiva — etapa da disputa à Presidência. Numa eleição acirrada, em que Flávio chegou à frente do atual presidente por menos de 2 pontos percentuais, ou pouco mais de 2,2 milhões de votos, o confronto de ideias se torna fundamental para marcar diferenças e permitir ao eleitor fazer sua escolha de forma sensata e informada.

Candidatos e suas campanhas costumam fazer cálculos de perdas e ganhos eleitorais para decidir se participam de debates. Tem sido comum que líderes nas pesquisas se ausentem, por temer perder a dianteira ao se tornar alvos fáceis dos concorrentes. No primeiro turno não houve debates entre os dois líderes nas pesquisas.

Hora última para Lula escolher a voz de comando: militar, militante ou política, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Para tudo o que se pode ou escolhe escrever sobre política há, além de um prazo de validade como pensamento, um tempo de serventia para a ação. No caso de comentários, no calor da hora, sobre a campanha do segundo turno dessas eleições, o prazo de validade pode ir muito além do dia 25.10.26, seja como   balanço, interpretação, avaliação, lição ou debate do passado; seja como orientação (e novamente debate) para situações políticas futuras. Portanto, a validade de opiniões dadas agora permanecerá enquanto for possível (institucionalmente) e desejado (social e culturalmente) haver pensamento e debate entre nós. Esse é o critério decisivo para o voto de certas pessoas, inclusive este colunista.

Hamilton, Madison e as ameaças à liberdade de imprensa nas eleições, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Houve 14.182 ataques contra jornalistas e veículos no X e no Instagram. A média diária passou de 188 no início da campanha para 327 nos oito dias anteriores à votação

Alexander Hamilton e James Madison ajudaram a construir a democracia norte-americana, mas divergiram sobre como proteger suas liberdades. Hamilton confiava na limitação constitucional dos poderes do governo; Madison passou a defender garantias expressas contra os abusos. Mais de dois séculos depois, esse debate permanece atual.

Leis são indispensáveis para assegurar a liberdade de imprensa, mas sua eficácia depende também de uma cultura política que rejeite a censura e a intimidação. Os ataques a jornalistas na eleição brasileira mostram como essa proteção pode ser corroída, mesmo sem uma proibição formal de publicar, até pelo Supremo Tribunal Federal (STF), quando um de seus membros se sente ameaçado por revelações indesejáveis.

Nascido no Caribe, Hamilton foi advogado, auxiliar de George Washington na Guerra de Independência e participante da Convenção Constitucional de 1787. Como primeiro secretário do Tesouro, estruturou as finanças do novo país. Defendia um governo federal forte, capaz de preservar a União.

Campanha eleitoral, repositório de desinformação, por Fernando Neves*

Correio Braziliense

Ficção e verdade se entrelaçam em versões contraditórias, estressando a audiência que fica confusa sem saber no que acreditar

A campanha eleitoral transformou-se em um repositório de desinformação. Em vez do momento ser usado como palco para esclarecimentos de propostas, gerando as discussões naturais a respeito de temas relevantes para a sociedade, o que vemos é um festival de obras de ficção. Seria engraçado se não fosse trágico, na medida em que os discursos das campanhas têm potencial, sem exagero, de contaminar a percepção das gerações futuras.

Medo como arma, por Merval Pereira

O Globo

Segundo o sociólogo Manuel Castels, o medo é a emoção primordial imposta pelos poderes para impedir mudanças.

A disputa feroz em que se transformou a campanha presidencial no segundo turno tem revelado mais dos candidatos do que a totalidade da curta campanha eleitoral anterior, que terminou com a vitória de Flavio Bolsonaro sobre Lula. Para o bem e para o mal. Os candidatos passaram a apresentar suas propostas de governo, o que evitaram fazer na primeira etapa da disputa. A correria com que foram buscar jovens petistas para ajudar no segundo turno teve seu lado bom, com os estudantes de diversas cidades promovendo manifestações públicas de apoio que energizaram a campanha. Mas a descoberta da deputada federal eleita Ana Elisa, de 21 anos, tão controversa quanto não necessitava Lula nesse momento em que procura os votos do centro e dos independentes para virar o jogo, trouxe de volta para o PT a imagem de radicalização repelida justamente por esse eleitorado mais centrista.

Teatro da barbárie, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente americano autoriza primeira execução pública em 90 anos; no Brasil, bancada da bala avança no Congresso

Depois de 90 anos, os Estados Unidos voltarão a promover uma execução em público. Desta vez, com transmissão ao vivo na TV e nas redes sociais. A notícia foi confirmada pelo Departamento de Defesa, que Donald Trump mandou rebatizar de Departamento de Guerra. “Eu aprovo, com certeza”, sentenciou o 47º presidente americano.

Em entrevista a um canal de extrema direita, o secretário Pete Hegseth deu detalhes sobre o espetáculo da morte. O condenado será submetido a um pelotão de fuzilamento em 3 de dezembro. A escolha da data garantirá quase dois meses de debates inflamados sobre o assunto. É a nova aposta de Trump para mobilizar as bases antes das eleições legislativas que ameaçam tirar a maioria republicana no Congresso.

A situação de Lula piorou, por Elio Gaspari

O Globo

Eleitores dos candidatos da terceira via estão migrando mais para Flávio

A primeira pesquisa Datafolha mostrou que Flávio Bolsonaro botou quatro pontos de frente sobre Lula (52% x 48% dos votos válidos). Todas as notícias são ruins. Flávio aumentou seu capital em mais de um milhão de votos. Eleitores dos candidatos da terceira via estão migrando mais para Flávio. Nove milhões de votos que foram para Lula em 2022 estão com Flávio em 2026.

A bola de ferro presa no pé de Lula é a mesma de sempre: ele é rejeitado por 46% dos entrevistados. Desde 2026, seu governo é mal avaliado na faixa dos 40% dos entrevistados e há anos não chega aos 50%.

Lula reagiu com a escala 5x2 (um benefício futuro) e o fim das apostas (um benefício tardio). Deu no que deu.

A falta de plano na economia, por Míriam Leitão

O Globo

O ajuste fiscal será necessário ano que vem. O que Flávio Bolsonaro tem dito não fica em pé. E Lula não esclarece o que fará

A campanha de Flávio Bolsonaro prometeu um ajuste fiscal entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões no primeiro ano. Mas as falas dele e de sua equipe são de aumento do gasto. Ele disse que os aposentados terão reajuste acima da inflação. Sua equipe afirmou que aumento real do salário mínimo vai continuar e negou privatizações. Flávio Bolsonaro disse que as emendas parlamentares serão mantidas porque ele sabe “como é suado conseguir voto”. E ainda disse que vai cortar impostos. Tudo somado, vai manter as despesas e diminuir receita. A conta piora.

Nobel nobre, por Dorrit Harazim

O Globo

Prêmio é o inalcançável brinquedo supremo que o presidente dos Estados Unidos cobiça de forma obsessiva, por todos os meios

Bom mesmo foi encerrar a semana de nervosia política no Brasil com a notícia do Nobel da Paz concedido à jurista sul-africana Navanethem Pillay. Ponto para o Comitê Norueguês, que neste ano acertou na premiação. Das cinco categorias existentes há 125 anos (às que foi acrescentada Economia em 1968), o Nobel da Paz é certamente o mais prestigioso, universal e, por isso mesmo, polêmico dos prêmios — qualquer cidadão em qualquer canto do planeta sabe o que é paz ou tem uma concepção para paz.

Acordão à vista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Conversas para salvar Jair Bolsonaro, Flávio e Alexandre de Moraes pipocam em Brasília

A guerra continua no Supremo e os sinais trocados dados pelo ministro Alexandre de Moraes chamam a atenção e reforçam uma dúvida nos ares de Brasília: há um acordão à vista para salvar Moraes, de um lado, e Jair e Flávio Bolsonaro, do outro? Moraes precisa mais dos Bolsonaro do que eles dele, mas não seria nada mal para eles jogar o caso Master para segundo plano.

Um Andrada, na campanha, para pensar o futuro, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Donald Trump, Marco Rubio ou George Washington – quem deverá substituir os Andradas no monumento inaugurado em 1922 na Praça da Independência, em Santos? Talvez as três figuras norte-americanas, juntas? Nenhuma? A resposta, se vier, só deverá aparecer depois de conhecido o vencedor da eleição presidencial no Brasil. Por enquanto, a pergunta é justificável e inquietante, talvez, para uma parte do eleitorado. Para outra, nem tanto, ou talvez até animadora. Pelo balanço possível neste momento, têm peso nas eleições os grupos menos interessados na combinação de valores como soberania e cooperação.

As urnas – e o que a esquerda não soube ouvir, por Karin Koshima

O Estado de S. Paulo

Há resultados eleitorais que surpreendem. Outros apenas tornam visível o que já vinha acontecendo. O resultado deste primeiro turno pertence à segunda categoria. A força do campo político ancorado no bolsonarismo e a sua expansão no Senado não são fortuitos. Para quem acompanha pesquisas qualitativas, as urnas apenas revelaram correntes que nunca deixaram de existir.

Em fevereiro de 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro, apontei um erro recorrente: tratar seu eleitor como radical, isolado ou incapaz de ir além do extremismo. As qualitativas mostravam o oposto. Havia pessoas comuns aproximando-se de Bolsonaro diante de dupla desproteção: o medo da violência e a percepção de que valores familiares sofriam transformações empurradas goela abaixo. Não necessariamente concordavam com ele em tudo, mas encontravam o que outros falhavam em oferecer: identificação, proteção e a sensação de que alguém compreendia seus medos.

Reverter o resultado do 1º turno é possível – e está em nossas mãos, por Roberto Amaral*

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”- Jair Bolsonaro (Jovem Pan, Junho de 2016)

“Não houve golpe militar em 1964” - Jair Bolsonaro (Roda Viva, 30 julho de 2018)

“Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês [os EUA] têm o aliado mais poderoso do hemisfério ocidental, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna qualquer política americana para a região impossível.” - Flávio Bolsonaro (Folha de S. Paulo, 28/03/2026)

De um famoso e formoso discurso de Otávio Mangabeira, pronunciado em 1945, a história recolheu uma frase que saltou de seu entrecho para correr mundo. Uma advertência que chega aos nossos dias carregada de dramática atualidade: “A democracia é uma flor tenra que precisa de muito cuidado para crescer e para se firmar”. A advertência do tribuno baiano era uma peça em sua campanha contra o Estado Novo.

Mangabeira era um liberal, fauna de há muito em extinção na política brasileira. Foram-se os liberais, mas o projeto permaneceu vigente, mas hoje manipulado exatamente pelos seus mais insidiosos inimigos. Veja-se a injúria que é a promessa liberal, que já foi a bandeira de Raul Pila, ser utilizada na denominação da sigla que abriga o clã Bolsonaro.

A frase lapidar de Mangabeira, contudo, ganhou vida própria e percorre inumeráveis discursos parlamentares desde 1946. Ganhou força e ilustrou e ainda ilustra a eloquência de tribunos, juristas e jornalistas sempre que a democracia é ameaçada pelos seus inimigos de sempre. Assim, por exemplo, na crise decorrente da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, assim em 1964. Assim como agora. Desta feita, porém, a ameaça não chega pela rota dos quartéis, mas por dentro de um dos institutos mais sagrados da democracia representativa, o processo eleitoral.

Flávio está mentindo sobre teu dinheiro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Auxiliares são economistas de segunda divisão e só prometem bondades; conta não fecha de jeito nenhum

Candidato pode defender programa econômico que achar melhor, mas não pode passar brasileiros para trás

Flávio Bolsonaro está mentindo sobre seu programa econômico. Não sabemos para quem. Meu palpite é que é para você.

Daniella Marques e Adolfo Sachsida, os dois auxiliares que Flávio designou para defender suas propostas para a economia, são economistas de segunda divisão que foram escalados para mentir durante a campanha eleitoral.

Só prometem bondades: um ajuste fiscal grande e completamente indolor, sem cortes de salários, aposentadorias, programas sociais, benefícios fiscais para os ricos, enfim, nada além de salários de funcionários públicos acima de R$ 200 mil, fraudes e ineficiências.

Para entender o risco de estelionato eleitoral de Flávio Bolsonaro na economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Parte que vazou do programa do candidato não faz sentido sem corte social ou mais imposto

Negativas da equipe bolsonarista podem esconder outros tipos de corte ou contenção

Flávio Bolsonaro (PL) e equipe desautorizam versões do plano econômico que vazam por aí. Parecem negar o pacote mínimo de quase qualquer adepto da contenção de despesa.

Isto é: 1) negam que o reajuste do piso de benefícios previdenciários e assistenciais venha a ser desvinculado dos reajustes do salário-mínimo; 2) negam que a despesa federal mínima obrigatória em educação e saúde seria desvinculada da receita do governo; 3) dizem que o salário-mínimo continuará a ter reajuste real, acima da inflação.

Suponha-se que seja assim. Nem essas negativas dizem tudo.

A infestação moral dos ratos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A infestação na vida política agrava-se com a corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou

O que seria o 'coração' da Pólis republicana, por arritmia burocrática com a nação, infartou.

A recordação de uma leitura da pequena infância ajusta-se ao dito de Machado de Assis de que "o menino é o pai do homem" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / de noite aí vão..."

Dá para adivinhar o resto, uma fábula de predação.

PT dorme no ponto, acorda tarde e corre na última hora, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Lula esperou levar um susto para captar e se render à mensagem do desejo do eleitorado pela mudança

Agora é difícil a tarefa de em 15 dias convencer a maioria sobre o que não foi feito em vários mandatos

As primeiras pesquisas da campanha rumo ao segundo turno confirmam a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio da Silva (PT), mas não registram uma dianteira correspondente à série de fatos positivos que marcaram a semana do candidato de oposição.

O vencedor da etapa inicial viveu dias de celebração aos acertos e atração de apoios políticos que, embora não signifiquem necessariamente votos, sinalizam expectativa de poder. Já o perdedor teve frustradas as tentativas de conquista de alianças, precisou se ocupar dos erros e da reorientação de rota.

Poesia | Meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | ESPECIAL ALDIR BLANC 80 | 9ª Temporada | 08/10/2026

 

sábado, 10 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brazil, o Filme

Por CartaCapital

A continuação da distopia prestes a entrar em cartaz 

Sam Lowry é o herói acidental de um país inoperante, regido por ordens desconexas de uma burocracia obtusa emitidas por computadores obsoletos. Enquanto uma elite cafona se esbalda em festas nababescas na cobertura, tal qual os irmãozãos de Daniel Vorcaro, o couro come nas ruas. Funcionário do quarto escalão de uma repartição pública, oprimido pela mãe dominadora, Lowry acaba confundido com um terrorista ao se apaixonar por uma mulher “suspeita”. Para a sua sorte, ou azar, o Estado que o persegue é incompetente e indolente. Por isso, mais perverso.

O que aconteceu com os jovens? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?