domingo, 21 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda econômica comum merece atenção na eleição

Por O Globo

Movimento Brasil Competitivo elenca sete prioridades sensatas para o Brasil dar um salto de desenvolvimento

Em tempos de polarização política, é bem-vinda a iniciativa do Movimento Brasil Competitivo (MBC), grupo formado por empresas e entidades empresariais, de apresentar uma agenda comum para o futuro do Brasil. A busca por um consenso mínimo na área econômica parte de três metas ambiciosas para os próximos quatro anos: aumentar a taxa de investimento dos atuais 17% para 20%; reduzir os custos de produzir e fazer negócios; e saltar da 65ª para a 30ª posição no ranking de competitividade do International Institute for Management Development (IMD) — na última edição, o país sofreu queda de sete posições.

A pátria em chuteiras e o desafio de Ancelotti no comando da seleção, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Não é apenas escolher os melhores jogadores e definir o esquema tático mais eficiente. A tarefa é transformar talentos dispersos num força coletiva que emocione os brasileiros

A memória é traiçoeira, ainda mais do nosso futebol. Com o passar do tempo, vitórias parecem inevitáveis e derrotas são acidentes de percurso. É o caso da Seleção Brasileira de 1970, lembrada hoje como a maior equipe de futebol de todos os tempos, liderada por Pelé, que encantou o mundo e conquistou definitivamente a Taça Jules Rimet. Entretanto, quando desembarcou no México, aquela seleção estava desacreditada.

A recente série da Netflix sobre a campanha de 1970, embora misture fatos e ficção, recupera essa verdade esquecida: o Brasil chegou à Copa cercado por dúvidas, como acontece agora com o time do técnico italiano Carlo Ancelotti. O trauma da eliminação na Inglaterra, em 1966, ainda estava vivo. A substituição de João Saldanha por Zagallo provocara enorme polêmica. Havia interferência política do regime militar. E dúvidas sobre a condição física de Pelé e Tostão e a capacidade do supersticioso técnico Mario Jorge Zagallo.

E La Nave va, por Merval Pereira

O Globo

Temos que esperar o que os fatos vão dizer, em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade

Do jeito que vai a política nacional, não é possível afirmar que o presidente Lula atingiu seu teto eleitoral, nem que o senador Flavio Bolsonaro está mantendo seu piso. A pesquisa do DataFolha indica, porém, a possibilidade de que a eleição se resolva no primeiro turno, ou que chegue ao segundo com os dois candidatos empatados na margem de erro. Os demais candidatos, tanto à esquerda quanto, especialmente, à direita, não parecem ter fôlego para dar uma arrancada nos próximos dois meses. A eleição dos rejeitados parece ser também a dos envolvidos em questões de corrupção.

O fator Master nesta eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Os atos de Daniel Vorcaro expõem uma crise política mais profunda, na qual a relação entre autoridades e endinheirados ultrapassa os limites do aceitável

O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.

Digital do PT no caminho no caso Master, por Elio Gaspari

O Globo

Entrada do senador Jaques Wagner era questão de tempo

A entrada do senador Jaques Wagner no panelão do Banco Master era uma questão de tempo. A oposição repetia há meses que as delinquências de Daniel Vorcaro começaram na Bahia. Lá atrás, durante a Lava-Jato, a polícia encontrou 15 relógios de luxo na casa do senador. (Um deles, mimo da empreiteira Odebrecht, foi avaliado pela Polícia Federal em 20 mil dólares. Ele explicou que eram imitações chinesas. Passaram-se dez anos, a PF foi lá e voltou a achar 15 relógios. O senador voltou a dizer que eram imitações chinesas. A reprise transforma Wagner num caso raro de colecionador de falsificações chinesas.

O PT já havia deixado uma digital no caminho de Daniel Vorcaro quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega levou-o a Lula no final de 2024.

Em 2016, quando uma parte do PT foi apanhada pela Lava-Jato, Wagner disse que “o PT se lambuzou”. Na quinta-feira, lambuzou-se o líder do governo no Senado.

O chefe na sala, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Extrema direita lidera pesquisas para eleição na Colômbia neste domingo; favorito se inspira em Bukele e Milei

Foi uma cena de teatro. Atrasado para a sessão do G7, Donald Trump adentrou a sala quando os demais líderes já estavam sentados. Ao passar pela cabeceira da mesa, estancou o passo, girou o corpo e proclamou, com humor canastrão: “I’m the boss” (Eu sou o chefe).

Divulgada pela Casa Branca, a performance bombou no noticiário e nas redes. Foi mais uma demonstração de poder do presidente dos Estados Unidos, que gosta de constranger aliados para afirmar sua força.

Não está faltando alguém? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Não é crível fazer busca contra dois senadores e não contra Flávio, com áudio, dinheiro e mentira

Dois senadores de polos políticos opostos, Jaques Wagner, do PT, e Ciro Nogueira, do PP, já sofreram operação de busca e apreensão, a pedido da PF e com autorização do relator, ministro André Mendonça, por suspeita de recebimento de altos valores e favores no caso Master. Não ficou faltando alguém? E o também senador Flávio Bolsonaro, do PL?

Não há respostas técnicas e jurídicas inquestionáveis. Como o processo corre sob sigilo, não se sabe sequer se a PF fez ou não o pedido de busca contra Flávio e se esse pedido foi ou não analisado por Mendonça. Em qualquer dos casos, “por quê?”.

Poder reconfigurado no Oriente Médio, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O memorando de entendimento entre EUA e Irã sela uma mudança no equilíbrio de poder no Oriente Médio. O acordo recoloca o Irã na posição de potência regional. Inversamente, Israel vê sua aliança com os EUA abalada e a degradação do poder regional que havia conquistado a partir dos atentados do Hamas de outubro de 2023.

Já no primeiro parágrafo, EUA e Irã, “bem como seus aliados na guerra atual se comprometem a não iniciar qualquer guerra ou operação militar um contra o outro, a abster-se da ameaça ou do uso da força um contra o outro, e a garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano”. Os aliados do Irã são o Hezbollah e os houthis; dos EUA, Israel, que não participou das negociações e não concorda com o memorando.

O novo PowerPoint do Master, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Para cada acusado de esquerda, surgem quatro ou cinco novos de direita

Desenhe o gráfico, pinte os direitistas de azul, os esquerdistas de vermelho, os juízes de preto, e me diga o que você vê

A operação contra o líder do governo no SenadoJaques Wagner (PT-BA), é uma boa oportunidade de revisar o PowerPoint do caso Master.

Em minha coluna de 28 de março, "O PowerPoint certo do Banco Master", propus separar, no gráfico, quem foi acusado de roubar com o Master, de tentar salvar o Master e de receber dinheiro do Master. O que mais descobrimos desde aquele dia?

Jaques Wagner é acusado de receber dinheiro do Master através de familiares. Além disso, a decisão que autorizou a operação menciona conversas com Augusto Lima (um dos operadores do esquema) que, caso confirmadas, devem deslocar o senador baiano da seção "recebeu dinheiro" para "tentou salvar o Master".

Estudos e mercados da bola dizem que time do Brasil vale muito; nós, não, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Em estatísticas e fria observação, nível da seleção está pelo menos entre os oito melhores

Ignorância e desordem desperdiçam talentos; Brasil não melhorou nem contra o Haiti

seleção do Brasil é a sétima mais valiosa das 48 da Copa. Fica atrás de Inglaterra, França, Espanha, Alemanha, Portugal e Holanda. No oitavo lugar, Argentina. Nessa conta, a seleção estaria nas quartas, disputando vaga nas semifinais.

"Esse time é muito ruim", dizem nossos desânimos ou pânicos comicamente furiosos, vale muito, não apenas no mercado.

A conta desse ranking é do CIES (Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudo do Esporte), centro de pesquisa que fica na Suíça, que tem parcerias com universidades, Fifa e pós-graduação.

O valor das seleções calculado pelo CIES não é a soma do dinheiro pago pelas transferências de jogadores entre clubes. Considera custo do "passe", mercado, idades, minutos jogados, desempenho, nível da liga e do time em que jogam etc.

Não acreditar no que se vê, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Relato de óvni faz pensar em papel do jornalismo institucionalizado

O jornal ainda é o principal motor de credibilidade pública

Duas posições sobre a relação entre ver e crer parecem ganhar relevância diante dos assombros nas redes sociais. Numa atribuída a Nietzsche, ele desacredita em fantasmas, não por serem invisíveis, mas visíveis demais. Noutra, diz Engels que o fato de não se verem os alegados espíritos, recorrentes em sessões esotéricas nas capitais europeias no século 19, não constituía prova alguma: ver seria apenas uma exigência do empirismo radical.

Essa abordagem é suscitada pela repercussão de um vídeo postado com imagens de óvni no quintal de um sitiante, à luz do dia, no interior paranaense. Seria mais uma história de ET, dessas que os algoritmos costumam direcionar para aficionados do assunto. Mas tudo era por demais visível, assim como plausíveis a reação de medo e depoimentos do sitiante. Observadores descartaram a hipótese de montagem.

Datafolha: Lula mantém vantagem com 41% no 1º turno contra 31% de Flávio, por Carolina Linhares

Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que senador estancou por ora desgaste com 'Dark Horse', enquanto caso Master chega ao PT

Diferença no 2º turno continua em quatro pontos para o petista, em meio a duelo sobre segurança, Pix e 6x1

O presidente Lula (PT) manteve a vantagem e marca 41% no cenário mais provável de primeiro turno ante 31% de Flávio Bolsonaro (PL). A nova pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (20) mostra que o senador estancou por ora o prejuízo eleitoral causado pelo caso "Dark Horse".

Na rodada anterior, feita após a revelação de que Flávio havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar um filme sobre Jair Bolsonaro (PL), Lula marcou 40% enquanto o senador tinha os mesmos 31%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

A situação de estabilidade também define o hipotético segundo turno entre Lula e Flávio, em que ambos repetiram o placar visto há um mês, de 47% para o petista e 43% para o bolsonarista. Desta vez, os brancos e nulos somam 8%, e 1% não sabe.

Datafolha: Lula e Flávio Bolsonaro já disputam eleição com cara de segundo turno, por Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Presidente mantém liderança, ainda sem sentir efeito de ações da máquina do governo e à espera de impacto de operação contra petista

Flávio busca anticorpos para superar crise de confiança de eleitores-chave após escândalo 'Dark Horse'

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) já fazem uma disputa com cara de segundo turno antes mesmo do início oficial da campanha. O impacto do caso "Dark Horse", o avanço das investigações do Banco Master sobre o campo petista e o giro da máquina do governo preparam as duas campanhas para um embate direto.

O petista retomou a condição de favorito assim que foram reveladas as conversas em que Flávio pedia milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, em maio. Lula explorou o momento para reforçar a propaganda de bandeiras que pretende levar à campanha, como a defesa do fim da escala 6x1, e abrir os cofres do governo para tentar ganhar pontos de popularidade.

Após um início de ano em que os ventos pareciam soprar a favor do adversário, o resultado para o presidente foi reconfortante, mas ainda modesto. A avaliação do governo melhora a passos lentos, e Lula ainda vê Flávio em seu encalço nas simulações de segundo turno.

Palmares, sempre! Por Ivan Alves Filho*

Qual o traço de união entre o arquiteto Oscar Niemeyer, o ativista político Astrojildo Pereira, o cineasta Cacá Diegues, o poeta Castro Alves, os músicos Edu Lobo e Luiz Carlos da Vila, o historiador Joel Rufino dos Santos, o documentarista José Carlos Asbeg, o pintor Antônio Parreiras, o pesquisador Nei Lopes, o escultor Jorge dos Santos, o antropólogo Edison Carneiro e o ator Deo Garcez? A resposta é esta: todos, independentemente da época em que atuaram ou atuam e das funções que exerceram ou exercem ainda na vida brasileira, incorporaram o Quilombo dos Palmares às suas trajetórias profissionais e de vida.

Poesia | Meio do caminho, de e por Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nara Leão - Favela (Jorginho)

 

sábado, 20 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suspeitas contra Wagner devem ser investigadas a fundo

Por O Globo

Desde já, senador deveria se afastar da liderança do governo para trabalho ser conduzido com serenidade

São graves as suspeitas de corrupção envolvendo o senador Jaques Wagner (BA) e o empresário Augusto Lima, ex-sócio do notório Daniel Vorcaro, do Banco Master. É obrigação das autoridades aprofundar as investigações — e, desde já, Wagner deveria se afastar da liderança do governo no Senado para que elas possam transcorrer de forma serena.

Em nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Wagner, a Lima e a Eduardo Sodré Martins, enteado de Wagner e secretário no governo da Bahia. Segundo a investigação, Lima comprou um apartamento de R$ 2,4 milhões em Salvador (onde moraria a filha de Wagner), e uma companhia vinculada a ele transferiu R$ 3,5 milhões a uma empresa do núcleo familiar de Wagner. A PF ainda encontrou US$ 55 mil e € 33,5 mil em espécie.

Amor, festa e devoção, por Flávia Oliveira

O Globo

Ela é intérprete de um Brasil que nos faz 'compreender a marcha e ir tocando em frente', como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada

Parem os relógios, silenciem os telefones, suspendam a internet. Tomo emprestada a inspiração de W.H. Auden no poema “Funeral blues”, não para prantear uma morte, mas celebrar uma vida. Maria Bethânia fez 80 anos. Suspendamos o tempo para festejar a voz que há seis décadas canta como ninguém as brasilidades. Por um momento, não existem fraude Master nem dinheiro-vivo-mal-explicado; delação premiada nem tarifaço; Neymar machucado nem Endrick no banco; golpismo bolsonarista nem Lei da Dosimetria. Nada de mulheres violadas, crianças maltratadas, motociclistas desembestados, comunidades aterrorizadas.

A filha biológica de Dona Canô (1907-2012) e espiritual de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), irmã de Caetano Veloso, cria do Recôncavo Baiano, cujo nome foi tirado de uma canção de Capiba na voz de Nélson Gonçalves, é mais um talento artístico-musical que os anos 1940 legaram ao Brasil. São da mesma década os octogenários Erasmo Carlos e Roberto Carlos, de 1941; Nara Leão, Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Tim Maia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, todos de 1942; Chico Buarque, de 1944; Elis Regina, Geraldo Azevedo, Ivan Lins e Raul Seixas, de 1945. Benza Deus!

Com gás ou sem gás? Por Eduardo Affonso

O Globo

Quando a moça do caixa quer saber se você vai pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo creditício

Nietzsche decretou, em 1882, que Deus estava morto. Não tivesse morrido também, diria que quem morreu agora foi Copérnico: de uns tempos pra cá, parece que o Universo inteiro deu de girar em torno de nós, do nosso umbigo.

Não, leitor, nem tudo é sobre você, a cor da sua pele, seu índice de gordura, sua orientação sexual. Essa falta de noção e de proporção tem nome: efeito holofote. É o que faz com que você se sinta o centro das atenções, o vórtice dos acontecimentos. Menos, leitor. Menos.

Para não esquecer Alexandre de Moraes, por Thaís Oyama

O Globo

O ministro sabe que nenhum poder se sustenta apenas pelo mandato e que todo sistema de autoridade depende da crença em sua legitimidade

Diz uma máxima da política no Brasil que o escândalo de hoje faz esquecer o de ontem e espera o de amanhã para ser esquecido. Na ciranda do caso Master, Jaques Wagner ajuda a esquecer Ciro Nogueira, que ajuda a esquecer Flávio Bolsonaro, que ajuda a esquecer Alexandre de Moraes. No fim da fila, o ministro do Supremo é hoje, entre esses personagens, o mais esquecido.

Seu nome, entretanto, voltou nos últimos dias ao noticiário — não por causa de novas revelações acerca de sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, de resto, de extensão até agora desconhecida, dado que não investigada. Os motivos foram dois casos recentes a indicar que Moraes vem se defrontando com um problema de autoridade.

O segredo da corrupção, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ela perdura porque é a segunda melhor forma de organização social que existe

Perde para império da lei, mas é preferível a disputas sendo resolvidas pela violência

Por que não conseguimos nos livrar da corrupção? A resposta curta é "porque ela funciona". Para cada esquema que identificamos e desbaratamos, como o caso Master ou o petrolão, é razoável supor que existam vários outros que permanecem abaixo do radar, satisfazendo as necessidades daqueles diretamente envolvidos, isto é, corruptores e corruptos. Já o dano é coletivo e extrapola os rombos bilionários que os economistas se esforçam para calcular. Há prejuízos também para a eficiência econômica, pela via da redução da competição, e para a própria coesão social, já que muitos cidadãos se sentem, com razão, vilipendiados pela roubalheira com participação de agentes públicos.

Ano eleitoral arromba e faz a limpa nos cofres públicos, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Lula 3 mira motoristas de aplicativo; Congresso, agro e templos evangélicos

Farra com dinheiro do contribuinte também contempla agregados da família Bolsonaro

Lula 3 anunciou uma linha de crédito, que no total pode chegar a R$ 4 bilhões, para financiar a compra de motos e bicicletas elétricas por entregadores com carteira assinada e motoristas de aplicativo. É mais uma das bondades do ano eleitoral, incluindo capacetes de graça para mulheres.

Tecnocratas calculam que há um público potencial entre 700 mil e 1,2 milhão de entregadores em todo o país. O número parece subestimado. Basta olhar para as ruas cheias de motos em zigue-zague e alta velocidade.

Sertanismo – mais uma autêntica nota de R$ 3, por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O denominado ‘sertanismo’ desestimula o progresso da música popular, área em que nos destacamos durante todo o século 20

Esse “sertanismo” que ora inunda nossos meios de comunicação é mais um blefe inventado nos grandes centros por artistas principiantes de classe média, ansiosos por se divulgar, por estúdios de rádio e TV, e por igrejas.

Devemos questioná-lo por três motivos, pelo menos. Primeiro, por um relevante motivo constitucional. Esse, digamos, gênero musical é difundido por potentes aparelhos eletroeletrônicos que penetram sem dificuldade os lares, veículos, hospitais e até – pasmem! – consultórios onde se realizam exames médicos.

Sobre a amizade no caso Master, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na última terça, dois dias antes da operação policial contra si, Jaques Wagner, líder do governo Lula, subiu à tribuna do Senado para se solidarizar com Davi Alcolumbre, indignado o presidente do Congresso ante a notícia de que teria levado US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro. (Há mensagens do banqueiro à noiva, de agosto de 2025, em que relata boa reunião, “até meia noite”, na residência oficial da presidência do Senado, na qual teria aparecido “sem ele saber”.)

O discurso de Alcolumbre teve dois propósitos: transformar a denúncia contra o indivíduo senador Davi em “ataque ao Senado”; e disparar a ordem unida, sob o sentimento – medo – corporativista, do “eu sou você amanhã”. Estão aí Ciro Nogueira e o cavalo manco Flávio Bolsonaro...

Qual a luva do momento e qual a mão mais propícia a ocupá-la? Por Elimar Nascimento

Revista Será? (PE)

Nada mais aconselhável, hoje, que a leitura de um livro que trata das eleições presidenciais no Brasil desde a democratização. Este é o caso de A mão e a luva: o que elege um presidente, de Carlos Alberto Almeida e Tiago Garrido, lançado em 2022 pela Editora Record. Mesmo título do livro de Machado de Assis, de 1874.

O livro analisa todas as eleições presidenciais desde as de 1989, da qual saiu vitorioso Collor de Mello sobrepondo-se a 21 adversários — como Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Mario Covas, Paulo Maluf, Guilherme Afif Domingos e Ulysses Guimarães, entre outros —, até as últimas eleições, de 2022, quando Lula se elegeu pela terceira vez.

Os autores do livro, cientistas políticos reconhecidos, partem do princípio de que a opinião pública é a mestra do jogo das eleições presidenciais. Aquela mesma que um dia Pierre Bourdieu disse que não existia.

A opinião pública é definida como “as visões que as pessoas têm sobre temas relacionados ao governo e às questões públicas em contraste com os assuntos privados” (p. 15). Portanto, percepções, crenças e imagens que condicionam a escolha da maioria dos eleitores. Registre-se a ressalva, dos autores, de que a opinião pública é plural, porém com uma corrente majoritária. Com essa premissa epistemológica, de fundo estruturalista, corrente na qual o sujeito quase desaparece, os autores organizam seus dados e análises.

Momentos difíceis, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

As eleições deste ano serão realizadas debaixo de surpresas provocadas pelas revelações da PF, em relação ao caso Master, e provocações originárias de Washington. Nada mais

Tempos muito estranhos é o título de livro interessantíssimo de Doris Goodwin (Editora Nova Fronteira) que trata das relações especiais entre Franklin e Eleanor Roosevelt com Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro-ministro inglês passou, naquele período, longas temporadas na Casa Branca, trabalhando na coordenação, com o presidente dos Estados Unidos, do esforço de guerra dos aliados. Eram três personalidades fortes, distintas e com objetivos claros. Mudaram os destinos do mundo, apesar de serem completamente diferentes entre si. Eles entenderam a mudança dos tempos e conseguiram conviver bem, apesar dos egos imensos e da situação pessoal distinta. Franklin, paraplégico, conduzia a política norte-americana, Eleanor, feminista, escrevia no The New York Times enquanto namorava sua secretária, e Winston, que conduzia a Inglaterra, introduziu a bebida alcoólica na Casa Branca.

A humanidade dos jogos, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Devemos olhar para os que chegam vulneráveis, sem a estrela dos campeões. Olhemos para Curaçao ou mesmo para o Congo, que não disputava uma copa há mais de cinquenta anos. Olhemos para a Costa do Marfim e seu grande talento, o jogador Yan Diomande. Prestemos atenção em Cabo Verde e seu goleiro Vozinha

Uma semana de jogos da Copa do Mundo já nos permite reaprender uma das maiores belezas éticas do esporte: a de nos ajudar a nos tornar o que somos. É uma bela reflexão, que remonta à cultura clássica e que talvez explique por que diferentes civilizações sempre reservaram, em alguma medida, espaço para o jogo como afirmação dos laços da comunidade.

Wagner deveria renunciar à liderança do governo, por Sergio Lirio

CartaCapital

A renúncia ao posto não seria admissão de culpa, apenas uma decisão racional ante a crise

Governador por dois mandatos, senador, figura que libertou a Bahia do jugo do coronelismo, Jaques Wagner tem experiência suficiente para entender a gravidade do momento. Renunciar à liderança do governo não significa admissão de culpa, apenas a decisão racional para estancar uma crise cuja escalada só interessa a quem aposta na estratégia do Chacrinha: confundir e não explicar. O caso do Banco Master é majoritariamente um escândalo do bolsonarismo e do Centrão, mas o apego de Wagner ao posto insufla a tese, ou a “narrativa”, para repisar o senso comum do momento, de que são todos “farinha do mesmo saco”. O drama do parlamentar vira um drama do Palácio do Planalto.

Legislativo e desvio de poder, por Pedro Serrano

CartaCapital

Os fins da lei são plausíveis de verificação objetiva e, se destoantes dos fins constitucionais, é dever do Judiciário fulminar seus efeitos

Nas próximas semanas lançarei, pela Editora Contracorrente, a segunda edição da obra O Desvio de Poder na Função Legislativa. Originalmente publicado em 1997, o tema assume grande atualidade após quase 30 anos, o que suscitou a recuperação dos limites constitucionais impostos à realização da atividade legislativa do Estado, bem como à esfera de livre decisão do legislador na produção de leis.

Num momento em que o Legislativo brasileiro tem se mostrado sedento em assumir incomum protagonismo nos rumos da República, inclusive imiscuindo-se em matérias inequivocamente afetas ao exercício da função administrativa do Estado, precisamos rememorar os limites normativos a ele impostos. Mais especificamente, diante do avanço da redefinição dos limites e das confluências entre as funções estatais, urge refletirmos sobre os limites da legítima atuação da atividade legislativa.

Sinais de exaustão do bolsonarismo, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

O clã deu vários tiros no pé e o Congresso aliado da família aprova furiosamente leis impopulares

O que mais intriga num processo de fascistização das massas é que uma multidão cega persiga um líder obtuso, construído em torno de mentiras e de ideias tão simplistas e vagas que relativizam a verdade e o bom senso. Assim foi feito o “Mito”, como se autodenominava Jair Bolsonaro. Para um observador da história, todavia, intriga também o fato de existir um ponto de exaustão, além do qual o gênio das Mil e Uma Noites da extrema-direita é recolhido à lâmpada, para lá dormir até que alguém tenha a infeliz ideia de limpá-la e, sem querer, liberar um demônio de ideias pobres que enfeitiça multidões.

A desconexão entre representantes e representados, por Marcus Pestana

Faltam 105 dias para as novas eleições gerais no Brasil. Elegeremos o presidente, governadores, senadores, deputados. A eleição presidencial rouba a cena. A maior parte das atenções e das energias são direcionadas para ela. A eleição dos governadores ainda tem alguma visibilidade. O voto para senador é o último que o eleitor define, até porque há uma baixa compreensão sobre o papel do Senado. É a casa da Federação, representa as unidades federadas. Por isso, independente de sua população, cada estado e o DF têm 3 representantes. Mas, é na Câmara dos Deputados que o povo brasileiro - na sua diversidade, pluralidade e identidade - se faz representar.

A foto ofusca o filme, por Cristovam Buarque

Revista Veja  

É preciso enxergar o país para além do retrato do momento

Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.

O caleidoscópio do caso Vorcaro, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Não há um enredo único, mas vários malfeitos entrelaçados

A segunda tentativa de delação de Daniel Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, sob o argumento de que faltariam novidades além do que os investigadores já sabem. A recusa, porém, não encerra o jogo — apenas revela qual é ele. O objetivo de Vorcaro nunca foi confessar tudo, e sim entregar o suficiente: uma delação “meio barro, meio tijolo”, sólida o bastante para ser aceita e frágil o suficiente para não comprometer quem realmente importa. Tudo na base do “vai que cola”.

Tratando-se do Brasil, a aposta tem lógica. Há muita gente importante torcendo para que tudo termine em pizza — talvez meia calabresa, queimando alguns, e meia mussarela, poupando outros. É a chamada delação seletiva, do tipo que, segundo o ministro André Mendonça, já lhe teria sido proposta.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Canta, Canta Minha Gente - Varios Artistas (Sambabook Martinho da Vila)

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Irresponsabilidade fiscal de Alcolumbre nada deve à de Lula

Por O Globo

Aposentadoria especial a agentes de saúde e outros itens de pauta-bomba põem Brasil no rumo da bancarrota

Não bastasse a incúria fiscal do Executivo, o Brasil paga o preço de um Legislativo irresponsável. O protagonista da última leva de pautas-bomba, cuja explosão poderá levar o país à bancarrota, é o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP). No afã de dar uma demonstração de poder ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem não se entende desde antes de o Senado rejeitar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo, Alcolumbre resolveu apertar o botão vermelho da irresponsabilidade fiscal — e lançar às favas o Brasil.

Desencontro entre partidos e sociedade, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Sem reduzir essa barreira, será muito difícil melhorar a democracia brasileira

Desde a redemocratização, nunca houve um momento em que o desencontro entre os partidos e a sociedade fosse tão evidente e amplo como atualmente. As legendas partidárias não eram perfeitas, mas tiveram um papel muito importante desde a campanha das Diretas Já até as eleições de 2014. Depois disso, o corporativismo dos parlamentares e a construção de castas partidárias endinheiradas geraram um muro imenso que os separa dos cidadãos. Sem reduzir essa barreira, será muito difícil melhorar a democracia brasileira.

Ação da PF areja relação de Lula com Centrão, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Desdobramentos das investigações envolvendo Daniel Vorcaro revelaram que a Polícia Federal parece não ter partido político de estimação

No princípio era o Verbo. Desde a Bíblia, as palavras movem o mundo. Por isso, “quem tiver uma história e souber narrá-la, estará no poder”. A afirmação é da escritora Olga Tokarczuk, no discurso com o qual recebeu o Prêmio Nobel de Literatura relativo a 2018.

Pois a Operação Compliance da Polícia Federal (PF), que investiga as fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master, e assombra o mundo político, desafia advogados e investigados a emplacar a melhor defesa, ou mais do que isso, a melhor narrativa.

Na quinta-feira (18), após a operação que teve como alvo o líder do governo e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, senador Jaques Wagner (PT-BA), as principais lideranças trocaram análises, informações e versões sobre o episódio que atingiu o Palácio do Planalto e a pré-campanha do petista à reeleição.

Denúncias do Master tornam insustentável Wagner ficar na liderança, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A responsabilização do líder do governo depende de provas, contraditório e sentença judicial, mas sua permanência no cargo abala a imagem de Lula e a credibilidade das instituições

A operação da Polícia Federal (PF), em Brasília e Salvador, que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), gerou mais instabilidade entre os Poderes no rastro do escândalo do Banco Master. O líder do governo no Senado não foi denunciado, não é réu e nega as acusações, mas sua inclusão entre os investigados arrasta o governo Lula para o centro do caso Master e produz efeitos políticos que transcendem os aspectos penais. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a questão central não é apenas saber se houve ou não prática criminosa, mas avaliar o impacto das suspeitas e a escala das suas consequências eleitorais.

Sob o signo do Master, por Vera Magalhães

O Globo

Entrada de Jaques Wagner na investigação tira de Lula discurso de que governo e PT não têm nada a ver com o escândalo

Os novos capítulos da Operação Compliance Zero espalham o rastro de desgaste do escândalo do Banco Master para praticamente todo o sistema político brasileiro, tornando difícil quantificar em que medida as candidaturas, sobretudo as presidenciais, serão abaladas pelas revelações, que continuam se sucedendo em base diária.

Já era esperado que o caso atingisse o PT da Bahia, graças aos negócios da instituição comandada por Daniel Vorcaro com o governo do estado. O que não estava no radar com a força que emergiu nesta quinta-feira era a centralidade que seria conferida ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner, um dos petistas mais próximos a Lula.