quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Vera Magalhães - Um partido em busca de um discurso

O Globo

O PSDB não é apenas um partido em busca de um candidato a presidente. Também é uma sigla à procura de um projeto de país. E parece mais distante de encontrar o discurso que de escolher um dos postulantes à sucessão de Jair Bolsonaro.

Nas pouco mais de duas horas de debate promovido pelo Globo e pelo Valor entre os três pré-candidatos sobraram justificativas para o apoio pretérito a Bolsonaro, críticas entre tímidas (no caso de Eduardo Leite) e mais enfáticas ao presidente, propaganda das próprias gestões feitas pelos dois governadores tucanos e alguma nostalgia do passado glorioso do partido.

Mas e para o futuro? O que propugna a sigla que por duas décadas se revezou com o PT no comando do Brasil, ajudou a formular e a implementar o Plano Real, quebrou os monopólios das telecomunicações e do petróleo, formulou a Lei de Responsabilidade Fiscal, implementou o Bolsa Escola no plano federal, promoveu a universalização do ensino fundamental, vendeu a Vale e criou os genéricos, só para ficar em alguns grandes projetos estruturantes?

Nem Doria nem Leite conseguiram apresentar, até aqui, a espinha dorsal de qual seu programa para o pós-bolsonarismo.

Se em 1995 Fernando Henrique Cardoso assumiu tendo o Real como força eleitoral e aproveitando a lua de mel com o eleitorado para fazer, logo de cara, as reformas econômicas mais difíceis e modelar as privatizações, agora os postulantes do partido saem de um patamar em que o PSDB não é sequer uma das principais vozes de oposição.

O partido não consegue nem ao menos se contrapor de forma inequívoca ao bolsonarismo, tanto que, no debate, os pré-candidatos tiveram de enfrentar o constrangimento de admitir que há setores das bancadas que flertam com o apoio ao presidente.

Zeina Latif - Sim, há lugar para otimismo

O Globo

A sociedade mais exigente contribui para aumentar a concorrência na política, ingrediente essencial para o bom funcionamento da democracia

Somos uma nação ainda adolescente. Foi apenas na década de 1930 - lamentavelmente, em um contexto autoritário -, que o país atingiu um ponto que o permitia trilhar o caminho sem volta de construção de uma nação.

Até então, havia ameaças recorrentes de movimentos separatistas e revoltas regionais que questionavam o poder central. Desde então, foi crise atrás de crise na política e, pior, por bastante tempo se buscou a solução de impasses pela violência, como nas ditaduras.

A adolescência não costuma ser uma fase tranquila. A nação anseia descobrir o que quer para si e avança por tentativa e erro. Enquanto isso, vai se defrontando com as consequências e limitações de suas escolhas.

Foi assim no “contrato social” da Constituição de 1988, que apesar dos avanços civilizatórios, pecou ao querer colocar a todos sob o manto da proteção estatal.

A sociedade foi considerada hipossuficiente em vários aspectos, o que gerou uma Carta contraditória e injusta com as gerações subsequentes, que têm de arcar com o consequente desarranjo das contas públicas.

Na adolescência, tudo parece estridente, como se não houvesse o dia seguinte, mas apenas a agonia do presente.

Nesta confusão atual é importante, porém, separar problemas estruturais, que demandarão, nos próximos mandatos presidenciais, políticos capazes, e questões conjunturais, que podem ser mais facilmente superadas, especialmente no cenário de renovação na política.

Bernardo Mello Franco - O golpismo compensa

O Globo

A CPI da Covid apertou políticos, lobistas e empresários que contribuíram para o avanço da pandemia. Faltou a mesma coragem para confrontar militares que colaboraram com o morticínio.

A comissão chegou a ouvir o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde. Mas recusou-se a convocar o general Walter Braga Netto, ex-chefe da Casa Civil e atual ministro da Defesa.

Os senadores Humberto Costa e Alessandro Vieira apresentaram quatro requerimentos para que o oficial fosse inquerido. A CPI vai terminar sem que nenhum deles tenha sido votado.

Não foi por falta de motivo. Por mais de um ano, Braga Netto comandou o comitê de crise que deveria coordenar as ações do governo. O órgão se notabilizou pela inércia e pela falta de transparência.

O general deixou sua marca no atraso para comprar vacinas e na demora para levar oxigênio a Manaus. Além disso, comandou a reunião em que a médica Nise Yamaguchi tentou emplacar uma mudança na bula da cloroquina. A ideia só foi abortada porque o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, recusou-se a participar da trama negacionista.

Elio Gaspari - A cloroquina que ameaça a CPI

Folha de S. Paulo / O Globo

Os senadores fizeram um grande serviço

Os senadores da CPI trabalharam direito. Mostraram as conexões do charlatanismo com a picaretagem e a má administração da Saúde numa pandemia que já matou mais de 600 mil pessoas. Num país onde o presidente da República falou na “gripezinha” e reclamou dos “maricas” que se protegiam contra o vírus, isso é muita coisa.

Na reta final, como se tivesse tomado cloroquina, a CPI foi vitimada pelos efeitos colaterais provocados pelo teatro que lhe deu fama.

Uma coisa foram as investigações, em cuja retaguarda trabalhou uma infantaria competente. Outra foi o espetáculo que mostrava ao vivo e em cores charlatães, picaretas e profissionais de saúde honestos. Ele produziu também momentos de policialismo e teatro. Mesmo assim, encurralou a retórica do negacionismo do governo, do ministro-general Pazuello e de seu sucessor, o coronel Queiroga, da cepa dos senhores de engenho. Quando ele mostrou o dedo, não foi apenas mal-educado. Acima de tudo, informou que, ao presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, não restava outra forma de expressão.

Vinicius Torres Freire - A grande mutreta de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Plano do presidente tem calote e aumenta dívida e déficit públicos

plano de Jair Bolsonaro e do centrão para engordar o Bolsa Família implica furar o teto gastos e dar um calote nos precatórios. Além disso, aumenta dívida e déficit públicos e deixa um problema explosivo para o próximo governo. Grande dia para os liberais.

Para dar apenas um exemplo das consequências desse plano, considere-se a conta que vai ficar para o próximo governo. Grande parte das despesas com o novo Bolsa Família, o “Auxílio Brasil”, vai estourar o limite legal de gastos, o “teto”, em 2022.

Não haverá dinheiro para pagar essa conta em 2023 a não ser que 1) o “teto” continue sendo estourado (isto é, Bolsonaro-Guedes terão implodido o teto para sempre) ou; 2) o próximo governo corte esse pagamento e deixe os pobres a ver navios cheios de pelancas e ossos; 3) o próximo governo fique com o ônus de fazer um corte de despesas brutal, em outra parte, o que Bolsonaro não quer fazer. Tal corte será ainda mais inviável em 2023 (dependeria de arrocho nas despesas com o funcionalismo ou com benefícios previdenciários e sociais).

A leitora pode ser contra ou a favor do teto de gastos, tanto faz. Este será um grande resultado do plano Bolsonaro-centrão.

Bruno Boghossian - Bolsonaro e a emergência

Folha de S. Paulo

Governo avista abismo político e prepara gambiarra com cara de programa social

Jair Bolsonaro dizia, em dezembro de 2020, que o país vivia "um finalzinho de pandemia", mas era também um negacionista da crise econômica. À época, o presidente avisava que o auxílio emergencial seria interrompido na virada do ano porque a prioridade do governo era manter as contas públicas em equilíbrio.

O Planalto nunca deu muita bola para o controle de gastos, como mostram as despesas generosas com benefícios para caminhoneiros, policiais e outros integrantes da base que apoia Bolsonaro. O presidente provou também que não ligava para uma situação que se agravaria na população mais pobre.

Para Bolsonaro, a emergência não é a fome de quem perdeu renda na pandemia. Ele só se mexeu nessa área ao ver seu futuro político ameaçado. Quando a popularidade do presidente despencou, no início do ano, o governo voltou a pagar o auxílio por alguns meses. Agora, improvisa um novo programa para recuperar fôlego na corrida pela reeleição.

Hélio Schwartsman - A tragédia se impôs

Folha de S. Paulo

Sem a CPI, não se teria consolidado a percepção de que o governo federal fracassou miseravelmente na pandemia

Quando a CPI da Covid começou, avaliei que ela seria capaz de produzir um relatório forte, mas não o impeachment de Bolsonaro. No plano objetivo, não há o que mudar na análise, mas, no subjetivo, vejo-me obrigado a morder a língua. A comissão se saiu bem melhor do que eu esperava.

Não é que eu tenha recobrado a fé em CPIs. Continuo achando que elas não são bons instrumentos de investigação. Fora uns poucos parlamentares, em geral com experiência como delegados ou promotores, os membros dessas comissões não sabem instruir um processo nem estão muito interessados nisso. Sua prioridade é criar fatos políticos e produzir imagens em que apareçam bem, para usá-las na próxima campanha eleitoral.

Armando Castelar Pinheiro* - Covid, da pandemia ao meio normal

Valor Econômico

Como será o novo normal em um Brasil bem mais tecnológico e diferente é bom tema para campanha eleitoral

Semana retrasada fui pedalar até o centro do Rio. Me surpreendi com quanta gente havia nas ruas, indo ou vindo do trabalho, ou já nos bares, aproveitando que o fim de semana começava. É uma evidência pontual, reconheço, mas consistente com indicadores mais amplos, como aqueles de mobilidade do Google e da Apple. A vida aos poucos entra em nova rotina que, sem ser a do pré-pandemia, está mais perto do normal do que foram 2020 e a maioria deste ano. Se fosse apostar, diria que o “meio normal” será a regra em 2022.

O principal motor dessa mudança é o sucesso na vacinação. Segundo o Ministério da Saúde, 97% dos brasileiros com 60 anos ou mais já receberam a segunda dose ou a dose única da vacina contra a covid-19. Na faixa de 40 a 59 anos essa taxa é de 76%, caindo para 48% no grupo de 25 a 39 anos e 32% no de 18 a 24 anos. Já as taxas para a primeira dose, ou única, são de, respectivamente, 100%, 94%, 86% e 80%. São ótimos números, que posicionam o Brasil para, até o fim do ano, ser um dos países com maior cobertura vacinal do planeta.

Fernando Exman - Véspera de aniversário do Bolsa Família

Valor Econômico

Aliados cobram há meses solução para a área social

No fim do ano passado, um aliado do presidente Jair Bolsonaro, daqueles poucos que não têm medo de dizer o que pensa a um homem poderoso de temperamento imprevisível, alertou-o sobre a urgência de o governo olhar para os milhões de brasileiros que passam fome. A discussão sobre a necessidade de uma prorrogação do auxílio emergencial já estava à mesa, mas o apelo ia além. Era imperativo, argumentava o parlamentar do Centrão, que o governo acelerasse as discussões do programa social que substituiria o Bolsa Família. Mesmo que a equipe econômica fosse contra a ampliação do valor do benefício.

A tese, agora aplicada na prática, era que o mercado precisava compreender que não ganharia todas. A questão era política e por políticos seria tratada.

O aliado estava impressionado com o número de pessoas pedindo dinheiro nas ruas. Não só no Nordeste, para onde continuava a ir aos finais de semana visitar sua base eleitoral e o Bolsa Família virara um valioso ativo eleitoral do PT. Ele também mantinha reuniões frequentes em São Paulo. Em Brasília, vez ou outra precisava fazer compras. “Não tem um supermercado que você entre e não seja abordado por alguém pedindo ajuda.”

Daniel Rittner - Social-democracia volta, e a ultradireita está viva

Valor Econômico

Escrever obituário político é tentador, mas o vento vira

O obituário da social-democracia foi escrito diversas vezes na segunda metade da década passada, após uma série de derrotas de partidos da centro-esquerda na Europa e nos Estados Unidos. François Hollande teve só 6% dos votos como candidato à reeleição na França. O trabalhismo britânico afundou. Na Espanha, o fim do bipartidarismo deixou o PSOE numa crise existencial. O Pasok, na Grécia, virou sinônimo de tragédia. Surgiu o nacional- populismo. Viktor Orbán na Hungria e os irmãos Kaczynski na Polônia ganharam força espalhando preconceitos e xenofobia. Matteo Salvini se tornou uma ameaça na Itália. A Alternativa para a Alemanha (AfD) ressuscita demônios. E teve, é claro, Donald Trump.

O vento começou a mudar de direção. Em parte porque o discurso da direita radical é bom para conquistar votos, mas ruim para construir coalizões e governar. Em parte porque a social-democracia, onde não houve radicalização, conseguiu reconectar-se com suas bases tradicionais. “Os partidos de esquerda vão melhor quando as questões socioeconômicas dominam o debate”, afirmou o cientista político Cas Mudde, da Universidade da Geórgia, em entrevista ao “Washington Post” semanas atrás. Já a direita leva vantagem, segundo ele, quando temas “socioculturais” - como identitários ou imigração - prevalecem na agenda pública.

Debate das prévias do PSDB tem mea-culpa sobre apoio a Bolsonaro e disputa por reformas

João Doria, Eduardo Leite e Arthur Virgílio debateram sobre teto de gastos, emendas parlamentares e reeleição, entre outros temas, em evento promovido pelos jornais O GLOBO e Valor (Veja o vídeo, abaixo)

Bernardo Mello e Camila Zarur / O Globo

RIO — O debate entre candidatos das prévias do PSDB, realizado nesta terça-feira pelos jornais o GLOBO e Valor, teve alfinetadas diretas e veladas entre os três participantes: o governador de São Paulo, João Doria, o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. As críticas envolveram principalmente o apoio ao presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e a realização de reformas em âmbito estadual. Doria e Leite fizeram um mea-culpa sobre o apoio ao presidente no segundo turno.

No bloco inicial, Virgílio citou o voto declarado por Leite em Bolsonaro no segundo turno de 2018 e contestou que o governador não deveria ter se manifestado a favor do então candidato do PSL. Segundo Virgilio, se Leite achasse que venceria sem isso, "deveria ter desprezado esse apoio"; e, se pensasse que não venceria, "deveria ter perdido como um verdadeiro tucano".

Em sua resposta, Leite aproveitou para alfinetar Doria. O governador de São Paulo buscou associar seu nome a Bolsonaro já no primeiro turno da última eleição presidencial, e lançou no segundo turno o movimento "BolsoDoria".

— Eu no primeiro turno votei no Alckmin, ninguém tem dúvida de que votei nele. Fiz campanha junto, isso sim foi apoio, independentemente do que as pesquisas apontavam. Não vendo a alma para ganhar eleição a qualquer custo — disse Leite, que também citou o apoio de seu adversário naquela eleição, o então governador José Ivo Sartori (MDB), a Bolsonaro, mas de forma que também fazia referência velada a Doria.

Debate das prévias do PSDB para a eleição presidencial de 2022

 

Merval Pereira – Sem mortos e feridos; tucanos saem fortalecidos

O Globo

Salvaram-se todos no debate dos pré-candidatos do PSDB

Aparentemente, vai ser menos complicado do que se supunha garantir a unidade dos tucanos após as prévias para escolher o candidato do partido à Presidência da República. O que parecia estar caminhando para um confronto aberto sobre as regras da disputa, com o governador paulista João Doria se insurgindo contra possíveis manobras que lhe tirem o favoritismo dentro do PSDB, acabou refluindo, pelo menos neste primeiro momento, para um debate civilizado em que o partido mostrou que ainda tem fôlego para discutir os grandes temas nacionais sem grande divisões.

Os três pré-candidatos - o próprio Doria, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgilio - defenderam os pontos partidários básicos, como o equilíbrio fiscal e as privatizações, divergiram em pouca coisa, como quanto à reeleição, que também é uma marca do partido. Embora o próprio Fernando Henrique Cardoso já tenha admitido que foi um erro a implantação do sistema de reeleição.

Míriam Leitão – Em busca do resgate da própria identidade

O Globo

Debate mostra como as prévias fazem bem ao PSDB

O PSDB começou nesta terça-feira uma caminhada à procura de si mesmo. Os tucanos nasceram como o partido da social democracia, foram acusados pelos petistas de serem “neoliberais” e, na última eleição, dois dos três pré-candidatos votaram na extrema direita. Seus parlamentares oscilam entre o governo Bolsonaro e a oposição. A chance dessa pré-campanha é que, nos debates, os tucanos saiam da sua longa crise de identidade.

O que uniu os três pré-candidatos foi o que eles tinham a exibir de conquistas fiscais. Fizeram reformas, melhoraram as contas em Manaus, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. O governo gaúcho atrasava salário e hoje, com Eduardo Leite, paga em dia os servidores. São Paulo governado por João Doria, em época de crise econômica, ampliou arrecadação e investimentos. Economistas do PSDB fizeram a estabilização da economia. A Lei de Responsabilidade Fiscal tem o DNA tucano. Isso é um dos fundamentos do partido. Mas não o único.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

CPI pedirá indiciamento de Bolsonaro por 11 crimes

Valor Econômico

Nada acontecerá ao presidente se não obtiver o aval tácito do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do procurador-geral da Republica, Augusto Aras, que até hoje o tem protegido de problemas legais

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid no Senado encerra seus trabalhos traçando a história detalhada de como o governo de Jair Bolsonaro contribuiu para que mais de 603 mil pessoas morressem até agora vítimas do vírus. Boa parte da trajetória indecorosa de Bolsonaro durante a pandemia, por se desenrolar à luz do dia, já estava documentada e era conhecida. Ao fim de seis meses, a CPI mostrou detalhes escabrosos de ações que se desenrolavam longe da cena pública e revelou nomes de charlatões, oportunistas e corruptos que se abrigavam sob o letal negacionismo bolsonarista. O relatório da CPI deve ser lido hoje no Senado e votado na próxima semana.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O sertanejo falando

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

Música | Grupo feminino, Cuba: Divina Banda - "Yo no sé mañana"

 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Merval Pereira - A responsabilidade da CPI

O Globo

O senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, fez uma jogada política em benefício próprio ao liberar pontos importantes do que seria seu relatório final. Conseguiu ser o centro do grande assunto dos últimos dias a decisão de indiciar o presidente Bolsonaro por genocídio de indígenas e homicídio.

Outras decisões polêmicas como indiciar o ministro da Defesa, general Braga Netto, por sua atuação quando era chefe do Gabinete Civil, também causaram rebuliço entre seus pares. Por isso o presidente da Comissão, Omar Aziz, agiu certo ao retardar a divulgação do relatório oficial. Quer divulgar “o relatório da CPI, não o relatório do Renan”.

Os integrantes da CPI, principalmente os do grupo G7, senadores de oposição ou independentes que fazem a maioria do plenário, ficaram irritados com Renan porque temem que, além da questão política, o relator esteja indo além das suas pernas, querendo imputar a Bolsonaro crimes difíceis de apurar e de transformar em acusação de peso jurídico incontestável.

Deve-se criticar o governo pelo atraso das providências e pela falta de prioridade no atendimento aos indígenas, mas é incontestável que, depois de uma pressão da opinião pública, o governo Bolsonaro mandou auxílio e vacinas para os territórios, descaracterizando assim o genocídio indígena.

Também não se pode acusar que Bolsonaro teve intenção de matar, embora seja inqualificável a aposta numa “imunidade de rebanho” que até hoje seu filho Flávio defende em lugar da vacinação em massa. Bolsonaro foi culpado pela desorganização de seu governo no combate à pandemia e há suspeitas de que tenha atrasado a compra de vacinas aguardando a tal imunidade coletiva, que permitiria que a economia não parasse.

Carlos Andreazza - A República de Bolsonaro, Alcolumbre e Malafaia

O Globo

Afere-se o grau de degradação da República entre nós — infecção agravada sob o populismo de Bolsonaro — tomando o pulso do organismo capaz de produzir a baixaria em que rasteja a indicação de André Mendonça ao Supremo. Um caso em que todos os agentes, cada um em sua disfunção, têm posições e posturas equivocadas; todos, no entanto, certos uns sobre os outros.

Davi Alcolumbre, por exemplo. O símbolo de que mudança — renovação — não é qualidade per se. Ex-presidente do Senado, cargo a que foi eleito como representante do que seria a nova política — para derrotar Renan Calheiros, a velha. Aí está, o novo. Comanda hoje a Comissão de Constituição e Justiça daquela Casa legislativa, condição desde a qual, como um dono de repartição consciente dos próprios direitos, controla a agenda de sabatinas e não marca a de Mendonça — motivo por que tem sido atacado, acusado de chantagem, pelo bolsonarismo, ao que reagiu nos seguintes termos:

— Agridem minha religião, acusam-me de intolerância religiosa, atacam minha família, acusam-me de interesses pessoais fantasiosos. Querem transformar a legítima autonomia do presidente da CCJ em ato político e guerra religiosa.

Intolerância religiosa!

Chegou-se à altura do buraco, ainda muito a descer, em que as pelejas por uma cadeira em corte constitucional converteram-se em “guerra religiosa” — contribuição particular de Bolsonaro, com sua promessa de ministro “terrivelmente evangélico”, a essa vala. (Saudade do tempo em que, por um assento no STF, beijavam-se os pés de primeira-dama; sem precisar curvar o Planalto a um jim-jones da Penha.) Voltaremos a esse ponto.

Míriam Leitão - O Brasil é melhor do que o seu governo

O Globo

O empresário Guilherme Leal cita dois números que dão uma noção do que o Brasil deixa de ganhar na economia da floresta. “O mercado de produtos florestais atinge a casa de US$ 180 bilhões por ano e o Brasil tem apenas 0,5% dele”. O país se prepara para a reunião de Glasgow. A sociedade se organiza em alianças entre empresários, ambientalistas e especialistas de áreas diversas para ter uma presença forte na COP 26. Governadores amazônicos estavam reunidos ontem em Belém no Fórum Mundial de Bioeconomia. O governo federal errou muito em 2019 e agora dá alguns sinais de que mudará sua desastrosa posição. Um agente dessa mudança de posição é o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Todos os empresários com quem falei nos últimos dias afirmam que o Brasil tem que estar preparado para os debates. Esta reunião do clima é estratégica porque vai definir o Manual de Regras do artigo sexto do Acordo de Paris, que estrutura o mercado de carbono. Algumas pessoas no governo têm a noção da importância da reunião. No Banco Central eu ouvi o seguinte:

–O Brasil precisa chegar à COP com três coisas: plano de desmatamento com percentual factível de redução até zerar, o ‘race to zero’, e como pretende colocar as empresas nisso; um documento crível de mercado voluntário e metas de mercado obrigatório em dois ou três anos. Se chegar com isso, sairá com relativo sucesso.

Zuenir Ventura - Lições de Brasil

O Globo

Na semana passada, eu estava no pequeno grupo que teve o privilégio de assistir à histórica entrevista que o cineasta Zelito Viana fez em 1977 com Darcy Ribeiro e que já era considerada perdida. Ainda falta encontrar o áudio, mas a solução improvisada não podia ser melhor: a fala de Darcy, transcrita e ilustrada por imagens, foi dita pelo ator Marcos Palmeira com tal segurança que o texto parece ser do ator, não do antropólogo.

Ao terminar a projeção, o único comentário que consegui fazer foi que, aos 90 anos, não esperava aprender tanto sobre nossa história, sobretudo a que não está nos livros. No momento em que o complexo de vira-lata diagnosticado por Nelson Rodrigues está predominando no país, considerado pelo mundo um pária, Darcy ensina que devemos abandonar o servilismo e assumir o narcisismo. Ou melhor, “o darcisismo”: ser autoconfiante, orgulhoso, como ele mesmo, que gostava de se confundir com a pátria; ser sua encarnação e metáfora.

A entrevista que concedeu a Zelito é dividida em quatro partes: “Indianidade original, Babel, As Missões e A protocélula Brasil”. Quando for exibida na televisão, o que se espera, será apresentada numa série de quatro episódios. Aqui, cito apenas alguns trechos:

— Este país é tão extravagante que tudo é ao mesmo tempo. O Brasil não tem idades, não teve eras (...), o que existiu no passado continua aí. Está tudo aí. O índio, igualzinho ao que Cabral encontrou, está lá, no fundo da mata, pelado, com aquela mesma alegria de viver que é uma glória — alegria de comer, de beber, de cagar, de foder.

Luiz Carlos Azedo - CPI tropeça no sucesso

Correio Braziliense

O desentendimento entre o presidente da CPI e seu relator racha o chamado “grupo dos sete”, a maioria formada no âmbito da comissão, que garantiu seus trabalhos

O sucesso da CPI da Covid parece que subiu à cabeça dos seus principais integrantes, na reta final dos trabalhos. O desentendimento público entre o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), e o relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), às vésperas da apresentação de seu relatório final, não tem nenhuma explicação plausível, a não ser a fogueira das vaidades. Não se trata apenas do vazamento do teor do relatório, que supostamente indiciaria 51 pessoas, entre as quais o presidente Jair Bolsonaro, em 11 crimes, de responsabilidade a genocídio, além de seus filhos. Há divergências de conteúdo.

Aziz reclamou, com razão, de não ter tomado conhecimento do relatório a não ser pelos jornais e também ponderou que não seria prudente, para evitar a judicialização de sua aprovação, que fosse lido na terça-feira e aprovado no dia seguinte. “É do conhecimento do relator que tinha divergência em relação ao genocídio. Então, vazou esse relatório sem saber que a gente queria discutir essa questão”, afirmou. Aziz também contesta sugestões de indiciamento pelo crime de genocídio contra povos indígenas.

Ex-governador do Amazonas, Aziz conhece bem a questão indígena. O Amazonas é o estado que mais possui etnias no país. “Todos os índios tiveram, sem exceção, duas doses (de vacina)”, argumenta. Um relatório paralelo divulgado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) corrobora o entendimento do presidente da comissão. Delegado de polícia civil, o parlamentar sergipano avalia que só existem provas robustas para indiciar o presidente Bolsonaro em crime de responsabilidade (art. 7º, número 9, da Lei 1.079/50); crime de epidemia (art. 267 do Código Penal); infração de medida sanitária preventiva (art. 268 do Código Penal); incitação ao crime (art. 286 do Código Penal); e crime contra a humanidade (art. 7º do Estatuto de Roma).

Andrea Jubé - “Não tem bala de prata para a economia”

Valor Econômico

O candidato da terceira via é Jair Bolsonaro, diz Moura

Fundador do instituto Ideia Big Data, o economista e consultor político Maurício Moura é um visionário: em 2018, foi o primeiro a afirmar que o até então subestimado Jair Bolsonaro poderia vencer a eleição presidencial. Oito meses antes do pleito, declarou ao “El País”: “Bolsonaro é favorito para levar em um eventual segundo turno se for contra o PT”.

Atento à conjuntura internacional, Moura já havia detectado no fim de 2017 que o Brasil era ambiente propenso à proliferação dos “outsiders”, políticos que se autoproclamavam “antissistema”. Bolsonaro surfou na onda da indignação provocada pela Operação Lava-Jato e ainda farejou a segurança pública como agenda prioritária.

 “Era mais simples fazer a leitura do cenário [naquele ano]”, reconhece o consultor, que também é professor da Universidade George Washington. Agora, a um ano do pleito, diz que a conjuntura ainda está nebulosa, mas enxerga o PT irremediavelmente no segundo turno, como ocorre desde 1989 - com exceção de 1994 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu na primeira rodada.

Assim como em 2018, Maurício Moura abre nova dissidência nas análises eleitorais para afirmar que o verdadeiro representante da “terceira via” é Jair Bolsonaro e não o nome em gestação pela coalizão de partidos de centro-direita.

“Ele é o ponto fora da curva”, justifica. Se não recuperar uma boa parcela do eleitorado, não chegará ao segundo turno contra o PT. Segundo o professor, desde 1989, o eleitor depara-se com esta pergunta: “quero o PT governando o país?”

Pedro Cafardo - Liberais x progressistas, um embate para 2022

Valor Econômico

Teto de gastos, reforma tributária e controle de gastos são temas sensíveis que candidatos terão que olhar com mais atenção

Vem aí o ano eleitoral, quando os brasileiros escolherão o novo presidente da República. Seria muito bom se os eleitores, além de nomes, escolhessem programas. Então, os pré-candidatos e suas equipes precisam começar a discutir e apresentar propostas.

Três temas básicos na área da economia exigirão definições claras dos candidatos: teto de gastos, reforma tributária e controle de capitais. Em resumo, trata-se de uma escolha entre a continuidade da política neoliberal atual na economia ou a aposta em novas políticas progressistas adotadas após o tropeço global do neoliberalismo e as mudanças determinadas pela emergência ambiental.

Teto de gastos

Teto de gastos: o candidato pretende mantê-lo ou eliminá-lo? Aprovada em 2016, no governo Michel Temer, essa regra fiscal foi aclamada como a salvação da pátria. Nunca mais os governos abusariam da gastança, dizia-se, a menos que descumprissem a norma constitucional que, na prática, congelou as despesas do governo em termos reais durante 20 anos.

Críticas eram escassas na época, porque o discurso fiscalista dominava o cenário. Mas alguns se lembraram da adoção da correção monetária, durante a ditadura militar, vendida então como a solução mágica brasileira para acabar com a inflação. Argumentava-se que, se tudo fosse corrigido com base na inflação passada, não haveria mais razão para o aumento de preços. “Deu ruim”, diriam hoje os jovens. A hiperinflação quebrou o país.

Hélio Schwartsman - Um país pouco sério

Folha de S. Paulo

Não é preciso mais que uma rápida olhadela em notícias recentes do Brasil para provar a frase

 “Não é um país sério”. A frase, cujo sujeito é o Brasil, teria sido dita por Charles de Gaulle. Só que ele nunca a proferiu. A “fake news” diz respeito apenas à autoria, porque, no conteúdo, não vejo como discordar da conclusão de que o Brasil não é sério. E não é preciso mais que uma rápida olhadela em notícias recentes para prová-lo.

O caso mais gritante é o de Jair Bolsonaro. A CPI levantou farta documentação de que suas ações e omissões resultaram em dezenas (talvez centenas) de milhares de mortes evitáveis. Ele também se pôs em repetidos flagrantes de democraticídio, que culminaram no 7 de Setembro. Não obstante, nem o Congresso nem a Procuradoria-Geral da República mexem uma palha para removê-lo do cargo, como ocorreria num país sério.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro, o tiozão da ralé

Folha de S. Paulo

Campanha da reeleição será feita em serviço de mensagens fora da lei e sem moderação de conteúdo

Em 2016, durante a corrida eleitoral entre Hillary Clinton e Donald Trump nos EUA, o Facebook registrou uma avalanche de mentiras em que um lado se empenhava em demonizar o outro. Os sites de notícias falsas forneceram todo tipo de baixaria que o público costuma consumir avidamente. Por exemplo: sem que ninguém soubesse Hillary estaria em coma; seu marido, Bill Clinton, tivera um filho fora do casamento.

A empresa tentou resolver o problema introduzindo uma mudança de algoritmo, a qual fazia com que o conteúdo de parentes e amigos prevalecesse. Só que, ao priorizar estes, o Facebook solapou os sites de notícias confiáveis. Os usuários deixaram de ver em destaque as postagens de jornais. E continuaram a ver as notícias falsas e as de viés político-partidário postadas por amigos e familiares. Foi o embrião do “tio do zap”.

Joel Pinheiro da Fonseca - O legado da CPI da Covid

Folha de S. Paulo

Comissão teve elementos de circo político, mas tornou públicos crimes sérios em duas frentes principais

Como toda CPI, a CPI da Covid —que discute agora seu relatório final— teve um grande elemento de circo político, servindo de palanque para opositores do governo fazerem seus discursos, marcarem posição, aparecerem para a opinião pública, ostentarem sua indignação ou compaixão para com as vítimas.

Esse espetáculo midiático não trouxe informações relevantes para a investigação. É preciso dizer que ter Renan Calheiros como relator apenas realçou esse aspecto e prejudicou a credibilidade dos trabalhos.

Há também, felizmente, o outro lado da CPI: a investigação de possíveis crimes levada adiante por senadores que fizeram a lição de casa (como Alessandro Vieira e Simone Tebet). Graças a eles, a CPI tornou públicos crimes sérios em duas frentes principais.

A primeira foi a corrupção. Foi graças à CPI que um contrato espúrio, eivado de propina, negociado por membros do Ministério da Saúde com os personagens mais suspeitos e desqualificados, foi identificado e cancelado, economizando cerca de R$ 1,6 bilhão aos cofres públicos.

Eliane Cantanhêde – União e Responsabilidade

O Estado de S. Paulo

Aconteceu o que não poderia acontecer: a CPI da Covid rachou exatamente no seu momento mais importante, quando todas as energias deveriam estar voltadas para um relatório final impecável, sem brechas para contestações e nulidades, e para os desdobramentos políticos e jurídicos de um trabalho que tem sido excepcional.

Senadores da CPI reclamam do “vazamento” das mais de 1.500 páginas do relatório na estreia do novo formato do Estadão. Uma reclamação sem sentido. Foi um notável furo de reportagem, totalmente dentro das regras entre fontes de informação e jornalistas que disputam notícias em primeira mão. É assim em todo o mundo democrático e foi assim em todas as CPIS no Brasil.

Os demais motivos são mais complexos, de conteúdo, com muitos debates e rusgas na CPI: a tipificação de “genocídio” contra indígenas; a inclusão dos três filhos políticos do presidente Jair Bolsonaro, senador Flávio, deputado Eduardo e vereador Carlos, sem que tenham sido ouvidos; o agravamento do crime atribuído ao próprio Bolsonaro.

Doria, Leite e Virgílio fazem hoje 1º debate de prévias tucanas com transmissão ao vivo

Governador de São Paulo, do Rio Grande do Sul e ex-prefeito de Manaus participam do evento promovido pelos jornais O GLOBO e Valor

O Globo

RIO — Os jornais O Globo e Valor promovem nesta terça, a partir das 11h, o debate presencial entre os pré-candidatos do PSDB à Presidência. Os três tucanos na disputa — o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite e o governador de São Paulo João Doria — confirmaram a participação.

O debate será mediado pela colunista do GLOBO Vera Magalhães, com duração de aproximadamente duas horas. O objetivo é fazer com que os pré-candidatos apresentem as propostas para as questões mais relevantes do país.

O encontro vai ocorrer no auditório da sede da Editora Globo no Centro do Rio, e terá transmissão ao vivo nos sites dos dois jornais, no Facebook e YouTube do GLOBO, e nas páginas do Facebook, Linkedin e YouTube do Valor, além de cobertura em tempo real.

O primeiro bloco vai funcionar no formato de debate direto, em que os pré-candidatos se alternam em duas rodadas de perguntas e respostas. A ordem será definida por sorteio. Os tempos serão de 30 segundos para pergunta, dois minutos para resposta, um minuto para réplica e um minuto para tréplica. O tema é livre, e cada um perguntará e responderá duas vezes. 

Prévias se acirram, e Doria e Leite disputam apoio até fora do PSDB

Além dos filiados, governadores de SP e RS têm conversado com empresários e com lideranças de outros partidos

Pedro Venceslau / O Estado de S. Paulo

Ao mesmo tempo em que buscam os votos dos filiados tucanos nas prévias do PSDB, os governadores Eduardo Leite (RS) e João Doria (SP) mantêm articulações políticas além dos limites partidários. Neste caso, a disputa é sobre quem está mais bem posicionado para liderar uma terceira via em 2022. Os adversários têm dividido a agenda entre os partidários e encontros com empresários e lideranças de outras legendas. 

O gaúcho investe no apoio do ex-ministro Gilberto Kassab, presidente do PSD, e de ACM Neto – que está à frente do processo de fusão das legendas e criação do União Brasil. O entorno de Leite age para aproximá-lo do apresentador José Luiz Datena (PSL) e de representantes do empresariado paulista. 

Doria, por sua vez, mantém linha direta com o ex-ministro Sérgio Moro, estreitou a relação com o MDB e outros partidos de sua base no Estado – como Solidariedade, PL, PV e Avante – e comemorou o apoio explícito do presidente da Itaúsa, Alfredo Setubal

Com agendas cada vez mais frequentes em São Paulo, Eduardo Leite participou de um jantar no domingo com cerca de cem convidados na capital paulista. Entre os presentes no evento, que foi organizado pelo grupo Esfera Brasil, estavam empresários próximos a Doria desde os tempos que ele presidia o Grupo de Líderes Empresariais (Lide), como Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, e Claudio Lottenberg, do conselho do Albert Einstein.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É um abuso acusar Bolsonaro de genocídio

O Globo

É compreensível o interesse político do senador Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, em associar a palavra “genocídio” ao presidente Jair Bolsonaro. Ao tentar incluir o “genocídio de indígenas” entre os 11 tipos de crime que pretende atribuir a Bolsonaro em seu relatório, Renan faz eco ao grito que tomou conta das manifestações antibolsonaristas e desfralda uma bandeira que todos os adversários do presidente empunharão na campanha eleitoral de 2022. Mas está errado.

Palavras não são inócuas — e “genocídio” é uma daquelas que devem ser usadas com a maior parcimônia, sob pena de banalizar o mais hediondo dos crimes. Genocídio não é sinônimo de extermínio em massa. Todas as definições do crime — a da convenção das Nações Unidas sobre genocídio, subscrita pelo Brasil em dezembro de 1948, a da lei 2.889 de outubro de 1956 e a do artigo 6º do Estatuto de Roma que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI) — o caracterizam como uma série de atos cometidos “com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”.

O termo foi cunhado pelo jurista Raphael Lemkin em 1944 para descrever o crime cometido pelos nazistas contra judeus e outras minorias enquanto grupos. Distinguia-se dos crimes contra a humanidade, que descreviam atrocidades cometidas contra os indivíduos (como tortura, escravidão, deportação, violência sexual etc.). Lemkin, que perdera 49 familiares no Holocausto, acreditava que aquele não era um evento único. Os armênios haviam passado por tragédia semelhante, e a legislação precisava ter instrumentos para evitar que os mesmos horrores se repetissem com outros grupos.

Poesia | Bertolt Brecht - Quem não sabe de ajuda

Como pode a voz que vem das casas

Ser a da justiça

Se os pátios estão desabrigados?

Como pode não ser um embusteiro aquele que ensina os famintos outras coisas

Que não a maneira de abolir a fome?

Quem não dá o pão ao faminto

Quer a violência

Quem na canoa não tem

Lugar para os que se afogam

Não tem compaixão.

Quem não sabe de ajuda

Que cale.

Música | Zeca Pagodinho - Naquela Mesa (Sérgio Bittencourt)

 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Fernando Gabeira - Absorvente e as regras do jogo

O Globo

É um tema que trata de uma questão íntima, mas se tornou um grande debate político: a distribuição gratuita de absorventes para estudantes pobres, presidiárias, mulheres em situação de rua. O projeto é de autoria da deputada Marília Arraes (PT-PE) e foi vetado por Bolsonaro.

Desde a década de 1960, alguns homens, como eu, foram alertados sobre a importância da menstruação na psicologia feminina. A aparição do livro de Simone de Beauvoir “O segundo sexo” nos despertou para essa e outras importantes realidades da vida da mulher. Lembro-me de sua célebre frase: é difícil sentir-se uma princesa com um pano ensanguentado entre as pernas.

O projeto aprovado na Câmara não se limita apenas ao marco psicológico da menstruação, mas também a sua dimensão social e econômica: milhares de estudantes pobres deixam de ir à escola por falta de absorventes adequados.

De uma certa maneira, o tema já foi discutido na administração de Fernando Haddad em São Paulo e no próprio governo Dilma. Não prosperou. Com o avanço da presença feminina na Câmara, foi possível aprovar o projeto, mas não está havendo, acho eu, o debate necessário com Bolsonaro.