domingo, 22 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Raiz do juro alto está nas amarras orçamentárias

Por O Globo

Indexação ao mínimo e vinculação obrigatória de despesas à receita respondem por 40% da alta na dívida

De equívoco em equívoco, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá representado, ao fim de 2026, uma alta de 10% na dívida pública, para acima de 80% do PIB. Desse aumento, cerca de 40% — ou R$ 518 bilhões — se devem exclusivamente à indexação de benefícios previdenciários e programas sociais ao salário mínimo e à vinculação orçamentária obrigatória de gastos em saúde e educação, de acordo com cálculos do economista Samuel Pessôa. Tal expansão da despesa é o motivo para a taxa de juros brasileira estar entre as mais altas do mundo. Num país célebre pela carga tributária infame, o governo Lula, com o beneplácito do Congresso, apostou no aumento dos impostos para cobrir a despesa. Essa toada é o caminho para o caos. Se a campanha eleitoral permitir algum debate relevante, esse é um tema inescapável.

A democracia desafiada. Recompor a política para um futuro incerto, por Marco Aurélio Nogueira.

Rio de Janeiro, Ateliê de Humanidades, 2023.

INTRODUÇÃO

O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente, que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio. Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.

No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.

O ‘hegemon’ que não sabe recuar, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora

Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha.

Tão longe, tão perto, duração da guerra do Irã pode decidir eleições no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo, embora concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã

Neste ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de “terceira via”. Ou seja, para se reeleger, o presidente Luís Inácio Lula da Silva precisa ficar esperto, o tempo fechou.

Trauma, por Dorrit Harazim

 

O Globo

Na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, apenas três países condenaram os EUA e Israel pelo ataque: Rússia, China e Somália

A guerra no Oriente Médio arde. Ao iniciar sua quarta semana de combustão, pode dar a impressão de ter expansão errática, moto próprio e embaralhar nossa percepção de quem é o agressor, quem é o agredido. Em benefício dos fatos concretos, convém eliminar qualquer manipulação ideológica: foram os Estados Unidos e Israel que escolheram atacar o Irã dos aiatolás, ponto. As consequências históricas decorrentes dessa opção deverão ser cobradas de seus respectivos líderes, Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Importa pouco se o ocupante da Casa Branca foi ou não arrastado por “Bibi” para deslanchar a ofensiva — Trump abraçou a aventura com doses iguais de “fúria épica” (nome da operação) e leviandade. A jornalista e historiadora Anne Applebaum acerta quando escreve na revista The Atlantic que o 47º presidente americano simplesmente não sabe pensar — nem estratégica, nem histórica, geográfica ou racionalmente.

Travessia estreita entre dois fogos, por Míriam Leitão

O Globo

Haddad deixa legado da reforma tributária. Viveu entre o fogo amigo e as críticas da direita. Aumentou impostos? Sim, sobre os muito ricos

A conquista mais importante da gestão Fernando Haddad no Ministério da Fazenda é a reforma tributária, que será mais valorizada no futuro. Foi relevante também a agenda de justiça tributária, pela qual ele aumentou impostos sobre contribuintes de maior renda que estavam subtributados. Alguém pode dizer que não foi justo cobrar dos fundos exclusivos e offshore — investimentos dos super-ricos — o mesmo tributo pago pela classe média? Outro mérito de Haddad foi acolher na Fazenda a pauta ambiental e climática. O balanço de sua gestão tem mais acertos do que erros, mas para executar seu plano no ministério teve que vencer críticas da direita e muita oposição em seu próprio partido. Haddad viveu entre dois fogos.

Uma CPI que perdeu o rumo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Comissão Parlamentar de Inquérito deve terminar sem resposta para aposentados

A CPI do INSS deve chegar ao fim nesta semana. Criada para investigar fraudes contra aposentados, foi capturada pela disputa eleitoral e perdeu o rumo na tentativa de pegar carona em outro escândalo.

A comissão foi instalada após a descoberta do esquema que afanou idosos com descontos indevidos. Segundo a Controladoria-Geral da União, os desvios somaram R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, do início da gestão de Jair Bolsonaro à metade do atual mandato de Lula.

Briga intestina no STF, Por Merval Pereira

O Globo

Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato

A divergência aberta entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o decano da instituição, e André Mendonça, o relator do caso do Banco Master, é a evidência de que a crise de legitimidade que atinge o Supremo não se resolverá tão cedo, muito menos agora, quando os dois ministros se manifestaram publicamente sobre teses conceituais, um fustigando o outro. O ministro André Mendonça, já colocado na mídia como o novo guardião da moralidade jurídica, mandou seu recado em evento da OAB do Rio, afirmando, entre outras coisas, que não cabe ao juiz “ser uma estrela”, mas simplesmente agir de maneira certa, e julgar dentro do que é certo.

Vorcaro quer pautar a delação, por Elio Gaspari

O Globo

Banqueiro tenta se colocar no papel principal das tratativas com a PF; sugestão de que não pretende envolver o STF ignora o princípio de que delações não são para fazer amizades

Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que ele fez com o banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do espetáculo.

Quando estava solto e tentava ser recebido pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”.

Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.

Pontos e contrapontos de Gilmar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Gilmar erra ao embolar voto por clamor popular com espuma midiática e linchamentos morais

Gilmar Mendes embola o jogo e usa da velha regra de que tudo tem dois lados ou, neste caso, das investigações do Master, dois tipos de posicionamento e ação: um atende ao “clamor popular” para avançar e ganhar aplausos; outro, que ele defende, investiga, toma decisões e pretende julgar ao final com base em fatos objetivos, não jogando para a plateia.

Os erros de cálculo de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os governos de Irã e EUA cometeram sérios erros de cálculo – o primeiro, no que diz respeito à deterrência; o segundo, às consequências políticas e econômicas da guerra. Agora, ambos precisam de tempo para recolocar a guerra na direção de seus objetivos.

Depois que Donald Trump rompeu o acordo nuclear em 2018, o governo do presidente Ebrahim Raisi, um nacionalista morto em acidente de helicóptero em 2024, alardeou avanços no enriquecimento do urânio para o patamar de 60%. O objetivo era mostrar que o rompimento fora um erro e incentivar os EUA de Joe Biden a voltar à mesa de negociações.

As recaídas de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Petista deveria dar mais atenção ao BC e aproveitar a inflação razoavelmente contida e as condições favoráveis do emprego e da produção

O inferno são os outros, escreveu Sartre no final da peça Entre Quatro Paredes. Lula transformou essa frase – ou alguma equivalente – em explicação mágica para todos os seus problemas e especialmente, é claro, para os problemas dos brasileiros. Segundo o presidente, o combustível ficou mais caro no Brasil por causa de “pessoas que não prestam” e “tiram proveito da desgraça”. Ele também reclamou, mais uma vez, da política monetária, depois do corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros. “Acordei triste hoje porque esperava que o Banco Central abaixasse em 0,5% os juros. Essa guerra chegou até no Banco Central? Não é possível, estamos no sacrifício”, disse ele, aparentemente sem acreditar nos efeitos internacionais da guerra no Oriente Médio. Na mesma noite, apresentadores de tevê, sem exibir descrença e também sem cuidar de moralidade, noticiaram impactos da guerra em bolsas de valores.

Alta do diesel é das maiores do século, há pânicos na finança e nos governos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preço do combustível dá salto raro no Brasil; bancões preveem mais inflação no planeta

Juros sobem pelo mundo e pulam por aqui; parte do efeito da guerra está garantido

Em fevereiro, logo antes da guerra, o preço médio do diesel estava quase tão caro quanto no mês que antecedeu o caminhonaço de maio de 2018, greve de caminhoneiros, bloqueio de estradas e locautes que pararam o país. Neste março de guerra e de início de pânicos econômicos, o combustível ficou mais caro do que no paradão de 2018 —mesmo com dados preliminares, já é possível dizê-lo.

Chapa Valdemoro tem golpe de Estado, Banco Master e Moro tentando boquinha, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aliança eleitoral no Paraná é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional

Todo mundo erra, a política exige alianças desconfortáveis, mas chega uma hora que não dá mais

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou seu apoio à candidatura de Sergio Moro ao Governo do Paraná. Moro, por sua vez, declarou sua adesão ao PL de Valdemar Costa Neto, Jair e Flávio Bolsonaro. O candidato do PL do Paraná ao Senado será Filipe Barros.

A chapa Valdemoro Costa Neto é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional. É uma síntese de Banco Master com golpe de Estado e Sergio Moro tentando arrumar boquinha.

Relutância é entrave para Haddad, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Uma das condições essenciais a um candidato é transmitir do eleitor entusiasmo pelo cargo que disputa

Não foi o que exibiu o petista durante meses, ao afirmar que preferia chefiar a campanha de Lula ou sair de cena

Um dos pré-requisitos essenciais ao candidato a cargo eletivo é a capacidade de transmitir ao eleitorado entusiasmo pela função que pretende conquistar. Presidente precisa demonstrar gosto em comandar a nação, governador em administrar o estado e prefeito em gerir a cidade.

O bom aviso da transparência, por Muniz Sodré

 

Folha de S. Paulo

Foi-se o pensador alemão Habermas mas, muito antes, já havia morrido sua ideia de democracia deliberativa

O tempo trumpista não é de razão, mas de canhões e tentativas de trocas de comando em terras alheias

Foi-se o pensador alemão Jürgen Habermas. Muito antes do fato, já havia morrido a sua ideia utópica de democracia deliberativa, sustentada por uma esfera pública onde cidadãos discutiriam racionalmente assuntos de interesse comum. Igualmente, desaparecido o seu anseio de um federalismo soberano da União Europeia. A razão cultuada pelo filósofo não resiste ao digitalismo da internet e das redes sociais, apropriado por empresas neoliberais cujo único interesse é a compressão do espaço-tempo para acelerar transações de mercado. A transparência comunicativa por ele teorizada submergiu em algoritmos e plataformas privadas, dispositivos de pura mobilização emocional.

Poesia | Os Estatutos do homem - Thiago de Mello

 

Música | Sidney Miller & Nara Leão - A estrada e o violeiro

 

sábado, 21 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula e Alcolumbre têm de acelerar sabatina de Messias

Por O Globo

Presidente precisa enviar mensagem oficial, e inquirição deve ser logo. STF não pode ficar com ministro a menos

Não é razoável o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuar procrastinando a formalização da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, à vaga aberta em outubro pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). Logo em novembro, Lula anunciou que seu escolhido era Messias. O indicado se disse “honrado”, e tudo parecia seguir o rito habitual. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para 10 de dezembro, prazo que não daria a Messias tempo de se apresentar aos senadores. Em seguida desentendimentos emperraram o andamento. O governo, receoso de não contar com os 41 votos necessários para a aprovação, segurou o envio da mensagem presidencial ao Senado com o nome de Messias — e Alcolumbre cancelou a sabatina. Desde então, o Supremo tem funcionado com apenas dez ministros.

A queda de confiança no Supremo, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Corte está tendo dificuldade para se defender das ameaças internas

Crise não se limita à erosão reputacional dos envolvidos ou da instituição

Temos assistido a um acentuado declínio na confiança da população no Supremo Tribunal Federal, como demonstra a recente pesquisa publicada pelo Datafolha.

Parte dessa desconfiança decorre de um ambiente altamente polarizado, mas sobretudo de eleitores mais conservadores indignados com a postura assumida pelo Supremo no julgamento dos que atentaram contra a democracia. Há, porém, um crescente mal-estar entre aqueles que apoiaram o Supremo naquele episódio. Esse crescente mal-estar está diretamente associado ao comportamento incompatível com as exigências do cargo por parte de alguns ministros.

Bolsonaro foi de ex-atleta imorrível a idoso frágil, por Hélio Schwartsman

Por Folha de S. Paulo

Mortalidade um ano após pneumonia aspirativa chega a 49%

Domiciliar se justifica, mas teria de valer para todos os presos com doença grave

Se você se frustrou (ou ficou feliz) com a recuperação de Jair Bolsonaro, saiba que a situação ainda está longe de resolvida. Os números falam por si. Um estudo sul-coreano de 2019 com 550 pacientes de pneumonia aspirativa, a moléstia que levou o ex-presidente à UTI, mostra que a mortalidade um ano após o evento atinge 49% e vai a 76,9% após cinco anos.

Cláudio Castro teme ser descartado pelo filho 01, por Alvaro Costa e Silva

Por Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro quer evitar que a sujeira na segurança pública do Rio respingue na campanha

No julgamento do TSE, governador depende dos votos de Kássio Nunes e André Mendonça

Cláudio Castro é acusado de gastar R$ 1 bilhão de recursos obtidos com a privatização da companhia de água e esgoto –privatização aprovada com o objetivo de tirar o Rio de Janeiro da falência– para a compra de cabos eleitorais na campanha da reeleição em 2022.

A investigação do Ministério Público aponta abuso de poder econômico, com saques na boca do caixa feitos por funcionários fantasmas. Após pedido de vista do ministro Nunes Marques, o caso volta ao Tribunal Superior Eleitoral na terça-feira (24). No placar, dois votos pela cassação e a declaração de inelegibilidade do governador.

O Brasil deseja a paz, mas está despreparado para a guerra, por Roberto Amaral*

“Não podemos confiar no fato de que, por sermos um país pacífico ninguém vai nos atacar” - Celso Amorim (Carta Capital, 19/02/2026)

Maior país da América do Sul, com território de 8.510 km², partilhando fronteira com dez países, quinta maior população do mundo (215 milhões de habitantes), 80% urbana, 50% metropolitana, uma costa de 7.401 km (8.500 km se considerarmos as baías e suas reentrâncias), décima economia do planeta, o Brasil é, no entanto, incapaz de se proteger da cobiça internacional. 

Em um mundo em guerra, apresenta-se indefeso, apesar de sua posição estratégica no hemisfério. Indefeso quando é a maior costa do Atlântico Sul, largo corredor de rotas comerciais que levam  ao continente africano. Somos país e território militarmente indefeso, apesar de sermos um dos maiores produtores de alimentos de um mundo que conhece a fome. Ainda indefeso apesar da posse de recursos minerais estratégicos, entre os quais a segunda ou terceira reserva mundial de terras raras, cobiçada por todas as potências guerreiras, a começar, evidentemente, pelos EUA. Chama-se “terras raras” o conjunto de 17 elementos químicos, base de toda a moderna tecnologia, inclusive militar; delas carecem desde reatores de submarinos nucleares a baterias para veículos elétricos. Nosso país é indefeso porque ignora seu destino: sem projeto de ser, sem projeto de nação, sem projeto de país — o trágico mal de origem.

Depois das bets, agora tudo é aposta, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Os ‘prediction markets’ criam incentivos para a ocorrência de eventos negativos

O mercado de apostas no Brasil e em outros países tem crescido sistematicamente. Dados recentes mostram que estamos entre os maiores mercados globais das bets, com um volume de apostas entre R$ 120 bilhões e R$ 150 bilhões anuais. Nos Estados Unidos, as apostas digitais movimentaram US$ 167 bilhões em 2025. Algo que fere a racionalidade, porque todos os dados mostram de forma consistente que em torno de 95% dos apostadores perdem dinheiro. Não se trata de jogo de azar, os números sorteados não são aleatórios, mas estruturais, sendo as chances ajustadas e a margem das casas de apostas garantidas.

O escudo Gilmar, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O acordo sério que se urde não é o de delação. É o de empastelamento. Para que nunca saibamos o que se comprou quando comprada aquela parte do hotel. Para que nunca saibamos o que se contratou quando contratado aquele escritório de advocacia. (Ou aquela consultoria.) Para que nunca saibamos do que tratavam quando tratavam sobre bloquear algo.

Esqueceram a Brigitte Bardot, por Eduardo Affonso

O Globo

Ela fez mais pelo cinema do que faria uma atriz. Foi um ícone, quando a palavra ainda queria dizer alguma coisa

Bastava uma consulta à IA — ou, como faziam os antigos millennials, ao Google: “Personalidades do cinema mundial que morreram em 2025”. Em segundos, a lista estaria na tela. Completa. Incluindo diretores malianos e malaios, designers de som e de produção.

Seria enorme, claro — morrem muito mais celebridades do que nascem; não sei como elas ainda não se extinguiram. E haveria que separar quem entraria como camarote, no vídeo exibido durante a cerimônia de entrega do Oscar, e quem teria de se conformar a ir de pipoca, só no site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Brigitte Bardot, acredite, ficou no segundo escalão.

O fator Ratinho, por Thaís Oyama

O Globo

Com paranaense na eleição, a demanda eleitoral encontrará uma nova oferta na política

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, deverá anunciar o governador do Paraná, Ratinho Jr., pré-candidato do partido à Presidência na semana que vem. Trata-se de uma má notícia para Flávio Bolsonaro, que bem buscou evitá-la ao convidar o paranaense para ser seu vice.

Malograda a tentativa, Flávio, que sonhava com um aliado, acabou ganhando um concorrente e, com ele, o dilema clássico que costuma se abater sobre os favoritos para chegar ao segundo turno. Não pode permitir que Ratinho Jr. cresça a ponto de ameaçar a sua posição nas pesquisas, mas tampouco pode hostilizá-lo de modo a provocar uma reação na mesma intensidade que arrisque fragilizar sua candidatura — agora e no futuro.

Ratinho será candidato do PSD, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

As expectativas são grandes em torno do candidato do PSD, que tem 44 anos, dois mandatos de governador no Paraná muito bem avaliados pela população e carrega ideias novas para a política e administração brasileiras. É o fato novo no cenário nacional

Carlos Massa, o Ratinho Júnior, será o candidato do PSD à Presidência da República. Há duas semanas, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, reuniu, em discreto restaurante na cidade de São Paulo, os três possíveis candidatos do partido e alguns dos principais consultores para organizar a participação da legenda nas próximas eleições presidenciais. O objetivo do encontro foi destacar a necessidade de manter a unidade partidária e evitar o surgimento de eventual dissidência. O exemplo utilizado para manter a unidade foi o de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Os dois disputavam, dentro do mesmo partido, a Presidência da República. Tancredo Neves chegou lá e ganhou inteiro apoio de Ulysses, apoio verdadeiro, profundo, sem mágoas. 

Carmen Lúcia e a esperança às mulheres, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano

É difícil para uma mulher bem informada se manter confiante e esperançosa nos tempos que vivemos. As razões são múltiplas, e cito algumas só para ilustrar o quão grave é o nosso problema. Falo da evidência cotidiana da violência generalizada que vitimiza tantas mulheres; da deficiência do Estado em proteger e promover mudanças estruturais; do déficit de representação política que dificulta uma transformação mais profunda da sociedade; do empobrecimento econômico que atua como obstáculo substancial para a autonomia e desenvolvimento feminino.

Calmaria antes da tempestade, por Murillo de Aragão

Veja

Os escândalos podem se transformar num incêndio institucional

O clima político é de calmaria tensa, entremeada por rumores, boatos e suposições que atiçam a curiosidade dos observadores da política nacional. Brasília é hoje uma espécie de parque temático de escândalos. São eles: a questão do INSS e o roubo dos aposentados, as investigações — que alcançam dezenas de parlamentares — sobre desvios na execução de emendas orçamentárias e o indefectível e profundo escândalo do Banco Master, que ainda tem como subtema a potencial intervenção ou federalização do banco estatal de Brasília.

Faroeste político, por José Casado

Veja

Orçamento secreto tem até ameaça de morte em disputa de propina: ‘Bala na cara!’

Dois deputados federais e um suplente condenados por unanimidade a mais de cinco anos de cadeia por corrupção no repasse de verbas do Orçamento a prefeituras, via emendas parlamentares. E, também, uma deputada algemada à tornozeleira eletrônica, acusada de ladroar aposentados e pensionistas do INSS. Assim terminou o verão na Câmara dos Deputados.

Vai ter mais nas próximas estações, à margem do calendário eleitoral. Há “dezenas” de políticos, nas palavras do juiz Flávio Dino, na fila de inquéritos e ações penais para julgamento no Supremo Tribunal Federal, sob suspeita de desvio bilionário de verbas públicas.

Estratégias de desenvolvimento, pobreza e desigualdade, por Marcus Pestana

Há razoável consenso sobre ser a melhoria do padrão e da qualidade de vida da população o objetivo final das políticas públicas. No entanto, os caminhos e as estratégias para atingi-lo não são pacíficos. Há diversas concepções sobre o papel do Estado e o modelo de desenvolvimento a perseguir.

 Fato é que, em 1980, o Brasil estava entre os 50 países de maior renda per capita, e hoje estamos em 87º. lugar, a nove posições da metade mais pobre do mundo.  Fomos ultrapassados, em 45 anos, por Coréia do Sul, China, Chile e Uruguai, entre outros. Por que escolher como marco o ano de 1980? Foi aí que se esgotou o ciclo de industrialização e urbanização, iniciado em 1930 e acentuado após a 2ª. Grande Guerra, e sucessivas crises inflacionárias e de Balanço de Pagamentos se abateram sobre o País, superadas pelo Plano Real (1994) e pelo boom das comodities (2003/2010).

O paradoxo do STF, Cláudio Couto

CartaCapital

O mesmo tribunal tão fundamental para defender a democracia agora semeia condições para que ela seja solapada

E indubitável que o Supremo Tribunal Federal foi crucial na defesa da democracia durante o governo de Jair Bolsonaro e depois dele. No primeiro período, foi bastião de resistência a ataques perpetrados contra o regime democrático, o Estado de Direito e a ordem federativa. Isso ficou claro no combate à disseminação de desinformação (fake news), na investigação sobre os atos antidemocráticos e na atuação durante a pandemia. Associado à Corte Suprema, à qual se sobrepõe, o Tribunal Superior Eleitoral zelou pela integridade das eleições e pela defesa do voto.

Flávio Dino, o republicano, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

O ministro enfrenta os privilégios no Judiciário e a farra das emendas

As notícias sobre supersalários, penduricalhos, privilégios e abusos de juízes fazem lembrar o diálogo entre Alexandre, o Grande e o pirata Diomedes, relatado por Plutarco e disseminado por Santo Agostinho e pelo Padre Antônio Vieira. Em um ponto da conversa, Alexandre questiona o capturado pirata da seguinte forma: “Quem te dá o direito de navegar pelos mares, tomando à força coisas que não lhe pertencem?” Ao que o pirata responde: “Com o mesmo direito que tu tens de molestar o mundo inteiro. Eu tenho apenas um pequeno barco e por isso sou chamado de ladrão. Tu tens uma grande armada, e por isso és chamado de imperador”.

A hermenêutica do ornitorrinco, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Cláudio Balieiro Jr.

CartaCapital

O capital financeiro, ao subordinar o valor presente da riqueza aos rendimentos, se conserva, se nega e se supera

A Economia Capitalista Monetária da Produção só pode ser compreendida como um processo histórico, no qual produção, circulação e valorização se articulam desde o início sob a mediação do dinheiro. Não se trata, portanto, de uma teoria do valor tomada em sua forma pura ou abstrata, mas de relações inerentes e socialmente fetichizadas, nas quais a valorização do valor se impõe como princípio organizador da vida social.

Manhã alvissareira, por Guto Rodrigues

Meu avô me dizia que no tempo da guerra dormia, sonhando que a manhã alvissareira traria a notícia do fim de Hitler e Mussolini.

Houve festa, multidões tomaram as ruas.

Hitler roto, derrotado se suicidou no bunker, Mussolini foi malhado e decapitado em praça pública.

Montou-se palanque, meu avô subiu e aprovou o fim do nazifascismo e exaltou a vitória do socialismo.

Morreu feliz no século passado, com a certeza de que o nazifascismo foi sepultado, pra sempre.

"Não passarão! Enquanto todos dormem. Tem alguém acordado no Kremlin, cuidando da paz".

Mas o século passado foi breve, nele mesmo, tudo foi desconstruído. Como dizia Marx, afirmado por Engels: "tudo que é sólido desmancha no ar".

O Kremlin do meu avô evaporou-se e o nazifascismo ressurgiu

Nesse novo século. Trump encarna Hitler, Netanyahu encarna Mussolini e são os flagelos da guerra, que eles mesmo inventaram.

Matam as crianças, roubam riquezas dos países pobres, bombardeiam cidades.

Matam líderes e não respeitam as leis da paz e o mundo assiste perplexo.

Ontem, achei guardado, o pijama que meu avô dormia pra sonhar, no tempo da guerra. Hoje à noite vou dormir com o seu pijama. Tomara que venha uma manhã alvissareira, por aí.

Poesia | Memória declamado, por Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Sidney Miller - Botequim Nº1

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desafio do ECA Digital está na implementação

Por O Globo

Nova legislação é avanço indiscutível, mas seu êxito dependerá da adesão das plataformas

É sem dúvida um avanço a entrada em vigor da lei conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital. O simples fato de começar a vigorar uma legislação de proteção aos menores de idade na internet é auspicioso. A dúvida, como em qualquer nova lei, é se as novas regras funcionarão na prática — e até que ponto as plataformas digitais contribuirão para evitar seu esvaziamento.

A partir de agora, as redes sociais e qualquer outro fornecedor de conteúdo ou serviço para menores deverão oferecer aos pais ferramentas de controle. Será preciso também manter mecanismos confiáveis de aferição de idade, para coibir o acesso dos menores a ambientes e conteúdos inapropriados — não basta mais a simples autodeclaração. Todas as plataformas terão de oferecê-los, mesmo que não sejam identificadas explicitamente como espaço infantojuvenil — caso de bancos, sites de entretenimento ou comércio eletrônico.

Um nome feio e exato para a crise: ‘aporia’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Palavrinha em desuso mas que se encaixa como luva na crise atual, em que os escândalos Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) arrastaram quase tudo e quase todos

Na literatura, é conhecida a obsessão do escritor francês Gustave Flaubert pelo “mot juste”, ou seja, a “palavra exata”. O autor de Madame Bovary era famoso pela caderneta que levava no bolso para anotar a cirúrgica palavra que surgiria a qualquer momento. No Brasil, igual obsessão era atribuída a Guimarães Rosa, que também mantinha à mão papel e caneta para anotações repentinas. Mas para o autor de Sagarana, foi Carlos Drummond de Andrade quem associou com maestria a palavra à trama.