quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Corrida maluca, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula e Flávio Bolsonaro prometem mundos e fundos e sacrificam princípios

Disputa cria gramática de cinismo que favorece quem tem retórica antissistema

Ainda bem que a campanha do segundo turno presidencial é curta. Não creio que os cofres públicos resistiriam a mais algumas semanas de medidas desesperadas de Lula tentando reverter um quadro eleitoral que lhe é adverso. Do primeiro turno para cá, o petista já anunciou desoneração de combustíveis, expansão do Pé-de-Meia universitário e uma série de benefícios para microempreendedores. Estamos falando de gastos da ordem de algumas dezenas de bilhões de reais neste e no próximo ano.

Tamanho de bancada não assegura hegemonia no Congresso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Crescimento do PL não é fator de maioria segura, muito menos dá ao partido o domínio do Parlamento

Centrão encolheu, mas o apetite e a expertise política das legendas no jogo do poder não diminuíram

Um clima de alarmismo ronda as expectativas a respeito do que será o Congresso Nacional a partir de fevereiro de 2027. Antes de nos entregarmos ao catastrofismo por causa do tamanho das bancadas conquistadas pelo PL, convém lembrar de como as coisas funcionam naquele chão de fábrica.

Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Defesa da ditadura e promessa de reabilitar o pai suscitam dúvidas sobre seu compromisso democrático

Divergências políticas são aceitáveis; o respeito ao Estado de Direito não é negociável

Certamente não são pessoas como eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.

Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.

Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.

A Internacional Autoritária é a maior ameaça dos nossos tempos, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Perigo do autoritarismo ainda é subestimado

Minha gratidão a todos os que fazem a luta gloriosa, sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia

Tem já mais de uma década o debate entre aqueles que alertam para o perigo de uma deriva autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do autoritarismo ainda é subestimado.

Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.

Depois da anistia, o acordo? Por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Proposta de perdão aos condenados se renova sob o signo do oportunismo em vez da Justiça

Como seria uma “política da justa memória”? Essa preocupação moveu o filósofo Paul Ricoeur a uma reflexão sobre o saber histórico, as manifestações da memória e o esquecimento, ou seja, como representamos o passado. Eis um tema indissociável do presente: como recordar o que se passou na última década?

Os erros e abusos da Operação Lava Jato criaram impunidade, mas não apagaram os crimes. O esquecimento e o abuso da memória levaram a Daniel Vorcaro, quando o caráter pedagógico da pena se transferiu à impunidade. Mudaram os personagens, mas a corrupção continua. E as suspeitas também: antes, tudo era dinheiro para campanha eleitoral; agora, é para filme.

A liberdade de resistir, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Para enfrentar seus desafios ao longo dos próximos quatro anos, o País irá demandar seriedade e previsibilidade

Seja qual for o vencedor das eleições presidenciais de 2026, a sociedade brasileira terá uma tarefa fundamental pela frente: exercer uma resistência democrática efetiva. Não nos iludamos pensando que basta a vitória de um candidato específico para solucionar nosso imbróglio civilizatório. O País vive circunstâncias sociais, políticas e institucionais que, seja quem estiver no Palácio do Planalto nos próximos quatro anos, haverá não pequenos desafios para o bom funcionamento do Estado Democrático de Direito.

A outra eleição, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

As eleições de meio de mandato nos EUA, daqui a duas semanas, deverão ter impacto nos mercados globais

Daqui a duas semanas, outra eleição terá importante repercussão para os mercados globais, com impacto político até no Brasil: a de “midterms” (ou “meio de mandato”) nos Estados Unidos, para a renovação da Câmara de Deputados e do Senado. Muitos analistas estão dizendo que o desfecho desse pleito será desastroso para o Partido Republicano e tornará o presidente Donald Trump um “pato manco”, jargão para descrever um governante que, rumo ao final de governo, tem a sua autoridade bastante enfraquecida e quase nenhuma capacidade de aprovar leis no Congresso.

Poesia | Terra de Santa Cruz"-- Adélia Prado

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Música | Chico Buarque canta Cálice com Gilberto Gil

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Protestos na França expõem incúria fiscal

Por O Globo

Como Brasil, país enfrenta dificuldade de implementar reformas após anos de descaso com a falência do Estado

Da Queda da Bastilha à Comuna de Paris, de Maio de 1968 aos coletes amarelos já neste século, a História da França está repleta de momentos em que a população vai às ruas na tentativa de mudar o curso dos eventos. Desta vez, mais de 500 mil tomaram conta de praças e avenidas em 110 cidades francesas no último sábado, auge da onda de protestos que começou em setembro como movimento estudantil, mas depois se expandiu para abarcar um sem-número de reivindicações difusas contra o atual governo. A violência resultou em vandalismo e incêndios (como o que destruiu a Prefeitura de Limoges), na depredação de mais de 3 mil estabelecimentos comerciais e na prisão de 2,4 mil pessoas. A raiz dos protestos está na dificuldade da sociedade francesa de lidar com uma crise fiscal crônica — problema em tudo similar ao brasileiro.

A crise histórica e o aparecimento dos “monstros”, por Roberto Amaral*

“Com a ‘marcha sobre Roma’ [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomeação de Mussolini para a chefia do gabinete. Começa para o PCI [Partido Comunista Italiano]um período de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordará em 1932, ninguém admitia a possibilidade de uma ditadura fascista ‘salvo Gramsci’.” (“Cronologia da vida de A. Gramsci”. In:Cadernos do Cárcere, vol. 1.Civilização Brasileira, 2004).

Em texto com data provável de 1930, Antonio Gramsci observa o fenômeno crise histórica para afirmar que seu caráter está, precisamente, no fato de que o “velho morre e o novo não consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos”. Ou, na versão mais conhecida (retirada da tradução francesa), “o velho mundo está morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”.

O autor de Cadernos do Cárcere está, evidentemente, a refletir sobre a Europa de então. Sua Itália já estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avançava marchando com botas de sete léguas. Hitler, como é sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre nós, é história consabida, e nada edificante.

Lula escorrega na casca de banana, mas no final do debate desafia Flávio, por Luiz Carlos Azedo

O Correio Braziliense

As duas campanhas cantam vitória e tentam capitalizar o debate nas redes sociais. Isso não conquista de votos. Para o indeciso, o debate criou mais confusão do que esclarecimento

O primeiro confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, domingo, na TV Bandeirantes, terminou com duas vitórias proclamadas pelas respectivas torcidas e uma derrota evidente: a do debate público. Diante de um país preocupado com violência, custo de vida, saúde e emprego, Flávio trabalhou para nivelar a discussão por baixo, provocando o adversário; Lula escorregou na casca de banana e foi para um confronto pessoal com acusações recíprocas de corrupção. O indeciso que esperava esclarecer o voto no debate encontrou mais motivos para hesitar.

Mentiras do bolsonarismo na economia, por Míriam Leitão

O Globo

Flávio Bolsonaro copia propostas de Lula e diz que fará muito mais. Mas nas reuniões com a Faria Lima, promete tudo o oposto

Na economia, essa campanha virou uma disputa de quem faz mais populismo fiscal. Flávio Bolsonaro copia as proposta de Lula e aumenta ainda mais as despesas. Lula prometeu que o Tesouro compraria dívidas velhas dos endividados exigindo dos credores um desconto. Flávio pegou carona na proposta e disse que vai comprar também, mas vai congelar a dívida restante das pessoas físicas por seis meses, e, das pessoas jurídicas, por um ano. Qual a diferença entre os dois caminhos econômicos? Lula está fazendo propostas elaboradas por sua equipe, depois de estudos. Pode-se discordar, mas tem lógica. Flávio Bolsonaro está copiando tudo o que Lula anuncia, elevando as ofertas numa espécie de leilão de populismo.

Depois da emoção da campanha, uma grande tarefa nos espera, por Fernando Gabeira

O Globo

O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, e o El Niño vem pesado com seus eventos extremos

Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.

Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.

Fundo do poço, por Merval Pereira

O Globo

Foi um debate de nível muito baixo um show de horrores. Não é à toa que os dois têm os mais altos níveis de rejeição

Desde que a ditadura militar acabou com os partidos políticos que já tinham história no Brasil, como PTB, PSD, UDN, e criou Arena e MDB, os eleitores brasileiros perderam a vinculação com as legendas e passaram a votar mais em pessoas do que em partidos. PT e PSDB, junto com o PDT de Leonel Brizola, nasceram nesse vácuo, inclusive porque o PTB foi transferido, num golpe judicial, para Ivete Vargas, para que Brizola não tivesse uma legenda forte. A partir desse desmonte histórico, deu-se a desconexão entre eleitor e partido, reforçada com a descoberta dos partidos de que seria fácil arrecadar votos com a filiação de nomes populares na música, no futebol, no rádio e na televisão.

Entrevista | Lula tem histórico de mudança e é antissistema, diz presidente do PT, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Edinho Silva diz que Flávio captou desejo por mudança e negou que adversário tenha sido subestimado no primeiro turno

A cinco dias do segundo turno, o coordenador-geral da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Edinho Silva, fez uma autocrítica, assumiu erros cometidos durante a disputa, mas também realçou acertos, como a neutralidade do Centrão no primeiro turno. Em entrevista ao Valor, ele negou que a campanha tenha subestimado a força política do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas reconheceu que o parlamentar soube catalisar o desejo de mudança do eleitor. Ele disse acreditar, entretanto, que será possível associar esse sentimento à imagem de Lula, porque o petista “tem histórico de mudança”.

O Valor também pediu entrevistas ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e ao coordenador-geral da campanha de Flávio Bolsonaro, senador Rogério Marinho (PL-RN). Ambos adiaram a conversa para depois do segundo turno.

Para eventual quarto mandato, o presidente nacional do PT citou um “remanejamento orçamentário” para acomodar promessas como o “Pix MEI”, o novo Pé-de-Meia e o aumento do Bolsa Família. “Não é aumentar gasto. É fazer remanejamento dentro do Orçamento”, argumentou. Conforme antecipou o Valor nesta segunda-feira (19), o governo terá que remanejar cerca de R$ 20 bilhões na Lei Orçamentária de 2027 para acomodar as propostas mais recentes de Lula, como o “Pix MEI”, sem aumentar o limite total de despesas.

Edinho afirmou que a principal cobrança de Lula até aqui foi a falta de material de campanha nas ruas, problema que, segundo ele, foi corrigido. Ele negou que Lula ou o PT deixassem a atuação nas redes sociais em segundo plano, mas admitiu a guinada do candidato à reeleição depois que ele adotou as “vídeo selfies”. Agora, a primeira agenda das manhãs são as gravações de Lula para as plataformas digitais.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Sangue, suor e lágrimas na reta final, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se a subestimativa do voto de direita favorece Flávio Bolsonaro, a quebra de sigilo é a bala de prata de Lula

O debate da Band deu o tom da dramaticidade da última semana de campanha que se iniciou com a rodada da BTG/Nexus em que a diferença entre os finalistas se estreitou para 0,6 ponto. Equivaleria a uma vantagem inferior a um milhão de votos do senador Flávio Bolsonaro, não fosse a subestimativa histórica do voto da direita, em média, de 1,4 ponto. Caso se repita, o “voto envergonhado” do eleitor que se omite ou mente para ser melhor aceito no seu meio social, deixaria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa desvantagem um pouco acima de 2 milhões, a mesma do 1º turno. Tudo isso se a eleição fosse hoje, mas, até domingo, cada dia vai ser um round. A bala de prata de Lula passou a ser a quebra do sigilo dos candidatos e suas famílias.

Flávio venceu na linguagem da fé, mas pode ter perdido o crente indeciso, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Apesar da postura arrogante, Flávio sai do debate com cortes para evangélicos

Campanha do bolsonarista conseguiu mais material para usar nas redes sociais

O Brasil tem pelo menos 40 milhões de evangélicos, e esse número cresce se incluirmos os católicos conservadores. Mas a fé apareceu só de raspão nas falas dos dois candidatos no debate da Band, no domingo (18). Qual deles se comunicou melhor com os cristãos indecisos?

Flávio Bolsonaro se apresentou como crente em apenas dois momentos. No primeiro bloco, quando Lula afirmou que venceria a disputa, Flávio respondeu: "Tá repreendido em nome de Jesus". E completou: "Só o Senhor é Deus. Está repreendido".

O fetiche dos debates, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Embates televisivos raramente têm efeito decisivo sobre o resultado de eleições

Oferecem, porém, uma brecha para avaliar candidatos fora de ambiente por eles controlado

Sim, o debate de domingo (18) foi muito ruim, mas o que dava para esperar? O homem, e, por conseguinte, o candidato, é um produto de seu meio. Uma campanha presidencial marcada pela polarização afetiva, por escândalos de corrupção e por uma ausência de propostas e ideias ainda mais intensa que o normal só poderia mesmo produzir um debate como o que vimos, em que sobressaíram agressividade, pegadinhas e evasivas. O surpreendente seria se, dadas as condições objetivas de campanha, os candidatos tivessem discutido seriamente projetos e programas.

Faltou conteúdo e sobrou despreparo no debate, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Lula e Flávio mostraram que lhes falta exatamente a matéria-prima para um bom embate: as ideias

Os dois foram pintados para uma guerra de insultos que não serviu para estimular o eleitorado a votar

Se era para fornecer ao país um show de grosserias e despreparo no trato de questões substantivas, teria sido melhor que Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mais uma vez fugissem de um confronto de ideias. No debate deste domingo (18), mostraram que lhes falta exatamente essa matéria-prima.

Nenhum dos dois compareceu munido de argumentos para discorrer sobre temas do interesse coletivo e cobrar do adversário provas de conhecimento e capacidade para presidir o Brasil. Foram pintados para uma guerra de insultos mútuos que resultou em lamentável empate no quesito ausência de conteúdo.

Big techs e Nunes Marques capturam a cena eleitoral, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Presidente do TSE, indicado por Bolsonaro ao STF, parece um torcedor de toga

Na reta final do pleito, manipulação dos algoritmos atinge o ponto máximo

Depois de funcionários da Meta admitirem um segredo de polichinelo —restrições que prejudicam as contas da campanha de Lula—, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a empresa adote medidas de tratamento igualitário no segundo turno. Quem espera que Mark Zuckerberg cumpra a decisão pode esperar sentado. Ele vai enrolar, como sempre.

Ajuste fiscal e embuste político, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Prometer cortes de gastos públicos e preservar programas sociais de alto custo é engambelar o eleitor

Num palco propício a embuste político, uma motosserra como a empunhada pelo presidente argentino Javier Milei para simbolizar seu projeto de redução do Estado tem forte impacto visual. Se levado à prática, um projeto desses tem consequências igualmente fortes: desemprego, aumento da pobreza e fechamento de empresas. Milhões de argentinos estão vendo isso. Não se sabe se por prudência ou criatividade, o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, esforçado imitador de Milei, adotou um símbolo mais modesto, a tesoura, mas empregado de forma superlativa. Prometeu um tesouraço. Chegou a falar em corte de R$ 200 bilhões de gastos.

A ‘herança maldita’ em 2027, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Populismo de campanha vira tesouraço depois, mas Lula e Flávio escondem o jogo

Depois de confirmar que debate não é seu forte, como mostrou desde 1989 em todas as sete campanhas presidenciais que disputou, o presidente Lula manteve sua aposta nos anúncios populistas para tentar virar a eleição até o próximo domingo. O “vale-tudo” corre solto na sua campanha.

O desafio para que ele e Flávio Bolsonaro abram suas contas bancárias e a promessa de entregar os seus dados e de seus filhos ao TSE, ainda hoje, fazem parte do jogo. Mas antecipar o pagamento do Bolsa Família, a dias da eleição, não faz.

É o que se chama de “forçação de barra”, o uso da Presidência e dos recursos públicos para, inequivocamente, comprar votos e minimizar a abstenção, empurrando eleitores de baixa renda para as urnas no domingo.

O debate eleitoral e a miséria exposta, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A atividade política havida no Brasil é rasteira. A campanha eleitoral, rasteira. Rasteiros a serem os próximos quatro anos. Causalidade. Uma condenação. Serão anos de depressão aguda; de exaustão terminal, talvez com alguma chance de termos chances em 2030. (O esquema vigente, o tal polarizado, dá sinais de esgotamento na sociedade, embora sejamos mestres em desaproveitar chances.)

Será necessário sobreviver – andar de lado – até lá, qualquer que seja o produto das urnas. (O cronista não compara os candidatos, problemas diferentes, carregadores individuais para crises específicas.) Sobre o presente projetado no amanhã: o que pauta o debate hoje condiciona o porvir. O debate está num lugar distante daquelas que seriam as prioridades deste País.

SBT SABATINA LULA | #EleiçõesSBT2026

 

Poesia | É assim que te quero, de Pablo Neruda

 

Música | Cartola de Noel - Confesso

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

A França em chamas

Por Correio Braziliense

Uma França alinhada ao trumpismo, hostil ao multilateralismo e com simpatias declaradas por Putin seria uma ruptura sem precedente no projeto da União Europeia

Berço de uma revolução que redesenhou a história do Ocidente, a França está novamente às voltas com uma insurreição. A escalada da violência urbana e o isolamento do presidente Emmanuel Macron expõem o esgotamento do modelo tecnocrata e arrastam a Europa para uma perigosa incerteza geopolítica, que pode acabar mudando o mapa do poder mundial. 

O que começou em meados de setembro com estudantes do ensino médio bloqueando escolas na periferia de Paris se transformou, em cinco semanas, na maior mobilização de rua do país em anos. A alta dos combustíveis desde o início do conflito no Oriente Médio, o custo de vida fora do alcance de boa parte da população e anos de acúmulo de insatisfação convergiram num movimento que une ex-coletes amarelos, sindicalistas, ativistas climáticos e estudantes.

Polarização política corrói o tecido social e tem custo econômico, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Os extremos pouco se toleram, pouco se falam, pouco colaboram. Isso produz efeitos deletérios, sociais e econômicos

A política no Ocidente foi capturada pela polarização. O centro está encolhendo, quando não sumindo, na maioria dos países. Os extremos pouco se toleram, pouco se falam, pouco colaboram. Isso produz efeitos deletérios, sociais e econômicos, ao reduzir a confiança entre as pessoas, nos governos, nas instituições e ao estimular políticas de curto prazo e menos eficazes. Às vésperas das eleições brasileiras, é bom refletir sobre isso.

Primeiro é preciso definir polarização, que não é uma simples divergência. A política moderna no Ocidente já nasceu dividida, entre direita e esquerda. Para o pensador italiano Norberto Bobbio, o cerne dessa divisão é o conceito de igualdade. A esquerda dá maior importância à igualdade, tende a considerar que muitas desigualdades são produzidas pela organização social e, portanto, podem ser reduzidas pela ação política. A direita, sugere Bobbio, tende a considerar um conjunto maior de desigualdades como naturais, inevitáveis ou legítimas e até a valorizá-las. O centro transita num amplo espectro de posições intermediárias.

Duelo de rejeições deixa de lado propostas para o país, por Fernando Exman

Valor Econômico

Debate rendeu farto material negativo sobre ambos os candidatos, a ser explorado nas redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformaram o debate realizado pela Band na noite deste domingo (18) em um duelo de rejeições. É de se lamentar, diante das urgências de um país com tantos desafios. Mas alguns dados podem ajudar a explicar a estratégia.

Segundo a mais recente pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro tem 54% de rejeição, um ponto percentual maior em relação ao petista, com 53%. Na intenção de votos, os dois estão tecnicamente empatados, com o senador numericamente à frente (46% a 44%). Votos em branco, nulos e eleitores que afirmaram não votar em nenhum dos dois somaram 9%, enquanto 1% não soube ou não respondeu. Entre os assuntos que mais preocupam o eleitor, de acordo com o instituto, são citados violência, corrupção, economia, saúde, problemas sociais e educação.

Candidatos disputam as ruas na reta final da campanha, por Gabriela Guido e Fábio Couto

Valor Econômico

Manifestação em São Paulo, teve a presença de Flávio; movimentos pró-Lula foram às ruas no Rio, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre

A uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, apoiadores dos dois candidatos foram às ruas para manifestações.

O candidato Flávio Bolsonaro (PL) reuniu apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, ao lado de lideranças bolsonaristas da direita e da extrema-direita. No Rio, foram organizados dois atos por apoiadores da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em São Paulo, no ato pró-Flávio, acompanharam o candidato o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), a senadora Tereza Cristina (PP-MS), o senadores eleitos Guilherme Derrite (PP-SP) e Marcel Van Hattem (Novo-RS). Também estavam presentes o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, o vereador e deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP) e a porta-voz do plano econômico do presidenciável, a economista Daniella Marques.

O movimento faz parte de uma tentativa da campanha de fazer um contraponto às manifestações públicas de apoio à reeleição de Lula.

Os riscos da aposta dos mercados na eleição, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Ajuste dos mercados pós-eleição pode ser dramático, em especial se os capitais estrangeiros que entraram nas últimas semanas saírem de uma vez

A aposta na vitória do senador Flávio Bolsonaro levou ao aporte de R$ 18,5 bilhões em recursos estrangeiros na bolsa brasileira. Por enquanto, é só alegria: enquanto os juros sobem ao redor do mundo, a curva aqui já fechou mais de dois pontos percentuais. A queda do diferencial de juros não impediu a valorização do real, que aumenta os ganhos do investidor que vem de fora. O que pode dar prejuízo?

Naturalmente, uma eventual vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apresentou uma melhora nas pesquisas - e os operadores já não podem mais considerá-lo carta fora do baralho. O mercado já se ajustou um pouco a esse risco nos últimos dias. Mas o tranco nos preços pode ser forte na semana que vem. As apostas em Flávio Bolsonaro, que eram muito leves no primeiro turno das eleições, se tornaram mais substanciais desde então.

Preparem-se para uma semana sangrenta, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Debate e entrevista de Roberta Luchsinger testarão os sentimentos profundos do eleitor

Depois de uma campanha arrastada, sem confrontos diretos entre os principais candidatos, o debate na Band e a entrevista da lobista Roberta Luchsinger à CNN são o prenúncio de uma semana sangrenta em que o nível vai baixar.

Logo após um início morno com respostas protocolares sobre segurança pública e economia, o primeiro embate cara a cara entre Flávio Bolsonaro e Lula descambou para acusações recíprocas envolvendo a máfia do INSS, o caso Master, outros casos de corrupção e milícias que resvalaram para outros integrantes da família de um e de outro.

Sem bala de prata, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir rejeição dos que pretende atrair

Um bom desempenho em um debate na TV não costuma ser a bala de prata para vencer uma eleição presidencial. Não foi diferente no debate Band/Estadão de ontem.

No balanço geral, Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir a rejeição do eleitorado que pretende conquistar. Passou sua mensagem com mais clareza, usou melhor o jogo de câmeras (por exemplo, ao se posicionar atrás de Lula, com expressão de desaprovação, enquanto o presidente falava) e administrou melhor o tempo à sua disposição. Nos embates diretos com tema livre entre os dois, porém, o senador foi tão evasivo nos questionamentos de Lula que passava a impressão de que qualquer assunto lhe era demasiadamente espinhoso – até aqueles que não deveriam ser. Qual era a dificuldade de explicar por que votou assim ou assado em determinada matéria no Congresso Nacional?

Pornografia política, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Até a encenação foi abandonada. O presidente Lula tudo faz para ganhar as eleições, sem quaisquer limites

Tem um nome o que estamos vivendo: pornografia política. Não há mais sedução, eros, mas pura e simples pornografia. Até a encenação foi abandonada. O presidente Lula tudo faz para ganhar as eleições, sem quaisquer limites. Contas públicas, responsabilidade fiscal, dívida pública entre outras, inúmeras, aliás, vão simplesmente para o espaço.

Os gastos das últimas semanas já remontam a R$ 350 bilhões, segundo o Estadão, sem que sejam números definitivos, pois não se sabe ainda o que está por vir nos próximos dias. O cenário não permite otimismo. E nada mais se esconde; tudo aparece à luz do dia. Nem as aparências são guardadas.

A uma semana do 2º turno, direita e esquerda lotam as ruas, por Rafaela Gama

O Globo

Flá­vio mar­cou pre­sença em São Paulo em evento na Ave­nida Pau­lista com ali­a­dos; PT fez mobi­li­za­ção naci­o­nal e ato no Rio, com artis­tas como Cae­tano Veloso e Dja­van

Eventos de campanha aconteceram poucas horas antes do debate da Band, o primeiro com a participação dos dois nesta eleição

A manifestação do senador Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo, reuniu 72 mil pessoas, enquanto o "Ato Musical pela Democracia", organizado por apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, teve a presença de 56 mil. Os dados são estimativas do Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP e da More in Common. Os eventos aconteceram poucas horas antes do debate da Band, o primeiro com a presença dos dois candidatos nesta eleição.

O que quer o eleitor? Por Irapuã Santana

O Globo

Sobra muito pouco tempo e energia para refletir e buscar informações sobre candidaturas nas eleições

O primeiro turno das eleições passou e, com ele, foram escolhidos os novos representantes da população no Legislativo. Tivemos recordes de votos à direita e à esquerda. Os campeões de votos para a Câmara foram Nikolas Ferreira, com 3.119.318 votos, seguido por Lucas Pavanato, com 3.038.438, e, fechando o pódio, Erika Hilton, com 1.596.472.

São candidaturas com pautas específicas que não necessariamente aderem, à primeira vista, àquelas questões frequentemente apontadas pelo povo como suas maiores preocupações, tais como violência, saúde, corrupção, pobreza e educação. Nenhum dos três campeões se destaca por algum desses elementos. Ficam mais centrados nas pautas dos costumes e da identidade.

O voto, esse traidor, por Miguel de Almeida

O Globo

A identidade não determina a ideologia. Parece óbvio, menos para parte da esquerda, para quem a frase soa como alta heresia. Repetiu-se por anos, sem direito a réplica, que a defesa de minorias e desvalidos equivalia a falar por eles. Negava-se, assim, o fato de que entre mulheres, negros e pobres havia conservadores. As urnas dizem que eles existem e votam, fazendo-se ouvir. O primeiro turno acendeu o farol.

Não se pode confundir posição social com consciência política. São coisas distintas, embora o identitarismo mais pedestre tenha sempre misturado os conceitos. O resultado das eleições para o Congresso mostra que a esquerda pode ter confundido a defesa de grupos minoritários ou perseguidos com o alinhamento automático a sua visão de mundo. Não é bem por aí; sem catequese, por favor. No quesito, a História traz exemplos melhores.

A caminho de um estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Nenhum candidato se arriscará a falar de ajuste, e o eleito só se ocupará do problema depois da posse

O eleitor que acompanha o noticiário sobre as eleições certamente já topou com reportagens e opiniões a respeito do ajuste das contas públicas. Mas quem acompanha apenas os programas partidários e as declarações dos candidatos só encontra dois tipos de mensagem, que podem ser assim resumidos: o adversário é uma porcaria; e o próximo governo será muito bom para todos.

Há um certo consenso entre analistas, políticos e marqueteiros neste ponto: ajuste de contas, também conhecido como ajuste fiscal, será muito importante para o governo, qualquer governo, mas nunca será tema de campanha. Por dois motivos: o tema é complicado; e só trata de maldades.

Personalidade autoritária e extrema direita, Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S. Paulo

Legitimação que cada um dá a si próprio para essa atitude política é superficial

É, também, suficientemente rasa para que o regime não se instaure ou não perdure

A personalidade autoritária é um tema que há muito me interessa como problema de teoria política relacionada com a psiquiatria e a psicanálise. Até hoje, porém, não encontrei sobre o tema um texto que me satisfizesse, que abrisse novas perspectivas sobre a questão.

Confesso que fiquei decepcionado quando li o livro de Theodore Adorno (1950) "Estudos sobre a Personalidade Autoritária". Esperava uma análise psicológica e político-filosófica e o que encontrei foi antes uma análise político-jurídica sobre o fascismo, dado que se baseou em uma pesquisa na qual Adorno contou com cientistas políticos e juristas americanos da Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA).

A personalidade autoritária é uma questão que deveria ser estudada pela psicologia e suas diversas ramificações como a psicanálise e a medicina psiquiátrica. Estou convencido de que ela é um dos impulsos psíquicos mais profundos do ser humano –o impulso para o poder. Todos os homens e mulheres são atraídos pelo poder, pela capacidade de impor sua vontade aos demais.