quarta-feira, 27 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC que extingue escala 6x1 criará novos problemas

Por O Globo

É inevitável piora no desemprego e na informalidade. Compensação para MEIs desvirtua programa ainda mais

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1, avança com rapidez no Congresso. O relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou parecer garantindo dois dias de folga e reduzindo a jornada máxima de 44 para 40 horas, mantendo o salário atual. A previsão é que a PEC seja votada em plenário nesta semana. A medida é eleitoreira, o debate tem sido raso, e os estragos para a economia e o mercado de trabalho serão enormes.

Foto com Trump não livra Flávio do Master, por Vera Magalhães

O Globo

Encontro protocolar com presidente americano está longe de conseguir encerrar um roteiro bem mais intrincado que o de 'Dark Horse'

Flávio Bolsonaro foi a Washington para tentar virar a página da crise desencadeada em sua pré-campanha pela descoberta das relações de “irmão” com Daniel Vorcaro. Volta com uma foto protocolar ao lado de Donald Trump, mas longe de conseguir virar a página de um roteiro bem mais intrincado que o de “Dark Horse”, a produção alegadamente milionária sobre a vida de seu pai.

Para conseguir o encontro na Casa Branca, Flávio contou com a ajuda do time avançado do bolsonarismo nos Estados Unidos, integrado por seu irmão Eduardo e pelo fiel escudeiro Paulo Figueiredo. A viagem também parece ter sido providencial para a turma alinhar as versões até aqui completamente desencontradas para o repasse de pelo menos R$ 61 milhões (ou US$ 10 milhões) de Vorcaro ao pré-candidato do PL.

Encontro com Flávio representa entrada oficial de Trump no processo eleitoral brasileiro, por César Felício

Valor Econômico

Para quem tinha alguma dúvida, senador é o candidato da Casa Branca para a sucessão de Lula

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou de maneira oficial, na terça-feira (26), na campanha presidencial brasileira. É até o momento o principal cabo eleitoral do senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) fora do âmbito partidário. Proporcionou a Flávio, no pior momento de sua pré-campanha, a “photo opportunity” que nenhum hierarca do Centrão ou governador aliado criou. Flávio, para quem tinha alguma dúvida, é o candidato da Casa Branca para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Discursos em plenário que pouco falam, por Fernando Exman

Valor Econômico

É difícil acreditar que o Estado não repassará a conta, de maneira a manter a arrecadação

O senador Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados, durante a sessão em que o Congresso Nacional derrubaria uma série de vetos presidenciais, e rapidamente foi ladeado por um punhado de aliados que dependem de um impulso nas eleições de outubro. Em outros tempos, o espaço da tribuna seria respeitado e o plenário se silenciaria. Todos ouviriam com atenção a aguardada explicação do principal candidato da oposição à Presidência da República sobre sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, pivô do maior escândalo financeiro do país.

O despertador de Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-governador foi alvo de duas operações da PF em 12 dias; decisão aponta 'vínculo estreito' com Vorcaro

As manhãs já foram mais tranquilas no condomínio de Cláudio Castro na Barra da Tijuca. Pela segunda vez em menos de duas semanas, o ex-governador do Rio acordou com batidas na porta. Era a Polícia Federal.

No dia 15, Castro foi despertado por uma operação que apurou favorecimentos à Refit. A refinaria que não refina pertence ao foragido Ricardo Magro, apontado como o maior sonegador de impostos do país. Ontem os agentes voltaram em busca de provas de um esquema com o Banco Master, do presidiário Daniel Vorcaro.

Decisão traz Castro como um operador do Master no governo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Na política do Rio não se pergunta mais se o ex-governador Claudio Castro será preso, mas quando. Seria o sexto titular do Palácio Guanabara, nos últimos dez anos, com este destino. Vereador de pouco destaque, Claudio Castro foi alçado a vice de um cabeça de chapa igualmente desconhecido, Wilson Witzel, eleito em 2018 no rabo de foguete da ascensão de Jair Bolsonaro.

Fragilizado ao assumir o cargo depois do impeachment do titular, empossado havia apenas um ano, poderia ter se valido da legitimidade de sua reeleição para sair da sombra e refundar sua gestão. Afinal, foi o primeiro governador do Rio reeleito em primeiro turno desde Sérgio Cabral, em 2010.

Passagem de bastão civilizatório, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

Sociologia política do bate-boca, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Mamãe era taxativa: “Jamais bata boca”. Essa gritaria dos mal-educados. O mesmo conselho surge nos jornais, revelando como o bate-boca é maleducado: ele expressa a falta de controle de dois “superiores” que se confrontam e nenhum deles pode ser inferiorizado, exceto no grito. O bate-boca é uma ferramenta aristocrática, prima do “você sabe com quem está falando?”. Exprime a perturbação diante do direito de discordar. Se sou superior, como alguém ousa reagir aos meus argumentos?

Todo mundo parece ter ouvido mamãe, pois continuamos a classificar dissidências como bate-bocas, como falta de educação, quando o certo é o justo oposto. Nada mais normal do que a dissidência entre pessoas numa democracia. Desclassificar discussões é típico de sistemas construídos por “gente que se lava”, como o nosso.

Creio que foi precisamente isso o que alavancou Jair Bolsonaro, pois um dos pontos críticos de sua figura era que ele exibia o furor dos bate-bocas.

Um susto com a inflação, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Os indicadores de preços nos EUA e no Brasil ainda não embutem, com rigor, vários riscos

Investidores dos Estados Unidos e do Brasil correm o risco de tomar um baita susto com a inflação, pois a maioria parece subestimar as pressões inflacionárias que podem vir à tona. Isso porque as projeções de analistas para os índices de preços ao consumidor de 2026 e de 2027 ainda não embutem – com o devido peso – vários riscos, desde cotações persistentemente elevadas do petróleo e de matérias-primas até impactos de fenômenos climáticos, como o El Niño.

O que falta na encíclica do papa Leão 14 sobre a IA, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Pontífice citou Agostinho, Tolkien, Beethoven, Guernica, Martin Luther King Jr. e até Frankl e seu 'otimismo trágico'

Difícil acreditar que tenha escapado ao papa que Pentecostes guarde tantas semelhanças com a inteligência artificial

Tem Santo Agostinho. Mas tem Tolkien também. Tem Beethoven, tem Guernica, tem Martin Luther King Jr., tem Viktor Frankl e o seu "otimismo trágico". Tem muita doutrina social da igreja, valorização dos trabalhadores e críticas ao nacionalismo, Realpolitik e pós-humanismo.

Para um ateu de esquerda como eu —com duas exceções, sobre aborto e família de "um homem e uma mulher"— não há quase nada para discordar na encíclica "Magnifica Humanitas" do papa Leão 14.

Mas quero é escrever do que não está lá. A encíclica foi datada de 15 de maio e apresentada em 25 de maio. E o que aconteceu entre uma coisa e outra? As celebrações de Pentecostes, no domingo (24). Que uma encíclica escrita e lançada em Pentecostes não fale de Pentecostes é uma coisa que me intriga e confunde. E acho que essa ausência é decisiva.

Uma aposta improvável, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

É incomum ver parlamentares do PL e do PT unidos para aprovar projeto de lei que não seja corporativista

Os dois partidos, porém, parecem empenhados em banir a propaganda de bets, o que seria bom para o país

Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas "em geral" não é sinônimo de "sempre".

Cena eleitoral é refém de emoções, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Fatos positivos e negativos não abalam nem impulsionam a situação dos favoritos nas pesquisas

Eleitorado parece ter se acomodado na armadilha do amor e ódio por seus políticos de estimação

Mudanças na dinâmica da relação entre os políticos e o eleitorado criam dificuldades para a análise e exigem a adoção de novos critérios no exame do andamento de campanhas eleitorais. Daí decorrem circunstâncias aparentemente inexplicáveis. O que valia já não vale.

Na cena atual, dois fatores em tese fortes o bastante para abalar ou impulsionar as intenções de voto não foram suficientes para alterar de modo significativo o quadro retratado pelas pesquisas de opinião.

Tanto Luiz Inácio da Silva (PT) como Flávio Bolsonaro (PL) ficaram mais ou menos onde estavam em levantamentos anteriores, a despeito de o primeiro patrocinar gastança calculada em R$ 190 bilhões para captar eleitores e o segundo ter sido pego em mentiras reiteradas sobre o relacionamento com Daniel Vorcaro.

Entrevista* | O Fascismo Encontrou terreno fértil no Brasil

O jornal Catetear

*Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Paulo Bracarense: Durante muito tempo, a historiografia e a memória política brasileiras trataram o fascismo como um fenômeno essencialmente europeu, ligado à Segunda Guerra Mundial, à Benito Mussolini e à Adolf Hitler. Isso produziu a impressão de que o Brasil teria sido apenas um observador periférico daqueles acontecimentos. Entretanto, os estudos mais recentes mostram que o fascismo encontrou terreno fértil no Brasil e dialogou profundamente com características estruturais da sociedade brasileira. Não significa afirmar que o Brasil tenha sido “um país fascista” em sentido clássico, mas sim reconhecer que elementos compatíveis com o fascismo estiveram presentes de forma recorrente em nossa formação política: autoritarismo, culto à ordem, militarismo, anticomunismo radical, racismo estrutural, violência contra movimentos populares, personalismo e a ideia de uma unidade nacional construída contra “inimigos internos”.

Poesia | Lição, de Geir Campos, por Aníbal Bragança

 

Música | 1955 - Nora Ney - Meu Lamento

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encíclica de Leão XIV sobre IA reflete realismo e sensatez

Por O Globo

Papa reconhece valor da nova tecnologia, mas aponta os riscos intrínsecos a seu avanço

Leão XIV não é o primeiro papa a se preocupar com as transformações trazidas pela tecnologia à sociedade. A inspiração explícita de Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), sua primeira encíclica publicada ontem, é Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), em que Leão XIII — inspirador também do nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost — discorria sobre o impacto das “coisas novas” oriundas da Revolução Industrial e, ao mesmo tempo que reconhecia o valor do avanço científico, rogava pela proteção daqueles cujo trabalho ou vida fossem afetados pelas transformações. É também esse o tom de Leão XIV na encíclica que dedicou à maior revolução tecnológica em curso: o advento da inteligência artificial (IA).

Uma semana para revoltar, por Fernando Gabeira

O Globo

Quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão de mãos dadas

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.

Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.

Nós contra eles, por Merval Pereira

O Globo

Lula e os Bolsonaros têm apoio cego dos eleitores. Nada os abala. Lula ganhou uma eleição no auge do mensalão

Pelas informações que circulam no meio político, o presidente Lula pretende imprimir num eventual quarto mandato uma radicalização à esquerda que não esteve presente em nenhum dos anteriores. Já havia a suspeita de que ele pudesse querer deixar essa marca durante seu governo, embora, na campanha, pudesse vender a imagem de moderado para atrair um eleitor não petista que não pretenda votar em Flávio Bolsonaro. Como sempre se soube, na política uma coisa é o que se diz na campanha, outra é o que se faz durante o governo. Mas os relatos dão conta de que Lula está animado com a queda de Flávio nas pesquisas e pretende acelerar a tática do “nós contra eles”, se apoiando mesmo nas medidas já tomadas de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil e nos ataques aos “banqueiros e milionários” que diz se aproveitarem da desigualdade social do país para enriquecer mais ainda.

Lula dobra à esquerda, Por Thomas Traumann

O Globo

A campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai dobrar à esquerda. A estratégia de comunicação para dar a Lula um inédito quarto mandato será reforçar o atual slogan oficial, “um governo ao lado do povo brasileiro”, com um discurso que ataque “os privilégios dos super-ricos”. Será uma tentativa de demarcar para si o território da defesa dos interesses populares e nacionalistas, incorporando o antielitismo como eixo do futuro governo.

Esqueça o “Lulinha, paz e amor” da campanha de 2002 e, em alguns momentos, do segundo turno de 2022. O Lula candidato de 2026 vai falar mais grosso, será mais polarizante e vai cravar no bolsonarismo e na elite financeira as razões para os males do país. Se toda eleição é feita de inimigos, os do PT em 2026 serão quatro “Bs”: Bolsonaro, banqueiros, bets e as big techs.

A mudança na jornada, por Míriam Leitão

O Globo

A proposta é reduzir em dois meses para 42 horas e em um ano para 40. Casos específicos serão tratados por convenção coletiva e lei ordinária

No último fim de semana o deputado Leo Prates (Republicanos- BA), relator da PEC do fim da escala 6x1 ouviu o caso dos barqueiros no Amazonas. Há 62 municípios no estado, só em dez dá para ir de carro. Os barqueiros demoram, às vezes, oito dias para chegar no seu destino. Como cumprir uma escala cinco por dois? Diante de fatos concretos assim, ele foi formulando uma proposta para se adaptar às diversas especificidades. Por isso, colocou o teto e o piso. O teto é 30 dias. A cada 30 dias o barqueiro terá que ter oito folgas. A convenção coletiva vai dispor como serão distribuídas essas folgas.

O Papa e o trabalhador solitário, por Pedro Doria

O Globo

Leão XIV já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial

Papa Leão XIV apresentou ontem, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, celebrando os 135 anos exatos da publicação por Leão XIII de outra encíclica, a Rerum Novarum. Quando o cardeal Bob Prevost, cria de Chicago, foi escolhido papa no último conclave, tomou o nome Leão por causa da Rerum Novarum. Foi justamente em virtude do texto que estabeleceu a doutrina social católica perante a exploração absurda do trabalho no primeiro ciclo da Revolução Industrial. Prevost já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial. E, cuidadosamente, apresentou o texto ontem enquanto tinha ao lado Christopher Olah, o homem de ética da Anthropic.

A encíclica de Prevost e o tema oculto da eleição no Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Alerta papal sugere que candidatos à Presidência digam o que pretendem fazer com a regulação de IA no Brasil

Levou um ano para Robert Prevost sair da sombra do carismático Francisco e começar a imprimir, ao seu papado, sua marca. A primeira encíclica, “Humanidade Magnífica”, não é apenas o clamor de uma inteligência artificial guiada pela ética. É uma exortação à sua regulação. Prevost recorre a uma palavra de sua língua materna, sem tradução, para definir o que vê como imperativo das grandes empresas que dominam o setor: “accountability”.

Fez quase um plano de trabalho: “Não basta invocar genericamente a ética. São necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão. Caso contrário, a mudança será governada somente por lógicas tecnocráticas e apresentada como necessária e inevitável, acabando por impor regras efetivas, ditadas por quem detém dados, infraestruturas e capacidade de processamento”.

Indústria e/ou serviços: como o país pode enriquecer? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Debate interessa ao Brasil, que busca há décadas um caminho para o desenvolvimento e faz atualmente um grande esforço pela reindustrialização

Desculpem-me, vou escrever um parágrafo na primeira pessoa. Quando estive em Mumbai, em 2003, enviado pelo Valor, fiquei curioso ao ver muitos homens de branco, na hora do almoço, levando enormes pranchas na cabeça, cheias de vasilhas de alumínio. Logo me explicaram que eles eram os “dabbawalas”, que operavam um sistema de entregas de marmitas desde 1890 na megacidade indiana, ex-Bombaim.

Os dabbawalas, de trens ou bicicletas, vão aos subúrbios, coletam as marmitas nas casas de trabalhadores e, a pé, as levam ao local de trabalho das pessoas no centro da cidade. Embora o sistema tenha perdido um pouco do espaço com o home office pós-pandemia e os aplicativos, ainda existem cerca de 5 mil entregadores, que operam sem usar a internet, por meio de um genial esquema logístico quase perfeito de codificação com cores, números e letras. Atualmente, ainda entregam cerca de 200 mil marmitas por dia.

Compra de votos à luz do dia, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Congresso compra votos e decide em causa(s) própria(s), descaradamente, em ano eleitoral

O grande tema da semana é o fim da escala de trabalho 6x1, agora prevendo transição até 2027, como acertado entre os presidentes Lula e o da Câmara, Hugo Motta, e entre governo e oposição, mas essa prioridade não pode apagar os rastros destruidores do Congresso em áreas tão amplas, com um escândalo atrás do outro, sem a devida indignação, especialmente na semana passada, mas não só.

Não olhe para cima, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A Polícia Federal investigava – investiga ainda – a prática de contrabando por meio do avião do empresário Fernando Oliveira Lima, descobertos então, entre os 16 viajantes do voo em xeque, Hugo Motta e Ciro Nogueira. A notícia é de 28 de abril deste ano. O episódio, de 20 de abril de 2025. Motta já presidia a Câmara. Voltavam da ilha de São Martinho, no Caribe, paraíso fiscal e dos cassinos. Desembarcaram num aeroporto executivo em São Paulo, ocasião em que o piloto da aeronave entraria no País sem submeter cinco bagagens ao raio X. Ninguém sabe o que havia nos volumes.

Lei da Ficha Limpa está de novo nas mãos do STF, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Julgamento em curso no tribunal trata não da flexibilização, mas da anulação da essência da lei

Mudanças feitas pelo Congresso em 2025 facilitam infiltração do crime organizado na política

Há uma ação em processo de votação do plenário virtual que pode contribuir para o Supremo Tribunal Federal (STF) dar um trato na imagem e suavizar a maneira negativa como tem sido visto pela população.

O julgamento em curso não cuida da flexibilização, como se costuma dizer. Refere-se antes à anulação do fundamento que regeu a aprovação da Lei da Ficha Limpa, há 16 anos, que era o de expurgar dos pleitos autores de ilegalidades por longo tempo.

Derretimento de Flávio fragmenta o voto religioso e ajuda Lula, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Sem herdeiro da direita bolsonarista, igrejas perdem influência na eleição presidencial

Por falta de tempo, pastores e líderes buscarão seus interesses imediatos

O derretimento de Flávio Bolsonaro abriu uma oportunidade para seus adversários. Evangélicos representam um terço do eleitorado e, nos dois últimos pleitos, votaram consistentemente em Bolsonaro. Agora estão órfãos de candidato.

É equivocado falar em "evangélicos" genericamente —há muitas tensões e diferenças entre igrejas. Esse é parte do nó que Jair Bolsonaro desatou. Ele conseguiu ter apoiadores em todas as igrejas, de presbiterianos a assembleianos. O que mais ele fez?

Cadê a terceira via? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro balançou, mas não caiu, e seus rivais à direita têm desempenho pior do que o dele contra Lula

Caiado, Zema e Renan Santos nem discordam da pauta de livrar o ex-presidente da prisão

Foi um arranhão significativo para Flávio. No Datafolha de abril, ele estava numericamente à frente de Lula no segundo turno. No de sexta passada, já aparecia atrás —47% a 43%—, no limite da margem de erro.

Lula ganhou triplamente. Primeiro, porque seu principal adversário piorou sua projeção de votos no primeiro e no segundo turnos. Segundo, porque Lula vai numericamente melhor mesmo nos cenários sem Flávio. Sinal de que não foi só Flávio que caiu; Lula teve um avanço na estima do povo. Quem sabe o Desenrola, o subsídio pro carro novo, o desconto na gasolina, o auxílio gás, o fim da 6x1 e outras promessas do pacote de bondades começam a fazer efeito. Ter a caneta na mão faz diferença.

Campanha da fraternidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiras avaliações mostram que Flávio Bolsonaro sai ferido de revelação de envolvimento com irmão Vorcaro

Escândalo, porém, não criou situação que o obriga a abandonar imediatamente a candidatura presidencial

Às vezes, invejo profissões alheias. Nos próximos meses, marqueteiros não ligados a Flávio Bolsonaro vão se divertir bolando alusões ao relacionamento fraterno entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. "Você vai mesmo votar no irmão do Vorcaro?" é a minha sugestão para os dias finais da propaganda na TV. Será a campanha da fraternidade.

Além de Vorcaro, filho 01 teme mais escândalos no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Candidatura bolsonarista dá como certa a prisão de Cláudio Castro

Polícia Federal apura infiltração de múltiplos grupos criminosos no estado

Com as provas obtidas pela Operação Unha e Carne, a Polícia Federal não tem dúvida: Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —atualmente preso por ter obstruído a Justiça e vazado informações para o Comando Vermelho—, exerceu papel central na estrutura de poder do estado, com mais influência do que o ex-governador Cláudio Castro, a quem pretendia suceder para dar continuidade ao esquema de corrupção.

O Brasil entre o fascismo e a liberdade, por Ivan Alves Filho*

A presença fascista é uma questão concreta na vida republicana brasileira. De um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas, logo que estes se organizaram em partido político

Poesia | Tudo muda... de Bertolt Brecht

 

Música | Teresa Cristina -Quintal da Magia Samba

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

‘Super El Niño’ exigirá preparo maior do Brasil

Por O Globo

Previsão é o fenômeno mais intenso nos últimos 140 anos, agravando cheias, secas e incêndios florestais

O Brasil precisa se preparar desde já para os efeitos nefastos do próximo El Niño, fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico que favorece eventos como secas severas, grandes incêndios florestais e tempestades devastadoras. Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos e da Organização Meteorológica Mundial, da ONU, mostram que a probabilidade de ele ocorrer a partir do segundo semestre deste ano ultrapassa 90%. Segundo cientistas, poderá ser o mais intenso dos últimos 140 anos e foi apelidado “Super El Niño”.

Entrevista | Governo fecha hoje proposta para transição da 6x1, diz Guimarães

Por Andrea Jubé / Valor Econômico

Ministro relata preocupação com ‘pautas-bomba’, prioriza PL dos minerais no Senado e busca reconciliar Lula e Alcolumbre

Completando 40 dias no cargo, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, afirmou que o governo apresentará nesta segunda-feira (25) sua proposta para o tempo de transição do fim da escala 6 x 1. “Buscamos uma fórmula para que não haja dúvidas quanto à execução e o seu efeito imediato”, adiantou, em entrevista ao Valor.

Essa afirmação revela um impasse, porque o governo quer uma aplicação “imediata” da nova regra, enquanto os modelos propostos pelo relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), sugerem transição de no mínimo dois anos, e no máximo cinco anos. Ele vai  apresentar o relatório na tarde desta segunda-feira (25).

Segundo o ministro, esse é o único ponto impedindo a votação da matéria. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá se reunir ainda nesta segunda com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para tratar do tema, e buscar um consenso.

Guimarães também admitiu preocupação com as bombas fiscais em andamento no Congresso, mas diz contar com a pressão dos prefeitos para barrar esses projetos. Há receio com o texto sobre as dívidas dos produtores rurais, em discussão no Senado, que tem impacto de R$ 150 bilhões em 2027.

Tendo apenas dois meses até as convenções partidárias para concluir a votação de pautas de interesse do governo, ele citou como prioridades na Câmara a proposta de emenda à Constituição (PEC) da redução da jornada e o projeto que cria subsídios para conter a alta dos combustíveis.

No Senado, onde o diálogo está interditado com o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) após a rejeição do nome do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF), ele queria ver aprovados a PEC da Segurança Pública e o novo marco dos minerais críticos.

Ele confirmou que está empenhado em recompor a relação de Lula com Alcolumbre. Ressaltou que é um processo demorado, que exige habilidade, grandeza, e instou os dois a exercerem o “perdão” cristão.

Ao mencionar o episódio da derrota de Messias, Guimarães tripudiou sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o principal adversário de Lula na sucessão presidencial. “Quando terminou aquela votação, Flávio disse que o governo acabou”, relembrou. “Pois três dias depois, o governo deu a volta por cima, e ele é que se acabou, que se enterrou no lamaçal do Banco Master”. Uma semana depois, Lula se reuniu com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em agenda que melhorou a aprovação do governo.

Guimarães acrescentou que durante a campanha, o PT vai demonstrar que a crise do Banco Master, o “maior escândalo financeiro da história do Brasil, tem olho, rosto, braço, DNA: é a família Bolsonaro”.

O ministro ressalvou que a ligação de Flávio com o Master não pavimenta a eventual vitória de Lula nas eleições. Ao contrário, disse que esta será a eleição “mais radicalizada da história”, mas vê um salto na avaliação positiva do governo, com o Desenrola 2 e o fim da “taxa das blusinhas”. 

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Flávio Bolsonaro reforça discurso religioso em meio à desconfiança de lideranças evangélicas, por Beatriz Roscoe

Valor Econômico

Pastor Silas Malafaia tem sinalizado desembarque da candidatura e defendido, nos bastidores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro

Com a imagem arranhada após a crise desencadeada pelo vazamento de mensagens trocadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), tem buscado se ancorar na religião para tentar reverter danos. O movimento ocorre em meio à sinalização de lideranças evangélicas de descontentamento com os fatos que vieram à tona e diante da queda do senador nas pesquisas eleitorais.

Em vídeos publicados nas redes sociais, Flávio aparece citando passagens bíblicas, participando de cultos e usando personagens religiosos para buscar sair da crise. Em um aceno ao eleitorado evangélico, o senador também passou a intensificar discursos sobre “batalha espiritual” e perseguição política, associando sua trajetória à do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Políticos horríveis tomam decisões péssimas, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Projeto de lei amplia a blindagem de partidos e estimula a má qualidade do Legislativo e do que ele aprova

Estamos cansados de reclamar da nossa classe política e dizer que os políticos não nos representam. “Você acha o Congresso ruim? É porque ainda não viu o próximo”, teria dito Ulysses Guimarães, com a experiência de quem exerceu o cargo de deputado federal de 1951 até a morte, em 1992.

Escândalos de corrupção vão mudando de escala ao longo do tempo, retrocessos econômicos, ambientais e sociais são aprovados e as reformas legislativas realmente necessárias quase sempre são adiadas.

Lula terá conversa definitiva com Rodrigo Pacheco sobre eleições em Minas Gerais, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Cúpula do PT acredita que esse assunto é página virada, porém, interlocutores de Lula, de Pacheco e lideranças do PT mineiro insistem que ainda falta um encontro de ambos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve se reunir com o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) na próxima semana para uma conversa definitiva sobre a eventual candidatura dele ao governo de Minas Gerais. A cúpula do PT acredita que esse assunto é página virada, porém, interlocutores de Lula, de Pacheco e lideranças do PT mineiro insistem que ainda falta um encontro de ambos e o posicionamento público do senador para o fim do impasse.

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse ao Valor que Lula resolverá, pessoalmente, a chapa petista em Minas Gerais. E a presidente do diretório mineiro do PT, deputada estadual Leninha, confirmou que lideranças regionais da sigla continuam dispostas a apoiar o ex-presidente do Senado. "Se o Pacheco resolver vir, vamos juntos com ele", afirmou.

Vem aí o estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Eis o resumo da coisa: as bondades eleitorais são dirigidas a beneficiários específicos; os custos recaem sobre todos

Não se trata apenas de roubalheira. O dinheiro público vem sendo utilizado legalmente em benefício de candidatos às próximas eleições. O movimento mais recente nessa direção teve senadores e deputados como protagonistas. Foram aprovadas leis que relaxam os controles aplicados no uso dos fundos eleitoral e partidário — formados, é bom que se registre, com dinheiro dos contribuintes.

Candidatos e dirigentes partidários também querem mais recursos para praticar bondades eleitorais. De que são eleitorais, não há dúvida. Bondades? Aí depende. Para cidadãos, setores ou empresas beneficiados, certamente. Para o conjunto do país, poderiam ser chamadas de maldades.

Por uma Primeira Emenda tropical, por Demétrio Magnoli

O Globo

‘O Congresso não poderá fazer nenhuma lei que restrinja a liberdade de expressão’, diz o texto

Diante das eleições, Lula vestiu a fantasia de Papai Noel, engajando-se na oferenda de presentes a diversos segmentos da população. O custo é pago pelo Tesouro, em casos como a derrubada da “taxa das blusinhas”. Noutros, paga-se o preço imaterial da supressão do princípio da liberdade de expressão. É nesse escaninho que se enquadra o decreto de regulamentação de redes sociais.

O ato presidencial atribui à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), do Ministério da Justiça, a prerrogativa de fiscalizar as plataformas de rede. Seu fundamento legal é a decisão do STF, de junho de 2025, que derrubou parcialmente o Marco Civil da Internet, obrigando as big techs a remover, a partir de notificação extrajudicial, postagens tidas como ilícitas. A Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) da ditadura militar ganha novo nome.