segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Fernando Gabeira - Para chorar no banheiro

O Globo

Quando saiu o relatório da CPI da Covid, Flávio Bolsonaro disse que seu pai o receberia com uma gargalhada típica do Bolsonaro. Não há graça nenhuma em ser acusado de crimes contra a humanidade, algo tipificado pela Convenção de Roma e adotado pela ONU.

Depois daquela frase “minha vida aqui é uma desgraça”, Bolsonaro confessou, recentemente, que chora no banheiro. Esconde da mulher, que o acha o machão dos machões e, estupidamente, perde uma chance de chorar no ombro dela. Mas o que esperar do machão dos machões?

O único consolo que Bolsonaro pode encontrar nessa acusação é a chance de responder a quem o chama de genocida: “Alto lá! Genocida não, apenas cometi alguns crimes contra a humanidade”.

Embora tenha explicado aqui, usando até Freud na sua visão de negacionismo, até hoje não entendo bem por que Bolsonaro e tantos seguidores se recusaram a dar importância ao vírus.

Creio que houve nessa negação muito de guerra cultural: se os adversários se preocupam tanto com o coronavírus, uma maneira de enfrentá-los é desmistificar o perigo.

O ex-ministro Ernesto Araújo via na pandemia um perigoso processo de dominação autoritária internacional. O próprio Bolsonaro insistiu no tema da liberdade e, na célebre reunião de abril de 2020, chegou a desejar a luta armada contra as medidas de distanciamento social.

Miguel de Almeida - A morte da política

O Globo

O que matou a política? Virou moda acusar as redes sociais pela intolerância e pela visão binária da realidade: Bozo ou Lula? Esquerda ou direita?

Há um engano aí.

Antes da tragédia Facebook e agregados, existiu o marketing político. As pesquisas qualitativas, quando se testam temas e reações de grupos de eleitores, levaram os marqueteiros a polir seus candidatos rumo a inesperadas (e indesejáveis, digo eu) vitórias.

Em poucos exemplos, as catástrofes: Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo; Lula, Collor e Bozo na Presidência da República. E, principalmente, a eleição para o segundo mandato de Dilma Rousseff.

O marketing político forjou o personagem Lulinha Paz e Amor, além de sua Carta aos Brasileiros. Levou José Serra a ter posição dúbia sobre o aborto e Marta Suplicy a levantar dúvidas sobre a orientação sexual de Kassab. Políticos de centro-esquerda, por causa de oportunistas pesquisas eleitorais, terminaram na direita. Tudo pelo voto, mesmo que a biografia fosse jogada no lixo. Perderam as eleições de quatro.

Em casos recentes, que jamais devemos esquecer, ocorreu o BolsoDoria (responsável pela vitória de João Doria em São Paulo). Ou a relutância de Eduardo Leite em reconhecer o Bozo como um desastre em tempo real. E a juntar num spot político (perceba a ideia de jerico) Chico Buarque e Sérgio Reis! — como se fossem irmãos siameses e houvesse lugar para questionar a circunferência da Terra. Coisa de marqueteiro.

Denis Lerrer Rosenfield* - Tripé ‘liberal’

O Estado de S. Paulo

A social-democracia empreendeu, no poder, medidas de cunho liberal, enquanto os “liberais” atuais estão se mostrando discípulos dos petistas

O governo “liberal” de Bolsonaro inovou em seu liberalismo ao inventar um novo tripé: o bolsa eleitoral, dito “Auxílio Brasil”; o bolsa caminhoneiro, denominado por um de seus líderes de bolsa “esmola”; e o bolsa “Centrão, conhecido por emendas parlamentares dos mais diferentes tipos, além de cargos governamentais.

Tais iniciativas são todas paliativas, algumas tidas por temporárias, quando vieram para ficar, numa aparente obediência às regras legais e constitucionais; outras almejam a permanência do grupo no poder, tendo como objetivo assegurar a reeleição do atual presidente. O mesmo uso que se faz de ajuda aos pobres, embora necessária, encobre uma desmedida política, que não hesita diante de nada para alcançar as suas finalidades, a custo de produzir o desmoronamento fiscal, econômico e social do País. O que mais espanta é o desaparecimento de qualquer perspectiva de trabalho pelo bem comum, esquartejado nos interesses particulares e corporativos.

Evidentemente, os pobres devem ser ajudados. Trata-se de respeito moral com o próximo e obediência política à Constituição. Ocorre, porém, que tal argumento está sendo empregado para furar o teto da lei dos gastos públicos, como se essa infração fosse condição deste atendimento social. Atente-se para o fato de que o alvo do governo consiste em abrir a porteira para o estouro da boiada, pois, em ato imediatamente seguinte, o presidente anunciou que, com a folga obtida, criaria o bolsa esmola para os caminhoneiros e pagaria e ou aumentaria as emendas parlamentes. Ou seja, estabelece como regra a irresponsabilidade fiscal, hipoteca o futuro e aumenta a espiral dos juros e da inflação, com péssimas consequências para os investimentos privados nacionais e estrangeiros. Os mesmos pobres atendidos hoje pagarão por isso amanhã.

Marcus André Melo* - Ocaso do populismo iliberal

Folha de S. Paulo

A sobrevivência da democracia assume formas surpreendentes

Anunciada com grande alarde, a morte da democracia nunca aconteceu. Como afirmou a esta Folha o cientista político Adam Przeworski, ela "virou bordão para atrair imprensa". Mas, se a democracia não morreu, o que está perecendo é o populismo iliberal; pelo menos é o que sugere a trajetória de suas lideranças canônicas: Trump, Orbán, Salvini, Bolsonaro, Modi, Babis.

O caso mais interessante é o de Orbán, cuja posição é a mais confortável, pois conta com o apoio de 2/3 dos membros do Parlamento húngaro —e as eleições ocorrerão em 2022. Mas a unificação da oposição, que superou o desafio dos quase incontornáveis custos de coordenação, deve causar sua débâcle. A engenharia política envolvida ilumina questões centrais da formação de frentes amplas.

Ao contrário de regimes presidencialistas, o processo envolve os partidos. Sob o parlamentarismo não há espaço para outsiders: o processo de seleção do ocupante da chefia do governo é fundamentalmente parlamentar.

Celso Rocha de Barros - Política por trás do teto deu errado

Folha d S. Paulo

Ministro Paulo Guedes, da Economia, virou um Pazuello de pé chato

Em 2016, Michel Temer ganhou o troféu "assim, até eu" por criar um teto de gastos que só valeria para seus sucessores.

Foi como se dissesse: "Então é isso, pessoal, sejam responsáveis com o dinheiro, é muito importante ser responsável com dinheiro, agora me deem licença que eu vou jantar com o Naji Nahas".

O teto de gastos morreu semana passada. Não morreu na mão de um ministro heterodoxo do PT, morreu na mão de um Chicago boy.

Não morreu porque era preciso gastar mais com pobre, morreu porque continua sendo necessário gastar mais para gastar com pobre. Ninguém conseguiu aumentar imposto de rico, ninguém conseguiu cortar gasto com setores não-pobres, quem decide eleição é pobre, o gasto aumenta.

O projeto político proclamado do teto era forçar a sociedade a discutir suas prioridades.

Catarina Rochamonte - CPI da Pandemia: justiça sem perseguição

Folha de S. Paulo

Não é admissível blindagem a quem quer que seja

A CPI da Pandemia revelou crimes graves, mas fez vista grossa para outros. Ao ignorar um dos seus objetos de investigação —a aplicação de recursos federais por estados e municípios no combate à pandemia—, abriu flanco para as acusações de parcialidade. Houve blindagem, por exemplo, dos envolvidos no contrato fraudulento entre a empresa Hempcare e o Consórcio Nordeste, que pagou R$ 48,7 milhões por 300 respiradores que não foram entregues.

Esse fato, porém, não pode ser usado para deslegitimar a totalidade dos trabalhos da CPI. Da mesma forma, levantar a ficha suja do seu presidente e do seu relator a fim de desqualificá-la é um argumento frágil. A CPI transcorreu em ambiente de transparência e foi conduzida mais pelo conjunto dos membros da comissão do que por sua mesa; devendo-se encarecer a participação da, em muito bom tempo agregada, bancada feminina.

Ana Cristina Rosa - Mercado mesquinho e miserável

Folha de S. Paulo

O problema no Brasil não é falta de alimentos

No celeiro do mundo, uma multidão de 20 milhões de desvalidos passa fome. Feito um bicho qualquer, homens, mulheres e crianças reviram o lixo em busca de sobras de comida, numa demonstração triste e vexatória do fracasso do Estado brasileiro.

Nas duas últimas décadas, o país tornou-se o quarto maior produtor de grãos —soja, arroz, milho, trigo e cevada— do planeta e o segundo maior exportador, abocanhando 19% do mercado internacional. É o que revela estudo da Embrapa intitulado "O Agro no Brasil e no Mundo: uma síntese do período de 2000 a 2020".

Bruno Carazza* - A responsabilidade de quem carrega o piano

Valor Econômico

Episódio Guedes evidencia fraqueza de Jair Bolsonaro

Há muitas métricas para se demonstrar o enfraquecimento de um governo. A ciência política trabalha com votos recebidos em votações importantes no Congresso, quantidade de vetos presidenciais derrubados ou medidas provisórias rejeitadas. E há indicadores mais sutis.

O palco havia sido armado com a intenção de prestigiar Paulo Guedes, alvo de ataques e especulações durante a semana. O presidente saiu do Palácio do Planalto para visitar o ministro da Economia e participar ao seu lado de uma entrevista coletiva. A postura de Bolsonaro no evento de sexta, porém, sugeriu exatamente o contrário.

Enquanto Guedes, por quase 25 minutos, tentava justificar o duplo carpado invertido em suas posições econômicas para derrubar o teto e, assim, viabilizar a estratégia eleitoral de seu chefe, Bolsonaro permanecia impassível, com o olhar perdido no horizonte. Mesmo quando o ministro negou que seu cargo esteve a perigo, ou minimizou os embates entre a equipe econômica e a base política, o presidente sequer balançava a cabeça em sinal de aprovação.

O único sorriso presidencial veio quando Guedes divulgou que nomearia André Esteves como seu número 2 no ministério - ato falho, ele estava se referindo a Esteves Colnago, e não ao banqueiro do BTG. Feito o anúncio, o presidente se levantou e partiu, abandonando um solitário Guedes para se defender das perguntas embaraçosas.

Alex Ribeiro - Como o Copom vai reagir à crise fiscal?

Valor Econômico

Mercado espera aceleração no ritmo de aperto monetário

O mercado financeiro espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que se reúne nos próximos dois dias, reaja com firmeza à crise fiscal causada pelo drible patrocinado pelo governo no teto de gastos. Será que a ação será à altura das expectativas?

É bem provável que o Banco Central procure se distanciar do barulho político em torno do mais forte ataque ocorrido, até aqui, à âncora fiscal. O caminho é tomar a política fiscal como um fator exógeno que afeta a inflação, fora do controle do BC, como se fosse uma geada que leva à quebra da safra agrícola.

Em termos práticos, o Copom deverá quantificar, nos seus modelos, o impacto direto do choque na inflação. Depois, verificar se, depois de tudo o que aconteceu, cresceram as chances de a inflação superar o previsto. Por fim, dosar o remédio dos juros para trazer a inflação para a meta. Ainda assim, não será nada fácil, porque terá que julgar o estado atual da política fiscal.

Os economistas do mercado estão fazendo os seus cálculos para tentar replicar a reação da autoridade monetária. Em setembro, o Copom projetou uma inflação de 3,7% em 2022 e disse que esse era o ano mais importante no seu horizonte de política monetária. Feitas as contas, o comitê concluiu que, num passo de alta de juros de um ponto percentual por reunião, seria capaz de cumprir seu objetivo no prazo escolhido.

José Eduardo Faria - O debate entre presidenciáveis, o revigoramento da democracia e o futuro do país*

Blog Horizontes Democráticos

Não fosse o candidato que disputará a reeleição, em 2022, conhecido por sua ignorância, pela compulsão à mentira, pelo desprezo ao diálogo construtivo e pela obsessão em desqualificar adversários, os debates entre os candidatos à presidência da República poderiam recolocar na ordem do dia alguns temas esquecidos, como, por exemplo, os relativos à capacidade organizadora, indutora e administrativa do Estado. Como esses temas são fundamentais para o futuro do País, sua discussão poderia ajudar a revigorar a democracia após a deterioração e a polarização do debate público que marcaram a vida política após o pleito de 2018.

Um dos temas mais importantes é a ideia de planejamento, o que exige a definição de objetivos, a fixação de metas, a formulação de indicadores, o estabelecimento de estratégias de longo prazo e a coordenação das ações necessárias. A ideia de planejamento é fundamental, dados os efeitos sociais dramáticos decorrentes da política de austeridade fiscal sem critérios sociais adotada por este e pelo governo que o antecedeu. Trata-se de uma política que, por estar focada somente na solvência do poder público, promoveu cortes orçamentários sem escalas de prioridade e sem consideração de suas repercussões sociais.

Ao ampliar o alcance da política de privatizações, convertendo em negócio privado o que até então eram determinados serviços públicos, essa política hiper-responsabilizou cada cidadão pelo seu destino, independentemente de sua condição social. A premissa era de que cada cidadão dependeria de suas capacidades, de seu empenho e de seus méritos, o que, no fundo, acaba culpando os mais desvalidos por sua situação. E como isso ocorreu num contexto de reformas trabalhistas, de enxugamento de direitos sociais e de baixas taxas de crescimento econômico, o resultado foi darwinista. Ou seja, preservou o poder dos que já tinham autonomia econômica, financeira e patrimonial e excluiu os que já estavam marginalizados.  

Antonio Risério* - Não posso ser julgado pelo que não está em 'Sinhás Pretas'

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Autor rechaça acusações de que seu livro legitimaria a escravidão

Um autor deve ser julgado por suas próprias palavras e não por palavras alheias – especialmente, em tempos de agressiva irresponsabilidade acadêmico-militante, como o que estamos atravessando.

Lembro isso porque deu pano pra manga um texto publicado aqui na Folha, a propósito do meu livro “As Sinhás Pretas da Bahia: Suas Escravas, Suas Joias”.

Como ficou claro que os contendores não leram o livro e suas disputas tomaram caminhos variados, acabei me vendo no meio de uma confusão, na qual fica parecendo que eu disse coisas que não disse — e que jamais diria.

Os principais absurdos foram os seguintes. Escrevendo sobre negras escravistas que se cobriram de sedas e joias, eu pretenderia duas coisas: arrefecer um ânimo antirracista e, pior, legitimar a escravidão. Nem uma coisa, nem outra. Elas realmente se cobriam de joias e ostentavam sua própria escravaria. Não inventei essa história. E isso nada tem a ver com a luta contra o racismo.

A luta contra a opressão social, que é maior do que a luta contra o racismo, não deve privilegiar a cor da pele de ninguém – ou não teríamos como condenar a atual exploração do negro pelo negro em África ou o “Black Lives Matter”, com seu racismo antijudaico e seus acenos nazistas.

Quanto a legitimar a escravidão, por favor, a imbecilidade não tem o direito de ir tão longe. Mas quero esclarecer alguns pontos.

Mirtes Cordeiro* - Violência doméstica e pobreza, vínculo que não se quebra facilmente

Falou e Disse

Segundo informações do AzMina, durante a pandemia, no Brasil, uma mulher é morta a cada 9 horas.

Para mim, a violência doméstica sempre foi uma questão observada, nunca vivenciada. Isso é o que sempre imaginei, mas agora eu tenho dúvida, após assistir à série americana Maid.

A série conta a história de Alex, uma mulher, filha, mãe e envolve uma criança que antes de completar três anos de idade é obrigada a sair de casa no colo da mãe, no meio da noite, após uma seção de violência psicológica praticada pelo seu pai, em busca de apoio nos abrigos para vítimas de violência doméstica do estado. A mãe, que também é filha, se vê desamparada do apoio da própria família, pois passou pela mesma situação quando criança. Cresceu em um ambiente marcado pela violência, pelas drogas, bebidas e abusos, isso tudo em meio a relação complicada com uma mãe, uma artista local, taxada por alguns como louca e bipolar.

Senti vontade de refletir um pouco a partir da produção cinematográfica tão bem conduzida, tratando de uma questão corriqueira no mundo e no nosso país. Na série, a protagonista não chega a ser agredida fisicamente. Já aqui, no Brasil, cansamos de casos extremos de feminicídio.

O Brasil é o quinto país do mundo com a maior taxa de feminicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a média é de 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres. Apenas no primeiro semestre de 2020 foram registrados 648 feminicídios no país, 1,9% a mais do que no mesmo período em 2019. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Governar é possível

O Estado de S. Paulo

Não é preciso um Congresso excepcional para o regime democrático funcionar

Não é preciso ter um Congresso excepcional para que o regime democrático funcione. A separação de Poderes dispensa utópicas perfeições, pois há limites e controles

Na tentativa de justificar a falta de resultados, o governo Bolsonaro difunde a ideia de que as instituições – em especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso – impedem o presidente da República de governar. Com os obstáculos e resistências que enfrenta, o chefe do Executivo federal estaria impossibilitado de realizar seu programa de governo.

Para começar, a desculpa não se aplica a Jair Bolsonaro, nem mesmo em tese. Ele nunca apresentou um programa factível de governo, tampouco se envolveu com as pautas que supostamente seu governo apoia, como as privatizações e a reforma da administração pública. De toda forma, muito além do bolsonarismo, há quem pense que, para o presidente da República de fato governar, seria preciso ter outra Constituição, outro Supremo e, muito especialmente, outro Congresso.

O argumento é um tanto perigoso para o regime democrático, uma vez que exclui a responsabilidade do governante em relação ao seu governo e, para piorar, atribui a ineficácia do Executivo à separação de Poderes. Sob essa lógica, tivesse o presidente da República mais poderes e recaíssem sobre ele menos controles, as coisas seriam diferentes. Ou seja, a argumentação encaminha-se, velada ou explicitamente, para o autoritarismo.

A ideia é, no entanto, uma falácia. Quando quer, o presidente da República é capaz de governar, implementando seu programa de governo e suas propostas. Logicamente, não será capaz de realizar tudo aquilo que se propôs. Mas conseguirá promover, a despeito de todas as dificuldades e oposições, muitos projetos e muitas mudanças.

Poesia | Carlos Pena Filho - Soneto oco

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.

Música - Teresa Cristina - Senhora Tentação

 

domingo, 24 de outubro de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - A direita, o centro e a esquerda no “dia do fico” de Paulo Guedes

A sexta-feira, 22 de outubro, promete ficar conhecida, na crônica política, como o “dia do fico” do ministro Paulo Guedes. O chiste parte, no entanto, de uma premissa no mínimo controversa: a de que ele, em algum momento, pensou em não ficar.

A primeira das interpretações possíveis - aquela que mais diretamente aciona a intuição e os sentidos de quem assistiu à bizarra entrevista coletiva de ontem à tarde – é a de um canastrão ébrio, delirante, inconsciente do seu script. O ex-posto de conveniência de um chefe mais aventureiro do que ele, que de há muito não se abastece com ele e sequer passa por perto dele, posa, tal qual um apóstolo de religião extinta ou um poeta de língua morta, de guardião de um teto de gastos imaginário enquanto se desnuda ensopado pelo aguaceiro político e fiscal que lhe tirou o prumo, a equipe e o que lhe restava de dignidade. Patético agonizar de um paciente terminal, ao qual não faltou uma cena que lembra outra. Em maio de 2020, o então ministro da Saúde, Nelson Teich, também em coletiva, ouviu perplexo, da boca de um repórter, a notícia de uma declaração de Bolsonaro que desmoralizava o que ele, ministro, acabara de afirmar.  Foi constrangedor comparar sua cara de traído, derradeiro sabedor da situação em que se metera, com o riso zombeteiro do general Pazuello, seu futuro sucessor, divertindo-se com a saia justa do condenado. Pois foi do mesmo sarcasmo o sorriso de Bolsonaro quando Guedes errou, ontem, o nome do novo auxiliar que anunciava na cena do “fico”. Sem noção do próprio papel e do lugar subordinado que ocupa, o ministro jactava frases baluartistas sobre um país inexistente e supunha um “acordo” seu com o presidente, a quem não obedece, mas com quem negocia. 

Passado o impacto da impressão que acionou a intuição da agonia pública e indigna de Paulo Guedes, apareceu lugar para um raciocínio mais ajustado à imagem do dia do fico. Dela decorre uma segunda linha de interpretação do episódio e do processo em que ele se insere, a qual, pelo que se pode notar, faz, até aqui, mais fortuna na cobertura da imprensa. Para o bem de poucos e felicidade particular dos que não tem noção do povo e da nação - vítimas reais da pobreza e doença adensadas pela perversidade de um desgoverno - o presidente fez um afago no ministro que é o seu elo com o mundo da economia. Pressionado pelo desastre das bolsas e do câmbio, de um lado e pelo apetite patrimonialista de sua base congressual, de outro, Bolsonaro pisou no freio com os políticos para prestigiar seu ministro, o qual, em retribuição, reviu a suposta inclinação a pedir demissão. Supõe-se que o mercado raciocina que ruim com Guedes, pior sem ele. Nada que signifique perigo do centrão perder a condição objetiva de aliado preferencial do Presidente, na hora do “vamos ver”. É adiamento de um desfecho, o que por si só mostra a simultânea fragilidade da situação política do governo e do próprio Bolsonaro, premidos por um caos econômico, uma crise social e uma alta rejeição popular. Que dizer do futuro de um governo para o qual o ébrio da banca ainda é uma âncora?

Merval Pereira - Não aprenderam, nem esqueceram

O Globo

Diante da crise que a cada dia se aprofunda no país, favorecida pela irresponsabilidade fiscal do presidente Bolsonaro e pela submissão das convicções do ministro da Economia Paulo Guedes às ambições políticas, tem importância didática relembrar as disputas da equipe que implantou o Plano Real com as forças políticas e econômicas que sustentavam a hiperinflação brasileira àquela altura.

É o que faz o economista Edmar Bacha, membro da Academia Brasileira de Letras, em seu recém lançado livro “No País dos Contrastes”, do selo História Real. Como dizia outro economista de renome, Roberto Campos, “o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, frase citada por Bacha ao relembrar o Programa de Estabilização enviado ao Congresso no final de 1993 quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda, que propunha uma série de reformas na revisão constitucional que estava prevista para cinco anos depois da promulgação da Constituição de 1988.

Constavam lá temas que ainda hoje estão inconclusos, como o “federalismo fiscal”, o “realismo orçamentário”, a “reforma tributária”, a “reforma administrativa”, eliminação dos monopólios estatais e reservas de mercado, reforma previdenciária. Houve avanços, como o fim do monopólio da Petrobras ou o início da reforma da Previdência, ainda hoje inconclusa. Mas perdemos quase 30 anos sem dar solução definitiva a questões que já eram conhecidas, e ainda hoje esbarram em interesses corporativos ou fisiológicos.

Bernardo Mello Franco - Genocídio com outro nome

O Globo

Em quase seis meses de trabalho, a CPI da Covid ouviu 68 pessoas em depoimentos transmitidos ao vivo na TV. Os senadores questionaram políticos, militares, empresários e lobistas. Mas não deram voz a um único representante dos povos indígenas.

Os índios não foram convidados nem para a sessão que ouviu parentes de vítimas da pandemia. Isso ajuda a explicar o tratoraço que removeu a acusação de genocídio do relatório final da CPI.

O texto do senador Renan Calheiros sugeria o indiciamento de Jair Bolsonaro pela prática do crime, tipificado na lei brasileira e no Estatuto de Roma. Também seriam enquadrados o presidente da Funai, Marcelo Xavier, e o secretário especial de Saúde Indígena, Robson Santos da Silva.

As propostas de indiciamento não significavam que os três seriam condenados. Mas retirá-los do relatório significa absolvê-los antes da abertura de uma investigação formal.

Míriam Leitão - Mentiras fiscais desviam o foco

O Globo

O governo terminou a semana com o presidente Bolsonaro acusado de nove crimes, e o Ministério da Economia com um desfalque de parte da equipe. Os dois eventos estão ligados. Bolsonaro, acuado pela CPI e pela perda de popularidade, anunciou elevação do benefício social, ainda inexistente, mas para isso foi preciso atropelar as regras fiscais. A reação foi a saída de quatro secretários da equipe econômica. Depois disso, o presidente visitou o Ministério da Economia, disse que o ministro tem sua confiança, e Paulo Guedes ficou no cargo.

A confusão feita pelo governo nos últimos dias vai impactar o país por muitos anos. Os juros vão subir mais para compensar a incerteza da política fiscal. O país crescerá pouco no ano que vem e os economistas já falam em estagflação. Enquanto isso o mundo estará crescendo forte.

– O mundo vai crescer 4,9% em 2022, será uma das maiores distâncias entre o Brasil e o mundo em quatro décadas — diz o economista-chefe de um dos maiores bancos do país.

Os mais otimistas estão prevendo que o PIB brasileiro suba 1%. Mas muitos economistas de bancos e consultorias estão reduzindo para números próximos de zero.

Luiz Carlos Azedo - A bagunça na economia

Correio Braziliense / Estado de Minas

Com a inflação descontrolada, ninguém sabe o resultado da equação “injeção de dinheiro no bolso dos mais pobres e elevação dos juros”, em termos de atividade econômica

Quem quiser que se iluda. A um ano do pleito de 2022, a política econômica do governo Bolsonaro entrou em acelerado modo eleitoral. Quando falou das pressões da ala política e da incompreensão dos jovens integrantes de sua equipe em relação ao teto de gastos, na entrevista coletiva de sexta-feira, no Ministério da Economia, ao lado do presidente da República, o ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizou que pretende manipular os instrumentos de que o Estado dispõe para intervir na economia no sentido de construir um cenário favorável à reeleição de Jair Bolsonaro.

É disto que se trata: começou uma corrida maluca para ganhar as eleições, na qual o governo pretende reverter os desgastes de Bolsonaro junto à população de mais baixa renda e, com isso, manter o apoio do Centrão. O carro chefe da estratégia é o Auxílio Brasil, o programa de Bolsonaro para substituir o Bolsa Família, além de outros benefícios, como o vale gás e o subsídio de R$ 400 para os caminhoneiros abastecerem os tanques de seus veículos. O rombo no teto de gastos, estimado em R$ 86 bilhões, pode chegar a R$ 100 bilhões.

O problema é que os R$ 400 anunciados por Paulo Guedes, R$ 100 a mais do que aceitavam os integrantes da equipe econômica que deixaram o governo, liderados pelo secretário de Tesouro Bruno Funchal, dificilmente serão mantidos pelo Congresso. Não para reduzi-los; pelo contrário, para aumentá-los, podendo chegar a R$ 600, como propôs o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa é uma bandeira que a oposição agarrará com as duas mãos, muito provavelmente com o apoio docemente constrangido do Centrão. A conferir!

Eliane Cantanhêde - O fim da picada

O Estado de S. Paulo

Quanto mais golpeia a economia, mais Bolsonaro abre a trilha da terceira via

Ao incinerar os princípios básicos da macroeconomia em favor dos interesses rasteiros da micropolítica, o presidente Jair Bolsonaro não percebe que faz mais o jogo do Centrão do que dele próprio e que trabalha contra a sua reeleição. Furar o teto de gastos não vai salvá-lo, vai afundá-lo de vez.

De um lado, Bolsonaro não entrega reformas, privatizações e neoliberalismo. De outro, atua contra a meta de inflação, os juros baixos, a responsabilidade fiscal e social. Não constrói nada e destrói o que já existe; não respeita nem demite Paulo Guedes, uma alma penada.

Na economia, o governo não tem ministro, plano de voo e o que mostrar, sem passado, presente e futuro. Na política, está nas mãos de quem desdenha da economia, do social e do próprio destino de Bolsonaro, fazendo da fraqueza dele a sua força. O principal efeito pode ser justamente eleitoral.

Quanto mais troca a responsabilidade fiscal pelo Centrão, mais Bolsonaro afugenta o setor produtivo, bancos, agronegócio, grandes executivos e economistas. E mais abre caminho para uma terceira via. O senador Rodrigo Pacheco e o ex-juiz Sérgio Moro vão se filiar, um ao PSD, na próxima quarta, o outro ao Podemos, em 10 de novembro.

Rolf Kuntz - Bolsonaro e a privatização do Orçamento

O Estado de S. Paulo

Dane-se o teto, danem-se os cuidados com as contas públicas: a prioridade número um do presidente Jair Bolsonaro é a reeleição. Para isso será usado o Orçamento federal. O ministro da Economia, Paulo Guedes, providenciou uma fórmula para facilitar a gastança. O truque, muito simples, é um joguinho aritmético acessível a qualquer pessoa. O limite de gastos será calculado a partir da inflação de janeiro a dezembro do ano base. Pelo critério anterior, usava-se o período de julho de um ano a junho do ano seguinte. Na feira, no supermercado e nas contas de luz e gás a explicação é evidente. Com a infernal aceleração da alta de preços, a nova fórmula põe muito mais dinheiro à disposição de sua excelência. Nem será preciso desenterrar um tesouro. O relevante, neste caso, será o Tesouro Nacional, com iniciais maiúsculas, em contraste com os padrões minúsculos do presidente e de seus acólitos e asseclas de todos os tipos.

Ao ajustar o teto de gastos a seus planos pessoais, o presidente reafirma, à sua maneira, os compromissos de privatização. Ele prometeu, em 2018, vender 50 estatais no primeiro ano de mandato e usar o dinheiro para reduzir a dívida pública. Não seguiu exatamente esse roteiro, mas tem-se empenhado em privatizar o Estado e a política orçamentária.

Elio Gaspari - Os frentistas abandonaram o Posto Ipiranga

O Globo / Folha de S. Paulo

Desde a posse do Posto Ipiranga, 19 frentistas já pediram o boné. Quase todos, por terem percebido que estavam perdendo tempo, ou queimando biografias

Num governo que já explodiu a meta da inflação, o ministro Paulo Guedes adoçou sua adesão ao estouro do teto de gastos falando difícil, com uma azeitona em inglês:

“Estamos buscando a formatação final dos R$ 400, fazendo a sincronização dos ajustes das despesas obrigatórias, dos salários e do teto ou pedindo um waiver.” Na gíria do carteado, a tradução dessa palavra é “estia”. O jogador que tem menos habilidade pede uma estia ao outro.

Quanto à sincronização, Guedes conseguiu a demissão sincronizada de quatro colaboradores. Desde a posse do Posto Ipiranga, 19 frentistas já pediram o boné. Quase todos, por terem percebido que estavam perdendo tempo, ou queimando biografias. Na Prevent Senior, diriam que elas caminhavam para uma “alta celestial”.

Guedes parece ter subestimado a saída do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, em julho do ano passado. Mesmo antes da posse, Mansueto mostrou ao czar que uma parte de suas promessas era fantasia. O economista havia passado com brilho pelo Massachusetts Institute of Technology e conhecia as mumunhas de Brasília. Ao ir embora, mostrou que entendia muito de política.

A última debandada da ekipekonômika mostrou que Guedes não entendeu onde se meteu. Nenhum deles foi-se embora porque Guedes sofreu derrotas políticas, mas porque tendo-as sofrido, meteu-se numa aventura injetando cloroquina na sofrida economia nacional. Guedes encantou-se ao ver que as portas se abrem sozinhas para deixar o excelentíssimo senhor ministro passar, e por essa porta 19 se foram.

Bruno Boghossian - A conexão América

Folha de S. Paulo

A um ano da eleição, apoiadores do presidente estreitam laços com estrategistas e redes de direita

A Polícia Federal mapeou conexões do bolsonarista Allan dos Santos nos EUA. Num pedido de prisão, investigadores apontaram que ele manteve contato com Owen Shroyer, que participou da invasão do Capitólio em janeiro, quando golpistas tentaram melar a eleição americana num ataque que provocou cinco mortes.

A ligação entre os dois não foi citada por acaso. Shroyer é apresentador do Infowars, canal de ultradireita que divulga teorias da conspiração e deu palanque livre para as acusações falsas de fraude que Donald Trump repetia para inflamar seus apoiadores após perder a eleição. No Brasil, o roteiro pode se repetir no ano que vem, com apoio externo.

Os bolsonaristas que ainda sonham com uma manobra para contestar o resultado da próxima eleição presidencial se inspiravam na estratégia trumpista. Mas há cada vez mais evidências de que está em desenvolvimento uma conexão operacional e financeira entre brasileiros e golpistas americanos.

Steve Bannon, ex-extrategista de Trump, se tornou uma espécie de conselheiro de Eduardo Bolsonaro. O americano já disse que a disputa brasileira é "a segunda mais importante do mundo" e considera a reeleição do presidente uma plataforma para reerguer um bloco internacional de extrema direita. Sua especialidade é a desinformação política.

Vinicius Torres Freire – Como pagar o aluguel do centrão

Folha de S. Paulo

Furo no teto já não basta para pagar Auxílio Brasil, bondades e emendas

A gambiarra para aumentar as despesas do governo federal em 2022 não deve ser suficiente para pagar a conta do pacote eleitoral previsto por Jair Bolsonaro, pelo centrão e por outros planos do Congresso. Pelo que está na emenda constitucional até agora, o aumento de gastos possível será de R$ 94,1 bilhões, somados o teto mais alto e o calote provisório, digamos, dos precatórios. A emenda ainda precisa ser votada na Câmara e no Senado. Há um acordão geral, entre quase todos os partidos e os comandos das duas casas, para aprovar o pacote.

Mas não vai dar para todo mundo.

Vai faltar ainda mais dinheiro se deputados e senadores decidirem dar alguma ajuda às pessoas que vão deixar de receber o auxílio emergencial e não vão entrar no novo Bolsa Família, o "Auxílio Brasil". Na manhã de sexta-feira (22), ouvia-se de gente do Congresso que era preciso arrumar algum auxílio para parte dos cerca de 18 milhões de pessoas que devem ficar sem nada. A conta ainda vai aumentar. Há quem diga, de resto, que o novo espaço fiscal não chega a R$ 94,1 bilhões. Pior ainda.

Assim, provavelmente não vai dar para pagar:

1) o "Auxílio Brasil", que vai custar R$ 46,7 bilhões além do que estava orçado para o Bolsa Família. É o custo de pagar R$ 400 por mês a 17 milhões de pessoas;

2) o aumento de despesa imprevista pelo Orçamento enviado pelo governo ao Congresso, aquela que vai aumentar porque a inflação vai ser maior do que estimada, o que eleva gastos com benefícios atrelados ao valor do salário mínimo, como os da Previdência. Deve ser um custo extra de quase R$ 20 bilhões, no mínimo de R$ 18 bilhões;

3) o aumento de despesas que está no forno: Vale GásBolsa Caminhoneiro, a prorrogação do desconto de impostos sobre a folha salarial de empresas (a chamada "desoneração"). Nada disso ainda foi aprovado ou mesmo planejado (caso do auxílio para caminhoneiros autônomos). Pelas contas ainda imprecisas de agora, o custo deve ser de uns R$ 14 bilhões;

Sobra então algo em torno de R$ 14 bilhões a R$ 15 bilhões. Mas a conta não acabou.

Hélio Schartsman - A paixão da igualdade

Folha de S. Paulo

A igualdade se tornou um valor fundamental —não só a igualdade em ato, aferível no índice de Gini, mas também a imaginada, que esculpe nossas utopias. Nem sempre foi assim. Ideias de igualdade pareceriam exóticas a um europeu do século 16. É a partir dos séculos 17 e 18 que o conceito vai sendo forjado e ganha corpo, especialmente na França. "A Paixão da Igualdade", de Vinicius de Figueiredo, um velho amigo dos tempos da graduação, conta essa história.

A obra tem uma pegada mais acadêmica do que os livros que costumo recomendar aqui, mas é perfeitamente legível. Na verdade, é um banquete intelectual de erudição, já que Vinicius mostra a gênese da noção de igualdade não só através de textos de filósofos como Descartes, Pascal, Voltaire, Rousseau e Diderot mas também da análise de obras da literatura, notadamente Corneille e Racine, e de pintores, como Watteau, Le Brun e Poussin.

Janio de Freitas – O exemplo sob riscos

Folha de S. Paulo

CPI proporciona modelo de atuação ao Ministério Público e ao  Judiciário

A descrença na punição dos indiciados na CPI da Covid, pelo visto, bem próxima da unanimidade, é um julgamento de tudo o que se junta no sentido comum de "Justiça brasileira".

Também desacreditado por parte volumosa da opinião geral, o desempenho da CPI excedeu até o admitido pelos mais confiantes.

O fundo da realidade volta à tona, porém. A criminalidade constada aliados por covardia ou por patifaria.

CPI traz mais do que a comprovação de um sistema de criminalidade quadrilheira, voltado para o ganho de fortunas e mais poder político com a provocação da doença e de mortes em massa.

Nas entranhas desses crimes comprovados, está a demonstração, também, da responsabilidade precedente dos que criaram as condições institucionais e políticas para a degradação dramática do país e, nela, a tragédia criminal exposta e interrompida pela CPI.

Nada na monstruosidade levada ao poder surgiu do acaso ou não correspondeu à índole do bolsonarismo militar e civil.

Muito dessa propensão foi pressentido e trazido à memória pública com exaustão, lembrados os antecedentes pessoais e factuais.

Também por isso as surpresas com a pandemia não incluíram a conduta do poder bolsonarista, que então prosseguiu, em maior grau, a concepção patológica de país traduzida na liberação de armas, nas restrições à ciência, na voracidade destrutiva.

Dorrit Harazim - Vísceras expostas

O Globo

O simples fato de a CPI da Covid ter existido e resistido, apesar da tropa de choque bolsonarista e da contrariedade do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, já foi notável. Duplamente admirável foi o empenho da maioria de seus integrantes em trabalhar como gente grande, com decência e benefício claro para a sociedade. Conseguiram dar algum compasso moral a um Brasil que, de resto, está à deriva e expuseram as vísceras de Jair Bolsonaro, cujo método de governo se assenta num amplo leque de tipificações penais.

Nada a festejar, porém. Não pode haver conforto para povo algum que tem na chefia da nação um presidente indiciado por crime contra a humanidade — no caso, contra sua própria gente. É igualmente trevoso para a história de qualquer nação ver seu presidente indiciado por mais outros oito crimes. É tudo de um horror abissal, por ser factual. E por quase ter ficado enterrado nos porões do governo, não fosse o dever cumprido pela maioria na CPI.

Cabe agora ao Ministério Público e à Justiça responder aos pedidos de indiciamento. E dar uma resposta adulta para a gargalhada com que o filho Zero Um do presidente, senador Flávio Bolsonaro, pretendeu desdenhar o documento histórico. O aspecto mais chulé da vida nacional anda esquisito — num curto espaço de tempo somos informados de que o presidente chora escondido no banheiro e de que o Marcola do PCC, líder da maior facção criminosa do país, está deprimido na prisão.

Alon Feuerwerker - A força do convencimento

Revista Veja

O sistema político-eleitoral brasileiro, a exemplo das engenharias de qualidade duvidosa, tem uma falha estrutural: o processo de escolha dos governantes procura contornar o debate sobre o que farão caso eleitos. E isso é potencializado pela esperteza dos diretamente interessados: quanto menos se antecipa o plano de ação, teoricamente mais liberdade de ação haverá.

A eleição brasileira de 2022 ameaça ser um caso típico. O espectro político está dividido em três grandes campos. Uns querem evitar a volta de Luiz Inácio Lula da Silva. Outros desejam impedir a continuidade de Jair Messias Bolsonaro. Outros ainda propõem ao eleitor derrotar ambos. E, portanto, escolher algo ainda desconhecido, mas que segundo esse campo certamente será preferível às duas alternativas.

A crítica aqui não pretende ser moral, pois os políticos estão apenas escolhendo o caminho aparentemente mais fácil. Como quando o votante é convencido a votar no “novo”, em contraposição ao “velho”. Foi mais ou menos o ocorrido em 2018. E nem dá para condenar o eleitor que de tempos em tempos decide fazer uma faxina, a única atitude à mão diante do descalabro geral, real ou construído no imaginário.

Mas, infelizmente, a conta tem sido pesada. A experiência brasileira com a democracia representativa instituída em 1984-85 não vem sendo boa. Os donos da pátria declaram dia sim outro também o apreço pela Carta de 1988, mas o produto do sistema por ela formalizado é uma cena persistente de baixo crescimento econômico, resiliência da desigualdade social e desorganização política.

Cristovam Buarque* - A gripezinha fiscal do Guedes

Blog do Noblat / Metrópoles

O debate atual sobre o financiamento do Auxílio Brasil é mais um exemplo de corrupção da bondade

As atas das sessões no Parlamento durante os debates da Lei Áurea mostram escravocratas argumentando contra a Abolição, porque os escravos livres ficariam desamparados e morreriam de fome. Isto é corrupção da bondade. Defender aos pobres fazendo mal a eles. Este caso extremo foi repetido ao longo de décadas na política brasileira. Não defenderam a Abolição com distribuição terra aos ex-escravos, defendiam manter a escravidão para proteger aos escravizados.

Esta tem sido uma prática comum da minoria privilegiada brasileira ao defender propostas que lhes interessem, argumentando a favor dos pobres. Além da corrupção no comportamento, que rouba dinheiro público, temos a corrupção da ostentação, a corrupção dos privilégios, a corrupção nas prioridades e corrupção das bondades falsas. O BNH foi criado com o argumento de dar habitação aos pobres, mas serviu para financiar o lucro de empreiteiras, e construir as mansões e apartamentos que caracterizam as moradias das classes médias e altas brasileiras. O sistema nacional de habitação deixou pobres sem água, saneamento e os privilegiados com bons apartamentos financiados com empréstimos subsidiados, construídos por pedreiros recebendo míseros salários e continuarão sem casa, água nem saneamento.

Em evento do PSD, Pacheco é 'convocado' a disputar a Presidência em 2022

Presidente do Senado foi instado por Kassab e Paes; cerimônia marca aumento da força política de prefeito do rio, que lança Felipe Santa Cruz como pré-candidato ao governo estadual

Camila Zarur / O Globo

RIO — No primeiro evento após o anúncio de sua filiação ao PSD, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, foi “convocado” a disputar a presidência da República em 2022. O pedido foi feito pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, presidente da legenda no estado, e pelo ex-ministro Gilberto Kassab, que comanda nacionalmente o partido. As falas foram feitas em uma convenção da sigla, no Rio de Janeiro, que também lançou a pré-candidatura do presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, ao governo estadual.

Logo na abertura da cerimônia, Paes fez uma referência ao desejo da sigla de ter Pacheco como presidenciável no ano que vem. A mudança de partido do senador já é um passo para que isso aconteça. Nesta semana, ele anunciou que está deixando o DEM para aceitar o convite de se filiar ao PSD feito por Kassab, um dos principais defensores de sua candidatura ao Planalto. A cerimônia que vai sacramentar a migração está marcada para a próxima quarta-feira, no Memorial JK, em Brasília.  

—  Como aqui no Rio não temos papas na língua, quero cumprimentar o próximo presidente da República, Rodrigo Pacheco — disse Paes ao saudar o futuro correligionário. Em outro momento do evento, voltou a enfatizar que o senador deve ser candidato: — Eu vim aqui como cidadão para dizer que você está convocado a disputar a presidência da República.

O mesmo tom foi adotado pelo presidente do partido, que reafirmou que o PSD terá um candidato próprio à presidência e disse que Pacheco só não será o escolhido “se ele não quiser”. Kassab ainda exaltou a trajetória do senador, que foi advogado criminalista antes de entrar na vida pública. O cacique ainda ofereceu todo o apoio da legenda ao parlamentar:

— PSD e os seus companheiros estão prontos para abraçar os seus projetos. Não só para a sua campanha, mas para você ser um grande presidente da República. Você tem todas as condições para vencer as eleições e deixar os mineiros e brasileiros orgulhosos — disse, se direcionando a Pacheco.

O senador, por sua vez, desconversou ao ser questionado se acataria a “convocação” de Paes e de Kassab. Pacheco respondeu que, por ser presidente do Senado e do Congresso Nacional, tem limitações que o impedem de afirmar sua pré-candidatura por ora, mas disse que, “no momento certo, haverá essa reflexão”.