domingo, 12 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente proteger juízes que atuam contra facções

Por O Globo

De acordo com Fachin, pelo menos cem magistrados temem represálias por combaterem crime organizado

É preocupante a situação dos juízes que atuam contra o crime organizado, exposta pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, ao participar da instalação de novas varas especializadas em organizações criminosas no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Brasil, disse Fachin, tem hoje ao menos cem magistrados exercendo atividades consideradas de risco, sob temor de represálias. Desses, 79 contam com medidas protetivas, como escolta armada ou guarda-costas. As ameaças, segundo ele, se expressam principalmente por meio de ataques cibernéticos, exposição de dados pessoais e perseguição digital.

Mudança de rumo, por Merval Pereira

O Globo

Flavio Bolsonaro pode ser inviabilizado como candidato à Presidência até mesmo antes de chegar a ser indicado pelo PL, pois as investigações do crime organizado no Rio de Janeiro chegam cada vez mais próximas a suas conexões pessoais.

Vivemos nessa eleição presidencial uma situação inversa à que se deu em 2018, quando o então desconhecido Jair Bolsonaro venceu. Naquela ocasião, o então ex-presidente Lula estava na cadeia, e no último minuto colocou Fernando Haddad para representá-lo. Hoje, é Bolsonaro quem está preso, e apressou-se a indicar seu filho, o senador Flavio Bolsonaro, para representá-lo. Lula demorou até onde pôde para assumir que não seria o candidato, imaginando com isso que transferiria mais facilmente seus votos para Haddad. Não deu certo.

Já Bolsonaro pensou em fazer o mesmo, mas sua situação era mais crítica que a de Lula, pois havia sido condenado por golpe de Estado, e dificilmente conseguiria um golpe parlamentar para tirá-lo daquela situação. A escolha de Flavio pareceu um erro no início, mas consolidou-se quando ficou claro que uma maioria da direita estava sendo levada para o extremismo da famiglia, tornando-se refém do populismo radical que elevou Bolsonaro a líder antiesquerdista. A fraqueza intrínseca de Flavio, porém, revela-se insuperável, além de seu telhado de vidro.

A democracia oligárquica, por Elio Gaspari

O Globo

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, livro de Joaquim Falcão expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam

Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.

Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.

O fundo do fundo do poço, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao decretar novas prisões, juiz relatou 'sangria das verbas públicas' na gestão Cláudio Castro

A frase é do juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa: “O estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”.

O magistrado decretou a prisão preventiva de seis envolvidos em fraudes no Instituto Rio Metrópole. Criado para elaborar projetos de transporte, saneamento e habitação, o órgão foi transformado em mais um sorvedouro de dinheiro público.

A operação de quinta-feira desmantelou um esquema que desviou ao menos R$ 86 milhões. Entre os presos, está o presidente da autarquia, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro. Também foram em cana o pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch. Ele se apresenta nas redes como “casado, pai, evangélico”, “conservador de direita” e “pela família”.

Em nome do pai, por Dorrit Harazim

O Globo

Há, no caso dos filhos de Netanyahu, apenas a inconveniência de um sobrenome atrelado a um incômodo chamado Gaza

Na semana passada, o diário israelense Haaretz apurou que o filho mais velho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu havia formalmente trocado de sobrenome em algum momento dos últimos 18 meses. Em sua declaração de Imposto de Renda de 2024, ele ainda era Yair Netanyahu, enquanto documentos fiscais de 2026 já o listam legalmente como Yonatan Hon.

Não terá sido o primeiro da linhagem. Seu avô paterno fez parte do movimento sionista que migrou da Europa para a Palestina sob o Mandato Britânico no início do século XX. Adotou um sobrenome hebraico para enfatizar o enraizamento na terra prometida. Líderes históricos como David Ben-Gurion, que nascera na Polônia como David Grün, o também polonês Shimon Peres, nascido Szymon Perski, a ucraniana Golda Meir, ex- Mabovitch, e tantos outros optaram pela reidentificação sionista. Data daquela época, e pelos mesmos motivos, a conversão do polonês Mileikowsky em Benzion Netanyahu, avô de Yair.

A Revolução Americana explica por que a democracia sobreviverá com Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É impossível assistir à série da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos

Geralmente, quando vivemos uma situação que não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e das contradições que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, "a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.

O presidenciável e o ministro do STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que a tentativa de golpe desuniu, o Master uniu: Flávio e Alexandre de Moraes

O prazo venceu e o presidenciável Flávio Bolsonaro não deu explicações ao PL sobre a dinheirama que pediu a Daniel Vorcaro. E o ministro Alexandre de Moraes? Jamais justificou o contrato fabuloso do escritório de sua mulher com Vorcaro. De Dias Toffoli, nem se ouve falar mais.

O mundo dá voltas. O que a tentativa de golpe desuniu, o Banco Master uniu. Flávio e Moraes, de lados extremos no julgamento de Jair Bolsonaro, estão numa situação semelhante em relação a Vorcaro e Master. De certa forma, inclusive, um serve de para-raios para o outro.

Como endurecer com Flávio e não Moraes, ou vice versa? Ambos alegam, um publicamente, outro entre amigos, que se trata de negócios ou acertos privados, sem nada a ver com dinheiro público, e nenhum dos dois sofreu operação de busca e apreensão da Polícia Federal.

Estadistas e governantes de turno, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis

“Como alguém se torna o que é” foi o subtítulo do livro de Nietzsche, Ecce Homo (1889 e publicado em 1908). Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis. Afinal, como afirmou Eduardo Giannetti, “na vida das nações, não menos que na dos indivíduos, os primeiros momentos imprimem ao que está nascendo traços de teimosa permanência”.

Os norte-americanos comemoraram, poucos dias atrás, os 250 anos de sua Declaração de Independência. Historiadores não deixaram de notar que a Declaração de 1776 não deve ser confundida com a ratificação da Constituição, que só veio a acontecer 13 anos depois, em 1789. Simon Schama escreveu artigo memorável sobre o tema, publicado em caderno especial do Financial Times (FT), em que explora a relação entre a declaração e a Constituição com foco nas visões dos founding fathers, cujos compromissos, conflitos e contradições ainda hoje são relevantes para entender não só como os EUA se tornaram o que são hoje, como também o que pode vir a ser seu futuro.

Crescer continua sendo o desafio, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Menos afetado pela crise global, o País segue atolado no baixo dinamismo

Trapalhadas de Flávio Bolsonaro e brigas da direita favorecem, por enquanto, a busca de mais uma eleição pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A bagunça internacional pode atrapalhar, mas a Petrobras tem conseguido manter as vendas externas, enquanto outros exportadores tentam compensar, em mercados diversos, as dificuldades criadas nos Estados Unidos pelo presidente Trump. Amizades problemáticas e suspeitas de corrupção, tema persistente no dia a dia da política brasileira, podem afetar a imagem do governo, mas sem danos importantes até agora.

A economia nacional permaneceu razoavelmente positiva no primeiro semestre. Até a primeira semana de julho, a balança comercial acumulou superávit de US$ 44,63 bilhões, 39,2% maior do que o alcançado em 2025 no mesmo período. O resultado foi obtido com exportações de US$ 190,66 bilhões, 11,8% superiores às de um ano antes, e importações de US$ 146,03 bilhões, com aumento anual de 5,4%.

Benedito, por Ignácio Loyola de Brandão*

O Estado de S. Paulo

Benedito Ruy Barbosa morreu na semana passada, aos 95 anos. Cinco a mais do que eu. Jovens, nos encontrávamos no jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Ele nos esportes, eu na geral e em variedades. Ambos magros, sotaque caipira. O meu, araraquarense; o dele, de Vera Cruz, vizinha a Marília.

Na verdade, depois descobri que ele nasceu em Gália. Este nome me remetia às aulas de latim do professor Luciano, que nos obrigava a decorar De Bello Gallico. Quando me contou de sua cidade, eu disse: Garça, Gália, Vera Cruz, Lácio, Marília. Trajeto que eu fazia nas férias indo para sítios de tios cafeicultores de porte médio em Vera Cruz.

Na UH – como dizíamos –, ele ficava muito perto de mim, graças aos meus contatos com o mundo do cinema e do teatro. Assim, cautelosamente, ele foi chegando ao Oficina e ao Arena, que se contrapunham ao “teatrão”, como se dizia, do TBC, e de Cacilda Becker, Nydia Licia, Sérgio Cardoso e outros figurões.

O limite da perfeição, por Leandro Karnal*

O Estado de S. Paulo

Sem amigos sinceros, capazes de nos criticar, apertamos parafusos sem saber quando parar

Guardem a ideia de que, para melhorar, por vezes chegamos ao excesso que coloca tudo a perder

Seu Walter veio instalar um filtro na parede da minha cozinha. A peça cilíndrica encaixa-se diretamente e deve ser girada até que a rosca fique bem vedada. Estava perto do fim da tarefa. Seria bom dar uma última volta para garantir vedação absoluta. É zelo. É prudência. Meia volta a mais e… tudo se estragou. Foi excessivo. A água jorrou. A tentativa de chegar à perfeição estragou tudo. A história foi real e ocorreu na minha cozinha, na Rua Cotoxó, bairro da Pompeia, em São Paulo.

Flávio mentiu para os americanos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro quer comprar ajuda de Trump com nosso dinheiro

Bolsonarismo tenta vender facilidade aos brasileiros após ter criado dificuldade

Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir que Donald Trump suspenda o tarifaço temporariamente. O tarifaço, para quem não se lembra, foi organizado por Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. Na questão do tarifaço, o bolsonarismo está tentando vender facilidade aos brasileiros depois de ter criado a dificuldade, uma tática clássica no mundo da corrupção.

É como se Lula tivesse pedido, e obtido, sanções chinesas contra o Brasil depois da vitória de Jair em 2018, só para aparecer em 2022 dizendo: olha, prometo resolver esse negócio de sanções chinesas, realmente terrível isso, quem será que fez, se vocês me elegerem eu as reduzirei pela metade.

Lula não fez isso. Os Bolsonaros fizeram.

Direita sente, em Flávio Bolsonaro, o bafejo de maus ventos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Resistências e falta de empenho da direita contrastam com os bons índices do senador nas pesquisas

Contratempos da candidatura comunicam que hipótese de derrota é fava que se conta sem grandes lamentações

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem isso porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. A acurada percepção sobre a direção dos ventos é uma das habilidades inerentes à atividade.

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro (PL) conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

Ruge um tigre de papel, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado ajuda a explicar fenômeno Espriella

Avanço internacional da ultradireita tem elementos que indicam mudança na relação de políticos com as massas

Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

Muitos times para um coração, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Perguntei à IA por qual time torcia o comediante Zé Trindade. Respostas: por nenhum e vários

Dependendo da formulação da pergunta, a IA, sem nenhum caráter, responde de modo diferente

Uma das qualidades da IA é que, ao lhe fazer uma pergunta, você terá direito a uma resposta múltipla. Só depende da maneira como formulou a dita pergunta. Outro dia, em meio a uma pesquisa sobre comediantes brasileiros do passado, perguntei à IA qual era o time de coração do genial Zé Trindade. Para quem não se lembra, Zé Trindade (1915-1990) foi um astro do estúdio Atlântida, em chanchadas deliciosas hoje proibitivamente incorretas até nos títulos, como "Mulheres à Vista" (1959), "Mulheres, Cheguei!" (1959), "Marido de Mulher Boa" (1960), várias outras.

Da Doutrina Monroe ao Make America Great Again: nada de novo no front, por Roberto Amaral*

Os EUA completam 250 anos de independência. Nada mais significativo e próprio celebrarem a efeméride sob a regência de Donald J. Trump, o presidente que, em pleno século XXI, representa, fortalece e atualiza a essência arrogante, colonialista e imperialista de sua história, como povo, nação e país. Essa essência ilumina a pretensão ideológica do destino manifesto, definido por Henry Kissinger como “a obrigação dos EUA de disseminar seus valores por todo o mundo” (Sobre a China, 2011).

As bases objetivas do imperialismo estão expressas na Doutrina Monroe (1823), consolidada pelo que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”. Refere-se à era da política do big stick do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909), resumível na frase: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete”, revista por Trump com a omissão da primeira parte.

O atual governo — intervencionista na América Latina, na Palestina, e no Irã, honrando o legado de seus antecessores — não pode ser visto como “um ponto fora da curva”.

Poesia | Festa da poesia, de Marcelo Mário de Melo

Vou à festa da poesia

festa de entrada franca

ninguém é dono nem manda

ninguém promove ou banca.

 

Nela os portões são abertos

por nuvens de passarinho

e o recepcionista

é um cavalo marinho.

 

Para iluminar o espaço

as estrelas se abaixaram

e as cores do arco-íris

se soltaram pra pintá-lo.

Música | Geraldo Azevedo - Dia Branco

 

sábado, 11 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Petro repete reação antidemocrática de Trump e Bolsonaro

Por O Globo

Ao contestar resultado das urnas, colombiano mostra que agressão à democracia não está restrita à direita

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou no início desta semana o processo de transição de poder conduzido com a equipe do presidente Gustavo Petro. Mesmo depois que a autoridade eleitoral oficializou a vitória por margem apertada do ultradireitista Espriella sobre o esquerdista Iván Cepeda, candidato do governo, Petro continuou a contestar o resultado (o próprio Cepeda reconheceu a derrota).

A semelhança com o que fizeram Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil é evidente. É uma prova de que a veia antidemocrática não está restrita aos populistas de direita. Sem apresentar um única prova, Petro afirma que houve fraude, nega-se a passar a faixa presidencial no dia da posse em agosto e marcou uma manifestação de rua para o dia 20 de julho, que vem sendo descrita como um replay do 6 de Janeiro de Trump ou do 8 de Janeiro de Bolsonaro. Não surpreende que Espriella acuse Petro de tramar um golpe de Estado e peça às Forças Armadas que protejam a Constituição e a democracia.

Brasil é território hostil a menores, por Flávia Oliveira

O Globo

Maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos

O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.

E por falar em saudade, por Eduardo Affonso

O Globo

É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais

Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade — essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade enjoada não vai embora.

Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor (saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).

Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos (diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria, da Bahia, dos tempos da Panair.

Prodígios congênitos do direito, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.

O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.

Uma nuvem que pesa toneladas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A IA está mudando a economia mundial, mas, para fazê-lo, usa uma quantidade gigantesca de capital

Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA) consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria exagero. Mas não é.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo. Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.

O Ceará na crise bolsonarista, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos, lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz o oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado "Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que ela tem projeto pessoal de consolidação de sua liderança no campo da direita

A intensificação da crise em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro tem desestabilizado os cenários estaduais, como é o caso do Ceará. A vinda do filho de Bolsonaro à Fortaleza para apaziguar os ânimos é uma prova do esforço que a sigla tem mantido para garantir alguma coesão na disputa cearense.

Embora tenha vindo justamente para fortalecer o palanque local, a presença de Flávio produz um efeito político ambíguo, especialmente após a veiculação da notícia de que o PSDB não lançará chapa própria para disputa da presidência. Isso se dá porque, em terras cearenses, Ciro precisa administrar o incômodo de se aliar ao bolsonarismo sem ser, na origem, um bolsonarista convicto. Sua aliança eleitoral com o PL criou uma contradição que desagrada a gregos e troianos, porque, do lado do bolsonarismo, a desconfiança com seu nome é real e, no campo progressista, ficou um gosto agridoce de um pragmatismo radical difícil para uma parte dos ciristas históricos digerir.

Linhagens do Estado de Direito, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Chineses têm participado de maneira cada vez mais ativa na formulação do direito internacional

O Brasil também deveria adotar urgentemente um plano de consolidação de seu Estado de Direito

O Fórum Mundial de Juristas levou a Pequim, neste mês, mais de 500 especialistas e profissionais do direito de diversos países, com o objetivo de promover o intercâmbio de experiências entre diferentes linhagens do Estado de Direito.

O momento não poderia ser mais apropriado. Apesar da crescente interdependência econômica e vertiginosa interconexão tecnológica, temos assistido a um forte declínio da capacidade das instituições baseadas no direito (rule based institutions) em responder aos múltiplos desafios globais, que vão dos conflitos armados à crise climática, passando pelo comércio e o respeito aos direitos humanos.

Essa crescente desordem internacional, agravada pela gestão Trump, está diretamente relacionada à onda de autocratização nos diversos continentes. A ascensão de líderes populistas, nacionalistas ou mesmo extremistas, tem contribuído para fragilizar a autoridade do direito, não apenas no âmbito doméstico, mas também internacional.

Obsessão por Trump vai derretendo candidatura do filho 01, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ao defender o tarifaço, Flávio Bolsonaro se afasta do meio empresarial e rompe com 'direita limpinha'

Para reduzir rejeição feminina, ele quer transformar a mulher, Fernanda, numa espécie de Michelle 2

Alguém pôs na cabeça de Flávio Bolsonaro –provavelmente o pai– que, sem a ajuda ou a interferência direta de Trump e a propaganda e as teorias da extrema direita internacional, ele não ganha a eleição. Até agora a sugestão teve um efeito contrário.

Na sua sexta viagem aos EUA neste ano, mais do que o número de idas a estados-chave durante a pré-campanha (cujo objetivo é o Palácio do Planalto, não a Casa Branca, é bom lembrar), o filho 01 esteve em uma audiência promovida pelo Escritório de Comércio para defender o tarifaço 2.0 –desde que a chantagem político-econômica entre em vigor só depois das eleições. Pediu o prazo de 90 dias, alegando que a medida pode vir no "pior momento possível" e beneficiar Lula. Um cálculo de quem teme não chegar ao segundo turno.

STF deveria ler Maquiavel, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corte deveria permitir que ministros envolvidos no caso Master sejam investigados

Medida, mesmo que não passe de simulação, ajudaria a recuperar imagem do Judiciário

A grande sacada de Nicolau Maquiavel foi ter separado a política da moral, o que lhe deu liberdade para analisar as relações de poder como elas são e não como gostaríamos que fossem. Não é uma coincidência que ele seja considerado o fundador da ciência política.

Está faltando ao STF ler um pouco de Maquiavel. Se os ministros da corte querem deixar para trás a crise de credibilidade em que se meteram, muito por causa do escândalo do Master, estão fazendo tudo errado.

IPCA mais baixo mostra que ruído contra BC foi exagerado, Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Pelos dados da inflação, o BC teria errado se tivesse parado o corte ou até subido a Selic

Que estrago adicional teria sido uma precipitação do Banco Central para uma economia que sofre com juros altos

dA desaceleração da inflação para 0,16% em junho, após marcar 0,58% em maio, mostrou que foi exagerado o barulho criado pelo mercado financeiro após a decisão do Banco Central de cortar os juros na última reunião do Comitê de Política Monetária.

Há menos de um mês, o cenário instalado no mercado era de fim do mundo com a decisão do Copom de continuar afrouxando a taxa Selic em um momento em que os índices inflacionários seguiam subindo para além do teto da meta de inflação.

Será um admirável mundo novo? Por Marcus Pestana

Ninguém é totalmente revolucionário, nem absolutamente conservador. O cidadão médio comum não gosta de instabilidade, rupturas radicais, mudanças desestabilizadoras. O novo, às vezes, assusta. Mas a história da civilização humana é tudo, menos a repetição monótona de um equilíbrio estático. Crises ocorrem ciclicamente. Se as pessoas gostam da conservação de tradições e estabilidade, por outro lado, a inquietação humana sempre persegue transformar a realidade. Se não fosse isso, não teríamos chegado, vindos da Idade da Pedra, à atual configuração do mundo contemporâneo. O medo do que é novo e a compulsão pela inovação convivem dialeticamente no desenvolvimento civilizatório.

Sobe o risco Brasil, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Fatores ligados à política, economia e geopolítica criam viés de alta

A normalização dos eventos extravagantes de nossa conjuntura institucional é um grave risco. Pior do que qualquer crise isolada é ignorar o empilhamento dos pontos polêmicos que se apresentam no presente e se anunciam no futuro. Nos anos 1930, Winston Churchill era ridicularizado por alertar para o perigo nazista — e por pouco a Inglaterra não sucumbiu. O acordo do então premiê Neville Chamberlain com Hitler em 1938 parecia trazer paz à Europa; Churchill não acreditou e preparou-se para o pior.

No Brasil, guardadas as proporções de comparação com uma guerra mundial, a situação é mais ou menos parecida. Aos riscos de sempre (rombo fiscal, conflito entre os Poderes, sanha tributária e decisões contraditórias do Judiciário) soma-se a deterioração externa. A química entre Trump e Lula está em baixa: afagos e elogios deram lugar à ameaça de tarifaço e, pasmem, ao temor oficial do Itamaraty de que os EUA possam ensaiar alguma operação militar em território brasileiro.

O inferno astral dos Bolsonaro, por Cláudio Couto

CartaCapital

A autofagia familiar e a subserviência ao governo Trump corroem o capital político do clã

A família Bolsonaro vive um inferno astral há semanas. Primeiro, a revelação das nada republicanas conversas de seu candidato, Flávio, com Daniel Vorcaro, pedindo ao pivô do escândalo do Banco Master mais de 134 milhões de reais para, supostamente, financiar o filme sobre a ascensão política do patriarca. Depois vieram novas revelações sobre contatos mantidos entre o senador e o banqueiro, consolidando o desgaste da candidatura e o declínio de suas intenções de voto.

Em clima de mata-mata, por Maurício Thuswohl

CartaCapital

Enquanto se defende das pautas-bombas, o governo corre para destravar a PEC do fim da escala 6×1

Em meio à frustração da sexta eliminação consecutiva do Brasil em uma Copa do Mundo, o governo redobrou seus esforços para também não sair derrotado em mais um confronto com o Congresso Nacional. Ao longo da semana, líderes governistas na Câmara e no Senado buscaram avançar em dua­s frentes consideradas fundamentais: a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6×1 e a reversão de nove projetos identificados pelo Executivo como “pautas-bombas”, que podem resultar em um impacto anual de 111 bilhões de reais nos cofres públicos. O presidente Lula deseja ver os dois nós desatados até 17 de julho, último dia antes do recesso legislativo, mas para conquistar essa vitória o time do Executivo terá que furar a retranca de Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

A bola e a vida, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Em sua universalidade, o jogo desencanta brasileiros, franceses, alemães…

A Seleção Brasileira foi machucada e eliminada por dois golaços de Haaland. Assim como todos os brasileiros, padeci as dores da derrota. Esporte universal e carismático, o futebol encanta e desencanta a vida de brasileiros, noruegueses, franceses, alemães e tutti quanti. Em sua universalidade, o jogo da bola imita a vida. Desencanta as almas nas derrotas e, logo depois, empolga os espíritos apaixonados dos torcedores com reviravoltas vitoriosas.

Nos anos 30 do século passado, os campeonatos mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram de palco para a competição entre sistemas políticos rivais. Correm rumores de que Benito Mussolini teria enviado uma mensagem à seleção italiana. A ordem do Duce clamava aos jogadores: “Ganhar ou morrer”.

Seleção sem alma, por Aldo Fornazieri

Carta Capital

O fiasco brasileiro na Copa também é resultado de uma crise de liderança

A Seleção Brasileira não tem alma. Perdeu-a na Copa de 2014, disputada em casa, na fatídica derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Uma seleção sem alma não tem ânimo, ímpeto, empenho, entrega, ousadia, brio nem determinação. A bronca não é porque o Brasil não vence um Mundial desde 2002. É natural que outras seleções conquistem o título, sobretudo em uma era de futebol globalizado. O problema está na forma como joga e reage – ou deixa de reagir – diante de uma situação adversa.

Poesia | A uma mulher que passa, de Charles Baudelaire

 

Música | Jura Secreta | Sueli Costa e Nelson Faria

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda de austeridade é bem-vinda no Rio

Por O Globo

Governador interino propõe enxugar máquina, sanear finanças e impor regras fiscais próprias

São sensatas e bem-vindas as medidas de austeridade defendidas pelo governador interino do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em entrevista ao GLOBO. O estado, frequentador assíduo de programas de recuperação fiscal, aderiu recentemente ao Propag, socorro federal a entes endividados. Certamente isso trará alívio necessário às contas estaduais. Mas a situação hoje é crítica. O Orçamento deste ano prevê um rombo de R$ 19,5 bilhões. São questão de bom senso o saneamento das finanças e o enxugamento da máquina pública promovidos por Couto.

Lições da Copa, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão

Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores. No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.

A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.

Michelle insiste e avisa que é ‘imparável’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Ex-primeira-dama agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres

Se o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o autodeclarado “imbrochável”, com direito a distribuir medalhas com o título aos aliados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dobrou a aposta na rebeldia, e avisou que será “imparável”.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou na quarta-feira (8) que em até 20 dias fincaria a bandeira branca no partido, reconciliando-a com o enteado, o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Contudo, a ex-presidente do PL Mulher foi a público comunicar que tem outros planos. Para além de liderança feminina, ela agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres.