segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescimento dos ‘penduricalhos’ revela descontrole

Por O Globo

Verbas no Judiciário subiram 43% além da inflação em um ano. Questão exige ação urgente do Congresso

A cada minuto, um acréscimo de R$ 5.700. A cada hora, R$ 342 mil. Foi nesse ritmo que a conta das verbas indenizatórias do Poder Judiciário, popularmente conhecidas como “penduricalhos”, aumentou no ano passado. Considerando apenas os vencimentos dos juízes que receberam acima do teto estipulado pela Constituição — R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) —, o gasto subiu de R$ 7,2 bilhões para R$ 10,3 bilhões entre 2024 e 2025, como revelou reportagem do GLOBO com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Isso corresponde a um aumento real de 43%, já descontada a inflação.

No ano passado, um estudo do Movimento Pessoas à Frente e República.org tentou levantar quanto o país gasta com pagamentos acima do teto em todos os Poderes. Um levantamento apenas parcial revelou gastos de R$ 20 bilhões em 12 meses, 21 vezes o gasto na Argentina, segundo país que mais gasta acima do limite entre os avaliados.

Receitas para se ganhar supersalários, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Plenário do Supremo decide nesta quarta-feira sobre a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu os penduricalhos nos Três Poderes

Bacharéis em direito, com pelo menos três anos de experiência, eles foram aprovados num concurso difícil que envolveu provas objetiva, discursiva, de sentença cível e criminal, exame oral e avaliação de títulos. Além disso, cada aprovado demonstrou conhecimento suficiente para vencer uma concorrência de 18,65 candidatos por vaga. O salário era atraente: o edital anunciava um subsídio bruto de R$ 32.250,05 por mês.

A trajetória do câmbio e o efeito sobre a inflação, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

No curto prazo, dólar pode chegar perto de R$ 5, mas proximidade das eleições e volatilidade externa podem levar a moeda a subir, especialmente no segundo semestre

O fortalecimento do real em relação ao dólar continua neste ano, num cenário em que a moeda americana perde força no mercado global e o Brasil é um dos emergentes favorecidos pelo movimento de diversificação de parte das carteiras dos investidores internacionais. O juro alto por aqui também tem contribuído para a valorização do câmbio. Na sexta-feira, o dólar fechou em R$ 5,1758, a cotação mais baixa desde maio de 2024. No ano, a queda é de 5,7%; em 12 meses, de 9,26%.

Eleições ecoam no carnaval, por Irapuã Santana

O Globo

Acadêmicos de Niterói andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política

O desfile da Acadêmicos de Niterói no carnaval de 2026 se transformou num dos capítulos mais complexos do Direito Eleitoral brasileiro. Ao escolher o presidente Lula como enredo, a agremiação andou sobre a linha tênue que separa a crônica social da propaganda política, gerando uma batalha jurídica que poderá redefinir os limites da liberdade de expressão artística.

A principal acusação que pesa sobre o desfile é de propaganda eleitoral antecipada. Em ano de eleições presidenciais, a legislação proíbe qualquer pedido de voto ou exaltação de candidatos antes de 16 de agosto. Para a oposição, o desfile funcionou como “showmício” financiado indiretamente, em que a biografia do presidente foi apresentada de forma hagiográfica e messiânica. O samba-enredo, as cores e a simbologia (como a onipresente estrela vermelha) foram apontados em representações ao TSE como tentativa de incutir no eleitor a ideia de continuidade administrativa, muito antes do permitido.

Intolerância que não paga imposto, por Miguel de Almeida

O Globo

A renúncia fiscal dada às igrejas representa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e segurança

Virou o ano, e os velhos vícios brasileiros continuam em alta. Patrimonialismo, corrupção, imoralidade jurídica, penduricalhos a perder de vista — a lista é extensa. A maravilhosa novidade é que setores evangélicos agora criticam o uso de dinheiro público. O mote partiu do desfile hagiográfico da Acadêmicos de Niterói em torno da vida de Lula.

A hipocrisia é evidente: quem acusa é useiro de isenções fiscais — as igrejas recebem subsídios, não pagam qualquer imposto. Mais: pastores não pagam IR sobre seus vencimentos religiosos. Michelle Bolsonaro também reclamou e esqueceu que seu salário é pago pelo Partido Liberal com verbas públicas do fundo eleitoral. Ô vida fácil.

Os dilemas do financiamento público, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Desenho institucional do financiamento público afeta a competição, a organização partidária e os vínculos com a sociedade

Ele pode aumentar a inclusão, mas apenas quando combinado com fiscalização independente e regras de transparência

Passado o Carnaval, a eleição de 2026 já domina o debate público. Lula buscará a reeleição, Flávio Bolsonaro se consolida como principal nome da oposição e, nos estados, multiplicam-se as incertezas sobre candidaturas aos governos e ao Senado. Mas, enquanto os nomes ainda estão em aberto, as regras e o dinheiro da disputa já estão definidos e influenciam decisões sobre o lançamento de candidaturas em todos os partidos e níveis da competição.

O Poder mais perigoso, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O STF avança sobre o orçamento e, o que é muito mais grave, sobre os meios de coerção

A erosão da confiança no árbitro final das regras do jogo afeta o equilíbrio entre os poderes e fragiliza a própria ideia de governo limitado pela lei

É quase um clichê para analistas recorrerem à afirmação atribuída a Alexander Hamilton, no Federalista 78, que o Poder Judiciário é o poder menos perigoso porque não detém o poder da espada nem acesso aos cofres públicos. Ocorre que no momento, em nosso país, o Poder Judiciário é sem sombra de dúvida o poder mais perigoso da República. As cortes superiores corroem o orçamento e, o que é muito mais grave, o STF avança sobre os meios de coerção —a espada. Essa situação é inédita do ponto de vista comparativo.

Xingar uma pessoa negra de macaco desumaniza e nega direitos humanos, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Racismo científico apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade

Isso explica o fato de o talentoso jogador de futebol Vini Júnior ter sofrido 20 ataques racistas em sua atuação pelo Real Madrid nos últimos oito anos

Macaco. A designação comum aos primatas, excetuando os seres humanos, é uma das manifestações mais explícitas e agressivas de racismo. Chamar, ou melhor, xingar uma pessoa negra usando essa expressão é uma forma de desumanização, animalização, inferiorização e negação de direitos humanos.

A origem da associação criminosa (racismo é crime, vale lembrar) de pessoas negras a símios (macacos, gorilas, chimpanzés…) segue a lógica da teoria (furada) do racismo científico, que apregoou existência de uma hierarquia racial na qual pretos e pardos encontram-se em condição de inferioridade.

Levados à força e se debatendo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Cada vez mais se adota o recolhimento involuntário de dependentes; mas será que funciona?

Uma terapia que comece na rua, caso a caso e sem tempo para terminar, pode dar mais resultados

Leio no Globo que 30% das capitais brasileiras estão adotando o recolhimento involuntário de dependentes químicos em situação de rua. A justificativa é que se trata de pessoas que põem em risco a própria vida ou a de terceiros. Não se trata de uma medida voluntarista dessas cidades. O Conselho Federal de Medicina já permite que parentes, responsáveis ou servidores públicos de saúde solicitem essa internação, sendo que a restrição da liberdade deve ser "pelo menor tempo possível".

Nunes contra o carnaval, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A Prefeitura da capital paulista, por incompetência ou desinteresse, está dinamitando a festa

Carnaval também é política. O desfile-comício sobre Lula da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí, que resultou no rebaixamento da escola, é o exemplo mais óbvio e recente. Além da bajulação ao presidente, os carros alegóricos e as fantasias foram elaborados para ridicularizar uma parcela da sociedade brasileira – e da classe política. O contrário também já ocorreu. Em 2019, o então presidente, Jair Bolsonaro, fez críticas aos blocos de rua, tomando a atitude isolada de alguns foliões como uma prova da degradação moral do carnaval. Seu filho Flávio, como pré-candidato à Presidência, tenta vender uma imagem mais moderada que a do pai e, na semana passada, tratou de enaltecer o carnaval, inclusive os cortejos de rua, como “uma das festas mais populares do planeta” e “um exemplo de como o Brasil pode ser criativo e fazer muito, mesmo com pouco”.

O futuro da Amazônia, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A ausência de um ordenamento fundiário efetivo obstaculiza investimentos e termina sendo um poderoso instrumento de não preservação ambiental

A Amazônia tornou-se uma questão geopolítica, de profundas repercussões militares, diplomáticas, econômicas e ambientais. Com a prevalência das relações internacionais da “lei do mais forte”, não há mais fronteiras asseguradas. O que era reconhecido ontem, pode deixar de sê-lo amanhã. As maiores potências agem estritamente segundo os seus interesses. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a operação americana na Venezuela expõem essa nova realidade. O Brasil deve assegurar a defesa do seu território, dando-se os meios para isso.

A Europa e a aliança China-Rússia-EUA, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

O apoio americano a Orbán, cortejado ainda por Moscou e Pequim, expõe uma convergência anti-UE

A recente viagem de Marco Rubio a Budapeste, após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, revela mais sobre política global do que parece à primeira vista. Com a Hungria em plena campanha para as eleições de abril, o secretário de Estado decidiu reforçar o apoio de Washington a Viktor Orbán, um líder que se orgulha de ter construído um “Estado iliberal” e, há anos, corrói a democracia húngara.

Poesia | Agosto 1964, de Ferreira Gullar

 

Música | Nara Leão - O Sol Nascerá ( Cartola)

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça tem impacto positivo no caso Master

Por O Globo

Ao suspender obstáculos à atuação da PF, novo relator contribui para a qualidade das investigações

O novo relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, foi feliz nas primeiras decisões que tomou no processo. Mesmo mantendo o caso sob sigilo, autorizou que a custódia, a extração e a análise das provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero seguissem o fluxo normal de todas as operações policiais e determinou que qualquer perito habilitado poderá ser designado para o trabalho. Mendonça também permitiu que a PF voltasse a compartilhar com a CPMI do INSS os dados sigilosos sobre o caso cujo acesso estava restrito à presidência do Senado.

Teses sobre Feuerbach, por Karl Marx, (escrito, 1845)

I

O defeito fundamental de todo materialismo anterior - inclusive o de Feuerbach - está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em oposição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, só considera como autenticamente humana a atividade teórica, enquanto a prática somente é concebida e fixada em sua manifestação judia grosseira. Portanto, não compreende a importância da atuação "revolucionária", prático-crítica

II

A política depois do vazio, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

A irracional reação nativista, potencializada em 2016 com o Brexit e a vitória de Donald Trump, sabidamente implicou novo e inédito recuo das formas da política

Uma percepção bem difundida, não só entre nós, é que a grande política bateu de vez em retirada, deixando-nos impotentes diante de círculos opacos de poder. Elites globais e nacionais, ou boa parte delas, parecem desfalcadas das personalidades que outrora indicavam rotas seguras em meio às tempestades. Este é um momento em que todos – liberais, conservadores, socialistas – temos motivos reais de queixa e frustração, que não poupam ninguém que se identifique com cada uma dessas áreas clássicas da política moderna.

Suprema Corte blindou a democracia americana contra autocracia de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Foi o primeiro freio de arrumação ao uso abusivo da autoridade executiva do presidente dos EUA. Outros casos importantes estão na pauta da Corte

Na sexta-feira, três juízes da Suprema Corte americana considerados liberais — Ketanji Brown Jackson, Elena Kagan e Sonia Sotomayor — votaram a favor da derrubada das tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em abril de 2025. Três juízes conservadores acompanharam: Amy Coney Barrett, Neil Gorsuch e John Roberts. Somente os juízes Brett Kavanaugh, Samuel Alito e Clarence Thomas discordaram do veredito. Essa virada de mesa é a primeira reação do “Estado profundo” americano às “loucuras” autocráticas de Trump.

Bom começo de ano, mas eleições trazem riscos, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Presidente e equipe certamente percebem a importância de um cuidado especial, nesta fase, com o crescimento, o emprego e a alta dos preços, um risco quase permanente no Brasil

Acorrida eleitoral começa com mercado de trabalho forte, inflação contida, juros elevados, perspectiva de crescimento medíocre e muita incerteza quanto ao controle dos gastos públicos. Com boa produção, a oferta de alimentos deve continuar satisfatória, mantendo preços moderados e deixando às famílias alguma folga para outros gastos. Mas o ano apenas começou, há uma grande insegurança internacional, reforçada pela retórica trumpista, e o quadro brasileiro poderá piorar se o governo cometer imprudências em busca de votos.

Diplomacia do morde e assopra, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Acordo em terras raras com a Índia amplia poder de barganha do Brasil com EUA e Trump

A Suprema Corte dos EUA veta o “tarifaço”, impõe limites e inaugura uma nova fase para Donald Trump, que, mesmo anunciando novas tarifas de 15%, entra em 2026 descendo do trono, caindo na real e carregando o assassinato de dois americanos pelo ICE, protestos internos por toda parte, o show de Bad Bunny e o fantasma de Epstein. Esse enredo confirma o acerto da estratégia de morde e assopra do presidente Lula.

O acordo de cooperação entre Brasil e Índia na área de minerais críticos, justamente neste momento, é um ótimo exemplo de reação a quem se considera “dono do mundo” e, preventivamente, a uma nova guerra fria, agora entre EUA e China, com alto potencial para transformar todos os demais em reféns de seus interesses e suas disputas.

Trump, Irã e o dilema do prisioneiro, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Eventual queda dos regimes do Irã e de Cuba poderia melhorar o humor dos americanos

Donald Trump disse na quinta-feira que vai esperar entre 10 e 15 dias por progresso nas negociações com o Irã, antes de decidir sobre ação militar. Em junho, o americano se deu duas semanas para decidir, numa quinta-feira, dia 19, e ordenou o bombardeio das instalações nucleares iranianas no domingo, 22.

Trump segue padrões de conduta. Na sexta-feira, ele admitiu a possibilidade de ataque limitado ao Irã, precisamente o que o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, tem tentado dissuadi-lo de fazer.

O USS Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, está se deslocando do Caribe, onde participou das operações contra a Venezuela, para o Golfo Pérsico. Lá já se encontra o USS Abraham Lincoln, deslocado do Mar do Sul da China.

As dores da política, por Merval Pereira

O Globo

Aparentemente, sem consultar seus pares, Alexandre de Moraes quer descobrir se funcionários da Receita Federal obtiveram os dados de sua mulher, e do ministro Toffoli. Alguns de seus colegas, porém, temem que Moraes tenha informações excessivas sobre eles e suas famílias.

Fui assistir à ópera “Um baile de máscaras” na Bastille, e não consegui deixar de pensar no Brasil. A obra de Verdi destaca temas como “destino inevitável”, “traição”, “perdão”, “sacrifício”, terminando com uma mensagem humanista: o perdão e a honra podem prevalecer mesmo diante da morte. Fiquei pensando, porém, na situação atual do Supremo Tribunal Federal (STF), que um ministro me definiu como de “insegurança”. A reunião, que se queria secreta, que definiu a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, foi gravada, provavelmente pelo próprio, o que deixou seus defensores abismados e temerosos. Que outras conversas teriam sido gravadas?

Justiça que tarda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Na mira por escândalo de 2022, governador estuda antecipar saída para evitar cassação

O Tribunal Superior Eleitoral marcou para 10 de março a retomada do julgamento de Cláudio Castro. Se for condenado, o governador do Rio será cassado e perderá os direitos políticos por oito anos.

Castro é acusado de usar a máquina e desviar dinheiro dos cofres do estado para se reeleger em 2022. O caso, conhecido como escândalo dos cargos secretos, foi revelado ainda durante a campanha. Envolvia o uso irregular da Uerj e da Fundação Ceperj para contratar milhares de cabos eleitorais, remunerados com saques na boca do caixa.

Em maio de 2024, o governador foi julgado no Tribunal Regional Eleitoral e escapou por apenas um voto. A Procuradoria-Geral Eleitoral recorreu ao TSE, onde o processo passou a andar a passo de tartaruga. Ficou adormecido por um ano até finalmente ser levado ao plenário em novembro passado.

O poder da moeda e a democracia, por Míriam Leitão

O Globo

Governo Trump leva à queda do dólar e venda de T-Bonds. Economista explica os movimentos contraditórios da economia

A economia tem dado sinais de um mundo em transição. Os indicadores apontam para direções diferentes. A administração Trump eleva a incerteza econômica, uma das razões da queda do dólar. A bolsa americana está em alta, e o ouro também sobe. A bolsa em alta pode ser confiança nas empresas, mas o ouro é um ativo típico de períodos de crise. Há sinais de que diversos países, como a China, têm diversificado suas reservas, reduzindo a quantidade de dólar. Mas o volume de investimentos em Treasury Bonds é tão alto que os países que quiserem abandonar esses títulos não têm para onde levar tanto dinheiro.

Tio Dorico ficou fora do desfile, por Elio Gaspari

O Globo

A Acadêmicos de Niterói levou Lula para a avenida. Cantou um samba com jeito de tese de doutorado e foi rebaixada. Nada a ver com a beleza da exaltação de Mestre Ciça. Cantaram a vida de Lula, em certos momentos na voz de Dona Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), sua mãe.

Na sua voz:

“Com o peito em pedaços

Parti atrás do amor e dos meus sonhos

Peguei os meus meninos pelos braços

Brilhou um sol da pátria incessante

Pro destino retirante

Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias

Me guiou Santa Luzia, São José alumiou

Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical

À liderança mundial.”

Três tempos, por Dorrit Harazim

O Globo

O futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar

Passado, presente, futuro — a história de Gaza e da Palestina anda revolta em três tempos, simultaneamente. São tempos interligados, que têm em comum o apagamento da pegada histórica, física e cultural de todo um povo. Na mesma semana em que o venerando Museu Britânico removeu o termo “Palestina” de parte de seu acervo permanente sobre o Oriente Médio, a menção à situação em Gaza despencou para 1,5% do noticiário nas mídias dos Estados Unidos, e Donald Trump estreou em Washington seu Comitê de Paz para tornar o enclave mais desfrutável (e rentável) no futuro.

Quando o impoderável entra em cena, por Gaudêncio Torquato

Folha de S. Paulo

História política brasileira está repleta desses momentos; análise eleitoral deve acompanhar doses de humildade

A política não é apenas a arte do possível, mas também a ciência do imprevisível

Na política, há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis —prontas para saltar sobre campanhas que pareciam seguir, firmes, o roteiro previamente traçado pelos marqueteiros.

Conto uma historinha.

O último dos bolsonaristas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Máquina neofascista intensifica coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam

Não tem a ver com realidade econômica nem política, mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada

Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.

Cada um no seu quadrado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A troca de diretas e indiretas entre governador de SP e secretário indica que devem seguir separados até a eleição

As divergências político-eleitorais provocam a mudança de um projeto político que até então unia os dois

Todo gesto na política tem um significado. Quando acompanhado de palavras, uma leitura das entrelinhas ajuda a esclarecer a intenção. Passada no raio-X, a manifestação de Gilberto Kassab (PSD) na sexta-feira (20) indica um afastamento de Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Primeiro, o contexto: no fim de janeiro, quando ficou claro que o governador abandonaria a ideia de se candidatar à Presidência para apoiar Flávio Bolsonaro (PL), o secretário de Relações Institucionais do governo de São Paulo falou que o chefe precisava ter "personalidade", criar "identidade" e não se submeter aos ditames do bolsonarismo.

O que vai fazer Trump depois de perder a licença para matar no comércio mundial, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Tarifaço era guerra por outros meios. Estados Unidos vão agora dar mais tiros de verdade?

Intervencionismo estatal vai continuar. Até agora, mexeu pouco em PIB e comércio do mundo

A Suprema Corte tirou de Donald Trump a "licença para matar" comercial, a liberdade para aumentar à vontade impostos de importação. Era instrumento importante de guerra econômica e de elevar receita. A redução de poder deve ser compensada pelo recurso a outras leis de tributação do comércio exterior —ou a armas reais. De passagem: o Brasil precisa prestar atenção a essa mudança, que pode ser mais perigosa do que o tarifaço de 40 pontos percentuais.

Suprema Corte puxa a coleira de Trump, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

É a primeira vez que as instituições americanas puxam com força a coleira do ocupante da Casa Branca

Decisão pode ajudar a oposição nas eleições legislativas; se Trump perder maioria, escalada autoritária pode fracassar

Suprema Corte americana derrubou as tarifas de Donald Trump. É a primeira vez que as instituições americanas puxam com força a coleira do ocupante da Casa Branca.

A Constituição americana, no seu artigo 1º, seção 8, estabelece que cabe ao Congresso americano decidir sobre impostos e tarifas. Nas palavras de James Madison, só o Congresso teria "acesso aos bolsos do povo".

Poesia | Velha chácara, de Manuel Bandeira

Música | Mônica Salmaso - Ciranda da Bailarina

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suprema Corte enfim impõe limites a Trump

Por O Globo

Ainda que ele tente restaurar tarifaço, juízes mostraram que um presidente não pode fazer tudo o que quer

Mesmo que tenha demorado, a Suprema Corte americana começou enfim a impor limites à Presidência imperial de Donald Trump. O tribunal decidiu que grande parte da alta nas tarifas de importação promovida desde o ano passado é ilegal. Por 6 votos a 3, os juízes determinaram que a lei de 1977 usada por Trump para justificar novas taxas emergenciais não dá amparo às decisões. Em nota, o tribunal afirmou que Trump não pode usá-la para reivindicar o poder de alterar tarifas sem aval do Congresso. Ele ainda dispõe, contudo, de outros instrumentos legais para decretar tarifas, com base em justificativas como segurança nacional ou práticas comerciais desleais.

Luiz Werneck Vianna (1938-21.2.2024)* - Onde mora o perigo (O último artigo, do meu amigo, no Blog, (17.2.2023)

Quase dois meses da defenestração do fascismo tabajara do Estado já se respira melhor e o alento da esperança se faz sentir mesmo no caminho de pedras que temos pela frente. Verdade que o governo democrático tem agido com tino, reforçando e ampliando suas alianças, além de perseguir pautas de larga aceitação como as da consolidação das nossas instituições e, principalmente, na sua opção pelos temas ambientais, hoje quase consensuais. Contudo, o cenário, na aparência inofensivo, mal esconde as ameaças que nos rondam. Estropiado como está, depois do insucesso da trama golpista de 8 de janeiro, o bolsonarismo ainda é um movimento político com forte representação no poder legislativo e conseguiu atrair segmentos da população curtidos pelo ressentimento, homens e mulheres, boa parte de meia idade, que encontraram nele um sentido para suas vidas obscuras e solitárias e deve persistir como força eleitoral, ao menos a curto prazo.

Seu movimento não se expressou na forma partido, provavelmente porque Bolsonaro, formado na cultura política do AI-5, dominante nos desvãos da caserna dos anos 1970, sempre se orientou tendo em vista um golpe militar, refratário à política e aos movimentos de massa, apenas mobilizados para fins de agitação e de valorização do seu papel de condottieri. O resultado desastrado da intentona do infausto dia 8, segundo recente declaração sua, parece que lhe abriu os olhos para a política. Daí para a forma partido falta um passo.

Supremocracia em xeque, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

A guarda da Constituição não pressupõe a manutenção do modelo supremocrático

Como a autoridade judicial não se renova pelo voto, não será fácil sair desta crise

Após contribuir de maneira fundamental para defender a democracia de seus inimigos, o Supremo Tribunal Federal imergiu, por seus próprios feitos, numa aguda crise reputacional. A questão que se coloca neste momento é se conseguiremos superar esta crise ou se estamos frente ao esgotamento do modelo supremocrático.

Ao concentrar no STF as funções de tribunal constitucional, corte de últimos recursos e tribunal de primeira instância para a classe política, a Constituição deslocou o Supremo para o centro do sistema político. Não houve questão relevante de natureza política, econômica ou moral a que não se tenha reclamado a última palavra do Supremo.

Política e economia, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder

O ano, afinal, começou. Na próxima segunda-feira, serão iniciados os trabalhos de 2026. Até agora, os brasileiros desfrutaram do Natal, do réveillon, das férias e do carnaval, que, segundo a crença geral, não constituem tempo hábil para trabalhar. Curioso é que, exatamente neste momento, o governo do presidente Lula tenta revogar o sistema que consagra seis dias de trabalho para um de descanso. Ou seja, é o incentivo oficial à boa vida. Vale tudo para vencer a eleição.

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. A produtividade do trabalhador europeu ou norte-americano é várias vezes superior à do nacional. Do ponto de vista da matemática, não faz sentido diminuir o tempo de trabalho e manter salário. Mas os objetivos eleitorais são diferentes da natureza das coisas. O presidente, que anda distribuindo bolsas de todos os tipos e tamanhos, foi obrigado a elevar muito os impostos, para cumprir suas promessas. 

Vorcaro e os embalos de Trancoso, por Thaís Oyama

O Globo

Com caviar à farta, festas eram repletas de beldades croatas, russas e ucranianas para alegrar os convivas

Um cínico diria que, no território da concupiscência, os operadores da Corte brasiliense refinaram bastante seus métodos. No primeiro governo Lula, lobistas recorreram à autointitulada “promotora de eventos” Jeany Mary Corner para que suas “recepcionistas” azeitassem as relações entre empresários e integrantes da “República de Ribeirão Preto”, como era chamado o núcleo da Fazenda comandado por Antonio Palocci. Os encontros — que, segundo testemunhas, ocorriam numa mansão do Lago Sul, com churrasco, uísque 15 anos e latas de energéticos — hoje parecem festa de quermesse perto do padrão de suntuosidade com que o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, tratava os seus amigos, entre eles vultos da República.

Olha elas, por Flávia Oliveira

O Globo

Festa foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana

O carnaval 2026, que chega hoje ao sábado derradeiro, premiou um sambista, Ciça, o mestre dos mestres de bateria, enredo campeão da Unidos do Viradouro; homenageou um astro, Ney Matogrosso, via Imperatriz Leopoldinense; reverenciou um intelectual negro, Nei Lopes, autor de “Ifá Lucumí”, livro que inspirou o desfile da Paraíso do Tuiuti. Pôs holofotes em Luiz Inácio Lula da Silva, tema da rebaixada Acadêmicos de Niterói, e na movimentação dos adversários pela disputa eleitoral. Espantou-se com o prefeito da cidade brincando de deficiente visual no camarote na Avenida; e com o pré-candidato ao governo do Rio, o mesmo Eduardo Paes, apoiado pelo presidente de esquerda, acertando a sério a vaga de vice com o clã de Washington Reis, hegemônico em Duque de Caxias, bolsonarista raiz.

O travessão, esse injustiçado, por Eduardo Affonso

O Globo

Ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata

Com a IA fazendo revisão gramatical, tradução — e até coluna de opinião! —, há cada vez mais leitores em alerta para o risco de estarem comprando GPT por gente. E um dos sinais mais evidentes da trapaça (sim, usar máquina de escrever é uma coisa, usar “máquina de escrever” é outra...) são os travessões.

Nada mais injusto. O travessão já existia na Idade Média e se consolidou com o advento da imprensa, fazendo o meio de campo com os parênteses, a vírgula e o ponto e vírgula. Os parênteses chamam o leitor para um canto e cochicham alguma coisa, com as mãos em concha. O travessão, não: ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata. É mais que o respiro dado pela vírgula — é uma pausa dramática. Ela só interrompe; ele cria um clima. Se o ponto e vírgula se esforça para organizar, o travessão apita e manda parar o jogo.