terça-feira, 7 de dezembro de 2021

João Doria* - O projeto do PSDB para consertar o Brasil

Folha de S. Paulo

Debate não deve ser entre Bolsonaro e Lula, mas sobre passado e futuro

As prévias do PSDB confirmaram a vocação democrática do partido e a necessidade de mudarmos o Brasil. Precisamos da ajuda de todos, da união do PSDB e da convergência com outros líderes e agremiações para elaborar, a partir de agora, um projeto nacional inovador e realista. Um projeto que vai consertar o Brasil, sem imposições, nem personalismos. Queremos conquistar corações e mentes para superar a polarização que tem servido para empobrecer o país.

De tudo o que debatemos nas prévias e das experiências que o PSDB semeou ao longo de sua história, podemos listar sete pontos iniciais, que iremos detalhar com especialistas:

1 - Acabar com a fome: o país que é celeiro do mundo não pode ter quase 30 milhões de pessoas vivendo com menos de R$ 9 por dia. Nosso primeiro olhar será para milhões de brasileiros que hoje se encontram na miséria. Defendemos programas de transferência de renda, sem furar o teto de gastos, com ensino integral para as crianças, programas de geração de renda e emprego. Com contas sustentáveis, fazer reformas não para gerar superávit primário, mas para garantir a inclusão dos mais pobres;

2 - Gerar empregos: emprego é consequência direta do investimento. A melhoria do rendimento médio do trabalhador está ligada à formação educacional e técnica e à competitividade do país. O mercado de trabalho mundial está em transformação, e nós temos que vencer o déficit de produtividade. Novos empregos significam também mais autonomia às famílias;

Luiz Carlos Azedo - Acordo de Bolsonaro com Centrão pode ser a Geni das eleições

Correio Braziliense

O choque entre o velho patrimonialismo e a modernização da vida nacional inicia um novo capítulo. De certa forma, o chamado orçamento secreto é a ponta desse iceberg

Lembram da música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque de Holanda, composta para a Ópera do Malandro? “De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/Ela já foi namorada/O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada”, diz letra, cujo refrão se tornou muito popular: “Joga pedra na Geni! /Joga pedra na Geni! /Ela é feita pra apanhar! /Ela é boa de cuspir! /Ela dá pra qualquer um! /Maldita Geni!”. No jargão dos políticos, virar uma Geni é uma espécie de filme queimado, um personagem antipatizado pela opinião pública que acaba isolado dos próprios aliados.

É mais ou menos o que está acontecendo com o Centrão, sem que seus artífices se deem conta, porque vivem numa esfera eleitoral onde o patrimonialismo e o voto de cabresto ainda têm muita força. O ministro da Casa Civil e presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI); e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), hoje concentram poder suficiente para manter a base do governo na Câmara, mas inversamente proporcional à imagem que estão construindo na opinião pública. Esse poder vem diretamente do controle que hoje detêm sobre o Orçamento, principalmente sobre a distribuição e a execução das chamadas emendas secretas.

Cristina Serra - Curió, Heleno e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

O buraco que ficou em Serra Pelada é a metáfora perfeita do Brasil que deixa gente, terra, meio ambiente e Amazônia aniquilados para o proveito de poucos

Quem é mais velho lembra, quem não lembra basta digitar "Serra Pelada" para encontrar imagens do que um dia foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, nos anos 1980, no sul do Pará. Fotografias de Sebastião Salgado mostram homens cobertos de lama, arqueados sob o peso dos detritos que tiravam das entranhas da terra, na esperança de enriquecer.

Pouquíssimos ficaram ricos com o ouro. A maioria morreu de doenças, tiro, faca ou foi soterrada. No lugar, restou uma imensa cratera e um lago de mercúrio. Esse inferno foi controlado com mão de ferro por um militar do Exército, o Major Curió, que participara da repressão à Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970. Em denúncias do Ministério Público Federal, Curió é acusado de tortura e assassinato. Não por acaso, é amigo de quem? Sim, Bolsonaro.

Hélio Schwartsman - Língua dos anjos ou dos picaretas?

Folha de S. Paulo

Por que Deus, em sua suposta onipotência, teria criado uma marca religiosa que não nos permite diferenciar fiel e farsante?

Pessoas merecem respeito, mas só pessoas, não seus pensamentos. Uma ideia tola é tola não importa quem a tenha proferido. E o que dizer da glossolalia, a ideia de que fiéis, particularmente os de denominações pentecostais, podem, por inspiração do Espírito Santo, ganhar a habilidade de falar outros idiomas, naturais (caso em que o fenômeno ganha o nome de xenolalia) ou desconhecidos?

A epistemologia pode ser madrasta cruel. Como é virtualmente impossível provar que algo [o Espírito Santo] não existe num domínio tão amplo como o Universo, temos de nos contentar em analisar a plausibilidade do fenômeno. Inicialmente, religiosos acharam que os sons emitidos pelos fiéis eram outras línguas humanas. Há histórias de missionários que partiram para terras longínquas imaginando que conseguiriam miraculosamente se expressar no idioma ali falado. Mas, como mostra Robert Mapes Anderson, eles acabavam voltando, abatidos e desiludidos. Foi ganhando corpo então, entre os crentes, a ideia de que a sequência de balbucios era a própria língua dos anjos.

Joel Pinheiro da Fonseca - Existe cristofobia no Brasil?

Folha de S. Paulo

Discurso evangélico de vítima ganharia credibilidade com atos para coibir a intolerância à fé alheia

Se protestantes das mais variadas denominações já compõem mais de 30% da população brasileira, é natural e positivo que um membro desse grupo integre o STF (Supremo Tribunal Federal).

Que esse evento seja tão raro mostra que a religiosidade brasileira, assim como tantas outras coisas, tem também um recorte de classe. A comemoração efusiva da primeira-dama —se não tiver significados mais venais—, é uma mostra da importância da representatividade desejada por tantos milhões de brasileiros.

Muitos viram, riram ou se assustaram com Michelle "orando em línguas", prática comum em igrejas pentecostais. Esse tipo de reação alimenta o discurso de parte das lideranças evangélicas de que seus adeptos são uma minoria perseguida no país. Mas será mesmo?

O preconceito e a intolerância religiosos também obedecem a uma divisão de classes. Uma coisa é o que vale no discurso da elite cultural, e outra coisa é o que ocorre no dia a dia da maioria do país.

Entre a elite cultural —composta pela comunicação, jornalismo, academia, artes etc., ou seja, uma minoria letrada, com ensino superior—, há sim um menosprezo pelo mundo evangélico.

Pilhérias, espanto, repulsa ou até medo são algumas das reações que um culto evangélico mais animado pode produzir entre membros da classe, bem como comentários maldosos e um menosprezo intelectual pela pessoa. Isso tudo é real e negativo, podendo causar e perpetuar injustiças.

Eliane Cantanhêde – Bolsonaro, o boquirroto

O Estado de S. Paulo

Alguém pode dizer ao presidente para ouvir e pensar, antes de falar?

Em boca fechada não entra mosca, mas o presidente Jair Bolsonaro não para de falar absurdos que têm imenso impacto, ora na saúde e na vida das pessoas, ora na credibilidade do Brasil, ora diretamente na economia brasileira. Impressionante!

Por sorte, os brasileiros confiam nas vacinas, antes para o combate a doenças que foram praticamente erradicadas, agora para resistir à covid-19. Se tivessem seguido a orientação e o exemplo do presidente, a pandemia teria sido ainda mais drástica.

Por sorte também, o Brasil tem história, tradição, excelentes institutos, um bom sistema público e profissionais muito capacitados na área de saúde pública. Nossos epidemiologistas são incansáveis, um consolo.

Felipe Salto* - Zilda Arns, Dom Hélder e o Orçamento

O Estado de S. Paulo

O desafio da reconstrução e da modernização orçamentária demandará rapidez e acurácia

Em dezembro de 1991, Dom Hélder Câmara discursou em Pernambuco: “Que contradição, que negação clamorosa: cristãos (...) excluindo do acesso às mais elementares condições de vida muitos daqueles a quem proclamamos admitir como irmãos. (...) Será por incompetência? Será por inconsciência? Será por alienação? Ou será por impiedade mesmo?”. É a incompetência, Dom Hélder! Ela tem culpa maior. Muito foi feito a partir da redemocratização, mas há ainda uma situação que nos envergonha, que dói na alma de todos – cristãos ou não.

Dez anos depois, em 2001, no programa Roda Viva, na TV Cultura, Zilda Arns contou que a Pastoral da Criança gastava menos de um real (R$ 0,86) per capita ao mês. Em valores atuais, R$ 2,86 por criança. Os resultados colhidos – e a pastoral continua em operação – foram a redução da mortalidade infantil, a melhoria das condições de nutrição e a prevenção de uma série de doenças.

As práticas adotadas eram replicáveis e de baixo custo. As equipes visitavam as famílias para ensinar práticas de higiene, de aproveitamento de alimentos, pesagem dos recém nascidos, enfim, uma estratégia baseada na informação de boa qualidade e na orientação cuidadosa. Zilda Arns respondeu com ações concretas à angústia de Dom Hélder.

Ana Carla Abrão - Alta do crédito deve ser menor em 2022

O Estado de S. Paulo

Em 2022, o crédito deve crescer 7,3%, frente aos 12,7% esperados para 2021 e aos 15,7% de 2020

Crédito e atividade costumam andar juntos. A não ser por conta de intervenções pontuais (algumas desastrosas, outras bem-vindas), observa-se que o crescimento da economia e o dos volumes de crédito tendem a apresentar trajetórias muito parecidas. Em 2020 não foi assim, o que se explica pelos necessários estímulos ao crédito que, com o auxílio emergencial, atenuaram os efeitos da pandemia. Em 2021 o crescimento perdeu força, em particular no crédito para pessoas jurídicas, cuja base de comparação veio alta como consequência das ações e garantias do governo no ano anterior. Mas o crédito a pessoas físicas continuou assegurando um crescimento do crédito total em dois dígitos em 2021.

Para o próximo ano, a nota de crédito divulgada pelo Banco Central referente a outubro consolida o fechamento do ano e sinaliza o que deverá ser o próximo. Com 1,5% de crescimento nos saldos de outubro em relação a setembro de 2021, observa-se 16% de aumento na comparação anual. São R$ 4,5 trilhões, dos quais R$ 1,2 trilhão se destina a empresas em operações de descontos de faturas de cartão de crédito, capital de giro, financiamento às exportações. Na pessoa física, o crédito continua crescendo acima dos 20%, concentrado nas operações com cartão de crédito e no crédito pessoal. Há um outro tanto de crédito que, ainda hoje, se baseia em direcionamentos obrigatórios de crédito a taxas reguladas. Aqui o crédito rural se destacou.

Pedro Fernando Nery - Moronomics

O Estado de S. Paulo

Em seu livro, o papel do Bolsa Família parece subestimado pelo candidato

Gostaria de ter lido mais livros este ano. Tudo bem, não devo ter lido menos livros do que os jurados da categoria reportagem do Prêmio Jabuti. Mas, mesmo assim, queria ter lido mais. Achei, então, que não valeria a pena queimar uma leitura com o livro do Moro, mas a curiosidade me fez ir atrás.

O presidenciável defendeu o pagamento do Auxílio Brasil sem furar o teto de gastos, manifestando-se contrário à PEC dos Precatórios. Mas isso implica corte de dezenas de bilhões em outras despesas. Quais? Daí fui procurar no livro o que ele pensa.

Só que o livro não traz respostas como essa. É mais um esforço de relações públicas do que uma análise aprofundada dos problemas do País, lembrando os lançamentos do mercado americano. Lá é comum que pré-candidatos se apresentem com autobiografias simpáticas.

Andrea Jubé - Apoio do PSB implica “PAC do futuro”

Valor Econômico

Pacto de economia verde demandaria R$ 500 bi ao ano

Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2011, “Lixo Extraordinário” apresentou ao mundo dois fenômenos: o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um grande aterro sanitário na Baixada Fluminense; e o líder dos catadores de material reciclável do local, Sebastião Carlos dos Santos.

Conhecido como Tião Santos, ele fundou e se tornou o principal porta-voz da Associação de Catadores de Material Reciclável do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Com a repercussão do filme, ele ganhou notoriedade, tornou-se consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e palestrante na área de economia verde.

Onze anos depois da fama e na esteira dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP-26), Santos não tem diploma de economista, mas sabe fazer contas, talvez mais do que muitos gestores.

Luiz Schymura* - É preciso gerar trabalho de qualidade

Valor Econômico

É fundamental que importantes aprimoramentos institucionais entrem em vigor, como os do sistema tributário, do sistema educacional e da gestão do Estado brasileiro

Muitos dados e estudos têm sido apresentados para descrever a deterioração das condições do mercado de trabalho brasileiro. De fato, a realidade não é nada animadora. Para piorar, com a chegada da pandemia, um quadro que já causava preocupação ficou ainda mais crítico. Agora é aguardada a volta à “normalidade” em um ambiente transformado pela revolução tecnológica na estruturação do trabalho remoto.

De início, em relação ao período pré-pandemia, proponho a análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que classifica as ocupações do trabalho brasileiros em 127 categorias. De acordo com a Pnad entre o terceiro trimestre de 2012 e igual período de 2019, houve a criação de 4,4 milhões postos de trabalho. Salta aos olhos que em seis das 127 categorias profissionais, que empregam hoje cerca de apenas 18% do total da população ocupada (PO), foram geradas 5,25 milhões novas vagas. A Pnad classifica as seis ocupações da seguinte forma: “comerciantes e vendedores de lojas” (6,5 milhões de ocupados no terceiro semestre de 2021); “vendedores de rua e postos de mercado” (915 mil, na mesma data); “outros vendedores” (3,01 milhões); “condutores de automóveis, caminhonetes e motocicletas” (2,8 milhões); “cabeleireiros, especialistas em tratamento de beleza e afins” (2,1 milhões); e “cozinheiros” (1,3 milhão). É importante notar que as 121 categorias remanescentes agregadamente tiveram um desempenho pífio. Ao longo do período, destruíram liquidamente 850 mil postos de trabalho.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Terrivelmente evangélico

Valor Econômico

Constituição é a fonte das razões que devem ser compartilhadas por crentes e descrentes

Uma coincidência biológica me proporcionou a ventura de frequentar as lições de um juiz ao longo de 60 anos. Escolhi o discurso de 1965 proferido por ocasião de sua aposentadoria. Aposentou-se por temer a invasão de suas prerrogativas de juiz independente por um esbirro fardado das oligarquias golpistas. Nada de heroico, apenas submissão aos valores liberais e republicanos que guiaram sua vida desde os tempos da Faculdade de Direito de São Paulo.

Ele falou aos amigos que o homenageavam: “Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões; dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. No exercício das minhas funções de magistrado, diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las, e, ainda que em meio de uma atmosfera serena e compreensiva, em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão; e, se alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência”.

Merval Pereira - Líder de fancaria

O Globo

O presidente Jair Bolsonaro empenha-se diariamente em desmontar a frágil institucionalidade brasileira, por palavras e atos. Muitas dessas atitudes são pura falta de educação, mas a maioria delas reflete uma necessidade de controle autoritário dos órgãos públicos com fins pessoais, sejam eleitorais ou simplesmente em defesa de interesses próprios.

Uma visão da máquina estatal amesquinhada pelos muitos anos de vida parlamentar à sombra de pequenos desvios, como as “rachadinhas” nos gabinetes próprios e dos filhos, que o seguiram na carreira parlamentar, herdeiros de um império eleitoral montado em bases frágeis, do ponto de vista democrático, e conspurcado por relações promíscuas.

A intervenção na Receita Federal é a mais recente decisão nesse sentido, com a saída do secretário José Tostes devido a uma divergência com a família Bolsonaro, que tem candidato para o cargo de corregedor do órgão, vago desde julho. Por que a família presidencial tem interesses desse tipo em diversos órgãos fiscalizadores, como a Receita, o Coaf, a Polícia Federal?

Míriam Leitão - O favoritismo de Lula em 2022

O Globo

A preocupação com a fome e a miséria voltou a ser um dos cinco mais importantes temas apontados pelo eleitor. “Isso é a primeira vez que acontece desde a eleição de 2002”, explicou Márcia Cavallari do Ipec, Inteligência em Pesquisa e Consultoria. Entre os eleitores que recebem até dois salários mínimos, 60% manifestam intenção de votar no ex-presidente Lula. “Eu não me lembro de ter visto um apoio tão intenso como esse, entre os mais pobres”, disse o cientista político Jairo Nicolau, da FGV. O primeiro turno será daqui a dez meses, mas os especialistas já sabem que a crise econômica estará no centro do debate.

Segundo Márcia, nas pesquisas feitas pelo Ipec, a saúde é apontada como um dos assuntos mais importantes, mas isso sempre aconteceu desde 1989. O desemprego é outro ponto. A preocupação com a fome e a miséria é para 21% o problema mais importante, enquanto o combate à corrupção, que em 2018 apareceu com 40%, perdeu força e está agora com 17%.

Carlos Andreazza - Como se faz um Mendonça

O Globo

André Mendonça é ministro do Supremo. Pode-se afirmar que tinha, no momento da sabatina, saber jurídico maior que o de Dias Toffoli quando de sua inquirição no Senado; ambos, um como ministro da Justiça, o outro, como guarda da Constituição, tendo usado a autocrática Lei de Segurança Nacional — que confunde a defesa impessoal de Poderes com a proteção personalista do poderoso de turno — contra o que consideraram ameaças institucionais à República, o primeiro para intimidar críticos de Jair Bolsonaro, o segundo com censura a uma revista, a Crusoé, cuja investigação lhe fora desagradável.

Aos que já reagem dizendo que não se podem comparar atos discricionários de Toffoli/Moraes, porque centrados em bandidos bolsonaristas, com os de Mendonça, cujo ministério abrigou dossiê contra servidores, pergunto se não terá sido essa relativização do bem, pela causa virtuosa, uma das máquinas a asfaltar a estrada por meio da qual sectários (também) reivindicam o direito de interpretar a Constituição enviesadamente desde o Supremo. Hein?

Um Toffoli, advogado de partido, sempre chama um fundamentalista advogado de capitão.

Isso para desde logo dizer que a dilapidação do STF não começou ontem e não deriva exclusivamente de despreparo; mas da compreensão da Corte como arena político-partidária, palco para pelejas ideológicas, logo terreno para a representação de grupos de interesse.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Digerindo o futuro do presente

Passaremos o Natal comedidos e assustados, esperando a recessão de 2022 e envolvidos em uma luta política que nada tem a ver com a vida cotidiana e sofrida dos cidadãos. Não haverá nenhuma grande reforma, nem revolução. Apenas eleições. Será um espetáculo, com a possibilidade de gerar poucas esperanças e, concomitante, algumas consequências desastrosas. Nunca soluções.  Os brasileiros digerem mal o presente e não sabem discutir o futuro. 

A sociedade, tratada ainda, no campo da política, como "massas”, enreda-se fácil pelas conversas inócuas, pelas falsas agendas e explicações técnicas para algo que, por antecipação, já se sabe que não vai acontecer. Será mais um ano de inutilidades - à ser acrescentado às tais décadas perdidas -, de digestão de ódios. de frustrações e muitas agressões ao bom senso e à cidadania.  Não tem um culpado específico. Todos somos culpados, coniventes com esse ambiente. A realidade está em outra direção.

A tendência do Milênio destoa totalmente do que vamos assistir no próximo ano por aqui, com o agravante imediato, segundo o próprio Mark Zuckerberg, de que "se o Facebook não atualizar suas políticas e deixá-las nebulosas, existe uma probabilidade muita alta de se ter uma avalanche de desinformação e tentativas de interferência nas eleições" (Campos Mello, FSP, C-4, agosto, 2021). O brasileiro estará mais distante ainda do futuro que se anuncia com a chegada das novas gerações. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Cisternas do centrão

Folha de S. Paulo

Programa para o semiárido dá exemplo nefasto de politização da política pública

O programa federal de cisternas levou mais de 929 mil reservatórios d’água para pequenas propriedades do semiárido —cerca de 58 mil por ano até o início do governo de Jair Bolsonaro. Em 2019, antes da epidemia, foram 26,5 mil. Neste 2021, só foram instalados em torno de 2.700 equipamentos.

São sinais de que falta prioridade para um investimento de baixo custo destinado a melhorar as condições de vida em regiões pobres do país. Ou, talvez, de dificuldades impostas pela Covid, embora as empresas da construção civil tenham levado adiante um grande volume de obras muito mais complexas, driblando o vírus.

Mais certo é que o programa foi desestruturado por uma mistura de desordem institucional e politização indevida da política pública.

Reportagem da Folha mostrou que o governo federal passou a ignorar organizações sociais e conselhos locais que, no sentido amplo, supervisionavam o projeto. No lugar de uma iniciativa bem-sucedida e de prestígio internacional, fica o toma lá dá cá da baixa política.

Poesia | Graziela Melo -Poema tímido

Há,

na timidez

do meu

silêncio,

 

constante

ou esporádico,

 

noturnas

lembranças

incertezas

fortuitas!

Saudades

perenes

 

perambulam

dentro

de minha alma!!!

 

Circunspecta,

tímida,

impotente

Música | Teresa Cristina e Grupo Semente - Samba do amor (Paulinho da Viola)

 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Fernando Gabeira - Um passo para a teocracia

O Globo

No momento em que o país afunda na recessão, e cresce a insegurança alimentar, começo com um tema secundário, desses que os analistas políticos acham que mereciam apenas uma nota de pé de página na história.

O tema são os gastos do cartão corporativo de Bolsonaro. Ele gasta a média de R$ 1,3 milhão por mês, e suas despesas estão sendo julgadas, em segredo, pelo Tribunal de Contas.

É muito dinheiro para quem tem casa, comida, conexão e transporte gratuitos. O relator do processo é o ministro Raimundo Carreiro, o mesmo que Bolsonaro designou embaixador do Brasil em Portugal. Um prêmio.

O deputado Elias Vaz (PSB- GO) pediu que o relator se declarasse impedido. Mas é duvidoso que aceite isso ou que seja levado a isso.

Carreiro foi um grande amigo de Sarney. Nasceu num distrito de Nova Iorque, no Maranhão, e aos 16 anos votou pela primeira vez na UDN. Dizem que se declarou dois anos mais velho para ser eleitor de Sarney.

Sempre foi protegido do cacique maranhense. No Senado, saiu da área de produção de atas e acabou sendo um assessor vital para os presidentes. Sua fidelidade o levou ao Tribunal de Contas, e agora parece cruzar o oceano com ele.

Miguel de Almeida - Como vingança, Bozo escreve sua biografia

O Globo

O Bozo é um tipo informado (pelo Carluxo), esperto (-5%+4%=9%) e ganancioso como um jogador de palitinho em barraca do calçadão. E tem ciúme de homem.

Tomou ódio de João Doria não por causa da CoronaVac. Foi antes. Ao vivo e em cores não conseguiu sequer pagar uma flexão de solo. Doria fez quinze, com toda a técnica (sem suar o botox).

Quanto ao Moro, a discórdia não ocorreu pelas rachadinhas ou por nomeações na Polícia Federal. A carpidura bozofrênica veio à tona com os elogios públicos às gravatas do ex-juiz.

Em duas semanas, as admoestações aumentaram no campo da vaidade. Bozo não é alguém capaz de cultivar veleidades — isso não é coisa de homem. Silas Malafaia pode tingir o cabelo, mas isso lá é um particular dele.

Mas com a idade (e a barriga) despontaram sentimentos como o despeito, a dor de cotovelo, enfim, tornou-se um tipo ínvido — brotou o tal do olho grande. Sim, passou a ser cobiçoso.

Os últimos dias foram brutais para azedar seu ressentimento. Lula ganhou uma biografia escrita por Fernando Morais. “Esse cara, depois de amar Quércia, xingar Gabeira, gamou no ex-operário”, Bozo ouviu de militares próximos.

Até aí, tudo bem. Faz parte do jogo. Mas agora Sergio Moro também escreveu um livro, uma autobiografia! Mesmo que a prosa seja em um estilo Maringá, tipo Norte do Paraná, ou gravata e camisa da mesma cor, isso doeu no capitão.

Irapuã Santana - Liberalismo popular

O Globo

Liberal não gosta de pobre? Pobre de direita não deveria existir?

Essas são algumas ideias que foram espalhadas por aí como verdadeiros mantras inquestionáveis em boa parte de nossa sociedade.

Entendo que os questionamentos precisam ser feitos e que necessitamos refletir melhor sobre o tema.

Primeiro, devemos observar quem são as pessoas que compõem as comunidades, o que elas querem e o que sentem. Nada melhor para chegar a esse tipo de conclusão do que efetivamente perguntar a elas. Afinal, elas têm o tal do “lugar de fala”. Em pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, essas respostas foram buscadas. O primeiro ponto interessante é que, pela rotina extremamente atribulada, as pessoas não ligam muito para rótulos de esquerda e direita — o que não é, de forma alguma, ruim. A pessoa que sai de casa às 6 horas da manhã e volta às 10 da noite tem como prioridade descansar para trabalhar no dia seguinte e manter a rotina, atrás do pão de cada dia.

Bruno Carazza* - O Senado e o povo

Valor Econômico

Disputas pelas 27 cadeiras em disputa serão cruciais

Senatus Populusque Romanus - o Senado e o Povo de Roma. A sigla SPQR está presente em documentos, moedas e monumentos da Roma Antiga. O seleto grupo de representantes das famílias mais poderosas assumiu diferentes funções ao longo da monarquia, da República e do Império Romano. No princípio tinha caráter consultivo, aconselhando o rei nos momentos de crise; com o passar do tempo, seus decretos legislativos e suas orientações jurisprudenciais passaram a orientar a evolução de uma das principais civilizações da história.

O Senado brasileiro replica o arranjo institucional criado pelos Estados Unidos em 1789. Enquanto o povo é representado na Câmara dos Deputados, os Estados que compõem a Federação têm o direito de eleger senadores para representar seus interesses nos desígnios da nação.

No projeto concebido por Oscar Niemeyer para o Congresso Nacional, as cúpulas destinadas à Câmara e ao Senado são diferentes em relação ao tamanho, à posição e à distância em relação às torres centrais - a semiesfera destinada a abrigar o plenário dos senadores é menor, voltada para baixo e mais próxima ao centro do que a da Câmara. O arquiteto buscou o equilíbrio não por meio da simetria entre as duas Casas, mas pelo confronto de formas e volumes - tal qual acontece no jogo do poder.

Em 2021 o Senado Federal assumiu o papel de conter o avanço da agenda concebida pelo casamento de Bolsonaro com o Centrão, celebrado com a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a Presidência da Câmara.

Alex Ribeiro - BC se exime de culpa pelo baixo crescimento

Valor Econômico

Economia definha com a crise fiscal e a falta de reformas

Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre mostram que a economia está estagnada, e deverá continuar assim no ano que vem. Qual é a culpa do Banco Central, que está apertando a política monetária de forma acelerada para conter a alta inflação?

O diretor de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, acha que os principais responsáveis são outros: os ruídos da política fiscal e os velhos problemas estruturais, que limitam a velocidade de expansão da economia. Os juros, claro, também têm a sua parcela de responsabilidade, mas ainda não tiveram tempo de chegar à atividade econômica.

Neste ano, o Congresso Nacional incluiu no mandato do Banco Central, na lei que deu autonomia à instituição, o objetivo secundário de suavizar a flutuação da atividade econômica, que deve ser perseguido desde que não comprometa a meta principal de estabilidade monetária. Mas o BC não faz milagres.

Marcus André Melo - Corrupção e eleições presidenciais

Folha de S. Paulo

A corrupção como bandeira política não é um tema como outro qualquer

"O Chile não merece esta corrupção transversal", denunciou Gabriel Boric no primeiro turno da campanha presidencial no Chile. Ele se referia ao caso SQM —grande escândalo de corrupção que durante o governo Bachelet envolveu seus atuais adversários do Unidad Constituyente (centro-esquerda) e do Chile Vamos (centro-direita). E lamentou a falta de apoio deles para as medidas concretas que propôs para a punição dos envolvidos.

Para Kast, seu adversário, "a corrupção não é de esquerda ou de direita, é de todos os setores. Não é hora de pôr as mãos no fogo por ninguém, mas de auditar e investigar todos."

Não podia ser diferente: ambos são outsiders; a bandeira da corrupção é tema de quem está fora do governo. Sobretudo de quem nunca foi governo. Quem detém ou deteve recentemente a caneta para nomear, demitir, contratar e pagar é que pode ser denunciado por corrupção. Incumbentes nunca tratam da corrupção a não ser quando são recém-chegados ao poder.

"Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder". Esta máxima de Millôr é certeira e tem respaldo na literatura.

Catarina Rochamonte - Atos secretos, atores corruptos

Folha de S. Paulo

Câmara e Senado estabeleceram o poder de utilizarem verbas públicas sem dar satisfação ao público

Que um Parlamento destine a si mesmo verbas bilionárias para serem distribuídas entre deputados e senadores de forma secreta e discricionária por um colega relator é, além de imoral, inconstitucional.
A institucionalização da compra de votos por meio da esbórnia orçamentária possibilitada pelas emendas do relator (emendas RP-9) que direcionaram verbas do orçamento secreto fere os princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência que a administração pública deve obedecer.

Por isso mesmo a ministra Rosa Weber, do STF, suspendera tais emendas, exigindo transparência sobre a verba assim liberada nos últimos dois anos. Em resposta, o presidente da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, assinaram e mandaram publicar um ato conjunto que, em frontal desrespeito à Suprema Corte, afirmava que o Congresso Nacional manteria em segredo os nomes dos parlamentares beneficiados. Chamados a convalidar o ato dos presidentes, os nobres parlamentares estabeleceram para si mesmos —por um placar de 268 a 31 na Câmara e 34 a 32 no Senado— o poder de se utilizarem de verbas públicas sem dar satisfação ao público.

Celso Rocha de Barros - A Biografia de Lula

Folha de S. Paulo

Fato de o biógrafo ser próximo ao biografado, em princípio, não desqualifica uma obra

As primeiras 160 páginas da biografia de Lula escrita por Fernando Morais (Lula: Biografia, Volume 1, Companhia das Letras, 2021) são dedicadas ao ano e meio entre a prisão do ex-presidente em 2018 e sua libertação no final de 2019.

O tom é diferente do resto do livro: Morais viu de perto o que narra e interpreta o que viu como alguém que estava no centro da briga, sem qualquer pretensão de distanciamento.

No fim do livro, explica que foi uma mudança com relação ao projeto original: Sentiu que não era possível, em 2021, publicar a biografia de Lula sem esse depoimento.

Mesmo nesse trecho há histórias inéditas de bastidores, inclusive uma –sobre a briga em torno de quem mandaria na mailing list de Lula no segundo turno de 2018– que sugere um erro grave da parte do PT.

Tanto quanto sei, esse é o primeiro livro a contar que Gleisi Hoffmann foi cogitada como candidata em 2018. Mas a função dessas 150 páginas é, sobretudo, de denúncia do processo de Lula e de testemunho da luta dos que ficaram ao seu lado durante a prisão.

Ana Cristina Rosa - O Brasil quer ser um país decente?

Folha de S. Paulo

Comissão de juristas negros nasceu da violação cotidiana de direitos da maioria da população

No mesmo dia em que uma comissão de juristas negros entregou à Câmara dos Deputados, em Brasília, relatório contendo propostas de alterações legislativas com vistas a um Brasil antirracista, um homem negro foi algemado a uma moto da PM de São Paulo e arrastado por uma avenida da maior capital da América Latina em explícita demonstração da violência policial racializada no país.

A imagem foi comparada pelo ouvidor da própria PM aos castigos outrora aplicados a escravizados e um inquérito foi aberto. Em outra esfera, houve autoridade que não viu ilegalidade no ato da prisão. Os fatos ilustram a urgência da implementação de mecanismos efetivos de promoção da equidade racial no maior território negro fora da África.

Denis Lerrer Rosenfield - Moro recoloca a ética no debate da política

O Estado de S. Paulo

A traição e a falta de lealdade residem em quem abandonou seus princípios e valores, apegando-se unicamente a suas posições de poder

O ingresso do presidente Jair Bolsonaro em seu novo partido é revelador do nível em que caiu a política brasileira. Após uma campanha eleitoral contra a “velha política”, contra o “sistema”, clamando por uma renovação com toques religiosos de salvação nacional, eis que o novo “militante” do PL se curva a tudo o que dizia abominar. Qualquer traço de coerência ou de verdade simplesmente se evapora ou, melhor, desaparece, como se nunca tivesse existido. Coroando o ato, seu filho, senador Flávio Bolsonaro, disse em poucas palavras tudo o que este triste evento encerra: discursou contra o ex-presidiário Lula sem atentar, talvez, a que sua fala ocorria no partido de um ex-presidiário, antigo companheiro dos petistas.

Em seu livro, o ex-juiz Sérgio Moro relata que o presidente Bolsonaro se regozijou com a “libertação” de Lula, expondo, para quem quiser ver, a afinidade que os une, apesar das aparências discordantes. Enfim, seu inimigo figadal estaria “livre” para enfrentá-lo eleitoralmente, numa polarização altamente benéfica para ambos os contendores. Numa encenação que lhe é própria, o atual presidente vociferou contra as “mentiras” de Moro, mostrando o quão incomodado está com um candidato que pode colocar o seu favoritismo em questão. Diria que, para o seu adversário, quanto mais golpes receber, melhor será, na medida em que atrairá para si a atenção de todos os que estão preocupados com a moralidade na política.

Mirtes Cordeiro* - Para onde vamos?

Sendo o Natal um tempo de esperança, que se elevem os espíritos e a capacidade de vigilância sobre o que acontece no país.

É chegado o Natal e, hoje, o dia escolhido pelo meu neto para a arrumação da árvore de Natal, da exposição do presépio, de colocar o Papai Noel na porta anunciando aos que chegam que festejamos o nascimento de Jesus, para os cristãos.

Para uma parte da população no mundo, essa data não é celebrada. Para os cristãos, a história que foi contada pelos apóstolos foi um marco na instituição do cristianismo, o que aconteceu num momento de grande disputa pelos territórios no mundo ocidental, com a expansão do domínio do Império Romano, há mais de dois mil anos.

O Natal celebra a data do nascimento de Jesus Cristo, que veio ao mundo para nos trazer a verdade e nos salvar dos nossos pecados. É o que diz a bíblia, um dia especial para o cristianismo, um momento de exaltação da união e do amor ao próximo.

Para muitos, Jesus, o salvador, é uma lenda. Para outros, um revolucionário que assumia, naquela época, as insatisfações de um povo explorado nas áreas da Cisjordânia e parte do Oriente Médio.

O certo é que a festa de Natal, antes religiosa, vem se tornando uma festa cultural e consumista em que os meios de produção e o comércio se programam para vender mais, atrair cada  vez mais os consumidores com vistas à obtenção de grandes lucros.

O que pensa a mídia - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O novo ministro

Folha de S. Paulo

Mendonça poderá interferir em pautas cruciais; STF deve fortalecer colegialidade

Tão logo vista a toga de ministro do Supremo Tribunal Federal, em posse marcada para 16 de dezembro, André Mendonça terá uma série de oportunidades para mostrar a quem servirá ao ocupar uma das 11 cadeiras da mais alta corte do país.

Após ser sabatinado por oito horas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça foi aprovado pelo plenário da Casa legislativa com o placar historicamente apertado de 47 votos a favor, 32 contra e 2 abstenções.

Parte considerável das dúvidas e temores em torno de sua indicação está relacionada à promessa, feita pelo presidente Jair Bolsonaro, de levar um ministro "terrivelmente evangélico" ao STF —Mendonça, o escolhido, é pastor.

Não há problema nenhum, obviamente, em um magistrado professar qualquer religião; errado será se suas crenças prevalecerem em decisões que devem estar baseadas na leitura da Constituição.

De maneira análoga, é perfeitamente legítimo que um juiz tenha posições conservadoras, desde que respeite a legislação em vigor —e, mais ainda, que não se paute pelos interesses imediatos do governo que o levou ao posto.

Poesia | Ferreira Gullar - Maio 1964

Na leiteria a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no meu espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.


Música | Chico Buarque - Vai Passar

 

domingo, 5 de dezembro de 2021

Fernando Henrique Cardoso - Nossa responsabilidade na pandemia

O Estado de S. Paulo / O Globo

A saúde, se é dever do Estado cuidar dela, também concerne a cada um de nós. A nossa saúde e a de todos

No meio de várias notícias ruins, há o que celebrar: o SUS, Sistema Único de Saúde, tem mostrado que funciona e pode atender a população brasileira. Eu era senador quando, na Assembleia Nacional Constituinte, um punhado de parlamentares que eram médicos se batia pela construção do dito SUS. Recordo-me especialmente do deputado Almir Gabriel, e ele não era o único. Mesmo que não se compreendesse inteiramente o alcance da medida, batemo-nos todos, mesmo os não médicos, que apoiamos os médicos. Os heróis foram os parlamentares-médicos, liderados por Sergio Arouca, presidente da Fiocruz e mentor da chamada frente sanitarista.

Mais tarde, graças a outros tantos funcionários competentes, o SUS foi se formando e hoje a população mais pobre, sobretudo, sabe da valia de tal instrumento. Com o SUS a saúde no Brasil mudou de patamar. Os mutirões nacionais de vacinação infantil se transformaram em dias de festa para milhões de mães de todo o País. O Brasil tomou gosto pela vacinação periódica. Caiu a mortalidade infantil, aumentou a expectativa de vida. Multiplicaram-se as equipes de médicos de família. Em São Paulo, a ação do dr. Adib Jatene foi significativa. E ele não foi o único no Brasil a compreender as dificuldades daquele momento. A ele e aos que foram ministros da Saúde de vários governos devemos o haver melhorado a situação sanitária do povo.