terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Cristovam Buarque*: Pacificação, governança, reconstrução

Correio Braziliense

O professor Hussein Kalout costuma lembrar que o próximo presidente terá três desafios: pacificação, governança e reconstrução. Ele terá o desafio de pacificar o país, social e politicamente. Quebrar a polarização que divide o Brasil em polos divorciados, depois de cinco séculos de desigualdade social com cara de apartação, e de alguns anos com líderes, militantes e cidadãos separados em extremos sem diálogo.

Deverá também ser capaz de exercer governança que permita ao Brasil voltar a funcionar, depois da degradação de suas instituições, do imenso desequilíbrio fiscal, da corrupção, do corporativismo e da política sem espírito público. Fazer o país funcionar e o Estado ter eficiência é um desafio fundamental para o próximo presidente.

Precisará também iniciar a reconstrução do que vem sendo destruído ao longo dos anos de recessão econômica, sequestro e aparelhamento do Estado, atraso tecnológico, agravados pela estupidez revogatória do atual governo eliminando avanços do passado. Esses desafios seriam enfrentados mais facilmente se as forças políticas tivessem sido capazes de encontrar propostas, nomes, ideias e forças novas que permitissem, em 2022, um salto adiante, sem amarras com o passado. Mas isso não ocorreu.

Prisioneiras do radicalismo, do partidarismo e do imediatismo, nossas lideranças políticas não foram capazes de apresentar novidade nas eleições deste ano. Os 12 candidatos que se apresentam têm cara e propostas (ou falta de propostas) características do passado, dificilmente surgirão nomes capazes de trazer ares novos, passar confiança e seduzir o eleitorado, nas poucas semanas adiante, antes das eleições.

Bela Megale: A estratégia de Lula para ter o apoio de FHC e da velha guarda tucana na chapa com Alckmin

O Globo

Aliados de Lula e o próprio ex-presidente intensificaram as articulações para conseguir apoio à possível chapa com Geraldo Alckmin. O foco prioritário das conversas é a ala histórica do PSDB, especialmente Fernando Henrique Cardoso. Recentemente, um interlocutor de Lula se reuniu com o ex-presidente tucano e pediu sua avaliação sobre a chapa com Alckmin. O aliado do petista saiu satisfeito com o que ouviu e ficou convencido de que FHC fará gestos de apoio à iniciativa. 

Outro fator que animou os petistas e o entorno de Lula foi a conversa do ex-presidente com o ex-senador Aloysio Nunes, na semana passada. Nunes externo publicamente seu apoio ao movimento, que classificou como “muito positivo para a política” e uma indicação de “convergência e disposição de fazer uma política mais ampla”. A fala fez com que petistas e aliados de Lula vissem a possibilidade de ter apoio da ala histórica do PSDB já no primeiro turno das eleições.

— Esperávamos que um apoio desse grupo pudesse acontecer mais para frente, mas vimos esses movimentos recentes com uma possibilidade de que isso se antecipe. — disse um aliado de Lula à coluna.

Depois da conversa, Aloysio Nunes pediu um encontro com FHC, mas o encontro não tem data para acontecer. Devido à nova onda de casos da Covid-19, o ex-presidente parou de receber visitas. Petistas viram o gesto de Aloysio Nunes como um movimento para articular o apoio em torno da chapa Lula-Alckmin. Procurado, o ex-senador negou qualquer articulação e disse que o objetivo do encontro era falar sobre o cenário político com FHC e que, naturalmente, esse tema seria abordado.

Vera Magalhães: Os obstáculos no caminho entre Moro e o União Brasil

O Globo

Não é reto e pavimentado o caminho que liga Sergio Moro ao União Brasil. A semana do ex-juiz e pré-candidato começou com uma conversa não muito animadora da qual participaram Renata Abreu, presidente do Podemos, e Luciano Bivar e Antônio Rueda, presidente e vice do antigo PSL, a fatia do União que é entusiasta da candidatura.

Moro ouviu dos emissários que a ideia de que Moro se filie ao novo partido apenas poucos meses depois de ingressar no Podemos não tem apoio expressivo no antigo DEM, a segunda metade do União Brasil.

O presidente do DEM, ACM Neto, é o principal entrave a que avance essa negociação. Candidato ao governo de uma Bahia eminentemente lulista, não quer estar atrelado ao principal antípoda do ex-presidente Lula.

Neto trabalha, de acordo com interlocutores seus e do Podemos, para desmobilizar essa articulação, que, aliás, conta com o apoio apenas dos ex-bolsonaristas do PSL.

Outro que bombardeia o arranjo é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Apesar de não ser mais tão próximo quanto já foi do presidente Jair Bolsonaro, Caiado compartilha boa parte do seu eleitorado com ele, e já deixou claro que a presença de Moro em seu partido pode dificultar sua reeleição.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro escolhe inimigos, Lula busca aliados, Moro sofre ataques

Correio Braziliense

O PT e o Centrão se uniram para instalar uma CPI para investigar a atuação do escritório Alvarez & Marsal, para o qual o ex-juiz federal prestou serviços, nos casos da Lava-Jato

Nada acontece na política brasileira, hoje, que não mire as eleições de outubro próximo, no governo ou na oposição. Embora a campanha não esteja oficialmente aberta, o calendário eleitoral já está em curso e os pré-candidatos se movimentam para delimitar os territórios nos quais pretendem alavancar suas candidaturas.

O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, ao anunciar os vetos ao Orçamento da União, com cortes que chegaram a R$ 3,18 bilhões, fez tudo o que pode para manter as emendas de relator do Orçamento da União — o chamado orçamento secreto, que tudo mundo sabe que servirá para turbinar as campanhas dos seus aliados do Centrão, com verbas que chegam a R$ 16,2 bilhões — e para garantir recursos para os reajustes dos policiais e outras categorias de seu interesse.

De forma objetiva, com seus cortes, Bolsonaro também demarcou os setores que encara como inimigos: a comunidade de pesquisas científicas, os setores ligados à educação e às universidades federais, órgãos e hospitais da área de saúde, quilombolas, trabalhadores rurais, indígenas e defensores dos diretos humanos, principalmente das mulheres em situação de risco. Por incrível que pareça, com o avanço da nova onda da pandemia de covid-19, cuja rápida propagação está ameaçando pôr em colapso a rede pública de saúde em vários estados, recrudesceu o negativismo do presidente e de seus auxiliares, com forte apoio dos setores de sua base eleitoral que fazem campanha contra a vacinação em massa, principalmente a das crianças, nas redes sociais.

Andrea Jubé: As afinidades eletivas

Valor Econômico

Para Perillo, diálogo entre Lula e PSDB é legítimo

O que acontece quando os opostos se atraem? No começo do século XIX, Johann von Goethe (1749-1832) tomou emprestado um termo científico para dar título ao romance em que se propôs a investigar a “origem química” das relações pessoais.

Na química, existem mediadores capazes de ligar os elementos que se repelem. O termo “afinidades eletivas” - título do polêmico romance de Goethe lançado em 1809 -, atesta a capacidade de união entre elementos naturalmente opostos entre si.

Óleo e água não se misturam, mas podem se conectar, por exemplo, com a adição de um álcali (lítio, sódio, potássio, etc). Num trecho do romance, Charlotte traduz a aula de química para o plano das relações humanas. “Podem nascer amizades realmente significativas entre os homens, pois qualidades opostas propiciam uma união mais estreita”.

No mesmo diálogo, Eduard observa que, no passado, os químicos eram conhecidos como “artífices das separações”. Charlotte retruca que a “união configura uma arte mais elevada, um serviço mais relevante”.

Se nos transportarmos da literatura e da química para a conjuntura nacional, verificamos que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atua para produzir uma combustão na corrida eleitoral ao articular alianças com lideranças do PSDB, um repelente histórico do PT.

Pedro Cafardo: Crescer vale mais que a “reforma da reforma”

Valor Econômico

Para economista, país tem que pensar no longo prazo, inclusive do ponto de vista sanitário

Voltou à discussão no país a questão da reforma trabalhista de 2017. O estopim foi uma declaração do ex-presidente Lula sobre a eventual revisão da reforma caso ele retorne à Presidência da República em 2023.

A intenção do ex-presidente já provocou manifestações de preocupação do provável candidato à vice-presidência na chapa de Lula, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Também deu origem a críticas de lideranças empresariais e de desafetos de Lula, entre eles o ex-presidente Michel Temer, que sancionou a reforma em 2017.

Antes de discutir a “reforma da reforma”, seria importante saber se a nova legislação vem cumprindo seus objetivos, uma vez que já se passaram mais de quatro anos desde a sua entrada em vigor, em 11 de novembro de 2017.

E quais eram esses objetivos? O primeiro, mais teórico, era modernizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) aprovada no longínquo governo Getúlio Vargas, em 1943. O segundo, mais prático, modificar uma legislação que garantia direitos considerados excessivos ao trabalhador, muito onerosos ao empregador e que estariam dificultando a criação de empregos e o crescimento da economia. Os burocratas chamam isso de “flexibilização” das leis trabalhistas, usando um dos eufemismos corriqueiros para tornar mais branda e menos agressiva a redução de direitos.

Pedro Fernando Nery: A opção das frentes

O Estado de S. Paulo

A avaliação dos programas locais pode determinar se vale a pena ampliar essa iniciativa

Uma vaga de trabalho sem vínculo trabalhista, sem encargos, sem direito a FGTS ou a férias, nem à indenização em caso de desligamento. A remuneração anualizada é abaixo do salário mínimo. Não se conta tempo para aposentadoria, nem há direito a pensão por morte, aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença. Não há sequer formalização por PJ. Seria uma proposta de reforma trabalhista ultraliberal? Não, são milhares de vagas preenchidas por vários governos pelo Brasil, inclusive de esquerda. O objetivo é combater o desemprego: trata-se das frentes de trabalho.

Em geral, os trabalhadores dessas vagas são contratados na verdade como bolsistas, e o programa, apesar de prático, é organizado como uma “qualificação”. Assim, dispensa-se o uso da legislação trabalhista e previdenciária que encareceria a contratação para o Estado. Além de dar oportunidade a vulneráveis, os programas são desenhados para ajudar as comunidades, com manutenção de equipamentos públicos como parques e escolas – que recebem reparos dos “bolsistas”. Não são contratos de estágio ou aprendizagem (não se exige matrícula em instituição de ensino). Quando há seguros, são contratados com particulares.

Michel Temer*: O eleitor e as eleições

O Estado de S. Paulo

Em vez de votar contra, vamos votar a favor, escolhendo uma proposta que contribua para a construção do País que queremos

Escrevo este artigo com razoável otimismo. Isto porque a discussão dos pré-candidatos à Presidência da República vem subindo de nível, coincidindo com as aflições de todos os brasileiros e procurando respostas às inquietações coletivas. Mais que nomes, a crise exige ideias. O debate entre eles começa a ser, agora, se é melhor para o País manter o teto de gastos; como conter a inflação e reduzir os juros; se vamos revogar a reforma trabalhista ou aprimorá-la.

Essa mudança inspira nova postura também do eleitor, como sugeri em entrevista recente: em lugar de votar contra, vamos votar a favor. Em vez de lutarmos para derrotar o candidato A ou B, vamos escolher uma proposta que contribua para a construção do País que queremos. Daí porque o voto deve levar em conta as ideias sugeridas por uma candidatura, e não apenas para opor-se à outra candidatura. Esse deve ser o critério. Se prevalecer a lógica atual, o resultado das urnas será o ódio a separar ainda mais vencedores e derrotados. O Brasil seguirá invisível, sob o manto da intolerância. Aliás, o ideal seria que o presidente eleito propusesse pacto nacional juntando autoridades públicas, partidos políticos e sociedade para sepultar o passado e construir o futuro.

Hélio Schwartsman: O ônus da fraude cabe ao fraudador

Folha de S. Paulo

Não faz sentido cassar o mandato de alguém por falcatruas de terceiros

Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, procurador regional da República, e Vera Lúcia Taberti, promotora de Justiça, escreveram na edição desta segunda (24/1) artigo em que contestam minha coluna "Dizimando a justiça" (15/1).

Agradeço o tom civilizado da crítica, o que não é uma constante nos dias que correm, e os oportunos esclarecimentos. Receio, porém, que eles não tenham mudado minha avaliação sobre as resoluções do TSE que permitem cassar toda a chapa proporcional de candidatos quando houver prova da fraude de candidaturas femininas fictícias. A meu ver, essa é uma punição desproporcional quando aplicada a candidatos que não participaram da fraude e que ainda pode frustrar a vontade do eleitor.

Cristina Serra: Brumadinho, crime e impunidade

Folha de S. Paulo

Livro e documentário abordam a tragédia de 2019 em Minas Gerais

Com atraso, li a obra "Brumadinho - a engenharia de um crime" (editora Letramento), dos jornalistas Lucas Ragazzi e Murilo Rocha, que está sendo relançada no momento em que o desastre completa três anos. O livro traz uma impressionante reconstituição dos fatores que levaram ao desmoronamento da barragem da Vale, que matou 272 pessoas e poluiu o rio Paraopeba.

Tanto quanto o colapso do reservatório da Samarco, em Mariana (19 mortos e o rio Doce contaminado), o rompimento em Brumadinho era uma tragédia anunciada. No caso da barragem da Vale, o livro mostra que a empresa sabia dos riscos e não tomou as medidas adequadas porque teria que paralisar atividades no local e interromper ganhos. Ao agir assim, a mineradora escreveu uma sentença de morte contra os trabalhadores, os moradores das redondezas e todos os que tiveram a infelicidade de estar ao alcance da lama em 25 de janeiro de 2019.

Alvaro Costa e Silva: Amigo de Deus e de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Cláudio Castro promete o que não pode e gasta o que não tem

Enquanto na semana passada o governador Cláudio Castro encenava um blockbuster —1.300 policiais, helicópteros e blindados em ação nas comunidades do Jacarezinho e Muzema— para inaugurar o programa Cidade Integrada, o repórter Matheus Rocha revelava como moradores de outras duas favelas, Salgueiro e Vidigal, têm de se virar, sozinhos, para receber uma simples carta.

Como os Correios só fazem entregas a partir de regras internas de segurança, as lideranças comunitárias organizaram um serviço alternativo, empregando os próprios moradores. O favelado se sente cidadão se pode receber e pagar uma conta em dia. Cláudio Castro sabe disso, e pouco se importa. O que ele quer é ganhar a reeleição, e, para conseguir o objetivo, nada melhor que prometer acabar com a violência. Um expediente mais velho que Cabral, não o ex-governador das UPPs, mas o navegador português.

Carlos Andreazza: Loja de conveniência

O Globo

Emendas parlamentares pagas em 2021: R$ 25,1 bilhões. Dois mil e vinte um: o ano em que a pandemia nos mastigou de cabo a rabo — e a turma mamando e distribuindo tetas de paróquia em paróquia, o ano em que Rodrigo Pacheco envernizou a formalização do orçamento secreto.

Independentemente do alcolumbre da vez, o pacto que une governo Bolsonaro e o consórcio entre Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, e PL, de Valdemar da Costa Neto, não foi firmado para sutilezas. E todos os pachecos estão — serão — contemplados.

Previsão para 2022: R$ 37 bilhões, aí contidos os intocáveis mais de R$ 16 bilhões em emendas do relator. Valor que já considera os vetos miúdos de Bolsonaro, para pouco além de R$ 3 bilhões, montante que fica bem longe dos cerca de R$ 9 bilhões necessários à recomposição dos gastos obrigatórios que o Congresso, em parceria com o Planalto, propositalmente subestimou.

Foi sancionada, porém, a rubrica — da ordem de R$ 1,7 bilhão — que planta a projeção de reajuste salarial seletivo para as categorias do funcionalismo federal que compõem a base de apoio do bolsonarismo. E agora se especula sobre se parte dos bilhões vetados por Bolsonaro servirá para bancar aumento mais amplo. Alguém duvida? Falei em parte dos bilhões porque é provável que uma fatia da grana sirva à necessidade de se remontar o valor do Fundo Eleitoral àquele originalmente inscrito na LDO: R$ 5,7 bilhões, em vez dos pouco menos de R$ 5 bilhões que um puxadinho acomodara na LOA.

Zuenir Ventura: A visita da Covid

O Globo

Foi uma visita surpresa, totalmente inesperada, já que aqui em casa nos cercamos de todas as precauções para manter a Ômicrom à distância, obedecendo rigorosamente aos protocolos sanitários. Além do mais, nossa conselheira é a Nossa Senhora Margareth Dalcolmo.

Mas é possível, quem sabe, que no único jantar fora de casa o vírus tenha se escondido e atacado de uma só vez a mim e à minha mulher, já que fomos infectados juntos. Decidimos, claro, seguir à risca as recomendações médicas para a nova fase: máscara, isolamento, higienização das mãos etc. Valeu a pena. Agora, no momento em que escrevo, já estamos livres, soltos e sãos, aliviados, mas não digo que foi fácil.

Aliás, não sei o que foi mais difícil — suportar o confinamento coletivo imposto pela pandemia no começo ou o isolamento a que nós fomos submetidos recentemente. A vantagem é que agora, graças à vacinação, tivemos sintomas leves, apesar da idade — 90 anos, eu, e 84 anos, minha mulher.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Um Orçamento a serviço da reeleição

O Estado de S. Paulo

Áreas sem cortes expõem escolhas de Bolsonaro: tudo pela eleição, nada pelo País.

A sanção do Orçamento deste ano traduz em números a predominância da disputa eleitoral sobre as necessidades do País e consolida o sequestro de verbas públicas pelo Centrão com aval do governo. Com quase 95% da peça orçamentária direcionada para despesas obrigatórias – que incluem pagamento de servidores e de benefícios previdenciários –, o Executivo tinha pouca margem de manobra para cortes, mas conseguiu uma folga adicional ao dilatar o teto de gastos, desmoralizando um instrumento que funcionava como âncora fiscal e dava credibilidade às contas públicas. É justamente por isso que os alvos e áreas blindadas de tesouradas precisam ser analisados com rigor, pois representam de forma cristalina as escolhas de Jair Bolsonaro e dos partidos que o apoiam: tudo pela eleição, nada pelo País.

Do total de R$ 3,184 bilhões cortados, mais da metade seria destinada aos Ministérios do Trabalho e da Educação. Serão R$ 988 milhões a menos para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na pasta da Educação, os vetos atingiram o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), responsável pela transferência de recursos a Estados e municípios, com R$ 499 milhões. A peça orçamentária terá o menor valor para investimentos federais de toda a história, com R$ 42,3 bilhões, equivalente a 20% do volume autorizado há dez anos. O Ministério com a maior quantidade de recursos para esse fim não será o da Infraestrutura, que sofreu o quinto maior corte entre as pastas, mas o da Defesa, com R$ 8,8 bilhões. Como esse dinheiro impulsionará o esquálido crescimento econômico é uma incógnita. Não foram poupadas nem mesmo verbas de R$ 11 milhões para a Fiocruz, que tem tido papel fundamental na produção de vacinas contra a covid-19. Na área de Saúde, outro alvo foram as ações para saneamento em comunidades rurais e remanescentes de quilombos, com R$ 40 milhões.

Previsivelmente, foram blindados os valores destinados às emendas de relator, que garantem o apoio dos parlamentares ao governo por meio do chamado orçamento secreto, revelado pelo Estadão. Superior às dotações de vários Ministérios, a verba de R$ 16,48 bilhões passou incólume pelos vetos. Deputados e senadores terão à sua disposição R$ 35,6 bilhões para atender a seus interesses paroquiais neste ano. Para facilitar a vitória dos aliados, o Executivo não tocou no Fundo Eleitoral, que terá R$ 4,96 bilhões – mais que o dobro de 2020 e quase o triplo de 2018. A depender de novos e prováveis remanejamentos e da evolução dos resultados das pesquisas eleitorais, o fundão poderá ser elevado para até R$ 5,7 bilhões.

Poesia | Vinicius de Moraes: Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Música: Tom Jobim - Samba do Avião (Ao Vivo em Montreal)

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Fernando Gabeira: A pandemia de nossas vidas

O Globo

Durante um ano, escrevi todos os dias sobre a pandemia do coronavírus. Com a chegada da vacina, voltei a viajar e pensava que estávamos caminhando para o fim de toda a tragédia.

A vacina funcionou para mim como uma centelha de esperança. E, como dizia Albert Camus, “depois que a menor centelha de esperança se tornou possível, acabou o domínio da peste”.

Para muitos de nós, esta pandemia é uma experiência única. Não há mais sobreviventes da Espanhola. O ebola foi contido na África Ocidental e vencido nos últimos meses de 2015.

De certa forma, tivemos sorte. Na chegada do vírus, os cientistas já haviam passado por quatro fases, a julgar pelo livro “O gene: uma história íntima”, de Siddhartha Mukherjee.

Já se conhecia a base celular da hereditariedade, os cromossomos. Em seguida, definiu-se a base molecular da hereditariedade: a dupla hélice de DNA. Antes de sequenciar o genoma humano, foi possível desenvolver o mecanismo pelo qual as células leem as informações contidas em genes.

Os cientistas aprenderam a fazer o mesmo, com a invenção da tecnologia de clonagem e sequenciamento do DNA recombinante. Na minha visão de leigo, consigo imaginar que daí foi possível produzir uma mensagem para que nossas células combatessem o vírus.

Demétrio Magnoli: Terceira via, miragem e realidade

O Globo

O fracasso da “terceira via” está expresso nas sondagens de opinião pública. Segundo as análises convencionais, a explicação para o fracasso encontra-se na polarização política entre Bolsonaro e Lula, que fecharia o caminho a uma candidatura alternativa, de centro. Há bem mais que um simples equívoco no diagnóstico.

Polarização? As pesquisas evidenciam que a rejeição a Bolsonaro situa-se em torno de 60% do eleitorado. São os que não votariam no presidente em nenhuma hipótese, parcela que chega a 64% entre os pobres e 54% na Região Sul, suposta fortaleza do bolsonarismo. Se o pleito fosse hoje, Lula triunfaria no primeiro turno. A polarização circunscreve-se às redes sociais. Não existe polarização eleitoral.

A tese da “terceira via” assenta-se exclusivamente sobre a antiga constatação de que o lulismo não controla a maioria do eleitorado. Isso ficou provado nas quatro vitórias consecutivas do lulopetismo, duas de Lula e duas de Dilma, que só tiveram desenlace no segundo turno. Daí os arautos da “terceira via” concluem pela existência de uma vasta parcela dos eleitores dispostos a sufragar uma candidatura alternativa.

Mirtes Cordeiro*: Será a juventude o futuro do nosso País?

A prioridade agora para a maior parte da população jovem é sobreviver junto com suas famílias.

“Não só esta, mas as próximas gerações de jovens serão impactadas pela pandemia”, adverte Tauá Pires, coordenadora da área das juventudes da Oxfam Brasil.

O Brasil tem sido um país que apresenta muitas dificuldades para nele se viver nos últimos tempos, mas, sobretudo, para a juventude, que independente da pandemia já sofria com a ausência de políticas públicas dirigidas para esse segmento da população, ou com a ineficiência das políticas existentes.

Dados e indicadores dão conta que jovens foram os mais impactados com a desigualdade social e tecnológica ampliada pela pandemia, com a redução de renda, aumento do desemprego, violência policial e exclusão educacional.

A prioridade agora para a maior parte da população jovem é sobreviver junto com suas famílias.

Em pesquisa realizada em 2020 e liderada pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), outras evidencias se sobressaem entre os jovens, tais como: medo de perder um familiar preocupa 75% dos jovens e 48% temem perder sua saúde. Os principais desafios neste momento estão relacionados às questões emocionais geradas pelas intranquilidades dentro da família, onde o acolhimento sempre é essencial para a proteção e bem-estar dos filhos.

Bruno Carazza*: Os blefes de Bolsonaro

Valor Econômico

Presidente da República veta e o Centrão derruba

Bolsonaro avisou que vai vetar o projeto que legaliza os cassinos no Brasil. Em entrevista à Rádio Viva FM, do Espírito Santo, na semana passada, o presidente declarou que “os jogos de azar, no meu entender, não são bem-vindos no Brasil”. Alertou, contudo, que o Congresso Nacional é um Poder independente, e que cabe aos deputados e senadores a palavra final, pois têm condições de derrubar seu veto.

“Pacto com o diabo!” - essa foi a reação de Damares Alves após a apresentação do então ministro Marcelo Álvaro Antônio sobre o projeto de “resorts integrados”, que combinariam hotelaria e casas de apostas, em estudo na sua pasta, na famosa reunião de 22 de abril de 2020.

Quase dois anos depois, a decisão de Bolsonaro de vetar o PL nº 442/1991, caso os parlamentares aprovem a legalização dos jogos de azar no Brasil, é um agrado à sua ministra mais terrivelmente evangélica e a toda a sua base de eleitores religiosos que veem na jogatina um meio de destruição da paz familiar. Acontece que o presidente está blefando.

Assis Moreira: A Ásia como fonte de novos financiamentos

Valor Econômico

Ásia tem destaque crescente nas relações do Brasil e, em 2021, 46,3% das exportações do país foram para economias da região

A aprovação do primeiro empréstimo do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) para o Brasil transcende a operação de US$ 100 milhões para o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Sinaliza uma nova ponte para negócios Brasil-Ásia. E sinaliza também na direção de uma diversificação, mesmo modesta inicialmente, na tomada de recursos fora do eixo multilateral tradicional Estados Unidos-Europa.

Marcus André Melo*: STF pós Bolsonaro

Folha de S. Paulo

O tribunal mudou o seu padrão de atuação no governo Bolsonaro

O hiperprotagonismo do STF na última década foi produzido por diversos fatores dentre os quais o papel que cumpre como corte criminal, como argumentei nesta Folha. É claro que outros fatores e episódios singulares —como o impeachment presidencial e iniciativas parlamentares conexas— também contribuíram.

Mas a sobrecarga da agenda do Supremo que levou a sua politização e alta visibilidade pública deve-se à sua atuação como juízo criminal em um quadro de escândalos ciclópicos de corrupção. Não há nas atuais democracias corte suprema que possua jurisdição criminal como o STF, que acumula tais funções com as de corte recursal e constitucional.

Após 2019, esse protagonismo muda de chave e volta-se para a contenção do iliberalismo bolsonarista, o que fez com grande efetividade até agora. Paradoxalmente, o sucesso dessa contenção decorre, como tem argumentado Diego Arguelles, de sua atuação na esfera criminal.

Carlos Pereira*: Ferido de morte?

O Estado de S. Paulo

O Brasil requer um presidente que saiba como o presidencialismo multipartidário funciona

Tem havido grande preocupação sobre riscos de disfuncionalidades do presidencialismo brasileiro com as mudanças ocorridas nas emendas individuais e coletivas dos parlamentares, que passaram a ter sua execução obrigatória.

Com as emendas impositivas, o Executivo perdeu uma ferramenta decisiva que, além de baixo custo, proporcionava liquidez e transparência nas suas negociações com os legisladores. Como resultado, o preço do apoio legislativo foi inflacionado quando os parlamentares perceberam que não mais necessitavam votar consistentemente com o presidente para terem as suas emendas executadas.

O Executivo foi obrigado a encontrar outras ferramentas de formação e manutenção de maiorias legislativas. A saída encontrada foi as emendas de relator, que além de caras não são transparentes. Os presidentes da Câmara e do Senado passaram a definir quem seria beneficiado, ao invés do Executivo. A consequência foi o enfraquecimento da disciplina partidária, pois os legisladores não precisam mais seguir as preferências dos líderes dos seus partidos para terem acesso a tais recursos.

Por ter uma base eleitoral nacional, a coordenação da execução de emendas parlamentares pelo presidente tem o potencial de seguir uma lógica virtuosa, de busca de aprovação de políticas universais. Já a coordenação da execução das emendas pelos próprios parlamentares, por estes terem uma base eleitoral muito mais circunscrita, tende a privilegiar políticas locais com maiores riscos de predação e ingovernabilidade.

Sergio Fausto*: O Chile sob nova direção

O Estado de S. Paulo

É cedo para dizer se a nova liderança política terá sucesso. As expectativas são grandes, assim como as dificuldades para cumpri-las

A eleição de Gabriel Boric para a presidência produziu um fenômeno raro em democracias razoavelmente maduras: um corte geracional na liderança política. É um fenômeno ao mesmo tempo político e cultural, que não se limita ao modo mais despojado de se vestir dos novos líderes.

O presidente eleito, com 35 anos e tatuagens no braço, não chega ao poder sozinho. Junto vem uma geração que com ele compartilha mais do que o fato de haver nascido na década de 1980.

Com poucos sobrenomes ilustres, origem regional mais diversa (o próprio Boric é de Magallanes, no extremo sul) e mais mulheres (entre elas a médica Izkia Siches, nascida em Arica, no extremo norte, chefe de campanha do presidente eleito), ela se diferencia da geração antecedente, que liderou a transformação do Chile no país mais desenvolvido da América Latina.

Um rápido exame da biografia dos novos membros da elite política é suficiente para indicar o quanto o Chile mudou para melhor nos últimos 30 anos, com a expansão da classe média, desconcentração da atividade econômica no território e ampliação do acesso ao ensino universitário, entre outros avanços. Nesse sentido, a geração de Boric é filha da Concertación, a aliança de centro-esquerda que governou o país em cinco dos sete últimos mandatos presidenciais. Filha rebelde, que chega ao poder com a ambição de superar o que considera o pecado original da geração anterior: não haver rompido com a herança “neoliberal” da ditadura de Pinochet (apesar das 50 emendas feitas à Constituição).

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Autoridades precisam investigar suspeita contra ‘gabinete do ódio’

O Globo

É obrigação das autoridades investigar e dirimir as dúvidas sobre o interesse da milícia digital instalada no Palácio do Planalto conhecida como “gabinete do ódio” por ferramentas de espionagem. O portal UOL noticiou que um integrante dessa milícia — investigada no Supremo Tribunal Federal sob a acusação de promover campanhas de difamação, desinformação e ataques à democracia —, manteve contato em Dubai com um representante da DarkMatter, fornecedora de sistemas de arapongagem.

Composta por programadores egressos das Forças Armadas de Israel, a empresa tem sede em Abu Dhabi e vende sistemas para invadir celulares e computadores chamados “spyware”. Seus serviços são semelhantes aos da também israelense Pegasus, acusada no ano passado pela Anistia Internacional de propiciar a invasão dos celulares de mais de 50 mil ativistas, jornalistas, políticos e personalidades de interesse espalhadas pelo mundo, até mesmo chefes de Estado.

De acordo com a reportagem do UOL, um “perito em inteligência e contrainteligência” ligado ao “gabinete do ódio” visitou no dia 14 de novembro o estande de Israel na Dubai AirShow, uma feira aeroespacial no Oriente Médio, onde manteve contato com representantes da DarkMatter. O texto afirma que integrantes do gabinete do ódio também buscam informações sobre outros softwares espiões como o Pegasus. Depois da publicação, a bancada do PSOL na Câmara enviou ao Ministério Público Federal (MPF) uma requisição solicitando investigação a respeito.

Poesia | Joaquim Cardozo: Tarde no Recife

Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.

Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
[holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
[do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.

Joaquim Ferreira dos Santos: O que Nara tem a ver com Elza

O Globo

Uma morou de frente para o mar de Copacabana e a outra chafurdou os pés da infância na brincadeira de caçar caranguejo no charco da Vila Vintém. No entanto, na todavia das águas cariocas, elas acabaram se parecendo e, semana passada, unidas pela misteriosa música do Destino, Nara Leão e Elza Soares encontraram-se novamente.

No mesmo momento em que Nara renasce, celebrada num documentário que a coloca no devido altar das deusas da canção, Elza se despede e parte para a eternidade. Uma cantava baixinho, a outra vibrava os mais altos tons da melodia. Cada uma no seu contracanto, “Lindoneia” e a “Maria da Vila Matilde”, ajudaram a inventar uma mulher brasileira.

Elas estavam juntas em 20 de maio de 1960, no palco do teatro da faculdade de arquitetura da Praia Vermelha, num dos primeiros shows da bossa nova, o movimento que em seguida desprezariam. Já dá para imaginar as duas se reencontrando agora, na nuvem bordada de sianinhas para onde vão as grandes cantoras, e, às gargalhadas, se perguntando o que, diabos, faziam naquele show?

A música brasileira teve irmãs de sangue como Aurora e Carmen Miranda, Linda e Dircinha Batista. Nara e Elza são de outra irmandade, aquela das cantoras corajosas que mudaram o disco e aproveitaram para avançar na rotação da vitrola feminista. Moviam-se pelo vento ateu de suas convicções.

Música | Elza Soares, Luiz Melodia: Fadas

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto*: Antirracismo sem corrimão

Foi um exercício de paciência esperar uma semana pela publicação de mais um artigo dessa coluna para dizer algo sobre o ruído causado em redes sociais e alguns espaços da imprensa pelo artigo de Antônio Risério “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo – FSP/Ilustríssima, 16.01.22)”. O impulso de me solidarizar com um intelectual que admiro, ademais um querido amigo, alvo, durante a semana, de toda sorte de injúrias morais, intelectuais e políticas teve de ceder a uma compreensão de um limite meu. Sou assumidamente ineficaz no manejo de ferramentas e estratégias de discussão em redes sociais, inaptidão e inapetência derivadas da lentidão (pecado capital em tais espaços) com que se processa em mim o circuito recepção-reflexão-opinião toda vez que o tema não faz parte das minhas cogitações rotineiras. Era precisamente esse o caso e só deixou de ser quando o embate resvalou do léxico cada vez mais esotérico que vem marcando o “campo” de estudos e a arena de disputa política em torno de questões raciais para adentrar explicitamente no terreno das práticas da (e contra a) democracia. Aí me sinto em casa, com todas as responsabilidades de alguém que precisa defendê-la. Antes estava certo de que o que eu pudesse dizer não teria outra relevância substantiva, além da moral. Agora o problema transcende Risério de uma forma tal que poderia ser tratado até sem mencioná-lo. Mas ainda assim vou cumprir as etapas, passar primeiro pelo fato gerador, conferindo os devidos créditos, mesmo avisando, a quem lê, sobre a distância entre o fato e os alvos das minhas preocupações.

Considero que o artigo em questão, pela sua forma e pelo seu conteúdo, não representa bem a consistente reflexão do seu autor sobre questões raciais e suas conexões (de caráter conceitual, ou contextual) com sociedade, cultura e política. Isso mesmo levando em conta que se trata de um texto publicístico e não de um livro ou de um artigo acadêmico. Ao fazer afirmação tão ousada para um quase leigo, aviso que não pretendo ignorar o conselho de pisar em chão tão movediço, a não ser devagarinho. Reivindico, porém, que minha afirmação afoita seja enquadrada, por Risério e pelos seus antagonistas, dentro dos limites do entendimento que seja possível esperar de um não especialista no “campo” e de um não proprietário de “lugar de fala” previamente legitimado por seus zelosos guardiães, que Risério costuma fustigar. Se me permitirem essa licença digo que achei o texto um ponto meio fora da curva ascendente de coisas que já li do autor, as quais, aliás, apesar da relação pessoal que temos, não cobrem a contento o seu grande elenco de obras. Vi que ele focou no problema enunciado no título, que é digno de atenção, mas fez isso isolando-o de questões sociais conexas tanto ao problema geral do racismo como ao tema dos movimentos identitários. Sobre esse último assunto Risério já escreveu bastante, com bem mais profundidade e precisão, mesmo quando assumiu posições fortes e controversas.

Eliane Cantanhêde: A menininha

O Estado de S. Paulo

Para Bolsonaro, Queiroga e Damares, parada cardíaca de criança vacinada seria troféu

De todo o show de horrores da pandemia, poucos conseguem ser piores do que a tentativa de usar uma menininha que teve parada cardíaca em Lençóis Paulista como troféu na campanha contra a vacinação de crianças. É vil, indigno, imoral.

Sempre indiferente, o presidente Jair Bolsonaro telefonou diligentemente para os pais da menina, que teve a parada horas após receber a vacina contra a covid-19. Logo ele, que nunca deu uma palavra de consolo para as famílias dos mais de 620 mil adultos e de 1.400 crianças mortos pela doença – o que ele acha pouco.

Quando o Brasil atingiu 10 mil mortos, Bolsonaro foi passear de jet ski no Lago Paranoá, em Brasília. Com mais alguns milhares, deu de ombros: “E daí? Todo mundo vai morrer”. E, depois de trabalhar contra a vacinação de adultos, faz campanha aberta contra a de crianças. Não se vacinou nem vacina a filha.

Rolf Kuntz: Inflação versus crescimento

O Estado de S. Paulo

Com erosão salarial, desemprego e juros altos, o consumo familiar dificilmente contribuirá para a animação da economia

Enquanto os Poderes brigam, negociam tréguas e se unem na gastança e no gozo de mordomias pagas pelo contribuinte, a inflação cresce, a economia emperra e um poder muito importante para o dia a dia das famílias, o poder de compra, se contrai a cada semana. Principal motor da produção industrial e dos serviços, o consumo dificilmente puxará a economia em 2022, porque o dinheiro do trabalhador, tudo indica, vai continuar curto, com grande aumento de preços, pouco emprego e juros muito elevados. No ano passado, os ajustes de salários ficaram abaixo da inflação em quase metade, 47,7%, dos acordos no setor privado, segundo o Dieese, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos. A alta de preços foi compensada em 36,6% das negociações e superada em 15,8%. O setor mais prejudicado foi o de serviços, com 60,4% de acertos inferiores à alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), o mais utilizado como referência.

Lamentada pela maior parte das famílias, a inflação prejudica mais cruelmente as mais pobres, as mais afetadas, também, pelas péssimas condições do mercado de trabalho. Os efeitos desiguais da alta de preços são bem claros nas seis faixas de renda consideradas na análise do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Nos últimos dois anos, os preços pagos pelos consumidores mais desprovidos acumularam alta de 16,93% (taxa composta). Para o grupo imediatamente superior o aumento em 2020-2021 chegou a 16,07%. Para a faixa mais alta a variação ficou em 12,54%. Para a segunda mais alta, em 13,35%.

Luiz Carlos Azedo: O dragão da inflação está engolindo a reeleição de Bolsonaro

Correio Braziliense / Estado de Minas

Bateu uma paúra no Palácio do Planalto por causa das projeções do mercado para a alta do petróleo neste ano, que deve chegar a US$ 100 o barril

Há quatro variáveis negativas que podem inviabilizar a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, que está no telhado desde a anulação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio lula da Silva — o líder nas pesquisas de opinião sobre as eleições presidenciais deste ano — pelo Supremo Tribunal Federal (STF): a disseminação da ideia de que realmente tem ambições ditatoriais; seu negativismo e desempenho na crise sanitária; a perda da bandeira da ética por causa do escândalo das rachadinhas e da hegemonia do Centrão no seu governo; e o fracasso de sua política econômica, principalmente devido à inflação e ao desemprego em massa. Dessas variáveis, porém, somente uma ameaça sua presença no segundo turno das eleições: o fracasso econômico.

As demais estão precificadas e têm alguma forma de compensação, pois há setores reacionários na sociedade que têm saudades do regime militar; o Centrão, que garante governabilidade, é a expressão do velho patronato político brasileiro, sobrevive e se renova eleitoralmente na política regional; a crise sanitária acaba sendo mitigada pela atuação do SUS, dos governadores e prefeitos. Vem daí a sobrevivência eleitoral de Bolsonaro, além do poder centrípeto que o governo federal exerce na vida da sociedade. Entretanto, bateu uma paúra no Palácio do Planalto por causa das projeções do mercado para a alta do petróleo neste ano, que deve chegar a US$ 100 o barril. Com isso, o preço do litro da gasolina saltaria para R$ 8. E ainda haveria uma grande desvalorização do real frente ao dólar, obrigando o Banco Central a manter os juros altos e a vender muitas reservas.

Elio Gaspari: Lula expôs uma plataforma, à sua maneira

O Globo

Sua entrevista na quarta-feira foi uma sucessão de pequenos discursos; Há algo de “Lulinha, paz e amor” na promessa

Na quarta-feira, Lula deu uma entrevista de três horas a jornalistas. Não foi exatamente uma entrevista, mas uma sucessão de pequenos discursos. Afora uma introdução, um deles durou mais de dez minutos. O jornalista perguntava sobre a amplitude de suas alianças políticas e, no meio da resposta, ele dizia que Jair Bolsonaro não sabe comer camarão. Esse é seu estilo, à vontade no palanque, travado ou parabólico diante de perguntas diretas.

Mesmo assim, Lula foi revelador. Sua primeira frase teve um jeito de bordão: é preciso, em primeiro lugar, “colocar o pobre no Orçamento e, em segundo lugar, colocar o rico no Imposto de Renda”. Num outro momento, defendeu a isenção para quem ganha até cinco salários mínimos.

A maioria das perguntas se relacionava à possibilidade de ele vir a ter como companheiro de chapa o ex-governador paulista Geraldo Alckmin, e numa das respostas Lula também foi revelador. Prevendo um Brasil melhor, reconstruído. A ideia seria essa, senão, “pede a conta e vai embora, deixa a Gleisi (presidente do PT) ‘livre para indicar outro’”:

“É para fazer esse país que eu preciso construir uma relação política mais ampla que o PT, e não mais à esquerda, mas ao centro e, se for o caso, até com setores, sabe, de centro-direita. (...) Eu sei a diferença entre falar e fazer”.

A entrevista estava no final quando Lula mostrou a nova carta: “Eu não vou fazer com eles o que fizeram comigo.” Chamou Sergio Moro de “canalha”, mas deixa para lá.

“Este país precisa de muita solidariedade, muito carinho, muita alegria. (...) Vou fazer uma campanha leve, uma campanha simpática. (...) Não vou ficar respondendo mentira do Bolsonaro.”