quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Trump paga o preço de seus próprios erros

Por O Globo

Derrota republicana resulta de fiasco na economia, truculência com imigração e suspeitas de corrupção

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos costumam funcionar como referendo sobre quem ocupa a Casa Branca. É frequente o partido do presidente perder cadeiras no Legislativo. Mesmo levando isso em conta, porém, a derrota republicana na terça-feira superou todas as previsões. Com vantagem de 13 pontos percentuais nas urnas — maior diferença em 50 anos —, os democratas recuperaram o controle da Câmara e do Senado com maiorias expressivas, derrotaram adversários históricos, elegeram governadores onde não venciam havia décadas e pintaram com a cor azul associada ao partido o mapa de estados improváveis, como Texas, Kansas, Iowa ou Mississippi. A razão para tamanha derrota republicana tem nome e sobrenome: Donald Trump.

O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Entrevista | ‘Sucessor de Lula não precisa ser do PT’, diz governador reeleito da Bahia, por Jeniffer Gularte

O Globo

Jerônimo Rodrigues cita Alckmin como possível herdeiro político do presidente, diz que Planalto precisa ‘unificar o país’ e cobra mais espaço para o Nordeste no partido e no quarto mandato

Enquanto o PT debate os próximos passos após a vitória eleitoral, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirma que o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não precisa, necessariamente, ser do partido. Em entrevista ao GLOBO, ele defendeu que a discussão sobre o futuro seja construída a partir de um campo político mais amplo, capaz de dar continuidade ao projeto do atual governo.

Ainda que reconheça ser cedo para discutir nomes, Jerônimo citou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como exemplo de liderança que não integra a legenda e tem papel relevante. Reeleito no primeiro turno na Bahia, estado que deu seis milhões de votos a Lula, o governador cobrou mais espaço para o Nordeste nas decisões tomadas pelo PT e na formação do governo para o quarto mandato.

Pato manco, por Merval Pereira

O Globo

A derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa

A derrota de Donald Trump, demolidora, instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado “quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.

Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.

Não existe carta branca no Lula 4, por Julia Duailibi

O Globo

Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula

Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um “cavalo de pau na economia”, nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.

Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.

Na intensidade do tempo atual, por Míriam Leitão

O Globo

Derrota de Donald Trump reduz a instabilidade global, mas falta de horizonte fiscal leva Banco Central a frear corte da Selic

A decisão do Copom de manter os juros foi tomada no meio do maior bombardeio que o Banco Central independente já enfrentou. Diante da incerteza do tempo presente, manter os juros era o certo a fazer. O ruído dos últimos dias contra o BC torna mais pesado esse começo de um governo que foi consagrado por uma forte vitória nas urnas. O que houve no Brasil, na eleição, foi a reafirmação da democracia como valor e escolha política. O que houve nos Estados Unidos foi a reafirmação da democracia e da diversidade como valor. Num poema do novo livro de Geraldo Carneiro, há um verso que diz: “Amou o semelhante e o diverso”. Foi o que me veio à cabeça quando vi a impressionante representatividade que saiu das urnas americanas.

A propósito do plano de Lara Resende, por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

A proposta é sem dúvida inovadora e, por isso mesmo, assusta

Mal começavam a se recuperar das perdas provocadas pela aposta errada feita antes do segundo turno das eleições, operadores e analistas financeiros ficaram de novo com os cabelos em pé. O plano de redução gradual da taxa de juros de curto prazo — a taxa Selic do Banco Central —, proposto pelo economista André Lara Resende em setembro, ganhou as manchetes e espalhou o temor pelo mercado.

A resistência a mudanças que alterem o status quo da política monetária pode ser comparada à forma como as propostas de estabilização foram rechaçadas no início dos anos 80. Atribuía-se em geral a causa da alta inflação brasileira ao desajuste fiscal do governo. Essa justificativa foi por muito tempo sacramentada por economistas ortodoxos que não conseguiam enxergar outra explicação para o processo inflacionário.

Derrota de Trump nas eleições legislativas afeta o bolsonarismo, por Guilherme Carvalho

Valor Econômico

Para cientistas políticos, o resultado abre espaço para direita não bolsonarista, mas a família mantém protagonismo do campo político

A derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas americanas deve ter efeito negativo sobre o bolsonarismo e pode abrir espaço para que setores mais moderados da direita disputem a liderança desse campo político. O resultado, porém, não deve retirar do grupo, por si só, a posição de principal força eleitoral da direita no Brasil, avaliam especialistas ouvidos pelo Valor.

Até o fechamento desta reportagem, o senador e ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e outras lideranças do grupo não haviam se manifestado publicamente sobre o resultado das “midterms’’.

Na TV, Lula reforçará responsabilidade fiscal, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Em pronunciamento no domingo, presidente também dirá que manterá políticas sociais

No pronunciamento que fará aos brasileiros para agradecer os mais de 64 milhões de votos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai reafirmar a promessa de manter e ampliar as políticas sociais, e de que não incorrerá em “estelionato eleitoral”. Em um cenário de instabilidade, em que o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de queda da Selic, Lula dará recados aos investidores: vai reforçar o compromisso com a responsabilidade fiscal, mas manifestará a preocupação em reduzir os juros para aumentar os investimentos.

Segundo fontes do governo, o presidente vai manifestar sua preocupação com a dívida pública e os juros altos, e reafirmar o compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Paralelamente, Lula vai defender que se criem condições para a redução dos juros, porque ele gostaria de aumentar os investimentos, públicos e privados.

Partido começa a tratar com MDB espaços no governo, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Sigla presidida por Baleia Rossi, que não apoiou campanha de Lula, busca manter ministérios que já comanda hoje

De olho na formulação do novo governo, o PT deu início às tratativas com o MDB sobre a participação da legenda na composição ministerial. Sem ter anunciado apoio nacional à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o MDB admite, internamente, que terá pouca margem para reivindicar novos espaços na Esplanada. Por conta disso, deve concentrar a negociação na manutenção dos ministérios que já comanda, como Cidades e Transportes, duas pastas de forte capilaridade política e eleitoral.

Os presidentes do PT, Edinho Silva, e o do MDB, Baleia Rossi, se reuniram na quarta-feira (4) em meio à rodada de conversas conduzidas pelo petista com dirigentes partidários sobre a composição do Executivo. O objetivo é sondar o grau de compromisso das legendas com o próximo governo e começar a desenhar a base de nova gestão, diante de um Congresso que terá perfil ainda mais conservador a partir de 2027. Nesse cenário, o Palácio do Planalto pretende condicionar a distribuição de cargos a uma maior garantia de governabilidade no Parlamento, em uma tentativa de evitar reveses como os que ocorreram ao longo do terceiro mandato de Lula.

'Dark Horse', só na nuvem; se não chover, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O filme classificado por Flávio Bolsonaro como obra-prima ameaça não chegar aos cinemas

Parte do dinheiro da produção mandada para lavar no Texas poderá sustentar senador nos EUA

Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?

As dúvidas que as urnas deixaram, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A formidável vitória do presidente não apaga o fato de que quase 60 milhões preferiram um candidato extremista

Terão grande importância as escolhas da direita e sua disposição de não apostar em quem é desafeto da democracia

O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.

É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O Bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?

Este país tem uma Constituição, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Se Lula quer ser coerente com suas promessas de futuro, pode começar já

Pragmatismo não pode significar cumplicidade com degradação institucional

"A democracia está novamente em xeque." "O Brasil continuará sendo um país soberano." "Ninguém está acima da lei." "A floresta vale mais em pé do que destruída."

O discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026, combinou alertas urgentes sobre o presente com um esboço de sua visão de futuro.

No discurso da vitória, um mês depois, Lula revelou o que diz ter aprendido com a inesperada mobilização popular que lhe garantiu a reeleição. Contra expectativas, espalhou pelo mundo um sopro de esperança democrática e também um método. Da experiência emergiu uma inteligência coletiva e orgânica para enfrentar tecno-oligarcas que abalam o fair play eleitoral sem qualquer possibilidade de regulação pública e transparência.

Polêmica religiosa dos juros leva Lula à TV e BC para a malhação do Judas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco Central não corta Selic, que pode ficar na mesma por meses, dado o tumulto

PIB mais lerdo tende a acirrar o conflito político sobre programa econômico

Desde o domingo de Todos os Santos, passando por Finados, parte da opinião pública foi às redes para discussões encarniçadas sobre política monetária, quem diria, com muita profissão de fé e propaganda. Muita gente ficou feliz com a promessa de que as taxas de juros pudessem cair do céu.

O risco real ou, francamente, imaginário de que Lula 4 fosse enfeitiçado por ideias heterodoxas agitou a praça do mercado e economistas-padrão, o que acirrou as guerras religiosas. O boato de que o presidente pudesse nomear para o Banco Central uma bancada de oposição heterodoxa à Gabriel Galípolo também não ajudou.

Dado o climão, o presidente deve dizer algo sobre a importância de política de gastos prudente no pronunciamento que deve fazer no domingo. Pouco. Melhor do que nada.

Cruzada nas redes contra juros altos não muda necessidade de ajuste, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027

Ajuste forte ou gradualismo: para quem?

A polêmica em torno do plano do economista André Lara Rezende ajudou a impulsionar nas redes sociais a visão de petistas de que, com a vitória de virada do presidente Lula nas eleições, dá para fazer uma cruzada contra a alta dos juros nos moldes do exército de Janones.

A ofensiva, no entanto, em nada muda a incerteza que paira no ar. Além do Brasil, outras democracias do Ocidente, de um jeito ou de outro, estão enfrentando esse debate fiscal. Cada país com sua particularidade.

Reeleito, Lula tem hoje um problema real imediato: precisará sinalizar mais previsibilidade. Se vai fazer um ajuste mais pelo lado da receita ou pelo lado da despesa, ou uma mistura das duas opções. Se vai ser rápido ou devagar, se adotará o gradualismo ou nem isso.

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027. Essa é a mais urgente.

Garantia do status quo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A eleição para um novo presidente do Senado é só daqui a três meses, mas já se tornou a questão política mais urgente. A reeleição de Davi Alcolumbre seria o retrato acabado de um conluio de contornos sórdidos entre os Poderes, que nasceu da necessidade urgente de seus articuladores (Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e o próprio Lula) de escapar das consequências imediatas das investigações de escândalos de corrupção.

Ganhou alicerces poderosos com o resultado da eleição presidencial, embora as eleições estaduais e do Congresso prometessem o contrário. A causa disso é a desarticulação da oposição, visivelmente sem liderança efetiva, neste momento. Mas também o fato de que um bom pedaço dessa oposição, no Senado e na Câmara, tem interesse num conluio que garanta aos donos de partidos os mesmos acessos a diversos fundos, além da máquina pública. Ou seja, o status quo promete mais do que seu rompimento.

Consolidação fiscal gradual é chave para crescer, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal deve ser feito por etapas, mas sob um plano completo e aprovado desde a primeira hora, de modo a pavimentar a rápida queda do risco e do juro

Há duas premissas básicas para qualquer plano de consolidação fiscal. A primeira é a viabilidade política. A segunda, a distribuição de medidas relevantes para estabilizar a relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB) em alguns anos. O resultado buscado: juros menores e aumento das possibilidades de endividamento sustentável e do crescimento do PIB.

O plano de ajuste miraria um superávit primário crescente até o nível de 1,5% a 2% do PIB em quatro anos. A alternativa, produzir ajustes agressivos para um ou dois anos, não seria aprovada no Congresso e, caso fosse, jogaria a economia em recessão em 2027.

BC não se dobra a pressões políticas, por Alvaro Gribel

O Estado de S. Paulo

Sozinho no combate à alta de preços, BC segue sendo âncora da economia em um cenário de incertezas

O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato. A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado, o que pesou foi a projeção do próprio BC, que se descolou do centro da meta.

A atual diretoria demonstrou, mais uma vez, que não está preocupada com pressões políticas, mesmo após dias de debate em torno de uma tese do economista André Lara Resende que defendia cortes e tabelamento da taxa Selic.

Poesia | Mestre, meu mestre querido, de Fernando Pessoa

 

Música | SAMBA-ENREDO DO CARNAVAL 2027 | Império Serrano

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Não existe mágica capaz de resolver desajuste fiscal

Por O Globo

O risco é Lula, diante da dificuldade de lidar com a realidade como ela é, querer entrar no mundo da fantasia

A principal dúvida que cerca o novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz respeito aos rumos que ele dará à economia. Durante a campanha, Lula criou ou ampliou inúmeras benesses sem se preocupar com o impacto nas contas públicas — do reajuste no Bolsa Família ao estímulo a microempreendedores individuais; do Pé-de-Meia para universitários ao passe livre no transporte público aos fins de semana; das subvenções a combustíveis ao crédito para motoristas de táxi, de aplicativo e entregadores; dos programas de perdão e refinanciamento de dívidas aos auxílios a exportadores, à indústria química e ao agronegócio. É de natureza aritmética a dificuldade de encaixar todas essas promessas no Orçamento.

Trump perde o Congresso em terremoto político nos EUA, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Se eleições fossem terremotos, essa teria sido o Big One para o presidente americano

O presidente Donald Trump sofreu uma das maiores derrotas políticas da história recente dos EUA. Os americanos disseram um retumbante não ao seu governo e ao Partido Republicano nas eleições de ontem. Numa guinada histórica, o Partido Democrata obteve a maioria na Câmara e no Senado. Se eleições fossem terremotos, essa foi o Big One para Trump. As consequências serão enormes, para os EUA e para o mundo.

A apuração até esta madrugada mostrava uma onda azul, a cor dos democratas. Projeções da mídia americana indicavam uma ampla maioria democrata na Câmara e uma sólida maioria no Senado.

Criação do Ministério da Segurança é oportunidade para Alckmin, por Fernando Exman

Valor Econômico

Ala política ganha força e coloca em xeque agenda liberal

A provável criação do Ministério da Segurança Pública, condicionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à aprovação da proposta de emenda constitucional que dá mais instrumentos à União no combate ao crime organizado, abrirá uma vaga na Esplanada que pode interessar ao vice-presidente Geraldo Alckmin.

A PEC foi aprovada na terça-feira (3) pelo Senado, movimento que coincide com as discussões preliminares sobre a composição do próximo governo. Em relação ao destino de Alckmin, porém, ainda há mais de um cenário traçado dentro e fora do PSB.

Entrevista | direita tem a chance de se desvencilhar do bolsonarismo e ir para a via democrática, diz Sérgio Abranches

Cientista político que formulou o conceito de presidencialismo de coalizão vê crise no modelo

Por Samuel Lima / O Globo

Num artigo de 1988 que se tornaria um clássico da ciência política brasileira, Sérgio Abranches descreveu o sistema político nacional como um “presidencialismo de coalizão”, no qual o governante precisa superar a fragmentação partidária e compor alianças por meio da distribuição de cargos e recursos do Orçamento. Quase 40 anos depois, Abranches aponta para a crise desse modelo, com o encolhimento de partidos de ligação entre o presidente e o Congresso e a evolução das emendas parlamentares. É diante desse desafio, diz, que Lula assumirá um novo mandato, após uma eleição que pode ter marcado o fim do ciclo do bolsonarismo. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Ruas não são cheque em branco para Lula, por Vera Magalhães

O Globo

Mobilização nas ruas que assegurou virada para o presidente não dá a ele respaldo para ignorar clamor por sinalização clara de compromisso fiscal

Lula venceu a eleição sem prometer um ajuste fiscal de grandes proporções, sem apresentar um plano para conter o crescimento das despesas obrigatórias e sem fazer concessões ao mercado financeiro. Não seria razoável, portanto, exigir que, uma semana depois de sua vitória, anunciasse uma guinada radical na política econômica. Mas seria igualmente equivocado interpretar o resultado das urnas como um aval para atravessar o quarto mandato sem mudanças relevantes nessa área.

O homem que não quis ser ministro, por Elio Gaspari

O Globo

A primeira surpresa foi a esquerda perder a timidez diante das redes sociais. A segunda foi a aceitação imediata do “Exército do Lula”. Em dois dias, foi de 50 mil para 1 milhão, e no dia do segundo turno eram 10 milhões. Obra do deputado federal André Janones (Rede-MG), com mais uma surpresa. Ele não quer ser ministro:

— Por que não desejo ser ministro? Porque não posso ter as amarras da liturgia de um cargo nem ficar preso a compromissos burocráticos!

Janones quebrou a escrita segundo a qual o uso das redes sociais era privilégio da direita. Ele e seu exército foram parar nas páginas de The New York Times, The Guardian e Le Monde. Seu modelo de ativismo vem sendo replicado em vários países.

Jogatina FC Clube, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Cartolas martelaram ameaças de demissão, calote e quebradeira em audiência no STF

A cartolagem resolveu apelar ao terrorismo para tentar reaver o dinheiro das bets. Em audiência pública no Supremo, dirigentes de clubes de futebol falaram em demissão, calote e quebradeira. Queriam convencer a Corte a derrubar a medida provisória que proibiu a jogatina.

O vice-presidente do Flamengo, Flávio Willeman, alegou que a MP traria “riscos para a institucionalidade”. “O Brasil não pode romper com os ideários de liberdade econômica”, dramatizou, como se o país estivesse prestes a adotar o comunismo.

A cidadania obriga, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Pedir respeito à palavra dada não é moralismo. A tolerância com a falta de palavra tem feito muito mal ao Brasil

Em entrevista à TV Globo, Flávio Bolsonaro prometeu que, caso perdesse as eleições, respeitaria o resultado. Após perder as eleições por uma diferença de mais de 4 milhões de votos no segundo turno, o primogênito de Jair Bolsonaro disse que era impossível aceitar o resultado. Na carta que publicou ao chegar a Miami, o candidato do PL declarou-se presidente eleito do Brasil. Para deixar claro o valor que concede à sua palavra dada, horas depois alterou a autoproclamação. Seu novo status era agora o de líder do País.

Por mais absurdo que seja o comportamento de Flávio Bolsonaro, não deveríamos ficar surpresos. Destaco um episódio. Antes de vir a público sua proximidade com Daniel Vorcaro – com visitas ao banqueiro e pedidos de dinheiro gordo –, o candidato do PL fez campanha eleitoral vestindo a seguinte camiseta: o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula. “É com essa integridade que o senador dialoga com o eleitor” (Integridade, Estadão, 3/6/2026, A4).

Professor de Deus, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Desafio de Lula no quarto mandato é reunir apoio para as reformas em vez de recriar o mundo

Era março de 2021. O Supremo Tribunal Federal havia acabado de anular as condenações de Lula na 13.ª Vara Criminal de Curitiba quando Ciro Gomes, diante da possibilidade de o petista ser candidato à Presidência em 2022, afirmou: “Não contem comigo para esse circo”. Lula reagiu: “Ciro acha que é professor de Deus”. O petista reclamava do que considerava ser uma ausência de humildade.

Na semana passada, diante da repercussão mundial da vitória sobre Flávio Bolsonaro, o entorno de Lula foi tomado pelo temor inconfesso de que o petista caía na tentação de assumir o papel que viu no ex-ministro de seu primeiro mandato, aquele mesmo em que Lula entregou o Banco Central a Henrique Meirelles e contava com Marcos Lisboa como secretário de Política Econômica. Afinal, quem Lula ouvirá em seu quarto mandato para decidir os rumos da economia? André Lara Resende? Quem formulará a política de combate ao crime organizado? Com quem e para quem o petista pretende governar?

Cavalo de pau nos juros, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Há uma combinação nefasta de fatores que deve pressionar os índices de preços ao consumidor

Os analistas estão praticamente divididos na aposta entre um corte adicional de 0,25 ponto porcentual e a manutenção da taxa Selic em 13,75%, como desfecho da decisão do Copom de hoje, mas desde a última reunião, em setembro, o cenário mudou tão drasticamente em termos do balanço de riscos para a inflação que o Banco Central precisaria agir com urgência e dar um cavalo de pau na política monetária, elevando os juros agora.

Comando do Congresso e ministro da Fazenda definirão novo governo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A convergência com Centrão pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas

A agenda legislativa na ordem do dia depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tem como objetivo político a manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) nos comandos da Câmara e do Senado, respectivamente. A votação de propostas de grande repercussão social, como a PEC da Segurança Pública, aprovada nessa terça-feira, e a regulamentação do fim da escala 6 x 1, a negociação de espaços no futuro ministério e as articulações para preencher vagas em tribunais integram a construção da maioria que deverá sustentar o quarto mandato de Lula. Nesse sentido, a governabilidade dependerá do Centrão.

A Trump o que é de Trump, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Se perder maioria no Congresso para os democratas, o republicano terá que vestir a carapuça de pato manco

Talvez nunca antes na história moderna dos Estados Unidos tenha existido um presidente tão controverso, tão polêmico e tão ambíguo como Donald J. Trump. Sem papas na língua e capaz de emitir sinais difusos — e bastante confusos —, Trump talvez somente tenha como rival o próprio ego. No momento em que escrevo este artigo, o presidente que se sente no centro do universo sofre uma ameaça quase palpável de corrosão do próprio poder.

A aprovação da PEC da Segurança Pública no Senado, Luíza Altoé

Correio Braziliense

Em vitória do governo, texto é aprovado, inclusive, com votos dos bolsonaristas — que não conseguiram incluir a diminuição de idade para a responsabilização criminal. União passa a ter mais poder no combate às facções, que são alvo de medidas mais duras

O Senado aprovou, ontem, por unanimidade, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública sem a redução da maioridade penal. Foi uma vitória do Palácio do Planalto, uma vez que a matéria é a resposta do governo federal à sociedade sobre o endurecimento do combate ao crime organizado. No primeiro turno, foram 73 votos favoráveis e nenhum contrário e, no segundo, o placar foi de 75 x 0. A matéria segue para promulgação.

A redução da maioridade penal era uma reivindicação dos bolsonaristas. Até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha se manifestado favoravelmente a ela, na sabatina feita pela Rede Globo antes do segundo turno da corrida presidencial, mas somente para crimes hediondos. Porém, a base governista era contrária à medida.

Virada de Lula mostrou o peso do voto facultativo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Presidente usou a máquina, mas ganhou por causa do estímulo para o eleitorado ir à urna por querer

A eleição sinalizou que a reforma política passa pela liberdade de se fazer do voto uma escolha cívica

O afã de reformular as regras do sistema eleitoral cresce ou arrefece de acordo com os interesses de partidos e políticos, com base nos sinais saídos do último pleito.

A reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) fez sumir do mapa o tema da renovação de mandatos, cuja extinção até outro dia era tida como essencial para o bom andamento dos trabalhos institucionais.

Entrou em cena a adoção do voto distrital misto no papel da panaceia da vez e, mais uma vez, deixou-se de lado o exame preciso e detalhado sobre a reforma realmente necessária aos meios e modos de se fazer política no Brasil.

O que houve de inovador no canal de WhatsApp do Exército do Lula? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Trunfo foi ordenar os seguidores dispersos

Bolsonaro inovou na circulação e Janones, na coordenação

Em 2018, Geraldo Alckmin entrou na disputa presidencial com cinco minutos e meio de televisão, enquanto Bolsonaro tinha oito segundos. Iniciado o horário eleitoral, dizia-se, a candidatura do deputado seria triturada pela máquina televisiva. Mas foi Bolsonaro quem liquidou Alckmin e, com ele, a certeza de que vencer uma eleição presidencial dependia de dominar a TV. Uma rede de grupos de WhatsApp, articulada a canais, influenciadores e produtores de conteúdo, demonstrou que a campanha digital podia derrotar a forma de comunicação eleitoral dominante havia décadas.

Não foi uma simples vitória eleitoral. Foi uma inovação nos métodos e processos de campanha. Nos anos seguintes, o bolsonarismo transformou aquela infraestrutura em uma ecologia permanente de comunicação política, com veículos, celebridades, comunidades e circuitos de circulação próprios. A direita radical passou a levar vantagem na disputa diária pela atenção, pelas pautas, pelas narrativas e pelos enquadramentos dos acontecimentos.

Plano Lara Resende e variantes fracassariam antes mesmo de começar, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mera hipótese de implementação provocaria alta crítica de taxas de juros e dólar

Programa exige ainda mudança institucional enorme, de tramitação lenta e difícil

Política monetária e fiscal foram assunto "pop" das redes em um feriado prolongado. A notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviria ideias do economista André Lara Resende (ALR) causou uma pororoca, um confronto virtual e viralizado entre os críticos do terrorismo de "o mercado", que quereria um terceiro turno da eleição a fim de mandar na economia de Lula 4, e crentes de alguma política econômica sensata, inclusive aqueles de esquerda e eleitores do presidente.

Um adepto de teorias da conspiração pode dizer que o governo vazou de propósito a hipótese ALR, que seria um espantalho ou boi de piranha. Dado o risco de vir um ALR ou similar, um programa mais ameno qualquer pareceria palatável. Enquanto os peixes devorassem o boi sacrificado, o resto da boiada do plano governista passaria. Hum.

A cilada do ajuste fiscal, por vários autores (nomes ao final do texto)

Folha de S. Paulo

Lula sabe de onde veio a vitória, e é essa força que está em risco

Conta deve atingir o andar de cima e não os movimentos populares que viraram a eleição

Desde a redemocratização, nenhum candidato havia virado uma eleição presidencial no segundo turno. Lula virou —e não foi sozinho. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente e, no dia seguinte, estudantes já estavam nas ruas.

A mobilização nasceu sem convocação da campanha e cresceu por três semanas, até tomar as ruas de todo o país na véspera da votação. Lula, que subiu nos palanques das Diretas Já, disse nunca ter visto nada igual. No domingo (25), recebeu 64,3 milhões de votos, a maior votação já obtida por um candidato a presidente.

Trump virou um chato, e isso o povo não perdoa, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Existe uma lei de ferro da política que escapa aos cientistas, sociólogos e filósofos: o eleitor detesta estar farto

Acima de tudo, Trump perdeu a graça; já faz dez anos que o aturamos, e toda a gente abaixo dele é mais chata ainda

Escrevo antes de saber os resultados das eleições nos EUA, mas não é de hoje que estou confiante de que a saturação com o trumpismo vai desencadear uma contrarreação —e, aliás, escrevi na semana passada isso mesmo, dizendo que o início dessa revolta contra a extrema direita foi no Brasil.

Sociólogos, economistas, filósofos e cientistas políticos procuram desde há muito leis gerais para as mudanças na opinião pública: se é a inflação, se é o desemprego, se é a falta de crescimento econômico, se é a sua distribuição.

Mas antes disso tudo, digo eu, há que considerar um fator básico da natureza humana: o aborrecimento. Os humanos detestam estar fartos, de saco cheio, entediados, cansados de sempre o mesmo. E essa é uma lei de ferro da história da humanidade. Chega a um ponto em que o pessoal não aguenta mais.

Eleições nos EUA: Tsunami democrata apressa o fim da era Trump, por Eduardo Graça

O Globo

Presidente pediu que eleitores fossem às urnas como se ele estivesse nas cédulas e se tornou o maior derrotado da noite. Com o controle do Senado e da Câmara, democratas se posicionam melhor para 2028

Os americanos apressaram em dois anos o fim da era Trump nesta terça-feira de 3 de novembro. Milhões de eleitores, em todas as regiões dos Estados Unidos, repudiaram em alto e bom som a segunda temporada de Donald Trump na Casa Branca. Ao superar todas as projeções de uma onda azul, em referência à cor da oposição, o Partido Democrata também venceu disputas importantes para governos de estados que serão decisivos no Colégio Eleitoral em 2028, incluindo a primeira governadora negra do país, Keisha Lance Bottoms, e a primeira latina do Texas, Gina Hinojosa. Cadeiras mantidas pelos republicanos há meio século ou mais no Legislativo migraram para o outro lado no que se configura um tsunami, com consequências imediatas não só para a política interna do país como também para a expansão global do trumpismo.