quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O jornalismo e as eleições, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?

Buscando nomes, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo vai se despedindo da condição de comandar a ‘direita’

Há algumas leis da prática da política que transcendem postulados ideológicos. Uma delas é que poste de líder vivo não vira líder. No caso do impedimento do líder, preso ou fora do País, o poste precisa estar onde o líder não está – ou seja, na rua ou no País.

Flávio Bolsonaro já não teria como comandar a oposição a Lula mesmo antes da patética postura de assinar e recuar de uma carta golpista lá nos distantes EUA. Sua principal credencial como candidato tinha sido o dedo do pai, que excluiu qualquer nome de fora do clã por interesse pessoal. Arriscou perder a eleição para não perder o “comando” da direita. Perdeu os dois.

Ex-presidentes do PT veem necessidade de que governo Lula 4 fale com novas bases políticas, por Leonardo Fuhrmann

Folha de S. Paulo

Tarso Genro, José Genoino e Olívio Dutra admitem que vitória só veio por eleitores que consideraram Flávio Bolsonaro ameaça à democracia

Para eles, além dialogar com forças democráticas de direita, presidente precisa reforçar participação popular nas decisões

Na avaliação de três ex-presidentes do PT, a vitória do presidente Lula no segundo turno da eleição deste ano foi muito maior do que a do partido e mesmo a de seus aliados na eleição. O petista teve apoio da Rede, PSOL, PSB, PV e PDT e grupos locais de partidos como o PSD e o MDB.

Por isso, apontam a necessidade de que o PT amplie o diálogo, principalmente com os eleitores que lotaram as ruas durante o mês de outubro. Outros líderes de esquerda que participaram das manifestações destacaram, em discursos, a necessidade de manter uma mobilização popular mesmo após a vitória, inclusive como resposta à força da direita e da extrema direita em governos estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado e nas Assembleias Legislativas.

Quem vai aderir ao novo golpe dos Bolsonaros? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio quer revolta golpista contra eleição 'roubada' e 'tirania', mas por ora está sozinho

Senador escafedido compara Brasil a país sob ocupação nazista ou domínio colonial

Flávio Bolsonaro coroou-se líder de uma campanha contra uma "tirania", um "regime de exceção", uma eleição "roubada". Comparou-se a Charles de Gaulle (1890-1970), general que liderou a resistência contra a ocupação nazista da França (1940-1944), depois presidente do país.

Em grau de delírio ignaro um tanto menor, mas politicamente mais perigoso, se comparou a políticos que combatiam no exílio a ditadura chavista. Estaria sugerindo uma intervenção trumpista? Qual delas? A que sequestrou o ditador Nicolás Maduro ou aquela que mantém no poder da Venezuela a esbirra neocolonial Delcy Rodríguez?

Flávio não é perseguido, não há ditadura judicial, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Casas de tolerância à delinquência política explicam como Bolsonaros são possíveis

Ordem de retenção de passaporte precisa ser escrutinada pelo STF, mas não faz de senador um perseguido em regime ditatorial

A família Bolsonaro nunca se destacou pela coragem. Nem pela honestidade ou defesa da liberdade. Encontre na família uma virtude, um projeto de valor público, um gesto de civilidade. Uma ideia que não remeta à arma ou à tortura.

A reincidência na covardia e na mentira está catalogada nos registros da história e nas investigações criminais. Nem se fale do uso do cargo para fins privados. Da corrupção, enfim.

Flávio prometia mudança e se mudou. Fugiu para o país ao qual oferecia, se eleito, nossas riquezas naturais, como minerais críticos, e institucionais, como o Pix. Flávio disse que aceitaria o resultado, entregaria os passaportes e não fugiria. Do mesmo jeito que afirmou não conhecer Daniel Vorcaro nem o careca do INSS, nem ser sócio de Willer.

Com chanchada política, Flávio menospreza Brasil e apoiadores, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Carta delirante em que se autoproclama presidente e se compara a Rui Barbosa evidencia equívoco de apoio de setores das elites e mercado ao candidato

Direita democrática não consegue erigir candidatura competitiva à Presidência e pega carona em populistas e autoritários

A fuga de Flávio Bolsonaro para Miami se já era patética, tornou-se uma chanchada política com a carta que o candidato derrotado divulgou. No documento golpista, inicialmente acompanhado do antigo brasão do Brasil, vigente entre 1889 e 1968, o fujão se autoproclamou presidente eleito do Brasil e comparou-se a Rui Barbosa. Parece viver num mundo paralelo, numa ficção bizarra e insustentável.

Êxito além-fronteiras, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Reeleição de Lula tem ao menos três efeitos de importância internacional

Brasileiros provaram ser possível vencer a extrema direita votando livremente

Imprevisível, inédita e inquestionável, a reeleição do presidente Lula tem efeitos positivos mais vastos do que a auspiciosa derrota do que há de pior na política brasileira. Três deles, ao menos, possuem dimensão internacional e potencial para fortalecer a presença externa do Brasil.

O primeiro é que a amazônia escapou do previsível avanço da degradação, patrocinado pelo negacionismo em aliança com o crime. A proteção da floresta continua a ser um problema maiúsculo de interesse global. Seu enfrentamento requer do governo clareza de objetivos; capacidades estatais acrescidas; recursos utilizados com sabedoria; cooperação internacional; e inteligência política para dialogar e arbitrar interesses legítimos e conflitantes: populações indígenas e tradicionais; produtores rurais; pecuaristas; mineradores legalizados; a numerosa população que vive em suas cidades.

A diferença entre direita e esquerda, por Marcelo Rubens Paiva

Folha de S. Paulo

Um lado vê a desigualdade como um problema a ser enfrentado pela ação do Estado

O outro prefere um Estado mínimo, com as pessoas cuidando da sua segurança, saúde e educação

Na semana da eleição, um grupo de 50 estudantes do segundo ano do ensino médio, de cinco escolas paulistanas, queria que eu explicasse o que era direita e esquerda. Votariam pela primeira vez.

Formaram um círculo de cadeiras de plástico brancas no salão de festas do meu condomínio. Sei que aqui tem alunos de direita, ou que a família é de direita, e respeito a convicção de cada um de vocês, comecei.

Isso é democracia. Aliás, se fosse na ditadura militar, esta reunião jamais seria possível. O zelador ou o síndico chamaria a polícia, seríamos presos e talvez torturados, contei.

A fuga do amarelão, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Não faltam sinônimos para definir Flávio Bolsonaro como covarde e mentiroso

Os braços musculosos sob a camiseta amarela são incapazes de encarar a lei

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão —digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo (25), a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações —a escolha também é farta—, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?

Entrevista | Alberto Aggio – El Clarin – 28 de Outubro de 2026

Entrevista de Alberto Aggio concedida a Edison Ortiz, historiador e organizador cultural chileno, e publicada no El Clarin (Chile, 28.10.2026). Na entrevista se registram as interpretações do historiador sobre as razões e os eixos de mobilização que marcaram a vitória eleitoral de Lula e os desafios que se abrem doravante. Para Aggio, não há duvida de que a vitória de Lula foi um resgate, em novos termos, do que vem significando, apesar de muitos descaminhos e insuficiências, a construção da democracia, que agora se vê fortalecida.

Presidente do PT, Edinho Silva, explica estratégia do governo Lula para a segurança pública - Globonew

 

Poesia | Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo, de Fernando Pessoa

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo

Música | Paulinho da Viola - Timoneiro

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Lula não tem mais como adiar plano de ajuste fiscal

Por O Globo

Mais importante que especular sobre nomes para Fazenda é uma proposta confiável para conter a dívida pública

Como era esperado, o mercado ficou estressado com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsa caiu, juro futuro subiu, dólar disparou — e o Tesouro teve de intervir. A tensão diminuiu ontem, mas a incerteza persiste. O motivo é, na imagem feliz do colunista do GLOBO Carlos Alberto Sardenberg, a “herança maldita” de Lula para si mesmo. No atual governo, ele tratou com desdém a explosão da dívida pública, passou a campanha empilhando promessa sobre promessa sem nem querer ouvir falar em custo ou ajuste. Quem sabe fazer a conta constatou: ela não fecha. Sem ajuste, o país quebra.

O Zero Um sumiu: para onde vai a direita? Por Vera Magalhães

O Globo

Fuga de Flávio abre vácuo de liderança e expõe dificuldade da oposição a Lula de se desvencilhar do bolsonarismo

Quando parece que o Brasil vai curar a ressaca da comemoração ou do luto, o roteirista surpreende e oferece uma fuga espetacular de Flávio Bolsonaro do país, com plano ainda incerto e em tempo recorde depois da decisão de Alexandre de Moraes para que ele entregasse os passaportes.

E, como tudo no país é passível de interpretações opostas, o filho Zero Um de Jair é, para 64 milhões de brasileiros, um covarde que tem o que temer e, para boa parte dos 59 milhões que votaram nele, um perseguido por Moraes.

Se é verdade que o timing da decisão de Moraes foi coincidente com a eleição e que ela foi tomada sem que ele consultasse o Ministério Público ou que Flávio tivesse sido indiciado, também são concretos os argumentos da Polícia Federal (PF) para pedir a medida preventiva. A PF enumerou os seguintes fatos: o amigo e provável sócio de Flávio, Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito, já está na Flórida; o envio de vultosas quantias de recursos ainda não explicadas aos Estados Unidos pelo ex-candidato a presidente; e a declaração do irmão já foragido, Eduardo, de que, se perdesse, Flávio deveria se juntar a ele.

Da fuga fez sua verdade, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Direção Nacional de Migrações afirma que senador entrou no país às 22h50 desta terça

A Direção Nacional de Migrações, órgão do governo argentino, informou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou no país por via terrestre e decolou na madrugada desta quarta num jato particular rumo ao Equador.

De acordo com o plano de voo informado às autoridades locais, a aeronave decolou de Puerto Iguazú e deve pousar em Guayaquil, no Equador.

De lá, é esperado que o ex-presidenciável e a família sigam viagem rumo aos Estados Unidos, com autorização do presidente Donald Trump.

O Brasil voltou ao normal, por Elio Gaspari

O Globo

A ameaça do candidato do PL durou uma noite

Para quem se lembra do pesadelo vivido pelo Brasil há quatro anos, a decisão de Flávio Bolsonaro de desistir de batalhar pela anulação do pleito foi um alívio. Sinal de que a direita, derrotada por uma margem de 4,4 milhões de votos, decidiu aquietar-se nos Estados Unidos.

Há quatro anos, vivandeiras acampavam diante de quartéis, pedindo um golpe de Estado. O afastamento dos militares da política foi uma das maiores realizações do Lula 3.0.

Ele conseguiu isso porque, ao contrário de seu antecessor e de alguns çábios do mercado, não opera jogando na tensão. A vitória de Lula foi um poderoso sinal de que, em quatro anos, ele recolocou o Brasil no caminho da normalidade. Até Donald Trump e presidentes latino-americanos deram-se conta disso.

Janela para rearranjos das forças de esquerda e direita, por Fernando Exman

Valor Econômico

Nos bastidores, há também uma cobrança para que Lula prestigie novas lideranças locais

Concluída a eleição, esquerda e direita devem passar por processos de reorganização de suas forças políticas. À esquerda, o que se espera é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidere pessoalmente o processo e não repita o “erro” dos últimos quatro anos de não aproveitar o comando do governo central para fortalecer novas lideranças e partidos aliados - não apenas o PT. A avaliação é que, em caso de derrota no domingo (25), a esquerda só voltaria ao poder em um horizonte de longo prazo, o que não ocorreu por muito pouco. Em relação à direita, o desafio é distinto: aproveitar a fuga de Flávio para os Estados Unidos e abrir caminho a uma liderança que não tenha o sobrenome nem dependa do crivo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Cenário cria fissura na extrema direita, diz pesquisador, por Lucas Monteiro

Valor Econômico

Para Odilon Caldeira Neto, campo bolsonarista terá que disputar com esquerda mais organizada nas redes

A possível fuga do senador e candidato derrotado à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do Brasil para os Estados Unidos, provoca uma fissura e abre espaço para novos nomes na extrema direita, mas o bolsonarismo tem pela frente o desafio de disputar as ruas com o que chama de campo democrático, avalia Odilon Caldeira Neto, professor de História na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

“Com Jair Bolsonaro preso; Eduardo e possivelmente Flávio nos Estados Unidos e a incógnita na articulação política que representam Carlos e Jair Renan, foram criadas fissuras no campo da extrema direita, que podem se refletir numa reorganização das alas desse grupo”, afirma o professor. As alas às quais Odilon se refere são a evangélica, a feminina e a de segurança.

O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões

 George Simenon foi um dos mais importantes e produtivos escritores de romances policiais, a maioria deles tendo como protagonista o Comissário Maigret. “O homem que via o trem passar” (1938) é um célebre romance psicológico do autor, cujo principal personagem é Kees Popinga, holandês pacato, burguês e exemplar chefe de escritório na cidade de Groningen, que pira quando descobre que seu patrão faliu e fraudou a empresa.

Lula usará a sua força popular para garantir a governabilidade? Por Pedro Neiva*

Correio Braziliense

Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de negociação

Depois da vitória do presidente Lula no domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas podemos especular. 

Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.

Fuga de Flávio é problema para a direita e para Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador repete pai e irmão, agindo como culpado de crimes enquanto alega sofrer perseguição política

Aliados serão obrigados a optar entre solidariedade e distância; episódio pode gerar crise com os EUA

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política.

O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro.

Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar.

Flávio, o mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No padrão da família, candidato derrotado foge da polícia e quer subverter política

Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.

Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C, por Renato Meirelles

Folha de S. Paulo

Petista ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura

Presidente deu motivo ao eleitor para não trocar o certo pelo duvidoso, mas o quarto mandato precisa oferecer mais do que a opção menos arriscada

Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.

Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.

Final feliz? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula escapou de encerrar carreira perdendo para o pior dos Bolsonaros

Próximos quatro anos não serão fáceis e definirão biografia do petista

Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

País deu recados ao governo e à oposição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Primeiro turno foi um aviso a Lula, e o segundo alerta à direita sobre malefícios de se atrelar ao bolsonarismo

Antiguidades como fascismo e comunismo não estiveram em disputa na cabeça do eleitorado pragmático

A cena eleitoral de 2026 desenhou com nitidez a escrita de que o segundo turno é uma outra eleição. O primeiro foi um aviso de insatisfação do eleitorado ao presidente Lula (PT); o segundo enviou à direita um recado sobre os malefícios de se manter agarrada ao pé da mesa da família Bolsonaro.

Se o campo que se fortaleceu nos governos estaduais e no Legislativo insistir em lançar desconfiança sobre o resultado das urnas e ficar preso a anistias de golpistas, pode perder o bonde, o controle da agenda e desperdiçar a vantagem no Congresso.

Flávio fujão, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Para que serve a polarização? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.

Mais Alckmin, menos Janja, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O sentimento de vários analistas é de que Lula precisa mudar a postura dos últimos quatro anos

No calor do desfecho da eleição presidencial, no domingo à noite, ao ser perguntado sobre o que esperava da política econômica no quarto mandato de Lula, um renomado economista foi lacônico: “Mais Alckmin, menos Janja”. A conversa parou por aí, mas resumiu o sentimento de vários analistas de que o presidente reeleito precisa mudar a postura dos últimos quatro anos, quando deu ouvidos às opiniões das lideranças do PT em detrimento do que esperava a coalizão de centro que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

Fuga de Flávio abre disputa na oposição, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente é aconselhado a ignorar rival e anunciar medidas para conter crescimento de despesas; petista não acredita em nova intentona golpista

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos abre uma disputa acirrada pelo comando da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato. Até agora, o PL não definiu quem exercerá esse papel e há uma briga nas fileiras do bolsonarismo pelo espólio político de Jair Bolsonaro.

Embora o mandato de Flávio termine em 31 de janeiro de 2027, data em que perde o foro por prerrogativa de função, ele próprio anunciou, um dia após a derrota para Lula, que irá “organizar” a oposição ao governo. A portas fechadas, aliados de Flávio dizem que os senadores eleitos Michelle e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, não têm esse perfil. Os dois, aliás, nem se falam.

Poesia | Monotonia, de Fernando Pessoa

 

Música | Canta, Canta Minha Gente - Varios Artistas (Sambabook Martinho da Vila)

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição

Por O Globo

Ante resultado incontestável das urnas, senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar

O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.

O movimento que venceu a eleição, por Míriam Leitão

O Globo

A avalanche que entregou 10 milhões de votos a mais a Lula foi a verdadeira frente ampla. Não a dos partidos, mas a das ruas e das redes sociais

Foi épico e educativo. Nunca se viu uma vitória eleitoral assim. A estratégia do segundo turno não nasceu no comitê de campanha do presidente Lula. Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo de estudantes em Niterói, que se espalhou pelo país, comandado por jovens nascidos digitais. Terminou sendo confirmado pelos mais velhos, que foram votar, muitos levados por seus netos. A reeleição de Lula tem muito a ensinar sobre tendências, política, comunicação, sociologia.

Na economia, no primeiro dia, o mercado desabou como era de se esperar. E aí não há mistério. Os operadores estavam com posições montadas para o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. O desmonte está sendo tão grande quanto a aposta. Durante alguns dias, o mercado continuará assim em queda, depois a volatilidade diminuirá naturalmente, mas deve impactar, por exemplo, os próximos boletins Focus, que refletem as expectativas dos gestores do dinheiro. Seria prudente reduzir incertezas fiscais e econômicas. De fato, existem e precisam ser enfrentadas, com esclarecimento sobre o futuro das contas públicas. Se o dólar ficar em alta por muito tempo, eleva a inflação, a queda das bolsas fragiliza empresas, a instabilidade financeira pode ter consequências adversas e aleatórias.

Virada histórica terá impacto nos próximos anos, por Fernando Gabeira

O Globo

A direita poderá se libertar da liderança dos Bolsonaros, o que não significa que eles desaparecerão. Só ocuparão lugar mais modesto

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Sonho democrático, por Merval Pereira

O Globo

O país deu uma demonstração de que não quer mais a visão autoritária de governo de Bolsonaro. É um bom sinal.

O que saiu vencedor anteontem foi a rejeição à volta ao poder do extremismo de direita, mais que a preferência pelo petismo ou pela esquerda. Não se tratou de ser a favor de Lula, mas contra os Bolsonaros. Os jovens que saíram às ruas buscavam a figura original de Lula, criada pela imaginação da maioria que nem o viu chegar ao poder em 2002, mas herdou a memória da saga do operário que veio de baixo e chegou ao Palácio do Planalto defendendo valores humanísticos e morais que haviam se perdido na luta da velha política contra o novo que chegava.

Um novo Brasil, por Pedro Doria

O Globo

Pela primeira vez em muito tempo, houve um embate político público entre duas grandes ideias de Brasil

Como definimos democracia? Existem dois caminhos. Quando olhamos de cima para baixo, o regime é feito de suas instituições. Os três Poderes operando em sintonia, nenhum ator que abuse da autoridade que tem. Impessoalidade. Por esse ângulo, o Brasil vai mal. Mas há outro jeito de ver, de baixo para cima. Não a democracia dos Poderes, mas a do povo. Uma sociedade engajada, atuante. Atenta. Ciente de que o regime depende dela. Não uma sociedade que diga — “isto é com eles, cuido só do meu”. O contrário. Uma sociedade dedicada ao trabalho comum de construir em conjunto a nação. Vista assim, do chão, da rua, talvez o Brasil esteja bem melhor do que nos habituamos a enxergar. Existe uma saída para nossa crise. Mas nossos líderes a reconhecerão?

Conquista do 4º mandato liberta Lula do ressentimento, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Foi a descoberta de que poderia falar diretamente com o eleitor para romper com a divisão do país que o libertou

Passados quase sete anos desde que deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, só agora, ao conquistar seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter se libertado daquele cubículo de 15 metros quadrados em que passou 580 dias.

Muitos dos problemas que se acumularam em sua volta ao poder em 2022 tiveram como motor a percepção, equivocada, de que havia sido redimido de sua prisão quando, na verdade, foi usado de escudo contra o bolsonarismo. A montagem do governo e, principalmente, da equipe palaciana, refletiu um presidente mais ressabiado que se fiou, sobretudo, na relação de confiança pessoal com seus indicados que lhe traziam sua leitura do país em sua nova prisão, os palácios do poder.

Alckmin ganha protagonismo dentro do governo, por Andréa Jubé

Valor Econômico

Vice-presidente emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo

Com sua relevância reconhecida tardiamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) terá mais protagonismo no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual se espera que a frente ampla que, novamente, foi decisiva para a vitória petista, tenha mais espaço e voz no governo. Após o empenho no segundo turno, que ampliou a votação da chapa, Alckmin emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo.