sábado, 27 de novembro de 2021

Cristovam Buarque* - A lição de Ortega

Blog do Noblat / Metrópoles

O Lula precisa reconhecer que autoritarismo não deve ser apoiado, qualquer que seja o partido e o dirigente que o pratica

Uma jornalista espanhola deu a Lula a chance de perceber o risco de certas posições que ele e o PT assumem, refletindo visão de esquerda do passado, alguns chamam de “exquerda”; e do risco de estas posições atrasadas servirem para eleger Bolsonaro, por rejeição ao PT. Historicamente, seria melhor se o Brasil contasse com posições e nomes progressistas sintonizados com a marcha do século XXI, mas, eleitoralmente, ainda bem que o Brasil tem o PT e Lula para ajudar a barrar a reeleição de Bolsonaro. Por isto, Lula tem a obrigação de perceber que ainda carrega ideias e erros do passado, e deve supera-las para cuidarmos do futuro. Depois do Bolsonaro, não vamos voltar a 2003, mas avançarmos para 2023.

Deve superar qualquer rancor pelo que sofreu no passado recente, da mesma forma que também devem abandonar rancor aqueles que sofreram e foram agredidos pelos gabinetes de ódio do PT.

Pablo Ortellado – A ambivalência de Lula

O Globo

No final de sua viagem à Europa, Lula deu entrevista ao jornal espanhol El País e foi questionado sobre o governo de Daniel Ortega na Nicarágua e sobre os protestos em Cuba. Suas respostas talvez evasivas, talvez condescendentes com o autoritarismo de esquerda provocaram amplo debate. Afinal de contas, por que Lula e o PT não conseguem condenar com clareza o autoritarismo na Nicarágua, na Venezuela e em Cuba?

Cuba é uma ditadura de partido único, sem liberdade de reunião e sem liberdade de organização sindical. O governo da Venezuela subordinou o Legislativo e o Judiciário, acabando com a separação entre os Poderes, redesenhou distritos eleitorais para dificultar a eleição de opositores, perseguiu veículos de imprensa, torturou e assassinou dissidentes. O governo nicaraguense prendeu os candidatos da oposição para poder ganhar as eleições, prendeu arbitrariamente centenas de outros dissidentes e suspendeu a operação de ONGs. Todos esses abusos antidemocráticos estão amplamente documentados nos relatórios das organizações de direitos humanos.

Dora Kramer - Briga de foice

Revista Veja

Pacificação e unidade são palavras recorrentes dos envolvidos na articulação de candidaturas ao centro. Nada mais falso e distante da realidade

Pacificação e unidade são duas palavras recorrentes tanto nos pronunciamentos oficiais quanto nas conversas informais dos envolvidos na articulação de candidaturas capazes de percorrer caminho alternativo a Jair Bolsonaro e Luiz Inácio da Silva. Nada mais falso e distante da realidade de cada um desses grupos.

Não significa que não haverá desistências adiante. É bastante possível, e até provável que haja, mas não ocorrerão em nome de uma união fraterna, e sim em atendimento a interesses pontuais resultantes do balanço entre custos e benefícios imposto pelas circunstâncias.

Em princípio, os partidos precisam de candidaturas a presidente para “puxar” votos à Câmara dos Deputados, nesta que será a primeira eleição geral com a proibição de coligações proporcionais. Quem quiser, e todos querem, ampliar suas bancadas federais e estaduais terá de se atrelar a cabeças de chapa fortes. Isso vale também para as disputas por governos de estados.

Ricardo Rangel - O fator Moro

Revista Veja

O ex-ministro tirará votos tanto de Jair Bolsonaro quanto do centro

Sergio Moro lançou sua candidatura há apenas duas semanas e já há pesquisas indicando que chegou aos dois dígitos nas intenções de voto. Não está claro a que patamar Moro chegará, mas é certo que ainda tem bastante espaço para crescer. Também é certo que tirará votos tanto de Jair Bolsonaro quanto do centro. Se tirar mais votos do centro, inviabiliza a terceira via e entrega o segundo turno ao capitão; se tirar mais votos à direita, inviabiliza o capitão e vai disputar a Presidência com Lula.

Moro precisa ter um discurso de direita o suficiente para tomar votos de Bolsonaro — o que explica, por exemplo, o convite ao senador Marcos do Val, que defende excludente de ilicitude (ou seja, licença para a polícia matar) e foi participante eventual da tropa de choque de Bolsonaro na CPI da Pandemia, para colaborar na área de segurança. Mas, ao mesmo tempo, Moro tem de mostrar moderação, senão não consegue votos ao centro e perde no segundo turno — por isso vem falando de injustiça social, educação, desmatamento. É um equilíbrio delicado. 

Cristina Serra - Máquina de moer gente

Folha de S. Paulo

A mudança do Código de Mineração se soma a outros projetos pró-mineradoras

Está em processo de incubação na Câmara dos Deputados, num grupo de trabalho criado por Arthur Lira, o projeto de alteração no Código de Mineração. O relatório da deputada Greyce Elias (Avante-MG), que está para ser votado, propõe que a mineração seja considerada atividade de "utilidade pública", de "interesse social" e "essencial à vida humana".

Sim, você leu direito. No país em que quase 300 pessoas morreram em dois recentes desastres no setor, a mineração passaria a ser considerada "essencial à vida humana". A essência do relatório é reduzir o papel regulador e fiscalizador do Estado, transformando-o em um mero bedel dos interesses das companhias mineradoras.

Alvaro Costa e Silva – Quem mandou morar ali?

Folha de S. Paulo

Como deseja o ministro Guedes, filho de porteiro não tem vez

A maneira pela qual o governo Bolsonaro trata o Enem é a confirmação de um desejo, uma tara, uma perversão, expostos em ações e declarações: aumentar ainda mais a desigualdade social no país. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é taxativo: filho de porteiro não pode entrar na universidade. E esta, segundo o ministro da Educação, Milton Ribeiro, há de ser para poucos, destinada às elites, que podem pagar caro em instituições particulares.

No primeiro dia do exame, uma chacina no Salgueiro, em São Gonçalo, região mais pobre e populosa do Rio de Janeiro, deixou oito corpos jogados num mangue. Negócio corriqueiro. O governador Cláudio Castro se limitou a comentar: "Não estavam fazendo coisa boa no local". A operação policial, no entanto, impossibilitou que cerca de 500 jovens tentassem uma vaga no ensino superior. O bando que controla o sistema educacional deve ter entrado em regozijo. Quem mandou morar ali?

Demétrio Magnoli - PSDB morre de política, não de app

Folha de S. Paulo

Causa mortis do partido foi a gripe do antipetismo e a pneumonia de bolsonarismo

MAD, iniciais em inglês de Mútua Destruição Assegurada, é o nome da doutrina nuclear seguida por EUA e URSS na Guerra Fria. Aplica-se, porém, ao espetáculo falimentar das prévias do PSDB.

Se estrategistas de Bolsonaro e Lula se reunissem para escrever um roteiro de implosão da candidatura presidencial tucana, não fariam serviço mais perfeito que o dos próprios tucanos.

A culpa é do app, ou do cronograma alternativo, ou da empresa contratada para fabricar o software, a julgar pela guerra de declarações desferidas por Eduardo Leite e João Doria.

A retórica bélica não deixou entrever algum fundamento político para a cisão irreparável, o que é prova definitiva da bancarrota do partido. Mas, de fato, o PSDB morre de política.

Lá na origem, o partido surgiu como expressão de um projeto social-democrata adaptado ao Brasil. Pouco mais tarde, no seu auge, os tucanos derivaram para uma plataforma social-liberal, sintetizada no Plano Real.

As reformas empreendidas pelo governo FHC não se confinaram à estabilização da moeda, alastrando-se aos campos do equilíbrio fiscal, das privatizações, da responsabilidade gerencial e de um ensaio de abertura comercial. O programa abriu caminho para, já sob Lula, a expansão das políticas de renda formuladas pelo antecessor.

Entrevista | 'Moro é agente do campo de centro e vai jogar junto', diz presidente do PSDB

Marcelo de Moraes / O Estado de S. Paulo

Bruno Araújo não vê ex-juiz da Lava Jato como rival e afirma estar certo de que partido chegará ao segundo turno na disputa ao Planalto

BRASÍLIA — Com a retomada das prévias tucanas neste sábado, 27, o presidente do PSDBBruno Araújo, avalia que o candidato escolhido pelo partido será competitivo na disputa pelo Palácio do Planalto e não enxerga o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro como rival.  Na avaliação de Araújo, o novo político do Podemos é alguém que vai “jogar junto”.

“Moro é visto como um agente catalisador do campo do centro, e não como adversário. Ele é visto como um protagonista que vai jogar junto para permitir que haja um segundo turno diferente dessa polarização”, disse Araújo, numa referência às pesquisas que indicam o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como os dois polos da corrida de 2022.

Araújo não mencionou, no entanto, se poderia haver uma dobradinha do PSDB com Moro e quem, nesse caso, lideraria a chapa na corrida ao Planalto. As eleições internas que vão indicar, com voto dos filiados, o nome preferido pelos tucanos para concorrer à Presidência são disputadas pelos governadores João Doria (São Paulo), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e pelo ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. As prévias foram interrompidas no domingo passado, 21, após um problema no aplicativo de votação. Tanto a equipe de Doria como a de Leite cantam vitória.

Adriana Fernandes - Senado é uma panela de pressão prestes a explodir

O Estado de S. Paulo

Agenda no Senado reúne votação da PEC dos Precatórios e sabatina de André Mendonça ao STF

O Senado é hoje uma panela de pressão pronta para explodir. O futuro da PEC dos Precatórios dependerá muito da capacidade de operação do governo na próxima segunda-feira, véspera do início da votação da proposta no Senado.

A semana que vem será de esforço concentrado na Casa com dois grandes embates ao mesmo tempo: a votação da PEC e a sabatina do ex-ministro da Justiça André Mendonça, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

O desfecho de um pode contaminar o outro. Nesse caso, a ordem de votação importa e muito. Uma derrota do governo na votação da indicação de Mendonça pode deixar ainda mais fluida a base de apoio do governo no Senado que está se desmanchando.

A votação da PEC está marcada para terça-feira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Já a data da sabatina não está certa. O presidente da CCJ, senador Davi Alcolumbre, que trabalha para a derrota de Mendonça, confirmou a votação para a próxima semana, mas deixou em aberto o dia da semana.

Novos ajustes no relatório do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra, estão sendo negociados para buscar mais votos, entre eles, mecanismos para deixar claro que não haverá retenção da expedição de precatórios pela Justiça e a prioridade de pagamento dos precatórios alimentícios.

João Gabriel de Lima - Precisamos trazer os ‘russos’ para o jogo

O Estado de S. Paulo

Multinacionais devem adotar cada vez mais práticas sustentáveis para salvar o planeta

Pense num pequeno país africano que acaba de descobrir petróleo em seu mar territorial. Pense, agora, numa grande empresa multinacional de móveis e equipamentos de decoração. Pergunta: quem tem mais a contribuir na mitigação das mudanças climáticas?

A provocação é do economista Jorge Arbache, vice-presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina. Ele esteve na COP de Glasgow, onde circulou entre CEOs do setor privado. De lá saiu com um diagnóstico: “Se as grandes empresas multinacionais abraçarem a causa da economia de baixo carbono, sua contribuição pode ser maior que a de muitas nações individualmente”. Arbache é o entrevistado do minipodcast da semana.

Marco Aurélio Nogueira* - A educação na urgência da reconstrução

O Estado de S. Paulo

A educação sangra no Brasil. Mas seu coração não parou de pulsar, seja pelas exigências da vida moderna, seja pelo desejo de evoluir da maioria dos jovens

Não foram necessárias as demissões ocorridas no Inep e a “guerra ideológica” que cercou o Enem 2021 para que se vislumbrassem os dilemas do sistema educacional brasileiro. Sua situação atual assemelha-se ao topo de uma montanha que se entrevê em meio a nuvens ameaçadoras.

Os três últimos anos levaram ao extremo a crise desse sistema, hoje bastante arruinado. Em parte isso ocorreu como efeito da covid-19, mas a parte maior se deveu à conduta governamental, que cavalgou a pandemia e se apoiou tanto no menosprezo pela educação quanto no apreço pela ideologização dos temas pedagógicos e na incompetência dos ministros encarregados de formular e gerir a política educacional. Deu-se uma perversa combinação de fatores, que põe em risco o futuro do País.

Aulas remotas precárias, despreparo para o ensino à distância, falta de equipamentos adequados e impossibilidade do convívio presencial ajudaram a rebaixar a qualidade do ensino e a afastar muitos estudantes do estudo e da própria ideia de “escola”. A ausência de uma política educacional criteriosa completou o quadro.

A escola deixou de ser vista como estrada civilizatória que prepara para a vida, o trabalho, a convivência social. A situação vinha de antes, mas foi turbinada pelos estragos da pandemia e por tudo o que houve de esdrúxulo na gestão da área. O governo simplesmente fugiu da obrigação moral de transmitir aos jovens o que a sociedade tem de melhor, a cultura universal, o conhecimento acumulado, os instrumentos básicos para se mover na vida moderna, a leitura, a escrita, o cálculo, a História e a ética cívica. A ação governamental dirigiu-se deliberadamente para desorganizar o sistema escolar.

Marcus Pestana* - Guilherme Emrich, um empresário a frente do seu tempo

Hoje abandono o leito normal de meus artigos para homenagear a memória de um grande brasileiro, mineiro de Nova Lima: Guilherme Emrich.

Guilherme nos deixou no último dia 9 de novembro, aos 78 anos. Engenheiro, tinha algumas palavras chaves indissoluvelmente ligadas à sua personalidade e ação transformadora: inquietação, criatividade, empreendedorismo, inovação e ousadia. Era a tradução perfeita do empresário schumpeteriano, aquele que no conceito do grande economista austríaco, produzia inovações disruptivas. Guilherme sempre teve uma visão globalizada, antes da globalização. Apostou em startups, antes do termo existir. Ao invés de seguir a cultura empresarial predominante em boa parte do empresariado brasileiro, cartorial e patrimonialista, excessivamente dependente do Estado, pensava em inovação e empreendedorismo, competividade e produtividade.

Já na década de 1970, ao lado dos sócios e amigos Walfrido e Marcos Mares Guia, fundou a BIOBRAS, desenvolvendo tecnologias para a produção de insulina humana e erguendo uma planta industrial em Montes Claros, Minas Gerais, que teve a ousadia de se tornar, ao longo dos 80 e 90, a quarta maior empresa produtora de insulina do mundo, enfrentando forte competição das três grandes multinacionais instaladas no setor.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Mais uma variante

Folha de S. Paulo

Nova cepa do vírus gera temores no mundo; Bolsonaro reage com presteza incomum

O mundo estava preocupado com a nova onda de infecções por Covid-19 na Europa, com a persistente disseminação do vírus nos EUA e com as baixíssimas taxas de vacinação em países mais pobres.

Agora vê a possibilidade de que esses surtos espalhem uma nova variante do patógeno, identificada no sul da África e que já circula por Europa, leste da Ásia e Oriente Médio. Governos já bloqueiam voos de países africanos, e os temores afetam os mercados.

No Brasil, o governo Jair Bolsonaro reagiu com presteza incomum. O Ministério da Saúde emitiu um alerta sobre a cepa e recomendou o uso de máscaras; anunciou-se que será proibida a entrada de viajantes que tenham estado em seis países africanos; o mandatário ainda achou tempo para criticar a realização do Carnaval, um novo cavalo de batalha de seus seguidores.

Bolsonaro, como se sabe, nunca esteve preocupado com providências de contenção da epidemia. Pouco antes de o mundo saber da nova mutação do coronavírus, cobrava a reabertura das fronteiras terrestres do país.

Seu ministro da Justiça, Anderson Torres, discordava da exigência de certificados de vacinação para viajantes que pretendem entrar no país, recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o argumento precário do ministro, a vacina "não impede a transmissão".

Poesia | Fernando Pessoa - Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.  

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida… 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó príncipes, meus irmãos, 
Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? 
Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Música | Orlando Silva - Rosa (Pixinguinha e Otávio de Souza)

 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Luiz Werneck Vianna* - A oscilação do pêndulo entre a modernização e o moderno

10 de novembro de 1937 e 7 de setembro de 2021são duas datas afastadas por pouco mais de oito décadas, mas próximas pelo que revelam das raízes fundas do autoritarismo político do país. Na primeira, quando um golpe de estado urdido no palácio presidencial por Vargas em conluio com o comando do exército, em nome de uma pretensa ameaça comunista, baseada numa documentação forjada, derrogou a Constituição de 1934 e promulgou em seu lugar um texto inequivocamente fascista. Nascia ali a ordem do Estado Novo, vigente nos longos oito anos seguintes. Na segunda, sob o governo que aí está, depois de uma cuidadosa preparação, quando se aliciou ao estilo de Donald Trump a mobilização de milícias aderentes ao governo, teve-se em mira o objetivo de derruir a ordem constitucional de 1988 com foco imediato no Supremo Tribunal Federal. Nessa oportunidade, faltaram os militares que se limitaram a participar da parada cívica do dia da Independência. Ao fim daquele dia deu-se o dito pelo não dito, com seus autores humilhados em juras de obediência às instituições democráticas e homiziados na grei dos políticos patrimonialistas do Centrão a fim de evitarem os riscos de um impeachment pelos crimes que tinham acabado de praticar.

Vera Magalhães - Improviso geral trava o Brasil

O Globo

O Brasil está travado institucionalmente por doses cavalares de improviso e casuísmo que foram sendo tolerados nos últimos três anos e culminaram num cenário em que não há previsibilidade alguma nos campos jurídico, político, fiscal e econômico.

O responsável pelo império da incerteza é Jair Bolsonaro, claro, mas os demais Poderes, o Ministério Público, o mercado e o Tribunal de Contas da União (TCU) são alguns dos cúmplices.

Bolsonaro não tinha maioria. Achava que obteria apoio parlamentar colocando sua turba das redes sociais para acossar o Congresso. Obviamente, não funcionou.

Mudou de método e decidiu comprar uma base parlamentar à custa de orçamento secreto. Vinha funcionando, até o Supremo Tribunal Federal (STF) mandar acabar com a brincadeira.

Agora, diante do impasse institucional, os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, resolvem se unir para salvaguardar o caráter sorrateiro das emendas do relator e preservar seus comandados da luz do dia. Resultado: anunciam que descumprirão decisão judicial! E marcam sessão do Congresso numa sexta-feira para tornar a desobediência oficial!

Bernardo Mello Franco - O bote de Moro

O Globo

Enquanto os tucanos se depenam nas prévias, Sergio Moro tenta avançar sobre as bases do bolsonarismo. A campanha do ex-juiz virou uma espécie de bote salva-vidas. A cada dia recolhe um novo náufrago do governo.

Ontem Moro celebrou a filiação do general Santos Cruz ao Podemos. O militar integrou a primeira leva de ministros de Bolsonaro. Em menos de seis meses, foi enxotado do palácio.

A presidente do Podemos, Renata Abreu, definiu o novo correligionário como um “homem de combate”. “Você representa uma instituição de muita credibilidade no país”, derramou-se. Ela se referia ao Exército, que deveria permanecer afastado da política.

Moro aposta em Santos Cruz para dividir o voto dos militares. Em 2018, a tropa marchou unida com Bolsonaro. Em 2022, o ex-juiz também terá um cabo eleitoral nos quartéis.

Fernando Gabeira - O declínio da democracia brasileira

O Estado de S. Paulo

Melhor funcionamento do sistema político no conjunto pode atenuar o descontentamento e, portanto, bloquear o caminho para aventuras redentoras

Relatório divulgado em Estocolmo esta semana indica a democracia brasileira como uma das que mais decaíram nos últimos cinco anos.

O relatório é assinado pelo Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea) e considera que a democracia foi afetada negativamente pela gestão da pandemia, por escândalos de corrupção, protestos antidemocráticos e ameaças ao Estado de Direito.

Para quem acompanha o cotidiano nacional, isso não é uma grande surpresa. A democracia está em acentuado declínio desde a eleição de Bolsonaro, em 2018, e o presidente eleito é o ator mais importante no retrocesso.

Os Estados Unidos, pela primeira vez, apesar do vigor de sua democracia, aparecem em ligeiro declínio, graças, sobretudo, à passagem de Donald Trump pelo poder.

Eliane Cantanhêde - Moro é a nova onda

O Estado de S. Paulo.

Tudo conspira a favor de Moro: crise tucana, filiação de Santos Cruz, renúncia de Mandetta

O lançamento de Sérgio Moro pelo Podemos chacoalhou o tabuleiro de 2022, já se reflete nas pesquisas e confirma que a eleição não será uma mera guerra entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula. A sociedade e a movimentação política estão mostrando que o céu é o limite para uma terceira via.

Tudo vem favorecendo Moro: a filiação de ontem do general da reserva Santos Cruz ao Podemos é uma isca para o eleitorado de Bolsonaro, particularmente os militares; a desistência de Luiz Henrique Mandetta é uma questão de tempo e abre as portas do União Brasil (DEM e PSL) para Moro; a bagunça das prévias do PSDB enfraquece, e muito, o partido mais natural para ocupar a terceira via.

Bastou Moro se desvencilhar da consultoria internacional, tirar a gravata, passar a falar como político e até sorrir, que tudo parece conspirar a favor dele, que tem uma marca, a marca do combate à corrupção, ainda tão cara à sociedade e, portanto, ao eleitorado brasileiro. E já monta grupos de debate e discute nomes para a equipe.

Entrevista | José Álvaro Moisés: PSDB “Partido jogou fora oportunidade”

Para cientista político José Álvaro Moisés, da USP, quem vencer prévia tucana vai ter que disputar com dois nomes, Moro e Ciro, que “já estão mais bem estabelecidos”

Por Cristian Klein – Valor Econômico

Rio - A crise gerada pelas prévias do PSDB expõe um partido dividido que terá um trabalho redobrado para retomar o protagonismo da disputa presidencial, afirma o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo (USP). O que já era difícil, para um partido que obteve 4,7% dos votos ao Planalto em 2018 e tem pré-candidatos com baixa pontuação nas pesquisas para 2022, se tornou “um panorama extremamente complexo”, diz Moisés, ex-secretário no Ministério da Cultura nos dois mandatos do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Tanto o governador de São Paulo, João Doria, quanto o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que disputam as prévias do PSDB com o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio, poderiam se beneficiar do grande holofote que a disputa interna ganhou para se cacifarem nacionalmente. Mas o fiasco tecnológico e as brigas de caciques que vieram à tona geram descrédito sobre a capacidade de os tucanos liderarem a terceira via. “O PSDB jogou fora essa oportunidade, pelo menos até agora. Poderia ter dado visibilidade ao grande legado do partido durante as prévias”, diz o cientista político.

Luiz Carlos Azedo - Que falta faz um pouco de Harmonia aos tucanos João Dória e Eduardo Leite

Correio Braziliense

Pois não é que o PSDB está como uma escola de samba conflagrada às vésperas do carnaval? O problema do partido nas eleições de 2022 não é a falta de candidatos

Com origem no grego, harmonia é um substantivo que significa concordância ou consonância. Na música, faz toda a diferença, porque é a combinação de sons simultâneos e a sucessão de acordes, ao longo de uma melodia. É uma ciência e uma arte. Nas escolas de samba, porém, o cargo de diretor de Harmonia não tem nada a ver com a bateria, que tem um mestre de percussão que manda e desmanda em todos os ritmistas. O diretor de Harmonia cuida do sentido filosófico do termo, ou seja, da paz entre pessoas, da concordância de opiniões e sentimentos dos integrantes da escola.

Não é uma tarefa fácil, pois se trata de respeitar e manter, de forma equilibrada e justa, os interesses das partes do todo. É o diretor de Harmonia, por exemplo, que organiza e arma o desfile da escola de samba na avenida. Quem já viu uma concentração antes do desfile no Sambódromo, tem ideia de como essa tarefa é difícil. BPois não é que o PSDB está como uma escola de samba conflagrada às vésperas do carnaval? O problema do partido nas eleições de 2022 não é a falta de candidatos, é a ausência de Harmonia.

José de Souza Martins* - A brecha conservadora

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Tudo sugere que em boa parte a atual crise política brasileira decorre da falta de um partido conservador, no correto sentido da palavra, da tradição e da doutrina

Não faz muito, numa conversação informal sobre o impasse político do momento brasileiro, ouvi de alguém que o país precisa de um candidato de centro que se oponha à direita e à esquerda. Alguém que personifique uma terceira via em relação ao bifrontismo político que nos aprisiona desde que o PT se firmou como partido polarizante do processo político brasileiro. Era ou ele ou mais nenhum. Essa equivocada concepção da política abriu o caminho para a monstruosidade antidemocrática que venceu as eleições de 2018.

Tanto o petismo quanto o bolsonarismo resultam da falta de alternativas ideológicas e partidárias que melhor expressem as identidades políticas socialmente possíveis e autênticas do povo brasileiro. Ou expressem a falta delas no comportamento eleitoral de uma classe média de perfil fragmentário, sem referências sociais determinadas, limitada às amedrontadas urgências do agora.

Se tivéssemos uma estrutura de representação política sem distorções sociais, novos sujeitos políticos, que surgiram no último meio século, teriam se manifestado eleitoralmente de modo diverso. Porém, ideologicamente capturados, eles já vinham sendo diluídos em designações abrangentes e genéricas, em categorias sociais que não são propriamente as suas, identificados no superficial e não no decisivo de seu modo social de ser. Uma falsa consciência autoritária usurpa e define como próprio o que é alheio.

Fernando Abrucio* - Um projeto de nação aos mais pobres

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O debate eleitoral e os desafios da governabilidade em 2023 irão muito além da transferência de R$ 400

A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal em favor de um programa permanente de renda básica mostra que as premissas de um Auxílio Brasil passageiro já foram superadas. A construção de uma agenda ampla e efetiva de combate à pobreza e à desigualdade social no Brasil tornou-se inescapável e não poderá ser apenas uma plataforma eleitoreira. Na verdade, essa temática será fundamental para ganhar a eleição presidencial, mas também, e com mais relevância, para governar o Brasil a partir de 2023. O país precisa de uma liderança que faça a ponte entre estes dois momentos e construa, efetivamente, um projeto de nação destinado aos mais pobres.

Cristian Klein - Sem tucanos, Moro estrutura terceira via

Valor Econômico

Em 14 anos, PT não fez ao PSDB o que Bolsonaro causou em 3

Se o ex-juiz Sergio Moro (Podemos) tinha dúvida sobre a que cargo concorrer em 2022, dada a inexperiência política e a facilidade de se eleger ao Senado, a crise nas hostes tucanas o empurrou para a roda da corrida presidencial. Quanto maior o fiasco nas prévias do PSDB, enredado em sucessão de equívocos, menor é a propensão de Moro figurar como coadjuvante na eleição do próximo ano. O ex-ministro virou a tábua de salvação da terceira via. Ninguém, nos últimos dias, o cogita mais como vice, um “conge” ideal para a chapa ao Planalto. A posição antes privilegiada do PSDB, de vertebrador do “centro democrático” - expressão curiosa que implicaria a existência de um “centro não democrático” - vai se desfazendo.

O partido que representa um legado de políticas públicas ao país, responsável por controlar a hiperinflação e primar pela responsabilidade fiscal, não consegue organizar, por falhas tecnológicas, uma mera eleição com filiados para escolher seu pré-candidato a presidente. Com essa habilidade, o que fará o PSDB para aglutinar as forças que se movem contra os favoritos Lula e Bolsonaro? Capacidade de gestão começa em casa. A imagem cultivada pelos tucanos nas últimas décadas é posta à prova. Mas se falta eficiência técnica, a situação não é melhor no que diz respeito a coesão política e apoio no eleitorado.

Bruno Boghossian - Playground bolsonaristas

Folha de S. Paulo

Deputados fazem conferência antivacinas e votam projetos para energizar base radical

A Câmara decidiu dar palco para uma conferência antivax. Parlamentares bolsonaristas organizaram uma audiência pública nesta quinta (25) para tentar derrubar uma proposta que amplia a vacinação contra o HPV. A turma aproveitou o evento para reativar seu negacionismo e voltou a espalhar desinformação sobre os imunizantes contra a Covid.

O debate teve só um lado. Os convidados eram um procurador e um neurocirurgião que defendem a cloroquina, uma médica que propagava a aplicação retal de ozônio contra a Covid e integrantes de uma associação de vítimas de vacinas. Idealizadora da audiência, Chris Tonietto (PSL) soltou dados falsos sobre os imunizantes aplicados na pandemia.

Reinaldo Azevedo - Hipocrisia lê fala de Lula sobre Ortega

Folha de S. Paulo

Talleyrand e La Rochefoucauld refletem, respectivamente, sobre declaração de petista e reação inflamada de hipócritas

Convido Lula e o PT a uma reflexão com uma frase que já virou um clichê: "Não aprenderam nada nem esqueceram nada". É atribuída ao diplomata francês Talleyrand ao se referir à volta dos Bourbons e sua turma ao poder na França, no período da Restauração.

E um bom debate se faria se os petistas respondessem com outra frase, igualmente espirituosa e verdadeira, na trilha de La Rochefoucauld: "A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude".

Vamos sair do mundo das frases para o dos fatos, que lhes conferem valor universal.

Junto-me àqueles que criticam duramente as afirmações feitas por Lula ao jornal El País sobre o nicaraguense Daniel Ortega. Ainda que repise argumentos, vá lá: Angela Merkel e Felipe González disputaram eleições limpas, seus adversários não estavam na cadeia, e o Poder Judiciário de seus respectivos países não eram formados por bonecos de mamulengo de um ditador.

Ruy Castro - Queima de arquivo

Folha de S. Paulo

A fim de reescrever a história recente, Bolsonaro escala um pazuello para o Arquivo Nacional

Jair Bolsonaro acaba de nomear para a direção-geral do Arquivo Nacional um ex-chefe de segurança do Banco do Brasil, ex-subsecretário de Segurança do Distrito Federal, premiado pela Confederação Brasileira de Tiro e sócio do Clube Colt 45. Com todo esse cartel, o cidadão parece entender de armas. Mas o Arquivo Nacional não é um estande de tiro.

Ele foi fundado em 1838, na Regência do marquês de Olinda, com a finalidade de preservar documentos públicos —administrativos, jurídicos, históricos. Entre milhares de itens, contém os arquivos trazidos pela Corte em 1808, uma coleção de fotografias iniciada em 1860, as Constituições do Império, os papéis pessoais do duque de Caxias e de muitos presidentes da República, registros de entrada de imigrantes, processos de tribunais civis e militares e o que mais você pensar. Contém a história do Brasil —daí ter sido, quase sempre, dirigido por historiadores, diplomatas, bibliotecários e, não por acaso, arquivistas.

Cláudio de Oliveira* - Política de alto nível na Alemanha. E no Brasil?

Na foto estampada nos jornais de hoje, Angela Merkel, atual primeira-ministra da Alemanha, recebe flores de Olof Scholz, que possivelmente a sucederá no cargo. Detalhe: Scholz é do partido adversário ao de Merkel.

Ela é da União Democrata-Cristã, a CDU, um partido liberal-democrático, de centro-direita, que desde o pós-guerra rivaliza com o SPD, o Partido Social-democrata Alemão, partido de Scholz, de centro-esquerda, agremiação que Karl Marx ajudou a fundar ainda no século XIX.

O SPD nunca abraçou totalmente as ideias revolucionárias de Marx. A maioria dos seus dirigentes sempre preferiu o reformismo de seus fundadores, como Ferdinand Lassale. Mas essa é outra história.

O importante a destacar é que apesar de rivais, CDU e SPD governaram juntos a Alemanha em diversas ocasiões na chamada “Grosse Koalition” (Grande Coalizão), quando os dois maiores partidos do país se juntam por não conseguirem separadamente a maioria. Caso dos dois últimos governos de Merkel, nos quais Scholz foi escolhido ministro da economia.

Mesmo quando a CDU estava no governo e o SPD na oposição, ou vice-versa, ambos os partidos foram capazes de dialogar para chegar a acordos que beneficiaram a Alemanha.

Flávia Oliveira - Um andar abaixo

O Globo

Seis meses depois da operação policial mais letal da História do Rio de Janeiro, que deixou mortos 27 civis e o inspetor André Leonardo de Mello Frias, 48 anos, na favela do Jacarezinho, na capital, o estado amanheceu de novo diante da barbárie. Desta vez, uma intervenção da Polícia Militar, em resposta ao assassinato do sargento Leandro Rumbelsperger da Silva, 40 anos, levou à morte de nove homens no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. É a mesma comunidade onde, um ano e meio atrás, o menino João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, foi assassinado dentro da casa da família por agentes que integravam uma mal explicada ação conjunta das polícias Civil e Federal. Na chacina do Salgueiro, assistimos pela TV a familiares e vizinhos depositarem num terreno corpos das vítimas resgatados de um mangue. Descemos, mais que um degrau, um andar inteiro na escala civilizatória, quando seguimos adiante ao saber que uma mãe, com lama até o joelho, arrastou o corpo do filho morto por policiais, quando o arcabouço penal não inclui pena de morte, tampouco execução sumária. A democracia está em risco também quando naturalizamos a barbárie.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Decisão do Supremo é para ser cumprida

O Estado de S. Paulo

O STF já decidiu que deve ser dada ampla publicidade às emendas de relator. Não há espaço para manobras ou evasivas para manter sigilo

Ao determinar que “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral”, exceto quando a divulgação dessas informações implica risco à segurança da sociedade ou do Estado, a Constituição deixa evidente que a transparência é a regra na administração pública, e o sigilo, exceção.

Não foi por outra razão que o Supremo Tribunal Federal (STF), guardião da Constituição, decidiu que o governo federal sustasse imediatamente o pagamento das emendas de relator-geral do Orçamento, as chamadas emendas RP9, e o Congresso desse “ampla publicidade” aos repasses já realizados em 2020 e 2021 por meio dessa rubrica, ou seja, informasse quem foram seus “patronos”, além de divulgar valores e destinatários. Em outras palavras: o Supremo decidiu que o “orçamento secreto”, mecanismo de compra de apoio parlamentar ao governo federal revelado pelo Estado, deixasse de ser secreto. Só há um Orçamento da União, sobre o qual não pode pairar qualquer suspeição em relação à sua lisura.

A decisão liminar da ministra Rosa Weber, corroborada na íntegra pela ampla maioria de seus pares, foi de uma clareza solar. “O regramento pertinente às emendas de relator”, decidiu a ministra, “distancia-se dos ideais republicanos, tornando imperscrutável a identificação dos parlamentares requerentes e destinatários finais das despesas nelas previstas, em relação aos quais, por meio do identificador RP-9, recai o signo do mistério.” De fato, mistérios envolvendo assuntos de interesse coletivo são incompatíveis com uma República democrática.

Se a própria existência das emendas de relator já é um grave erro por si só, haja vista que, como decidiu o STF, a inovação orçamentária colide frontalmente com a Constituição, é de espantar que os presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em vez de acabar com as RP-9 e informar, afinal, quem propôs as emendas de relator até agora e para onde foram bilhões de reais distribuídos a parlamentares leais aos interesses do Palácio do Planalto fora dos controles institucionais, simplesmente decidam descumprir a ordem do Supremo, como se isso fosse uma opção.

Poesia | Ferreira Gullar - Menina passarinho

Menina passarinho,
que tão de mansinho
me pousas na mão
Donde é que vens?
De alguma floresta?
De alguma canção?

Ah, tu és a festa
de que precisava
este coração!

Sei que já me deixas
e é quase certo
que não voltas, não.

Mas fica a alegria
de que houve um dia
em que um passarinho
me pousou na mão.

Música | Paulinho da Viola - Timoneiro

 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Merval Pereira - Brecha na polarização

O Globo

Nos tempos pré-internet, eram três os pilares das “estruturas de poder” que viabilizavam uma disputa eleitoral exitosa para presidente da República: as oligarquias nos grotões, os pastores pentecostais e políticos populistas na periferia e a classe média urbana escolarizada. Esses grupos influenciavam as eleições desde a redemocratização, e foi por isso que Fernando Henrique procurou o PFL, não apenas para governar, mas para vencer a eleição, pois o partido era formado pelas oligarquias nos grotões.

O PSDB conquistou a classe média escolarizada e as capitais com o Plano Real e uma postura ética que se contrapunha ao PT. Venceu duas eleições no primeiro turno e disputou o segundo turno em quatro outras. A partir de 2014, quando quase derrotaram o PT, os tucanos perderam o rumo de casa, passaram a votar contra os próprios fundamentos do Plano Real, aproximaram-se excessivamente do governo Michel Temer e acabaram marcados pela relação promíscua de seu líder Aécio Neves com empresários corruptos, perdendo a aura de defensores da ética.

A verdadeira revolução político-partidária provocada pela vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial em 2018 teve como bases o uso da internet como instrumento político-eleitoral e a transferência do eleitorado tucano em massa para aquele que se apresentou como alternativa para derrotar o PT, jogando justamente no terreno da defesa da ética na política, do combate à corrupção e de uma economia liberal. Parte desse eleitorado está hoje órfã, em busca de alternativa, por isso nunca houve chance tão clara de que uma terceira via seja trilhada.

Malu Gaspar - O debate interditado em 2022

O Globo

Não há no Brasil nenhum cidadão de boa-fé que diga que Lula, quando presidente, fez qualquer movimento para instituir um regime autoritário e sufocar a democracia. Ninguém tampouco discorda que o petista foi eleito democraticamente e entregou uma democracia à sucessora. Mas também ninguém ignora que, justamente por causa do golpismo de Jair Bolsonaro, a saúde da nossa democracia será tema central na campanha de 2022. Nos últimos dias, seguidores de Lula tentam fazer valer a tese segundo a qual ele não pode ser cobrado sobre o que diz e pensa de ditaduras de esquerda ao redor do mundo.

Na origem da celeuma estão as declarações do ex-presidente ao El País sobre a Nicarágua. A Corte Interamericana dos Direitos Humanos atribui ao regime de Daniel Ortega a morte de 300 opositores e a prisão de outros 500 nos protestos de 2018. Só neste ano, mais de 30 foram presos, entre eles sete candidatos que disputariam a eleição no último dia 7.

Depois de afirmar ser favorável à alternância de poder, Lula se enrolou. Disse que podia até ser contra o regime, mas que era preciso “defender a autodeterminação dos povos”. E emendou: “Por que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e o Daniel Ortega não? Por que o Felipe González pode ficar 14 anos no poder?… Qual é a lógica?”. A diretora do El País, Pepa Bueno, expôs a lógica: nem Merkel nem González se mantiveram no poder colocando opositores na cadeia.

Depois da exibição desse trecho da entrevista nas redes sociais, os lulistas acusaram os críticos de ser desonestos. Isso porque, mais à frente, o ex-presidente diz que não sabe o que “as pessoas fizeram para ser presas” e acrescenta que “se Daniel Ortega prendeu a oposição para não disputar a eleição, como fizeram no Brasil contra mim, ele está totalmente errado”. Quem quiser que acredite que Lula não sabe o que se passa na Nicarágua. Mas, já que o problema é reproduzir na íntegra suas falas, vale a pena comentar o que veio depois.