sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reajustar Bolsa Família não passa de ardil eleitoreiro

Por O Globo

Em 2024, STF decidiu que o aumento do Auxílio Brasil durante a campanha à reeleição de Jair Bolsonaro foi ilegal

Há um paradoxo incontornável na última “bondade” eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reajuste no valor do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, para pagamento já entre o primeiro e o segundo turno. O próprio Lula, quando candidato à Presidência, criticou o uso da máquina pública na campanha à reeleição de Jair Bolsonaro, destacando a faceta eleitoreira do aumento de R$ 200 no então Auxílio Brasil. Quatro anos depois, preocupado com as pesquisas eleitorais, adota a mesma estratégia para tentar a vitória nas urnas.

Medo move o centro político diante da radicalização e da crise do STF, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A 15 dias das eleições, o centro se move, porém não caminha unido. Divide-se entre o medo da continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder

A proximidade das eleições começa a provocar um movimento de placas tectônicas no centro político. Liberais que rejeitam o governo Lula se aproximam do presidente por medo de uma vitória da extrema-direita. Conservadores que mantinham alguma distância do bolsonarismo ensaiam o voto útil em Flávio Bolsonaro para impedir a reeleição do petista. Em ambos os casos, a decisão não nasce da esperança, mas do medo.

Lula aposta todas as suas fichas na chamada “economia do afeto”, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio: programas sociais, aumento da renda, proteção aos mais pobres e recuperação do poder de compra. O reajuste do Bolsa Família, anunciado a poucos dias do primeiro turno, tornou-se a expressão mais evidente dessa estratégia. O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões neste ano.

Assombrações eleitorais, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Estamos em face do imenso risco de que o eleitorado compareça à mesa eleitoral como rebanho, e não como assembleia de cidadãos

De certo modo, os vitoriosos das eleições de 2026 já estão escolhidos faz tempo. Resta saber se serão confirmados no voto popular.

O que assombra é o caráter completamente anômalo do processo eleitoral. É a pouca ou quase nenhuma mudança na posição dos dois primeiros colocados na disputa pela Presidência da República por causas opostas. Ambos com alto índice de recusa e com não tão alto índice de opção eleitoral. O país à beira do abismo.

Isso não é normal. É normal investigar o ilícito na política, mas não é normal seguir o caminho do dinheiro suspeito e encontrar a religião, igrejas que aprisionaram Cristo no gazofilácio da coleta e da esmola. Até mesmo reduzido a diretor de agência bancária dentro do templo.

Eficácia eleitoral do reajuste do Bolsa Família é duvidosa, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se o monstro previsto por Mano Brown sair à rua antes da eleição não é o reajuste do Bolsa Família que vai resolver

O precedente que preocupa o PT nunca foi o de uma ação da oposição no TSE por uso eleitoral do reajuste do Bolsa Família a 17 dias da eleição. E não apenas por conta da impopularidade de um questionamento do gênero. Ainda que o Tribunal Superior Eleitoral seja presidido por um ministro indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, que está no meio do fogo cruzado no Supremo Tribunal Federal, a eleição de 2022 ofereceu um precedente tranquilizador.

A contestação ao pacote de bondades eleitorais de Bolsonaro naquele ano não progrediu. Na mesma tarde em que o deputado Zé Trovão (PL-SC) acionou o TSE contra o reajuste, o ministro sorteado para relatar o recurso, André Mendonça, a rejeitou. Não deixou de ser uma resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, nesta quinta, o havia acusado de atuar como relator do Master no Supremo Tribunal Federal com interesse eleitoral.

Reajuste do Bolsa Família terá impacto maior no segundo turno, por César Felício

Valor Econômico

Aumento do pagamento do benefício não mira o eleitor independente, pêndulo; o alvo é o eleitor cativo

Ameaçado de perder a liderança das pesquisas nas sondagens do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se volta para suas fortalezas. O anúncio do aumento do pagamento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 não mira o eleitor independente, pêndulo, das periferias das grandes metrópoles do Sudeste, aquele que em 2018 foi de Jair Bolsonaro, em 2022 marcou Lula e agora se divide entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O alvo é o eleitor cativo. Do ponto de vista eleitoral, o que se pode esperar é crescer em uma faixa em que o presidente já predomina.

Segundo a Quaest divulgada na segunda-feira, Lula está com 52% no Nordeste, região que concentra a maioria dos benefícios. Ficou neste patamar no último mês. Flávio oscila entre 19% e 20% e o dos demais candidatos entre 14% e 16%. Entre os eleitores apenas com ensino fundamental, Lula está com 44%, ante 25% de Flávio e 15% da soma dos demais. Também não há movimento relevante no último mês. De acordo com a BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira e única com um recorte específico para eleitores beneficiários do Bolsa Família, Lula tem 64% entre os recebedores do benefício, ante 20% de Flávio e 10% do restante. Ressalve-se que a pesquisa Quaest é presencial e a da BTG/Nexus por telefone.

Tudo menos STF, por Vera Magalhães

O Globo

Reajuste do Bolsa Família, ida a Nova York para Assembleia da ONU e outras medidas em estudo visam mudar de assunto e recuperar terreno perdido na disputa eleitoral

Lula tirou da cartola um reajuste do Bolsa Família, colocou na incubadora um Desenrola 2027, está de malas prontas para embarcar para Nova York para a Assembleia Geral da ONU a menos de duas semanas da eleição e prometeu até caneta emagrecedora no SUS. Qualquer assunto serve para virar a página da crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Só falta os ministros sairem do meio do ringue e se tocarem de que o Palácio quer que voltem para atrás das cortinas.

A quinta-feira mostrou que eles ainda estão no veneno. Flávio Dino autorizou investigação da Polícia Federal e da Comissão de Valores Mobiliários de repasses feitos pelo Master à concessionária que opera cemitérios municipais de São Paulo. A decisão se deu na mesma ação em que apareceu a menção a um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, mas, ao abrir a investigação, Dino fez questão de frisar que ela não deve atingir o colega.

O paradoxo do Master, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em alta nas pesquisas, Flávio Bolsonaro é beneficiado por crise no STF

O escândalo do Banco Master pode dar votos ao único candidato que tomou dinheiro de Daniel Vorcaro? É o que parece acontecer na eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Dos 12 concorrentes, só Flávio Bolsonaro figura como beneficiário direto do esquema. Ele é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro, a quem chamava de “irmão”.

Ao ser questionado sobre o rolo, o senador simulou indignação: “É mentira! De onde você tirou isso?”. Quando ficou claro que o mentiroso não era o repórter, ele mudou de tom e alegou ter pedido patrocínio para o que descreveu como uma “obra-prima”.

Conversar é difícil, por Waldomiro J. Silva Filho*

O Globo

O comum é adotar uma posição dogmática e assumir que nossas crenças, por serem nossas, são melhores e verdadeiras

Esta é a questão: somos, de fato, capazes de conversar com quem discordamos? Não me refiro às conversas cotidianas, quando trocamos informações, falamos sobre tempo e futebol. Essas conversas exigem que compartilhemos, uns com os outros, um terreno simbólico comum relativamente estável, tenhamos alguma confiança nas pessoas e a propensão a cooperar de acordo com expectativas convergentes.

Estou me referindo às situações em que “terreno comum”, “confiança” e “cooperação” podem estar momentânea ou duradouramente suspensos ou ameaçados. Chamo isso de “conversas difíceis”. Surgem quando, entre interlocutores, há desacordo, dúvida persistente ou incertezas diante de uma questão para a qual ninguém tem resposta adequada para além das próprias convicções e crenças pessoais. Em geral, esses são casos em que o objeto da disputa é crucial para a vida civil, quando o tema é política, moral, economia, educação... enfim, sobre como devemos conduzir nossas vidas. Em sociedades abertas e plurais, esses são assuntos inescapáveis, mas as divergências acerca deles também são inevitáveis.

O efeito Xandão no STM, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com crise no STF e Flávio eleito, golpistas vão sair da cadeia e manter patentes e privilégios

A enxurrada de notícias sobre relações do Banco Master e de Daniel Vorcaro com ministros do Supremo continua fazendo vítimas (que deveriam ser réus) e isso tem um efeito colateral num outro julgamento, este no Superior Tribunal Militar (STM): o da perda de patentes do ex-presidente e de altos oficiais condenados pela trama do golpe.

O processo foi aberto em fevereiro e, naquele momento, a tendência era francamente pela perda de patentes de generais, do almirante Almir Garnier e do capitão da reserva Jair Bolsonaro, mas isso vem mudando ao longo dos meses. Primeiro, para poupar dois generais, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira. Agora, pode desandar para poupar todos.

Um Congresso capaz de reformar o STF, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

No julgamento sobre as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, o Supremo Tribunal Federal (STF) demonstrou que é incapaz da tão desejada autocontenção.

Ao atropelar os ritos e a presidência da Corte, Moraes e sua retaguarda – os ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes – deixaram evidente que o STF não consegue investigar e muito menos punir os seus próprios membros.

O Supremo está cheio de questões estruturais das quais o caso Master é apenas um sintoma. O diagnóstico já feito por ex-ministros do próprio STF, ex-ministros da Justiça e outros especialistas. O principal problema é a sobrecarga.

Eleição ainda depende da loteria das facadas, do poder de vazar podres, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mesmo com tumulto jurídico-policial, situação de Lula no Datafolha parou de piorar

Campanha petista não sabe o que fazer para tirar disputa do atoleiro imundo

Luiz Inácio Lula da Silva reajustou o valor do Bolsa Família em 15%. É providência eleitoreira, dirá qualquer pessoa que não esteja em coma ideológico, mesmo que seja a favor da medida, pelo motivo que for. Para quem precisa de auxílio de R$ 600, uns R$ 100 extras importam. Dá para uns dois quilos de carne moída e umas quatro dúzias de ovos nos lugares mais pobrezinhos do Brasil.

O resultado eleitoral, porém, é incerto. Vai dar tempo de fazer efeito? Um possível ganho marginal entre os beneficiados, na larga maioria já eleitora de Lula, pode vir a ser descontado por indignações de eleitores "nem-nem" (nem luliano, nem bolsonariano). Quem sabe não comova a pessoa necessitada, que viu a inflação comer seu auxílio durante Lula 3 quase inteiro.

Para Lula, é melhor que falem de Bolsa Família do que de Moraes, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Custo de R$ 22,7 bilhões do reajuste do programa em 2027 ficará com o próximo presidente eleito

Reajuste dá sinal de que bateu o desespero com chance de Lula ser derrotado por Flávio Bolsonaro

Se o presidente Lula (PT) tinha planos de fazer o reajuste do Bolsa Família antes das eleições presidenciais deste ano, deveria ter se planejado mais e melhor.

A 17 dias do primeiro turno, o sinal que a campanha do PT passa com o anúncio do Palácio do Planalto de uma correção de 15% do benefício é o de que bateu o desespero com a possibilidade de Lula perder a reeleição para o seu quarto mandato.

Se o reajuste fosse planejado, teria sido comunicado antes, para que tivesse mais tempo para fazer efeito. O novo valor, no entanto, começará a ser pago em 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno.

A materialização do absurdo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Enrolado no caso Master, Flávio Bolsonaro se beneficia do escândalo no Supremo

Governo Lula apela a populismo com reajuste no Bolsa Família, o que prejudica o próprio governo

O surrealismo às vezes se impõe, mas o Brasil faturará o troféu André Breton de Materialização do Absurdo se se confirmar um cenário em que a crise no STF leve à eleição de Flávio Bolsonaro.

Ora, a causa principal do esfacelamento reputacional da corte constitucional é o envolvimento de vários ministros com o ex-banqueiro fraudador Daniel Vorcaro. Dos dois principais candidatos à Presidência da República, há apenas um comprovada, direta e profundamente enrolado nas tramas do Banco Master. Seu nome é Flávio Bolsonaro. Ofende a lógica que ele seja eleitoralmente beneficiado pelo escândalo no qual está metido. Mas um dos problemas da democracia é que ela não necessariamente se curva à lógica.

Supremo erode a própria moral de julgador, Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ao STF hoje não importa o mérito das questões; interessa as conveniências dos magistrados em litígio

Corte deixa de ser porto seguro na resolução de conflitos para se transformar em fonte geradora de atritos

Tenha a eleição o resultado que tiver, seja eleito quem for, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a legitimidade para discernir entre culpas e inocências.

A sessão de terça-feira (15) pôs a nu o que já se sabia, mas o arraigado sentimento de respeito à Justiça resistia em admitir: ao STF hoje não importa o mérito das questões; interessa, antes, o quanto os argumentos atendem às conveniências dos magistrados em litígio.

Eu e o comunismo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se uma tartaruga morder o dedão do pé de Bolsonaro é porque deve ser comunista

Como posso ser comunista se sou fã de John Wayne, do Popeye e da Doris Day?

Meus leitores bolsonaristas –a quem agradeço pela fidelidade com que não perdem o que escrevo neste espaço-- costumam me honrar com a pecha de comunista. Não que me envaideça dessa classificação, porque, para eles, se uma tartaruga morder o dedão do pé de Jair Bolsonaro no quintal de sua luxuosa prisão domiciliar, será uma tartaruga comunista. Como deve haver tartarugas de todas as cores políticas, não posso falar por ela, mas, no meu caso, lamento decepcioná-los. Não sou nem nunca fui comunista. Sou Flamengo, o que me satisfaz com sobras em matéria de fé ideológica, partidária e religiosa.

Datafolha: Lula tem 46% e Flávio, 44% no segundo turno, por Joelmir Tavares e Lilian Venturini,

Valor Econômico

Cenário é de estabilidade e candidatos seguem em situação de empate técnico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 46% das intenções de voto e o senador Flávio Bolsonaro (PL) registra 44% em eventual segundo turno entre os dois, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (17). O cenário de empate técnico repete os percentuais alcançados por ambos nos dois levantamentos anteriores do instituto.

A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. No primeiro turno, o quadro também é de empate técnico: Lula marca 39%, enquanto Flávio aparece com 36%. Na rodada da semana passada, o candidato do PT atingia os mesmos 39%, enquanto o do PL tinha 35%. A oscilação do senador ocorreu dentro da margem.

A pesquisa ouviu 2.002 eleitores entre terça (15) e esta quinta-feira. Na terça, o Supremo Tribunal Federal (STF) teve uma conturbada sessão para discutir se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. O levantamento também é o primeiro feito pelo Datafolha após a revelação de que Flávio é alvo de uma investigação no caso do financiamento do filme "Dark Horse" pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master.

Datafolha: Lula e Flávio Bolsonaro empatam em 1º e 2º turnos, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Na primeira rodada, sob efeito da crise no STF, petista teria 39% e senador, 36%

Já no tira-teima da disputa testado pelo instituto, Lula tem 46% e Flávio, 44%

O novo levantamento do Datafolha sobre a corrida presidencial, feito em meio à turbulência institucional da crise no STF (Supremo Tribunal Federal), traz Lula (PT) com 39% das intenções de voto em primeiro turno, ante 36% de seu principal rival, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Há uma semana, o presidente marcava 39% e o filho do seu antecessor Jair Bolsonaro, 35%.

Na simulação de segundo turno agora, Lula segue com 46% e Flávio, com 44%, empate técnico na margem de erro de dois pontos para mais ou menos.

Poesia | Antonio Machado, "El crimen fue en Granada" a Federico García Lorca

 

Música | Luiz Melodia e Gal Costa - Presente cotidiano

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Método usado por Gilmar e Dino é o tumulto processual

Por O Globo

STF ainda pode recuperar papel crucial na democracia desde que autorize investigação de Moraes

A sessão de terça-feira passada deixou uma mancha indelével no Supremo Tribunal Federal (STF). Não pela atuação de seu presidente, ministro Edson Fachin, nem dos ministros Luiz Fux, André Mendonça e Cármen Lúcia, que encaminharam seus votos na direção da transparência e do império da lei. Mas pelo comportamento dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes. Com oratória grandiloquente de província, fingindo uma indignação a que o pior ator emprestaria mais credibilidade, os dois lançaram mão de manobras e filigranas processuais com um só objetivo: deixar o ministro Alexandre de Moraes impune, a salvo até mesmo de uma investigação inicial.

Moraes, cabo eleitoral involuntário de Flávio Bolsonaro contra Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A suspeita de que o pedido de vista serviu para proteger Moraes é politicamente poderosa. Para o eleitor, o Supremo fez tudo para impedir que o ministro fosse investigado

O ministro Alexandre de Moraes parece aquele amigo inconveniente a quem se deve um grande favor, mas cuja presença, num momento de crise, passa a produzir constrangimentos e prejuízos. É mais ou menos essa a situação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o magistrado. Sem desconsiderar a responsabilidade dos demais ministros — inclusive de alguns indicados pelo próprio Lula —, a manobra construída na sessão de terça-feira para adiar uma decisão sobre a abertura de investigação contra Moraes transformou o Supremo Tribunal Federal (STF) num passivo eleitoral para o presidente da República.

STF ignora o eleitor porque controla os eleitos, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

É dentro das paredes da Corte que se dá a disputa pelo poder real no país

O dia seguinte à sessão do apocalipse supremo gerou apreensões completamente distintas dos dois lados da Praça dos Três Poderes. Um lado, onde o inquilino tenta renovar o contrato daqui a 18 dias, foi tomado pela apreensão sobre o impacto eleitoral do resultado (ou da falta dele). O outro lado não parece exatamente preocupado com o 4 de outubro. As preocupações são sobre os desdobramentos: a deliberação da investigação do ministro André Mendonça, marcada para o dia 23, o prazo do pedido de vista do ministro Flávio Dino e o voto de Minerva do presidente da Corte.

O comportamento dos ministros não se dá exatamente por alheamento. Nada que diga respeito ao poder lhes é alheio. Se o grupo em torno do ministro Alexandre de Moraes parece agir à revelia do impacto eleitoral de seus atos, é pela percepção de que é na Corte que se dá a disputa pelo poder real no país. É de lá que se controla os Poderes que escolhem os ministros e delimitam suas prerrogativas.

Campanha de Lula vê erro em pedido de vista de Dino em caso Moraes no STF, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Atitude de ministro contribuiria para prolongar o desgaste do candidato à reeleição

Um dia depois da conturbada sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) para analisar o pedido de investigação do ministro Alexandre de Moraes, fontes da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizem que é preciso encontrar meios, junto ao presidente da Corte, Edson Fachin, para destravar o processo. Apesar do argumento do ministro Flávio Dino de que o prosseguimento da sessão agravaria a crise institucional, coordenadores da campanha lulista avaliam que o magistrado errou ao pedir vista e interromper o julgamento sobre Moraes, contribuindo para prolongar o desgaste do candidato à reeleição.

Uma fonte da coordenação da campanha lulista, que pediu anonimato, criticou a estratégia conjunta de Dino, Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin para adiar o processo, a fim de favorecer Moraes, sem avaliar que a consequência maior dessa articulação seria o prejuízo a Lula, em contraste com o fortalecimento do candidato do PL, Flávio Bolsonaro. Hoje, um dos principais ataques do adversário a Lula é de que ele seria próximo de Moraes, algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro e do bolsonarismo. A estratégia ajudou Flávio a crescer nas pesquisas.

As muitas derrotas da Suprema Corte, por Míriam Leitão

O Globo

Vários ministros do Supremo pensam que venceram o embate. Na verdade, representam a grande derrota do país

O grupo do ministro Alexandre de Moraes se acha vitorioso porque conseguiu deter o procedimento contra Moraes. O grupo do ministro André Mendonça pode avaliar que saiu vencedor porque até a tibieza em plenário ajuda a construir a ideia de que ele luta contra o sistema, uma espécie de Davi contra Golias. Mendonça fortaleceu seu ponto porque ao acusar a Polícia Federal, sem prova, teve o apoio do ministro Luiz Fux. Contudo, todos os vitoriosos nas batalhas pontuais perderam a guerra.

A exposição das brigas tóxicas entre os ministros do Supremo Tribunal Federal enfraquece a confiança na democracia a 17 dias das eleições. E não é porque a sessão foi aberta, e sim porque o comportamento dos ministros foi deplorável. Eles que encarnam a instância máxima do poder atiraram contra a própria cidadela. O país que sobreviveu a um golpe de Estado há menos de quatro anos — tendo a ação da Suprema Corte como parte fundamental da resistência — pode estar no umbral de um novo atentado. E agora, chancelado pelas urnas.

Supremo não cortará na carne, por Julia Duailibi

O Globo

STF tem por praxe não tocar na ferida, mas usar como remédio a mudança nas regras do jogo

Diante da crise instalada no STF, surgem propostas de reforma do Judiciário, compostas por um cardápio que vai de mandatos dos ministros a mudanças nos critérios para escolhê-los. Apesar do entusiasmo de alguns setores, principalmente da oposição, e do oportunismo dos candidatos a presidente, é pouco provável que o Supremo avance nessa direção. Pelo contrário. É capaz de derrubar, alegando inconstitucionalidade, qualquer iniciativa do tipo que não receba a bênção dos ministros.

Projetos de mudanças em tribunais superiores devem ser vistos sempre com cautela. Muitas vezes estão a serviço de governos autoritários. Foi assim na ditadura, que buscou controlar o Supremo no Ato Institucional n.º 2, ao ampliar o número de ministros de 11 para 16. Isso não afasta a urgência de discutir um código de ética para valer, com questões reais, como a atuação de escritórios de familiares de ministros na Corte. Assunto que deveria ser de iniciativa do próprio Supremo, depois da sessão de horror da terça-feira.

Vergonha! Por Merval Pereira

O Globo

Cármen Lúcia mexeu com os sentimentos mais íntimos dos brasileiros e brasileiras, mas foi incapaz de comover seus pares

Nélson Rodrigues dizia que o jornalismo moderno era tão comedido que, se o mundo acabasse, daria a manchete sem ponto de exclamação. Pois hoje resolvi usar o ponto de exclamação para transmitir minha indignação. O sinal mais claro da degradação moral que atingiu os integrantes do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) foi a revolta que a fala da ministra Cármen Lúcia provocou entre seus pares. A única componente do plenário que se solidarizou com o povo brasileiro em seu sentimento coletivo de vergonha acabou tratada como uma traidora do corporativismo que toma conta da mais alta Corte de Justiça do país.

Nada esquecemos, nada aprendemos, por Marcelo de Azevedo Granato

O Estado de S. Paulo

De Moro a Moraes, os personagens mudaram, mas permaneceu a disposição de tolerar a expansão do poder quando ela parece trabalhar a favor

Há mais de uma década, parte da sociedade brasileira tolera, alternadamente, formas cada vez mais amplas de exercício do poder por magistrados. Na década passada, o protagonista era o hoje senador Sergio Moro, tido como o juiz que desmantelaria a corrupção na política brasileira. Seu prestígio superava a legalidade de seus métodos, e parte da sociedade fazia vistas grossas às suas ações em prejuízo dos direitos dos acusados. Moro passou, a corrupção ficou.

Nesta década, o ministro Alexandre de Moraes tem ocupado, para parte da sociedade, o posto de garante da democracia. Sua atuação contra o arreganho golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro foi o passaporte para ações reiteradamente distantes da ortodoxia legal. Agora, as trocas de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, tornadas públicas pelo ministro André Mendonça, lançam luz também sobre a proximidade de Moraes com o ex-banqueiro e seus interesses. O episódio desencadeou a inaudita crise vivida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na qual seus ministros trocam acusações de abuso, parcialidade e monitoramento indevido. Essa crise explicita o descompasso entre a dinâmica de um poder desmedido e nossa capacidade de antecipar – e, assim, prevenir – seus desdobramentos. Tal descompasso, porém, não é uma peculiaridade brasileira. Talvez seja uma das características do nosso tempo.

Uma crítica estética do STF, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

A tortuosa manobra processual que transformou uma pergunta numa não resposta arrogante abastece a pregação da extrema direita decidida a neutralizar a Justiça.

Anteontem, a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) mereceu transmissão ao vivo em canais diversos, da GloboNews à CNN Brasil, da BandNews ao UOL. Todo mundo acompanhou. Até você, na certa. Mais uma vez, a TV Justiça viveu horas de campeã de audiência, apesar de suas câmeras mortiças. Quando surge uma altercação, as objetivas insistem em não mostrar o ministro divergente que, dando-se por ofendido, interpela o colega que tem a palavra. Para o telespectador, é muito aflitivo. Ele que adivinhe quem é o dono da voz que está ali reclamando.

Mas não importa. O show não pode parar. Ainda que mal enquadradas, as jus-celebridades arrebatam os olhos de plateias, mesmo quando seus prolegômenos enveredam por trilhas indecifráveis, mesmo quando a heurística, a hermenêutica, o dogmática e a zetética se rebaixam a insultos vis entre pares. Suas excelências, grossas e cascudas, já se acostumaram ao estrelato.

O grande feiticeiro, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Era autêntica a exasperação de Gilmar Mendes quando chamou de “aprendizes de feiticeiros” seus adversários dentro do STF. Em relação aos quais exibe o pior dos desprezos por parte de alguém que se julga o Grande Feiticeiro, que é o desprezo intelectual. Como assim malandrinhos com ficha corrida, crentes analfabetos em direito e fraquinhos sem pulso se atrevem nas artes da feitiçaria política?

O problema para o Mago é quando acaba virando um mágico de festinha infantil. Com truques previsíveis que funcionam apenas em ambientes restritos.

Foi o que aconteceu na sessão extraordinária marcada para decidir o que fazer diante dos fatos que a Polícia Federal extraiu do celular de um vigarista implicando o colega de quadrunvirato Alexandre de Moraes.

Fachin deu a chave para salvar Moraes, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo.

Presidente da Corte não debateu a participação de Moraes na sessão de anteontem

A sessão do fim do mundo no Supremo Tribunal Federal (STF) produziu dois derrotados e um vencedor. O maior penalizado foi o tribunal, que lavou roupa suja em praça pública e viu demolida a credibilidade que restava. Também levou a pior o presidente, Edson Fachin, que ignorou o alerta dos colegas de que a sessão seria um verdadeiro massacre. Ele encerrou o dia ainda menor.

Alexandre de Moraes saiu vitorioso. Mesmo sem ver arquivados os indícios de que mantinha relação suspeita com Daniel Vorcaro, o ministro ficou mais perto de se safar de um inquérito. Esse cenário se desenhou com a colaboração de Fachin. Na avaliação de colegas, o presidente poderia ter sido mais firme na condução da sessão.

Aumento do apoio à democracia é boa notícia? Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É pequena a adesão plena às regras do sistema liberal representativo

Não hão de faltar bolsonaristas nostálgicos dos trevosos tempos da ditadura

Parece uma boa notícia: depois de mais de uma década de retração, entre 2023 e este ano o apoio à democracia cresceu em toda a América Latina. É o que constata o relatório "Pulse of Democracy 2026", com os resultados da mais recente pesquisa do Lapop (Latin American Public Opinion Project), sediado nas universidades americanas de Vanderbilt e Notre Dame. O crescimento é promissor. Afinal, ocorreu em todos os grupos de idade, níveis de escolaridade e nos 14 países estudados.

Parece, pois, uma boa notícia —mas nem tanto. Os mesmos cidadãos que afirmam ser a democracia preferível a quaisquer outras formas de governo estão dispostos a aceitar ações que debilitam a capacidade do Legislativo e do Judiciário de conter os respectivos chefes de Estado. Para a maioria dos democratas latino-americanos —entre eles parcela importante de brasileiros—, o sistema pode se restringir a promover eleições limpas, à aceitação dos seus resultados e ao respeito às instituições que as garantam. É pequena, contudo, a adesão plena às regras da democracia liberal representativa. Como se sabe, além de garantir eleições competitivas, o modelo é dotado de meios para proteger as minorias, limitar o poder dos governantes e responsabilizá-los por seus atos.

Lula, Flávio, dívidas impagáveis e o ciclone econômico previsto para 2027, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

BC baixou Selic de novo, mas não tem quase nada a fazer diante de ameaça de crise

Se novo governo não agir logo, excesso de endividamento tende a piorar

Banco Central não tem lá muito o que fazer de relevante nos próximos meses, a não ser que tomasse atitude tresloucada (não vai tomar) ou na hipótese improvável de recessão súbita neste ano ou caso tivesse de enfrentar crise financeira importada dos EUA, que talvez fique para fins de 2027.

O BC não tem lá muito o que fazer desde fins de 2024, na verdade, a não ser aumentar a Selic e deixá-la ao menos em nível de arrocho, "restritivo". Em meados de 2024, morreu a expectativa de que se contivesse parte da alta de gastos de Lula 3. Depois, vieram repiques de inflação, o pânico financeiro da virada para 2025, a guerra contra o Irã etc.

Ministros do STF desmoralizam até o data vênia, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

André Mendonça está vencendo

Tribunal vai se fechando por obra dos seus próprios juízes, e levam eleições junto

dSe for verdade que André Mendonça tenta ajudar a eleição de Flávio Bolsonaro por vazamentos dosados de seus casos-bomba, ele está vencendo. Na sessão de terça-feira, Gilmar Mendes, Flávio DinoCristiano Zanin e Alexandre de Moraes impulsionaram o plano de Mendonça com mais vigor que Flávio Bolsonaro podia imaginar. Os militantes por golpe de Estado de 8 de Janeiro comemoram.

O quarteto da obstrução levou oito horas para discutir não o pedido em pauta, mas uma questão de ordem. Ao final do dia, não decidiram sequer a questão de ordem. Um pedido de vista, por ministro que já havia votado, tem 90 dias para voltar ao colegiado.

Se interpretássemos o pedido de vista não como direito do ministro, mas como um apelo feito ao plenário soberano, que pode aprovar ou não, a protelação poderia ser impedida. Mas se Fachin não tem força nem por atenuar a falta de educação de seus pares, que dirá de sua capacidade de inovar o procedimento contra o império dos monocratas.

O Supremo no seu pior dia, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Sessão desta semana figura entre os eventos mais minúsculos da corte

Não são necessários um soldado e um cabo para paralisar o STF; o ego de seus ministros é suficiente

Quem diria que no curto período de quatro anos o Supremo passaria de guardião do Estado democrático de Direito para seu algoz.

A sessão da última terça (15) entrará nos anais da corte como um dos piores momentos de toda a sua história. De toda ela. E olha que a disputa não é fácil. STF já validou a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista, já mostrou deferência em tempos de exceção, como no Estado Novo, já deteriorou direitos trabalhistas, já proibiu entrevistas políticas à imprensa, já referendou anistia e por aí vai.

O berço dos Bolsonaros, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como deputados ou senadores pelo Rio, nunca apresentaram projetos sobre o estado

Mesmo supostamente baseados no Rio ou em SP, seu território sempre foi Brasília

Sempre que ouço falar do Rio como berço político da família Bolsonaro, olho em torno em busca de vestígios da passagem deles por aqui. Pfftt. O patriarca Jair Bolsonaro, por exemplo, nasceu em Glicério (SP). Só saiu de lá aos 19 anos, em 1974, para estudar e morar na Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formou, casou e teve os filhos Flávio, Eduardo e Carlos. A Aman fica em Resende (RJ), divisa de MG e SP, a 162 km do Rio. Expulso do Exército em 1989, mudou-se para Bento Ribeiro, zona norte do Rio, e se tornou vereador. Em 1991, elegeu-se para a Câmara e foi para Brasília.

A crise do STF, as eleições e a agenda nacional, por Fernando Perlatto*

Revista Escuta

Desde o fim da tarde de ontem, já foram publicadas muitas análises sobre a seção do Supremo Tribunal Federal (STF) destinada a discutir a possibilidade da abertura de investigação sobre o Ministro Alexandre de Moraes e suas relações com Vorcaro. Um aspecto ainda pouco explorado diz respeito à intervenção da ministra Carmen Lucia, que, apesar do voto equivocado pela separação dos processos de Moraes e do ministro André Mendonça, foi precisa ao dizer-se “envergonhada” e lamentar que, “em um momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo”.

A crise do STF engoliu a agenda nacional. Às vésperas do primeiro turno das eleições, não se discute o Brasil. As grandes questões que deveriam estar postas em debate público – sobretudo o tema da soberania nacional, em um contexto marcado pelos ataques de Trump ao país e aos riscos reais de intervencionismo externo – acabam relegadas a segundo plano. Questões como desigualdade, segurança pública, saúde e educação ficam escanteadas diante de uma agenda capturada pelos desdobramentos dos escândalos do caso Master.