quinta-feira, 25 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

MEIs são o próximo alvo das ‘bondades’ de Lula

Por O Globo

Alívio a microempreendedor com dívidas se soma ao custo já intolerável do afã eleitoreiro do Planalto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra limites na distribuição de “bondades” de olho nos dividendos eleitorais. A próxima na lista promete ser o afago aos microempreendedores individuais (MEIs). O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, disse em entrevista ao GLOBO que o Planalto prepara um desdobramento do programa Desenrola para regularizar a situação dos MEIs endividados.

Cautela e caldo de galinha não farão mal a Lula nesta Copa, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A relação entre os presidentes da República e os títulos mundiais nas Copas do Mundo de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, revela muito sobre a história política do país

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o senador Jaques Wagner (PT-BA), no Palácio da Alvorada, e combinou a imediata saída dele da liderança do governo no Senado. Foi a primeira conversa presencial entre ambos desde que o parlamentar foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master. O dia parece ter sido escolhido a dedo para aproveitar o lusco-fusco do jogo do Brasil com a Escócia, ontem. Se a conversa tivesse sido boa, os dois amigos teriam assistido à seleção brasileira em campo juntos. Ao contrário. Wagner deixou o Palácio da Alvorada e anunciou que sairá do cargo.

O eleitor que levou Wagner a deixar a liderança, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Antes do encontro com o senador, Lula tinha em suas mãos pesquisas que demonstravam a cobrança do eleitor independente pelo afastamento entre governo e Master

“Eu acho que não faz diferença ser tão próximo de Lula desde que não haja um abafamento do PT. A partir do momento em que o Lula colaborar com as investigações, tudo bem, mas se Lula tiver algum tipo de posicionamento de tentar diminuir, abafar, só por ser próximo dele, aí sim, ficaria feio”. Egressa de um grupo de pesquisa qualitativa, na sexta rodada de uma série do Instituto Democracia em Xeque, a eleitora foi ouvida no domingo passado.

O relatório com o resultado da rodada desta série de qualitativas com eleitores independentes entre 30 e 50 anos, ensino médio, renda de três a sete salários mínimos e recrutados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, BH e Salvador, chegou ao gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início da tarde desta quarta-feira, antes de seu encontro com o líder do governo no Senado.

O caso Master e as entrelinhas de Gilmar, por Julia Duailibi

O Globo

Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente quer que prossigam

A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do poder, melhor adotar a cautela.

Desculpas esfarrapadas, por Merval Pereira

O Globo

A desistência de continuar no cargo foi arrancada a fórceps, muitos trabalharam para convencê-lo a facilitar a vida do presidente.

Um líder de governo no Senado estar envolvido num escândalo de corrupção — como o senador petista Jaques Wagner no caso Master — já seria um problemaço para um governante que pretende ser reeleito pela quarta vez à Presidência da República. Seria demitido imediatamente, para livrar o presidente, no caso Lula, de problemas eleitorais na campanha. Mas Jaques Wagner, vê-se, não é um senador qualquer. Tem história no PT e na luta sindicalista com Lula. São amigos há 50 anos. Essa circunstância piora a situação de Lula, pois ele não tem condições emocionais para demitir o amigo, e o amigo não quer ajudá-lo a se safar dessa. Quer é se safar, por isso se abraça ao presidente como um afogado.

Brasil condenado injustamente, por Míriam Leitão

O Globo

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas. A decisão final será no mês que vem e o país prepara as suas considerações finais. Um experimentado negociador me disse que este tem sido o mais difícil processo do qual já participou. Outro funcionário do governo brasileiro me explicou o seguinte: “É muito difícil evitar as tarifas porque há um claro desinteresse dos Estados Unidos em chegar a um acordo”. O presidente Donald Trump quer condenar o Brasil e não por motivos comerciais.

Donald Trump e as eleições presidenciais no Brasil, por Maria Hermínia Tavares*

Folha de S. Paulo

Preferências eleitorais parecem organizar visão dos brasileiros sobre EUA

Diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção

O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social, na terça-feira (23), que a votação no Brasil será seu próximo desafio. E se declarou —quem diria— preocupado com a integridade do sistema eleitoral do país e com a necessidade de que a disputa seja livre e justa. Para ele, assim será se o Brasil vier a "se juntar à crescente lista de nações que se movem à direita".

Não poderia ser mais explícito: joga a favor do candidato direitista. Como, por enquanto não se sabe. Mas desde já o mandatário americano se alinha à tática da família Bolsonaro de disparar suspeitas sobre o nosso sistema de votação e sobre as regras que asseguram condições necessárias à livre competição nas urnas.

A pressão política do Digimais, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Manobras de Vorcaro evidenciam dificuldade que o BC tem em decretar liquidação extrajudicial do Digimais

O banco de Edir Macedo tem caixa

As tentativas de Daniel Vorcaro de desliquidar o Master evidenciam a dificuldade que o Banco Central tem em decretar uma liquidação extrajudicial do Digimais.

O Digimais tem caixa.

O banco controlado pelo bispo Edir Macedo foi alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, que mirou diretores, conselheiros e empresas ligadas ao banco do fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV, sob suspeita de crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e realização de empréstimos proibidos por lei.

Corrupção geral e acordão não vão salvar esquerda de seus erros e crimes, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Governismo acha que pode se sair bem por direita estar afundada na onda de bandalheira

Acordões têm substituído política do pega para matar, vigente desde 2016

A temporada de festas juninas está no auge. A diversão com a Copa está grande, com histórias de muitos países e jogadores para distrair a metade do país que se interessa pelo assunto. O time do Brasil ainda disputa a competição.

Em breve, parte do país entra em férias, pequena, é verdade, mas os povos do poder político entram em recesso em julho. A campanha eleitoral começa, na prática, em agosto.

Enfrentar escândalo é um perigo, cada vez menor, pois o país parece anestesiado pela recorrência ideologicamente ecumênica de bandalheiras. No entanto, o prejuízo tende a ser menor em momentos de distração ainda maior, como neste, de festa, Copa e férias.

O jurista público-privado pede porta aberta, por Conrado Hübner Mendes*

Folha de S. Paulo

Em algumas profissões jurídicas, a porta giratória não serve

Arranjo poroso traz riscos para interesse público e imagem de órgãos

Há formas de lucrar com o trânsito entre o cargo público e a empresa privada. A "porta giratória", metáfora da captura institucional, é uma delas. Um profissional competente em finanças pode sair do setor privado, passar um tempo no Banco Central ou no Ministério da Fazenda, e voltar para a Faria Lima. E, quando voltar, vender caro no privado o capital adquirido no público.

Esse arranjo poroso traz riscos para o interesse público e para a imagem de imparcialidade de órgãos reguladores ou judiciais. Os riscos podem ser atenuados por mecanismo de quarentena, que obriga o profissional a se afastar por um período antes de voltar ao mercado com a credencial de ex-autoridade. Podem ser mais mitigados pelo bom senso e pela virtude.

Artilheiros na batata, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Messi já fez 18 gols em Copas. E daí? Quantos jogos levou para chegar a essa marca?

Os grandes goleadores são o húngaro Kocsis e o francês Fontaine; confira suas médias

Como diria Nelson Rodrigues, a imprensa teve espasmos de cachorro atropelado diante do 18º gol de Messi em Copas do Mundo. A julgar pelos gritos dos narradores e das manchetes, os gols do argentino contra a Áustria foram um momento da história, como o da fissão do átomo em 1938, da chegada do homem à Lua em 1969 e do sequenciamento do genoma em 2003. Ao fim da Copa, campeão ou não, Messi será desfilado pelos estádios numa bandeja de prata e com uma maçã na boca, para usar mais uma imagem rodrigueana.

Racismo religioso de um Estado policial-cristão, por Thiago Amparo*

Folha de S. Paulo

Por cumprir seu papel, diretora de escola infantil foi intimidada por PMs

Tratar de orixás nas escolas é tratar da cultura brasileira

Doze policiais, um deles com uma metralhadora, intimidaram a diretora de uma escola em São Paulo após o pai de uma aluna, ele mesmo policial militar, ter contestado uma atividade escolar sobre cultura afro-brasileira.

O pai da estudante mente: a escola apenas aplicou uma atividade pedagogicamente adequada e determinada pela lei federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira. Os professores estavam trabalhando o livro "Ciranda de Aruanda", de Liu Oliveira, que apresenta os orixás em linguagem para crianças.

Em busca do podre, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Até aqui, o ‘sistema’ usa táticas erradas para tentar melar as investigações do Master

O princípio que levou à anulação de duas grandes operações de combate à corrupção no Brasil, a Castelo de Areia e a Lava Jato, chama-se “teoria da árvore envenenada”. Se o ponto de partida de uma investigação é considerado ilícito, tudo o que vem depois (busca e apreensão, mandados de prisão, documentos e confissões) perde, automaticamente, a validade jurídica.

O divisor de águas já foi traçado no embate entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça e é atrás da fruta podre que se concentra o decano da Corte. Para quem Mendonça, o relator do caso, já cometeu “erro crasso”. Por seu lado, o relator enxerga em Gilmar os interesses do “sistema” de corrupção, que se beneficiaria de uma eventual extinção das investigações no escândalo Master.

Dois presos, duas medidas, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Quais são os critérios para o Supremo definir os destinos de Vorcaro e Bolsonaro

Dentre as muitas divisões que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje, uma delas é estrutural. A Corte é dividida em duas turmas. Por força do acaso, cada uma ficou com um dos temas de maior sensibilidade política da temporada: a Primeira Turma, de Alexandre de Moraes, julga os processos ligados à tentativa de golpe de Estado e a Segunda, de André Mendonça, está com as fraudes do Banco Master.

O destino dos protagonistas dos dois escândalos deve ser definido em breve pelos relatores dos processos. Moraes está para decidir se Jair Bolsonaro seguirá na prisão domiciliar depois que um segurança foi flagrado com uma arma do ex-presidente dentro do carro em uma blitz. Mendonça vai definir se Daniel Vorcaro, o dono do Master, continua em uma cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, ou se será transferido para um presídio.

Eles sabem o que fazem (mas não sabem tudo), por Eugênio Bucci *

O Estado de S. Paulo

Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima 

Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.

As dinâmicas afetivas e a polarização política brasileira, por Jairo Pimentel Jr.*

Correio Braziliense

O Brasil não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa. E isso tem consequências para a democracia

A política brasileira atual costuma ser explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela. Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.

Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.

Poesia | Isto, de Fernando Pessoa

 

Música | Nara Leão - Diz que fui por ai (Zé Kéti)

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por O Globo

É defensável evitar flutuação abrupta na Selic, mas faltou transparência à forma como Copom se justificou

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

Guerra no STF agora é declarada, por Vera Magalhães

O Globo

Entrevista de Gilmar escancara divisão na corte e tensão provocada pelo caso Master

Há pouco menos de 20 dias, escrevi neste espaço que as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) estavam prestes a deixar os bastidores e explodir em público. Não demorou. Em entrevista ao “Roda Viva”, o decano da Corte, Gilmar Mendes, explicitou a divisão interna na Corte e deixou claro quem joga em que time.

No seu, estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e, mais discretamente, Cristiano Zanin. Os demais se dividem em dois grupos que foram alvo de ataques de Gilmar. Ao presidente, Edson Fachin, e a Cármen Lúcia, ele atribui o desgaste de imagem do STF, pela insistência em agendas como o código de conduta do Judiciário. O maior incômodo, no entanto, parece recair sobre André Mendonça, que claramente vem ganhando protagonismo no Supremo com relatorias de casos espinhosos e de alto impacto político, como o Master e o da máfia do INSS.

Memórias do inferno, por Bernardo Mello Franco

O Globo

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Lula precisa de um momento Messi, por Elio Gaspari

O Globo

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com dez pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado

Depois de ter perdido um pênalti, Messi fez dois gols contra a Áustria e decidiu a partida. Terminada a Copa, começará a campanha eleitoral. Até outubro, Lula precisará destravar uma dissonância das pesquisas. Segundo o Ipec, 50% dos entrevistados desaprovam seu governo. Segundo o Datafolha, 38% acham que Lula 3.0 é ruim, ante 32% satisfeitos. Tudo bem, perdendo um pênalti, Messi não é mais o mesmo.

Fulanizando a disputa, o Datafolha mostrou que Lula teria 41% contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A terceira via patina com Ronaldo Caiado e Renan Santos (3%), mais Romeu Zema e Aécio Neves (2%).

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado. Marcando um gol poucos minutos depois, Messi é o grande artilheiro das Copas.

Digimais, Master e a ameaça de um risco sistêmico silencioso, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Além das possíveis infrações penais, o caso do banco do Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, é a repetição do modelo observado anteriormente no Banco Master

A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal (PF) contra o Banco Digimais, controlado pelo empresário e chefe religioso Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, vai além do que seria mais um escândalo financeiro. As suspeitas de manipulação contábil, ocultação de prejuízos, superavaliação de ativos, venda de créditos sem lastro e transferência de riscos para terceiros revelam um padrão recorrente de comportamento em instituições financeiras de médio porte que trabalham com altas taxas de risco. Isso pode representar uma ameaça estrutural à estabilidade do sistema financeiro nacional.

Desigualdade se tornou tão comum que injustiça não é mais vista como emergência moral, por Ricardo Viveiros*

Folha de S. Paulo

Reivindicar que pessoas vivam sem fome e sem medo é tratado como mera opinião política

Extremistas veem demandas de dignidade como excessos e ameaças ideológicas

É estranho nascer, crescer e viver em um país como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto como um posicionamento "ideológico" questionável, e não um mínimo princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.

Sabemos que a democracia implica debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.

O banco de Edir Macedo no templo da perdição que junta finança, crime e política no Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Digimais maquiava balanços para esconder que estava quebrado e sumir com dinheiro, diz PF

Estouro da boiada de fintechs facilitou união de facções, políticos e dinheiro do mais podre

Há podridão extensa na finança —se estende da bandidagem de rua à da política. Isto é, crimes financeiros, gangues no controle de instituições financeiras, o crime organizado "comum" se valendo de instituições de pagamentos, "fintechs", e fundos para sumir com dinheiro, com apoio de parte da elite política graúda. Nem vamos lembrar da Americanas e de tantas empresas com balanços "com problemas".

O Digimais pode ser um Masterzinho, diz a Polícia Federal. Ou mais do que isso. Edir Macedodono do banco, não ocupa ou ocupou cargo político, mas lidera corrente do evangelismo político. Ele, seus vassalos ou fiéis poderosos mandam em um partido, o Republicanos. O Congresso está à beira de aprovar mais favores tributários para igrejas.

Dribles do acaso, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

A hora e a vez do ‘salva-se quem puder’, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A política virou um “salve-se quem puder”. A quase três meses da eleição de outubro, o Palácio do Planalto já se prepara para enfrentar uma nova leva de investigações da Polícia Federal contra a chamada “República da Bahia”, com potencial para atingir homens da confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Interlocutores de Lula receberam informações de que, além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa poderá ficar muito mal na foto.

Lá vem o dólar, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Fatores diversos vão afetar o valor do dólar em cada país; No caso do Brasil, a eleição será o principal

Não são poucos os analistas que apostam que o pior momento para o dólar em 2026 ficou para trás, mas ainda não há consenso sobre se a valorização ante as principais moedas fortes e também de países emergentes, registrada na semana passada, seguirá firme no segundo semestre do ano.

Os que defendem que a trajetória do valor global do dólar é de fortalecimento argumentam que, no curto prazo, a expectativa de alta dos juros pelo Federal Reserve (Fed) será o principal vetor de influência sobre o mercado de câmbio. Até há pouco tempo, o dólar e as outras moedas mundiais vinham oscilando conforme os rumos da guerra no Irã, que gerou um choque de oferta e fez disparar os preços do petróleo. É justamente agora, quando as cotações do petróleo começam a recuar com a resolução do conflito no Oriente Médio, que os próximos passos da política monetária americana assumem maior peso sobre o humor dos investidores.

Banco Digimais assumiu consignados com militares da Aeronáutica, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Banco de Edir Macedo foi alvo de operação da PF; procurada, Força não respondeu

Aeronáutica tem um contrato até 2030 para crédito consignado com o Banco Digimais, que nesta terça-feira, 23, foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) e teve R$ 670 milhões bloqueados de investigados, a exemplo do dono da empresa e líder da Igreja Universal, Edir Macedo. A PF aponta que o Digimais replicou a tática fraudulenta do Banco Master, que também fazia descontos na folha de pagamento dos militares, como mostrou a Coluna do Estadão.

Um legado de Fachin para a reforma tributária, por Fernando Exman

Valor Econômico

STF quer evitar uma avalanche de processos capaz de dominar a agenda de 2027

O turbilhão no qual foi envolvido o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou em segundo plano uma iniciativa crucial de seu presidente, o ministro Edson Fachin, para tentar reduzir o potencial contencioso envolvendo a reforma tributária do consumo.

Poucos discordam que a aprovação da reforma, ocorrida após mais de três décadas de idas e vindas, foi um feito histórico. Ela deve finalmente simplificar o que se acostumou a chamar de “manicômio tributário”, o emaranhado de regras e impostos que por anos atrapalhou empreendedores e travou o desenvolvimento nacional.

A seis meses da reforma, CBS ainda é mistério, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Calendário eleitoral é o motivo da demora, pelo que se fala nos bastidores

Faltando 191 dias para a estreia do novo sistema tributário sobre o consumo, ainda não se sabe qual será a alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que começará a ser cobrada no dia 1º de janeiro. Com isso, empresas não conseguem definir preços e estratégia para 2027.

O principal motivo da demora é o calendário eleitoral, pelo que se fala nos bastidores. Para calcular a alíquota da CBS, é preciso saber primeiro quanto será arrecadado com o Imposto Seletivo, também criado pela reforma e conhecido como “imposto do pecado”. Vai ser cobrado sobre bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, cigarros, veículos, aeronaves, produtos minerais e bets.

O homem que virou cinema, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

200 anos do Congresso Anfictiônico do Panamá: passado e presente, por Gustavo Menon*

Correio Braziliense

O sonho ambicioso de criar uma "Pátria Grande" latino-americana não prosperou. O quadro é de fragmentação política, divisão social e desintegração econômica na América Latina

Em 22 de junho de 1826, iniciou-se, no istmo do Panamá, o Congresso Anfictiônico, convocado por Simón Bolívar como ápice das lutas de independência que buscavam transformar os antigos vice-reinos e colônias da América Latina em uma grande comunidade política. Tratava-se de mais do que uma conferência diplomática: era o momento de tentar materializar o ideal de uma confederação de repúblicas soberanas, capaz de defender a independência recém-conquistada e formular uma política comum de autonomia frente às potências da época. O diagnóstico do "libertador" era claro: sem união, a fragmentação política abriria caminho a novas formas de dominação externa. Bolívar estava preocupado com questões de vulnerabilidade e dependência das repúblicas recém-formadas diante do sistema internacional. Passados 200 anos, mesmo que com novas configurações, a inquietação persiste, em razão, por exemplo, de aberturas para a atuação de forças extrarregionais sobre o subcontinente. 

Poesia | Ela, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina - Sinal Fechado (Paulinho da Viola)

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante a retirada de policiais cedidos a tribunais

Por O Globo

Supremo deve continuar preservado, ou haverá interferência indevida em investigações que atingem o governo

Investigações contra corrupção no Brasil esbarram com frequência em obstáculos que contribuem para transmitir a sensação de impunidade. O exemplo mais citado costuma ser a Operação Lava-Jato, desmontada depois que vieram à tona erros processuais, em especial a ação coordenada entre magistratura e procuradoria — que levou à anulação da vasta maioria das condenações, mesmo de réus confessos, diante de provas irrefutáveis.

Dar emprego a todos que queiram trabalhar: uma utopia? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Ano eleitoral é momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal

Mais cedo ou mais tarde, não muito tarde, o Brasil e outros países terão de enfrentar o problema do desemprego estrutural. Vários fatores, principalmente as inovações tecnológicas, aceleradas pela inteligência artificial (IA), indicam que o simples crescimento econômico não será suficiente para gerar postos de trabalho que garantam ocupações dignas e o sustento das famílias.

A despeito dos baixos níveis atuais de desemprego, a informalidade é uma marca do mercado brasileiro, com 40 milhões de trabalhadores, muitos deles iludidos pelo discurso do empreendedorismo.

A constatação da incapacidade de o sistema capitalista prover pleno emprego não é nova. O excedente estrutural de mão de obra sempre foi uma arma para redução de custos. Já nos anos 1960, o economista Hyman Minsky defendia a tese do “Estado como empregador em última instância”. Mas a constatação de que há uma emergência no enfrentamento desse problema fez ressurgir nos meios acadêmicos do país o debate sobre a criação de um Programa de Garantia de Emprego (PGE).

As chances de uma eleição de turno único em SP, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saída de dois pré-candidatos da disputa aumenta chances de reeleição de Tarcísio no primeiro turno deixam Lula sem palanque no segundo

A desistência de dois pré-candidatos ao governo de São Paulo, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) e ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), faz da eleição em turno único o cenário mais do que provável no Estado que agrega 22% do eleitorado nacional. A perspectiva de enfrentar um 2º turno sem palanque em São Paulo, visto que as projeções de todos os institutos são de elevadas chances de reeleição do governador Tarcísio de Feitas, levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a refazer as contas.

Amigos, amigos, eleições à parte. Saída de Wagner é dilema de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o poder. Foi assim no mensalão e na Lava Jato.

A permanência do senador Jaques Wagner na liderança do governo no Senado é insustentável, não apenas pelo desgaste pessoal provocado pela Operação Compliance Zero, mas pelo risco crescente de que o Caso Master ultrapasse as fronteiras de uma investigação financeira e alcance o núcleo político do governo Lula. No Palácio do Planalto, a compreensão é de que o problema deixou de ser exclusivamente jurídico. Virou uma ameaça com potencial para influenciar a sucessão presidencial de 2026.

Onde está a magia do futebol brasileiro? Por Fernando Gabeira

O Globo

O futebol era o nosso principal recurso em ‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.