sexta-feira, 26 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Infiltração do PCC na Câmara de SP serve de alerta

Por o Globo

Operação que prendeu vereador petista expõe elo preocupante da política com o crime organizado

Foi oportuna a operação deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo que prendeu nesta quinta-feira o vereador Senival Moura (PT), suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as investigações, Senival, primeiro secretário da Câmara Municipal de São Paulo, atuava como figura central num esquema que usava uma empresa de ônibus para lavar dinheiro da facção. É apontado pelos investigadores como controlador indireto da transportadora e dono de parte da frota (ele alega inocência). A operação expõe mais uma vez elos preocupantes da política com o crime organizado.

A infiltração de facções criminosas na economia formal tem sido prática disseminada. Permite manter as atividades ilegais sem despertar a atenção das autoridades. Nesse campo, os bandidos têm sofrido reveses importantes. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, se tornou um marco ao expor um esquema gigantesco de sonegação e lavagem de dinheiro para o PCC, envolvendo o setor de combustíveis. As investigações mostraram que os tentáculos do crime se estendiam a fintechs e instituições financeiras da Avenida Faria Lima.

Qual a força eleitoral da seleção Canarinho? Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Alegria com o penta não ajudou o sucessor de Fernando Henrique em 2002. José Serra perdeu para Lula naquela eleição

O que mais simboliza o patriotismo? O hino, a bandeira, a camisa verde-e-amarela? Torcer para a seleção Canarinho, na alegria e na tristeza? Para o atual governo, um dos símbolos é a ferramenta de transferência de valores do Banco Central: “O Pix é do Brasil”, diz a palavra de ordem da pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.

Na ditadura de Getúlio Vargas, em meio à campanha “O petróleo é nosso”, e no ano de fundação da Petrobras, Guimarães Rosa descartou que a commodity pudesse representar nossa pátria. Para o escritor, com fama de bom de garfo, o orgulho de ser brasileiro envolvia olfato e paladar: “O derradeiro resumo do patriotismo é o gustativo, palatal, de mesa e sobremesa”, afirmou. “Nossos, bem nossos, são o doce-de-leite e o desfiado de carne seca”, sacramentou, em crônica publicada em 1953.

Que trem é esse? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O lucro mais fácil do transporte de minérios e de produtos agrícolas, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro possível no transporte de passageiros

A atualização e expansão da rede ferroviária brasileira, voltada para o agronegócio e a mineração, levanta a questão social do que nela sobrará para o chamado passageiro, como seu usurário e beneficiário.

As ferrovias são fatores de criação de renda diferencial da terra na medida em que colocam os territórios que percorrem mais próximos dos mercados que se situam em seus respectivos destinos. A diminuição do tempo de um percurso opera na prática como diminuição da distância em relação ao mercado e ao mundo urbano.

Vídeo de Michelle confirma DNA bolsonarista, por Vera Magalhães

O Globo

Ao criticar enteado pré-candidato a presidente, ex-primeira-dama atesta maneira subalterna como clã enxerga as mulheres

O longo vídeo de Michelle Bolsonaro é um dos mais eloquentes testemunhos de alguém literalmente de dentro a respeito de algumas das principais características que estão no DNA do bolsonarismo: o mandonismo do “capitão”, a franquia familiar como objetivo político maior e o completo desprezo às mulheres como marca indelével.

Ela pode ter pretendido atingir Flávio Bolsonaro, mas, se levadas a sério, suas palavras expõem a maneira como seu “galego” instrumentalizou a ela própria para atingir o eleitorado feminino, que sempre foi um ponto fraco para a chegada e a permanência de Jair no poder.

Duelo entre Michelle e Flávio expõe disputa por herança política de Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-primeira-dama e senador travam batalha aberta pelos votos de Jair

A nova crise na campanha de Flávio Bolsonaro surgiu dentro de casa. A ex-primeira-dama Michelle disse que o enteado a “maltratou”, “desrespeitou” e “humilhou”. O candidato do PL já penava com o eleitorado feminino, determinante na derrota do pai em 2022.

O projeto dos Bolsonaro sempre foi familiar. O capitão lançou na política os filhos Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan. Não contava com a rivalidade entre os herdeiros de sangue e a madrasta, que também mostra apetite pelo poder.

Michelle foi a última a ingressar no clã. Terceira mulher do ex-presidente, tem 44 anos, um a menos que Flávio. Quando se casou com Jair, o Zero Um, o Zero Dois e o Zero Três já eram adultos e esperavam na fila para sucedê-lo.

Quando é preciso expor a virtude antirracista, por Pablo Ortellado

O Globo

Ser branco passa a ser percebido como moralmente problemático e, portanto, uma condição de que é preciso escapar

Pesquisas nos Estados Unidos têm mostrado um fato curioso. Nos últimos anos, brancos de esquerda passaram a avaliar negros e outros grupos minoritários de forma mais calorosa do que as próprias pessoas brancas, numa espécie de inversão da conhecida tendência psicossocial de favorecer o próprio grupo.

O dado surge de um instrumento usado em pesquisas de opinião conhecido como “termômetro de sentimento”. Quem responde à pesquisa é provocado a dizer quão “caloroso” ou “frio” se sente em relação a um grupo-alvo — a metáfora térmica captura a dimensão afetiva, mostrando quanto se gosta ou desgosta do grupo. O instrumento é tradicionalmente usado para medir favoritismo. O viés é calculado pela diferença entre a nota que se dá ao próprio grupo e a nota dada a outro grupo.

Foi ou não ‘mimimi’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Michelle só quer mais protagonismo ou quer a vaga de Flávio na chapa?

Bolsonaristas e petistas se unem numa pergunta que não quer calar: Michelle Bolsonaro está se insinuando na disputa presidencial, depois de avaliar o tamanho do estrago na campanha do enteado Flávio, tanto pelo Dark Horse quanto pelas novas ameaças de Trump? Ou seu vídeo contra Flávio foi só um “mimimi”, como diria o marido?

O governo comemora a guerra interna, mas os dois lados querem saber de que lado Jair Bolsonaro está, se apoiou ou liberou o ataque de Michelle na internet e, afinal, quão grave está, neste momento, a velha crise familiar, política e eleitoral.

O conselho ignorado por Flávio sobre Michelle, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Interlocutores do PL já vinham avisando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da importância de trazer Michelle Bolsonaro para sua pré-campanha, mas ele ignorou.

Lideranças relatam que o pré-candidato foi aconselhado recentemente a fazer um gesto em direção à ex-primeira-dama, dizendo que ela seria ministra em seu futuro governo e também a convidá-la a ajudar a escolher a sua candidata a vice-presidente.

Um influente interlocutor disse à coluna que faltou “sensibilidade” a Flávio, que não a incluiu na campanha.

Cultura em alerta, por José Sarney*

Correio Braziliense

Como intelectual e escritor com mais de 120 títulos publicados, em 168 edições e 10 idiomas, alio-me à defesa dos direitos autorais e daqueles que os estão defendendo

Nunca na História tivemos um tempo de nuanças tão grande quanto neste tempo — não digo neste século, porque não sabemos quanto tempo vai durar.

É que, desde a grande explosão (o Big Bang), o Universo sofreu mudanças físicas que determinaram e continuam determinando a sua forma. Aqui na Terra, com a existência de vida, sempre tivemos, e vamos continuar tendo, transformações no corpo dos seres vivos, animais e plantas.

Pois bem, agora passamos por uma modificação profunda no modo de pensar, e a capacidade do cérebro humano é desafiada pela inteligência artificial (IA). As "minas", isto é, os bancos de dados gigantes, que consomem uma energia colossal, caminham para o armazenamento de todo o conhecimento humano e para uma imitação plena do pensamento lógico e do domínio da razão, sem que se possa prever o que farão no futuro. E já se está engatinhando por esse caminho. A humanidade ainda não consegue avaliar o risco de ser sufocada por esses imensos perigos.

Michelle demarca território, Flávio resiste; o pós-Bolsonaro já começou, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Pela primeira vez, a disputa pela liderança simbólica do bolsonarismo, protagonizada pelo senador e pela ex-primeira-dama, foi travada em praça pública

O conflito entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro extrapolou o terreno das relações familiares e se tornou um dos episódios mais reveladores das contradições no clã Bolsonaro nesta pré-campanha presidencial. Pela primeira vez, desde que Jair Bolsonaro escolheu o filho mais velho como sucessor, a disputa pela liderança simbólica do bolsonarismo, protagonizada por ambos, foi travada em praça pública.

À primeira vista, Michelle parecia ter produzido um enorme desgaste para a candidatura de Flávio. Principal liderança feminina da direita e responsável pela interlocução do PL com o eleitorado evangélico, acusou o enteado de tê-la “desrespeitado”, “maltratado” e “humilhado”. Gravou um vídeo muito bem produzido e de cabeça pensada, com objetivo claro de ser contundente: “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.

Em nome de que Michelle desafiou a autoridade de Bolsonaro? Por Juliano Spyer*

Folha de S. Paulo

Vídeo foi planejado em detalhes, com cenário, roteiro e teleprompter

Ex-primeira-dama cita Valdemar Costa Neto e lideranças do PL Mulher como aliados

Michelle Bolsonaro publicou um vídeo explicando por que não apoiará Flávio. O que me interessa não é o que ela diz, mas o que ela faz a partir desse ato e as perguntas que isso levanta.

Michelle tomou essa atitude sem consultar ou pedir autorização ao marido? Porque ela não diz falar em nome de Jair e não faz sentido que ele ataque o filho. Seu primogênito é pré-candidato à Presidência da República escolhido por ele próprio. Não me lembro de outro gesto da ex-primeira-dama demonstrando essa autonomia contra o interesse familiar.

Qual é o objetivo, além de prejudicar as chances de Flávio na corrida presidencial, ao apresentá-lo e aos irmãos como pessoas que atacam uma mulher —a esposa do pai— tratando-a como ingênua nas palavras dela, para apoiar um inimigo político em nome do pragmatismo?

Um país que só existe hoje e até a esquina, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O analfabetismo caiu, mas pergunte a alguém quando se proclamou a República, em 1822 ou 1889

Pelo menos, há um livro que está vendendo aos milhões: o álbum de figurinhas da Copa

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.

Na Copa da batata 100% mais cara, previsão é de inflação menor só na Olimpíada de 2028, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco Central tenta desfazer confusão e estima inflação na meta daqui a dois anos

Certos alimentos ficaram mais caros por choque climático, mas carestia extra não é geral

Batata, cenoura e tomate dobraram de preço desde o início do ano. A cebola ficou 64% mais cara. O feijão-carioca, 51%. A comida que se leva para casa aumentou em média 5,9% até junho, na medida do IPCA-15, do IBGE.

Em 12 meses, a inflação da comida está em 3,4%. Entre novembro de 2024 e maio de 2025, ficara perto de 8% ao ano, o que ajudou a derrubar a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva.

O aumento, pois, não é disseminado, embora seja carestia horrível de produtos de uso corriqueiro. Em abril de 2013, o tomate caríssimo virou meme, mas era símbolo de inflação de alimentos alta, de quase 16% ao ano, um tempero das tantas insatisfações com Dilma Rousseff.

Na prática a teoria colapsa, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ida de Gilmar Mendes ao Roda Viva mostra que lei não basta para produzir comportamento virtuoso

Prestígio do STF está se esvaindo e, se nada for feito, é questão de tempo até que venha um impeachment

A ala do STF contrária à criação de um código de ética para a corte tem razão ao afirmar que, em princípio, tal diploma não seria necessário, uma vez que regras de conduta para juízes já estão fixadas na Lei Orgânica da Magistratura, a Loman. A Loman, vale lembrar, é uma lei complementar, hierarquicamente superior a qualquer forma legal que um código de ética poderia assumir. Se a tese desse grupo de ministros é robusta na teoria, não é necessário mais do que rápida visita ao mundo real para constatar que, na prática, ela colapsa.

Talvez vitória de Lula seja, no final, boa para todos, por Marcos Augusto Gonçalves*

Folha de S. Paulo

Direita enfrenta dificuldades com candidatura catastrófica de Flávio Bolsonaro e demais opções

Petista tem problemas, mas é previsível e só tem mais uma disputa, depois cenário vai se reabrir

Os resultados da mais recente pesquisa Datafolha consolidaram o tombo que o candidato Flávio Bolsonaro levou de seu pangaré obscuro ao ser apanhado em flagrante a pedir dinheiro grosso ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar "Dark Horse", a cinebiografia de seu pai.

Por mais que se tente encarar as coisas com benevolência pelo lado do senador, sua situação piorou depois da conversa vazada com o dono do Master. A realidade é que Lula está dez pontos percentuais à frente na pesquisa estimulada. Na espontânea, em que os nomes dos presidenciáveis não são apresentados, Lula é citado por 30% e Flávio Bolsonaro, por 17%.

Tempos de Arraes - a revolução sem violência, por Antônio Fausto Nascimento*

O governo de Miguel Arraes de Alencar (1963/1964), em Pernambuco, ao lado de Seixas Dória, de Sergipe, foram os únicos a serem imediatamente depostos pelo golpe civil-militar de 1964. Governou o Estado por um ano, mesmo tempo em que ficou encarcerado na Ilha de Fernando de Noronha.

Ameaçado de nova prisão pela ditadura, teve de se exilar na Argélia, onde permaneceu por 14 anos, regressando ao Brasil com a Lei de Anistia de 1979. A partir das eleições gerais de 1982, foi eleito Deputado Federal por várias legislaturas e novamente governador por dois mandatos. O povo pernambucano lhe fez justiça, em seu retorno ás atividades políticas.

Poesia | Não te rendas, de Mário Benedetti

 

Música | Beth Carvalho - Ilha de Maré

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

MEIs são o próximo alvo das ‘bondades’ de Lula

Por O Globo

Alívio a microempreendedor com dívidas se soma ao custo já intolerável do afã eleitoreiro do Planalto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra limites na distribuição de “bondades” de olho nos dividendos eleitorais. A próxima na lista promete ser o afago aos microempreendedores individuais (MEIs). O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, disse em entrevista ao GLOBO que o Planalto prepara um desdobramento do programa Desenrola para regularizar a situação dos MEIs endividados.

Cautela e caldo de galinha não farão mal a Lula nesta Copa, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A relação entre os presidentes da República e os títulos mundiais nas Copas do Mundo de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, revela muito sobre a história política do país

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o senador Jaques Wagner (PT-BA), no Palácio da Alvorada, e combinou a imediata saída dele da liderança do governo no Senado. Foi a primeira conversa presencial entre ambos desde que o parlamentar foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master. O dia parece ter sido escolhido a dedo para aproveitar o lusco-fusco do jogo do Brasil com a Escócia, ontem. Se a conversa tivesse sido boa, os dois amigos teriam assistido à seleção brasileira em campo juntos. Ao contrário. Wagner deixou o Palácio da Alvorada e anunciou que sairá do cargo.

O eleitor que levou Wagner a deixar a liderança, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Antes do encontro com o senador, Lula tinha em suas mãos pesquisas que demonstravam a cobrança do eleitor independente pelo afastamento entre governo e Master

“Eu acho que não faz diferença ser tão próximo de Lula desde que não haja um abafamento do PT. A partir do momento em que o Lula colaborar com as investigações, tudo bem, mas se Lula tiver algum tipo de posicionamento de tentar diminuir, abafar, só por ser próximo dele, aí sim, ficaria feio”. Egressa de um grupo de pesquisa qualitativa, na sexta rodada de uma série do Instituto Democracia em Xeque, a eleitora foi ouvida no domingo passado.

O relatório com o resultado da rodada desta série de qualitativas com eleitores independentes entre 30 e 50 anos, ensino médio, renda de três a sete salários mínimos e recrutados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, BH e Salvador, chegou ao gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início da tarde desta quarta-feira, antes de seu encontro com o líder do governo no Senado.

O caso Master e as entrelinhas de Gilmar, por Julia Duailibi

O Globo

Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente quer que prossigam

A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do poder, melhor adotar a cautela.

Desculpas esfarrapadas, por Merval Pereira

O Globo

A desistência de continuar no cargo foi arrancada a fórceps, muitos trabalharam para convencê-lo a facilitar a vida do presidente.

Um líder de governo no Senado estar envolvido num escândalo de corrupção — como o senador petista Jaques Wagner no caso Master — já seria um problemaço para um governante que pretende ser reeleito pela quarta vez à Presidência da República. Seria demitido imediatamente, para livrar o presidente, no caso Lula, de problemas eleitorais na campanha. Mas Jaques Wagner, vê-se, não é um senador qualquer. Tem história no PT e na luta sindicalista com Lula. São amigos há 50 anos. Essa circunstância piora a situação de Lula, pois ele não tem condições emocionais para demitir o amigo, e o amigo não quer ajudá-lo a se safar dessa. Quer é se safar, por isso se abraça ao presidente como um afogado.

Brasil condenado injustamente, por Míriam Leitão

O Globo

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas. A decisão final será no mês que vem e o país prepara as suas considerações finais. Um experimentado negociador me disse que este tem sido o mais difícil processo do qual já participou. Outro funcionário do governo brasileiro me explicou o seguinte: “É muito difícil evitar as tarifas porque há um claro desinteresse dos Estados Unidos em chegar a um acordo”. O presidente Donald Trump quer condenar o Brasil e não por motivos comerciais.

Donald Trump e as eleições presidenciais no Brasil, por Maria Hermínia Tavares*

Folha de S. Paulo

Preferências eleitorais parecem organizar visão dos brasileiros sobre EUA

Diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção

O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social, na terça-feira (23), que a votação no Brasil será seu próximo desafio. E se declarou —quem diria— preocupado com a integridade do sistema eleitoral do país e com a necessidade de que a disputa seja livre e justa. Para ele, assim será se o Brasil vier a "se juntar à crescente lista de nações que se movem à direita".

Não poderia ser mais explícito: joga a favor do candidato direitista. Como, por enquanto não se sabe. Mas desde já o mandatário americano se alinha à tática da família Bolsonaro de disparar suspeitas sobre o nosso sistema de votação e sobre as regras que asseguram condições necessárias à livre competição nas urnas.

A pressão política do Digimais, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Manobras de Vorcaro evidenciam dificuldade que o BC tem em decretar liquidação extrajudicial do Digimais

O banco de Edir Macedo tem caixa

As tentativas de Daniel Vorcaro de desliquidar o Master evidenciam a dificuldade que o Banco Central tem em decretar uma liquidação extrajudicial do Digimais.

O Digimais tem caixa.

O banco controlado pelo bispo Edir Macedo foi alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, que mirou diretores, conselheiros e empresas ligadas ao banco do fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV, sob suspeita de crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e realização de empréstimos proibidos por lei.

Corrupção geral e acordão não vão salvar esquerda de seus erros e crimes, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Governismo acha que pode se sair bem por direita estar afundada na onda de bandalheira

Acordões têm substituído política do pega para matar, vigente desde 2016

A temporada de festas juninas está no auge. A diversão com a Copa está grande, com histórias de muitos países e jogadores para distrair a metade do país que se interessa pelo assunto. O time do Brasil ainda disputa a competição.

Em breve, parte do país entra em férias, pequena, é verdade, mas os povos do poder político entram em recesso em julho. A campanha eleitoral começa, na prática, em agosto.

Enfrentar escândalo é um perigo, cada vez menor, pois o país parece anestesiado pela recorrência ideologicamente ecumênica de bandalheiras. No entanto, o prejuízo tende a ser menor em momentos de distração ainda maior, como neste, de festa, Copa e férias.

O jurista público-privado pede porta aberta, por Conrado Hübner Mendes*

Folha de S. Paulo

Em algumas profissões jurídicas, a porta giratória não serve

Arranjo poroso traz riscos para interesse público e imagem de órgãos

Há formas de lucrar com o trânsito entre o cargo público e a empresa privada. A "porta giratória", metáfora da captura institucional, é uma delas. Um profissional competente em finanças pode sair do setor privado, passar um tempo no Banco Central ou no Ministério da Fazenda, e voltar para a Faria Lima. E, quando voltar, vender caro no privado o capital adquirido no público.

Esse arranjo poroso traz riscos para o interesse público e para a imagem de imparcialidade de órgãos reguladores ou judiciais. Os riscos podem ser atenuados por mecanismo de quarentena, que obriga o profissional a se afastar por um período antes de voltar ao mercado com a credencial de ex-autoridade. Podem ser mais mitigados pelo bom senso e pela virtude.

Artilheiros na batata, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Messi já fez 18 gols em Copas. E daí? Quantos jogos levou para chegar a essa marca?

Os grandes goleadores são o húngaro Kocsis e o francês Fontaine; confira suas médias

Como diria Nelson Rodrigues, a imprensa teve espasmos de cachorro atropelado diante do 18º gol de Messi em Copas do Mundo. A julgar pelos gritos dos narradores e das manchetes, os gols do argentino contra a Áustria foram um momento da história, como o da fissão do átomo em 1938, da chegada do homem à Lua em 1969 e do sequenciamento do genoma em 2003. Ao fim da Copa, campeão ou não, Messi será desfilado pelos estádios numa bandeja de prata e com uma maçã na boca, para usar mais uma imagem rodrigueana.

Racismo religioso de um Estado policial-cristão, por Thiago Amparo*

Folha de S. Paulo

Por cumprir seu papel, diretora de escola infantil foi intimidada por PMs

Tratar de orixás nas escolas é tratar da cultura brasileira

Doze policiais, um deles com uma metralhadora, intimidaram a diretora de uma escola em São Paulo após o pai de uma aluna, ele mesmo policial militar, ter contestado uma atividade escolar sobre cultura afro-brasileira.

O pai da estudante mente: a escola apenas aplicou uma atividade pedagogicamente adequada e determinada pela lei federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira. Os professores estavam trabalhando o livro "Ciranda de Aruanda", de Liu Oliveira, que apresenta os orixás em linguagem para crianças.

Em busca do podre, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Até aqui, o ‘sistema’ usa táticas erradas para tentar melar as investigações do Master

O princípio que levou à anulação de duas grandes operações de combate à corrupção no Brasil, a Castelo de Areia e a Lava Jato, chama-se “teoria da árvore envenenada”. Se o ponto de partida de uma investigação é considerado ilícito, tudo o que vem depois (busca e apreensão, mandados de prisão, documentos e confissões) perde, automaticamente, a validade jurídica.

O divisor de águas já foi traçado no embate entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça e é atrás da fruta podre que se concentra o decano da Corte. Para quem Mendonça, o relator do caso, já cometeu “erro crasso”. Por seu lado, o relator enxerga em Gilmar os interesses do “sistema” de corrupção, que se beneficiaria de uma eventual extinção das investigações no escândalo Master.

Dois presos, duas medidas, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Quais são os critérios para o Supremo definir os destinos de Vorcaro e Bolsonaro

Dentre as muitas divisões que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje, uma delas é estrutural. A Corte é dividida em duas turmas. Por força do acaso, cada uma ficou com um dos temas de maior sensibilidade política da temporada: a Primeira Turma, de Alexandre de Moraes, julga os processos ligados à tentativa de golpe de Estado e a Segunda, de André Mendonça, está com as fraudes do Banco Master.

O destino dos protagonistas dos dois escândalos deve ser definido em breve pelos relatores dos processos. Moraes está para decidir se Jair Bolsonaro seguirá na prisão domiciliar depois que um segurança foi flagrado com uma arma do ex-presidente dentro do carro em uma blitz. Mendonça vai definir se Daniel Vorcaro, o dono do Master, continua em uma cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, ou se será transferido para um presídio.

Eles sabem o que fazem (mas não sabem tudo), por Eugênio Bucci *

O Estado de S. Paulo

Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima 

Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.

As dinâmicas afetivas e a polarização política brasileira, por Jairo Pimentel Jr.*

Correio Braziliense

O Brasil não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa. E isso tem consequências para a democracia

A política brasileira atual costuma ser explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela. Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.

Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.

Poesia | Isto, de Fernando Pessoa

 

Música | Nara Leão - Diz que fui por ai (Zé Kéti)

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por O Globo

É defensável evitar flutuação abrupta na Selic, mas faltou transparência à forma como Copom se justificou

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

Guerra no STF agora é declarada, por Vera Magalhães

O Globo

Entrevista de Gilmar escancara divisão na corte e tensão provocada pelo caso Master

Há pouco menos de 20 dias, escrevi neste espaço que as tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) estavam prestes a deixar os bastidores e explodir em público. Não demorou. Em entrevista ao “Roda Viva”, o decano da Corte, Gilmar Mendes, explicitou a divisão interna na Corte e deixou claro quem joga em que time.

No seu, estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e, mais discretamente, Cristiano Zanin. Os demais se dividem em dois grupos que foram alvo de ataques de Gilmar. Ao presidente, Edson Fachin, e a Cármen Lúcia, ele atribui o desgaste de imagem do STF, pela insistência em agendas como o código de conduta do Judiciário. O maior incômodo, no entanto, parece recair sobre André Mendonça, que claramente vem ganhando protagonismo no Supremo com relatorias de casos espinhosos e de alto impacto político, como o Master e o da máfia do INSS.

Memórias do inferno, por Bernardo Mello Franco

O Globo

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Lula precisa de um momento Messi, por Elio Gaspari

O Globo

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com dez pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado

Depois de ter perdido um pênalti, Messi fez dois gols contra a Áustria e decidiu a partida. Terminada a Copa, começará a campanha eleitoral. Até outubro, Lula precisará destravar uma dissonância das pesquisas. Segundo o Ipec, 50% dos entrevistados desaprovam seu governo. Segundo o Datafolha, 38% acham que Lula 3.0 é ruim, ante 32% satisfeitos. Tudo bem, perdendo um pênalti, Messi não é mais o mesmo.

Fulanizando a disputa, o Datafolha mostrou que Lula teria 41% contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A terceira via patina com Ronaldo Caiado e Renan Santos (3%), mais Romeu Zema e Aécio Neves (2%).

Um presidente reprovado por metade dos entrevistados é o preferido com 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado. Marcando um gol poucos minutos depois, Messi é o grande artilheiro das Copas.