sábado, 25 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Antagonizar Trump convém a Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista, que já se beneficiou da oposição ao tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã

Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do americano

O antiamericanismo, amparado em momentos da história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um aliado próximo.

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.

Tempos movediços, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

O que um editorial não diz, por Vanessa Ribeiro Mateus*

O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

Um case do Supremo, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

Trabalho que mata, por Flávia Oliveira

O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.

O truque do bem, por Thaís Oyama

O Globo

Deputada desloca a discussão de projeto que defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais

Poucas falácias têm prosperado tanto no Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.

Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.

Novíssimo Dicionário de Carioquês, por Eduardo Affonso

O Globo

Graças aos investimentos maciços na linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua

Outono: Espécie de verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.

Faixa de pedestre: Pintura decorativa feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.

Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.

Candidatos em desfile, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Este é o momento em que as coisas não são exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a opinião pública

A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.

Juventude, redes e extremismo, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Empresas privadas poderosas, com imensa capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a juventude e a tolerância com a violência

Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.

Não será trivial Lula negar ajuda ao BRB, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Quando governadora do DF formalizar pedido de aval do Tesouro a empréstimo, presidente será forçado a decidir

Licença é semelhante à que o Tesouro concedeu aos Correios, estatal com histórico de corrupção e má gestão

Não será trivial para o presidente Lula negar o aval do Tesouro Nacional ao empréstimo de R$ 6,6 bilhões que o governo do Distrito Federal pleiteia junto ao Fundo Garantidor de Crédito para salvar o BRB em pleno ano eleitoral.

O senso comum leva a pensar que cabe ao BRB, que se meteu nas falcatruas do Master, sair dessa encrenca sozinho, sem impor ônus à União e ao contribuinte, ou sofrer intervenção do Banco Central.

Que tal uma constituinte exclusiva? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Acuados, ministros do STF vão dando cada vez mais sinais de destempero

Não parece haver saída para a crise de credibilidade em que a corte se meteu

Não acho que o chilique de Gilmar Mendes com Romeu Zema, em que pese ter vitaminado o posicionamento do mineiro nas redes sociais, bastará para tornar sua candidatura presidencial uma alternativa realista à polarização. Aliás, nem sei se Zema pretende mesmo manter-se na disputa até o fim ou apenas tenta ganhar pontos para pleitear o posto de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Um dos muitos problemas do Brasil é que a direita sem o sobrenome Bolsonaro não foi capaz de colocar-se inequivocamente na defesa das instituições e rejeitar golpismos e anistias.

Sob Castro, Palácio Guanabara virou um puxadinho bolsonarista, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Horas antes de sua condenação, ex-governador destinou R$ 730 milhões a prefeitos aliados

Ex-ministro da Saúde, general Pazuello ensinou a 'logística' da multiplicação de cargos

Cláudio Castro é um desmemoriado. No tempo recorde de um mês, esqueceu que no dia 24 de março o TSE o condenou por uso indevido da máquina pública nas eleições de 2022.

Castro faz caras e bocas de coitadinho. Reclama do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que promove uma faxina no Palácio Guanabara, transformado pelo antigo ocupante num enorme comitê eleitoral bolsonarista, com ramificações no crime organizado —a crise institucional explodiu com a prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, candidato governista à sucessão acusado de envolvimento com o Comando Vermelho.

Pesquisas e a experiencia da vida como ela é, por Marcus Pestana

A raposa política disse: “há dois seres ansiosos na política, os políticos e os jornalistas que cobrem a política”. Todas as semanas somos bombardeados com números de pesquisas de opinião. Lideranças políticas, especialistas, jornalistas, esmeram-se em torturar os números e extrair conclusões brilhantes e definitivas. Cravam resultados inevitáveis, menosprezam candidatos, elegem precocemente vitoriosos.

Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.

A república do medo, por Murillo de Aragão

Veja

O STF, o Congresso, o governo e a sociedade estão paralisados

Em coluna recente no Estadão, Fernando Schüler diagnosticou que nos tornamos uma sociedade do medo. O diagnóstico é preciso, mas pede ampliação: o medo que hoje nos define não é apenas aquele que a sociedade sente diante do crime. É o medo que atravessa o próprio aparelho do Estado, que habita gabinetes, plenários e antessalas das cortes superiores — e que, por isso mesmo, paralisa. É o medo que se instalou nas ruas por conta do crime organizado. Sociedade e estado paralisados pelo medo.

O Supremo temeu as CPIs e os vazamentos relacionados aos escândalos recentes. Ainda que protegido por fragilidades estruturais de fiscalização, teme que revelações possam vulnerar ainda mais a instituição. Por isso se defende com ataques, ações neutralizadoras e atua em tricô silencioso entre ministros, relatores e líderes partidários. Politizado ao extremo, o guardião da Constituição aprendeu a jogar xadrez preventivo com os outros Poderes, antecipando-se a ameaças reais ou imaginadas.

Três anos em trinta, por Cristovam Buarque

Veja

Os planos nacionais de educação são muito frágeis

A frase “50 anos em 5”, do tempo de Juscelino Kubitschek, simboliza o salto do Brasil para a industrialização. O governo da época elaborou um plano de desenvolvimento nacional com objetivos, estratégia, estrutura e ações federais de modo a fomentar o crescimento e a urbanização. Não é o que se pode dizer do resultado dos dois Planos Nacionais de Educação (PNEs), a partir de 1996.

As viagens de Lula, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O conflito social, sempre latente, foi revigorado no Brasil pelo avanço do atraso das classes dominantes e de seus seguidores

Em sua viagem à Europa – Espanha, Alemanha e Portugal –, nosso presidente Lula reafirmou, de modo enfático, seu compromisso com a democracia, o multilateralismo e o combate às desigualdades.

A Agência Brasil nos informa que as reuniões com os chefes de Estado da Espanha, da Alemanha e de Portugal abordaram questões relacionadas ao multilateralismo, incluindo a sucessão da Secretaria-Geral da ONU; desigualdades, com o Brasil defendendo a inclusão de aspectos relacionados à violência política e digital de gênero; e o combate à desinformação.

Os caminhos do debate político em curso, no Brasil, sugerem que a mediação democrática entre os dois polos que se digladiam está em risco. Diante dessa polarização e da forma como está evoluindo, é conveniente imaginar que a eleição de outubro possa acomodar as tensões. Essas tensões são a expressão política de um conflito social, sempre latente nas sociedades modernas urbano-industriais.

Os novos templários, por Jamil Chade

CartaCapital

O governo Trump transforma o Pentágono em um braço armado do nacionalismo cristão fundamentalista

embate entre Donald Trump e o papa Leão XIV tem gerado polêmica e a imagem do presidente norte-americano como Jesus causou indignação, mas a realidade é que os episódios são apenas a ponta do iceberg de um fenômeno muito mais profundo. Nos últimos meses, a administração do republicano tem adotado normas e medidas para permitir que o exército mais poderoso do mundo seja sequestrado por uma ala radical do cristianismo. Essa base não esconde a intenção de fazer do Pentágono o braço armado de um plano global de hegemonia de uma versão da fé cristã. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, é considerado um dos líderes dessa ala e, não por acaso, leva tatuado no corpo lemas usados por guerreiros enviados às Cruzadas.

Por uma História do Partido Socialista Brasileiro, por Ricardo Marinho

Livro resenhado: Hecker, F. Alexandre. História do socialismo democrático brasileiro: o Rio de janeiro como centro produtor e difusor. São Paulo: Annablume, 2024. 394 p.

O livro de F. Alexandre Hecker é, hoje, o principal trabalho de história sobre o Partido Socialista Brasileiro (PSB). É o mais recente resultado de anos de pesquisa e estudos de textos e documentos que cobrem períodos da história brasileira. Nos períodos analisados por Alexandre Hecker, estamos sob a perspectiva do confronto pela democracia e da luta pela sua consolidação, em face das dificuldades vividas por um partido peculiar, dentro dos sistemas partidários, nos intervalos do segundo pós-guerra, de 1945-1946 a 1964, e, posteriormente, de 1985-1988 até os dias correntes. Período este em que o PSB se destaca pela atuação do Vice-Presidente da República, que também acumulou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, diante da complexa conjuntura aberta pela Ordem Executiva 14257 do Presidente dos Estados Unidos (POTUS), bem como da Operação Fúria Épica, de 28 de fevereiro de 2026, no Irã.

Poesia | O Andaime, de Fernando Pessoa

 

Música | Portugal: 25 de abril, 52 anos Revolução dos Cravos | Nara Leão - Grandola, Vila Morena

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Como não fazer uma legislação sobre jornada de trabalho

Por Folha de S. Paulo

Tramitação do fim da escala 6x1 é apressada por disputa entre governo e Congresso em ano eleitoral

As piores ideias incluem uma compensação a ser paga pelo governo aos empregadores; vale dizer, a conta seria repassada ao contribuinte

Governo e Congresso Nacional dão um exemplo didático de como não se deve elaborar uma legislação em suas tratativas para a redução da jornada de trabalho.

Uma mostra disso é a tramitação simultânea de propostas de emenda constitucional (PECs) sobre o tema —duas das quais foram aprovadas na quarta-feira (22) pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara— e de um projeto de lei enviado em regime de urgência pelo Executivo.

Mais força à democracia, não menos, por Fernando Abrucio*

Valor Econômico

Melhorias do sistema político têm de se ancorar na aceitação do dissenso, construção de negociações, valorização de controles democráticos sobre governantes e crença na verdade das urnas

O Brasil nunca viveu período democrático tão longo e sólido como o inaugurado em 1985 com o fim da ditadura militar. A consolidação do novo regime veio com a Constituição Cidadã, como Ulysses Guimarães a definiu. Além dela, o aperfeiçoamento incremental das regras, muita negociação e controles dos governantes foram as chaves do sucesso. Crises também ocorreram, mas a democracia permaneceu. A tentativa de golpe liderada por Bolsonaro fracassou e ele foi preso. O quadro atual, porém, é marcado pelo crescimento do discurso antissistema e pela dificuldade em respondê-lo.

Muitas críticas podem ser feitas hoje ao sistema político brasileiro, mas a grande questão é saber se o caminho de quem as faz é pelo fortalecimento da democracia ou para gerar seu enfraquecimento. Não basta apontar os erros e problemas. É preciso propor medidas cujo objetivo seja o aperfeiçoamento democrático. A história mostra, ademais, que muitos movimentos que captavam anseios populares e propunham discursos antissistema redundaram em autoritarismo ou totalitarismo. Assim foi com o fascismo italiano ou com o nazismo.

Brasileiros mandados de volta, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Deportações nos EUA em condições deploráveis ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço muito menor que o cobrado pelos nativos

A cada tantos dias, um avião fretado pelo governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à pátria.

Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.

Congresso do PT definirá diretrizes e estratégia eleitoral

Por Andrea Jubé / Valor Econômico

Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica e tecnológica

A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional, instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política, definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro do partido, que completou 46 anos em fevereiro.

Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento de nova campanha de filiação.

Dirceu vê Lula ajustando a rota com ‘autocrítica’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Partido se depara com um fantasma do passado que assombra forças progressistas no mundo todo

No momento em que se reúne para debater o seu futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.

Obra de referência de intelectuais da esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI), da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o maior partido comunista do Ocidente.

Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.

Ser ou não ser candidato à reeleição, o drama shakespeariano de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro Fernando Haddad

Na versão da peça Hamlet, de William Shakespeare, filmada para a tevê pela emissora estatal britânica BBC, o ator escocês David Tennant aparece sozinho em cena no começo do terceiro ato. Com ar de quem reflete profundamente e com grande sofrimento, murmura lentamente: “Ser ou não ser: eis a questão”. A frase foi imortalizada porque serve de analogia para todos os momentos de decisões difíceis. É a síntese de um drama humano e político ao mesmo tempo.

Chega de publicidade de bets! Por Orlando Thomé Cordeiro*

Correio Braziliense

Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo

As apostas fazem parte da cultura brasileira há séculos, atravessando períodos de proibição e legalização, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país. No século 18, as primeiras casas de apostas começaram a surgir, impulsionadas pelo sucesso das corridas de cavalos, que se tornaram um passatempo popular, especialmente entre as classes mais altas.

No século 19, precisamente em 1892, surge o jogo do bicho. Uma ideia colocada em prática pelo barão João Batista Viana Drummond como forma de aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico criado por ele quatro anos antes. Como funcionava? Quando o visitante adquiria o ingresso, recebia uma figurinha de um dos 25 bichos da lista a serem sorteados. Quem tivesse a figura do bicho sorteado ganhava um prêmio em dinheiro. Em pouco tempo, essa iniciativa quase ingênua ultrapassou os limites do zoológico e ganhou as ruas do Rio de Janeiro e, posteriormente, de várias regiões do país, permanecendo viva até os dias atuais.

Me engana que eu gosto, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dos ‘outsiders’ de 2018, dois caíram em desgraça e outro virou candidato a presidente

Três ilustres desconhecidos, que surgiram do nada, lançaram-se na política e foram eleitos governadores em 2018, na onda do bolsonarismo e contra o “sistema, a política, a corrupção e a violência”, tornam-se hoje ótimos “cases” sobre “outsiders” na política. Dois caíram em desgraça, um virou candidato a presidente.

Os dois que não deram certo vieram da área jurídica, hoje tão abalada por revelações chocantes, e apresentaram-se como impecáveis cumpridores da lei e impolutos guerreiros contra a corrupção. Ibaneis Rocha, advogado muito bem-sucedido e ex-presidente da OAB-DF, foi eleito e reeleito no DF, mas... E Wilson Witzel, ex-juiz federal (vejam só!), foi tão efêmero como governador quanto meteórico como candidato no Rio.

Master: fila de delatores enfrenta barreira, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Com investigações avançadas, o que mais Vorcaro, Zettel e Costa podem entregar nesse núcleo central?

Formou-se uma fila de possíveis delatores do caso do Banco Master: o banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado e operador financeiro dele, Fabiano Zettel, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

À medida que as investigações apertaram o cerco, todos adotaram a mesma estratégia. Trocaram de advogado e passaram a buscar um acordo.

Seus advogados, porém, têm ouvido a mesma coisa de interlocutores na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no gabinete do relator do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Não vai ser fácil.

A sinceridade de Lula na Espanha, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

Um beija-mão fora de moda, por José Roberto Batochio*

O Estado de S. Paulo

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana

Aromaria que todos os indicados do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal (STF) fazem aos gabinetes dos senadores é um beija-mão tão anacrônico quanto inapropriado. Nessa jornada, tem se movimentado o advogado-geral da União, dr. Jorge Messias, em visita aos gabinetes do Senado enquanto aguarda a sabatina a que se submeterá na Casa em 29 de abril. Se há inquirição, arguição pública para que os parlamentares possam perguntar (em rigor, discursar...) o que bem entendam, para avaliar a qualificação do indicado ao cargo, por que razão manter esse ritual prévio com os senadores que nada mais simboliza do que um pleito de voto a quem mais tarde poderá ser julgado pelo ministro?

Renata LoPrete (O Globo) entrevista Gilmar Mendes

 

Enredo manjado ameaça Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Q.G. petista subestimou a capacidade de Bolsonaro de transferir votos depois de condenado e preso

Com as pesquisas mostrando risco concreto de derrota de Lula em outubro, as principais lideranças petistas tentam encontrar um caminho para reconectar o presidente com as forças que compuseram a frente ampla em 2022 e renovar o pacto em novas bases. Mas esbarram num questionamento: como envolver esses segmentos em torno de um projeto de país que olhe para a frente quando o que as pesquisas mostram é cansaço com Lula e a sensação de que governo apresenta um enredo manjado?

Uma escada chamada Gilmar, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ameaça de processo ajuda pré-candidato do Novo a se apresentar como vítima

Romeu Zema iniciou uma cruzada contra o Supremo para tentar sair da rabeira da corrida presidencial. A tática ainda não produziu efeito nas pesquisas, mas acaba de ganhar um impulso inesperado.

No início da semana, Gilmar Mendes apresentou uma notícia-crime contra o ex-governador de Minas. Pediu que ele seja investigado no inquérito das fake news, conduzido pelo colega Alexandre de Moraes.

O supremo ministro se irritou com vídeos publicados nas redes de Zema. Numa das peças, fantoches satirizam o envolvimento de juízes da Corte, chamados de “intocáveis”, com o escândalo do Banco Master.

STF impede direita de fazer política, por Pablo Ortellado

O Globo

Antes de defender nossas preferências políticas, é preciso defender a democracia, num sentido pluralista

Na semana passada, o plenário do STF considerou inconstitucional a lei catarinense que acabava com as cotas raciais para as universidades no estado, por 10 votos a 0.

Segundo o Datafolha, 83% dos brasileiros apoiam cotas para as universidades na sua dimensão social (para quem cursou escola pública), mas, na dimensão racial, elas têm apoio minoritário (41%). Os críticos das cotas raciais argumentam — a meu ver, sem razão — que elas racializam uma sociedade mestiça e criam privilégios para uma elite negra. É um argumento que existe na sociedade e faz parte do debate público há muitos anos, sobre o qual a Assembleia Legislativa de Santa Catarina deliberou.

É preciso resistir às tentações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Educação e sinalizações afetam comportamento humano, mas só até certo ponto

Norma britânica que bane cigarros para novas gerações viola igualdade diante da lei

Eu acredito no poder transformador da educação e de sinalizações, venham elas do Estado ou mais organicamente da própria sociedade. Foi uma combinação desses fatores que levou os temíveis vikings a se converterem nos civilizados escandinavos. E não faz tanto tempo. Até o finalzinho do século 19, a Suécia ainda era um dos países mais pobres e corruptos da Europa. Existem, contudo, limites para a maleabilidade humana. Nem recorrendo à força conseguiremos fazer com que 100% da população siga sempre um mandamento legal, uma diretriz sanitária ou o bom senso.

Dino propõe reforma que se desvia do cerne da crise, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Tensão no STF não decorre de falhas do Judiciário e sim da conduta imprópria de alguns magistrados

O código de ética seria um ponto de partida para o Supremo começar a recuperar a confiança do público

Uma das maneiras de se desviar de um ponto sob questionamento é propor que se olhe o problema por uma lente ampliada. E, neste aspecto, o proponente em geral leva vantagem. Afinal de contas, por que não enxergar o todo no lugar de focar a parte, não é mesmo? Em tese, faz todo sentido.

Na prática, porém, há o risco de a amplitude do debate levar à dispersão e à perda de concentração na questão principal que se dilui no turbilhão de sugestões. Uma reforma ampla do Poder Judiciário, como propõe o ministro Flávio Dino, do STF, soa condizente com as demandas por correções no sistema de Justiça. São muitas as falhas e distorções. O tema é relevante.

Flávio Moderado Bolsonaro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se achou importante tomar vacina, por que permitiu que seu pai a sonegasse ao povo brasileiro?

Numa coisa o senador será, com razão, moderado; não dará um pio sobre corrupção

Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um "Bolsonaro moderado". Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é que se vacinou contra a Covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política omnicida de seu pai, que sonegou enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente ineficaz? Dos 700 mil brasileiros mortos pela Covid, quantos não terão sido crédulos bolsonaristas? E onde estava Flávio Bolsonaro enquanto seu pai, indiretamente, matava em série?

Liberalismo e Sindicato no Brasil, 50 anos, por Fernando Perlatto e Diogo Tourino

Neste dia de São Jorge, santo popular e cheio de significados na cultura urbana carioca, a BVPS traz uma comemoração em torno de um Jorge, grande guerreiro das ciências sociais brasileiras. Luiz Jorge Werneck Vianna publicava há cinquenta anos atrás sua tese de doutorado Liberalismo e sindicato no Brasil. Marco de uma época em que a sociologia enfrentava desafios macros, com coragem e audácia. Contemporâneo de A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, cujo cinquentenário comemoramos ano passado, e da segunda edição de Os donos do poder, de Raymundo Faoro, por exemplo.

A tese de Werneck tem uma história de escrita que se confunde com a repressão e a resistência à Ditadura Militar brasileira. E, só por isso, mereceria ser lembrada. Mas, ela é mais. Muito mais. O livro forjou uma interpretação original da modernização conservadora brasileira, inserindo um novo olhar e novos recursos intelectuais sobre o problema das relações entre Estado, sindicatos e classe trabalhadora. Não seria exagero nenhum dizer que, nesse sentido, a partir da periferia, Liberalismo e sindicato no Brasil permite interpelar a teoria sociológica em um sentido mais amplo. O livro, além disso, teve ampla recepção, causou controvérsias e disputou direção (moral e intelectual, como, gramscianamente, ele gostava de dizer) nos meios acadêmicos e dos movimentos sociais da transição democrática.

Meio século depois, permanece e se atualiza como referência para pensarmos os impasses da formação social brasileira. Dois dos mais queridos alunos de Werneck Vianna no antigo IUPERJ, Fernando Perllato e Diogo Tourino, ambos professores da Universidade Federal de Juiz de Fora atualmente, fazem o elogio do livro em nome de tantos de nós que tivemos o privilégio de conviver com Werneck e que continuamos a aprender com Liberalismo e sindicato no Brasil.

Salve (Luiz) Jorge!

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Poesia | Soneto da doce queixa, de Federico García Lorca