terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula também semeia dívidas estaduais e municipais

Por Folha de S. Paulo

Desde 2023, governos são autorizados a tomar R$ 206,6 bi em financiamentos, estimulando alta de gastos

Sabe-se o que acontece quando a capacidade de pagamento se esgota: governadores e prefeitos tentarão arrancar mais um socorro da União

Por força de um longo histórico de irresponsabilidade fiscal, as finanças de estados e municípios brasileiros são tuteladas pela União. A tomada de financiamentos por parte de governos regionais, no exemplo mais importante, depende de limites, autorizações ou avais de instâncias como Conselho Monetário Nacional, Senado Federal e Tesouro Nacional.

Quando o governo em Brasília é propenso ao aumento do gasto público, os controles sobre operações de crédito pleiteadas por governadores e prefeitos também são afrouxados, e o expansionismo orçamentário se espalha pela Federação. É o que ocorre neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Momento de autocorreção. Por Merval Pereira

O Globo

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, abriu o ano judiciário com um discurso sereno e firme, sem jactâncias nem dramaticidade

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, abriu o ano judiciário com um discurso sereno e firme, sem jactâncias nem dramaticidade, mas reafirmando posições e necessidades exigidas, segundo ele, por “momentos de adversidade”:

— Fidelidade absoluta à Constituição da República e respeito à liberdade de expressão e de imprensa, que não são concessões, uma vez que estruturam o debate público e oxigenam a democracia. A crítica republicana não é mesmo ameaça à democracia.

Defesa nacional, tema para a eleição. Por Fernando Gabeira

O Globo

No mundo marcado pela lei do mais forte, não seria melhor ter Forças Armadas mais poderosas?

É um privilégio voltar à estrada e percorrer o país. Aqui em Igarapé-Miri, no interior do Pará, capital do açaí, encontramos a cidade em festa. Intensa queima de fogos e uma motociata com mais de duzentos participantes comemoravam o êxito dos estudantes locais no Enem. Agora, vão todos para as faculdades em Belém. É uma pausa nas atribulações de um mundo confuso, marcado por agressividade interna e externa da política de Trump, escândalos como os do banco Master e assassinato do cão Orelha numa praia de Santa Catarina.

Consultando as redes, ouvi um discurso de Lula que me interessou. Ele fala do grande poderio militar dos Estados Unidos e lembrava que, além de tudo, Trump anunciou armas secretas de grande potencial destrutivo. Aqui, disse ele, temos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e às vezes até falta bala para seus exercícios.

O Brasil e o seu encontro marcado. Por Míriam Leitão

O Globo

As instituições precisam se aperfeiçoar para assim tornar mais robusta a democracia. O Código anunciado pelo ministro Edson Fachin é um bom passo

O ministro Edson Fachin disse que o Brasil tem um encontro marcado com a melhoria institucional. Ele falou primeiro do próprio Supremo e da necessidade de autocorreção. É prioridade da sua gestão, o Código de Ética. A relatora será a ministra Cármen Lúcia. Mas o presidente do STF propôs algo mais amplo e listou as frentes de aperfeiçoamento. Quando o ano realmente começa e Congresso e o Judiciário retomam seus trabalhos, é hora de pensar que “ainda temos muito a fazer”, disse Fachin.

“Temos um sistema representativo que precisa recuperar sua capacidade de processar as demandas da sociedade. Temos instituições de controle que precisam funcionar melhor. Temos uma cultura política que ainda não consolidou plenamente os valores republicanos. E temos, sobretudo, uma dívida histórica com os excluídos”, disse o ministro em seu discurso.

O levante das IAs que assusta o mundo. Por Pedro Doria

O Globo

Esses robôs são uma loucura. Um desastre está por acontecer — autônomos, tomando decisões sem supervisão

Tem uma rede social nova na praça, já é a que mais cresce no mundo. Mas, prezado leitor, você não será bem-vindo por lá. Pertence à espécie errada e, nessa rede, a espécie humana pode ler, mas não participar. No Moltbook, só entram inteligências artificiais (IAs). Porque, ao longo da semana passada, enquanto estávamos dormindo, a internet foi tomada por inteligências artificiais autônomas. Na segunda, passava pouco de 150 mil a população de agentes de IA. Na sexta, encostavam em 800 mil. Agora, é bem possível que a marca de 1,5 milhão, vagando pela internet, já tenha sido ultrapassada.

Banco Master: moral hazard ou risco sistêmico? Por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

Valor Econômico

Num mundo binário, agora vem a crítica ao FGC por estimular o risco moral, mas deixar o sistema sem proteção também não é a solução

Na história das finanças é comum a imagem de investidores inconformados com os resultados da própria cupidez. Desde a Tulipomania de 1634, passando pelas crises cada vez mais frequentes do século XVIII (como a Bolha dos Mares do Sul, em 1720), e chegando aos desastres financeiros do século XXI, o que mais impressiona o observador é a semelhança entre episódios tão diferentes.

Primeiro é a fantasia do enriquecimento rápido, sem causa, milagroso, fruto de alguma esperteza inata ou habilidade singular; segundo, a formação de um consenso sobre o ineditismo das circunstâncias que parecem justificar a valorização rápida dos papéis (sempre há uma “nova economia”); terceiro, o envolvimento dos bancos na especulação, fornecendo crédito abundante para alimentar a euforia; quarto, o avanço do endividamento dos investidores, disfarçado pelos valores cada vez mais inflados da riqueza financeira ou imobiliária; quinto, a “correção de preços”, decepção e quebradeira.

O dueto de Lula e Fachin na cobrança dos togados. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A campanha de um pelo eleitor e, do outro, pela opinião pública aproximou os presidentes da República e do STF em discursos com mais morde que assopra

Não dá pra dizer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva roubou a cena, mas, no mínimo, dividiu o palco com o ministro Edson Fachin na abertura do ano judiciário.

Cada um cuidou de uma Corte. Ao presidente do Supremo Tribunal Federal coube dar como consumado o início dos trabalhos do código de conduta. Anunciou até a relatora, a ministra Cármen Lúcia, que vai começar a desempenhar suas funções numa reunião no dia 12 para a discussão de cronograma.

Acusado de passar pano para o ministro Dias Toffoli na nota que soltou em nome da Corte, Fachin, desta vez, não amaciou e falou por sua conta e risco.

Desgastar instituições é a forma mais cara de governar. Por Luiz Schymura

Valor Econômico

Estabilidade institucional do banco central dos EUA vem sendo colocada à prova

Em um contexto internacional de fragilidade fiscal persistente e inflação resistente, a credibilidade das instituições econômicas voltou a ter preço - e elevado, refletido em juros mais altos, inflação mais perseverante e deterioração da dinâmica da dívida pública. Após décadas em que a estabilidade monetária foi tratada como um problema superado nas economias avançadas, pressões políticas recentes reacendem um debate que parecia encerrado: os custos econômicos, financeiros e institucionais da interferência na condução da política monetária, mesmo em democracias consolidadas.

Troca de recados pauta abertura dos trabalhos no Supremo e no Congresso. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A abertura dos trabalhos de 2026 no Legislativo e no Judiciário foi um ensaio geral do conflito entre Poderes que antecederá a campanha eleitoral

O que não faltou foi troca de recados entre os chefes de Poderes, ontem, na abertura dos trabalhos do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de protocolares, os discursos do presidente STF, ministro Édson Fachin, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Supremo, e dos presidentes do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no plenário da Câmara, deram o tom do que vai acontecer nos próximos meses, que antecedem a campanha eleitoral. Politicamente, o destaque foi o anúncio de que a ministra Carmem Lúcia será a relatora do projeto de Código de Ética do Supremo, o que sinalizou a disposição de Fachin de enfrentar a resistência de seus pares a adoção de medidas para “autocontrolar” o Judiciário.

O problema dos juros no Brasil. Por José Luís Oreiro

Correio Braziliense

A posse de Galípolo como presidente do Banco Central havia produzido a expectativa de uma política monetária mais propensa a reduzir os juros com vistas a estimular o crescimento econômico via redução do custo do capital. Não se realizou

Na última reunião do Copom, a meta da taxa de juros Selic foi mantida em 15%, apesar do processo sustentado de queda da inflação acumulada em 12 meses; a qual passou de um pico de 5,53% em abril de 2025 para 4,26% em dezembro do mesmo ano. A meta da Taxa Selic que havia começado o ano de 2025 em 12,25% ao ano (a.a), foi sendo sucessivamente aumentada ao longo do primeiro semestre, com dois aumentos de 1 ponto percentual (p.p) entre o final de janeiro e o início de maio e um aumento de 0,75 p.p na reunião de maio. O efeito combinado da elevação da meta da Selic ao longo do primeiro semestre de 2025 e da queda da inflação acumulada em 12 meses a partir de maio resultou numa elevação brutal da taxa real de juros. Se em janeiro de 2025 a taxa Selic real se encontrava em 7,35% a.a, em dezembro ela havia aumentado para 10,29%.

Sem a presença do presidente Lula, Legislativo inicia trabalhos de 2026

Por Alícia Bernardes e Letícia Correa / Correio Braziliense

Chefe do Planalto mandou mensagem por meio do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Ausência ocorrre em momento crucial da relação entre os Poderes

O Congresso Nacional reabriu, ontem, trabalhos legislativos para 2026. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), conduziu a sessão solene e, em discurso, ressaltou o papel institucional das Casas como um dos pilares da estabilidade política do país, defendendo o diálogo entre os Poderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu à cerimônia, e foi representado pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa. O chefe do Planalto encaminhou aos parlamentares uma mensagem na qual fez um balanço das principais conquistas do ano passado e apresentou os desafios e prioridades do governo federal.

Fachin indica Cármen Lúcia relatar Código de Ética do Supremo

Por Francisco Artur de Lima e Iago Mac Cord / Correio Braziliense

Presidente do STF ressalta, na abertura do Ano Judiciário, a necessidade da adoção de um conjunto de regras, devido às críticas relacionadas ao Banco Master. E afirma que cada magistrado é responsável por suas ações individuais

Na abertura do Ano do Judiciário de 2026, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, anunciou, ontem, que levará adiante a adoção de um Código de Ética a ser adotado pela Corte. A fim de fechar o conteúdo do documento, indicou a ministra Cármen Lúcia para relatá-lo, que vai submetê-lo ao plenário. O conjunto de regras chega no momento em que o STF tem sido alvo de duras críticas por causa da atuação dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes no caso do Banco Master.

Para Lula, Executivo e Judiciário se uniram para derrotar ação golpista

Gabriel Hirabahasi, Lavínia Kaucz, Gabriel de Sousa / O Estado de S. Paulo

Em ato considerado incomum, presidente da República discursa na sessão inaugural do Supremo e sai em defesa da Corte

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que os avanços econômicos do governo foram possíveis porque o Executivo e o Judiciário se uniram para “derrotar” os envolvidos na tentativa de golpe após as eleições de 2022. Durante a abertura do Ano Judiciário, no Supremo Tribunal Federal (STF), Lula afirmou que a condenação de acusados de tentativa de golpe foi necessária e deixou uma mensagem clara de punição a tentativas de ruptura democrática.

“Todos esses avanços só foram possíveis porque nos unimos e derrotamos aqueles que tentaram destruir a democracia. Porque temos instituições fortes, independentes e comprometidas com a manutenção do estado democrático de direito”, disse Lula.

Fachin às ‘criaturas sobre-humanas’. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Em dupla com Fachin, Cármen Lúcia cobra ‘rigor e intransigência com qualquer desvio ético’

Ao abrir o ano do Judiciário, o presidente do Supremo, Edson Fachin, pediu emprestado ao jurista italiano Piero Calamandrei (1989/1956) o seu recado mais duro e direto a ministros que consideram “a magistratura superior a qualquer crítica e qualquer suspeita, como se fossem criaturas sobre-humanas”.

Quem quiser que vista a carapuça. Fachin disse que chegou o momento de o STF abdicar do protagonismo em todas as áreas e pregou – atenção! – “autocorreção”, mas não citou nenhum colega togado, nem mesmo Dias Toffoli, o relator do escândalo Master, que está no meio do furacão, ou melhor, das “críticas e suspeitas”.

O incontrolável. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Tratemos da possibilidade de o caso Master ter vindo para ficar e condicionar o debate público, suas entranhas mostradas como capítulos de um folhetim, hipótese em que o fato novo e imprevisível se tornaria agente gerador de instabilidades no chão sobre o qual se desenrolará a disputa eleitoral.

Há motivos para considerar razoáveis as chances de o vulcão permanecer ativo, se, analisadas as informações, analisarmos também suas possíveis origens. A quem interessaria vazar que ministro do STF fumava charutos na casa de Vorcaro? A quem interessaria dar ciência a Brasília de que sabe gerir o tempo da distribuição das informações? A semana passada foi dedicada a lembrar que Lula recebeu o banqueiro fora da agenda, quando a pirâmide do banco já derretia, lembrado também que a história de construção desse castelo de cera passa pelos governos petistas na Bahia. Tudo verdade.

Flávio pode não ir ao segundo turno e implodir o bolsonarismo? Por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Parte do eleitorado evangélico pode ser atraída para o candidato do PSD

Flávio Bolsonaro quer demonstrar que seu clã é ainda o principal rosto da direita

A aposta da candidatura de Flávio Bolsonaro é seguir os passos do PT em 2018: chegar ao segundo turno e demonstrar que o clã segue como o principal rosto da direita no país. Mas e se ele falhar já no primeiro turno?

Na semana passada, aumentaram as chances de a direita ter ao menos dois candidatos presidenciais neste ciclo. O PSD escolherá o nome para 2026 entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Jr., do Paraná.

Diante desse cenário, o que o grupo político de Flávio fez para capitalizar o sucesso da caminhada do deputado Nikolas Ferreira, que terminou com um evento público em Brasília? Aparentemente, nada —ao contrário.

Para que serve a 'terceira via'? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo  

Brasil tem muitos governadores muito bem avaliados e que têm conquistas a mostrar

O problema é que o perfil menos chamativo e mais eficaz, que busca moderação e diálogo, falha em capturar a atenção

O poder de Lula sobre a esquerda brasileira é maior do que o de Bolsonaro sobre a direita. É possível vislumbrar uma direita não bolsonarista; um sonho distante, é verdade, mas os nomes estão aí. Já na esquerda, o pós-Lula encontra apenas o silêncio total.

Dito isso, por mais nomes de direita ou centro-direita que apareçam, Flávio Bolsonaro parece seguro em seu trono. Até agora, segue firme a premissa de que o candidato que disputará o segundo turno contra Lula será aquele apoiado por Jair Bolsonaro. Jair escolheu seu filho Flávio. Será ele, portanto, que irá para o segundo turno. É o que as pesquisas têm mostrado.

A mágica de Kassab. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

PSD passou a concentrar pré-candidatos presidenciais do campo da direita e da centro-direita

Acredito que legenda até pode entrar na corrida, mas só se puder preservar sua elasticidade ideológica

PSD de Gilberto Kassab vai mesmo lançar candidato presidencial? Kassab é um operador político competente. Ele praticamente monopolizou o campo dos potenciais postulantes de direita e centro-direita. Estão sob as asas de sua agremiação Ratinho JúniorEduardo Leite e Ronaldo Caiado. Só Romeu Zema corre por fora pelo Novo.

Bolsonaro usa Lula como exemplo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ex-presidente repete o sucessor ao buscar se manter relevante no processo eleitoral mesmo de dentro da prisão

O presidente também imita o antecessor ao levantar a bandeira antissistema com sinal trocado

Quando Jair Bolsonaro (PL) pede à Justiça autorização para receber políticos de destaque em sua morada prisional está na clara intenção de se manter influente no processo eleitoral.

Nisso imita o oponente Luiz Inácio da Silva (PT), que em 2018 foi o artífice da candidatura do correligionário Fernando Haddad de dentro da prisão, assim como agora o ex-presidente impõe apoios à empreitada do filho Flávio. Há, contudo, diferenças nesse jogo da imitação. Lula manteve acesa até setembro daquele ano a falsa chama de que poderia se candidatar. Quanto a Bolsonaro, as circunstâncias o obrigaram a não insistir na mística da candidatura impossível.

Na novilíngua da extrema direita, matar é 'neutralizar'. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Questionada pelo STF, gratificação faroeste remete aos cartazes de 'vivo ou morto'

'Narcoterroristas' é a senha para quem espera uma intervenção de Trump no país

As romarias ao presídio de El Salvador —custeadas com dinheiro público, a última contagem estava em R$ 400 mil— são a principal diversão de deputados, senadores e governadores da extrema direita. Com encarcerados no segundo plano, o registro fotográfico é indispensável à lacração nas redes. Alguns deles aparecem de braços cruzados e camisetas justas no melhor estilo "mamãe, sou forte".

O trôpego pedestal da soberba humana. Por Paulo César Nascimento*

Algumas décadas atrás – talvez cinco ou mais – houve uma matança de uma colônia de gatos no Passeio Público do Rio de Janeiro, por um grupo de adolescentes, armados de pedaços de paus. À época a única pessoa que veio a público lamentar o episódio foi o jornalista e escritor Paulo Alberto de Barros, o Arthur da Távola, em sua coluna em um jornal do Rio de Janeiro. Ressaltou que os bichanos não mereciam isso porque “o gato é um bicho zen”. Mais ou menos uma década depois, o programa Fantástico mostrou uma reportagem acrítica sobre um homem no interior do Amazonas que costumava colocar armadilhas para prender uma das patas das onças, e daí eliminá-las a pauladas. Nenhum destes dois casos causou indignação, passando despercebidos pela sociedade brasileira.

Normas eleitorais podem gerar "zona cinzenta" e rejeições. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Com a atenção voltada para a retomada das atividades no Congresso Nacional e para os preparativos para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral descobriu, finalmente, os chatbots, os avatares, o metaverso, a inteligência artificial , os games como estratégia política e - não sei se serão incluídas - os blockchain e as criptomoedas. Cada ferramenta dessas carrega competências digitais virtuais, nem sempre usadas eticamente, que ajudaram eleger Barack Obama (2009-2017) e Trump (2017-2021) para Presidência dos Estados Unidos. No Brasil, o PSDB fez suas tentativas digitais na eleição, de 2014 que, surpreendentemente, elegeu Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, contra Aécio Neves (PSDB) . A disputa foi marcada pela polarização entre os dois partidos, embora tivessem concorrido, no primeiro turno, 11 candidatos. Era uma eleição coordenada no TSE sob a presidência do ministro por Dias Toffoli .

Poesia | Horas de saudade, de Castro Alves

 

Música | Caetano Veloso - Reconvexo

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas em alta expõem populismo do Desenrola

Por O Globo

Endividamento alcançou maior nível do atual mandato: metade do que as famílias ganham está comprometido

Foram efêmeros os efeitos do Desenrola Brasil, programa do governo Lula para renegociação de dívidas de tons nitidamente populistas. O endividamento das famílias aumentou e chegou a 49,8 % da renda anual em novembro, maior nível no atual mandato, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central (o recorde histórico é 49,9%, em julho de 2022). Na prática, pode-se dizer que as dívidas, como financiamentos de carros, motos e outros bens, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartão de crédito, correspondem à metade de tudo o que as famílias ganham em um ano. A inadimplência também subiu no ano passado. Chegou a 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses. Trata-se de patamar alto para os padrões históricos.

Noventa anos de salário mínimo no Brasil. Por João Saboia

Valor Econômico

Após década de estagnação, produtividade deveria crescer para garantir continuidade de aumentos

O salário mínimo está completando 90 anos no Brasil. Não é pouca coisa. Seu histórico é longo, possui altos e baixos, momentos mais favoráveis, outros nem tanto, mas conseguiu sobreviver e continua na ordem do dia. Alguns acreditam que ele pode crescer, outros apontam para os riscos de seu crescimento. Ou seja, não há consenso. Embora com opiniões distintas, todos reconhecem sua importância para o país.

O artigo 121 da Constituição brasileira de 1934 mencionava, pela primeira vez, o salário mínimo, mas foi preciso esperar pela Lei 185 de janeiro de 1936 para que fosse afirmado, em seu primeiro parágrafo, que todo trabalhador tinha direito a um salário mínimo. Dois anos depois, em abril de 1938, a lei 185 foi regulamentada através do Decreto-Lei 399. Segundo ele, todo trabalhador adulto, sem distinção de sexo, passaria a ter direito a uma remuneração mínima, por dia normal de serviço, capaz de satisfazer às suas necessidades de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.

Milagres, fraudes e riquezas que viram pó. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Seguir o dinheiro é o caminho para identificar as conexões políticas e a extensão das práticas fraudulentas no mercado

No final dos anos 1960 e início da década de 1970, o mercado acionário brasileiro viveu um dos seus períodos de maior valorização. Em pleno milagre econômico da ditadura militar, o índice da bolsa do Rio de Janeiro, então a maior do país, passou de 110,1 pontos, em fevereiro de 1967, para 5.236,3 pontos em junho de 1971.

Os dados vêm do livro “Crises Financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, de Roberto Teixeira da Costa, observador privilegiado da história do sistema financeiro brasileiro. Naquela época, ele era gestor do Crescinco, maior fundo de investimentos da América Latina. Costa mostra como a intensa escalada de preço das ações, de um lado, e a qualidade dos dados financeiros das empresas e os mecanismos de controle do mercado frágeis, de outro, indicavam que o colapso era previsível.

Agenda para o Brasil real. Por Preto Zezé

O Globo

O país tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento

O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra dependência de ciclos políticos curtos.

Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.

Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser permanente.

BC mira o alvo; Fazenda alarga a trave. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Na atual circunstância, o governo precisa fazer superávit para colocar as contas públicas na direção do equilíbrio

A inflação oficial fechou o ano passado em 4,26%, dentro da margem de tolerância, que ia até 4,5%. Mas o Banco Central não está satisfeito. Já informou que manterá elevada a taxa básica de juros nos próximos meses, para buscar a meta central, de 3% ao ano.

As contas públicas, do governo federal, fecharam o ano com um déficit elevado, de R$ 61,7 bilhões. Pelas regras do arcabouço fiscal, a meta era zero, quer dizer, com receitas do tamanho das despesas. Pois o Ministério da Fazenda alardeou ter cumprido o déficit zero.

A diferença: o BC não faz truques; a Fazenda tira vários coelhos da cartola para zerar um buraco de R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. Detalhe nada desprezível: o rombo do ano passado é pior que o registrado em 2024, de R$ 42,9 bilhões.

Sob a lei do mais forte. Por Demétrio Magnoli

O Globo

Trump e Putin desenham esferas de influência submetidas ao poder militar das duas grandes potências

‘Vivemos num mundo, o mundo real, que é governado pela força, pelo poder. São essas as leis de ferro do mundo, desde o início dos tempos.’ As sentenças foram proferidas por Stephen Miller, alto assessor de Trump e notório advogado da anexação da Groenlândia.

— A lei do mais forte é, claramente, mais forte que a Justiça ordinária — declarou o russo Dmitri Medvedev, no rastro da extração de Maduro pela ação militar dos Estados Unidos.

Medvedev, arauto radical do neonacionalismo grã-russo, não emitia uma crítica. Sua mensagem concluía-se pela constatação celebratória de que, desde a intervenção na Venezuela, a Casa Branca “carece de fundamentos, mesmo formais, para repreender nosso país”.

Onde cantam as cigarras do verão 2026. Por Joaquim Ferreira dos Santos

O Globo

Hoje, 2 de fevereiro, é dia de festa no mar, mas no coração da mata alguma coisa acontece

Antes da música da Marina, sabia-se que vinha chegando o verão não porque as moças estavam todas de bundinha de fora, como anuncia a letra de Renato Rocketh, mas porque das árvores ao redor de cada bairro do Rio vinha o canto veemente da natureza tropical. “Zinem as cigarras”, registrou o poeta Manoel Bandeira nos versos de “Elegia de verão”, em 1952.

Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?

O canto das cigarras, num tempo em que o serviço de meteorologia não tinha tantos computadores, era um indicador urbano confiável de que “amanhã vai dar praia”. O zinir delas no fim da tarde cortava o espaço, fundia-se à “Ave Maria” do Júlio Louzada, às 18 horas na Rádio Tupi, e enchia os corações de uma melancolia preguiçosa, bonita que só vendo.

De coadjuvante ao protagonismo. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Com decisão de lançar governadores ao Planalto, PSD sinaliza mudança arriscada de trajetória

Quando o Partido Social Democrático (PSD) foi criado, em 2011, sua principal liderança, Gilberto Kassab, definiu-o de forma negativa: “o PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro”. A frase não era um truque retórico. Ela revelava uma estratégia clara: abdicar do protagonismo presidencial para maximizar poder político no Legislativo e na política subnacional.

Desde então, o PSD seguiu essa trajetória. Ao evitar amarras ideológicas e candidaturas presidenciais, o partido se consolidou como ator pivotal no Congresso, capaz de integrar coalizões de governos ideologicamente distintos. Foi assim que passou a ocupar espaços tanto no governo Lula, quanto no governo Tarcísio, em São Paulo.

Congresso reabre nesta segunda-feira sob clima eleitoral

Por Danandra Rocha e Wal Lima / Correio Braziliense

Início do ano legislativo expõe agendas divergentes entre oposição, focada em anistia e vetos, e base governista, que aposta em pautas sociais e econômicas. Para analistas, embate escancara fragilidades estruturais da direita

Com a abertura do ano legislativo em um ambiente marcado pela antecipação do debate eleitoral de 2026, Câmara e Senado retomam hoje os trabalhos, sob forte polarização política e disputa por narrativas. De um lado, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta imprimir ritmo a uma agenda social e trabalhista, com foco em temas como a revisão da escala 6x1 e a ampliação da isenção do Imposto de Renda. De outro, a oposição inicia o período sem apresentar um conjunto claro de propostas sociais, concentrando sua atuação em pautas de caráter político e institucional, como a anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e a derrubada de vetos presidenciais.

Lima Barreto e a corrupção sistêmica. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção sistêmica?

Resposta está nos microfundamentos; explicações culturalistas não dão conta do fenômeno

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).

Desigualdades em nome da fé. Por Waldemar Magaldi Filho

Folha de S. Paulo

A incorporação da lógica do mercado pela religião reconfigura o sentido da fé no século 21

Prosperidade passa a ser sinal de bênção divina, enquanto pobreza, de fracasso espiritual

[RESUMO] O texto analisa a ascensão da teologia da prosperidade como expressão de um deslocamento mais amplo da fé em direção à lógica do mercado. Ao transformar riqueza material em sinal de bênção e pobreza em falha espiritual, essa teologia submete o sagrado à gramática do desempenho, do cálculo e da recompensa. O antigo conceito bíblico de Mamon reaparece como símbolo desse processo, no qual o dinheiro deixa de ser meio e passa a ocupar o centro da experiência religiosa. O resultado é uma espiritualidade funcional, que oferece consolo individual, mas esvazia o mistério, enfraquece a crítica social e legitima desigualdades em nome da fé.

Em muitos templos pelo país, fiéis são convidados a subir ao púlpito para relatar conquistas materiais: a casa financiada, o carro novo, a empresa que prosperou "pela fé". Carteiras de trabalho, chaves de carro e contratos são ungidos em cultos transmitidos ao vivo. Pastores falam em "sementes", "investimentos" e "retornos". O vocabulário não é casual. Ele traduz uma teologia em que prosperidade material se tornou sinal de bênção divina, e a pobreza, indício de falha espiritual.

Esse deslocamento não surgiu do nada. Ele tem nome antigo. Mamon é um conceito quase arquetípico que atravessa a teologia ocidental desde que um carpinteiro da Galileia fez uma advertência radical: "Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mateus 6:24).

No aramaico, māmōnā significava riqueza ou propriedade. No discurso de Jesus, porém, o termo se personifica: deixa de ser coisa e se torna poder rival, uma soberania que exige lealdade exclusiva. Mamon não é o dinheiro no bolso, mas o dinheiro entronizado no coração.

Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad

Folha de S. Paulo

Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda

Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica

[RESUMO] Autor sustenta que o capitalismo não foi superado, mas transformado pela centralidade dos ativos intangíveis, como softwares e patentes, e pela mercantilização do conhecimento. Nesse contexto, a inovação produzida continuamente nas empresas, por equipes criativas dedicadas, se torna fonte regular de superlucros. Trecho inédito de "Capitalismo Superindustrial" (Zahar) discute a nova dinâmica entre lucro e renda que levou o capitalismo a outro patamar.

No debate contemporâneo, importantes autores comungam a ideia de que vivemos uma realidade pós-capitalista. A maioria deles joga luz sobre um mesmo fenômeno: a perda de relevância do capital fixo em instalações, máquinas e equipamentos frente aos ativos intangíveis como patentes, marcas, direitos autorais, arranjos organizacionais entre outros.

Em meados de 1990, o investimento intangível ultrapassou o investimento tangível nos Estados Unidos, seguidos por outros países, e ele hoje é tanto maior, como proporção do PIB, quanto mais desenvolvido o país, mais integrado globalmente seu mercado e maior a extensão do coinvestimento do setor público.

Como todo investimento, o investimento em intangíveis cria um ativo que custa dinheiro e gera um retorno de longo prazo que pode, pelo menos em parte, ser desfrutado pelo investidor, o que permite calcular seu valor. Apesar de suas peculiaridades, esse cálculo, com alguns cuidados, pode ser integrado à contabilidade das empresas e à contabilidade nacional.

Poesia | Soneto da saudade, de Guimarães Rosa

 

Música | Mônica Salmaso - Quem te viu, quem te vê (Chico Buarque)

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil tem de se preparar para seca severa

Por O Globo

Chuvas em certas regiões transmitem sensação falsa de segurança hídrica. Situação dos reservatórios é crítica

As chuvas dos últimos tempos transmitem um recado ilusório. É crítica a situação hídrica do Brasil, como mostrou reportagem do GLOBO. O país sofre escassez de água em boa parte de seu território, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Há 40 anos se registra queda anual nas chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou 25 dias. Além do impacto no abastecimento das cidades, a situação põe em risco agropecuária e geração de energia.

Não é necessário apenas que chova. É preciso que chova nos lugares certos, as cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas de Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, por isso o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) recomenda que a gestão dos reservatórios no decorrer do ano seja feita considerando o pior cenário. As taxas escandalosas de desperdício de água tratada (da ordem de 40%, segundo os últimos dados do Instituto Trata Brasil) reforçam tal recomendação.

De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Estado da Arte / O Estado de S. Paulo

Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas.

É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos.

A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia.