sexta-feira, 10 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vincular gastos sociais é armadilha orçamentária

Por O Globo

PEC aprovada na Câmara teria impacto de R$ 100 bilhões em uma década, pela estimativa do governo

Em pleno ano eleitoral, a Câmara aprovou em primeiro turno uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que destina um percentual mínimo da receita da União ao Sistema Único de Assistência Social (Suas). A iniciativa é bem-intencionada, pois engloba uma série de ações sociais. Mas se mostra descolada da realidade, ao ignorar o impacto nas contas públicas. A PEC é vista pelo governo como mais uma pauta-bomba. O custo é estimado pela equipe econômica em R$ 36 bilhões durante quatro anos e pode alcançar R$ 100 bilhões em uma década. Pela PEC, o percentual começaria com 0,3% da Receita Corrente Líquida da União em 2027, passaria a 0,5% em 2028, subiria a 0,75% em 2029 e atingiria 1% em 2030. O escalonamento, no entanto, não torna a proposta menos prejudicial aos cofres públicos.

Quatro pedras no caminho da polarização, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Força dos candidatos vai variar conforme lidem com efeito Trump, casos de corrupção, situação nos estados e eleitor independente

O que as eleições presidenciais de 2022 e 2026 têm em comum? Os analistas políticos, de forma quase unânime, responderiam: a permanência da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Mas isso quer dizer que o enredo da corrida eleitoral será o mesmo? Aqui estão as diferenças.

Há temas que podem afetar ambos os lados, de maneira a enfraquecer um ou outro, gerando maior incerteza do que no pleito passado. Na verdade, existem pelo menos quatro pedras no trajeto cujas dificuldades podem ser antevistas agora, mas cujos desfechos ainda são imprevisíveis.

A história de 2022 foi um samba de uma nota só. Foi uma eleição polarizada e a mais concorrida desde a redemocratização, mas o enredo dividia claramente os presidenciáveis e suas estratégias. O fio condutor era o desempenho do governo Jair Bolsonaro. Os bolsonaristas defendiam com unhas e dentes seu líder, aceitando inclusive algum desfecho “heterodoxo” e golpista, enquanto a oposição comandada por Lula dizia que a reeleição do presidente significaria a continuação da tragédia simbolizada pela política contra a covid-19 e mesmo o fim da própria democracia.

Houve episódios emocionantes durante a campanha, como as loucuras de Roberto Jefferson e Carla Zambelli, porém, o plebiscito da eleição nunca mudou de sentido. O resultado final foi uma vitória apertada e pelo negativo, pois Lula venceu principalmente para que o bolsonarismo não continuasse no poder. Obviamente que agora há também um voto de avaliação do governo lulista, como sempre ocorre em tentativas de reeleição. Só que o jogo de 2026 é mais complexo, pois as forças dos candidatos poderão variar na longa caminhada até outubro conforme lidem com quatro pedras presentes na corrida eleitoral.

E se Lula realmente não for candidato? Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Na cúpula petista há quem afirme que presidente pode dar um passo para trás se conjuntura não melhorar; maioria das lideranças, no entanto, é veemente ao assegurar candidatura

Em outros tempos, a vida dos presidentes da República, se não era mais fácil, parecia ter soluções mais simples para os problemas. Enquanto nos dias de hoje a queda de braço por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) deflagrou uma crise institucional entre Senado e Palácio do Planalto, no passado, o presidente Getúlio Vargas resgatou um aliado dissidente com uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL).

O isolamento de Lula, por Vera Magalhães

O Globo

Os canais do governo com o comando do Congresso se mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse um mero espectador da agenda do país

Lula chega à sua sétima disputa presidencial isolado como nunca e demonstra mais dificuldade que em ocasiões passadas de reverter uma maré negativa. As trocas nos ministérios esvaziaram a já precária articulação política de seu terceiro mandato, ele está cercado de políticos e assessores com visão de esquerda e não tem diálogo fluente nem com o Congresso, nem com os setores da economia que mais se envolvem nas conversas preparatórias para as eleições.

Guerra, eleições e a economia, por Armando Castelar Pinheiro*

Valor Econômico

O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como aponta a curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano

Quase seis semanas depois de o conflito iniciado, o cessar-fogo, de duas semanas, saiu. Até certo ponto, foi uma surpresa: Israel não parecia interessada em parar os ataques, os EUA não pareciam ter um caminho politicamente aceitável para sair do conflito e o Irã não parecia ter uma liderança capaz de negociar uma saída. Talvez não por outra razão o que foi acertado soe tão confuso, com detalhes diferentes aparecendo em línguas e porta-vozes distintos. O que, claro, coloca em questão se será possível alcançar um acordo duradouro e o que este contemplará.

Cármen, Dino e Messias pautam agenda do STF e ofuscam Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor da crise na Corte

Uma sequência de movimentos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Senado, embora aparentemente desconectados, revela uma engrenagem institucional em pleno funcionamento sob tensão. A reorganização da agenda política deixou em segundo plano o explosivo caso do Banco Master, que gerou grande constrangimento para o ministro Alexandre de Moraes.

O primeiro fato relevante foi protagonizado pela ministra Cármen Lúcia, que anunciou a antecipação de sua saída da presidência do TSE para 14 de abril. O gesto, justificado como uma medida administrativa para permitir melhor preparação das eleições, tem implicações políticas evidentes. Ao abrir espaço para o ministro Nunes Marques assumir a presidência da Corte eleitoral, consolida-se uma inflexão no comando do processo eleitoral de 2026, com a presença de nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em posições-chave, incluindo André Mendonça na vice-presidência da Corte. Trata-se de uma mudança silenciosa, mas estratégica, no equilíbrio de forças institucionais que conduzirão o pleito.

Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio de Janeiro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram calamidade da política do Rio

Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na tribuna do Supremo.

O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de Batman.

Em defesa do desalinhamento, por Pablo Ortellado

O Globo

No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia

A literatura política frequentemente associa o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento.

O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.

Lições da guerra, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo

A guerra ainda não acabou, mas já nos deu um farto material de reflexão para além do simples ajuste do preço do diesel e do querosene de aviação. A primeira conclusão estratégica é óbvia e bastante velha: é preciso realizar logo a transição energética e liberar o País da dependência de petróleo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Irã. Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo.

Essa guerra no Irã tem se caracterizado por ataques à infraestrutura energética. O fechamento do Estreito de Ormuz era uma das consequências previsíveis, mas os EUA não a consideraram. Trump deu uma pista da indiferença americana, afirmando que os EUA tinham muito petróleo. Na visão dele, se os europeus não tivessem coragem de abrir o estreito, poderiam comprar óleo nos EUA, que o tem em abundância.

A autofagia do PT, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Rio Grande do Sul é um case de como Lula sacrifica o PT em nome do ‘projeto maior’: ele

Às vésperas de completar 81 anos e disputar um quarto e último mandato, o presidente Lula mantém sua determinação de impedir o surgimento de novos líderes à esquerda, desestimular a construção de um sucessor para o pós-Lula e sacrificar o PT em favor do “projeto maior”: ele.

O novo alvo de Lula é o PT do Rio Grande do Sul, que teve os governadores Olívio Dutra e Tarso Genro e fica sem candidato próprio ao governo do Estado desde 1982, primeiras eleições diretas para governador após 1965. Lula quis e o partido foi obrigado a engolir o nome, ou melhor, o sobrenome da ex-deputada Juliana Brizola, do PDT.

O que mudou desde a delação de Cid? Por Raquel Landin

O Estado de S. Paulo

Lei da delação premiada serviu para Mauro Cid. Por que não para Daniel Vorcaro?

O tenente-coronel Mauro Cid fechou sua delação premiada em setembro de 2023. À época, o pedido do PT para revisar a lei da delação premiada já descansava nos escaninhos do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes há mais de dois anos. A solicitação do partido, feita pelos advogados Lenio Streck, André Trindade, Marco Aurélio de Carvalho e Fabiano Santos, é de dezembro de 2021.

Cid prestou vários depoimentos à PF, alterando versões e implicando mais pessoas. Nos depoimentos iniciais, “esqueceu” que o general Braga Netto carregava uma sacola de dinheiro.

Faz-não-faz e desfaz, por José Sarney*

Correio Braziliense

A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

Aumentos de gasolina e diesel no Brasil estão entre os menores do mundo durante a guerra, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reajuste da gasolina por aqui fica na 90ª posição entre 128 países; o do diesel, na 71ª

Além de dar subsídios e redução de impostos, país enfrenta crise em situação mais favorável

Os preços da gasolina e do diesel aumentaram mais na maioria dos países do mundo do que no Brasil, que fica perto da rabeira desse ranking. No caso da gasolina, ficamos em 90º lugar entre 128 países —em 25 deles, a variação foi menor do que 1%, nada, ou negativa. Quanto ao diesel, ficamos em 71º lugar —em 21 países, a variação foi menor do que 1%.

Os dados são da Global Petrol Prices. Baseiam-se na conta de variação de preços entre 23 de fevereiro (a guerra começou em 28 de fevereiro) e 6 de abril. Como se deve fazer em relação a qualquer ranking ou comparação, é preciso descontar a precisão dos dados. Trata-se de médias nacionais ou preços típicos. Alguns países controlam reajustes (oi, Brasil), ditam as datas de aumento, outros não intervêm no mercado, poucos são grandes produtores, outros importam quase tudo etc.

Uma guerra só com derrotados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Se cessar-fogo precário puser fim a conflito, EUA, Israel e Irã saem com mais perdas do que ganhos

Conflito sem vitória também poderá trazer repercussões eleitorais negativas para Trump e Netanyahu

dSempre que vejo Palmeiras e São Paulo se enfrentando, me pergunto se não haveria um jeito de os dois times perderem. No futebol, parece que não, mas, no que diz respeito a guerras, a derrota de todos os envolvidos é um desfecho possível e até frequente. Lembrem-se de 

guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã encaminha-se para ser um desses conflitos sem vencedores, ainda que todas as partes reclamem ter logrado brilhante vitória. O regime iraniano pode de fato congratular-se por ter sobrevivido a um inimigo militarmente muito superior, mas é só. A coluna dos ônus é extensa demais para ser ignorada: cerca de duas dezenas de suas principais lideranças, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, foram assassinadas, o país sofreu enorme destruição de vidas e de infraestrutura, notadamente a militar, e comprou décadas de inimizade com os países vizinhos do Golfo Pérsico que atacou.

Lambança de Trump no Irã é apoio a plano de Grande Israel, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Líder americano achou que o explosivo tabuleiro de xadrez da guerra contra o Irã seria um jogo de damas

Com Netanyahu, alguém ainda acredita nas fantasias de dois Estados e devolução de territórios ocupados?

Estados Unidos e Israel, nas figuras abomináveis de Donald Trump e Binyamin Netanyahu, estão transformando o mundo num lugar ainda mais perigoso para se viver. Sim, isso é possível. Os dois têm muitas coisas em comum, nenhuma delas animadoras: são autoritários, expansionistas, imperialistas, racistas (por que não dizer?) e não medem consequências em busca de seus objetivos.

Enquadram-se perfeitamente na categoria de lideranças fascistas contemporâneas. "Ah, mas isso não é igual ao que aconteceu nos anos 30"... Bem, não estamos nos anos 30 do século passado. Falamos do conceito do século 21. É duro e triste dizer que um político que comanda Israel veste bem esse perfil fascista, mas lamentavelmente é o caso.

Sob as asas, digo, membranas do pai, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro ainda nem começou a apanhar, mas já reage como se no meio da campanha

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra; da candidatura de Flávio só se verão os eclipses

Nada de mais em a nave Artemis 2 ter dado uma volta pelo lado oculto da Lua e ficado 40 minutos sem que soubéssemos o que estava acontecendo. A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência passa ainda mais tempo no lado oculto de si mesma e só tenta mostrar o que lhe interessa. Mas não adianta —ao contrário da Lua, cuja massa rochosa interrompe o sinal e impede que este chegue à Terra, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem a densidade de uma cortina de banheiro.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Roberta Sá - Gostoso veneno

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tentativa de trégua no Irã atesta inépcia de Trump

Por Folha de S. Paulo

Para acalmar eleitores e mercados, americano recua de ultimato pela 5ª vez numa guerra sem objetivo claro

Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de negociações, proposta pelo Irã; cessar-fogo é frágil

Após muito suspense, passou a vigorar, na noite de terça-feira (7), um cessar-fogo na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ao menos, foi o que disse acreditar Donald Trump, ciente dos riscos inerentes à empreitada.

De um lado, a pressão global devido à escalada dos preços de energia decorrente do fechamento do estreito de Hormuz —o corredor de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo— pela teocracia islâmica.

Novas revelações constrangem Moraes ainda mais no julgamento do Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Entre 2023 e 2025, também foram identificados cerca de R$ 65 milhões repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro a escritórios e empresas ligados a políticos importantes do país

As novas revelações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, complicaram ainda mais a posição institucional do ministro Alexandre de Moraes no julgamento de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. Objetivos, volumosos e politicamente sensíveis, os fatos são teimosos e transcendem a esfera pessoal. O que está em jogo é a credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF).

Documentos fiscais enviados à CPI do Crime Organizado revelam que o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, recebeu R$ 80.223.653,84 do Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Trata-se de uma média mensal de aproximadamente R$ 3,6 milhões, em 22 pagamentos praticamente idênticos, formalmente declarados à Receita Federal pelo próprio banco.

O roteiro Master de Lula, por Malu Gaspar

O Globo

Uma hora a realidade acabaria se impondo. Depois de tentar resolver a crise do Master atuando nos bastidores, Lula finalmente compreendeu que abafar o caso ou circunscrevê-lo à oposição não é uma possibilidade. As pesquisas de opinião vêm mostrando que o Supremo Tribunal Federal (STF) está com a imagem enlameada e, embora o escândalo não atinja diretamente o Palácio do Planalto, a sujeira pode respingar no governo. Não foi por outra razão que o presidente da República resolveu falar. Numa longa entrevista ao site de notícias ICL, ontem, ele afirmou que o STF tem de dar “uma explicação convincente para a sociedade”, porque “essas coisas a gente não joga debaixo do tapete achando que o povo vai esquecer”. E ainda completou dizendo que, “se o cara quiser ficar milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte”.

O Rio em julgamento, por Merval Pereira

O Globo

Os quatro ministros que já haviam votado pela eleição direta no plenário virtual fazem parte de um bloco informal

O julgamento sobre se a eleição para substituir o ex-governador do Rio Cláudio Castro — que renunciou ao mandato para evitar uma cassação que parecia inevitável — será indireta ou direta está definindo um reposicionamento de grupos dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) que poderá ter consequências em próximos julgamentos importantes, como o caso do Banco Master.

Ficou claro na sessão de ontem que os quatro ministros que já haviam votado pela eleição direta no plenário virtual fazem parte de um bloco informal. Flávio Dino, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin precisam de mais dois votos para ganhar a votação que fará prevalecer a tese das diretas. Os ministros Dias Toffoli e Edson Fachin poderão decidir esse julgamento.

Trégua não elimina crise econômica, por Míriam Leitão

O Globo

Mesmo com a trégua anunciada por Trump, a persistência do conflito indica que o desfecho no Oriente Médio continua incerto

A economia mundial continuará atravessando um tempo de extrema incerteza, apesar da trégua anunciada por Donald Trump e da esperança trazida pelas negociações. As hostilidades continuaram ontem, o dano estrutural à infraestrutura reduz a capacidade de produção e oferta de petróleo, a operação para restabelecer a normalidade no Estreito de Ormuz será lenta. A ofensiva impôs ao Irã a morte da maioria dos seus principais líderes, mas mostrou que o país tem o controle da arma que sempre ameaçou usar contra os seus inimigos: o fechamento do Estreito de Ormuz. O Irã bloqueou a logística do petróleo e agora saiu da teoria para a prática, criando um prejuízo considerável para a economia internacional.

Trump e os 1.001 tentáculos da 301, por Assis Moreira

Valor Econômico

Os EUA estão expandindo a definição do que consideram barreira ao comércio e ampliando o arsenal de coerção

Apesar da suspensão do tarifaço de Donald Trump, considerado em fevereiro ilegal pela Suprema Corte americana, cerca de 55% das exportações brasileiras continuam submetidas a sobretaxas ao entrar nos Estados Unidos, pelos cálculos da Amcham Brasil.

O potencial é de tarifas adicionais sobre certos produtos brasileiros. O USTR, a agência de representação comercial americana, quer concluir até a metade do ano as duas investigações que envolvem o Brasil com base na Seção 301 da lei comercial americana, que é utilizada para lidar com práticas estrangeiras consideradas injustas e que afetariam o comércio dos Estados Unidos.

Master é grande nódoa na imagem do BC, por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

Caso reforça argumentos dos que defendem que a atuação dos órgãos reguladores do sistema financeiro passe a ser acompanhada por auditores externos

Houve um tempo em que o Banco Central do Brasil funcionava como um grande mercadão, tipo feira livre, tantas eram as ingerências políticas que sofria. O peso das pressões causou profunda instabilidade no funcionamento da instituição, evidenciada pela rotatividade dos seus dirigentes. Em apenas oito anos, de agosto de 1985 a setembro de 1993, por ali passaram dez presidentes diferentes (e dez diretorias) sem contar com os interinos. Uma média de pouco mais de 9 meses de mandato para cada um.

O limite que falta num país de endividados, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A lucratividade da indústria financeira montada sobre consumidores desavisados da economia popular seguiu intocada sob gestões do PT, MDB e PL

O governo federal corre atrás de um novo programa para desafogar endividados porque o saldo positivo de renda e emprego, com o qual se pretendia pavimentar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, escorre pelo ralo.

E não se esvai empurrado apenas pela Selic, mas por um modelo de crescimento baseado numa maior oferta de crédito para a baixa renda. Esta oferta é, em grande parte, dissociada de mecanismos que contenham práticas financeiras abusivas. Quantos usuários do Pix parcelado, por exemplo, sabem a taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras pelas quais operam? Podiam saber pelo menos o limite da taxa, mas o Banco Central, depois de sucessivos adiamentos, desistiu de regulamentar o mecanismo.

Endividamento público e as restrições ao próximo governo, por Benito Salomão*

Correio Braziliense

Há uma restrição à política fiscal que o próximo governo herdará. Seria bom que os meios para estabilizar a relação dívida/PIB passassem por uma ampla discussão durante a eleição

Este artigo é o primeiro de dois que ocuparão este nobre espaço a fim de trazer elementos sobre um tema crucial, particularmente no avizinhamento da eleição. Trata-se da dívida pública. Recentemente, foi divulgado o último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que alcançou 79,2% do PIB. Esse mesmo indicador estava em 71,4% do PIB em janeiro de 2023. Em pouco mais de três anos, a DBGG avançou 8 pontos percentuais do PIB e com viés de alta para o horizonte futuro. O Brasil está às vésperas de uma nova eleição, não saberemos quem será presidente daqui 10 meses, mas sabemos que o próximo governo terá fatalmente que lidar com ajustes.

Tudo que era sólido desmanchou no ar, por José Serra

O Estado de S. Paulo

O jogo dos próximos anos exige um Estado forte, não mastodôntico, que consiga navegar na nova realidade

O mundo dessa segunda metade da década de 2020 pode ser qualquer coisa, mas jamais poderemos dizer que é um palco para amadores. De fato, esta década está se caracterizando por jogar por terra a velha forma de produzir e de viver. Vamos tentar olhar três dimensões deste novo mundo.

Primeiro, algo que já estava no radar há alguns anos, mas só nesta década ganhou cores mais marcantes: a transição climática. Emissões lançadas por uma economia afetam, indistintamente, todas as demais. Por isso, esforços isolados, ainda que relevantes, são insuficientes diante da escala da questão. A redução conjunta de emissões exige metas compatíveis, mecanismos de monitoramento confiáveis e compromissos estáveis de longo prazo, para que a ação climática não seja comprometida por condições assimétricas entre países ou pela transferência de atividades intensivas em carbono para locais onde as exigências sejam menores.

Não basta o ajuste fiscal, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

É preciso que o próximo governo entenda a importância de se estabelecer uma política permanente de geração de superávits nas contas públicas

As discussões sobre a política fiscal estão presentes na imprensa todos os dias. Debater os efeitos de medidas adotadas pelo governo ou pelo Congresso, a probabilidade de cumprimento de regras fiscais e os efeitos do gasto público sobre os juros é fundamental. Falta, contudo, uma discussão de maior fôlego sobre o processo orçamentário brasileiro. Perdemos a capacidade de planejar.

A Constituição Cidadã criou as bases para um processo orçamentário transparente, público, equilibrado e planejado. O Plano Plurianual (PPA), a Lei Orçamentária Anual (LOA) e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) são os três eixos dessa lógica. A questão central é a dificuldade de se implantar, na prática, o projeto constitucional.

Lula se distancia do Supremo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula entregou aos leões o homem que ele diz em público ter salvado a democracia, o ministro Alexandre de Moraes. Ao recomendar ao ministro que “salve sua biografia” e se declare impedido de julgar qualquer coisa relativa ao escândalo do Master, Lula pediu para Moraes não atrapalhar a reeleição.

Explícito nesse conselho é o reconhecimento de que a situação do STF – perda de credibilidade e legitimidade – terá impacto eleitoral. Bastante evidente, aliás. Na noite do primeiro turno já se sabe qual será a composição da Câmara dos Deputados e do Senado.

Portanto, qual o peso da tropa para se pedir votos no segundo turno contra o STF – visto como associado a Lula.

Ministros em campanha por Messias, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Chegada de novo ministro ao STF pode mudar correlação de forças em meio à crise interna

A campanha que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) fazem pela aprovação de Jorge Messias no Senado não é de todo desinteressada. Nos bastidores, integrantes de diferentes alas da Corte lutam para engordar seu próprio time – e, assim, conquistarem um aliado quando Messias passar pelo crivo dos parlamentares.

Diante de um tribunal conflagrado, uma parceria a mais é bem-vinda. Hoje, a ala crítica ao comando de Edson Fachin está numericamente empatada com o time do presidente. A correlação de forças internas pode mudar com a chegada do novato.

No Brasil, trocar de partido não é desvio, é estratégia de sobrevivência eleitoral, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Enquanto o sistema premiar estratégias individuais acima de identidades partidárias, a migração seguirá sendo regra

Sistemas eleitorais com representação proporcional de lista aberta, como o brasileiro, tornam a reeleição significativamente mais incerta. A competição, tanto intra quanto extrapartidária, é intensa. Entre 1962 e 2022, em 16 eleições para a Câmara dos Deputados, a taxa média de reeleição foi de apenas 63% (nas duas últimas eleições, 2018 e 2022 esse patamar foi ainda menor, 47% e 55%, respectivamente). Em outras palavras, quase 40% dos parlamentares não conseguem renovar seus mandatos.

É muito inferior ao observado nos Estados Unidos, onde a taxa de reeleição no mesmo período alcança cerca de 93%.” O incumbente americano tem uma carreira legislativa muito mais estável e tranquila do que o brasileiro.

Diante desse cenário, deputados brasileiros precisam reduzir incertezas e aumentar suas chances de sobrevivência eleitoral. Para isso, constroem conexões individuais com redes locais de interesse, frequentemente por meio da alocação de recursos e políticas públicas que reforçam essas bases.

EUA e Irã querem fugir da guerra, mas mundo não vai escapar da guerra tão cedo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Há chance de que a troca de fogo pare ou diminua, mas conflito seguirá por outros meios

Principais autoridades do mundo esperam meses de efeitos econômicos ruins, mesmo com 'paz'

Estados Unidos e Irã querem cantar vitória e dar um jeito de acabar com a guerra, do modo que puderem, não tão rápido que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação.

Donald Trump quer evitar mais estrago econômico-eleitoral e o risco de ver uma tripulação de avião abatido se tornar refém do inimigo, por exemplo. O Irã quer salvar o que resta das suas armas, do regime e tomar posse de Hormuz de vez, sua bomba nuclear sem radiação.

A própria liberdade está em jogo nas eleições da Hungria, por Martin Wolf

Folha de S. Paulo / Financial Times

Votação do próximo domingo mostrará se é possível derrotar a democracia iliberal de Orbán

Mesmo que oposição vença, governar após 16 anos de 'Estado máfia' será tarefa difícil

Tenho idade suficiente para lembrar da revolta húngara contra o comunismo soviético em 1956 e sua subsequente repressão brutal. Quão deprimente é, então, encontrar o governo da Hungria apoiando ferozmente o ataque de Vladimir Putin à Ucrânia e o assalto do governo Trump à União Europeia.

A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".

As terras raras e o discurso de soberania, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Terras raras é tema importante demais para ficar no discurso da extrema direita

Decisões exigem ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático

O risco à democracia não é o único problema criado pela existência de um candidato de extrema direita com chances de chegar ao Palácio do Planalto. Ao levar à cena uma agenda para lá de retrógrada, ele manda para o fundo do poço a discussão política, aprisionada entre a entranhada ignorância dos fatos e a diminuta capacidade intelectual, ambas marcas da família golpista e de seu círculo mais próximo.

É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.

A farsa antissistema, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se você quer alguém novo, de fora, para livrar o Brasil da corrupção, prepare-se para ser tapeado

O sistema é o que os antissistema querem derrubar para impor seu próprio sistema, seja qual for

Não paga dez. Pelo que as trombetas já anunciam, o principal adversário dos candidatos a candidatos à Presidência pela oposição, mais do que o odiado incumbente, será um ente invisível, impalpável, incolor e inaudível —o sistema. A palavra já está na boca de vários, salivante, sibilante, pronta a ser pronunciada com uma profusão de "Ss", fazendo dos discursos uma sinfonia de assobios. O que a torna paradoxalmente significativa é o fato de que tanto esses candidatos quanto seus potenciais eleitores não precisam saber o que ela significa.

Presidente Lula em entrevista ao ICL: "Uma tentativa de consolidar a ultra direita"

 

Meu partido? Quero é “um bom partido”, por Marcus Cremonese

Leio hoje (7 de abril) no portal Meio, citando a Folha, que “pelo menos 114 deputados federais mudaram de partido no prazo final para as eleições de 2026”.

Para quem tem menos de 50 anos esclareço: lá nas Minas Gerais onde nasci, um “bom partido” era aquele jovem, filho de fazendeiro ou dono de algum comércio na praça central da cidadezinha. Eles eram alvo do olhar de muitos pais que visavam dar ao escolhido a mão de suas filhas em casamento.

Poesia | Clarice Lispector - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | O Circo - Sidney Miller