terça-feira, 22 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise fiscal é causa do esvaziamento da Bolsa de Valores

Por O Globo

Com juros nas alturas, os papéis de renda fixa se tornam, aos olhos do investidor, mais atraentes que as ações

Persiste o esvaziamento da Bolsa de Valores brasileira, a B3. Entre o início de 2022 e novembro do ano passado, 36 empresas saíram dela. No momento, estão previstas seis novas ofertas públicas para compra das próprias ações por companhias abertas que desejam fechar seu capital. Não há muito mistério sobre a principal causa desse esvaziamento. A taxa de juros elevadíssima, necessária para o Estado brasileiro tomar dinheiro emprestado no mercado de modo a financiar o desequilíbrio nas contas públicas, torna os papéis de renda fixa um investimento muito mais atraente que as ações.

Juros altos são letais para mercados acionários. A capitalização por meio do lançamento de ações costuma ter custo mais baixo que empréstimos bancários, ainda mais num país em que o juro básico, mesmo tendo sido cortado pelo Banco Central para 13,75% ao ano, pode significar um rendimento real de quase 10% ante uma inflação na faixa de 4,2%. Mas ela se torna inviável se não houver investidores interessados.

Os moderados decidirão as eleições no segundo turno entre Lula e Flávio, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

E quem são os que decidirão as eleições? O eleitor urbano do Sudeste e Norte/Centro-Oeste, de renda entre dois e cinco salários-mínimos e, predominantemente, com ensino médio

Há duas semanas, em Brasília, o movimento Direito Já organizou uma reunião em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Estavam lá diferentes lideranças da sociedade civil, a esmagadora maioria já engajada na reeleição de lula, a começar pelo anfitrião, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakai. Não houve nenhuma grande adesão no encontro, que contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro de Relações Institucionais, José Guimarães.

Alckmin foi absolutamente enfático na sua intervenção quanto à necessidade de disputar os votos do centro, melhor dizendo, dos eleitores que ainda não estão engajados no pleito e que se pautam pela moderação. Foi um discurso no qual fez comparações entre os governos Lula e Bolsonaro e reconheceu que não existe uma percepção de que a economia melhorou na atual administração, apesar de os indicadores dizerem o contrário. Mas foi enfático ao apontar a defesa do Estado Democrático de Direito como um grande divisor de águas para a conquista desses eleitores.

Lula reage, mas avaliação de governo ainda claudica, por César Felício

Valor Econômico

Crise do STF não afeta corrida eleitoral e votos de Cury migram para Flávio no Sudeste

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) alcançou 33% de intenção de voto no primeiro turno na pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, o mesmo percentual que ele havia atingido na fase pré-“Dark Horse”. O impacto provocado pela divulgação do áudio em que o candidato bolsonarista pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, está encerrado, na ausência de fatos novos. Ele está agora a quatro pontos percentuais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno, a menor diferença registrada pelo instituto. Tecnicamente empate no limite da margem de erro. Cresce, de modo contínuo, dois pontos percentuais por semana desde o início de setembro.

A principal novidade da pesquisa Quaest, encomendada pela Globo e pelo jornal O Globo, contudo, não é essa. O lulismo começou a reagir com o fim do inverno. Foi quebrada a sequência de queda na intenção de voto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno. Ele subiu de 40% para 41% e agora está a um ponto percentual de Flávio, com 42%. No primeiro turno, Lula oscilou para cima, de 36% para 37%, o que não acontecia desde julho.

Se os debates eleitorais fossem sérios..., por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Alckmin recolocou a política industrial na agenda econômica e lançou um programa com foco em inovação, produtividade, descarbonização e agregação de valor, mas terá prosseguimento?

Na coluna de 15 dias atrás, comentamos aqui a questão da industrialização. Há um debate acadêmico sobre melhor maneira de alcançar o desenvolvimento econômico nos países de renda média, como o Brasil. Alguns economistas estão de olho no setor de serviços, que é responsável pelo acelerado crescimento da economia da Índia, por exemplo. E há outros que ainda consideram a indústria de manufaturados como essencial para criar empregos e desenvolver as nações.

Se os debates da campanha eleitoral fossem sérios, candidatos deveriam se manifestar sobre temas como esse e seus desdobramentos em programas de governo. Mas esses assuntos passam longe das campanhas ou são citados genericamente, como é o caso das terras raras - por incrível que pareça, alguns tentam desenterrar enferrujadas propostas de privatização.

Lenta e ampla degradação institucional, por Christopher Garman

Valor Econômico

Apesar de tudo, as instituições brasileiras são robustas em comparação com os padrões globais

O Supremo Tribunal Federal está mergulhado em uma crise institucional sem precedentes. Por trabalhar em uma empresa de risco global, frequentemente recebo perguntas sobre os efeitos desse escândalo na confiança dos investidores internacionais. A resposta não é fácil. No curto prazo, a principal questão é como essa crise pode afetar o resultado da eleição presidencial e, consequentemente, as perspectivas para uma reforma fiscal em 2027 que crie condições para a queda das taxas de juros, que vêm estrangulando as empresas e as famílias.

Chama o VAR, por Merval Pereira

O Globo

O aumento do Bolsa Família, anunciado antes da coleta dos dados pela Quaest, ainda não apresenta resultados

A eleição brasileira parece que será decidida pelo VAR, ou no fotochart, como se dizia antigamente. Empate técnico no primeiro turno com a menor distância, pela primeira vez na série, e vitória numérica de Flávio Bolsonaro no segundo mostram a tendência a favor do bolsonarista na pesquisa Quaest divulgada ontem, mas sem a confirmação, cultivada na campanha da oposição, de que ficasse clara sua supremacia na disputa presidencial. A eleição continua acirrada. O aumento do Bolsa Família, que parecia uma tacada eleitoral decisiva para Lula, anunciado antes da coleta dos dados pela Quaest, ainda não apresenta resultados.

STF chega ao fim de um ciclo, por Fernando Gabeira

O Globo

Nosso sistema judiciário é uma construção humana. Isso significa que nós podemos mudá-lo

“Uma coisa é um país, outra um ajuntamento.” Os versos do poema “Que país é este?”, de Affonso Romano de Sant’Anna, ecoaram nas redes. Apesar da ressaca cívica, é bom constatar que o querido poeta sobrevive: Uma coisa é um país, outra um fingimento.

As ruas estavam tristes durante a semana. Muita gente reclamava e no final dizia:

— Desculpa o desabafo.

Não dá para queimar etapas. O momento é de raiva. Mas será preciso canalizá-la para alguma coisa. Se ficamos apenas com a raiva, ela pode nos envenenar. Nosso sistema judiciário é uma construção humana. Isso significa que podemos mudá-lo. Podemos considerar que o STF chegou ao fim da linha, encerrou um ciclo. O que fazer para iniciar outro?

A República de Vorcaro, por Míriam Leitão

O Globo

O Caso Master é uma bomba cujos fragmentos atingiram diversas instituições da República. O STF tem agora que investigar os próprios erros

A semana começou com notícias e imagens com potencial impacto nas campanhas. O vídeo de Alexandre de Moraes saindo do avião de Daniel Vorcaro, com sua mulher Viviane, é eloquente demais para ser ignorado pelo ministro. Ele se soma às 52 mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro e ao contrato entre Vorcaro e o escritório Barci de Moraes. Outros casos estão surgindo, como os que mostram o julgamento favorável às usinas de cana-de-açúcar na segunda turma em processo conduzido pelo ministro Kassio Nunes Marques. A União perdeu uma causa na qual tinha completa razão.

IA rebelada é uma ameaça, por Pedro Doria

O Globo

O tema mais importante do mundo segue sendo, três semanas depois da explosão de uma crise, o avanço ou não da inteligência artificial

O tema mais importante do mundo segue sendo, três semanas depois da explosão de uma crise, o avanço ou não da inteligência artificial (IA). Os homens que criam a tecnologia continuam afirmando estar num caminho muito perigoso, que pode levar à extinção da humanidade. Segue sendo, igualmente, um assunto ausente no debate público brasileiro. O país se dividiu entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro e, empacado na indecisão, tornou-se incapaz de dar atenção a qualquer outra coisa. Mas há novidades, e importantes.

Um Congresso responsável, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

É extensa a lista de candidatos ao Senado por São Paulo. Ao eleitor cabe avaliar e escolher aqueles que possam representar com dignidade o Estado e a sociedade brasileira

O apoio explícito de certos candidatos (ou de certo candidato) sem compromisso com as liberdades democráticas às ameaças externas à normalidade do processo eleitoral brasileiro é preocupante. A internacionalização das operações destinadas a impor governos de aparência democrática, mas de natureza autocrática, tem alcançado resultados em alguns países. Publicada há pouco pelo Center for Global Democracy da Universidade de Vanderbilt, em parceria com o Kellogg Institute da Universidade de Notre Dame, a pesquisa 2026 Pulse of Democracy apresenta um quadro aparentemente contraditório, em que o apoio formal à democracia como a melhor forma de governo é ensombrecido pela tolerância ao enfraquecimento dos Poderes Judiciário e Legislativo. A pesquisa abrange os países americanos.

A importância da política externa na eleição, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O próximo governo terá de enfrentar de imediato após as eleições temas sensíveis de política externa

Política externa nunca foi tema relevante nas campanhas para eleições presidenciais. Os temas sociais e econômicos, a violência e a corrupção sempre estiveram em primeiro plano nos programas de governo, na publicidade midiática e nos debates públicos. Agora, pela primeira vez, os temas externos, relacionados a questões internas, fazem parte das preocupações dos candidatos e dos eleitores.

A diplomacia no século 21, a partir de um mundo em grande transformação, deixou de ter uma função de superação de dificuldades e de conflitos. Os princípios e valores que informaram as preocupações diplomáticas nas últimas décadas foram substituídos, na principal potência global, por seus interesses econômicos e políticos e são representados por pessoas que não fazem parte do governo e algumas que nem são funcionárias de Estado. Poder por meio da força é a palavra de ordem.

Na República das mentiras, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nessa novíssima República, em que todos chamam Vorcaro de ‘irmão’, tudo virou espetáculo

Fernando Collor caiu sob pretexto de um Fiat Elba, Sergio Cabral foi desmoralizado pela imagem de uma festança de amigos na Europa com guardanapos na cabeça, Aécio Neves afundou, levando junto o PSDB e o centro democrático, por um pedido de empréstimo aos donos da JBS, na época, de R$ 2 milhões.

Nenhum deles é santo, mas o fato é que as coisas mudaram e continuam mudando, principalmente em valores, presentes e generosidade de “amigos” complicados, mas também na cara de pau. Na República da mentira e dos “irmãos”, tudo ficou mais fantástico, espetacular.

Sem a mudança de condutas, reformas no STF serão inúteis, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novas regras não terão efeito enquanto não houver disposição de obediência ao que dizem as normas em vigor

No momento, a pregação por mudanças é puro exercício de retórica populista para surfar na onda da ocasião

A defesa de reformas faz parte do roteiro habitual em momentos de conturbação como o atual.

Dessa costumeira toada discursiva dão notícias as propostas de mudanças no Judiciário, nas regras de indicação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até no rito de processo de impeachment de magistrados da corte.

Quando as pessoas não sabem direito o que fazer nem o que dizer, mas precisam se posicionar de alguma forma, costumam sugerir pactos e reformas.

Candidato bolsonarista finge que Cláudio Castro não existe, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Campanha de Douglas Ruas aposta na omissão do passado e na memória curta do eleitor

Infiltração do crime organizado nas estruturas de poder é resistente no Rio de Janeiro

Desvincular-se ou esconder antigos aliados e chefes políticos é um truque das campanhas eleitorais que apostam na omissão do passado. No Rio de Janeiro, a amnésia é geral.

Candidato bolsonarista ao Palácio Guanabara, Douglas Ruas praticamente apagou do currículo os dois anos à frente da Secretaria de Cidades, investigada pelo aumento de R$ 45 milhões no valor de um contrato, o dobro do limite legal. Ruas dá a impressão de sequer ter conhecido Cláudio Castro, que renunciou para não ser cassado e enfrenta acusações de corrupção e desvio de dinheiro, com a Polícia Federal batendo à sua porta quase toda semana.

Mark Carney, San Tiago Dantas e o mote do “outro Ocidente”, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Demorou um pouco até que uma voz mais firme e positiva surgisse de um país ocidental, reconhecendo com realismo a extensão e profundidade radicais da ofensiva de Donald Trump para decretar, nas relações internacionais, o retorno do império da competição sem regras entre grandes potências. O primeiro ministro Mark Carney, do Canadá, em pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos, além de fazer isso, lançou um facho de luz num mundo que, diante da fera, tem oscilado entre a perplexidade, o medo, a retórica oca e a indignação impotente. Ao reconhecer a falência da ordem mundial do pós-guerra e a impossibilidade de sua refundação, exortou o que chama de potências médias (dentre as quais vê o seu país incluído) a agirem em bloco, política, comercial e diplomaticamente para resistirem à ação das potências hegemonistas e contraporem, ao mundo sem regras que elas estão consagrando na esteira da blitz trumpista, um processo de construção de uma nova ordem, na qual possam ser preservados tanto os interesses soberanos dos países, como valores civilizatórios supranacionais, com destaque aos direitos humanos, à democracia e o pluralismo político.

Poesia | Te Amo, de Pablo Neruda

 

Música | Joyce Moreno e MPB4 - Falando de Amor (Tom Jobim)

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça também deve explicações

Por O Globo

E a razão para isso não tem nada a ver com o pedido para investigar Moraes

O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.

Lula articula neutralidade do Centrão em eventual 2º turno, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Petistas avaliam que PSD, União Brasil e Republicanos devem liberar diretórios

De olho em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula para manter a neutralidade dos principais partidos do Centrão na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, coordenadores petistas vêm conversando com diferentes legendas e trabalham com a avaliação de que PSD, União Brasil e Republicanos não devem declarar apoio nacional ao candidato do PL, deixando diretórios e filiados livres para se posicionar de acordo com as alianças locais.

Republicanos e União já anunciaram neutralidade no primeiro turno. Para o PT, evitar uma adesão formal dessas siglas a Flávio representaria uma vantagem política, porque ajudaria a preservar a disputa aberta pelos votos dos eleitores que escolherem outros candidatos no primeiro turno.

Flávio Bolsonaro ganhou; e agora? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Otimismo do mercado precisa ser ponderado por realidade política em 2027

A pergunta do título é retórica e especulativa. A duas semanas do primeiro turno das eleições, parte significativa dos agentes do mercado financeiro se mostra eufórica com as perspectivas de uma vitória de Flávio Bolsonaro e do fim da era lulista.

Há motivos concretos para não duvidar da eleição do candidato do PL. Embora empatados dentro da margem de erro, Flávio já aparece numericamente à frente de Lula em algumas pesquisas e, considerando que os institutos sempre subestimaram o percentual de votos do bolsonarismo nas eleições, não será surpresa se ele conquistar a Presidência da República.

Contém informação, por Irapuã Santana

O Globo

O consumidor é tão vulnerável a ponto de não entender que a presença de glúten fará mal a quem tem doença celíaca?

Foi marcada para a próxima quarta-feira uma audiência pública no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para “definir se, nas embalagens de alimentos industrializados, a informação ‘contém glúten’ é suficiente ou é necessário acrescentar a expressão ‘o glúten é prejudicial à saúde dos doentes celíacos’ ”.

Não é uma anedota. O segundo tribunal mais importante do país está debruçado sobre um caso com mais de 2.400 páginas, envolvendo pelo menos 43 cidadãos, empresas, associações, autoridades e instituições formalmente mobilizadas para avaliar a expressão “contém glúten”.

Antes que cheguem os americanos, por Miguel de Almeida

O Globo

Os números do Pisa exibem estagnação educacional, enquanto parte da população discute banheiro unissex

Saiu o resultado do Pisa 2025, e o Brasil continuou repetindo sua performance, digo, papelão. Desde a edição de 2015, nada mudou, com o país sem avançar na avaliação. Na matemática, seis países latino-americanos se saem melhor. Friamente: os números revelam estagnação. E não há desculpa, porque os exames envolvem alunos de escolas públicas e das caríssimas privadas.

Não é só um charuto, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Fumar um charuto fornecido por Vorcaro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões do banqueiro com o escritório da mulher do ministro

Mesmo que seja o caso de investigar todos os magistrados cujos nomes aparecem no celular de Daniel Vorcaro, é preciso começar com alguém. E, se adotado o critério de ir dos indícios mais graves para os menos relevantes, o primeiro da fila é certamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A sugestão do ministro Flávio Dino — investigar todos de uma só vez — é para não fazer nada. O Supremo cairia em tumulto processual, dada a quantidade de magistrados citados, nas mais diferentes situações. Fumar um charuto fornecido pelo ex-banqueiro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro.

O avanço dos houthis pressiona Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Guerra de Trump contra o Irã espalha caos pelo Oriente Médio, mas acordo não estabiliza região

Para o governo iraniano, o preço do barril virou instrumento eleitoral. Com a guerra entre Teerã e Washington longe de um desfecho e o Estreito de Ormuz em grande parte fechado, o regime e seus aliados perseguem um objetivo: manter o petróleo o mais caro possível até as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, para enfraquecer Trump. Assim, maior a chance de os republicanos perderem a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Essa pressão ganhou um novo instrumento no início de setembro, quando os houthis, grupo rebelde aliado ao Irã, avançaram pela costa oeste do Iêmen, tomaram o porto de Mocha e ocuparam ilhas do Bab al-Mandeb, o estreito que controla o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Até o início do conflito, passavam por Ormuz mais de um quarto de todo o petróleo transportado por mar, um quinto do gás natural liquefeito do planeta e de aproximadamente 20% do comércio global de ureia, fertilizante de que o Brasil é um dos maiores compradores.

Flávio e os EUA, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Em 2025, o bolsonarista comemorou tarifas e sanções dos EUA contra o Brasil

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) dedica três páginas para descrever como seria a sua política externa. Em termos econômicos, o foco está na abertura comercial, na atração de investimentos, na retomada da adesão à OCDE e na integração tecnológica com outros mercados. Em contradição com gestos e palavras do candidato nos últimos meses, porém, o texto afirma que a diplomacia não será guiada pela ideologia e que negociará com todos os parceiros, entre os quais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, de acordo com a defesa do interesse nacional, não com a “simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”. Certamente é o que a maioria dos eleitores gostaria de escutar.

Suicídio institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O Supremo decidiu não decidir, num momento em que sua reputação está em jogo. Coloca, dessa maneira, toda a sua legitimidade em risco

Embora se possa dizer que o ministro André Mendonça e o grupo que o apoia tenham perdido ao não conseguirem avançar no julgamento do mérito das ações contra o ministro Alexandre de Moraes, uma coisa é certa: o Supremo só perdeu! Perdeu em credibilidade, em confiança da população e no reconhecimento da sociedade. Pode-se ter respeito por uma instituição cujos membros se recusam a julgar um dos seus, como se não fosse um cidadão comum? E o que dirão os eleitores desse país, que prezam as suas instituições e têm uma aversão pela imoralidade?

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O show de horrores no STF confirma nossas piores hipóteses

Não estamos apenas diante do corporativismo, mas de uma estratégia de autoproteção perante a possível composição do próximo Senado ou de cenário pior

Sobre a crise do Supremo já se disse quase tudo. Corremos o risco de apenas recapitular o recente show de horrores. É lamentável que alguns ministros tenham confirmado hipóteses a que cheguei em inúmeras colunas nos últimos anos.

Flávio Dino afirmou que vivemos "o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil". Gilmar Mendes, por sua vez, censurou André Mendonça por expor colegas eventualmente envolvidos em ilícitos e disparou que "até a máfia tem ética". A metáfora descreve a omertà, o pacto de silêncio e proteção existente nas organizações criminosas. Quem rompe o pacto e trai a facção sofre ameaças, ostracismo ou coisa pior.

A crise além do Supremo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A crise de credibilidade do STF pode cobrar seu preço em outras instituições

Suspeitas de relações impróprias entre ministros e Daniel Vorcaro precisam ser investigadas

As suspeitas de relações impróprias entre ministros do Supremo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro precisam ser investigadas, inclusive para que se conclua, se for o caso, que não houve irregularidades. Mas, na sessão em que o STF discutiu como examinar as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, os ministros pareceram mais preocupados em administrar a crise do que em esclarecer as suspeitas.

Há duas semanas, escrevi aqui sobre como a crise do Supremo podia transbordar para a eleição e para o TSE. Agora, outro efeito pode aparecer no Superior Tribunal Militar (STM), que ainda precisa decidir se generais, um almirante e o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado, perderão as patentes.

Brasil, um país dividido, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sofisticado sistema de discriminação racial separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos

Até quando vamos insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado?

O Brasil é um país dividido. Não, eu não estou falando das próximas eleições, da polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158 milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.

Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.

Defesa necessária, por Fernando Neisser* e Oscar Vilhena Vieira**

Folha de S. Paulo

Não faltam sinais de tentativas de interferência estrangeira no pleito deste ano

A efetividade de nossas estruturas jurídicas depende da mobilização de toda a sociedade

[Resumo] Evidências e ameaças de interferência externa nas eleições do Brasil indicam a articulação de uma rede que funde alinhamento ideológico transnacional, pressão diplomática e desinformação para desequilibrar a disputa e fragilizar a imagem de nossas instituições. Leis brasileiras dispõem de amplo arcabouço para enfrentar o problema, porém não são suficientes. A defesa efetiva da democracia exige o empenho concreto de partidos, autoridades e TSE.

O fantasma da interferência estrangeira em processos eleitorais deixou de ser mera teoria conspiratória ou artefato dos tempos da Guerra Fria para se tornar uma prática corrente em tempos de regressão democrática.

A ascensão de lideranças populistas com tendências autoritárias, o acirramento das disputas geopolíticas, a plataformização do debate público e, mais recentemente, os avanços no campo da inteligência artificial recolocaram a questão da defesa da soberania nacional e popular em novos termos.

A combinação deletéria entre campanhas orquestradas por algoritmos, o uso obscuro de dados pessoais, além do emprego sistemático de deepfake, contribui não apenas para desequilibrar processos eleitorais específicos, mas também para corroer a confiança dos cidadãos em suas instituições.

Muitos são os exemplos de incidentes reais. Nos Estados Unidos, o ciclo eleitoral de 2024 foi novamente marcado por alerta oficiais e a descoberta de dezenas de domínios digitais ligados a campanhas de manipulação orquestradas no Leste Europeu.

Na Eslováquia, as eleições de 2023 foram abaladas pela circulação de áudios forjados na véspera do pleito. Na América Latina, o chamado "Hondurasgate" revelou indícios contundentes de uma rede internacional focada em disseminar desinformação coordenada contra governos recém-eleitos ou em campanha, do México à Colômbia, passando pelo Brasil.

Ainda que se possa discutir a respeito do efeito concreto dessas manipulações no resultado dos pleitos eleitorais, as incertezas geradas sobre a capacidade de os cidadãos determinarem democraticamente o seu destino impõem um dever de precaução a todos aqueles comprometidos com a democracia.

Querem alugar o Brasil? Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Presidente americano promove virada na política externa com endossos públicos, apoio financeiro e ameaças de sanções

No Brasil, Lula constrói campanha em torno do eixo da soberania nacional, na esperança de unir o eleitorado

(Resumo)Neste seu segundo mandato, o presidente Donald Trump vem promovendo uma transformação na política externa dos EUA ao tentar, de forma velada ou mais explícita, influenciar eleições pelo mundo, sobretudo na América Latina. Essa reedição da Doutrina Monroe, em versão século 21, busca afastar a China da região e garantir o predomínio norte-americano. No caso brasileiro, sucessão de tarifaços, declarações dúbias de Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causam apreensão sobre risco de interferência na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

Pressionado diante da divulgação de trocas de mensagens suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes argumentou que o relatório apresentado pelo colega André Mendonça, que trouxe à tona as novas informações, foi uma "farsa" produzida "com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro", para interferir nas eleições que se aproximam.

Independentemente da intenção de Moraes com essa acusação, ela revela o fantasma que assombra o pleito brasileiro desde muito antes do início oficial da campanha: a possibilidade de escalada da interferência do governo Donald Trump para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) e prejudicar o presidente Lula (PT).

Em outubro do ano passado, durante as negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de "dissidentes políticos" nas eleições presidenciais de 2026, como revelou nos últimos dias o jornal O Estado de S. Paulo.

A grave crise no Supremo, que engoliu o debate eleitoral a poucas semanas do primeiro turno, agora serve como pretexto para que o governo americano considere novamente sanções a autoridades brasileiras, como mostrou a Folha.

Poesia | Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Tua Cantiga

 

domingo, 20 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Todos no STF precisam seguir a Constituição

Por O Globo

Alexandre de Moraes tem de ser investigado — todos são iguais perante a lei

Numa de suas falas procrastinatórias na sessão vergonhosa do dia 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino disse que não leva em conta em seus julgamentos o clamor popular. “Não me importa se haverá no meu Instagram ou no meu Facebook milhares de mensagens dizendo da impunidade da corrupção”, afirmou. Não está errado, nenhum juiz deve agir de modo diferente. Dino também assegurou que todos os magistrados têm de seguir apenas a lei. E, de novo, acertou.

Ocorre, porém, que esses argumentos são todos falaciosos. Ninguém pede que a Corte julgue de acordo com a opinião pública. O que se exige é exatamente aquilo que Dino se recusou a fazer: seguir a literalidade de nosso ordenamento jurídico. A Constituição afirma expressamente: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Senadores dirão o que será o amanhã da Presidência e do STF, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Estão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado, duas por estado e pelo Distrito Federal. As pesquisas mostram vantagem expressiva da direita e da centro-direita

Embora não tenha centralidade na decisão da maioria dos eleitores, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) impactou a disputa pelo Senado, que tem o poder de homologar a indicção de seus magistrados e mesmo aprovar o impeachment. Caso seja reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, terá a possibilidade de indicar mais quatro ministros; Flávio Bolsonaro, se vitorioso, já disse que pretende indicar seis, para essas quatro vagas, e mais duas que pretende abrir com os impeachments dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino.

O Supremo em crise, democracia em risco, por Roberto Amaral*

“O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze ministros, escolhidos dentre os cidadãos com mais de 35 anos de idade e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.” (Constituição Federal, art. 101)
 
O que mais ressalta nessa tragédia é isto: ao invés de estarmos tratando da ameaça eleitoral da extrema-direita, combatendo-a, somos obrigados a nos voltar para a rotina da crise do Poder Judiciário, a um tempo núcleo e expressão da crise política. 

Esta, a que mais nos incomoda, é ainda mais profunda e mais grave do que parece à primeira vista, empobrecida pela miopia crassa da grande imprensa e pelo simplismo dos “especialistas” por ela selecionados. Refiro-me ao desalinho político que, em outubro, pode jogar nosso país e nossa gente em abismo sem fundo. A erosão do STF, portanto, não tem autonomia. Fruto da crise política — a mais profunda nos quadros da República —, põe em risco a democracia. Grave em si mesma, trabalha para convencer o povo, principalmente os mais desvalidos, de que a democracia é um fracasso. Eis como se abre o espaço no qual viceja o discurso, a ideologia do desalento, do desengano, da desesperança. É a promessa do caos.

É quando emerge o discurso do totalitarismo. 

Os tempos de Daniel Vorcaro, por Míriam Leitão

O Globo

O rastreamento do dinheiro de Vorcaro está sendo bem sucedido. Ele agora aposta nas confusões do STF e numa troca de governo

O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo rastreados.

Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.

Meia-palavra basta, por Merval Pereira

O Globo

Ministros que não se ressentem de elogiar a ética dos mafiosos diante das câmeras de televisão e no plenário do Supremo são contra o Código de Ética proposto por Edson Fachin e Cármem Lúcia

Todos já vimos filmes ou séries sobre grupos criminosos, estrangeiros ou brasileiros, em que as cenas mais perversas surgem com naturalidade. Parece coisa inventada, tamanhos os absurdos narrados. Quem acreditaria que um ministro do Supremo recebe dinheiro para dar sentenças favoráveis ou contrárias, dependendo do cliente? Quem imagina uma prostituta recusando sair com um ministro do STF porque precisaria de um michê dez vezes maior para servir a ele? Quem poderia acreditar que um ministro do Supremo receberia dinheiro através de terceiras pessoas, como um cunhado,, ou um filho, ou uma esposa? Ministro do STF tem dinheiro para ser proprietário de um resort no Paraná?

Precisamos falar sobre Kevin, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques se declarou impedido no caso Master, mas será o árbitro da eleição

A semana começou com dois ministros do Supremo sob suspeita de receber agrados de Daniel Vorcaro. Terminou com cinco, incluindo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Kassio Nunes Marques foi o destaque da rodada. Seu nome apareceu em mensagens pouco edificantes no celular do dono do Master. Os diálogos tratam de valores, viagens e mulheres. Não necessariamente nessa ordem.

Numa conversa, o banqueiro orienta um auxiliar a alugar a “melhor casa do Rio” para o “ministro KN”, que se hospedaria com o desembargador Newton Ramos e outros convidados.