quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O que a mídia | Editoriais \ Opiniões

Esgota-se o modelo de estímulo ao consumo

Por Folha de S. Paulo

Premidas por dívidas, famílias reduzem ritmo de alta das compras desde 2025, e tendência deve seguir

Gastos inflados por Lula manterão juros sufocantes; momento do ajuste, adiado neste ano eleitoral, virá no próximo governo

Mais uma vez, a estratégia de impulsionar a atividade econômica por meio de gastos públicos encontra seu limite. Desta vez, o freio é o esgotamento da expansão do consumo das famílias, endividadas ao longo dos últimos anos por um modelo de política econômica que infla a demanda sem bases produtivas sustentáveis.

Entre 2021 e 2025, segundo o IBGE, o consumo privado avançou em média 3,3% ao ano, com pico de 5,1% em 2024. Em 2025, o ritmo já caiu para 1,3%, e a expectativa é de somente 1% neste ano e ainda menos no próximo.

Lula faz “guerra de movimento” enquanto Flávio aposta na “guerra de posições”, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Petista dobrou a aposta na “economia do afeto”: anunciou um Desenrola para os microempreendedores e que ainda dará um Pix de R$ 5 mil para compra de equipamentos

O prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) tornou-se célebre sobretudo por explicar a lógica dos conflitos. Militar desde os 12 anos, enfrentou as forças napoleônicas, serviu no Exército russo, na batalha de Borodino, e participou da campanha de Waterloo, combatendo em Wavre. Morreu de cólera e deixou os manuscritos de Da Guerra, publicados por sua mulher, Marie von Brühl. “A guerra como continuação da política por outros meios”, seu conceito mais conhecido, subordina a ação militar ao objetivo político.

Clausewitz compreendeu que superioridade material não assegura vitória. Moral, capacidade de comando, concentração de forças e acontecimentos imprevistos podem mudar uma batalha. A estratégia exige identificar o centro de gravidade do adversário: aquilo que sustenta sua capacidade de resistir.

No fôlego aberto por Kassio Nunes, luta interna do PL se agrava, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

No início das 48h para a volta do ‘Exército do Lula’, PL lava roupa suja em público sobre estratégia digital de Flávio Bolsonaro

No mesmo dia em que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, suspendeu o canal “Exército do Lula” do WhatsApp, decisão revista seis horas depois, o influenciador Paulo Figueiredo mostrou, em seu programa no YouTube, números sobre o alcance digital do PT que estão a assustar a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Segundo Figueiredo, entre 10 e 11 de outubro, canais de esquerda fizeram 32 mil publicações nas redes sociais com 80,7 milhões de curtidas e comentários a partir da padroeira do Brasil e as manifestações de rua. No mesmo período, os canais de direita fizeram 1,3 mil publicações, ou 23 vezes menos, como frisou, que tiveram 22,2 milhões de curtidas e comentários a partir dos mesmos temas.

Enfim, Lula tenta ganhar votos do adversário, por César Felício

Valor Econômico

Municípios com maior proporção de empreendedores individuais votaram maciçamente no candidato do PL

Ao anunciar perdão de dívidas, Pix de R$ 5 mil e aumento do limite para o enquadramento de Microempreendedores individuais (MEI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu fazer um aceno ao eleitorado do adversário, a apenas 12 dias do segundo turno. O resultado da eleição presidencial no primeiro turno é eloquente neste sentido.

Existem 13,7 milhões de MEIs no Brasil, com faturamento anual de até R$ 81 mil, de acordo com dados do Sebrae coletados pelo Valor Data. Pelas regras fiscais brasileiras, uma pessoa física só pode ter um MEI, portanto não erra muito quem estimar que praticamente 10% dos eleitores é passageiro desta nave (o total do eleitorado nacional é de 158 milhões).

Após freio de arrumação, Lula vai para o tudo ou nada, por Fernando Exman

Valor Econômico

Melhora dos indicadores econômicos traz alívio, mas governo mantém cautela

A esta altura, resta ao PT olhar cada um dos cerca de dez dias até o segundo turno como um “jogo de seis pontos”. A expressão é usada no esporte para descrever uma partida entre duas equipes que estão muito próximas na tabela na etapa final de um campeonato, seja para disputar o título ou na luta para evitar o rebaixamento. Nesse tipo de confronto direto, quando uma equipe conquista três pontos para si também impede que a outra some três pontos. Na prática, há uma virtual oscilação de seis pontos, o que permite uma arrancada ou uma ultrapassagem.

Para quem Flávio está mentindo? Por Vera Magalhães

O Globo

Mudança em relação ao fim da escala 6 x 1 e promessa de não mexer em benefícios sociais contrastam com promessa de corte de R$ 200 bilhões

Flávio Bolsonaro promete ao mercado financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem, foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo compensará os empresários pelos custos da medida.

É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.

As convicções elásticas de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Antes de aderir ao fim da escala 6x1, senador renegou críticas a Bolsa Família e Farmácia Popular

Depois de meses repetindo o discurso do capital, Flávio Bolsonaro resolveu votar a favor do trabalho. Ou melhor, da redução da jornada de trabalho.

Em maio, o candidato do PL descreveu a proposta de acabar com a escala 6x1 como “inoportuna e eleitoreira”. Acrescentou que a ideia teria “grande carga de hipocrisia” e causaria “desemprego em massa”.

Ontem ele abandonou a ladainha e informou que passou a apoiar o texto. “A maioria dos trabalhadores brasileiros querem (sic) o fim da escala 6x1. Então, eu vou votar a favor”, declarou.

Fim da escala 6x1 venceria no primeiro turno, por Renato Meirelles

O Globo

Mudança é apoiada por mais de sete em cada dez brasileiros

Mais de sete em cada dez brasileiros apoiam a mudança, uma votação que nem Lula nem Flávio Bolsonaro conseguiram. A proposta é maior do que os dois. E talvez seja justamente por isso que esteja mudando a conversa nesta reta final.

Imagine dona Beatriz, caixa de supermercado, casada com seu João, vigilante de shopping. Os dois trabalham seis dias por semana. Ela folga na terça, ele na quinta. Um domingo dos dois juntos virou luxo. Quando Beatriz descansa, lava roupa, vai ao posto de saúde, resolve a conta atrasada. João sai para trabalhar. Se alguém lhes perguntar sobre a economia, talvez respondam falando do preço do arroz. Se a pergunta for sobre a escala 6x1, responderão sobre a vida que gostariam de ter.

Kassio precisa proteger a Justiça da má fama, por Elio Gaspari

O Globo

O presidente do TSE foi com muita sede ao pote

O Judiciário brasileiro nunca esteve com a má fama de hoje. Não precisa piorar. Depois do vexame da censura contra o “Exército de Lula”, o ministro Kassio Nunes Marques terá aprendido que sua caneta não tem tanta tinta quanto gostariam os bolsonaristas.

Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou calar o canal de propaganda “Exército de Lula” (4 milhões de seguidores). Atendeu a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que acusava o canal de divulgar notícias falsas.

O ministro viu-se contrariado pelo corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, um magistrado que atravessa incólume o annus horribilis do Judiciário brasileiro. Derrubada a censura, Nunes Marques pediu à área técnica do TSE que examinasse as postagens da plataforma.

A promessa de Flávio para a Faria Lima, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Senador promete menos aloprados e mais Posto Ipiranga, mas descumpre o que diz e não vai a debate

O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, tem conversado muito com a Faria Lima. A portas fechadas, o senador diz que, se for eleito para a cadeira hoje ocupada por Luiz Inácio Lula da Silva, comporá um governo com mais técnicos e menos radicais em áreas estratégicas como Saúde, Educação e até Itamaraty.

Depois do bordão “menos Janja e mais Alckmin” que virou mote da reunião do PT na qual o partido foi para o divã ao discutir por que Flávio passou Lula no primeiro turno, um aliado do senador adotou a mesma linha. “Menos aloprados e mais Posto Ipiranga”, disse o interlocutor de Flávio, sob reserva. Apesar de declarações que provocam desconfiança, como a da necessidade de mudar a Constituição para “redemocratizar o País”, Flávio tenta afastar o medo de que, caso chegue ao Planalto, seu governo será tomado por discípulos de Olavo de Carvalho.

O ajuste fiscal da direita, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Governos na Argentina e Colômbia apostaram, de imediato, num ajuste profundo das contas

Olha o que o Milei fez! É assim – lembrando o austero programa de redução de gasto público do presidente argentino Javier Milei – que alguns analistas vêm descrevendo, nos últimos dias, suas expectativas sobre a magnitude do ajuste fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro. Mas há quem também esteja olhando para o que acontece na Colômbia sob o comando de Abelardo De la Espriella, um advogado milionário de extrema direita, vitorioso numa apertada eleição presidencial em junho.

Plano viável de um Bolsonaro 2 depende de mais imposto e de algum estelionato eleitoral, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Programa de contenção de despesa de Flávio exigiria ainda corte de gasto tributário

Medidas fariam com que classes de renda mais alta e certas empresas pagassem mais tributos

Existem em tese meios de fazer com que o plano de Flávio Bolsonaro (PL) para as contas públicas faça algum sentido. Tais medidas exigem, na prática, um aumento de imposto, além de programa técnica e politicamente complexo, mas essencial, de revisão geral de despesas.

Pelo menos na parte que vazou, o plano não faz sentido. Sem golpe, não é possível conter o aumento do gasto em R$ 200 bilhões em um ano, mesmo que o candidato cometa estelionato eleitoral e mexa no reajuste do salário mínimo, no valor dos benefícios sociais e em gastos com saúde e educação, o que promete não fazer. Com estelionato eleitoral moderado, competência técnica e apoio político, seria possível executar esse plano de contenção de gastos em alguns anos.

Jair Bolsonaro subirá a rampa com Flávio? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Algum tipo de perdão aos golpistas já parece contratado

Pizza reverteria importante avanço institucional do país

Não sei se Jair Bolsonaro subirá a rampa do Planalto ao lado de Flávio. Há muitos senões em torno dessa previsão. O principal é que o jovem Bolsonaro, embora seja o favorito na disputa presidencial, ainda não venceu. Existe, portanto, a possibilidade de o próprio Flávio jamais subir a malfadada rampa.

Eu receio, porém, que algum tipo de perdão a Jair e aos generais condenados por tentativa de golpe já esteja contratado, mesmo que Lula ganhe. A confirmar-se essa tendência, o país reverterá o que talvez seja o maior avanço institucional das últimas décadas, que foi ter rompido a tradição de não responsabilizar militares que atentam contra a ordem constitucional.

TSE se junta ao STF no foco da desconfiança na Justiça, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Justiça Eleitoral se desvia do papel de arbitragem para assumir o lugar de protagonista na disputa política

Malandragem dos políticos não autoriza os juízes a embarcar na dinâmica da desfaçatez geral e irrestrita

A Justiça Eleitoral existe, em suma, para organizar os pleitos e garantir a igualdade de condições dos candidatos. Nessa condição, distorce as próprias funções quando, como agora, assume o papel de protagonista numa eleição.

Ressalve-se, de início, que isso se deve em boa medida à necessidade de lidar com o mundo novo das ferramentas tecnológicas e do uso malandro que as campanhas fazem delas com o abuso de notícias falsas para desacreditar o adversário.

Como virar votos quando ninguém quer mudar de lado? Por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Quando o voto é também veto ao adversário, mudar pode significar romper lealdades

Lealdades políticas, custos psicológicos e anos de hostilidade dificultam a tarefa de Lula

Se conquistá-los já é difícil, imagine virar votos. Ainda mais em certas circunstâncias que se empilham nesta eleição.

Primeiro, quando o voto e o veto se equivalem. Quer dizer, quando há praticamente um empate entre o percentual de votos obtido por um lado e o de rejeição do adversário. E vice-versa. Assim, quem tentar mudar um voto vai ter que lidar com algo muito profundo: a decisão do eleitor de não votar naquele candidato de jeito nenhum.

Quando as pessoas escolhem com base nas características dos candidatos ou nas políticas públicas que oferecem, há sempre a possibilidade de mudar uma ponderação por conta da propaganda, de informações novas, da conversa política cotidiana. Mas quando se vota em um candidato para evitar que o outro ganhe, a perspectiva de mudança é mais complicada.

Poesia | Navegue, de Fernando Pessoa

 

Música | Paulinho da Viola : Tiny Desk Brasil

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio

Por Folha de S. Paulo

Após vetar divulgação de pesquisa, agora presidente do TSE resolve derrubar canal de WhatsApp

Trata-se de extrapolação do poder de uma Justiça Eleitoral já paternalista, o que só faz aumentar a percepção de parcialidade das instituições

O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, investe novamente em censura, prejudicando ainda mais a credibilidade do Judiciário.

No domingo (11), ele determinou a suspensão do canal de WhatsApp "Exército de Lula", administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG); em junho, acatara pedido do PL para vetar a divulgação de pesquisa que apontava queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL).

Lula sai das redes para as ruas e Flávio tenta barrar essa reação no TSE, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos, se tornou alvo da campanha do Flávio Bolsonaro

O PT conseguiu, na última semana, dar forma política à reação de setores da sociedade ao resultado do primeiro turno. Depois da perplexidade provocada pela vantagem de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva começou a encontrar nas ruas uma energia que lhe faltara antes da votação. Universitários e secundaristas aparecem como protagonistas dessa retomada. A mobilização ainda não comprova uma virada eleitoral, mas rompe a imagem de uma candidatura paralisada diante do avanço do adversário.

Flávio busca preservar sua vantagem e conter a recuperação do adversário, inclusive pela via judicial. Lula precisa fazer a energia dos estudantes e das manifestações chegar às periferias, aos trabalhadores e aos eleitores que rejeitam ambos. A rua devolveu iniciativa à campanha governista. A mudança consiste em aproximar a estrutura partidária de uma disposição de resistência política ampla, que ultrapassa suas fronteiras.

Ecos da resistência, da rua ao Congresso, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Há sinais fartos de que o país não ficará a reboque de um eventual endurecimento do regime

Dê Flávio, dê Lula, as ruas deixaram de ser território cativo do bolsonarismo. Foi o que as manifestações deste feriado mostraram. Se serão suficientes para uma virada é difícil dizer, mas a reocupação traz um dado que ultrapassa a conjuntura eleitoral. Se perdurarem, podem vir a respaldar a resistência ao acachapante avanço do PL no Congresso.

A primeira impressão foi a de que a captura do Congresso, ante um Supremo nas cordas proporcionaria a um Flávio Bolsonaro eleito presidente um poder sem freio e a um Luiz Inácio Lula da Silva de mandato renovado, a condição de refém de uma maioria legislativa ainda mais à direita. A assertiva, que caiu como um facão da fatalidade sobre o destino da nação, não durou uma semana.

Há sugestões, inclusive ortodoxas, para o fim dos juros absurdos, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Nível dos juros é uma das questões atuais mais importantes da economia brasileira e será tema de debate em 2027 qualquer que seja o presidente eleito

Alunos de jornalismo aprendem o que é lide (do inglês lead) nas primeiras aulas da faculdade. Lide é o parágrafo inicial de uma notícia, que resume a informação principal.

Jornalistas procuram, portanto, escrever notícias numa espécie de pirâmide invertida. Começam com o fato mais relevante e o detalham aos poucos, de forma que o leitor mais preguiçoso possa parar a leitura após dois ou três parágrafos já conhecendo a informação essencial.

Não é assim nos artigos de opinião. Tal qual em teses acadêmicas, o articulista em geral faz longas observações e coloca a informação principal na conclusão do artigo. Foi o que fez o professor Thiago de Moraes Moreira, do Ibmec/RJ e ESPM/SP, em excelente artigo no Valor (22/9). Na última frase do texto, ele dá o que seria o lide: o Brasil estaria pondo no bolso dos rentistas, desnecessariamente, de R$ 230 bilhões a R$ 340 bilhões por ano. Isso porque a taxa Selic (13,75% ao ano) estaria em nível incompatível com os fundamentos macroeconômicos do país. Se fosse compatível, a taxa ficaria entre 8% e 10% ao ano.

Brasil: Esperanzar, un verbo para aquellos que luchan, por Fernando de la Cuadra*

Clarin (Chile)

En su libro Pedagogía de la esperanza. Un reencuentro con la pedagogía del oprimido, Paulo Freire nos brinda con la génesis de su concepción sobre lo que vendría a llamar esperanzar. En sus páginas, el pensador pernambucano sostiene que el concepto de esperanzar implica mucho más que la simple esperanza pasiva, de esperar pacientemente que la realidad se comporte de una manera consonante con nuestras aspiraciones. Por lo mismo, dicha espera se puede transformar inevitablemente en desesperanza. Y esta desesperanza nos inmoviliza y nos hace sucumbir al fatalismo en que no es posible reunir las fuerzas indispensables para el embate recreador del mundo.

Não é opinião, são os fatos, por Míriam Leitão

O Globo

País pode optar por ignorar o histórico familiar e levar Flávio Bolsonaro ao Planalto. Mas os fatos até aqui permitem dizer que a democracia correrá riscos

A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo. O pai dele quando esteve no governo tentou dar um golpe de Estado. A família Bolsonaro tem diversas brigas internas, mas total concordância sobre alguns pontos: acham que a ditadura militar foi boa, admiram o Coronel Brilhante Ustra e seus métodos de tortura e morte de adversários políticos, elogiam o Ato Institucional número 5, aprovam as decisões e palavras do ex-presidente Jair Bolsonaro e negam que durante aquele governo tenha havido conspiração para um golpe, que terminou com a quebra física dos prédios dos Três Poderes.

Salto alto, por Merval Pereira

O Globo

A campanha da direita, deslumbrada com o resultado do primeiro turno, deixou-se levar pela expectativa de poder, subiu no salto alto e não foi às ruas

O marasmo da campanha presidencial do PT no primeiro turno sofreu uma reviravolta revigorante provocada pelo susto da derrota provável, não na cúpula da burocracia partidária, mas na base estudantil que tomou a frente das ações sem rédeas oficiais. As manifestações em diversas capitais, especialmente no Rio e em São Paulo, deram uma nova vida à candidatura à reeleição do presidente Lula, rejuvenescendo-a. A ação digital também melhorou. No entanto, esses avanços precisam ser mais bem avaliados para que não saiam do controle.

O caso da deputado federal Ana Elisa, eleita aos 21 anos por Minas, é exemplar. Tirada de seu nicho eleitoral para comandar a digitalização da campanha, trouxe junto um passado de ativista radical que em nada ajuda a tentativa de Lula de buscar entre os independentes e os que não votaram no primeiro turno os votos de que necessita para virar a eleição. As passeatas, além de exibir a força da juventude a favor de um candidato octogenário —neutralizando um dos pontos fracos de Lula —, servem para extravasar radicalismos que em nada ajudam a campanha. Ela tem de buscar os votos que faltam no centro e na direita democráticos.

Uma eleição on-line, por Fernando Gabeira

O Globo

Hegemonia das redes sociais provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção

A eleição não acabou, mas posso dizer que foi uma das mais singulares da História. Assisti a algumas antes e a todas depois da redemocratização. Uma das características de agora é a incontestável hegemonia das redes sociais.

Ouso dizer que essa hegemonia provoca nos eleitores o mesmo efeito que já vemos em nosso cotidiano: um déficit de atenção. Não discutimos tópicos de programas. Saltamos de um tema para outro, e eles se sucedem com rapidez. Nossa Senhora, “Dark Horse”, uma ou outra frase mal colocada pelos adversários. Os problemas deixam de tratar do futuro nacional e se transformam em simples trends.

A soma de direita e esquerda, por Pedro Doria

O Globo

Nenhum lado do espectro político lhe entrega o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro

A eleição presidencial não acabou, e quem acha que está decidida se engana. É verdade que jamais o vencedor do primeiro turno perdeu no segundo. Mas também é verdade que nunca a vitória de um sobre o outro foi tão estreita. Não bastasse isso, os votos que Flávio ganhou a mais, neste pleito agora, foram de Lula em 2022. Não se trata de um eleitor antipetista. Ainda assim, Flávio é favorito, e por uma razão apenas: tem errado menos. A pista que explica o que levou Lula à vitória em 2022 e deu a Flávio a vantagem nesta eleição pode estar na leitura que um jornalista americano faz dos Estados Unidos. É Chuck Todd, ex-diretor da sucursal de Washington da rede NBC. O eleitor deseja valores conservadores e uma política de Estado à esquerda. Nenhum lado do espectro político lhe entrega o que busca. Daí fica zanzando de um canto ao outro, sempre insatisfeito com o que o presidente lhe entrega.

Bang bang institucional, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A campanha do presidente Lula dormitou no primeiro turno todo, mas acordou com força no segundo, ativando o canal “Exército do Lula”, com quase quatro milhões de seguidores na internet, e megamanifestações em São Paulo, Rio e diversas capitais. São fatos políticos relevantes, que podem ter impacto na eleição, e a campanha de Flávio Bolsonaro reage.

Os mega-atos foram trunfo do PT durante décadas, mas perderam vigor com mensalão e petrolão e abriram espaço para as multidões de Jair Bolsonaro, pelo Brasil afora, nas suas disputas à Presidência. Deu certo em 2018, mas não foi suficiente para elegê-lo em 2022. O PT, agora, retoma as ruas.

O chicote mudou de mãos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O presidente do TSE mandou derrubar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado por André Janones. O deputado aplica contra o bolsonarismo aquilo que o bolsonarismo sempre aplicou contra os adversários: a difusão em massa de comandos para espalhamento de informações frequentemente mentirosas.

Lula reclamou do presidente do TSE: “Estou percebendo muitas decisões tendenciosas contra nossa campanha. Não é possível que o presidente da Justiça Eleitoral não tenha um compromisso civilizado, republicano, de permitir que as eleições fluam sem interferência da Justiça”. A fala poderia ser de Jair Bolsonaro, em 2022.

Itamaraty: instituição ameaçada, por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O Itamaraty, como instituição de Estado, está ameaçado, qualquer que seja o resultado do segundo turno. Levando em conta as políticas implementadas nos três mandatos do PT e no governo de Jair Bolsonaro, as declarações durante a campanha eleitoral e de acordo com os programas dos candidatos, são preocupantes as perspectivas para a política externa e para a diplomacia nacional nos próximos quatro anos.

Do lado do lulismo, tudo indica que se repetirá a influência e o predomínio da ideologia e do partidarismo, deixando muitas vezes o interesse nacional em segundo plano. Com isso, continuará o esvaziamento do Itamaraty pela perda de espaço no âmbito da administração federal e pela deficiente formulação de políticas que respondam aos desafios do novo mundo e às prioridades nacionais.

Lula valorizou o salário mínimo, Flávio Bolsonaro vai congelá-lo? Por Michael França

Folha de S. Paulo

Petista gerou um aumento do poder de compra cerca de dez vezes maior que o registrado por Jair Bolsonaro

Candidato do PL promete repor a inflação, mas não assegura ganho real

Em 2026, o salário mínimo chegou a R$ 1.621, acumulando uma alta de 11,8% acima da elevação dos preços durante o governo Lula. Isso significa que os trabalhadores que o recebem tiveram um aumento em seu poder de compra.

A trajetória contrasta com a do governo de Jair Bolsonaro, cujos reajustes praticamente acompanharam a elevação dos preços, com ganho no poder de compra de apenas 1,2%.

O reajuste de 2019 ainda seguiu a regra antiga de valorização. Boa parte do 1,2% vem dessa alta herdada. Nos aumentos de 2020 a 2022, decididos pelo próprio governo Bolsonaro, o ganho real foi praticamente zero.

Se Jair Bolsonaro tivesse permanecido no poder e mantido a política de reajustes de seu governo, sem nenhum ganho do poder de compra, o salário mínimo chegaria a cerca de R$ 1.450 em 2026.

Seriam R$ 171 a menos por mês em comparação com o valor atual, uma diferença de cerca de R$ 2.200 ao ano, considerando o 13º salário.

É corrupto, mas é o meu corrupto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleito mostra que o eleitorado não é muito consistente na aplicação de critérios éticos

Bolsonaristas cobram higidez de Lula, mas ignoram suspeitas fortes contra Flávio

Faz todo o sentido que o eleitorado rejeite a corrupção. Até algumas décadas atrás, ainda havia uma corrente de economistas que descrevia o fenômeno em termos mais benignos, como uma "graxa" que lubrificaria engrenagens travadas por instituições disfuncionais ou por excesso de regulação. Mas essas ideias, que já caíram em descrédito na academia, nunca fizeram muito sentido quando consideradas do ponto de vista do cidadão, que é a parte prejudicada pelos desvios, seja pela subtração direta de recursos públicos, seja pela perda de eficiência em sua alocação.

STF avançou e revelou-se mau jogador na política, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Supremo participa da guerra eleitoral, mesmo quando quer dar a impressão de que se afasta da disputa

Isso acontece porque aos magistrados falta o tino necessário para atuar em terrenos alheios à alçada da Justiça

O Supremo Tribunal Federal participa da guerra política mesmo quando quer dar a impressão de que se afasta dela. Toma decisões referidas no placar da primeira etapa da disputa eleitoral, evidenciando falta de tino para atuar em terrenos alheios à sua alçada.

A série de acenos favoráveis aos bolsonaristas parece antes uma tentativa de não atrapalhar o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) mais do que já atrapalhou.

Vorcaro aposta em Flávio para salvar a própria pele, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Empresário ressurge no calor da campanha presidencial com suspeita de mais falcatruas

Quem gravou o áudio dentro da prisão com acusações a Lula? Quem mandou gravar?

O escândalo do Banco Master funcionou como um radar da campanha presidencial. O míssil, contudo, atingiu em cheio a imagem do STF. A divisão interna entre ministros acabou favorecendo Flávio Bolsonaro, que conseguiu plantar a ideia de que Lula e Alexandre de Moraes são a mesma coisa.

A nova composição do Senado, predominantemente bolsonarista, sela o impeachment de Moraes. Ainda pode sobrar para Dias Toffoli, o mais enrolado de todos, e Flávio Dino, que não se lambuzou com o Master, mas investiga o desvio de emendas. Apesar de ligados ao esquema Vorcaro, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux dormem tranquilos.

Uma escolha simples, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Segundo turno não põe dilema para democratas, já que a clivagem é entre a garantia de direitos e o primado da força

O que pode significar reforma da Constituição para 'redemocratizá-la' no dicionário de um fã do torturador Ustra?

A festa da democracia virou balada da extrema direita. O seu batalhão tomou a Câmara dos Deputados, o Senado e muitos governos estaduais. Faltam a Presidência e o sistema de Justiça. Dominadas estas últimas trincheiras, veremos, como querem os bolsonaristas, um arremedo do governo Donald Trump no Brasil.

O segundo turno não põe dilema para democratas, já que os candidatos diferem no fundamental: os meios democráticos ou os violentos para dirigir o país.

A política nacional teve outros momentos de decisões assim cruciais. Foi o caso dos dois 88.

Na batalha da escravidão, um lado lutou por direitos para indivíduos reduzidos a mercadorias e o outro, para manter a crueldade do escravismo e a compra e a venda de pessoas. Pulando um século, o embate opôs partidários de um Estado de exceção e de censura, governado por militares, e outro democrático, que garante o próprio direito de divergir.

O conhecimento saiu na frente, por Ivan Alves Filho*

Ele participou de dezenas de teses de doutorado e era considerado um dos grandes intelectuais franceses do seu tempo. No total, integrou mais de 150 bancas e defesas de tese na verdade. Não era para qualquer um. 

E, ainda por cima, foi o redator do projeto que daria origem à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), uma das mais prestigiosas da França e da própria Europa, onde eu estudei por alguns anos, participando de sua primeira turma, em 1975. A EHESS era então dirigida por Claude Lévi-Strauss e Fernand Braudel, outros dois extraordinários intelectuais. 

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Carta ao Tom 74 - Vinícius de Moraes

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

“O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva: mas o que é esta realidade efetiva? Será algo estático e imóvel, ou, ao contrário, uma relação de forças em continuo movimento e mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, baseando-se naquela determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para fazê-la triunfar, significa continuar movendo-se no terreno da realidade efetiva, mas dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). Portanto, o “dever ser” é algo concreto, ou melhor, somente ele é interpretação realista e historicista da realidade, somente ele é história em ato e filosofia em ato, somente ele é política.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 13 – Cadernos do Cárcere, v.3. p.35. 3ª Edição. Editora Civilização Brasileira, 2007.

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Novo Congresso traz risco de desmonte de leis ambientais

Por O Globo

Retrocesso na agenda de conservação é um dos riscos mais evidentes da composição do Parlamento eleito

Entre os retrocessos trazidos pela ampliação da bancada conservadora no Congresso, um dos principais destaques será o espaço aberto à aprovação de projetos que enfraqueçam a proteção ao meio ambiente. Em torno de sete em cada dez deputados e senadores têm um perfil refratário à agenda ambiental, ante 64% no atual Parlamento, de acordo com levantamento do Observatório do Clima noticiado pelo GLOBO.

Abstenção ou desilusão, por Carlos André Machado*

Correio Braziliense

Abstenção não é voto nulo nem voto em branco. Quem anula ou vota em branco comparece e é contado — apenas não escolhe ninguém. Quem se abstém nem chega à urna

Trinta e três milhões e meio de brasileiros estavam no colégio eleitoral na eleição de domingo e decidiram não decidir nada. É a maior abstenção de primeiro turno desde o recorde de 1998 (21,49%) e quase o alcança: 21,08% do eleitorado ficou em casa nesta eleição, contra 20,95% em 2022. O índice sobe há cinco eleições seguidas. E, como toda ausência em política, essa também fala — só que mais baixo, e é preciso prestar atenção para ouvir o que ela diz.