quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aprovação de Lei Antifacção é avanço contra o crime

Por O Globo

Medidas para enfrentar organizações criminosas resultam de diálogo saudável entre governo e oposição

Depois das idas e vindas, a Câmara enfim aprovou em votação simbólica o Projeto de Lei (PL) Antifacção. Embora a proposta original do governo tenha sido bastante modificada ao longo da tramitação, o PL, que seguirá para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representa um passo importante no combate ao crime organizado. Ele dá ao Estado instrumentos mais consistentes para enfrentar as organizações criminosas que convulsionam o país.

É certo que o relator do projeto, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), poderia ter aproveitado melhor as contribuições do Senado, onde a relatoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) obteve raro consenso entre governo e oposição. Derrite preferiu restabelecer quase integralmente a versão anterior da Câmara. Mesmo assim, o resultado foi satisfatório. O próprio governo afirmou que ele reflete a “essência” da proposta enviada pelo Planalto.

Comércio multilateral e o jogo errático de Trump, por Eduardo Belo

Valor Econômico

A prioridade estratégica brasileira é clara, continuar diversificando, sem ilusões e com pragmatismo

Por volta de 300 a.C., Dâmocles era um bajulador do tirano Dionísio, de Siracusa, o qual era alvo de uma mal disfarçada inveja, devido a seu poder. Dionísio o convidou para um banquete. Dâmocles ocuparia o lugar do governante. Sentado à mesa, diante de uma quantidade formidável de iguarias, o jovem olhou para cima e viu que pendia sobre sua cabeça afiadíssima espada sustentada apenas por um fio de cabelo. Reza a lenda que, diante da cena, Dionísio indagou: “Perdeste o apetite?”.

A metáfora não soa tão perfeita para a ocasião - a não ser pelo que tem de ameaça -, mas é lembrada por Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica do Banco Mundial, para retratar a situação do Brasil em relação à imposição de tarifas pelo presidente americano, Donald Trump.

Com a PF desatada, Senado avança sobre o Master, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

CPI reage ao avanço das investigações franqueado pela troca de relator do caso no STF

Foi uma aprovação de baciada a da CPI do crime organizado: 21 convocações, sete convites, sete quebras de sigilo e quatro pedidos de informação. O resultado foi um Fla x Flu entre governistas e bolsonaristas com um Centrão ausente.

A cereja foi o convite a dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli Alexandre de Moraes, e à esposa deste, Viviane Barci de Moraes, todas da lavra do senador Eduardo Girão (Novo-CE), mas é nas convocações e quebras de sigilo, que são mandatórias, que está o recheio do bolo.

Lá estão todas as estrelas do Master: Vorcaro, Augusto Lima, Luiz Antonio Bull, Angelo Silva, João Carlos Mansur e Fabiano Zettel. Mas também Paulo Henrique Costa (BRB), os irmãos Toffoli, o advogado da JBS que comprou o Tayayá, os alvos da Carbono Oculto e até os operadores das compras fraudulentas de vacinas da covid-19, que voltaram a dar as caras no escândalo da hora.

O brasileiro é preguiçoso? Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Nas entrelinhas da objetividade econométrica, encontra-se escondido o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça

Quando deixamos os números falarem sem contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade

Eu li a matéria nesta Folha intitulada "Brasileiro trabalha menos que a média mundial" na voz manhosa de Macunaíma lamentando "Ai! Que preguiça!". Para o estudo que fundamenta a reportagem, o que explicaria o "desvio brasileiro" por menos trabalho seria, nota-se, uma "questão cultural", isto é, "uma preferência por mais quantidade de lazer". Imaginei Macunaíma, o preguiçoso herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade, lendo isso sentado numa rede entre dois cajueiros onde dorme por dias a fio. Ai! Que preguiça!

CPI do Crime dribla cúpula do Congresso e improvisa CPI do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

CPI dedicada mais a facções e milícias pode tirar outros crimes do armário, mas tem limite

A quarta teve ainda prisão para a gangue que matou Marielle e mais rolo com fintech e emendas

Os senadores da CPI contra o Crime Organizado tentam improvisar uma CPI do Master, que vem sendo abafada pelos presidentes do SenadoDavi Alcolumbre (UB-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre outros interessados graúdos no assunto. No mínimo, pode ser uma investigação parcial dos rolos do Master. Se bem-sucedida, pode enfraquecer o acordão para abafar o caso, que vem sofrendo derrotas. Se conseguir depoimentos e documentos relevantes, pode desmoralizar elos da cadeia do pacto de silêncio, que é político e tem conexões empresariais relevantes. Mas tem empecilhos —mais sobre isso mais adiante.

Ibaneis está de pires na mão para salvar o BRB, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Tempo é o maior inimigo, mas é a política que está impedindo governador de enfrentar o problema de frente

Emedebista, que quer se candidatar ao Senado, tenta empurrar a solução com a barriga

Sem apresentar até agora uma proposta consistente para salvar o BRB, o governador da oposição Ibaneis Rocha (MDB) vai ficar de pires na mão e terá que pedir socorro ao governo Lula após o envolvimento do banco público no escândalo de fraudes do Master.

O tempo é o maior inimigo do BRB, mas é a política que está impedindo Ibaneis de enfrentar o problema de frente. O governador quer se candidatar e ganhar uma vaga no Senado e tenta empurrar a solução com a barriga.

A agonia de Cuba socialista, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É equívoco atribuir o desastre ao desumano embargo de Donald Trump

Na ilha só resta o aparato repressor que sustenta o governo

No magnífico romance "O Homem que Amava os Cachorros", de 2009, o escritor cubano Leonardo Padura traça um grande afresco do fracasso do socialismo real, por meio das histórias entrelaçadas de três personagens: Leon Trótski, dirigente da Revolução de 1917, forçado ao exílio pela implacável perseguição de Josef Stálin; o espanhol Ramon Mercader, militante comunista que penetra no refúgio do líder revolucionário russo no México para assassiná-lo; e o escritor cubano Ivan Cárdenas, personagem de ficção, que nos conta a história dos dois primeiros.

Momento decisivo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula tem só decisões difíceis pela frente em matéria de eleições. E a inação, sua postura favorita em crises, não é uma opção.

Em boa parte a situação em que se encontra foi criada por ele mesmo. É a de julgar que ferramentas que funcionaram antes vão funcionar sempre. Os sinais de que as coisas não são mais como há 20 anos se acumularam, mas Lula insistiu em mais do mesmo.

A gênese da crise atual do STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

A coisa fugiu do controle há sete anos, quando foi aberto o inquérito das fake news

A coisa fugiu do controle quando o Supremo Tribunal Federal (STF) escolheu usar o fim para justificar os meios. Mais precisamente há sete anos, quando foi aberto o inquérito das fake news para investigar crimes dos quais as vítimas tinham direito ao foro especial, não o investigado.

Desde que tomou posse como presidente da Corte, no ano passado, Edson Fachin tem recebido de colegas apelos para encerrar o inquérito. “Já passou da hora”, disse um ministro à Coluna em caráter reservado. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou um ofício a Fachin com esse pedido, mas é pouco provável que ele seja atendido.

Uma saída para os supersalários, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Não devemos cair na esparrela de demonizar o serviço público. Mas é chegada a hora de combater os excessos, sob pena de desmontarmos o arcabouço institucional erigido a duras penas pela Constituição

O teto remuneratório do serviço público é de R$ 46.366,19. Um valor alto, sim, se cotejado com a renda média do brasileiro, de R$ 3.613, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua). Contudo, não é correto, simplesmente, comparar a renda de grupos de trabalhadores do setor privado e/ou do setor público sem qualificações. É preciso levar em conta responsabilidades, riscos, importância das funções exercidas, função social e resultados esperados de cada trabalhador/servidor.

O acordo com a União Europeia: hora da verdade, por José Serra

O Estado de S. Paulo

O acordo poderá ser muito favorável ao Brasil se o País conseguir transformar o ambiente econômico interno

O acordo firmado com a União Europeia (UE) representa um passo estratégico de grande relevância para o Brasil, pois possibilita a ampliação de mercados, o fortalecimento das relações comerciais e o acesso a novos investimentos. O acordo dá ao País a chance de aumentar sua competitividade internacional, estimulando a inovação e o desenvolvimento econômico.

A oportunidade de inserção nos marcos da economia internacional é evidente. No entanto, o avanço só poderá se concretizar se a economia brasileira encontrar formas de funcionamento minimamente compatíveis com a realidade europeia. Não há como uma economia submetida a fortes tensões internas sustentar um padrão de desenvolvimento colaborativo com um parceiro externo que desfruta de melhores condições competitivas.

Lula perde favoritismo e Flávio consolida a candidatura da oposição, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Cenários reforçam essa percepção. Em três simulações contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5%

A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25), confirma aquilo que já vinha se desenhando nos levantamentos mais recentes: a eleição presidencial de 2026 está aberta, o favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser confortável e Flávio Bolsonaro consolida-se como o polo da direita na disputa, cristalizando novamente uma polarização dura, de alta rejeição dos dois lados.

Os números falam por si. No principal cenário testado, Lula aparece com 45% das intenções de voto, contra 37,9% de Flávio. O importante é o movimento: em relação à rodada anterior, Lula perdeu 3,8 pontos percentuais, enquanto Flávio cresceu 2,9. No segundo turno, Flávio Bolsonaro alcança 46,3% das intenções de voto, e Lula registra 46,2%, dentro da margem de erro de um ponto percentual. Em comparação ao levantamento anterior, o presidente recuou três pontos, enquanto o senador avançou 1,4 ponto.

Informação e eleições: a questão da credibilidade, por Dulce Baptista

Correio Braziliense

A perspectiva das próximas eleições no Brasil coloca a população votante diante de opções ainda condicionadas pela polarização político-ideológica que se instalou no país e pela influência do mundo virtual sobre o mundo real

Na perspectiva das eleições deste ano e diante da avalanche de notícias e informações que circulam em todas as direções — inclusive com invasão das fake news —, cai por terra a afirmação de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Atribuída a Confúcio e muito popularizada no século passado, principalmente nos meios publicitários, a dita afirmação sofre hoje o impacto avassalador das ferramentas de inteligência artificial (IA), que, sob qualquer pretexto, criam situações e flagrantes inverossímeis.

Interpretações perigosas, por Merval Pereira

O Globo

Há no Brasil uma tendência de flexibilizar a lei que pode comprometer a própria ideia do Estado de Direito

Quando o papel da Justiça é questionado em diversos países, como o Brasil, a Suprema Corte dos Estados Unidos tomou uma decisão fundamental para proteger a democracia americana dos arroubos do presidente Donald Trump. O poder de taxação sobre produtos importados, uma das bases de sua política externa coatora, tem de ser referendado pelo Congresso, não bastando decisão pessoal do presidente.

Há uma série de indicativos na decisão que nos remetem à relação do Executivo com o Supremo também entre nós. O jurista Gustavo Binenbojm afirma que, do ponto de vista do mérito, é a reafirmação de que a Suprema Corte, apesar de majoritariamente conservadora, composta por seis ministros indicados por presidentes republicanos, é independente. Essa maioria não significa que venha a tomar partido automaticamente a favor do governo.

Marielle ainda nos ensina, por Míriam Leitão

O Globo

O assassinato de Marielle desnudou o Brasil do racismo, do machismo, da misoginia, da homofobia e dos feudos sob domínio do crime

Quem chorou há oito anos pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes chorou ontem de novo. Nada aplaca a dor, mas o Brasil fez justiça unânime e pesada contra os mandantes do crime. No dia anterior ao julgamento, Luyara disse que sabia da importância da mãe, mas que nos últimos anos foi tendo a consciência da sua enorme dimensão. Sempre ficará contudo o vazio do que não foi, do que não pôde ter sido, e nunca poderá. O assassinato matou uma mulher negra que alçava voo e ela iria muito alto, por merecimento e determinação. É esse vazio impreenchível que está nos corações dos que a amaram e a entenderam.

STJ passa pano para estuprador, por Julia Duailibi

O Globo

Senhores do Direito começaram a achar ok não punir homens que estupram crianças de 10, 11 ou 12 anos

Os tribunais passaram a tratar o intolerável como razoável. Senhores do Direito começaram a achar ok não punir homens que estupram crianças de 10, 11 ou 12 anos. Em diferentes decisões, passaram a entender que o estupro de meninas, principalmente quando engravidam, pode levar à formação de um “relacionamento amoroso” e que, muitas vezes, os homens nem sabiam ter cometido crime. Mandá-los, agora, para a prisão, dizem, seria “estragar a família”.

Marielle e a cegueira da política, por Malu Gaspar

O Globo

Vivemos nesta semana um combo de fatos ao mesmo tempo históricos e simbólicos da tragédia brasileira.

Depois de uma novela criminal e jurídica que muitas vezes pareceu destinada a terminar sem solução, o caso Marielle Franco finalmente chegou ao fim, com a condenação dos acusados de envolvimento no assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. Um ex-deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro foram condenados a 76 anos de prisão por planejar e encomendar o crime. Um ex-chefe de polícia foi sentenciado a 18 anos por ajudar a acobertá-lo.

Poesia | Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Evaldo Gouveia - Garota Moderna

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra da Ucrânia faz quatro anos sob o signo do cansaço

Por Folha de S. Paulo

Pior conflito europeu desde 1945 se arrasta e pode ser trocado pelo Irã na lista de prioridades de Trump

Estudos indicam ao menos 500 mil óbitos militares e 15 mil civis; gasto militar da Europa subiu de 17% em 2022 para 21,4% em 2025

A Guerra da Ucrânia, um conflito que tanto a Rússia quanto o Ocidente acreditavam que estaria resolvido rapidamente, entrou nesta terça-feira (24) em seu quinto ano sob o signo da exaustão.

Cansados estão os ucranianos, submetidos a um regime de blecautes devido à degradação de seu sistema energético sob forte frio. Cansados estão os russos, isolados do Ocidente e pagando um preço altíssimo em sangue.

Pós-Lula tem Senado como possível campo de batalha, por Fernando Exman

Valor Econômico

Para integrantes do governo, a base na Casa foi prejudicada pela nomeação de lideranças de peso para ministérios

Em Minas Gerais, existe um ditado popular que pode ser usado para explicar o potencial interesse do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em disputar uma cadeira no Senado. “Político sem mandato é igual padre sem paróquia e general sem tropa”, diz a máxima. Faz sentido: se tudo correr como desejam os petistas em relação à eleição para o Senado, o carpete azul royal que decora o plenário da Casa Alta do Congresso Nacional se tornará o campo de batalha dos potenciais sucessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dentro do partido, com vistas à eleição de 2030.

Chocolates e vacas na geopolítica pós-Trump, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Relações comerciais entre Brasil e Índia são muito pequenas em relação ao tamanho das economias

No século XIX, a coroa portuguesa foi à Índia buscar mudas de árvores altas para fazer sombra aos cacaueiros cultivados por aqui. Vieram jaqueiras, mangueiras, laranjeiras. Essa combinação é usada até hoje no sul da Bahia, na região chamada Cabruca, cenário do clássico “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado. De lá, saem chocolates com terroir de frutas amarelas.

“É o que encanta os jurados”, contou à coluna Thiago Fernandes, diretor do consórcio Cabruca, que reúne 15 marcas de chocolate da região. No ano passado, barras com sabor de laranja, de queijo canastra com doce de leite e de cumaru conquistaram medalhas de prata na premiação da Academy of Chocolate, em Londres. No ano anterior, a marca Ju Arléo havia conquistado medalha de ouro com seu chocolate sabor cupuaçu. Desempenho semelhante foi alcançado pelas consorciadas na International Chocolate Awards de Nova York.

Correria pré-eleitoral explicita falta de foco, por Vera Magalhães

O Globo

Há risco de transformar temas estruturais em bandeiras eleitoreiras, com jogo para as plateias

O calendário político brasileiro tem um defeito conhecido: quando o tempo encurta pela proximidade das eleições, a tentação de decidir rápido demais sobre questões complexas aumenta, e a qualidade das decisões diminui. Com poucos meses de funcionamento efetivo antes de a campanha ganhar o centro da agenda, Congresso, governo e Judiciário se veem diante de uma pauta pesada: limitar penduricalhos no Judiciário, avançar em temas sensíveis como o fim da escala 6x1 e projetos de segurança pública, tudo isso enquanto a CPMI do INSS começa a obter acesso a provas do caso Master.

Lacerdismo volta à política brasileira, Por Ricardo Lewandowski

O Globo

É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita

O pensador grego Aristóteles, um dos fundadores da filosofia ocidental, que viveu há cerca de 2.500 anos, ensinava que a arte da política consistia na busca do bem comum, pautado por justiça e equidade, por meio de um debate racional, travado franca e abertamente. Esse ideal, que corresponde à própria essência da democracia, embora jamais tenha se concretizado em toda a sua plenitude, sempre pautou a ação daqueles que, filiados a tal tradição, atuaram na arena pública.

Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.

O Congresso e o banco Master, por Elio Gaspari

O Globo

Lembrai-vos da CPI da Americanas, um exemplo de CPIzza

O caso do Banco Master tornou-se radioativo. O Banco Central teve mais de um ano para enquadrá-lo e frangou o tamanho da fraude. O ministro Dias Toffoli tomou as rédeas do inquérito e embrulhou-se. O Supremo Tribunal Federal (STF) tirou-o do caso, mas, no mesmo lance, solidarizou-se com ele. (Como isso é possível, só o tempo dirá.) Uma parte do Congresso quer uma CPI; outra prefere apenas interrogar Daniel Vorcaro, dono da encrenca e arquivo vivo de suas ramificações.

Nessa confusão, em Brasília atira-se para todos os lados, menos para o alvo: as conexões de Vorcaro. Não deixa de ser curioso que, enquanto o tiroteio toma conta da agenda, a única instituição que vem investigando com sucesso o material radioativo é mantida ao largo da agenda. Trata-se da Polícia Federal (PF), a que se devem as poucas novidades saídas da caixa-preta do Master.

A milícia no banco dos réus, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Investigação escancara ligação entre política, polícia e crime organizado no Rio

O julgamento do caso Marielle levou ao Supremo uma realidade conhecida dos cariocas: a ligação entre política, polícia e crime organizado.

A Procuradoria-Geral da República expôs a conexão dos irmãos Brazão, acusados de encomendar o assassinato da vereadora, com grupos armados que dominam territórios nas zonas Norte e Oeste do Rio. Esses laços não são novos. Já haviam sido mapeados pela CPI das Milícias, concluída em 2008.

Julgamento de mandantes do assassinato de Marielle será divisor de águas, Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O crime contou com a cobertura do próprio chefe da Polícia Civil à época, o delegado Rivaldo Barbosa, que prejudicava as investigações para evitar que chegassem aos verdadeiros assassimos e seus mandantes

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou ontem o julgamento dos acusados de mandar matar a vereadora carioca Marielle Franco e o seu motorista, Anderson Gomes, com o pedido de condenação dos réus pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e as defesas dos acusados. Marielle foi morta a tiros em 14 de março de 2018, no bairro da Lapa, na região central da capital fluminense. A vereadora, que saía de um evento com mulheres negras, foi assassinada com quatro disparos na cabeça. Anderson Gomes, motorista do carro que a transportava, foi atingido por três projéteis nas costas e morreu.

Projeto de Derrite favorece máfia do combustível? ‘Nada aí foi retirado graciosamente’, diz senador, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Substitutivo apresentado por Derrite e aprovado nesta terça-feira exclui dois artigos aprovados pelo Senado que disciplinavam o controle da venda de combustíveis no Brasil para impedir a ação da máfia ligada ao PCC

Mal foi apresentado na Câmara dos Deputados, o substitutivo do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) no PL Antifacção, aprovado nesta terça-feira, 24, pela Câmara dos Deputados, virou alvo do escrutínio de senadores e deputados preocupados com as alterações feitas no texto do Senado. E entre elas está a supressão de dois artigos, o 17.° e o 18.º do projeto do Senado, que apertavam o cerco aos fraudadores de combustíveis para impedir que a máfia ligada a sonegadores contumazes e ao Primeiro Comando da Capital (PCC) continuassem a operar no País.

O peso que o Senado merece ter, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Ter uma Casa Alta composta pelos melhores nomes de cada Estado é uma pauta, uma necessidade, da sociedade

Este artigo tem um objetivo concreto. Advertir para a importância do Senado – de como temos em nossas mãos um instrumento incrível, que pode ser muito útil ao Brasil – e para a nossa responsabilidade, enquanto sociedade, de proporcionar que a Casa Alta possa funcionar à altura de suas atribuições constitucionais. Penso que não é uma utopia ter um Senado composto por pessoas sérias e competentes, lideranças reais em seus Estados, capazes de pensar e de realizar o Brasil. Depende de nós.

STF corrói o próprio capital, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É com o esforço de ministros que o Supremo vem demolindo seu patrimônio de confiança junto à população

A recuperação é obra que leva tempo, requer autocrítica e, sobretudo, grau elevado de espírito público

O Supremo Tribunal Federal não veio parar onde está de repente, por acaso ou sem o esforço de seus integrantes. Foi um trabalho meticuloso ao longo dos últimos anos de corrosão de um dos preceitos constitucionais que norteiam a administração pública: a impessoalidade.

Ministros adotaram atitudes de estrelas e, em alguns casos, com um traço de empáfia mais comum nas subcelebridades que nos astros de verdade. Atrairiam apenas antipatia se não ultrapassassem outros mandamentos daquele definidor artigo 37 da Constituição de 1988 que exige do servidor respeito à legalidade, à moralidade, à publicidade e à eficiência.

A meia furada e a orgia do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente da CVM diz no Senado que banco superavaliava ativos com ajuda de cúmplices

Fundos secretos, de laranjas e empresários amigos, facilitavam a fraude

Banco Master não existia. Era um zumbi podre que seria comprado pelo BRB, o banco estatal do Distrito Federal, o final de um crime perfeito: ganhar dinheiro com a desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público em geral. Basicamente, era um esquema para pegar dinheiro emprestado, que sabia não ter como pagar, e sumir com o tutu.

Provas e indícios desse esquema aparecem faz meses. Só piora. Nesta terça, João Accioly, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), disse no Senado que haveres do Master eram "meia furada" que diziam valer "R$ 500 milhões" em fundos misteriosos. Era, claro, metáfora.

A arte de pisar em cascas de banana, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A folia do presidente e Janja foi um desastre de comunicação contratado e evitável

Mesmo com estrategista, Lula dispensou o cálculo e se entregou ao conforto da adulação

Lula, Janja, Toffoli e Moraes —para ficar em figuras centrais da República no debate público da última semana— provavelmente estão convencidos de que controlam a própria comunicação. Quer dizer, que sabem preservar sua imagem, proteger o próprio capital reputacional, compreender os códigos pelos quais são julgados e evitar as armadilhas narrativas que os adversários produzem. À luz do modo como foram pautados na mídia e na conversação pública, entretanto, não são exemplo de sucesso.

Poesia | Mauro Mota - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Evaldo Gouveia - O Trovador

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descontrole de gastos aflige programas sociais

Por O Globo

Despesa subiu 500% desde 2004, sem que haja avaliação de eficácia para evitar desperdício

É inegável a importância dos programas de Estado no combate à vulnerabilidade social, mas as boas intenções das gestões petistas têm sido acompanhadas de descontrole, traduzido na explosão de gastos que deteriora o equilíbrio das contas públicas, reduz o espaço orçamentário para outras demandas e prejudica as próprias populações que se pretende beneficiar. É sinal eloquente desse descontrole a constatação de que a despesa com programas e benefícios sociais subiu 500% desde 2004, já descontada a inflação, de acordo com cálculo da Instituição Fiscal Independente do Senado realizado a pedido do GLOBO. O mais grave é não existir monitoramento sobre a eficácia das políticas sustentadas por tais gastos.

Entrada de Flávio Bolsonaro não muda o jogo, por Christopher Garman

Valor Econômico

Com Flávio ou Tarcísio na oposição, ainda é difícil apostar contra a reeleição do presidente

Há cerca de três meses, era consenso entre políticos e comentaristas que o nome escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar a Presidência como candidato da direita seria a variável-chave para prever o resultado das eleições de outubro. Se Bolsonaro escolhesse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a oposição caminharia para uma vitória em 2026; caso optasse por alguém de sua família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria reeleito de forma razoavelmente tranquila.

O raciocínio se baseava na percepção sobre a competitividade dos candidatos. Tarcísio tem baixa rejeição e um perfil mais moderado e de bom administrador; já os Bolsonaro carregavam os altos índices de rejeição do pai e, supostamente, seriam bem menos competitivos.

Os projetos contra a venda de mais terrenos na lua, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O cerco sobre os sócios do Master na política impedirá que resistam aos projetos que evitam a alavancagem excessiva do sistema financeiro

Depois de anos de omissão, que abriram as portas para o Master produzir o maior escândalo financeiro da história do país, o Senado e a Câmara, em menos de 24 horas, apresentaram duas alternativas para evitar novos rombos.

A quaresma regulatória do Congresso começou no fim da tarde da quinta-feira, quando o senador Renan Calheiros (MDB-AL), enviou, de Maceió, um novo projeto, o PLP 30, para evitar que evitar que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seja usado como isca para a venda de papéis em operações excessivamente alavancadas. Quando o FGC começou a pagar os clientes do Master lesados, em janeiro, ainda havia corretoras vendendo terrenos na lua.

Causas não convencionais para os juros altos, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Valor pago aos rentistas representa 8% do PIB no Brasil e 2% nos países da OCDE

A grande mídia publica frequentemente artigos e reportagens que justificam as elevadas taxas de juros básicos do Brasil, atualmente em 15% ao ano. Antes do Carnaval, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que precisam ser “melhor debatidas com a sociedade” as razões pelas quais o país tem de sustentar juros tão elevados, muito maiores do que os de seus pares.

Críticas à atuação do BC são menos frequentes. É oportuno, portanto, resumir uma didática opinião não convencional de um dos maiores economistas brasileiros - o nome dele está no pé da coluna, tente adivinhar quem é apenas lendo as ideias.

Questionamento da OAB mostra o esgotamento do inquérito das fake News, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com o passar do tempo, o procedimento passou a incorporar fatos distintos, conexões sucessivas e objetos cada vez mais amplos

O ofício encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Édson Fachin, marca um ponto de esgotamento do Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News, como instrumento efetivo de defesa da democracia. Sempre houve contestação à forma como foi instalado de ofício pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, bem como à designação do seu relator, o ministro Alexandre de Moraes, sem obedecer aos critérios regimentais de distribuição. Entretanto, o inquérito acabou legitimado pela tentativa de golpe de 8 de janeiro, cuja preparação foi iniciada no dia 7 de setembro de 2021, e serviu de instrumento efetivo para a condenação dos golpistas, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Quando os bichos falavam, por Merval Pereira

O Globo

São 11 integrantes que, em tese, podem errar por último. Não há mais ninguém, ou nenhuma outra instituição, acima deles

A democracia é o pior dos regimes com exceção de todos os demais, já reconhecia o grande estadista e primeiro-ministro inglês Winston Churchill, especialista em ler a alma humana. Se não fosse assim, como seria possível que a mesma instituição reconhecida como fundamental pela defesa da democracia brasileira seja vista, pouco depois, como responsável por seu desfiguramento?