quinta-feira, 30 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trégua nos preços, riscos à frente

Por Folha de S. Paulo

Prévia da inflação surpreende positivamente e melhora perspectivas para reduzir a taxa Selic

Convergência à meta ainda enfrente muitos obstáculos, sobretudo os relacionados ao desequilíbrio fiscal produzido pelo governo Lula

inflação enfim começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho, prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos.

O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano.

Fortes em GO e MG, Caiado e Zema não conseguem nacionalizar candidaturas, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Que país queremos? Essa pergunta está posta novamente nas eleições, com o agravante de os liberais não terem um projeto claro

A eleição presidencial mostra uma polarização assimétrica. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a disputa nacionalmente e conserva vantagem nas simulações de segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro demonstra resiliência suficiente para permanecer como seu principal adversário. Apesar das denúncias, erros e brigas na campanha de Flávio, as possibilidades de uma terceira via continuam restritas. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (GO) e Romeu Zema (MG), apesar da projeção conquistada como governadores, não conseguem transformar seus redutos regionais em alavanca para nacionalizar suas candidaturas.

Os principais colégios eleitorais mostram dois Brasis, o meridional e o setentrional. Essa divisão foi apontada a primeira vez em 1920, Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho, os quais foram sucedidos pela publicação meteórica de mais quatro ensaios: “O idealismo da Constituição” (1920), “Pequenos estudos da psicologia social” (1921), “Evolução do povo brasileiro” (1923) e “O ocaso do Império” (1924). O primeiro volume de “Populações meridionais do Brasil” dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as instituições da época.

A campanha eleitoral dentro de um carro chinês, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha arrisca passar ao largo de temas como a transformação do país no maior mercado de carros chineses do mundo

Na tarde deste domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na posse da nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC onde disse que a abertura do mercado brasileiro ao carro chinês levou a indústria automobilística a investir em modelos híbridos e vender mais. Dali, Lula embarcou para Brasília onde falaria às 22h com o dirigente chinês, Xi Jiping.

No relato da agência Xinhua, Xi apoiou o Brasil na ‘defesa de sua soberania e independência em oposição a interferências externas’, o que vai de encontro à tradição do país de não se escudar em proteção alheia. Dois dias depois, a manchete do Valor desenhou a curva da estrada: “Brasil já é o maior importador de carro chinês do mundo”.

As urnas em números, por Merval Pereira

O Globo

O PT hoje vive uma dicotomia. Enquanto “desmelhora” no Nordeste, onde sempre reinou, “despiora” no Sudeste

Não é apenas em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, que se decide a eleição presidencial, mas também em São Paulo, o maior. Em Minas, há uma divisão regional comparável à do Brasil, por isso o vencedor lá geralmente ganha no país. É como se o estado fosse uma amostra do país. Mesmo que vencer em São Paulo não signifique vencer no país, uma vitória expressiva no maior colégio eleitoral pode garantir a eleição. Em 2018, Jair Bolsonaro saiu de São Paulo com 8,1 milhões de votos à frente de Fernando Haddad, garantindo uma vitória ampla sobre o PT. Em 2022, quando perdeu para Lula, a diferença a favor de Bolsonaro caiu para 2,7 milhões, redução de 5,4 milhões de votos.

O risco que Lula corre na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Interlocutores do governo identificaram um clima de “já ganhou” entre autoridades, o que é um duplo erro. É preciso ter projeto para o mandato

Há uma avaliação entre interlocutores do atual governo, de que teria se espalhado dentro da administração a convicção de que a eleição está ganha. Em vez de apresentar um projeto para o próximo período, a presidência e os ministros apenas dizem que os programas seriam a continuidade do atual. O erro primeiro é que nenhuma eleição está resolvida de véspera; apesar do favoritismo do presidente Lula há incertezas pela frente. O segundo equívoco é não perceber que o próximo mandato presidencial tem desafios específicos que precisam ser enfrentados com propostas sólidas.

Nunes Marques e o deepfake do bem, por Julia Duailibi

O Globo

Se ele inovar, na contramão do tribunal que preside, lançará o conceito da desinformação inofensiva

Quis o destino — ou o sistema de distribuição dos processos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — que a ação movida pelo PT contra o senador Flávio Bolsonaro, pelo uso de IA na convenção do PL, fosse parar nas mãos do ministro Nunes Marques. Caberá agora ao presidente do TSE decidir se segue o entendimento atual, que proíbe o uso de deepfake nas campanhas, ou se inova e propõe a liberação da tecnologia na eleição deste ano, endossando os argumentos da campanha de Flávio.

O TSE proíbe o uso de IA para criar imagem e voz de pessoas de maneira realista nas eleições, conhecido como deepfake. Resolução de 2019, alterada e reforçada por outras duas, em 2024 e em 2026, veda a tecnologia, seja para prejudicar ou favorecer determinada candidatura, seja com ou sem autorização daquele cuja imagem e voz foram sintetizadas.

Tanto faz, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Para alguns dos maiores grupos políticos, serve qualquer Presidente

Alguns dos principais partidos políticos no Brasil consagraram a abordagem “tanto faz” para as eleições presidenciais. Tanto faz, pois consideram que saem ganhando não importa o candidato. Não, não é mais o famoso “toma lá, dá cá”.

Esse “vamos ganhar de qualquer jeito” não precisa aguardar o segundo turno. As maiores agremiações que declararam neutralidade – juntas, têm 40% da Câmara – só pensam em aumentar bancadas na Câmara e no Senado. E encontraram um jeito de evitar “queimar”, em campanha presidencial eventualmente perdedora, preciosos recursos dos fundos partidário e eleitoral.

Ministros veem abuso e querem frear IA, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Vídeo de Bolsonaro não deve causar cassação do registro de Flávio, mas pode gerar alerta

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está diante do primeiro grande desafio sobre o uso de inteligência artificial nas campanhas deste ano. A Corte está para decidir se configura ou não abuso o vídeo exibido na convenção do PL com um avatar de Jair Bolsonaro pedindo voto para o filho Flávio, candidato a presidente.

Três dos sete ministros do TSE falaram à coluna em caráter reservado. Para um deles, não houve abuso. Segundo esse ministro, a tecnologia pode ser usada em qualquer situação, desde que não seja para disseminar notícia falsa ou para prejudicar alguém.

Sua Excelência, a restrição orçamentária, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Não se escapa de um ajuste fiscal mais profundo, desta vez, porque a realidade está se impondo

Muitos políticos agem como se o dinheiro público jorrasse do Lago Paranoá. Essa prática fere a Constituição e compromete o futuro do País. Mas, afinal, o que é responsabilidade fiscal?

Responsabilidade fiscal traduz-se num Orçamento equilibrado, com receitas suficientes para financiar as despesas públicas. Não erra, portanto, o senso comum: só se gasta o que se ganha. Mas é um pouco mais complicado.

O País não começa, a cada ano, “do zero”. Há um estoque de endividamento, cuja consequência é um volume anual de gastos com juros de R$ 1,1 trilhão. Além disso, a dívida emitida no passado vence no presente e, no lugar dela, novos títulos públicos são emitidos e mais juros são contratados.

Esses empréstimos, no caso do governo, são os títulos públicos emitidos. Quem os adquire aposta em certa probabilidade de o governo “quebrar” no prazo acordado na compra do papel. Na verdade, os emprestadores aceitam uma taxa de juros que, em sua percepção, será suficiente para cobrir esse risco e preservar o poder de compra do seu capital.

A política de Trump veio para ficar? Por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.

Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?

Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.

Nunes desmonta patrimônio cultural de São Paulo, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Demolição do Cruz da Esperança, tradicional espaço de cultura preta, é desrespeito à capital paulista

Revela uma visão de cidade: a do cercadinho, de um lado, e a do espaço público para todos, de outro

Realizada nesta quarta-feira (29), a demolição do Espaço Cruz da Esperança, no bairro da Casa Verde, na zona norte da capital paulista, é um dos últimos exemplos de desrespeito da Prefeitura de São Paulo com o patrimônio cultural da cidade. Fundado em 1958, o Espaço Cruz era um dos principais locais de cultura preta na metrópole, com rodas de samba, capoeira, futebol e práticas religiosas. Ao longo do dia, chegaram à imprensa denúncias de desrespeito ao patrimônio religioso, como demolição sem respeitar rituais de locais sagrados de terreiro.

Flávio repetirá Trump e Milei sobre a OMS? Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Candidato irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na organização ou a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo?

Desfiliação tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo por Trump e seu colega argentino

A desfiliação da OMS (Organização Mundial da Saúde) tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.

A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.

Um banana no Planalto, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio B. em campanha se reduz a um coadjuvante choramingas de quem estiver ao seu lado

Se é pífio como candidato, imagine como presidente; mas, e se for isso que a Faria Lima quer?

O sujeito não para em pé, suspira a Faria Lima. Na pífia cerimônia do lançamento de sua candidatura à Presidência na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro deu mais um motivo para os agros, financistas e empresários suspeitarem que (por falar em cavalo) estão apostando no cavalo errado. Flávio B. reduziu-se a coadjuvante de seu convidado, o bufão Javier Milei, e de um telão estrelado por uma piedosa IA de seu pai e por sua madrasta, a gélida Michele. É o papel historicamente reservado ao 01 –sempre próximo de zero.

Brasil e Argentina para além de Milei, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Apoio aos Bolsonaros rompe padrão de relacionamento estabelecido quando os dois países se democratizaram

Faltou às duas nações vontade de criar estruturas supranacionais resistentes

Nada como a extrema direita para degradar a política em espetáculo de grosseria e vulgaridade! Foi o que se viu do presidente argentino Javier Milei, na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Em seu prolixo discurso, entrecortado por palavrões, o mandatário do país vizinho ofendeu o presidente Lula e um ministro do Supremo. Terminou sua participação cantando, em tom alucinado, um rock que dizia: "Eu sou o leão, rei de um mundo perdido", "sou o rei e te destroçarei". Na verdade, o autoproclamado manda-chuva das selvas veio ao Brasil como arauto da "onda azul", tratando de adular Donald Trump, que se empenha em transformar a América Latina em território dominado por aliados ultradireitistas.

Poesia | O Elefante, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Luiza Lara - A Violeira (Tom Jobim/Chico Buarque)

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela

Por O Globo

Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão

Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.

Os três signos da eleição 2026, por Vera Magalhães

O Globo

Disputa de 2026 encerra um ciclo de polarização, e uso massivo da IA e interferência dos EUA na disputa tornam incerta reação do eleitor e resposta das instituições

Há alguns paralelos possíveis entre a eleição de 2026 e as que a antecederam, mas pelo menos três fatores conferem a ela um grau de ineditismo e devem ditar a tônica da disputa.

O primeiro é histórico: trata-se, qualquer que venha a ser o resultado das urnas, do encerramento do ciclo de polarização entre bolsonarismo e lulopetismo inaugurado em 2018. A escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, para lhe suceder deu sobrevida a esse antagonismo, que chega a sua terceira versão. Na inauguração dessa era, foi Jair contra o “candidato do Lula”. Quatro anos depois, houve o acirrado confronto direto entre os dois líderes personalistas. E, agora, Lula tenta o quarto mandato enfrentando o herdeiro do clã adversário.

Não haverá em 2030 reedição dessa contraposição que tem impedido, à esquerda, à direita e ao centro, o surgimento de uma nova força política. Desde 2018, qualquer um que se apresente como alternativa a essa escolha maniqueísta tem recebido do eleitor o tratamento de “nanico”, e as pesquisas, até aqui, não permitem dizer que seja diferente neste ano.

Três tons de direita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao atacar candidato do PL, Caiado pregou coragem que parece faltar a Zema

Os presidenciáveis da direita botaram o bloco na rua. Flávio Bolsonaro puxou o cordão no último sábado. Foi seguido por Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O Zero Um chegou à convenção do PL sob pressão. Precisava mostrar que a candidatura continua de pé, apesar do abalo com o caso Master e da crise com a madrasta.

O ato foi marcado por ausências ilustres. Michelle enviou vídeo, mas não compareceu. Jair ficou na prisão domiciliar, e Carlos preferiu visitar Eduardo nos Estados Unidos.

Com o clã desfalcado, Flávio teve que se contentar com o irmão caçula. Foi acompanhado por Jair Renan, o vereador que diz “incomodar o sistema” de Balneário Camboriú.

Diplomacia carcerária é uma praga, por Elio Gaspari

O Globo

Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos

Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

— Palhaço.

Vem aí a fase de testes da reforma tributária, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Entidades pedem ‘harmonização regulatória’ e ‘medidas que garantam segurança jurídica e operacional’

A fase de testes da reforma tributária deve começar na próxima segunda-feira, dia 3. Empresas passarão a informar, nas notas fiscais, o valor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), dois tributos criados na reforma e que compõem o Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

No teste, será apurada, mas não recolhida, uma alíquota de 1%. As informações ajudarão a calcular qual alíquota será necessária para que o IVA arrecade o mesmo que o sistema tributário atual.

O problema é que nem todas as empresas estão preparadas para cumprir essa exigência. Mas, se não o fizerem, correm o risco de não conseguirem emitir notas fiscais.

O elogio a uma ditadura, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O promotor Gakiya deixou claro o que significa o modelo de El Salvador na Segurança Pública

Candidatos à Presidência da República à procura do voto de quem se sente inseguro no Brasil têm espalhado uma ideia: copiar o modelo de combate ao crime do salvadorenho Nayib Bukele, que governa há cinco anos seu país em estado de exceção. Bukele é um ditador como seu vizinho, o nicaraguense Daniel Ortega.

A lacração e o populismo que o vê como solução pouco se importam com a razão de Donald Trump nunca ter adotado tal modelo para os EUA, embora o defenda para os latino-americanos. Washington não chama a máfia americana de terrorista ou defende bombardear Little Italy. Mas a famiglia Gambino não vive no Rio. Afinal, por que americanos não podem ser mortos ou encarcerados sem acusação ou direito à defesa?

O risco da complacência com Donald Trump, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global

Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.

Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta Jansen

O Estado de S. Paulo

O antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos

O carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros

Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.

Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Enquanto progressistas abandonam seus artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político

Vigilância, denúncia e punição alimentam tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação

Ana Maria Machado João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

A obsessão com a decadência é a antecâmara do autoritarismo, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Autor nascido no século 19 ajuda a entender a direita de hoje

Direitas radicais compartilham convicção de que Ocidente está em perigo iminente

Há cem anos o mundo descobriu que o livro mais influente na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial era um volume de 600 impenetráveis páginas escritas por um ex-professor de escola secundária e acadêmico frustrado, dispensado do serviço militar pelas suas vistas curtas, que usou uma magra herança para explicar toda a história sem precisar analisar um documento.

O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.

Todos contra a educação, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lei da Copa, ao obrigar as escolas a darem férias durante todo o mês do evento, é retrocesso

Organizar calendário escolar não é tarefa trivial e deveria estar ao abrigo de investidas de políticos

Vários fatores conspiram para tornar o Brasil um suave fracasso. Um de nossos vícios estruturantes é o papel de coadjuvante que atribuímos à educação. Tivemos um bom exemplo disso na pandemia, quando autorizamos os shopping centers a sair do lockdown meses antes da reabertura das escolas.

A baixa prioridade dada à educação ganhou um novo capítulo com a sanção da lei nº 15.421/26, a Lei da Copa do Mundo Feminina, evento que terá lugar entre 24/6 e 25/7 do ano que vem no Brasil. O artigo 67 do diploma determina que todas as escolas do país, públicas e privadas, decretem férias durante a Copa. Os bons sentimentos por trás da medida são os de sempre: incentivar a participação popular e promover a isonomia de gênero, dando ao esporte feminino a mesma centralidade do masculino.

Na campanha do PL o candidato é o de menos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro foi figurante da dupla Jair e Javier na convenção em que a estrela deveria ser ele

Deslocado no figurino que o pai o mandou vestir, o senador não se encaixa em nenhum perfil com nitidez

Os estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro tiveram duas ideias para animar a convenção do PL. Nenhuma delas tinha como figura central o candidato. Ambas atearam fogo na controvérsia litigiosa e jogaram zero luz sobre o que pretende o postulante a presidente.

Estiveram lá o argentino que ora preside um país com a imagem ainda fresca de mau perdedor, despejando grosserias, e um Jair Bolsonaro de IA dando a entender que será ele o protagonista da cena governamental caso o filho seja eleito.

Candidatos de oposição têm agenda comum focada nos pontos fracos de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Hertz disputa esquerda crítica ao governo; Cury procura moderados; Caiado representa centro-direita administrativa; e Avalanche aposta no populismo

Promovida pelo Correio Braziliense, ontem, a primeira rodada de sabatinas com candidatos à Presidência mostrou que existe uma agenda comum de oposição ao governo, embora sejam muito diferentes as alternativas apresentadas. Hertz Dias (PSTU), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Leonardo Avalanche (PRTB) criticaram, por caminhos distintos, a condução da economia, o funcionamento das instituições, a política externa e a capacidade do Estado de enfrentar os problemas da população.

Essa convergência pode dificultar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, porque amplia o discurso oposicionista para além de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, essas candidaturas retiram votos do filho de Jair Bolsonaro, mas ninguém sabe qual será o destino desses eleitores num eventual segundo turno.

Os três caminhões de Argirita e o novo ofício do deputado federal, por Jairo Nicolau

Política & Dados

Uma cena numa cidade mineira e o que ela revela sobre a nova realidade das emendas parlamentares

Há poucas semanas fui a uma festa da família em Argirita, simpática cidade da Zona da Mata de Minas Gerais. Argirita tem uma população de cerca de 2.700 habitantes (2025) e tem a estrutura de centenas de pequenas cidades brasileiras: um núcleo urbano, que se organiza em torno da igreja matriz e de uma praça, e uma área rural, onde reside uma pequena fração da população do município.

Passeando pela cidade fiquei surpreso ao encontrar na praça principal, três caminhões estacionados, com uma faixa estendida entre eles, com os seguintes dizeres:

Consultando a excelente Plataforma Sólon, que disponibiliza dados sobre o valor das emendas transferidas para cada município, descobri que somente em 2026, Argirita recebeu 3 milhões de reais de emendas de deputados federais e senadores. O deputado Luiz Fernando (PSD) alocou valores expressivos na cidade nos últimos dois anos.

Não tenho como avaliar qual é a utilidade dos três caminhões novos para Argirita (minha intuição é que eles devem ser úteis), nem consegui saber como foram gastos os recursos das outras emendas parlamentares. Mas a partir desse episódio e de outros relatos, tenho pensado em dois efeitos da maciça utilização das emendas parlamentares no país.

Poesia | O açúcar | Ferreira Gullar

 

Música | Nara Leão - O que será (Chico Buarque)

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

A 'herança maldita' que o PT esconde

Por Folha de S. Paulo

Dívida, estatais e expansão fiscal revelam quadro bem mais preocupante do que indicam as metas do governo

Entre junho de 2022 e junho de 2026, o impulso fiscal saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política expansionista

As contas públicas brasileiras chegam perto do fim do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em situação muito mais vulnerável do que o discurso oficial tem buscado demonstrar publicamente.

Embora a área econômica venha repetindo nas últimas semanas que cumpre as metas previstas em seu arcabouço fiscal, os principais indicadores caminham na direção oposta.

A dívida pública cresce, os déficits tornam-se recorrentes, as estatais voltam a representar risco para o Tesouro e o impulso fiscal é muito maior do que mostram as estatísticas convencionais. A distância entre a narrativa oficial e a realidade das contas públicas tornou-se impossível de ignorar.

Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Senador aposta que o colapso da política externa poderá ser atribuído a Lula e convertido em votos para a oposição, ao provocar crise econômica

Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.

A ameaça do protetorado americano na bacia do Prata, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Milei presta serviço a Trump, tem uma agenda liberalizante que converge com demandas do eleitorado brasileiro e é competitivo para sua reeleição

Javier Milei enfrenta percalços de popularidade desde o início do arrocho, o que não o impediu de ganhar as eleições legislativas de outubro. Suas medidas vêm, ainda, sendo legitimadas pelo Legislativo. Quando percebeu que seria derrotado, como na votação do orçamento para a educação, recuou. “Com um custo social altíssimo, Milei domou a fera e a sociedade argentina topou porque seu programa de controle inflacionário é um sucesso”, diz a historiadora e especialista em relações Brasil-Argentina Monica Hirst. “O que ele inaugurou na convenção do PL foi a estratégia de fazer deste sucesso uma bandeira regional a serviço de Donald Trump”.

Arroubos privatistas revelam descuido ou anacronismo, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Dados históricos indicam que nacionalizações também podem produzir benefícios ao permitir maior controle político sobre prioridades de investimento

Dias atrás, um pré-candidato à Presidência disse que não existe “vaca sagrada” nas estatais e que pretende fazer privatizações em “larga escala” caso seja eleito. Entende-se que pretende privatizar Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica e outras grandes estatais.

Essa declaração, apoiada por outros pré-candidatos, embora com menos ênfase, indica que, em ano eleitoral, os brasileiros precisam refletir sobre propostas de governo e, principalmente, ficar atentos a anacronismos de lideranças.

No atual quadro geopolítico global, o Brasil, como qualquer outro país, não pode pensar com o cérebro dos anos 1980/90, moldado pelo neoliberalismo. Liberalização financeira, abertura comercial, corte abrupto de gastos públicos, Estado mínimo e privatizações em larga escala já não são pilares dominantes da ordem econômica global, como no período pós-Guerra Fria.

Encantamento pertinaz, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões

Há um descolamento entre as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República e o esboroamento moral de uma candidatura. Trata-se, no caso, da do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aclamado como candidato de seu partido em convenção nacional realizada no fim de semana passado. A revelação de fatos comprometedores que o envolvem não afetou seu potencial eleitoral.

Desde que, há cerca de um ano, seu nome começou a ser apontado como o mais forte da extrema direita para concorrer à Presidência, Flávio Bolsonaro registrava entre 36% e 38% das intenções de voto. Isso ocorreu entre junho e dezembro de 2025, segundo o Datafolha.

Problema de Flávio não é o Centrão, é o eleitor, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio não perde votos pelo abandono do Centrão, perde o Centrão pelo abandono do eleitor independente

A debandada do Centrão é um baque mais político do que eleitoral para a candidatura de Flávio Bolsonaro. É um alarme avisando que aliados à direita, como PP, Republicanos e União Brasil, não estão botando muita fé nas chances de Flávio e isso pode significar retirada de apoio de setores-chave, mas não, necessariamente, perda de votos.

Ok, os chamados “setoreschave”, como indústria, comércio, agronegócio e igrejas, são suscetíveis aos movimentos e alarmes políticos e partidários e influenciam, sim, os votos em massa. Esses votos, porém, seguem mais as ondas, percepções e versões que se disseminam na sociedade, além do principal: o próprio interesse e o bolso do eleitor.

Inexistência individual autônoma, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A convenção nacional do PL foi a convenção de Jair Bolsonaro, ainda que, de vez em quando, alguém se lembrasse de que oficializada ali era a candidatura de Flávio Bolsonaro. Disse Tarcísio, carinhoso: “Flávio está aqui não pelo sobrenome”. Carinhoso – e falso. Estava ali pelo sobrenome somente. Senador somente pelo sobrenome. Candidato à Presidência somente pelo sobrenome. Produto de fenômeno dinástico, puro-sanguista, que se hierarquiza em função da família.

Da família, não. A família de Michelle – ela fez questão de esclarecer – não é a mesma de Flávio.

Milei estraga um bom momento, por Míriam Leitão

O Globo

Presidente argentino cruzou linhas vermelhas da diplomacia, criou uma crise com seu principal parceiro comercial e pôs em riscos agenda de acordos do Mercosul

A crise diplomática provocada pelo presidente Javier Milei ocorre num momento de intensa, ambiciosa e bem sucedida agenda internacional do Mercosul, com uma série de negociações promissoras. O bloco fez acordo com a União Europeia, Efta ( países nórdicos), Cingapura. Negocia com o Canadá, Emirados Árabes, Vietnã. A Inglaterra pediu conversas, a Índia quer aprofundar acordos, o tema foi assunto de conversa entre Lula e o presidente da ChinaXi Jinping. O Mercosul está sendo visto como um “oásis de regras claras”, definiu um negociador brasileiro, dizendo que é um paradoxo a crise num momento tão favorável.