domingo, 5 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta da dívida no governo Lula é uma aberração

Por O Globo

Previsão é que ela atinja 84% do PIB até o fim do ano, 12 pontos além do nível registrado no início do mandato

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assessores palacianos descrevem os críticos do crescimento galopante da dívida pública como alarmistas histéricos. Afinal, argumentam eles, não é apenas no Brasil que o endividamento tem aumentado. Usando análises e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), dizem que a alta em todo o terceiro mandato de Lula ficará abaixo da média dos países emergentes e de renda média. Na quinta-feira, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que liderou o Tesouro nos últimos três anos, descreveu o debate como “superficial”. A equipe econômica esquece, porém, a situação sui generis do Brasil. Entre as grandes economias emergentes, o país tem a segunda maior dívida como proporção do PIB, atrás apenas da China. Mesmo que outros países tivessem margem para dever mais, o Brasil já estava no limite antes de o atual governo começar. E só piorou depois.

O mundo Gilead do Bolsonarismo, por Míriam Leitão

O Globo

A fala contra a mulher não é falácia de um fanfarrão para viralizar. Faz parte de um discurso da ultradireita que cresce mundialmente

Não é apenas uma bizarrice de um fanfarrão grosseiro. É um movimento perigoso pela eliminação do direito do voto da mulher que tem crescido na extrema direita. Há projetos que restringem as garantias civis das mulheres. Eles estão falando sério, por mais que pareça escalafobético. Algumas propostas avançam. Sim, a extrema direita gostaria de impor a nós esta ruína civilizatória.

O que Paulo Figueiredo disse não deve ser entendido como uma grosseria individual e fortuita. Não é apenas uma “treta” condenada a desaparecer quando algo mais absurdo viralizar. Na verdade, falou por uma corrente de pensamento que acredita na inferioridade da mulher.

Uma nova barreira entre Flávio Bolsonaro e o voto feminino, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao dizer que 'mulher vota mal pra c...', neto de ditador escancarou o que a turma pensa

No dia em que Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher, os homens é que dominaram o microfone. O primeiro a discursar foi Jair Bolsonaro. Depois falaram mais quatro engravatados: Valdemar Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta.

Em participação por vídeo, o capitão exaltou o crescimento do partido, mas ignorou os temas femininos. Valdemar leu uma longa nominata, e Côrtes cometeu uma gafe ao apresentar a mulher de um deputado gaúcho como sua filha.

Sem medo de soar machista, Jorginho se queixou do “sacrifício” e do “sofrimento” de ter que encontrar nomes para preencher a cota de 30% de candidaturas femininas. “Nós precisamos aumentar essa chorumela de que sempre falta mulher para disputarem” (sic), afirmou.

Dublê de pastor e senador, Malta aproveitou o evento para provocar a comunidade trans. “Mulher é mais forte porque nasceu com uma peça a mais. Mulher tem útero”, bradou, antes de dizer que a distinção não poderia ser superada “nem com cirurgia nem com ideologia”.

Freud explica, por Merval Pereira

O Globo

Casos de corrupção no Brasil repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master.

Sempre me causou espanto os casos de criminosos que guardam provas contra si que acabam sendo descobertas pela Polícia, algumas antigas que resolvem questões atuais. Refiro-me especialmente aos casos de corrupção no Brasil, que repetem comportamentos anteriores de outros casos, como o mensalão, o petrolão, relatados na Operação Lava-Jato e, agora, nesse escândalo do banco Master. Mesmo sem a abrangência dos casos de repercussão nacional, os acontecidos recentemente no Rio de Janeiro são provas disso. Foi encontrada na mesinha de cabeceira de um bicheiro a lista de políticos que ele subornava, com as quantias devidas.

Casa Branca vira máquina de fazer dinheiro, por Dorrit Harazim

O Globo

Capítulo das finanças público-privadas da era Trump compõe um dos retratos mais vergonhosos dos 250 anos de independência da nação americana

Tem uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho entre Detroit, no estado americano de Michigan, e Windsor, na província canadense de Ontário, tem uma ponte. Ou melhor, tem duas.

Uma delas está estalando de nova, aguardando inauguração. É a maior ponte estaiada da América do Norte, projetada para durar mais de cem anos. Tem 2,5km de comprimento, seis faixas para tráfego transfronteiriço, uma infraestrutura aduaneira ultramoderna e um caminho multiúso de 3,5m de largura, seguro e aprazível, para pedestres e ciclistas. Integralmente financiada pelo governo do Canadá (US$ 5 bilhões), terá pedágio com receita dividida entre o país vizinho e Michigan.

Benjamin Franklin perdeu a vez, por Elio Gaspari

O Globo

Declaração da Independência dos Estados Unidos da América completou 250 anos no sábado

Ontem, há 250 anos, o Ocidente começou a percorrer uma de suas maiores mudanças. Reunidos na pequena cidade de Filadélfia (menos de 40 mil habitantes, como o Rio, enquanto Beijing tinha 1 milhão), representantes das 13 colônias inglesas da América do Norte assinaram a Declaração da Independência de um país que viria a se chamar Estados Unidos da América. Naqueles dias, não sabiam quantos eram, como ganhavam a vida, nem se poderiam ser autossuficientes. Eram mais ricos, mais altos que os europeus (de 5 a 8 centímetros) e mais férteis.

Hoje esse é um texto sacralizado, mas só começou a ser festejado depois de 1812.

Mais de 20 anos depois, em 1789, um volume com uma coletânea de documentos dos “americanos ingleses” foi encontrado com o alferes Joaquim José da Silva Xavier e encorpou as provas da militância sediciosa que levaria Tiradentes ao patíbulo.

Uma história do jazz, a decadência da política e a blindagem eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reeleição

No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.

As contas e a ‘reputação ilibada’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na Câmara, Jhonatan de Jesus desviava emendas e, no TCU, defende o Master. Alguma surpresa?

O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que já embute a resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente, do Tribunal de Contas da União (TCU)?

Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente a favor dos interesses de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central. O que, aliás, pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.

Trump e a apropriação de um marco, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O aniversário da independência dos Estados Unidos costumava ser um momento de refletir sobre o destino comum dos americanos, acima das disputas políticas e diferenças culturais, que sempre existiram. Mas este 4 de Julho prova que os americanos não são mais capazes de fazer qualquer coisa de alcance nacional acima dessas divisões.

As celebrações foram inteiramente truncadas pelo ímpeto do presidente Donald Trump de vinculá-las à sua figura pessoal e pela frustração e resistência dos americanos em face desse propósito.

Quando a organização do Freedom 250 anunciou em maio a primeira leva de nove artistas para a série de shows da Great American State Fair, no National Mall, cinco deles desistiram em menos de 48 horas, e outros cancelaram em seguida. A justificativa: a percepção de que não seria uma celebração do país, mas de Trump.

• Promessa difícil de cumprir, por Ricardo Della Coletta

Folha de S. Paulo

O problema de enviar um documento ao governo dos EUA com promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas

Libertar o Brasil das 'amarras do Mercosul' é mais difícil do que o senador sugere no texto enviado ao governo Trump

Se for eleito presidente, Flávio Bolsonaro perceberá que o problema de enviar um documento ao governo dos EUA com uma série de promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas.

Não foram poucas as promessas (ou paths to remediation) que Flávio listou no texto endereçado ao USTR —o Escritório do Representante de Comércio dos EUA— no qual argumenta que o tarifaço beneficia Lula e sugere o adiamento de qualquer medida contra o Brasil para depois das eleições.

Entre elas, uma desperta sensação de déjà vu: libertar o Brasil das "amarras do Mercosul".

Por que não dizer que o escândalo do Master é de direita? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A grande mídia tem medo de ser chamada de esquerdista

Não é mais questão de saber que direitista está envolvido, mas de saber qual não está

Como teria sido uma boa cobertura de mídia sobre o escândalo Master?

A resposta óbvia é: teria mostrado a absoluta predominância de direitistas entre os envolvidos. Por qualquer critério que se queira adotar: o número de envolvidos, o total de dinheiro desviado para o Master por cada lado, o total de dinheiro recebido do Master por cada lado, a importância dos envolvidos dentro de seu próprio campo, o quanto cada lado de fato fez para salvar o Master.

E teria deixado claro: esses são os dados até agora. Se outros dados aparecerem, revisaremos nosso diagnóstico.

Não foi isso que aconteceu.

Como dar sentido ao mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz dicas para interpretar melhor as estatísticas com que somos bombardeados

Autor é didático e critica pontos fracos da ciência, como baixa reprodutibilidade de experimentos

Tim Harford consegue transformar conceitos difíceis da economia em best-sellers. Seu livro "O Economista Clandestino" vendeu mais de 1 milhão de exemplares no mundo todo, o que não acontece todo dia com obras de divulgação científica.

"How to Make the World Add Up" vai na mesma linha, mas tentando tornar a estatística, mais especificamente as toneladas de dados a que somos submetidos diariamente ao ler um jornal, por exemplo, em algo mais inteligível.

O populismo virou endemia, por Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Direita demagógica sofreu desgaste e trocou virulência por persistência

Excesso de vetos a poderes eleitos e desrespeito à ética republicana nutrem aventureiros

O Sars-Cov 2 já não é mais aquele. Esse coronavírus teve caminho livre para se espalhar na velocidade dos contatos pessoais quando adquiriu a capacidade de ser transmitido entre humanos, no final de 2019. Fez estragos e cadáveres aos montes por uns dois anos até acomodar-se às nossas defesas imunológicas, elas mesmas fortalecidas por anticorpos ativados pelas vacinas e pelas ondas sucessivas de infecção.

De terrível novidade converteu-se num conviva habitual e incômodo. De epidemia virou endemia. Ficará por aí pelos próximos séculos, quiçá milênios, como parte da história natural.

Dá para arriscar que algo similar se passou com o novo populismo global, guardadas as especificidades da política. Há dez anos os vapores de rebeldia que se acumulavam em várias nações democráticas rebentaram no Reino Unido, na façanha do Brexit. A seguir um improvável canastrão atropelou a oligarquia do Partido Republicano e ganhou a indicação e a eleição para presidente dos Estados Unidos.

As favas mal contadas, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior

Morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5

Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".

O colunismo social que ilustra o Brasil podre, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime financeiro, corruptos, facções ou celebridades se misturam na fofoca das redes

O país parece não se revoltar com a infiltração do crime 'comum' por toda parte

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.

Poesia | Vinícius de Morais - O Haver

 

Música | Chico Buarque - "A Bela e a Fera

 

sábado, 4 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Funcionários fantasmas no Rio são um acinte

Por O Globo

É chocante que um a cada três em cargo comissionado recebesse sem trabalhar. Alerta serve a todo o país

São estarrecedores os resultados da auditoria na folha do funcionalismo determinada pelo governador interino do Rio, Ricardo Couto. Praticamente um em cada três funcionários em cargo comissionado no estado — aqueles que devem seu emprego a uma indicação política — recebia sem trabalhar. Constatou-se, ainda, que a prática de pagar salário a quem nem aparece no trabalho, os proverbiais fantasmas, se estendia a todos os 77 órgãos da administração fluminense. É um acinte para o cidadão que trabalha arduamente para pagar suas contas em dia. E um alerta para todo o país.

Luta pelo poder corrói bolsonarismo por dentro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ataques de Michelle Bolsonaro deixam o filho 01 sem ação

Ex-primeira-dama dá a entender que conhece os segredos mais bem guardados do enteado

A menos de cem dias das eleições, o poder destrutivo da ex-primeira-dama Michelle se mostra maior que as defesas do filho 01. Este, embora mantenha o ar de arrogância, está acuado, quase a ponto de desmaiar, sem respostas para a crise que ameaça a candidatura presidencial. O objetivo da guerra, que vai corroendo o bolsonarismo por dentro, é assegurar a liderança da extrema direita no país. Nem que para isso seja preciso um familicídio.

O que quer Alcolumbre para tirar a PEC 6x1 da geladeira? Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do Senado barganha proposta do fim da 6x1 para garantir sobrevivência

Sinalização de que congressista vai deixar tema para depois das eleições anima setores empresariais contrários à PEC, que querem mais tempo para negociar mudanças após o pleito de outubro

Os empresários dos principais setores da economia contrários à votação da PEC do fim da escala 6x1 com bom trânsito no Senado estavam certos ao confiar que Davi Alcolumbre iria segurar a votação.

Antes da aprovação na Câmara essa era a única esperança que restava a eles, em meio ao barulho nas redes pela aprovação do texto e à adesão maciça dos deputados à proposta.

O melhor negócio do mundo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Primeiro ano de segundo mandato presidencial rendeu a Trump US$ 2,2 bilhões

Conflitos de interesses se multiplicam e erodem confiança em políticos e instituições

Tornar-se presidente dos EUA é um bom negócio. Donald Trump obteve uma renda de US$ 2,2 bilhões em 2025, seu primeiro ano de segundo mandato presidencial. A maior parte do próspero ano trumpiano, US$ 1,4 bilhão, vem de criptomoedas, um mercado em que ele atuou como investidor e regulador. Mesmo que não haja delito aí, é um caso de conflito de interesses.

Analfabetismo digital, por Flávia Oliveira

O Globo

Os mais velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos

O jornalista, escritor e imortal Ruy Castro comprou, semanas atrás, a briga em que, agora, me incluo. A digitalização galopante, não só de notícias e relações sociais, mas de serviços financeiros, comércio e até das políticas públicas, está isolando os idosos. Nesta semana, o IBGE informou que, no ano passado, 95% dos lares e nove em cada dez brasileiros contavam com acesso à internet. A proporção alcança o teto de 95%-96% nas faixas etárias entre 20 e 49 anos; entre os maiores de 60 anos cai para 74,5%. Desde 2016, triplicou o percentual de idosos acessando a web, mas dois terços dos que estão fora do mundo virtual alegam desconhecimento. A falta de letramento digital é a nova face do analfabetismo.

A insustentável leveza das autocracias, por Bolívar Lamounier*

O Estado de S. Paulo

Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira

Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.

Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.

Ponderação de valores na internet, por Miguel Reale Júnior*

O Estado de S. Paulo

Penso ter-se encontrado justa medida na forma de proteger a dignidade da pessoa humana ao se dar meio de enfrentar publicações lesivas a valores essenciais

A internet constitui enorme veículo de transmissão de opiniões, permitindo a manifestação da imensa maioria de pessoas antes destituídas de meio revelador de suas impressões. “L’uomo qualunque” encontrou o caixote no qual sobe para dizer ao mundo o que acha disto ou daquilo.

Se há o benefício da democratização da comunicação, por outro lado, abre-se uma imensa porta para se lançarem opiniões, revelações, fabulações e criações de imagem que têm potencialidade para ofender valores imprescindíveis à sadia convivência social e à tranquilidade pessoal.

O que não será investigado, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

As relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro serão – têm de ser – investigadas. As condições estão postas, designado já o relator, André Mendonça, que agora espera a manifestação da PGR. Vai andar. Aquele troço cheira mal, configurado o padrão vorcárico – investidor dedicado na advocacia, no cinema e na hotelaria nacionais – para o fazimento de amizades: a constituição do que parecem fachadas, no Brasil e nos EUA, para a remessa e o recebimento dos milhões de dólares. Foram os dinheiros do banqueiro integralmente destinados à produção do filme Dark Horse?

Com as apurações acerca dos fluxos entre os Bolsonaro e a rede vorcárica tendo afinal trilhos formais sobre os quais avançar, uma questão se impõe: qual será hoje a única porção do escândalo Master – dos trânsitos de Vorcaro e seus zetteis pelos Poderes da República – sem qualquer encaminhamento para que haja investigação? Aquela relativa a ministros do STF.

Tragédia grega, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem

A disputa pública por espaço que envolve filho e madrasta configura uma tragédia grega. Desde tempos remotos, a controvérsia não costuma terminar bem. Um dos lados vai sofrer agora ou no futuro. E as consequências, na maioria das vezes, não beneficiam ninguém. É drama sobre drama. Mágoas, rancores e ciúmes só podem ser resolvidos com muitos anos de psicanálise conduzida por profissional qualificado. A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem.

O bolsonarismo depende das mulheres, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O caso de Michelle Bolsonaro se torna ainda mais paradigmático porque a ex-primeira-dama ocupa um cenário permeado por escândalos de corrupção e de relações pouco republicanas dos enteados com nomes presentes nas páginas policiais

Uma semana de rupturas importantes no campo da Direita brasileira. Michelle Bolsonaro deixou a liderança do PL Mulher e expôs a falta de acomodação entre seus interesses e os objetivos do grupo capitaneado pelo enteado, Flávio Bolsonaro. Caso persista, o cisma entre os grupos pode representar um desafio estratégico à candidatura bolsonarista, dada a possível rejeição de uma parcela do eleitorado feminino conservador ao nome do filho do ex-presidente.

Déficits recorrentes, dívida crescente, por Marcus Pestana

A Instituição Fiscal Independente (IFI) publicou seu 113º Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), com a atualização de cenários e projeções macroeconômicas e fiscais para 2026 e o intervalo da década subsequente (2027-2036). São insumos para alimentar o debate em relação à situação fiscal brasileira, tema que deve merecer especial atenção na eleição presidencial.

 Mesmo considerando a antológica frase do ex-ministro da fazenda Pedro Malan de que “No Brasil, até o passado é incerto”, oferecemos projeções consistentes sobre a evolução das principais variáveis econômicas e fiscais, dadas as atuais regras do jogo, sem evidentemente considerar mudanças e reformas estruturais que possam ser introduzidas no futuro.

Entre trancos e barrancos, por Murillo de Aragão

Revista Veja  

Eleição não será decidida por méritos, mas pelos erros de cada um

A campanha segue entre trancos e barrancos. Tudo indica que será decidida menos pelos méritos dos candidatos e mais pelo volume de erros que cada um cometer. Quem errar menos, ganha. Não há abundância programática. Ao contrário: o debate é paupérrimo.

Lula se apoia no que foi e no que diz ter feito. Flávio Bolsonaro se ampara no que o pai representa. Um disputa a memória de governos anteriores. O outro disputa a herança política do sobrenome. Um pede ao eleitor que se lembre. O outro pede que transfira.

Após governar o país por três vezes, Lula flerta com a velha explicação segundo a qual obstáculos externos impedem o desenvolvimento nacional. O argumento lembra Brizola e sua insistência nas perdas internacionais como explicação para os males brasileiros. Ataca ricos, o mercado financeiro e o agronegócio. Enquanto isso, bate recordes o número de brasileiros que mudam de residência fiscal.

Trem para o futuro, por Cristovam Buarque

Revista Veja

A elite dirigente brasileira freia a ideia do bom ensino para todos

Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.

Sem futuro? Por Felipe Augusto Machado*

CartaCapital

Se não repensarmos a estratégia nacional, muitas gerações morrerão sem viver o sonho de um Brasil desenvolvido

No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.

Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.

Bolsonarismo 2.0, por Pedro Serrano

CartaCapital

Associados ao trumpismo e com grande capacidade de mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos.

Flávio foi para a frigideira, por Maria Inês Nassif

CartaCapital  

Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01 de Jair perder a eleição

O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos, a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.

Pacote de bondades, por André Barrocal

CartaCapital

Em um esforço para melhorar a imagem, Lula faz um sprint final no lançamento de obras e programas de apoio

A campanha presidencial começa só em agosto, com o registro das candidaturas na Justiça e o início da propaganda eleitoral, mas a pré-campanha entra em nova fase. De 4 de julho em diante, exatos três meses antes de os brasileiros irem às urnas, os postulantes à reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade dos atos de gestão. Daí o presidente Lula ter se empenhado nos últimos dias nos derradeiros anúncios de novas medidas do governo. Agora, terá de combinar o expediente burocrático no Palácio do Planalto com atividades político-partidárias fora da agenda oficial, em particular à noite e nos fins de semana. Com palanques definidos em 24 estados, o petista dedicará parte do tempo a reuniões com candidatos a governador e senador que o apoiam e a gravar vídeos para eles, entre outras.

Poesia | Navegar é preciso; viver não é preciso, de Fernando Pessoa

 

Música | Moacyr Luz e Samba do Trabalhador - Vai Clarear

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sanção contra brasileiros desperta preocupação

Por O Globo

É bem-vinda colaboração americana no combate a facções criminosas. Risco são medidas arbitrárias

No fim de maio, o Departamento de Estado americano anunciou que as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) seriam classificadas como organizações terroristas a partir de 5 de junho. Menos de um mês depois da entrada em vigor da medida, o Departamento do Tesouro impôs sanções financeiras a dois cidadãos brasileiros e três empresas instaladas aqui, sob suspeita de ligação com o PCC. O governo americano acusa o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada de liderar uma estrutura de lavagem de dinheiro com atuação nos Estados Unidos que movimentou mais de US$ 30 milhões de origem ilícita e de usar criptomoedas para transferir fundos ao PCC no Brasil. Sua secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é acusada de atuar como intermediária na coleta do dinheiro.

Carta de Flávio a Trump é tiro no pé que favorece Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao pedir apenas o adiamento da punição, e não sua imediata revogação, Flávio legitima a sanção norte-americana. Passa a mensagem de que o tarifaço pode ser aceitável

A carta enviada por Flávio Bolsonaro a Donald Trump, pedindo o adiamento por 180 dias do tarifaço contra produtos brasileiros, eleitoralmente é um tiro no próprio pé para o pré-candidato do PL, além de muito tóxica para as negociações diplomáticas do Brasil com a Casa Branca. O senador atropelou a linha de negociação conduzida pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), deslocou o contencioso do terreno técnico para o palanque eleitoral e mostrou falta de coesão política do país na defesa dos interesses brasileiros que estão em jogo.

Rejeição do PL à urgência para projeto da misoginia põe em xeque discurso de Michelle em defesa das mulheres, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL

A votação da urgência do PL da misoginia na Câmara dos Deputados na noite de quarta-feira (1) colocou em xeque o discurso da ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, de eleger uma bancada no PL pautada pela defesa das mulheres. Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL.

Das 11 deputadas do partido que se manifestaram na votação, 10 o fizeram pela rejeição da urgência, entre elas Caroline de Toni (SC), cuja postulação ao Senado levou Michelle a confrontar o enteado Carlos Bolsonaro.

Palanques capengas no Sudeste, por Vera Magalhães

O Globo

Palanques capengas do petista em Minas e do filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição

A eleição de 2026 será um teste para a validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que tende a ser apertada.

Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas. Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso condizente em colégios importantes da região.

Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.