Folha de S. PauloPara autor, a revolução digital impõe mudança
profunda na democracia que tornará o Legislativo em parte obsoleto
Cientista político aponta crise do presidencialismo
de coalizão e defende refundação da República; leia trechos
Em
um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches
cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema
político-partidário brasileiro —um regime sem paralelo no mundo, de acordo com
o pesquisador.
Abranches
argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum
deles obtém maioria no Congresso Nacional, o presidente precisa
negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico
para conseguir governar. Cargos e emendas parlamentares passam a ser as
principais armas à disposição do chefe do Executivo.
No
livro "Presidencialismo de Coalizão"
(Companhia das Letras), lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime
político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a
publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.
Neste
episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema
político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o
aprofundamento da crise em 2022.
O
autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e
o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT)—ele diz que, se antes as
coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar
ingovernável sem um redesenho das instituições e do próprio funcionamento da
sua democracia.
Abranches
também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade
brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história
do país, temas que ele debate em outro livro recém-lançado, "A Terceira Margem do Ipiranga".
Leia abaixo os
trechos principais da entrevista.