domingo, 25 de outubro de 2026

Muito mais do que nove dedos, por Míriam Leitão

O Globo

A perda da democracia rondou a campanha de 2026. Para não ver o perigo seria preciso esquecer a história recente do país

A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita. É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.

A faixa como escudo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Imunidade do cargo blindaria candidato do PL de denúncias e processos por quatro anos

A informação surgiu em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Flávio Bolsonaro realizou uma série de movimentações bancárias incompatíveis com a renda que declara à Receita. Numa das operações atípicas, o candidato do PL recebeu R$ 520 mil de um escritório de advocacia e quitou o financiamento da famosa mansão de 1.100m² em Brasília. Uma morada e tanto para quem sempre viveu do dinheiro público, desde o primeiro emprego como funcionário fantasma da Câmara.

É preciso votar, por Merval Pereira

O Globo

Se ganhar a eleição é o que importa, não como governar, estaremos sempre nas mãos dos populistas de ocasião, sejam de esquerda ou de direita

A campanha eleitoral que começou anódina leva hoje às urnas milhões de eleitores que definirão o próximo presidente da República a partir de propostas antagônicas na prática, e aproximadas pela retórica eleitoral. O conservadorismo, na sua expressão mais rasteira, está em disputa. Conservar Lula e o PT no governo representa uma homenagem à carreira brilhante de um nordestino de nove dedos que não se deixou abater pelos percalços de uma vida sofrida e entrou para a história brasileira pela porta da frente, embora possa terminar com uma derrota humilhante para um rapaz, como ele chama, que não tem história nem conteúdo, e chegou onde chegou pelo sobrenome Bolsonaro, como um avatar do próprio pai, que está preso por uma tentativa de golpe.

Só à noite vai se saber o nome, por Elio Gaspari

O Globo

Continua de pé a previsão do banqueiro André Esteves: 'A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem'

Debate civilizado como o da TV Globo tem algo de monótono. Tanto é assim que o momento mais eletrizante foi o último bloco, quando eles passaram a se insultar. Isso não foi consequência de uma preferência pelo baixo nível, mas resultado de um segundo debate sem ideias novas.

Esse segundo debate pode definir votos de quem não ia votar ou virar votos em branco ou nulos, mas virar de Bolsonaro para Lula (ou vice-versa), a chance é mínima.

Uma eleição esquisita, parecida com o rei Luís XVII da França, cujo reinado não houve.

Fim do ‘saco de bondades’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A realidade é dura e, se der Lula, seu problema será o Congresso, se der Flávio, serão as ruas

Se o presidente Lula vencer, seu grande problema será o Congresso. Se Flávio Bolsonaro for o vitorioso, o mais provável, seu maior desafio serão as ruas. Em qualquer caso, o futuro presidente terá pela frente as instituições em frangalhos, uma crise fiscal de bom tamanho e um País rachado ao meio.

Na hipótese de uma virada histórica, Lula terá mais uma vitória, mais um mandato para sua biografia e a chance de, finalmente, preparar um sucessor para uma esquerda sem rumo. Mas ele vai enfrentar um PL avassalador no Congresso e corre um grande risco: fechar a longa carreira com um governo mequetrefe, de forma melancólica. O terceiro mandato já não foi lá essas coisas.

As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*

 

O Estado de S. Paulo

Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político

Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.

Uma campanha miserável em grandes debates, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral

Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Democracia e rigor fiscal para reduzir os juros e a pobreza

Por Folha de S. Paulo

A Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes; a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saia vencedor

Um eleitorado mais uma vez dividido ao meio decidirá neste domingo (25) quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. O vitorioso terá o desafio de recolocar as contas públicas nos trilhos, condição indispensável para uma queda sustentável dos juros —sem novos surtos inflacionários — que permita ao país crescer e, assim, reduzir a pobreza. Respeitar o Estado democrático de Direito é mandatório.

Se vencer Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil voltará a lidar com o grupo político cuja passagem pela Presidência da República deixou um legado nefasto para a institucionalidade. Durante sua administração, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro (PL) investiu reiteradamente contra a democracia.

O Brasil está pronto para mais, por Luiz Inácio Lula da Silva*

Folha de S. Paulo

Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas foram para as ruas defender nossas conquistas

A mudança já começou e seguirá no rumo certo; por cada Silva do nosso imenso país, nós iremos vencer

A cada eleição, o processo eleitoral brasileiro assiste à escalada das plataformas digitais. Aos poucos, as telas foram tomando o espaço que era das pessoas. Candidatos passaram a se eleger apertando o botão do celular, sem precisar apertar a mão do eleitor. Mas, em 2026, isso mudou, e o que vimos vai entrar para a história. O povo entendeu que esta eleição não é entre dois candidatos. Ele, o povo, é o próprio candidato.

Vivemos um raro momento de mobilização popular no Brasil. Milhares de movimentos de rua acontecem sem organização partidária, de maneira viva e espontânea. O povo se juntou e tomou para si a campanha.

De Silva em Silva, o Brasil se reencontrou na presença; no "tête-à-tête", amontoou-se e fez de muitas uma só voz.

Se 5% dos eleitores de Flávio forem sinceros sobre corrupção, Lula vence, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Senador tem o direito de se defender de todas as acusações

Mas elas são tantas que é melhor que ele as explique antes de se tornar presidente

Se Flávio Bolsonaro for eleito, será o primeiro presidente que, quando chegar para negociar com o Congresso, encontrará gente mais honesta do que ele está acostumado.

No Rio de Janeiro, Flávio tem dois aliados presos por ligações com o Comando Vermelho, TH Jóias e Rodrigo Bacellar. Quanto às milícias, Flávio já as homenageou em discurso e garantiu emprego à mãe e à irmã do chefe do Escritório do Crime.

Levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão , da Fundação Getúlio Vargas, mostrou que, em média, Flávio teve 5,6 pontos percentuais de votos no primeiro turno a mais nas áreas controladas por milícias do que no resto do estado.

O dia depois de amanhã: economia difícil e um presidente impopular, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desde 2018, popularidade de governos é baixa; é improvável que seja diferente em 2027

Sem prestígio e força legislativa, presidentes são depostos ou ficam reféns do Congresso

Luiz Inácio Lula da Silva 3 e Jair Bolsonaro jamais obtiveram nota "ótimo ou bom" de mais do que 38% do eleitorado, pelos dados do Datafolha. A popularidade presidencial varia de modo amplo. Presidentes que atingiram aprovação maior do que Lula 3 e Bolsonaro passaram também por baixas de prestígio importantes.

Mas: 1) Chegaram a ter prestígio muito maior do que Lula 3 e Bolsonaro, ressalte-se; 2) Não contavam desde o início e por quase o mandato inteiro com a desaprovação de um terço do eleitorado ou muito mais (aquele que dá nota "ruim ou péssimo"). Foi o caso de FHC 1, Lula 1 e 2, Dilma 1.

Mulheres que amam seus carrascos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na vida cotidiana, as ilusões de superioridade masculina incrementam a fúria narcísica da violência

Relativizar o ordenamento patriarcal desestabiliza a consciência do sujeito

Se fosse possível retroagir no tempo legislativo, a Lei Maria da Penha não teria sido aprovada por parlamentares femininas da estirpe das estaduais e federais mais votadas nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Se lessem, levariam à sola da letra uma reflexão dostoievskiana: "Não há homens maus, há homens infelizes" (em "Os Irmãos Karamazov"). Assim, para elas, o homem que assassina uma mulher não agiria por maldade, mas por infelicidade. Feminicídio não existe, é invenção feminista, diz uma. Outra parece seguir também à letra a anciã no "Zaratustra", de Nietzsche: "Vai encontrar-se com mulheres? Não te esqueças do chicote!" Para facilidade do carrasco, já desfila com chicote pronto.

Um voto intranquilo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Gestão Lula não entusiasma brasileiros e deixa herança maldita na economia

Flávio Bolsonaro não tem currículo para ser presidente e ainda traz risco à democracia

É perfeitamente compreensível o desejo do eleitor de impor uma derrota a Luiz Inácio Lula da Silva, mas o preço dessa escolha é a vitória de Flávio Bolsonaro, um cenário que exige reflexão.

O terceiro mandato de Lula foi, numa avaliação generosa, medíocre. Não trouxe nada que entusiasmasse, e os indicadores sociais passáveis que produziu foram obtidos de forma insustentável, com base num aumento de gastos públicos que não pode ser esticado por mais tempo. Para que a inflação não explodisse, os juros foram à ionosfera e nela permanecem, asfixiando a economia e aumentando o endividamento de empresas e famílias.

Brasil vai às urnas mergulhado num mar de incertezas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O resultado nas urnas é tão duvidoso quanto o rumo que qualquer um dos eleitos dará ao futuro do país

Nenhum dos dois finalistas se comprometeu de modo convincente com o enfrentamento das urgências nacionais

O Brasil vai às urnas neste domingo (25) sob a égide da incerteza. Não apenas quanto ao resultado, mas principalmente porque não se sabe de verdade qual é a firmeza e a extensão do compromisso de Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) com as urgências do país.

Prometeram muito, mas não se comprometeram de maneira clara e consistente com a estabilidade econômica e a reorganização da institucionalidade.

Flávio com K, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se Flávio Bolsonaro for grato a Kassio Nunes Marques, mudará a grafia de seu próprio nome

Kassio é hoje tão poderoso que, em breve, poderá até julgar ministros suspeitos de fazer surubas

No show "Opinião", de 1964, com Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, Zé Kéti tinha esta fala: "Quando eu era criança, minha mãe, que era empregada doméstica, me deixava com a vizinha. Quando ela voltava para casa, a vizinha dizia: ‘Dona Fulana, o Zé ficou quietinho’. Quietinho, quietinho, acabei Zé Quéti. Aí passei a escrever meu nome com K —porque K estava por cima, estava dando sorte! Kennedy... Krushev... Kubitschek... [Referia-se ao presidente americano John Kennedy, ao premiê soviético Nikita Kruschev e ao brasileiro Juscelino Kubitschek. Risos da plateia]. É, meu camaradinha. Parece que a sorte mixou..." (Quando o show estreou, Kennedy já fora assassinado; Krushev, deposto; e Kubitschek, cassado pela ditadura.)

Poesia | Profundamente, de Manuel Bandeira

 

Música | Vermelho - Grito de Emoção - Joelma

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

O que está em jogo?

Por Revista Será?

Tem muita coisa em jogo nas eleições presidenciais deste domingo, quando concorrem Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, dois candidatos com trajetórias políticas e propostas muito diferentes para o futuro do Brasil. Mas tem uma questão central, anterior a todas as outras, que deve ser avaliada pelos eleitores na hora de digitar o seu voto na urna: a preservação das instituições democráticas, já tão fragilizadas pela polarização e pela politização do Judiciário.

Garantir a democracia para bloquear a contrarrevolução reacionária, por Alberto Aggio

Revista Será?

O resultado do primeiro turno das eleições no Brasil apresentou uma surpresa e uma revelação. Surpresa porque mostrou uma inversão do que apontava a maior parte das pesquisas em relação à votação para a Presidência da República. No resultado das urnas Flavio Bolsonaro (PL) apareceu à frente de Lula (PT) por uma pequena margem dos votos (1,8%), invertendo o que sancionavam as pesquisas. Revelação porque atesta a força da extrema direita não apenas pelo desempenho de Flavio Bolsonaro, mas principalmente por conta do êxito sem precedentes alcançado nas disputas para os governos estaduais bem como para o Senado e a Câmara Federal, onde o PL saiu amplamente vitorioso.

A democracia brasileira está em risco? Sim, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Só o voto nos separa desse precipício; ameaça inclui autocratização do regime e fragilização da nossa soberania

Freios e contrapesos estarão debilitados, e o cenário internacional se tornou mais hostil aos regimes constitucionais

A democracia brasileira corre um triplo risco nesta eleição presidencial: a autocratização do regime, com a fragilização do sistema de freios e contrapesos, a distorção das regras eleitorais e a erosão dos direitos humanos; o aprofundamento do processo de cupinização do Estado de Direito, com consequente esgarçamento do tecido social e brutalização da vida cotidiana; assim como a fragilização de nossa soberania, especialmente nos campos ambiental e digital.

Como nos anos 1930, com a ascensão do nazismo e do fascismo, as democracias liberais voltaram a estar submetidas a forte pressão de movimentos extremistas. Diferentes fatores têm contribuído para que partidos e lideranças, sobretudo de extrema direita, capturem as frustrações e o desejo de mudança em países tão distintos quanto Alemanha, Índia, França, El Salvador, Turquia ou Estados Unidos.

Com regras mais rígidas, Globo baixou a temperatura do debate entre Flávio Bolsonaro e Lula, por Mauricio Stycer

Folha de S. Paulo

Nos primeiros três blocos, houve a sensação de alguma civilidade entre os dois candidatos

Última parte voltou a lembrar os piores momentos do encontro na Band, que entrou para a antologia da política brasileira

Cinco dias depois do debate na Band, um confronto eleitoral que entrou para a antologia dos momentos mais baixos da história política brasileira, a Globo blindou o seu evento, no esforço de subir um pouquinho o nível. Conseguiu em partes.

Não que o público tenha assistido a um debate esclarecedor a dois dias de uma das eleições mais disputadas da história do Brasil. Não que a emissora tenha evitado a difusão de mentiras a granel. Não que os candidatos não tenham fugido de muitas perguntas feitas.

Mas, no geral, com regras mais rígidas, a emissora carioca conseguiu baixar a temperatura do embate e enquadrou os candidatos quase o tempo todo. Foi um evento intencionalmente frio, que ofereceu, nos primeiros três blocos, a sensação de alguma civilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em debate mais civilizado do que o primeiro, Lula vence Flávio por pontos, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador se perdeu ao ser confrontado pelo presidente, inclusive no espinhoso tema da segurança pública

Se desempenho dos rivais terá o condão de chegar a algum indeciso ou pendular, é um dado ainda incerto

Como já lembrava Sigmund Freud em "Totem e Tabu" (1913), nada como um pouco de regras para tornar uma sociedade civilizada. O mesmo se aplica a debates.

A opção pelo vale-tudo de saída no primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na Band, domingo passado (18), levou a um desastre de escopo ainda insondável na intenção de voto dos líderes da disputa presidencial brasileira deste ano.

Nesta noite de sexta-feira (23) na TV Globo, o formato adotado enquadrou os dois candidatos e ofereceu um vislumbre de embate de ideias para os vitais pontos percentuais a serem pescados entre eleitores indecisos e pendulares na disputa.

Sem a gritaria e a ausência de respostas do confronto anterior, Lula levou vantagem sobre o senador fluminense. Não saiu, contudo, sem arranhões.

Régua e compasso, por Flávia Oliveira

O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Abrindo o voto, por Eduardo Affonso

O Globo

Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas impossíveis

Sim, o voto é secreto, mas, como faz tempo que não elejo presidente (o único foi há 32 anos), raramente um governador (moro no Rio...), dificilmente um senador e só a muito custo um deputado ou prefeito, quero abrir a possibilidade de votar em outras instâncias.

Não é que eu vote mal (ninguém vota mal, segundo os próprios critérios). Mas tenho o péssimo hábito de preferir os liberais. Pior: os dedicados à educação (um povo educado fará melhores escolhas nas urnas, e aí tudo o mais vem por tabela), à cultura (o cidadão com orgulho de si mesmo não se contentará com menos do que merece), ao meio ambiente (preservar o planeta aumenta as chances de uma vida mais saudável — e de continuar havendo vida) e aos direitos dos animais (quem não gosta de bicho — exceção feita à barata, ao pernilongo e ao bicho de goiaba — bom sujeito não é). E nada disso garante lugar entre os mais votados.

Lula sai na frente na disputa pelos indecisos, apoiado em deslizes de Flávio Bolsonaro, por Bianca Gomes

O Estado de S. Paulo

Pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, a pedido do ‘Estadão’, identifica reações de eleitores ao debate final entre os candidatos à Presidência

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegaram ao final do último debate da corrida presidencial de 2026 sem atrair, por méritos próprios, os eleitores que mais precisam nesta reta final: os indecisos. Na pesquisa qualitativa feita pelo instituto Travessia a pedido do Estadão na noite de sexta-feira, 23, foram raros os elogios aos dois candidatos. Flávio, porém, acumulou mais derrapadas, o que deu vantagem a Lula entre aqueles que ainda não decidiram quais teclas vão apertar no próximo domingo.

Debate na Globo não foi o evento decisivo, determinante, do que sairá das urnas, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Ninguém saiu nocauteado, o que era exatamente a proposta da campanha de Flávio Bolsonaro

Lula cita modelo econômico de Milei e Flávio diz que ‘esquerda é culpada por crise na Argentina’

Três perguntas deveriam ter sido respondidas no debate da TV Globo. Alguém conseguiu virar o voto de alguém? Alguém sentiu ter cometido um erro ao ter escolhido no primeiro turno o candidato que escolheu? Alguém se sentiu mais motivado a comparecer às urnas no domingo?

A resposta às três perguntas é “não”. A impressão produzida pelo debate é a de que não foi o evento decisivo, determinante, do que sairá das urnas daqui pouco mais de 24 horas.

Um segundo turno mais jovem e utópico, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Depois de um susto, Lula e o campo progressista empreenderam uma história de engajamento social extraordinariamente crescente, de mudança de linguagem e de estratégia comunicacional e mesmo de perspectiva de futuro

Hoje, véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, não somos capazes de dizer quem sairá vencedor das urnas. Na mais acirrada eleição desde a redemocratização, redescobrimos a grande beleza da política: sua abertura ao fluxo da história, dos acontecimentos e das decisões humanas. Que enredo esse segundo turno conta?

Ex-diretor do Datafolha analisa pesquisas e aposta na virada de Lula, por Nathallie Lopes

Correio Braziliense

Mauro Paulino aponta recuperação do petista e perda de apoio ao senador, mas pondera que o tempo até domingo (25/10) pode ser decisivo

O ex-diretor do Datafolha Mauro Paulino avalia que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ultrapassar Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial do próximo domingo (25/10). Em entrevista ao canal UOL nesta sexta-feira (23/10), o especialista em opinião pública e eleições afirmou que a evolução das pesquisas indica recuperação do petista e recuo na preferência pelo senador.

“Há uma grande probabilidade de que esteja ocorrendo, às vésperas, uma ultrapassagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro”, disse Paulino.

O futuro, hoje, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A eleição de domingo define o caminho do país nos próximos tempos. O desafio colocado diante do brasileiro é a escolha de seu futuro

Não dei sorte. Sonhei e me preparei para votar, quando entrei na maioridade, a favor do famoso slogan JK65, para entregar novo mandato ao presidente Juscelino Kubitschek, que havia promovido revolução pacífica no Brasil. Abriu estradas, construiu hidrelétricas, implantou a indústria automobilística, ergueu Brasília e transferiu a capital para o centro do país. Ele prometia mais cinco anos de prosperidade. O sonho durou pouco. Os militares assumiram o governo em 1964, anunciaram a cassação de vários políticos — entre eles, JK. Nos primeiros momentos, o primeiro presidente militar, Castello Branco, prorrogou seu mandato por um ano para respeitar o calendário eleitoral. Mas o processo desandou, e os militares, de todos os quartéis e níveis hierárquicos, se julgaram capazes de governar o país.

Esqueletos no armário revelam os crimes de Flávio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Esquema de lavagem de dinheiro vai de loja de chocolates a casa de apostas

O 'amigão' Willer Tomaz usou a mãe como laranja e dividiu conta bancária com filho 01

O caso das rachadinhas —movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão na conta do assessor Queiroz— veio a público no fim de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro. De lá para cá, é notável a evolução de investigações envolvendo o filho 01. Um enorme telhado de vidro, o qual, no entanto, se mostra inquebrantável aos olhos de seus eleitores.

Entre os 12 candidatos à Presidência, é o único que se beneficiou do esquema Vorcaro —pediu na caradura R$ 134 milhões ao banqueiro picareta. No rol de denúncias e suspeitas estão a compra da mansão de R$ 6 milhões, além de outras transações imobiliárias em dinheiro vivo, e a loja de chocolates utilizada para lavar R$ 1,6 milhão. Sua lavanderia, digo, seu escritório de advocacia, emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais sem detalhar os serviços. A sede da banca do senador é sua casa. É administrada à distância por uma funcionária que mora na periferia de Brasília.

O futuro não é mais como antigamente, por Elimar Pinheiro do Nascimento*

Revista Será?

Nesses dias, estou terminando de ler o livro 2041 – Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas, dos chineses Kai-Fu Lee, CEO da Sinovation Ventures (depois de ser executivo da Microsoft e da Apple), e Chen Qiufan, escritor e fundador do Thema Mundi. É uma coletânea de contos de ficção científica, comentados pelo especialista em IA. O formato e o conteúdo são muito intrigantes.

Ultimamente, tenho dedicado parte do meu tempo a estudar a Inteligência Artificial e suas consequências sobre nossas vidas. Em particular, do ponto de vista psicossocial: a pensar, portanto, nas consequências das inovações tecnológicas sobre nossa forma de trabalhar, conviver, criar, pensar, amar e nos divertirmos. Mudanças em nossos comportamentos, mas também em nossas percepções e valores. Fazer isso, do ponto de vista do futuro, significa trabalhar com hipóteses, ou seja, cenários.

Às urnas, por Pedro Serrano

CartaCapital

O bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las

A história humana não ocorre por meio de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece. Ao contrário, ela se revela por processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais. Na história vivida prevalece o caos.

É nesse cenário que afirmamos, enfaticamente: o bolsonarismo está, inequivocamente, aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las, esvaziando-o e abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

Ficha corrida, por André Barrocal

CartaCapital

Os BOs de Flávio Bolsonaro não param de pipocar

Flávio Bolsonaro é um candidato “sambarilove”, bordão de um personagem de um antigo programa de humor na televisão. Armando Volta tinha um jeito malandro, nunca respondia às perguntas do Professor Raimundo, era um enrolador profissional. Descrição apropriada para o senador do PL. O filho de Jair passou a campanha sem dar explicações sobre temas indigestos: a relação com o advogado Willer Tomaz, os milhões pedidos a Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, a tomada “na mão grande” de uma ilha em Angra dos Reis reservada ao jogador Richarlison, a defesa do PM que matou com fuzil uma menina de 5 anos, a suspeita de financiamento norte-americano em sua campanha presidencial. Dessas histórias, a única capaz de ter consequência prática para o senador é aquela do dinheiro estrangeiro, caso o Tribunal Superior Eleitoral abra a investigação solicitada pela campanha de Lula. Ele poderia ter a chapa cassada. E quanto aos outros episódios? Pela Constituição, um presidente não paga por atos anteriores ao mandato.

O mal da banalidade, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Enquanto o povo luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”

Num mundo que volta a surfar nas ondas do discurso de ódio como tábua de salvação, não Jeová, nem Jesus, muito menos Buda, mas as falsas promessas do paraíso da extrema-direita, penduradas na cruz ou na suástica, impulsionam a marcha do exército de ressentidos. Quando as promessas que levariam as classes médias ao padrão de consumo das elites se deterioram, a ralé enfurecida, sedotta e abbandonata, entrega sua alma à sereia do totalitarismo.

Depois de várias tentativas, entrevistamos Hannah Arendt em seu gabinete como professora na New School for Social ­Research, em Nova York, para discutirmos duas de suas grandes obras: Origens do Totalitarismo e A Condição Humana. Agradecemos à professora pela hospitalidade e por sua tradicional liberdade de pensamento.

Campanha e dívida dos estados: o caso de Minas (II), por Marcus Pestana

Amanhã, a população brasileira tomará importante decisão sobre o futuro do País. Aqui retomo a discussão sobre um aspecto central do principal problema econômico brasileiro: o estrangulamento fiscal e a dívida dos estados, particularmente de Minas Gerais, com o governo federal.

É natural que, durante a campanha, candidatos evitem temas espinhosos e difíceis e avancem em promessas que nem sempre encontrarão acolhimento na realidade concreta dos futuros governos. Fechadas as urnas, no dia seguinte, os fatos e a vida começam a se impor, com seus limites e possibilidades reais.

Minas Gerais, assim como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, vive uma crise fiscal radical e crônica. Têm um enorme estoque de dívidas e um fluxo de receitas e despesas deficitário.

Uma eleição indefinida para uma sociedade sombria, por Vagner Gomes*

“É algo estranho ver com que espécie de ardor febril os americanos perseguem o bem-estar e como se mostram constantemente atormentados por um temor vago de não ter escolhido o caminho mais curto que pode conduzir ele. O habitante dos Estados Unidos apega-se aos bens deste mundo como se tivesse certeza de que jamais morreria, e é com tanta precipitação que procura apoderar-se daqueles que passam ao seu alcance, que se diria que teme a cada instante deixar de viver antes de os ter gozado. Toma-os todos, mas sem os estreitar, e os deixa logo escapar das suas mãos, para correr atrás de prazeres novos.” (Alexis de Tocqueville, A Democracia na América)

Em poucas horas o eleitorado brasileiro vai votar no Segundo Turno das eleições presidenciais, naquela que é apresentada como a mais competitiva das últimas décadas. Não uso o termo por referendar a interpretação de uma hipótese de “polarização afetiva”, pois os dois campos estão nas redes sociais e nas ruas sem qualquer situação semelhante a uma ex-Deputada foragida a correr com arma nas mãos contra um eleitor. Estamos num momento em que a moldura do Estado de Bem Estar Social, garantido nas conquistas sociais e políticas da Carta de 1988, se encontram questionadas diante da emergência de uma sociedade em busca não mais da felicidade e, sim, da prosperidade.

Márcia Heliane Gomes, escritora e editora, por Ivan Alves Filho

É muito difícil falar o que quer que seja em uma hora dessas. Porém, quero repetir aqui as palavras que disse outro dia à mãe da Márcia, Dona Maria José: sua filha foi a melhor pessoa que eu conheci em toda a minha vida. Pela dignidade, pela bondade e, também, pela capacidade de trabalho. 

Eu tenho 74 anos, morei dez anos fora do Brasil, conheci figuras admiráveis por onde andei. Porém, somente duas pessoas me impressionaram tanto quanto a Márcia: o arquiteto Oscar Niemeyer e o poeta Ferreira Gullar. Oscar foi o Aleijadinho do século XX; Gullar, o Tomás Antônio Gonzaga deste mesmo século. No tocante à minha adorada Márcia, eu diria que ela é a herdeira, pela grandeza pessoal, de Bárbara Heliodora. Como escritora, Márcia é comparável a Cora Coralina. Seus textos possuem a mesma leveza, doçura e profundidade daqueles da poetisa de Goiás Velho.

Poesia | Definição de filho, de José Saramago

 

Música | Construção | Chico Buarque

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Campanha deixa de lado temas essenciais ao país

Por O Globo

Com profusão de ataques pessoais, faltou debate sobre Previdência, ajuste fiscal e reocupação de territórios

Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.