quinta-feira, 26 de maio de 2022

Merval Pereira: Piada pronta

O Globo

Quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro nos processos contra o ex-presidente Lula, e, um atrás do outro, em diversos pontos do país, eles foram sendo arquivados, logo surgiu a pergunta que não queria calar, uma piada crítica ao absurdo da situação: “E o dinheiro devolvido graças aos acordos obtidos na Operação Lava-Jato terá de ser restituído a seus ‘donos’?”.

Parecia provocação, mas, sim, é verdade. Já há advogados defendendo que, com os processos arquivados e Moro considerado parcial pelo STF, é possível pedir o dinheiro de volta ao Estado. Para ter noção da situação surreal, apenas um gerente da Petrobras, Pedro Barusco, devolveu à Petrobras R$ 182 milhões desviados no esquema montado pelo governo petista. Virou medida de corrupção, um barusco.

Pois o país da piada pronta bateu seu recorde com a ação popular ajuizada por representantes do PT contra Moro, acusando-o de ter provocado prejuízos ao país ao “manipular a maior empresa do Brasil, a Petrobras, como mero instrumento útil ao acobertamento dos seus interesses pessoais”. Quer dizer, alegam que foi o trabalho da Justiça que prejudicou a Petrobras, e não os roubos cometidos por executivos e políticos.

Malu Gaspar: Perdido no personagem

O Globo

Uma das grandes habilidades de Jair Bolsonaro é tomar para si o protagonismo na arena política. Sua especialidade é fabricar brigas para vender a ideia de que é um herói lutando contra inimigos poderosos: o establishment, a fraude nas urnas, o comunismo.

Uma vez que a cortina de fumaça distrai o público, ele passa à próxima guerra — e assim por diante. Na batalha mais recente, porém, o presidente e seu time parecem claudicantes. Talvez porque o inimigo, a Petrobras, não seja um agente externo como o Supremo.

Bolsonaro luta contra uma companhia controlada por seu próprio governo. A ameaça da alta dos combustíveis não é fake como a fraude nas urnas. E a solução preferencial do Planalto — intervir para segurar os preços —já traz a patente de seu maior adversário na eleição, o PT.

Duas cenas recentes ilustram a conjuntura bizarra. Na terça-feira, o presidente passou por um constrangimento ao desabafar a seguidores no cercadinho do Palácio da Alvorada:

"É sempre aquele discurso fácil de salvar, de ajudar. A gasolina vai voltar a R$ 3 o litro...", reclamou, para depois arrematar: "No mundo todo é R$ 12, só aqui que vai voltar a R$ 3?"

Os apoiadores entenderam que Bolsonaro baixaria o preço da gasolina para R$ 3 e começaram a comemorar, para aflição do presidente: "Não, espera aí! Espera aí! É o que o cara diz!"

O cara, claro, é Lula.

Horas depois, na Suíça, o ministro Paulo Guedes foi questionado por um empresário sobre as eleições brasileiras e já foi logo botando o PT na resposta: "Eles são piores que a gente".

Luiz Carlos Azedo: PSDB ainda negaceia apoio a Simone Tebet

Correio Braziliense

Simone Tebet é uma novidade na disputa eleitoral, por seu perfil liberal progressista e por carregar a bandeira do empoderamento das mulheres, além de um olhar feminino sobre os problemas nacionais.

Ao lado dos presidentes do MDB, Baleia Rossi (SP), e do Cidadania, Roberto Freire, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) disse, ontem, que contará com apoio do PSDB para consolidar sua candidatura de “centro democrático”, como preferiu denominar a chamada terceira via. O presidente tucano, Bruno Araújo, grande artífice da retirada da candidatura do ex-governador João Doria, não participou da entrevista coletiva. Há tensões ainda no PSDB, embora o grupo responsável pela remoção de Doria da disputa, encabeçado pelo governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, apoie Simone.

A Pesquisa CNN/RealTime Big Data para as eleições presidenciais, divulgada ontem, sem o nome de Doria entre os candidatos, foi um banho de água fria nas articulações internas da legenda a favor da emedebista. O levantamento mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 40% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), com 32%; e por Ciro Gomes (PDT), com 9%. Depois aparecem André Janones (Avante) e Simone Tebet (MDB), com 2%, e Luciano Bivar (União Brasil), com 1%.

Maria Hermínia Tavares*: Barreiras na terceira via

Folha de S. Paulo

A movimentação faz parte da disputa para reorganizar território que vai do centro à ultradireita

renúncia de João Doria à candidatura presidencial é um marco na irresistível caminhada do PSDB rumo à irrelevância. Pela primeira vez desde a sua fundação, há 34 anos, a sigla não terá candidato ao Planalto. Exibe assim seu fracasso em recuperar o que perdera em 2018: a capacidade de aglutinar e representar o antipetismo no plano nacional.

Hoje está claro que o terremoto político que desalojou Dilma Rousseff do Planalto não destruiu a liderança do PT entre as forças situadas do centro para a esquerda do espectro político. Antes, desorganizou o jogo de poder no terreno adversário, abrindo espaço para a vitória eleitoral e a afirmação política da barbárie populista.

Na realidade, a movimentação da chamada terceira via faz parte da disputa para reorganizar o congestionado território que vai do centro à ultradireita, por meio da criação de uma liderança nacional distinta do extremismo autoritário encarnado por Jair Bolsonaro. Analistas respeitáveis acreditam que a desistência do ex-governador de São Paulo abre brecha promissora para uma candidatura que concorra com o ex-capitão pelos votos de quem não quer o PT de volta.

Entrevista: Presidente do PSDB diz que apoio a Simone Tebet depende de reciprocidade em MS, PE e RS

Por Pedro Venceslau / O Estado de S. Paulo

Em entrevista ao ‘Estadão’, Bruno Araújo afirma ainda que reunião da executiva que definirá aliança ocorrerá ‘no prazo da política’

Após o ex-governador João Doria abrir mão de sua pré-candidatura e a cúpula do MDB selar o apoio à senadora Simone Tebet (MS), o PSDB inicia agora a última etapa de negociação antes de fechar a aliança com a legenda.

Em entrevista ao Estadão, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, disse que a “quase totalidade” do partido defende a tese de que os tucanos devem abrir mão de um nome próprio, apesar de ainda existir um foco de resistência. A reunião da executiva, que estava marcada para essa terça-feira, 24, ainda não tem data para acontecer, segundo Araújo. “O prazo será o da política”, afirmou.

Para sacramentar o acordo, no entanto, o PSDB colocou uma condição: que o MDB apoie seus candidatos a governador no Rio Grande do Sul, em Mato Grosso do Sul e em Pernambuco. “Esses três Estados são fundamentais para avançarmos nessa construção. Só vai ter sentido formalizarmos a reunião da executiva quando essa construção política e programática estiver consolidada”, disse Bruno Araújo.

Em caso de consenso, o presidente do PSDB afirmou considerar “natural” que o candidato a vice na chapa de Simone Tebet seja tucano. “Mas esse é o último enredo neste episódio”, disse.

Leia a entrevista:

William Waack: Sem medo nem esperança

O Estado de S. Paulo

O desequilíbrio entre os Poderes da República desafia Lula e Bolsonaro

Se as pesquisas se confirmarem e Lula acordar presidente em outubro, a dúvida é saber se ele conseguirá reconhecer o cargo que já ocupou. Prisioneiro de um imaginário do passado, Lula não demonstrou até aqui ter compreendido o esvaziamento da função do chefe do Executivo, situação agravada por dois presidentes fracos, Dilma e Bolsonaro.

Nem se enxerga o grau de desequilíbrio entre os Poderes da República. Desde a primeira vitória eleitoral de Lula, há exatos 20 anos, o Legislativo assumiu prerrogativas e poderes inéditos, ao mesmo tempo que ampliou seu fracionamento e prosseguiu o esfacelamento dos partidos políticos. É altamente simbólico que o Centrão tivesse ocupado instâncias nevrálgicas dentro do Palácio do Planalto.

Talvez esse fato explique a razão de o chefe do Executivo acusar o STF como o principal adversário que o impediria de governar. Não é objetivo deste texto discutir quem é o “culpado” pelo ativismo político do Judiciário. O fato é que o STF tem sido legislador, tem interferido no Executivo (goste-se ou não disso), suas decisões têm enorme impacto sobre a economia (em questões tributárias, por exemplo) e virou um contendor com notável influência na disputa político-eleitoral.

Maria Cristina Fernandes: A campanha da carestia

Valor Econômico

Eleitor precisa de argumentos ou, pelo menos, de um, para se convencer de que sua vida vai melhorar

"O eleitor não usa 40 argumentos para definir seu voto. Usa três ou quatro. Cinco se for muito sofisticado. No mais das vezes um único argumento é suficiente. O importante é descobrir que argumento é este (...) Na campanha de Collor (1989) foi o caçador de marajás, na de Fernando Henrique (1994), o controle da inflação, na de Lula (2002), o desejo de mudança e na de Dilma (2010), a confiança na continuidade do bem-estar”

Antes de chegar a Bolsonaro e seu protesto, em 2018, contra tudo e todos, Orjan Olsen ainda passeou pela campanha de Ronald Reagan (1980), quando acompanhou de perto a obsessão de seus estrategistas. Quando o eleitor desejasse pagar menos impostos era em Reagan que ele teria que pensar.

Mais experiente especialista em opinião pública do país, presidente da consultoria Analítica e ex-diretor do Ibope, o discreto Orjan Olsen fez um raro comentário público sobre eleições num encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel). Incumbiu sua plateia da resposta sobre qual é o argumento-matador da eleição deste ano. Mas deixou claro que a resposta viria daquilo que vai melhorar a vida do eleitor.

Parece banal, mas não é. Ao alardear sobre o risco que oferece à democracia, o presidente da República ofereceu a isca aos adversários. A opção, por óbvio, é a barbárie. Mas a democracia decorre do respeito às regras em que as opções para se melhorar a vida da maioria estarão em jogo. Não é a palavra de ordem. É a própria ordem. A palavra é outra.

Sergio Augusto de Moraes*, Alfredo Maciel da Silveira*: Sobre o Momento Político

Blog Democracia e Socialismo

Os obstáculos para unir os democratas são muitos. Mas nem por isto escasseiam as críticas, muitas delas negativistas, à incapacidade dos partidos políticos do campo da democracia realizarem tal objetivo.

Não é de estranhar. Na medida em que os partidos e, porque não dizer, também os eleitores, deixaram de valorizar os programas partidários e a só olharem para o imediato, absolutizando o resultado eleitoral, a colocação da democracia como valor estratégico fica mais difícil.

Mas nas condições políticas do Brasil, com um governo que tem como objetivo permanente a destruição dos poucos pilares de nossa democracia, a tarefa de unir os democratas torna-se premente.

Vinicius Torres Freire: Medidas de Bolsonaro e amigos vão asfixiar governo de 2023

Folha de S. Paulo

País enfrenta descrédito, e até a eleição o estrago pode aumentar ainda mais

Congresso está agitado. Vota leis às baciadas no "esforço concentrado" de aprovar medidas eleitoreiras e outros favores antes do recesso da eleição, que começa em julho. No país, parece haver a impressão de que algo acontece. Não se trata de novidades, mas apenas de pedaços do desabamento da nossa ruína progressiva, como a matança no Rio.

A fome aumenta, com a maior inflação em quase 20 anos e os menores salários médios em pelo menos uma década. Montes dos mais pobres estão largados nas calçadas mais ricas do país, mas não há notícia de revolta ou de saques de comida. Talvez o Bolsa Família ou seu sucedâneo, o Auxílio Brasil, sirva para manter o horror em fervura baixa, quem sabe o prognóstico mais certeiro para o futuro nacional.

Não aparecem mais "manifestos" ou "cartas de repúdio" às ameaças de golpe ou à destruição ambiental de fato. Não se trata mais dos mortos e dos sequelados da Covid, com exceção dos parentes e amigos desse mais de milhão de pessoas (666 mil mortos, por baixo, talvez 20% mais, fora aqueles que sofrem as consequências duradouras da doença).

Cristiano Romero: A última coluna do Riba

Valor Econômico

Contribuição de Ribamar Oliveira ao país foi inestimável

Em agosto de 2020, o governo Bolsonaro encaminhou proposta orçamentária para 2021. Ao estimar despesas com benefícios previdenciários, atribui valor de R$ 1.067,00 ao salário mínimo, projetando inflação (INPC) de 2,09% em 2020. O INPC, como se sabe, corrige o salário mínimo e os benefícios pagos pelo INSS a quem recebe acima do mínimo. Naquele ano, porém, o índice chegou a 5,45% e, por isso, o salário mínimo de 2021 foi fixado em R$ 1.100,00.

Em 3 de março de 2021, o então relator da Receita da Comissão Mista de Orçamento do Congresso, deputado Beto Pereira (PSDB-MS), elevou para R$ 35,3 bilhões a previsão de arrecadação da União em 2021. O deputado alegou, em seu parecer, que, mesmo diante da mudança do cenário econômico, provocada, conforme mencionado, por inflação quase três vezes maior que a prevista inicialmente, o governo não encaminhou ao Legislativo mensagem alterando a proposta original.

Bruno Boghossian: Bolsonarismo enterrou políticas de segurança pública no país

Folha de S. Paulo

Incentivo à matança interdita debate e se torna retórica eleitoral dominante no Brasil

Jair Bolsonaro pegou carona na operação policial que terminou com 25 mortos no Rio. Nas redes, o presidente deu parabéns aos agentes, reclamou da imprensa e dedicou quatro palavras pálidas à inocente que morreu baleada na ação. Foi mais energia do que ele gastou em todo o mandato para desenvolver uma política de segurança para o país.

O capitão vendeu na última eleição a ideia de que teria uma solução mágica para a violência. Entregou um número de ilusionismo que tinha como pontos centrais a liberação de armas e o incentivo à matança. Além de não resolver o problema, o presidente enterrou o debate sobre segurança pública no Brasil.

Thiago Amparo: Vila Cruzeiro, chacina-genocídio

Folha de S. Paulo

As instituições policiais no Rio de Janeiro são, tecnicamente, genocidas

Vamos parar de fingir que a polícia fluminense precisava que 25 pessoas fossem executadas —oito das quais nem se sabe quem são— para apreender meia dúzia de armas e drogas; se precisar, a polícia é, além de morticida, incompetente. Sufocar o financiamento das drogas e controlar armas é mais eficiente e até salva vida de policiais. Vila Cruzeiro não é, no sentido legal, operação policial (quem por ela responde, legalmente?); no sentido tático, é um teatro macabro; no sentido literal, é chacina.

As instituições policiais no RJ são, tecnicamente, genocidas. Com a mesma frieza dos corpos já gélidos, transportados pelos moradores ao hospital em lençóis cheios de sangue, repito: imputo às forças policiais fluminenses o crime de genocídio.

Míriam Leitão: A terça de sangue do Rio ao Texas

O Globo

A terça-feira sangrenta que deixou mortos no Rio e no Texas tem eventos de natureza diferente e um ponto em comum: o uso descontrolado de armas. Os Estados Unidos têm tradição de facilitar o acesso à posse e ao porte de armas e há anos colhem tragédias como a desta semana em que morreram 21 pessoas numa escola, quase todas crianças. No Rio, a Polícia Militar foi à Vila Cruzeiro e deixou 25 mortos. Alega que são criminosos, como se isso justificasse a execução. Mas a própria PM admite que eles estão com armas cada vez mais pesadas. E por que estão? Porque está cada vez mais fácil comprar armas, munições e acessórios que antes tinham uso restrito e eram controlados pelo Exército.

No programa desta quarta-feira na Globonews o assunto foi a violência política e a política de liberação das armas. Entrevistei a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), que vive desde 2019 sob escolta policial depois de ataques e ameaças de morte. Entrevistei também Michele dos Ramos, assessora especial do Instituto Igarapé nessa questão.

José Serra*: Segurança econômica e reindustrialização

 

O Estado de S. Paulo

Economias emergentes minimamente industrializadas têm papel vital ante o risco da instabilidade da economia chinesa.

A fragilidade de nossa segurança econômica é uma ameaça que vem somar-se às crises que já afligem nosso país. Infelizmente, essa insegurança ainda não é bem compreendida pelos responsáveis por nossas relações externas. A noção de segurança econômica é hoje empregada por governos e grandes investidores que procuram se defender da instabilidade econômica da China. Dado seu papel central na economia mundial, os efeitos combinados da guerra na Ucrânia e da pandemia sobre a China agravaram as rupturas nas cadeias globais de produção e de valor.

Os eventos adversos que atingem a economia chinesa afetam o equilíbrio de fornecedores e consumidores de insumos que dependem desse país. Desde o início da pandemia, os chineses enfrentam os efeitos mútuos de uma política autoritária e controversa de combate ao vírus, da insatisfação social e política da população mais jovem e mais educada e de efeitos disruptivos no setor produtivo, que limitam sua capacidade para continuar ocupando o espaço central de sua indústria na economia global.

Ameaça de fome atinge 36% das famílias no país

Pela primeira vez desde 2006, país tem nível de insegurança alimentar pior que a média de 120 nações

Por Carolina Nalin / O Globo

O risco de fome aumentou ao redor do mundo diante dos impactos econômicos da pandemia de Covid-19, mas a situação se tornou particularmente grave no Brasil: a parcela de brasileiros que não teve dinheiro para alimentar a si ou sua família, durante algum período nos últimos 12 meses, subiu de 30% em 2019 para 36% em 2021, patamar recorde da série histórica iniciada em 2006. É também a primeira vez que o nível de insegurança alimentar no Brasil supera a média mundial (35%).

É o que aponta pesquisa elaborada pelo economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social. O estudo foi realizado com base no processamento de dados coletados entre agosto e novembro pelo Gallup World Poll, instituto que aplica questionários padronizados desde 2006 em 160 países e fornece evidências comparáveis em escala global sobre temas como saúde, educação, moradia e qualidade de vida.

Considerando a média de 120 países, a insegurança alimentar aumentou 1,5 ponto percentual no mundo contra 6 pontos percentuais no Brasil, ou seja, o aumento equivale a quatro vezes o registrado na média mundial.

Memória | Chamem Josué de Castro, que a fome voltou

Vandeck SantiagoDiário de Pernambuco, 21/11/2017

Minutos antes de receber uma das maiores premiações mundiais da época, Josué de Castro perdeu a voz. Teve um terrível acesso de tosse e não conseguia falar. Estava na cerimônia de entrega do Prêmio Internacional da Paz, que lhe fora concedido pelo Conselho Mundial da Paz, entidade sediada em Helsinque (Finlândia), onde se realizava o evento, em 1954. Após muito custo, ele insistiu em dizer algumas palavras. Foi o discurso mais curto que todas as autoridades presentes já tinham escutado. Josué de Castro conseguiu falar apenas uma frase: 

- 'O primeiro direito do homem é o de não passar fome' -, ele disse, e sentou-se, exausto, sob palmas. 

Pernambucano do Recife, onde nasceu em 1908, Josué foi a personalidade mais importante do século 20 no estudo da fome e na ação contra suas consequências. “Ele foi um gênio. Deveria ter um monumento em cada cidade do Brasil, porque é um dos maiores pensadores do século 20”, afirma o sociólogo suíço Jean Ziegler, relator da ONU para o direito à alimentação entre 2000 e 2008, professor da Universidade de Genebra e da Sorbonne e autor de vasta obra sobre a fome no mundo.  

No momento em que o Brasil está sob ameaça de volta ao Mapa da Fome da ONU (da qual havia saído em 2014) e que o caso de uma criança que desmaiou de fome numa escola em Brasília ganha repercussão nacional, é momento de lembrar Josué de Castro. Na hora em que acaba de ser divulgado relatório da ONU mostrando que o flagelo voltou a aumentar no mundo após 10 anos, é hora de tornar a Josué de Castro. 

Foi a partir de dois livros que o seu nome ganhou repercussão nacional e internacional. O primeiro, Geografia da Fome, de 1946, sobre o Brasil; o segundo, Geopolítica da Fome, de 1951, sobre a mesma questão, só que agora em escala mundial. “Este livro foi uma revelação para os europeus”, disse Jean Ziegler. O raciocínio que consolidara no Brasil, a partir da obra de 1946, ele expandia para o mundo: a causa da fome não se devia a caprichos da natureza, mas a -- vamos chamar assim -- caprichos da política. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Reduzir letalidade nas ações é dever da polícia do Rio

O Globo

Pouco mais de um ano depois da operação na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, que deixou 28 mortos em 6 de maio de 2021 e se tornou a mais letal na história do estado, a polícia fluminense, em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), realizou uma incursão na Vila Cruzeiro que resultou na segunda mais letal em seu rol interminável de confrontos: ao menos 25 mortos, entre eles uma moradora. Por mais que se saiba que as comunidades estão dominadas por facções criminosas que traficam, matam, roubam e exploram moradores, não há argumento plausível que justifique operações tão sangrentas. Lamentavelmente, o caso é um retrocesso diante da recente recuperação dos indicadores de violência no Rio.

A Polícia Militar (PM) afirmou que a operação, que começou na madrugada de terça-feira, teve por objetivo prender traficantes que se dirigiam à favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, onde se encontrariam com outro grupo. Ainda segundo a PM, a Vila Cruzeiro, no conjunto de favelas da Penha, se tornara refúgio para traficantes de todas as regiões do país. A participação da PRF, em tese responsável pelo policiamento nas rodovias federais, deveu-se a quadrilhas locais atuarem no roubo de cargas nas estradas de acesso ao Rio.

Poesia | Mario Quintana: A Vida

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Música | Marisa Monte: Feliz, Alegre e Forte

 

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Vera Magalhães: O futuro não é mais como era antigamente

O Globo

Um dos livros que mais me impactaram nos últimos tempos, pela forma cirúrgica com que aponta como o contrato social firmado pelo mundo democrático depois das duas guerras mundiais não é mais válido para os desafios do presente e de um futuro que chega a galope todos os dias, foi escrito pela economista Minouche Shafik, diretora da London School of Economics. No Brasil, ganhou o título “Cuidar uns dos outros —Um novo contrato social”.

Tive a oportunidade de entrevistar a autora a respeito dos temas que ela reuniu para demonstrar como os arranjos institucionais, econômicos, educacionais, de proteção social e ambientais, entre outros, ficaram rapidamente obsoletos diante de uma realidade que já vinha em rápida mudança graças a fatores como tecnologia, avanço da emergência climática e novo perfil demográfico dos países, e como isso foi potencializado de forma dramática pela pandemia de Covid-19.

Ela mostra com dados por que é inadiável que o mundo democrático rediscuta o atual contrato social, sob pena de, muito rapidamente, mais nações se verem diante do apelo sedutor de líderes com discurso de radicalização populista e tendência autocrática, que seduzem crescentes contingentes de eleitores ao propor soluções falsamente simples para problemas complexos.

O que fez com que o livro continuasse martelando na minha cabeça, meses depois da leitura e da entrevista, é a inquietante constatação de que nem um único dos temas que Shafik aborda está sequer sendo esboçado na campanha presidencial brasileira.

Bernardo Mello Franco: A matança no palanque

O Globo

No início do mês, a Polícia Civil foi ao Jacarezinho e destruiu um monumento que lembrava os 28 mortos da operação mais letal da história do Rio. Dias depois, o governador Cláudio Castro visitou a favela e festejou o ato de truculência. Declarou que o memorial, erguido por ativistas de direitos humanos, fazia “apologia ao crime”.

Castro era vice de Wilson Witzel, um governador que fazia apologia da matança policial. O ex-juiz se elegeu na onda bolsonarista de 2018. A pretexto de combater o tráfico, lançou a doutrina do “tiro na cabecinha”.

O atual governador não se fantasia de Rambo, mas também confunde política de segurança com incentivo ao bangue-bangue. Seu chefe de polícia, Allan Turnowski, disse que gostaria de ocupar as favelas com tanques de guerra. O discurso tinha fins eleitoreiros: o delegado acaba de deixar o cargo para se candidatar a deputado pelo partido de Castro e Bolsonaro.

Luiz Carlos Azedo: Dragão da inflação contra mito guerreiro

Correio Braziliense

A Guerra da Ucrânia será uma desculpa para medidas que visam segurar os preços, reduzir impostos e mitigar o impacto da inflação no orçamento doméstico, principalmente na cesta básica de alimentos

Com perdão para o trocadilho — Glauber Rocha que nos perdoe —, o presidente Jair Bolsonaro está convencido de que seu maior adversário nas eleições é a inflação. Os números corroboram esse temor, pois a alta dos preços, principalmente dos combustíveis e dos alimentos, pode levar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à vitória no primeiro turno. O que se discute no governo é a adoção de medidas de contingenciamento dos preços, seja pelo congelamento puro e simples, seja pela via de incentivos fiscais. A nova mudança na direção da Petrobras tem esse objetivo.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que é considerado uma prévia da inflação oficial do país, está em 0,59% em maio, após ter registrado taxa de 1,73% em abril, somando 12,20% em 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante disso, Bolsonaro resolveu demonizar a Petrobras, que seria o grande dragão da inflação. Vestiu a armadura de mito guerreiro e defenestrou mais um presidente da empresa, o terceiro. José Mauro Ferreira Coelho durou 40 dias do cargo, sendo demitido por telefone pelo novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Saschida. Para o seu lugar, Bolsonaro indicou Caio Mario Paes de Andrade, atual secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia.

Marcelo Godoy: A austeridade dos bolsonaristas

O Estado de S. Paulo.

‘Projeto de Nação’ dos generais contou com a estrutura dos ministérios para ser elaborado

O País se deu conta nesta semana de que o projeto dos militares que apoiam o governo de Jair Bolsonaro prevê a manutenção do poder até 2035. Até lá, eles terão avançado na tarefa de remodelar o Estado, vencendo uma nova guerra. Na falta do Movimento Comunista Internacional, identificam o “globalismo” como a doutrina inimiga que pretende subjugar a Pátria.

São os banqueiros internacionais, a alta finança, que ocupa o lugar que um dia foi dos bolcheviques, criando uma situação interessante. O discurso contra a plutocracia, tão em moda entre os radicais da direita dos anos 1920, orgulha-se em dividir a mesa com Elon Musk, mas é refratário ao dinheiro de George Soros.

O plano dos generais Eduardo Villas Bôas e Hamilton Mourão defende a austeridade pública. Quer cobrar o atendimento no SUS de quem ganha mais de três salários mínimos. Pretende impor mensalidades aos alunos das universidades federais enquanto os cadetes das Forças Armadas e das polícias recebem soldo nas suas escolas porque o estudo ali é visto como serviço.

Paul Krugman*: Os perigos da sordidez plutocrática

O Estado de S. Paulo.

Bilionários da tecnologia têm se voltado contra os democratas por interesses econômicos e egos frágeis

Os sultões do Vale do Silício passam por uma irritação política, em que alguns bilionários têm se voltado contra os democratas. Não apenas Elon Musk. Outros nomes proeminentes, incluindo Jeff Bezos, atacaram Joe Biden, e nós sabemos que Larry Ellison, da Oracle, participou de uma chamada com Sean Hannity e Lindsey Graham sobre reverter a eleição de 2020.

O momento dessa mudança para a direita linha-dura por parte de alguns aristocratas da tecnologia é marcante em face do que está ocorrendo na política. É difícil imaginar o tipo de bolha em que Musk vive para ele apontar o Partido Democrata como “o partido da divisão e do ódio”, no momento em que Tucker Carlson, que não é político, mas é uma das figuras mais influentes do Partido Republicano, dedica programa após programa à “teoria da substituição”, alegação de que a elite progressista traz imigrantes para os EUA para substituir eleitores brancos. Pesquisas mostram que metade dos republicanos concorda com essa teoria.

Alvaro Gribel: A Petrobras sob nova intervenção

O Globo

O nome de Caio Paes de Andrade para a presidência da Petrobras representa a mais forte tentativa de intervenção na companhia desde a aprovação da Lei de Responsabilidade das Estatais, de junho de 2016. A indicação tem um propósito claro: mudar a política de preços dos combustíveis para segurar a inflação e beneficiar o presidente Jair Bolsonaro em sua tentativa de reeleição.

 No mercado, há cálculos de que o projeto do ICMS, que tramita no Congresso, somado a um congelamento do diesel e da gasolina, poderia diminuir em até dois pontos percentuais o IPCA deste ano. Paes de Andrade não tem currículo para o posto, mas o governo aposta em uma brecha na Lei para que ele assuma o cargo.

Fontes da Petrobras contaram à coluna que, mesmo com a mudança no Ministério de Minas e Energia, havia a expectativa de que José Mauro Coelho pudesse continuar à frente da empresa. Para evitar uma nova mudança brusca na gestão da maior companhia do país, eles acreditavam em algum tipo de “acomodação” do executivo no cargo e lembravam evento na última semana, no Jardim Botânico, no Rio, em que Bolsonaro esteve presente mas não fez ataques à diretoria.

Vinicius Torres Freire: Conta da eleição de Bolsonaro aumenta

Folha de S. Paulo

Conta vai aparecer em algum lugar, como no descrédito financeiro do país

Câmara dos Deputados está para aprovar um subsídio federal para o consumo de combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte. Isto é, quer fazer o governo federal bancar parte do custo do consumo desses bens e serviços.

Como? Obrigando o governo federal bancar parte das perdas que estados e municípios terão com a redução do ICMS sobre esses bens e serviços (segundo projeto que tramita na Câmara).

E daí?

A inflação não está altíssima? Sim.

O governo federal tem dinheiro para bancar esse subsídio? Não. Caso não corte outras despesas (o que não vai fazer), será obrigado a tomar mais empréstimos para bancar essa conta, essa perda de receita dos estados. Isto é, vai fazer mais dívida, ao custo de mais de juros de mais de 13% ao ano.

A conta vai aparecer em algum lugar, na dívida e no descrédito financeiro do país. Assim como vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, nas finanças de estados e municípios.

Bruno Boghossian: O dia depois da eleição

Folha de S. Paulo

Fórmula para evitar reajustes agora pode tornar mega-aumento inevitável após a campanha

Jair Bolsonaro percebeu que esbravejar no cercadinho do Palácio da Alvorada não resolveria seu problema. Depois de trocar o comando da Petrobras pela terceira vez, o presidente começou a discutir com auxiliares uma fórmula para segurar os preços dos combustíveis. A ideia é evitar reajustes por 100 dias, mas alguns aliados trabalham para que um aumento só ocorra depois da eleição.

O represamento já existe na prática. Pela política atual, a Petrobras deve acompanhar os preços do mercado internacional, mas a pressão de Bolsonaro já fez com que a empresa segurasse por dois meses o valor cobrado pelo diesel. A gasolina está sem reajuste há 75 dias.

Hélio Schwartsman: Tudo pela Câmara é nova lógica dos partidos

Folha de S. Paulo

Com a desistência de Doria, vemos redução da competição eleitoral, o que é um retrocesso democrático

O tucano João Doria viu que, por sabotagens internas, não teria a menor condição de disputar a Presidência e desistiu de concorrer. Simone Tebet, do MDB, pode ser a próxima. A candidatura do pedetista Ciro Gomes parece mais sólida. Mas, se também ele pular fora, ficam grandes as chances de vermos a contenda entre Lula e Bolsonaro resolver-se em turno único.

Não é, porém, o segundo turno que eu gostaria de discutir hoje, mas a redução do apetite dos partidos por lançar postulantes ao cargo máximo. Até 2014, a sabedoria convencional sugeria que legendas que não estivessem numa coligação com chances reais de chegar ao poder deveriam, sim, lançar um cabeça de chapa. Os custos de fazê-lo não eram tão elevados e a propaganda eleitoral gratuita funcionava como uma vitrine para lançar/popularizar quadros e aumentar a visibilidade da sigla.

Tebet sofre pressão em prova de fogo para erguer terceira via

Senadora tenta tornar candidatura viável em meio a fragilidades suas e disputas partidárias

Joelmir Tavares / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO -  Com a desistência do ex-governador João Doria (PSDB-SP), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) passa a concentrar por ora as expectativas da chamada terceira via, com os prós e contras que o afunilamento desse campo impõe à sua pré-candidatura, hoje na casa de 1% das intenções de voto.

O tucano, que pontuava em torno de 3% (empatado tecnicamente com ela), deixou a pista livre para a então rival no consórcio PSDB, MDB e Cidadania, que tenta fabricar uma alternativa competitiva a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Juntos, os dois detêm cerca de 70% nas pesquisas.

Aliados e auxiliares de Tebet enxergam na saída de Doria uma oportunidade ímpar para ela, com vantagens e riscos implícitos. A ordem é turbinar a pré-campanha a ponto de sustentá-la como opção viável e neutralizar a ala do PSDB que ainda quer lançar um nome como cabeça de chapa.

Ungida pela direção dos três partidos como a melhor opção na disputa com Doria, sobretudo pelo índice de rejeição menor, a senadora foi diplomática ao comentar nesta segunda-feira (23) o recuo do tucano (a quem se referiu como colega e amigo), sem deixar de explicitar seu otimismo.

No momento do anúncio, a presidenciável estava em Cuiabá, cumprindo parte da agenda de viagens traçada para aumentar sua exposição e apresentá-la aos eleitores. O desconhecimento é justamente um de seus principais pontos fracos, principalmente quando se dava a comparação com Doria.

Tebet batizou a jornada de incursões como Caminhada da Esperança e vem buscando responder a uma das demandas reveladas pela pesquisa que a trinca de partidos contratou para embasar a escolha do candidato com mais chances. A sondagem contribuiu para o descarte do tucano pelo grupo.

Obstáculos da via Tebet

Senadora recebe apoio do MDB, mas precisa crescer nas pesquisas e conter dissidências

Por Bianca Gomes e Gustavo Schmitt / O Globo

Embora ainda precise confirmar a consolidação da terceira via, crescer nas pesquisas e driblar eventuais traições dentro do próprio partido, a senadora Simone Tebet (MS) teve sua pré-candidatura à Presidência referendada na terça-feira por emedebistas dos principais estados do país.

Presidentes de pelo menos 22 dos 27 diretórios do partido manifestaram apoio à senadora, confirmando cenário favorável para homologação da pré-candidatura nas convenções do meio do ano. Além disso, Tebet teve seu nome aprovado ontem, por unanimidade, pelo Cidadania.

Com 1% das intenções de voto e sem nunca ter disputado uma eleição presidencial, Tebet aposta em uma coligação com o PSDB para ampliar o tempo de televisão e tentar ser mais conhecida nacionalmente nos próximos meses.

Apesar de ser a representante virtual da terceira via, há obstáculos para garantir o apoio dos tucanos, uma vez que uma ala do partido faz pressão interna por uma candidatura própria. Soma-se a isso o fato de que PSDB e MDB se enfrentam nas eleições aos governos em pelo menos dois estados: Paraíba e Distrito Federal.

Os defensores de uma aliança entre emedebistas e tucanos alegam que a eventual chapa poderia destravar negociações entre as legendas nos estados do Rio Grande do Sul, onde o deputado Gabriel Souza (MDB) é apontado como possível vice de Eduardo Leite (PSDB) ou do atual governador Ranolfo Vieira Júnior; Pará, onde os tucanos querem indicar a vice da chapa do governador Helder Barbalho (MDB); e São Paulo, onde o emedebista Edson Aparecido é o mais cotado para ser vice do governador Rodrigo Garcia (PSDB), que concorre à reeleição.

Mesmo com a chancela formal da maior parte da cúpula emedebista, Tebet terá de fazer campanha ao lado de correligionários que vão pedir votos para Lula e Bolsonaro, os dois mais bem colocados nas pesquisas.

Graziella Testa*: Terceira via é ressentida e não consegue se diferenciar de Lula e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Candidaturas são resultado de personalismos e mágoas, não de demanda real do país

Na semana passada, Ciro Gomes (PDT) e Gregorio Duvivier protagonizaram um longo bate-boca, erroneamente chamado de debate, que bem exemplificou a principal característica dos candidatos que se apresentam como terceira via nas eleições de 2022: o ressentimento.

Apesar das aparentes diferenças, Sergio Moro (União Brasil) e Ciro Gomes, os nomes desse grupo mais bem-colocados em pesquisas de intenção de voto, têm em comum um grande desencanto com os projetos políticos que um dia abraçaram. Ciro foi, por três anos, ministro da Integração Nacional de Lula (PT), e Moro foi ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro (PL), a quem também apoiou eleitoralmente.

Aqui cabe fazer uma diferenciação importante: há o apoio ainda no primeiro turno das eleições e há o papel de composição da coalizão de governo. A distinção importa porque nosso sistema político tem incentivos contraditórios nas arenas eleitoral e legislativa.

Por um lado, o sistema eleitoral proporcional de lista aberta incentiva a competição entre candidatos da mesma legenda e, por consequência, o comportamento personalista. Por outro, toda a estrutura de distribuição de cargos e participação no processo decisório se dá pelo critério partidário.

A chamada terceira via é composta sobretudo por uma longa lista de ex-apoiadores de Bolsonaro. O projeto de candidatura à Presidência de quase todos eles ficou pelo caminho. Ministro da Saúde no início da pandemia, Luiz Henrique Mandetta (União Brasil) agora ensaia uma aproximação com outro ex-aliado de Bolsonaro, Luciano Bivar, para talvez disputar o Senado por seu estado, o Mato Grosso do Sul

Fundador do PSL, Bivar articulou a candidatura de Bolsonaro pelo partido em 2018. Com a saída de Bolsonaro do PSL e a posterior fusão do partido com o Democratas, formando o União Brasil, Bivar, presidente da nova sigla, ocupa o papel da viúva dona do cofre e também tenta uma candidatura pouco animada, visando colher um papel relevante no futuro governo eleito.