O Estado de S. Paulo
O antropólogo diz que para entender um povo é
necessário conhecer os seus ritos e seus mitos
O carnaval como ritual que mistura ricos e
pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus
livros
Entender o Brasil por intermédio de algumas
de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o
jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o
início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes
antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos
nesta quarta-feira, 29.
O renomado intelectual revolucionou as
ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos
religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou
o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como
rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.
Foi um dos principais responsáveis por
analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus
livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis),
consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social,
que se equilibra entre o favor e a malandragem.
Uma das principais ideias desenvolvidas na
obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o
universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do
parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho,
das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a
ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando
laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o
banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu
aniversário.