sábado, 30 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Classificar PCC e CV como terroristas tem efeito incerto

Por O  Globo

Apesar da medida arbitrária, Brasil terá de lidar com consequências. Será melhor se aprofundar a cooperação

O Departamento de Estado americano anunciou que, a partir de 5 de junho, as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) passarão a ser consideradas organizações terroristas, como os cartéis do narcotráfico e grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Hamas ou Hezbollah. Não foi exatamente uma surpresa, o movimento já vinha sendo gestado. No anúncio, porém, os Estados Unidos não apresentaram nenhuma evidência contundente de atuação terrorista dessas facções, cuja atividade criminosa e violenta tem motivação sobretudo financeira, não política, ideológica ou religiosa. Ao contrário dos cartéis mexicanos, os grupos brasileiros nem sequer têm o mercado americano como alvo principal. Apesar da arbitrariedade da medida, o Brasil será obrigado a lidar com as consequências.

O desafio de pensar o futuro, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O futuro depende de projetos bem concatenados e da gestação, nas sociedades, de ‘blocos históricos’

Sempre pedimos ao passado para nos ajudar a entender as agruras do presente. O passado determina muitas coisas. Modela experiências, individualidades e relacionamentos. Forma estruturas difíceis de serem modificadas. Condiciona não pela transmissão de “heranças malditas”, mas pelo que contém de tradições, valores e percursos reiterados. Carrega cultura no ventre. A história é sempre permanência e mudança, continuidade e descontinuidade.

O passado não nos domina. “Eu não vivo no passado, o passado vive em mim”, cantou Paulinho da Viola. Sua herança nos chega sem um testamento ou um roteiro a ser seguido. Não guia nossos passos, não diz o que devemos fazer com ele. A falta de clareza sobre o futuro é que nos leva a buscar explicações no passado.

Fraternidade fratricida, por Marcelo de Azevedo Granato*

O Estado de S. Paulo

Uma política erguida sobre sentimentos inibe a construção de projetos comuns e pode conduzir à dessensibilização diante do adversário político

Pesquisas eleitorais indicam a consolidação da disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de outubro. Os números reafirmam a tendência de uma disputa equilibrada, mas o panorama político brasileiro não se resume a eles. Para além das conclusões das pesquisas sobre a divisão do eleitorado, verifica-se também um padrão de insulamento e de desqualificação recíproca entre os grupos de eleitores de Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro, com efeitos negativos para a sociedade e a democracia brasileira.

A pesquisa Polarização afetiva, confiança e adesão à democracia no Brasil, realizada no ano passado pelo ConnectLab, Centro de Estudos da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), entrevistou pessoas da esquerda à direita do espectro político, inclusive aquelas autodeclaradas petistas e bolsonaristas.

O jogo de Flávio Bolsonaro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Não desfazendo da obstinação do bolsonarismo eduardista por estabelecer relações na Casa Branca, a conta do acesso de Flávio Bolsonaro ao primeiro escalão da administração Trump – sobretudo a Marco Rubio e J.D. Vance – não fechará sem a variável lobby-de-algum-grupo-econômico-pesado.

Isto parece ser condição fundamental para se chegar ao presidente dos EUA: ter o apoio de bilionários de cujos investimentos o governo, donde o projeto de poder trumpista, dependa. Lula tem os seus empresários abridores de portas em Washington. Está explícito. Nem sempre será, talvez porque os de Flávio – o cronista especula – sejam financiadores do Partido Republicano e do movimento MAGA. Atenção a isso.

O vale-tudo do projeto de poder bolsonarista, por Flávia Oliveira

O Globo

À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção, inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras

Não há limite para o projeto de poder do bolsonarismo. Vale duvidar das urnas eletrônicas, minar a credibilidade de autoridades e do sistema eleitoral, confrontar Legislativo, Judiciário e até a ciência. Vale tramar golpe de Estado e assassinato de presidente e vice eleitos, bem como de ministro do Supremo Tribunal Federal. Vale incitar nação estrangeira a aplicar tarifas, abrir investigação contra o Brasil por concorrência desleal e impor sanções a personalidades da República. Agora, vale também buscar classificação de organizações criminosas, caso de PCC e Comando Vermelho, como terroristas e sujeitar o país a graves retaliações econômicas e financeiras pela maior economia do planeta, segundo maior parceiro comercial brasileiro.

Não sou sócio do Master, por Eduardo Affonso

O Globo

O Banco Master está liquidado — e liquidando a carreira de muita gente —, mas os sócios devem estar bem

Mesmo morando em Minas, onde a energia elétrica era fornecida pela Cemig, passei a infância ouvindo minha mãe dizer que não era sócia da Light. Uma lâmpada esquecida acesa, a porta da geladeira mantida aberta enquanto se brigava com a alavanca da forminha de gelo, e lá vinha ela:

— Não sou sócia da Light!

O sonho de toda mãe dos anos 1960 devia ser a oportunidade de comprar ações da companhia e, assim, deixar de se preocupar com a televisão ligada sem ninguém assistindo, o chuveiro elétrico em uso por mais de cinco minutos — ou com a erfráier e o ar-condicionado, se esses avanços tecnológicos existissem naquela época.

A força da verdade, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora

Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tevê a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos indígenas gigantes nas margens do Rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso. 

Quem ganha com um Brasil mais frágil? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O que verificamos é que, para o núcleo familiar central do bolsonarismo, o interesse nacional não é mais importante que seu projeto pessoal do poder. Vale tudo para derrotar seu adversário político, inclusive ignorar a soberania do Brasil

O reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos deve inspirar muita preocupação em todos nós. O potencial de intervenção americana no território brasileiro é, agora, uma ameaça real. Para além da preocupação com a integridade territorial, há um risco para os cidadãos nacionais, que ficam vulneráveis à captura e encarceramento sem qualquer possibilidade de controle do excesso pelo estado brasileiro.

Lembremos dos episódios em que barcos foram abatidos na Costa do Caribe e no Oceano Pacífico. Foram mais de 145 mortos, numa ofensiva militar sobre a qual se sabe muito pouco. A comunidade internacional levanta o questionamento sobre a ocorrência de verdadeiras execuções extrajudiciais, sem acusação, sem processo, sem identificação clara dos alvos: apenas o abatimento, a longa distância, de embarcações tidas por suspeitas.

A escala 6x1 e a estratégia dos que nada querem mudar, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Desde a Revolução Francesa diz-se que reformas emancipatórias podem gerar efeitos perversos

No Brasil, quem tem escala 5x2 ganha em média R$ 6.211; na 6x1 o valor é R$ 2.627

"Atraso", "desastre" e "retrocesso" são alguns dos adjetivos empregados por aqueles que se contrapõem à PEC 221, que propõe reduzir para 40 horas a jornada de trabalho, estabelecendo uma escala de 5 dias trabalhados para 2 de descanso remunerado, sem perda salarial.

Para os mais críticos, a aprovação da PEC não apenas gerará maiores custos aos empregadores —que seriam repassados a toda a sociedade, por meio do aumento dos preços— como, sobretudo, imporá perdas aos próprios empregados, que serão demitidos ou obrigados a migrar para a informalidade. Trata-se, para esses críticos, não apenas de uma medida economicamente contraproducente mas de uma proposta perversa para aqueles que almeja beneficiar.

O Brasil à mercê do vorcarismo, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Trata-se da doutrina pela qual os seus praticantes acham que nunca serão pegos por atos ilícitos e irresponsáveis

Daniel Vorcaro, dono do Master, é o guru máximo desse sistema de crenças que se espalha pelo país

O vorcarismo está com tudo no Brasil. É uma doutrina pela qual os seus praticantes acham que nunca serão pegos por atos ilícitos e irresponsáveis. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, é o guru desse sistema de crenças.

Mesmo sendo causador do maior escândalo financeiro da história do país com perdas que podem superar R$ 60 bilhões, Vorcaro quer assumir de volta o banco para controlar a venda de ativos da instituição quebrada, pagar as dívidas e ficar com o saldo remanescente, como mostrou a colunista Mônica Bergamo.

A proposta foi parar nas negociações da sua delação premiada. Desde sempre, antes mesmo da liquidação do Master pelo Banco Central, ficar com o "troco" sempre foi o plano do ex-banqueiro.

Terrorismo ao gosto do freguês, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Inexistência de definição universalmente aceita permite múltiplas classificações

Lei americana abusa de tipos abertos e a brasileira exige motivação ultraespecífica

PCC e CV são organizações terroristas, como acaba de decretar Donald TrumpNão existe definição universalmente aceita de terrorismo, o que dá ampla margem de manobra a quem faz a classificação.

Os americanos se valem de conceituações relativamente abertas. Qualquer ação que envolva violência e tenha o objetivo de intimidar a população civil ou forçar o governo a alterar políticas pode ser categorizada como terrorista (US Code, Title 18). Se você tiver uma treta com as autoridades locais, elas não precisarão se esforçar muito para acusá-lo de terrorismo.

Escala 5x2 anula efeito da foto de Flávio Bolsonaro com Trump, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Contrária à redução da jornada de trabalho, direita não consegue evitar vitória de Lula

Momento eleitoral decide a sorte da PEC, que precisa passar no Senado

Foi o espetáculo de sempre no mafuá da Câmara dos Deputados. Em mais de 12 horas de sessão, vaias, comemorações, bate-bocas ensaiados para alimentar as redes sociais. O deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) roubou a cena ao dizer que o fim da escala 6x1 vai permitir mais tempo para o sexo.

Em defesa da aprovação do texto, Otoni de Paula (PSD-RJ) voltou à década de 60 do século passado, aos polarizados festivais da canção, puxando o coro de "Pra Não Dizer que não Falei das Flores (Caminhando)", de Geraldo Vandré. Uma cena constrangedora, mas quem estava ligando?

Um país em depressão, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Quando a política e o estresse psicológico se encontram

A coincidência cronológica é demasiado precisa para ser fortuita. Em 2013, ano em que as “jornadas de junho” inauguraram o ciclo de polarização permanente no Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde registrava prevalência de 7,6% de depressão diagnosticada entre adultos. Em 2019, o índice foi a 10,2% — 16,3 milhões de pessoas. Em 2022, no inquérito Covitel, da UFPel, chegou a 13,5%. Em seis anos, alta de 34%. Em uma década, quase dobrou. Nesse período, o país atravessou Lava-Jato, impeachment, recessão histórica, eleição de 2018, pandemia, eleição de 2022 e o 8 de Janeiro.

A nova abolição, por André Barrocal

CartaCapital

A despeito da pressão empresarial, a Câmara aprova o fim da escala 6×1. O Senado tende a corroborar

O fim do trabalho escravo no Brasil, último país a abolir a prática, foi seguido por cerca de quatro décadas de expedientes laborais inclementes: 12 horas diárias, 14 horas, 16 horas. Getúlio Vargas, nos anos 1930 e 1940, impôs limites: 8 horas por dia e 48 por semana. Era o início da chamada escala 6 por 1. Passaram-se mais quatro, cinco décadas e a Constituição que enterrou a ditadura reduziu a carga semanal para 44 horas. E agora, 38 anos depois, o Brasil está à beira de outro passo histórico para dar mais tempo livre àqueles que o carregam nas costas. Os deputados acabam de aprovar a jornada de 40 horas por semana, realidade na Europa desde o século passado, sem corte de salário. Basta o endosso dos senadores, e as pistas indicam que eles não vão nadar contra a maré, para a mudança constitucional entrar em vigor de forma escalonada: 42 horas em 60 dias e 40 horas, em um ano. Será a abolição da escala 6 por 1.

A revolução da IA e o futuro da humanidade, por Marcus Pestana

A trajetória humana é a história de sucessivos desequilíbrios, provocados pela constante inovação, fruto da inquietação humana e da busca permanente de desenvolvimento e da melhoria da qualidade de vida. O mundo nunca deu razão àqueles que acreditavam numa utopia estacionária, onde, em certo momento, estabilizaríamos a vida, alcançando tranquilidade e a conservação do status quo, sem as tormentas causados pelas mudanças disruptivas e inovações revolucionárias.

O pecado da escravidão, por Jamil Chade

CartaCapital

A primeira encíclica de Leão XIV une-se à posição da ONU na crítica ao neocolonialismo

Sem o carisma e a vitalidade de Francisco, o antecessor, o papa Leão XIV finalmente saiu da sombra e deu sentido ao seu pontificado. Na segunda-feira 25, o norte-americano ­Robert Prevost lançou a encíclica Magnifica ­Humanitas, que trata da salvaguarda dos seres humanos na era da Inteligência Artificial. O papa aproveitou a oportunidade para uma reparação histórica. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, declarou, em referência à chancela da Santa Sé a séculos de escravidão. O reconhecimento papal deu-se dois meses depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado uma resolução na qual declara a escravatura como o maior crime contra a humanidade de todos os tempos.

A síndrome de Babel, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Na encíclica Magnifica Humanitas, Leão XIV alerta para os perigos da tecnologia

Cometo a ousadia de abrir este modesto artigo com um trecho da encíclica Magnifica Humanitas do papa Leão XIV. “A tecnologia”, diz o texto, “pode curar, conectar, educar, cuidar da casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, pois tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu e um povo que, unido na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna.”

Depois das facções, acusação de terrorismo de Trump pode alcançar qualquer brasileiro, por Thiago Rodrigues*

CartaCapital

Ao incluir PCC e CV no aparato jurídico da guerra ao terror, Washington amplia sua capacidade de impor sanções, abrir processos e exercer pressão política sobre o País

No dia 26 de maio, Flávio Bolsonaro foi recebido na Casa Branca por Donald Trump. O senador, agora pré-candidato à Presidência, disse ter pedido ao americano que incluísse o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, as principais facções criminosas brasileiras, na lista de organizações terroristas estrangeiras do Departamento de Estado dos EUA, conhecida pela sigla FTO, de Foreign Terrorist Organizations.

Dois dias após a visita, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a inclusão imediata do CV e do PCC como terroristas, mas em outra categoria: a de Specially Designated Global Terrorists, ou SDGTs, “terroristas globais especialmente designados”. Rubio prometeu porém, para 5 de junho, incluí-los também na lista de FTOs.

Governo Lula diz que soberania é 'inegociável', rejeita 'interferência' e ataca família Bolsonaro após EUA classificarem PCC e CV como terroristas

Por Jeniffer Gularte e Sérgio Roxo – O Globo

Texto afirma que ação de opositores é 'deplorável' e feita por 'falsos patriotas'

O governo Lula afirmou em nota que rejeita qualquer "interferência" e que a soberania é "inegociável" após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O texto traz ataques à família Bolsonaro e diz que a medida foi tomada após uma "manipulação política" feita por "falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado". O próprio presidente também se manifestou em discurso nesta manhã afirmou que as facções são "terroristas para os brasileiros e não como Trump quer".

O governo era contra a medida, que foi tomada dois dias após o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, se reunir com o presidente Donald Trump na Casa Branca. Flávio e aliados comemoraram a iniciativa de Trump.

Lula critica decisão dos EUA sobre PCC e CV: ‘Não aceitamos ser tratados como moleques’

 

Quem age contra a soberania é indigno de ser presidente, diz ex-chanceler sobre Flávio Bolsonaro

Leonardo Miazzo – CartaCapital

Soberania depende da capacidade de um país se pautar por suas próprias leis, enfatiza Aloysio Nunes

O ex-chanceler Aloysio Nunes afirmou a CartaCapital considerar o senador Flávio Bolsonaro (PL) indigno de se tornar presidente da República, após o pré-candidato ao Palácio do Planalto trabalhar para os Estados Unidos designarem como terroristas as facções criminosas PCC e Comando Vermelho.

Segundo o secretário de Estado, Marco Rubio, o governo de Donald Trump classificará as facções como “Organizações Terroristas Estrangeiras” a partir de 5 de junho. O republicano acelera desde 2025 o combate ao que chama de “narcoterrorismo”, enquanto o Brasil temia as implicações legais e de soberania caso essa designação passasse a contemplar o PCC e o CV.

A postura brasileira também resulta de uma avaliação técnica: facções são organizações criminosas voltadas ao lucro, sem motivação política ou ideológica – um elemento associado à definição de terrorismo no direito internacional.

O anúncio de Rubio ocorreu cerca de 48 horas após o encontro entre Trump e Flávio na Casa Branca. O senador afirmou ter solicitado a medida contra o PCC o CV.

“Um atributo central da soberania é a capacidade de um país reger-se por suas próprias leis. Flávio Bolsonaro e a extrema-direita defendem a aplicação de uma lei norte americana ao Brasil“, resumiu Nunes.

O ex-ministro das Relações Exteriores enfatiza: a lei brasileira tipifica como terrorismo determinados atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião.

“Não se aplica aos crimes do CV e do PCC, que são punidos pela Lei das Organizações Criminosas com penas mais severas que as cominadas ao terrorismo”, acrescentou Aloysio Nunes. “Preconizar a aplicação extraterritorial de uma lei norte americana no Brasil é agir contra nossa soberania. Quem faz isso é indigno de ser presidente da República.”

Poesia | Vinicius de Moraes - Desespero da Piedade

 

Música | Nara Leão - Tema de "Os Inconfidentes"

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Opinião do dia – Nicolau Maquiavel*

“É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”.

*Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação contra PCC aponta caminho no combate às facções

Por O Globo

Cerco às redes financeiras é a melhor forma de asfixiar as organizações criminosas

Deflagrada nesta quinta-feira, a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Carbono Oculto, foi um novo golpe das forças de repressão nas redes financeiras usadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro. A operação conjunta da Receita Federal com o Ministério Público e a Secretaria da Fazenda de São Paulo descobriu seis novas fintechs atuando como bancos paralelos do crime. Juntas, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Há registros de pelo menos R$ 365 milhões em transações suspeitas com criptoativos. A Fluxo Oculto também identificou operações de adulteração de combustível que podem ter resultado em R$ 200 milhões sonegados em dois anos.

Regime representativo de quê? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no quê estou votando

Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver representada em meu voto?

A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos “eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.

O poder não dança, e quer ganhar no Xenhenhem, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Conhecido pela desenvoltura nas redes, onde já apareceu jogando bola, e até sambando, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), escondeu o gingado na festa junina da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), ao recusar o convite da anfitriã para dançarem forró na ampla pista de dança armada em uma casa no Lago Sul, onde ela promoveu um animado “esquenta” do São João de Campina Grande.

Uma das mais tradicionais festas do Nordeste, o evento em Campina Grande (PB), reduto político da família da senadora, é anunciado como o “O Maior São João do Mundo”, tem 33 dias de duração, e, na edição deste ano, terá João Gomes, Roberto Carlos e Marisa Monte.

A ‘mãozinha’ de Trump, por Vera Magalhães

O Globo

Medida do governo dos EUA que classifica facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados é um daqueles assuntos complexos e multifacetados, mas que, quando levados para a arena eleitoral, tendem a produzir reações rasas, precipitadas e turvadas pela narrativa ideológica. Como sempre acontece em momentos assim, o risco de prejuízos duradouros, e em várias dimensões, para o país são enormes.

Trump: boia ou âncora, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

Intervenção americana como resgate da soberania, por Pablo Ortellado

O Globo

Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington

A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou.

Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira.

Decisão dos EUA afetará cooperação internacional contra PCC e CV, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Gakiya, maior autoridade no País no combate ao PCC, e Sarrubbo, que foi chefe do MP-SP, afirmaram que decisão transfere da DEA e do FBI para a CIA o combate às duas facções o que pode impedir a acessos a informações e prejudicar combate ao crime

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo afirmaram ao Estadão que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deve afetar a cooperação internacional para o combate ao narcotráfico, favorecendo criminosos em vez de endurecer o combate ao crime.

Isso porque, ao aumentar o nível de risco apresentado pelas duas facções, o governo americano deixa de tratá-las como um caso de polícia e passa a considerá-la um problema militar. A consequência disso é que a Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana, e o FBI, a polícia federal americana, deixam de investigar as facções, que passam a ser um problema da CIA, a agência de inteligência americana e das Forças Armadas dos EUA.

E vai rolar a festa! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Governos e bancos movem mundos e fundos para salvar o BRB; e os bilhões de Vorcaro e ‘amigos’?

Daniel Vorcaro comprou tudo e todos, construiu e destruiu um banco em tempo recorde, e agora? Agora, o governo federal, o governo do DF, o Supremo, os bancos públicos e privados movem mundos e (principalmente) fundos e a raia miúda e os contribuintes pagam parte da conta do Master com o “ajuste fiscal” incluído no acordo de salvação do banco, de R$ 6,5 bilhões.

Nesse caso, “ajuste” significa fim de concursos e de vagas e piora de serviços e de manutenção da capital, ou seja, mais arrocho para o funcionalismo público e mais descuido e irritação para a população que depende de professores, médicos, transportes, burocracia azeitada...

Enquanto isso, o Dr. Vorcaro volta a negociar um acordo de delação premiada com a PF, contando o que ainda não se sabe, e tem a audácia de pretender retomar o seu banco liquidado, pagar algumas dívidas e ainda ficar com um troco. Pode isso, minha gente?

Da Operação Catarata à Compliance Zero, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ex-governador do Rio, Cláudio Castro é suspeito de roubar de mendigo, aposentado e pagador de impostos

O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro é suspeito de participar de esquemas fraudulentos que surrupiaram dinheiro de mendigos, aposentados e pagadores de impostos em geral.

As suspeitas sobre sua conduta começaram na Operação Catarata, do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Civil, em 2019, e na Operação Sétimo Mandamento, deflagrada pela Polícia Federal, em 20 de dezembro de 2023.

Governo Trump põe o terrorismo na eleição brasileira, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Flávio não representa o governo. Mas a afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar mundial

Na coluna de ontem, comentei que os encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a cúpula da Casa Branca colocaram o problema da segurança pública de volta ao centro de debate eleitoral no Brasil. No início da noite de ontem, o governo norte-americano deu uma resposta aos apelos feitos pelo parlamentar brasileiro. Em mensagem postada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a administração Trump anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser denominadas organizações terroristas.

Voto contra o fim da 6x1 vai custar caro em outubro? Por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Com eleições à vista, deputados que se opuseram à nova jornada enfrentam dilemas. Como explicar o voto contra uma pauta com tanto apelo popular?

A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 na Câmara produziu uma cena rara na política brasileira atual: um consenso praticamente unânime. Em tempos de polarização permanente, um texto reunir mais de 90% dos votos favoráveis dos deputados em dois turnos é algo que merece atenção. E reflexão.

A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, acompanhada da garantia de duas folgas semanais, é uma medida de forte apelo popular. Não apenas porque mexe diretamente na qualidade de vida do trabalhador, mas porque dialoga com uma sensação crescente de exaustão vivida por milhões de brasileiros. O debate vai muito além da economia. É também social, humano e geracional.

Bruno e a jornada 6x1, por José Sarney*

Correio Braziliense

A verdade é que eu também sou a favor, como o meu bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho de cinco dias?

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

Um empresário olha o efeito da 5x2 e vê problemas em muitos outros lugares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Engenheiro vê questões setoriais e perda inicial de produtividade, mas não sabe do saldo econômico

Juros, falta de mão de obra qualificada, automação e IA, energia cara e impostos preocupam mais

O Brasil não vai quebrar porque já não funciona, ri um empresário grande ao comentar disputas furiosas sobre o efeito econômico da escala 5x2 e da jornada de trabalho reduzida, aprovada por mais de 95% dos deputados federais votantes, que vai ao Senado.

Quem passeou pelas ruas violentas das mídias sociais nos últimos dias terá ouvido gritos de "o país vai quebrar" ou que nada vai acontecer de ruim, apenas melhoras na vida de quem trabalha mais de 40 horas ou cinco dias, para choro de "defensores da escravidão" (parece haver mesmo alguns deles por aí).

O empresário não quer se identificar. "Dar entrevista, rede social, é perda de tempo e a gente sai queimado."

Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Visita diversionista do senador aos EUA coincide com queda inédita da popularidade do republicano

Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de americano perder a Câmara em novembro

A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.

Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras –as do Brasil.

Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.

Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Trump, Eduardo e Figueiredo não são companhias que transmitam a imagem de sensatez

Uma fotografia na parede não resolve as pontas soltas da campanha abalada pelos rolos do Master

A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.

Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.