sexta-feira, 18 de junho de 2021

Vera Magalhães - Vacinas e liberdade

O Globo

Esta semana trouxe para a minha geração um sopro de esperança. Com a chegada da vez dos cinquentões na fila da vacina e a iminência de as pessoas de mais de 40 anos também começarem a ser contempladas (quarta-feira sou eu!), a sensação é de alívio, por ver irmãos, companheiros, primos, cunhados, amigos de infância, colegas de faculdade e outros contemporâneos finalmente a caminho de estarem mais protegidos contra o vírus que paralisou nossa vida há um ano e três meses, já.

Vacina é liberdade, pensei quando recebi a foto do meu marido tomando a primeira dose da vacina no braço esquerdo, no dia do seu aniversário.

E é por essa constatação básica, a que cada vez mais brasileiros chegarão à medida que a imunização avançar, que é mais criminosa a contraposição que Jair Bolsonaro, sempre ele, faz entre vacinação e liberdade.

A explicação (sic) dada pelo presidente no cercadinho dos horrores de seus seguidores para não sancionar, caso seja aprovado, o projeto em tramitação no Congresso que cria uma espécie de passaporte de imunidade é sem pé nem cabeça. Mal disfarça a real motivação de Bolsonaro: ele é, incorrigivelmente, um “antivax”. Continua a sabotar a vacinação mesmo quando estamos chegando a 500 mil mortos, e a CPI avança para responsabilizá-lo e a seu governo por essa matança.

Eliane Cantanhêde – De boiadas e jabutis

O Estado de S. Paulo

Com o foco na CPI, Congresso legisla em causa própria na MP da Eletrobrás e na Lei da Improbidade

Há algo errado quando, do PT ao PP, praticamente todos os partidos ficam do mesmo lado na Câmara e quando dez entre dez economistas liberais se manifestam contra o projeto pró-privatização da Eletrobrás da Câmara e do Senado. A explicação, porém, parece razoavelmente simples: com o foco na CPI da Covid, o Congresso corre para passar suas boiadas e jabutis. 

O pau come entre o PT e o bolsonarismo, mas lá, no escurinho da Câmara, reina a paz para legislar em causa própria. O deputado petista Carlos Zarattini (SP) apresentou um relatório substitutivo mudando drasticamente a Lei da Improbidade, de 1992, e o texto foi aprovado por 408 votos a 67 em plenário, com apoio de praticamente todos os partidos e patrocínio do bolsonarista Arthur Lira (PP-AL) – o presidente da Casa, alvo de processos por... improbidade. 

Para o procurador Roberto Livianu, do Instituto Não Aceito Corrupção, a Lei da Improbidade “é a mais importante lei anticorrupção em vigor no Brasil”. E ele cronometrou: o substitutivo de Zarattini foi apresentado às 17h10 de terça-feira, o pedido de urgência começou a ser votado às 17h11 e foi aprovado às 17h19. Nove minutos. No dia seguinte o plenário liquidou a fatura. 

Bernardo Mello Franco - A agonia da terceira via

O Globo

Luciano Huck desistiu de concorrer à Presidência. Preferiu assumir o lugar do Faustão. O animador estava indeciso entre governar o país e comandar um programa de auditório. Ao escolher a segunda opção, mostrou que não era a pessoa certa para a primeira.

A candidatura Huck já havia sido ensaiada antes da eleição de 2018. O clima era favorável a um outsider, mas ele não quis arriscar a fama no campo minado da política. Um deputado de sete mandatos se fantasiou de novidade e conseguiu chegar lá.

O novo recuo do apresentador expõe os problemas da direita liberal, que hoje reivindica o rótulo de “centro”. Com apoio do empresariado, o grupo tenta fabricar um presidenciável para concorrer com Lula e Jair Bolsonaro. A ideia já esbarrava na falta de votos. Agora começa a agonizar com a fuga de candidatos.

O ex-ministro Sergio Moro puxou a fila das desistências. Desgastado após romper com o capitão, mudou-se para os EUA e sumiu do debate político. A anulação de suas sentenças no Supremo parece ter sepultado de vez a hipótese de uma aventura eleitoral.

Na semana passada, foi a vez de João Amoêdo pular do barco. Sua pré-candidatura durou apenas nove dias. Foi bombardeada por deputados do Novo que viraram linha auxiliar do bolsonarismo.

Luiz Carlos Azedo - Lula esnoba o centro

Correio Braziliense

Tanto Lula quanto Bolsonaro têm interesse na fragmentação do eleitorado mais moderado e na dispersão de forças de centro-esquerda e centro-direita

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao Sistema Tribuna de Comunicação, ontem, em Natal, esnobou os sete partidos que se reuniram na quarta-feira para discutir uma candidatura de centro: “As pessoas esquecem que, quando disputei a eleição em 1989, disputei contra algumas das personalidades das mais extraordinárias do Brasil, com o doutor Ulysses, doutor Aureliano Chaves, doutor Brizola, tinha Mário Covas, Paulo Maluf, Afif. Era uma penca de candidatos de personalidades muito respeitadas, e fui para o segundo turno. Essas pessoas precisam compreender que eles não têm esse destaque que merecem porque eles não têm partido político”, disse.

Lula divide com o presidente Jair Bolsonaro as expectativas de poder e favoritismo nas eleições de 2022. O primeiro, porque vem se mantendo como candidato favorito, mesmo recém-saído da prisão e na oposição, enquanto o segundo, porque está no poder e tem direito à reeleição. Tanto Lula quanto Bolsonaro têm interesse na fragmentação do eleitorado mais moderado e na dispersão de forças de centro-esquerda e centro-direita, porque isso praticamente lhes garante um lugar no segundo turno da eleição. “As pessoas ficam preocupadas com a minha candidatura, com a candidatura à reeleição do presidente. Ora, eles podem lançar candidatos. Não têm que procurar um só, tem que procurar 10. Cada partido deve lançar um candidato, e o povo vai votar e escolher quem pode ser eleito”, avalia Lula.

Ricardo Noblat - O destino da democracia é o que estará em jogo ano que vem

Blog do Noblat / Metrópoles

O vírus do bolsonarismo despertou os instintos mais primitivos dos brasileiros e não há sinais de que haverá vacina contra ele

País onde padre chama homossexuais de veadinhos, rapaz vai às compras com uma suástica no antebraço, senador defende governo fascista desde que tenha “as mãos limpas” e casal branco suspeita de negro inocente no comando de uma bicicleta elétrica, por que um país como esse daria as costas ao presidente que tem?

Não será fácil derrotá-lo na eleição do ano que vem, é o que começam a admitir aos sussurros ou abertamente seus mais ferrenhos adversários. Não é para dissipar o clima do já ganhou que toma conta da parte desavisada da oposição que eles dizem isso, é porque de fato reconhecem que não será fácil mesmo.

O bolsonarismo era um vírus adormecido nas entranhas de uma parcela expressiva dos brasileiros de todas as classes sociais e de todos os pontos do país. O vírus despertou ao ouvir o discurso do ex-capitão indisciplinado que antes só falava às paredes do Congresso e a áreas do Estado que o alimentava com votos.

A rendição à pandemia que veio de fora pode ter enfraquecido o dono do discurso que perdeu apoio com a morte de quase 500 mil pessoas em pouco mais de um ano, sem falar dos mais de 17 milhões de infectados. Mas o discurso em si continua forte, sem que tenha diminuído o número dos que se sentem atraídos por ele.

Dora Kramer - Lira do delírio

Revista Veja

A agenda regressiva que o presidente da Câmara chama de reforma política

O Brasil enfrenta problemas graves para todo tipo de (des)gosto — sanitário, político, econômico, social e energético —, que requerem a mobilização de diversos setores. Uns com maior êxito e presença, outros com menor eficácia, menos visibilidade ou poder de influência, mas cada qual fazendo a sua parte na medida das respectivas possibilidades.

O Supremo Tribunal Federal num empenho diuturno para barrar ofensivas antidemocráticas, o Ministério Público e a Polícia Federal em luta contra interferências “de cima”, organizações sociais mobilizando-se para minorar a situação de brasileiros vulneráveis, governadores e prefeitos envolvidos numa saudável corrida em prol da vacinação, o Senado montando na CPI o quebra-cabeça do desmazelo governamental na gestão da pandemia e a oposição mergulhada nas articulações para enfrentar Jair Bolsonaro em 2022.

Diante disso, a Câmara dos Deputados faz o quê? Discute mudanças nas regras político-eleitorais, entre as quais a instituição do voto impresso para conferência do resultado obtido nas urnas eletrônicas. E esse é apenas um entre os vários itens de uma agenda regressiva que o presidente da Câmara, Arthur Lira — patrocinador maior da iniciativa —, chama de reforma política.

José Casado - Bolsonaro enfrenta consequências reais da realidade paralela


Revista Veja

Insistência na realidade alternativa já tem efeitos reais para o governo, acusado de manter estruturas paralelas na Saúde, na espionagem e no orçamento

Jair Bolsonaro é prova viva do conceito de “definição de situação”, formulado pelo sociólogo americano William Isaac Thomas no início do século passado: “Se os homens definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências.”

Nos últimos 29 meses, Bolsonaro fomentou a percepção de que governa numa realidade paralela. Nela, por exemplo, o Brasil ocupa a “vanguarda” nas soluções para a vida sob pandemia, porque ele foi, como já disse, o único chefe de Estado do planeta que saiu em busca “do remédio” — no caso, a cloroquina.

Se a ilusão é percebida como algo real, mesmo não sendo, tem as mesmas consequências que a realidade — diz o teorema de Thomas.

Ontem no Palácio do Planalto começou a se espraiar o entendimento de que o governo está cada vez mais enredado na própria criação, a realidade paralela.

As consequências já estavam visíveis no prédio do outro lado da rua, no Senado, no acervo de 1,5 terabytes de documentos acumulados pela CPI da Pandemia em mês e meio de funcionamento.

Agora, também, começam a ganhar contornos definidos em outro prédio da Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal. Ontem à tarde, a juíza Rosa Weber escreveu: “A eventual existência de um Ministério da Saúde Paralelo, desvinculado da estrutura formal da Administração Pública, constitui fato gravíssimo.”

Alon Feuerwerker - Uma ponta não fecha

Revista Veja

Atitude racional de Bolsonaro seria concentrar esforços na vacina

Quem se debruça agora sobre a condução que Jair Bolsonaro vem dando aos desafios da pandemia conclui que o próprio presidente melhorou as condições para a emergência de uma ampla coalizão contra ele no ano que vem. Pelo menos no segundo turno da eleição.

Bolsonaro vem se orientando por um único parâmetro desde a chegada da Covid-19. É evidente que, na visão dele, os adversários só querem mesmo é usar a pandemia para provocar o colapso econômico, e assim impedir a sua vitória em 2022. Mas tem um detalhe, uma ponta que não fecha.

Qual seria, então, a atitude racional para confrontar essa estratégia inimiga? Concentrar esforços na obtenção de vacinas. Em paralelo, apoiar medidas simples, e economicamente pouco destrutivas, de proteção individual e social (máscaras, higienização etc.), até em contraponto ao radicalismo do “lockdown até a vitória final”. E isso independeria de acreditar, ou não, no efeito curativo dos fármacos que ele propagandeia para a doença.

Vinicius Torres Freire - Liberalismo nacional é uma negociata

Folha de S. Paulo

Lei de privatização da Eletrobras cria mais daqueles favores que emperram crescimento do país

Um motivo da relativa pobreza e do baixo crescimento do Brasil é o mau funcionamento da economia de mercado, se é que “tudo isso que está aí” pode ser chamado assim, de “economia de mercado”. A lei de privatização da Eletrobrás avacalha ainda mais essa geringonça nacional.

A aprovação dessa lei porca e dinheirista foi aplaudida por empresários beneficiados, por governos locais, pelo povo do mercado que tinham comprado ações da empresa e por Paulo Guedes, o tiozão do Whatsapp pinochetista que é a fantasia caricata de liberal do governo de Jair Bolsonaro. Liberal mesmo não tem aí nessa turma. É todo mundo mero negocista ou coisa pior.

 “Economia de mercado” é uma ideia abstrata, um modelo incompreensível ou que desinteressa a maioria das pessoas mesmo quando apresentado na sua versão mais simples. Trocando em miúdos muito grossos, o mercado não funciona ou talvez inexista por aqui porque muita decisão de investimento não é orientada pelo cálculo da rentabilidade do negócio em si, por preços livres e custos, pois tal decisão é influenciada de modo pesado pela “rentabilidade” decidida pelo governo.

Bruno Boghossian - Bolsonaro e os paupérrimos

Folha de S. Paulo

Presidente usa caneta para tirar espaço de Lula em segmento que deve definir eleição em 2022

No meio da semana, Jair Bolsonaro anunciou um aumento de 50% no valor do Bolsa Família. Dias depois, ele se reuniu com donos de supermercados e pediu que eles segurassem os preços dos produtos da cesta básica. Os dois movimentos mostram que o presidente enxerga sua sobrevivência política nas mãos da população mais pobre.

Bolsonaro tenta conter um desgaste que pode custar sua reeleição. Em 2018, ele recebeu um impulso inicial dos brasileiros mais ricos, mas só conseguiu chegar ao Planalto porque conquistou espaço em outras faixas. Números do Datafolha indicam que um de cada quatro votos que ele teve no primeiro turno veio do segmento renda mais baixa.

Ruy Castro - Esbofeteados por Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Quantos de seus eleitores não pegaram Covid e ainda estão lutando contra as seqüelas da gripezinha?

No momento em que você estiver lendo este texto, a Covid terá atingido perto de 18 milhões de brasileiros. Desses, quase meio milhão já perderam a vida, e essa estatística está longe do fim. Mais de 1 milhão estão “em acompanhamento” —na fila por um leito, respirando por uma máquina ou inconscientes numa UTI— e 16 milhões se recuperaram. Dos que morreram ou estão lutando pela vida, só os seus médicos e familiares saberão dizer. Mas, pelos relatórios dos sobreviventes, podemos calcular o que representou para eles ter o inimigo dentro de si.

Imagino que mesmo para os assintomáticos houve certa apreensão ao serem informados de que o teste dera positivo. Quero crer que até os seguidores de Jair Bolsonaro entre eles terão acusado um susto —porque, ainda que convencidos de que a Covid era uma “gripezinha”, como adivinhar como ela se desenvolveria? Claro que, tratados com cloroquina, Coca-Cola e Gatorade, e tendo o vírus cedido espontaneamente, tais infectados se jactaram da eficácia de seu tratamento.

Reinaldo Azevedo - ‘Nem-nem’ é o erro essencial da 3ª via

Folha de S. Paulo

500 mil mortos impõem primeira clivagem ética, e propostas vêm depois

Por que é tão difícil surgir o tal candidato de centro, embora existam políticos qualificados para tanto? A indagação não tem caráter metafísico, e eu não acredito na existência de uma maioria silenciosa à espera de Godot. Até porque o dito-cujo não aparece, certo? Um terceiro nome só se tornará viável se conquistar votos entre eleitores que já falam nas pesquisas —são eles a maioria.

A eleição de 2022 será, sim, fundamental para o futuro do Brasil. Trata-se de saber se a democracia vai ou não sobreviver. Não há risco de um golpe à moda antiga. Há outras formas, algumas já em curso, de pôr a tropa na rua. A milicianização das polícias é um exemplo eloquente do inferno que nos espreita. Que seja esconjurado.

A disputa define, pois, o futuro, mas também é um eco do passado. Vivemos as consequências de uma intervenção no processo eleitoral de 2018 que conduziu a uma artificialização da vida pública. Pouco depois de recuperar seus direitos políticos —que lhe foram arrancados por meio de instrumentos ilegítimos, de legalidade viciada —, Lula passou a ser o favorito na disputa. Seria competitivo ainda que Bolsonaro se comportasse como um estadista.

José de Souza Martins* - O povo brasileiro é objeto do deboche de Bolsonaro

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Somos tratados como inimigos do brasileiro que ele pensa que é, cidadão de quartel

O presidente Alberto Fernández, no dia 9 de junho, reunia-se com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que lhe levara apoio na renegociação da dívida milionária da Argentina com o FMI e o Clube de Paris. Por meio de uma gracinha antidiplomática, quis bajular o chanceler espanhol: “Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva, mas nós, os argentinos, viemos dos barcos. E eram barcos que vinham da Europa”.

A desinformação de Fernández contraria a reputação argentina de país culto, que por muito tempo teve alto padrão de educação, interrompido pela ditadura militar. Um país que tem cinco prêmios Nobel.

Já o México é, provavelmente, o país mais culto da América Latina. Foram justamente os espanhóis que destruíram civilizações na extensa região de que o México era parte. Seus intelectuais são em boa parte mestiços.

Qualquer criança sabe que nós brasileiros não viemos só da selva. Quem dela veio, foi lá buscado e caçado. Somos originários da miscigenação de portugueses e espanhóis com indígenas e africanos. O Brasil de então esteve sob domínio da Espanha de 1580 a 1640.

Bolsonaro é até mais abundante nas gracinhas presidenciais desenxabidas. Só que ele elege como objeto do seu deboche, da sua política de pouco caso, o povo brasileiro. Para ele, nós brasileiros somos estrangeiros de anedota. Somos tratados como inimigos do brasileiro que ele pensa que é, cidadão de quartel.

Maria Cristina Fernandes - A escalada da retórica militar bolsonarista

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Em 30 meses, discurso bolsonarista passa do acerto de contas com a punição de que foi vítima como capitão à pregação ao Exército de que Pazuello deveria ser perdoado porque todos são “seres políticos”

Do acerto de contas com os militares que o puniram e o levaram a deixar o Exército, o presidente Jair Bolsonaro passou, ao longo de seu mandato, a cobrar, das Forças Armadas e policiais militares, a lealdade, acima da Constituição, aos votos que o elegeram. É o primeiro passo para cobrar a adesão dos militares à contestação dos resultados eleitorais de 2022.

É isso que mostra a análise dos discursos presidenciais. A página oficial do Palácio do Planalto na internet registra 64 pronunciamentos, mas nem todos estão lá arquivados, como, por exemplo, aquele dirigido a generais em encontro fechado em São Gabriel da Cachoeira (AM), no fim de maio deste ano. Um trecho desse discurso, porém, foi colocado pelo presidente em suas redes sociais.

De velado, o golpismo nos seus discursos passou a ser escancarado. Se, no início, a presença em cerimônias de formaturas militares lhe servia para lembrar aos jovens que sua indisciplina lhe havia permitido chegar à Presidência, nos últimos tempos Bolsonaro impôs sua versão para o valor da indisciplina aos próprios generais, quando chegou a dizer que todos “eram seres políticos”. Ao longo desse período, Bolsonaro, que chegou a enfatizar, na sua estreia, a importância dos demais Poderes para o equilíbrio constitucional, acabou por apelar, neste ano, ao respeito supremo “de nós, militares” ao povo.

A transição no discurso foi marcada pela aprovação da reforma da aposentadoria e carreira militares, em 2019, que, além de beneficiar mais os altos oficiais, cobrou-lhes uma fatura muito menor do que aquela imposta aos civis pela reforma da Previdência. E também pela elaboração de dois Orçamentos que preservaram o Ministério da Defesa frente à média dos cortes de gastos. A escalada foi marcada ainda por portarias e projetos que aumentaram a entrada, a posse e o porte de armas, além de decisões que diminuíram o poder do Exército no controle dos armamentos.

O que a mídia pensa: Opiniões/Editoriais

EDITORIAIS

Equilibrismo com os juros

O Estado de S. Paulo

Maldição para milhões de famílias, a inflação superou 8% em 12 meses, ameaça romper o teto da meta no fim do ano e parece ter corroído, finalmente, o otimismo do Banco Central (BC). Ao anunciar a nova alta dos juros básicos, desta vez para 4,25%, o Comitê de Política Monetária (Copom) reconheceu: “A persistência da pressão inflacionária revela-se maior que o esperado”, fato já percebido pelas donas de casa. Foi o terceiro aumento consecutivo da taxa básica. Nas três ocasiões o acréscimo foi de 0,75 ponto porcentual. Repetiu-se o degrau, mas a menção a “choques temporários” sumiu dos parágrafos iniciais da nota emitida depois da reunião. Também desapareceu a referência a uma normalização “parcial” dos juros, presente nos dois comunicados.

Mais um ajuste de 0,75 ponto poderá ocorrer na reunião de agosto, segundo o informe. Como sempre, a decisão dependerá, segundo se ressalva, de novas informações. Mas já se aposta, no mercado, numa alta de 1 ponto porcentual. A previsão de 6,25% no fim do ano, indicada pela pesquisa Focus, do BC, pode estar superada. Já se fala em 6,50%.

Poesia | Joaquim Cardozo - Dois poemas

 

Música | Lucy Alves - Chorando se foi/Verdadeiro amor

 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Eugênio Bucci* - Bolsonarismo vicia

- O Estado de S. Paulo

Milhões sorvem a torpeza bolsonarista como quem degusta um cálice de absinto

Em abril do ano passado, em artigo publicado na revista piauí (edição 163), Uma esfinge na presidência, o cientista político Miguel Lago propôs uma chave intrigante para interpretar o bolsonarismo. Segundo o autor, quanto maior e mais conflagrado for o confronto nas redes sociais, mais sustentação terá o presidente da República – e quanto mais baixo descer a reputação do governante, mais alto soará o alarido daqueles que o sustentam. Miguel Lago previu que a bandeira do impeachment não iria minar as bases de apoio de Bolsonaro; ao contrário, ajudaria a solidificá-las. Previu e acertou. A força política de Jair Bolsonaro tornou-se tanto mais determinada, embora minoritária, quanto pior ficou sua imagem perante a opinião pública minimamente esclarecida.

A explicação para essa modalidade pútrida de “quanto pior, melhor” vem da dinâmica peculiar das mídias sociais. As compactações das multidões virtuais seguem leis que pouco ou nada têm que ver com a política dita convencional. Enquanto na cartilha dos politólogos as alianças políticas resultam da negociação de interesses e se formalizam em programas propositivos, nos algoritmos das plataformas sociais tudo acontece de ponta-cabeça: o que rende audiência, empolgação e adesão não é o que pacifica, mas o que choca, ofende, escarnece – daí o sucesso das agressões, das manifestações de ódio e da infâmia. Se nos sindicatos ou nos partidos políticos o que reúne as pessoas são os acordos mais ou menos racionais, na internet o que as congrega é o êxtase de insultar e ultrajar um inimigo real ou imaginário, num fragor que não tem parte com a razão.

Maria Cristina Fernandes - Escada para o golpismo

- Valor Econômico

Se aprovar voto impresso, Congresso dará gás a Bolsonaro contra STF

A força do bolsonarismo não está na capacidade de cegar os adeptos mas de ofuscar a oposição. É isso que se passa com o voto impresso. A aliança para viabilizá-lo está mais fácil de sair do que a frente ampla contra o presidente Jair Bolsonaro. A velha desconfiança da urna eletrônica alia-se à fábrica de tramoias do bolsonarismo que, no limite, levará à falência de uma verdadeira campeã nacional, a apuração confiável dos votos.

Na última das três vezes que o Congresso chancelou o voto impresso o fez a partir de uma emenda do então deputado Jair Bolsonaro. Teve encaminhamento favorável da maioria dos partidos, foi aprovado mas caiu no Supremo. Desta vez, o defensor da proposta está no poder obcecado em contestar o resultado das urnas para nele permanecer. Muitos parlamentares continuam presos às suas convicções sem se importar com quem se aliaram.

Têm à disposição um sistema que funciona sem nenhuma prova de violação ao longo de um quarto de século. Preferem tentar o que uns veem, candidamente, como aprimoramento, outros, como vacina contra a propaganda bolsonarista de fraude e uns tantos, ainda, como chance de conquistar o eleitor do presidente, numa espécie de bolsonarismo sem Bolsonaro.

William Waack - Não dá mais

-  O Estado de S. Paulo

Eleições não trarão solução para falência dos sistemas de governo e partidário

Coube a Jair Bolsonaro o duvidoso mérito de demonstrar que o atual sistema de governo não funciona. O perigo do desenho de um sistema que opõe o vencedor de uma eleição plebiscitária (portanto, uma figura forte) a um Parlamento fracionado e com baixa representatividade (o sistema proporcional de voto brasileiro garante a desproporção) já vinha sendo apontado há anos. Nem era preciso esperar a chegada de uma caricatura de homem de Estado como o atual presidente. 

Caricaturas às vezes ilustram um argumento, e a maneira como Bolsonaro, em busca da reeleição, está negociando com uma agremiação política de aluguel (das quais existem dezenas) serviu também para reiterar a falência do sistema de partidos. A combinação do mau funcionamento de ambos – sistema de governo e sistema político-partidário – é, ao mesmo tempo, causa e consequência da profunda crise atual. 

Luiz Carlos Azedo - Não existe almoço grátis

- Correio Braziliense

A reunião de sete partidos rompeu o imobilismo das legendas que ainda não têm candidaturas definidas à Presidência. A iniciativa foi do DEM, partido engajado no governo

A busca de uma alternativa de centro para as eleições de 2022 reuniu, ontem, representantes de sete partidos, dando início às articulações para construção de uma candidatura robusta de centro. O perfil da reunião revela contradições que dificultam a convergência entre as forças de centro-esquerda e centro-direita do país, que terão de fazer concessões recíprocas. O compromisso firmado entre as siglas foi enfrentar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O encontro foi articulado pelo ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta, que pleiteia a vaga de candidato do DEM.

Participaram da reunião ACM Neto (DEM), Mendonça Filho (DEM), Renata Abreu (Podemos), Bruno Araújo (PSDB), José Luiz Penna (PV), Aureo Ribeiro (Solidariedade), Roberto Freire (Cidadania) e Herculano Passos (MDB). Segundo o presidente do Cidadania, o ex-deputado Roberto Freire, não houve discussão de nomes. O presidente do PSDB, deputado Bruno Araujo (PE), disse que o grupo busca construir nomes viáveis para uma terceira via, supostamente desejada por 58% dos eleitores, segundo pesquisas.

A reunião rompeu o imobilismo dos partidos políticos que ainda não têm candidaturas definidas à Presidência. A iniciativa, para surpresa geral, foi do DEM, um partido muito engajado no governo federal, no qual se destaca a ministra da Agricultura, deputada Tereza Cristina (MS). A presença de ACM Neto e Mendonça Filho no encontro, ao lado de Mandetta, não somente prestigia a pré-candidatura de Mandetta, como sinaliza o possível desembarque da candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição. O presidente do PV, José Luiz Penna, é um dos principais articuladores da candidatura do ex-ministro.

Ricardo Noblat - Eleição presidencial no Brasil nunca foi uma caixinha de surpresas

- Blog do Noblat / Metrópoles

A tendência é que Lula e Bolsonaro avancem sobre o espaço do centro

Há um mar gigantesco que poderia ser navegado por um candidato que se oferecesse como alternativa a Lula e a Bolsonaro na eleição presidencial do ano que vem; é o que mostram as pesquisas de intenção de voto. O que falta: um candidato carismático capaz de unir meia dúzia ou mais de partidos que dizem estar à sua procura.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, diz que ficou satisfeito com os resultados da reunião que patrocinou, ontem, em Brasília, e que contou com a presença de presidentes e de representantes de vários partidos. Bem, mas Mandetta diria o contrário se a reunião tivesse sido malsucedida?

Merval Pereira - De lanterna na mão

- O Globo

Assim como Diógenes procurava pelas ruas de Atenas, de lanterna acesa na mão, “um homem honesto”, procura-se um candidato que seja não apenas honesto, mas capaz de mobilizar os eleitores que recusam mais uma vez a polarização entre Bolsonaro e Lula. A desistência de Luciano Huck e João Amoêdo de se candidatar à Presidência da República, além da prévia interna do PSDB para tentar unificar suas tendências em torno de um nome, colocou para andar a sucessão presidencial, que já tem três candidatos definidos: Bolsonaro, Lula e Ciro Gomes.

Provavelmente, Doria vencerá a prévia do PSDB, mas não tem o apoio total do próprio partido. Terá de se mostrar como o candidato de São Paulo, o que lhe daria grande vantagem, pois geralmente os candidatos tucanos têm saído do estado com uma grande diferença de votos, de cerca de 5 milhões de votos para Fernando Henrique, até 7 milhões a favor de Aécio Neves.

Bela Megale - Partidos que buscam alternativa entre Lula e Bolsonaro

- O Globo

Representantes de sete partidos que se reuniram nesta quarta-feira, em Brasília, para discutir uma alternativa entre Lula e Bolsonaro na próxima eleição, se comprometeram em organizar uma agenda nacional que reúna pré-candidatos do grupo. Nesta lista estão nomes como o do ex-ministro Luís Henrique Mandetta (DEM-MS), do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), do governador Eduardo Leite (PSDB-RS), entre outros.

A ideia é realizar atividades conjuntas pelo Brasil, com o objetivo de iniciar a construção de um espaço alternativo à polarização e viabilizar uma opção da chamada terceira via em 2022.

Presidentes de PSDB, DEM, PV, Cidadania e Podemos participaram do encontro de ontem, além de representantes do Cidadania e MDB. PDT, PSL e Novo se comprometeram em estarem presentes no próximo encontro.

A avaliação dos dirigentes é que uma agenda conjunta é essencial para que o eleitor acredite que, na prática, há outros caminhos além de Lula e Bolsonaro. O formato dessas agendas ainda não foi definido, mas a proposta é mostrar pontos de convergência entre as siglas. As legendas não formaram o compromisso de ter um candidato comum, mas avaliam que o nome pode sair dessa iniciativa.

No próximo encontro, marcado para julho, os partidos vão definir essa proposta de agenda. Foi decidido que as conversas acontecerão mensalmente, em Brasília.

Bruno Boghossian – Especulação eleitoral

- Folha de S. Paulo

Saída de Huck obriga entusiastas da terceira via a cair na real

Luciano Huck já tinha dado todos os sinais de que não seria candidato a presidente. Sua saída da corrida eleitoral não pegou de surpresa os operadores do tal centro político, mas vai obrigar esse grupo a aceitar algumas verdades sobre o cenário da eleição de 2022.

O fato de o nome do apresentador ter circulado como opção por tanto tempo mostra que as elites partidárias ainda não traçaram um caminho para fabricar uma terceira via para a corrida presidencial. Esses políticos insistem que há espaço entre Lula e Jair Bolsonaro, mas não apresentam nomes com potencial para superar pelo menos um dos dois.

Huck procurava brecha numa arena eleitoral dominada por dois nomes já conhecidos do eleitor. Dirigentes dos partidos de centro-direita e centro-esquerda contavam com a exposição do apresentador na TV para chegar à corrida com um nome que fosse popular o suficiente, mas também parecesse uma novidade.

Empresários ainda não veem ‘nome forte’ para 3ª via

Desistência de Luciano Huck e Amôedo joga incertezas sobre candidato alternativo para 2022

Mônica Scaramuzzo / Valor Econômico

SÃO PAULO - Com o calendário eleitoral se aproximando, uma parte da elite industrial do país está voltando a discutir nomes de centro que possam ganhar tração em 2022, furando o cerco entre o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva e o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). As desistências do apresentador Luciano Huck, da TV Globo, e de João Amôedo, do Partido Novo, de concorrer às eleições presidenciais aumentaram as incertezas sobre a possibilidade de que um candidato da terceira via possa ganhar força para ir ao segundo turno no ano que vem.

Preocupados com a polarização entre a esquerda e direita - as recentes pesquisas colocam Lula à frente de Bolsonaro -, o setor produtivo ainda não vê um nome forte capaz de concorrer em 2022. Mas acredita que uma união entre partidos poderia ser uma alternativa para se encontrar uma terceira via.

“Temos conversado com frequência, mas não estamos enxergando ainda essas alternativas”, disse um empresário sob reserva ao Valor. Os nomes que estão postos na mesa - os governadores de São Paulo, João Doria, e Eduardo Leite, ambos do PSDB; o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) - não são vistos como candidatos que possam fazer frente a Lula e Bolsonaro.

Para Jayme Garfinkel, da Porto Seguro, ainda não há consenso para a construção de um nome viável de centro. O empresário participa de discussões com grupos que reúne pesos-pesados como Pedro Passos, da Natura, Pedro Wongtschowski, do Ultra, Horácio Piva, da Klabin, e Fábio Barbosa, ex- Santander e ex-Febraban. “É uma construção que tem de vir da política.”

Grupo de partidos centristas reúnem-se para buscar consenso

Dirigentes de partidos almoçaram em Brasília, mas acreditam que nome da terceira via só deve sair no ano que vem

Andrea Jubé /Valor Econômico

BRASÍLIA - Dirigentes e parlamentares de sete partidos de centro reuniram-se ontem em um almoço em Brasília em busca de um consenso em torno de uma terceira via para disputar a Presidência da República, com musculatura para romper a polarização estabelecida entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O grupo já agendou nova reunião para o mês que vem, quando se pretende definir uma agenda de atividades dos pré-candidatos para o segundo semestre. Até lá, o grupo quer crescer aglutinando dez partidos grandes e médios em torno de uma alternativa ainda em construção. O objetivo é atrair para o próximo encontro, em julho, o PDT, o Novo e o PSL.

A reunião das lideranças de centro em Brasília vinha sendo articulada havia algumas semanas. Muitos já se falavam por telefone e vídeo, mas o encontro presencial, num cenário de muitos já vacinados contra a covid-19, foi viabilizado, principalmente, pelos presidentes do DEM, ACM Neto, do PSDB, Bruno Araújo, e pelo ex-ministro da Saúde e presidenciável do DEM Luiz Henrique Mandetta.

Além de Neto, Araújo e Mandetta, compareceram ao almoço os presidentes do Cidadania, Roberto Freire, do Podemos, Renata Abreu, e do PV, José Luiz Penna. O presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), tinha um compromisso com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), no mesmo horário, e enviou o deputado Herculano Passos (MDB-SP) para representá-lo. O presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força (SP), enviou como representante o deputado Áureo Lírio (Solidariedade-RJ). O PDT foi convidado, mas não compareceu nem enviou representante.

Na saída do encontro, realizado na casa de um advogado ligado ao DEM, no Lago Sul, Bruno Araújo disse que o grupo quer dialogar com a maioria dos brasileiros que ainda não se posicionou sobre as eleições.

“Queremos falar com essa maioria silenciosa, que não é quem está com bandeira vermelha nas ruas, nem quem está em cima de uma moto no fim de semana se manifestando politicamente”, disse o tucano, em alusão aos protestos contra Bolsonaro e aos passeios de moto promovidos pelo presidente.

Dirigentes partidários apostam em ‘maioria silenciosa’

Marcelo de Moraes / O Estado de S. Paulo

Se discutíssemos nomes hoje, a gente não se reunia pela segunda vez', disse o presidente do Cidadania, Roberto Freire

BRASÍLIA – Um almoço reunindo dirigentes de sete partidos de correntes de centro avançou no compromisso de buscar unidade na construção de uma candidatura presidencial de terceira via para 2022. Sem ainda definir o nome de quem disputará a eleição, a ideia é apostar na "maioria silenciosa" do eleitorado que não quer votar nem no presidente Jair Bolsonaro nem no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os dois nomes que polarizam a disputa nesse momento. 

"O número de brasileiros que se posiciona hoje torcendo para que surja uma nova alternativa é maior do que o eleitorado de Bolsonaro e Lula. Mas essa é uma maioria silenciosa. Uma maioria que nem está com bandeira na rua, nem está em cima de uma moto no final de semana. É para esses brasileiros que nós queremos falar e dizer que a democracia vai oferecer alternativa. E o nosso grande esforço é que essas alternativas estejam concentradas", afirmou o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo. 

A decisão de não discutir ainda quem será o candidato foi estratégica. Nesse momento, a ideia é agregar o maior número possível de partidos em torno do projeto da terceira via contra Bolsonaro e Lula e falar num candidato, nesse momento, poderia atrapalhar essa costura política. "Se discutíssemos nomes hoje, a gente não se reunia pela segunda vez", disse o presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire. Participaram do encontro representantes do PSDB, DEM, MDB, Cidadania, Podemos, PV e Solidariedade. 

Na prática, porém, a corrida por essa indicação está se restringindo cada vez mais. Hoje estão na lista o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que propôs a reunião, além dos quatro nomes do PSDB que disputarão as prévias tucanos: João DoriaEduardo LeiteTasso Jereissati e Arthur Virgílio

Partidos de centro se reúnem para discutir candidatura única e descartam apoio a Lula ou Bolsonaro

Encontro teve a presença de presidentes de DEM, PSDB, Cidadania, PV e Podemos, além de integrantes de outros partidos. Apontado como presidenciável, Mandetta articulou o almoço

Paulo Cappelli / O Globo

BRASÍLIA — Presidentes de PSDB, DEM, PV, Cidadania e Podemos se reuniram nesta quarta-feira para discutir uma candidatura de centro para a eleição presidencial de 2022, a chamada terceira via. Também participaram do almoço, na casa do advogado Fabrício Medeiros, em Brasília, representantes do MDB e do SD. Ao final do encontro, os dirigentes indicaram que houve um consenso: as legendas não vão apoiar nem a candidatura do presidente Jair Bolsonaro nem a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Esse consenso foi anunciado, em entrevista à imprensa ao fim do evento, pelos presidentes do PSDB, Bruno Araújo, e do Cidadania, Roberto Freire.

— O número de brasileiros que se posiciona hoje para uma nova alternativa é maior que o apoio a Lula ou Bolsonaro. Mas é uma maioria silenciosa, que não faz motociata nem manifestação. É para esses brasileiros que queremos falar — disse Araújo.

Roberto Freire afirmou que a reunião não discutiu nomes de possíveis candidatos.

— O ambiente para uma terceira via à Presidência é muito positivo. No momento, não falamos de nomes, mas de programas — afirmou Freire.

Sem nome nem perspectiva, 7 partidos buscam terceira via para 2022 que atraia 'maioria silenciosa'

Grupo almeja alavancar um nome para disputar contra Lula e Bolsonaro, mas encontro revela esvaziamento e rachas

Ranier Bragon / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Dirigentes e integrantes de sete partidos de centro-direita e de centro-esquerda reuniram-se em almoço nesta quarta-feira (16) em busca de um objetivo que, nos bastidores, boa parte do mundo político já considera inviável —uma terceira via para disputar a Presidência da República contra Jair Bolsonaro e Lula em 2022.

Na saída do encontro, realizado na casa de um advogado ligado ao DEM, no Lago Sul, em Brasília, o discurso foi unânime: nomes não foram falados, mas houve consenso de que ninguém ali alimenta desejo de se incorporar a Bolsonaro ou Lula, pelo menos não no primeiro turno.

Nas palavras de Bruno Araujo (PE), presidente do PSDB, busca-se chegar aos corações da chamada “maioria silenciosa”, termo muito usado, geralmente, por políticos que enfrentam forte oposição nas ruas.

“Queremos falar com essa maioria silenciosa, que não é nem que está com bandeira vermelha nas ruas nem quem está em cima de uma moto no fim de semana se manifestando politicamente”, afirmou o tucano, em referência tanto aos protestos contra Bolsonaro quanto às motociatas patrocinadas pelo presidente da República.

Eliane Cantanhêde - Crescem polarização e medo de uma eleição sangrenta

- O Estado de S. Paulo

A desistência de Luciano Huck de concorrer à Presidência da República, já esperada há pelo menos dois meses, reforça que a política não é para amadores, a construção de uma forte opção de centro vai ficando cada vez mais difícil e a eleição de 2022 embica para uma polarização – certamente sangrenta – entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, ainda é cedo para certezas.

Ao jogar a toalha, Huck seguiu os passos do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que quer distância da política e do Brasil, e do meteórico João Amoêdo, que não deu para o gasto em 2018 e não consegue nem unir o próprio partido, o Novo, para uma nova empreitada tão ambiciosa.

A fila de presidenciáveis do centro vai, assim, enxugando. Ex-candidato à Presidência por duas vezes e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes segue firme em campanha, sem deslanchar e sem atrair nem centro, nem esquerda, nem direita. Apesar do recall de 2018, ainda não atingiu dois dígitos nas pesquisas.

Quanto menos nomes, mais sobressaem-se os do PSDB, um partido em crise de identidade e sem rumo, mas ainda assim uma das principais siglas do País, depois das duas vitórias de Fernando Henrique Cardoso em primeiro turno (1994 e 1998) e de ter disputado o segundo nas quatro eleições seguintes, contra o PT, até ser substituído pelo bolsonarismo em 2018.

Com prévias marcadas para 21 de novembro, os tucanos listam quatro pré-candidatos. Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus, não é levado a sério; Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, considerado muito verde; Tasso Jereissati, senador e ex-governador do Ceará, tido como muito maduro; e João Doria, governador de São Paulo, faz o gênero “tudo ou nada”.

Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Desistência de Huck beneficia a centro-esquerda’

Antonio Lavareda, especialista em pesquisas eleitorais, diz que ‘terceira via’ precisaria encontrar candidato com dois dígitos nas pesquisas

Pedro Venceslau / O Estado de S. Paulo

Especialista em pesquisas eleitorais, o sociólogo Antonio Lavareda, presidente do conselho do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), disse ao Estadão que os partidos que buscam uma “terceira via” nas eleições presidenciais de 2022, como alternativa à polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), precisam encontrar um nome que atinja os dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto até o início do ano que vem. “Não temos histórico de candidato presidencial exitoso no Brasil que não tenha ingressado no ano da eleição com o patamar de dois dígitos”, disse. 

Em 2022 haverá espaço para um ‘outsider’? 

A demanda do eleitorado em 2022 vai ser semelhante ao que foi em relação aos prefeitos em 2020. Na eleição municipal do ano passado já houve um espaço reduzido para outsiders e a demanda por políticos experimentados. 

Os partidos do centro já apresentaram 15 potenciais presidenciáveis. Esse número deve ser reduzido para quantos?

O número de pré-candidaturas reflete a fragmentação do sistema partidário. É natural que haja muitos pretendentes. De um lado é importante que essa coordenação exista, mas de outro um ou dois candidatos precisam crescer em intenção de voto. Quem vai apontara viabilidade da terceira via é o eleitorado, e não os dirigentes partidários. Há uma questão de calendário. Não temos histórico de candidato presidencial exitoso no Brasil que não tenha ingressado ano da eleição no patamar de dois dígitos. É importante que haja exposição desses candidatos. Essas forças de centro poderiam se organizar para debater em espaços públicos com máximo de cobertura dos meios de comunicação. O candidato de centro está um ano e meio atrasado em relação ao percurso de Bolsonaro. 

Quem deve herdar as intenções de voto de Amoêdo, Huck e Moro?

A saída do Sérgio Moro beneficia os candidatos da centro-direita. A de Luciano Huck beneficia candidatos eventuais da centro-esquerda, porque ele tinha uma base forte entre o eleitorado de menor renda e do Nordeste. Moro tem apoio eleitoral concentrado no Sul, Sudeste e entre eleitores de renda média e alta. Ele tem temática mais cultivada pela centro-direita, que a moralidade e a corrupção. Isso se aplica também para os eleitores do João Amoêdo. 

Se Ciro Gomes chegar aos dois dígitos no início de 2022, ele por pragmatismo pode ser opção para quebrar a polarização? 

De fato o desafio dele é avançar no eleitorado de centro e centro-direita. Ciro vai precisar tornar seu discurso mais compatível com as expectativas deste setor específico. Se conseguir isso, pode se viabilizar. Uma das questões da eleição do ano que vem é saber se eleitorado de centro-direita que tem crescido visivelmente de 2016 para cá vai continuar com o bolsonarismo ou vai retornar ao centro típico. 

Cristovam Buarque* - Comissão Marco Maciel

- Correio Braziliense

O Brasil perdeu um cidadão íntegro, honesto, dedicado ao interesse público, conforme suas convicções; um brasileiro que ao longo de toda a vida útil foi político, sem tirar proveito pessoal, sempre fazendo do diálogo a ferramenta maior da sua atividade. Na carreira, conseguiu ser presidente da Câmara dos Deputados durante o regime militar, e vice-presidente da República no regime democrático.

Pode-se discordar de suas ideias e de que lado ele estava em cada momento do processo político-eleitoral, mas não se pode acusá-lo de ter cedido aos métodos dos ditadores ou de quebrar o diálogo com os democratas. E é preciso reconhecer seu papel decisivo na reabertura democrática.

Ainda estudante, Marco Antônio, como era conhecido em Pernambuco, fazia oposição às forças de esquerda que governavam o Brasil e o Estado. Quando muitos se fizeram de esquerda para estar perto do poder, ele ainda jovem defendia e lutava por seu ideal liberal-cristão que alguns podiam chamar de direita.

Naquele tempo de Guerra Fria, o regime militar trouxe ideias liberais que ele defendia. Mas sua carreira foi feita graças aos votos dos pernambucanos em sintonia com propósitos ideológicos que nunca significaram aceitação dos métodos de ditadura ou de ruptura do diálogo. Quando sentiu que chegou o momento fez a opção e, sem o seu apoio enfático, a democracia não teria derrotado a ditadura em 1985, com a eleição de Tancredo Neves. Nas dificuldades da transição, ele foi decisivo com sua lucidez e capacidade de articulação.