segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil

Por O Globo

Presidente terá de lidar com Congresso hostil, mas não pode manchar sua biografia com ressentimentos

Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.

Discurso de Lula após vitória nas Eleições 2026; acompanhe na íntegra

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Mesmo com locaute, Lula vence Flávio de virada e conquista quarto mandato, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato numa virada espetacular sobre Flávio Bolsonaro. Derrotado no primeiro turno, quando recebeu 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, recuperou a iniciativa e venceu de forma inequívoca. Quando o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu sua reeleição, às 21h08, com 97,69% da apuração concluída, tinha 51,74%, contra 48,26% do senador: uma vantagem de aproximadamente 4,2 milhões de votos. O resultado reafirma a capacidade de sobrevivência e de mobilização, inclusive da juventude, do principal líder popular da nossa história contemporânea.

Uma virada surpreendente numa história improvável, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Virada inédita é mais um capítulo na carreira extraordinária do político mais bem-sucedido da história brasileira

No dia 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva parecia ter completado a sua jornada do herói. Depois de amargar um calvário de 580 dias na prisão, derrotar seu arquirrival Jair Bolsonaro surgia como o capítulo final de uma história ao mesmo tempo improvável e extraordinária.

Lula foi o primeiro presidente brasileiro de origem humilde. Nascido no agreste de Pernambuco, conviveu com a fome e a falta de água potável e saneamento básico. Como milhões de seus conterrâneos, migrou para São Paulo e foi criado apenas pela mãe.

Vigilância sobre causas femininas tem de continuar, por Ana Paula Araújo

O Globo

O próximo ciclo de quatro anos será desafiador para mulheres. O Congresso que tomará posse será majoritariamente conservador

A “psicose política” chegou a seu auge. O termo viralizou nas redes sociais para descrever o segundo turno mais frenético, com grandes mobilizações e hiperfoco em tudo relacionado à eleição. Ontem, com decisões judiciais de última hora, denúncias de obstrução ao transporte de eleitores, votação prorrogada e apuração decidida voto a voto, essa psicose quase se transformou em infarto coletivo. Entre vencedores e vencidos, num país tão polarizado, o que nos une é a exaustão. Mas que tal manter pelo menos um pouco desse empenho para olhar para o que vem pela frente? Especialmente entre nós, mulheres, o próximo ciclo de quatro anos será desafiador.

Presidente receberá uma herança maldita dele mesmo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos de fatores externos na economia. Não tomou por causa da política

Não deixa de ser uma ironia: Lula receberá uma herança maldita dele mesmo. Na economia e na política. Na economia, a responsabilidade é inteiramente dele. Sim, o ambiente internacional — com guerras, preços essenciais elevados, como combustíveis e fertilizantes, e juros em alta — cria restrições ao crescimento. Mas o governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos desses fatores externos.

Não tomou por causa da política. E não foi apenas para ganhar as eleições. Antes mesmo da campanha, a projeção do próprio governo previa um déficit nas suas contas superior a R$ 80 bilhões. Na contabilidade oficial, isso apareceria como déficit zero, mas ninguém mais acredita nesses truques. Nem o governo, quando mostra que a dívida pública subiu nos quatro anos do governo e tem tendência de alta. E, se a dívida sobe, só pode ser porque o governo gasta mais do que arrecada.

Antipetismo é central, mas eleição confirmou força do antibolsonarismo, por Jorge Chaloub

Folha de S. Paulo

Ruas e redes foram determinantes para o aumento da rejeição a Flávio Bolsonaro

Vitória histórica de Lula no 2ºturno garante a sobrevivência da Constituição de 1988

O resultado do primeiro turno indicava uma provável eleição de Flávio Bolsonaro (PL), não tanto pela vantagem de pouco mais de 2 milhões de votos quanto pelo perfil dos outros candidatos, muito mais próximos do senador de ultradireita. Com o resultado do PL no Congresso e a expectativa de um bom número de vagas no STF, o cenário parecia apontar não apenas para uma mudança de governo, mas para uma transformação do regime político.

O filho de Jair teria a possibilidade de cumprir a promessa, feita nos primeiros dias do segundo turno, de romper com a Constituição de 1988. Esse propósito, aliás, é um dos grandes projetos políticos do bolsonarismo, já explicitado diversas vezes por membros da família do presidente.

Quarto mandato de Lula exige novas estratégias, por Fernando Abrucio

Folha de S. Paulo

Buscar atores que pensam diferente, inclusive bolsonaristas, é essencial para o sucesso do novo governo

Plano de sustentabilidade fiscal deve começar imediatamente, buscando o apoio da sociedade

Ao se reeleger, Lula é o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer no segundo em toda a redemocratização. Numa campanha impressionante, comandada pelo "general" Janones na internet e pelos jovens nas ruas, Lula também será o primeiro a vencer quatro eleições presidenciais. Uma vitória fantástica por esses dois indicadores, mas o governo começa nesta segunda-feira (26), e haverá muitas dificuldades no quarto mandato.

O presidente Lula tem de comemorar, mas precisa tirar lições desta eleição para não cometer os mesmos erros do terceiro mandato. A primeira é que sua vitória se deveu, em boa medida, a uma estratégia voltada para o futuro, com mudanças na comunicação nas redes sociais e lideranças jovens comandando a virada. O PT precisa se renovar urgentemente se não quiser perder relevância nos próximos anos, alçando os líderes do Nordeste, os(as) jovens parlamentares e figuras de fora do partido, como André Janones, a um patamar de maior importância.

Uma eleição tumultuada pela omissão, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ao deixar de decidir, o presidente da corte alterou o curso normal da votação

Ministro deu margem à suspeição sobre a integridade de um processo que até então sempre foi reconhecido mundialmente

Existem mil maneiras de interferir no processo eleitoral na tentativa de manipular o resultado da votação. As mais conhecidas são a compra de votos, a coação, o bloqueio de estradas e a restrição na oferta de transporte público.

Contudo, desde a redemocratização (na década de 1980), nunca antes na história deste país o processo eleitoral brasileiro esteve imerso e submerso numa situação de tamanha obscuridade provocada pela omissão da Justiça Eleitoral.

A polarização depois da certeza, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Animosidade anterior prediz expectativas partidariamente enviesadas depois

Democracia exige aceitar a possibilidade da derrota

Escrevo a coluna antes do segundo turno presidencial. O nível de incerteza é elevado. Entre os eleitores, porém, a dúvida sobre o futuro convive com a convicção de que seu candidato vencerá. O que acontece quando a certeza da vitória encontra a experiência da derrota?

Uma pesquisa de Seth Warner —Partisan Wishful Thinking in Polarized Times— oferece pistas. Analisando pesquisas eleitorais americanas entre 1952 e 2024, o autor documenta o crescimento do wishful thinking: a tendência a transformar preferência política em expectativa de vitória. Em 2024, quase 9 em cada 10 eleitores esperavam o triunfo do candidato preferido.

Horizonte de ruptura, por Eduardo Sombini

Folha de S. Paulo

Para autor, a revolução digital impõe mudança profunda na democracia que tornará o Legislativo em parte obsoleto

Cientista político aponta crise do presidencialismo de coalizão e defende refundação da República; leia trechos

Em um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro —um regime sem paralelo no mundo, de acordo com o pesquisador.

Abranches argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum deles obtém maioria no Congresso Nacional, o presidente precisa negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico para conseguir governar. Cargos e emendas parlamentares passam a ser as principais armas à disposição do chefe do Executivo.

No livro "Presidencialismo de Coalizão" (Companhia das Letras), lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.

Neste episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o aprofundamento da crise em 2022.

O autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT)—ele diz que, se antes as coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar ingovernável sem um redesenho das instituições e do próprio funcionamento da sua democracia.

Abranches também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história do país, temas que ele debate em outro livro recém-lançado, "A Terceira Margem do Ipiranga".

Leia abaixo os trechos principais da entrevista.

Poderes em desalinho, por Andrea Magalhães* e Fabio Giambiagi*

Folha de S. Paulo

Desequilíbrio cada vez maior de poder e responsabilidade vem tornando o sistema disfuncional

Congresso administra recursos bilionários sem sofrer pressão do eleitorado e sem responder por seus atos

[Resumo] Resultado das eleições para o Congresso deve acentuar distorções graves na política brasileira. Há mais de uma década o Legislativo ampliou consideravelmente suas atribuições, controlando o Orçamento público com emendas parlamentares bilionárias e derrubando cada vez mais os vetos presidenciais. Não responde, contudo, pelo resultado fiscal ou pela implementação de projetos para o país, responsabilidades que recaem sobre a figura enfraquecida do presidente da República, o que eleva e deturpa os custos da barganha para o Executivo contar com apoio de congressistas em votações. Texto a seguir apresenta propostas para ampliar governabilidade e distribuir de forma mais justa bônus e ônus entre os Poderes.

O quadro que emergiu das eleições mostra o seguinte panorama:

1) Partido mais votado para a Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, em um universo de 513 vagas, ou seja, 24% do total.

2) Para montar uma coalizão que forme uma maioria para aprovar reformas constitucionais (que necessitam do voto favorável de no mínimo 308 deputados) é preciso juntar pelo menos seis partidos.

3) No caso do Senado, a fragmentação se repete. O PL elegeu 19 senadores e terá também a maior bancada, 28 congressistas em um total de 81. Mudanças na Constituição dependerão do apoio de ao menos 49 congressistas, o que significa ter um bloco coeso de pelo menos quatro partidos.

Poesia | O Amor antigo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | TOQUINHO & MPB4 - cantam Vinicius

domingo, 25 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Democracia e rigor fiscal para reduzir os juros e a pobreza

Por Folha de S. Paulo

A Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes; a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saia vencedor

Um eleitorado mais uma vez dividido ao meio decidirá neste domingo (25) quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. O vitorioso terá o desafio de recolocar as contas públicas nos trilhos, condição indispensável para uma queda sustentável dos juros —sem novos surtos inflacionários — que permita ao país crescer e, assim, reduzir a pobreza. Respeitar o Estado democrático de Direito é mandatório.

Se vencer Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil voltará a lidar com o grupo político cuja passagem pela Presidência da República deixou um legado nefasto para a institucionalidade. Durante sua administração, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro (PL) investiu reiteradamente contra a democracia.

Lula ou Flávio, a sorte, as virtudes e o papel do indivíduo na história, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Todo aventureirismo é perigoso. O governante sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade

“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.

Hoje é dia de fazer história, por Dorrit Harazim

O Globo

E aqui estamos neste domingo eletrizante, que, a depender do resultado, poderá se converter num outro 25 de outubro histórico

É poder da poesia nos fazer voar na imaginação. E é dever do jornalismo manter os dois pés no chão. Quando e.e.cummings escreveu um poema/meditação sobre a morte, a memória e a persistência do amor diante do desaparecimento, o encerrou com um verso belíssimo: Uma pisada recente na areia do que foi. A coluna de hoje trata mais ou menos dos mesmos temas, apenas com pegada mais crua, ancorada em fatos.

Hoje, 25 de outubro, o Brasil vai às urnas decidir em segundo turno se quer ser governado por Luiz Inácio Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro pelos próximos quatro anos. Num outro 25 de outubro, um sábado, 51 anos atrás, o jornalista Vladimir Herzog foi preso, torturado e assassinado por agentes da ditadura militar então instalada no país. Entre as duas datas, estão um vasto panorama da História do Brasil e uma pendência — pendência menor que muitas outras questões ainda em aberto na democracia reconquistada em 1985, mas ilustrativa para o dia de hoje.

Muito mais do que nove dedos, por Míriam Leitão

O Globo

A perda da democracia rondou a campanha de 2026. Para não ver o perigo seria preciso esquecer a história recente do país

A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita. É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.

A faixa como escudo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Imunidade do cargo blindaria candidato do PL de denúncias e processos por quatro anos

A informação surgiu em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Flávio Bolsonaro realizou uma série de movimentações bancárias incompatíveis com a renda que declara à Receita. Numa das operações atípicas, o candidato do PL recebeu R$ 520 mil de um escritório de advocacia e quitou o financiamento da famosa mansão de 1.100m² em Brasília. Uma morada e tanto para quem sempre viveu do dinheiro público, desde o primeiro emprego como funcionário fantasma da Câmara.

É preciso votar, por Merval Pereira

O Globo

Se ganhar a eleição é o que importa, não como governar, estaremos sempre nas mãos dos populistas de ocasião, sejam de esquerda ou de direita

A campanha eleitoral que começou anódina leva hoje às urnas milhões de eleitores que definirão o próximo presidente da República a partir de propostas antagônicas na prática, e aproximadas pela retórica eleitoral. O conservadorismo, na sua expressão mais rasteira, está em disputa. Conservar Lula e o PT no governo representa uma homenagem à carreira brilhante de um nordestino de nove dedos que não se deixou abater pelos percalços de uma vida sofrida e entrou para a história brasileira pela porta da frente, embora possa terminar com uma derrota humilhante para um rapaz, como ele chama, que não tem história nem conteúdo, e chegou onde chegou pelo sobrenome Bolsonaro, como um avatar do próprio pai, que está preso por uma tentativa de golpe.

Só à noite vai se saber o nome, por Elio Gaspari

O Globo

Continua de pé a previsão do banqueiro André Esteves: 'A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem'

Debate civilizado como o da TV Globo tem algo de monótono. Tanto é assim que o momento mais eletrizante foi o último bloco, quando eles passaram a se insultar. Isso não foi consequência de uma preferência pelo baixo nível, mas resultado de um segundo debate sem ideias novas.

Esse segundo debate pode definir votos de quem não ia votar ou virar votos em branco ou nulos, mas virar de Bolsonaro para Lula (ou vice-versa), a chance é mínima.

Uma eleição esquisita, parecida com o rei Luís XVII da França, cujo reinado não houve.

Fim do ‘saco de bondades’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A realidade é dura e, se der Lula, seu problema será o Congresso, se der Flávio, serão as ruas

Se o presidente Lula vencer, seu grande problema será o Congresso. Se Flávio Bolsonaro for o vitorioso, o mais provável, seu maior desafio serão as ruas. Em qualquer caso, o futuro presidente terá pela frente as instituições em frangalhos, uma crise fiscal de bom tamanho e um País rachado ao meio.

Na hipótese de uma virada histórica, Lula terá mais uma vitória, mais um mandato para sua biografia e a chance de, finalmente, preparar um sucessor para uma esquerda sem rumo. Mas ele vai enfrentar um PL avassalador no Congresso e corre um grande risco: fechar a longa carreira com um governo mequetrefe, de forma melancólica. O terceiro mandato já não foi lá essas coisas.

As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*

 

O Estado de S. Paulo

Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político

Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.

Uma campanha miserável em grandes debates, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral

Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.

O Brasil está pronto para mais, por Luiz Inácio Lula da Silva*

Folha de S. Paulo

Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas foram para as ruas defender nossas conquistas

A mudança já começou e seguirá no rumo certo; por cada Silva do nosso imenso país, nós iremos vencer

A cada eleição, o processo eleitoral brasileiro assiste à escalada das plataformas digitais. Aos poucos, as telas foram tomando o espaço que era das pessoas. Candidatos passaram a se eleger apertando o botão do celular, sem precisar apertar a mão do eleitor. Mas, em 2026, isso mudou, e o que vimos vai entrar para a história. O povo entendeu que esta eleição não é entre dois candidatos. Ele, o povo, é o próprio candidato.

Vivemos um raro momento de mobilização popular no Brasil. Milhares de movimentos de rua acontecem sem organização partidária, de maneira viva e espontânea. O povo se juntou e tomou para si a campanha.

De Silva em Silva, o Brasil se reencontrou na presença; no "tête-à-tête", amontoou-se e fez de muitas uma só voz.

Se 5% dos eleitores de Flávio forem sinceros sobre corrupção, Lula vence, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Senador tem o direito de se defender de todas as acusações

Mas elas são tantas que é melhor que ele as explique antes de se tornar presidente

Se Flávio Bolsonaro for eleito, será o primeiro presidente que, quando chegar para negociar com o Congresso, encontrará gente mais honesta do que ele está acostumado.

No Rio de Janeiro, Flávio tem dois aliados presos por ligações com o Comando Vermelho, TH Jóias e Rodrigo Bacellar. Quanto às milícias, Flávio já as homenageou em discurso e garantiu emprego à mãe e à irmã do chefe do Escritório do Crime.

Levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão , da Fundação Getúlio Vargas, mostrou que, em média, Flávio teve 5,6 pontos percentuais de votos no primeiro turno a mais nas áreas controladas por milícias do que no resto do estado.

O dia depois de amanhã: economia difícil e um presidente impopular, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desde 2018, popularidade de governos é baixa; é improvável que seja diferente em 2027

Sem prestígio e força legislativa, presidentes são depostos ou ficam reféns do Congresso

Luiz Inácio Lula da Silva 3 e Jair Bolsonaro jamais obtiveram nota "ótimo ou bom" de mais do que 38% do eleitorado, pelos dados do Datafolha. A popularidade presidencial varia de modo amplo. Presidentes que atingiram aprovação maior do que Lula 3 e Bolsonaro passaram também por baixas de prestígio importantes.

Mas: 1) Chegaram a ter prestígio muito maior do que Lula 3 e Bolsonaro, ressalte-se; 2) Não contavam desde o início e por quase o mandato inteiro com a desaprovação de um terço do eleitorado ou muito mais (aquele que dá nota "ruim ou péssimo"). Foi o caso de FHC 1, Lula 1 e 2, Dilma 1.

Mulheres que amam seus carrascos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na vida cotidiana, as ilusões de superioridade masculina incrementam a fúria narcísica da violência

Relativizar o ordenamento patriarcal desestabiliza a consciência do sujeito

Se fosse possível retroagir no tempo legislativo, a Lei Maria da Penha não teria sido aprovada por parlamentares femininas da estirpe das estaduais e federais mais votadas nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Se lessem, levariam à sola da letra uma reflexão dostoievskiana: "Não há homens maus, há homens infelizes" (em "Os Irmãos Karamazov"). Assim, para elas, o homem que assassina uma mulher não agiria por maldade, mas por infelicidade. Feminicídio não existe, é invenção feminista, diz uma. Outra parece seguir também à letra a anciã no "Zaratustra", de Nietzsche: "Vai encontrar-se com mulheres? Não te esqueças do chicote!" Para facilidade do carrasco, já desfila com chicote pronto.

Um voto intranquilo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Gestão Lula não entusiasma brasileiros e deixa herança maldita na economia

Flávio Bolsonaro não tem currículo para ser presidente e ainda traz risco à democracia

É perfeitamente compreensível o desejo do eleitor de impor uma derrota a Luiz Inácio Lula da Silva, mas o preço dessa escolha é a vitória de Flávio Bolsonaro, um cenário que exige reflexão.

O terceiro mandato de Lula foi, numa avaliação generosa, medíocre. Não trouxe nada que entusiasmasse, e os indicadores sociais passáveis que produziu foram obtidos de forma insustentável, com base num aumento de gastos públicos que não pode ser esticado por mais tempo. Para que a inflação não explodisse, os juros foram à ionosfera e nela permanecem, asfixiando a economia e aumentando o endividamento de empresas e famílias.

Brasil vai às urnas mergulhado num mar de incertezas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O resultado nas urnas é tão duvidoso quanto o rumo que qualquer um dos eleitos dará ao futuro do país

Nenhum dos dois finalistas se comprometeu de modo convincente com o enfrentamento das urgências nacionais

O Brasil vai às urnas neste domingo (25) sob a égide da incerteza. Não apenas quanto ao resultado, mas principalmente porque não se sabe de verdade qual é a firmeza e a extensão do compromisso de Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) com as urgências do país.

Prometeram muito, mas não se comprometeram de maneira clara e consistente com a estabilidade econômica e a reorganização da institucionalidade.

Flávio com K, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se Flávio Bolsonaro for grato a Kassio Nunes Marques, mudará a grafia de seu próprio nome

Kassio é hoje tão poderoso que, em breve, poderá até julgar ministros suspeitos de fazer surubas

No show "Opinião", de 1964, com Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, Zé Kéti tinha esta fala: "Quando eu era criança, minha mãe, que era empregada doméstica, me deixava com a vizinha. Quando ela voltava para casa, a vizinha dizia: ‘Dona Fulana, o Zé ficou quietinho’. Quietinho, quietinho, acabei Zé Quéti. Aí passei a escrever meu nome com K —porque K estava por cima, estava dando sorte! Kennedy... Krushev... Kubitschek... [Referia-se ao presidente americano John Kennedy, ao premiê soviético Nikita Kruschev e ao brasileiro Juscelino Kubitschek. Risos da plateia]. É, meu camaradinha. Parece que a sorte mixou..." (Quando o show estreou, Kennedy já fora assassinado; Krushev, deposto; e Kubitschek, cassado pela ditadura.)

Poesia | Profundamente, de Manuel Bandeira

 

Música | Vermelho - Grito de Emoção - Joelma

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

O que está em jogo?

Por Revista Será?

Tem muita coisa em jogo nas eleições presidenciais deste domingo, quando concorrem Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, dois candidatos com trajetórias políticas e propostas muito diferentes para o futuro do Brasil. Mas tem uma questão central, anterior a todas as outras, que deve ser avaliada pelos eleitores na hora de digitar o seu voto na urna: a preservação das instituições democráticas, já tão fragilizadas pela polarização e pela politização do Judiciário.

Garantir a democracia para bloquear a contrarrevolução reacionária, por Alberto Aggio

Revista Será?

O resultado do primeiro turno das eleições no Brasil apresentou uma surpresa e uma revelação. Surpresa porque mostrou uma inversão do que apontava a maior parte das pesquisas em relação à votação para a Presidência da República. No resultado das urnas Flavio Bolsonaro (PL) apareceu à frente de Lula (PT) por uma pequena margem dos votos (1,8%), invertendo o que sancionavam as pesquisas. Revelação porque atesta a força da extrema direita não apenas pelo desempenho de Flavio Bolsonaro, mas principalmente por conta do êxito sem precedentes alcançado nas disputas para os governos estaduais bem como para o Senado e a Câmara Federal, onde o PL saiu amplamente vitorioso.

A democracia brasileira está em risco? Sim, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Só o voto nos separa desse precipício; ameaça inclui autocratização do regime e fragilização da nossa soberania

Freios e contrapesos estarão debilitados, e o cenário internacional se tornou mais hostil aos regimes constitucionais

A democracia brasileira corre um triplo risco nesta eleição presidencial: a autocratização do regime, com a fragilização do sistema de freios e contrapesos, a distorção das regras eleitorais e a erosão dos direitos humanos; o aprofundamento do processo de cupinização do Estado de Direito, com consequente esgarçamento do tecido social e brutalização da vida cotidiana; assim como a fragilização de nossa soberania, especialmente nos campos ambiental e digital.

Como nos anos 1930, com a ascensão do nazismo e do fascismo, as democracias liberais voltaram a estar submetidas a forte pressão de movimentos extremistas. Diferentes fatores têm contribuído para que partidos e lideranças, sobretudo de extrema direita, capturem as frustrações e o desejo de mudança em países tão distintos quanto Alemanha, Índia, França, El Salvador, Turquia ou Estados Unidos.

Com regras mais rígidas, Globo baixou a temperatura do debate entre Flávio Bolsonaro e Lula, por Mauricio Stycer

Folha de S. Paulo

Nos primeiros três blocos, houve a sensação de alguma civilidade entre os dois candidatos

Última parte voltou a lembrar os piores momentos do encontro na Band, que entrou para a antologia da política brasileira

Cinco dias depois do debate na Band, um confronto eleitoral que entrou para a antologia dos momentos mais baixos da história política brasileira, a Globo blindou o seu evento, no esforço de subir um pouquinho o nível. Conseguiu em partes.

Não que o público tenha assistido a um debate esclarecedor a dois dias de uma das eleições mais disputadas da história do Brasil. Não que a emissora tenha evitado a difusão de mentiras a granel. Não que os candidatos não tenham fugido de muitas perguntas feitas.

Mas, no geral, com regras mais rígidas, a emissora carioca conseguiu baixar a temperatura do embate e enquadrou os candidatos quase o tempo todo. Foi um evento intencionalmente frio, que ofereceu, nos primeiros três blocos, a sensação de alguma civilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em debate mais civilizado do que o primeiro, Lula vence Flávio por pontos, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador se perdeu ao ser confrontado pelo presidente, inclusive no espinhoso tema da segurança pública

Se desempenho dos rivais terá o condão de chegar a algum indeciso ou pendular, é um dado ainda incerto

Como já lembrava Sigmund Freud em "Totem e Tabu" (1913), nada como um pouco de regras para tornar uma sociedade civilizada. O mesmo se aplica a debates.

A opção pelo vale-tudo de saída no primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na Band, domingo passado (18), levou a um desastre de escopo ainda insondável na intenção de voto dos líderes da disputa presidencial brasileira deste ano.

Nesta noite de sexta-feira (23) na TV Globo, o formato adotado enquadrou os dois candidatos e ofereceu um vislumbre de embate de ideias para os vitais pontos percentuais a serem pescados entre eleitores indecisos e pendulares na disputa.

Sem a gritaria e a ausência de respostas do confronto anterior, Lula levou vantagem sobre o senador fluminense. Não saiu, contudo, sem arranhões.

Régua e compasso, por Flávia Oliveira

O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.