domingo, 5 de fevereiro de 2023

Entrevista | Barbara Walter: ‘Os cidadãos não podem ficar à parte e esperar que a democracia sobreviva sozinha’

Referência em estudos de extremismo, Barbara Walter diz que declínio da democracia começou com ascensão das redes sociais e dos algoritmos e que instituições e sociedade civil fortes contêm arroubos autoritários

Por Thayz Guimarães / O Globo

À medida que as democracias recuam e os cidadãos se tornam mais polarizados, as guerras civis se tornarão ainda mais generalizadas e durarão mais do que no passado. Esta é a premissa do novo livro da cientista política Barbara Walter, “Como as guerras civis começam — e como impedi-las” (Zahar), que vem sendo comparado pela crítica ao best-seller “Como as democracias morrem”, de Daniel Ziblatt e Steven Levitsky.

Em entrevista ao GLOBO, Walter, que é professora de Assuntos Internacionais na Escola de Política e Estratégia Global da Universidade da Califórnia e uma referência internacional nos estudos sobre violência política e terrorismo, falou sobre o declínio das democracias em todo o mundo, mídias sociais, algoritmos, ascenção da extrema direita, Donald TrumpJair Bolsonaro e a cartilha seguida por eles, e também indicou caminhos para as sociedades fugirem das armadilhas antidemocráticas.

Alessandro Janoni* - As diferenças das peças do mosaico no eleitorado

O Globo

É urgente a compreensão dos vetores de composição da opinião pública para diagnóstico dos pontos de ruptura

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, propôs um pacote antigolpismo que vai da criação de guarda nacional no Distrito Federal à aplicação de multas contra redes sociais e a leis mais duras no combate a atos antidemocráticos, como os que ocorreram em Brasília em 8 de janeiro. Vigiar e punir, como ensina o filósofo.

No entanto a principal vacina, o ministro já tinha aplicado nas primeiras declarações depois do episódio. Dino se preocupou em não generalizar o perfil dos envolvidos e deixou claro que se tratava de um grupo minoritário, não representativo de eleitores de Jair Bolsonaro (PL).

A fidelidade ao ex-presidente alcança em média 15% dos brasileiros, segundo escala elaborada pelo Datafolha. É um estrato que adere à maioria das pautas reacionárias ostentadas pelo bolsonarismo radical. Em percentual, parece pouco, mas, projetando sobre o eleitorado, o contingente totaliza cerca de 20 milhões de pessoas.

Luiz Carlos Azedo - Três fatos, o rastro e a motivação dos golpistas

Correio Braziliense

Bolsonaristas exibiram músculos suficientes para abrir uma CPI no Senado sobre os fatos ocorridos em 8 de janeiro, com propósito de intimidar o ministro Alexandre de Moraes

A denúncia do senador Marcos Do Val (Podemos-ES) de que teria se reunido, na Granja do Torto ou no Palácio do Alvorada, com o presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado Daniel Silveira, que está preso, para tratar de uma operação de inteligência na qual gravaria uma conversa comprometedora com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, a fim de afastá-lo das funções, parece um conto de carochinha, mas não é. Três episódios são objetivos para justificar uma grande investigação: primeiro, a troca de mensagens por celular entre Do Val e Silveira; segundo, o encontro com Bolsonaro e Silveira; terceiro, o relato feito do Do Val ao ministro Moraes, na sede do próprio Supremo.

Dorrit Harazim - Haja paciência!

O Globo

A sanha da extrema direita em brecar o governo Lula 3 já deu sinais suficientes de que rondará Brasília enquanto não for cortada sua raiz

 ‘Nossa época é essencialmente trágica, por isso recusamo-nos a ver nela a tragédia. Mas o cataclismo já aconteceu; estamos entre ruínas, começamos a reconstruir pequenas casas, refazer pequenas esperanças. O trabalho é árduo: o caminho para o futuro não será tranquilo. Apesar de tudo, damos a volta, arrastamo-nos sobre as pedras. Só nos resta viver, não importa quantos céus tenham caído.’ Assim começa o primeiro parágrafo do clássico de D. H. Lawrence “O amante de Lady Chatterley”, lançado em 1928 e proibido até 1960. A obra tratava de sexo e traição de modo explícito demais para a época, mas poderia servir para retratar o estado atual da nação brasileira. São muitos os céus que caíram e não param de cair sobre o país.

Elio Gaspari - A rede Americanas foi depenada

O Globo

Bem remunerados, diretores venderam R$ 244 milhões em ações da empresa no segundo semestre de 2022. A discussão sabia-não-sabia irá para os tribunais, a menos que ocorra uma trégua simulada

Com todo mundo brigando com todo mundo, é possível que a encrenca da rede varejista Americanas caminhe para uma falsa trégua. Seguiria o ensinamento do grande sambista Morengueira em seu “Piston de Gafieira”:

“Quem está fora não entra

Quem está dentro não sai.”

Apareceu um rombo estimado em mais de R$ 40 bilhões e, salvo o executivo Sérgio Rial, que ficou alguns dias à frente da empresa, tocou o alarme e afastou-se do cargo, ninguém sabia de nada.

O trio de grandes acionistas (Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles) informaram que “jamais tivemos conhecimento e nunca admitiríamos quaisquer manobras ou dissimulações contábeis na companhia”. A auditora PwC e os bancos que davam crédito à rede nunca tocaram o sino. Os responsáveis diretos pela administração da empresa ao longo dos últimos anos estão calados. Ninguém sabia de nada, mas o espeto vai também para fornecedores de mercadorias.

Eliane Cantanhêde - Não se salvam todos

O Estado de S. Paulo.

Generais antes tão admirados agora correm o risco de virar alvo e sofrer quebra de sigilo

Entre mortos e feridos, não se salvaram todos na investida do ex-presidente Jair Bolsonaro para usurpar a imagem das Forças Armadas, triturar biografias e embolar nomes de militares das mais altas patentes com os de gente da estirpe de um Daniel Silveira e de um Marcos do Val, golpistas de chanchada.

O que faziam no time desses tipos, e de figurinhas religiosas carimbadas, o general Augusto Heleno, o almirante Flávio Rocha e o tenente-coronel Mauro Cid? Alunos “nota 10” nas academias militares, desprezaram o próprio brilho e deslizaram para um pântano perigoso, ao lado dos generais Walter Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Paulo Sérgio Nogueira.

Uns mais, como Heleno e Braga Netto, outro menos, como Ramos e Paulo Sérgio, entram no alvo de investigações e suspeitas sobre conluios nada a ver com o “Deus, Pátria e Família” que atraiu milhões de pessoas, jogou milhares em torno de quartéis e justificou o vandalismo nos três Poderes. Rocha escapa.

Celso Rocha de Barros -Marcos do Val entregou Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Não será difícil perceber que a imagem final do quebra-cabeça será do ex-presidente tentando um golpe

O senador Marcos do Val (Podemos-ES) entregou à revista Veja conversas com o ex-deputado Daniel Silveira, de dezembro do ano passado. Nas conversas, Silveira lhe propõe participar de um golpe de Estado, coordenado por Jair Bolsonaro (PL) e mais quatro "pessoas muito importantes e relevantes", "cinco estrelas".

A tarefa de Marcos do Val seria tentar gravar uma conversa com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Silveira afirma que "escutas utilizadas pelas operações especiais" e "veículo receptor" já estariam disponíveis para a execução do plano.

Vinicius Torres Freire - O plano Lula para endividados

Folha de S. Paulo

Programa talvez comece em março, mas ainda há dúvidas sobre como vai funcionar

Na semana que vem, Luiz Inácio Lula da Silva deve receber um projeto do Desenrola, o programa que tem como objetivo diminuir o valor de dívidas de pessoas inadimplentes, "negativadas" ou, como se dizia em tempos incorretos, "com o nome sujo na praça".

Como pode funcionar? Falta saber de detalhes práticos, ainda indefinidos ou sobre os quais gente do governo e de bancos não fala.

O programa vai permitir que endividados renegociem seus débitos, por sua conta? Não é bem assim.

Para entender o jeitão da coisa, considere-se a seguinte hipótese genérica. Bancos, varejistas e empresas de água, luz, telefone ou internet, por exemplo, têm dívidas atrasadas a receber de seus clientes (três quartos das dívidas atrasadas estão fora dos bancos, diz o governo).

Muniz Sodré* - O crime pede respeito

Folha de S. Paulo

Invasora detida em Brasília queixou-se: "Estão nos tratando como presos"

São numerosos os dados sobre pessoas com antecedentes criminais nos atos terroristas. Só o acampamento em Brasília registrou 73 delitos (lesões corporais, furtos) em dois meses. Não será por acaso que, em atentados ultradireitistas nos EUA, se registrem indivíduos com gravames penais. Entre trumpistas e seus êmulos brasileiros medeia um oceano de coincidências significativas tecidas pela relação íntima entre política e crime, traço essencial do fascismo.

Bruno Boghossian - O pesadelo do primeiro ano

Folha de S. Paulo

Embate público com o Banco Central é reação política a risco prolongado na economia

Quando ainda estava em campanha, Lula reconhecia que a economia daria trabalho na largada de um novo mandato. As contas do governo teriam que passar por ajustes, os ministros precisariam cavar resultados, e a atividade levaria alguns meses para reagir. Sentado na cadeira, o presidente percebeu que essa janela de tempo pode ser mais longa.

O petista passou a conviver com o pesadelo de atravessar todo o primeiro ano de governo num cenário de baixo crescimento e mercado de trabalho desaquecido. Auxiliares consideram que essa é a maior ameaça à popularidade de um presidente que chegou ao poder com uma promessa de recuperação econômica.

Cristovam Buarque* - O Brasil condenado pelo negacionismo político

Blog do Noblat / Metrópoles

Negar a tragédia social é uma forma de genocídio tão grave quanto ignorar a epidemia

A economia de um país não caminha por muito tempo sobre uma sociedade sem justiça social; tanto quanto a justiça social não caminha sobre economia ineficiente. A negação da necessidade de sociedade justa e a negação da necessidade de economia eficiente são dois negacionismos que condenam o Brasil a surtos de crescimento sem sustentabilidade social, ou surtos de avanços sociais sem sustentabilidade econômica.

A história do último século oscilou entre políticas econômicas sem sensibilidade social e políticas sociais sem conhecimento das regras da economia. Tivemos milagres econômicos que logo esbarraram na desigualdade como a riqueza se distribuía, na falta de educação de base, no transporte público caótico, na sua saúde e moradia precárias. Também tivemos momentos de políticas sociais que esbarram na falta de eficiência econômica levando a inflação, juros altos, endividamento, depredação ecológica.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Carnaval promete ser o melhor dos últimos anos

O Globo

Prefeituras precisam oferecer infraestrutura compatível com a volta dos desfiles e blocos às ruas

Não é difícil imaginar o êxtase que deverá tomar conta das cidades brasileiras nas duas próximas semanas, depois de inéditos dois anos de fantasias guardadas, instrumentos musicais silenciados e euforia represada pela pandemia. Nada mais previsível do que levar ao pé da letra os versos do samba-enredo da União da Ilha: É hoje o dia da alegria / E a tristeza nem pode pensar em chegar.

A história mostra que, no ano seguinte à tragédia da Gripe Espanhola, o país viveu o maior carnaval de todos os tempos. O roteiro que ora se anuncia não parece diferente. Cidades como Rio, Salvador, Recife, Olinda, São Paulo e Belo Horizonte, onde o carnaval de rua é forte, tentam controlar o desfile de blocos. Apesar da contenção, a previsão é de números superlativos. No Rio, a prefeitura autorizou 445 desfiles de 402 blocos no período entre 21 de janeiro e 26 de fevereiro, o domingo seguinte à Quarta-Feira de Cinzas. Entre eles, sete megablocos — como Cordão da Bola Preta, Bloco da Anitta e Monobloco —, maior número já registrado no carnaval de rua do Rio. Os cortejos atraem milhões num único dia.

Poesia | O Cão sem plumas - João Cabral de Melo Neto

 

Música | Alceu Valença - Estação da Luz

 

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Pablo Ortellado – Bolsonaro na articulação do golpe

O Globo

Discutir golpe é gravíssimo, não importa a versão

O senador Marcos do Val concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja acusando o ex-presidente Jair Bolsonaro de incitá-lo a participar de um golpe de Estado.

Segundo o senador, Bolsonaro o contatou por meio do deputado Daniel Silveira. Do Val disse que, em reunião secreta no Palácio da Alvorada, o ex-presidente pediu que ele agendasse uma conversa com o ministro Alexandre de Moraes, com quem mantinha relações. A conversa seria gravada com equipamentos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) que, segundo ele, estava a par do plano. Do Val tentaria arrancar do ministro uma inconfidência, dizendo que estava se excedendo nas decisões eleitorais, sem observar a Constituição. Na entrevista, Do Val foi categórico ao afirmar que o presidente fez diretamente a solicitação para que gravasse a conversa. Numa live com o MBL, no dia anterior à publicação da entrevista, foi ainda mais enfático e disse ter sido “coagido” pelo presidente a participar de uma tentativa de golpe.

Eduardo Affonso - Críticas, só amanhã

O Globo

Quantos anos serão necessários para que se possa questionar a complacência com os primeiros escândalos do novo governo?

Com quanto tempo de mandato será possível começar a criticar o governo Lula, sem que isso levante um tsunami de repulsa? Pelo que se viu até agora, ainda não é oportuno mexer nesse vespeiro. Talvez por estarem frescas na memória as cenas de barbárie dos ataques à democracia. Ou para não dar munição a inimigo tão insidioso, é melhor relevar pequenos, médios e grandes deslizes e focar no que interessa: nos livramos do fascismo; o que vier é lucro.

Não há, por enquanto, censura formal — o Ministério da Verdade continua embrionário (o óvulo da Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia e o espermatozoide do Departamento de Promoção da Liberdade de Expressão ainda estão nas preliminares). A tropa de choque da militância é que se encarrega de desqualificar as críticas e buscar motivações escusas para os críticos.

Alvaro Gribel - Lula contra os moinhos de vento

O Globo

A cruzada de Lula contra o Banco Central lembra a cena clássica do livro “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Após fugir de casa em busca de aventuras, Quixote confunde 30 moinhos de vento com terríveis gigantes e parte para o confronto, ignorando os apelos de seu fiel escudeiro Sancho Pança, que o alerta sobre o engano, em vão. O BC, neste momento, pode ser tudo para Lula, menos um inimigo. Ao contrário, a confiança que Roberto Campos Neto e sua diretoria passam aos agentes econômicos — não só ao mercado financeiro — vem ajudando a manter o dólar e as expectativas de inflação sob controle, a despeito dos equívocos de discurso que Lula tem cometido na área.

Se existe um problema na economia, ele não está na política monetária. Os juros altos são a consequência dos desequilíbrios, e não a sua causa. A inflação subiu porque houve dois choques externos de oferta, um pela pandemia, outro pela guerra na Ucrânia, mas no Brasil eles são agravados pela forte indexação e pela crise fiscal crônica que permanece no país desde o segundo governo Dilma.

Carlos Alberto Sardenberg - Contraponto a Lula

O Globo

O fato de Lemann cometer um enorme erro na Americanas não tira o mérito de outras coisas que faz

Do presidente Lula, em entrevista à Rede TV!:

— Qualquer palavra que você fale na área social, “Vou aumentar o salário mínimo em R$ 0,10”, “Vamos corrigir o Imposto de Renda”, “Precisamos melhorar (a vida dos pobres)”, o mercado fica muito irritado.

E mais:

— Agora, um deles (Jorge Paulo Lemann, acionista principal das Lojas Americanas) joga fora R$ 40 bilhões de uma empresa que parecia ser a mais saudável do planeta Terra, e esse mercado não fala nada, ele fica em silêncio.

O mercado falou, presidente. E protestou do modo mais firme que conhece: derrubou o preço da ação de R$ 12 para perto de zero, o que impõe perda enorme aos acionistas, inclusive Lemann. Além disso, todos os grandes bancos privados, credores das Americanas, manifestaram claramente seu desagrado, acionando na Justiça a empresa e seus acionistas principais. Claro que há, digamos, acionistas inocentes — aqueles que não exercem controle sobre a empresa e compram o papel para poupança. Esses minoritários, parte do mercado, também estão na Justiça cobrando atitudes mais responsáveis dos controladores, inclusive aporte substancial de capital.

Alvaro Costa e Silva - Os golpistas continuam

Folha de S. Paulo

Rogério Marinho concorreu à presidência do Senado de olho no impeachment de ministros do STF

A eleição para a presidência do Senado mostrou como a extrema direita irá se comportar ao fazer oposição ao governo Lula. A ideia é criar artificialmente um clima de radicalização, de terceiro turno interminável no país. Bate-bocas, ameaças, cartazes com provocações de moleque da quarta série, barulho, agitação e, claro, um chorrilho de mentiras nas redes sociais.

Um dia antes da votação, Bolsonaro aproveitou um evento público num restaurante da Flórida (cuja entrada custava de US$10 a US$50, dependendo da proximidade em relação ao palco) para mandar um recado aos cupinchas. Como de praxe, mais uma declaração golpista: "Pode ter certeza, em pouco tempo teremos notícias. Se esse governo continuar na linha que demonstrou nesses primeiros 30 dias, não vai durar muito tempo". Só faltou dar o prazo de 72 horas, como faziam os terroristas acampados em frente aos quartéis.

Hélio Schwartsman - Sigilo espúrio

Folha de S. Paulo

Voto secreto de parlamentar é curto-circuito da democracia representativa

Arthur Lira foi reeleito presidente da Câmara com 464 de 508 votos, e Rodrigo Pacheco foi reconduzido ao comando do Senado após derrotar o candidato bolsonarista pelo placar de 49 a 32. Cidadãos podemos apenas intuir como votou cada parlamentar, já que as eleições para a Mesa das Casas Legislativas são, por força dos regimentos, secretas.

Se há algo que tenho dificuldades em aceitar nas democracias representativas modernas é o voto sigiloso de parlamentares. Cada vez que um deputado ou senador toma uma decisão sem revelá-la a seus eleitores, cria-se um curto-circuito democrático, já que fica impossível para os representados aferir se seus representantes estão correspondendo a suas expectativas.

Demétrio Magnoli - Floyd, mas diferente

Folha de S. Paulo

O caso em 2020 nos EUA abriu uma janela de oportunidade que foi frustrada

O assassinato via sufocamento do negro George Floyd, em maio de 2020, por policiais brancos de Minneapolis deflagrou uma onda de manifestações que varreu os EUA. Há pouco, o assassinato do negro Tyre Nichols, via espancamento, por policiais de Memphis, detonou protestos menores – e uma indisfarçável perplexidade. A diferença é que os assassinos foram cinco policiais negros, numa cidade cuja polícia é chefiada por uma negra defensora da reforma policial.

"O sistema usa negros para matar negros" –o dogma, baseado na varinha mágica do "racismo estrutural", não obteve consenso. Cerelyn Davis, a chefe de polícia, sugeriu excluir o "fator racial" do debate. Os familiares da vítima não o excluíram, mas apontaram a complexidade do cenário.

João Gabriel de Lima* - Os crimes contra os Yanomamis

O Estado de S. Paulo.

Urge fazer um esforço consistente no resgate da cidadania e integridade dos Yanomamis

A tribo Yanomami foi tema de reportagem de capa da revista Veja em setembro de 1990. No texto, o jornalista Eurípedes Alcântara discorre sobre a riqueza cultural dos indígenas brasileiros, ao mesmo tempo que alerta sobre as doenças e mortes provocadas pelo garimpo ilegal. A legenda sob o retrato de uma família Yanomami enumera: “75% de anêmicos, 50% com infecção respiratória e 90% com doenças na epiderme”. O subtítulo da matéria resume o enredo: “A febre do ouro está dizimando velozmente os yanomami”.

Em três décadas o enredo Yanomami se transformou em tragédia. Uma reportagem assinada por Ana Maria Machado, Talita Bedinelli e Eliane Brum, publicada em 20 de janeiro deste ano no site Sumaúma, contabiliza 570 mortes de crianças Yanomamis por causas evitáveis. As fotos que acompanham o texto chocaram o mundo.

Adriana Fernandes - Os recados de Lira

O Estado de S. Paulo.

Sinalização de que a reforma vem antes da âncora fiscal é perigosa para a equipe econômica

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deixou dois recados importantes para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na entrevista coletiva dada na noite do dia da sua reeleição, quando o famoso Salão Negro já estava esvaziado.

O primeiro: a reforma tributária será votada antes do projeto de um novo arcabouço fiscal para substituir o teto de gastos. Lira confirmou a informação antecipada pelo Estadão de que o texto da reforma vai direto para o plenário da Casa. “A reforma está pronta para ir ao plenário”, disse sem meio-tom.

Miguel Reale Jr* - Genocídio

O Estado de S. Paulo.

Brota das condutas de Bolsonaro e de seu governo a revelação da intencionalidade comandada pelo desprezo à vida dos indígenas

O governo Bolsonaro deixou um rastro de destruição, da qual a barbárie de 8 de janeiro é exemplo. Porém chocam ainda mais as imagens do extermínio de centenas de crianças Yanomamis, reveladas pelo jornal Sumaúma, fruto da exploração ilegal de minérios nas terras indígenas.

Conforme a Hutukara Associação Yanomami, o monitoramento do garimpo em terra indígena indica que em 2018 havia a ocupação de 1.200 hectares, que em dezembro de 2021 quase triplicara, passando a 3.272 hectares.

No ano passado foi maior a invasão por garimpeiros, causando desmatamento, destruição de habitat e contaminação da água e dos solos. Houve a disseminação de doenças infectocontagiosas (em especial a malária), a contaminação pelo metilmercúrio e a subnutrição atingindo metade da população Yanomami, dando azo à pneumonia.

Marcus Pestana - O Congresso Nacional e a Agenda Nacional

O Congresso Nacional é o coração da democracia. Ali se expressam a pluralidade e a diversidade de interesses e opiniões. Dada posse aos eleitos e reeleitos, Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, cabe agora baixar a poeira da polarização extremada que tomou conta da política nacional nos últimos anos. Os presidentes eleitos são políticos experientes e habilidosos com todas as condições de dirigir o parlamento brasileiro na discussão das questões essenciais que efetivamente interessam à população.

Dentro do desafio de reestabelecer os canais de diálogo e construir uma agenda produtiva é preciso reconhecer a total legitimidade da candidatura do senador Rogério Marinho, que representou o bolsonarismo na eleição interna do Senado, e frisar que é um quadro de altíssima qualidade intelectual e política e, como ele mesmo se autodefine, um “conservador clássico” a lá Edmund Burke e Roger Scruton. Assim também as candidaturas de dois excelentes deputados: Chico Alencar, representando as posições mais à esquerda, e Marcelo Van Hattem, expoente do liberalismo defendido pelo Partido Novo. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Sem surpresas

Folha de S. Paulo

Pacheco e Lira vencem disputa, mas isso não significa tranquilidade para Lula

Terminou sem surpresas a eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, com Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) reconduzidos aos respectivos postos de comando.

Prevaleceu o pragmatismo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que optou por uma estratégia de baixo risco. Escaldado com fracassos do passado, o presidente da República abriu mão de apoiar candidaturas petistas em ambas as Casas legislativas e aderiu aos dois favoritos.

Por motivos distintos, contudo, o resultado não garante a Lula vida tranquila no Congresso: não se dará de forma automática a aprovação de pautas relevantes para o Executivo, assim como o presidente não pode se considerar a salvo de surpresas oriundas do Legislativo.

Não que tenha sido uma vitória de Pirro. Mas a reeleição de Pacheco, obtida por 49 a 32, mostra que subsiste no Senado uma parcela expressiva interessada em atrapalhar os projetos do Planalto.

Sobretudo porque o segundo colocado, Rogério Marinho (PL-RN), apoiado pelo bolsonarismo, só não amealhou mais simpatizantes porque o governo Lula atuou para estancar a sangria, com tradicionais promessas de espaço —cargos e verbas— na administração.

Poesia | Fernando Pessoa - A Aranha do meu destino

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Solidão

 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fernando Abrucio* - Pactuação é melhor que polarização

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Conselho da Federação pode ser canal para experimentar uma forma de governar que saia tanto do belicismo bolsonarista como dos conchavos patrimonialistas

A palavra federal deriva do latim foedus, que significa pacto. Foi esse sentido que guiou a criação, em maior ou menor medida, de boa parte das federações que nasceram como uma forma de distribuir o poder político territorial, mas também de salvaguardar a diversidade sociocultural dessas nações. O Brasil republicano optou pelo federalismo, mas na maior parte do tempo não conseguiu transformar a pactuação no estilo predominante de se governar o país. A reunião entre os governadores e o presidente Lula gerou a proposta de se criar um Conselho da Federação, instituição que pode incentivar e fortalecer uma lógica mais pactual de governança.

Não se pode confundir a ideia de pactuação com conciliação, que muitas vezes imperou na história brasileira. Conciliar, aqui, significou evitar o conflito e, geralmente, a cooptação de parte dos parceiros por elites que concentravam o poder. Um pacto democrático, ao contrário, supõe alianças que não tirem os direitos e identidades dos pactuantes. Esse é o sentido almejado pelo federalismo: criar uma nação que depende da interdependência das partes territoriais, mas que seja capaz de garantir a diversidade e a autonomia dos entes federativos.

Essa discussão é estratégica para o sucesso do governo Lula e, muito mais importante, para a reconstrução do Brasil, após a tragédia do bolsonarismo. A centralidade dessa questão se deve a dois fatores. Um é a força da polarização e da fragmentação no sistema político atual. E o outro tem a ver com o fato de o federalismo ser um dos principais eixos organizadores do Estado brasileiro.

Ricardo Mendonça - Novas vias para formar maioria no Congresso

Valor Econômico

Coordenação política e queda do número de partidos com representação no Congresso favorecem Lula

No longínquo março de 1995, quando o então recém-eleito Fernando Henrique Cardoso começava a exercer seu primeiro mandato como presidente da República, o sociólogo e cientista político Leôncio Martins Rodrigues publicou um artigo na revista “Novos Estudos”, do Cebrap, chamando a atenção para o preocupante aumento do número de partidos com representação no Congresso e seus potenciais efeitos nocivos sobre a governabilidade.

Professor Leôncio, como muitos o chamavam, discutia o risco de comprometimento de uma maioria parlamentar estável de sustentação ao Executivo, situação que, na sua avaliação, poderia prejudicar ou impedir a realização do programa de governo vencedor das eleições de 1994.

Ele lembrava que a situação política brasileira pós-ditadura foi marcada por presidentes minoritários diante de um Congresso partidariamente fragmentado. E que o resultado disso era uma situação em que o Executivo, “amplamente dependente de maiorias ad hoc” era levado a negociar pontualmente com grupos de partidos ou de parlamentares “cujo papel de situação ou oposição é muito instável e não muito claro”.

José de Souza Martins* - O triunfo da vítima

Eu & Fim de Semana  / Valor Econômico

O brasileiro que vem ganhando visibilidade tem raízes profundas e sofridas do encontro da pátria consigo mesma contra as fantasias manipuláveis de uma pátria de ficção

A mulher de meia-idade, enrolada na bandeira nacional, filmava com o celular a multidão espalhada pela Praça dos Três Poderes, subindo rampas, invadindo o STF, o Palácio do Planalto. Ela já estava dentro do Senado e berrava ao mundo: “Tomamos o poder!”.

A cena me lembrou um fato ocorrido na Faculdade de Filosofia da USP, em 1962, quando eu era aluno. Havia uma greve estudantil e o prédio fora tomado pelos grevistas. O professor Fernando Henrique Cardoso foi visitar os invasores. Paciente, hábil político e professor do diálogo, perguntou a eles: “Agora, que vocês tomaram o prédio, o que pretendem fazer com ele?”.

Calmamente, deu alguns esclarecimentos: é preciso preparar a folha de pagamentos e providenciar o depósito bancário da verba, pois no dia tal funcionários e professores devem receber seus salários.

Tomar o poder não é invadir recintos do poder. O poder não se confunde com edifícios. Além do que, o poder não se toma. O acesso a ele tem mecanismos legais e legítimos próprios de modo que só se está no poder no cumprimento de uma missão de representação. Sem isso, ninguém toma nada.

Luiz Carlos Azedo - Entre o mito do super-herói e a fama de traidor

Correio Braziliense

Do Val pode ser o elo perdido da conspiração para impedir a posse do Lula e, depois, para destituí-lo. A sua reunião com o presidente Bolsonaro e Daniel Silveira se encaixa perfeitamente na trama golpista

Autor do best-seller O Nome da Rosa, o escritor italiano Umberto Eco nasceu em 1932, em Alessandria, no noroeste da Itália, e cresceu à sombra do fascismo. Aos 10 anos, venceu um concurso de redação sobre o tema “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?”. Muitos anos mais tarde, num ensaio publicado no The New York Review of Books, relembrou o episódio para explicar as muitas faces do fascismo: “Minha resposta foi positiva. Eu era um garoto esperto”, escreveu, ironicamente.

Para ele, uma das características do fascismo é a obsessão pela trama, segundo a qual todos os eventos da história são resultados de conluios secretos. Obviamente, essa é uma das características de seus livros, entre os quais O pêndulo de Foucault, Cemitério de Praga e Seis passeios pelos bosques da ficção. Número Zero, o último romance de Eco, põe em cena um jornalista italiano que tenta provar a tese de que Mussolini não foi morto em 1945. Umberto Eco era um estudioso da cultura de massas, em particular dos heróis das histórias em quadrinhos.

Vera Magalhães - O golpe chinelão

O Globo

Não será possível conter o extremismo se Bolsonaro seguir protegido de prestar contas à Justiça pelo que urdiu

Em pouco mais de um mês, o Brasil assistiu a dois ataques terroristas, à tentativa de um terceiro, à descoberta de uma minuta de golpe de Estado na casa de um ex-ministro da Justiça e, agora, à confissão de um senador de que foi levado ao encontro do então presidente da República, por um deputado federal, e de que discutiram a três uma conspiração para prender um ministro da Suprema Corte e anular o resultado das eleições. E há quem, diante de um conjunto de acontecimentos dessa gravidade inimaginável, tente encontrar atenuantes. Elas não existem.

É preciso que em algum momento se dê um “basta” à permanente mania de colocar Jair Bolsonaro como um personagem coadjuvante ao golpismo bolsonarista. É dele que partem todas as investidas contra as instituições democráticas desde que foi eleito.

Bernardo Mello Franco - Pior semana do Bolsonarismo

O Globo

Fiasco no Senado, acusações de Marcos do Val e prisão de Daniel Silveira complicam ex-presidente

O bolsonarismo viveu sua pior semana desde a derrota para Lula na corrida presidencial. Na quarta-feira, o capitão foi dormir com o fracasso de Rogério Marinho na eleição do Senado. Na quinta, acordou com as acusações do senador Marcos do Val e a prisão do ex-deputado Daniel Silveira.

A extrema direita queria capturar o Senado para emparedar o governo e torpedear o Judiciário. Pelo roteiro, Marinho abriria um processo de impeachment contra Alexandre de Moraes. Seria o fim do pacto entre os Poderes em defesa da democracia, selado após a intentona fascista do 8 de janeiro.

Minutos antes da votação, Michelle Bolsonaro despontou no tapete azul e irrompeu no plenário do Senado. Esperava festejar uma zebra, mas testemunhou a reeleição do favorito, Rodrigo Pacheco.

O fiasco de Marinho ajudará a isolar a extrema direita no Congresso. Num ato falho, a estreante Damares Alves se referiu ao ex-presidente como uma figura do passado. "Não vou deixar o Brasil esquecer por um minuto quem foi Jair Bolsonaro", disse. A solidão da pastora, evitada pelos novos colegas, sugere que ela pode ser esquecida antes do chefe.

Pedro Doria - As redes bolsonaristas perderam

O Globo

Quem tomasse o termômetro pelas redes sociais teria clara impressão de que Pacheco seria derrotado na disputa pela presidência da Casa

Os discursos que os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Rogério Marinho (PL-RN) fizeram imediatamente antes da votação para a presidência da Casa revelam muito sobre como os parlamentares se dividem quando o assunto é desinformação no meio digital. A vitória de Pacheco, ao final, também diz muito sobre para que lado o Senado se inclina.

Marinho, que teve como principal cabo eleitoral o ex-presidente Jair Bolsonaro, já vinha falando faz algum tempo que o Supremo Tribunal Federal (STF) pratica “censura prévia” contra parlamentares.

— Não há Parlamento livre e representativo quando há desequilíbrio entre os Poderes — ele afirmou no discurso. — A omissão diminui o Parlamento e ameaça a democracia e o Estado de Direito.

Discursando para os senadores que deveriam decidir se votavam nele ou em Pacheco, fez da briga com o STF seu principal mote.

Pacheco foi no sentido contrário.

Claudia Safatle - Volta o debate: inflação versus crescimento

Valor Econômico

Marcos Bonomo diz que meta de inflação maior para ter em troca menor taxa de desemprego é ‘falácia’

Trata-se de uma péssima ideia a de aumentar a meta de inflação dos atuais 3,25% neste ano ou de 3% nos próximos anos para 4,5%, segundo cogitou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Quem defende uma meta maior de inflação para ter, em troca, uma menor taxa de desemprego ainda alimenta a ilusão de que esse é um trade-off que existe. “Isto é uma falácia. Não acontece. Desde os anos de 1970 que se sabe que, se existe esse trade-off (curva de Phillips), ele é temporário, de muito curto prazo”, aponta Marcos Bonomo, professor de macroeconomia do Insper, que foi convidado para se incorporar à equipe do Ministério da Fazenda sob o comando de Fernando Haddad, mas declinou do convite por motivos pessoais.

Fernando Gabeira - Uma extrema direita à espera de estudo

O Estado de S. Paulo

Será difícil enfrentar uma direita digital com reflexos analógicos. E mais difícil ainda se houver subestimação e um olhar fixado só nos seus aspectos folclóricos

As invasões golpistas do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) já foram intensamente condenadas. No entanto, passado quase um mês, a sensação que tenho é de que foram pobremente analisadas.

Para dizer a verdade, a tentativa de golpe foi um fracasso, o esquema de segurança foi um fracasso, mas a interpretação não precisa também ser um fracasso.

Poucos se aventuraram a explicar por que os invasores foram a Brasília. A revista Crusoé contou uma história interessante: uma lavradora paranaense, com uma baixa renda mensal, participou da manifestação porque tinha medo de que o comunismo levasse um trator que ganhou de herança, sua única posse.

Por sugestão de Michele Prado, tenho lido, entre outros, uma autora americana que criou um laboratório para pesquisar a extrema direita, Cynthia Miller-Idriss. Como estão mais adiantados nas pesquisas, estou aprendendo muito, sempre preocupado com não aplicar mecanicamente o aprendizado no exame da extrema direita brasileira.

Eliane Cantanhêde - Do drama à comédia

O Estado de S. Paulo

Nunca, em tempo algum, um golpe foi tão ridículo, com personagens tão absurdos

Direção, roteiro, personagens, locais e até o figurino ainda têm lacunas e o que era para ser um drama está desaguando numa comédia de quinta categoria sobre tentativas de golpe numa “Republiqueta de Bananas”. Os protagonistas são o presidente, familiares, políticos malfalados e militares, em palácios. Os coadjuvantes são ingênuos bem financiados e embolados com gente bem treinada, nas ruas.

Que roteirista imaginaria um presidente desfilando de jet ski com os primeiros 10 mil mortos de covid, nadando nos mares afrodisíacos com centenas de famílias afundando em enchentes, rodando em motociatas com tantos problemas a resolver? Contra vacinas e o sistema eleitoral do País, um sucesso internacional? E que tal um presidente ameaçando golpe por quatro anos?