segunda-feira, 9 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa de poder não pode atrasar transição energética

Por O Globo

Plano brasileiro atrasa por conflito dos ministérios de Minas e Energia e Casa Civil com Meio Ambiente e Fazenda

Depois da sensação de frustração ao final da COP30 com a dificuldade de alcançar uma proposta consensual de “mapa do caminho” para a transição energética, o Brasil tomou uma decisão acertada: como continua na presidência da COP até a próxima conferência, anunciou que formularia seu próprio projeto. Mas o prazo se esgotou no início de fevereiro sem nenhum resultado concreto, porque os ministérios envolvidos — Casa Civil, Minas e Energia, Meio Ambiente e Fazenda — simplesmente não conseguem se entender. É compreensível que a proposta do “mapa do caminho” enfrentasse em Belém a resistência dos países cuja economia está atrelada aos combustíveis fósseis. É inexplicável, porém, que esbarre na disputa por espaços de poder em Brasília.

Não caiam nessa de novo: delação não é uma boa ideia, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lava-Jato nos ensinou que delação gera espetacularização e faz o crime valer a pena

A figurinha do Michael Jackson comendo pipoca vendo um filme de terror, extraída do clip de Thriller, aparece no meu WhatsApp a cada rodada de notícias envolvendo as investigações do caso Master.

Num país onde todos imaginam as tenebrosas transações que são acertadas entre grandes empresários e políticos poderosos no escurinho do cinema (vide “Cine Trancoso”), é impossível conter a excitação quando esses vínculos vêm à tona.

O potencial de destruição do Master já era evidente desde o princípio, quando se armaram no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e na cúpula do Congresso Nacional várias manobras para se conter a investigação dos crimes de Daniel Vorcaro.

Câmara segura a lei que o BC precisa, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Projeto é técnico e unânime só não tendo sido aprovado ainda devido a circunstâncias políticas

Com todo mundo de olho na prisão de Daniel Vorcaro e na descoberta de que funcionários do Banco Central foram cooptados pelo Banco Master, algo muito importante passou quase despercebido na semana passada: a retirada de pauta de votação na Câmara dos Deputados do projeto da Lei de Resolução Bancária.

Esse é um projeto fundamental para corrigir os problemas que permitiram que o caso do Banco Master chegasse aonde chegou. Mas não é apenas uma melhora institucional que pode ajudar lá na frente. O Banco Central precisa dessas ferramentas desde já, sem demora, para fazer o saneamento do sistema de pagamento instantâneo, o Pix, que no ano passado foi infiltrado por participantes do crime organizado.

O terceiro homem, por Miguel de Almeida

O Globo

Visto como país do futuro, o Brasil surge apegado ao passado e com medo do presente

Na foto do momento, aparecem os nomes de Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. É o que as forças políticas oferecem no menu para mais quatro anos de mandato presidencial. Visto como país do futuro, o Brasil surge apegado ao passado e com medo do presente. Parece que o filme nunca começa; enquanto isso, assistimos a infindáveis reprises.

Quando Lula ganhou a eleição de 2002, o ex-presidente José Sarney chegou a dizer que a vitória do PT era um estágio a ser ultrapassado. Como se fosse uma maldição ou pagamento de dívida, vá lá. Desde a redemocratização, o Brasil já experimentara eleger um outsider (Fernando Collor) e um sociólogo de centro-esquerda (Fernando Henrique Cardoso). Lula vinha na roupagem de esquerda e logo mostrou-se centrista na economia e conservador na política, ao abraçar o MDB como parceiro. Deu no escândalo do mensalão, história já conhecida dos brasileiros, apesar de o STF ter abrandado as penalidades e revertido as multas aplicadas. Ainda que as provas demonstrassem os crimes.

Vorcaro preso; instituições funcionam, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O homem elegante que esbanjava luxo e ostentava ligações com autoridades dos três Poderes está isolado numa cela

A foto de Daniel Vorcaro — sem barba, cabelos aparados, visto de frente e de perfil — divulgada pela polícia é a prova de que as instituições estão funcionando. O homem elegante que esbanjava luxo, riqueza e ostentava ligações com autoridades dos três Poderes está isolado numa cela de 9m2, num presídio federal de segurança máxima em Brasília. Sua rede de negócios fraudulentos foi desmantelada, capangas e cúmplices estão presos.

Não foi sem percalços. Numa democracia, num Estado de Direito, os cidadãos e a própria sociedade têm sempre acesso a um último recurso, os tribunais. Ocorre que estes podem falhar — e vinham falhando até a quarta-feira da semana passada, quando Vorcaro foi preso pela segunda vez, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Submissão nunca mais, por Irapuã Santana

O Globo

Brancos são necessários para combater o racismo, homens são imprescindíveis na causa das mulheres

Ontem foi o Dia Internacional da Mulher, e eu gostaria de trazer alguma coisa com o copo meio cheio. Infelizmente, depois do crime bárbaro que ocorreu com uma menina na Zona Sul do Rio de Janeiro, não tem muito para onde escapar. Esse fato extremamente lamentável é o retrato dos riscos e das características do que ocorre hoje em dia.

O STF e as almôndegas, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Transparência total e o desestímulo ao corporativismo são a via para a Corte recuperar a imagem

Em dezembro de 2021, Ann-Christine Lindeblad, juíza da Suprema Corte da Suécia, foi flagrada tentando sair de um supermercado, sem pagar, com um pacote de almôndegas, um presunto natalino, salsichas e queijos. Foi aberta uma investigação policial e, menos de dois meses depois, Lindeblad renunciou ao cargo que exerceu por quase vinte anos. Posteriormente, ela foi punida com multa (uma decisão anterior da própria Suprema Corte considerou de menor gravidade furtos a lojas com valores abaixo de 1.250 coroas suecas, algo como R$ 710).

Força militar contra cartéis é ineficaz, Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Nova coalizão de cooperação em segurança exclui principais países da região como Brasil

Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.

A teocracia iraniana e a guerra, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não tendo como ganhar esta guerra, sobra-lhe apenas disseminar o caos no Oriente Médio, atacando até aliados como o Catar e Omã. Perdeu o norte

A teocracia iraniana está vivendo o estertor de uma estratégia fracassada. Durante décadas, deu-se como missão a destruição do Estado de Israel. Sempre o declarou abertamente, embora a esquerda mundial se tenha feito de surda. Terminou, por via de consequência, compactuando com o assassinato iraniano de mulheres, a repressão constante de sua população, tratada como se fosse uma massa de escravos sem direitos. Sua opressão conta com milhares de vítimas. O silêncio predominou. Agora, repentinamente, essa esquerda voltou a se manifestar contra o ataque americano e israelense, como se a agressão iraniana a seu próprio povo fosse um mero direito dos aiatolás.

As barreiras invisíveis à presença das mulheres na política, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Estamos atrás do México, do Zimbábue, de Serra Leoa e até da Arábia Saudita

A dificuldade tem múltiplas causas, que vão do financiamento a barreiras psicossociais e culturais

Peço licença aos leitores para deixar de lado os assuntos da semana e dedicar esta coluna ao tema que marca o 8 de Março, o Dia Internacional das Mulheres.

A edição de 2025 do Mapa Mulheres na Política, editado pela União Interparlamentar (UIP) e pela ONU Mulheres, coloca o Brasil na posição 133 entre 183 países analisados no ranking de presença de mulheres no Parlamento (considerando a Câmara dos Deputados e casas equivalentes em outros países). Estamos atrás do México, do Zimbábue, de Serra Leoa e até da Arábia Saudita, onde as mulheres só ganharam o direito de dirigir em 2018.

Um país que não ama as mulheres, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Casos de feminicídio batem recorde e passam de 1.500 em 2025

Só El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia matam mais que o Brasil

A fúria, a misoginia e a raiva expressas nos altos índices de feminicídio, estupro e violência contra as mulheres são sintomas de uma epidemia que acomete um número cada vez maior de homens e faz do Brasil um país que não ama as mulheres.

Os casos de feminicídio bateram recorde nos dois últimos anos. Em 2024, foram 1.459 vítimas. Em 2025, o número subiu para 1.568, ou seja, uma média diária de quatro mulheres assassinadas (Ministério da Justiça e Segurança Pública) pelo marido, companheiro, namorado, pelos "ex-", ou pelo próprio pai.

O Supremo na encruzilhada, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Corrupção individual e abuso de poder interagem produzindo um efeito multiplicador que potencializa seu impacto

Uso instrumental da defesa da democracia como escudo institucional para legitimar erros deslegitima combate ao autoritarismo

Se há algum consenso em relação à crise do STF, ele diz respeito à sua escala —vasta, oceânica— ou à sua importância —colossal, desmedida. Mas esses consensos tendem a misturar duas dimensões analiticamente distintas. A primeira é a questão da corrupção individual. Esse tipo de situação, embora raro em tribunais constitucionais, possui precedentes internacionais. Trata-se de casos de magistrados envolvidos em esquemas de tráfico de influência dentro do Judiciário —situações em que o juiz atua ele próprio ou como intermediário informal para influenciar decisões ou procedimentos administrativos em troca de benefícios privados. Nesses casos, a questão é essencialmente penal e individual: trata-se da responsabilização de um agente que teria violado deveres funcionais básicos. No caso brasileiro, contudo, há indícios de envolvimento de dois ministros —não apenas um. E, mais importante, a contraparte não seria uma empresa ou indivíduo, mas uma organização criminosa de características mafiosas. Tudo isso confere ao episódio um caráter de ineditismo espantoso.

Sua Excelência a pé, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Sem carro fornecido pelo Estado, como os juízes podem ir de casa para o trabalho e vice-versa?

Se for por segurança, não poderão julgar nem briga de vizinho, casal em litígio ou atropelamento de cachorro

Outro dia, assisti na TV ao depoimento de uma juíza de primeira instância sobre as agruras dos profissionais do seu status, o mais inferior da categoria. Aflito, ouvi seu protesto contra o fato de que, ao contrário dos colegas de instâncias superiores, ela não dispunha de carro fornecido pelo Estado. Pela ênfase que dava ao tópico, não se sabe como conseguia dar conta de suas atribuições, sem um veículo que a levasse de casa para o trabalho e, ao fim do expediente, a devolvesse ao sacrossanto recesso.

O amor em taça, por Ivan Alves Filho

Toda história tem um começo. E esta também. E ela começa muito longe daqui, há muito, muito tempo. Mais precisamente na França, na localidade de Hautvilliers, em uma abadia do século XII. Foi ali que o monge beneditino Dom Pérignon inventou uma maneira de transformar o vinho nosso de cada dia em uma bebida nova, borbulhante. Nascia assim o champanhe. Há quem veja nesse gesto nada mais nada menos que a interferência divina. Sim, a mão de Deus. É beber para crer.

A Voz de Hind Rajab, por Ricardo Marinho

Obra resenhada: A VOZ DE HIND RAJAB. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França, 2025.

Em 29 de janeiro de 2024, o Exército Israelense ordenou a evacuação do bairro Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele dia, seis membros da família Hamada, junto com sua sobrinha de seis anos, Hind Rajab, ficaram presos em seu carro após o próprio Exército Israelense abrir fogo contra eles, matando imediatamente cinco ocupantes do veículo. Milagrosamente, uma garota de quinze anos chamada Layan conseguiu ligar para a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino e pedir ajuda antes de também sucumbir aos ferimentos. Isso deixou Hind, de seis anos, sozinha no carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos, possuindo um celular com sinal ruim e ainda com bateria como sua única esperança.

Poesia | E então, o que quereis? De Vladímir Maiakóvski

Música | Wilson das Neves - Os Papéis / O Samba é meu dom

 

domingo, 8 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encruzilhada na segurança

Por Correio Braziliense

O país precisa encontrar um rumo correto para oferecer mais segurança aos seus cidadãos e tornar concreto um direito basilar previsto na Constituição.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou a Operação Contenção, realizada pela polícia do Rio de Janeiro em outubro de 2025. A ofensiva resultou na morte de 117 civis e cinco agentes da lei, em uma das ações policiais mais violentas realizadas no país. 

Em um relatório de 50 páginas, a CIDH constatou que, em termos de segurança pública, a operação teve efeito nulo para as comunidades do Complexo do Alemão. Na avaliação dos integrantes da comissão, a Operação Contenção repete um modelo de política que privilegia a violência extrema, sem resultados satisfatórios a médio e longo prazo. "Longe de enfraquecer estruturalmente o crime organizado, a intervenção aprofundou o sofrimento comunitário, reforçou a desconfiança institucional e elevou padrão histórico de violência estatal a novo patamar de gravidade", afirma o documento, em uma de suas conclusões. 

Proteção das mulheres: um compromisso de todos, por Rozana Reigota Naves

Correio Braziliense

Proteger as mulheres é um compromisso de todos e não admite ambiguidades. Compromisso, aqui, é responsabilidade assumida, traduzida em políticas, práticas, recursos, protocolos, formação e resultados

Este 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, exige uma reflexão coletiva. Ao longo de mais de um século, a data se consolidou como um marco mundial de luta por direitos, igualdade e dignidade. Ainda assim, mais do que celebrar conquistas, é preciso olhar com seriedade para os desafios que ainda persistem, entre os quais a violência contra as mulheres. Nesse contexto, as instituições têm papel fundamental na construção de ambientes seguros, livres de assédio e promotores da equidade de gênero.

A Universidade de Brasília (UnB) existe para formar pessoas, produzir conhecimento e servir à sociedade. E servir à sociedade, neste momento histórico, implica afirmar com clareza: a violência contra a mulher é uma violação de direitos e configura uma falha institucional quando não é prevenida, acolhida e enfrentada com rigor.

Quando as mulheres avançam, o Brasil avança junto, por Márcia Lopes

Correio Braziliense

A violência contra as mulheres cobra uma conta alta, emocional, financeira, social e política. Não há caminho possível para o desenvolvimento de um país que aceite a violência contra as mulheres como parte de sua realidade

O 8 de Março é mais do que uma data de celebração. É um momento de reconhecer as lutas e as conquistas das mulheres brasileiras, dos movimentos feministas e, ao mesmo tempo, refletir sobre os desafios que ainda persistem. As mulheres têm sido protagonistas na construção de um país mais justo, mais democrático, mais igual e mais humano. Estão em todos os territórios, nos campos e cidades, nas universidades, nas empresas, nos movimentos sociais, nas comunidades, na política, na ciência e em tantas outras áreas, contribuindo com talento, trabalho e coragem para transformar a sociedade. 

O mito do herói e a desconstrução do ministro Xandão no caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O apelido Alexandre de Moraes não é apenas um “meme” das redes sociais. É a tradução simbólica de uma persona investida de atributos como firmeza, coragem e poder de decisão

A trajetória recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal produziu um fenômeno raro no Judiciário brasileiro: a construção de uma figura pública dotada de forte capital simbólico. Ao conduzir investigações e julgamentos ligados aos ataques à democracia e às articulações golpistas associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, Moraes passou a ser visto por amplos setores da opinião pública como o principal fiador institucional da ordem constitucional, um herói da democracia.

Daí nasceu o “Xandão”. O apelido popular não é apenas um “meme” das redes sociais. É a tradução da construção de uma “persona” institucional investida de atributos extraordinários: firmeza, coragem, capacidade de decisão em momentos críticos. Trata-se, em termos teóricos, de um fenômeno antigo da política: o mito homérico de Ulysses. A filósofa Hannah Arendt, em A Condição Humana, analisa essa figura a partir da tradição da pólis grega.

Sobre corrupção, por Merval Pereira

O Globo

Com uma coisa Vorcaro pode se contentar: aconteça o que acontecer, ele desmontou um sistema de conluios e corrupção que dominava o centro do poder.

Como disse Lord Acton, historiador britânico do século XIX, conhecido como “o magistrado da História”, “o poder tende a corromper, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Seguimos assistindo na história brasileira a comprovação dessa constatação, mas nunca antes vira-se a corrupção atingir tão diretamente duas instituições republicanas tão fundamentais quanto o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Central. O poder destruidor do dinheiro misturou-se a outro fenômeno conhecido historicamente chamado “hubris”, a arrogância que toma posse dos que se consideram muito poderosos, e os faz perder o autocontrole por se considerarem acima dos demais mortais.

O nome dele é Moreira, por Bernardo Mello Franco

O Globo

O impeachment de Dilma Rousseff vai completar dez anos. O tempo foi cruel com seus protagonistas. Eduardo Cunha e Michel Temer amargaram passagens pela cadeia. Aécio Neves escapou, mas caiu no ostracismo.

Às vésperas da efeméride, chega às livrarias “Política como destino”, depoimento biográfico de Moreira Franco. Com mais de mil páginas, o calhamaço registra a versão de um articulador discreto, porém central na trama que derrubou a petista.

Velho aliado de Temer, Moreira chefiou dois ministérios no primeiro mandato de Dilma. Dispensado após a reeleição, entrincheirou-se na fundação do então PMDB, onde passou a operar contra o governo. Seu gabinete, no 26º andar da torre da Câmara, transformou-se em bunker da conspirata.

O caso Master consome o país, por Míriam Leitão

O Globo

O episódio traga o país, drena suas forças, expõe vísceras e revive dores. Exibe não só as conexões de um fanfarrão, mas também a nossa vulnerabilidade

“Se cada vez que o Brasil liquidar um banco tiver que percorrer uma via crucis como essa, não é o banco que quebra, é o país que será tragado.” Essa foi a frase que ouvi numa conversa sobre o caso Master. Meu interlocutor faz parte da brigada de solução da crise. Ele define como “penoso, caro e lento” o processo que deveria ser natural e técnico. Afinal, o Master cometeu uma fraude de R$ 12 bilhões e tentou entregar a bomba para um banco público. Em boa hora, o Banco Central impediu o desastroso negócio.

O Master acabou no STF, por Elio Gaspari

O Globo

O código de ética proposto pelo ministro Edson Fachin estava nas cordas quando os celulares de Daniel Vorcaro começaram a falar. Entre os ministros que se opunham à proposta estavam Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Por caminhos diferentes, os dois levaram o escândalo do banco para dentro do Supremo. Toffoli teve um resort, do qual era sócio, vendido ao cunhado de Vorcaro. Moraes enviava mensagens ao banqueiro, e a banca de advocacia de sua mulher e de seus filhos havia sido contratada pelo banco, com honorários milionários, de R$ 3,6 milhões mensais.

Ao longo de todas as encrencas, os dois ministros conseguiram se proteger, vendo nas notícias uma tentativa de atacar o Supremo. O Supremo tem tanto a ver com as conexões dos ministros quanto com a morte do aiatolá Ali Khamenei.

Guerra não é heroica, por Dorrit Harazim

O Globo

No mundo real, perdurou até o início do século passado a mistificação de batalhas gloriosas, vitórias nobres e combates de valentia

Começar uma coluna de jornal citando Hegel, ainda mais de orelhada, é dose. Mas é dele o conceito de que guerras são um purgatório necessário, pois “salvam o Estado da petrificação e da estagnação social”. No entender do alemão, é por meio do conflito que se impede a corrupção social e se renova a saúde ética do Estado. Hegel via o Estado como a “marcha de Deus no mundo” e não via a guerra como mal absoluto.

No mundo real, perdurou até o início do século passado a mistificação de batalhas gloriosas, vitórias nobres e combates de valentia altruísta. Devemos ao príncipe Andrei Bolkonsky, personagem do monumental “Guerra e paz”, de Liev Tolstói, uma das mais ferozes críticas à glorificação da guerra, expondo sua crueldade sem adornos. A cena se passa na véspera da Batalha de Borodino (1812), que seria vencida pelas tropas de Napoleão ao custo de 30 mil soldados e 45 mil vidas do lado russo, e reflete a tomada de consciência do príncipe:

A atual aritmética do STF, por Eliane Cantanhêde

 

O Estado de S. Paulo

A crise ‘financeira’ atingiu o coração da política e da Corte, mas ainda não chegou aos bancos

Por uma dessas jabuticabas tão brasileiras, o maior “escândalo financeiro” do País”, como classificou o ministro Fernando Haddad, não fez (ainda?) nem cócegas na reputação de bancos, banqueiros e Faria Lima, mas atingiu o coração da política em ano eleitoral e o fígado do Supremo na sequência da condenação de generais e um ex-presidente. Assim, o escândalo Master ainda vai chegar ao sistema financeiro, mas já jogou pesadas nuvens sobre o futuro, não só do STF, mas do Brasil.

Perigos, externos e internos, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Os perturbadores eventos recentes constituem o pano de fundo necessário para as eleições que o Brasil viverá em outubro

Perguntado sobre as razões da falência de uma grande empresa, o regulador indiano não hesitou na resposta. “A contabilidade é uma linguagem. Como tal, pode ser usada para vários fins; inclusive para escrever peças de ficção.” Nunca me esqueci dessa frase que ouvi décadas atrás em Nova Délhi. Voltou-me à mente com especial força, ao ver o circo de horrores que tem sido o caso do Banco Master – e da máfia do colarinho branco nele envolvida, direta ou indiretamente.

Não é uma história de um só capítulo. As teias do Master começaram a se estender com a compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro, em 2019, quando descobriu sua “vocação de banqueiro”. Entre 2021 e 2024, segundo a Moody’s, o banco saiu da 77.ª para a 25.ª posição no ranking das maiores instituições financeiras do País. Essa trajetória é descrita em dois importantes artigos de Consuelo Dieguez publicados na revista Piauí: Operação de risco (outubro de 2024) e A República Federativa do Master (fevereiro de 2026). Os textos mostram a extensão da rede de influência criada pelo banco e os tenebrosos bastidores da fraude.

Após boa virada de ano, é hora da diplomacia, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Depois das notícias positivas na economia que marcaram a passagem de 2025 para 2026, é essencial cuidar da incerteza externa

 Emprego e renda bateram recordes na virada do ano, segundo balanço divulgado na quinta-feira, mas o principal destaque, nos grandes órgãos de comunicação, foi o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Acusado de golpes financeiros, ele foi trancado numa cadeia no interior de São Paulo. Grandes títulos foram dedicados também à tentativa de suicídio, em Belo Horizonte, de seu cúmplice Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário.

O destaque a figurões do crime é tão justificável quanto útil, mas o prosaico noticiário econômico também pode merecer alguma atenção, especialmente num país ainda em busca do desenvolvimento.

Notícias positivas marcaram a passagem de 2025 para 2026. O rendimento real dos trabalhadores cresceu, o desemprego diminuiu e a ocupação aumentou, num cenário prejudicado por uma inflação distante do centro da meta, fixado em 3% para períodos de 12 meses.

Entrevista | Alberto Almeida: ‘Lula é favorito para perder, e caso Master afeta mais a esquerda que a direita’

Por Thiago Prado / O Globo

Entrevista com o sociólogo e escritor, que aponta a necessidade do presidente melhorar a avaliação para ser reeleito.

O cientista político e sociólogo Alberto Carlos Almeida costuma ser uma voz que a esquerda considera relevante ouvir para tomar decisões. Antes de lançar seus últimos dois livros, foi recebido em Brasília por petistas como o presidente Lula, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffman, e os senadores Jaques Wagner e Humberto Costa.

“A mão e a luva: o que elege um presidente” enaltece a importância dos resultados econômicos para um governante ser bem avaliado e, consequentemente, se reeleger. “A cabeça do brasileiro, vinte anos depois: o que mudou” lança luz sobre o perfil conservador do eleitor brasileiro. Em entrevista para a newsletter “Jogo Político”, Almeida explica por que considera em risco a reeleição de Lula em outubro mesmo com o petista na liderança das pesquisas.

Empate entre Flávio e Lula indica campanha eleitoral resolvida antes de começar, por César Felício

Valor Econômico

Os dois provavelmente seguirão assim até o desfecho. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atingiu o patamar de 33% de intenção de voto para presidente no primeiro turno, de acordo com o Datafolha divulgado nesse sábado. No segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai a 43%, três pontos percentuais atrás do petista. A rejeição do senador é de 45% e a do presidente, 46%. O cruzamento dos dois indicadores deixa claro que o presidente já bateu no seu teto. O ponto de chegada das eleições, para o qual ainda faltam sete meses, deve ser igual ou menor do que o ponto de partida, Lula não tem outro eleitorado a conquistar.

Já o herdeiro do bolsonarismo ainda tem algum espaço de crescimento no primeiro turno, sobretudo se agregar o apoio do governador Romeu Zema ( Novo), que patina entre 4% e 5%, conforme a simulação, e que é frequentemente lembrado como um bom candidato a vice. A soma de Flavio e Zema no primeiro turno levaria o oponente de direita a empatar com o presidente, que oscila entre 38% e 39%.

No segundo turno a equação está dada: Lula e Flávio já estão empatados e provavelmente seguirão assim até o desfecho, mantidas as condições naturais de temperatura e pressão. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso. A campanha eleitoral ainda não começou e parece já concluída.

Não, Joel, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A candidatura Flávio Bolsonaro existe porque a estratégia da direita, a moderação do bolsonarismo, fracassou

Flávio e sua quadrilha tentam impichar ministros do STF desde muito antes do caso Master

Em resposta a minha coluna do último domingo (1º), Joel Pinheiro da Fonseca escreveu nesta Folha, no dia 2 de março, que Flávio Bolsonaro não é golpista; que Flávio pedir impeachment de ministros do STF o iguala a quem critica os ministros pela atuação no caso Master; e que a hegemonia bolsonarista dentro da direita brasileira é um fato incontornável, diante do qual tudo que a direita tradicional pode fazer é se adaptar.

Não, Joel.

A candidatura Flávio Bolsonaro nunca foi inevitável. Ela existe porque a estratégia da direita brasileira nos últimos três anos, a moderação do bolsonarismo, fracassou. Você a defendeu explicitamente na coluna "Precisamos do bolsonarismo moderado", de 29 de abril de 2024. Deu errado. Vocês queimaram os governadores de direita, que se sujeitaram às piores perversões de Jair para conseguir um apoio que nunca veio.

Trump pode se render à política antes da rendição incondicional do Irã? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Carestia dos combustíveis ainda não abala prestígio do presidente dos EUA, ora sem rumo

Apenas o Japão de 1945 foi caso inequívoco de aceitação total de termos do inimigo

Donald Trump escreveu em sua rede social, na sexta (6), que não haverá acordo ("deal") com o Irã a não ser em caso de "rendição incondicional". Em tese, trata-se de qualquer situação em que uma força combatente deponha as armas e aceite condições quaisquer do inimigo, sem mais, mesmo que não lá draconianas. O assunto poderia dar pista sobre a suspensão da guerra e, pois, do seu efeito econômico (as consequências políticas vão longe).

O caso mais inequívoco, se não único, de rendição incondicional em guerra internacional moderna foi o do Japão de agosto de 1945. O império japonês se rendeu às ordens de depor armas e de desarmamento, entrega de territórios ocupados; aceitou ocupação militar, subordinação do governo ao ocupante e mudança de regime, para resumir exigências da Declaração de Potsdam (julho de 1945).

Os fantasmas que nos regem, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Mente-se na religião, no direito, na política e na economia, e quanto maior a mentira, maior a sedução

Limite é atingido quando se democratiza o grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano

"Eu não acredito em fantasmas, não porque sejam invisíveis, mas porque são visíveis demais." Embora esta frase atribuída a Nietzsche não se encontre em nenhum de seus escritos, é bastante coerente com seu pensamento, em que realidade é terra e corpo. Outro tipo de "fantasma" foi abordado por Roland Barthes numa das críticas das mitologias pequeno-burguesas, em meados do século passado. Dessa vez eram os óvnis, também visíveis demais, porque nos relatos eram imaginados como duplos dos humanos. Se existissem, ironizava ele, deveriam ter um Estado, classe dirigente, forças armadas, um papa e as heresias.

Enquanto Israel dormia, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro faz necropsia das falhas de segurança que permitiram ataque do Hamas

Excesso de confiança na tecnologia e erros políticos são dois destaques

"While Israel Slept", dos jornalistas Yaakov Katz e Amir Bohbot, é um livro de necropsia. Os autores examinam ao microscópio os erros dos serviços de segurança e do governo que possibilitaram o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023.

Israel tem o mais poderoso exército e os mais eficientes serviços de inteligência da região e ainda assim foi surpreendido pelo grupo palestino, que era considerado, tanto pelos militares como pelos políticos, o menos ameaçador dos três principais inimigos do país (os outros dois são o Irã e o Hezbollah). Como isso foi possível?

STF paga conta do espírito de corpo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministros reclamam das críticas à corte e reivindicam que se observe a individualização de condutas

Se o colegiado respalda atitudes questionáveis, inevitável que o dano de imagem recaia sobre a instituição

Há ministros do Supremo Tribunal Federal profundamente desconfortáveis, diria até muito irritados e sentindo-se injustiçados com a tomada das partes pelo todo na descrição que tem sido feita do dano de imagem que atinge a corte.

Alegam a necessidade de que se faça a distinção entre condutas e reivindicam a aplicação do critério da existência de 11 (no presente, 10) supremos, ilhas de atuação independente, no lugar de se olhar o tribunal sob prisma único e com isso se desqualificar a instituição.

Congresso não quer aprovar projeto para evitar novos casos Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Com todo o estrago provocado por Vorcaro, o mínimo que se esperava era uma resposta célere

O Master era tudo, menos um banco; e depois reclamam da fiscalização do Banco Central

É grave o adiamento da votação do projeto de lei que aperfeiçoa os instrumentos do Banco Central para lidar com instituições financeiras em dificuldades, como aconteceu com o banco Master.

A impressão que fica é que o Congresso Nacional não quer aproveitar o momento de crise para passar a limpo as regras na tentativa de evitar novos casos Master. A esta altura, com todas as evidências do estrago que Daniel Vorcaro provocou ao montar uma engrenagem de fraudes aliada a um arco político de corrupção, o mínimo que se esperava era uma aprovação célere da proposta.

Lula - Pronunciamento à nação: Dia Internacional da Mulher

 

Poesia | Adiamento, de Fernando Pessoa

 

Música | Nara Leão - Samba de uma nota só (Tom Jobim)