quarta-feira, 29 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela

Por O Globo

Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão

Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil.

Os três signos da eleição 2026, por Vera Magalhães

O Globo

Disputa de 2026 encerra um ciclo de polarização, e uso massivo da IA e interferência dos EUA na disputa tornam incerta reação do eleitor e resposta das instituições

Há alguns paralelos possíveis entre a eleição de 2026 e as que a antecederam, mas pelo menos três fatores conferem a ela um grau de ineditismo e devem ditar a tônica da disputa.

O primeiro é histórico: trata-se, qualquer que venha a ser o resultado das urnas, do encerramento do ciclo de polarização entre bolsonarismo e lulopetismo inaugurado em 2018. A escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, para lhe suceder deu sobrevida a esse antagonismo, que chega a sua terceira versão. Na inauguração dessa era, foi Jair contra o “candidato do Lula”. Quatro anos depois, houve o acirrado confronto direto entre os dois líderes personalistas. E, agora, Lula tenta o quarto mandato enfrentando o herdeiro do clã adversário.

Não haverá em 2030 reedição dessa contraposição que tem impedido, à esquerda, à direita e ao centro, o surgimento de uma nova força política. Desde 2018, qualquer um que se apresente como alternativa a essa escolha maniqueísta tem recebido do eleitor o tratamento de “nanico”, e as pesquisas, até aqui, não permitem dizer que seja diferente neste ano.

Três tons de direita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao atacar candidato do PL, Caiado pregou coragem que parece faltar a Zema

Os presidenciáveis da direita botaram o bloco na rua. Flávio Bolsonaro puxou o cordão no último sábado. Foi seguido por Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O Zero Um chegou à convenção do PL sob pressão. Precisava mostrar que a candidatura continua de pé, apesar do abalo com o caso Master e da crise com a madrasta.

O ato foi marcado por ausências ilustres. Michelle enviou vídeo, mas não compareceu. Jair ficou na prisão domiciliar, e Carlos preferiu visitar Eduardo nos Estados Unidos.

Com o clã desfalcado, Flávio teve que se contentar com o irmão caçula. Foi acompanhado por Jair Renan, o vereador que diz “incomodar o sistema” de Balneário Camboriú.

Diplomacia carcerária é uma praga, por Elio Gaspari

O Globo

Dom Pedro visitava Pasteur, agora visitam-se presos

Em 2019, Alberto Fernández liderava as pesquisas eleitorais para a Presidência da Argentina e decidiu visitar Lula, preso na Polícia Federal de Curitiba. Estava inaugurada a diplomacia carcerária. De lá para cá, em 2025, com Javier Milei no governo, Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, presa em seu apartamento de Buenos Aires. Posou para uma fotografia segurando um cartaz pedindo a liberdade para a aliada.

Dom Pedro II visitava escritores e cientistas. Hoje, chefes de Estado brasileiros e argentinos criam factoides visitando presos. Javier Milei queria lustrar a sua passagem pelo Brasil visitando Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes proibiu o encontro, e ele o chamou de “lixo”. O troco veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan:

— Palhaço.

Vem aí a fase de testes da reforma tributária, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Entidades pedem ‘harmonização regulatória’ e ‘medidas que garantam segurança jurídica e operacional’

A fase de testes da reforma tributária deve começar na próxima segunda-feira, dia 3. Empresas passarão a informar, nas notas fiscais, o valor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), dois tributos criados na reforma e que compõem o Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

No teste, será apurada, mas não recolhida, uma alíquota de 1%. As informações ajudarão a calcular qual alíquota será necessária para que o IVA arrecade o mesmo que o sistema tributário atual.

O problema é que nem todas as empresas estão preparadas para cumprir essa exigência. Mas, se não o fizerem, correm o risco de não conseguirem emitir notas fiscais.

O elogio a uma ditadura, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O promotor Gakiya deixou claro o que significa o modelo de El Salvador na Segurança Pública

Candidatos à Presidência da República à procura do voto de quem se sente inseguro no Brasil têm espalhado uma ideia: copiar o modelo de combate ao crime do salvadorenho Nayib Bukele, que governa há cinco anos seu país em estado de exceção. Bukele é um ditador como seu vizinho, o nicaraguense Daniel Ortega.

A lacração e o populismo que o vê como solução pouco se importam com a razão de Donald Trump nunca ter adotado tal modelo para os EUA, embora o defenda para os latino-americanos. Washington não chama a máfia americana de terrorista ou defende bombardear Little Italy. Mas a famiglia Gambino não vive no Rio. Afinal, por que americanos não podem ser mortos ou encarcerados sem acusação ou direito à defesa?

O risco da complacência com Donald Trump, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com decisões erráticas e imprevisíveis, Trump representa hoje a maior fonte de risco para a economia global

Pela primeira vez desde março, os índices de ações S&P 500 e Nasdaq registraram duas semanas consecutivas de perdas, enquanto os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos de prazo atingiram o maior nível desde 2007 e a taxa do papel do governo alemão de 10 anos chegou perto do pico observado em 2011. Uma análise apressada poderia dizer que isso foi resultado direto da alta nos preços do petróleo – em razão da nova escalada no conflito no Oriente Médio – ou das novas tarifas de importação dos Estados Unidos.

Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta Jansen

O Estado de S. Paulo

O antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos

O carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros

Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.

Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Enquanto progressistas abandonam seus artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político

Vigilância, denúncia e punição alimentam tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação

Ana Maria Machado João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

A obsessão com a decadência é a antecâmara do autoritarismo, por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Autor nascido no século 19 ajuda a entender a direita de hoje

Direitas radicais compartilham convicção de que Ocidente está em perigo iminente

Há cem anos o mundo descobriu que o livro mais influente na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial era um volume de 600 impenetráveis páginas escritas por um ex-professor de escola secundária e acadêmico frustrado, dispensado do serviço militar pelas suas vistas curtas, que usou uma magra herança para explicar toda a história sem precisar analisar um documento.

O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.

Todos contra a educação, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lei da Copa, ao obrigar as escolas a darem férias durante todo o mês do evento, é retrocesso

Organizar calendário escolar não é tarefa trivial e deveria estar ao abrigo de investidas de políticos

Vários fatores conspiram para tornar o Brasil um suave fracasso. Um de nossos vícios estruturantes é o papel de coadjuvante que atribuímos à educação. Tivemos um bom exemplo disso na pandemia, quando autorizamos os shopping centers a sair do lockdown meses antes da reabertura das escolas.

A baixa prioridade dada à educação ganhou um novo capítulo com a sanção da lei nº 15.421/26, a Lei da Copa do Mundo Feminina, evento que terá lugar entre 24/6 e 25/7 do ano que vem no Brasil. O artigo 67 do diploma determina que todas as escolas do país, públicas e privadas, decretem férias durante a Copa. Os bons sentimentos por trás da medida são os de sempre: incentivar a participação popular e promover a isonomia de gênero, dando ao esporte feminino a mesma centralidade do masculino.

Na campanha do PL o candidato é o de menos, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro foi figurante da dupla Jair e Javier na convenção em que a estrela deveria ser ele

Deslocado no figurino que o pai o mandou vestir, o senador não se encaixa em nenhum perfil com nitidez

Os estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro tiveram duas ideias para animar a convenção do PL. Nenhuma delas tinha como figura central o candidato. Ambas atearam fogo na controvérsia litigiosa e jogaram zero luz sobre o que pretende o postulante a presidente.

Estiveram lá o argentino que ora preside um país com a imagem ainda fresca de mau perdedor, despejando grosserias, e um Jair Bolsonaro de IA dando a entender que será ele o protagonista da cena governamental caso o filho seja eleito.

Candidatos de oposição têm agenda comum focada nos pontos fracos de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Hertz disputa esquerda crítica ao governo; Cury procura moderados; Caiado representa centro-direita administrativa; e Avalanche aposta no populismo

Promovida pelo Correio Braziliense, ontem, a primeira rodada de sabatinas com candidatos à Presidência mostrou que existe uma agenda comum de oposição ao governo, embora sejam muito diferentes as alternativas apresentadas. Hertz Dias (PSTU), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Leonardo Avalanche (PRTB) criticaram, por caminhos distintos, a condução da economia, o funcionamento das instituições, a política externa e a capacidade do Estado de enfrentar os problemas da população.

Essa convergência pode dificultar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, porque amplia o discurso oposicionista para além de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro turno, essas candidaturas retiram votos do filho de Jair Bolsonaro, mas ninguém sabe qual será o destino desses eleitores num eventual segundo turno.

Os três caminhões de Argirita e o novo ofício do deputado federal, por Jairo Nicolau

Política & Dados

Uma cena numa cidade mineira e o que ela revela sobre a nova realidade das emendas parlamentares

Há poucas semanas fui a uma festa da família em Argirita, simpática cidade da Zona da Mata de Minas Gerais. Argirita tem uma população de cerca de 2.700 habitantes (2025) e tem a estrutura de centenas de pequenas cidades brasileiras: um núcleo urbano, que se organiza em torno da igreja matriz e de uma praça, e uma área rural, onde reside uma pequena fração da população do município.

Passeando pela cidade fiquei surpreso ao encontrar na praça principal, três caminhões estacionados, com uma faixa estendida entre eles, com os seguintes dizeres:

Consultando a excelente Plataforma Sólon, que disponibiliza dados sobre o valor das emendas transferidas para cada município, descobri que somente em 2026, Argirita recebeu 3 milhões de reais de emendas de deputados federais e senadores. O deputado Luiz Fernando (PSD) alocou valores expressivos na cidade nos últimos dois anos.

Não tenho como avaliar qual é a utilidade dos três caminhões novos para Argirita (minha intuição é que eles devem ser úteis), nem consegui saber como foram gastos os recursos das outras emendas parlamentares. Mas a partir desse episódio e de outros relatos, tenho pensado em dois efeitos da maciça utilização das emendas parlamentares no país.

Poesia | O açúcar | Ferreira Gullar

 

Música | Nara Leão - O que será (Chico Buarque)

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

A 'herança maldita' que o PT esconde

Por Folha de S. Paulo

Dívida, estatais e expansão fiscal revelam quadro bem mais preocupante do que indicam as metas do governo

Entre junho de 2022 e junho de 2026, o impulso fiscal saltou de 1,43% para 6,7% do PIB, evidenciando uma política expansionista

As contas públicas brasileiras chegam perto do fim do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em situação muito mais vulnerável do que o discurso oficial tem buscado demonstrar publicamente.

Embora a área econômica venha repetindo nas últimas semanas que cumpre as metas previstas em seu arcabouço fiscal, os principais indicadores caminham na direção oposta.

A dívida pública cresce, os déficits tornam-se recorrentes, as estatais voltam a representar risco para o Tesouro e o impulso fiscal é muito maior do que mostram as estatísticas convencionais. A distância entre a narrativa oficial e a realidade das contas públicas tornou-se impossível de ignorar.

Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Senador aposta que o colapso da política externa poderá ser atribuído a Lula e convertido em votos para a oposição, ao provocar crise econômica

Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.

A ameaça do protetorado americano na bacia do Prata, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Milei presta serviço a Trump, tem uma agenda liberalizante que converge com demandas do eleitorado brasileiro e é competitivo para sua reeleição

Javier Milei enfrenta percalços de popularidade desde o início do arrocho, o que não o impediu de ganhar as eleições legislativas de outubro. Suas medidas vêm, ainda, sendo legitimadas pelo Legislativo. Quando percebeu que seria derrotado, como na votação do orçamento para a educação, recuou. “Com um custo social altíssimo, Milei domou a fera e a sociedade argentina topou porque seu programa de controle inflacionário é um sucesso”, diz a historiadora e especialista em relações Brasil-Argentina Monica Hirst. “O que ele inaugurou na convenção do PL foi a estratégia de fazer deste sucesso uma bandeira regional a serviço de Donald Trump”.

Arroubos privatistas revelam descuido ou anacronismo, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Dados históricos indicam que nacionalizações também podem produzir benefícios ao permitir maior controle político sobre prioridades de investimento

Dias atrás, um pré-candidato à Presidência disse que não existe “vaca sagrada” nas estatais e que pretende fazer privatizações em “larga escala” caso seja eleito. Entende-se que pretende privatizar Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica e outras grandes estatais.

Essa declaração, apoiada por outros pré-candidatos, embora com menos ênfase, indica que, em ano eleitoral, os brasileiros precisam refletir sobre propostas de governo e, principalmente, ficar atentos a anacronismos de lideranças.

No atual quadro geopolítico global, o Brasil, como qualquer outro país, não pode pensar com o cérebro dos anos 1980/90, moldado pelo neoliberalismo. Liberalização financeira, abertura comercial, corte abrupto de gastos públicos, Estado mínimo e privatizações em larga escala já não são pilares dominantes da ordem econômica global, como no período pós-Guerra Fria.

Encantamento pertinaz, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A despeito de críticas, denúncias e condenações envolvendo seus integrantes, o bolsonarismo ainda encanta milhões

Há um descolamento entre as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República e o esboroamento moral de uma candidatura. Trata-se, no caso, da do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aclamado como candidato de seu partido em convenção nacional realizada no fim de semana passado. A revelação de fatos comprometedores que o envolvem não afetou seu potencial eleitoral.

Desde que, há cerca de um ano, seu nome começou a ser apontado como o mais forte da extrema direita para concorrer à Presidência, Flávio Bolsonaro registrava entre 36% e 38% das intenções de voto. Isso ocorreu entre junho e dezembro de 2025, segundo o Datafolha.

Problema de Flávio não é o Centrão, é o eleitor, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio não perde votos pelo abandono do Centrão, perde o Centrão pelo abandono do eleitor independente

A debandada do Centrão é um baque mais político do que eleitoral para a candidatura de Flávio Bolsonaro. É um alarme avisando que aliados à direita, como PP, Republicanos e União Brasil, não estão botando muita fé nas chances de Flávio e isso pode significar retirada de apoio de setores-chave, mas não, necessariamente, perda de votos.

Ok, os chamados “setoreschave”, como indústria, comércio, agronegócio e igrejas, são suscetíveis aos movimentos e alarmes políticos e partidários e influenciam, sim, os votos em massa. Esses votos, porém, seguem mais as ondas, percepções e versões que se disseminam na sociedade, além do principal: o próprio interesse e o bolso do eleitor.

Inexistência individual autônoma, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A convenção nacional do PL foi a convenção de Jair Bolsonaro, ainda que, de vez em quando, alguém se lembrasse de que oficializada ali era a candidatura de Flávio Bolsonaro. Disse Tarcísio, carinhoso: “Flávio está aqui não pelo sobrenome”. Carinhoso – e falso. Estava ali pelo sobrenome somente. Senador somente pelo sobrenome. Candidato à Presidência somente pelo sobrenome. Produto de fenômeno dinástico, puro-sanguista, que se hierarquiza em função da família.

Da família, não. A família de Michelle – ela fez questão de esclarecer – não é a mesma de Flávio.

Milei estraga um bom momento, por Míriam Leitão

O Globo

Presidente argentino cruzou linhas vermelhas da diplomacia, criou uma crise com seu principal parceiro comercial e pôs em riscos agenda de acordos do Mercosul

A crise diplomática provocada pelo presidente Javier Milei ocorre num momento de intensa, ambiciosa e bem sucedida agenda internacional do Mercosul, com uma série de negociações promissoras. O bloco fez acordo com a União Europeia, Efta ( países nórdicos), Cingapura. Negocia com o Canadá, Emirados Árabes, Vietnã. A Inglaterra pediu conversas, a Índia quer aprofundar acordos, o tema foi assunto de conversa entre Lula e o presidente da ChinaXi Jinping. O Mercosul está sendo visto como um “oásis de regras claras”, definiu um negociador brasileiro, dizendo que é um paradoxo a crise num momento tão favorável.

Como reagir à injustiça dos EUA, por Fernando Gabeira

O Globo

Poderemos retaliar no futuro no campo dos minerais estratégicos. Para isso, precisamos pelo menos mapear os recursos

Os Estados Unidos estão sendo injustos com o Brasil. Parte das novas tarifas aplicadas a nossas exportações é baseada em acusações falsas. O país combate o trabalho escravo e reduz o desmatamento. Aqui foi aplicada a lógica do lobo e do cordeiro. Se não somos nós os culpados, então foram os nossos primos.

Num momento como este, muitos falam em retaliação. É uma reação emocionalmente compreensível. Mas, pensando bem, é possível encontrar uma solução melhor. Ela seria um grande projeto de união nacional para que a gente desenvolva capacidade real de retaliar. Você pode chamar isso de soberania, mas não deve confundi-la com os gritos de soberania nos comícios eleitorais.

União contra Lula, por Merval Pereira

O Globo

Eleitores de direita, mesmo os decepcionados hoje com o desempenho de Flávio, tendem a se unir no segundo turno, mesmo que ele não seja o candidato da direita.

Se confirmada a tendência apontada por muitas pesquisas de que qualquer candidato da direita terá a mesma possibilidade que Flávio Bolsonaro de vencer Lula num eventual segundo turno, a notícia não será boa para nenhum dos dois. O candidato oficial do bolsonarismo está bem à frente dos demais candidatos da direita no primeiro turno, Zema ou Caiado. O ex-governador Leonel Brizola disputava com Lula quem iria para o segundo turno em 1989 contra Collor e morreu acreditando que houve uma manobra para colocar o líder operário no segundo turno em seu lugar. Dizia que, para Collor, seria mais fácil derrotar Lula do que ele. Hoje, o candidato que Lula prefere num segundo turno é, sem dúvida, Flávio, o mais frágil dos três, tanto do ponto de vista histórico quanto da capacidade retórica para vencer um debate. A inexperiência de Flávio na gestão pública fica evidente diante do currículo dos ex-governadores Caiado e Zema.

Caso perca, Flávio vai respeitar o resultado? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Agora é o filho mais velho de Bolsonaro que considera se deve ou não embarcar no trem da ruptura

A ascensão do pai ao topo da política nacional teve o ataque às instituições como projeto central

Quando uma estratégia já deu espetacularmente errado duas vezes, por que não tentar uma terceira? Esse deve ser o raciocínio que Flávio tem contemplado agora que flerta com a negação do resultado das urnas.

Vamos recapitular. Jair Bolsonaro governou sob o signo da ruptura contra o Supremo e contra o sistema eleitoral. Conforme as investigações na esteira do 8 de Janeiro mostraram, ele tentou interferir nas eleições bloqueando eleitores e, uma vez derrotado, sentou-se com generais do alto comando para persuadi-los a bancar um golpe que impediria a passagem do poder. Também apoiou uma massa de fanatizados que terminariam por invadir os três Poderes. Discussões do julgamento à parte, o resultado para Bolsonaro foi desastroso: 27 anos de prisão.

O show de Milei, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques de presidente argentino a Lula e Moraes são despropositados e desafiam lógica

Chefes de Estado deveriam abster-se de interferir em processos eleitorais de outros países

As diatribes de Javier Milei contra Lula e Alexandre de Moraes são tão despropositadas que é difícil até colocá-las sob uma moldura racional. Representam o triunfo do ego do presidente platino sobre os interesses de seu próprio país.

Não convém à Argentina criar arestas com um de seus principais parceiros comerciais. O Brasil absorve de 15% a 20% das exportações totais do país vizinho, que fica com 5% das exportações brasileiras.

Denúncias não derrubam Flávio, mas afastam pastores e eleitoras indecisas, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Candidato bolsonarista não empolga evangélicos e PT disputa massa pentecostal em igrejas

Pastores influentes evitam defender senador publicamente para proteger suas igrejas

Se depender do eleitor evangélico, a campanha de Flávio Bolsonaro, do PL, sairá cambaleante, mas de pé, de qualquer denúncia que apareça —seja a foto dele com o Sicário, matador de aluguel a serviço de Vorcaro, seja o suposto vídeo do senador nas festas do ex-banqueiro.

O vídeo nas festas ainda não foi vazado, mas sua existência foi confirmada pelo deputado Kim Kataguiri, da Missão, partido que lançou Renan Santos como concorrente de Flávio na direita.

A real ou fictícia importância do vice, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Dois impeachments e a morte de Tancredo contribuíram para renovar o papel do substituto constitucional

Hoje talvez fosse o caso de retomar a discussão sobre a utilidade do posto na era da comunicação instantânea

Houve um tempo, e não faz muito, em que a figura do vice-presidente passou a ser vista como inútil para o bom andamento dos trabalhos da República. Chegou-se até a cogitar a extinção do posto. Foi antes da carta do então vice Michel Temer (MDB) à presidente Dilma Rousseff (PT) dizendo que se sentia uma peça decorativa na fila do pão palaciano. Naquela altura, a discussão já estava esvaziada, como outras que ficaram pelo caminho.

Livro sobre casas machadianas debate o patrimônio do Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo  

Moradias do escritor no centro histórico precisam de reforma urgente

Há placas comemorativas instaladas pela prefeitura em imóveis errados

Numa passagem das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o defunto autor, perambulando e filosofando, vai dar à porta do Pharoux, primeiro hotel de luxo estabelecido no Brasil, em 1838, famoso pela gastronomia e pelos vinhos franceses. Descobre-se com fome: "Não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas!".

O hotel Pharoux ficava no largo do Paço, hoje praça 15. Para Machado de Assis, tudo na geografia do Rio de Janeiro de sua época tinha um significado íntimo, que moldou sua sensibilidade artística. Orgulhava-se de ter nascido na cidade, de ter morado nela a vida inteira —em 69 anos, o lugar mais distante em que esteve foi Barbacena (MG), com idas esporádicas a Nova Friburgo (RJ)— e de ter feito dela um personagem de sua obra. Como a Paris de Balzac ou a Londres de Dickens.

Ogun, por Ivan Alves Filho*

Aqui vai uma lembrança ainda, que talvez ilustre de uma forma praticamente definitiva o que tenho escrito a respeito do papel da negociação na transformação social, diferente tanto da via revolucionária, que coloca o Estado abaixo, quanto da conciliação, que nada muda.

Poesia | Quero, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Lorena Mendes - O Mundo é um Moinho (Cartola) |

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gravações em presídios para combater as facções

Por Folha de S. Paulo

Dispositivo legal que permite monitoramento de conversas de presos é medida essencial em segurança pública

A Lei Antifacção autoriza a gravação de conversas entre detentos vinculados a facções, grupos paramilitares ou milícias e seus visitantes

A expansão do crime organizado no Brasil é indissociável do controle que esses grupos exercem nos presídios, inclusive comandando, de dentro dessas instalações, atividades ilícitas externas.

Assim, realizar grandes operações policiais e prender infratores, mesmos os líderes desses grupos, não é suficiente. A inteligência investigativa passa a ser ainda mais importante.

A Lei Antifacção, aprovada em fevereiro, avança nesse sentido com dispositivos que permitem a gravação de conversas entre presos "vinculados a organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares ou milícias privadas e os seus visitantes". O monitoramento pode ser requerido pelo delegado de polícia, pelo Ministério Público ou pela administração penitenciária.

Na eleição, dinheiro chama dinheiro, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Neutralidade do Centrão na disputa presidencial tem também motivação financeira

A semana passada foi marcada pela negativa do Centrão em apoiar a empreitada de Flávio Bolsonaro rumo ao Palácio do Planalto. No lançamento de sua candidatura no sábado, nenhum presidente dos partidos cortejados pelo filho Zero Um compareceu: nem Republicanos, União Brasil ou Progressistas.

Essas legendas justificam a opção pela neutralidade com o desejo de liberdade para negociar individualmente os palanques em cada Estado. Sem celebrar um casamento formal com Flávio Bolsonaro, elas ficam livres para até mesmo dar e receber apoio lulista em algumas circunscrições.

Do outro lado do espectro ideológico, pela primeira vez desde a redemocratização teremos provavelmente um único candidato à Presidência no campo da esquerda - o que abre até a possibilidade matemática de uma vitória de Lula no primeiro turno.

Entrevista | Wellington Dias: "Tirar da fome não é o fim, é só o primeiro passo", por Fernanda Strickland e Rafaela Gonçalves

Correio Braziliense

Ministro rebate ataques ao Bolsa Família, destaca os resultados da política de transferência de renda e afirma que o programa contribuiu para manter o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio seguido, conforme relatório da FAO

Alvo recorrente de críticas nas redes sociais, sobretudo em ano eleitoral, o Bolsa Família é a porta de entrada para uma trajetória de ascensão social, rebate o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. "Estou falando de pessoas com quem a sociedade falhou", diz ele, que viveu a insegurança alimentar na infância no interior do Piauí.

Segundo o ministro, das 28 milhões de famílias que chegaram a receber o benefício, 9 milhões já saíram do programa por terem melhorado de vida — parte do contingente de 21 milhões de pessoas que ascenderam socialmente no país desde 2023.

Em entrevista ao Correio, Dias comentou o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês), que confirma o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio consecutivo (2023-2025), com a insegurança alimentar severa recuando de 9% para 0,6% da população.

Mesmo com guerras, tarifas comerciais e mudanças climáticas pressionando os preços dos alimentos, o ministro afirma que a transferência de renda, o controle da inflação e a geração de empregos explicam o resultado. Ele também abordou a modernização do Cadastro Único, que passou a cruzar 1,7 petabyte de dados para identificar fraudes. 

Confira os principais trechos:

BTG/Nexus: Dentro da margem de erro, Lula amplia vantagem no 1º e 2º turno, por Luiz Felipe

Correio Braziliense

No 2º turno, Lula abre 4pp contra Flávio, mas vê Ronaldo Caiado crescer e também entrar em empate técnico

Os dados da 7ª rodada da pesquisa eleitoral para presidente da República divulgada pela BTG/Nexus nesta segunda-feira (27/07) apresenta um cenário de estabilidade, com o presidente Lula (PT) mantendo uma vantagem discreta, porém crescente, sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tanto no primeiro quanto no segundo turno.  

Na simulação de 1º turno, Lula lidera a corrida com 42% das intenções de voto, seguido por Flávio, que registra 33%. Na esteira, aparece Ronaldo Caiado (PSD), com 6%, seguido por Renan Santos (Missão) com 5%, Romeu Zema (Novo) com 3%, Augusto Cury (Avante) com 2% e Cabo Daciolo (Mobiliza) com 1%. Os eleitores que declaram voto em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos somam 6%, enquanto 2% não souberam ou não responderam

O povo está fora do Congresso, por Miguel de Almeida

O Globo

Políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.