quinta-feira, 2 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Justiça tem de deter roubo de conteúdo por robôs de IA

Por O Globo

Quase 400 jornais americanos abrem processo contra OpenAI por violação de direitos autorais

Editoras de quase 400 jornais e sites em 33 estados americanos abriram processo contra a OpenAI, criadora do ChatGPT, e sua parceira Microsoft pelo uso, sem autorização, de conteúdo protegido por direito autoral no desenvolvimento de seus modelos de inteligência artificial (IA). Na ação, as editoras afirmam que o empreendimento altamente lucrativo da IA cometeu “violação desenfreada” de direitos autorais. “A Microsoft e a OpenAI criaram e distribuíram reproduções das obras” ao usar tais conteúdos “para treinar seus grandes modelos de linguagem” e ao implantar produtos novos. O processo pede uma compensação financeira proporcional ao tamanho do roubo e solicita que a decisão seja tomada por um júri.

O cálculo de Michelle na mira do gabinete do ódio, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ex-primeira-dama investe em imagem de liderança que foi além do sobrenome e cavou seu próprio espaço

Ao repudiar, num jogo combinado, o libelo medieval de Paulo Figueiredo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marchou para preservar alguma chance numa disputa em que o voto das mulheres predomina. A dúvida é se será suficiente. Não apenas para destronar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também para evitar a fagocitose do espólio bolsonarista.

Desde 2018, o bolsonarismo tornou-se o vetor da direita. O que Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama estão a fazer é a fratura não apenas deste campo mas do próprio bolsonarismo. Superaram as desavenças do pós-lulismo com o esgarçamento antecipado do pós-bolsonarismo. E, como é do seu feitio, pelas redes sociais.

A campanha em movimento, por Míriam Leitão

O Globo

A crise do PL se aprofunda, a briga dos Bolsonaro escala, e as ofensas às mulheres pioram tudo. PSD tenta virar opção e Lula pode ser beneficiado pelo fim da guerra

A escolha do PSD de fazer uma chapa puro-sangue, com o presidente do partido Gilberto Kassab como candidato a vice de Ronaldo Caiado, se deve principalmente à falta de opção. Eles tentaram atrair o PP e o União Brasil e não foi possível. Informações do próprio PSD são de que ouviram nos dois partidos que a tendência seria o apoio ao presidente Lula. A legenda vê a pré-campanha de Flávio Bolsonaro em apuros, avalia que a crise vai se aprofundar e que, portanto, há a possibilidade de crescimento de candidatura alternativa da direita. A aposta continua sendo no prestígio de Ronaldo Caiado como gestor, atestado pelos altos índices de aprovação.

Sua senhoria, os fatos, por Merval Pereira

O Globo

O pré-candidato do PSD, ex-governador Ronaldo Caiado, aguarda os possíveis erros da candidatura do PL para ver se consegue reverter sua situação na corrida presidencial

A crise familiar dos Bolsonaros pode ter desdobramentos na campanha eleitoral para a Presidência da República. O prazo para registro das candidaturas termina em 5 de agosto, e até lá os partidos podem mudar seus pré-candidatos. Há quem desconfie de que o ex-presidente Jair Bolsonaro não esteja totalmente alheio aos movimentos de sua esposa, Michelle, e de que ela não teria gravado sem aquiescência dele aquele vídeo em que praticamente rompe com a candidatura de seu enteado Flávio.

Embora à primeira vista pareça quase impossível que o pai abandone o filho por causa da madrasta, os ventos políticos podem fazer com que a candidatura de Flávio se inviabilize. Pelo menos é o que parece esperar Michelle. O temor, ou desconfiança, de que surgirão novos fatos contra Flávio domina parte do grupo bolsonarista, e a insegurança é grande no seu entorno. As próximas pesquisas podem indicar um caminho novo ou confirmar a candidatura de Flávio, caso os escândalos recentes não o tenham ferido de morte.

Galego tinha razão, por Julia Duailibi

Por O Globo

Demissão do amigo Galego ocorre como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise

O presidente Lula fez ontem um elogio ao senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do seu governo no Senado. Em viagem à Bahia, Lula o chamou de irmão, o abraçou e posou no palanque a seu lado, uma semana depois de ele deixar o posto. Com seu gesto, o presidente mostrou o que realmente acha das denúncias apresentadas pela Polícia Federal, envolvendo os favores prestados a Wagner por um empresário que manteve conexões com o Master: uma grande bobagem.

A nova guerra santa, por Ruy Castro*

Folha de S. Paulo

Michelle e Fernanda Bolsonaro brigam à base de capítulos e versículos da Bíblia

Resta saber se Flávio Bolsonaro sobreviveria a uma sabatina por pastores com Ph.D

É uma guerra santa, em que as contendoras, cada qual com uma Bíblia como munição, disputam o monopólio da Verdade. As armas são os capítulos e versículos de autoria dos influencers apostólicos. O campo de batalha, os bazares e covis das redes sociais. Em combustão, o ódio embutido em palavras como "amor", "alegria" e "mansidão". Por trás das duas generalas, exércitos de fiéis equipados com as novas tábulas, os smartphones, despejando insultos nada evangélicos contra uma ou outra. O botim, algo nunca previsto nas Escrituras: uma candidatura à Presidência do Brasil.

A soberania nacional se decide na Amazônia, por Maria Hermínia*

Folha de S. Paulo

Região transformou-se em crise de segurança e de governança

Crime organizado transnacional é grande ameaça

O presidente Lula prometeu incluir a questão da defesa nacional em seu programa de governo. O compromisso público ocorreu na sexta-feira (26), no batismo de uma fragata que faz parte do principal projeto de renovação do poder naval brasileiro. Segundo Lula, a nova embarcação, mais do que um navio, exprime "um país que vai assumir, de fato e de direito, o direito de ser soberano".

Se ele se reeleger e se a defesa da soberania nacional for mais do que uma oportuna proposta de campanha para enfrentar o bolsonarismo, a centro-esquerda terá um encontro marcado com a amazônia.

Trump inicia combate à lavagem de dinheiro do PCC nos EUA, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ação permanece circunscrita à jurisdição norte-americana e ao combate à lavagem de dinheiro no plano jurídico. Entretanto, seu significado político é muito maior

A decisão de o governo Donald Trump classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras deixou de ser uma declaração política para se transformar em efetiva ação de Estado. As sanções anunciadas nesta semana pelo Departamento do Tesouro contra brasileiros e empresas acusados de integrar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC representam um novo patamar na nova estratégia americana ao combate ao narcotráfico.

Ontem, foram sancionados os brasileiros Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, bem como as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda; Wave Construções Inteligentes Ltda; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal) — todos acusados de movimentar de recursos provenientes do narcotráfico dentro do sistema financeiro americano.

O céu é o limite para os americanos, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Primeiras sanções contra brasileiros e três empresas sediadas em São Paulo suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC indicam que vem mais pressão por aí

É fácil prever que esse primeiro movimento dos americanos é só o começo, e tudo indica que vai acabar chegando indiretamente nos envolvidos no escândalo do Master

O governo Donald Trump não perdeu tempo. Um mês depois de os Estados Unidos decidirem classificar o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas, os americanos anunciaram as primeiras sanções contra brasileiros e três empresas sediadas em São Paulo suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para a facção paulista.

A aplicação das sanções nesta quarta-feira (1º) indicou não só que o governo dos EUA tem acesso a informações detalhadas do esquema das empresas envolvidas para ocultar a origem dos recursos ilícitos e escapar da fiscalização, como sinalizou também que eles podem estar sendo abastecidos de informações repassadas diretamente por brasileiros envolvidos nas investigações.

O pastor que escondia dinheiro no armário e os escândalos na gaveta do bolsonarismo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas

Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada

Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.

Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.

O silêncio de araque, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O tempo está ficando curto para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro

Na fotografia do momento não há boas notícias para a candidatura de Flávio Bolsonaro, a não ser que se considere boa notícia o fato de não ter aumentado ainda mais sua desvantagem em relação a Lula. O que os números mais recentes das pesquisas parecem demonstrar é que o “piso” da candidatura está virando “teto”.

Já era preocupante a convergência de pesquisas indicando que outros nomes de oposição fariam tão bonito (ou tão feio, como se quiser) como Flávio caso alcançassem um segundo turno. Muito pior é constatar, segundo a AtlasIntel, que outros nomes no lugar de Lula na cédula (Haddad ou Alckmin) levariam vantagem sobre o ungido por Jair Bolsonaro.

Urnas vão julgar políticos antes do STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Eleitores, e não a nata do Judiciário, vão decidir primeiro quem do caso Master deve ser punido

As urnas vão definir, antes do Supremo Tribunal Federal (STF), quem são os culpados e os inocentes no escândalo do Banco Master. A Polícia Federal poderá concluir a investigação sobre o esquema de Daniel Vorcaro antes de outubro. O ritmo das apurações será mais ágil após a rejeição de duas propostas de delação premiada do ex-banqueiro, com expectativa de acontecer o mesmo com a terceira tentativa.

Ainda assim, não haverá tempo hábil para a Corte encerrar o processo judicial até lá. Finalizada a parte da PF, caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentar ou não denúncias ao Supremo contra os eventuais indiciados. Nos bastidores, a expectativa é de que Paulo Gonet não tenha pressa para fazer isso, especialmente no meio do processo eleitoral.

A súmula vinculante da responsabilidade fiscal, por Felipe Salto*

O Estado de S. Paulo

A súmula da responsabilidade fiscal vai silenciar Ulisses ou, ao menos, reforçar os nós das cordas do zelo pelo dinheiro público

Nas democracias consolidadas, as mudanças são quase sempre incrementais. As propostas precisam amadurecer para a construção de consensos, dos quais surgem as inovações legais e constitucionais. A atuação do Estado melhora e, no limite, a coletividade se beneficia. No caso da responsabilidade fiscal, não é diferente.

A Proposta de Súmula Vinculante n.º 150, de autoria do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), “visa a consolidar o entendimento do tribunal sobre projetos de lei que criem despesas obrigatórias ou envolvam renúncia de receita”, conforme o site do STF. Se aprovada por dois terços dos seus membros, o País conseguirá aprimorar fortemente o modus operandi dos poderes públicos.

Poesia | Ode a 2 de Julho, de Castro Alves

 

Música | Hino do Estado da Bahia

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Em afã eleitoreiro, Lula lança álcool no incêndio fiscal

Por O Globo

Ao acelerar gastos, governo se torna responsável pelo patamar sufocante dos juros, que incentiva inadimplência

A menos de uma semana do início do período de silêncio imposto pelo calendário eleitoral — em que o presidente fica impedido de comparecer a inaugurações ou eventos, e a publicidade institucional é suspensa —, Luiz Inácio Lula da Silva pisou no acelerador das “bondades” eleitoreiras e tem gastado em propaganda como se não houvesse amanhã.

Depois da isenção do Imposto de Renda, do fim da “taxa das blusinhas”, do crédito barato para caminhoneiros, motoristas de aplicativo e táxi, da extensão do Minha Casa, Minha Vida à classe média, de benesses a setores variados — de companhias aéreas a agricultores — e do alívio a dívidas de famílias e pequenas empresas, o frenesi eleitoreiro continuou nesta semana com benefícios a quem paga dívidas em dia, crédito estudantil subsidiado e liberação do FGTS como garantia para quem toma empréstimos consignados.

Cenários da caserna em caso de vitória de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que Flávio Bolsonaro apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se

Há uma inquietação na caserna quanto ao futuro do Ministério da Defesa em um eventual governo Lula 4.

Sim, há muito jogo pela frente até a eleição. E o “imponderável” tem mantido presença nas eleições presidenciais brasileiras, com a ocorrência de eventos de grande magnitude que mudam os rumos da campanha. Mas entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se.

Como consequência, embora possa parecer precoce, militares, investidores e políticos que pretendem estar no próximo governo de qualquer maneira passaram a produzir o que sabem fazer muito bem: cenários.

Temporada de busca do vice ideal começa com dobradinha Caiado e Kassab, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Riscos jurídicos e passivos podem transformar a peça que deveria agregar em problema: investigações, processos ou escândalos potencializam a necessidade de substituição do vice

A escolha do vice tem se revelado um dos nós mais espinhosos da atual pré-campanha, porque combina necessidades de costura partidária, cálculo eleitoral e gestão de riscos. Hoje, quem sai na frente é Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD, com a indicação de Gilberto Kassab como vice. A antecipação da decisão tem muito a ver com as dificuldades enfrentadas pelo ex-governador de Goiás, cuja campanha está estagnada.

A entrada de Kassab na chapa, tudo indica, tem por objetivo evitar a cristianização de Caiado, que enfrenta dificuldades internas no PSD para unificar a legenda e mobilizar a máquina partidária. Caiado oscila em torno de 3% nas pesquisas e precisa alavancar sua candidatura, cujo patrono é Kassab, depois da desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior, e do fato de ter sido descartado o nome de Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul, que poderia atrair para vice um nome do PSDB.

Flávio tem força, na Casa Branca, por Elio Gaspari

O Globo

Um novo anti, o antibolsonarismo

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.

Flávio Bolsonaro trata Brasil como uma peça a mais no mapa da ultradireita, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidato do PL vai à Argentina bajular Milei e promete 'equipe de transição' a Trump

Em visita à Argentina, Flávio Bolsonaro festejou as eleições recentes que redesenharam o mapa político das Américas. O senador enumerou 13 países que dobraram à direita nos últimos anos, dos Estados Unidos de Donald Trump à Colômbia de Abelardo de la Espriella.

“Nós somos a peça que falta nesse mapa”, disse, em evento promovido no domingo por uma entidade pró-Israel em Buenos Aires. “O Brasil será o próximo”, prometeu.

Todo mundo tem sua pauta-bomba, por Vera Magalhães

O Globo

Congresso concentra projetos que aumentam gastos, mas governo e STF não ficam atrás ao promover benesses com dinheiro público

Os olhos da imprensa e da sociedade estão, com razão, postos sobre a pauta-bomba que se avoluma no Congresso. Mas senadores e deputados estão longe de ser os únicos que resolveram abrir a torneira do gasto público como se não houvesse o dia de amanhã depois das eleições de outubro.

O governo pode se fazer de alarmado com os projetos recém-aprovados ou na pauta do Senado e da Câmara, mas foi Lula quem primeiro lançou mão de medidas eleitoreiras (e custosas) para aumentar suas chances eleitorais no momento em que as pesquisas lhe eram mais desfavoráveis, no ano passado e neste semestre. Também pisou no acelerador no volume e nos valores da propaganda oficial, principalmente nestes últimos dias antes do defeso, período em que a lei eleitoral veda esse tipo de gasto indiscriminado.

Terremoto inspirou filósofos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Voltaire, Rousseau e Kant fizeram reflexões sobre o grande tremor de Lisboa de 1755

Os dois últimos deslocaram a discussão do campo da teologia para o da ação e entendimento humanos

Espíritos práticos gostam de recriminar a filosofia pelo que seria um excesso de abstração. Reflexões filosóficas podem por vezes se tornar bem metafísicas, mas o caráter altamente especulativo da filosofia pode paradoxalmente transformá-la em precursora de ciências aplicadas. Um único e improvável evento, o grande terremoto de Lisboa, de 1755, conferiu a Rousseau e Kant o papel de fundadores espirituais de dois ramos da ciência moderna, a sociologia dos desastres e a sismologia.

Os penduricalhos, os diamantes e os rolos do governo do Brasil são eternos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Supremo dá uma relaxada em regras de pagamentos acima do teto salarial dos servidores

Em suma, assunto depende do Congresso, que ajuda a piorar problemas fundamentais

O Supremo deu uma relaxada na regra já meio relaxada de limitação dos ditos penduricalhos, pagamentos que levam o salário de servidores a superar o teto constitucional de R$ 46.366,19 mensais, brutos. Para resumir um assunto que poderia tomar páginas de detalhes, o STF como que aceitou alguns direitos adquiridos, por assim dizer. No mais, vale a regra de março de 2026 que pode permitir pagamentos extras de até 70% acima do valor do teto. Parte disso se deve, em tese, a indenizações (diárias, férias não gozadas, plantões, acumulação de funções, enfim, uma lista longa e confusa), e parte ao adicional por tempo de serviço.

As duas faces do bolsonarismo, por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Michelle disputa o controle da autenticidade do movimento

Os filhos flexibilizam alianças para ampliar chances eleitorais

Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.

Fé conservadora, socialista e liberal, por Deirdre Nansen McCloskey*

Folha de S. Paulo

O protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente

A postura mais cristã que se pode adotar é a de um liberal básico, um defensor da igualdade e da liberdade, tanto na religião quanto no resto da vida

Ao protestantismo também pode ser altamente conservador, como são muitos evangélicos atualmente religião e a política se alinham de maneiras inesperadas.

O catolicismo, por exemplo, é frequentemente conservador —como ocorreu na Irlanda desde a época do primeiro cardeal irlandês, Paul Cullen (1803–1878), e como já era na Espanha, tornando-se ainda mais durante o regime do general Franco. Mas nem sempre é assim: basta olhar para os teólogos da libertação na América Latina ou, de maneira mais geral, para os cristãos que levam a sério a resposta de Jesus ao jovem rico que perguntou como poderia alcançar o Reino dos Céus: venda todos os seus bens, dê o dinheiro aos pobres e siga-me.

Descanso e dignidade, do campo à cidade*

Correio Braziliense

A eliminação da jornada 6x1 tem de valer também para os milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais que fazem do Brasil um dos maiores celeiros do mundo

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força ao expor a compressão do tempo de vida imposta por jornadas extensas e descanso insuficiente. Impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), essa mobilização partiu das redes sociais para as ruas, reativando um debate clássico sobre a apropriação do tempo e a dignidade do trabalhador frente às demandas do capital. Mobilizou principalmente as cidades, mas agora precisa alcançar com a mesma centralidade o trabalho no campo.

A produção rural brasileira depende de uma força de trabalho numerosa, mal protegida e, com frequência, invisibilizada. São cerca de 3,6 milhões de trabalhadores rurais assalariados, dos quais apenas 40% têm carteira assinada. A informalidade, nesse caso, não é condição lateral: ela estrutura a relação entre empregadores e trabalhadores no meio rural, dificultando o controle da jornada, o acesso à previdência, a proteção em acidentes e o direito efetivo ao descanso.

Mãos e olhar que salvam, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

É impossível olhar para uma das maiores tragédias a golpear a América do Sul e não sentir empatia pelos venezuelanos.

Imagine estar em casa e ser surpreendido por dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9). Você e sua família conseguem sair pouco antes de seu lar desabar, levando não apenas os bens materiais, mas também sonhos, planos e memórias. De repente, você está na rua, sem comida, sem dinheiro e sem saber como refazer sua vida. Ainda assim, sente-se sortudo demais: seus vizinhos morreram, alguns amigos estão desaparecidos e você ainda consegue abraçar e beijar sua esposa/marido e seus filhos. Agora, tudo o que mais deseja é ajudar e ser ajudado.

A retórica inflada da liberdade de expressão, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

O problema da ideia de uma liberdade sem limites não é conceder muita liberdade. Trata-se de uma defesa frágil e estéril

Nunca falamos tanto de liberdade de expressão no Brasil como agora, mas essa conversa não tem gerado os efeitos esperados: uma compreensão minimamente funcional da liberdade de expressão, própria e alheia; uma proteção mais efetiva da liberdade. Abaixo, três aspectos do debate atual.

O uso retórico do termo censura. Sim, todos concordamos que a Constituição proíbe a censura. Mas o que é a censura?

Caso 1. Demitido de um jornal após escrever uma coluna, um jornalista afirma em rede social que foi censurado.

Caso 2. Depois de compartilhar em rede social dados manifestamente falsos sobre as urnas eletrônicas, um cidadão tem seu perfil bloqueado por ordem judicial. Noutra rede social, afirma ter sofrido censura.

Caso 3. Uma ordem judicial suspende a divulgação de pesquisa de intenções de voto, sob o fundamento de que o questionário induzia as respostas. Diversas vozes denunciam a ocorrência de censura.

O Supremo e a falta de limites, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques disse que a magistratura passa dificuldades e quis fim dos limites dos penduricalhos

Em meio ao julgamento que afrouxou as regras dos penduricalhos a magistrados e procuradores, quatro ministros do Supremo Tribunal Federal queriam, ao contrário de outros seis colegas, que não houvesse limites para o pagamento das verbas indenizatórias reconhecidas e validadas pelos conselhos da Justiça e do Ministério Público.

Quem abriu essa divergência foi Luiz Fux, que se disse contrário ao estabelecimento do limite de 35% além do teto para as verbas adicionais ao salário. Além disso, os ministros autorizaram o pagamento de uma gratificação de 5% a cada cinco anos de serviço. Essa regra, somada aos penduricalhos, garante a quem está no topo da carreira um salário de R$ 78 mil. Mas Fux queria mais. Assim como os ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques. Este último defendeu até o pagamento de auxílio-creche aos doutores.

A metade amarga de 2026, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Apesar das eleições no Brasil, maior risco para o 2.º semestre está na política monetária nos EUA

Há três grandes riscos para o segundo semestre de 2026 que ora começa. De um lado, duas eleições: a de “midterms” nos Estados Unidos (de meio de mandato para renovação do Congresso) e a presidencial no Brasil. De outro, a probabilidade de o Federal Reserve iniciar um ciclo de alta dos juros americanos. A depender do desfecho de cada um desses riscos, o ano pode terminar com um ambiente de elevada volatilidade e de estresse nos mercados globais.

Poesia | Pus o meu sonho num navio, de Cecília Meireles

 

Música | Chico Buarque & Milton Nascimento - Cálice

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF piora regra que já era ruim para ‘penduricalhos’

Por O Globo

Congresso tem obrigação de corrigir distorções criadas pela Corte, em especial o novo quinquênio

A última decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os “penduricalhos” deveria tirar o Congresso da letargia. Era esperado que a Corte moralizasse os abusos. O que se viu foi frustração. Em março, o Supremo criou por unanimidade um novo teto para a remuneração da elite do serviço público. Definiu que as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores poderiam exceder em até 70% o valor estipulado na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF). Eliminou os “penduricalhos” mais escandalosos, mas permitiu que até metade do excesso de 70% possa ser concedida na forma de aumentos salariais automáticos a cada cinco anos — o quinquênio, extinto pelo Congresso há 20 anos. Não tem justificativa nem cabimento.

Em meio à Copa do Mundo, Lula e Flávio absorvem desgastes com aliados, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Militantes-raiz fazem a blindagem tanto do presidente quanto do candidato de oposição nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva absorveu o desgaste provocado pelo envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no caso Master, enquanto seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RR), administrou a crise com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que havia gravado um vídeo se dizendo desrespeitada e humilhada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro. Talvez porque tenham se posicionado corretamente para estancar a crise, talvez porque o foco de atenção dos eleitores tenha se deslocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

É o que mostra a pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nessa segunda-feira: ambos atravessaram as últimas semanas sob intenso desgaste político, mas nenhum deles sofreu abalo eleitoral significativo. Ao contrário, os números indicam que ambos permanecem sustentados por bases eleitorais altamente consolidadas, tornando a disputa cada vez mais dependente da conquista do eleitorado moderado e da transferência dos votos dos candidatos hoje situados na chamada terceira via.

Lógica do 2º prejudica lulismo na disputa pelo Senado, por César Felício

Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Michelle traz à tona fenda que põe em xeque o bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca

O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante para o bolsonarismo.

Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade, são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).

O reino dividido, por Thomas Traumann

O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Clarice Herzog, a heroína da memória, por Míriam Leitão

O Globo

Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos

Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona Zora, chegar para o enterro do filho único.

Em causa própria, por Merval Pereira

O Globo

Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

O caso dos penduricalhos do Judiciário é exemplar de como não é possível ter credibilidade diante da opinião pública se mudamos de posição a cada pressão recebida, especialmente quando essa pressão vem da própria corporação. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino tem se destacado por decisões que tocam em feridas abertas em nossa vida institucional, como as emendas parlamentares ou os penduricalhos. Parecia à opinião pública um ministro independente de panelinhas, mas, à medida que o tempo passa, mais e mais ele vai se inserindo no grupo capitaneado pelo decano Gilmar Mendes.

A decisão de “flexibilizar” sua decisão inicial que restringia duramente os penduricalhos do Judiciário vem com uma pitada de corporativismo. Quatro dos ministros do Supremo votaram em conjunto, inclusive o próprio Dino, contra sua decisão anterior. Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

Reflexos da Copa no jogo eleitoral, por Fernando Gabeira

O Globo

Estamos cercados por um clima de guerra, pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.