Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
terça-feira, 27 de outubro de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões
Flávio precisa reconhecer que perdeu eleição
Por O Globo
Ante resultado incontestável das urnas,
senador sairia mais forte se admitisse que nada há a contestar
O resultado da eleição de domingo é incontestável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,8% a 48,2% dos votos válidos, diferença superior a 4,4 milhões de votos. Ainda assim, a exemplo do que fez Jair Bolsonaro em 2022, Flávio não reconheceu a derrota. “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, afirmou na noite de domingo, em seu primeiro pronunciamento depois da divulgação dos números pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ora, o próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, veio a público reafirmar a lisura do pleito e confirmou a vitória de Lula. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, afirmou. A recusa em aceitar o resultado das urnas viola o princípio mais básico de qualquer democracia.
O movimento que venceu a eleição, por Míriam Leitão
O Globo
A avalanche que entregou 10 milhões de votos
a mais a Lula foi a verdadeira frente ampla. Não a dos partidos, mas a das ruas
e das redes sociais
Foi épico e educativo. Nunca se viu uma
vitória eleitoral assim. A estratégia do segundo turno não nasceu no comitê de
campanha do presidente Lula.
Brotou nas ruas. Um movimento espontâneo de estudantes em Niterói, que se
espalhou pelo país, comandado por jovens nascidos digitais. Terminou sendo
confirmado pelos mais velhos, que foram votar, muitos levados por seus netos. A
reeleição de Lula tem muito a ensinar sobre tendências, política, comunicação,
sociologia.
Na economia, no primeiro dia, o mercado desabou como era de se esperar. E aí não há mistério. Os operadores estavam com posições montadas para o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro. O desmonte está sendo tão grande quanto a aposta. Durante alguns dias, o mercado continuará assim em queda, depois a volatilidade diminuirá naturalmente, mas deve impactar, por exemplo, os próximos boletins Focus, que refletem as expectativas dos gestores do dinheiro. Seria prudente reduzir incertezas fiscais e econômicas. De fato, existem e precisam ser enfrentadas, com esclarecimento sobre o futuro das contas públicas. Se o dólar ficar em alta por muito tempo, eleva a inflação, a queda das bolsas fragiliza empresas, a instabilidade financeira pode ter consequências adversas e aleatórias.
Virada histórica terá impacto nos próximos anos, por Fernando Gabeira
O Globo
A direita poderá se libertar da liderança dos
Bolsonaros, o que não significa que eles desaparecerão. Só ocuparão lugar mais
modesto
Ainda é cedo para muitas conclusões. A
extraordinária mobilização popular que tirou Lula
de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no
segundo certamente não será esquecida.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Sonho democrático, por Merval Pereira
O Globo
O país deu uma demonstração de que não quer
mais a visão autoritária de governo de Bolsonaro. É um bom sinal.
O que saiu vencedor anteontem foi a rejeição à volta ao poder do extremismo de direita, mais que a preferência pelo petismo ou pela esquerda. Não se tratou de ser a favor de Lula, mas contra os Bolsonaros. Os jovens que saíram às ruas buscavam a figura original de Lula, criada pela imaginação da maioria que nem o viu chegar ao poder em 2002, mas herdou a memória da saga do operário que veio de baixo e chegou ao Palácio do Planalto defendendo valores humanísticos e morais que haviam se perdido na luta da velha política contra o novo que chegava.
Um novo Brasil, por Pedro Doria
O Globo
Pela primeira vez em muito tempo, houve um
embate político público entre duas grandes ideias de Brasil
Como definimos democracia? Existem dois caminhos. Quando olhamos de cima para baixo, o regime é feito de suas instituições. Os três Poderes operando em sintonia, nenhum ator que abuse da autoridade que tem. Impessoalidade. Por esse ângulo, o Brasil vai mal. Mas há outro jeito de ver, de baixo para cima. Não a democracia dos Poderes, mas a do povo. Uma sociedade engajada, atuante. Atenta. Ciente de que o regime depende dela. Não uma sociedade que diga — “isto é com eles, cuido só do meu”. O contrário. Uma sociedade dedicada ao trabalho comum de construir em conjunto a nação. Vista assim, do chão, da rua, talvez o Brasil esteja bem melhor do que nos habituamos a enxergar. Existe uma saída para nossa crise. Mas nossos líderes a reconhecerão?
Conquista do 4º mandato liberta Lula do ressentimento, por Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico
Foi a descoberta de que poderia falar diretamente com o eleitor para romper com a divisão do país que o libertou
Passados quase sete anos desde que deixou a
carceragem da Polícia Federal em Curitiba, só agora, ao conquistar seu quarto
mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter se libertado daquele
cubículo de 15 metros quadrados em que passou 580 dias.
Muitos dos problemas que se acumularam em sua volta ao poder em 2022 tiveram como motor a percepção, equivocada, de que havia sido redimido de sua prisão quando, na verdade, foi usado de escudo contra o bolsonarismo. A montagem do governo e, principalmente, da equipe palaciana, refletiu um presidente mais ressabiado que se fiou, sobretudo, na relação de confiança pessoal com seus indicados que lhe traziam sua leitura do país em sua nova prisão, os palácios do poder.
Alckmin ganha protagonismo dentro do governo, por Andréa Jubé
Valor Econômico
Vice-presidente emergiu como cotado para o
Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo
Com sua relevância reconhecida tardiamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) terá mais protagonismo no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual se espera que a frente ampla que, novamente, foi decisiva para a vitória petista, tenha mais espaço e voz no governo. Após o empenho no segundo turno, que ampliou a votação da chapa, Alckmin emergiu como cotado para o Ministério da Fazenda, com o apoio de lideranças do PSB e de alas do governo.
Reeleição, boa hora para ajustar o programa industrial, por Pedro Cafardo
Valor Econômico
Estudo mostra que programas para
desenvolvimento da indústria no país contribuíram positivamente, mas foram
limitados pelo regime macroeconômico
Por que falharam programas para
industrializar o país? Como dar continuidade ao NIB (Nova Indústria Brasil)?
Depois do resultado da eleição de domingo, essas perguntas já deveriam tirar o
sono de postulantes a cargos na área econômica do governo Lula 4.
Bom começo seria a leitura de um robusto
trabalho acadêmico feito por quatro economistas brasileiros que estudaram o
insucesso dos programas industriais lançados depois das reformas liberalizantes
dos anos 1990: André Nassif, da Universidade Federal Fluminense, Carmem Feijó,
do CNPq, Eliane Araújo, da Universidade Estadual de Maringá, e Paulo César
Morceiro, da Universidade de Johannesburgo.
A conclusão dos economistas, testada com dados estatísticos e econométricos, indica algumas causas desse insucesso. Em resumo, a eficácia da política industrial teria sido limitada pela ausência de um regime macroeconômico de suporte em ambiente caracterizado por juros reais persistentemente elevados e por episódios recorrentes de sobrevalorização cambial. A falta de coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial limitou os resultados.
Nível do dólar terá influência na definição da resposta fiscal, por Sergio Lamucci
Valor Econômico
Se o câmbio ficar mais pressionado, o governo
será compelido a adotar ajuste mais forte
O comportamento do câmbio nas próximas
semanas será crucial para definir as perspectivas para a política monetária e
para a resposta do governo às incertezas fiscais. Ontem, o dólar chegou a
superar R$ 5,60, fechando em 8,21%, a R$ 5,4027, em reação à vitória do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição, que pegou o mercado no
contrapé.
Ainda é cedo para saber em que nível a moeda vai se acomodar, mas um dólar que se estabilize num preço mais alto ou entre numa espiral de alta pode interromper ou mesmo reverter o ciclo de queda dos juros, por pressionar a inflação. Numa economia já sem fôlego, o risco seria transformar a desaceleração em recessão, castigando ainda mais famílias e empresas endividadas, um cenário que seria muito ruim para a popularidade de Lula.
Ressaca da virada eleitoral de Lula derruba a bolsa de valores e frustra Trump, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
O Departamento de Estado havia preparado um comunicado sobre a eleição, mas sua divulgação foi suspensa depois que Flávio Bolsonaro pediu a anulação do segundo turno
A vitória de virada de Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma ressaca que
ultrapassa o desconforto dos derrotados. A contestação do resultado por Flávio
Bolsonaro, o respaldo de Donald Trump às suspeitas lançadas sobre a votação, o
tombo dos ativos brasileiros e uma nova intervenção de Alexandre de Moraes, que
cancelou o passaporte do candidato derrotado e proibiu-o de deixar o país,
compõem um cenário de instabilidade.
Lula conquistou o quarto mandato, mas recebeu, antes mesmo de encerrar a
comemoração, uma advertência sobre as dificuldades de exercê-lo. O primeiro
problema é a recusa de Flávio em reconhecer a derrota. O senador anunciou que
pedirá a anulação da eleição, questionando a decisão do ministro Cristiano
Zanin de ampliar o horário de votação diante de problemas de transporte.
Uma frente ampla pela democracia, por Ysadora Monteiro e Adrian Albala*
Correio Braziliense
Lula necessita abrir o núcleo decisório do
governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os
agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção
O deputado André Janones afirmou, em uma das
últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de
Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que,
"nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora
seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de
que Lula esteja realmente convencido do que disse.
A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.
Romper com o bolsonarismo é imperativo para a direita sobreviver e ter nome forte em 2030, por Roseann Kennedy
O Estado de S. Paulo
Derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas simboliza derrota política da família; Michelle Bolsonaro, por sua vez, ensaia carreira solo
O resultado das urnas no segundo turno não
simbolizou apenas um tropeço eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). Representou,
acima de tudo, uma derrota política para a família Bolsonaro.
O revés significa que o irmão Eduardo continuará
foragido nos Estados Unidos, enquanto o patriarca, Jair, seguirá recluso na
prisão sem qualquer horizonte de soltura ou anistia.
No Congresso, Carlos Bolsonaro será apenas um entre 81
senadores, desprovido da musculatura política que teria caso o irmão alcançasse
a Presidência da República. Assim como Jair Renan, na Câmara, no meio de
outros 512 deputados federais.
Correndo por fora, Michelle Bolsonaro avança em uma carreira solo. Sem o sangue da dinastia, a ex-primeira-dama já é aconselhada nos bastidores a adotar apenas o primeiro nome. A estratégia visa consolidar sua trajetória individual e blindar seu capital político junto ao eleitorado feminino e de direita.
Desafios internos e externos para Lula 4, por Rubens Barbosa*
O Estado de S. Paulo
A política externa deve ser vista como política de Estado, sem influência ideológica e partidária
Em seu quarto mandato, o governo Lula, desde o início, terá de enfrentar desafios institucionais, de governabilidade, econômicos, na área de defesa e segurança e na de política externa para atender aos anseios e demandas do eleitorado de centro que o apoiou para não votar em Flávio Bolsonaro. O Congresso, de maioria conservadora, pode dificultar as iniciativas do novo Executivo. A contestação do resultado eleitoral acrescentará problemas internos e externos. A nova geopolítica global impõe uma nova agenda na defesa dos interesses nacionais.
Esquerda fraca, direita desgovernada, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
É com Centrão, não com PT e esquerda, que Lula vai responder sobre a crise fiscal
Passada a festa da vitória e curada a
ressaca, o presidente Lula tem de retomar o fôlego para enfrentar adversários
de peso: a crise fiscal, o mercado financeiro, o agronegócio e um bolsonarismo
forte, mas sem liderança. Logo, uma força à deriva, desgovernada, com o único
objetivo de infernizar o governo.
O Brasil caminha para 2027 com um desequilíbrio descomunal entre receitas e gastos, uma herança maldita que Lula deixa para o próprio quarto mandato e dá o empurrão final para a turma da Faria Lima deixar o pragmatismo de lado, apostar errado e perder com Flávio Bolsonaro.
2º turno foi sobre medo de Bolsonaro no poder, por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
A mobilização lulojanonista não foi espuma
para convertidos. No mundo real, onda convertedora de nulos, arrastadora de
votos para Lula, capaz de tirá-los, aos milhões, de Flávio Bolsonaro; de
explorar a ressaca daquele eleitor que, rejeitando mais o presidente que o
desafiante no primeiro turno, terá passado três semanas diante da própria
escolha, condenado a contemplar o que seria um governo do filho de Jair.
A projeção da imagem do Flávio presidencial – subsidiada por um candidato à vontade para exibir o que é – foi-lhe feia, ao que se somaria a campanha que o apregoava como supressor de direitos, enquanto Lula corrompia a máquina para prometer até Pix de R$ 5 mil. Se a eleição no primeiro turno fora sobre Lula e teve como produto uma advertência ao incumbente, a do segundo foi sobre o medo de Bolsonaro no poder. Considere-se a hipótese de o eleitor ter afinal optado por Lula frente ao que seria o capital político na mão de um Bolsonaro: quase autossuficiente no Senado e a indicar três ministros do Supremo.
O que Lula 4 pode fazer para domar o pânico dos donos do dinheiro grosso, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Virada enorme em 'o mercado' era previsível,
com volta a uma situação anterior já ruim
Questão agora é se novo governo vai reagir
logo para ganhar crédito, perdido sob Lula 3
Os patinetes que congestionam as ciclovias da Faria Lima sabiam que esta segunda (26) seria de pânico. Os donos do dinheiro grosso e os povos dos mercados em geral entraram no final de semana achando que, depois de Lula 3, viria Bolsonaro 2. Houve gente que viajou para a Boa Vista ou para a Grama e nem votou (são nomes de condomínios de lazer para ricos no interior paulista). Para o choque de muitos e surpresa geral (deste jornalista inclusive), veio Lula 4. Muita gente perdeu dinheiro e quase todo mundo teve de mudar as aplicações com medo de perder ainda mais, para dizer a coisa de modo caseirinho.
Ufa! Por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Virada histórica de Lula sobre Flávio
Bolsonaro reduz riscos para a democracia
Na economia, presidente terá de lidar com
herança maldita que ele próprio criou
Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.
Desafio de Lula é corresponder à vitória do esforço coletivo, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Conquista da reeleição foi obra construída a
milhões de mãos, às quais será imprescindível retribuir a confiança
Agora o presidente tem dois meses até a posse
para dizer realmente o que pretende no quarto mandato
Feita a
escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de
dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir
em seu quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.
No discurso da vitória, Luiz Inácio da Silva (PT) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.
Amasso de Lula muda o cenário das paixões políticas, por Alvaro Costa e Silva
Folha de S. Paulo
Ruas, redes e queda da abstenção determinam a
virada de votos
Restou a Flávio Bolsonaro a imagem de
golpista que ele tentou mascarar
Na vida e nas eleições
—a experiência e a fábula de Esopo ensinam— não se deve contar com o ovo dentro
da galinha. Ainda mais quando o adversário é Lula,
um animal político de 80 anos e sete campanhas presidenciais.
Atordoado pela derrota no morno primeiro turno, Lula publicou no dia 7 de outubro um vídeo em formato selfie, talvez o primeiro que tenha feito como candidato. Muita gente riu do velhinho de voz rouca, sem jeito com a tecnologia, vestindo uma camisa social azul. Mas a mensagem, simples e que se mostraria infalível, estava lá: "Bora, gente, pra rua".
Que ilumine mais do que um incêndio, por Ricardo Marinho*
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões
Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil
Por O Globo
Presidente terá de lidar com Congresso
hostil, mas não pode manchar sua biografia com ressentimentos
Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.
Mesmo com locaute, Lula vence Flávio de virada e conquista quarto mandato, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A recuperação de Lula veio de uma reação
vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença
nas ruas e mobilização digital
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato numa
virada espetacular sobre Flávio Bolsonaro. Derrotado no primeiro turno, quando
recebeu 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, recuperou a
iniciativa e venceu de forma inequívoca. Quando o Tribunal Superior Eleitoral
reconheceu sua reeleição, às 21h08, com 97,69% da apuração concluída, tinha
51,74%, contra 48,26% do senador: uma vantagem de aproximadamente 4,2 milhões
de votos. O resultado reafirma a capacidade de sobrevivência e de mobilização,
inclusive da juventude, do principal líder popular da nossa história
contemporânea.
Uma virada surpreendente numa história improvável, por Bruno Carazza
Valor Econômico
Virada inédita é mais um capítulo na carreira extraordinária do político mais bem-sucedido da história brasileira
No dia 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio
Lula da Silva parecia ter completado a sua jornada do herói. Depois de amargar
um calvário de 580 dias na prisão, derrotar seu arquirrival Jair Bolsonaro
surgia como o capítulo final de uma história ao mesmo tempo improvável e
extraordinária.
Lula foi o primeiro presidente brasileiro de origem humilde. Nascido no agreste de Pernambuco, conviveu com a fome e a falta de água potável e saneamento básico. Como milhões de seus conterrâneos, migrou para São Paulo e foi criado apenas pela mãe.
Vigilância sobre causas femininas tem de continuar, por Ana Paula Araújo
O Globo
O próximo ciclo de quatro anos será
desafiador para mulheres. O Congresso que tomará posse será majoritariamente
conservador
A “psicose política” chegou a seu auge. O termo viralizou nas redes sociais para descrever o segundo turno mais frenético, com grandes mobilizações e hiperfoco em tudo relacionado à eleição. Ontem, com decisões judiciais de última hora, denúncias de obstrução ao transporte de eleitores, votação prorrogada e apuração decidida voto a voto, essa psicose quase se transformou em infarto coletivo. Entre vencedores e vencidos, num país tão polarizado, o que nos une é a exaustão. Mas que tal manter pelo menos um pouco desse empenho para olhar para o que vem pela frente? Especialmente entre nós, mulheres, o próximo ciclo de quatro anos será desafiador.
Presidente receberá uma herança maldita dele mesmo, por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
O governo já poderia ter tomado medidas para
controlar os efeitos de fatores externos na economia. Não tomou por causa da
política
Não deixa de ser uma ironia: Lula receberá
uma herança maldita dele mesmo. Na economia e na política. Na economia, a
responsabilidade é inteiramente dele. Sim, o ambiente internacional — com
guerras, preços essenciais elevados, como combustíveis e fertilizantes, e juros
em alta — cria restrições ao crescimento. Mas o governo já poderia ter tomado
medidas para controlar os efeitos desses fatores externos.
Não tomou por causa da política. E não foi apenas para ganhar as eleições. Antes mesmo da campanha, a projeção do próprio governo previa um déficit nas suas contas superior a R$ 80 bilhões. Na contabilidade oficial, isso apareceria como déficit zero, mas ninguém mais acredita nesses truques. Nem o governo, quando mostra que a dívida pública subiu nos quatro anos do governo e tem tendência de alta. E, se a dívida sobe, só pode ser porque o governo gasta mais do que arrecada.
Antipetismo é central, mas eleição confirmou força do antibolsonarismo, por Jorge Chaloub
Folha de S. Paulo
Ruas e redes foram determinantes para o
aumento da rejeição a Flávio Bolsonaro
Vitória histórica de Lula no 2ºturno garante a sobrevivência da Constituição de 1988
O resultado do primeiro turno indicava uma
provável eleição de Flávio
Bolsonaro (PL),
não tanto pela vantagem de pouco mais de 2 milhões de votos quanto pelo perfil
dos outros candidatos, muito mais próximos do senador de ultradireita. Com o
resultado do PL no Congresso e a expectativa de um bom número de vagas no STF, o cenário
parecia apontar não apenas para uma mudança de governo, mas para uma
transformação do regime político.
O filho de Jair teria a possibilidade de cumprir a promessa, feita nos
primeiros dias do segundo turno, de romper com a Constituição
de 1988. Esse propósito, aliás, é um dos grandes projetos políticos do
bolsonarismo, já explicitado diversas vezes por membros da família do presidente.
Quarto mandato de Lula exige novas estratégias, por Fernando Abrucio
Folha de S. Paulo
Buscar atores que pensam diferente, inclusive
bolsonaristas, é essencial para o sucesso do novo governo
Plano de sustentabilidade fiscal deve começar
imediatamente, buscando o apoio da sociedade
Ao
se reeleger, Lula
é o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer no segundo em toda a
redemocratização. Numa campanha impressionante, comandada pelo
"general" Janones na
internet e pelos jovens nas ruas, Lula também será o primeiro a vencer quatro eleições
presidenciais. Uma vitória fantástica por esses dois indicadores, mas o governo
começa nesta segunda-feira (26), e haverá muitas dificuldades no quarto
mandato.
O presidente Lula tem de comemorar, mas precisa tirar lições desta eleição para não cometer os mesmos erros do terceiro mandato. A primeira é que sua vitória se deveu, em boa medida, a uma estratégia voltada para o futuro, com mudanças na comunicação nas redes sociais e lideranças jovens comandando a virada. O PT precisa se renovar urgentemente se não quiser perder relevância nos próximos anos, alçando os líderes do Nordeste, os(as) jovens parlamentares e figuras de fora do partido, como André Janones, a um patamar de maior importância.
Uma eleição tumultuada pela omissão, por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
Ao deixar de decidir, o presidente da corte
alterou o curso normal da votação
Ministro deu margem à suspeição sobre a
integridade de um processo que até então sempre foi reconhecido mundialmente
Existem mil maneiras de interferir no
processo eleitoral na tentativa de manipular o resultado da votação. As mais
conhecidas são a compra de votos, a coação, o bloqueio de estradas e a
restrição na oferta de transporte público.
Contudo, desde a redemocratização (na década de 1980), nunca antes na história deste país o processo eleitoral brasileiro esteve imerso e submerso numa situação de tamanha obscuridade provocada pela omissão da Justiça Eleitoral.
A polarização depois da certeza, por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
Animosidade anterior prediz expectativas
partidariamente enviesadas depois
Democracia exige aceitar a possibilidade da
derrota
Escrevo a coluna antes do segundo turno presidencial. O nível de incerteza é elevado.
Entre os eleitores, porém, a dúvida sobre o futuro convive com a convicção de
que seu candidato vencerá. O que acontece quando a certeza da vitória encontra
a experiência da derrota?
Uma pesquisa de Seth Warner —Partisan Wishful Thinking in Polarized Times— oferece pistas. Analisando pesquisas eleitorais americanas entre 1952 e 2024, o autor documenta o crescimento do wishful thinking: a tendência a transformar preferência política em expectativa de vitória. Em 2024, quase 9 em cada 10 eleitores esperavam o triunfo do candidato preferido.
Horizonte de ruptura, por Eduardo Sombini
Folha de S. Paulo
Para autor, a revolução digital impõe mudança
profunda na democracia que tornará o Legislativo em parte obsoleto
Cientista político aponta crise do presidencialismo
de coalizão e defende refundação da República; leia trechos
Em
um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches
cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema
político-partidário brasileiro —um regime sem paralelo no mundo, de acordo com
o pesquisador.
Abranches
argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum
deles obtém maioria no Congresso Nacional, o presidente precisa
negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico
para conseguir governar. Cargos e emendas parlamentares passam a ser as
principais armas à disposição do chefe do Executivo.
No
livro "Presidencialismo de Coalizão"
(Companhia das Letras), lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime
político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a
publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.
Neste
episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema
político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o
aprofundamento da crise em 2022.
O
autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e
o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT)—ele diz que, se antes as
coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar
ingovernável sem um redesenho das instituições e do próprio funcionamento da
sua democracia.
Abranches
também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade
brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história
do país, temas que ele debate em outro livro recém-lançado, "A Terceira Margem do Ipiranga".
Leia abaixo os trechos principais da entrevista.
Poderes em desalinho, por Andrea Magalhães* e Fabio Giambiagi*
Folha de S. Paulo
Desequilíbrio
cada vez maior de poder e responsabilidade vem tornando o sistema disfuncional
Congresso
administra recursos bilionários sem sofrer pressão do eleitorado e sem
responder por seus atos
[Resumo] Resultado
das eleições para o Congresso deve acentuar
distorções graves na política brasileira. Há mais de uma década o Legislativo
ampliou consideravelmente suas atribuições, controlando o Orçamento público com
emendas parlamentares bilionárias e derrubando cada vez mais os vetos
presidenciais. Não responde, contudo, pelo resultado fiscal ou pela
implementação de projetos para o país, responsabilidades que recaem sobre a
figura enfraquecida do presidente da República, o que eleva e deturpa os custos
da barganha para o Executivo contar com apoio de congressistas em votações.
Texto a seguir apresenta propostas para ampliar governabilidade e distribuir de
forma mais justa bônus e ônus entre os Poderes.
O quadro que
emergiu das eleições mostra o seguinte panorama:
1) Partido mais
votado para a Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, em um universo de 513
vagas, ou seja, 24% do total.
2) Para montar uma
coalizão que forme uma maioria para aprovar reformas constitucionais (que
necessitam do voto favorável de no mínimo 308 deputados) é preciso juntar pelo
menos seis partidos.
3) No caso do Senado, a fragmentação se repete. O PL elegeu 19 senadores e terá também a maior bancada, 28 congressistas em um total de 81. Mudanças na Constituição dependerão do apoio de ao menos 49 congressistas, o que significa ter um bloco coeso de pelo menos quatro partidos.
domingo, 25 de outubro de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões
Democracia e rigor fiscal para reduzir os juros e a pobreza
Por Folha de S. Paulo
A Folha reafirma o compromisso de não
recomendar voto em partidos ou nomes; a opção pelo apartidarismo fortalece a
posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saia vencedor
Um eleitorado mais uma vez dividido ao meio
decidirá neste domingo (25) quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. O
vitorioso terá o desafio de recolocar as contas públicas nos trilhos, condição
indispensável para uma queda sustentável dos juros —sem novos
surtos inflacionários — que permita ao país crescer e, assim, reduzir a
pobreza. Respeitar o Estado democrático de Direito é mandatório.
Se vencer Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil voltará a lidar com o grupo político cuja passagem pela Presidência da República deixou um legado nefasto para a institucionalidade. Durante sua administração, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro (PL) investiu reiteradamente contra a democracia.
Lula ou Flávio, a sorte, as virtudes e o papel do indivíduo na história, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Todo aventureirismo é perigoso. O governante
sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à
própria vontade
“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A
advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece
reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades
distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não
construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e
enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa
entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o
senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.






.jpg)








.jpg)
.jpg)

.jpg)













