Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
História e Memória; Sociedade e Estado, por Ivan Alves Filho*
terça-feira, 12 de maio de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Crime intimida população — e o governo faz pouco
Por O Globo
Ação tardia reflete maior preocupação com
indicadores de popularidade que de segurança
A proximidade com a violência faz
parte do dia a dia da população. Para 41% dos brasileiros, grupos criminosos
envolvidos com o tráfico de drogas ou milícias atuam no bairro onde moram, de
acordo com pesquisa Datafolha encomendada
pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pelas projeções demográficas, isso
corresponde a 68,7 milhões de cidadãos. Destes, um quarto afirma que tal
presença é “muito visível”.
A situação é percebida principalmente nas capitais (56%) e regiões metropolitanas (46%). Para 35%, criminosos “influenciam muito” as decisões e regras de convivência no bairro. Os receios mais citados são “ficar no meio de um confronto armado” (81%), “ter familiar envolvido com o tráfico” (71,1%) e “sofrer represálias e punições por denunciar crimes” (64,4%). Nesse clima de medo, 74,9% evitam circular em determinados lugares e horários (65,2%) ou falar sobre política (59,5%). O domínio perverso das quadrilhas fica patente quando 12,5% dizem se sentir obrigados a contratar serviços indicados pelo crime e 9,4% a comprar marcas e produtos impostos pelos bandidos.
Eleição nacional, estratégia global, por Guilherme Casarões*
O Globo
A dimensão internacional estrutura as
estratégias de quase todos os principais postulantes
Há algo inédito na corrida presidencial
brasileira de 2026: antes mesmo de o horário eleitoral começar, os principais
candidatos já acumulam passaportes carimbados. Lula,
em clara sinalização eleitoral, encontrou Donald Trump na Casa Branca. Flávio
Bolsonaro visitou El Salvador, Israel, França, Bahrein e Estados Unidos (pelo
menos três vezes). Ronaldo
Caiado desembarcou em Israel em 2024, ao lado de Tarcísio de Freitas.
Há um ano, Romeu Zema foi
a San Salvador numa missão do governo mineiro sobre segurança pública.
A disputa presidencial brasileira está globalizada, cada vez mais conectada com os ventos do mundo. Isso não é inteiramente novo. Em 1989, Lula, Fernando Collor de Mello, Leonel Brizola e até Paulo Maluf viajaram para o exterior durante a campanha. Bolsonaro fez o mesmo na longa pré-campanha que o conduziu à vitória de 2018, apostando na visibilidade que Israel e a proximidade com Trump lhe conferiam.
A ilusão do caso Vorcaro, por Fernando Gabeira
O Globo
Ele não entende a colaboração premiada como
fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que
amealhou
Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: "Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza." Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.
O alto custo da guerra de Trump, por Míriam Leitão
O Globo
Conflito iniciado por Trump já fez o
americano pagar US$ 35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge
também a inflação brasileira
O custo da guerra para os Estados Unidos não
é apenas a cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras.
Essa é a ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao
Financial Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento
da despesa com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito
contra o Irã é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.
Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma, com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família, aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.
Ensine ética a um robô, por Pedro Doria
O Globo
Como crianças, elas aprendem a se portar de
acordo com aquilo que lhes é dado nas primeiras lições
Contamos histórias a respeito de inteligências artificiais, e em profusão, desde a segunda metade do século XX. De “Blade Runner” a “Eu, robô”, passando pelo HAL 9000 de “2001” ou mesmo pelo androide de “O exterminador do futuro”, há muito tentamos imaginar como seria, como funcionaria, uma mente sintética. Um dos traços principais de quase todas essas histórias é o medo ancestral de que possamos terminar vítimas da tecnologia que criamos. Esse medo não é bobagem. Por isso mesmo, é dos temas mais batidos em todos os debates a respeito de IA desde que o ChatGPT pegou todo mundo de surpresa. Talvez ninguém pudesse imaginar que a profecia é autorrealizável.
Cerco sobre Ciro trinca maior cartório do Centrão, por Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico
Operação da PF atinge federação PP-União no momento da definição de chapas e dos critérios de repartição do fundo eleitoral e das inserções comerciais
No mesmo dia em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) soltou um “doa a quem doer” na defesa da apuração do “grande escândalo” que envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o diretório estadual do Progressistas anunciou o adiamento da cerimônia, marcada para esta segunda, em que seria oficializado o apoio do partido à reeleição do governador de São Paulo e o lançamento da candidatura do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. Na véspera, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), já havia soltado uma nota em que reputou de “graves” as acusações que pesam sobre o senador que foi ministro da Casa Civil do governo do seu pai e a quem já havia cobiçado para vice.
Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto, por Pedro Cafardo
Valor Econômico
Um coro canta persistentemente ‘gastança, gastança’, forma expectativas de inflação que na maioria das vezes não se realizam, mas forçam o BC a manter juros nas alturas
Dias atrás, um economista brasileiro fez
palestra para um pequeno grupo de pessoas de círculos acadêmicos em São Paulo.
Ao sair da sala, um dos ouvintes, brincando, disse: “Vou passar na farmácia
mais próxima e comprar um antidepressivo”.
De fato, como dizia Tom Jobim, o Brasil é para profissionais. Tem um número enorme de problemas em todas as áreas, oriundos de dificuldades burocráticas, instabilidade econômica, corrupção e desafios na área cultural e para fazer negócios.
Talvez esse conjunto de problemas leve o brasileiro a olhar para o futuro sempre com pessimismo e quase sem reconhecer qualidades que poderia ver no retrovisor.
Ao convidar Bolsonaro e Collor, Nunes Marques acirra conflitos no STF, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A decisão de Nunes Marques
também fortaleceu o discurso da oposição no Congresso, especialmente do PL,
partido de Bolsonaro, que retomou o projeto de anistia
A posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevista para hoje, está sendo marcada pelo convite protocolar a todos os ex-presidentes da República, inclusive Jair Bolsonaro e Fernando Collor de Mello, o que produziu um efeito político oposto ao discurso de pacificação que o próprio magistrado pretende imprimir à sua gestão. Ao chamar para a cerimônia dois ex-presidentes condenados pela Justiça — o primeiro por tentativa de golpe de Estado; o segundo na Operação Lava-Jato —, Nunes Marques também acirrou as tensões internas no Supremo Tribunal Federal (STF).
Desemprego disfarçado e precarização do trabalho, por José Luis Oreiro e Stefan Wilson D’Amato*
Correio Braziliense
O problema do mercado de trabalho brasileiro
não reside apenas na insuficiência quantitativa de empregos, mas na crescente
dificuldade de produzir ocupações de elevada qualidade.
O debate sobre o mercado de trabalho brasileiro frequentemente concentra-se nos dados da taxa de desemprego aberto, atualmente nas suas mínimas históricas, negligenciando uma dimensão estrutural mais profunda: o desemprego disfarçado. Embora a literatura convencional associe a precarização do trabalho exclusivamente às crises conjunturais, a evidência recente aponta para um fenômeno mais complexo, relacionado à própria transformação da estrutura produtiva brasileira. Em economias estruturalmente heterogêneas, como a brasileira, o avanço de formas ocupacionais mais frágeis reflete não apenas dificuldades cíclicas, mas também mudanças profundas na capacidade de geração de empregos estáveis e produtivos.
Decisão de não aderir à OCDE é erro histórico, por Rubens Barbosa*
O Estado de S. Paulo
O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação
Um dos aspectos mais relevantes da política
externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como
potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é
considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.
A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.
Direito xandônico, por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
A lei vale, está valendo, salvo quando não quiser o togado. Não querendo, ele construirá o puxadinho para que a norma não alcance esse ou aquele caso. E então temos o juiz da execução penal que não quer aplicar a lei penal; que não a aplica; e que inventa a justificativa para não a aplicar. Ficou fácil, sendo esse juiz da execução penal um ministro do Supremo.
A situação é grotesca: a defesa de uma condenada – pelo 8 de Janeiro – pediu que os benefícios da chamada Lei da Dosimetria lhe fossem estendidos. Alexandre de Moraes disse não. Trata-se de lei vigente, aprovada pelo Parlamento, promulgada pelo presidente do Congresso, cuja aplicação Xandão negou. Porque quis, sem Direito. Porque pode, inventor do Direito. Porque o STF permite, pervertido o tribunal em plataforma desde onde o monocrata governa.
Dependência mútua reaproxima Lula e Alcolumbre, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Rompimentos definitivos não fazem parte do
roteiro de políticos que compartilham interesses
Quando as desavenças são profundas, os
ressentimentos são guardados em temperatura de geleira
Rompimentos definitivos na política são
raros. Assim, de pronto, não vem nenhum à memória. Os atritos, no geral, são
resolvidos, ainda mais quando os envolvidos têm interesses comuns e em alguma
medida dependem um do outro.
É o caso do presidente Luiz Inácio da Silva e do senador Davi
Alcolumbre. Estão ambos empenhados numa recomposição
da convivência, ainda em fase preliminar, por intermédio de
mensageiros experientes na arte da pacificação, como o ministro da Defesa, o
ex-deputado José Mucio
Monteiro.
Com traficantes e amantes, política no Rio é um cabaré em chamas, por Alvaro Costa e Silva
Folha de S. Paulo
Em sete meses, três deputados da tropa
bolsonarista foram presos
Apesar das retaliações, governador interino
não descansa na faxina
Virou rotina. Em sete meses, três
parlamentares do Rio foram presos, entre eles o presidente da Alerj, Rodrigo
Bacellar, acusado pela Polícia
Federal de vazar uma operação contra o Comando Vermelho em que
o alvo era o deputado TH Joias. A bola da vez é Thiago Rangel, que desviou
verbas da Secretaria de Educação e concedeu cargos na pasta a pessoas indicadas
por um traficante, de acordo com as investigações.
Os três integravam a tropa bolsonarista que, desde 2019, se especializou em aparelhar as instituições e depenar os cofres públicos, aliando-se a organizações criminosas. Estas, livres para atuar, se agigantaram.
Debaixo desse angu, tem muito Master, e a República já sente o coração na boca, por Tom Farias
Folha de S. Paulo
Laços de Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro
levantam dúvidas
Banco era o centro nervoso da bancarização do
crime no Brasil
Se havia dúvidas da ligação de Daniel
Vorcaro, preso nas dependências da Polícia Federal, em Brasília, com
políticos de alta patente, as incertezas caíram por terra com a revelação
das conexões do ex-dono do banco Master com
o senador Ciro Nogueira (PP-PI). E não deve
ser caso único, pela expectativa da proposta de delação premiada sob análise da
PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Por conta dela, a própria
República está na iminência de expelir o coração pela boca.
"Grandes amigos da vida", como rezam as mensagens no celular de Vorcaro. Essa relação sugere que debaixo desse angu há caroço grosso, dada a magnitude das transações e a bilateralidade criminosa que compartilham. De um lado, propinas de até R$ 500 mil mensais; de outro, uso do mandato em favor do ex-banqueiro. Uma promiscuidade presente no nosso imaginário, mas jamais vista nesses termos.
Autonomia ou Dependência? Por André Lara Resende
As políticas de juros dos bancos centrais
estão no cerne dos mercados financeiros. Movem preços de todos os ativos,
provocam ganhos e perdas, transferem riqueza, estimulam ou desestimulam a
economia. Não surpreende que estejam submetidas a todo tipo de pressões
políticas.
Depois de dois anos de duras críticas à
política de juros do Banco Central, Lula indicou Gabriel Galípolo para a sua
diretoria em 2023. Houve quem achasse que poderia haver uma inflexão na
política do BC. No entanto, nada mudou. Nas primeiras reuniões do comitê de
política monetária, o Copom, a decisão foi sempre por manter ou até mesmo
elevar os juros. Galípolo era apenas uma voz entre os nove diretores membros do
comitê — nada poderia fazer para rever a política em curso, alegaram os que contavam
com ele para reduzir os juros.
Alçado à presidência do BC no início de 2025, esperava-se que Galípolo tivesse autoridade para finalmente dar início a uma queda consistente até uma taxa compatível com as internacionais. Mais uma vez, não foi o que ocorreu. Ao contrário, com Galípolo na presidência, o BC continuou a elevar os juros. A taxa real de juros é da ordem de 10% ao ano, insustentável quando a economia cresce a menos de um terço disso. Lula, e também Haddad no Ministério da Fazenda, não deixaram de demonstrar discordância em relação aos juros excessivos, mas nunca fizeram críticas abertas a Galípolo na presidência do BC.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Escola tem de oferecer educação financeira
Por O Globo
Governo deveria tornar disciplina
obrigatória, em vez de deseducar com programas como o Desenrola
O anúncio da nova versão do programa Desenrola, destinado a renegociar toda sorte de dívidas em condições camaradas, chamou a atenção para um aspecto determinante para o endividamento do brasileiro. As dívidas acumuladas no cartão de crédito, a facilidade com que se aceitam condições de refinanciamento em aplicativos ou prestações a perder de vista — desde que “caibam no salário” — resultam não apenas dos estímulos artificiais dados por um governo interessado em inflar o consumo e a sensação de bem-estar da população por interesse eleitoral. Decorrem também da dificuldade de entender conceitos triviais de aritmética e finanças, como juros compostos ou remuneração da poupança. Os mercadores do crédito fácil, que leva ao endividamento de 80% das famílias, se aproveitam das deficiências de formação do brasileiro para levar vantagem.
De volta para o futuro, por Ricardo Marinho*
Vários
intelectuais, ao longo da nossa história, adorariam poder definir ela como um
passo de saída do irracional à razão, mas infelizmente não é possível fazê-lo.
A complexidade dela ilustra que nossa caminhada não é simples, mas repleta de
avanços e retrocessos, com vários momentos de progresso e regressões.
No nível das condições materiais históricas de existência, a jornada progrediu muito, é indubitavelmente agregadora de melhoras e desde o início da modernidade e mais rapidamente desde a Revolução Industrial no final do século XVIII.
Não existe crise global da democracia, por Carlos Pereira*
O Estado de S. Paulo
Vulnerabilidade resulta de instituições
construídas ao longo do tempo e de escolhas políticas atuais
A ideia de que o mundo vive uma crise
generalizada da democracia tornou-se quase um consenso. Relatórios internacionais apontam retrocessos, líderes
populistas dominam o debate e a sensação de deterioração institucional se
espalha.
Em entrevista recente, Adam Przeworski foi direto: não há
evidência de uma crise global da democracia. Há, sim, episódios de erosão em
alguns países. Mas isso está longe de configurar um colapso sistêmico. E é
justamente aí que interpretações catastrofistas mais erram.
Parte da literatura trata como “crise” qualquer retórica agressiva contra instituições. Mas nem toda retórica iliberal se transforma em ação. E, mais importante, nem toda tentativa de enfraquecer a democracia é bem-sucedida.
Alta do petróleo fortalece as contas externas, por Sergio Lamucci
Valor Econômico
Com impacto das exportações da commodity
sobre a balança comercial, país terá um déficit em conta corrente menor e o
dólar deverá ficar mais barato
O aumento das exportações de petróleo deverá garantir uma alta expressiva do saldo comercial em 2026, ajudando a valorizar o câmbio e a reduzir o déficit em conta corrente. Com a expansão dos volumes e dos preços das vendas externas da commodity, o Brasil poderá ter um superávit comercial na casa de US$ 90 bilhões neste ano, mais de 30% superior aos US$ 68,3 bilhões registrados no ano passado. Num momento em que as contas públicas registram um déficit nominal (que inclui gastos com juros) próximo de 10% do PIB no acumulado em 12 meses, a melhora das contas externas é uma boa notícia, por diminuir uma fragilidade do país. O dólar mais barato atenua parte das pressões inflacionárias causadas pelo aumento dos combustíveis, reflexo da disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio.
Oposição defende reação a decisão de Moraes sobre dosimetria
Por Estevão Taiar, Marlla Sabino e Sofia Aguiar/Valor Econômico
Moraes defendeu que texto só entre em vigor após julgamento de questionamentos; bolsonaristas criticam movimento
A oposição ao governo federal começou a falar
em uma reação à suspensão, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Alexandre de Moraes, da Lei da Dosimetria. No sábado (9), Moraes suspendeu a
aplicação da lei até que o plenário do STF julgue Ações Diretas de
Inconstitucionalidade (ADIs), ajuizadas respectivamente pela Associação
Brasileira de Imprensa (ABI) e pela federação Psol-Rede. A Lei da Dosimetria,
que reduz penas de condenados pelos atos do 8 de janeiro e beneficia o
ex-presidente Jair Bolsonaro, tinha sido promulgada um dia antes pelo
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Uma das medidas defendidas por parlamentares foi a votação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) em tramitação na Câmara dos Deputados que limita decisões monocráticas do STF.
Lula busca avanço na segurança, por Andrea Jubé
Valor Econômico
Presidente lança amanhã programa na área e
empodera ministro Lima e Silva, criticado pelo PT
Sob pressão das pesquisas, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, tenta virar o jogo na pauta da
segurança pública, com o lançamento de um programa de combate ao crime
organizado e ampliando agendas e declarações relacionadas ao tema. Ao mesmo
tempo, ele renova a aposta no ministro da Justiça e Segurança Pública,
Wellington César Lima e Silva, que entrou na linha de tiro dos petistas e, após
quatro meses no cargo, ainda não decolou.
A cinco meses do pleito, em uma reação que pode ser tardia, Lula tenta melhorar a avaliação do governo em uma área que aparece nas pesquisas como a principal preocupação dos brasileiros, e na qual a direita tem sido hegemônica. A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, mostrou que a violência é considerada o principal problema do país para 27% dos entrevistados, seguida da corrupção, citada em 19% das menções, e das questões sociais, para 16% da população.
Trump ‘versus’ Maga, o cisma, por Demétrio Magnoli
O Globo
Ataque ao Irã representaria uma renúncia
crucial: a adesão do presidente à ordem que jurou destruir
‘Eu não caracterizaria isso como uma ruptura
com Trump. Ele traiu suas promessas a mim e a todos os demais. Isso não faz de
mim a pessoa que violou o contrato. Ele é quem violou o contrato.’ Numa longa
entrevista ao New York Times, Tucker Carlson explicou sua acusação: ao
deflagrar a fracassada guerra no Irã, o presidente traiu
o Make America Great Again (Maga) e, por extensão, os Estados Unidos.
Carlson, ao lado de JD Vance, foi uma voz essencial no movimento que sustentou a ascensão de Trump. O cisma esclarece os fundamentos ideológicos da direita nacionalista nos Estados Uniods, que se encontra numa encruzilhada decisiva.
Brasília está com medo, por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do
temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a
Lava-Jato?
O caso Vorcaro será um marco no país. Se
levado adiante, revelando quem são os corruptos e como agem, será dado um passo
crucial para eliminar uma das principais causas do atraso brasileiro, a
roubalheira que junta os setores público e privado. Se for abafado por um
acordão, como aconteceu com a Operação Lava-Jato, o país estará condenado a
mais alguns anos, talvez muitos, de atraso político e econômico.
O pretexto alegado para a derrubada de toda a Lava-Jato foi, oficialmente, o comportamento impróprio do promotor Deltan Dallagnol e do juiz Sergio Moro na condução dos processos. Mesmo considerando que houve de fato tal comportamento, ficou provado, escandalosamente provado, que havia grossa corrupção. Mas toda essa corrupção e seus agentes foram apagados. É como não tivesse ocorrido nada, a não ser uma conspiração do “tribunal de Curitiba” — como se chamava então a 13ª Vara da Justiça Federal, onde corriam os casos da Lava-Jato.
Favela tem uma geografia própria, complexa e inteligente, por Preto Zezé
O Globo
Mílton Santos mostrou que o espaço não é
cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência
No ano em que Mílton Santos completaria um
século de vida, a melhor homenagem ao geógrafo baiano talvez não seja apenas
repetir seus conceitos nas universidades. É devolver suas ideias ao chão que
ele nos ensinou a observar: o território vivido. Ele mostrou que o espaço não é
cenário neutro, mas participa da desigualdade, da disputa, da convivência e da
invenção.
Quando olho para as favelas brasileiras, vejo mais que moradia popular, ausência do Estado ou estatística. Vejo uma geografia própria, complexa, inteligente e pouco compreendida pelo Brasil oficial.
O Brasil chega um século atrasado ao 5x2, por Mafalda Anjos
Folha de S. Paulo
Em 1926 já Henry Ford estabeleceu a regra dos
cinco dias de trabalho
Na Europa a discussão já avançou para a
semana dos quatro dias
Ainda lembro o que ouvi de um jornalista da
velha guarda quando comecei a trabalhar: "mais do que o que você faz,
importa o tempo que passa parecendo fazer algo importante". Arregalei os
olhos: era a absoluta antítese do que tinha aprendido nos meus anos de Escola
Alemã, onde, à boa maneira germânica, era incutida a lógica da produtividade e
eficiência.
Infelizmente, confirmei que era mesmo assim
que as coisas funcionavam em muitas empresas —entre cafezinhos, risadas,
distrações e conversas de corredor, passava-se ali, só porque sim, demasiado
tempo além do que seria necessário.
Lembrei-me disto a propósito do fim da escala 6x1, um tema quente ao qual o Brasil chega com um século de atraso. Foi precisamente em 1926 que Henry Ford, o visionário que revolucionou a indústria automóvel e os métodos de produção em massa, definiu como regra na sua empresa a semana de cinco dias, estabelecendo um dia de descanso extra para 55 mil empregados.
Dilema do STF, por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
Crise resulta do entrelaçamento de questões
individuais e institucionais
Sair dela exige justamente a separação
radical dessas duas dimensões
A crise do Supremo opera em dois níveis distintos. O primeiro envolve indivíduos: conflito de interesses, violações de decoro, suspeitas de corrupção. Há aqui um contínuo que vai de "pecadillos" antirrepublicanos a denúncias graves. O segundo nível é mais profundo: diz respeito à instituição enquanto tal. Aqui já não se trata apenas de condutas pessoais, mas de seu padrão de atuação e relação com os demais Poderes.
A utopia de um Brasil sem racismo, por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
País seria uma das nações mais poderosas e
desenvolvidas do mundo
Ponto de partida é a reparação depois da assinatura da Lei Áurea
A utopia de um Brasil sem racismo é
meu exercício de ficção predileto. Já me peguei pensando nisso umas mil vezes.
Acredito que seríamos uma sociedade muito melhor, mais justa e menos desigual
se o Estado tivesse promovido reparação depois da assinatura
da Lei Áurea, em 1888.
Hoje, 138 anos após a "abolição da escravatura" no último país das Américas a libertar os africanos escravizados, compartilho um vislumbre deste meu devaneio.
Palavras na ponta da língua, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Você vai dizer alguma coisa e, de repente, a
palavra lhe escapa. O nome disso é letologia
Um dicionário com essas palavras teria de ser
um volume de 500 páginas, todas em branco
Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum? Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra. Letologia —grave bem para não esquecer.
domingo, 10 de maio de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Pluralismo é crítico para as universidades
Por O Globo
Professores reagem à intolerância e ao
radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica
Universidades deveriam ser espaços abertos ao
pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões
políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o
que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e
discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as
públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e
pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por
um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do
pluralismo e da liberdade acadêmica.
Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.
Gonet e o canto das sereias no Master, por Thiago Bronzatto*
O Globo
A dúvida que ainda paira é se ele estará
disposto a escalar as apurações em Brasília
Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?
Relógio conta as horas para Ciro, por Míriam Leitão
O Globo
Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac”
que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de
Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice
O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.
Esperteza que pode engolir Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco
O Globo
Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio
abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão
A lição costumava ser repetida por políticos
mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o
dono.
Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar
a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho
ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na
cadeira de governador.
O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.













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