terça-feira, 9 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gastança dos estados piora crise fiscal

Por O Globo

Governadores não ficam atrás do governo federal em ‘bondades’ eleitoreiras

Anos de eleição já foram diferentes no Brasil: ruas cobertas de panfletos, brindes e showmícios eram comuns. Uma característica infelizmente parece imutável: a propensão dos governos a gastar de forma irresponsável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido pródigo na distribuição de “bondades” eleitoreiras, mas os governadores não ficam atrás. A gastança extra já contratada terá impacto nas contas públicas estimado em torno de 2% do PIB. Desse total, o governo federal deverá ficar com uma fatia de 0,9 ponto percentual e os governos estaduais com nada desprezível 0,6 (o restante 0,5 serão gastos realizados por fora das metas fiscais).

Copa vai testar reformas do bilionário e conservador futebol, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras, mas, na era da IA, elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores

A dois dias do início da Copa do Mundo, pedindo licença aos colegas do Esporte, o colunista aproveita a oportunidade e utiliza este espaço, normalmente ocupado com temas econômicos, para falar de futebol.

Entre parêntesis, vale lembrar que só os 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro faturam quase R$ 15 bilhões por ano. E que o futebol, apesar das condições financeiras catastróficas de muitos clubes grandes, movimenta estimados R$ 90 bilhões anualmente no país, gerando 370 mil empregos diretos e indiretos. Na indústria global do futebol giram US$ 300 bilhões anuais. Os EUA preveem injetar US$ 17 bilhões na economia com a Copa.

As mulheres que aplaudem Flávio Bolsonaro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Pré-candidato do PL reúne 184 mulheres num hotel de luxo em São Paulo

“Pra ser petista, das duas uma, ou faltou proteína ou falta caráter”. A médica Claudia Leite estava entre amigas que aguardavam a abertura do salão para o encontro “Brasil de Ideias Mulher - Eleições”, o primeiro de uma série com os candidatos à Presidência, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no hotel Tangará, zona sul de São Paulo.

A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.

Ano com El Niño, guerra e tarifas, por Míriam Leitão

O Globo

Conflito no Oriente Médio, restrições à exportação da carne e questão climática compõem cenário de tensão para a economia brasileira

O fechamento do mercado da União Europeia para a carne brasileira é um golpe a mais no setor agropecuário e na economia do país, em um ano cheio de complicações. No fim de junho ou de julho, a exportação de carne para os chineses completará a cota, e as vendas terão que ser suspensas. As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos sobre o Brasil já estão postas. A guerra com o Irã se transformou em um choque de oferta de energia. As sombras do El Niño forte rondam o país e assustam o agronegócio.

Conversei com o professor José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), para saber se a ameaça climática é mesmo forte. Ele disse que o El Niño já se formou no Oceano Pacífico. A intensidade dos efeitos no clima, contudo, ainda não está certa. Tudo indica que será forte.

Interesses do Brasil devem prevalecer sobre amizade com Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que uniu Lula ao presidente dos EUA enfraquecem uma análise mais fria sobre objetivos dos dois países

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

À espera da cavalaria, por Merval Pereira

O Globo

Se, como se teme, a segunda delação for tão vazia quanto a primeira, é sinal de que quer ganhar tempo à espera de uma decisão que o beneficie.

O comportamento de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro em atividade, na feliz definição de Arthur Dapieve, deixa clara sua esperança de que alguma coisa, ou alguém, virá em seu socorro a qualquer momento. Foi por isso, afinal, que ele investiu tanto tempo e dinheiro com autoridades de todos os quilates. E ainda há, em postos-chave da estrutura estatal, quem não quer que sua delação se concretize. Enquanto isso, vai enrolando as delações premiadas que negocia com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Vorcaro tem razão em esperar uma solução para seu caso, pois historicamente isso sempre aconteceu nos processos criminais brasileiros envolvendo empresários importantes, líderes políticos, autoridades do alto escalão dos Poderes da República.

Flávio e TSE censuraram uma pesquisa, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A decisão talvez tenha um impacto ao mostrar que Flávio não defende a liberdade de expressão quando a informação lhe desagrada

Ter acesso a diferentes pesquisas é mais relevante hoje em dia quando a confiabilidade delas está em discussão

O presidente do TSEKassio Nunes Marques, atendeu a pedido de Flávio Bolsonaro e suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel. Mas isso não deve ajudar Flávio. A pesquisa foi divulgada em 19 de maio; o impacto dela já passou. Ninguém nem lembrava mais. A decisão talvez tenha, aí, sim, um impacto negativo, ao mostrar que Flávio não defende a liberdade de expressão; quando a pesquisa lhe desagrada, ele é o primeiro a pedir censura.

Decisões na mesma linha que vierem no tempo certo, contudo, podem, sim, ter impacto. Isso porque as pesquisas eleitorais não só retratam a intenção de voto num determinado momento; elas podem influenciar essa intenção. O efeito é modesto, mas consistente. Por algum motivo, as pessoas não gostam de votar em quem elas acham que vai perder. Isso cria um "efeito manada", positivo ou negativo: um candidato visto como em ascensão tende a ganhar mais votos, já aquele visto como em queda tende a perder ainda mais. Numa eleição polarizada em que os candidatos estão muito próximos, o efeito modesto pode ser decisivo.

O partido Missão é o PT da direita ou o PSDB 2.0? Por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Com mentalidade de startup, ele mistura social-democracia, Vale do Silício e Bope

Guerra aberta do MBL com o bolsonarismo explicitou a existência de dois polos na direita

Como bom malufista que foi, o pai de Renan Santos odiava o PT. No caso de seu filho, hoje pré-candidato a presidente, a resposta é complicada.

Para Renan, legendas como PL e PSD são de aluguel, enquanto o PT é partido no sentido clássico. Tem teses compartilhadas, produção intelectual, atividade política e militância.

Renan se inspirou na energia da política estudantil da Faculdade de Direito da USP para fundar o MBL. Uma paixão similar marca a militância emebelista nas redes sociais —ela que bagunça a monocromia do debate político atual. Intelectualizado e mais à vontade nos bastidores, Renan pode ser comparado a Zé Dirceu. Como o ex-ministro, sobrevivente da ditadura, ele coleciona batalhas.

Em 2003, após uma decepção na política estudantil, Renan trocou a vida de universitário e aspirante a músico pelo negócio familiar de recuperação de empresas falidas. Foram dez anos de jogo bruto: ganhar dinheiro via fórceps, demissões, cortes de gastos, briga com sindicatos e pressão de credores.

Partidos custam bilhões por prestação de mau serviço, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Financiamento público cria uma relação desigual entre o país contratante e os políticos contratados

Eleitor é obrigado a votar, mas os eleitos não se obrigam a cumprir seus deveres para com a sociedade

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou na semana passada os dados sobre a divisão do dinheiro do fundo eleitoral, e isso não traz notícia nova.

Os números são conhecidos, mas a divulgação repõe na agenda o tema desse tipo de financiamento adotado desde a eleição de 2018. Oportunidade para renovar questionamentos sobre como partidos se tornaram sorvedouros de dinheiro público sem que, em contrapartida, prestem bons serviços ao país que os contrata.

Palanque do filho 01 não desabou, mas está balançando, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Além do caso 'Dark Horse' e do tarifaço, PL enfrenta péssimo momento no Rio

Preso por envolvimento com o CV, bolsonarista Rodrigo Bacellar prepara delação

Não bastassem os percalços da pré-campanha presidencial —o caso "Dark Horse", o tarifaço de Trump com ameaça ao Pix, o tombo do filho 01 nas pesquisas aliado ao efeito fariseu que passou a pesar sobre ele entre alguns segmentos evangélicos, o desbunde do 03 com a extrema direita norte-americana, a incômoda sombra da ex-primeira-dama Michelle e uma certa neutralidade do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo—, o PL enfrenta um péssimo momento no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país.

Flávio Bolsonaro e as pesquisas, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques é aliado dos Bolsonaros, mas a AtlasIntel precisa se explicar

Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual presidente do TSE, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.

A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro acusa de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.

A suspeição de Moraes, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Suspeito pedindo contra suspeito. Flávio Bolsonaro pedindo ao Supremo que declare a suspeição de Alexandre de Moraes para julgar sobre Daniel Vorcaro e o Master. Alguém, cujas relações com Vorcaro exigem investigações, pedindo ao Supremo que declare a suspeição de ministro para julgar – no caso concreto – sobre os repasses do banqueiro ao filme Dark Horse. As relações de Moraes com Vorcaro a também exigirem investigações.

Relações Brasil–EUA: decifra-me ou devoro-te, por Rubens Barbosa*

O Estado de S. Paulo

A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica

Os EUA estão cada vez mais presentes na política interna e externa do Brasil. Quatro recentes decisões impactaram o governo brasileiro e agitaram o cenário pré-eleitoral. São elas: a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas; a designação do novo embaixador norte-americano; os anúncios das recomendações das investigações contra o Brasil no âmbito da seção 301 da Lei de Comércio exterior de 1974 por práticas desleais e contrárias aos interesses dos EUA; e sobre trabalho forçado em produtos importados.

É um erro político grave – só explicável em função da política interna – considerar essas medidas como resultado de pressão por parte da família Bolsonaro sobre o governo em Washington. As medidas têm a ver com a nova visão global dos EUA, refletida na Estratégia de Segurança Nacional, cujo foco principal de interesse norte-americano é a América Latina.

Nuvens pesadas na economia em meio à eleição, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

O cenário econômico nacional já seria complexo por si só, não fossem dois complicadores adicionais. O primeiro são os fatores externos, como as ações do governo Trump e a guerra no Oriente Médio. O segundo fator é a disputa eleitoral

O boletim Focus, divulgado nessa segunda-feira, anuncia nuvens cada vez mais carregadas no cenário econômico brasileiro. Pela 13ª semana consecutiva, a mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 registrou alta. Subiu de 5,09% para 5,11%, ampliando a distância em relação ao teto da meta de inflação, definido em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional. As projeções também são pessimistas em relação à taxa de juros. Segundo o relatório Focus, a expectativa em torno da Selic passou 13,25% para 13,50% ao ano. Até o mês passado, a estimativa era de 13% para a taxa referencial.

Hora de sancionar a lei da Caatinga, por Sergio Leitão e Rafael Giovanelli *

Correio Braziliense

O que está em jogo é a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento para o semiárido, baseada em segurança hídrica, produção sustentável de alimentos, geração de empregos, adaptação às mudanças climáticas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viveu na pele os desafios da seca no sertão nordestino, tem diante de si a oportunidade de corrigir uma omissão histórica e transformar a recuperação da Caatinga em um compromisso permanente do Estado. A sanção do Projeto de Lei (PL) 1990/2024, aprovado pelo Congresso Nacional, instituirá a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga, criando o primeiro marco legal brasileiro voltado especificamente à recuperação de um bioma.

A importância dessa decisão vai muito além do ambientalismo. O que está em jogo é a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento para o semiárido, baseada em segurança hídrica, produção sustentável de alimentos, geração de empregos, adaptação às mudanças climáticas e combate à desertificação.

PIX novamente sob ataque, por Dão Real Pereira dos Santos*

Correio Braziliense

Em um país em que a renda média da população é de pouco mais de R$ 3 mil mensais, faz todo o sentido priorizar a redução de custos referente aos meios de pagamento

Há cerca de um ano e meio, o Pix sofria seu primeiro ataque massivo. Uma enxurrada de fake news, liderada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), fez milhares de brasileiros acreditarem que seriam tributados em suas movimentações financeiras. As consequências desse episódio tiveram reflexo imediato na economia real, impulsionando o governo federal a adiar em sete meses a implementação de uma Instrução Normativa da Receita Federal essencial no combate ao crime organizado e que nada tinha a ver com qualquer taxação do Pix. Essa normativa apenas amplia para fintechs obrigações de prestação de informações que já tem sido exigida dos bancos tradicionais e que fortalece mecanismos de rastreamento de operações utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. 

Agora, o governo norte-americano, por meio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), afirma que o Banco Central do Brasil teria criado uma situação de concorrência desleal ao desenvolver, operar e regular o sistema, supostamente prejudicando empresas norte-americanas de pagamentos eletrônicos. Ou seja, um governo estrangeiro ataca de forma explícita o Pix para proteger interesses privados de seu país.  

O futuro não está na polarização, por Eduardo Pedrosa*

Correio Braziliense

O futuro não está na polarização. Está na capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em inimigos

Existe um erro histórico que a centro-direita brasileira precisa ter a coragem de reconhecer. Durante décadas, enquanto a esquerda disputava universidades, movimentos estudantis, sindicatos, produção cultural, editoras e espaços de formação intelectual, a direita concentrou seus esforços nas eleições, na economia e na gestão pública. A esquerda pensava em décadas. A direita pensava em governos. E, talvez, seja impossível compreender o Brasil de hoje sem entender essa diferença.

A política não começa na urna. Ela começa muito antes, nos lugares onde uma geração aprende a interpretar o mundo. Foi isso que Antonio Gramsci percebeu ao desenvolver o conceito de hegemonia cultural. Quem influencia a educação, a cultura e os formadores de opinião influencia a forma como a sociedade pensa. E quem influencia a forma como a sociedade pensa acaba, inevitavelmente, influenciando a política.

Poesia | O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Teresa Cristina - Com que roupa (Noel Rosa)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Nota sobre relações de força, por Antonio Gramsci *

As notas escritas a propósito do estudo das situações e do que se deve entender por “relações de força”.  O estudo sobre como se devem analisar as “situações”, isto é, sobre como se devem estabelecer os diversos níveis de relação de forças, pode servir para uma exposição elementar de ciência e arte política, entendida como um conjunto de regras práticas de pesquisa e de observações particulares úteis para despertar o interesse pela realidade efetiva e suscitar intuições políticas mais rigorosas e vigorosas.  Ao mesmo tempo, é preciso expor o que se deve entender em política por estratégia e tática, por “plano” estratégico, por propaganda e agitação, por “orgânica” ou ciência da organização e da administração em política.  Os elementos de observação empírica que habitualmente são apresentados de modo desordenado nos tratados de ciência política (pode-se tomar como exemplar a obra de G. Mosca: Elementi di scienza politica) deveriam, na medida em que não são questões abstratas ou sem fundamento, ser situados nos vários níveis da relação de forças, a começar pela relação das forças internacionais (onde se localizariam as notas escritas sobre o que é uma grande potência, sobre os agrupamentos de Estados em sistemas hegemônicos e, por conseguinte, sobre o conceito de independência e soberania no que se refere às pequenas e médias potências), passando em seguida às relações objetivas sociais, ou seja, ao grau de desenvolvimento das forças produtivas, às relações de força política e de partido (sistemas hegemônicos no interior do Estado) e às relações políticas imediatas (ou seja, potencialmente militares).

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fundo eleitoral e emendas distorcem a competição política

Por Folha de S. Paulo

Partidos, que receberão R$ 4,9 bi em dinheiro do contribuinte, deveriam buscar na sociedade seu sustento

Volta de doações de empresas seria um primeiro passo; parlamentares decidem cada vez mais o destino dos impostos, mas de forma degradada

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou a divisão de recursos do fundo eleitoral entre os partidos políticos. Como já era sabido, vultosos R$ 4,9 bilhões foram destinados no Orçamento para financiar campanhas neste ano.

Agremiações com desempenho eleitoral melhor na disputa mais recente por vagas no Congresso Nacional levam as maiores fatias desse Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O PL, de Jair Bolsonaro, ficou com a maior parcela, R$ 881,6 milhões, seguido pelo PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 615,3 milhões.

Entrevista: Lula vai ter mais de um palanque em vários estados para aproximar o centro, diz Wellington Dias

Por Victoria Azevedo – O Globo

Futuro integrante da coordenação da campanha, ministro do Desenvolvimento Social diz que erro do primeiro mandato foi não consolidar maioria no Congresso e prevê aproximação de partidos a partir de alianças aos governos locais

— BRASÍLIA - O ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) afirma que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser acompanhada por uma articulação voltada ao centro político. Em entrevista ao GLOBO, o ministro avalia que o principal erro do terceiro mandato foi não consolidar uma maioria simples na Câmara e no Senado, diz que faltou cuidado e atenção na relação com os aliados, e defende a construção de palanques estaduais capazes de assegurar governabilidade em um eventual novo mandato.

Dias atuará na coordenação de campanha da reeleição ao petista, com foco na região Nordeste. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, o ministro afirma que é preciso retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defende a prerrogativa de Lula em reenviar o nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e diz que a atuação de Flávio Bolsonaro (PL) junto ao governo Donald Trump que resultou na classificação do PCC e do CV como organizações terroristas é para “abafar o escândalo do Master”.

Os temas que vão decidir a eleição deste ano, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Com situação fiscal comprometida, debate entre Lula e Flávio Bolsonaro passa mais por questões regulatórias do que políticas públicas tradicionais

Lula e Jair Bolsonaro mediram forças dois anos após a deflagração da pandemia. E apesar de ter ceifado a vida de mais de 700 mil brasileiros, a covid não foi o tema principal da eleição mais disputada da história.

Nos debates e na propaganda eleitoral de 2022, Lula se concentrou mais na defesa da democracia e na garantia de que manteria o Bolsa Família em R$ 600 e que retomaria os reajustes reais do salário-mínimo. Uma vez eleito, iniciou seu terceiro mandato com o slogan “União e Reconstrução”. Em agosto do ano passado, porém, sentindo a recuperação da popularidade após o tarifaço e a abertura de investigação contra o Brasil por Trump, os marqueteiros de Lula trocaram o mote para “Do lado do povo brasileiro”.

Qual é o tamanho do ativismo fiscal do governo em 2026? Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Impacto das medidas expansionistas neste ano deve ser de R$ 215 bilhões, enquanto as iniciativas que elevam a receita totalizam R$ 109 bilhões, estima Marcos Mendes

O governo intensificou o uso de medidas de expansionismo fiscal desde meados do ano passado, com impactos que superam R$ 200 bilhões neste ano. Há iniciativas de caráter financeiro, extraorçamentário e mesmo primário que não impactam o teto de gastos do arcabouço, mas todas afetam a dívida pública, já em trajetória de alta forte, superando 80% do PIB no caso do endividamento bruto. Ao mesmo tempo, há uma busca por aumento de receitas, em vários casos por meio de tributos regulatórios que prejudicam a produtividade da economia, aponta o economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, responsável por essas avaliações e estimativas, em nota para a XP Investimentos.

O Brasil da renda média, para menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Parece que os problemas de fundo só aparecem nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média, para menos

Não sei se prestaram atenção, mas o ambiente econômico piorou nas últimas semanas. Há muitas causas para isso, mas a mais importante é a percepção de que a inflação está de novo em alta. E, se é assim, a taxa básica de juros não pode mais cair. Ou, como dizem os economistas, reduziu-se o espaço para o Banco Central cortar a Selic, atualmente no nível, elevado, de 14,5% ao ano.

A guerra no Oriente Médio é parte do problema. Petróleo mais caro, e bem mais caro, causa inflação no mundo todo, mas pegou a economia brasileira no contrapé. O ambiente parecia bem positivo: inflação em queda, crescimento do PIB, rendimentos do trabalho em alta, desemprego em baixa recorde, dólar comportado. Com o Banco Central cortando a taxa de juros, então, era um resultado dos sonhos. Desinflação com expansão econômica.

.A nobreza dos novos imaginários, por Preto Zezé

O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Coalizões da impunidade nem sempre vencem, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O desejo de retaliar a Justiça pode estar presente. A capacidade de fazê-lo, não

O que acontece quando líderes políticos poderosos são condenados? A resposta mais intuitiva é que a condenação fortalece a democracia. Afinal, ela sugere que ninguém está acima da lei e aumenta os custos de futuros desvios.

Mas em um artigo ainda preliminar e provocativo, os cientistas políticos Luciano Da Ros e Manoel Gehrke chamam atenção para a reação dos próprios políticos. Os autores mostram de forma comparada que condenações de ex-chefes de governo (entre 1946 e 2025) frequentemente são seguidas por reformas que reduzem a independência e os poderes do Judiciário. A lógica é simples. Quando um líder poderoso é condenado, a mensagem enviada aos demais políticos é que eles podem ser os próximos. Em vez de aceitarem passivamente esse novo risco, passam a apoiar mudanças institucionais capazes de limitar o Sistema de Justiça.

Corrupção, segurança e eleições, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Temas negativos na agenda pública alimentam sentimento de mudança e penalizam incumbentes

Embora corrupção não seja critério definidor para maioria do eleitorado, ela faz parte do processo da psicologia do voto

corrupção voltou a ocupar lugar de destaque na agenda pública, e não poderia ser diferente. Dois megaescândalos vieram à tona recentemente: INSS Master. Seus desdobramentos ainda estão em curso, mas irão marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos associados a emendas orçamentárias reverberam a questão. Haverá intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante: ela alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.

Tecido esgarçado, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ainda há setores que resistem à ideia de reparação aos descendentes dos escravizados

Racismo opera para impedir ou dificultar a ascensão de pessoas pretas e pardas

Comparo as relações étnico-raciais no Brasil a um tecido esgarçado, surrado pelo atrito e prestes a se romper pelo desgaste contínuo causado pela violação ou negação sistemática de direitos à população negra.

Sei bem que este é um país racista (machista, misógino e homofóbico também). Essa consciência me impede de nutrir a pretensão de contar com a concordância "de geral" em relação ao que penso e escrevo.

Nasce um otário por segundo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores

Quem serão esses milhões que seguem Camila Pudim, Pamela Fuego e Leuriscleia?

Perguntaram-me quantos "seguidores" eu calculava que tivesse. Embatuquei: "Sei lá, nunca pensei nisso. Acho que nenhum". O outro insistiu: "Não é possível. Você está na imprensa há milhões de anos, escreve livros, dá entrevistas. É um dos principais influencers do país". Reagi com "Deus me livre, imagine a responsabilidade de influenciar alguém, de ser responsável por algo que uma pessoa faça ou deixe de fazer!". É verdade. Mal consigo dar conta de mim mesmo e meus gatos Bing, Dixie e Bizu acham ridículas minhas tentativas de ensiná-los a miar em francês. Além disso, em que um "influencer" influencia seus "seguidores"?

Um Homem de Muitos Séculos[1] por Elimar Nascimento *

Revista Será?  Nº 712, 05/06/2026

Edgar est mort: foi assim que nos chegou a notícia do falecimento do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, às vésperas de completar 105 anos, por sua filha Véronique. Era uma tarde de sexta-feira (29). Estávamos em um carro na Asa Norte (Brasília) retornando para casa, e um silêncio pesado se abateu sobre nós. Há algumas semanas ele lutava contra uma septicemia em Paris. Marianne Cohen, sua sobrinha, que estava conosco, o tinha visitado na terça-feira (26), antes de viajar ao Brasil. Sabíamos, portanto, dos riscos que sofria, mas tínhamos a esperança de que aquele que venceu o nazismo, o estalinismo e a perseguição por seu pensamento fora da curva resistiria ainda e mais uma vez.

O fracasso do socialismo autoritário, por Antonio Fausto do Nascimento*

Abertura dos arquivos da extinta URSS possibilitou o conhecimento público da escravidão dos gulags e dos crimes em larga escala, praticados em setenta anos de poder soviético.

Avultam pesquisas históricas e acadêmicas. Orlando Figes, da Universidade inglesa de Cambridge, foi um dos melhores pesquisadores com A TRAGEDIA DE UM POVO, livro que levou mais de seis anos para ser escrito (1).

Durante os últimos decênios do czarismo, milhões de camponeses foram afastados das áreas rurais. A população urbana quadruplicou. Não havia legislação trabalhista e previdenciária. As conquistas dos trabalhadores britânicos e alemães permaneciam fora do alcance do operariado russo, na virada do século XIX. As fabricas estavam lotadas de maquinas obsoletas e perigosas, os acidentes do trabalho eram frequentes.

A partir de 1905, acentuado aumento das greves e protestos e primeira greve geral. Entre 1906/1909, mais de cinco mil presos políticos foram executados e outros milhares, condenados a prisão e trabalhos forçados.

Poesia | HINO NACIONA, de Carlos Drummond de Andrade | por Bruna Kalil Othero

 

Música | Nara Leão - Camisa Amarela (Ary Barroso)

 

domingo, 7 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Espaço para a queda dos juros se reduziu

Por Folha de S. Paulo

Impacto inflacionário da guerra no Oriente Médio e do El Niño se soma ao de medidas eleitoreiras de Lula

Cenário torna complexa a próxima decisão do BC; política monetária mais dura aumentará o estresse financeiro da população e do governo

Novamente, o cenário econômico brasileiro se deteriora de forma visível, o que tende a frustrar a expectativa de que a taxa Selic, do Banco Central, pudesse cair de modo mais consistente ao longo deste 2026.

O que parecia um ciclo de afrouxamento monetário controlado deu lugar, em poucas semanas, a um estreitamento dramático do espaço para alívio.

Os fatores externos ajudam a explicar o aumento do risco inflacionário. Como resultado do conflito no Oriente Médio, o barril de petróleo Brent tem se mantido acima de US$ 90, elevando os custos de diesel, fertilizantes e de insumos industriais em geral.

Ao mesmo tempo, o fenômeno climático El Niño promete impacto na produção e nos preços de alimentos. Projeções de mercado já apontam para encarecimento da alimentação no domicílio em torno de 7%, o dobro do esperado no início do ano.

As interferências na luta eleitoral, por Míriam Leitão

O Globo

A democracia fica vulnerável quando a extrema direita faz uso da religião como estratégia política. A Justiça Eleitoral tem dificuldade de punir a prática

Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.

Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.

O mal-estar social, por Merval Pereira

O Globo

Joaquim Falcão diz que mal-estar social é quando a lei passa a servir de instrumento de manutenção do status quo, e não de transformação, os interesses particulares se sobrepõem aos públicos

As oligarquias são arranjos sociais que se aproveitam do processo democrático para se beneficiar, a história registra. Mas, pela primeira vez ela “é produzida pelo Estado dentro dele próprio. Vem das autoridades, das ambições internas. Do progressivo descolamento entre o eleitor e o Estado Democrático de Direito”. Este é o ponto de partida, e também de chegada, do novo livro do jurista Joaquim Falcão “A Oligarquia dos Poderes”, que estará nas livrarias no dia 2 de julho pela História Real, um selo da editora Intrínseca.

Não haveria melhor momento, diante da crise da democracia que estamos vivenciando, nem melhor autor, para desvendar esse processo. Falcão é membro da Academia Brasileira de Letras, foi um dos fundadores do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criou e dirigiu por anos a Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas no Rio, responsável por um estudo seminal sobre o STF, o “Supremo em números”, que revelou pela primeira vez a exorbitância do uso das medidas monocráticas que desvirtuaram o colegiado. Ele explica no livro como os oligarcas da atualidade “capturam a lei pelo texto, pela aplicação e pela interpretação”.

O custo dos agrotrogloditas, por Elio Gaspari

O Globo

Relatório dos EUA cita Moratória da Soja pelo qual grandes exportadoras se comprometem a não comprar commodity plantada em área de desmate

Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.

Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.

O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)

Era no tempo do Lalau, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em testemunho inédito, ex-presidente narra manobras do Congresso para sangrar o orçamento na República Velha

Esqueça o Brasil polarizado de hoje. Em 1914, a eleição presidencial teve um único candidato: Wenceslau Braz. O mineiro foi ungido pela política do café com leite, pacto de oligarquias rurais que dirigia a República Velha. Sem adversários após a desistência de Ruy Barbosa, só precisou vencer a própria insegurança para assumir o poder.

“Me julgava pequenino ante tamanha responsabilidade”, confessa, em depoimento que chega às livrarias nos 60 anos de sua morte. “Convicção de meu pouco preparo ou comodismo, o certo é que o posto mais alto jamais aspirei”, justifica-se.

Algo de novo no ar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com a crise nacional de lideranças, Ricardo Couto surge como novidade justamente no sofrido Rio

Mais um governador do Rio de Janeiro desembarca de pires na mão em Brasília nesta semana, mas este, o desembargador Ricardo Couto, parece bem diferente de sete anteriores que tiveram problemas na Justiça, cinco deles sendo presos. O Brasil busca desesperadamente sangue novo na política e na gestão, vamos ser otimistas?

Não só por Couto ser desembargador, porque o precedente de Wilson Witzel, que caiu no meio do mandato, é uma vergonha para a magistratura e um dos traumas do Estado. Mas Witzel é Witzel, Couto é Couto, buscou os apoios certos e parece determinado a fazer a diferença.