domingo, 22 de abril de 2018

Opinião do dia: Alberto Aggio*

Haveria que superar conceitos e preconceitos nesta hora e pensar no reformismo como uma estratégia ampla e plural que abrigaria ações incrementais de mudança, sempre no interior dos marcos da democracia. O reformismo trava uma árdua batalha para renovar a si mesmo em meio a ataques do maximalismo de direita, que empastela tudo como sendo “comunista”, e daqueles que, afirmando o caráter histórico da grande transformação como uma época de transição, advogam por uma ruptura com a chamada “lei dos consensos”, que supostamente bloqueia a democracia. Recentemente, foi esse o fulcro do embate eleitoral nos Estados Unidos, na Alemanha e na Itália, que resultou em maiores ou menores derrotas do reformismo.

Revolta e rechaço unem de maneira funcional, mas pouco lógica, duas pontas distantes num combate sem tréguas ao reformismo. E este, por sua vez, deverá jogar sua sorte na sua capacidade de projetar transversalidades programáticas voltadas para as respostas exigidas por uma sociedade globalizada e em transformação permanente. É ainda uma luz para uma história que não está finalizada.
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* Alberto Aggio é historiador, professor titular da Unesp. “Descaminhos e batalhas do reformismo”, O Estado de S. Paulo, 21/4/2018

FHC e os males do Brasil

Em novo livro, o ex-presidente fala do descompasso entre o avanço da sociedade e o atraso dos sistemas políticos

Por Roberto Pompeu de Toledo | Revista Veja

Há um grito parado no ar. Assim reza a primeira linha do primeiro capítulo de Crise e Reinvenção da Política no Brasil, o novo livro de Fernando Henrique Cardoso, que chega neste fim de semana às livrarias. O grito é de uma sociedade perplexa e indignada com a corrupção e o desgoverno, mas também de uma “classe política” acuada e desnorteada e, não menos sonoro, de analistas que tateiam no escuro em busca do sentido destes dias. “Vivemos uma aceleração da história”, afirma o autor, mais adiante. “Crises e mutações se sucedem e causam uma sensação de vertigem.” Retomando Marx, acrescenta: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”. E, insistindo em Marx, agora na afirmação famosa de que os filósofos apenas interpretaram o mundo, quando o importante é transformá-lo, conclui: “Mais do que nunca, é imperativo interpretar o mundo para poder transformá-lo”.

O livro, adverte Fernando Henrique no prefácio, teve a participação do cientista político Sergio Fausto e do diplomata Miguel Darcy de Oliveira, ambos colaboradores do instituto que leva o nome do ex-presidente, com os quais houve “uma intensa troca de opiniões, correções e agregações de textos”. O processo de elaboração teve por base quinze longas entrevistas comandadas pelos dois parceiros. Nem por isso a obra é menos FHC, que a conduz em primeira pessoa, salpica-a de experiências vividas em seus mandatos e deixa sua marca a cada parágrafo. Os temas tratados são múltiplos, da derrocada do PT à reforma da Previdência, Trump, Macron e Brexit, mas grosso modo o livro se organiza em torno de três eixos: (1) as diferenças entre a sociedade atual, que ele chama de “contemporânea”, nascida nos anos 1990, e a sociedade “moderna” que a antecedeu; (2) a discrepância entre os avanços da sociedade e o atraso dos sistemas políticos; e (3) que fazer?. As habilidades do sociólogo e do político, ambos em boa forma aos 86 anos, combinam-se num trabalho que é também uma peça de combate, com um olho na eleição deste ano e além.

1. O contemporâneo e o moderno
A sociedade moderna era mais fixa e previsível. A grande clivagem eram as classes sociais, e as demandas se organizavam por meio de coletivos como os partidos e os sindicatos. “A despeito das tensões da guerra fria (…), os fluxos de capitais eram comparativamente pequenos e menos voláteis; o comércio internacional crescia, mas as empresas, mesmo as multinacionais, operavam dentro das fronteiras dos Estados nacionais; as tecnologias de produto e de processo, que se haviam transformado com a guerra, se estabilizaram no momento posterior.” Nos anos 1990 entram em fase acelerada de evolução avanços tecnológicos na nanotecnologia, na internet, na robotização. As grandes empresas pulverizam suas fábricas entre diferentes países ao mesmo tempo em que os mercados se interconectam, tudo com o objetivo de “concentrar os centros de criatividade, dispersar a produção em massa para locais de mão de obra abundante e barata e unificar os mercados, sobretudo financeiros”. Acrescente-se a incomparável revolução nas comunicações e está dada a partida para a transformação da sociedade moderna em contemporânea. A televisão é moderna; a internet é contemporânea.

• “A fantasia romântica de que a representação política deve espelhar diretamente a vontade da sociedade só é realizável como farsa totalitária”

“Sociedades novas não quer dizer ‘boas sociedades’”, adverte Fernando Henrique. A globalização produzirá ganhadores e perdedores. Na nova sociedade as classes sociais não têm a preeminência de antes, no papel de grande divisor das lutas políticas; ganharam a concorrência de fatores de identidade como o gênero, a raça, a religião, a orientação sexual. Os sindicatos e os partidos perderam terreno para os movimentos e, sobretudo, para o indivíduo informado e conectado. “Tomando emprestado conceitos usados por intelectuais como Manuel Castells, Anthony Giddens e Ulrich Beck, as pessoas tendem a ser mais inteligentes, rebeldes e criativas do que no passado, na medida em que são chamadas a fazer julgamentos de valor e escolhas na vida onde, antes, havia conformidade com um destino preestabelecido.” Fernando Henrique afirma ter sido educado na ideia de que o indivíduo era contra o coletivo, e que “o bom é coletivo; o indivíduo significa egoísmo”. O indivíduo de hoje, no entanto, não é egoísta, mas participante. “Cidadãos informados e alertas não aceitam o papel de plateia passiva. Não querem ser espectadores, mas atores.”

2. Sociedade e política
O avanço da sociedade não foi acompanhado pelos sistemas políticos. Há um descompasso e um estranhamento entre um mundo e o outro. “O desafio está justamente em encontrar — ou inventar — as formas mais propícias à reconexão entre ‘o mundo da vida e da sociedade’ e ‘o mundo das instituições e do Estado’.” Tão apartado está o Estado das aspirações da sociedade que virou um estorvo. “A visão dominante em minha geração era a de que o Estado deveria defender a nação das arremetidas do imperialismo e proteger os pobres da superexploração da empresa privada.” Hoje o Estado “não só é grande como gorduroso” e apresenta um custo elevado a seu patrocinador, a sociedade. O Estado é identificado com “as corporações, os privilégios, a distribuição regressiva da carga tributária, o crédito subsidiado às empresas amigas do rei”. Sua grande e insubstituível função de provedor de “políticas públicas universalizadoras” fica obscurecida pelo acúmulo do acervo negativo.

Igual desprestígio atinge os partidos. Segundo o cientista político Jairo Nicolau, o Congresso atual, com seus 25 partidos, apresenta a maior fragmentação partidária entre todas as democracias do mundo nos últimos setenta anos. Salvo PSDB, PT e uns poucos mais, os partidos “se opõem uns aos outros sem que se saiba por quê”. O cidadão não se sente — nem é — representado. Representados são grupos de interesse — “da educação, dos donos de hospital, dos planos de saúde, dos bancos, dos ruralistas, da ‘bala’, e por aí afora” — pelos quais se mobilizam frentes suprapartidárias. Os partidos se organizam em diretórios nos quais se travam as disputas internas de poder. Ora, o cidadão está pouco se importando com isso. Importa-lhe “batalhar por uma causa: direitos humanos, meio ambiente, mulheres, gays, antirracismo”, questões às quais os partidos se mantêm alheios. “A desconexão entre a sociedade e a política é abissal.”

• “Getúlio se dirigia a “trabalhadores”. “No mundo de hoje, os políticos falam com as pessoas”

Bolívar Lamounier*: O outubro de nossas preocupações

- O Estado de S. Paulo

Dependendo das eleições, a situação do País pode melhorar um pouco ou piorar muito

O script é difícil e o elenco deixa a desejar. Essa a proposição dominante a respeito da eleição presidencial e de seus efeitos na recuperação econômica do País. Dela podemos derivar uma conclusão provisória: em 2019 o quadro pode melhorar um pouco ou piorar muito.

Sobre o script não precisamos alongar-nos muito. O governo Temer conseguiu evitar o desastre iminente que se delineou durante o segundo mandato de Dilma Rousseff e chegou a aprovar alguns projetos importantes no Congresso Nacional. Mas ao entrarmos no ano eleitoral as coisas tornaram-se mais difíceis, o tsunami da corrupção pôs toda a classe política em xeque e as relações do Executivo com o Legislativo tornaram-se escorregadias, para dizer o mínimo. Não passamos nem a reforma da Previdência, com o que a questão fiscal continuará a pairar sobre o País como uma espada de Dâmocles, premonição de um possível retrocesso.

Mas a variável-chave, como comecei a dizer, é o elenco. Temos aí uma dúzia e meia de candidatos ou quase candidatos, todos por enquanto muito débeis, nenhum que arrebate os corações e as mentes. O aspecto mais curioso – para não dizer patético – é a óptica pela qual os analistas e observadores tentam decifrar esse caleidoscópio. A maioria se contorce para tentar encaixá-los na dicotomia esquerda x direita. Poucos se dão conta de que esse esquema já deu o que tinha para dar. Os augures (adivinhos) da Antiguidade provavelmente chegariam mais perto da realidade, pois se contentavam em examinar o voo de certas aves ou as entranhas de certos animais, e aí diziam qualquer coisa, o que lhes viesse à mente. Os príncipes ficavam contentes e iam ou não à guerra conforme a “previsão” que lhes era passada.

Os termos esquerda e direita, como se recorda, provêm da Revolução Francesa; surgiram como indicativos das posições ocupadas na Assembleia Nacional pelos jacobinos e girondinos. Assumiram, desde então, pelo mundo inteiro, inúmeros significados, adaptando-se aos interesses políticos das forças em confronto em cada país. 

Eliane Cantanhêde: Joaquim


- O Estado de S.Paulo

Ex-STF tem de conquistar eleitores antes de anular condições negativas

Joaquim Barbosa tem todas as condições subjetivas para se tornar a maior novidade da eleição, mas ainda lhe faltam as condições objetivas para virar o primeiro negro presidente da República, assim como foi o primeiro a ocupar uma cadeira no Supremo e a presidi-lo. A diferença é que, agora, seria pelo voto popular.

Síntese dos principais candidatos, Joaquim tem os seus predicados sem ter seus “defeitos”, mas não tem um partido organizado como o PT, ou simpático à elite como o PSDB ou com ramificação e tempo de TV como o MDB.

A exemplo do ex-presidente Lula e de Marina Silva, se identifica com a maioria do povo brasileiro e é uma referência, pois saiu de família humilde e “subiu na vida”. E, como Marina, tem uma sinceridade rara na política. Se ela diz que será “um milagre do povo e de Deus” se vencer com segundos de TV, Joaquim admite que ainda “não se convenceu” de ser candidato.

Mas, diferentemente de Lula, ele não está preso, não sofre oito inquéritos, não é acusado de promiscuidade com empreiteiras nem de ter fatiado a Petrobrás entre os partidos, e os fundos de pensão entre sindicalistas. Ao contrário, carrega a marca do julgamento do mensalão, tal como Sérgio Moro, a do petrolão.

E, ao contrário de Marina, ele nunca foi testado numa campanha política, nunca se expôs às provocações de adversários, a investigações e a perguntas espinhosas da mídia. Pelo menos, não na mesma intensidade de Marina. Sabe-se muito de suas qualidades e pouco dos seus defeitos.

Joaquim disputa com Bolsonaro a imagem de “não-político”, verdadeira no caso do ex-ministro e falsa no do ex-militar, que não só faz política há um quarto de século como pôs a ex-mulher e os três filhos na política. E dá para comparar o seu temperamento com o de Ciro Gomes: explosivos, não levam desaforo para casa. Mas a coleção de atritos e desaforos de Ciro (ainda) é muito maior.

Vera Magalhães: Eleitor solteiro procura

- O Estado de S.Paulo

Joaquim Barbosa deu pinta de ser um pretendente para o eleitor solteiro casar

Para além de cruzamentos, cenários e estratificações, o quadro geral pintado pela pesquisa Datafolha – a primeira após a retirada de Lula do páreo – mostra um eleitorado ainda à procura de um candidato para chamar de seu.

A superpopulação de postulantes nanicos lembra aqueles reality shows de namoro em que mocinhas casadoiras recebem ofertas de dúzias de pretendentes para os quais dão de ombros, entediadas.

Os poucos que conseguem angariar um punhado de votos ainda não dão pinta de que vão ser “o” ou “a” escolhido(a). O que parece faltar na plêiade de candidatos são os atributos buscados por esse eleitor-noiva que já passou por tantos relacionamentos frustrantes e que acabaram mal que está mais cético desta vez.

Fernando Henrique Cardoso diz que Geraldo Alckmin é maratonista, por isso crescerá mais adiante. Ele e a maioria dos partidos parecem raciocinar segundo os cânones que ditaram as campanhas até aqui: estrutura partidária e alianças amplas garantiriam muito tempo de TV e, automaticamente, passagem ao segundo turno.

O PT, por sua vez, retarda a estratégia eleitoral baseado na crença de que Lula será capaz de realizar, mesmo preso, o milagre da transferência de votos que operou com Dilma Rousseff.

Será que esses mandamentos das campanhas continuam válidos em 2018, pós-Lava Jato? Me parece que candidatos e partidos subestimam o efeito que a operação terá sobre a decisão de voto. Comparar a situação de hoje com a de 2006, quando Lula se reelegeu a despeito do mensalão, é outro erro. Ali a economia ia de vento em popa, o então presidente escapou de ser tragado pelo furacão e o que se tinha era um esquema bem menos abrangente que o revelado agora. Mais: não havia ninguém condenado ou preso nem figuras com o peso simbólico de um Sérgio Moro do outro lado.

Míriam Leitão: As incertezas de 2018

- O Globo

Voto anticorrupção atingirá os partidos protagonistas.

Nos últimos 20 anos, ou cinco eleições, o principal embate foi entre PT e PSDB. Neste ano, os dois partidos mais competitivos do país nas eleições presidenciais, nessas duas décadas, estão feridos pelas investigações de corrupção. A incerteza será a marca desse processo e ela pode persistir até a boca da urna, os cenários eleitorais estão em aberto.

O cientista político Jairo Nicolau tem sustentado que é errado comparar a atual eleição com a de 1989 como costumeiramente tem sido feito. Argumenta, com gráficos que tem postado em suas contas nas mídias sociais, que o ex-presidente Fernando Collor liderou as intenções de votos durante a campanha. Ele começa seu gráfico faltando 165 dias para a eleições. Hoje faltam 168 e não há um favorito claro. O ex-presidente Lula, que lidera as pesquisas, será, provavelmente, declarado inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Em 1989, a disputa que houve foi em torno do segundo lugar. Collor estava com 43% das intenções de voto em junho. Caiu, após o início do horário eleitoral, mas foi para o segundo turno com 28,5% dos votos. Lula estava com 8% e Brizola com 15%. Lula cresceu, com o programa eleitoral e, no final, com 16,08%, ultrapassou Brizola. A grande incerteza, portanto, era quem disputaria com Collor. “O quadro de 2018 é de uma imprevisibilidade nunca vista em nenhuma eleição brasileira", disse Jairo Nicolau no Twitter.

De fato, visto por esse ângulo, 1989 não parece tão incerto. Mas houve mudanças e momentos dramáticos. Em março, Collor estava com 9%, Lula com 16% e Brizola, com 19%, segundo o livro “A Era Collor”, de Rodrigo de Carvalho. No segundo turno, houve um momento de empate nas intenções de voto. Faltavam três dias para as eleições, quando o Datafolha registrou 46% para Collor e 45% para Lula. A votação foi no dia 17 de dezembro. Ou seja, a eleição de 1989 foi suficientemente incerta. O que Nicolau está dizendo é que esta será ainda mais. De igual entre 1989 e 2018 o que há é a alta rejeição do presidente em exercício. Na véspera das eleições, 65% consideravam o governo Sarney ruim ou péssimo, segundo o Datafolha. Hoje, 70% têm essa avaliação de Temer.

Merval Pereira: O papel dos advogados

- O Globo

Num momento em que os advogados estão na berlinda, tão criticados quanto necessários nesses tempos de Lava-Jato, o advogado José Roberto de Castro Neves não faz por menos. Em livro recém lançado, ele simplesmente defende a tese de que os advogados salvaram o mundo, como está explicitamente no título da obra.

Na opinião arrebatada de outro advogado, Técio Lins e Silva, o livro é uma legítima defesa dos advogados, que os magistrados e membros do Ministério Público deveriam ler. Embora não fale da Lava-Jato, José Roberto a considera obra de advogados idealistas, jovens que decidiram enfrentar o sistema, como tantos outros advogados idealistas no passado, que buscavam um mundo mais justo e correto.

No fundo, avalia José Roberto, os valores que animam os procuradores, membros do Ministério Público, delegados da Polícia Federal e juízes, a fim de desbaratar a corrupção no país, são os mesmos que motivaram Calvino, Cromwell, Jefferson, Danton, Gandhi ou Mandela, todos advogados, contra injustiças que encontraram. “A mensagem é de esperança”, acredita o autor.

José Roberto tem uma visão humanista de sua profissão, vê como indispensável ao bom advogado a literatura, a História, as artes, sobretudo define o advogado como aquele que, além de falar pelo outro, deve colocar-se no lugar do outro que representa.

Especialista em Shakespeare, tem um estudo sobre a comédia “Medida por Medida” em que analisa o Direito à luz dos desdobramentos da peça. E participou de uma antologia de textos de advogados sobre Shakespeare, escrevendo sobre os canalhas que aparecem em suas peças e como eles são nossos conhecidos até os dias de hoje.

Bruno Boghossian: Nem por decreto

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- Folha de S. Paulo

De fato, é mais fácil bater no Michel Temer

“É fácil bater no Michel Temer.” A frase que o presidente decidiu levar à TV na sexta (20) soa como o slogan de sua resignação diante dos pífios índices de aprovação que ostenta. Essas palavras traduzem também –e com simplicidade– as principais causas da paralisia que se observa no Congresso e da lentidão da retomada da economia.

A impopularidade de Temer se sedimentou na entrada do ano eleitoral, dispersou ainda mais a base parlamentar do governo e praticamente eliminou as chances de avanço de pautas como a privatização da Eletrobras e a reforma tributária.

Na largada de uma campanha que será marcada pela rejeição à política tradicional, deputados e senadores preferem limitar seus pontos de contato com um presidente cuja imagem pode ser tóxica.

O principal símbolo dessa debandada foi o placar obtido pelo MDB na recente temporada de trocas partidárias. A sigla do presidente caiu de 65 deputados para 51 –maior redução entre as legendas da Câmara.

Sem apoio, o Planalto foi obrigado a absorver derrotas nas últimas semanas. Viu sua coalizão derrubar o veto ao refinanciamento de dívidas de microempresas, foi vencido por uma obstrução da base aliada na votação do cadastro positivo e ficou obrigado a colocar em marcha lenta a capitalização da Eletrobras.

Nelson Pereira dos Santos. O cineasta que refletiu o Brasil

Precursor do Cinema Novo com ‘Rio 40 graus’ e diretor de ‘Vidas secas’ morre aos 89 anos

- O Globo

Precursor do Cinema Novo e primeiro cineasta a integrar a Academia Brasileira de Letras, o diretor morreu ontem no Rio. “O morro não tem vez”, denunciava a canção de Zé Ketti levada às telas em “Rio 40 graus”, em 1955. E, até então, o morro realmente não tinha vez no cinema brasileiro — ao menos não com aquela crueza poética (ou poesia crua), num olhar influenciado pelo neorrealismo italiano. Por trás da obra que fundou muitas das bases do que viria nos anos (e décadas) seguintes, sobretudo o Cinema Novo, estava o diretor estreante Nelson Pereira dos Santos, aos 27 anos — antes, ele havia feito apenas o curta-metragem “Juventude” e a assistência de direção em “O saci”. Era só o começo da trajetória daquele que se tornaria um dos maiores cineastas do país, um diretor que buscou ler e desenhar o Brasil em cada um de seus trabalhos — até o último, o documentário “A luz de Tom” (2012), sobre o maestro Tom Jobim.

— O Nelson era tudo. Inventou um cinema que só poderia ser feito no Brasil — definiu Cacá Diegues. — É uma perda irreparável. Ele morreu, mas a obra está aí, e deve ser vista.

Em entrevista ao GLOBO em 1998, Nelson falou de seu desejo, herdado dos modernistas, de tentar lançar luz sobre o Brasil — e de como bebeu em outros criadores e intérpretes do país para fazer isso. Ele se referia a nomes como Graciliano Ramos (ele levou às telas “Vidas secas” e “Memórias do cárcere”), Machado de Assis (“Azylo muito louco”), Jorge Amado (“Tenda dos milagres” e “Jubiabá”), Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio”), Nelson Rodrigues (“Boca de ouro”), Gilberto Freyre (a série “Casa grande & senzala”) e Castro Alves (“Guerra e liberdade”).

— Sou de uma geração formada por esses escritores e outros artistas do modernismo. Uma geração que cresceu com Oswald, Graciliano, Di Cavalcanti, Villa-Lobos. Para construir um país só faltava o cinema — disse Nelson.

PRIMEIRO CINEASTA A ENTRAR NA ABL
A relação com cinema vem da infância. A mãe o levava às matinês do Cine Teatro Colombo, em São Paulo (onde nasceu, em 22 de outubro de 1928). Ali, ele passava a tarde vendo longas-metragens, seriados e desenhos animados.

Nos anos 1940, na escola, aproximou-se do comunismo, marcante na visão de mundo que imprimiria em seus filmes. Na mesma época, tomou contato com o neorrealismo italiano, que chegava ao Brasil em filmes de cineastas como Roberto Rossellini e Luchino Visconti.

Nelson chegou a se formar em Direito na USP, em 1953 — mas já saiu da universidade sabendo que seria cineasta. Foi nessa época que decidiu mudar-se para o Rio. Ainda em São Paulo, atuou também como jornalista, profissão que manteve no Rio em veículos como “Jornal do Brasil”.

A estreia com “Rio 40 graus” — filme feito com câmera emprestada pelo pioneiro do cinema brasileiro Humberto Mauro — foi celebrada, mas também gerou reações do governo, e a obra chegou a ser proibida. Ele seguiria, porém, a trilha que abrira. Dois anos depois, em 1957, fez “Rio, Zona Norte”.

Filmando documentários sobre a seca do Nordeste, Nelson pensou em fazer um filme sobre aquela realidade. Percebeu que a história que queria estava pronta, no livro “Vidas secas”, que lançaria em 1963. Antes de conseguir realizar o filme, já dentro das propostas do Cinema Novo, mergulhou no universo rodriguiano de “Boca de ouro” (1962).

Nos anos seguintes, Nelson embarcaria nas viagens alegóricas da contracultura (“Fome de amor”, “Quem é Beta?”), na comédia carioca (“El justicero”), nos cinemas históricos (“Como era gostoso meu francês”) e urbano (“Amuleto de Ogum”). Com “A terceira margem do Rio”, de 1994, ele se fez presente na chamada “retomada”. O universo de escândalos políticos do período pós-redemocratização não escapou de seu olhar — ele os retratou, em 2006, em “Brasília 18%”, que faz no título uma referência à baixa umidade da cidade.

— Não que seja uma relação determinista, de que Brasília é daquele jeito por causa das condições geográficas. Mas o clima seco e a poeira combinam bem com o que acontece por lá — disse Nelson ao GLOBO na época do lançamento.

O cineasta foi professor fundador do curso de cinema da Universidade de Brasília (o primeiro do Brasil) e também lecionou na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e na Universidade de Columbia, em Nova York. Desde 2006, era membro da Academia Brasileira de Letras — o primeiro cineasta a ocupar a posição.

Nelson estava internado desde quarta-feira, dia 12, no Hospital Samaritano, no Rio, com uma pneumonia. Durante os exames, foi constatado um tumor no fígado, já em estágio avançado, que causou a morte do diretor.

O corpo será velado hoje na ABL. Ele deixa a mulher Ivelise Ferreira, quatro filhos e cinco netos.

Paulinho da Viola & Marisa Monte - Para ver as meninas

Graziela Melo: Coração imperfeito

Meu coração
imperfeito,
cheio de dores
e mágoas,

bate
triste
no meu
peito

indiferente
ao mundo
torpe

navegando
noutras
águas...

Procura
a luz
das estrelas,
o afeto,
os sentimentos

e arquiva
no fundo
da alma,
da vida,
os melhores
momentos!!!

sábado, 21 de abril de 2018

Aos 89 anos, morre no Rio cineasta Nelson Pereira dos Santos

O artista foi nome-chave do Cinema Novo, ele estava internado havia uma semana

Roberta Pennafort | O Estado de S.Paulo

RIO - Morreu neste sábado, 21, aos 89 anos, no Rio, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos nomes fundamentais do Cinema Novo. Ele estava internado havia uma semana no Hospital Samaritano, na zona sul da cidade. Às 17 horas, a família confirmou a morte, em consequência de um câncer de fígado diagnosticado há 40 dias.

Diretor de filmes fundamentais da história do cinema brasileiro, como Rio, 40 graus (1955) e Vidas secas (1963), ele realizou os últimos longas em 2012, os documentários musicais A música segundo Tom Jobim e A luz do Tom. Além de dirigir, era também roteirista de seus filmes.

“Ele estava ótimo, não estava doente. Foi internado com uma pneumonia, na semana passada, que cedeu. Estava lúcido, mas cansado. Morreu sem dor, uma morte tranquila, com toda a família reunida”, disse a publicitária Mila Chaseliov, sua neta.

Nelson teve quatro filhos e cinco netos. “Foi um avô muito presente. A gente tinha muitas discussões intelectuais. Foi quem me ensinou a tomar uísque, num show, aos 19 anos. Eu me senti muita adulta na hora”, contou.

O cineasta participou da formação intelectual de netos, lembrou Mila. “Eu descobri como ele era importante ainda na escola. Todo mundo que eu encontro, quando descobre que sou neta do Nelson, fala do quanto ele é incrível.”

Em 2006, Nelson foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na sucessão do diplomata Sergio Corrêa da Costa. Passou a frequentar a Casa de Machado com assiduidade. Atuava na programação cultural da instituição.

Nelson nasceu dia 22 de outubro de 1928, em São Paulo. Formou-se advogado em 1952. A partir dos anos 1940, trabalhou como revisor e repórter de jornais como o “Diário da Noite” e “O Tempo”, em São Paulo.

Nos anos 1950, no Rio, trabalhou também no “Diário Carioca” e no “Jornal do Brasil”. Mais tarde, seria professor da Universidade Federal Fluminense, de cujo curso de graduação em cinema foi fundador.

O velório de Nelson Pereira dos Santos está marcado para segunda-feira, 23, na Academia Brasileira de Letras, no Rio, e o enterro vai ser realizado no Mausoléu dos Acadêmicos, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Opinião do dia: Fernando Henrique Cardoso

• O que uma eventual 3ª denúncia contra Temer representaria para o País, às vésperas da eleição?

Acho que seria insensato, porque vai ter uma luta de novo. É difícil que o Congresso a dois meses da eleição vá tomar uma posição contra o presidente. Acho que deveria ter um pouco de pensamento institucional.

• Do Ministério Público?

Inclusive. Tem de ter uma certa visão institucional do País. Se houve coisa errada, ele vai deixar de ser presidente, vai ser julgado. Por que balançar mais ainda a situação que já é em si frágil? Tem coisas tão importantes para fazer, retomar o crescimento, dar emprego, botar segurança na rua. Se fosse uma coisa afrontosa... Mas se for começar ver pelo em ovo para poder arranjar argumento para fazer um impeachment, processar presidente... Se fosse no começo do governo, eu entendo. Mas no fim, com eleição à vista? Tem de ter um pouco de moderação.

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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República. Entrevista: ‘Geraldo é um corredor de maratona’, O Estado de S. Paulo, 20/4/2018.

Alberto Aggio*: Descaminhos e batalhas do reformismo


- O Estado de S.Paulo

A revolta e o rechaço unem duas pontas distantes num combate sem tréguas às reformas

Antes divisor de águas na esquerda e mais recentemente um tema capturado por liberais de todos os matizes, o apelo às reformas sofreu um deslocamento incontestável. Após o fracasso do “comunismo histórico”, as esquerdas fragilizaram-se e o liberalismo tornou-se a nova religião civil. O aprofundamento da crise fiscal favoreceu essa nova posição do liberalismo. Até quando isso vai durar não se sabe e ambos podem naufragar nas águas volumosas da transformação epocal em curso. É um desafio para a política, que lida com o contingente, embora também lhe seja próprio o esforço de fazer previsões.

No entanto, a identificação correlata a esse deslocamento não produziu uma renovação significativa na noção de reformismo, sempre rejeitado em latitudes como as nossas. Em função da vitória da revolução cubana de 1959, o reformismo tornou-se um anátema nas esquerdas latino-americanas e, mesmo hoje, nem sequer é considerado como parte do conjunto de culturas políticas que abrigamos entre nós. À direita as reformas são, em geral, reativas, se não reacionárias, enquanto na miríade de liberais as reformas não buscam nem organicidade nem projeção histórica. São “curativas” ante os desequilíbrios diagnosticados, embora isso não seja pouco. Mas trata-se de um reformismo que dispensa uma visão minimamente elaborada da sociedade que se almeja.

Fala-se muito em reformas, como a previdenciária e a tributária, por exemplo. Mas sem apoio da sociedade não se consegue estruturar um movimento em favor delas. Em passado recente vivemos um arremedo de reformismo, que não pode sequer ser chamado de ensaio, uma vez que nenhuma reforma digna do nome foi implementada. O primeiro caso é ilustrado pelo atual governo, de Michel Temer, e o segundo, pelos governos do lulopetismo. Mas o problema vem de longe.

Nos séculos 19 e 20 a esquerda se dividiu, de forma esquizofrênica, opondo reforma à revolução. Quando admitiu o lugar das reformas em suas estratégias, cujo horizonte mais visível eram os programas de estatização da economia, revelou que ainda concebia a proposição de reformas como antessala da revolução. Os políticos e ideólogos de esquerda que haviam aderido ao sistema da democracia adotavam, em geral, uma espécie de visão revolucionária das reformas. Foi o que se passou tanto com a social-democracia europeia (até o congresso de Godesberg de 1959, quando abandonou o marxismo) quanto com Salvador Allende, no Chile, entre 1970 e 1973. Não à toa, alguns analistas irão qualificá-lo ex post como um “reformista revolucionário”. O fato é que, mesmo com o fim do “comunismo histórico”, do fracasso de Cuba e da tragédia da Venezuela, a sombra da revolução paira sobre a esquerda, fazendo com que ela não tenha claro quais reformas propor e como transformá-las num feixe de referências para sua identidade como sujeito político reformista.

Fernando Gabeira: O bloco da saudade

- O Globo

Fica difícil olhar para a frente. A questão da impunidade não foi resolvida porque há um forte núcleo de resistência no STF

O verão está no fim. Sinto pela temperatura da água, pelos ventos mais frios. Na Europa, segundo Hermann Hesse, há verão que tem morte súbita: uma trovoada, dias de chuva e ele não volta mais.

Não é adequado falar das estações do ano numa página de política. Elas nos remetem à passagem do tempo, aos lances da vida passada, e só servem para ressaltar a tristeza do momento no Brasil.

Caminhamos para uma eleição imprevisível não apenas por causa das pessoas que a disputam, mas também pela falta de dados sobre o que farão, caso cheguem ao poder.

Fica difícil olhar para a frente. A questão da impunidade não foi resolvida porque há um forte núcleo de resistência no STF.

Os ministros desse núcleo não consideram o caso encerrado, pelo contrário, estão dispostos a uma luta permanente, a uma guerrilha técnica para soltar os que estão presos e impedir a prisão dos que ainda estão na rua.

Julianna Sofia: Por uma vida menos pacata

- Folha de S. Paulo

Provável candidato, Barbosa desperta interesse e precisará revelar ideário político-econômico

Em 1º de julho de 2014, um Joaquim Barbosa que se dizia com a “alma leve” deixava precocemente o STF (Supremo Tribunal Federal) após 11 anos. Nos últimos dois, comandara a alta corte em uma gestão ruidosa, com ataques à advocacia, à imprensa, e à própria magistratura, depois de ter relatado o histórico processo do mensalão.

“A política não tem na minha vida essa importância toda, a não ser como objeto de estudo e reflexão”, declarou naquela data quando questionado sobre as chances de uma candidatura futura, em 2018. Na disputa de 2014, mesmo fora do páreo, o então presidente do Supremo chegou a pontuar 14% no Datafolha.

De lá para cá, a Operação Lava Jato ganhou tração, uma presidente da República foi impichada, seu sucessor denunciado duas vezes por suspeitas de corrupção e o antecessor, condenado e preso. O Brasil aparentemente mudou, como também aparenta ter mudado Joaquim Barbosa.

O ex-ministro é hoje o presidenciável que mais desperta o interesse do mercado, dos investidores estrangeiros, dos empresários, da mídia e do mundo político. Sua (pseudo) hesitação em oficializar-se pré-candidato tende a seguir o mesmo roteiro da filiação ao PSB, de última hora. “Eu ainda não consegui convencer a mim mesmo de que devo ser candidato”, despista, elencando ainda resistência da família e divergências regionais do partido.

Merval Pereira: Tempos estranhos


- O Globo

Estamos vivendo tempos estranhos, vive repetindo o ministro Marco Aurélio, em tom crítico, quando alguma coisa acontece no plenário do Supremo com que ele não concorde. Os ministros que formam hoje a minoria no plenário fazem parte da maioria da Segunda Turma, que é vista como mais condescendente com os réus da Lava-Jato, e Marco Aurélio, que comunga com a visão dessa maioria, está deslocado na Primeira Turma, quase sempre saindo derrotado.

Foi na Segunda Turma, por exemplo, que a Lei da Ficha Limpa foi solenemente ignorada para permitir que o ex-senador Demóstenes Torres possa se candidatar ao Senado nas próximas eleições. Cassado por seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ex-senador estava inelegível automaticamente. No entanto, os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes deram-lhe o direito de concorrer sem que a cassação de seu mandato tenha sido anulada pelo Senado.

Só assim, em tempos menos estranhos, ele poderia se livrar da Lei da Ficha Limpa, que diz expressamente que políticos condenados em segunda instância ou cassados tornam-se inelegíveis. Se três ministros do Supremo se dão ao direito de ignorar uma lei em vigor, vivemos mesmo em tempos estranhos.

O ministro Lewandowski manteve o tom crítico em seu voto em reunião recente do Supremo ao defender o direito de Paulo Maluf aos embargos infringentes, mas acabou sendo derrotado. Insinuou que o país vive um momento de exceção, como se não estivéssemos numa democracia plena.

João Domingos: Barbosa pede calma


- O Estado de S.Paulo

‘Tudo está dando certo. As pesquisas indicam uma boa aceitação do meu nome’

O PSB é hoje um partido marcado pela ansiedade. Quer definir logo, no máximo até o dia 15, a data para anunciar a candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa à Presidência da República. O partido vê no ministro aposentado potencial tão grande quanto o que via em Eduardo Campos na eleição de 2014. Campos seria o novo, o diferencial da polarização PT/PSDB que se repetiu com as candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. Mas Eduardo Campos morreu num acidente aéreo cinco dias antes do início da propaganda no rádio e na televisão.

Agora, com Joaquim Barbosa, o PSB aposta que tem outro nome para apresentar ao eleitor brasileiro que pode ser qualificado como o novo, como o foi Campos. Mas Barbosa, com seu jeitão mineiro e arisco, suas dificuldades de lidar com uma massa afoita de militantes, como são as massas nas campanhas eleitorais, e com os meios de comunicação e as perguntas inconvenientes de seus repórteres, pede calma e tempo. Aos jornalistas, disse que ainda não conseguiu convencer a si mesmo de que deve ser candidato a presidente da República. À ansiosa direção do PSB, disse que tudo está caminhando e que tudo se resolverá a seu tempo e na sua hora.

No encontro reservado que teve com os dirigentes, governadores, deputados e senadores do PSB, anteontem, em Brasília, Joaquim Barbosa virou-se para o presidente da legenda, Carlos Siqueira, e comentou: “Vamos pôr a ansiedade de lado. Vamos devagar. Tudo está dando certo. As pesquisas indicam uma boa aceitação do meu nome. O que queremos mais? Em time que está ganhando não se mexe. Então, vamos tocando”.

Rosiska Darcy de Oliveira: A hora e a vez do novo

- O Globo

O crescimento das candidaturas de Marina Silva e Joaquim Barbosa sinaliza uma aspiração à decência na vida pública

É como se após uma sufocação, voltássemos a respirar ar fresco. Vínhamos há muito tempo condenados a uma polarização alimentada pelo ódio e pelo medo, sentimentos corrosivos, que dividem pessoas e sociedades.

A escolha entre Lula e Bolsonaro deixava órfão quem, perplexo, se perguntava que maldita máquina do tempo era essa que nos atirava de volta a 50 anos atrás, quando o confronto entre direita e esquerda desembocou em 20 anos de ditadura militar.

A cena política mudou. Lula foi preso depois de um discurso em que tentou transformar um político preso em um preso político. Pregou ódio e violência talvez apostando em um conflito mais grave que, instalando o caos, fizesse de um condenado por corrupção uma vítima do arbítrio. Não conseguiu.

Bolsonaro, por sua vez, que surfava na onda de violência que desgraça o país, prometendo como solução mais violência, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelo crime de racismo. Já havia sido denunciado pela mesma PGR ao mesmo STF por incitação ao estupro.

E, por fim, o resultado da pesquisa Datafolha de intenção de votos para a Presidência da República apontando para o colapso da velha política. Lula perdeu votos, Bolsonaro empacou na votação que tinha até agora. Ascendentes, duas candidaturas, um negro, Joaquim Barbosa, e uma mulher, Marina Silva, com trajetórias de afirmação pessoal e reputação ilibada. Ambos conheceram a pobreza na infância e juventude. Nem um nem outro esqueceu o que isso significa.

As agressões de Bolsonaro contra os negros e as mulheres, ampla maioria da população, esbarram na realidade de um país em que negros e mulheres vêm levando com coragem uma luta pelos direitos que vertebram uma verdadeira democracia.

Adriana Fernandes: Derrotas a caminho

- O Estado de S.Paulo

Como já esperado neste ano, a insatisfação política com a área econômica é grande

Não será nenhuma surpresa uma movimentação de lideranças da base do Congresso para impor nova e importante derrota à equipe econômica. Crescem as críticas à falta de diálogo com os líderes dos partidos aliados ao presidente Michel Temer.

Os parlamentares reclamam que o novo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, ainda não chamou nem mesmo para uma conversa as lideranças da Câmara. Uma praxe entre os muitos salamaleques da burocracia parlamentar de Brasília.

Foi a deixa para a insatisfação chegar ao ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun. Os parlamentares ensaiam uma derrota ainda maior do que a derrubada dos vetos presidenciais das dívidas rurais, no final de março, que vão custar R$ 13 bilhões só em 2018 e que ainda não é assunto resolvido, já que o governo não tem Orçamento para bancar essas perdas.

Recado político já foi dado na votação essa semana do projeto que altera as regras do cadastro positivo na Câmara dos Deputados. Por pouco, o governo não fracassa na votação.

Míriam Leitão: Longe da verdade

- O Globo

Explicações improváveis são o padrão entre os acusados de corrupção no país. Há um traço comum entre os acusados de corrupção no Brasil. Eles dão explicações inverossímeis para os seus atos. No caso do senador Aécio Neves, ele diz que a família estava pondo a venda o apartamento da mãe, que ele estima valer R$ 40 milhões, e por isso ofereceu o imóvel ao empresário Joesley Batista, pedindo um empréstimo de R$ 2 milhões, tendo em vista essa transação futura.

Na economia não funciona assim. Quando alguém quer vender um imóvel de alto valor procura empresas especializadas. A avaliação é feita por critérios técnicos dos corretores e consultores. Aí se coloca o imóvel à venda. Não faz sentido vender um apartamento desse valor de forma improvisada, falando com um amigo que sequer viu o imóvel.

Mesmo entre amigos, haveria, antes de o vendedor pedir qualquer adiantamento, um documento assinado de compromisso de compra e venda, com cláusulas que garantissem ambas as partes. Aécio diz que caiu numa armadilha montada por um criminoso confesso e que queria pegá-lo para usar como moeda de troca na negociação na delação premiada. Foi ele a procurar o criminoso confesso, a entrar na armadilha ao tentar fazer um negócio fora de qualquer padrão.

Demétrio Magnoli: O espelho imperfeito

- Folha de S. Paulo

Antes, Obrador denunciava os EUA pela criação do Nafta; hoje, denuncia Trump por pretender abolir o Nafta

No Zócalo, a extensa fachada barroca do Palácio Nacional à frente, constato que perdi as cerimônias de hasteamento da bandeira em honra a Emiliano Zapata (10 de abril) e a Benito Juárez (18 de julho). “Antes de serem uma realidade, os EUA foram, para mim, uma imagem. Desde crianças, nós, mexicanos, vemos esse país como o Outro. Um Outro que é inseparável de nós e que, ao mesmo tempo, é radical e essencialmente o estranho.” A passagem, de Octavio Paz (“O Espelho Indiscreto”, 1976), condensa uma relação de fascínio ritmada por ciclos de atração e repulsão. Juárez simboliza a atração: o México liberal, que queria a modernidade representada pelos EUA. Zapata simboliza a repulsão: o México da Revolução, hipnotizado pela política nacional-estatista, que queria ser o oposto dos EUA. A disputa presidencial mexicana recoloca o dilema, mas sob formas inesperadas.

Andrés Manuel López Obrador inaugurou sua terceira campanha presidencial em Ciudad Juárez, na fronteira com os EUA, local que concentra os dois simbolismos contrastantes. A cidade homenageia Benito Juárez, o presidente de humildes raízes indígenas que comandou a resistência à invasão francesa (1862-67). A ironia é especialmente aguda para a candidatura nacionalista de Obrador: Juárez restaurou a soberania mexicana graças ao apoio dos EUA, derivado da Doutrina Monroe. Hoje, 150 anos depois, Obrador lidera as pesquisas graças à repulsa universal dos mexicanos a Donald Trump. O parafuso da história dá mais uma volta e, pela enésima vez, o México pinta seu futuro com as tintas que escorrem da fronteira norte.

Mario Vargas Llosa analisa os pilares intelectuais do liberalismo

A economia de mercado, argumenta Llosa, traz desenvolvimento material e progresso

Ivan Martínez-Vargas | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Único ainda vivo entre os escritores de língua espanhola a vencer o Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa dedica seu livro mais recente a fazer uma ode ao liberalismo clássico.

"La llamada de la Tribu", ainda sem tradução, é um manual no qual o peruano esmiúça os pensamentos de sete grandes liberais: Adam Smith, Fredrich von Hayek, Ortega y Gasset, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

O ideário desses intelectuais é defendido como a receita contra o que Vargas Llosa nomeia "chamado da tribo" —o impulso humano de voltar à sociedade primitiva, em que o coletivo se sobrepunha ao individual e as decisões eram tomadas pelo líder tribal.

Entre os maiores riscos, está a tentação dos discursos de caudilhos carismáticos, quase sempre nacionalistas, que prometem às massas um paraíso terreno inviável e, na prática, eliminam a individualidade e a democracia.

Os pressupostos liberais, no argumento do autor, são o antídoto contra isso.

Estão presentes no ensaio ideias como a de que a diversidade de talentos na sociedade gera uma desigualdade econômica não necessariamente problemática, desde que haja um nível mínimo de oportunidades a todos.

Aparece também a defesa de que o livre mercado, associado ao Estado de Direito, garante o desenvolvimento e combate a miséria.

Os pensadores que protagonizam o livro são os que determinaram a conversão do escritor, ao longo dos anos 1970, de simpático ao socialismo e entusiasta da Revolução Cubana a liberal militante.

O peruano conta que começou a admirar a literatura liberal por meio dos discursos da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que citavam nomes como Hayek (1899-1992), economista expoente do liberalismo.

Ao longo de 256 páginas, "La Llamada de la Tribu" reitera críticas agudas à esquerda marxista, que identifica com o recorte às liberdades individuais, a intolerância à divergência e o autoritarismo.

Ao mesmo tempo, busca distanciar o "verdadeiro liberalismo" do conservadorismo.

Defende que aquele não deve ser considerado "como mais uma ideologia, com esses atos de fé laicos tão propensos à irracionalidade, às verdades dogmáticas".

Estaria mais para "uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica".

O liberalismo exclusivamente econômico é incompleto e nem sequer deve ser considerado liberal de fato, afirma.

A economia de mercado, argumenta, traz desenvolvimento material e progresso, mas a liberdade precisa ser "o valor supremo" também da política, da cultura e da vida social.

O respeito aos direitos humanos, o racionalismo, o pluralismo e a democracia, portanto, são itens cruciais dessa filosofia, segundo Vargas Llosa.

O princípio da igualdade de oportunidades, diz, também é profundamente liberal, "ainda que isso seja negado por pequenas gangues de economistas dogmáticos intolerantes e frequentemente racistas".

O livro tem o grande mérito de se debruçar sobre intelectuais que, embora relevantes, estão quase sempre ausentes de discussões na esfera pública atual. Como destaca o peruano, eles não recebem a mesma atenção que figuras como Sartre, Foucault, Simone de Beauvoir e Marx, seus antípodas ideológicos.

Apesar dos elogios a cada um dos intelectuais sobre os quais se debruça, Vargas Llosa critica de maneira pontual, mas incisiva, o que considera falhas de suas referências.

Entre os "erros garrafais" de Hayek, destaca seu alinhamento com o regime ditatorial de Pinochet, no Chile.

Ricardo Noblat: Trinta anos sem Tancredo Neves, o presidente que nunca tomou posse

Memórias do blog do Noblat (Texto do dia 20/04/2015)

1
Em fevereiro de 1985, Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil do último general-presidente da ditadura de 64, avisou ao presidente eleito Tancredo Neves que Délio Jardim de Matos, ministro da Aeronáutica, estava furioso. Dizia que Tancredo se comprometera a não escolher para sucedê-lo seus desafetos Moreira Lima e Dioclecio Lima. Mas que estava prestes a fazê-lo. Corria contra isso um manifesto de brigadeiros. Tancredo telefonou para Aureliano Chaves, que apoiara sua eleição: “Você tem cinco minutos para dizer quem será o ministro da Aeronáutica: Moreira ou Dioclecio”. Aureliano preferiu Moreira. Tancredo telefonou para seu Secretário de Imprensa e orientou-o a anunciar o nome de Moreira. Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, que a tudo assistiu, comentou: “Mas, o senhor fez o contrário do que o Leitão disse”. Tancredo: “Se existir um manifesto, quem assinou ainda terá tempo de retirar a assinatura. E quem não assinou não assinará mais”. Tancredo pediu a Dornelles: “Procure o Leitão. Diga que foi Aureliano quem indicou Moreira. E que a essa altura eu não pude fazer mais nada”. Não houve manifesto.
2
Ao saber que Alfredo Karan, ministro da Marinha, conspirava contra sua candidatura a presidente, Tancredo convidou-o para continuar no cargo. Karan aceitou radiante. Às vésperas de tomar posse, Tancredo explicou-se a um amigo: “Karan tentou me dar um golpe e eu dei um golpe nele. Não será ministro”.
3
Um dia, Tancredo recebeu um recado do deputado Gustavo Farias (PMDB-RJ): “Paulo Maluf me oferece 100 mil dólares para eu votar nele. E o senhor?” Tancredo: “Só prometo que não mandarei atrás de você nem a Polícia Federal nem a Receita”. Ganhou o voto de Gustavo.
4
Houve momentos difíceis na campanha de Tancredo para presidente. Num deles, reunido com auxiliares, as reclamações foram muitas. Um disse: “O senhor abandonou Minas.” Outro: “O comitê do Maluf tem mais computadores do que o nosso”. Um terceiro: “Maluf fala olhando para a câmera de televisão e o senhor não”. Tancredo perdeu a paciência: “Se Maluf é tão melhor por que vocês não vão apoiá-lo?” Ninguém foi.
5
Eleito governador de Minas em 1982, Tancredo ouviu do seu Secretário de Planejamento, Ronaldo Costa Couto: “Para pôr ordem nas contas teremos de demitir 10 mil funcionários”. Tancredo: “Posso contratar mil?” Surpreso, Ronaldo respondeu que sim. No dia seguinte, a manchete do principal jornal de Minas foi a notícia da contratação. A fonte dela: Tancredo. Que se justificou: “Mineiro só gosta de admissão”. O jornal não noticiou as demissões.
6
Governador, Tancredo telefonou para Dornelles. Quando a secretária de Dornelles passou a ligação, Tancredo já estava na linha. Dornelles: “Mas o senhor está aí? Pensei que fosse a secretária”. Tancredo: “Só cheguei a governador porque sempre entrei na linha na frente dos outros”.
7
A um amigo que o viu esperar mais de uma hora para ser atendido por um burocrata do Ministério da Fazenda, Tancredo, ainda deputado federal, ensinou: “Ele me humilha, mas libera minhas verbas. Ministro não manda em ministério. Quem manda é o segundo escalão”.
8
Crisanto Muniz, deputado do PSD, queixou-se a Tancredo: “Somos amigos, mas você dá mais atenção ao Ernane Maia” (deputado do PTB). Tancredo: “Faço isso por um só motivo: ele é doido. E doido tem que ser tratado com muito carinho”.

Murillo de Aragão: O lado bom dos desastres

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- Revista IstoÉ

Os infortúnios do Brasil são positivos. Não que eu seja masoquista ou sádico. O sofrimento faz parte do crescimento das nações

Seria viável dizer que existe um lado bom nos infortúnios? Para Nietzsche, sim. Segundo Alain de Botton, ele “viu nas dificuldades um pré-requisito decisivo de satisfação e concluiu que as formas açucaradas de consolação eram, em sua essência, mais cruéis do que úteis”. Seria a velha máxima das academias de ginástica: “No pain, no gain”?

Os infortúnios do Brasil são positivos. Não que eu seja masoquista ou sádico. O sofrimento faz parte do crescimento das pessoas e das nações. Para nascer, o pinto faz um esforço sobre-humano para quebrar a casca do ovo. O bebê também sofre ao sair do útero da mãe. O mundo não cresce por meio de cesarianas facilitadoras.

O Brasil sofre como parte natural do amadurecimento das nações. E as nações fortes, assim como os pitares de navio, aprendem com as dificuldades. Coreia do Sul e Japão floresceram após guerras trágicas. A Europa pós-Segunda Guerra Mundial se uniu. Os desastres do mundo foram pedagógicos para as nações.

O Brasil foi poupado pelas circunstâncias dos desastres que assolaram outras grandes nações. Não temos desastres naturais recorrentes, como terremotos e furacões. Nem temos vizinhos hostis com projetos de expansão à nossa custa. Não temos nazistas nem norte-coreanos por perto.

A maioria esmagadora dos desastres em nosso meio são de produção nacional. De nossa própria autoria. Nesse ponto, somos muito parecidos com os argentinos. O Rio de Janeiro está como está por conta das decisões de suas elites, onde se incluem a mídia, os intelectuais e os empresários que restaram.

São Paulo teria todas as condições para estar em situação pior que a do Rio de Janeiro. Não está porque as decisões tomadas pelos paulistas foram bem melhores que as decisões dos cariocas e dos fluminenses nos campos político, cultural e enconômico. Simples assim.

O Rio de Janeiro vai renascer lindo e forte. Como um Japão pós-explosão nuclear. Mas não agora. Terá de sofrer muito ainda para fazer a sociedade tomar pé da situação e se organizar. Não a partir de velhos chavões de uma esquerda conservardora ou de uma direita corrupta — ambas clientelistas. Novas forças devem emergir.

Mas melhor do que crescer com os desastres é escapar deles. Na linha do que disse o genial Gustavo Cerati: “Electrizado le escapé (…) De que desastre me salvé (…) En buena hora me solté.” Meus filhos me deram essa música de presente em uma situação difícil. Foi uma lição “nietzschiana” de filho para pai que muito me serviu.
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Murillo de Aragão é cientista político

Ensaios eleitorais: Editorial | Folha de S. Paulo

Pré-candidatos deste ano parecem mais propensos ao debate de temas econômicos espinhosos

Embora o início oficial da campanha esteja distante, os pré-candidatos declarados à Presidência já deixam transparecer algumas de suas ideias para o país.

São compelidos a tanto pela demanda da sociedade por clareza de propostas —sem dúvida mais palpável hoje, depois do estelionato eleitoral de 2014 e das crises política e econômica dele derivadas.

A grande dispersão de intenções de votos entre vários postulantes que disputam um lugar no segundo turno, ademais, em tese favorece um debate mais franco, na comparação com os últimos pleitos.

Quatro pré-candidatos assumidos que marcam mais de 5% nas pesquisas —Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB)— têm se manifestado, ainda que superficialmente em alguns casos, sobre temas econômicos essenciais.

De modo similar, o bom desempenho de Joaquim Barbosa (PSB) no último Datafolha já o leva a ser ouvido sobre grandes questões nacionais, ainda que não tenha declarado seu propósito de concorrer.

Do que foi falado até agora por esse grupo, é possível distinguir um consenso essencial —a atual situação do país demanda reformas das funções do Estado e do gasto público. Pode parecer pouco, mas trata-se de um avanço após o marketing enganoso da última disputa.

Mensagens de esperança: Editorial | O Estado de S. Paulo

É digno de nota que, no mesmo dia, quinta-feira passada, duas das mais importantes instituições do País, o Exército e a Igreja Católica, tenham se manifestado a respeito das eleições vindouras, cruciais diante da enorme crise política e moral que o País enfrenta. As profundas incertezas que cercam o pleito decerto motivaram essas declarações oficiais, pois o quadro atual, de crispação e virulência, não recomenda otimismo. Talvez por esse motivo, tanto os militares como os bispos salientaram a necessidade de forjar alguma forma de união e pacificação, superando-se minimamente as diferenças, pois é a própria democracia que, em sua visão, estaria em risco.

Em nota lida por ocasião do Dia do Exército, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, disse que os brasileiros não podem “ficar indiferentes aos mais de 60 mil homicídios por ano, à banalização da corrupção, à impunidade, à insegurança ligada ao crescimento do crime organizado e à ideologização dos problemas nacionais”. Esses fatores, segundo o general, são “as reais ameaças à nossa democracia”.

Ao destacar como principais riscos para as instituições democráticas a banalização da corrupção, a impunidade e a transformação dos problemas nacionais em questões ideológicas, o comandante do Exército foi ao cerne da crise. A corrupção aprofunda a desigualdade e intoxica as relações sociais ao dar vantagens indevidas a quem detém o poder econômico e político, castigando aqueles que cumprem a lei.

Privatização da Eletrobras está moribunda: Editorial | O Globo

Venda da estatal é projeto certo em governo errado, politicamente fraco, sem condições de convencer a própria base, que prefere usar a estatal para o clientelismo

O apoio à ideia da privatização da Eletrobras foi proporcional à descrença na possibilidade de o governo Temer conseguir viabilizar este necessário projeto no Congresso. O que era previsto fica cada vez mais incontornável.

Não se discute, de forma séria, que não seja necessária a venda do controle da estatal, desequilibrada de forma estrutural pelo intervencionismo populista da presidente Dilma Rousseff, para forçar, na base “da vontade política”, um corte de 20% nas tarifas, a fim de servir de cabo eleitoral na campanha da reeleição, em 2014. Inviabilizou a empresa sob controle estatal.

Sem que o Tesouro, abalado de maneira grave pelos desatinos macroeconômicos da política do “novo marco”, possa socorrer a empresa — como seria praxe, embora equivocado —, o único caminho lógico é a venda do controle da Eletrobras, pela oferta de ações de posse da União.

Emprego formal tem terceira alta seguida

Em março, foram criadas 56,1 mil vagas, melhor resultado para o mês desde 2013

Eduardo Rodrigues / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O emprego com carteira assinada voltou a crescer, pelo terceiro mês consecutivo, em março. O Brasil abriu 56.151 vagas de trabalho formal no mês passado, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho. Foi o melhor resultado para o mês desde 2013.

Apesar de positivo, o desempenho do mês passado foi inferior aos resultados registrados em fevereiro (65.058 vagas) e janeiro (82.855 vagas), já considerando o ajuste nos resultados desses meses. Mesmo assim, o presidente Michel Temer usou o Twitter para comemorar o resultado. “O Brasil não para de criar empregos com carteira assinada”, escreveu. “O Brasil voltou e está mais forte. Os empregos voltaram. Fruto da política econômica e social que adotei e que não pode sofrer retrocessos.”

Na avaliação de Fábio Romão, economista da LCA Consultores, a perda de ritmo da geração de emprego é um reflexo da retomada mais lenta da economia que o esperado pelos analistas. “A avaliação é de que os sinais parecem cada vez mais claros de que o ritmo de retomada da atividade é mais gradual do que se imaginava”, disse.

País cria 204 mil empregos com carteira no primeiro trimestre

Em março, foram geradas 56 mil vagas formais. Rio teve só 247 contratações

Geralda Doca | O Globo

BRASÍLIA - O país criou 204.064 empregos com carteira assinada no primeiro trimestre deste ano, informou ontem o Ministério do Trabalho. No mesmo período de 2017, o resultado foi bem diferente: foram fechados 64.378 postos. Apenas em março, o mercado formal de trabalho registrou saldo positivo de 56.151 vagas — terceiro mês consecutivo de alta. O Rio, embora tenha interrompido uma sequência de resultados ruins, registrou apenas 247 contratações no mês passado e não acompanhou o desempenho nacional favorável. Nos primeiros três meses do ano, o estado perdeu 12.335 empregos.

Dos 92 municípios fluminenses, 52 continuaram demitindo de janeiro a março deste ano. No ranking das cidades que mais demitiram estão: Rio, com saldo negativo de 4.213 postos; Duque de Caxias, onde foram fechadas 3.935 vagas; Niterói, que perdeu 1.977 empregos; e São Gonçalo, com menos 1.650. Por outro lado, entre os municípios que mais contrataram estão Macaé, que respondeu por 1.069 contratações, seguido por Itaperuna, Petrópolis, Resende e Itaguaí.

SERVIÇOS PUXARAM MELHORA
Embora o resultado do mercado formal de todo o país em março tenha sido o melhor para o período nos últimos três anos, o saldo ficou abaixo dos registrados em janeiro, de 77.822, e fevereiro, 61.188. Para especialistas, isso pode ser demonstração do ritmo lento de retomada da atividade.

No mês passado, os empregos foram puxados pelo setor de serviços, que registrou saldo positivo de 57.384, sobretudo nos segmentos de comércio e administração de imóveis, ensino, transporte e comunicação. A indústria de transformação ficou em segundo lugar, com 10.450 contratações, seguida pela construção civil, com 7.728 postos, e pela administração pública, com mais 3.660 vagas. Já a agropecuária fechou 17.827 postos por causa de fatores sazonais no cultivo de soja, no Mato Grosso, e de frutas (laranja), em São Paulo e Minas Gerais.