terça-feira, 29 de agosto de 2023

Historiadora vê Lula mais cauteloso

Por Caio Sartori / Valor Econômico

Autora do clássico ‘A invenção do trabalhismo’, que completa 35 anos, Angela de Castro Gomes defende ainda punição severa a militares golpistas

Rio de Janeiro - Autora de referência na história política brasileira, Angela de Castro Gomes vê um Lula mais cuidadoso politicamente no atual mandato - fruto do amplo arco de apoios que recebeu na eleição do ano passado e que agora quer, com legitimidade, participar do governo. “Apesar da liderança pessoal que só Lula tem, e era mesmo o único capaz de derrotar o bolsonarismo, ele não foi eleito só por um partido, mas por uma frente. Isso é ótimo no momento da eleição, mas difícil como governo”, avalia a historiadora. Ter sucesso na atual gestão, diz, passa por conseguir administrar essa frente e conciliar os variados interesses em disputa.

Há 35 anos, no mesmo 1988 em que a Constituição foi promulgada, Castro Gomes publicou “A invenção do trabalhismo”, livro considerado o principal guia sobre a cultura política iniciada por Getúlio Vargas no Estado Novo, herdada por João Goulart depois do suicídio do caudilho e resgatada por Leonel Brizola pós-Anistia de 1979. Resultado da tese da historiadora na primeira turma de doutorado em Ciência Política do antigo Iuperj, atual Iesp-Uerj, o trabalho teve orientação de Wanderley Guilherme dos Santos (1935-2019), outro estudioso fundamental da República brasileira.

Míriam Leitão - As palavras fora do lugar

O Globo

O Brasil ainda vive o resquício de quatro anos em que a ditadura foi venerada. A Argentina começa a ver o mesmo pesadelo

O candidato da extrema direita na Argentina, Javier Milei, tem sido definido como “libertário”. Uma chapa que defende ideias da última ditadura argentina é qualquer coisa menos libertária. Na política não há conexão entre a palavra e o seu sentido. O Partido Liberal conspirou contra a liberdade. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é do Republicanos e quer homenagear um expoente da repressão política do governo militar. Por definição, uma ditadura não é uma República. As pautas mais reacionárias no Congresso têm o apoio do Progressistas. A Câmara de Porto Alegre criou o “Dia do Patriota” para ser comemorado em 8 de janeiro, dia em que vândalos atacaram as sedes dos poderes, e destruíram o patrimônio da Pátria. O ministro Luiz Fux mandou suspender esse despropósito.

As palavras estão fora do lugar e ficam ainda mais nesses momentos em que o país vive espasmos retardados do projeto autoritário que foi derrotado na eleição e no 8 de janeiro. A intenção do governador de São Paulo de homenagear Erasmo Dias dando o nome dele a um viaduto é um desses espasmos. Dias foi o secretário de segurança que invadiu com tropas a PUC de São Paulo, em 1977, foi parte do aparelho de repressão da ditadura e fez declarações em defesa da tortura. Por ordem da ministra Cármen Lúcia, o governador de São Paulo terá que explicar ao STF a razão da homenagem. É parte da Ação Direta de Inconstitucionalidade apresentada por partidos e entidades da sociedade civil.

Raul Jungmann* - Caminho para o futuro passa pelas causas ambientais e sociais

Valor Econômico

O modelo destrutivo vigente não melhorou a qualidade de vida das pessoas, causou perdas irreparáveis de biodiversidade e agravou as consequências das mudanças climáticas

As pautas ambientais, historicamente negligenciadas em todo o mundo, se tornaram inadiáveis em face da crise climática em curso e de seu potencial devastador para a vida e para a economia. É fundamental entender que todas as atividades humanas dependem de recursos naturais, como a água, e que a destruição das florestas causa redução da disponibilidade hídrica, entre outras consequências.

Quase 20% do território da floresta amazônica já foi destruído e isso não se refletiu em desenvolvimento socioeconômico para a região. O modelo destrutivo vigente não melhorou a qualidade de vida das pessoas, causou perdas irreparáveis de biodiversidade e agravou as consequências das mudanças climáticas. Para o presente e para o futuro, é imperativo manter a floresta viva, fomentar a economia verde e, assim, conseguirmos entregar um mundo igual ou melhor para as novas gerações.

As demandas sociais, também são igualmente importantes e inadiáveis, tendo em vista que os mais vulneráveis são duramente atingidos pelas consequências da crise climática. Um paradoxo, já que os países mais pobres poluem muito pouco, enquanto os países ricos, principais emissores de gases poluentes, têm mais recursos para enfrentar as transformações do clima.

João Gabriel de Lima* - A Terra é azul, e o Brasil é verde

O Globo

Em democracias modernas e maduras, a discussão política não se limita à dança de coligações dentro dos parlamentos

O beijo forçado do cartola Luis Rubiales na jogadora Jenni Hermoso, campeã mundial de futebol pela seleção espanhola, ocupou o espaço dos jornais e o tempo das televisões na Europa. Houve quem criticasse o fato de a violência machista expulsar do noticiário a crise política na Espanha — um empate técnico nas eleições tem dificultado a formação de um novo governo. A atenção dada ao caso, no entanto, mostra uma bem-vinda expansão do debate público.

Em democracias modernas e maduras, a discussão política não se limita à dança de coligações dentro dos parlamentos. Ruas e redes propõem temas, e o debate se expande. O caso de Jenni Hermoso entrou na agenda pela força do feminismo espanhol. Outro tema, por coincidência vindo também do futebol, ocupou recentemente as manchetes no país. As ofensas contra o jogador brasileiro Vini Jr. colocaram o racismo em pauta na discussão política. Nos dois casos, o presidente do governo da Espanha (equivalente ao primeiro-ministro) foi obrigado a se manifestar — e a se posicionar.

Carlos Andreazza - Com todas as vênias

O Globo

O Supremo finalmente votou sobre a constitucionalidade do juiz de garantias. Lei aprovada pelo Congresso em 2019, cuja aplicação estava suspensa — desde 2020 — em decorrência do já histórico (e desde já as minhas escusas ao ministro) monocratismo corporativista de Luiz Fux.

Um juiz segurando, por anos, o exame de ação acerca da validade de desígnio do legislador. Um juiz, sozinho, impedindo que a Corte constitucional cuidasse de informar se lei votada pelo Parlamento estava de acordo com a Constituição.

Interditava não apenas o trânsito pleno da atividade do Legislativo. Também boicotada — interrompida mais uma vez — a expressão colegiada-impessoal do tribunal, a que dá força à Corte que compõe, cujo plenário esvaziado contrasta com a forma desinibida como os togados progressivamente usam suas musculaturas individuais.

Luiz Carlos Azedo - O ajuste de contas da Justiça com a Lava-Jato

Correio Braziliense

O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) realiza correições no Paraná, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul para investigar desvios no transcurso da Operação Lava-Jato

A desconstrução em curso da Operação Lava-Jato é o principal trunfo do procurador-geral da República, Augusto Aras, para permanecer no cargo. Embora essa possibilidade seja remota, o ajuste de contas com a força-tarefa é música para os ouvidos do presidente Luiz Inácio da Silva e o Senado, responsáveis pela escolha do chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Uma conjugação de astros opera contra os principais responsáveis pela sua condenação, que foi anulada pelo STF, o então coordenador da força-tarefa, o ex-deputado Deltan Dallagnol (Republicanos-PR), cujo mandato foi cassado pela Mesa da Câmara, e o senador e ex-juiz Sergio Moro (União Brasil-PR), à época o titular da 8ª Vara Criminal de Curitiba, que agora também está ameaçado de cassação no Senado.

O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) realiza correições no Paraná, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul para investigar desvios no transcurso da Lava-Jato, entre os quais o uso indevido de recursos arrecadados pela operação. Em sigilo, uma correição extraordinária, conduzida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na 13ª Vara Federal de Curitiba e no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, investiga a atuação de promotores e juízes no caso. Está sob responsabilidade do corregedor nacional de Justiça, ministro do STJ Luís Felipe Salomão, que também é candidato a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Andrea Jubé - A reforma de Lula: ou isto ou aquilo

Valor Econômico

Clima de ansiedade só aumenta nos corredores do Congresso

Antes de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcar para a África, no dia 20, a coluna ouviu de um influente deputado petista: “Espero que na volta ele termine essa reforma [ministerial], ou essa Casa para”.

Lula desembarcou na noite de domingo em Brasília e o clima de ansiedade só aumenta nos corredores do Congresso. Na tarde desta segunda-feira, coube ao cerimonial acomodar ao seu lado o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) - principal interlocutor do Centrão na reforma - na solenidade de sanção da lei do salário mínimo. Ambos tinham ar descontraído e esbanjaram sorrisos, mas o suspense avançou até esta terça-feira.

Marli Olmos - Dólar, paixão e refúgio dos argentinos

Valor Econômico

Moeda americana é o “porto seguro” da população que vive no país com inflação anualizada em torno de 140%

É difícil, para muitos, entender por que o ultradireitista Javier Milei agrada tantos eleitores argentinos. Mas quem, de alguma forma, já conviveu com os costumes desse povo percebe que, entre as propostas radicais que o candidato apresenta, uma delas já faz parte do dia a dia das pessoas. Vencedor nas prévias de agosto, Milei promete dolarizar a economia se for eleito presidente da República.

A ideia de adotar o dólar como moeda num país tão carente de reservas cambiais pode parecer insensata aos olhos de economistas. Mas, diante de uma inflação que não dá trégua, há décadas a moeda americana tem sido não só o refúgio de quem a usa para poupar como também uma referência fácil e segura para entender e calcular o preço de muitas coisas - um imóvel, uma viagem, um curso ou uma peça de roupa. Não é de hoje, por exemplo, que alguns aluguéis são cobrados em dólar.

Joel Pinheiro da Fonseca - Direita subversiva

Folha de S. Paulo

'Gostinho do proibido' culturalmente está neste momento com conservadores

Você já ouviu a nova sensação do country americano, Oliver Anthony? Até poucas semanas atrás ele era desconhecido. Eis que sua canção "Rich Men North of Richmond" viralizou nas redes.

A música é um manifesto doído de um eu-lírico que representa o trabalhador comum, esquecido e espremido entre as elites governantes —que querem o controle total da sociedade— e os imprestáveis que sugam do Estado de bem-estar.

Anthony se diz contra os dois partidos, mas está bem claro que a mensagem de suas músicas ressoa muito mais com um lado do espectro. A referência à suposta pedofilia das elites governantes não deixa dúvida.

Hélio Schwartsman - Lula é de esquerda?

Folha de S. Paulo

Votos de perfil conservador dados por Zanin no STF geram indignação entre petistas

Petistas e simpatizantes estão furibundos com Lula por causa da indicação de Cristiano Zanin Martins, que vem proferindo votos de perfil conservador em suas primeiras participações no STF.

A inexistência de critérios racionais e coerentes para distinguir esquerda de direita faz com que recorramos a uma espécie de algoritmo que combina autodeclaração, genealogia e concordância com algumas bandeiras, como abortodescriminalização das drogas, ações afirmativas e defesa do meio ambiente, que julgamos representativas o suficiente para funcionar como um teste ideológico.

Dora Kramer - Conservador, e daí?

Folha de S. Paulo

Esquerda ignorou a ética, e agora condena Zanin por sua matriz conservadora já conhecida

Parte estridente da esquerda cancela Cristiano Zanin por delito de ação e pensamento no exercício de sua ainda iniciante função de ministro do Supremo Tribunal Federal. Isso depois de não ter visto nada demais na indicação do advogado pessoal do presidente da República para a corte constitucional.

Este sim seria um princípio ético consistente para críticas, mas foi ignorado. E aqui não só pelos apoiadores de Lula com voz na sociedade, mas também e principalmente no STF e no Congresso. Já os ataques ora em tela nas redes sociais carecem de lógica e fundamento fático.

Alvaro Costa e Silva - Os celulares da máfia

Folha de S. Paulo

Celulares são o maior alvo e a desgraça dos criminosos

O bote, o susto e já era. Só contando 2022, o Brasil teve um milhão de roubos e furtos de celulares —média de dois por minuto. Um aumento de 16% em relação ao ano anterior, número que deve subir em 2023. Em São Paulo foram quase 350 mil aparelhos levados na mão grande.

No início deste mês, a Polícia Civil prendeu no centro histórico da capital paulista um imigrante de Guiné-Bissau apontado como o maior receptador de celulares em atuação no país. Eles são furtados e roubados nas ruas, estações do metrô ou dentro de carros parados no trânsito (nessa hora entra em cena a gangue "quebra-vidro"). Na segunda etapa do esquema, os criminosos desbloqueiam os aparelhos e têm acesso aos dados das vítimas. Celulares também são enviados ao exterior, principalmente a países da África, para driblar o bloqueio da Anatel.

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

É necessário reequilibrar a Câmara

O Globo

Omissão de três décadas do Congresso contribuiu para ampliar distorções na distribuição dos deputados

Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o Congresso precisará definir o número de deputados de cada estado de acordo com a população. É exatamente o que determina o artigo 45 da Constituição Federal. O motivo é dar a cada eleitor brasileiro peso comparável na Câmara Baixa do Parlamento.

Não se trata, é bom lembrar, de peso equivalente. Ao manter limites mínimo (8) e máximo (70) para as bancadas, a Constituição cria distorções intrínsecas (o voto de um roraimense para deputado equivale ao de dez paulistas). Mas isso não justifica ampliar as distorções. É inacreditável que a proporção atual seja idêntica à definida em 1993. Há 30 anos, a Câmara ignora as mudanças populacionais registradas por três edições do Censo. Um estado como Santa Catarina, com população de 7,6 milhões, tem 16 cadeiras na Câmara, enquanto o Maranhão, com 6,7 milhões de habitantes, tem 18.

Poesia | Cora Coralina - Assim eu vejo a vida

 

Música | Giuseppe Verdi - Va, pensiero