domingo, 24 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Ondas de calor pressionam o setor elétrico

O Globo

Técnicos temem que oferta de energia não seja capaz de atender à demanda crescente em 2025

Com os termômetros acima dos 40 °C e a sensação térmica em patamares superiores a 60 °C, o consumo de energia dispara. Apagões se sucedem país afora, e o sofrimento dos moradores da região central de São Paulo, alguns às voltas com mais uma semana de interrupção no fornecimento, é apenas o drama mais recente. Ao mesmo tempo, surge a preocupação com a capacidade de o sistema elétrico resistir ao crescimento de demanda. Neste momento de virada de estação, do verão para o outono, com temperaturas recordes, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem aumentado a previsão de crescimento da demanda de março, um salto próximo de 6% ante o mesmo mês do ano passado.

De acordo com o ONS, todas as regiões consumirão mais energia neste mês em relação a março de 2023: Nordeste, 8,8%; Norte, 8,5%; Sudeste/Centro-Oeste, 5,8%; Sul, 1,5%. No último dia 15, o consumo bateu o recorde do ano, com 102.477 megawatts (MW). Na superfície, a situação parece sob controle. As hidrelétricas respondem por mais da metade da produção de energia, e a geração eólica e solar, somadas, mais de 20%. Não se pode esquecer, porém, que a geração no Brasil continua dependendo de chuva no momento certo, na região certa. As oscilações do clima, que vieram para ficar, não dão uma garantia firme de que isso aconteça.

Luiz Sérgio Henriques* - 1964, o passado que não passa

O Estado de S. Paulo

É preciso reconhecer que há estrada a percorrer antes que se possa constatar, com serena confiança, o amadurecimento democrático das forças fundamentais da esquerda brasileira

Há longos 60 anos, a rememoração dos “idos de março” tem atormentado a memória e pesado como capa de chumbo sobre os pósteros e os cada vez mais raros sobreviventes. Culpa irremissível – dirão – da conciliação em torno da anistia ou da obediência aos ditames da abertura tal como formulada por próceres da ditadura. Como se sabe, na sua formulação original, ela deveria ser “lenta, segura e gradual”, numa espécie de retirada ordenada que estrategicamente sempre constitui feito de notável valor para os que estão na defensiva.

O fato é que mesmo quem discorda, no todo ou em parte, desta avaliação negativa do processo de abertura, afirmando ao contrário que foi muito além da intenção daqueles próceres, não consegue por vezes esconder certo desconforto. É como se fatos e personagens de outro tempo se recusassem teimosamente a deixar o terreno da política para passarem à História, âmbito no qual os dramas, sem ser cancelados, admitem tratamento analítico, se não menos apaixonado, pelo menos mais rigoroso. Vigoraria também em nosso contexto a intuição poética de um William Faulkner, pela qual, na verdade, o passado nunca está morto e nem sequer é passado.

Elio Gaspari - Dois americanos de 1964

O Globo

Os 60 anos da deposição do presidente João Goulart são um bom pretexto para lembrar o papel de diplomatas que tiveram papel relevante naqueles dias

Os 60 anos da deposição do presidente João Goulart são um bom pretexto para lembrar o papel de dois diplomatas americanos que tiveram papel relevante naqueles dias. Um é Lincoln Gordon, o professor de Harvard que o presidente John Kennedy mandou para o Brasil em 1961 como seu embaixador. Falava muito, sempre. Adquiriu tamanha proeminência que o jornalista Otto Lara Resende propôs: “Chega de intermediários, Gordon para presidente.”

O outro é Thomas C. Mann, ex-embaixador no México e secretário de Estado adjunto a partir de dezembro de 1963. Esteve em todas: na armação do golpe que derrubou o presidente da Guatemala em 1954, foi uma das molas do desembarque de tropas americanas na República Dominicana, em 1965, e deixou digitais nos golpes do Brasil e da Bolívia. Atribui-se a ele o que seria a Doutrina Mann de apoio a governos militares na América Latina. Falava pouco.

Mann era um texano conservador e resolvido. Os liberais detestavam-no e a recíproca era verdadeira. Gordon era um liberal atormentado e os dias de 1964 fizeram dele uma figura trágica. Morreu em 2009, aos 96 anos, repetindo que, ao colaborar com a queda de Jango, não preconizava a ditadura. De fato, condenou-a, mas ninguém o ouvia.

Na sua cerimônia fúnebre, a filha Anne lembrou: “Apesar de ter sido um democrata progressista que apoiou o New Deal de Franklin Roosevelt, (....) na minha opinião seu antagonismo diante dos movimentos reformistas de esquerda, foi imediatista e acabou prejudicando o povo da região.”

Míriam Leitão - Cid, os golpes e o governo Lula

O Globo

O governo precisa administrar bem o país, e não ficar olhando ponteiro de pesquisa, e assim marcar diferença com o mandato que usou a máquina apenas para preparar um golpe

Quando o tenente-coronel Mauro Cid chegou para depor na sexta-feira, às 13 horas, diante do juiz auxiliar de Alexandre de Moraes, a Polícia Federal já havia representado contra ele junto ao próprio STF. E o país estava dividido novamente, agora sobre se os áudios postados pela revista “Veja” desmoralizavam ou não a delação. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, me disse, na sexta de manhã, que a PF viu com gravidade “o que as falas acusam”. Contou que havia representado ao STF para que se esclareça “já que fomos levianamente acusados”. E completou: “Ninguém acusará a PF e o STF dessa forma e ficará incólume.” De tarde, Cid terminou o depoimento preso e com o celular apreendido. O que tudo isso informa sobre a situação política atual?

Merval Pereira - O STF em seu domínio

O Globo

O STF tem que criar um mecanismo que evite conflitos desnecessários

Estamos numa situação em que, passada a maluquice de Bolsonaro, já está na hora de dar um passo atrás. Uma linha tênue, num caso desses, é possível poder concordar. Quando o Supremo abre uma porta, e em outras ocasiões passam soluções com as quais não concordamos, é um problema. O Supremo tem que criar padrões que ele mesmo tem que respeitar.

O STF tem que criar um mecanismo que evite conflitos desnecessários. Nos Estados Unidos chamam de rightness, em que a causa não está madura. O país tem uma diversidade de opiniões, e o Congresso reflete isso, é conservador e em determinados momentos retrógrado.

Se você não aceita a decisão do legislador, tem que mudar o legislador. Isto é, mudar o Congresso. Senão, no fundo, você não acredita na democracia. Na França, a aprovação do aborto na Constituição teve mais de 80% de votos. Aqui no Brasil, um ministro do Supremo disse em uma palestra que, aqui, nem voto para aprovar uma lei têm.

José Eduardo Agualusa - As forças da desordem

O Globo,23/03/2024

Numa democracia saudável é importante que exista espaço para a direita e para a esquerda, para convergências, para divergências

O triunfo do Chega nas recentes eleições em Portugal não foi uma surpresa. Porém, doeu a muitos como se fosse. A ideia romântica de que Portugal estaria, de alguma forma mágica, protegido do avanço da ultradireita, caiu por terra com escândalo e fragor.

Como em tantos outros países, incluindo o Brasil, a ascensão da ultradireita prejudicou em primeiro lugar os movimentos conservadores tradicionais. Antes de Donald Trump ser um nome conhecido no mundo, havia em Portugal uma direita urbana e civilizada, com personalidades amáveis e de grande cultura, respeitadas por toda a gente, como Diogo Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires ou Adriano Moreira.

Bernardo Mello Franco - Cem dias de motosserra

O Globo

Choque imposto por novo governo anima mercado, mas agrava crise social na Argentina

Javier Milei completou cem dias no poder sem desligar a motosserra. Ao celebrar a data, o presidente argentino reforçou a aposta no confronto e na divisão. Insultou adversários políticos, repetiu a pregação contra a “casta” e ameaçou retaliar os congressistas que votarem contra seus interesses. “São inimigos da sociedade”, sentenciou.

Eleito com discurso ultraliberal, Milei prometeu um choque para reduzir o tamanho do Estado e acabar com o déficit público. Seu pacote animou o mercado, mas agravou a crise social. A inflação, que já era alta, disparou nos primeiros dois meses de governo. Os salários perderam valor, as famílias foram obrigadas a cortar despesas básicas, e a pobreza passou a atingir 57% da população — o maior patamar em mais de duas décadas.

Dorrit Harazim - Idos de março

O Globo

Temos motivos em dobro para temer turbulências climáticas assustadoras. Vivemos o Antropoceno, cria nossa

Não estamos na Roma Antiga, nem no longínquo ano de 44 a.C., em que Júlio César foi esfaqueado 23 vezes. Ainda assim, o verso shakespeariano “cuidado com os idos de março” continua a ter mil e uma utilidades. Naquele 15 de março de outrora, contava-se que até o Sol desaparecera — não apenas brevemente, como num eclipse, mas por um ano inteiro. Exagero de uma superstição da era pré-científica? Conexões imaginárias da mente humana da época? Até que não. Em 1983, dois cientistas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais publicaram um trabalho de História interdisciplinar que explica boa parte do que os romanos vivenciaram. Hoje, apesar de uma compreensão mais aguçada dos fenômenos que nos cercam, temos motivos em dobro para temer turbulências climáticas assustadoras. Vivemos o Antropoceno, cria nossa. E não há como fugir dele. Na semana passada, foi a vez de as regiões Sul e Sudeste serem mantidas em alerta máximo diante da previsão de tempestades bíblicas.

Luiz Carlos Azedo - Inquérito do golpe de Bolsonaro pode resultar em nulidades

Correio Braziliense

Não se sabe quem vazou os áudios de Mauro Cid, mas os principais beneficiados são o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais denunciados pelo ex-ajudante de ordens

Até o chamado “Mensalão”, que resultou de uma denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de que haveria na Casa Civil da Presidência um esquema de compra de votos de votos na Câmara para apoiar o governo Lula, quase não se tinha precedentes de deputados federais e senadores condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Seus processos eram mantidos em sigilo de justiça; a maioria dos réus acabava absolvida por falta de provas, erros processuais ou se livrava de condenação por decurso de prazo.

Jefferson era acusado de participar de licitações fraudulentas nos Correios que originaram uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI, na qual deputados e senadores investigaram e puniram os próprios colegas, em 2006. Lula negou que soubesse do Mensalão. O próprio Roberto Jefferson o poupou das acusações. Enquanto seus homens fortes caiam, Lula conseguiu se reeleger, em 2006.

Eliane Cantanhêde - Cid: armadilha ou conluio?

O Estado de S. Paulo

Xandão não é Moro, Gonet não é Aras, a PF não é boba. Logo, áudios de Cid não são a ‘Vaza Jato’

Os áudios do tenente-coronel Mauro Cid acusando o ministro Alexandre de Moraes e a Polícia Federal de usá-lo só para confirmar uma “sentença já definida” e uma “narrativa pronta” podem ser comparados a uma “Vaza Jato” dos vários inquéritos contra Jair Bolsonaro, seus ministros, generais e aliados. A “Vaza Jato” definiu (ou foi o pretexto para) o fim da Lava Jato. Os bolsonaristas tentam agora usar as gravações de Cid para anular tudo o que já está amplamente provado sobre, por exemplo, a trama do golpe de Estado.

O objetivo da Vaza Jato e dos áudios é o mesmo: disseminar que os processos foram viciados, impregnados de interesses políticos. A Vaza Jato revelou mensagens entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato e deu certo. Com os áudios de Cid, dará? Xandão não é Sérgio Moro, no currículo, na personalidade, nem no trânsito político. E Paulo Gonet não é um Augusto Aras na PGR.

Rolf Kuntz - Novo país, só com novo crescimento

O Estado de S. Paulo

Se quiser produzir, em seu governo, um legado relevante, o presidente Lula terá de se empenhar nestes dois investimentos, o físico e o social

O morticínio em Gaza, a guerra na Ucrânia e as lambanças atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro são muito mais interessantes que a pífia taxa de investimento – 14,7% do Produto Interno Bruto (PIB) – estimada para o mês de janeiro pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mas os cricris da imprensa, da Faria Lima e da academia podem apontar mais um detalhe sinistro. Além de pífia, essa taxa é menor que a mísera média mensal, de 16,3%, do período iniciado em janeiro de 2015. O presidente Lula pode ter excelentes motivos, ainda mais como presidente do Grupo dos 20, para dar mais atenção àqueles assuntos do que a uns números medíocres. Ministros da área econômica talvez possam, ou devam, gastar algum tempo com essas ninharias. Mas serão, mesmo, ninharias?

Celso Ming - Sob o domínio do medo

O Estado de S. Paulo

O medo é o mais primário sentimento do ser humano. Move o mundo, espalha destruição e vai produzindo monstros, como o Leviatã, denunciado pelo filósofo Thomas Hobbes.

A história universal nos vai repassando inúmeros fatores de medo que extrapolam os indivíduos, tomam corpo coletivo e produzem consequências: medo da guerra, da fome, da peste, da morte, dos terremotos, de assalto, do diabo, das bruxas, do estrangeiro, da mulher, da solidão, medo do fim do mundo.

O noticiário diário está carregado de manifestações equivalentes. Por toda parte chegam reações hostis ao grande afluxo de imigrantes e de refugiados. O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, quer aniquilá-los. As levas de africanos diariamente despejados no litoral da Europa vêm fortalecendo movimentos xenofóbicos em países que se julgavam culturalmente avançados e livres de preconceitos selvagens desse tipo.

Celso Rocha de Barros - Lula deve recalibrar Lula

Folha de S. Paulo

Presidente deveria falar menos de Bolsonaro e buscar falar diretamente com evangélicos

A popularidade do governo caiu. O Datafolha de sexta-feira mostrou que a aprovação de Lula (35%) está mais ou menos empatada com sua rejeição (33%). Não é um resultado ruim, mas piorou desde o ano passado.

Muita gente correu para colocar a culpa na área de comunicação do governo, em especial no ministro Paulo Pimenta. Não há dúvida de que há o que melhorar. Mas o trabalho da Secretaria de Comunicação é apenas uma pequena parte da comunicação do governo.

É Lula quem faz a maior parte do trabalho. Quando ele fala, é o governo falando. É dele que cobramos explicações quando algo dá errado. Por isso, quem tem mais margem de manobra para melhorar a comunicação do governo é o próprio presidente.

Igor Gielow - Atos desconexos retratam dilema da polarização à frente do atual presidente

Folha de S. Paulo

Presidente aposta em Bolsonaro como espantalho, mas receita mostra sinais de exaustão

Os previsivelmente desconexos e esvaziados atos da esquerda contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) neste sábado (23) são menos relevantes no contexto das potencialidades dos campos rivais da polarização brasileira, mas retratam um dilema colocado à frente de Lula (PT).

Desde que assumiu o governo, com a grande ajuda dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o presidente aposta sistematicamente na divisão do eleitorado para manter sua base de apoio magnetizada.

Bolsonaro, mesmo tendo perdido os direitos políticos até 2030, é tratado como ameaça existencial. Com isso, o governo gira politicamente em torno da manutenção desse espantalho. Nada de novo aqui: o ex-presidente fez o mesmo com Lula ao longo de seu mandato.

Não só: ambos os líderes jogam uma partida de retroalimentação da importância do rival. O resultado fica evidente na constante polarização do país registrada pelo Datafolha, que na mais recente pesquisa mostrou o mesmo nível de divisão do eleitorado —no caso, 41% se dizem muito ou algo petistas, 30% o mesmo no registro bolsonarista.

Muniz Sodré* - A política no pântano

Folha de S. Paulo

Massa falida e as oligarquias pactuam com uma forma sociopata de liderança

Na cerimônia do Oscar, o apresentador Jimmy Kimmel rebate uma crítica de Trump: "Já não está na hora de você ir para a cadeia?". Se avaliada em termos tradicionais, seria resposta moralmente arrasadora a um ex-presidente americano, novamente candidato, bancando papagaio de pirata online no evento de teledifusão mundial que é a maior premiação cinematográfica dos EUA.

Hoje, o cardápio trumpista de política despreza a moral, a vergonha própria e prospera na metabolização da repulsa dos adversários, mais do que na afeição dos adeptos, pois esse é o combustível do seu ódio.

Bruno Boghossian - Beco sem saída

Folha de S. Paulo

Pragmatismo faz parte do jogo, mas esquerda precisa forçar debate e enfrentar agenda na segurança pública

Qualquer presidente de esquerda sabe que governar com um Congresso de direita significa escolher algumas batalhas e abrir mão de muitas outras. O pragmatismo é parte do jogo, mas só uma overdose de resignação é capaz de transformar brigas perdidas em presentes generosos para a oposição.

O governo entregou os pontos na votação do projeto que restringe a saída temporária de presos, aprovado na Câmara e no Senado. Sob o argumento de que aquele não era um tema de interesse do Planalto, os líderes de Lula no Congresso cederam a adversários um raro momento de protagonismo nacional numa área considerada delicada.

Vinicius Torres Freire - Aborto e drogas, aberração nacional

Folha de S. Paulo   

Descriminalização perde mais apoio, diz Datafolha; ideologia explica pouco das atitudes

Os brasileiros ficaram ainda menos propensos a aceitar mudanças em leis sobre aborto e a posse de um pouco de maconha, diz pesquisa Datafolha de março. Por exemplo, 67% acham que a posse de pequenas quantidades de maconha não deveria deixar de ser crime (ante 61% em setembro de 2023).

A maioria dos brasileiros está mais "conservadora" ou inclinada a apoiar a restrição de direitos individuais? Conservador ou antiliberal em relação a quê?

Datafolha de maio de 2022 que investigou opiniões sobre economia e comportamento registrava que 49% dos eleitores eram de esquerda, a maior taxa em nove anos; 34% eram de direita. Para 83%, o uso de drogas deveria ser proibido, 61% eram contra a pena de morte, 79% diziam que a "homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade". Para 63%, a posse de armas deve ser proibida.

Hélio Schwartsman - Olhe de novo

Folha de S. Paulo

Livro destrincha os efeitos psicológicos da habituação e defende que aprendamos a nos desabituar

A Lava Jato não passa de uma criação da CIA. Essa asserção e variantes são demonstravelmente falsas, mas petistas as repetem tão amiúde que já há quem as tome por verdadeiras. O nome do fenômeno é "efeito da verdade ilusória", que pode ser definido como a tendência de acreditar que informações falsas estão corretas após exposição repetida. Incrivelmente, funciona.

"Look Again" (olhe de novo), de Tali Sharot e Cass Sunstein, explica essa e outras facetas da habituação, um dos mais fascinantes atributos da psique humana. Tecnicamente, a habituação é uma forma de aprendizado, caracterizada pela diminuição da intensidade com que respondemos a um estímulo à medida que a exposição se prolonga. A habituação é uma bênção e uma maldição.

José Paulo Cavalcanti Filho* - Camões, 500 anos

Revista Será?

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos, quando possível, às vezes em troca de gorjeta. Ou comida. 

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda que sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524, agora completando essa data 500 anos. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Elis Regina - O Mestre-Sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanco)