sábado, 29 de janeiro de 2022

Oscar Vilhena Vieira*: Confronto deliberado

Folha de S. Paulo

Populistas não sobrevivem sem inimigos, ainda que imaginários

Populistas não sobrevivem sem inimigos, ainda que imaginários. A lealdade canina de seguidores precisa ser constantemente instilada. Não surpreende que um presidente abertamente hostil à Constituição tenha escolhido a instituição responsável pela sua guarda como alvo preferencial de seus ataques.

As investidas contra o Supremo começaram muito antes da posse de Bolsonaro. Quem não se recorda da intimidação perpetrada pelo general Villas Bôas, caso o tribunal concedesse um habeas corpus ao ex-presidente Lula, ou a ameaça feita por Eduardo Bolsonaro de que bastaria "um cabo e um soldado" para fechar o STF, se seu pai fosse impedido de tomar posse.

A escalada de ameaças, que contou com marchas e voos sobre o Supremo, culminou, em 7 de setembro último, com a promessa do presidente da República, em meio a uma série de ameaças a outros ministros do Supremo, de que não mais cumpriria decisões do ministro Alexandre de Moraes.

Nesta sexta-feira (28), para regozijo de seus aduladores, Bolsonaro cumpriu sua promessa. Não compareceu à Policia Federal para prestar depoimento, em inquérito que apura sua participação em vazamento de dados sigilosos.

Hélio Schwartsman: O STF e a bagunça partidária

Folha de S. Paulo

Corte definirá em breve os limites em que as federações poderão funcionar

O Brasil tende à autocomplacência. Se há uma forma de abrandar a regra que nos impõe condutas mais austeras, não hesitamos em abraçá-la. Isso fica nítido na versão brasileira da cláusula de barreira, aqui chamada de cláusula de desempenho.

A proliferação de partidos políticos é um problema. Ela aumenta os custos de formação e manutenção de coalizões governamentais. Se sentar-se com cinco ou seis líderes partidários fortes para fechar acordos já não é fácil, vai ficando muito mais difícil à medida que o número de lideranças aumenta. O Brasil tem hoje 24 partidos com presença na Câmara.

Para reduzir essa balbúrdia, muitas democracias adotam cláusulas de barreira, o limiar mínimo de votos que um partido precisa obter para conseguir sua primeira cadeira no Parlamento. Na Europa, o percentual costuma ficar entre 3% e 5%.

Alvaro Costa e Silva: Caô bolsonarista

Folha de S. Paulo

Menos para o aposentado e o estudante; muito mais para o centrão

O caô vem aí. Durante a campanha eleitoral, ao ser confrontado com o desastre que é seu governo, Bolsonaro vai dizer que não o deixaram trabalhar e depois arrolar os suspeitos de sempre: o STF, os governadores, os prefeitos, a imprensa, sem esquecer os comunistas que, apesar das camisas vermelhas como sangue, têm o dom de se esconder no breu das esquinas, armados com foice e martelo.

Imagine você se ele não pudesse fazer nada, nem passear de moto e jet-ski, nem se engasgar com camarão na praia. Tampouco sabotar a vacinação ou comparecer ao cercadinho num dia cujos compromissos da agenda oficial foram todos desmarcados. Imagine se suas mãos, mesmo atadas com cordas, não tivessem manejado a famosa caneta Bic, gastando toda a tinta dela na destruição do país. Não teríamos, por exemplo, os vetos de Bolsonaro no Orçamento de 2022.

Com seu jamegão, o homem que mostra tanto cuidado com nossas crianças retirou R$ 402 milhões da educação básica, afetando o programa de transporte escolar e a oferta de ensino integral (viva o homeschooling!). O Ministério da Educação sofreu no total um corte de R$ 740 milhões. Acresce o fato de que, com a pandemia, as escolas brasileiras ficaram fechadas por mais tempo do que na maioria dos países.

Carlos Góes: O direito de sonhar

O Globo

Uma das memórias mais fortes da minha adolescência é ser aprovado na universidade. Lembro bem da felicidade de ver meu nome na lista e a mirada orgulhosa de meus pais por eu ter passado na federal. Também lembro de me sentir realizado, como se tudo aquilo ali fosse fruto exclusivo do meu trabalho. Mas eu, adolescente, estava errado: a realidade não é exatamente assim.

Em um sentido muito básico, aquele meu pensamento tinha alguma razão de ser. O provável é que, tudo o mais constante, caso eu não tivesse estudado todo o tempo que estudei, não teria sido aprovado. Existe algum mérito na aprovação.

Mas, nesse caso, manter tudo o mais constante é enganador. Eu cresci numa família de classe média, com um núcleo familiar estável e em que a educação sempre foi vista como prioridade. Se minha circunstância fosse diferente (ou seja, nada mais constante), mesmo que eu me esforçasse o mesmo (ou até mais), é bem provável que o resultado fosse diferente.

Nossas circunstâncias condicionam as chances que temos de alcançar determinados resultados. Alguns anos atrás, publiquei um artigo junto com Daniel Duque, hoje pesquisador da Escola Norueguesa de Economia, em que estimamos que um jovem de uma família com renda familiar de classe média baixa tinha 2% de chance de ingressar numa universidade pública.

Ascânio Seleme: E o Rio, como vota?

O Globo

Pesquisa da GPP mostra a intenção de votos dos eleitores no estado para presidente, governador e senador

Uma pesquisa da GPP não registrada na Justiça Eleitoral mostra como evoluiu a intenção de votos no Rio de agosto do ano passado até este mês. Realizada entre os dias 21 e 24, dispõe sobre as eleições para presidente, governador e senador. Como em todas as pesquisas nacionais, Lula bate Bolsonaro nos dois turnos, mas por margem menos elástica no Rio. O instituto não apresentou ao eleitor outras opções de nomes além dos dois protagonistas, oferecendo duas alternativas: “Nem Bolsonaro e nem Lula” e “Não sabe”. A alternativa “nem e nem” teve quatro pontos percentuais a menos do que Lula e seis pontos a mais do que Bolsonaro.

Pela pesquisa, Lula tinha pouco mais de quatro pontos de vantagem sobre Bolsonaro em agosto do ano passado e empatava tecnicamente com os eleitores “nem e nem”. Em outubro, a distância entre os dois candidatos subiu para nove pontos e manteve-se nesse patamar agora em janeiro. A pequena vantagem de Lula no Rio reflete a força do seu adversário no estado. Mas, se comparado ao resultado de 2018, percebe-se uma grande reviravolta. No segundo turno, de acordo com a pesquisa da GPP, Lula ganharia a eleição com 14 pontos de vantagem. Em 2018, Bolsonaro obteve 67,9% dos votos contra 32,05% dados a Fernando Haddad. Sua queda em três anos é astronômica.

Outros resultados da pesquisa merecem uma análise que ajuda mais a entender o eleitor fluminense do que avaliar as chances dos candidatos. No campo religioso, Lula ganha de Bolsonaro entre os católicos e os que declaram não ter religião. Em ambos os casos, o petista soma quase 20 pontos de vantagem. Já entre os evangélicos do Rio, Bolsonaro lidera com folga de dez pontos percentuais. Mesmo assim, no resultado combinado, os eleitores “nem e nem” e os que não sabem em quem vão votar somam quase cinco pontos a mais do que o total de Lula, que supera Bolsonaro em quase dez pontos percentuais.

No item que o GPP batizou de “Trabalho”, Lula perde por três pontos para Bolsonaro entre os autônomos, profissionais liberais e empresários. Lula ganha em todos os demais. Entre os trabalhadores com carteira assinada, supera o adversário por quatro pontos. Junto aos desempregados, ganha com 17 pontos de vantagem. E entre os que não trabalham (aposentados, do lar ou estudantes), Lula supera Bolsonaro por 12 pontos percentuais. No campo “Instrução”, Lula ganha com mais de 20 pontos entre os eleitores menos escolarizados, empata com Bolsonaro junto aos de ensino médio, e perde por três pontos entre os que têm curso superior.

Demétrio Magnoli: ‘Ir mais fundo que a raça'

Folha de S. Paulo

Braço direito de Luther King nunca abandonou a luta antirracista e rejeitava políticas identitárias

"Hoje, incontáveis ‘remédios’ —como a Teoria Crítica da Raça, a abordagem pós-marxista e pós-moderna da moda que analisa a sociedade como estruturas de poder institucional de grupos (...)— nos conduzem à direção errada: a separação até de crianças da escola elementar em categorias raciais explícitas, enfatizando diferenças ao invés de similaridades. A resposta é ir mais fundo que a raça, que a renda, que a identidade étnica ou de gênero. Ensinar a nós mesmos a compreender cada pessoa não como símbolo de um grupo, mas como um indivíduo singular, especial, no contexto de uma humanidade compartilhada."

Calminha, sacerdotes iracundos da IRUD, a Igreja do Racialismo dos Últimos Dias. Esperem um instante antes de caluniar o autor do texto acima, rotulando-o como supremacista. Contenham-se, ativistas da IRUD nas redes sociais. Não utilizem "brankkko", o termo infame que aprenderam com seus sacerdotes a empregar, para associá-lo à Ku Klux Klan (e, quando descobrirem a cor da sua pele, abstenham-se da rotina de qualificá-lo como "capataz da Casa-Grande"). Aguardem, integrantes do grupo Jornalistas Pela Censura Virtuosa: evitem escrever um manifesto identificando suas palavras à negação do Holocausto.

Cristina Serra: Damares e Queiroga, os dois abutres

Folha de S. Paulo

Tudo há de ser considerado agravante no dia em que forem julgados

Sim, eu sei, o responsável maior por tudo isso é Bolsonaro. Mas quero falar desses dois pelo que fizeram nos últimos dias, com suas notas "técnicas" que são decretos de morte, com seu palavrório "técnico" homicida.

Ao semear confusão proposital sobre as vacinas, os dois abutres sopram o hálito da morte, desestimulam as pessoas a dispor do melhor recurso de proteção neste momento, receber uma injeção no braço, ato corriqueiro até outro dia.

Como nas facções criminosas, os dois abutres competem em vilania para desfrutar das graças do chefe. Agem por motivo torpe, cruel, fútil, sem dar possibilidade de defesa às vítimas. Seus alvos são crianças! Muitas delas talvez já sejam órfãs de pai, mãe ou de ambos, mortos pela Covid. Crianças que poderão ter sequelas da doença. Crianças já tão sacrificadas em dois anos de prejuízos no aprendizado.

João Gabriel de Lima*: Luzes, câmera – e ação pela Amazônia

O Estado de S. Paulo

Mundo quer poucas coisas do Brasil. A mais importante talvez seja o fim do desmatamento

O festival de Sundance, principal mostra do cinema independente americano, exibiu nesta semana o documentário The Territory. O filme narra a saga dos índios jupaús para expulsar invasores de suas terras. A produção é do nova-iorquino Darren Aronofsky, que se consagrou ao dirigir filmes como Cisne Negro e Réquiem Para Um Sonho. Uma das personagens do documentário é Neide Suruí, mãe de Txai Suruí, a brasileira que discursou na abertura da COP de Glasgow.

Em 15 de fevereiro, a nova exposição do fotógrafo Sebastião Salgado chega a São Paulo, depois de passar por Londres, Roma e Paris. Impressionam os registros de populações indígenas, com retratos belíssimos. A exposição vai muito além da fotografia. É praticamente um espetáculo multimídia, que incorpora a música de Villa-Lobos e Philip Glass e depoimentos de líderes de nações.

Bolívar Lamounier*: Da professorinha rural à Petrobras

O Estado de S. Paulo

Uma prática política pode ser considerada imoral em razão das consequências perversas à coletividade

No começo dos tempos, os deputados gastavam boa parte de seu tempo pleiteando a nomeação de parentes e amigos para a agência local dos correios ou para o ensino primário rural.

As coletividades locais não se importavam com isso, pois de alguma forma tais funções haveriam de ser preenchidas, e não sentiam impacto algum em suas vidas, se o fossem pela influência de algum deputado ou por algum outro meio. 

Reparem que a dimensão dos impactos é fundamental. Uma prática política pode ser considerada imoral não só porque incorpora valores que a sociedade condena, mas também em razão do alcance das consequências perversas que pode produzir sobre a coletividade. 

Sérgio Augusto: O imbecil privado

O Estado de S. Paulo

Com panca de caubói, ele transfigurou-se numa usina de mentiras e insultos

Os anticomunistas mais fanáticos e perigosos costumam ser aqueles que já militaram do outro lado, não porque íntimos das entranhas da baleia mas porque raramente se conformam com ter sido “enganados” pelos prosélitos da antiga crença. Passionais e agressivos, apelidei-os, faz tempo, de “cornos ideológicos”, tendo em mente cornudos antológicos como Carlos Lacerda, que foi um inflamado integrante da Juventude Comunista antes de se transformar no mais incendiário anticomunista do País. 

Tudo no Brasil se deteriorou tanto nos últimos anos que o Lacerda que nos coube ter neste início de milênio foi o dublê de professor, “filósofo” e astrólogo Olavo de Carvalho. Se acreditasse em bruxarias, juraria que o guru do bolsonarismo acabou vítima de um canjerê coletivo. Sua morte, no início da semana, foi saudada nas redes sociais até por quem considera a empatia um dever de todos para com todos, sem exceção daqueles que a desqualificam e hostilizam. 

Eduardo Affonso: Com censura, sem afeto

O Globo

Depois de ter sido (a contragosto) a musa da Bossa Nova e ter se lançado no projeto de ir além do barquinho e da flor, e descobrir o Brasil do morro e do sertão, Nara Leão encontrou em Chico Buarque um dos seus autores preferidos.

Dele, gravou “Olê olá”, “A banda”, “A noite dos mascarados” e “Com açúcar, com afeto” — o melhor da produção inicial daquele que viria a ser um dos maiores compositores brasileiros (se não o maior).

Um dos momentos mais surpreendentes do excepcional documentário “O canto livre de Nara Leão” é quando, candidamente, Chico admite que renega “Com açúcar”, escrita a pedido da cantora. E não é que considere pobre a melodia, fraca a letra. As feministas não gostaram e “Vou sempre dar razão às feministas”, diz ele.

“Quando a noite enfim lhe cansa / Você vem feito criança / Pra chorar o meu perdão. (...) E ao lhe ver assim cansado / Maltrapilho e maltratado / Ainda quis me aborrecer? / Qual o quê / Logo vou esquentar seu prato / Dou um beijo em seu retrato / E abro os meus braços pra você.” Quantas mulheres não se enxergaram nesse espelho, e assim tomaram consciência da manipulação, do abuso?

Rafael Soares: Pistoleiros ficha limpa

O Globo

Quando foi morto numa operação policial no interior da Bahia, em fevereiro de 2020, o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Adriano Magalhães da Nóbrega era apontado pelo Ministério Público como o matador de aluguel mais letal e mais bem pago do Rio. Investigadores estimam em mais de uma centena a quantidade de vítimas que o ex-PM fez em duas décadas de carreira no submundo. Nóbrega, entretanto, nunca chegou a ser formalmente acusado da grande maioria desses crimes e morreu sem nenhuma condenação por homicídio nas costas.

O ex-PM não descobriu a fórmula do assassinato perfeito. Muito pelo contrário: indícios de sua participação em vários crimes abundavam, mas foram ignorados pela polícia. Ao longo da apuração que resultou no podcast “Pistoleiros”, lançado em dezembro passado e disponível no Globoplay, coletei provas da participação de Adriano em oito homicídios diferentes entre 2005 e 2011.

Num desses casos, a execução do bicheiro José Luiz Lopes, o Zé Personal, em 2011, a polícia já tinha provas substanciais contra Nóbrega semanas depois do crime: testemunhas apontaram, em depoimento, o ex-capitão como mandante do homicídio, e um de seus capangas mais próximos, cuja voz foi reconhecida por um homem que presenciou o crime, como um dos executores. De lá para cá, nada foi feito. O inquérito vagou por gavetas de autoridades e chegou a ser destruído por goteiras na delegacia. Até hoje, o caso segue em aberto.

Ligia Bahia: Como ficam os clientes sem a UnitedHealth?

O Globo

O anúncio da saída da empresa americana UnitedHealth do país é mais um sapo a ser engolido por uma parcela da população exaurida pelos dois anos de pandemia. Quem tem plano de saúde só consegue fazer testes para Covid-19 na rede privada com pedido médico e controle da quantidade, apesar do aumento das mensalidades.

O ingresso no país da empresa foi saudado como uma lufada de modernidade e qualidade que se espraiaria para congêneres nacionais. Não foi isso que se viu. Houve mudanças pontuais nos fluxos de informação das intrincadas gambiarras operacionais que vinculam assistência, remuneração e desfechos. Mas não ocorreram alterações na progressão, sempre acima dos índices econômicos, das mensalidades e na queda de braço com as negações de coberturas.

Entre a perspectiva de avanço na gestão por uma empresa americana e o suposto atraso e as especificidades brasileiras, prevaleceu o anacronismo. Um plano de saúde da UnitedHealth (ex-Amil) no Brasil é similar aos nacionais.

Mudanças ocorreram no país. Em 2012, o então diretor-executivo da UnitedHeath, Stephen J. Hemsley, declarou: “o Brasil emergiu como um mercado em constante expansão e evolução para o setor privado. Sua economia em crescimento, classe média emergente e políticas progressivas o tornam um mercado de alto potencial de crescimento. É a oportunidade mais atraente que vimos em anos”.

Dora Kramer: Pelas beiradas

Revista Veja

Lula atrai tucanos para uma antiga ideia dele sobre volta do bipartidarismo no país

A necessidade de uma alteração radical na qualidade e na quantidade do sistema partidário brasileiro é daquelas unanimidades sobre as quais muito se fala e nada se faz. Todas as ditas reformas políticas ensaiadas de 1997 para cá, lá se vão 25 anos, foram feitas na base do quanto mais se muda, mais fica tudo como está.

O ex-senador Jorge Bornhausen quando presidente do PFL (atual DEM, em via de incorporação ao União Brasil) dizia que a reforma política real e necessária não sairia nunca porque era tarefa dos políticos, resistentes a mudar as regras pelas quais eram eleitos. Muito se tentou, mas pouco se conseguiu.

Houve algumas modificações pontuais, boa parte delas derrubada ou reformulada por decisões da Justiça e/ou por ação do próprio Congresso. Suas altezas têm por hábito alterar normas a cada eleição. Sempre com o cuidado de não tocar em questões de fundo como voto obrigatório x facultativo, presidencialismo x parlamentarismo e sistema majoritário x distrital.

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva faz agora movimentos que de início parecem direcionados apenas à montagem da candidatura e campanha presidenciais, mas, se examinados na perspectiva de ideias já defendidas por Lula, podem ter um alcance mais ambicioso.

Logo nos primeiros dois anos de seu primeiro mandato no Planalto ele difundiu a tese de que o Brasil estava destinado a ter dois, no máximo três, partidos fortes. Depois Lula abandonou o assunto, mas aquilo ficou ali, intocado numa prateleira da história.

Marcus Pestana*: Os desafios da liberdade

Liberdade. Substantivo feminino. “1. Grau de independência legítimo que um cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo”. “2. Possibilidade de agir conforme a própria vontade, mas dentro dos limites da lei e das normas racionais socialmente aceitas”. “3. Estado ou condição de quem é livre”. “4. Supressão das formas de opressão anormais, ilegítimas e imorais”. Tudo parece simples na linguagem formal dos dicionários.

A vida, no entanto, é mais complexa. Filósofos, poetas, políticos, juristas, intelectuais, líderes populares fizeram correr rios de tinta e pronunciaram tempestades de discursos sobre as controvérsias acerca da liberdade. Liberdade é a maior aspiração humana. Liberdade individual, religiosa, política, social e econômica, com suas contradições e interrogações.

A ordem natural deveria ser o império da liberdade absoluta. Mas a civilização é, de certa forma, a negação da liberdade absoluta. O Estado, as instituições, as leis, a família, a propriedade, os costumes, as regras não escritas, os padrões culturais dominantes, são formas de subjugar os excessos da liberdade. Se me sentisse livre para matar outro ser humano, implicitamente estaria legitimando o direito de outra pessoa me matar. Em algum momento do avanço civilizatório se estabeleceu: matar é crime. São pactos de convivência que vão nascendo, restringindo a ideia de liberdade absoluta.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É oportuna nova parceria do TSE com WhatsApp

O Globo

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem se esmerado num cuidadoso trabalho para evitar que não se repitam este ano as campanhas de desinformação e ataques sórdidos frequentes em aplicativos de mensagens em 2018. O passo mais recente foi dado na quinta-feira, quando o TSE informou a criação de um canal no WhatsApp, pertencente à empresa americana Meta, para que mensagens em massa sejam denunciadas.

A medida foi acordada entre o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do tribunal, e Will Cathcart, chefe do aplicativo de mensagens presente na quase totalidade dos smartphones brasileiros. Será o aprimoramento de um projeto semelhante colocado em prática antes das eleições municipais de 2020. A parceria ainda prevê acesso a serviços da Justiça Eleitoral, como consulta sobre o local de votação. Se bem executadas, essas iniciativas provarão que aplicativos de mensagens podem ajudar a fortalecer a democracia, não ser uma fonte de discurso de ódio, calúnia e teorias conspiratórias.

Cathcart fez bem ao informar que não implementará novas funcionalidades de grande impacto até o fim do processo eleitoral. Uma das novidades que vinham sendo debatidas e agora foi suspensa era a expansão da capacidade de disseminação de mensagens. Um disparo continuará a alcançar, no máximo, 256 pessoas, o que parece razoável.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Música | Expedito Baracho: O anel que tu me deste (Capiba)