quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Elio Gaspari – O Planalto estava desguarnecido

O Globo

As invasões do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal e do Congresso tiveram muitas respostas, todas certas. Como bem lembrou o repórter Guga Chacra, o Judiciário e o Legislativo uniram-se ao Executivo, coisa que não aconteceu em Washington em janeiro de 2021. Sobraram perguntas. A mais óbvia é a do financiamento. Segundo o ministro da Justiça, Flávio Dino, pelo menos em dez estados já foram identificadas fontes. Pode-se esperar que as investigações deem nomes aos bois. Restam outras, e entre elas há uma: o que aconteceu com o Batalhão da Guarda Presidencial?

Trata-se de um corpo de tropa criado por Dom Pedro I há exatos 200 anos. Ele existe para proteger o presidente e seus palácios. Jamais aconteceu o que se viu no domingo. Dois imperadores e quatro presidentes foram depostos sem invasões do palácio.

Com sua experiência de criminalista, o advogado Alberto Zacharias Toron já disse que “inquietante é a questão de saber por que o Batalhão da Guarda Presidencial não defendeu o Palácio do Planalto”.

Bernardo Mello Franco - A revolução dos manés

O Globo

Justiça precisa punir comunicadores, empresários e políticos que incentivaram tentativa de golpe

Camisa da seleção, bandeira verde-amarela, boné com o nome de Bolsonaro. O mato-grossense Fabrizio Cisneros vestiu uniforme completo para participar dos atos golpistas em Brasília. De celular em punho, ele usou as redes sociais para festejar a depredação das sedes dos Três Poderes.

“Tomamos o poder! Estamos aqui em cima do Planalto!”, comemorou o extremista, em transmissão ao vivo. As imagens mostram que ele estava em cima da marquise do Congresso, mas a confusão geográfica foi seu menor erro no domingo.

Cisneros tentou entrar na política pela via eleitoral. Candidato a vereador em Cáceres, na fronteira com a Bolívia, recebeu apenas 14 votos. Frustrado com as urnas, o protético aderiu ao golpismo. Passou a se alimentar de fake news, acampou em porta de quartel e participou do maior ataque à democracia brasileira desde o fim da ditadura.

Luiz Carlos Azedo - “Que bobos, não sabem que a arte existe porque a política não basta”

Correio Braziliense

Os palácios e os interiores na nossa capital estão entre o que existe de mais original e valioso na nossa cultura, principalmente na arquitetura, nas artes plásticas e no design. Existe muito simbolismo na política

Num determinado dia no início dos anos 1960, o jornalista Antônio Maria, que, por si só, mereceria uma coluna apenas para contar essa história, foi atacado por capangas de alguém que não gostava dele por causa de suas colunas. Estavam orientados a pisar seguidamente nas suas mãos, para que não mais pudesse escrever. Na manhã seguinte, Maria denunciava a agressão com o humor ferino que encantava seus leitores e enfurecia os desafetos: “Que bobos! Eles pensam que o jornalista escreve com as mãos”. A frase foi imortalizada no jornalismo brasileiro e, obviamente, serve de inspiração para a coluna de hoje. Antônio Maria morreu em 1964.

O vitral Araguaia, de Marianne Peretti, obra de 1977, não foi destruído no domingo pelos vândalos que invadiram o Congresso. A artista plástica Marie Anne Antoinette Hélène Peretti, filha de mãe francesa e pai brasileiro, nasceu em 1927, em Paris, e veio para o Brasil em 1953. Marianne foi a única artista mulher a integrar a equipe de Oscar Niemeyer na construção de Brasília. Morreu em abril do ano passado, no Recife. Entre suas obras mais famosas, estão os vitrais da Catedral de Brasília, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Palácio do Jaburu e do Memorial JK. Suas obras são reconhecidas internacionalmente, em outros projetos de Oscar Niemeyer, como o Edifício Burgo (Turim, Itália) e a Maison de la Culture du Havre (Le Havre, França).

Fernando Exman - Infraestrutura crítica e terrorismo no Brasil

Valor Econômico

Há indícios de sabotagem em diversos setores

A gravidade dos atos terroristas contra o coração da República já era mais do que óbvia no início da noite de domingo, quando a Federação Única dos Petroleiros divulgou uma nota alertando que atuação de bolsonaristas radicais poderia ir além. Havia movimentações no sentido de impedir o fornecimento de combustíveis à população, dizia a FUP.

Nas últimas horas, surgiram indícios de que algo estranho também ocorreu no setor elétrico. Importantes torres de transmissão caíram. Ou foram derrubadas. Há sinais de vandalismo. Semanas antes, um caminhão-bomba foi encontrado - e neutralizado - perto do aeroporto de Brasília.

Investigações precisam apontar se há uma conexão entre esses episódios. Já é possível dizer, contudo, que no limite, se todas essas ações tivessem alcançado seus objetivos, os danos à economia e ao tecido social brasileiro seriam gravíssimos. Isso, claro, sem falar nas incontáveis vítimas que poderiam ter provocado.

Nilson Teixeira - Atropelos no início do governo

Valor Econômico

Os crimes do último domingo precisam ser respondidos, mas não podem justificar atrasos na agenda do governo

Os primeiros dias da atual gestão reforçaram a avaliação de que todo o início de governo é marcado por atropelos e desacertos, mesmo com o presidente eleito já tendo ocupado igual posição no passado. Além da adaptação aos trâmites burocráticos dos novos cargos, os membros do gabinete ministerial precisam começar a definir seus planos de ação, bem como participar de ferrenhas negociações para a escolha de auxiliares do 2º e 3º escalões do seu ministério. Esse ambiente é fértil para comentários que não necessariamente estão alinhados com as prioridades do presidente, gerando crises que poderiam ser facilmente evitadas.

As manifestações violentas do último domingo em Brasília tornaram este início de governo ainda mais inusitado, pois não é comum haver protestos tão cedo, mesmo considerando uma eleição presidencial com resultados tão apertados.

Patrícia Campos Mello - Bolsonaro aposta na 'negação plausível' para não ser punido

Folha de S. Paulo

Como Trump nos EUA e Modi na Índia, ex-presidente é ambíguo na incitação à violência e terceiriza crimes para seus apoiadores

O bolsonarismo fia-se cada vez mais na estratégia da "negação plausível", abraçada por líderes como o ex-presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. A estratégia consiste em usar ambiguidade para instigar apoiadores à violência e terceirizar atos criminosos como ataques golpistas —e assim apagar impressões digitais incriminatórias.

A negação plausível permite ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se dissociar de qualquer sujeira feita em seu benefício.

Os comentários de Bolsonaro sobre os movimentos golpistas, por exemplo, não recorrem à incitação clara, evitando que ele possa ser responsabilizado pela violência que suas palavras eventualmente desencadeiem. Por outro lado, suas declarações também fogem de uma condenação enfática do golpismo, mantendo o extremismo mobilizado.

"Manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia. Contudo, depredações e invasões de prédios públicos como ocorridos no dia de hoje, assim como os praticados pela esquerda em 2013 e 2017, fogem à regra", disse Bolsonaro horas depois dos atos violentos de golpistas em Brasília no dia 8.

Ele condenou as depredações, mas imediatamente as comparou a atos da esquerda. Lembrando que nem em 2013 nem em 2017 houve depredação e violência no Congresso, STF e Planalto, com pedidos amplos de golpe de Estado.

Hélio Schwartsman - Admirável mundo novo

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas recorrem a autoengano para pacificar suas crenças

A direita defende a ordem. Isso não é muito compatível com as cenas de destruição em Brasília. Grupos de bolsonaristas tentam resolver essa contradição, que na psicologia leva o nome de dissonância cognitivaatribuindo a baderna a petistas infiltrados. Há um limite para o autoengano? Talvez haja, mas ele tende ao infinito.

Quem desbravou os mecanismos psicológicos da dissonância cognitiva foi Leon Festinger, e a história de como o fez é deliciosa. Eram os anos 1950. Festinger e seus colaboradores estavam interessados no efeito de profecias que dão errado. A sorte lhes sorriu. Eles viram num jornal de Chicago uma nota sobre uma seita, The Seekers, que afirmava que o fim estava próximo. Infiltraram-se no movimento para acompanhar tudo de camarote.

Bruno Boghossian – O golpismo sem escolta

Folha de S. Paulo

Decisão de Moraes, na prática, determina que polícias não podem servir de escolta para golpistas

É provável que nenhum policial bolsonarista tenha deixado de ser bolsonarista desde o último domingo. Mas o custo de sorrir para selfies com criminosos e tomar água de coco enquanto golpistas tentam derrubar o governo ficou mais alto.

As ordens de prisão contra o ex-comandante da PM e o ex-secretário de Segurança do Distrito Federal foram um recado para forças de segurança de todo o país. A decisão de Alexandre de Moraes, na prática, determina que agentes públicos não podem conceder porteira aberta para atos antidemocráticos e oferecer suas tropas para escoltar golpistas.

Mariliz Pereira Jorge - Pau nos golpistas

Folha de S. Paulo

Que índole democrata permanece inabalada após quatro anos num país contaminado pela raiva?

Não me reconheço nesses tempos estranhos em que temos vivido. Diante das imagens de uma Brasília sendo destruída por uma horda de vândalos, pensei: pau nos golpistas. Que índole democrata permanece inabalada depois de quatro anos num país contaminado pela raiva?

Se a Monja Coen perdeu a paciência por causa de futebol, imagine o que se passa nas entranhas do cidadão comum que vê o país sob a tentativa de golpe. Percebi o movimento sorrateiro do fascistinha que habita mesmo o íntimo de todos nós que acreditamos que a democracia é inegociável. Tão inegociável que me peguei gritando pau nos golpistas.

Vera Rosa - ‘Abin paralela’ no Palácio do Planalto

O Estado de S. Paulo.

Na janela de vidro do STF, a frase ‘Perdel (sic) mané’ mostra a outra face do terror

Desde domingo, quando a capital da República foi atacada por vândalos, um clima de desconfiança se instalou na Praça dos Três Poderes. Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido aconselhado a tirar a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) da estrutura do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

A ideia de desmilitarizar a inteligência do governo apareceu nas discussões da equipe de transição, mas ganhou força nos últimos dias, após a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Aliados de Lula retomaram a cobrança pela criação de um ministério para cuidar da segurança pública, separado da pasta de Justiça, comandada por Flávio Dino. A avaliação é de que houve “sabotagem” por parte do governo do Distrito Federal ao não impedir o vandalismo. Mesmo assim, Lula afirmou que o GSI, a Abin e os ministérios da Justiça e da Defesa também falharam.

Paulo Delgado* - A Constituição que virou suco

O Estado de S. Paulo.

A tarde de domingo foi um alerta final para a importância de uma Constituição respeitada

Cada parlamentar do Brasil se compromete com o eleitor a ser ele mesmo, dando ao senso de desempenho mais valor do que ao senso de dever. Cheio de si vai ao limite no exercício de mandatos, praticamente unânimes em ferir a Constituição. O eu-deputado, alheio a ser representante coletivo da sociedade esgotada, opera sistematicamente uma violência contra a regra maior do País, produzindo enfartes legais, cada vez mais frequentes, através do uso abusivo de emendas constitucionais. Agente da precariedade da vida legal, esse legislador abusivo não se sente submetido a qualquer coação legal por estar em seu poder mudar a lei quando quiser.

Sem exceção, confirmam o agouro de que, se não pudessem contar com os bons, os maus seriam inúteis.

Segundo a Agência Senado, o Congresso Nacional promulgou 14 emendas à Constituição somente em 2022. O número é recorde para um único ano desde que a Carta entrou em vigor. O número de promulgações de 2022 é quase o dobro do ano recordista anterior – 2014 –, com oito emendas promulgadas. Além desses, em apenas cinco outros anos houve pelo menos seis promulgações. Somente em 2020, ano um da pandemia de covid-19, a Constituição não foi violada.

Sergio Augusto de Moraes* - Terrorismo em janeiro de 2023

O que aconteceu ontem em Brasília foi uma tentativa de acabar com a democracia no Brasil, mesmo que a maioria dos bolsonaristas que estavam na manifestação que resultou na depredação das sedes dos três poderes não tivessem consciência disto.

Há que se entender que não foi uma ação de meia dúzia de malucos, mas sim, uma ação massiva, de milhares. Apoiada por milhões de bolsonaristas em todo o Brasil e que deve ser enfrentada não só pela justiça mas também no terreno da política.

Outro aspecto desse acontecimento é uma certa desatenção do governo Lula e da maioria dos democratas brasileiros, que concentraram suas atenções na posse de Lula, sem dar-se conta, que os golpistas não se limitariam às manifestações e acampamentos frente aos quarteis.

Existe uma organização por trás destas ações que detém a hegemonia nos órgãos de informação. O caso do governador de Brasília é apenas a ponta do iceberg.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É amplo o apoio à democracia brasileira

O Globo

Reação internacional mostra que a minoria radical bolsonarista está isolada dentro e fora do Brasil

Em poucas semanas, no início do próximo mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajará para os Estados Unidos, onde se encontrará com o mandatário americano, Joe Biden, na Casa Branca. Em conversa pelo telefone depois do ataque da minoria radical bolsonarista na Praça dos Três Poderes, Biden declarou “apoio incondicional” à democracia brasileira. O isolamento dos terroristas que assaltaram Brasília não é apenas um fenômeno doméstico. Declarações de vários chefes de governo e de representantes de órgãos multilaterais demonstram a existência de uma ampla rede internacional contrária à tentativa de golpe.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, declarou ter plena confiança nas instituições brasileiras e na capacidade de o país lidar com o desafio. Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia, afirmou que a democracia “prevalecerá sobre a violência e o extremismo”. Emmanuel Macron, presidente francês, que deverá vir ao Brasil em breve, afirmou que a vontade do povo brasileiro e as instituições democráticas “devem ser respeitadas”. O chanceler alemão Olaf Scholz usou uma rede social para dizer que o atentado à democracia “não pode ser tolerado”. O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, lembrou que a ameaça é global. Na América Latina, os presidentes de Argentina, Chile, Colômbia, México e Uruguai estão entre os que manifestaram rechaço aos extremistas.

Poesia | Vinícius de Moraes - Eternamente exausto

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - Clareou