terça-feira, 8 de agosto de 2023

Merval Pereira - Visão distorcida

O Globo

Zema não pregou a separação do Sul e Sudeste, mas falar em “vacas que produzem menos” mostra falta de empatia e preconceito

A onda de protestos contra o governador de Minas, Romeu Zema, por declarações depreciativas ao Nordeste tem um aspecto político inegável, mas tem também sua razão de ser. Chamá-lo, como fez o ministro da Justiça, o maranhense Flávio Dino, de traidor da pátria por supostamente pregar o separatismo é claramente uma retórica política que nada tem a ver com a realidade. Zema não pregou a separação do Sul e Sudeste. Defendeu que a sua região tenha vantagens por ser responsável pela maior parte da produção de riqueza nacional. Nesse aspecto, revela-se o olhar preconceituoso que merece todas as críticas.

O menosprezo pela região que tem “vacas que produzem menos” mostra falta de empatia e a visão restrita dos que consideram que o Sul e o Sudeste carregam nas costas o Nordeste. Como alternativa à sucessão de Lula pela direita, Zema pode ganhar apoio de um eleitorado que pensa como ele, mas certamente perderá os que têm preocupação com o conjunto do país, que não pode continuar sendo imensamente desigual como é hoje.

Além do mais, a cultura nordestina, assim como a nortista, faz parte da riqueza imaterial de um país chamado Brasil, com sua música, sua culinária, sua arquitetura. Um governador de estado, mesmo que não tenha intenção de ser candidato à Presidência da República, não pode ter essa visão tacanha do conjunto do país, pois, para que um estado cresça e produza, é preciso que os demais estejam pelo menos equilibrados. Um país jamais será uma grande nação se tiver partes segregadas pela pobreza.

Igor Gielow - Fala desastrada de Zema antecipa disputa na direita para 2026

Folha de S. Paulo

Sem Bolsonaro no páreo e com silêncio de rivais, mineiro se arrisca a ficar isolado

As novas declarações desastradas de Romeu Zema colocam o governador de Minas Gerais sob risco de isolamento, mas antecipam a disputa na direita brasileira pelo espaço deixado por Jair Bolsonaro (PL), inelegível até 2030.

Zema tem se mostrado politicamente inábil, como a sugestão de que Sul e Sudeste precisam se unir para fazer valer seu peso natural, mas a exposição tem uma motivação clara: a disputa presidencial de 2026.

O governador do Novo reelegeu-se com facilidade no segundo maior colégio eleitoral do país no ano passado, um feito nada desprezível. Ainda jovem com 58 anos, mostrou competência local. Mas é desconhecido nacionalmente, segundo poucas pesquisas disponíveis para partidos e na percepção de operadores políticos experientes.

Desta forma, botar a cabeça para fora mais cedo é uma forma lógica de se posicionar no debate público, ainda dominado pela oposição entre bolsonarismo e lulismo. Também segundo o raciocínio, ele tenta se dizer antipetista e não bolsonarista raiz, apesar de ter apoiado o ex-presidente no segundo turno de 2022.

Luiz Carlos Azedo - Zema exumou velhos sentimentos preconceituosos e separatistas

Correio Braziliense

Há uma articulação do Sul e do Sudeste contra o Norte e o Nordeste na reforma tributária, por causa da mudança da arrecadação de tributos da origem para o destino das mercadorias

O brasileiro é uma invenção dos mineiros. Seu mito fundador é a Inconfidência, em 1789, ou seja, vem de antes da Independência, que só viria a ocorrer em 1822, cujos protagonistas se dividiram em dois partidos: o dos brasileiros e o dos portugueses. O Partido dos Brasileiros já nasceu dividido entre democratas, liderado por Gonçalves Ledo, que defendia um regime parlamentarista, e aristocratas, tendo à frente José Bonifácio, que defendia um Executivo forte, com medo da fragmentação territorial.

O risco de fragmentação, como aconteceu em toda a América Latina, era real. Viria a se expressar com muita força, por exemplo, na Confederação do Equador, em 1824, tendo à frente Pernambuco. A república seria formada também pelas províncias de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Alagoas, mas nenhuma delas aderiu ao movimento separatista. E, também, na Revolução Farroupilha (1835-1845), com a formação da República Rio-Grandense e da República Juliana. No primeiro caso, os líderes foram executados, entre os quais Frei Caneca, arcabuzado; no segundo, os que negociaram a paz foram anistiados e incorporados ao Exército, com suas patentes.

Eliane Cantanhêde – E agora, José?

O Estado de S. Paulo

Lula superou o pior e capitalizou o melhor momento. O que vem pela frente?

O presidente Lula vive numa montanha-russa, ora nas nuvens, ora lá no fundo. Depois de resgatar as políticas sociais e reagir ao 8 de Janeiro liderando os Poderes e os Estados pela democracia, ele desandou a falar besteiras, confraternizou com Venezuela, Rússia e China, confrontou Estados Unidos e Europa e jogou montes de dúvidas sobre a economia e o Lula 3. Mais à esquerda, estatizante, gastador?

A partir daí, os articuladores políticos entraram em campo e Lula fez uma correção de rumos, botou a política externa no prumo e assumiu o ataque sistemático aos juros estratosféricos, ao Banco Central e a Roberto Campos Neto. Colou! Quem gosta de juros altos? Ninguém.

Míriam Leitão - O que esperar da Cúpula de Belém

O Globo

Um ponto importante que pode sair do encontro, segundo os que acompanharam as negociações preparatórias, é uma agenda de combate aos crimes nas fronteiras

A cúpula que começa hoje em Belém é a retomada de um diálogo interrompido numa época em que o tempo se acelerou. Treze anos depois da última reunião, tudo é mais grave e mais urgente. Os países têm situações políticas distintas, alguns enfrentam grave crise interna. Para o Brasil, a cúpula é estratégica porque dá ao presidente Lula mais argumentos. Agora, além dos dados de queda de desmatamento, conseguidos em seis meses de governo, ele terá reunido os países da região, mostrando liderança e iniciativa. Vai ter o que apresentar nos próximos encontros multilaterais: do G-20, que passará a presidir no mês que vem, na abertura da ONU, na COP-28 e em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Mas avanços mais concretos serão necessários.

— Há uma enorme discrepância entre os países amazônicos em termos de presença e atividades na região, nenhum chegando perto do Brasil que é amazônico por excelência — diz o embaixador Rubens Ricupero, o principal negociador do Tratado de Cooperação Amazônica, assinado em Brasília, em 1978.

Carlos Andreazza – Pretinhos

O Globo

Uma resenha afetiva para o disco em que Xande de Pilares canta Caetano de Veloso.

‘Gente’ virou samba de terreiro. De morro. Riscou o chão na Balaiada. Caetano entendeu tudo. Já foi enredo. Não deve ser muito longe do máximo a um compositor brasileiro, por consagrado que seja, ter a certeza de que uma música sua seria — faria, seguraria, levaria — escola de samba na avenida. Caetano chorou porque, gosto de fantasiar, sacou — ali, naquele instante — que valeu. Que não haverá força traída num batuque tocado pela multiplicação dos pretinhos.

Seria a imortalidade, imortal não fosse. Será a imortalidade, a compô-la; porque Xande de Pilares cantando Caetano Veloso fará com que algum moleque-cavaquinho, que nunca ouviu o maioral, que talvez jamais o ouvisse, afinal o ouça.

Mortal, quero acabar de viver o que me cabe, e que seja ainda muito; muito chão, por favor. Desde que intacta a capacidade de me comover. Por favor. Se um desejo só: não perder a fibra da emoção — para ser sempre surpreendido por uma virada de repique de mão, de repente, em “Tigresa”. Uau! Repique de anel, depois o de mão. Em “Tigresa”.

Andrea Jubé - Janja e o poder das primeiras-damas na história

Valor Econômico

Esposa de Lula entrou em campo para defender o espaço das mulheres e os territórios caros ao PT no governo

Foi com amargura que a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart revelou a um repórter do “Jornal do Brasil” qual conselho daria à nova primeira-dama Rosane Collor. “Fique sempre linda e de boca fechada”, sibilou.

Anos depois, a viúva de João Goulart confidenciou como a angustiava o “estigma da mulher bonita, jovem e burra”. Reflexo do senso comum de que as esposas dos presidentes devem ser coadjuvantes, combinando beleza, elegância, discrição e dedicação às ações sociais.

Em 2016, esse estigma foi reavivado quando a revista “Veja” publicou um perfil da então primeira-dama Marcela Temer com um título polêmico. A hashtag “bela, recatada e do lar” viralizou nas redes sociais.

Coube à biografia lançada em 2019, pelo jornalista Wagner William, revelar outra faceta de Maria Thereza, que a revista “Time” incluiu entre as primeiras-damas mais bonitas do mundo, ao lado de Jacqueline Kennedy e Grace Kelly.

Ela foi capaz de gestos de coragem que só agora vieram à luz. Em março de 1964, em um clima de radicalização pelas reformas de base de Jango, ela decidiu que subiria no palanque com o marido no comício da Central do Brasil, estopim para o golpe militar.

Havia rumores de que o presidente levaria um tiro, ou lançariam uma bomba no palco. Simultaneamente, a primeira-dama duelou com seus fantasmas porque sofria ataques de pânico, e tinha fobia de multidão. Mas não recuou.

Pedro Cafardo - Artilheiro Tiquinho, jogai por nós!

Valor Econômico

Conjunto de boas notícias indica que a recuperação da economia está a caminho, com investimentos públicos a influenciar a atividade econômica

Dois anos atrás, o documentarista João Moreira Salles, em Live do Valor, expôs uma tese jocosa, considerada “maluca” por ele mesmo, de que o desempenho do Botafogo Futebol e Regatas reflete, ao longo dos anos, o desempenho do Brasil.

Com um sorriso maroto de botafoguense fanático, Salles enumerou alguns fatos do passado para comprovar sua excêntrica tese. Nos anos 1950 e até 1963, o país viveu período de glória em vários setores, com industrialização, crescimento econômico, cinema novo, bossa nova e construção de Brasília. Foi também um período de glória do Botafogo e quando o Brasil ganhou duas Copas do Mundo, com a seleção mesclando principalmente jogadores do Fogão e do Santos.

A partir de 1964, vieram a ditadura militar e os anos de chumbo. O Brasil deprimiu-se, assim como o Botafogo. O time carioca só foi ganhar um título novamente em 1989, quando os brasileiros voltaram a votar para presidente. Também conquistou o campeonato brasileiro em 1995, quando o país venceu a hiperinflação com o Plano Real.

Maria Clara R. M. do Prado - Fragmentação geoeconômica

Valor Econômico

Dificilmente os países em desenvolvimento terão acesso às tecnologias de baixo custo em prol da energia limpa desenvolvidas pelos EUA e pela UE

Com sérias arestas ainda por aparar, o acordo de livre comércio entre o bloco do Mercosul e a União Europeia (UE) é um dos temas passíveis de apreciação, ainda que tangencial, pelos países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que se reúnem a partir de hoje em Belém. Há 28 anos, quando pela primeira vez foi assinado em Madrid o chamado “acordo quadro” - uma espécie de intenção formal preliminar desprovida de substância -, a questão da preservação ambiental passava muito ao largo das preocupações dos europeus.

Hoje, é a principal condicionante da UE para um desfecho definitivo do acordo, com possíveis implicações tarifárias vinculadas a exigências de cunho sustentável que arriscam estender ainda mais as discussões. Usar o pretexto da proteção ambiental para impor sanções aos futuros “parceiros” é uma forma de transfigurar os princípios da liberalização comercial.

Joel Pinheiro da Fonseca - Segurança x direitos humanos?

Folha de S. Paulo

É inevitável que se queira copiar pelo continente o modelo de El Salvador

Em pouco mais de um ano, o presidente de El SalvadorNayib Bukele, conseguiu cortar pela metade os homicídios no país, bem como dar à população a segurança de andar pelas ruas sem prestar satisfação a nenhuma gangue. Como o continente todo sofre com a violência e com as gangues —o Brasil, nem se fala— é inevitável que seu modelo queira ser copiado.

Bukele declarou estado de exceção em março de 2022 e passou a prender jovens suspeitos de integrar as gangues que mandavam no país; sem acusações formais, sem julgamento, às vezes a partir de uma simples denúncia anônima. A data do julgamento é marcada para dali seis meses, depois é adiada, remarcada; de modo que os jovens continuam presos por quase dois anos sem perspectiva de quando serão julgados. No máximo, passaram por alguma audiência coletiva. Foram mais de 70 mil presos até o momento. Menos de 10% foram soltos. O regime de exceção deveria durar um mês, mas já foi estendido 15 vezes.

Hélio Schwartsman - Populismo sanitário

Folha de S. Paulo

Lula sanciona ozonioterapia, apesar de ciência não dar aval à técnica

Lula sancionou a lei que libera a ozonioterapia, para a qual não existem boas evidências científicas de eficácia. O Congresso e o PT não resistem a um populismozinho sanitário.

Foi sob Lula 1 que o SUS abraçou as PICs, práticas integrativas e complementares, que é o nome pomposo para um conjunto de crenças sanitárias para as quais existe pouco ou nenhum suporte científico, como aromaterapiacrenoterapia ou a cura pelo toque. E foi sob o governo Dilma que o Parlamento aprovou e a então presidente sancionou a lei que liberava a fosfoetanolamina, a famigerada pílula do câncer que não age sobre o câncer. O STF depois derrubou a norma.

Temos agora um repeteco disso com a ozonioterapia. Lula não vetou a lei, apesar de todos os órgãos técnicos terem recomendado que o fizesse.

Alvavo Costa e Silva - Dinheiro acima de tudo

Folha de S. Paulo

O caminho da mamata envolvendo Bolsonaro passa sempre por Mauro Cid

Enquanto se aprofunda a investigação dos episódios de cunho golpista em torno de Bolsonaro, com a prisão do hacker Walter Delgatti e a devassa em endereços da deputada Carla Zambelli, cresce a certeza de que —acima de Deus, da pátria, da família, da ideologia, da liberdade e até do leite condensado— o ex-presidente buscava enriquecer de qualquer maneira e o mais rapidamente possível, pois no fundo sabia que a sopa iria acabar.

Quer dizer, iria acabar em termos. O pixulé do Pix continua pingando. Já bateu em R$ 17,2 milhões, e a meta é chegar a R$ 22 milhões, doados para supostamente pagar multas na Justiça. "Ainda sobra dinheiro pra tomar um caldo de cana e comer um pastel com dona Michelle", disse Bolsonaro, comemorando seu verdadeiro golpe de mestre, que deixa no chinelo o empresário de circo P. T. Barnum, autor da frase "Nasce um otário por minuto".

Dora Kramer - Nervos de aço

Folha de S. Paulo

Lula e Lira se enfrentam cuidando para não romper pacto de convivência e funcionalidade

Luiz Inácio da Silva adiou, mas finalmente entrou no embate pela sucessão de Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados daqui a um ano e meio. Com o Orçamento de 2023 em jogo, na transição precisou aceitar a reeleição de Lira a fim de não construir um 7 a 1 na conturbada largada do governo.

Agora, diante de um cenário bem melhor, o presidente atua na toada de experts que consideravam que ele havia se entregado muito cedo e de maneira total ao controlador-geral dos deputados, reeleito com inéditos 464 votos no início do ano.

Lira, obviamente, detectou o movimento, e Lula tem consciência de que o, digamos, adversário, percebeu. Portanto, não há desavisados nem ingênuos nesse jogo em que um é Tom e outro é Jerry, não necessariamente com papeis similares na corrida de gato e rato.

Cristovam Buarque* - Sachs: pioneiro de ideias

Correio Braziliense

Um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade

Em cada pessoa, a maneira de pensar depende de encontros marcantes ao longo da vida com professores, parentes, amigos; no meu caso, tive a sorte de encontrar Ignacy Sachs. Na semana passada, o mundo perdeu esse importante pensador. Por quase 60 anos ele fez parte daqueles que iniciaram a reflexão sobre os limites do progresso identificado com aumento da produção industrial e elaboraram propostas para uma reorientação no rumo da civilização em direção ao desenvolvimento sustentável, que, ainda em 1970, ele definiu como ecodesenvolvimento.

Foi um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade. Sendo, por isso, necessário livrar a civilização da ânsia de aumentar a produção industrial e da voracidade por consumir produtos. Além de pensador e estrategista, Sachs foi um economista pragmático que ofereceu propostas concretas sobre como fazer funcionar economias sustentáveis em diversas regiões do mundo, inclusive na Zona da Mata e na Amazônia brasileiras. As mudanças climáticas fizeram suas ideias inovadoras serem aceitas, meio século depois de formuladas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Estrago da pandemia na educação exige reação rápida

Valor Econômico

A revisão da reforma do ensino médio está sendo mal-conduzida

No afã de imprimir sua marca e rever as diversas medidas equivocadas do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governo Lula tem feito muita coisa, mas parece estar andando em ritmo muito lento quando se trata da Educação, não condizente com a urgência necessária para recuperar os estragos causados pela pandemia.

O estudo “Policy Review: Melhores práticas para recompor aprendizagens”, do Lemann Center da Stanford Graduate School of Education, mostra um quadro bastante preocupante no Brasil, que está negligenciando temas como a alfabetização das crianças mais velhas, a evasão escolar e a recuperação do conhecimento perdido na pandemia (Valor, 3/8). Até mesmo nos lugares mais avançados em infraestrutura tecnológica para o ensino remoto, como o Estado de São Paulo, se constatou perda de aprendizagem de 60% em língua portuguesa e de 80% em matemática nos últimos anos dos ensinos fundamental e médio, mais acentuada do que os 60% registrados na Colômbia e os 55% dos EUA e da China, comparou o estudo de Stanford.

Poesia | Fernando Pessoa - Segue o teu destino

 

Música | Ana Carolina e Luiz Melodia - Cabide