sábado, 24 de dezembro de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - O Natal da transição

O Estado de S. Paulo

O melhor e o correto é torcer pelo sucesso de Lula. Seu fracasso aprofundará os problemas do País e poderá trazer de volta nossos piores pesadelos

Chegar ao final de 2022 com um governo eleito em nome da democracia foi a melhor notícia do ano. O pior foi neutralizado, em que pese a persistência da movimentação golpista. A balbúrdia e as ameaças seguem o enredo conhecido: urnas eletrônicas são manipuladas, as instituições do Estado são suspeitas, a República deve ser confrontada, o Brasil não é “vermelho”. O que importa é contestar o “sistema”, insuflar a população e disseminar mentiras.

O golpismo bolsonarista, porém, não é o dado principal da transição em curso. Há dilemas e dificuldades na formação do novo governo, que precisa introduzir novos quadros e novas ideias na gestão pública. Não pode repetir experiências passadas, que lhe roubarão clareza e envergadura. O Lula de 2003 não serve como molde para o Lula de 2023.

O novo governo fixou-se na recomposição orçamentária. Com o fim das emendas do relator, deliberado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e a retirada do Bolsa Família do teto de gastos, a questão passou a ser obter maior folga fiscal. Para tanto, foi preciso compensar os parlamentares: o teto foi aumentado em R$ 145 bilhões, mas valerá somente por um ano, e as verbas remanescentes do finado orçamento secreto serão divididas entre o Executivo e o Legislativo. Os parlamentares continuarão a encaminhar emendas individuais, de bancada e de comissão ao governo, que serão impositivas. O Centrão, de algum modo, se acomodou no governo futuro. O Legislativo se fortaleceu como poder sem que se tenha reduzido o poder do Executivo. Como, aliás, deve ocorrer em toda democracia.

Pablo Ortellado - Que tal dar o primeiro passo para a tolerância no Natal?

O Globo

Será quase impossível que os temas da vida nacional não surjam em algum momento e azedem a ceia

Estamos politizados demais. Por muito tempo, olhamos para nossos vizinhos argentinos e invejamos a sua politização, que, vista à distância, parecia saudável e cívica. Agora que não há mais almoço de família em que Lula e Bolsonaro não sejam chamados para um duelo à mesa, não sei se mantemos o mesmo apreço pela politização.

Claro, pode ser que tenhamos ficado politizados de uma maneira ruim e que exista um outro modo, respeitoso e civil, de valorizar o debate político. Mas, por lá, na Argentina, tudo anda parecido demais com o Brasil — o antagonismo entre kirchneristas e antikirchneristas também está destruindo vínculos de afeto entre parentes e amigos. Será que existe uma maneira de um país ser politizado, sem ser polarizado?

Quando falamos de polarização política, enfatizamos o abismo que separa os dois lados. Mas a polarização também une. Ela aglomera e unifica o campo político. É esse sentimento de fazer parte de uma comunidade homogênea, com os mesmos valores fundamentais, que traz conforto. Se a polarização gera hostilidade contra o grupo adversário, entre os semelhantes ela produz coesão e comunidade, assentadas no sentimento de compartilhar valores elevados e de estar do lado certo da História.

Eduardo Affonso - Novo governo rumo ao hexa — ou não

O Globo

Confinar mulher, afrodescendente e indígena a pastas temáticas ou sem peso político chega a ser constrangedor

Mais uma semana, e Lula, finalmente, descobrirá o que é uma herança maldita de verdade. Um país dividido e endividado, ainda mais devastado e injusto que o de praxe. Pode chamar de carma, se quiser: as sementes desta calamidade foram plantadas nos últimos governos de seu partido, resultando na onda antipetista que levou à eleição de Bolsonaro.

Lula não há de alimentar ilusões de que sua vitória tenha sido mais que uma reação a esse que foi, possivelmente, o pior governo desde Tomé de Souza. Não, não é por saudade do mensalão, do petrolão e das saudações à mandioca que sua estrela voltou a brilhar.

Houvesse ali um campo para profissão, a certidão de nascimento de todo brasileiro poderia vir pré-preenchida com “Esperança”. É ela que nos move, mesmo nos gestos de desespero. Como eleger, em 2018, quem quer que fosse —desde que tirasse o PT do poder. Ou fazer o que tivesse de ser feito para mandar Bolsonaro embora, ainda que à custa de trazer o PT de volta.

Ascânio Seleme - ‘Nós não precisamos de puxa-saco’

O Globo

O presidente eleito não tem com o que se preocupar. De nossa parte, seu pedido será inteiramente aceito. Lula disse no discurso em que anunciou novos ministros que dispensa bajuladores. Suas palavras exatas foram essas: “Não precisamos de puxa-saco. Um governo não precisa de tapinha nas costas. Um governo precisa ser cobrado. Peço que vocês cobrem para que a gente faça mais”. Embora não tenha sido explícito, Lula parecia se referir à imprensa, que acompanhava o ato no escritório da transição no CCBB de Brasília.

Apesar do pedido enfático, Lula sabe que terá muitos bajuladores na mídia. Ele conhece muito bem a sua “imprensa” amiga. O presidente sempre teve e continuará tendo um cordão de puxa-sacos travestidos de jornalistas. Quem não lembra dos famosos blogs sujos da primeira era petista? Agora, com Bolsonaro, outros blogueiros e tuiteiros aduladores, que se diziam jornalistas, aliaram-se ao carro-chefe do governismo bolsonarista montado na Jovem Pan. Mas Lula tem razão, estes não acrescentam nada, além de certo conforto enganador. O governante acha que está bem, ouvindo aquela enxurrada de elogios, nenhuma crítica, e não enxerga os erros que comete.

Carlos Alberto Sardenberg - O erro repetido

O Globo

Autores de artigo com erro reconhecido por jornal, Guilherme Mello e Esther Dweck foram nomeados para governo Lula

Grosso modo, o leitor encontra nos jornais reportagens (de autoria dos repórteres do veículo), colunas e artigos de opinião. Reportagens são de dupla responsabilidade: do repórter e do veículo, pois se supõe que a editoria tem um sistema de checagem e verificação do noticiário publicado. Colunas e artigos são de responsabilidade do autor. Por isso frequentemente se encontra a informação: “o texto do colunista não reflete necessariamente a opinião deste veículo”.

Os jornais erram. Mas, tempos atrás, mais presunçosos, nós, jornalistas, gostávamos de citar como nosso guia o slogan do New York Times: “All the news that’s fit to print”. Algo como “todas as notícias que estão prontas para ser impressas” ou, mais presunçoso ainda, “todas as notícias que merecem ser impressas”.

Quando um leitor reclamava, por carta, os jornais publicavam na seção adequada, frequentemente com uma resposta refutando.

Ricardo Henriques - Novos ares para políticas públicas

O Globo

Despedida de 2022 marca o fim de um ciclo político em que nossas instituições democráticas foram testadas ao limite

Fim de ano é sempre época de encontros, reencontros, e de renovação de esperanças. Mas a despedida de 2022 tem ainda mais simbolismo por marcar também o fim de um ciclo político em que nossas instituições democráticas foram testadas ao limite.

Individual e coletivamente, chegamos exaustos ao fim do ano, mas com o desejo de que encontraremos um caminho de pacificação, com desenvolvimento social e econômico, pautado sobretudo pela equidade. Não será uma tarefa fácil, mas é possível vislumbrar novos ares para políticas públicas essenciais para o desenvolvimento social e ambiental.

Um desses sinais positivos é o retorno do Bolsa Família. Primeiro, por se tratar de uma política de transferência de renda de caráter permanente, e com valores atualizados, algo que será crucial para o alívio da pobreza no curto prazo.

Almir Pazzianotto Pinto* - ADI nº 1.625: 25 anos sem solução

O Estado de S. Paulo

Quando formulou pedido de vista, o ministro Gilmar Mendes emitiu sinais nebulosos. Mas a maioria está definida

Passados 25 anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) estaria para concluir o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n.º 1.625, ajuizada em 1997. O pomo da discórdia é a Convenção n.º 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprovada em 22/6/1982 e ratificada 14 anos depois pelo governo brasileiro mediante o Decreto n.º 1.855, de 10/4/1996, baixado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

Alguns meses depois, em 20/12/1996, o presidente editou o Decreto n.º 2.100, para “tornar pública a denúncia, pelo Brasil, da Convenção da OIT n.º 158, relativa ao Término da Relação de Trabalho por Iniciativa do Empregador”. Denúncia significa voltar atrás, deixar de cumprir.

Inconformadas, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) ajuizaram a ADI n.º 1.625, distribuída em 19/6/1997 ao falecido ministro Maurício Corrêa. Pelas anotações extraídas do portal eletrônico do Supremo, o primeiro julgamento ocorreu no dia 2/10/2003. Após ser afastada a CUT, os ministros Maurício Corrêa e Carlos Ayres Britto decidiram pelo provimento da ADI. Concluíram que o ato de denúncia dependia de referendo do Congresso Nacional.

João Gabriel de Lima* - Hora de dar um baile no racismo

O Estado de S. Paulo

Que o combate ao racismo seja realmente prioridade no próximo governo

A esplêndida série com as melhores fotos da Copa do Catar, publicada pelo jornal britânico The Guardian, destaca, entre outras imagens, a dança de Vinícius Júnior depois do golaço que marcou contra a Coreia do Sul. Ao seu lado estão Raphinha, Paquetá e Neymar. Na legenda, o jornal estampa a frase que se tornou um slogan: “Dance, Vini, dance”.

A celebração tem um histórico. Em setembro deste ano, após dançar na comemoração de um gol de seu time, o Real Madrid, Vinícius Júnior foi vítima de um comentário racista na televisão espanhola. Na partida seguinte, os jogadores do Real Madrid, em solidariedade ao craque, deram um baile no racismo e dançaram junto com ele. Do gesto político surgiu a hashtag #Bailavinijr.

Camila Rocha* - Poder para quem?

Folha de S. Paulo

Diversidade não se expressa somente em números e imagens, mas em programas políticos

Hoje a distribuição de cargos governamentais é acompanhada pela cobrança de novos critérios, entre os quais, a paridade de gênero.

O México, que há 20 anos possuía 16,6% de mulheres na Câmara, já conta com paridade de gênero em todos os níveis. A chamada "paridade em tudo" passou a vigorar no país após ter sido implementada no âmbito legislativo. A partir de 2018, as mulheres, ao ocuparem 49,3% das cadeiras na Câmara e 49,2% das cadeiras no Senado, puderam pressionar por paridade no Executivo e no Judiciário. Até mesmo organismos públicos autônomos, entre os quais figuram o Banco do México e o Instituto Nacional de Estatística e Geografia, passaram a ser pautados pela nova regra.

Em 2021, a Assembleia Constituinte chilena foi a primeira no mundo a contar com paridade de gênero. A fotografia do gabinete formado pelo presidente Gabriel Boric, em que aparecem 10 homens e 14 mulheres, acompanhava o novo espírito do tempo.

Hélio Schwartsman - Envelhecimento e pênaltis

Folha de S. Paulo

Ele não assimilou as lições do biólogo Peter Medawar sobre a senescência

Qual a semelhança entre a senescência, o processo de envelhecimento que leva à morte, e a escalação dos batedores numa disputa de pênaltis?

Gosto de futebol. Assisti, de esguelha, a boa parte dos jogos da Copa. Mas não sou muito assíduo na leitura do noticiário esportivo. Não porque eu desacredite das análises dos especialistas ou desconsidere o talento dos jogadores, mas porque estou convencido de que, ao fim e ao cabo, é o acaso quem dá as cartas. Para saber com algum rigor qual é o melhor de dois times parelhos, eles precisariam se enfrentar centenas de vezes. Basta lembrar que, se a diferença de competência for de cinco pontos percentuais (55% a 45%), o time mais fraco vencerá o mais forte em 9 de cada 20 partidas que não terminarem em empate.

Demétrio Magnoli - Silêncios que falam

Folha de S. Paulo

Brasil não precisa se somar às sanções à Rússia, mas condená-las é legitimar a guerra imperial

O Brasil "vai voltar a todo mundo", garantiu Mauro Vieira, novo ministro das Relações Exteriores. Não é a ideologia, mas o interesse nacional, que guiará nossa política externa. As declarações marcam uma nítida ruptura com a orientação bolsonarista, que fechou-nos num casulo de relações preferenciais com governos da direita nacionalista e correntes do fundamentalismo cristão. O que se fala é positivo. O problema reside no que se cala.

Guerra Fria 2.0 entre EUA e China? O Brasil rejeita a escolha, anunciando uma "nova era" na parceria com Washington e o aprofundamento do intercâmbio com Pequim. Mais: diante da polaridade entre as duas grandes potências, o Brasil empenha-se em consolidar as relações com a Europa, por meio da implementação do acordo Mercosul/União Europeia. "Não nos preocupamos com a ideologia; a ideologia é a integração", enfatizou Vieira, abordando a América do Sul.

Marcus Pestana - Tempo de desarmar os espíritos

No período do Natal instala-se um clima de congraçamento e reflexão, de esperança e renovação, de fim de um ciclo e início de outro. Tempo propício para que desarmemos os espíritos, recuperemos a capacidade de diálogo e respeito à diversidade, resgatemos a disposição de convívio com aqueles que vivem e pensam de forma diferente. Poucas vezes em nossa história vivenciamos dias de tamanha intolerância. O Natal nos abre uma porta para abrirmos corações e mentes em favor da tolerância e celebrarmos a liberdade e a democracia.

A democracia nos permite a convivência plural, a liberdade de pensamento e ação, e deveria ser para todos um instrumento de construção de consensos progressivos a partir do tratamento respeitoso e tolerante das divergências, do diálogo franco e aberto, sem anulação de identidades legítimas, mas com a boa fé de construção de um caminho comum. Cristo não veio ao mundo para dividir e sim para unir as pessoas em torno dos valores da solidariedade humana e da compreensão mútua. Boa chance para repensarmos os rumos de nosso país.

Alvaro Costa e Silva - Os filhos musicais de Papai Noel

Folha de S. Paulo

Nem só de Simone vive o rico cancioneiro natalino no Brasil

Uma das histórias mais tristes das quase sempre tristes noites de Natal envolve o autor de "Boas Festas". Nem o biógrafo Gonçalo Junior, que escreveu o excelente "Quem Samba Tem Alegria: A Vida e o Tempo de Assis Valente", descobriu o que ele fazia num quarto de pensão em Niterói, na véspera de 25 de dezembro de 1932, tendo como única companhia a ilustração de uma bailarina na folhinha do calendário.

A fossa era profunda, e Assis Valente deve ter se lembrado da infância difícil no interior da Bahia, sem presentes nem brinquedos, ao ter a inspiração para os primeiros versos: "Anoiteceu, o sino gemeu/ E a gente ficou feliz a rezar/ Papai Noel, vê se você tem/ A felicidade pra você me dar". E o refrão revelador de seu estado de angústia: "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel".

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É urgente recuperar Programa Nacional de Imunizações

O Globo

Apenas 3% dizem não ter levado os filhos para se vacinar, mas só 60% das crianças estão com vacinação em dia

A futura ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirmou ao GLOBO que uma de suas prioridades será “avançar na vacinação”. É um alento que o governo dê ênfase ao retrocesso vergonhoso na cobertura vacinal da população brasileira. Apenas 60% das crianças de até 2 anos estão com a vacinação em dia, revelou o Inquérito de Hesitação Vacinal, pesquisa do Ministério da Saúde com a Beneficência Portuguesa de São Paulo e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

É verdade que só 3% dos mais de 31 mil entrevistados entre 2020 e 2021 — em plena pandemia — afirmaram não ter levado os filhos para tomar pelo menos uma vacina. É um percentual baixo, mas suficiente para comprometer as metas de vacinação necessárias para proteger a população, em torno de 95%. O resultado ajuda a explicar o drama do outrora vigoroso Programa Nacional de Imunizações (PNI), hoje às voltas com índices de cobertura que passam longe das metas traçadas.

Poesia | Vinicius de Moraes - Poema de Natal

 

Música | Boas Festas - Assis Valente com Pery Ribeiro