quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Vera Magalhães - Haddad com a batuta de maestro

O Globo

Caberá ao titular da Fazenda fazer com que a orquestra soe coesa, inclusive integrando Tebet à cozinha da equipe econômica

À medida que o ministério de Lula vai ganhando sua conformação final, fica cada vez mais claro que o futuro presidente conferiu a Fernando Haddad a batuta de maestro de uma orquestra grande, na qual os componentes têm influências e estilos distintos, mas que tem de soar coesa e harmnônica, inclusive para conquistar uma parcela bastante hostil da audiência.

Esse papel tem um peso maior na condução da política econômica, mas não só. Não serão poucas as vezes em que caberá ao ministro da Fazenda a missão de apagar incêndios com o Congresso e de coordenar ações também com a cozinha do Palácio do Planalto.

Sua nova posição, no coração do governo, difere muito daquela na qual ele permaneceu mais tempo nos governos Lula e Dilma, o Ministério da Educação. Vai exigir mais dos aprendizados duros da Prefeitura de São Paulo, pela complexidade das tarefas e a necessidade de composição, que a relativa tranquilidade de lidar com um tema que, embora de central relevância, ele dominava e para o qual tinha um desenho claro do que pretendia alcançar, como o MEC.

A chegada de Simone Tebet à equipe econômica se inscreve nesse desafio novo. Dos nomes que vão integrar seu time e os ministérios contíguos, é ela aquela com quem o titular da Fazenda tem menos afinidade — nenhuma, na verdade. Vêm de partidos e trajetórias políticas diferentes e sempre professaram ideias bastante díspares a respeito de temas como Previdência, privatizações, gasto público e papel do Estado, para ficar só em alguns dos grandes assuntos que vão pautar o dia a dia das relações entre suas pastas.

Joel Birman* - Onde está o Estado?

O Globo

Autoridades do atual governo não tomaram providências contra os atos antidemocráticos, com a conivência de Bolsonaro, que, pelo silêncio, os estimulou

Desde que Lula venceu, o país acompanhou as manifestações contestando as eleições, seja alegando fraude, seja incitando o golpe militar, pois o vencedor seria criminoso. O Poder Judiciário se tornou alvo das massas, pois ocupou no governo Bolsonaro a posição de contraponto a seus imperativos ditatoriais. Enfim, a democracia foi atacada pelos insurgentes financiados por empresários pró-Bolsonaro, provocando perplexidade nos demais.

Durante esse tempo, uma pergunta se impunha: onde está o Estado brasileiro? Isso porque defender a intervenção militar e impedir o direito de ir e vir dos cidadãos não são questões de opinião, mas palavras de ordem antidemocráticas. Contudo a liberdade de opinião se sustentou no argumento de que, se não existia destruição de bens públicos nas manifestações, não existia violência contra a democracia.

Esta foi a opinião de André Mendonça, ministro do Supremo e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, que o indicou para a Suprema Corte por ser “terrivelmente evangélico”. Quando ministro da Justiça começou a listar como subversivos os críticos do governo Bolsonaro para persegui-los, assim como a reavivar a Lei de Segurança Nacional da ditadura militar. Porém nada podemos esperar de um ministro-jurista que bateu continência para Bolsonaro quando foi empossado, assumindo a posição de servidão voluntária da caserna do presidente.

Elio Gaspari - De Dr. Vasco para Mauro Vieira

O Globo

Remover servidores é prerrogativa dos ministros e dos presidentes. Satanizá-los antes da remoção é coisa de bruxos

Estimado colega,

Daqui a quatro dias Vosmicê vai para a cadeira que eu ocupei, como ministro das Relações Exteriores, nos borrascosos anos de 1964 a 1966. Daqui onde estou, sei que estão armando uma caça às bruxas no Itamaraty. Remover servidores é prerrogativa dos ministros e dos presidentes. Satanizá-los antes da remoção é coisa de bruxos. Removê-los depois de terem sido satanizados é tibieza. Conhecemos nossa Casa e sabemos que seu terreno é fértil para ervas venenosas.

Para ser preciso, relembrarei um caso ocorrido em fevereiro de 1974, pouco antes da posse do general Ernesto Geisel. Outro dia ele riu muito quando mencionei o episódio.

Um diplomata fez chegar ao gabinete do presidente eleito uma folha de papel sem assinatura, devastando a vida de seis possíveis chanceleres de seu governo.

A respeito do embaixador Azeredo da Silveira, o Silveirinha, dizia o seguinte:

— Não encontrou, até hoje, quem lhe dissesse que ‘de modo que’ e ‘de maneira que’ são locuções invariáveis. Insiste, para suplício dos interlocutores, enunciar que ‘de modos que’, ‘de maneiras que’. [Um de seus colaboradores] pede, no particular, para ser acareado com o embaixador Silveira e afirma que pode fazer revelações estarrecedoras a respeito da cooperação que, no cargo [cônsul-geral em Paris], o embaixador Silveira prestou aos assuntos particulares do presidente Goulart.

Fernando Exman - Do relativo otimismo ao labirinto do ‘Bolsoverso’

Valor Econômico

Aliados querem que presidente se pronuncie hoje

Dois meses atrás, entre o primeiro turno e o segundo, o humor daqueles que frequentavam o Palácio da Alvorada oscilava entre a preocupação com o desempenho do morador da residência oficial da Presidência na reta final da campanha e um relativo otimismo com uma virada. Esta não aconteceu, mas a atenção com o comportamento de Jair Bolsonaro permanece.

Os que ainda têm livre acesso a ele tentam, em reunião nesta quarta-feira, convencê-lo a fazer um pronunciamento à nação. Uma despedida.

O formato ainda se discute. Pode ser a última das suas famigeradas “lives” ou, até mesmo, uma postagem protocolar nas redes sociais. Mas o apelo é para que Bolsonaro, sem foro privilegiado a partir do domingo e decidido a viajar aos Estados Unidos para não prestigiar a posse do sucessor, pelo menos dirija algumas palavras aos seus eleitores e aos apoiadores que se recusam a aceitar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

Ele não deve voltar antes do carnaval. Seus interlocutores defendem que espere os primeiros cem dias de Lula III para ver a popularidade do rival, retomando, na sequência, o projeto de viajar pelo país.

Lu Aiko Otta - O dramático fim de ano do caixa federal

Valor Econômico

No MEC, desespero para pagar bolsas de estudo e livros

Diz a lenda que nem os formuladores do teto de gastos esperavam que o dispositivo fosse aprovado da forma como foi. Conhecedores das artimanhas do Congresso, os técnicos do governo colocaram “gordura” para “queimar” nas negociações, algo usual em discussões assim.

Por exemplo: congelaram as despesas primárias, em termos reais, por 20 anos, contando que o prazo seria cortado para dez anos pelos deputados e senadores. Não foi. O governo “congressual” de Michel Temer, que na época nem sonhava com o escândalo da JBS, estava forte e a proposta foi aprovada sem grandes “desidratações”.

Assim, meio involuntariamente, foi concebida uma regra fiscal que, segundo avaliaram seus próprios criadores à época, 2016, seria difícil de ser sustentada. Os cinco furos no teto durante o atual governo e o grau de dramaticidade e improvisação que se viu em 2022 demonstram que estavam certos.

Para cumprir o teto, a Esplanada dos Ministérios iniciou este mês de dezembro praticamente sem dinheiro para pagar despesas discricionárias. Foi um dos quadros mais duros já enfrentados pela administração pública, segundo se comenta nos escalões técnicos.

Nilson Teixeira - Legado contraditório de Bolsonaro

Valor Econômico

A esperança é de que o novo governo seja capaz de manter as conquistas dos últimos anos e de corrigir os disparates promovidos pela gestão Bolsonaro

O presidente Bolsonaro consolidou-se como o principal líder da direita, em particular no que se refere à agenda conservadora de costumes. Nos últimos 40 anos, não surgiu nenhum nome com peso relevante nesse espectro político. Apesar do seu comportamento recluso após a derrota eleitoral e das enormes desavenças com grande parte da imprensa, Bolsonaro tem condições de ocupar a liderança da oposição e, caso decida concorrer, será um forte candidato na eleição presidencial de 2026.

A liderança de Bolsonaro tende a ser ainda mais sólida se o futuro governo não conseguir nos próximos anos entregar uma inflação baixa e um crescimento econômico robusto, com menor desemprego e maior renda para a camada mais pobre da sociedade.

Bruno Boghossian - Desmantelar o terrorismo

Folha de S. Paulo

Identificar e punir redes golpistas será necessário depois que Bolsonaro deixar o poder

Em duas semanas, um grupo terrorista organizou dois ataques em Brasília. No dia da diplomação de Lula, criminosos provocaram depredação, atearam fogo em carros e quase lançaram um ônibus de um viaduto. Ninguém foi preso. No último sábado (24), militantes bolsonaristas tentaram explodir bombas na capital.

O país termina o ano com uma célula terrorista em atividade. A prisão de George Washington de Oliveira Sousa frustrou um atentado que tinha o objetivo de reverter a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, mas outros apoiadores do atual presidente permanecem impunes e empenhados em seus projetos golpistas.

A ação desses grupos deve dar novo fôlego às investigações conduzidas no STF contra organizadores de atos antidemocráticos. Desmantelar essas células, reduzir os incentivos a novos ataques à democracia e punir os crimes já cometidos continuarão na mira do tribunal em 2023.

Hélio Schwartsman - Nem rápido, nem devagar

Folha de S. Paulo

Tarcísio precisa afastar-se do bolsonarismo, mas sem dar na vista

"Nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação". Foi com palavras desse teor que o político gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915) instruiu seu cocheiro a afastar-se de uma multidão que o hostilizava. É com esse mesmo espírito, creio, que o governador Eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deverá distanciar-se do bolsonarismo.

Tarcísio não pode simplesmente dar uma banana a Bolsonaro e seus apoiadores porque sabe que sua eleição para o Bandeirantes se deveu exclusivamente a eles.

O futuro governador era um técnico carreirista de Brasília, que ocupara postos de relevo nos governos de Dilma, Temer e Bolsonaro, e só se tornou candidato porque o ainda presidente da República decidiu ungi-lo como tal e para ele transferiu seus votos. Um afastamento rápido demais, que possa ser interpretado como traição, poderia liquidar sua recém-iniciada carreira política.

Vinicius Torres Freire - Tebet precisa inventar um ministério

Folha de S. Paulo

Planejamento quase não tem função e é uma ideia morta, mas que pode ser recriada

Simone Tebet vai para o Planejamento. É um arranjo de última hora para que Luiz Inácio Lula da Silva possa salvar a face da ideia de "frente ampla", ao menos no que diz respeito à composição do ministério.

O ministério do Planejamento quase inexiste. Nos últimos 30 anos, foi esquartejado, desidratado, fatiado, anexado, e extinto, a última vez por Jair Bolsonaro. Ressuscita, vez e outra, como uma pasta que faz o Orçamento, cuida da administração pública, de estatais (sobre as quais pouco apita), e patrimônio, com Ipea e IBGE, autônomos, sob suas asas.

Administração pública e patrimônio, sob Lula 3, vão para o ministério da Gestão. Tebet fica com Orçamento e estatais. Como diz o clichê, o Planejamento é um personagem à procura de um autor.

Vera Rosa - O bilhete que Tebet abriu antes do Natal

O Estado de S. Paulo.

‘Peço que você aceite o Ministério do Planejamento’, escreveu Lula para a senadora

Duas linhas escritas a mão, em papel de carta, serviram como bússola para Simone Tebet. Após ser preterida pelo PT para o Ministério de Desenvolvimento Social, classificado como “coração” do novo governo por abrigar o Bolsa Família, a senadora do MDB não escondeu o desencanto com os rumos da futura gestão. Até que na sexta-feira, antevéspera de Natal, foi chamada para uma reunião com Luiz Inácio Lula da Silva.

Nada parecia dar certo porque Simone dizia que só aceitaria a outra oferta – à época, a cadeira do Meio Ambiente – se Marina Silva recusasse o convite de voltar à Esplanada naquele cargo. A deputada eleita pela Rede, porém, só queria Meio Ambiente. Diante do impasse, o presidente eleito bancou Marina, à revelia do PT. E a advogada Simone aceitou acompanha-lo no voo de Brasília a São Paulo, na tarde de sexta-feira, para mais uma rodada de conversa.

Luiz Carlos Azedo - Com Simone, Lula montou uma coalizão de centro-esquerda

Correio Braziliense

Qual é o pomo da discórdia dos setores não bolsonaristas que insistem em permanecer na oposição? A política econômica de Lula, que não prevê um choque fiscal

A senadora Simone Tebet, que disputou a Presidência pelo MDB e, no segundo turno, se engajou na campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, cumprindo um papel fundamental para sua eleição, aceitou participar do governo de coalizão, como ministra do Planejamento. O MDB estará contemplado ainda com mais dois ministérios, o das Cidades e o do Turismo, muito provavelmente. Com isso Lula, montou um governo de centro-esquerda, que contará, também, com a participação formal do PSD, do União Brasil, do Solidariedade e do Podemos. A incógnita é a participação do Cidadania, já que o PSDB, com quem está federado, anunciou que fará oposição ao novo governo.

A pressão para que Simone não aceitasse participar do governo foi enorme, somando-se à própria frustração da senadora por não ter assumido o Ministério do Desenvolvimento Social, como desejava. A pasta foi destinada ao senador Wellington Dias (PT), que governou o Piauí por quatro mandatos, estado no qual Lula teve a sua maior votação, proporcionalmente. Setores da oposição que votaram em Simone e muitos que apoiaram Bolsonaro no segundo turno passaram a fazer a leitura de que Lula montou um governo de esquerda, puro-sangue, sob o hegemonismo do PT. A hegemonia petista no governo é uma coisa mais ou menos óbvia, até porque foi Lula que venceu as eleições. O hegemonismo é outra coisa: a canibalização dos aliados, na medida em que a correlação de forças é favorável para isso, como aconteceu nos países do Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial.

Ivan Alves Filho* - O novo Governo Lula. Novo mesmo?

O Presidente Lula da Silva completou a montagem do seu Governo. O domínio do PT e seus aliados mais próximos é quase total. Ao que tudo indica, o chamado Centrão mantém toda a sua influência, sobretudo no terreno parlamentar. Apenas um terço dos ministérios – muitos deles distantes dos núcleos de poder, das verdadeiras decisões – foram preenchidos por figuras apontadas, pela mídia, como sendo o Centro do espectro político.

De nossa parte, preferimos nos valer da noção de Campo Democrático, essa questão do Centro estando mal colocada muitas vezes. Por quê? Por uma razão: o que estrutura ou deveria estruturar a política é a Democracia, entendida como um dado em si. Precisamos, no século XXI, estender a noção de Frente Ampla, formulada pelo extraordinário líder comunista búlgaro Georgi Dimitrov no combate à barbárie hitlerista, a todas as esferas da vida. Ou seja, aos planos econômico, social, além do político e institucional. Há sensibilidades que se revelam mais democráticas no plano institucional e menos no plano econômico ou social. Há também sensibilidades que se mostram mais democráticas no plano social e econômico e menos no plano institucional. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Descontrole da dívida é profecia autorrealizável

O Globo

Sem medidas objetivas para resgatar equilíbrio fiscal, deterioração das expectativas do mercado se agravará

À medida que se aproxima a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, vai se acentuando a sensação de deterioração nos indicadores econômicos. A pesquisa Focus divulgada nesta semana pelo Banco Central apontou aumento nas expectativas do mercado para inflação e juros em 2023. A explicação para a alta é a percepção de que o novo governo, mesmo antes de assumir, já perdeu o controle dos gastos e da dívida pública.

Motivos para essa percepção não faltam — e a PEC da Transição aprovada na semana passada autorizando despesas de R$ 168 bilhões acima do teto de gastos é apenas o mais visível. O Congresso aproveitou os últimos dias de trabalho antes do recesso para aprovar várias outras medidas que contribuem para aumentar despesas, sem que haja nenhuma perspectiva de reequilíbrio fiscal no curto ou no médio prazo.

Poesia | De Ferreira Gullar: "Nasce um poema"

 

Música | Jorge Aragão - De Sampa a São Luis