quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Conflito em Gaza exige mais equilíbrio de Lula

O Globo

Ao receber brasileiros repatriados, presidente fez paralelo descabido entre Israel e grupo terrorista Hamas

Felizmente o governo federal, graças à ação conjunta do Itamaraty e da FAB, obteve sucesso na repatriação de 22 brasileiros e dez palestinos com vínculos com o Brasil, que esperavam para sair de Gaza desde os ataques do grupo terrorista Hamas em 7 de outubro. A operação, cercada de tensão e de uma negociação sensível com os governos israelense e egípcio, coroa com êxito a iniciativa que já trouxera de volta de Israel cerca de 1.400 brasileiros em oito voos durante uma semana.

Infelizmente, porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a chegada do voo para proferir um discurso político em que, ao criticar os ataques de Israel que atingem civis, fez um paralelo descabido. “Se o Hamas cometeu um ato de terrorismo pelo que fez, o Estado de Israel também está cometendo vários atos de terrorismo”, afirmou. Num momento em que o antissemitismo cresce no mundo e, na contramão da nossa tradição, também floresce no Brasil, discursos inflamatórios que comparem um Estado democrático a um grupo terrorista em nada contribuem para um clima construtivo que reduza os danos da guerra.

Vera Magalhães - Dino incomoda muita gente

O Globo

Episódio da 'dama do tráfico' abre nova frente de ataques a ministro, que enfrenta oposição a sua nomeação para o STF

O ministro Flávio Dino (Justiça) tem um espírito brincalhão e costuma fazer graça quando questionado a respeito das várias arestas que coleciona desde que assumiu uma das pastas mais empepinadas da Esplanada sob Lula.

Até tentou submergir nos últimos meses, quando percebeu que o fogo que o atingia vinha de todos os lados, e não apenas da oposição bolsonarista com que manteve enfrentamento sobre a democracia ainda na transição e mais fortemente depois do 8 de Janeiro, episódio em que teve, com sua pasta, papel central. Mas as controvérsias parecem ir a seu encontro, o que não é nada circunstancial. Afinal, se fatos de março ou maio têm vindo à tona agora, é porque há gente buscando e municiando a imprensa de informações.

O episódio da “dama do tráfico Amazonense”, alcunha pela qual Luciane Barbosa Farias é conhecida, é o mais recente a servir para fustigar tanto a capacidade de Dino de conduzir a política de segurança pública do país quanto a possibilidade de Lula indicá-lo para a cadeira vaga desde outubro no Supremo Tribunal Federal.

Elio Gaspari - Dino precisa de uma GLO

O Globo

Na segunda-feira, os repórteres André Shalders e Tácio Lorran revelaram que Luciane Barbosa Farias, mulher do traficante Tio Patinhas, do Comando Vermelho, esteve duas vezes no Ministério da Justiça reunindo-se com servidores. Horas depois, o ministro Flávio Dino correu a explicar-se:

— Nunca recebi, em audiência no Ministério da Justiça, líder de facção criminosa ou esposa.

Ninguém havia dito que Dino havia recebido “a dama do tráfico amazonense”, condenada a dez anos de prisão.

Quem recebeu a Madame Tio Patinhas foram o secretário de Assuntos Legislativos do ministério, o secretário nacional de Políticas Penais, o diretor de inteligência penitenciária e a ouvidora nacional de serviços penais. Em todos os casos, a senhora acompanhava um grupo recomendado por uma ex-deputada estadual fluminense que é vice-presidente da Comissão de Assuntos Penitenciários da Associação Nacional da Advocacia Criminal do Rio de Janeiro (Anacrim-RJ).

Luiz Carlos Azedo - O gabinete do ministro Flávio Dino tem cheiro de queimado

Correio Braziliense

O ministro passa por um processo de isolamento político e qualquer desgaste que sofra, como nesse caso da "dama do tráfico", favorece os que desejam outro nome no Supremo

Quem tem um secretário de Assuntos Legislativos como Elias Vaz não precisa de inimigos. Ex-vereador na Câmara de Goiânia por quatro mandatos e ex-deputado federal, membro do alto escalão do Ministério da Justiça, não poderia se comportar como aquele parlamentar que posa para selfies nos salões e corredores do Congresso quando um suposto eleitor ou correligionário pede. Mas foi o que fez no exercício do cargo, ao receber Luciane Barbosa Farias, mulher de Tio Patinhas, chefe do Comando Vermelho no Amazonas, que foi preso em 2022 e cumpre pena de 30 anos.

O encontro foi revelado pelos repórteres do Estadão André Shalders e Tácio Lorran e teve muita repercussão no Congresso. O deputado Amom Mandel (Cidadania-AM) chegou a apresentar uma notícia crime à Procuradoria-Geral da República (PGR), na qual solicita uma investigação sobre as reuniões no Ministério da Justiça com a participação da esposa do traficante e da ONG Instituto Liberdade do Amazonas, uma em março, com a Secretaria de Assuntos Legislativos, e outra em maio, com a Secretaria Nacional de Políticas Penais.

Bruno Boghossian - As portas giratórias do Ministério

Folha de S. Paulo  

Reação de Dino mostra que, querendo ou não, ministro reconheceu problema em visitante ligada ao CV

Flávio Dino ofereceu um termômetro preciso do incômodo provocado pela revelação das visitas feitas ao Ministério da Justiça pela mulher de um líder do Comando Vermelho. O chefe da pasta gastou energia para tentar se desvincular do caso, disse ser alvo de adversários e classificou o uso de seu nome na história como "calúnia" e "vil politicagem".

Dino tem uma boa dose de razão. Não há registro de que ele tenha recebido Luciane Barbosa Farias, esposa do traficante amazonense conhecido como Tio Patinhas, ou que soubesse do encontro dela com secretários de sua pasta. Mas o tom de indignação mostra que o ministro, querendo ou não, reconheceu o tamanho do problema.

Bernardo Mello Franco - Um código para os supremos

O Globo

Dez regras imaginárias para lidar com conflitos e problemas inexistentes no STF

Depois de 234 anos, a Suprema Corte dos EUA editou seu primeiro código de conduta. A medida é uma reação a escândalos revelados pela imprensa. Um juiz viajou o mundo às custas de um magnata do Texas, e outro foi a um resort pago por um mecenas do Partido Republicano.

Ao divulgar o texto, a Corte informou que seus justices já seguiam normas éticas não escritas. Mesmo assim, eles teriam redigido o código para eliminar um “mal-entendido”: a percepção de que não precisariam se submeter a regra alguma.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal já registrou em acórdão que o Conselho Nacional de Justiça “não tem nenhuma competência sobre o STF e seus ministros”. Resta a Lei Orgânica da Magistratura, que só costuma ser lembrada em polêmicas com juízes de primeira instância.

Como nossos supremos são melhores que os outros, não há por que pedir um código de conduta para a Corte. O decálogo a seguir é um mero exercício de imaginação, baseado em deslizes e conflitos de interesse que nunca ocorreriam por aqui:

Hélio Schwartsman - Algo terá de mudar

Folha de S. Paulo

Agenda pessoal de Netanyahu não coincide com interesses de Israel

Israelenses dificilmente trocarão de premiê em meio a uma guerra —e é aí que mora o perigo. Binyamin Netanyahu tem uma agenda pessoal que não coincide com a dos interesses de Israel no médio e longo prazo.

O ataque do Hamas em 7 de outubro mostrou que Israel só terá segurança real se surgir um Estado palestino, o que eliminaria ou pelo menos reduziria o apelo por movimentos teocrático-terroristas como o Hamas e o Jihad Islâmico. E o problema é que Netanyahu, por razões tão banais como manter-se no poder e evitar a cadeia (ele responde a processos por corrupção), fará o que estiver a seu alcance para bloquear iniciativas que possam resultar num Estado palestino.

Mariliz Pereira Jorge - Lula Nobel da Paz

Folha de S. Paulo

Exército israelense não estupra, não mata pais na frente de filhos, não decapita gente viva

O presidente Lula demorou 13 dias para dar nome ao que o Hamas é, um grupo terrorista. Talvez apenas tenha sido cuidadoso e esperado orientação na escolha das palavras ao se referir aos autores do massacre de 7 de outubro. Ou tenha ficado desconfortável de se posicionar diante de eleitores e de parlamentares que apoiam abertamente radicais que estupram, esquartejam e queimam pessoas vivas. Nunca saberemos.

O que sabemos é que bastou o desembarque de brasileiros e palestinos, vindos de Gaza, para que Lula comparasse a barbárie premeditada, planejada, executada com toda crueldade ao resultado trágico de um conflito. Para Lula, "Israel também está cometendo vários atos de terrorismo". Confunde supostos crimes de guerra, aos quais Israel poderá responder no futuro, com terrorismo puro.

Wilson Gomes* - Excomungados, banidos e proibidos: a nova era da intolerância

Folha de S. Paulo

A esquerda identitária chega à universidade para tentar reeducar professores

O princípio da tolerância tem dois componentes: as formas de vida são essencialmente diversas; a decisão de que uma fé, doutrina ou obra é falsa não é critério legítimo para desrespeitar quem a sustenta, proibir a sua existência ou atuar de forma autoritária ou violenta contra ela.

A tolerância se dá quando se reconhece que o direito que o outro tem de manter uma convicção, mesmo que eu não a considere verdadeira ou edificante, não é menor que o meu direito de sustentar convicção diversa.

Estamos vivendo uma nova era da intolerância? Tudo indica que sim.

Vinicius Torres Freire - A economia esfriou, mas tem como virar o jogo

Folha de S. Paulo

Dados de serviços, comércio e indústria indicam terceiro trimestre fraco, mas há saídas

economia brasileira desaqueceu no terceiro trimestre, a julgar pelos dados disponíveis. Não parece dramático nem imprevisto. Há até fumaça de possíveis boas notícias. Mas parece que o tempo do PIB, ao menos, esfriou.

Quanto a sinais de alívio, ressurgiu a perspectiva de que o aperto financeiro (juros altos etc.) nos Estados Unidos pare por aqui, dada a queda da inflação deles. Faz mais de ano, o humor com os EUA tem variado muito, com paniquitos e pequenas euforias, como a desta terça-feira. Mas a perspectiva agora é mais benigna, embora um nível mais alto de juros no mundo ainda seja a expectativa para os próximos anos, o que nos afeta também (taxas maiores aqui, menos influxo de capital etc.).

Zeina Latif - Desafios e lições da China

O Globo

Há lições para o Brasil. Antes de se defender a ação estatal aqui, é necessário avaliar sua capacidade de estimular o crescimento

Analisar a economia chinesa é reconhecidamente muito difícil. Há grande opacidade nas informações, que são manipuladas e até censuradas pelas autoridades. E os valores e as crenças, confucionistas, são muito diferentes das do Ocidente, como aponta Keyu Jin no livro “The New China Playbook”, que traz algumas reflexões aqui apresentadas.

Ela cita, por exemplo, que 93% dos chineses valorizam mais a segurança do que a liberdade, e 95% têm confiança no governo. Os indivíduos tomam decisões coletivamente e com um olhar intergeracional.

O modelo econômico chinês baseado em uma potente ação estatal é único em sua capacidade de coordenação, e produziu muitas transformações. Em quatro décadas, o PIB per capita saltou de US$ 380 para US$ 12,7 mil (2022, segundo o FMI). Formou-se uma grande classe média e o setor privado responde por 60% do PIB.

Recentemente, discute-se a possibilidade de a China manter um ritmo acelerado de crescimento de modo a se tornar um país rico — a renda per capita dos EUA está em US$ 76,3 mil.

Fábio Alves - A China em 2024

O Estado de S. Paulo

Analistas ainda avaliam qual será o comportamento da economia chinesa no próximo ano

Ainda paira uma dúvida sobre os analistas se, em 2024, a China será mais uma dor de cabeça para a economia global ou voltará a ser o motor do crescimento quando se espera que os Estados Unidos e a Europa enfrentem o crescente risco de uma recessão.

Neste ano, por exemplo, sem a intervenção das autoridades chinesas a segunda maior economia do planeta não conseguiria alcançar a sua meta de crescimento do PIB, de 5%. Mas os líderes políticos da China apenas colocaram um piso para o desempenho da economia neste ano, com estímulos monetários e fiscais considerados modestos e localizados em setores. Nem de longe esses estímulos chegaram perto dos pacotes bilionários do passado, desenhados para garantir, a todo custo, que a economia chinesa atingisse metas ambiciosas de crescimento.

Almir Pazzianotto Pinto - Operários, salários e sindicatos

O Estado de S. Paulo

Sindicato único, investido pelo Estado do monopólio de representação, com arrecadação compulsória, não combina com a sociedade livre e pluralista prevista na Constituição

Façamos algum esforço para imaginar o dia a dia de um modesto operário. É casado, tem três filhos pequenos. Ganha em torno de R$ 9,50 por hora. Reside na periferia de São Paulo, em viela mal iluminada, sem esgoto e sem água tratada. O casebre tem sala, quarto, banheiro e cozinha. Paga R$ 500,00 de aluguel. Toma duas conduções para ir e voltar do serviço.

Levanta-se às 5 horas, para entrar no trabalho às 7 horas. Deixa a fábrica às 17 horas. Se não chover e o trânsito estiver descongestionado, às 19 horas estará de volta para magro jantar com a família. Distrai-se com a TV. Assiste a programas evangélicos. Ignora o noticiário político. Não compreende a linguagem jornalística e desacredita o que ouve e vê.

Técio Lins e Silva* - Em nome do direito de defesa do advogado

Correio Braziliense

Dizem também que os advogados incomodam, atrapalham, perturbam a calma do Judiciário, pois estão sempre a reivindicar que os poderes da Justiça funcionem

Pensei que, depois de 60 anos de militância ativa na advocacia, saberia dizer para o quê servem os advogados. Mas a falta de acesso dos advogados aos juízes sugere que não somos necessários nem bem-vindos. Dizem que foi por causa da pandemia da covid-19! Dizem. Esse pretexto continua vigendo em todos os quadrantes da Justiça brasileira. Dizem também que os advogados incomodam, atrapalham, perturbam a calma do Judiciário, pois estão sempre a reivindicar que os poderes da Justiça funcionem.

É verdade que há profissionais que não honram a profissão. Também pudera, há mais faculdades de direito no Brasil do que todas somadas no mundo. Tinha até "faculdade de fim de semana". Verdade (acho que isso acabou...). Durante a ditadura militar, de 1964 a 1985, o Brasil licenciou centenas de faculdades sem nenhuma condição pedagógica, sem biblioteca e sem professores capacitados para o ofício. Somos o produto dessa realidade. Infelizmente.

Poesia | Carta a um amor | Um poema de Julio Cortázar

 

Música | Um a zero (Pixinguinha) - Nailor Proveta, Paquito de Rivera, e Trio Corrente