sexta-feira, 24 de abril de 2020

Moro: Bolsonaro queria interferir pessoalmente na PF, ligar pra diretores e superintendentes e ter acesso a relatórios

Perda de mais um ministro amplia isolamento do presidente e agrava crise política

Aguirre Talento e Marco Grillo | O Globo

BRASÍLIA - O ex-juiz federal Sergio Moro anunciou nesta sexta-feira seu pedido de demissão do cargo de ministro da Justiça governo do presidente Jair Bolsonaro após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, seu nome de confiança na corporação. A troca, segundo Moro, seria uma interferrência política na PF sem uma causa que fosse aceitável.

— O presidente queria uma pessoa que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações de inteligência, e realmente não é o papel da Polícia Federal prestar essas informações, disse Moro.
— O presidente também informou que tinha preocupação com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal e que a troca seria oportuna nesse sentido. Também nao é uma razão que justifique, pelo contrário até gera preocupação

Moro disse que Bolsonaro afirmou a ele que o objetivo da troca no comando da Polícia Federal era, sim, interferir politicamente na instituição. Segundo o ministro da Justiça, o presidente “sinalizou que tinha preocupações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF)”, em referência às investigações em curso sobre fake news e os atos antidemocráticos do último fim de semana. Ainda de acordo com Moro, Bolsonaro afirmou que precisa de delegados na PF com quem ele possa ter contato, inclusive tendo acesso a relatórios de inteligência.

– Falei com presidente que seria interferência política, e ele disse que seria mesmo. Presidente me disse mais de uma vez expressamente que queria ter uma pessoa do conato dele, que ele pudesse ligar, ter informações, colher relatórios de inteligência. Seja diretor, seja superintendente, não é papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. Imagina se durante a própria Lava-Jato, ministro ou diretor-geral, ou a presidente Dilma ou o ex presidente Luiz (Lula) ficassem ligando para o superintendente…. Autonomia da PF é valor fundamental. Grande problema não é quem entra, mas por que alguém entrar. Eu fico na dúvida se vai conseguir dizer não (a Bolsonaro) em relação a outros temas.

Moro destacou na entrevista que foi prometido carta branca a ele.

— Foi me prometido na ocasião carta branca para nomear todos os assessores, inclusive o superintendente da Polícia Federal - disse, lembrando do convite feito por Bolsonaro.

Merval Pereira - Moro no impasse

- O Globo

Caso tenha que pedir demissão, Moro só tem uma saída política: cair atirando, para manter sua popularidade

O presidente Jair Bolsonaro está fazendo movimentos bruscos como se estivesse tentando desmontar um esquema que objetiva tirá-lo da presidência da República. Mesmo que esse esquema só exista na sua cabeça conturbada, e na de seus filhos.

Suas ações são muito semelhantes às de presidentes que acabaram impedidos de continuarem seus mandatos, como Collor ou Dilma. Tudo começa e termina com a difícil relação com o Congresso. Como Collor, eleito por um partido nanico, o PRN, decidiu governar sem o apoio de uma base parlamentar.

Quando tudo já estava perdido, com denúncias de irregularidades de todos os lados, ele tentou se aproximar do Congresso com acordos de última hora e montando um ministério de notáveis para lhe dar credibilidade. O ministerio funcionou tão bem que seus integrantes atravessaram a crise política sem macular suas biografias. Mas o apoio do Congresso não veio, e Collor caiu.
Dilma, que passou seu primeiro mandato gastando o crédito de popularidade que seu mentor Lula deixou de legado, herdou também o escândalo do petrolão e, unindo corrupção e incompetência, caminhou para o patíbulo.

Tentou ainda distribuir cargos aos parlamentares que teoricamente formavam sua base de apoio, mas já não havia escapatória. Interessante notar que Lula montou uma super base partidária, justamente com o propósito de evitar o impeachment, mas a base era de vidro e se quebrou na primeira oportunidade.

Bernardo Mello Franco - Um duelo sem inocentes

- O Globo

Não há inocentes na disputa entre Moro e Bolsonaro. O capitão quer interferir na PF para blindar filhos e patrocinadores. O ministro fica em nome de um projeto pessoal de poder

Sergio Moro usou a toga para ajudar Jair Bolsonaro a subir a rampa. Foi recompensado com o Ministério da Justiça e uma promessa de vaga no Supremo.

No começo, o acordo foi vantajoso para os dois. Ao nomear o juiz da Lava-Jato, Bolsonaro vendeu a imagem de que seu governo combateria a corrupção, apesar dos rolos com milicianos e assessores fantasmas. Moro se livrou da primeira instância e encontrou um atalho para o centro do poder.

A convivência pacífica durou pouco. Bolsonaro farejou as ambições do ministro e passou a tratá-lo como virtual adversário em 2022. No segundo mês de mandato, abandonou o discurso da carta branca e interferiu na nomeação de uma suplente para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

Nelson Motta - Chavismo de direita

- O Globo

Parece um método chavista cercar-se de generais

Tempo de horror em que os dois únicos assuntos nacionais são coronavírus e Bolsonaro. Parece que nada mais interessa. Está chato. Todo mundo escreve sobre as mesmas coisas. Desculpem, mas...

Lembrei-me de um filme de Kurosawa chamado “Homem mau dorme bem”, um grande ataque do mestre ao capitalismo. É sabido que Bolsonaro dorme pouco e mal, com um revólver na cabeceira, é natural que acorde cansado e mal-humorado. É quando fala suas maiores besteiras.

Depende do que tenha sonhado. Qual é o seu pior pesadelo? Ser impichado, o Queiroz contar tudo e Flávio ser preso, ou a depressão econômica? Ele é do tipo que não hesitaria em provocar uma guerra civil para se manter no poder, ou salvar um filho da cadeia. Mas o Exército o conhece bem, desde que o expulsou por planejar botar bombas em quartéis. Não pela democracia, por aumento de salário.

Míriam Leitão - Bolsonaro ataca as torres gêmeas

- O Globo

Em 24 horas, o presidente Bolsonaro atacou os dois principais pilares do seu governo: os ministros Moro e Paulo Guedes

Os dois pilares do começo do governo Bolsonaro eram o ministro Sergio Moro e o ministro Paulo Guedes, e nas últimas 24 horas ele atacou os dois. Ameaçou demitir o diretor da Polícia Federal sabendo que isso provocaria uma crise com Moro e mandou organizar um plano de retomada econômica sem Paulo Guedes. O que quer Bolsonaro? Encontrar-se consigo mesmo. Ele nunca foi um ativista anticorrupção, usou a bandeira por interesse eleitoral. Ele nunca foi um liberal na economia, fingiu ser por interesse eleitoral.

Bolsonaro disputou a eleição brandindo bandeiras estrangeiras à sua essência, por oportunismo político. Tanto Moro quanto Guedes se deixaram usar. Nenhum dos dois desconhece a verdadeira natureza de Bolsonaro, mas eles fizeram cálculos ao entrar no governo. Guedes achava que convenceria o presidente de que o liberalismo levaria a um crescimento forte e, portanto, ao sucesso econômico. E político. Moro tornou-se ao longo da Lava-Jato um conhecedor profundo do submundo da política e sabia que, quando deputado, Bolsonaro esteve no mesmo partido de alguns dos seus réus. Guedes sempre quis ser ministro da Economia e implantar o seu projeto porque estava convencido que saberia fazer melhor do que os seus antecessores “social-democratas”, como os define a todos. Moro sempre quis ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Moro se tornou um novo Mandetta, ou seja, um ministro cuja demissão não é uma questão de “se”, mas de “quando”. O presidente Bolsonaro sempre recua quando há uma reação forte às suas decisões, mas depois dá o troco.

Flávia Oliveira - Vocês que lutem!

- O Globo

A meta almejada é um Brasil varrido de negros e indígenas

O governo Jair Bolsonaro escolheu a data de aniversário de 520 anos da chegada dos portugueses ao Brasil para anunciar à nação o plano de recuperação econômica pós-pandemia. Batizou de Pró-Brasil o, até aqui, mal esboçado pacote de investimentos de R$ 30 bilhões para gerar um milhão de empregos. Ilustrou a apresentação com a foto de cinco crianças brancas — duas meninas, três meninos — retiradas de um banco de imagens estrangeiro. Amarrou a proposta no slogan “Construção de um país em progresso”. O punhado de referências não deixa dúvidas da meta almejada: um Brasil varrido de negros e indígenas; livre da diversidade racial autodeclarada por quase seis em cada dez habitantes. É a materialização do sonho dos invasores que exterminaram povos nativos, sequestraram e escravizaram africanos e, aos dois grupos, impuseram língua, hábitos e religião.

O escritor Eduardo Moreira, autor de “Desigualdade & caminhos para uma sociedade mais justa” (Civilização Brasileira, 2019), protestou. A ONG Educafro, dedicada à inclusão de jovens negros e de baixa renda no ensino superior, reivindicou a suspensão da peça, antirretrato da brasilidade. Fato é que discursos e imagens supremacistas brancas não são novidades no Executivo federal. O episódio mais descarado — a reprodução em forma e conteúdo de mensagem de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha nazista — levou à exoneração de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura. Mas há múltiplos sinais de que nem a diversidade nem as desigualdades brasileiras comovem corações e mentes do Planalto.

Luiz Carlos Azedo - Companheiro de viagem

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Não é de ontem que Bolsonaro quer nomear o diretor-geral da Polícia Federal, exonerando o delegado Maurício Valeixo, homem de confiança do ministro Moro”

Sou fã incondicional do escritor belgo-francês Georges Simenon, ao qual fui apresentado pelo meu falecido amigo Carlos Jurandir Monteiro Lopes, jornalista, escritor, músico, guru literário e musical, parceiro nas noites boêmias do Lamas e da Estudantina, no Rio de Janeiro. Seus pequenos romances compõem um grande mosaico na literatura francesa, admirado entre outros por André Gide (O imoralista, A volta do filho pródigo), prêmio Nobel da Literatura de 1947, e nossa universal Clarice Lispector (Perto do coração selvagem, A hora da estrela), a judia ucraniana que escolheu o Brasil como sua pátria e, entre os sete idiomas que dominava, a língua portuguesa para tecer sua obra literária.

Além das histórias policiais, nas quais o famoso inspetor Maigret poderia pontificar ou não, Simenon escreveu grandes romances psicológicos, como O Burgomestre de Furnes, que trata do embrutecimento, do ódio e da avareza; O gato, o inferno doméstico de um casal de idosos, que se digladiam por meio de pequenos bilhetes provocadores; e a história do quarentão Kees Popinga, um respeitável cidadão holandês, dedicado ao trabalho e à família, ao xadrez e aos charutos, cuja maior curiosidade era apenas conhecer os passageiros do trem noturno que diariamente via passar de sua janela.

A vida de Popinga vira de pernas para o ar quando seu patrão vai à falência e resolve forjar a própria morte. O pacato cidadão, num surto inexplicável, embarca numa viagem sem volta num trem noturno para Paris, no qual comete o que seria um “crime perfeito”. Entretanto, seu comportamento paranoico e fora do padrão desperta suspeitas e, por isso, acaba preso. O livro é um mergulho psicológico no personagem: quem é Kees Popinga? Um maluco? Ou tão normal quanto qualquer cidadão? Sua vida cheia de regras era normal? A história tem um desfecho dostoieviskiano, impossível não lembrar do jóvem Raskólnikov, o personagem central de Crime e Castigo.

José de Souza Martins* - O conflito que nos preside

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Jair Messias tem dado indicações de que pretende ser o vingador do fim da ditadura militar. Fim que foi negociada pelas Forças Armadas, que queriam voltar aos quartéis

Ao chegar para a posse do novo ministro da Saúde, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, brincou com os jornalistas: “Está tudo sob controle. Não sabemos de quem...”.

É possível, mas não é provável, que o general não saiba quem, de fato, controla as decisões sobre a epidemia e, portanto, quem preside a República. Sua observação expressa o fato inquietante de que os muitos gestos impróprios do presidente, em desacordo com a liturgia de sua alta função, são desafios que constituem atos de renúncia tácita à Presidência.

Empossado o novo ministro da Saúde, designou o presidente um almirante para representá-lo no ministério, no trato da questão da epidemia. Num Estado “normal”, quem cumpre essa função é o ministro. Portanto, ele nomeou um ministro de cuja lealdade dúvida.

Dois dias depois, no domingo, o presidente foi à porta do quartel-general do Exército, em Brasília, juntar-se a um grupo subversivo de manifestantes de direita que pedia um golpe militar contra a ordem democrática. Tossia, tinha dificuldade para falar. Ele estimula o comportamento divergente, que põe em risco a saúde e a vida de um número enorme de pessoas.

No dia seguinte, na porta do Planalto, em novo encontro com bajuladores, tentou desfazer o malfeito e fez pior. Declarou: “A Constituição, realmente, sou eu”. Plagiou a frase famosa de Luís XIV (1638-1715), enunciado emblemático do absolutismo monárquico: “O Estado sou eu”. Um presidente não é a Constituição: é o seu servidor.

Jair Messias tem dado indicações de que pretende ser o vingador do fim da ditadura militar. Fim que foi negociado pelas Forças Armadas, que queriam voltar aos quartéis. Cujo trâmite já estava anunciado em famoso discurso do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987) na Escola Superior de Guerra.

Ele quer reverter o processo histórico. Seu comportamento sugere que a história está errada, na sociedade errada e com o povo errado. Nas várias expressões dessa mentalidade, são fortes as evidências de socialização no confinamento do quartel, do que Erving Goffman (1922-1982) define como instituição total. O general Costa e Silva já havia dado indicação semelhante quanto a isso, de que, nos tempos de quartel, suas ordens eram obedecidas, na Presidência não.

César Felício* - Linhas cruzadas

- Valor Econômico

Crise com Moro perturba aproximação com Centrão

A crise entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, pode ter a substituição do diretor da Polícia Federal como origem, mas suas razões de fundo se entrelaçam com o movimento presidencial em direção ao mundo tradicional da política brasileira. Não há uma relação de causa e efeito: há sim influência do primeiro fato no segundo.

A cena do poder se alimenta de símbolos, e é emblemático que Moro se dirija para uma porta quando Roberto Jefferson entrou por outra. Arthur Lira por uma terceira. Kassab por uma quarta. Marcos Pereira por uma quinta.

A trajetória de Moro à frente do Ministério da Justiça armou uma situação altamente indesejável no mundo político, que é a guerra em duas frentes. Popularidade alta garante uma certa blindagem, mas é insuficiente para romper um cerco. O ministro sempre antagonizou com o mundo político tradicional. As malfeitorias de amigos e antigos auxiliares da família Bolsonaro no Rio o fizeram colidir com os operadores políticos mais incondicionais do chefe.

Operadores políticos, é bom frisar, não os militantes fanáticos das redes sociais, que permanecem fechados com Moro. Quem se volta contra o ministro da Justiça são os que puxam os cordéis das campanhas orquestradas no WhatsApp, no Twitter, no Facebook. Um curioso caso de contradição entre base e pico desta pirâmide.

Fernando Abrucio* - Por que Bolsonaro briga com os governadores

- Valor Econômico/Eu & Fim de Semana

O bolsonarismo é um movimento permanente de guerra para destruir inimigos que sejam obstáculos à permanência do Mito no poder

O combate à covid-19 está sendo prejudicado pela disputa política entre o presidente Bolsonaro e os principais atores institucionais do país. Se o estímulo a movimentos autoritários contra os Poderes da República é uma ameaça real à democracia, a briga com os governos subnacionais é o principal obstáculo na luta contra a pandemia, pois são eles os principais responsáveis pela implementação da política de saúde.

O fato é que o federalismo construído desde 1988 se tornou um obstáculo para o projeto bolsonarista de poder, e os governadores de Estado se tornaram inimigos centrais do bolsonarismo. Hoje, os bolsominions xingam mais João Doria do que Lula no esgoto das redes sociais e nas “carreatas da morte” - aquelas que ignoram o sofrimento dos doentes dentro dos hospitais.

A compreensão dessa briga com os governadores ajuda a entender melhor o sentido da política bolsonarista, não só em seu momento atual, mas na sua trajetória desde a posse presidencial. O federalismo tem sido uma arena estratégica para a imposição do novo projeto de poder, tendo um papel nuclear em quatro visões que definem o bolsonarismo: o modelo de Estado, o lugar reservado às políticas públicas (especialmente as de cunho social), a noção do alcance e limites do poder governamental, bem como a estratégia político-eleitoral.

A visão de Estado do bolsonarismo é uma forma peculiar de ultraliberalismo econômico. Propõe não só a redução do tamanho e do papel do aparato estatal, mas pretende repassar a responsabilidade das atividades mais ligadas ao social aos governos subnacionais. No fundo, o presidente Bolsonaro repete aqui as ideias de Trump, seu guru favorito.

André Lara Resende* - Quem vai pagar essa conta?

- Valor Econômico

O dogmatismo fiscal não ameaça só a economia: é hora de parar de repetir chavões anacrônicos e de repensar, senão quem pagará é a democracia

Até os mais empedernidos defensores do equilíbrio fiscal - e no Brasil de hoje eles dão as cartas - reconhecem que diante da crise é preciso que o Estado gaste para evitar uma verdadeira catástrofe humanitária. Mas como foram pegos no contrapé, no meio de uma cruzada para equilibrar as contas públicas, para salvar o Tesouro do cerco dos infiéis, perderam o rumo. Não apenas a agenda do ministro Paulo Guedes, mas também o discurso da esmagadora maioria dos analistas, tinha se transformado em samba de uma nota só: eliminar o déficit.

Tudo mais seria irrelevante ou viria como consequência. Investimentos em saneamento, segurança, saúde, educação e infraestrutura? Impossível, não há como financiá-los. Um programa de metas para sair da armadilha da estagnação? Desnecessário, bastaria aprovar as reformas que o investimento externo e a confiança garantiriam o novo milagre brasileiro. Não foi o que se viu. Aprovada a reforma da Previdência, aquela que seria a mãe de todas as reformas “estruturantes” segundo seus preconizadores, a economia continuou anêmica e o desemprego, aberto. É claro que tanto o ministro como o seu coro na mídia agora sustentam o contrário, que a economia estava pronta para decolar, quando foi “atingida por um meteoro”.

A crise provocada pelo coronavírus é de fato inusitada. A parada da economia, tanto pelo lado da demanda como da oferta, não tem precedentes. Ainda por cima é uma crise sincronizada, que atinge praticamente todas as economias no mundo. Nunca se viu nada parecido. Para amenizar o drama humano e evitar uma depressão profunda, o Estado precisa prover um auxílio de emergência. O Banco Central deve emitir para injetar liquidez no sistema bancário e evitar que a parada da economia se transforme também numa crise financeira.

Como o sistema bancário está, compreensivelmente, assustado com a possibilidade de uma onda de quebras e inadimplência, a injeção de liquidez não será repassada para a economia real. É preciso fazer o auxílio chegar diretamente às empresas e às pessoas necessitadas. Nesse momento, o aumento dos gastos públicos é essencialmente uma ajuda de emergência, para aliviar o sofrimento e impedir quebras generalizadas, mas os investimentos contracíclicos serão necessários, uma vez superada a epidemia. É preciso agir com urgência, fazer chegar o auxílio assistencial diretamente aos necessitados, com o mínimo de formalidades burocráticas.

Naercio Menezes Filho* - Pandemia, pobreza e política

- Valor Econômico

Se todas as pessoas enquadradas receberem a renda emergencial a pobreza extrema seria praticamente eliminada

A pandemia da covid-19 está provocando várias mudanças em quase todos os países do mundo. Ela está afetando o modo de vida das pessoas, os empregos, os preços dos ativos, o funcionamento dos negócios, a pobreza e a desigualdade.

Essas transformações são especialmente difíceis para as famílias mais pobres, que estão no setor informal, não têm poupança e, portanto, precisam de rendimentos diários para poder sustentar suas famílias. O que poderá acontecer com as crianças nessas famílias? Será que o programa de renda básica emergencial será suficiente para protegê-las? Quais serão os efeitos dessa crise sobre a popularidade do presidente?

Vários estudos acadêmicos mostram que o estresse materno durante a gestação afeta o desenvolvimento dos bebês, diminuindo seu peso ao nascer e sua produtividade futura. Assim, a incerteza das mães com relação às suas condições econômicas para comprar comida e o receio de ficarem doentes já estão afetando as crianças que irão nascer esse ano, os “filhos do Coronavírus”.

Sabemos também que a velocidade do desenvolvimento cerebral é muito maior nos primeiros anos de vida do que nos demais períodos. Nessa fase, a criança precisa viver num ambiente tranquilo, mantendo interações saudáveis com seus pais. Mas a crise está fazendo com que muitas pessoas estressadas fiquem o tempo todo juntas, em casas muito pequenas. Isso pode provocar alterações no cérebro da criança que poderão fazer com que ela não desenvolva as habilidades necessárias para o aprendizado. Quantas famílias terão que passar por isso?

Claudia Safatle - Atenção redobrada na trajetória da dívida

- Valor Econômico

Risco de disputa entre ortodoxos e desenvolvimentistas

Começou a se desenhar no governo um importante embate. O sinal foi dado pela iniciativa dos ministros chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Na quarta-feira, eles anunciaram o Plano Pró Brasil, um programa de investimentos públicos de R$ 30 bilhões para os próximos três anos e outros R$ 250 bilhões em concessões. A cifra dos investimentos públicos é irrelevante para influir na recuperação da atividade, mas o ato pode significar uma mudança de sinal da política econômica do liberalismo pré-crise do coronavírus para um ensaio intervencionista no pós-pandemia.

A primeira instituição do governo a falar em um programa de recuperação para o pós-crise, no estilo Plano Marshall (programa de reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra, financiado pelos Estados Unidos), foi o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Além de preparar Parcerias Público Privadas (PPPs) com maior protagonismo do setor privado e Programas de Parcerias de Investimentos (PPIs), o trabalho do Ipea pretende identificar e reconstruir, internamente, elos de cadeias produtivas globais que se perderam por causa de um mundo mais protecionista que surge no processo de “desglobalização” pós pandemia do coronavírus.

Não se cogita conceder subsídios, mas eventualmente poderá haver algum incentivo fiscal para, por exemplo, estimular o emprego com a redução de encargos trabalhistas. Combater o desemprego resultante da paralisia da economia na batalha contra a covid-19 é um outro foco do programa.

O plano do Ipea, porém, é financiado preponderantemente por instrumentos de mercado. “Eventualmente pode-se ter algum endividamento público, mas esse terá que ser reduzido ao mínimo”, disse Carlos von Doellinger, presidente do Ipea. A notícia de que um outro grupo do governo de Jair Bolsonaro, sob coordenação da Casa Civil, está trabalhando em programas de investimentos públicos, preocupou Doellinger, que garantiu que no plano que está sendo estruturado pelo Ipea “não haverá gastança de dinheiro público, até porque não tem”. Os técnicos do instituto vão mapear a economia real e definir um arcabouço macroeconômico para mostrar como deve ser o ritmo de recuperação, se pode ser rápida ou lenta e, sendo lenta, como um programa de retomada da economia pode influenciar no seu ritmo.

Parlamentares repercutem demissão de Valeixo do comando da PF

Deputados e senadores questionaram motivos para a saída de Valeixo e analisaram a nova crise no governo federal em meio à pandemia

Renato Vasconcelos e João Ker | O Estado de S.Paulo

Deputados federais e senadores usaram as redes sociais na manhã desta sexta-feira, 24, para repercutir a exoneração de Maurício Valeixo da direção-geral da Polícia Federal. A confirmação da saída de Valeixo veio na publicação do Diário Oficial da União desta sexta, um dia após especulações sobre sua saída do cargo criarem uma crise no governo federal, inclusive com a ameaça de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Um dos parlamentares a criticar mais enfaticamente a saída do diretor-geral foi o senador Alessandro Vieira (CIDADANIA-SE). Pelo Twitter, o senador chamou a mudança no comando da PF de "vergonha". "Quem tem medo de uma polícia técnica e independente é bandido! Estamos acompanhando com atenção e repudiamos mais esse ataque à Polícia Federal, instituição que é motivo de orgulho para os brasileiros e pilar no necessário combate à corrupção. #VERGONHA", escreveu.

Alguns parlamentares da oposição também comentaram a exoneração. Deputado federal por São Paulo, Orlando Silva (PCdoB) analisou a situação como uma derrota para todos os envolvidos no caso, citando Bolsonaro, Moro e o próprio Valeixo.

"Se Bolsonaro não tivesse força para demitir um subordinado do ministério, estaria desmoralizado. Por outro lado, a demissão de Valeixo revela medos profundos do presidente, o que o fragiliza. Se Moro ficar diante do ocorrido, vira um farrapo humano. Todos perdem", disse Silva.

O líder da oposição no senado, Randolfe Rodrigues (REDE-AP), classificou a exoneração de Valeixo como um ataque à Polícia Federal. O senador também questionou o motivo para a saída do atual diretor. "Todo nosso repúdio à esse ataque de Bolsonaro à Polícia Federal, instituição tão importante p/ nosso país, fundamental no combate à corrupção! Por que Bolsonaro não quer uma PF independente? Quais os motivos? O que Bolsonaro está tentando esconder?."

O senador Humberto Costa (PT-PE) questionou a "briga pelo controle político" da PF em meio a pandemia do novo coronavírus. Em sua postagem, Costa compartilhou um vídeo de uma matéria exibida na edição de quinta-feira do Jornal Nacional, da TV Globo, que falava sobre a crise que a saída do diretor criou no Planalto. No vídeo compartilhado pelo senador, foram adicionados os dizeres: "Bolsonaro quer derrubar Moro para mexer na PF".

"Até onde vai a briga pelo controle político da Polícia Federal? E por que tanto interesse nisso? Qual o medo dos envolvidos nessa nova crise criada pelo governo no país em meio a uma pandemia?", escreveu o senador pernambucano.

Ex-aliada de Bolsonaro, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) citou o atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, cotado para assumir o comando da PF. "Alexandre Ramagem está cotado para assumir a PF no lugar de Valeixo. Ele foi indicado por Carlos Bolsonaro para comandar e ABIN (depois que plano da ABIN Paralela naufragou). Jair Bolsonaro quer um delegado submisso que tope não se “empenhar” nas investigações sobre seus filhos".

Ricardo Noblat - O petardo de Celso de Mello, ministro do STF, contra Bolsonaro

- Blog do Noblat | Veja

Crimes de responsabilidade

Seus colegas do Supremo Tribunal Federal desconhecem o teor da decisão a ser tomada pelo ministro Celso de Mello quanto ao mandado de segurança protocolado pelos advogados Thiago Santos Aguiar de Pádua e José Rossini Campos do Couto Correa.

Os dois alegam que o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, se nega em dar prosseguimento ao pedido feito por eles de abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro por crimes de responsabilidade.

Mas de uma coisa estão convencidos os pares de Mello: ele aproveitará seu despacho no mandado de segurança para disparar um poderoso petardo contra o presidente da República. Não perderá a oportunidade que esperava há tanto tempo.

O mais provável é que Mello rejeite o mandado. É pacífico dentro do tribunal o entendimento que só cabe ao presidente da Câmara dos Deputados abrir ou arquivar pedidos de impeachment do presidente da República. É prerrogativa exclusiva dele.

Vera Magalhães- Com exoneração de Valeixo, Moro deve mesmo sair

- O Estado de S. Paulo

Com a exoneração, pelo Diário Oficial da União, do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, deve se concretizar a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, disseram ao BRPolítico nesta manhã pessoas próximas às negociações entre o ex-juiz e o presidente.

Ele marcou um pronunciamento às 11h desta sexta-feira, informou a assessoria de imprensa do ministério. Nessa fala, deve concretizar seu pedido de demissão, segundo a expectativa.

Depois de tentativas, vindas principalmente da parte dos generais que integram o ministério, de contemporizar a situação e evitar a saída de Moro, cessaram as conversas, ainda na noite de quinta-feira.

Diferentemente do que consta do DOU, a exoneração de Valeixo não foi assinada pelo ministro, como informou a Folha, e fontes confirmaram ao BRP. Outra informação falsa da exoneração é que a saída de Valeixo se deu “a pedido”.

O método da demissão, na marra e falseando informações, deve ser a cereja do bolo para a decisão de Moro de deixar o governo. Além da intervenção de Bolsonaro na PF, pesam para isso a aproximação do presidente com o Centrão, inclusive com pessoas condenadas e que foram presas, como Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto (esse por sentença do próprio Moro na Lava Jato) e a conduta de Bolsonaro durante a pandemia do novo coronavírus.

Eliane Cantanhêde - Fazendo água

- O Estado de S.Paulo

Quanto mais popular, pior para o ministro. E troca da PF é salvar amigos e perseguir inimigos?

Uma sensação cresce a cada dia, a cada semana: o governo Jair Bolsonaro está fazendo água por todos os lados, depois que o presidente escancarou suas fragilidades, tomou atitudes despropositadas na pandemia, passou a prestigiar atos ostensivamente golpistas e, não satisfeito, partiu para o ataque contra as estrelas do próprio governo, uma por uma. Isso é hora de espicaçar o ministro Sérgio Moro?

Quanto mais popular, pior para o ministro. Luiz Henrique Mandetta caiu da Saúde, Moro cansou de ser desautorizado, Paulo Guedes está sendo atropelado depois que a pandemia trouxe para a arena a velha guerra entre “liberais” e “desenvolvimentistas”. Outra que começa a periclitar é Tereza Cristina, da Agricultura, que apanha de bolsonaristas na internet e está cansada dos desaforos de Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Eduardo Bolsonaro contra a China – fundamental para sua pasta e para o País.

Ernesto Araújo, Weintraub e Eduardo Bolsonaro são os ideológicos cheios de prestígio no Planalto. Moro, Guedes e Tereza Cristina, como Mandetta, estão em outra categoria: não assumiram cargos no governo para seguir Olavo de Carvalho e guerrear contra uma suposta escalada comunista interplanetária. Entraram para trabalhar por suas áreas, para pôr em prática o que sonham (certo ou errado) que é melhor para o País. Pois é. Não basta.

Nessa gangorra, caem Mandetta, Moro e Guedes, sobem Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e Arthur Lira, líderes do Centrão que prometem qualquer coisa para ter seus carguinhos e favores, inclusive perseguir o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. As portas do Planalto se escancaram para eles e se fecham para a Lava Jato, abandonada sucessivamente desde a campanha de 2018.

Moro chegou ao governo como troféu, mas tem um problema de origem: a popularidade. Como ele tem a audácia de ser mais popular e querido do que o “mito”? E tome de engolir sapos! Ele passou a estabelecer limites quando apoiou Mandetta na defesa do isolamento social para conter o coronavírus, mas o principal foi se recusar, primeiro, a demitir o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, em 2019, e agora a aceitar o apadrinhado por Eduardo Bolsonaro para a PF.

Para Cesar Maia, falta homogeneidade ao Centrão para virar base

Pai de Rodrigo Maia, ex-prefeito do Rio é cético sobre estratégia de Bolsonaro de isolar seu filho

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - Num momento em que seu filho e presidente da Câmara dos Deputados é alvo dos mais pesados ataques do bolsonarismo, o vereador do Rio Cesar Maia (DEM) afirma que a tentativa de Jair Bolsonaro de isolar a influência do parlamentar nesta ou na próxima legislatura não é necessariamente factível.

Cesar Maia sugere que, sem uma boa interlocução com a presidência da Câmara, a articulação política de Bolsonaro diretamente com as legendas do Centrão não lhe facilitará a governabilidade. O varejo das conversas, sem a delegação de poder a um líder que vertebre as diferentes siglas ligadas ao bloco, pode ser infrutífero.

“Não sei bem o que é Centrão. As reuniões recentes do presidente [Bolsonaro] com partidos mostra isso. Claramente não há homogeneidade garantida. Cada voto no Parlamento dependerá do fato que se vota”, diz.

Para Cesar Maia, o movimento de Bolsonaro em busca de uma aliança com partidos do Centrão é mais fruto de uma surpresa do governo federal com a grande crise da pandemia da covid-19 do que uma guinada nas relações entre Executivo e Legislativo.

“O que mudou foi a crise do coronavírus, que surpreendeu o governo. Excluindo os carimbos partidários, nada mudou politicamente. Os grupos intragoverno desde a eleição, mesmo não tendo a chancela partidária, são grupos políticos”, afirma.

Para Maia, muito do que virá depende da resposta do governo federal à crise do coronavírus. Inclusive a reação da base de simpatizantes radicais do presidente. Bolsonaro é apoiado por eleitores movidos sobretudo pela antipolítica. Nas redes sociais, já demonstram incredulidade ou recorrem a malabarismos retóricos para negar um estelionato eleitoral.

Aproximação com Centrão não garante Bolsonaro

Rodrigo Maia recebeu acenos de que a eventual aliança não significará seu enfraquecimento

Por Andrea Jubé, Marcelo Ribeiro e Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - A recente ofensiva do presidente Jair Bolsonaro em relação aos partidos do “Centrão” pode atrapalhar as pretensões dos candidatos à presidência da Câmara em 2021 que se alinharem com o governo, tem avaliado, em conversas reservadas, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Nessas conversas, Maia tem sugerido que a maioria na Câmara resiste à aproximação direta com o governo, alvo de desconfiança no Legislativo.

Candidatos governistas tendem a ser derrotados na disputa sucessória na Câmara quando a relação entre Executivo e Legislativo está ruim. Os exemplos recentes são Arlindo Chinaglia (PT-SP), que teve o apoio da ex-presidente Dilma Rousseff em 2015, mas perdeu para Eduardo Cunha (ex-MDB-RJ); e Luiz Eduardo Greenhalg (PT-SP), que tinha o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e foi derrotado por Severino Cavalcanti (PP) em 2005.

Além disso, a aliança entre Bolsonaro e o Centrão pode ser colocada à prova se houver queda de popularidade. A história registra que o apoio desses partidos não esteve garantido em momentos-chave. Na gestão Dilma Rousseff, PL (ex-PR), PP e PSD desembarcaram em bloco do governo uma semana antes da votação do impeachment na Câmara, quando a petista mais precisou de sustentação política em seu mandato.

Rodrigo Maia disse a interlocutores que recebeu acenos de que a eventual aliança não significará que o Centrão abandonará o apoio à cúpula do Congresso. Esse grupo de partidos pretende manter aliado com ambos e fazer a interlocução entre Executivo e Legislativo.

Gastos para o pós-pandemia geram embate no governo

Começou a se desenhar no governo um embate entre o liberalismo pré-coronavírus e o intervencionismo no pós-pandemia

Por Claudia Safatle | Valor Econômico

BRASÍLIA - Começou a se desenhar no governo um embate entre o liberalismo pré-coronavírus e o intervencionismo no pós-pandemia. O sinal foi dado pela iniciativa dos ministros da Casa Civil, Walter Braga Netto, da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Na quarta-feira, Braga e Tarcísio anunciaram o Plano Pró-Brasil, um programa de investimentos públicos de R$ 30 bilhões para os próximos três anos e outros R$ 250 bilhões em concessões para o setor privado.

A cifra dos investimentos públicos é irrelevante para influir na recuperação da atividade, mas o ato pode significar uma mudança de sinal da política econômica. E Paulo Guedes, ministro da Economia, sabe disso. Nos cálculos de técnicos oficiais, o país sairá da pandemia com uma elevação substancial da dívida bruta do governo. Se no início do ano as contas indicavam uma dívida em queda, equivalente a 75,8% do PIB para o exercício, agora os números batem em 85% do PIB. Sua trajetória para os próximos dez anos, se nada for feito, também será crescente.

Guedes argumentou nas discussões sobre o Pró-Brasil que foi com o intervencionismo estatal que o governo do PT quebrou o país. Ele comparou o Pró-Brasil ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), uma iniciativa do segundo governo Lula. Interlocutores de Guedes disseram que a elaboração do plano foi estimulada por Rogério Marinho, cuja intenção seria a de levar mais recursos para a sua Pasta. O ministro Paulo Guedes teria considerado a atitude de Marinho desleal.

Ninguém, na área econômica, discorda do aumento do gasto para mitigar os efeitos do coronavírus na economia. Defende-se, porém, que o crescimento seja protagonizado pelo setor privado e considera-se imprudência expandir mais a dívida bruta, que é o principal indicador de solvência do país.

Sudeste, Norte e Nordeste devem liderar queda do PIB neste ano

Para consultorias que fazem cenários regionais, economia do Centro-Oeste será a menos atingida pela crise no ano devido ao agronegócio

Por Bruno Villas Bôas e Arícia Martins | Valor Econômico

RIO E SÃO PAULO - Com a abrupta paralisação da atividade desde meados de março devido ao novo coronavírus, o Produto Interno Bruto (PIB) deve recuar em todos os Estados brasileiros em 2020, especialmente no Sudeste e no Nordeste, segundo cálculos da consultoria Tendências. Já a 4E Consultoria projeta que a região Centro-Oeste escape de um PIB negativo em 2020, graças ao desempenho do agronegócio.

No cenário da Tendências, o PIB deve recuar 4,1% neste ano na média nacional. Já a 4E trabalha com redução de 2,3% da economia brasileira em 2020.

Região mais rica do país, o Sudeste deve ver o PIB encolher 4,3% no ano, afetado por setores considerados pró-cíclicos, como o automotivo e o de metalurgia, além da atividade de mineração, calcula a Tendências. O PIB de São Paulo deve ter um dos piores desempenhos do país no ano, com contração de 5,1%.

O economista Lucas Assis explica que, além de serviços e comércio, setores industriais sensíveis à dinâmica econômica devem mostrar retração no Estado. A consultoria cita paralisação de montadoras como Ford, GM, Honda e Volkswagen, além da interrupção de plantas industriais de máquinas e equipamentos da JCB e da John Deere.

Vírus devasta mercado de trabalho, diz Ibre

Boletim Macro projeta queda de 10,3% na renda expandida e desemprego de 17,8% este ano

Por Arícia Martins e Anaïs Fernandes | Valor Econômico

SÃO PAULO - A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus deixará uma herança negativa mesmo após a doença ter sido controlada, sobretudo no mercado de trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a taxa de desemprego, a massa salarial e a massa total de renda terão em 2020 o pior desempenho de suas séries históricas, mesmo com as medidas do governo para amenizar a perda de vagas e salários.

Na edição de abril do Boletim Macro, antecipado ao Valor, o Ibre estima que, sem as políticas governamentais, a massa de rendimentos ampliada cairia 10,3% no ano. Incluindo as transferências de auxílio emergencial para informais, os benefícios do Bolsa Família e compensação de parte da renda para trabalhadores formais que entrarem na Medida Provisória 936, a redução será de 5,2% - queda mais forte da série elaborada pela entidade, iniciada em 2003.

Nessa conta, além da renda do trabalho, são considerados benefícios previdenciários e de assistência social. Já a massa de renda real dos ocupados deve encolher 14,4% em 2020, com recuo de 6,6% da população ocupada e de 8,6% do rendimento médio efetivo. Assim, calcula o pesquisador Daniel Duque, a massa de renda do trabalho terminará o ano 3,2% abaixo do nível do começo da série do IBGE, em 2012.

Já a taxa de desemprego do país, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, deve alcançar 17,8% na média anual, vindo de 11,9% em 2019. Este também seria o pico da série retropolada do Ibre para a Pnad, que tem dados desde 1981.

Coordenadora técnica do Boletim Macro, Silvia Matos afirma que as medidas do governo são mais efetivas para sustentar a renda do que a ocupação. Isso porque, diferentemente da crise financeira de 2008 e 2009, o choque atual atingirá em cheio o setor de serviços, que concentra 70% da mão de obra e 60% dos trabalhadores informais.

“Esta crise é muito diferente e, potencialmente, pode gerar mais destruição de empregos”, disse Silvia, que participou ontem da “Live do Valor ” com o tema Conjuntura em tempos de pandemia. Na transmissão, Silvia falou dos impactos da covid-19 já detectados sobre a economia brasileira e sobre os que estão por vir.

Ruy Castro* - Política macabra

- Folha de S. Paulo

No Brasil real, os cemitérios se preparam para os terríveis próximos dias

"Sem leitos suficientes nos hospitais, os doentes eram amontoados no chão das enfermarias e nos corredores. Muitos morriam antes de ser atendidos. Os hospitais foram fechados às visitas e, nos enterros, só se permitia a presença dos mais próximos. Os velhos rituais —velório, cortejo e sepultamento— ficaram impraticáveis. Viam-se carros transportando caixões com tábuas mal pregadas, indicando que tinham sido feitos às pressas. Começou a faltar madeira para os caixões e gente para fabricá-los.

"As pessoas morriam e seus corpos ficavam nas portas das casas, esperando pelos caminhões que deviam transportá-los. Os motoristas os recolhiam na calçada e os atiravam nas caçambas, como se fossem sacos de areia. Às vezes descobria-se que alguém dado como morto ainda respirava. Era liquidado ali mesmo, a golpes de pá, mas houve casos de enterrados vivos.

Vinicius Torres Freire - 'Plano Marshall', cloroquina econômica

- Folha de S. Paulo

Projeto nem existe nem tem dinheiro, mas já é atacado por críticas liberalóides

Não existe “plano estatal” do governo para fazer a economia andar se e quando passar a epidemia. Não existe plano Jair Bolsonaro de “resgate do Estado”. Não existe um programa baseado na “retomada do investimento público”. Não existe um programa baseado na “retomada do investimento público”.

Algum plano de reativação econômica será necessário, no entanto. Quem, de antemão, faz campanha liberaloide para dinamitar a ideia já pode apresentar suas projeções de como e quando a economia vai se recuperar da depressão só com investimento privado. Vai ser o caso de um morto que tenta se levantar puxando os cabelos.

Ainda que se gastassem R$ 16 bilhões extras por ano, até 2022, o plano mal existiria como “resgate do Estado” ou mesmo com medida de estímulo relevante.

Essa estimativa de despesa pública extra, que deve ser apresentada na reunião ministerial desta sexta (24), é café pequeno perto das necessidades da economia arruinada.

O Ministério da Economia vai cair matando na proposta dos “pragmáticos”: Braga Netto (Casa Civil), Rogerio Marinho (Desenvolvimento Regional) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura).

Esse dinheiro seria pouco até para reanimar aquele país que, antes da epidemia, se arrastava ao ritmo de crescimento de 1% ao ano, desde 2017. R$ 16 bilhões equivalem a uns 5% do gasto extra do governo federal, até agora, para aliviar a ruína em curso.

No entanto, a mera e vaga sugestão de que será necessário um programa de reativação econômica causa as reações estereotipadas de costume.

“É o PAC”, “é Dilma 3”, eram as piadas tolas. É acabar com o “ajuste fiscal”. Que ajuste? Mesmo sem epidemia, teríamos déficit até o Dia de São Nunca de Tarde. “O investimento terá de ser privado." Que investimento? Aquele que não aparecia até fevereiro de 2020?

Reinaldo Azevedo – Os feios, sujos e malvados da elite

- Folha de S. Paulo

Senhores de Brasília são de fino trato 'no tocante' à grana, mas não à moral

Jair Bolsonaro resolveu lutar por seu mandato sob gerenciamento dos fardados do Planalto. Provocou desastres novos ao combater o isolamento social praticando isolamento político. Tentou uma cartada no domingo. Foi a última no gênero.

Deu uma de vivandeira e foi aos bivaques bulir com os granadeiros. Em frente ao QG do Exército, em Brasília, conclamou os militares da ativa a sustentar seu autogolpe. Levou como troco uma banana. Se tentarem impichá-lo segundo os rigores da lei, vai cair. Na palavra de um fardado graúdo, “o Brasil tem uma Constituição, e o artigo 79 assegura a posse do vice”. E agora?

Assistimos a uma espécie de “Feios, Sujos e Malvados” do “andar de cima”, pedindo licença a Elio Gaspari. Recomendo, diga-se, o filme de Ettore Scola para ocupar os dias de quarentena. Os senhores de Brasília em questão são de bem mais fino trato “no tocante” à grana, mas não à moral.

Fosse um filme, não há empatia possível; fosse uma luta, teríamos de torcer pelo impossível: um empate, com a derrota de todos —aí já é filme de Tarantino. Bolsonaro quer Sergio Moro fora do Ministério da Justiça? Desde o segundo mês de governo. Percebeu o apetite do doutor pelo poder. O tabaréu tem as suas próprias aspirações no terreno da extrema direita. Sempre foi uma questão de tempo.

Bruno Boghossian – A posse do verdadeiro Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Ameaça a Moro, isolamento de Guedes e acordo com centrão revelam sua essência política

Jair Bolsonaro nunca foi um defensor fervoroso do combate à corrupção. Jamais empunhou a bandeira do liberalismo econômico e tampouco conseguiu sustentar a retórica da nova política. Depois de fingir ser o que não é por mais de um ano, ele parece ansioso para inaugurar seu verdadeiro governo.

Nos últimos dias, o presidente se sentiu poderoso o suficiente para apunhalar Sergio Moro, esvaziar Paulo Guedes e rasgar seu discurso antissistema. Ao ameaçar substituir o chefe da Polícia Federal, escantear o ministro da Economia de um plano de investimentos públicos e negociar um arranjo com os partidos do centrão, Bolsonaro muda sua lógica de sobrevivência no poder.

Hélio Schwartsman - A tripla traição de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Em uma semana, três dos principais grupos de eleitores foram traídos

A concretizar-se a saída do ministro Sergio Moro do governo, Jair Bolsonaro terá, em menos de uma semana, traído três dos principais grupos de eleitores que garantiram sua ascensão à Presidência.

Os primeiros atingidos foram aqueles que inadvertidamente acreditaram no discurso antissistema do capitão reformado. Bastou a palavra "impeachment" circular mais livremente para o governo buscar o apoio de figuras como Roberto Jefferson, Waldemar da Costa Neto e Arthur Lira, uma espécie de tríade de ferro do establishment venal que a campanha bolsonarista jurara banir da política.

A turma que achou que Jair Bolsonaro seria capaz de conduzir uma agenda de reformas liberais, que resolveria o grave problema fiscal brasileiro, caiu do cavalo no meio da semana, quando o general Walter Braga Netto (Casa Civil) anunciou um plano de reativação da economia que vai na contramão de tudo o que o ministro Paulo Posto Ipiranga Guedes sempre defendeu. Guedes nem tentou esconder que não concorda com o programa.

Leonardo Barreto* - Neopresidencialismo de coalizão

- Capitalpolítico (23.04.2020)

Há duas maneiras de interpretar a aproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e os partidos do centro pragmático (vulgo centrão). A primeira é um movimento de prevenção de crise por parte do Planalto, para evitar que a precária situação socioeconômica possa se transformar em um processo de descontinuação antecipada do próprio governo.

No entanto, há uma segunda interpretação, mais interessante e sofisticada, que mostra essa construção como consequência de processos internos do parlamento brasileiro, que já sinalizavam para uma desarticulação desse grupo mesmo antes de Bolsonaro procurá-los. Em resumo, o Centrão deixou de ter adversários e objetivos comuns, fazendo com que cada partido busque se adaptar individualmente, ou dentro de alianças menores, à nova realidade.

A primeira divisão é promovida pelas perspectivas eleitorais. Há um conjunto de partidos formado pelo DEM, PSDB, PSD e Cidadania que pensam em 2022 em termos de candidatura própria e que tentam alguma coordenação já nas eleições locais deste ano, afastando-os do centro mais convencional, PP, PL, PTB e MDB (alguns estados).

A outra razão é a sucessão de Rodrigo Maia (DEM/RJ). O presidente da Câmara tem favorecido o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), aproximando-se, inclusive, dos partidos de esquerda para costurar sua eleição. Dentro do PP, no entanto, há outro candidato, o deputado Arthur Lira (PP/AL), que depende de divisões da liderança de Maia, portanto, para que ele próprio se viabilize.

Bolsonaro exonera diretor-geral da PF em meio a negociações para permanência de Moro

Exoneração de Valeixo é publicada no Diário Oficial da União; Moro pode deixar governo nesta sexta-feira

Leandro Colon | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro exonerou o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, em publicação no Diário Oficial da União desta sexta-feira (24).

O ministro da Justiça, Sergio Moro, foi alertado por aliados no fim da noite passada de que a saída de Valeixo, escolhido por ele para comandar a PF, poderia ser oficializada no Diário Oficial desta madrugada, enquanto ainda negocia com o Palácio do Planalto sua permanência como ministro.

Conforme a Folha revelou, Moro pediu demissão a Bolsonaro na manhã desta quinta (23) quando foi informado pelo presidente da decisão de trocar Valeixo.

O ministro avisou o presidente que não ficaria no governo com a saída do diretor-geral. Bolsonaro então escalou ministros militares para convencer o ex-juiz da Lava Jato a recuar.

A exoneração foi publicado como "a pedido" de Valdeixo no Diário Oficial, com as assinaturas eletrônicas de Bolsonaro e Moro. Segundo a Folha apurou, porém, o ministro não assinou a medida formalmente nem foi avisado oficialmente pelo Planalto de sua publicação.

O nome de Moro foi incluído no ato de exoneração pelo fato de o diretor da PF ser subordinado a ele. É uma formalidade do Planalto. Além disso, ao contrário do que informa a medida publicada, Valeixo não teria "pedido" sua exoneração ao Planalto. Não há substituto no comando da polícia, por ora, nomeado.

Bolsonaro exonera diretor-geral da PF, mas não indica substituto

De acordo com publicação, assinada também pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, a exoneração foi 'a pedido'; diretor da Abin é cotado para chefiar PF

Marina Aragão | O Estado de S.Paulo

A exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, determinada pelo presidente Jair Bolsonaro, foi oficialmente publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta sexta-feira, 24.

De acordo com a publicação, assinada também pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, a exoneração foi “a pedido”. Apesar de haver especulações sobre o atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, como substituto de Valeixo, o documento não aponta um novo nome. Tradicionalmente, a escolha é feita pelo ministro da Justiça.

A especulação sobre a demissão de Valeixo movimentou o Planalto nessa quinta-feira, 23. Em uma reunião pela manhã, o presidente avisou a Moro que a mudança no comando da PF já estava definida. O ministro da Justiça, por sua vez, ameaçou deixar o governo se a ordem para a troca viesse “de cima para baixo”. Segundo interlocutores do ministro ouvidos pelo Estado, ele entregará o cargo se não tiver carta-branca para a troca no comando da PF.

Nos bastidores do governo, a ameaça de Moro é foi encarada mais como uma pressão. Mesmo assim, a ala militar do governo entrou em ação para tentar contornar o novo desgaste entre o presidente e Moro. Os ministros-generais Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) conversaram com o ministro da Justiça e Segurança pública e atuaram como bombeiros na crise.

Bolsonaro demite diretor-geral da PF, e Moro avalia deixar governo

Exoneração de Maurício Valeixo foi publicada no Diário Oficial desta sexta-feira sem que ministro fosse avisado previamente

Aguirre Talento | O Globo

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro oficializou nesta sexta-feira a demissão do diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, nome de confiança do ministro Sergio Moro para o cargo. A possibilidade de sua demissão gerou uma crise na quinta entre Bolsonaro e Moro, que ameaçou deixar o cargo caso Valeixo fosse exonerado.

O ministro não foi avisado por Bolsonaro que a demissão de Valeixo seria efetivada e, segundo interlocutores, avalia pedir demissão diante do cenário.

O decreto da saída de Valeixo não foi formalmente assinado por Moro, apesar de seu nome constar no decreto. Isso indica que a discordância entre os dois se ampliou e agravou a crise política iniciada nesta quinta.

Fontes do ministério apontam que Moro pode efetivamente pedir demissão após a exoneração de seu aliado.

Nome de confiança do ministro, Valeixo comandou a Superintendência da PF no Paraná durante a Operação Lava-Jato e foi indicado por Moro para comandar a corporação assim que assumiu o ministério da Justiça.

Sua permanência, entretanto, acabou sendo alvo de atritos com Bolsonaro, que em meados do ano passado tentou impor a indicação de um nome para a Superintendência da PF do Rio. A corporação reagiu à interferência externa e, diante do impasse, Bolsonaro ameaçou demitir Valeixo na ocasião.

Após os desgastes, Valeixo negociava uma saída pacífica do cargo para meados de junho, mas a antecipação da demissão surpreendeu aliados. Agora, o presidente queria indicar um nome de sua confiança ao comando da PF, mas Moro se posicionou contrariamente e tenta controlar a sucessão na corporação para blindá-la de influência política.

Apesar da demissão, não consta no Diário Oficial a indicação de um substituto para Valeixo. Há ao menos três nomes atualmente cotados para o cargo.

Um dos nomes do agrado do presidente Bolsonaro é o delegado Anderson Torres, atual secretário de Segurança Pública do governo do DF, enfrenta total oposição de Sergio Moro. Desde o fim do ano passado, Torres tem se articulado politicamente para suceder Valeixo, o que atraiu a ira do atual ministro da Justiça.

Fontes da cúpula da PF avaliam que a indicação de Torres seria um aceno de Bolsonaro para políticos do centrão, que são alvos de investigações na Lava-Jato. Um dos padrinhos do delegado é o governador do DF Ibaneis Rocha, do MDB, que esteve com Bolsonaro Palácio do Planalto anteontem para uma reunião sobre coronavírus e levou Torres para o encontro. Seu nome sofre resistência dentro da PF, após o malsucedido movimento para derrubar Valeixo no fim do ano.

Um dos nomes que tem a confiança de Moro para o cargo é do atual diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) Fabiano Bordignon, que também é visto com bons olhos dentro da PF. Também paranaense, Bordignon era chefe da delegacia da PF em Foz do Iguaçu (PR) antes de ser levado por Moro para dirigir o Depen, no início de sua gestão como ministro da Justiça.

Outro nome cotado para comandar a PF é o atual diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, que tem a confiança do presidente e também tem bom trânsito com seus filhos e com a ala militar do governo. Ramagem foi chefe da equipe de segurança do então candidato à presidência Jair Bolsonaro em 2018. Com a convivência, caiu no gosto do recém-eleito presidente e foi chamado para dirigir a Abin. Fontes da PF apontam que Moro também mantém uma boa relação com Ramagem.

Marco Aurélio Nogueira* - Diga-me com quem andas

- O Estado de S. Paulo

Ministro da Justiça, Sérgio Moro está comendo o pão que o diabo amassou.

Ontem, conversando com o jornalista Alexandre Machado, observei que não é aceitável que o ministro da Justiça fique em silêncio num momento como o atual. São tantas ilegalidades, tanto desrespeito aos direitos humanos, à Constituição e à democracia, que o mínimo que o titular da pasta deveria fazer seria se posicionar. Qualquer outra coisa que não isso é constrangedora.

Sérgio Moro está comendo o pão que o diabo amassou. Pagará caro pela omissão e pela covardia que o converteram em objeto de decoração de um governo descerebrado. Não terá como apagar de seu currículo o serviço que está a prestar a um presidente que pouco caso faz à Justiça.

Hoje, o noticiário dá conta de que Moro está pensando em se demitir. O motivo seria a disposição do presidente de se livrar do diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo. É uma novela que se arrasta há tempo. A razão da irritação presidencial não é conhecida, mas não é difícil imaginar quais são suas preocupações e intenções.

Caso termine por se consumar, a demissão de Moro deixa o governo mais fraco na opinião pública, mas não em termos políticos e administrativos. O atual ministro já era carta fora do baralho governamental. Para azar dele, acabará saindo tarde demais, sem tempo hábil para recompor a imagem e calibrar a narrativa. Terá de fazer um esforço enorme para sustentar que apesar de ter andado na companhia da família Bolsonaro não manteve laços de identidade com ela.

*Marco Aurélio Nogueira, professor titular de Teoria Política da Unesp

Chamar militares para o governo é sinal de fraqueza política de Bolsonaro, diz FHC

Ex-presidente afirmou que o aumento da participação de militares no governo não é tentativa de articular um golpe, mas o que restou para o presidente

Cícero Cotrim e Gustavo Porto | O Estado de S.Paulo

O aumento da participação de militares nos altos cargos do governo federal indica mais uma fraqueza política do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) do que uma tentativa de articular um golpe no País, avaliou o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB) durante live organizada pela Abitrigo nesta quinta-feira, 23.

FHC comparou a situação de Bolsonaro com a do ex-presidente chileno Salvador Allende. “Quando ele chamou os militares para o governo, não foi para dar um golpe. Foi porque era o que restava”, disse.

Para Fernando Henrique, a condução que Bolsonaro faz da crise preocupa, já que, na avaliação do tucano, o presidente não consegue mostrar tranquilidade e sinalizar um rumo para sair da crise.

“O presidente fala mais do que pensa, sempre. E eu não aprecio algo que está acontecendo no Brasil, rixas crescentes entre as instituições, a disputa entre o presidente da Câmara e o presidente da República”, afirmou FHC.

O ex-presidente também criticou o posicionamento de forças políticas que pedem o impeachment de Bolsonaro. Fernando Henrique afirmou que não está claro que o presidente tenha infringido a Constituição Federal.

“Disseram que eu estava conspirando com o Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados), mas eu não vejo o Maia há anos. Não está claro que tenha havido infringência constitucional. Eu não votei no Bolsonaro, mas a população votou no Bolsonaro, ele está aí”, disse FHC.

O tucano disse, ainda, que será necessária coesão entre as lideranças políticas do País para enfrentar a crise do coronavírus e para transformar as instituições. “Precisaremos de estadistas, de coesão, não de disruptura. Nós precisamos ter paciência histórica, entender que as coisas levam tempo”, declarou.

Bolsonaro candidato
Para FHC, não se deve menosprezar o potencial de uma candidatura à reeleição de Bolsonaro em 2022. “Ele tem forças, tem apoio, não dá para menosprezar. E ele vai ser candidato”, disse. O ex-presidente avalia, no entanto, que a crise pode ajudar a colocar um fim no que classificou como “polarização entre Bolsonaro e o PT”.

FHC disse que o PT deve ter dificuldade em apresentar um candidato competitivo, em especial porque o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teria mais condições de disputar. “Até por uma questão geracional, de abrir espaço para quem é mais novo. Mas o PT vai ter candidato, ele tem governadores no Nordeste e alguns deles não são mau”, disse. No que classificou como “centro”, FHC elogiou a atuação dos governadores tucanos de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que, de acordo com ele, estão se movendo e mostram que sabem usar a comunicação.

Fora do espectro do PSDB, ele disse que Luciano Huck é prejudicado pela crise do coronavírus, porque fica sem alavanca de poder. O tucano mencionou também o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (MDB), que apoia o apresentador. Para FHC, qualquer um desses nomes conseguiria, possivelmente, implementar uma agenda que situe o centro político. “O centro tem que ter lado, a favor do crescimento, emprego e igualdade. É preciso ter um centro com compromisso de reduzir a desigualdade e fazer crescer a economia.”

Roberto Jefferson
Fernando Henrique Cardoso reagiu na terça-feira, 21, às críticas feitas pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, em entrevista publicada pelo Estado. Jefferson afirmou que o ex-presidente é o “maestro” de uma suposta trama do Legislativo para derrubar o presidente da República, Jair Bolsonaro, que teria a participação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O ex-presidente respondeu em uma postagem no Twitter. “Um ex-deputado fala em complô meu com Maia e (o governador de São Paulo, João) Doria para derrubar Bolsonaro. Nada mais errado: não quero tal. Melhor ter paciência histórica. Respeito o voto popular. Discordar é normal, sem derrubadas. Coesão contra o vírus, é preciso. Não intrigas”, escreveu FHC, sem citar nominalmente Roberto Jefferson.

O que a mídia pensa - Editoriais

• Bolsonaro cria instabilidades e eleva custo da crise – Editorial | O Globo

Choque com Moro e abalo de Guedes mostram presidente enredado na própria inépcia para conduzir a nação na pandemia

Jair Bolsonaro está aumentando o custo da crise para a sociedade em meio a uma pandemia histórica. O presidente escolheu se transformar num vetor de instabilidade e converteu o governo numa usina de crises. O resultado é óbvio: quanto maior o nível de conflito, mais alto tende a ser o preço a ser pago por 211,4 milhões de brasileiros para emergir do caos econômico e social provocado pelo vírus.

Nas últimas semanas ele se empenhou em tumultuar as perspectivas de uma governança ainda que precariamente estável ao abrir confrontos com governadores estaduais, demitir um ministro, Luiz Henrique Mandetta (Saúde), e agir claramente para desidratar outros dois, Sergio Moro (Justiça e Segurança) e Paulo Guedes (Economia).

O choque com Moro e o abalo de Guedes se enquadram na moldura de um presidente aparentemente enredado na própria inépcia para conduzir uma nação sob grave crise, que avança para completar uma década em recessão, neste ano em nível sem precedentes, e nos últimos dez dias registrou aumento de 150% no número de mortes na pandemia.

Música | Zélia Duncan, Nilze Carvalho, Hamilton de Holanda - Naquela Mesa