segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Fernando Gabeira - Um pacto pela Amazônia

O Globo

Aproximação com as Forças Armadas para proteger a região deveria ser tentada com toda a boa vontade do mundo

Algo que andou mais rápido nesta transição de governo é a política ambiental. Com a ida de Lula ao Egito para a COP27, o Brasil deverá retomar seu protagonismo, comprometendo-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, naturalmente, proteger a Amazônia.

Isso significa, potencialmente, abrir novas frentes para a diplomacia brasileira. Uma delas é a articulação dos países amazônicos; outra é uma aliança dos detentores de grandes florestas: Brasil, Indonésia e Congo.

Consequências positivas podem surgir dessa guinada brasileira: investimentos estrangeiros em projetos sustentáveis mais recursos para infraestrutura, inibidos pela política de destruição de Bolsonaro.

Construção de base parlamentar, visita de Lula aos outros Poderes — tudo isso tem nos trazido uma sensação de normalidade.

No entanto, cada vez que falo em normalidade no Brasil, sempre fico com um pé atrás. A realidade alternativa está correndo solta. Lady Gaga representando o Tribunal de Haia pode chegar a qualquer momento e anular a eleição. A cantora do Abba Agnetha Fältskog tornou-se juíza na Suécia e também contesta o processo eleitoral. Por essas e outras razões, o general Benjamin Arrola prepara-se para dar o golpe de Estado que muitos esperam.

Catarina Rochamonte* - Transição para a civilidade

O Globo

Êxito do governo Lula poderá levar o Brasil para uma política sóbria, seu fracasso empurrará o país ainda mais para o abismo

Após as eleições, o Brasil foi sacudido por um frenesi alucinatório, uma espécie de histeria coletiva não muito rara na História. Milhares de pessoas foram às ruas por motivações em parte compreensíveis, em parte delirantes. Pais de família sentados no meio-fio à espera de um golpe de Estado, “patriota” agarrado no para-brisa de um caminhão em alta velocidade, mães e avós em gritos e orações febris rogando proteção contra um comunismo supostamente prestes a ser instalado no Brasil. Essa foi a parte caricata e menos nociva da tragicomédia brasileira.

A contestação do resultado das eleições, porém, foi sustentada e animada com informações falsas ou duvidosas recebidas acriticamente pela massa em protesto, e as manifestações espalharam-se rapidamente por todo o país. A inconformidade eleitoral foi elevando o tom insurrecional, transbordando em ameaças. A relutância de Bolsonaro em aceitar o resultado adverso foi e continua sendo um fator estimulante do caos. Apesar disso, a transição político-administrativa para a posse do presidente eleito em 30 de outubro segue, e haverá de estar concluída em 1º de janeiro de 2023. Um tanto mais demorada deverá ser a transição para a civilidade.

Demétrio Magnoli - Linaga, o novo partido lulista

O Globo

Lira dá ao presidente eleito a PEC da Transição e recebe, em troca, a manutenção do 'orçamento secreto'

Liga Nacional pelo Gasto (Linaga) — eis um nome apropriado para o novo partido articulado entre Lula e Arthur Lira. É um partido único, que reúne todos os partidos, da esquerda à direita, reconciliados em torno do populismo fiscal. Sua ata de fundação prevê um intercâmbio: o presidente da Câmara dá ao presidente eleito a PEC da Transição e recebe, em troca, a manutenção do “orçamento secreto”, com o apoio velado à sua reeleição.

A PEC da Transição é, de fato, uma PEC Kamikaze 2. Sua versão original, aprovada em julho com os votos indispensáveis da maioria da oposição, inclusive do PT, conferia a Bolsonaro o direito de perfurar o teto de gastos. A adesão da coalizão lulista à emenda (in)constitucional destinava-se a estabelecer um precedente: se o presidente pode perfurar o teto para nutrir suas chances de reeleição, por que o presidente eleito não poderia arrombá-lo para cumprir suas promessas de campanha?

Celso Rocha de Barros - Lula e os mercados

Folha de S. Paulo

Muito picareta aproveitou o pânico da semana passada com as piores intenções possíveis, inclusive políticas

Não faz o menor sentido projetar o que será o novo governo Lula a partir da turbulência nos mercados na última quinta-feira (10).

Os números da inflação vieram ruins, isso é um problema para o próximo governo, mas essa culpa é de Bolsonaro.

Já a preocupação com a PEC dos gastos é legítima, mas o projeto ainda está sendo negociado, e Lula tem outros planos para a economia além de gastar dinheiro.

A negociação sobre o aumento de gastos no próximo ano é difícil. Como disse o ex-ministro Nelson Barbosa, a proposta tem que passar no mercado e na política.

Todo mundo sabe que é impossível governar o Brasil com o Orçamento que Paulo Guedes mandou para o Congresso.

Marcus André Melo* - O consentimento dos perdedores

Folha de S. Paulo

Como as eleições impactam a avaliação da democracia e das instituições no eleitorado?

"Nunca una victoria fue tan amarga, ni una derrota tan dulce" afirmou Felipe González após ser apeado do poder em 1996, após 14 anos no cargo. As pesquisas previam uma derrota esmagadora, mas a margem de vitória de seu adversário foi de pouco mais de 1%. A expectativa de que Lula derrotaria Bolsonaro por larga margem era também dada como certa; o placar final foi similar.

Aqui o amargor aumenta pela vitória da oposição no Congresso, o que levou o ex-presidente a afirmar que não será um "governo do PT". O que é prudente, mas não totalmente crível.

Como já observei aqui, dado à desproporcionalidade na distribuição de ministérios em seus governos anteriores, isto exigirá uma inversão radical. As nomeações para o governo de transição privilegiando integrantes do partido sinalizam na direção contrária; suas declarações sobre política econômica, idem.

Ana Cristina Rosa - O grande vencedor das eleições 2022

Folha de S. Paulo

Sob uma saraivada ininterrupta de mentiras, mais uma vez o sistema eletrônico deu show de eficácia

Quem tem 50 anos ou mais deve lembrar da espera cansativa e angustiante para saber o resultado das eleições no Brasil até a implantação do sistema eletrônico de votação. Pode-se dizer que antes de 1996 a fraude era uma marca registrada do nosso processo eleitoral, no qual faltava lisura em diversas etapas.

Quando o voto era em cédulas de papel, não raro ocorriam falcatruas na preparação das urnas, no transporte dos dispositivos, durante a votação e, por fim, no escrutínio manual dos resultados, segundo dados do TSE.

Lygia Maria - Vergonha tropical

Folha de S. Paulo

Bolsonaro ignora a partida de Gal e mostra que desconhece o Brasil

Gal, nosso canário, morreu e Bolsonaro não deu um pio. Assim como também não se pronunciou sobre Aldir Blanc e João Gilberto. Apoiadores do presidente dizem que esses artistas eram de esquerda e apreciados apenas pela elite intelectual. Logo, não há problema em ignorar as mortes.

Porém, mesmo se Gal, Aldir e João fossem ouvidos apenas por um grupo ideológico ou social, suas obras fazem parte do patrimônio cultural brasileiro, e o mandatário no Palácio da Alvorada tem o dever de valorizá-lo. Afinal, governa para o país, não somente para quem o elegeu.

Além disso, nem só de economia e poder vive um presidente da República. Trata-se de cargo também simbólico, com protocolos e liturgias que, ao longo do teste do tempo, se mostraram necessários (prática bem conservadora, a propósito).

Carlos Pereira - Será que Lula amadureceu?

O Estado de S. Paulo

Para governar de forma bem-sucedida, Lula precisará evitar os erros de gerência de coalizão do passado

A nova distribuição partidária de cadeiras legislativas indica que o novo governo Lula necessitará construir uma coalizão se desejar governar de forma bem-sucedida.

O índice de necessidade de coalizão (INC), que multiplica o número efetivo de partidos pela porcentagem de assentos não ocupados pelo partido do presidente, mede a vulnerabilidade partidária do presidente e determina as condições de barganha do governo gerado pelo resultado eleitoral. Para se ter uma ideia, nos governos Lula1 e Lula2, o INC foi de 71,3 e 79,8, respectivamente. Aumentou para 86,13 no Lula3, o que sugere que as condições de negociação serão ainda mais difíceis.

Mesmo quando computadas todas as cadeiras que serão ocupadas pelos partidos de esquerda (PT/PV/PCdoB, PSOL/Rede, PSB e PDT), o governo teria o apoio de no máximo 125 deputados e 14 senadores, número claramente insuficiente para governar.

Bruno Carazza* - O difícil quebra-cabeça do ministério de Lula

Valor Econômico

Sobram nomes e falta espaço para coalizão do petista

As bolsas de apostas quanto aos nomes de ministeriáveis estão frenéticas desde que o Tribunal Superior Eleitoral declarou Lula vencedor do pleito presidencial.

Montar um ministério não é tarefa fácil para ninguém, dada a necessidade de contemplar, com posições de destaque, parceiros e correligionários de longa data, técnicos respeitados e representantes de partidos que comporão sua base de governo.

No caso do terceiro mandato de Lula, a tarefa é ainda mais difícil, por circunstâncias próprias do momento vivido pela esquerda e, em especial, pelo Partido dos Trabalhadores.

Depois de tudo o que passaram desde a Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e prisão de Lula, o retorno ao poder representa o momento de premiar quem se manteve fiel durante a travessia do deserto.

Muitos são os petistas que se sentem credores do apoio concedido a Lula ao longo dos últimos anos e se julgam merecedores de um lugar no primeiro escalão do governo.

Pelo papel que exerceram na campanha, Gleisi Hoffman, Aloizio Mercadante, Edinho Silva e Alexandre Padilha têm cotações elevadas no mercado para se tornarem ministros.

Lula precisará ainda equilibrar uma base mais sólida no Senado com bons articuladores no Executivo. Nesse sentido, os senadores Jaques Wagner, Wellington Dias, Humberto Costa e Camilo Santana esperam a definição sobre em qual lado da Praça dos Três Poderes eles se instalarão.

Sergio Lamucci - Os custos da incerteza fiscal

Valor Econômico

Reduzir dúvidas sobre as contas públicas é do interesse de Lula

O aumento das incertezas sobre as contas públicas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva provocou a disparada do dólar, o salto dos juros futuros e o tombo da bolsa na quinta-feira passada. O movimento dos preços, que incomodou Lula e petistas graúdos, reflete as indefinições que turvam o cenário para a trajetória da dívida pública.

Culpar o mercado pela reação não vai funcionar e muito menos ajudar Lula, que terá um começo de governo complicado. A atividade deverá entrar em 2023 perdendo fôlego, pela combinação do efeito do forte ciclo de alta dos juros aqui e pela desaceleração da economia global. Tudo o que o presidente eleito não precisa no início de mandato é de um câmbio volátil e com tendência de desvalorização, o que pode realimentar a inflação e retardar o processo de queda da Selic, hoje em 13,75% ao ano. Para quem venceu a eleição por uma margem apertada, é receita para a perda prematura de popularidade.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Programa social deve ter emprego como meta

O Globo

Para combater a pobreza extrema, não basta manter auxílio de R$ 600 e voltar a chamar de Bolsa Família

Para combater a pobreza extrema, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva deverá fazer muito mais que negociar com o Congresso a manutenção em 2023 do auxílio de R$ 600 para os mais necessitados. O foco principal deveria ser incentivar a reinserção dos pobres no mercado de trabalho. Esse objetivo só será atingido se o novo governo entender que a realidade hoje é distinta da que o PT viveu no passado.

Entre 2004 e 2014, houve redução significativa na pobreza e na desigualdade. A maré do crescimento econômico elevou todos os barcos, mas sobretudo a nau dos miseráveis. Nesse período, a expansão anual da renda per capita dos 10% mais pobres foi de quase 8%, muito acima dos 3,5% registrados no topo da pirâmide. Uma pesquisa recente liderada pelo economista Ricardo Paes de Barros, do Insper, mostrou que tal avanço foi resultado de transferência de renda, por meio de programas como o Bolsa Família, e também da remuneração do trabalho.

De 2014 a 2021, aconteceu o contrário. Os miseráveis foram os que mais perderam, e a chave para entender a queda está no mercado de trabalho. Entre os 10% mais pobres, só 18% dos em idade produtiva estavam ocupados em 2021. Há 4,2 milhões entre os mais pobres dispostos a trabalhar, mas menos de 1 milhão empregado. Mais: entre os ocupados, 38% afirmam querer trabalhar mais horas.

Poesia | José Saramago - Aprendemos, amor

 

Música | Teresa Cristina e Grupo Semente - A música de Paulinho da Viola