quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasil é de novo reprovado em teste global de ensino

O Globo

Resultado frustrante do Pisa traduz dificuldade crônica de o país educar as crianças, maior desafio para o futuro

Mais uma vez foram frustrantes os resultados dos alunos brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Chama a atenção quantos jovens não conseguem fazer o básico. Em matemática, a maioria (73%) não alcançou o patamar mínimo de aprendizagem esperado para a idade. Não sabem resolver questões simples, como comparar a distância entre duas rotas alternativas ou converter preços em moedas diferentes. Em ciências, mais da metade (55%) ficou abaixo do mínimo. Em leitura, 50%. Os números brasileiros permanecem distantes da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): 31% em matemática, 26% em leitura e 24% em ciências.

É verdade que, apesar do fechamento prolongado das escolas durante a pandemia, o desempenho dos alunos brasileiros caiu menos que a média dos demais países em relação à edição de 2018. Mas os resultados continuam medíocres. Revelam a dificuldade extrema que o país tem de enfrentar seu maior desafio para o futuro.

Vera Magalhães - Na educação, alívio pelo 'menos pior'

O Globo

Governo Lula resgatou o MEC, mas ainda não apresentou projeto educacional capaz de alavancar o país

A situação da educação brasileira é tão grave que todo mundo respirou aliviado quando o resultado do Pisa de 2022 nos colocou numa situação “estável”, ainda que na rabeira do ranking em matemática, ciências e leitura. É desolador ver um país em que as expectativas foram tão rebaixadas, e as saídas vislumbradas diante de duas décadas perdidas são tão pobres e vagas.

Sim, o caos do Ministério da Educação sob Jair Bolsonaro, conjugado com uma pandemia, poderia ter causado resultados ainda mais desoladores. Sim, países mais desenvolvidos que vinham melhor no próprio Pisa parecem ter sofrido mais com a interrupção das aulas na emergência sanitária.

Mas o problema grave é que nós temos muito menos perspectiva de galgar posições nesse ranking e de sair da situação em que os estudantes brasileiros não conseguem responder a questões básicas nas três áreas de aprendizagem do que essas nações que levaram um tombo pandêmico. Aí vemos que o copo nunca chegou a estar meio cheio.

O MEC no primeiro ano de Lula 3 andou aquém da velocidade que tanto nosso atraso de décadas quanto o caos bolsonarista exigiam. Isso se torna ainda mais notável quando se sabe que o ministro Camilo Santana e sua número dois, Izolda Cela, chegaram a Brasília munidos da experiência bem-sucedida de Sobral e do Ceará.

Bernardo Mello Franco - Caça ao comunista

O Globo

Michelle Bolsonaro bateu o martelo: Flávio Dino é “extremamente comunista” e não pode assumir uma cadeira no Supremo.

No sábado, a ex-primeira-dama acusou o ministro da Justiça de atentar contra “a família e os bons costumes”. “Se ele é comunista, ele é contra os valores e princípios cristãos. Não existe comunista cristão. É de contramão (sic) com a palavra de Deus”, sentenciou.

Em encontro do PL, Michelle investiu nas metáforas bíblicas para demonizar o desafeto do marido. Chamou Dino de “lobo em pele de cordeiro” e de “pai da mentira”, expressão usada no Novo Testamento como sinônimo de Satanás.

A ex-primeira-dama acrescentou que as igrejas deveriam “se posicionar”. Rápido no gatilho, o pastor Silas Malafaia conclamou os evangélicos a fazerem jejum antes da sabatina no Senado.

Dino era filiado ao PCdoB quando governou o Maranhão por oito anos. Não consta que tenha comido criancinhas, expropriado os meios de produção ou incorporado a foice e o martelo à bandeira do estado.

Roberto DaMatta* - Canibalismos

O Globo

Todo candidato eleito num sistema democrático sabe que será canibalizado por diversas ondas de poderosos agentes sociopolíticos

Em tempos diluvianos, éramos animais. O primeiro canibalismo veio com a “alma” ou com a consciência, facultada pela linguagem articulada, que separou o vivido do explicado. Ela engendrou o cisma entre bicho e humanidade nas suas variadas encarnações no “bicho-homem” engendrado entre nós.

Um segundo canibalismo veio alimentado pelo controle do fogo, que, como mostrou Lévi-Strauss, criou a oposição complementar entre o cru (natureza) e o cozido (pacto social ou cultura). Dualidade que consolidou a diferença entre a animalidade governada por instintos inseparáveis de seus portadores do bicho-homem administrado por regras, mandamentos, códigos e crenças. Pelo que os antropólogos chamam de “cultura”, que, como as múltiplas línguas, é imposta, varia de grupo a grupo e chega de fora para dentro.

Tal é o desconjuntado conjunto do “bicho-homem” — expressão que, no Brasil, muito sabiamente, caracteriza a condição humana, pois não são poucas as situações em que o bicho canibaliza o homem, como testemunha a História.

Elio Gaspari - Macron respondeu a Bolsonaro?

O Globo

Ele quis detonar o acordo com o Mercosul, da pior maneira

Dias antes da reunião de cúpula do Mercosul, o presidente francês, Emmanuel Macron, tentou detonar o acordo do bloco com a União Europeia. Seu tiro foi certeiro:

— Não posso pedir aos nossos agricultores, aos nossos industriais na França, e em toda a Europa, que façam esforços para descarbonizar, para sair de certos produtos, depois dizer que estou removendo todas as tarifas para trazer produtos que não aplicam essas regras.

Declaração redonda, porém impertinente. A França se opõe a esse acordo há muitos anos. Macron podia ter esperado alguns dias para o golpe verbal. Logo Macron, que foi maltratado por Jair Bolsonaro e cuja mulher foi ofendida por um de seus ministros. Logo Macron, que, ao lado de Joe Biden, construiu a rede de apoio ao respeito à eleição de Lula.

A impertinência foi de tal tamanho que algum analista apressado poderia atribuí-la a um rancor guardado para Bolsonaro. (Como o general De Gaulle nunca disse que “o Brasil não é um país sério”, coisas desse tipo acontecem nas relações com a França. A frase foi atribuída ao embaixador do Brasil em Paris.)

Num primeiro momento, Lula evitou citar Macron e disse que a França é um país protecionista. Alguém precisa avisá-lo de que chamar um governante francês de protecionista é um elogio. Algo como acusar Arthur Lira de defender seus aliados de Alagoas.

Martin Wolf* - Reino Unido precisa sair da estagnação

Valor Econômico

Sem acabar com a estagnação será impossível resolver seus outros problemas sociais e políticos

O Reino Unido começou o século XX como Roma e o século XXI como a Itália. A última comparação não deve ser levada muito longe: qualquer idiota pode ver que há muitas diferenças entre o Reino Unido e a Itália. Mas uma similaridade não pode ser ignorada: a produtividade, que é o principal determinante dos padrões de vida, está estagnada nos dois países.

Isso acontece na Itália desde o fim do século XX. Acontece no Reino Unido desde a crise financeira. O principal desafio econômico para o Reino Unido é acabar com essa estagnação. Sem isso, será impossível resolver seus outros problemas sociais e políticos.

Um novo e importante livro, “Ending Stagnation”, da Resolution Foundation, aborda de frente esse fracasso. Mas sua atenção não está voltada apenas em acabar com a produtividade estagnada, por mais vital que isso seja, mas também em outras fraquezas. Na verdade, o formulário de acusação revela-se deprimentemente longo. Entre as conclusões mais surpreendentes dessa longa lista de fracassos está o quanto o Brexit foi um desvio dispendioso dos desafios que o país deve enfrentar se quiser continuar a ser uma democracia próspera e de alta renda.

Fernando Exman - Ampliação da autonomia do BC em discussão

Valor Econômico

Aprovação de PEC não deve ser fácil, mas caminho começa a ser traçado no Senado

Levou pouco mais de uma hora para o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), Vanderlan Cardoso (PSD-GO), coletar 42 assinaturas. Muito mais do que as 27 necessárias para protocolar uma proposta de emenda constitucional.

Ele poderia aguardar um pouco mais. Mostrar ao governo que, com mais de 50 pares ao seu lado, já teria apoio suficiente para superar os 49 votos exigidos para a aprovação de uma PEC. Mas preferiu tornar o texto público logo e, com isso, dar andamento às articulações para ampliar a autonomia do Banco Central (BC) para as esferas administrativa e financeira. Isto é, para além do âmbito operacional.

Não foi um movimento isolado. Dias antes, o senador havia almoçado com o presidente do Banco Central.

Lu Aiko Otta - Patinho feio II, mais perigo em 2024

Valor Econômico

Crescimento econômico menor, possível revisão da meta fiscal e eleição municipal serão alguns dos desafios para Haddad

“Vocês sabem o quanto isolada a equipe econômica fica na Esplanada. Ela sempre é o patinho feio da Esplanada. Nós aceitamos esse encargo. Mas para fazer o bem para a população, para fazer o bem para o país”, discursou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao assumir o cargo.

Era dia 2 de janeiro de 2023 e, naquele exato momento, ele vivia uma situação que, em outras circunstâncias, seria motivo para ir embora. Seu plano de retomar de imediato a cobrança de tributos federais sobre combustíveis havia sido barrado na véspera pela ala política do governo. O ministro da Fazenda e seu plano de ajuste fiscal sofriam um revés logo na largada.

Luiz Carlos Azedo - Desafio de Haddad é fechar ano com reforma tributária

Correio Braziliense

O relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2024 (PLN 4/23), deputado Danilo Forte (União-CE), aguarda a aprovação da reforma tributária para apresentar seu parecer definitivo

O governo respirou aliviado, nesta terça-feira, com a divulgação do PIB do terceiro trimestre, que veio baixo, mas acima das expectativas do mercado. Apesar da desaceleração, o crescimento de apenas 0,1% do Produto Interno Bruto (soma dos bens e serviços produzidos) foi comemorado pelos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento, Simone Tebet. Haddad havia dito na Alemanha que o PIB deste ano deve fechar em torno de 3%, mas havia projeções pessimistas por parte dos agentes econômicos.

A notícia é boa porque também legitima as pressões para o Banco Central (BC) manter a tendência decrescente da taxa de juros. “Esperamos que neste ano nós fechemos o PIB em mais de 3% de crescimento e esperamos um crescimento na faixa de 2,5% no ano que vem. Mas o Banco Central precisa fazer o trabalho dele”, afirmou Haddad.

Marcelo Godoy - Um fantasma ronda o PT

O Estado de S. Paulo

Petistas temem que a nomeação de Gonet para a PGR abra o caminho para uma nova Lava Jato

Lula está sorridente na fotografia. Exibe os polegares em sinal de positivo entre o subprocuradorgeral Paulo Gonet e o ministro da Justiça, Flávio Dino, seus indicados à Procuradoria Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal, respectivamente. A imagem, que simbolizaria o espírito conciliador de um presidente que se equilibra entre os seus interesses e os do STF e do Senado, despertou, para os companheiros de Lula, um receio: o fantasma da Lava Jato.

Ele ronda o PT desde o começo do terceiro mandato lulista e virou tema de conversas na legenda a partir das recentes escolhas institucionais do presidente. A ameaça não é nova ou estranha. Petistas temem que uma nova aliança entre os potentes do Planalto recrie as condições de isolamento do partido.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - Justiça submissa ou independente?

O Estado de S. Paulo

Uma Justiça que respeita direitos será sempre incômoda. Frequentemente, irá contrariara opinião pública – e a nossa opinião

O Judiciário deve aplicar as penas segundo a opinião pública ou tem de se ater ao que está nos autos e seguir a lei, seja qual for o juízo popular sobre determinado caso? Se estivermos sendo julgados, não há dúvida de que preferimos a Justiça que aplica a lei, não a que obedece a opinião pública. No entanto, eis a ambiguidade da vida, sempre houve e continua havendo gente incomodada – ou, melhor, decepcionada – com o fato de a Justiça, muitas vezes, não atender às suas expectativas de condenação ou de absolvição.

Caso paradigmático de quebra de expectativa foi a Operação Lava Jato. São muitos os que, sem nunca terem tido acesso a nenhum processo da famosa operação, estão convencidos de que as ações foram julgadas de forma equivocada, num fracasso do Estado perante o crime. Não discuto aqui o mérito dos processos. Noto tão somente a enorme pressão popular sobre o Judiciário. Ela é benéfica ou prejudicial para a qualidade das decisões judiciais?

Wilson Gomes* - Extremos, estranhos e na moda

Folha de S. Paulo

Últimos sete anos têm deixado os democratas com o coração na mão

Quando a extrema direita começou a ganhar eleições importantes, em 2016, todos ficamos impressionados. Afinal, havia muito tempo que não se via coisa assim em países de democracias consolidadas.

Muitos dos que estudamos política e democracia tínhamos aquela convicção de que a Europa e a América tivessem aprendido a sua amarga lição, no século 20, sobre o que acontece quando extremistas tomam o poder, pelo voto ou pela força.

Com esse aprendizado, o que esperar do século 21 a não ser mais e melhores democracias? E, de fato, nunca tivemos tantos países democráticos no mundo quanto no início do século. Além disso, consolidada a democracia política, por que não focar em "democracia social", ou seja, em mais igualdade e justiça sociais? E por que não encontrar soluções democráticas para os grandes problemas mundiais, como crise climática, migrações, desigualdades regionais, minorias?

Bruno Boghossian – A guerra de Maduro

Folha de S. Paulo

Regime testa capacidade de mobilização e ressuscita demônios estrangeiros em busca de fôlego interno

Nicolás Maduro tirou 10,5 milhões de venezuelanos de casa para votar no plebiscito sobre a anexação de Essequibo. A cifra corresponde apenas à metade do total de eleitores registrados no país, mas é mais do que o número de votos depositados na esvaziada disputa presidencial de 2018. Quase todos os eleitores concordaram com as teses do ditador.

Sem disparar um tiro, Maduro lançou uma operação doméstica de guerra. Testou a capacidade de mobilização de um regime cujo fôlego é incerto, declarou-se porta-voz de um movimento sem oposição interna, explorou o nacionalismo para remendar um governo divisivo e ressuscitou demônios do imperialismo.

Mariliz Pereira Jorge - Quero a carteirinha de carioca

Folha de S. Paulo

Me peguei relevando a gravidade da violência no Rio de Janeiro

Há cerca de um mês, uma jovem de 19 anos foi estuprada quando voltava para casa. O crime aconteceu na rua onde vivo, em Copacabana. Em frente ao quartel do Corpo de Bombeiros, um morador de rua a puxou para um canteiro de obras e cometeu o crime. Passo naquele lugar com regularidade. Passava.

Esta semana, ao virar a esquina e me dar conta de onde estava, corri para casa a tempo de vomitar.

Entra ano, sai ano, começa verão, termina verão, é sempre igual. Cenas, como a que correu o noticiário, de um homem espancado por uma gangue que havia cercado uma mulher. Era fim de tarde, uma das ruas mais movimentadas do bairro, gente passando a rodo. Diante da falta de segurança que impera, restou à única alma com coragem de colocar o próprio pescoço em risco interceder pela vítima antes de virar uma.

Vinicius Torres Freire - Lula e a política do PIBinho

Folha de S. Paulo

Economia cresceu graças a agropecuária, petróleo e a melhora mal compreendida no trabalho

economia brasileira esfriou do segundo para o terceiro trimestre, desta vez praticamente sem surpresas. Caso não cresça nada neste último trimestre, o PIB de 2023 terá aumentado 3%, mesmo ritmo de 2022. O país não cresce 3% ou mais por dois anos seguidos desde 2011 (excluído o 2021 de mera recuperação do choque da pandemia). No entanto, a renda (PIB) per capita ainda é menor do que a de 2013 e assim deve continuar até 2025. Passamos por um desastre histórico.

Mais importante é saber de onde podem vir os impulsos para o crescimento de 2024. Por ora, parecem fracos ou difíceis de enxergar, na névoa de incerteza.

Para resumir, o PIB de 2023 andou graças a melhoras em parte ainda mal compreendidas no mundo do trabalho e a exportações de commodities, mais um tanto de aumento de gasto do governo, aumento agora insustentável. O investimento em expansão da produção vai mal e piorando.

O Brasil vai crescer neste 2023 porque continuou a aumentar o número de pessoas trabalhando, com algum aumento do salário médio, ainda a maior surpresa do ano. A queda relevante da inflação engordou os rendimentos reais do trabalho. O aumento da despesa em benefícios sociais (Bolsa Família, INSS) deu outro empurrão. O crédito bancário para pessoas físicas deu outro piparote. Assim, o consumo das famílias cresceu –na verdade, até acelerou, no terceiro trimestre (ante o segundo).

Poesia | Navegar é preciso, viver não é preciso... - Fernando Pessoa

 

Música | Chico Buarque - Tipo um Baião