quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Elio Gaspari: A moratória de Bolsonaro

O Globo

A coisa mais perigosa do mundo é arriscar previsões sobre o comportamento de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, é indiscutível que, depois da missão Michel Temer, em setembro do ano passado, ele baixou o verbo com os ministros do Supremo Tribunal Federal. Parece que a nota do almirante da reserva Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa, levou-o a baixar a bola também no ridículo conflito em torno da vacina das crianças. Se disso resultar uma moratória de Bolsonaro diante da pandemia, o ano de 2022 terá começado melhor.

Desde que o coronavírus entrou na agenda mundial, o capitão errou todas. A “gripezinha” matou mais de 620 mil pessoas, e a cloroquina serviu para nada. A boa notícia veio do funcionamento do programa de imunização, área em que o Brasil tinha um desempenho histórico louvável. A ele, somou-se o comportamento da população, vacinando-se. Nem o declínio na qualidade da gestão do Ministério da Saúde foi suficiente para anestesiar os brasileiros.

Se Bolsonaro parar de exercer ilegalmente a medicina, deixando a pandemia para os médicos, todo mundo ganha.

Bernardo Mello Franco: O enigma de Queiroz


O Globo

Fabrício Queiroz está de volta. Depois de curtir a virada de ano, o ex-PM ressurgiu com planos ambiciosos. Quer trocar a sombra da família Bolsonaro pelo sonho do gabinete próprio.

O homem da rachadinha é pré-candidato a deputado. No domingo, ele deu o pontapé inicial da campanha. Divulgou um vídeo para ostentar intimidade com a família presidencial.

O filmete empilha clichês da iconografia bolsonarista. Queiroz visita um estande de tiro, veste roupa camuflada e empunha um fuzil. A militância verde-amarela marca presença com camisetas da seleção e bandeirinhas de plástico.

Numa cena descontraída, o ex-PM e o senador Flávio Bolsonaro fazem sinal de positivo para a câmera. Em outro momento de ternura, Queiroz e Jair aparecem de sunga na praia. Os velhos amigos encolhem a barriga e exibem o bíceps, num gesto para afirmar masculinidade.

Luiz Carlos Azedo: Projeto de Lula é vencer as eleições no primeiro turno

Correio Braziliense

Para entender a pré-candidatura de Lula, é preciso levar em conta lideranças e militantes petistas que não se envolveram com os escândalos dos governos Lula e Dilma, ou seja, a ala esquerda da legenda

Ninguém tem o direito de dizer que se enganou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que participou de todas as disputas presidenciais desde 1989, quando concorreu pela primeira vez, até a sua reeleição, em 2006. Em 2018, foi afastado do pleito por uma condenação em segunda instância, que resultou também na sua prisão por 580 dias, para cumprir a pena de oito anos, 10 meses e 20 dias à qual fora condenado pela Operação Lava-Jato no caso do triplex de Guarujá. Lula foi solto logo após o Supremo Tribunal Federal (STF) revogar o dispositivo que determina a execução de pena após condenação em segunda instância, em 8 de março do ano passado, decisão seguida da anulação de sua condenação, por não respeitar o princípio do juiz natural, que seria o foro do Distrito Federal e não o de Curitiba, como sempre afirmou sua defesa.

No dia seguinte, Lula já era o candidato favorito nas pesquisas de opinião, a mesma situação em que se encontrava quando foi preso, em 7 de abril de 2018. Desde então, vem se mantendo como líder absoluto na disputa, com possibilidade estatística de vencer as eleições no primeiro turno, se a votação fosse hoje, o que somente ocorreu nas eleições de 1994 e 1998, com Fernando Henrique Cardoso, na onda do Plano Real. Esse favoritismo decorre, em parte, do fracasso do governo do presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais de difícil reversão, devido à postura do presidente da República durante a pandemia, ao fracasso da política econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, e à ameaça à democracia que, para muitos, a sua reeleição representaria.

Vinicius Torres Freire: Ainda dá para resistir à ômicron

Folha de S. Paulo

Campanha nacional de vacinação de emergência ainda maior pode conter danos e riscos sérios

O que ainda se pode fazer para conter os efeitos da ômicron? Nada de novo: se pode fazer mais e mais rápido. É preciso vacinar muito e logo. Sim, vacinas demoram a fazer efeito e a variante hipercontagiosa está à solta. Mas quanto tempo ainda vai durar esta onda? Cientistas dizem a este jornalista que dois meses, por baixo, talvez seja um chute razoável. Um chute, pois não sabemos nem em qual ritmo o vírus novo se espalha pelo país. Graças à incompetência e à negligência convenientes do governo federal, não temos dados e tão cedo não os teremos.

Por falar nisso, não sabemos também nem a quantas anda a vacinação. Uns 30 milhões de pessoas de 12 anos ou mais ainda não tomaram as duas doses; muito mais está sem o reforço. Aparentemente, a ômicron causa menos danos em vacinados, embora leiamos notícias de idosos ou de pessoas com doenças preexistentes indo para UTIs ou morrendo mesmo com três doses. Uma campanha nacional de vacinação de emergência (ainda maior) poderia salvar vidas, evitar sequelas em infectados, diminuir sofrimentos.

Uma campanha forte, de comoção nacional, poderia salvar os mais velhos, as vítimas principais do massacre, os invacinados e as crianças, agora também infectadas em grande número, como vemos pelas estatísticas americanas.

Hélio Schwartsman: Lula e o 'timing' eleitoral

Folha de S. Paulo

Não se pode dizer que ele não tem senso de oportunidade política

Se há um defeito que não pode ser atribuído a Luiz Inácio Lula da Silva é o de não ter senso de oportunidade política. Ele, afinal, sobreviveu ao mensalão e ao petrolão —escândalos que teriam encerrado carreiras mais normais— e agora disputa como franco favorito a sucessão de Jair Bolsonaro. Lula decerto comete erros, mas não os muito elementares. Se você, leitor, acha que o ex-presidente está metendo os pés pelas mãos, o mais provável é que ele esteja raciocinado duas ou três casas à sua frente.

Num mundo ideal, candidatos a cargos públicos explicitariam sem reservas suas ideias sobre os grandes temas e anunciariam o mais cedo possível seus programas de governo, que teriam conteúdo empírico, não apenas palavras bonitas. Não vivemos nesse mundo ideal. Isso significa que Lula vai não apenas tentar prolongar por mais alguns meses o suspense em relação a suas propostas como também deverá ensaiar outros flertes com posições mais à esquerda.

Bruno Boghossian: Em busca de uma maioria

Folha de S. Paulo

PT ajusta plano de revogação de reforma em busca de maioria nas urnas e no mundo político

Na campanha de 2018, o PT prometia com todas as letras "revogar a reforma trabalhista". O programa de Fernando Haddad dizia que a legislação aprovada no ano anterior era parte de um "legado do arbítrio" e deveria ser substituída. Quatro anos depois, o partido parece interessado em mudar esse vocabulário.

Há uma semana, Lula anunciou a intenção de mexer na reforma de 2017. Ele não deu detalhes da proposta, mas a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, foi categórica ao dizer que era preciso revogar a lei. Depois de uma intervenção do petista, a sigla passou a falar em "revisão" das regras, a partir de uma negociação envolvendo patrões e empregados.

O ajuste simboliza um dos desafios da campanha do ex-presidente. Lula trabalha por um programa que atraia trabalhadores mais pobres e fidelize a base sindical petista. Mas ele também procura reduzir resistências em outros setores e construir uma maioria em torno de sua candidatura.

Mariliz Pereira Jorge: Moro, o candidato coach

Folha de S. Paulo

O Brasil não aguenta mais amadores

Quando vejo gente disposta a votar em Sergio Moro para presidente entendo o sucesso do coach que convenceu 60 pessoas despreparadas a subir os 2.400 metros do Pico dos Marins, interior de São Paulo. A metade que chegou ao cume precisou ser resgatada, uma epopeia de nove horas, que evitou uma tragédia, segundo os bombeiros.

O curso vendido por Pablo Marçal, chamado de "O pior ano de suas vidas", incluía essa expedição. Marçal em sua conta no Instagram escreveu, "só conquista o topo dessa montanha quem está disposto a entregar todos os recursos durante o caminho. Sangue, suor, lágrimas e gordura. O que te impede de viver aventuras como essa?".

Não ser trouxa me parece uma boa razão. Isso inclui não cair no papo furado de coaches e não votar em aventureiros. Sergio Moro é um pré-candidato que se encaixa nas duas categorias. Curso de oratória e fonoaudiologia são parte do verniz. O despreparo ele tenta camuflar levando para o seu entorno nomes palatáveis a quem se deixa iludir. É a pegadinha do Posto Ipiranga. Cai quem quer.

Ricardo Noblat: Amadorismo de Sergio Moro continua a surpreender seus aliados

Blog do Noblat / Metrópoles

Encontro com o ex-ministro Joaquim Barbosa deu em nada

Qualquer político minimamente informado sabe de pelo menos duas coisas a respeito de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, e o primeiro negro a chegar lá.

Primeira: que a ser candidato, ele só admite disputar a presidência da República, e mesmo assim se satisfeitas todas as condições que estabelecer. Sua vaidade não permite menos do que isso.

Segunda coisa: que ele não gosta e nunca gostou de Sergio Moro. Sempre fez restrições ao comportamento do ex-juiz desde que ele comandava a Operação Lava Jato.

Impossível que Moro não soubesse. Mesmo assim, depois de muito insistir, foi recebido por Barbosa em seu apartamento no Rio. A conversa não foi longa. E, ao final, deu em nada.

Paulo Delgado*: O que podemos esperar


O Estado de S. Paulo.

Um bom futuro presidente é uma exigente construção prévia, não um anseio

Como remédio com prazo de validade vencido e bula perdida, o governo, sem noção, me lembra a expressão da nonagenária italiana, mãe de um amigo meu: ele é a falta total de absolutamente. Do lado de cá, a vida social, econômica e civil tenta não se embriagar de amargura, vendo a política como uma coisa falha. Viver é assunto muito grande e dele ninguém escapa fugindo. Começou o ano da eleição com muitos acontecimentos e nenhuma ideia. O Brasil não está destruído, ele não está mais é protegido.

Tentar alguma iluminação para lidar melhor com a informação é essencial. Não há país mais fácil de entrar do que o Brasil. No entanto, não há país que menos se esforce para ser atrativo nem para os brasileiros que querem vencer pelo próprio esforço. Nosso modelo político e judicial não serve para o sucesso social e econômico do País. Suga mais da vida do que devolve de volta.

Nenhum grupo político econômico brasileiro moderno sobreviverá, se fingir que não está vendo como estão se organizando os recursos de poder dentro do Estado. Aproveitando a coincidência momentânea de três deficiências, a sanitária, mais aguda, a política e a econômica, crônicas, nos Três Poderes existem movimentos que vão deteriorando os mecanismos democráticos e colocando a sociedade em regime de liberdade marginalizada.

Fernando Exman: Depois de 90 anos, o poder do voto feminino

Valor Econômico

Governo corre para reduzir alta rejeição entre as mulheres

Setenta e sete milhões, quinhentos e oitenta e um mil, seiscentos e dezesseis brasileiras estão aptas a votar nas eleições marcadas para outubro. Juntas, elas somam 52,86% do eleitorado, mais do que os 52,50% do pleito de 2018. E representam, também, um dos principais desafios do presidente Jair Bolsonaro em sua campanha à reeleição.

Questão antiga. Ao longo de sua ruidosa carreira parlamentar, Bolsonaro protagonizou alguns episódios que ganharam destaque nas páginas mais infelizes dos diários da Câmara dos Deputados. Em um deles, atacou participantes de uma audiência pública que debatia a violência contra mulheres e meninas, o enfrentamento ao estupro e à impunidade, além de políticas públicas de prevenção, proteção e atendimento a vítimas.

Daniel Rittner: Eletrobras, Correios, Porto de Santos - e o PT

Valor Econômico

Algumas privatizações já estão nos trilhos e devem ser concluídas ao longo deste ano

O governo Jair Bolsonaro ainda tem a expectativa de privatizar três grandes estatais: Eletrobras, Correios e Santos Port Authority (novo nome da antiga Companhia Docas do Estado de São Paulo). Faltam somente 11 meses de mandato e dois dos três processos não poderão mais ser completados. Mesmo se o Senado aprovar até março ou abril a nova lei dos serviços postais, o que parece improvável diante da resistência de vários partidos, seria possível apenas fazer o leilão dos Correios até o fim de 2022. A assinatura do contrato, que formaliza efetivamente a transferência do ativo para o novo controlador, ficaria para 2023. No caso de Santos, escorregões no calendário planejado pelo Ministério da Infraestrutura tornam até o leilão neste ano uma meta desafiadora. Firmar contrato está fora de cogitação e vai necessariamente para o ano que vem. A Eletrobras é a única com o cronograma folgado - sua capitalização, diluindo a fatia acionária da União, deve ocorrer no primeiro semestre.

Entra, portanto, um novo fator na equação privatista do governo Bolsonaro: Lula, que lidera todas as pesquisas com boa margem, completaria os processos dos Correios e do porto de Santos? De volta ao Palácio do Planalto, em 2023, assinaria contratos com quem tiver vencido leilões realizados apenas algumas semanas antes por seu antecessor? A resposta ouvida pela coluna em círculos importantes do PT: tudo indica que não. Ninguém quer falar por Lula, todos ressaltam que ele próprio é quem tomaria as decisões sensíveis de eventual novo governo petista, mas pessoas influentes no partido defendem que esses processos sejam interrompidos ou, no mínimo, bruscamente freados.

Nilson Teixeira: Terceiro governo Lula não seria revanchista

Valor Econômico

O ex-presidente conhece as vantagens de uma inflação baixa e da responsabilidade fiscal

A vitória do ex-presidente Lula na eleição de outubro, em disputa polarizada com o presidente Bolsonaro, é provável. A chance é baixa de surgimento de uma candidatura única capaz de unir eleitores de perfil moderado e avessos aos dois candidatos. A rejeição à Bolsonaro, até por ser o postulante incumbente, recuará com o Auxílio Brasil.

Ao mesmo tempo, as intenções de voto em Lula podem diminuir com o esperado ataque nas redes sociais, associando-o aos malfeitos no governo PT. No entanto, a estagnação, o alto desemprego e os conflitos frequentes de Bolsonaro enfraquecem o cenário em que sua votação supere as de Lula. Quando muito, haveria 2º turno.

O quadro pode se tornar ainda mais favorável para Lula, caso a sua campanha convença eleitores com perfil conservador sobre a adoção de uma plataforma sem extremismos. A possível participação do ex-governador Geraldo Alckmin, como vice-presidente na sua chapa, demonstra a vontade de Lula de compor alianças com o centro.

Mesmo assim, alguns participantes de mercado projetam um governo PT radical e orientado pela revolta de ter sido vítima da suposta contrariedade da elite e de alegações de ligação com a corrupção. A escolha de um conjunto de economistas heterodoxos para coordenar a discussão na sua campanha reforça essa leitura.

Como a corrida eleitoral atém-se a platitudes sobre temas econômicos, a escolha desses economistas por Lula não é uma sinalização sobre quem seria o ministro da Economia nem sobre a linha a ser adotada. A análise dos governos de Bolsonaro e de Lula aponta que o mais eficaz seria ter um político experiente no cargo, com uma equipe mais ortodoxa do que a do grupo escolhido pelo PT. Os rumores de que um 3º governo Lula revisaria as privatizações, revogaria a reforma trabalhista e eliminaria a autonomia do Banco Central (BC), entre outros devaneios, são discursos de campanha para agradar as bases mais aguerridas ou circunscritos a comissões - caminho certo para não prosperarem. Ademais, essas propostas não seriam apoiadas pelos congressistas de centro, o que dificultaria seu avanço no Congresso. Independentemente da mágoa por sua condenação e prisão, Lula não teria ganhos em abraçar ações revanchistas.

Elimar Nascimento*: Representação e Democracia em Bernard Manin

Proveniente da nobre Escola Normal Superior (Paris), Bernard Manin, cientista político francês, teve sua tese de doutorado obtida a partir de trabalhos publicados. Na França isso é previsto e chama-se “Thèse de doctorat sur travaux”, como dizem os ingleses, “special form of Ph.D”.  Atualmente é professor de ciência política na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais em Paris e no Departamento de Política da Universidade de Nova Iorque. Já esteve algumas vezes no Brasil, inclusive na ANPOCS (Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais), e tem artigos publicados por aqui. 

O mais conhecido trabalho de Manin chama-se Principes du Gouvernement Représentatif  (Paris: Calmann-Levy, 1995). O objeto do livro é desenhar a trajetória de construção do regime democrático no Ocidente, destacando seus dilemas e contradições. Embora o livro esteja dividido em seis capítulos, é possível dividi-lo em duas partes, e isso me interessa, pois é sobre a primeira que o presente artigo se concentra. Esta parte trata dos percalços da criação da democracia moderna, inicialmente denominada de governo representativo ou República. Ele descreve os debates e decisões produzidos nos movimentos que deram nascimento à democracia moderna (revolução inglesa, 1640/1688, independência americana, 1776/1787 e revolução francesa, 1789/1799), cotejando-a com a democracia de Atenas na Grécia Antiga, o trajeto dos procedimentos democráticos na Idade Média e Renascimento, sobretudo na península italiana, e o debate intelectual que vai dos séculos XVII ao XX.

A tese central dessa parte do livro de Manin é de que as democracias contemporâneas surgiram de uma forma de governo que seus fundadores opunham à democracia.  James Madison, um dos autores da obra Os Federalistas, e considerado um dos fundadores da democracia norte-americana, tinha a opinião de que o povo era tecnicamente incapaz de se autogovernar e, por isso, o governo representativo era um sistema substancialmente diferente e superior ao governo democrático. O corpo de representantes eleitos para compor o governo era tido como um corpo de cidadãos com melhor capacidade de discernimento para conduzir os interesses do país; suas decisões eram mais condizentes com o bem público do que aquelas formuladas pelo próprio povo. 

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Inflação fora da meta representa risco para 2022

O Globo

A inflação oficial de 2021, anunciada ontem pelo IBGE, ficou pouco acima de 10%. Foi o pior resultado registrado desde 2015, quando o cavalo de pau aplicado na política de juros pelo Banco Central no governo Dilma Rousseff levou ao descontrole nos preços. Desta vez, apesar da reação tardia do BC à pressão inflacionária da pandemia, a política de juros começa a se mostrar eficaz.

Depois de 11 meses de alta, a inflação acumulada em 12 meses começou enfim a ceder. Caiu de 10,74% em novembro para 10,06% em dezembro. Pode ser um primeiro sinal de vitória contra a herança mais nefasta que o presidente Jair Bolsonaro deixará ao sucessor. A inflação corrói o poder de compra de todos, mas atinge com maior intensidade os mais pobres, como demonstram os números de 2021.

Num país que ainda tateia na transição para uma economia de baixo carbono, o transporte dependente do petróleo e dos combustíveis fósseis foi o principal vilão dos preços no ano, com alta acima de 21% (só a gasolina subiu quase 48%; o etanol, 62%). Os outros vilões foram a habitação (alta de 13%), artigos de residência (12%), vestuário (10%) e alimentação (8%). Na lista das maiores altas estão café, açúcar, legumes, frutas, carnes, frango — e tudo o que afeta diretamente o bolso da população.

Embora a curva de preços tenha enfim virado para baixo em dezembro, o resultado voltou a ficar aquém do que esperavam os analistas de mercado, e os fatores estruturais que impulsionam a alta persistem. A batalha está longe de vencida. Será dificílimo que o BC cumpra a meta inflacionária deste ano, mantendo o índice entre 2% e 5% (analistas preveem mais de 5%). Para 2021, o teto da meta era de 5,25%.

Por tê-la descumprido, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, teve de enviar uma carta pública ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando os motivos. Atribuiu a maior parcela do desvio da meta (69%, ou 4,38 pontos percentuais) à “inflação importada”, resultado de gargalos logísticos globais, da alta do petróleo e outras matérias-primas, além da súbita recuperação mundial depois da recessão de 2020. O único fator interno que apontou foi a crise de energia. Mas o Brasil não tem como exportar toda a responsabilidade por suas mazelas.

Poesia | Joaquim Cardozo: Os mundos paralelos

Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.

Mas pode estar em mim;
do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.

O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.

Nada me vem contra o que está de mim vizinho.
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime
— Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.

Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.

Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
Em conflito com o que poderia ser silêncio
Se este pudesse fluir lentamente como o tempo
E ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio

No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio no paralelo é áspero
Mundo paralelo!
afogar
Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.160-161. Poema integrante da série Mundos Paralelos

Música | Casuarina: Bole Bole (com Nicolas Krassik e Zé Paulo Becker