sábado, 19 de junho de 2021

Sergio Fausto* - O bicho-papão do comunismo

O Estado de S. Paulo

Hoje é a extrema direita paranoica e obscurantista que representa perigo real

Trinta anos atrás, em agosto de 1991, o comunismo recebeu seu atestado de óbito, com a dissolução da União Soviética. Morreu de morte morrida, provocada pela esclerose múltipla de um sistema político e econômico dirigido por uma burocracia hipertrofiada a serviço de si mesma.

Quando a Cortina de Ferro começou a se entreabrir, o bloco soviético não resistiu à comparação com o nível de bem-estar alcançado pelos países da Europa Ocidental, onde havia mais liberdade e melhores condições materiais de vida. Gorbachev bem que tentou reformar o sistema para evitar a dissolução da União Soviética, mas já era tarde demais. Ela ruiu, assim como havia ruído o Muro de Berlim dois anos antes, marcando o fim do domínio soviético sobre o Leste Europeu.

Mesmo antes de morrer, o comunismo já não representava ameaça ao Ocidente. Com a ascensão de Gorbachev à Secretaria-Geral do Partido Comunista da União Soviética, em 1985, as relações entre a pátria do socialismo e as potências capitalistas mudou definitivamente de natureza. “I like Mr. Gorbachev. We can do business together” (eu gosto do sr. Gorbachev. Nós podemos trabalhar juntos), disse ninguém menos que a conservadora primeira-ministra do Reino Unido Margareth Thatcher, depois de se encontrar em Londres com uma delegação de representantes soviéticos chefiada por Gorbachev, então estrela ascendente no Politburo. Era dezembro de 1984. Bom lembrar que a outra pátria do comunismo, a China, já havia normalizado desde a década anterior as suas relações com os Estados Unidos.

Pablo Ortellado - A esquerda não basta

O Globo

É preciso criar uma ampla coalizão para resistir a tentativa de ruptura institucional que se anuncia

Os protestos anti-Bolsonaro, que têm hoje uma nova rodada, precisam cumprir duas funções. A primeira é tentar apressar a saída do presidente por meio de um impeachment. É uma tarefa difícil, improvável, mas que vale a pena perseguir, por imperativos morais, mas também porque auxilia a segunda função: criar uma ampla coalizão para resistir à tentativa de ruptura institucional que se anuncia em outubro de 2022, caso Bolsonaro perca as eleições. Essas duas tarefas exigem muito mais do que apenas a esquerda nas ruas.

Estamos no mês de junho do ano que antecede as eleições, o que torna o calendário para o impeachment apertado. Ainda que Arthur Lira, presidente da Câmara, aceitasse um dos pedidos, o processo só seria concluído no começo de 2022, a poucos meses das eleições.

A dura verdade é que, embora não faltem crimes de responsabilidade, ainda não temos condições políticas para fazer avançar um pedido de impeachment. Para que fosse aceito, seria preciso que o apoio a Bolsonaro caísse pela metade e que o presidente perdesse o controle do Congresso.

Cristovam Buarque* - O PT é Centro

Blog do Noblat / Metrópoles

O PT é um partido mecânico e analógico, ainda não captou a economia e a sociedade do futuro baseadas no conhecimento na era digital e global

Nesta semana, alguns partidos se reuniram com o propósito de encontrar um candidato à presidência para sair da polarização. Mas se fosse para reunir forças de Centro, o PT deveria ser chamado, porque foi de esquerda no tempo em que o futuro estava na industrialização mecânica protegida nacionalmente, o capital não estava no domínio do conhecimento que vem da educação e o equilíbrio ecológico não estava ameaçado.

Para ser de esquerda hoje, é preciso defender modelo de crescimento subordinado ao equilíbrio ecológico. O PT é um partido do aumento do PIB, não defende um novo indicador de progresso. Prova disto são os projetos de grandes represas para gerar energia elétrica, tanto quanto o fascínio pela indústria automobilística e a adoção de subsídios fiscais e financiamentos públicos para setores econômicos antiquados do ponto de vista ecológico, social e tecnológico.

Outra característica de esquerda é a visão de que o vetor do progresso econômico e da justiça social está na máxima qualidade da educação de base de toda população. O PT não assume o propósito de fazer nossa educação de base estar entre as melhores do mundo e com a mesma qualidade para todos. “O filho do pobre em escola com a mesma qualidade da escola do filho do rico” não é um lema do PT.

Bolívar Lamounier* - Atração pelo abismo

O Estado de S. Paulo

Temos consciência de nossa estagnação,mas tudo indica que não queremos sair dela

 “Durante anos, puseram-se a fitar a superfície do mar. Aí, resolveram atirar-se à sua última ousadia: ir aos confins do mundo, para ver o abismo. Partiram em viagem, num barco muito pequeno. Entendiam como um sinal de esperança o fato de as aves marinhas seguirem o barco até mar alto” Werner Herzog

 Dias atrás (9/6), o presidente argentino, Alberto Fernández, causou revolta ao afirmar: “Os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos em barcos”. Essa declaração foi feita em entrevista ao lado do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Em sua inoportuna e disparatada comparação, ao afirmar que seu povo veio para a América do Sul “em barcos”, o presidente argentino omitiu um detalhe importante. Esqueceu-se de que a Argentina se destaca no mundo inteiro como o país que durante décadas e décadas mais cedeu a atração fatal do retrocesso. A atração pelo abismo. Tendo praticamente chegado ao Primeiro Mundo, fez questão de regredir ao subdesenvolvimento. Não sob a pressão de algum fator externo, como uma guerra, ou de alguma catástrofe natural, mas movido apenas por seus desacertos domésticos, regrediu e acomodou-se à pobreza comum em nosso triste Hemisfério.

Mas abstenha-se o roto de rir do esfarrapado. Também no Brasil a atração pelo abismo existe e se manifesta de forma notavelmente sistemática. Temos consciência de nossa estagnação, mas tudo indica que não queremos sair dela.

Nosso desempenho no combate à covid-19 é bem menos que mediano. Tratada com indiferença nas primeiras semanas, a “gripezinha” já ceifou cerca de 500 mil vidas. Temos alguns bons laboratórios e um excelente serviço de atendimento – o SUS –, mas sem os insumos que o resto do mundo relutantemente nos fornece o que eles podem fazer é pouco. Pior ainda é o bate-boca diário entre as autoridades governamentais – encabeçadas pelo sr. Jair Bolsonaro – e os agentes de saúde – médicos, enfermeiros e outros – que se expõem diretamente aos riscos dessa terrível emergência.

No âmbito das elites, públicas e privadas, querelas rigorosamente desprovidas de conteúdo sucedem-se dia após dia, levando o cidadão comum a supor que são apenas uma ópera-bufa concebida para ocultar a apropriação do público pelo privado. Falar de corrupção é chover no molhado. A verdade nua e crua é que os integrantes da atual geração política parecem ignorar a urgência das tarefas que lhes são afeitas, a missão que juraram cumprir e até os elementos litúrgicos que lhes incumbe observar. Na hora atual, o que mais vemos é a esgrima pré-eleitoral, a mais de um ano da data prevista para o pleito.

João Gabriel de Lima - As direitas no redemoinho de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Para ser protagonistas, as direitas brasileiras têm de se afastar do presidente, que não é liberal nem conservador

Ser de direita no Brasil era como ser de esquerda na Polônia. Lá, a palavra “esquerda” lembra a ditadura comunista e a opressão da antiga União Soviética. Aqui, “direita” esteve associada, por muito tempo, à ditadura militar instaurada para combater uma ameaça socialista inexistente. Em nome desse objetivo, torturou, gastou sem responsabilidade fiscal e entregou aos civis uma economia com a doença da inflação. 

Na Polônia, ainda hoje, a disputa eleitoral se dá entre a direita e a extrema direita. No Brasil, até pouco tempo atrás, a política se organizava em torno de duas siglas nascidas à esquerda. Uma chefiada por um líder sindical e a outra por um professor universitário que, nos anos 1960, capitaneava um grupo de estudos sobre Karl Marx. Em 1978, o professor concorreu ao Senado com o apoio do líder sindical. Mais tarde, os dois se tornaram presidentes. 

As direitas sofreram para exorcizar a pecha autoritária. Nos anos 1990, organizaram-se em seminários sobre liberalismo. Durante o protagonismo de PT e PSDB, abrigaram-se em partidos “de suporte”, na definição do cientista político Carlos Pereira, colunista do Estadão e personagem do minipodcast da semana. Um artigo ainda inédito redigido por ele, Samuel Pessoa e Frederico Bertholini mostra como, em democracias multipartidárias, algumas siglas abrem mão do protagonismo para apoiar governos. Ganham em troca influência e cargos. 

Carlos Alberto Sardenberg - Do excesso de denúncias ao liberou geral

O Globo

O Brasil estava à beira de uma crise fatal no sistema financeiro em 1995. Dito de outra maneira: boa parte dos bancos, públicos e privados, não tinha o dinheiro necessário para honrar os depósitos e aplicações dos clientes.

A origem, paradoxal, dessa crise estava no fim da inflação. Bancos viviam do open market. Pegavam dinheiro dos clientes, remunerados a uma fração da inflação, e aplicavam toda noite em títulos do governo, recebendo taxas que cobriam a inflação plena e mais alguma coisa.

Quando a inflação, com o Plano Real, caiu para 1% ao ano, a farra acabou. Muitos bancos não apenas tinham ativos podres, maus empréstimos (a empresas amigas e familiares), como tinham passivos muito superiores.

O governo FH ficou diante do dilema: deixar a coisa rolar, quer dizer, deixar que a quebradeira ocorresse, na ideia de que isso seria um saneamento “natural” do mercado; ou fazer uma intervenção generalizada, colocando dinheiro para salvar não os banqueiros, mas os clientes e o sistema.

Ascânio Seleme - Nova carta ao povo brasileiro

O Globo

A primeira, escrita por Lula em 2002, foi endereçada ao mercado, a de agora seria destinada aos eleitores

Lula cogita escrever uma nova carta ao povo brasileiro. A exemplo da primeira, de junho de 2002, esta também quer mostrar que o ex-presidente não é o bicho-papão comunista pintado pelas tintas do radicalismo de direita. A primeira foi endereçada ao mercado, a de agora seria destinada aos eleitores. Talvez Lula tenha razão, mas se ficar apenas no conteúdo econômico, a carta será curta. É importante dizer que o candidato do PT não é de extrema-esquerda, quando muito de centro-esquerda, que não vai tomar sua casa nem confiscar sua poupança. Mas isso já se sabe. O que se quer agora ouvir de Lula e do PT é um pouco mais.

Lula precisa dizer ao eleitor que ele e o PT erraram, e mais de uma vez. Embora os equívocos na condução da economia no governo Dilma tenham sido extremamente graves, o que o povo brasileiro quer mesmo ouvir de Lula é que o partido errou ao usar o Estado e o dinheiro público em benefício próprio e de partidos aliados, para consolidar sua permanência no poder. Este é um fato inegável, uma nuvem que sobrevoa o PT e que vai permanecer fazendo sombra enquanto o partido e seu principal líder não afirmarem categoricamente que erraram e que se arrependem.

O fato de o Supremo ter anulado a condenação de Lula o exonera, mas não o inocenta. Talvez Lula não seja condenado outra vez pelos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia e jamais se prove que ele foi beneficiado diretamente pelos desvios da Petrobras. Mas isso não significa que a estatal não tenha sido efetivamente dilapidada pelos partidos da base do governo, que usavam as diretorias da empresa para arrecadar. As confirmações foram feitas por tesoureiros do PT, presidentes de partidos aliados, funcionários da empresa e empreiteiros. Além de doleiros que faziam as remessas desse butim para o exterior.

Ricardo Noblat - Reeleição de Bolsonaro depende de Lula aparecer como favorito

Blog do Noblat / Metrópoles

Conclusões extraídas de pesquisas indicam que enfraquecimento de Lula prejudicaria Bolsonaro

Ninguém mais do que Jair Bolsonaro deve torcer para que nada elimine as chances de Lula de ser candidato no ano que vem. Porque ninguém mais do que Bolsonaro só tem a ganhar se os dois se enfrentarem no segundo turno da eleição presidencial.

(A recíproca é verdadeira, mas não vem ao caso agora. É por isso que Ciro Gomes, candidato dele mesmo e do PDT, oscila entre bater em Lula ou em Bolsonaro. Ciro acha que Bolsonaro é mais vulnerável do que Lula, mas Lula e o PT são sua obsessão.)

O antipetismo é vital para que Bolsonaro se reeleja. Um candidato, qualquer outro, capaz de credenciar-se a disputar o segundo turno, seria o maior perigo que deve ser afastado quanto mais cedo melhor para Bolsonaro. Ele parece estar convencido disso.

Se já estava antes, mais convencido ficou depois de uma reunião, esta semana, com ministros que lhe expuseram dados e conclusões tiradas de recentes pesquisas encomendadas pelo governo, ou a ele presenteadas por entidades parceiras suas em negócios.

Marco Antonio Villa - 500 mil mortos: o Brasil vai acordar?

Revista IstoÉ

A tensão passou a fazer parte do nosso dia a dia, como se fosse algo natural, e não uma ação planejada de uma mente doentia

Jair Bolsonaro promove o caos no País. Não há dia sem que ele não faça alguma ação que leva à desorganização de alguma peça na estrutura do Estado ou na relação entre os Poderes ou, ainda, jogando incerteza na população. É um bombardeio ininterrupto desde o início do seu desgoverno e que se acentuou com a pandemia. A tensão passou a fazer parte do nosso dia a dia, como se fosse algo natural, e não uma ação planejada de uma mente doentia.

O Brasil está chegando ao limite da tolerância. Como não temos uma tradição histórica de enfrentamento político, há uma tendência de suportar o insuportável. Sempre é encontrada alguma justificativa para explicar uma situação inexplicável. Diferentemente de outras crises, a de 2020-2021 (2022 também?) tem um componente adicional – e que componente! -, a pandemia do coronavírus. É o teste definitivo da paciência do cidadão, algo para entrar na galeria da tipologia da definição do que é ser brasileiro.

Oscar Vilhena Vieira - Plantando tempestade

Folha de S. Paulo

Voto impresso colocará democracia em xeque

voto impresso, se aprovado pelo Congresso Nacional, dará às milícias, oficiais ou clandestinas, uma poderosa arma para controlar o sufrágio de uma parcela significativa dos eleitores. Como na Velha República, em que o voto era aberto —em bico de pena—, chefes locais poderão exigir comprovação de lealdade daqueles que se encontram sob a mira de suas armas, mantos religiosos ou relações de subordinação, no trabalho ou na caserna.

O voto impresso também poderá ser empregado para promover uma maliciosa judicialização dos resultados eleitorais, criando um ambiente de desconfiança favorável a insurgências, como a incentivada por Donald Trump nos Estados Unidos após sua derrota eleitoral —ressaltando que nossas classes armadas não têm a tradição de lealdade à Constituição demonstrada de forma unânime pelos comandantes militares norte-americanos, ao repudiar a investida das hordas trumpistas contra o Capitólio.

Demétrio Magnoli – Segundo turno

Folha de S. Paulo

Polarização entre Lula e Bolsonaro indica fracasso de lideranças da terceira via

O PSDB marcou suas prévias para as calendas de novembro, num gesto celebrado como exercício democrático —“um avanço”, na opinião desta Folha— e exibido como mecanismo de definição de um candidato de “terceira via”. Na prática, porém, a decisão só contribui para cristalizar a polarização entre Lula e Bolsonaro na corrida de 2022.

O lugar de Lula no segundo turno está virtualmente assegurado pelo peso político do PT. O lulismo, como ficou comprovado em todas as eleições, desde 1989, não é capaz de triunfar no primeiro turno, mas invariavelmente atinge o turno final, algo que se repetiu até com Haddad nas circunstâncias extremas criadas pelo impeachment e pela prisão de Lula. Não existe, contudo, garantia de que o atual presidente ultrapasse a barreira do turno inicial.

A estratégia eleitoral bolsonarista imita a de Donald Trump: assegurar a coesão de uma minoria fiel. O presidente aposta que sua base é suficiente para conduzi-lo ao turno final, quando tentaria obter os votos de um majoritário antipetismo. O problema é que o Brasil não é os EUA e Bolsonaro não é Trump.

Lá, há um sistema bipartidário com eleição em turno único que se conclui no Colégio Eleitoral. Aqui, um sistema pluripartidário com voto popular direto em dois turnos. Trump representava o Partido Republicano, que comanda o apoio de cerca de dois quintos do eleitorado. Bolsonaro carece de partido forte e seu desgoverno provoca erosão crescente em suas taxas de popularidade.

Hélio Schwartsman - A reforma que não faremos

Folha de S. Paulo

A adoção do voto preferencial permitiria obter resultados semelhantes aos de um 2º turno com apenas uma visita às urnas

Em vez de piorar a qualidade da democracia brasileira com a introdução do chamado distritão, os parlamentares deveriam discutir formas de aprimorá-la. Fugindo um pouco à tradição jornalística de só criticar, ouso hoje fazer uma sugestão.

Numa época em que tanto se fala em igualdade, o sistema eleitoral brasileiro cria uma injustificável distinção entre cidadãos. Habitantes de cidades com mais de 200 mil eleitores podem tentar exercer seu poder de veto em eventuais segundos turnos de pleitos para prefeito, enquanto aqueles que vivem em municípios menores estão privados disso. Até onde sei, tal recorte foi estabelecido apenas por uma questão de custos.

A boa notícia é que existe uma medida simples que não só poria fim a essa iniquidade eleitoral como também permitiria ao poder público economizar bastante dinheiro, eliminando as despesas operacionais com os returnos e reduzindo a conta do financiamento público de campanhas.

Cristina Serra - Guedes e o ódio aos pobres

Folha de S. Paulo

As políticas excludentes e de base eugenista da dupla Bolsonaro-Guedes também compõem a causa mortis

Paulo Guedes não falha. Sempre oferece variações sobre o mesmo tema, qual seja, sua aversão às pessoas pobres. Mas, agora, ele se superou. Disse que as sobras e os excessos dos almoços da classe média e dos restaurantes podem ser utilizados para alimentar mendigos e desamparados.

Ele enunciou tamanho absurdo sem corar, muito à vontade, sabendo que expressa ponto de vista de setor bastante representativo da sociedade brasileira, do qual é porta-voz. É a mesma visão de mundo por trás da famigerada “farinata”, ração feita com produtos próximos da data de vencimento e que o então prefeito João Doria tentou oferecer a famílias carentes.

É isso também que explica as pedras pontiagudas sob viadutos para afastar pessoas sem teto para bem longe da vista, medida revista pela prefeitura paulistana. O incômodo com o pagamento de direitos trabalhistas às empregadas domésticas, o desgosto de ver pobres viajando de avião, expresso em redes sociais, tudo isso é ódio de classe. E encontra sua síntese em Paulo Guedes.

Alvaro Costa e Silva - Republiqueta das mentiras

- Folha de S. Paulo

Só uma republiqueta permite que perfis falsos propaguem o golpe e inverdades que levam à morte

De olho na reeleição, o presidente de uma republiqueta convoca um passeio de motos a favor do coronavírus pelas ruas da maior cidade do país. Em sua maioria, os motoristas vestem cores escuras, não usam máscara, cobrem a placa das máquinas e trazem bandeiras e cartazes pedindo intervenção militar e o fechamento do STF. Um deles cai espetacularmente e fratura a coluna. A força policial é convocada para garantir a segurança do candidato e a fluidez no trânsito. O cortejo fúnebre dura quatro horas, ao fim das quais os cofres públicos estão mais leves em R$ 1,2 milhão.

O melhor vem depois. Apoiadores do presidente correm às redes sociais, postam as fotos mais cheias e falam em 1,3 milhão de veículos no evento, e que esse número, que ultrapassa a frota de São Paulo, havia entrado no livro dos recordes. A informação é logo desmentida pelo Guinness World Records. Um ridículo total, mas eles não se importam.

Marcus Pestana* - Pandemia no Brasil: números e sequelas

O Brasil se aproxima das 500 mil vidas perdidas. São 12,9% das mortes em todo o mundo, número totalmente desproporcional aos 2,7% da população global que representamos. Nunca é demais repetir, não são estatísticas frias, e sim pessoas e famílias duramente afetadas pela pandemia em nosso país.

Mas quando parece que as polêmicas inúteis estão afastadas, novos temas afastam a opinião público do essencial. A mais recente, levantada por um estranho parecer não oficial de um auditor do TCU, introduzido furtivamente no sistema da instituição, levanta absurda tese sobre a veracidade dos números e a possível supernotificação. O pior é que a informação improcedente foi repercutida pelo Presidente da República.

O sistema de informações epidemiológicas sempre foi central para o correto planejamento das ações. O SUS é rico em bancos de dados. A confiabilidade dos dados é fundamental para a credibilidade, transparência e eficiência na produção das políticas públicas de saúde. Um dos indicadores mais importantes é a estatística anual do perfil das causas de mortalidade.

Flávia Oliveira - Vacinar-se é ato político

O Globo

Quinze meses de isolamento social, sem escola de samba, alimento do espírito, sem abraço, conforto da alma, sem festa, combustível da vida, aguardei com ansiedade juvenil a hora da vacina. Cinquentona, sem doença crônica, de ofício não prioritário, percorri um hiato de 150 dias entre a estreia da vacinação contra a Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro — dona Terezinha da Conceição, 80 anos, em 18 de janeiro, aos pés do Cristo Redentor — e minha primeira dose, ontem. Convoquei a família, escolhi o figurino, perdi o sono como na véspera do vestibular, avô do Enem. Com a agulhada, chorei. De alegria, pela perspectiva de saúde; de pesar, pelo meio milhão de brasileiras e brasileiros, alguns muito próximos, que ficaram pelo caminho. Sob Jair Bolsonaro, o que era ação corriqueira de política pública universal tornou-se ato político de defesa da vida. Vacinar-se é o verbo.

Foi Maria Bethânia, 75 anos hoje, quem melhor elencou os desejos brasileiros da temporada de doença e desgoverno: “Quero vacina, verdade, respeito e misericórdia”, pronunciou na única apresentação virtual com que nos presenteou na era do recolhimento. A ela, vida longa e farta. Faltou imunizante, sobrou mentira. Respeito não há, tampouco misericórdia. Está aí a CPI da Covid a nos assombrar diariamente com depoimentos, e-mails, ofícios e estudos que comprovam a estratégia criminosa de enfrentamento à pandemia: em vez de vacina, cloroquina; de distanciamento, aglomeração; de saúde, economia, como se oponentes fossem.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Em busca da estabilidade política

O Estado de S. Paulo

Em meio a um clima de grande apreensão em razão da instabilidade política promovida pelo bolsonarismo e do espectro do possível retorno de Lula da Silva à Presidência, os defensores do regime semipresidencialista entenderam que se trata de um bom momento para retomar o debate sobre esse sistema híbrido de governo, bem-sucedido em países como Portugal e França.

Com dois impeachments nas três décadas desde o restabelecimento da democracia e das eleições presidenciais diretas, e levando-se em conta que os presidentes que terminaram o mandato também foram ameaçados de afastamento, está claro que o atual sistema é propício a crises agudas. Há mais de uma centena de pedidos de impeachment contra Jair Bolsonaro, e tudo indica que o próximo presidente também enfrentará essa perspectiva sombria.

A instabilidade do regime presidencialista brasileiro é, portanto, evidente. Duas razões concorrem para esse tumulto permanente. A primeira delas está na generosidade da Constituição de 1988, que, a título de fazer justiça social por lei, criou as condições para a ocorrência periódica de crises fiscais, que por sua vez minam a capacidade política do governo de turno. A segunda é a grande fragmentação política, que obriga o presidente a articular coalizões em geral frágeis, cuja durabilidade depende diretamente da distribuição de verbas e cargos e é abalada ao menor sinal de risco eleitoral.

A experiência do governo de Michel Temer (2016-2018), contudo, aponta um possível “caminho do meio” para a tão desejada estabilidade. Nas piores condições imagináveis – em meio a uma grave crise econômica e política, na sequência de um traumático impeachment e com popularidade de apenas um dígito –, Michel Temer conseguiu as façanhas de sobreviver no cargo e de aprovar importantes reformas e ajustes que ajudaram a recolocar a economia nos trilhos e a estabilizar o País.

Isso foi possível, segundo escreveu o ex-presidente em artigo publicado no Estado (O semipresidencialismo, A2, 12/6), porque seu breve governo já teria sido uma experiência semipresidencialista. Sendo um político afeito ao Parlamento, Michel Temer inclinou-se naturalmente para um governo compartilhado com o Congresso, cerne do semipresidencialismo. “Chamei o Congresso para governar comigo”, disse Temer no artigo, que propõe uma emenda constitucional que instaure o semipresidencialismo a partir de 2026.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amar (na voz de Paulo Autran)

 

Música | Geraldo Azevedo, Elba Ramalho - Bicho de sete cabeças

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Vera Magalhães - Vacinas e liberdade

O Globo

Esta semana trouxe para a minha geração um sopro de esperança. Com a chegada da vez dos cinquentões na fila da vacina e a iminência de as pessoas de mais de 40 anos também começarem a ser contempladas (quarta-feira sou eu!), a sensação é de alívio, por ver irmãos, companheiros, primos, cunhados, amigos de infância, colegas de faculdade e outros contemporâneos finalmente a caminho de estarem mais protegidos contra o vírus que paralisou nossa vida há um ano e três meses, já.

Vacina é liberdade, pensei quando recebi a foto do meu marido tomando a primeira dose da vacina no braço esquerdo, no dia do seu aniversário.

E é por essa constatação básica, a que cada vez mais brasileiros chegarão à medida que a imunização avançar, que é mais criminosa a contraposição que Jair Bolsonaro, sempre ele, faz entre vacinação e liberdade.

A explicação (sic) dada pelo presidente no cercadinho dos horrores de seus seguidores para não sancionar, caso seja aprovado, o projeto em tramitação no Congresso que cria uma espécie de passaporte de imunidade é sem pé nem cabeça. Mal disfarça a real motivação de Bolsonaro: ele é, incorrigivelmente, um “antivax”. Continua a sabotar a vacinação mesmo quando estamos chegando a 500 mil mortos, e a CPI avança para responsabilizá-lo e a seu governo por essa matança.

Eliane Cantanhêde – De boiadas e jabutis

O Estado de S. Paulo

Com o foco na CPI, Congresso legisla em causa própria na MP da Eletrobrás e na Lei da Improbidade

Há algo errado quando, do PT ao PP, praticamente todos os partidos ficam do mesmo lado na Câmara e quando dez entre dez economistas liberais se manifestam contra o projeto pró-privatização da Eletrobrás da Câmara e do Senado. A explicação, porém, parece razoavelmente simples: com o foco na CPI da Covid, o Congresso corre para passar suas boiadas e jabutis. 

O pau come entre o PT e o bolsonarismo, mas lá, no escurinho da Câmara, reina a paz para legislar em causa própria. O deputado petista Carlos Zarattini (SP) apresentou um relatório substitutivo mudando drasticamente a Lei da Improbidade, de 1992, e o texto foi aprovado por 408 votos a 67 em plenário, com apoio de praticamente todos os partidos e patrocínio do bolsonarista Arthur Lira (PP-AL) – o presidente da Casa, alvo de processos por... improbidade. 

Para o procurador Roberto Livianu, do Instituto Não Aceito Corrupção, a Lei da Improbidade “é a mais importante lei anticorrupção em vigor no Brasil”. E ele cronometrou: o substitutivo de Zarattini foi apresentado às 17h10 de terça-feira, o pedido de urgência começou a ser votado às 17h11 e foi aprovado às 17h19. Nove minutos. No dia seguinte o plenário liquidou a fatura. 

Bernardo Mello Franco - A agonia da terceira via

O Globo

Luciano Huck desistiu de concorrer à Presidência. Preferiu assumir o lugar do Faustão. O animador estava indeciso entre governar o país e comandar um programa de auditório. Ao escolher a segunda opção, mostrou que não era a pessoa certa para a primeira.

A candidatura Huck já havia sido ensaiada antes da eleição de 2018. O clima era favorável a um outsider, mas ele não quis arriscar a fama no campo minado da política. Um deputado de sete mandatos se fantasiou de novidade e conseguiu chegar lá.

O novo recuo do apresentador expõe os problemas da direita liberal, que hoje reivindica o rótulo de “centro”. Com apoio do empresariado, o grupo tenta fabricar um presidenciável para concorrer com Lula e Jair Bolsonaro. A ideia já esbarrava na falta de votos. Agora começa a agonizar com a fuga de candidatos.

O ex-ministro Sergio Moro puxou a fila das desistências. Desgastado após romper com o capitão, mudou-se para os EUA e sumiu do debate político. A anulação de suas sentenças no Supremo parece ter sepultado de vez a hipótese de uma aventura eleitoral.

Na semana passada, foi a vez de João Amoêdo pular do barco. Sua pré-candidatura durou apenas nove dias. Foi bombardeada por deputados do Novo que viraram linha auxiliar do bolsonarismo.

Luiz Carlos Azedo - Lula esnoba o centro

Correio Braziliense

Tanto Lula quanto Bolsonaro têm interesse na fragmentação do eleitorado mais moderado e na dispersão de forças de centro-esquerda e centro-direita

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao Sistema Tribuna de Comunicação, ontem, em Natal, esnobou os sete partidos que se reuniram na quarta-feira para discutir uma candidatura de centro: “As pessoas esquecem que, quando disputei a eleição em 1989, disputei contra algumas das personalidades das mais extraordinárias do Brasil, com o doutor Ulysses, doutor Aureliano Chaves, doutor Brizola, tinha Mário Covas, Paulo Maluf, Afif. Era uma penca de candidatos de personalidades muito respeitadas, e fui para o segundo turno. Essas pessoas precisam compreender que eles não têm esse destaque que merecem porque eles não têm partido político”, disse.

Lula divide com o presidente Jair Bolsonaro as expectativas de poder e favoritismo nas eleições de 2022. O primeiro, porque vem se mantendo como candidato favorito, mesmo recém-saído da prisão e na oposição, enquanto o segundo, porque está no poder e tem direito à reeleição. Tanto Lula quanto Bolsonaro têm interesse na fragmentação do eleitorado mais moderado e na dispersão de forças de centro-esquerda e centro-direita, porque isso praticamente lhes garante um lugar no segundo turno da eleição. “As pessoas ficam preocupadas com a minha candidatura, com a candidatura à reeleição do presidente. Ora, eles podem lançar candidatos. Não têm que procurar um só, tem que procurar 10. Cada partido deve lançar um candidato, e o povo vai votar e escolher quem pode ser eleito”, avalia Lula.

Ricardo Noblat - O destino da democracia é o que estará em jogo ano que vem

Blog do Noblat / Metrópoles

O vírus do bolsonarismo despertou os instintos mais primitivos dos brasileiros e não há sinais de que haverá vacina contra ele

País onde padre chama homossexuais de veadinhos, rapaz vai às compras com uma suástica no antebraço, senador defende governo fascista desde que tenha “as mãos limpas” e casal branco suspeita de negro inocente no comando de uma bicicleta elétrica, por que um país como esse daria as costas ao presidente que tem?

Não será fácil derrotá-lo na eleição do ano que vem, é o que começam a admitir aos sussurros ou abertamente seus mais ferrenhos adversários. Não é para dissipar o clima do já ganhou que toma conta da parte desavisada da oposição que eles dizem isso, é porque de fato reconhecem que não será fácil mesmo.

O bolsonarismo era um vírus adormecido nas entranhas de uma parcela expressiva dos brasileiros de todas as classes sociais e de todos os pontos do país. O vírus despertou ao ouvir o discurso do ex-capitão indisciplinado que antes só falava às paredes do Congresso e a áreas do Estado que o alimentava com votos.

A rendição à pandemia que veio de fora pode ter enfraquecido o dono do discurso que perdeu apoio com a morte de quase 500 mil pessoas em pouco mais de um ano, sem falar dos mais de 17 milhões de infectados. Mas o discurso em si continua forte, sem que tenha diminuído o número dos que se sentem atraídos por ele.

Dora Kramer - Lira do delírio

Revista Veja

A agenda regressiva que o presidente da Câmara chama de reforma política

O Brasil enfrenta problemas graves para todo tipo de (des)gosto — sanitário, político, econômico, social e energético —, que requerem a mobilização de diversos setores. Uns com maior êxito e presença, outros com menor eficácia, menos visibilidade ou poder de influência, mas cada qual fazendo a sua parte na medida das respectivas possibilidades.

O Supremo Tribunal Federal num empenho diuturno para barrar ofensivas antidemocráticas, o Ministério Público e a Polícia Federal em luta contra interferências “de cima”, organizações sociais mobilizando-se para minorar a situação de brasileiros vulneráveis, governadores e prefeitos envolvidos numa saudável corrida em prol da vacinação, o Senado montando na CPI o quebra-cabeça do desmazelo governamental na gestão da pandemia e a oposição mergulhada nas articulações para enfrentar Jair Bolsonaro em 2022.

Diante disso, a Câmara dos Deputados faz o quê? Discute mudanças nas regras político-eleitorais, entre as quais a instituição do voto impresso para conferência do resultado obtido nas urnas eletrônicas. E esse é apenas um entre os vários itens de uma agenda regressiva que o presidente da Câmara, Arthur Lira — patrocinador maior da iniciativa —, chama de reforma política.

José Casado - Bolsonaro enfrenta consequências reais da realidade paralela


Revista Veja

Insistência na realidade alternativa já tem efeitos reais para o governo, acusado de manter estruturas paralelas na Saúde, na espionagem e no orçamento

Jair Bolsonaro é prova viva do conceito de “definição de situação”, formulado pelo sociólogo americano William Isaac Thomas no início do século passado: “Se os homens definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências.”

Nos últimos 29 meses, Bolsonaro fomentou a percepção de que governa numa realidade paralela. Nela, por exemplo, o Brasil ocupa a “vanguarda” nas soluções para a vida sob pandemia, porque ele foi, como já disse, o único chefe de Estado do planeta que saiu em busca “do remédio” — no caso, a cloroquina.

Se a ilusão é percebida como algo real, mesmo não sendo, tem as mesmas consequências que a realidade — diz o teorema de Thomas.

Ontem no Palácio do Planalto começou a se espraiar o entendimento de que o governo está cada vez mais enredado na própria criação, a realidade paralela.

As consequências já estavam visíveis no prédio do outro lado da rua, no Senado, no acervo de 1,5 terabytes de documentos acumulados pela CPI da Pandemia em mês e meio de funcionamento.

Agora, também, começam a ganhar contornos definidos em outro prédio da Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal. Ontem à tarde, a juíza Rosa Weber escreveu: “A eventual existência de um Ministério da Saúde Paralelo, desvinculado da estrutura formal da Administração Pública, constitui fato gravíssimo.”

Alon Feuerwerker - Uma ponta não fecha

Revista Veja

Atitude racional de Bolsonaro seria concentrar esforços na vacina

Quem se debruça agora sobre a condução que Jair Bolsonaro vem dando aos desafios da pandemia conclui que o próprio presidente melhorou as condições para a emergência de uma ampla coalizão contra ele no ano que vem. Pelo menos no segundo turno da eleição.

Bolsonaro vem se orientando por um único parâmetro desde a chegada da Covid-19. É evidente que, na visão dele, os adversários só querem mesmo é usar a pandemia para provocar o colapso econômico, e assim impedir a sua vitória em 2022. Mas tem um detalhe, uma ponta que não fecha.

Qual seria, então, a atitude racional para confrontar essa estratégia inimiga? Concentrar esforços na obtenção de vacinas. Em paralelo, apoiar medidas simples, e economicamente pouco destrutivas, de proteção individual e social (máscaras, higienização etc.), até em contraponto ao radicalismo do “lockdown até a vitória final”. E isso independeria de acreditar, ou não, no efeito curativo dos fármacos que ele propagandeia para a doença.

Vinicius Torres Freire - Liberalismo nacional é uma negociata

Folha de S. Paulo

Lei de privatização da Eletrobras cria mais daqueles favores que emperram crescimento do país

Um motivo da relativa pobreza e do baixo crescimento do Brasil é o mau funcionamento da economia de mercado, se é que “tudo isso que está aí” pode ser chamado assim, de “economia de mercado”. A lei de privatização da Eletrobrás avacalha ainda mais essa geringonça nacional.

A aprovação dessa lei porca e dinheirista foi aplaudida por empresários beneficiados, por governos locais, pelo povo do mercado que tinham comprado ações da empresa e por Paulo Guedes, o tiozão do Whatsapp pinochetista que é a fantasia caricata de liberal do governo de Jair Bolsonaro. Liberal mesmo não tem aí nessa turma. É todo mundo mero negocista ou coisa pior.

 “Economia de mercado” é uma ideia abstrata, um modelo incompreensível ou que desinteressa a maioria das pessoas mesmo quando apresentado na sua versão mais simples. Trocando em miúdos muito grossos, o mercado não funciona ou talvez inexista por aqui porque muita decisão de investimento não é orientada pelo cálculo da rentabilidade do negócio em si, por preços livres e custos, pois tal decisão é influenciada de modo pesado pela “rentabilidade” decidida pelo governo.

Bruno Boghossian - Bolsonaro e os paupérrimos

Folha de S. Paulo

Presidente usa caneta para tirar espaço de Lula em segmento que deve definir eleição em 2022

No meio da semana, Jair Bolsonaro anunciou um aumento de 50% no valor do Bolsa Família. Dias depois, ele se reuniu com donos de supermercados e pediu que eles segurassem os preços dos produtos da cesta básica. Os dois movimentos mostram que o presidente enxerga sua sobrevivência política nas mãos da população mais pobre.

Bolsonaro tenta conter um desgaste que pode custar sua reeleição. Em 2018, ele recebeu um impulso inicial dos brasileiros mais ricos, mas só conseguiu chegar ao Planalto porque conquistou espaço em outras faixas. Números do Datafolha indicam que um de cada quatro votos que ele teve no primeiro turno veio do segmento renda mais baixa.

Ruy Castro - Esbofeteados por Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Quantos de seus eleitores não pegaram Covid e ainda estão lutando contra as seqüelas da gripezinha?

No momento em que você estiver lendo este texto, a Covid terá atingido perto de 18 milhões de brasileiros. Desses, quase meio milhão já perderam a vida, e essa estatística está longe do fim. Mais de 1 milhão estão “em acompanhamento” —na fila por um leito, respirando por uma máquina ou inconscientes numa UTI— e 16 milhões se recuperaram. Dos que morreram ou estão lutando pela vida, só os seus médicos e familiares saberão dizer. Mas, pelos relatórios dos sobreviventes, podemos calcular o que representou para eles ter o inimigo dentro de si.

Imagino que mesmo para os assintomáticos houve certa apreensão ao serem informados de que o teste dera positivo. Quero crer que até os seguidores de Jair Bolsonaro entre eles terão acusado um susto —porque, ainda que convencidos de que a Covid era uma “gripezinha”, como adivinhar como ela se desenvolveria? Claro que, tratados com cloroquina, Coca-Cola e Gatorade, e tendo o vírus cedido espontaneamente, tais infectados se jactaram da eficácia de seu tratamento.

Reinaldo Azevedo - ‘Nem-nem’ é o erro essencial da 3ª via

Folha de S. Paulo

500 mil mortos impõem primeira clivagem ética, e propostas vêm depois

Por que é tão difícil surgir o tal candidato de centro, embora existam políticos qualificados para tanto? A indagação não tem caráter metafísico, e eu não acredito na existência de uma maioria silenciosa à espera de Godot. Até porque o dito-cujo não aparece, certo? Um terceiro nome só se tornará viável se conquistar votos entre eleitores que já falam nas pesquisas —são eles a maioria.

A eleição de 2022 será, sim, fundamental para o futuro do Brasil. Trata-se de saber se a democracia vai ou não sobreviver. Não há risco de um golpe à moda antiga. Há outras formas, algumas já em curso, de pôr a tropa na rua. A milicianização das polícias é um exemplo eloquente do inferno que nos espreita. Que seja esconjurado.

A disputa define, pois, o futuro, mas também é um eco do passado. Vivemos as consequências de uma intervenção no processo eleitoral de 2018 que conduziu a uma artificialização da vida pública. Pouco depois de recuperar seus direitos políticos —que lhe foram arrancados por meio de instrumentos ilegítimos, de legalidade viciada —, Lula passou a ser o favorito na disputa. Seria competitivo ainda que Bolsonaro se comportasse como um estadista.

José de Souza Martins* - O povo brasileiro é objeto do deboche de Bolsonaro

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Somos tratados como inimigos do brasileiro que ele pensa que é, cidadão de quartel

O presidente Alberto Fernández, no dia 9 de junho, reunia-se com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que lhe levara apoio na renegociação da dívida milionária da Argentina com o FMI e o Clube de Paris. Por meio de uma gracinha antidiplomática, quis bajular o chanceler espanhol: “Os mexicanos vieram dos índios, os brasileiros vieram da selva, mas nós, os argentinos, viemos dos barcos. E eram barcos que vinham da Europa”.

A desinformação de Fernández contraria a reputação argentina de país culto, que por muito tempo teve alto padrão de educação, interrompido pela ditadura militar. Um país que tem cinco prêmios Nobel.

Já o México é, provavelmente, o país mais culto da América Latina. Foram justamente os espanhóis que destruíram civilizações na extensa região de que o México era parte. Seus intelectuais são em boa parte mestiços.

Qualquer criança sabe que nós brasileiros não viemos só da selva. Quem dela veio, foi lá buscado e caçado. Somos originários da miscigenação de portugueses e espanhóis com indígenas e africanos. O Brasil de então esteve sob domínio da Espanha de 1580 a 1640.

Bolsonaro é até mais abundante nas gracinhas presidenciais desenxabidas. Só que ele elege como objeto do seu deboche, da sua política de pouco caso, o povo brasileiro. Para ele, nós brasileiros somos estrangeiros de anedota. Somos tratados como inimigos do brasileiro que ele pensa que é, cidadão de quartel.

Maria Cristina Fernandes - A escalada da retórica militar bolsonarista

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Em 30 meses, discurso bolsonarista passa do acerto de contas com a punição de que foi vítima como capitão à pregação ao Exército de que Pazuello deveria ser perdoado porque todos são “seres políticos”

Do acerto de contas com os militares que o puniram e o levaram a deixar o Exército, o presidente Jair Bolsonaro passou, ao longo de seu mandato, a cobrar, das Forças Armadas e policiais militares, a lealdade, acima da Constituição, aos votos que o elegeram. É o primeiro passo para cobrar a adesão dos militares à contestação dos resultados eleitorais de 2022.

É isso que mostra a análise dos discursos presidenciais. A página oficial do Palácio do Planalto na internet registra 64 pronunciamentos, mas nem todos estão lá arquivados, como, por exemplo, aquele dirigido a generais em encontro fechado em São Gabriel da Cachoeira (AM), no fim de maio deste ano. Um trecho desse discurso, porém, foi colocado pelo presidente em suas redes sociais.

De velado, o golpismo nos seus discursos passou a ser escancarado. Se, no início, a presença em cerimônias de formaturas militares lhe servia para lembrar aos jovens que sua indisciplina lhe havia permitido chegar à Presidência, nos últimos tempos Bolsonaro impôs sua versão para o valor da indisciplina aos próprios generais, quando chegou a dizer que todos “eram seres políticos”. Ao longo desse período, Bolsonaro, que chegou a enfatizar, na sua estreia, a importância dos demais Poderes para o equilíbrio constitucional, acabou por apelar, neste ano, ao respeito supremo “de nós, militares” ao povo.

A transição no discurso foi marcada pela aprovação da reforma da aposentadoria e carreira militares, em 2019, que, além de beneficiar mais os altos oficiais, cobrou-lhes uma fatura muito menor do que aquela imposta aos civis pela reforma da Previdência. E também pela elaboração de dois Orçamentos que preservaram o Ministério da Defesa frente à média dos cortes de gastos. A escalada foi marcada ainda por portarias e projetos que aumentaram a entrada, a posse e o porte de armas, além de decisões que diminuíram o poder do Exército no controle dos armamentos.

O que a mídia pensa: Opiniões/Editoriais

EDITORIAIS

Equilibrismo com os juros

O Estado de S. Paulo

Maldição para milhões de famílias, a inflação superou 8% em 12 meses, ameaça romper o teto da meta no fim do ano e parece ter corroído, finalmente, o otimismo do Banco Central (BC). Ao anunciar a nova alta dos juros básicos, desta vez para 4,25%, o Comitê de Política Monetária (Copom) reconheceu: “A persistência da pressão inflacionária revela-se maior que o esperado”, fato já percebido pelas donas de casa. Foi o terceiro aumento consecutivo da taxa básica. Nas três ocasiões o acréscimo foi de 0,75 ponto porcentual. Repetiu-se o degrau, mas a menção a “choques temporários” sumiu dos parágrafos iniciais da nota emitida depois da reunião. Também desapareceu a referência a uma normalização “parcial” dos juros, presente nos dois comunicados.

Mais um ajuste de 0,75 ponto poderá ocorrer na reunião de agosto, segundo o informe. Como sempre, a decisão dependerá, segundo se ressalva, de novas informações. Mas já se aposta, no mercado, numa alta de 1 ponto porcentual. A previsão de 6,25% no fim do ano, indicada pela pesquisa Focus, do BC, pode estar superada. Já se fala em 6,50%.