terça-feira, 22 de junho de 2021

Merval Pereira - A busca do pretexto

O Globo

À medida que vão crescendo os indícios de que o presidente Bolsonaro chegará muito fragilizado à eleição presidencial do ano que vem, vão se multiplicando seus atos tresloucados. A CPI da Covid está chegando perto de uma possível negociata em torno da compra de vacinas e cloroquina, e Bolsonaro reage. É tresloucado um presidente da República de país democrático advertir publicamente que uma “convulsão social” poderá ocorrer se uma de suas vontades não for satisfeita, a aprovação do voto impresso.

Mais claro que isso, só a chantagem implícita na sua advertência. Bolsonaro não está preocupado com a “convulsão social”, mas está criando um clima político favorável a sua eclosão. Faz parte desse projeto de golpe a tentativa de desacreditar os meios de comunicação que não se curvam ao dinheiro do governo ou a suas ameaças.

Como não pode desmentir o êxito das manifestações oposicionistas em todo o país no sábado, Bolsonaro parte para a ignorância, enquanto financia com verbas da União nas redes sociais a disseminação de notícias falsas. Não há lógica em exigir que exista um papel registrando os votos de cada urna, quando já existem várias etapas de auditagem do voto eletrônico, como tem explicado exaustivamente o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além de todas as sete etapas iniciais de checagem, em que diversas organizações representativas da sociedade civil são chamadas a acompanhar — OAB, universidades, Ministério Público, partidos políticos, Congresso —, existe uma oitava auditoria a que o processo eleitoral é submetido. Como o ministro Barroso explicou recentemente no Congresso, “ o que acontece se alguém quiser conferir os votos?”.

Eliane Cantanhêde – O nosso verde e amarelo

O Estado de S. Paulo

Bandeira nacional não é exclusiva dos atos golpistas, nem a do PT é a única nos atos de oposição

As ruas não estão mais dominadas só por atos golpistas, que a pretexto de apoiar o presidente Jair Bolsonaro atacam o Supremo, o Congresso e a mídia e pedem a volta do regime militar. As ruas, agora, voltaram a ter manifestações que, além de serem contra o presidente Jair, defendem a democracia, as vacinas e a vida. E com bons motivos.

Os dois grupos promovem aglomerações, mas um segue o “mito”, com muitos sem máscara, e o outro segue a ciência, como todo mundo de máscara, sim, senhor. Mas há duas grandes novidades: a bandeira verde e amarela do nosso Brasil não é mais exclusividade dos atos golpistas e as bandeiras vermelhas não são mais as únicas nas manifestações de oposição a Bolsonaro.

As imagens das multidões de sábado, em São Paulo, Brasília e por aí afora, são salpicadas de vermelho do ex-presidente Lula, dos sindicatos e movimentos sociais ligados ao PT, mas elas mostram também faixas, cartazes e manifestantes em cores neutras ou ostentando o verde e amarelo, que é de todos, não de bolsonaristas nem de petistas.

Luiz Carlos Azedo - Um ataque de nervos

Correio Braziliense

O comportamento do presidente da República é de quem se sente acuado pela oposição, em razão do desgaste causado por mais de 500 mil óbitos por covid-19

O presidente Jair Bolsonaro teve um chilique ontem, em Guaratinguetá (SP), ao ser questionado pelo fato de não ter, até então, manifestado nenhum pesar pela marca de 500 mil mortos por covid-19 que o Brasil alcançou no fim de semana. Bolsonaro disse que lamenta todos os óbitos, porém defendeu o uso de medicamentos ineficazes contra o novo coronavírus e depois destratou a repórter Laurene Santos, da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo, porque ela perguntou a razão de ele ter chegado à cidade sem máscara, mesmo após ser multado recentemente em São Paulo por não usar a proteção. Bolsonaro também atacou a CNN e a TV Globo.

“Eu chego como eu quiser, onde quiser, eu cuido da minha vida”, respondeu Bolsonaro, ao tirar a máscara e destratar a repórter. Em seguida, tirou novamente a máscara. A repórter tentou explicar que o uso da máscara é exigência da lei. Entretanto, descontrolado, o presidente mandou a jornalista calar a boca e xingou a emissora. Em protesto, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jeronimo, emitiu uma nota em nome da instituição, repudiando o corrido, em tom duríssimo: “Renuncie, presidente!”

Diz a nota: “Descontrolado, perturbado, louco, exaltado, irritadiço, irascível, amalucado, alucinado, desvairado, enlouquecido, tresloucado. Qualquer uma dessas expressões poderia ser usada para classificar o comportamento do presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira, insultando jornalistas da TV Globo e da CNN”. Segundo a entidade, “diante da rejeição crescente a seu governo, Bolsonaro prepara uma saída autoritária e, mesmo a um ano e meio da eleição, tenta desacreditar o sistema eleitoral. Seu objetivo é acumular forças para a não aceitação de um revés em outubro de 2022”.

Andrea Jubé - Crime e castigo

Valor Econômico

Uma morte é uma tragédia, um milhão é uma estatística

Em nota de pesar divulgada no sábado, quando o Brasil atingiu a trágica marca de 500 mil mortes pela covid-19, a cúpula da CPI da Covid assegurou que o castigo virá, e os responsáveis “serão punidos exemplarmente”. Os senadores enfatizam que “crimes contra a humanidade, os morticínios e os genocídios não se apagam, nem prescrevem”.

Foi uma manifestação contundente, que coincidiu com a segunda edição dos protestos pelo “fora, Bolsonaro”, por mais vacinas, e pela volta do auxílio emergencial de R$ 600. O fórum de organizadores contabilizou 427 atos em 366 cidades, incluindo as 27 capitais. Drones registraram imagens da Avenida Paulista, o farol da insatisfação popular, com nove quarteirões tomados por uma multidão de descontentes.

A despeito do empenho dos dirigentes da CPI, a imputação da culpa pelas mortes na pandemia, e consequente punição, implica uma corrida de obstáculos. Após o relatório final propondo indiciamento dos responsáveis, virão a pressão para que a Procuradoria-Geral da República instaure inquéritos, o Poder Judiciário conduza ações penais em ritmo razoável, respeitem-se o contraditório e a ampla defesa, até o julgamento final. O mais provável, no curto prazo, é que o efetivo julgamento dos responsáveis somente se materialize nas urnas.

Nesse cenário, os senadores deveriam dividir os esforços na busca pelas provas irrefutáveis, com a busca pela comoção social. A estatística impressiona, mas não emociona todos os brasileiros.

Ricardo Noblat -De volta aos velhos tempos em que civis eram julgados por militares

Blog do Noblat / Metrópoles

A Lei de Segurança Nacional não perdeu a validade. Finge-se de morta, mas está vivinha da silva

CPI sabe-se o que é, quando nada porque tem uma aberta por aí a despertar os instintos mais primitivos do mais primitivo presidente desde o fim da ditadura militar de 64. Por via das dúvidas, CPI quer dizer Comissão Parlamentar de Inquérito.

IPM só sabe o que é os maiores de 60 anos de idade, e os militares; quer dizer Inquérito Policial Militar, uma arma fartamente usada durante a ditadura para perseguir os adversários do regime, fossem eles culpados de alguma coisa ou inocentes.

Em 1965, com a promulgação do segundo Ato Institucional, o julgamento de civis acusados de crimes políticos saiu da órbita do Supremo Tribunal Federal e passou para a do Superior Tribunal Militar. Gente comum passou a ser julgada por militares.

Por crimes políticos, entenda-se qualquer ato tido vagamente como “subversivo” e passível de ser enquadrado em um dos muitos artigos da Lei de Segurança Nacional, que por sinal não perdeu ainda a validade. Está vivinha, fingindo-se apenas de morta.

Rubens Barbosa* - Um Partido Militar

O Estado de S. Paulo

A participação dos militares no governo é movimento consciente e organizado, diz coronel

O papel das Forças Armadas e a relação entre civis e militares são tópicos de grande atualidade. Acontecimentos recentes mostram a delicadeza do assunto. Nos EUA o poder civil (presidente Trump) quis envolver os militares na política e na França militares da reserva pediram abertamente a seus colegas da ativa que derrubassem o presidente Macron. Na França, a ministra da Defesa tomou medidas para sufocar o início de rebelião dos militares da reserva. Nos EUA, o chefe do Estado-Maior conjunto das Forças Armadas fez pronunciamento dizendo que os militares não participam da política e se dissociou publicamente de Trump.

Em artigo no número atual da revista Interesse Nacional (www.interessenacional.com.br), o coronel da reserva Marcelo Pimentel oferece uma nova visão sobre o papel das Forças Armadas no atual cenário político ao descrever a participação dos militares no governo como um movimento consciente e organizado. Pimentel indica que existe um Partido Militar no governo. “A direção é composta por núcleo restrito que controla, dirige, orienta e gerencia o governo, o presidente e as próprias narrativas, sempre no sentido da facilitação do objetivo comum a todo partido: a conquista do poder (já alcançado) e sua manutenção (em processo)”. O Partido Militar não pode ser confundido com mera “ala militar” em oposição a uma “ala ideológica” no governo. “Há dois anos e meio, o Brasil possui, de fato, um governo militar controlado por partido informal que manobra os processos narrativos para ocultar a operação de seu mais evidente agente – o capitão”. “Embora assuma papel central-catalisador nos processos de politização/militarização que integram o fenômeno, o presidente não é figura dirigente e deliberante no Partido”.

Nem sempre é assim, mas essa interpretação explicaria a crescente participação de militares da ativa e da reserva no governo (mais de 6 mil, segundo o TCU), com interesses concretos que buscariam ser preservados, e a politização das Forças Armadas (14 dos 17 generais de Exército que integravam o Alto Comando do Exército em 2016 ocupam cargos políticos no governo). Todos com “autorização dos comandantes das três forças para ser nomeado ou admitido para cargo, emprego ou função pública civil temporária, não eletiva, inclusive da administração indireta”.

Carlos Andreazza - Liberalismo pirata privatiza

O Globo

Abra-se este artigo com um assentamento: escreverá aqui — contra a pirataria apregoada como desestatização — alguém a favor da capitalização da Eletrobras. A favor de que seja diluída, sob oferta ao mercado, a participação da União na empresa até que perca o lote majoritário. A favor; porque impossível ao Estado dar à companhia as condições de modernização mínimas necessárias para a provisão de segurança energética ao povo.

A favor, portanto. Mas não a qualquer custo. E, certamente, não para que usineiros sem gás — e senadores sem gasodutos e vergonha — ergam suas termelétricas; e desde já com a segurança não competitiva de muitos mil megawatts contratados, depois de muitos milhões despejados em obras para deleites paroquiais. Não para que sejam contemplados com subsídios infinitos os que fogem de concorrer livremente e que sempre têm parlamentares para lhes financiar — com dinheiro alheio — o capitalismo de compadrio.

Não a qualquer custo, portanto. Nem de qualquer maneira.

Falemos, pois, do modo. A forma importa. O texto original do Ministério da Economia era razoável. Uma operação de tal monta, porém, jamais poderia ser proposta por meio de medida provisória. Instrumento errado; afronta ao processo legislativo. Escolha do governo, com o assentimento de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco. Já de largada um convite à judicialização. Já de início também o Planalto e os comandos do Congresso expondo a intenção de explorar os prazos curtos de tramitação de uma MP para aterrar o debate e passar o trator. Conseguiram; ao que decerto terá contribuído, sobretudo no Senado, a natureza do plenário virtual, paraíso para a imposição do rolo compressor.

Míriam Leitão - Reformas para o projeto autoritário

O Globo

Hoje, o presidente pode nomear seis mil pessoas que não fazem parte do setor público para os cargos em comissão. Com a reforma administrativa, poderá nomear 90 mil. Pessoas estranhas ao serviço público poderão exercer funções estratégicas. O governo poderá pagar o salário de funcionários de empresa privada. Tudo isso para economizar recursos? Não. No próprio texto da exposição de motivos está dito que não haverá impacto fiscal, orçamentário ou financeiro. A reforma administrativa é mais uma das propostas do governo Bolsonaro que serve a seu projeto de poder que, todos sabemos, é autoritário.

O mercado financeiro espera “as reformas” como um fetiche, afirmando que com elas o país retomará o crescimento e vai estabilizar a dívida pública. Balela. A MP da venda da Eletrobras virou um monstrengo, que custará caro ao consumidor por vários anos, mas tanto para o ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto para o mercado financeiro, isso não importa. O ministro quer reduzir um pouco o fiasco que é o seu programa de privatização, e o mercado quer ganhar dinheiro com a operação.

Rudinei Marques, presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado, explica a mágica da multiplicação dos cargos que poderão ser ocupados por decisão única do governante de ocasião:

— A PEC permite um aparelhamento sem precedentes do Estado. Através do que eles chamam de “vínculos de liderança”. Hoje a Constituição diz que na administração pública há funções de confiança específica de servidores de carreira e cargos em comissão que podem ser ocupados por pessoas sem vínculos com a administração pública dentro de limites fixados pela lei. Hoje, a União tem 90 mil desses cargos, 70 mil são funções de confiança exercidas exclusivamente por servidores de carreira e os outros 20 mil são cargos em comissão. Desses, seis mil são livre provimento, e 14 mil devem ser ocupados por servidores. Os vínculos de liderança eliminam qualquer restrição a que todos esses cargos sejam de livre indicação política. Então estamos falando de um exército de 90 mil cabos eleitorais.

Felipe Salto* - O andor cambaleia e o santo é de barro

O Estado de S. Paulo

O ímpeto gastador vem do governo, que já discute dar reajustes ao funcionalismo

A economia brasileira não está melhorando de verdade. A alta dos preços das commodities caiu do céu como um amargo maná: esconde a precariedade do mercado de trabalho e da renda das famílias. Pior, dá vazão à sanha por aumentos de gastos não relacionados ao essencial, isto é, guarnecer as famílias que perderam emprego e renda na pandemia e pavimentar a reconstrução do País.

Os governos têm o condão de definir políticas públicas de saúde, educação, meio ambiente, infraestrutura, combate à pobreza, etc. Mas desta vez o vento de cauda oriundo das commodities encontrou uma nau sem rumo. Acabamos de assistir à confusão no Orçamento de 2021. No ano que vem, a ajuda camarada da inflação vai abrir uma folga no teto de gastos em pleno ano eleitoral.

A Instituição Fiscal Independente (IFI) estima que o produto interno bruto (PIB) crescerá a 4,2% em 2021, podendo alcançar 5,4% no cenário otimista. Esse crescimento ocorrerá em cima da recessão de 4,1% em 2020. No biênio, mesmo com a taxa otimista, cresceremos a 0,5% ao ano, abaixo da média de 1,5% entre 2017 e 2019. O Brasil está semiestagnado. Sem um plano nacional coeso, permanecerá assim.

De fato, a alta dos chamados termos de troca – razão entre os preços das exportações e das importações – reflete a dinâmica positiva dos produtos primários. Mais de dois terços das exportações do País são commodities. Na comparação entre março deste ano e o mesmo mês de 2020, os termos de troca aumentaram 20%.

Essa ajuda externa estimula o agronegócio, que cresceu a 5,7% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao último de 2020, enquanto a indústria subiu apenas 0,7%. Contudo os preços das commodities já atingiram o pico de 2011 e a duração do ciclo é incerta. Como naquele samba, “nada dura eternamente, tudo na vida é ilusão”.

Pedro Cafardo - As lições da Europa sobre fiscalismo radical

Valor Econômico

Situação fiscal da União Europeia está muito longe de cumprir os objetivos do Tratado de Maastrich

Pouco destaque teve por aqui uma notícia importante sobre a União Europeia. Na quarta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leven, foi a Madri e Lisboa para anunciar a aprovação dos planos de recuperação econômica de Espanha e Portugal, que receberão, respectivamente € 70 bilhões e € 16 bilhões. Na quinta-feira e na sexta-feira, Ursula visitou Dinamarca, Luxemburgo e Grécia com o mesmo objetivo.

A notícia não é importante apenas pelos valores bilionários a ser liberados para investimentos pós-pandemia em países membros - o plano, chamado “Next Generation EU”, distribuirá € 750 bilhões (R$ 4,5 trilhões), a maior parte sob a forma de subvenções, ou seja, transferências a fundo perdido. É importante também porque a iniciativa pode indicar o início de uma mudança histórica. Em crises anteriores, sob o comando da ortodoxia alemã, a UE agiu com mão de ferro e fiscalismo radical contra membros mais pobres. Exigiu austeridade e impôs uma política macroeconômica que agravou problemas sociais desses países e travou seu crescimento econômico.

Um primoroso trabalho acadêmico feito por dois economistas espanhóis, catedráticos da Universidade do País Basco, Jesús Ferreiro e Carmen Gómez, mostra o impacto negativo dessa ortodoxia econômica em toda a zona do euro. Ferreiro apresentou o trabalho no dia 12 durante o SDMRG International Workshop.

O “paper” é amplo e técnico, denominado “Fiscal policy and long-term economic growth: lessons from the Euro Area”. Chama a atenção um gráfico que compara os crescimentos econômicos na zona do euro com os dos demais blocos de países avançados ou emergentes.

Hélio Schwartsman - Como Bolsonaro não foi deposto?

- Folha de S. Paulo

A pergunta cabe já que temos 700 mil mortos, pois a subnotificação é quase universal, e 70 milhões de jovens contra o presidente

O fim de semana foi agitado, mas as duas grandes notícias do feriado, os 500 mil mortos e as manifestações contra Bolsonaro, não me comovem muito. Calma, eu explico. Cada uma das mortes é uma tragédia e ver as pessoas se mobilizando para depor o pior presidente da história é positivo. Receio, porém, que a forma como essas notícias se colocam obscurece a gravidade da situação.

Meu pendor racionalista faz com que eu não veja diferença de escala ou essência entre 500.000 e, digamos, 502.324, mas, mesmo que aquiesçamos ao fetiche humano por números redondos, a marca do meio milhão já foi ultrapassada um bom tempo atrás.

O fenômeno da subnotificação é quase universal. Até há países como a Bélgica em que o cômputo dos óbitos pelo Sars-CoV-2 é praticamente o mesmo que o do excesso de mortes em relação a anos não pandêmicos, só que isso é uma raridade. Na maioria das nações, a contagem oficial fica sistematicamente abaixo da de óbitos não esperados. Em casos extremos, como o de alguns estados indianos, o número real de vítimas pode ser até dez vezes maior que o oficial.

Joel Pinheiro da Fonseca - Vale dar palco a um negacionista na CPI?

Folha de S. Paulo

Osmar Terra pode responder questões sobre gabinete paralelo e cloroquina

Questiona-se se é uma boa ideia colocar o deputado Osmar Terra para depor na CPI. Afinal, o deputado, ao longo de 2020, defendeu o uso de cloroquina e, com mais insistência, a imunidade de rebanho.

Na previsão do deputado, o Brasil teria menos de 800 mortos no total (previsão repetida pelo presidente em live). E estávamos sempre às vésperas do fim da pandemia: maio, junho, setembro, dezembro; a imunidade de rebanho estava sempre ali do lado, já ia chegar. No mundo real, as mortes se acumulavam e não paravam de subir. Até hoje não se desculpou. Não duvido que já esteja prevendo imunidade de rebanho para julho.

O receio de quem critica sua ida à CPI é que, com isso, dar-se-á palco ao charlatanismo que ele vem defendendo. Esse receio faria sentido algumas décadas atrás. No passado, manter alguém fora dos meios institucionais da comunicação —as colunas de jornais, entrevista na TV, cadeiras universitárias ou mesmo um depoimento público numa CPI— era de fato limá-la do debate público. Suas visões jamais chegariam ao grande público.

Câmara discute sistema eleitoral que une distritão e voto proporcional

Modelo misto foi apresentado pela deputada Renata Abreu, que negocia com partidos, mas enfrenta resistências

Sérgio Roxo / O Globo

SÃO PAULO — Diante do impasse sobre a mudança do sistema eleitoral do Legislativo, a relatora da proposta na Câmara, Renata Abreu (Podemos-SP), passou a apresentar aos partidos a alternativa de um modelo misto, em que metade dos deputados seria eleita da forma atual e a outra parte pelo distritão.

Criticado por cientistas políticos, o distritão prevê que os candidatos mais votados em cada estado fiquem com as vagas. Já no sistema em vigor, o proporcional, a definição é feita levando em conta os votos em todos os candidatos do partido e em legenda. Mesmo quando um candidato recebe poucos votos, acaba ajudando a sua sigla a ter mais representantes na Câmara

No modelo misto desenhado por Renata Abreu, no Rio, por exemplo, que tem 46 vagas na Câmara, os 23 candidatos mais votados estariam eleitos, e seus votos não entrariam na conta que definiria os outros 23 escolhidos de forma proporcional.

A relatora diz que a proposta do distritão misto é uma tentativa de romper as resistências dos partidos de esquerda e centro-esquerda. Caso não haja adesão dessas legendas, a tendência é o que o distritão puro seja levado adiante.

— Tem duas propostas na mesa hoje: o distritão misto ou fazer alguma transição para chegar ao distrital misto, que pode ser o distritão ou (a volta) das coligações.

O sistema distrital misto prevê a divisão do país em distritos que elegeriam cada um seu deputado. A outra metade seria escolhida pelo sistema atual. De acordo com a relatora, esse modelo entraria em vigor em 2026.

Pressionado por pandemia e atos, Bolsonaro xinga imprensa

Presidente perde controle, retira a máscara e manda repórter calar a boca após atos contra o governo e País chegar a 500 mil mortes por covid

O Estado de S. Paulo

O presidente Jair Bolsonaro se descontrolou ontem ao ser questionado por uma jornalista sobre o fato de não usar máscara e sobre multa recebida em São Paulo por isso. Bolsonaro dava entrevista em Guaratinguetá (SP) e, aos gritos, mandou a repórter calar a boca e xingou a imprensa. Bolsonaro foi alvo de protestos no fim de semana, quando o País atingiu a marca de 500 mil mortos por covid.

“Estou sem máscara em Guaratinguetá. Está feliz agora? Você está feliz agora?” JAIR BOLSONARO, ao responder a repórter

Sob pressão diante do número alarmante de mortes por covid-19 e da perda de popularidade, o presidente Jair Bolsonaro reagiu ontem com fúria ao ser questionado sobre o fato de chegar a um evento sem máscara. No momento da entrevista, ele retirou a proteção facial e, aos gritos, mandou uma repórter calar a boca. Bolsonaro disse ser alvo de “canalhas”, pediu “pergunta decente” e mostrou descontrole.

A cena ocorreu em Guaratinguetá (SP), após participação do presidente na cerimônia de formatura de sargentos da Escola de Especialistas de Aeronáutica, dois dias depois de manifestações de rua, em todo o País, cobrarem o seu impeachment.

Questionado pela repórter da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo, sobre o fato de chegar ao local da solenidade sem máscara, quando o Brasil já ultrapassa a marca de 500 mil mortes por coronavírus, Bolsonaro ficou furioso. “Olha, eu chego como eu quiser, onde eu quiser, está certo? Eu cuido da minha vida. Parem de tocar no assunto”, disse ele, sem esconder a irritação.

Furioso, Bolsonaro tira máscara, manda repórter e equipe calarem a boca, reclama da CNN e ataca a Globo

Nessa mesma entrevista no interior de SP, presidente voltou a defender medicamento sem eficácia contra a Covid

João Valadares / Folha de S. Paulo

RECIFE - Num momento em que o país supera 500 mil mortes pela Covid e que é alvo de protestos a favor do impeachment, o presidente Jair Bolsonaro reagiu com agressividade a perguntas feitas a ele nesta segunda-feira (21) em Guaratinguetá, no interior de São Paulo.

Antes de interromper abruptamente uma rápida entrevista, o presidente mandou uma repórter e integrantes da sua própria equipe calarem a boca, tirou a máscara, reclamou da CNN Brasil e fez ataques à TV Globo.

O presidente se irritou inicialmente após ser lembrado que havia sido multado pelo Governo de São Paulo por não ter usado máscara de proteção durante uma motociata no último dia 12.

Após citar a utilização de capacete como justificativa naquele caso, foi questionado por chegar ao evento em Guaratinguetá sem máscara e respondeu: "Eu chego como quiser, onde eu quiser, eu cuido da minha vida. Se você não quiser usar máscara, você não usa".

A irritação do presidente ocorre num momento de pressão por uma sequência de fatos negativos ao governo.

Além das críticas diante da marca de 500 mil mortes pela Covid e dos protestos que ganharam corpo nas ruas no sábado (19), Bolsonaro teve queda de popularidade nos últimos meses, enfrenta desgaste com a CPI da pandemia no Senado e viu seu principal rival potencial para 2022, o ex-presidente Lula, ganhar projeção.

Levantamento do Datafolha em maio mostrou o petista com 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro, no cenário eleitoral para o ano que vem. No segundo turno, Lula venceria por 55% a 32%.

O vídeo com a entrevista do presidente nesta segunda-feira foi postado nas redes sociais por um canal bolsonarista.

"CNN? Vocês elogiaram a passeata agora de domingo, né? Jogaram fogos de artifício em vocês e vocês elogiaram ainda", afirmou Bolsonaro a repórteres, em uma referência aos protestos do último sábado que reuniram milhares de manifestantes pelo país para pedir mais vacina e a saída do presidente.

Sobre o não uso de máscara na motociata de São Paulo, o presidente afirmou: “Eu estava com capacete balístico a prova de 762 [durante passeio de motocicleta em São Paulo no último dia 12]. Então, vou ser multado toda vez que andar de moto por aí? Porque eu sou alvo de canalhas do Brasil", disse o presidente, antes de interromper a entrevista e se dirigir a assessores posicionados atrás dele. "Dá pra calar a boca aí atrás, por favor?"

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

500 mil mortos

O Estado de S. Paulo

Há algo de profundamente perturbador quando parte da sociedade, estimulada pela desumanidade do governo de Jair Bolsonaro, considera natural a morte de meio milhão de conterrâneos na pandemia de covid-19. O choque é ainda maior quando se constata que muitos desses brasileiros mortos poderiam ter sobrevivido, não fosse a inépcia criminosa do governo, resultado direto do comportamento irresponsável do presidente.

Bolsonaro não se sentiu obrigado a dirigir nenhuma palavra de conforto e pesar quando a terrível marca de 500 mil mortos foi atingida. É como se essas vítimas não fossem dignas de luto.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, foi didático ao explicar por que não se deveria lamentar a morte de 500 mil brasileiros. No Twitter, escreveu: “Em breve vocês verão políticos, artistas e jornalistas ‘lamentando’ o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do ‘quanto pior, melhor’. Infelizmente, eles torcem pelo vírus”.

Na lógica bolsonarista, portanto, comover-se ou revoltar-se com a morte de meio milhão de brasileiros equivale a “torcer pelo vírus” contra o Brasil. O importante, segundo o sequaz do presidente, é “comemorar” vacinas que Bolsonaro sabotou (e continua a sabotar, duvidando de sua eficácia) e os milhões de curados de uma doença cuja letalidade média é de 1% no mundo, mas que no Brasil superou 4% em março, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Ou seja, o Brasil do ministro Fábio Faria poderia ter mais vacinas e menos óbitos, mas escolheu deliberadamente ter menos imunizantes e incitar seus cidadãos a se exporem a uma doença fatal.

Ao menosprezar os que morreram, o governo os trata como fracos que faleceriam de qualquer maneira, seja pela idade, seja por terem “comorbidades”. Em março passado, quando mais uma vez estimulou os brasileiros a ignorarem medidas de isolamento social, Bolsonaro disse que “temos que enfrentar os problemas, respeitar obviamente os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades”. A respeito dos mortos, declarou na mesma ocasião: “Chega de frescura, de mimimi! Vão ficar chorando até quando?”.

Poesia | Bertolt Brecht - Expulso por bom motivo

 

Música | Chico César / Elba Ramalho - A Prosa Impúrpura do Caicó / Asa Branca

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Alberto Aggio* - Uma eleição plebiscitária

Blog Horizontes democráticos

O tema eleitoral tomou conta da conjuntura política nacional. O retorno de Lula ao centro da cena colocou, pela primeira vez, uma contraposição à permanente intenção de Bolsonaro em referenciar essa questão exclusivamente a ele, coisa que fez desde o início do mandato. Depois disso foi inevitável que os outros atores se movessem. Como isso não vai parar é preciso dar um sentido positivo ao movimento.

Outros elementos que informavam a conjuntura ganharam outro peso. O tema do impeachment reduziu seu potencial em função da ocupação bolsonarista do centro de decisão das pautas da Câmara dos Deputados. Esse se constituiu no ponto nevrálgico da “guerra de posições” conduzida por Bolsonaro. Afirmar que o impeachment é a luta pelo impeachment reduziu-se a um fato agitativo, que mobiliza, mas dificilmente se tornará real. Por outro lado, a vigência da CPI da Covid, passou a representar um oásis na dinâmica parlamentar, uma vez que se tornou o único espaço no qual se exercita verdadeiramente a prática republicana que os brasileiros esperam de seus representantes. Ela contradita a lógica regressiva que predomina na Câmara dos Deputados, sob o comando de Arthur Lira, mantendo a imagem negativa do Parlamento na opinião pública.

Dominado pelo tema eleitoral e marcado por delimitações de campos quase imutáveis, com Bolsonaro e Lula definindo a polarização primária da conjuntura e o centro político ainda buscando sua própria definição – não apenas de nome para suas candidaturas, diga-se –, caímos, sem remissão, no terreno da “pequena política”. Nela, como nos mostra Gramsci, as disputas se dão “no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre diversas frações de uma mesma classe política”.

Entrevista | Eduardo Giannetti: “Temos dois candidatos que dividem o país”

Para Eduardo Giannetti, polarização faz crescer o risco de um bolsonarismo extremado em 2022

Por Célia de Gouvêa Franco / Valor Econômico

SÃO PAULO - Os partidos do campo democrático progressista precisam se organizar para construir uma candidatura competitiva a presidente da República para a campanha do próximo ano ou o Brasil corre o risco de ter que conviver com o bolsonarismo revigorado. A decisão do PSDB e do PT de se aliarem a forças - “sinistras” - enquanto estavam no poder em vez de trabalharem em conjunto em favor de princípios que lhes são comuns, como a defesa da democracia e de políticas de redução da desigualdade e de valorização do meio ambiente e da cultura, já causou estragos, tendo sido fator importante na eleição de Jair Bolsonaro.

As afirmações são de Eduardo Giannetti, economista com doutorado em Cambridge e autor de uma série de livros, o mais recente “O Anel de Giges”. Nesta entrevista, ele traça um cenário perturbador para o país com a possibilidade de polarização na campanha de 2022 entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Giannetti imagina que a maioria dos brasileiros, inclusive ele, rejeita a possibilidade hoje mais provável para o segundo turno - Bolsonaro versus Luiz Inácio Lula da Silva. Ele teme que a polarização entre os dois volte a dividir o país ao meio. “Acho que corremos um risco institucional se esticarmos essa corda até o limite com dois candidatos que despertam sentimentos muito violentos a favor e contra.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Como o senhor analisa a atual situação do Brasil, especialmente o cenário político?

Eduardo Giannetti: O Brasil está diante de uma encruzilhada em 2022. Olhando em retrospecto a experiência da redemocratização, é possível constatar que houve um caminho bastante coerente de experimentação das forças democráticas que foram gestadas durante o regime militar. Primeiro, tivemos a grande força oposicionista ao regime militar que foi o MDB de Ulysses Guimarães e [José] Sarney; depois o PSDB, liderado pelo Fernando Henrique Cardoso, viabilizado pelo sucesso do Plano Real, e, por fim, a última grande força democrática de oposição ao regime militar, o PT, com a eleição do Lula, que teve sequência com o governo da Dilma [Rousseff]. A única peça que não se encaixa nesse enredo foi o [Fernando] Collor, rapidamente expelido da cena pelo impeachment. É curioso que as grandes forças democráticas surgidas durante o governo militar tiveram sua chance de exercer o poder e mostrar a que vieram. O impeachment da Dilma e a eleição do Bolsonaro demarcam o fim desse ciclo, com a interrupção violenta de um mandato, no caso da Dilma, e a eleição de um “outsider”, Bolsonaro, que mergulhou o país numa aventura muito perigosa. E agora estamos diante de uma encruzilhada porque a eleição do Bolsonaro fratura o Brasil. Acredito que se as forças de oposição do campo democrático progressiva não conseguirem construir uma candidatura real, competitiva, corremos o risco de ter um bolsonarismo revigorado em 2022.

Valor: Como o senhor explica a eleição do Bolsonaro?

Giannetti: É lógico que há um grande número de variáveis que influenciaram a eleição, inclusive fatores aleatórios, como a facada. Mas acredito que um fator que todos nós do campo democrático deveríamos considerar é que o fato de não se ter conseguido trabalhar cooperativamente durante a redemocratização abriu o caminho para a ascensão de um candidato populista de direita radical. Tanto o PSDB como o PT, quando estiveram no poder, preferiram se aliar ao que há de mais sinistro na política do que trabalhar de forma conjunta e cooperativa. O que é muito estranho porque na essência programática - é claro que há muitas divergências entre eles - há forte sobreposição de valores e propostas. Mas acabou prevalecendo um certo sectarismo que impediu as forças democráticas, quando foram situação, de unir forças para avançar num projeto comum de redução da desigualdade, de preservação do meio ambiente, de aperfeiçoamento da democracia.

Entrevista | Tasso: Candidato de centro não precisa ser do PSDB

Para senador tucano, aliança de partidos em 2022 para enfrentar polarização é uma ‘possibilidade concreta’

Eduardo Laguna e Ernani Fagundes / O Estado de S. Paulo

Apontado como um dos “presidenciáveis” do PSDB para a eleição de 2022, o senador Tasso Jereissati (CE) disse neste domingo, 21, ver como uma “possibilidade concreta” a formação de uma aliança de forças políticas de centro para fazer frente à polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para Tasso, o candidato que represente este campo não necessariamente tem de ser do PSDB. “Não precisa ser do nosso partido”, disse o parlamentar, referindo-se ao nome que lideraria a coalizão. 

Ao participar de videoconferência do grupo Parlatório S.A., o senador cearense disse que a viabilidade de uma candidatura alternativa, a chamada terceira via, na corrida ao Palácio do Planalto do ano que vem, vai depender da pressão popular. “Se houver pressão da opinião publica, a possibilidade se torna mais concreta ainda”, afirmou o tucano. 

Tasso é um dos quatro nomes cogitados para ser o candidato presidencial do PSDB em 2022. Além do senador, concorrem ao posto os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. As prévias do partido estão marcadas para novembro. 

Questionado sobre a atuação do PSDB na corrida presidencial, Tasso defendeu a unidade da legenda e respondeu que as prévias tucanas também fazem parte da estratégia eleitoral para 2022. “Uma característica positiva que o PSDB tem é de ser um partido democrático, e, encontramos uma solução democrática. As prévias também são uma estratégia eleitoral”, disse. “Veja o caso dos Estados Unidos, onde há prévias. (...) Se você entrar do zero para alçar voo depois é muito difícil. Essa é uma das estratégias, e, depois da prévia, todo mundo vai entrar em campo para jogar junto”, afirmou o senador tucano. 

Entrevista | Jairo Nicolau: ‘Brasil tenta aprovar ‘pior sistema eleitoral do mundo’

Para cientista político, trocar eleições proporcionais por ‘distritão' não fortalece partidos, não aumenta legitimidade nem torna eleições mais baratas: ‘só beneficia os políticos que o defendem’

Adriana Ferraz / O Estado de S. Paulo

Desde 1998, quando participou pela primeira vez de uma comissão criada pela Câmara dos Deputados para debater reforma política, o pesquisador Jairo Nicolau se vê diante da proposta de o Brasil trocar seu atual sistema eleitoral, que hoje funciona de forma proporcional, pelo chamado distritão. “Mas é inacreditável que o Brasil, numa hora dessas, com tantos desafios, esteja tentando aprovar o pior sistema eleitoral do mundo”, disse, em entrevista ao Estadão

Para Nicolau, fora a simplicidade do modelo (no distritão são eleitos os deputados mais votados por Estado, descartando-se os votos na legenda), não há qualquer virtude na troca. “Não fortalece partidos, não aumenta a legitimidade eleitoral, não torna as eleições mais baratas. Só beneficia os políticos que o defendem.” 

Ele avalia ainda que temas como sistema eleitoral, voto facultativo e candidatura avulsa – todos atualmente em debate – deveriam ser tratados por uma Assembleia Constituinte e com participação popular, o que não é o caso das discussões de agora na Câmara. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O Brasil precisa de uma nova reforma político-eleitoral?

Todo país pode discutir suas instituições, seu pacto social. O Chile está passando por isso, é natural. Mas não pode ser feito dessa forma, com deputados que não são especialistas no tema, sem audiências públicas e com essa agenda. Os temas tratados são dignos de uma Constituinte. E olha que as Constituintes de 1946 e 1988 não mexeram em nada disso, mantiveram a representação proporcional, a desigualdade da representação dos Estados na Câmara, o voto obrigatório. São escolhas que têm a ver com a nossa cara como democracia, como República.

O distritão também voltou a ser cogitado. Qual sua opinião?

É o tipo de solução para um problema que ninguém apresentou. Preferência por sistema eleitoral não é como preferência por um tipo de filme. Eu gosto de western, outros gostam de filme romântico. Não é assim que funciona. Vamos agora entrar no sistema de comédia pastelão? A gente tem uma escolha institucional que pode não estar funcionando, mas, dentro do cardápio de sistemas eleitorais testados no mundo, esse ou aquele são soluções para resolver tal problema. E o distritão resolve qual problema?

Fernando Gabeira - Saudades do Brasil

O Globo

"Oi zum zum zum zum zum zum zum, tá faltando um." Quando leio sobre o encontro do G7, sobretudo sobre a agenda, lembro-me dessa antiga canção. O Brasil está à deriva nas relações internacionais, mas teria muito a contribuir neste momento da história da humanidade.

Bolsonaro jamais seria convidado para um encontro desse tipo, pois, em qualquer parte do mundo, atrairia grandes manifestações de protesto.

Um dos pontos da agenda foi a crise ambiental. O Brasil teria muito a dizer sobre isso, embora as decisões tenham se concentrado na produção carvoeira, que está com os dias contados.

O Brasil teria muito a falar sobre a importância do comércio de carbono, uma vez que suas florestas mantêm toneladas de CO2 sepultadas sob as árvores. Estamos tanto à deriva que nem nos damos conta disso. Nem sequer nos damos conta de que a crise hídrica que se aproxima, com reflexos no consumo de energia, resulta parcialmente das queimadas e do desmatamento na Amazônia.

Se depender do primeiro tópico da agenda, Bolsonaro seria justamente vaiado, e o Brasil perdeu seu discurso, não consegue nem estabelecer mais conexões entre os elos de sua crise ambiental.

Marcus André Melo - Marginais no poder?

Folha de S. Paulo

Como atores nas franjas do sistema tornam-se protagonistas em democracias

Como partidos (movimentos) nas franjas do sistema político tornam-se atores centrais? Na atual onda populista, a tendência é acompanhada de um processo de destruição criadora pela qual agremiações longevas são eclipsadas pelos novos entrantes. Veja, entre outros, a Front National (agora RN) e o virtual desaparecimento do PS francês; os Verdes e o declínio do SPD alemão; ou o M5S ou Lega na Itália, após o colapso de seu sistema partidário.

Esses partidos comportam-se inicialmente como startups monotemáticas focando as migrações, União Europeia, e meio ambiente que são ortogonais à dimensão redistributiva que vertebra o sistema político durante décadas, ancorada em questões como distribuição de renda e emprego. Na Europa, foram criados 110 partidos deste tipo entre 1960 e 2010, e muitos surgiram depois. Em 18 países, 25% deles ultrapassaram o limiar de 5% do eleitorado.

Eles tornam-se competitivos porque introduzem novas dimensões da competição política em conjunturas críticas após choques, como mostram De Vries e Holbot; os partidos dominantes reagem aos novos temas absorvendo-os ou rechaçando-os. Muitos falham. Os principais perdedores têm sido os partidos socialistas e social-democratas. O choque da dupla crise econômica e migratória a partir de 2010 foi o divisor de águas.

Celso Rocha de Barros - Por que Bolsonaro deixou morrer 500 mil?

Folha de S. Paulo

Hoje em dia parece claro que, além de um crime, foi um erro

Como previsto pelos especialistas, chegamos no meio milhão de brasileiros mortos por Covid-19 antes do fim do primeiro semestre. Só agora começamos a calcular quantos, dentre eles, foram mortos diretamente, documentadamente, pelas decisões de Jair Bolsonaro.

As revelações da CPI sobre os contratos de compra de vacinas, quando inseridas em modelos epidemiológicos construídos com o que já sabemos sobre a relação entre vacinação e mortandade, colocava 90 mil mortes nas costas de Bolsonaro com os números até o final de maio. Isso foi antes de sabermos que ele se recusou a comprar 43 milhões de doses do consórcio Covax Facility. Com as novas informações e os mortos de junho, mal dá para ver a marca de cem mil no retrovisor.

Desde fevereiro, quando, segundo estimativas do jornal O Estado de S. Paulo, já teria sido possível vacinar todos os idosos brasileiros se a oferta do Butantã em 2020 tivesse sido aceita por Bolsonaro, o número de brasileiros mortos dobrou.

Por que Bolsonaro fez isso? Hoje em dia parece claro que, além de um crime, foi um erro. Se Bolsonaro perder a eleição de 2022, terá sido pelas centenas de milhares, talvez pelo milhão de mortes que causou entre 2020 e 2021.

Denis Lerrer Rosenfield* - O espaço de centro

O Estado de S. Paulo

O País corre o risco de entrar em combates fratricidas, a violência tomando conta da cena

O Brasil está saciado, para não dizer farto, das polarizações da vida política nos governos Lula, Dilma e Bolsonaro, com distintas versões do “nós contra eles”, de esquerda e de extrema direita, dominando a cena do País. Seja de uma cor ideológica, seja de outra, os brasileiros foram atirados uns contra outros, como se não houvesse unidade nacional ou valores coletivos, morais e religiosos que pudessem ser compartilhados por todos.

Eram as hordas do MST infernizando o campo, o MTST fazendo o mesmo nas cidades, com o beneplácito e apoio dos governos Lula e Dilma; hoje são as hordas digitais e de motocicleta das milícias bolsonaristas, ostensivamente sustentadas pelo atual presidente. A continuar nesse ritmo, o País corre o risco de entrar em combates fratricidas, com a violência tomando conta do cenário. A violência verbal e os discursos demagógicos acarretam consequências práticas.

Mais vale parar a corrida contra o abismo, antes de nele cairmos. No entanto, para os atuais contendores, Bolsonaro e Lula, mais vale que o cenário permaneça como está, até com maiores tensão e acirramento. Quanto mais um vociferar contra o outro, tanto maior será o benefício de ambos. A retroalimentação é o ar que eles respiram. Não há nenhuma intenção deles em criar um ambiente de apaziguamento e entendimento. O bem da Nação passa ao largo de suas estratégias. Bem coletivo, bem-estar social de todos? Ora bolas, quem se preocupa com isso?!

Há um desânimo crescente na sociedade e, ao mesmo tempo, uma esperança de mudança. Desânimo porque a polarização só produz novos conflitos, numa multiplicação infinita que leva à conservação do status quo e, enquanto barganha, ao fortalecimento dos interesses corporativos e estamentais. Os mais desfavorecidos pioram sua condição, enquanto os privilegiados, os que gozam de “direitos adquiridos”, usufruem parcela cada vez maior do bolo coletivo. Uns comem mais, outros comem menos. Uns têm melhor atendimento de saúde, outros morrem pelo vírus que grassa no País, alguns mesmo sufocados ou em corredores de hospitais. Uns têm melhor educação, graças aos meios tecnológicos, outros nem educação têm, pela falta desses meios.

Jaime Pinsky* - Lutar pela História

O Estado de S. Paulo

Especialmente agora, quando ‘fake news’ são vomitadas por atacado, de forma organizada

A credibilidade da História faz todos tentarem se apropriar dela. Ouvimos o tempo todo frases como “a História ensina que...”, ou sua variante mais humilde “temos de aprender com a História” e ainda “a História é a mestra da vida”. Mas, na verdade, a maioria das pessoas não quer aprender com a História, mas ensiná-la. Cada um do seu jeito. Alguns ainda se dão antes ao trabalho de estudá-la, outros nem isso. Veja-se o que acontece com as pessoas que usam o passado, real ou imaginado, para tirar e ensinar lições. E os governantes, então... Chamam suas deturpações de versões, ou narrativas, para passar mais confiança. Mas, geralmente, são deturpações mesmo.

Todo mundo sabe que governantes autoritários torturam a História para ver se ela confessa e declara o que eles querem ouvir. Governos antidemocráticos odeiam a verdade. A verdade revela coisas que eles não admitem em público, embora não tenham o menor pudor de praticá-las no dia a dia. Ditadores e candidatos a ditadores têm um esquema sólido para alimentar seus seguidores com mentiras. Atentados contra a cidadania, a ciência, a natureza, a Justiça, a educação são perpetrados a toda hora. Governos autoritários se ocupam em escondê-los e para isso contratam especialistas em marketing. Verbas astronômicas, desviadas da saúde, da educação, da habitação, do bem-estar dos cidadãos, são usadas em propaganda. E veículos sérios da imprensa são punidos com verbas insignificantes, ou nenhuma verba, por sua independência. Afinal, os cofres oficiais estão nas mãos do governo e agradecer ou punir a mídia depende apenas de sua boa vontade.

Bruno Carazza* - Uma guinada de 360 graus

Valor Econômico

A velha política está de volta em Brasília

Nas eleições de 2018, o brasileiro manifestou seu desejo de mudança. Indignado com a combinação de uma severa recessão econômica e uma crise política sem precedentes na história, o eleitor escolheu não apenas um presidente sem tradição na política, como renovou boa parte dos ocupantes das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Nas várias pesquisas feitas àquela época, o cidadão que foi às urnas em outubro de 2018 buscava um novo modo de fazer política - e o candidato vencedor soube muito bem captar esse espírito, prometendo romper com as tradições do “toma-lá-dá-cá”, combater a corrupção (não por acaso escolheu como Ministro da Justiça o juiz que conduziu os processos da Operação Lava-Jato) e aplicar um choque liberal na economia.

Passados dois anos e meio da posse de Jair Bolsonaro, podemos dividir seu governo em três momentos distintos.

Alex Ribeiro - O ‘trade’ do alívio nas contas públicas

Valor Econômico

Mercado deve ter novo encontro com o risco fiscal na eleição

O mercado financeiro está vivendo de ondas que empurram os preços de ativos para cima. É o “trade” da reflação americana, o “trade” da vacinação e o “trade” do alívio fiscal. Quanto tempo esse último vai durar?

A visão mais pessimista é que dure até agosto, quando o governo deve enviar o Orçamento de 2022 para o Congresso. Num ano de eleições, as pressões por gastos serão naturalmente maiores. Já há notícias, por exemplo, de que o presidente Bolsonaro pretende conceder reajuste salarial para o funcionalismo e turbinar o Bolsa Família.

Uma visão um pouco menos pessimista é que, apesar de alguns solavancos na discussão do Orçamento, o clima só vá mesmo azedar durante as eleições presidenciais. A polarização entre Bolsonaro e Lula, e a possibilidade de uma eventual vitória do candidato petista, poderia trazer de volta o receio do populismo fiscal e o risco de dominância fiscal.

Christopher Garman, do Eurasia Group, divulgou uma carta aos clientes na sexta-feira com um cenário mais otimista. Apesar de idas e vindas, dos vários momentos de tensão, no fim as instituições brasileiras - Congresso, especialistas, órgãos de controle, imprensa - estão funcionando bem para conter o descarrilhamento fiscal. “Se Lula for eleito, sua administração não se provará tão fiscalmente irresponsável como os especialistas provavelmente temem, e os riscos de uma virada populista de Bolsonaro também podem estar sendo superestimados.”