segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Carlos Pereira* - O barco e o timoneiro

O Estado de S. Paulo

No barco do presidencialismo multipartidário, partidos pivô sempre irão existir. O que muda é o timoneiro

Em regimes presidencialistas é o presidente que é percebido como o responsável pelo desempenho de políticas universais. Isso é consequência direta da distribuição de seus eleitores em todo o território nacional. Portanto, não é crível que o presidente transfira responsabilidade para outros atores políticos se, por exemplo, a inflação sair do controle, se a população não for vacinada, ou se o desemprego aumentar. Da mesma forma, se políticas nacionais apresentam um bom desempenho, é o presidente que tem condições de auferir crédito e benefícios políticos desses acertos.

Por outro lado, os legisladores, por terem uma base eleitoral geograficamente mais restrita e delimitada (no caso brasileiro, os Estados), obtêm maiores créditos e retornos eleitorais principalmente a partir de políticas locais e/ou setoriais que venham a gerar benefícios às suas redes locais de interesse na esfera municipal.

Muitos acreditam que o Centrão desembarcará do governo Bolsonaro por uma questão de sobrevivência eleitoral. Mas, será que a sobrevivência eleitoral desse amontoado de partidos ideologicamente amorfos estaria ameaçada com a queda vertiginosa de popularidade do presidente e o aumento de sua rejeição? Será que apoiar o governo Bolsonaro representaria um “abraço de afogados” para o Centrão?

Marcus André Melo* - Bolsonaro Contrafactual

Folha de S. Paulo

E se não tivesse havido a pandemia nem o legado do clã presidencial com a justiça?

O que teria acontecido com Bolsonaro na ausência da pandemia e dos problemas judiciais do clã presidencial? Os efeitos são distintos, mas estão interligados. A crise sanitária representou, sim, um choque exógeno no sistema político, enquanto o legado de problemas da justiça estava escrito em pedra, embora marcado por incerteza e baixa visibilidade nacional.

A pandemia criou uma janela de atenção sobre o comportamento do presidente, revelando à nação, atônita, um presidente sem qualquer empatia ou liderança em uma calamidade social inédita. No curto prazo, Bolsonaro nem sequer usufruiu da onda de solidariedade aos governantes que a pandemia deflagrou na vasta maioria dos países.

Celso Rocha de Barros – As vias de zero a três

Folha de S. Paulo

Terceira via é difícil enquanto jantar de Temer se satisfizer com Bolsonaro

O debate sobre “terceira via” tem um problema de contagem de vias.

A segunda via é o PT, que conseguiu vencer em 2002 após longo período na oposição.

A via número zero é Bolsonaro, que não quer ganhar eleições. Quer dar golpe de Estado para que a turma que tem dinheiro e armas volte a não precisar fazer concessões para quem não tem nenhum dos dois. Como era antes da democracia.

A maior parte dos candidatos da “terceira via” não está tentando construir uma nova via. Está é tentando reconstruir a primeira, a direita que jogava o jogo da democracia e governou o Brasil nas primeiras décadas da Nova República.

O que impede essa reconstrução é que boa parte da base social da direita —os empresários, os pastores, a classe média tradicional— ainda não desistiu completamente da via, digamos, 0,5.

A turma acha o golpismo de Bolsonarismo meio desnecessário. Mas todo mundo ali gostou da ideia de que dá para ganhar voto de pobre só com igreja, sem essas coisas de Bolsa Família, negros na universidade etc.

Ana Cristina Rosa - Uma mesma nação, muitos Brasis

Folha de S. Paulo

Há a nação dos povos originários, dos trabalhadores, dos pretos e pardos e dos que desfrutam de privilégios e se julgam no direito de tudo

Entre outras coisas, uma nação é definida por suas tradições, costumes e características sociais, políticas e culturais que compõem a identidade do povo. No caso brasileiro, nunca esteve tão claro que somos uma mesma nação na qual coexistem muitos Brasis.

Há o Brasil dos povos originários, que há mais de 500 anos lutam para defender o próprio direito à vida e seus territórios constantemente invadidos, ocupados e explorados ilegalmente.

Há a pátria dos trabalhadores que por mais que se esforcem não conseguem garantir uma vida digna aos seus frente a uma inflação galopante e prestes a alcançar a casa dos dois dígitos ano.

Mirtes Cordeiro* - O amigo Paulo Freire

Falou e Disse

 “Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. (Paulo Freire in Pedagogia do Oprimido)

Iniciei a minha vida profissional e política muito cedo, e por isso tive a imensa satisfação de conviver e trabalhar, ao chegar em Pernambuco, com algumas pessoas que muito labutaram na construção da nossa ainda frágil democracia, a exemplo de Paulo Cavalcanti, Miguel Arraes, Paulo Freire e outros, com os quais aprendi que a democracia é um bem inalienável.

Com Paulo Cavalcanti estabeleci uma grande amizade através da vida partidária e da continuidade das conversas nos finais das tardes de domingo em sua casa, lá no bairro de Cajueiro, Recife, onde minha filha ainda pequena se divertia com a presença dos gatos no gramado dos jardins.

Com Miguel Arraes trabalhei durante três anos, após a sua chegada do exílio, em 1979, ele cheio de vontade de fazer deste Brasil uma grande nação, e eu saindo de um mestrado em sociologia, cheia de ideias sobre como transformar a sociedade num ambiente pleno de direitos. Trabalhamos muito para isso, mas essa história ainda vou contar.

Encontrei Paulo Freire pessoalmente quando eu assumia a função de secretária de Educação do município do Cabo de Santo Agostinho (PE). Era o ano de 1986 e o prefeito, um jovem democrata, Elias Gomes.

No entanto o meu contato primeiro com o escritor Paulo Freire foi ainda no Ceará, meu Estado, através do seu livro Extensão ou Comunicação, da editora Paz e Terra. O livro foi escrito no Chile, em 1968, e publicado em 1969. À época eu trabalhava como extensionista rural, num programa desenvolvido com famílias que produziam alimentos através da agricultura familiar, patrocinado pelo governo da ditadura militar.

Bruno Carazza* - As interferências no 5G brasileiro

Valor Econômico

Influência política sobre regulação afeta leilão do 5G

Na contracapa do quarto álbum lançado pelos Beatles, o assessor de imprensa da banda, Derek Taylor, apresentou o disco da seguinte maneira: “Quando, daqui a 20 anos ou mais, uma criança, entendida em música, estiver num piquenique em Saturno, e lhe perguntar quem eram os Beatles (...), não tente explicar tudo sobre os cabeludos e sua turbulência! Basta à criança tocar algumas faixas deste LP e ela logo entenderá tudo”.

Beatles for Sale foi lançado em dezembro de 1964 e se por um lado o jornalista estava correto em antever que a magia dos quatro garotos de Liverpool não sofreria limites de tempo ou espaço, sua previsão quanto ao prazo para a massificação das viagens interplanetárias mostrou-se um imenso fracasso.

Quase sessenta anos depois, a perspectiva de chegada do 5G renova as esperanças de que, num futuro breve, conviveremos com carros autônomos circulando pelas ruas, eletrodomésticos que se comunicam com sites de e-commerce, drones fazendo entregas e robôs assumindo boa parte do trabalho humano na nova indústria 4.0.

Sergio Lamucci - O consumo das famílias e a eleição de 2022

Valor Econômico

Com juros em alta, inflação persistente e nível elevado de endividamento das famílias, o panorama para o consumo privado é pouco animador

As estimativas para o crescimento em 2022 continuaram a recuar na semana passada, com vários analistas passando a projetar uma expansão inferior a 1% para a economia brasileira no ano que vem - para este ano, as apostas estão na casa de 5%. As novas previsões embutem um avanço modesto do consumo das famílias, que responde por mais de 60% do PIB pelo lado da demanda.

A MB Associados, por exemplo, estima um crescimento de apenas 0,4% para o PIB em 2022, projetando uma alta de 0,5% para a demanda das famílias. O Credit Suisse, que tem uma estimativa um pouco menos pessimista para a expansão da economia no ano que vem, de 1,1%, vê o consumo privado avançando 1,5%. Ainda que mais alta que a previsão da MB, esse 1,5% é um número fraco, que evidencia as dificuldades para Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. Com juros em alta, inflação persistente e nível elevado de endividamento das famílias, o panorama para o consumo privado no ano que vem é pouco animador.

Em 2006, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito, a demanda das famílias cresceu 5,3%, acima dos 4% da variação do PIB; em 2014, ano em que Dilma Rousseff ganhou o segundo mandato, o consumo privado avançou 2,3%, uma taxa moderada, mas bem superior ao 0,5% registrado pelo PIB. O ano de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito, é uma exceção. O consumo das famílias recuou 0,7%, enquanto o PIB cresceu 0,3%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), porém, teve alta de apenas 1,65% naquele ano e havia a memória recente do tombo da inflação, devido ao Plano Real.

Fernando Gabeira - Uma pausa para a emergência

O Globo

Neste momento em que a confusão política é menos intensa, observo que, nos grupos que sigo nas redes sociais, há um sério debate sobre o futuro do país. Sinto não participar ativamente por falta de tempo e, às vezes, boa conexão.

Não tem mais validade aquele verso de Drummond: “Ao telefone perdeste muito tempo de semear”. As pessoas estão semeando ideias, e espero que um dia sejam levadas à prática, embora a mediação do mundo político real tenda a neutralizá-las.

De minha parte, se pudesse contribuir agora, tentaria levar mais diretamente ao mundo político a ideia de uma emergência ambiental. Não há trégua nesse campo. Bolsonaro pode, apesar da relutância, aceitar a vacinação, atenuar suas frases no cercadinho, esquecer, momentaneamente, o voto impresso. Mas seu projeto de devastação dos recursos naturais é diuturno, não para nos feriados, nem com bloqueio de caminhoneiros.

Na sua cabeça, não é uma política destrutiva. Pensa na riqueza material, num conceito de progresso. Possivelmente, assim pensava a elite capixaba quando arrasou a Mata Atlântica, processo magistralmente descrito por Warren Dean no livro “A ferro e fogo — A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”.

Eduardo Affonso - Duas, quatro ou oito linhas

O Globo

Bolsonaro não para de dizer que pretende jogar “dentro das quatro linhas”. Repete isso como quem precisa do apoio de um mantra (no caso, um clichê futebolístico) para disfarçar as vozes da sua cabeça, que o incitam diuturnamente a partir para um rompimento institucional.

Deveria jogar não nas quatro, mas na metade disso — nas duas linhas da Constituição proposta por Capistrano de Abreu, no início do século passado:

“Artigo 1º —Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara.

Artigo 2º —Revogam-se as disposições em contrário.”

Desde que assumiu o cargo para o qual foi eleito por quase 58 milhões de brasileiros, o presidente não fez outra coisa senão descumprir o Artigo 1º dessa (infelizmente) nunca promulgada Constituição.

Ignorou as promessas de campanha (é estelionato eleitoral que chama?). Interferiu na política de preços da Petrobras, não levou adiante a agenda de privatizações, não fez as reformas tributária e administrativa, transformou o combate à corrupção numa batalha sem trégua para livrar a si e à sua família de uma enxurrada de escândalos e, claro, abortou a ideia de acabar com a reeleição.

Antônio Gois - Freire merecia tempos melhores em seu centenário

O Globo

Era uma vez um país em que o ensino público era de qualidade. Crianças iam para a escola para aprender e saíam de lá plenamente alfabetizadas. Havia disciplina, rigor e respeito à autoridade do professor. Mas daí vieram Paulo Freire e seus seguidores e arruinaram tudo, levando à situação em que hoje nos encontramos.

O parágrafo acima é obviamente uma caricatura, mas é triste constatar que não difere muito do típico pensamento da extrema-direita que chegou ao poder no Brasil. Basta lembrar de algumas declarações recentes de Bolsonaro, como a de que “o PT, via método Paulo Freire, nos colocou em último lugar do Pisa” ou que os resultados do Brasil no exame da OCDE são um “sinal de que a política do Paulo Freire não deu certo”.

Antes de falar de Freire, é importante desmentir a falsa tese do passado glorioso da educação brasileira. Na década de 30, como demonstrado pelos trabalhos de Teixeira de Freitas a partir das estatísticas de época, mais da metade das crianças que se matriculavam no primeiro ano do antigo ensino primário (hoje ensino fundamental) eram reprovadas e não avançavam à série seguinte.

É a partir da década de 60 que Freire começaria a se tornar conhecido no Brasil. Mas, antes de suas ideias terem alguma influência nos corações e mentes de professores, o quadro geral do ensino continuava trágico. Otaíza de Oliveira Romanelli, no livro História da Educação no Brasil, mostra que de cada 1.000 alunos que frequentavam o primeiro ano do primário em 1961, apenas 446 sobreviviam ao segundo ano, e somente 64 chegariam em 1972 ao equivalente na época ao atual ensino médio.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Mais uma gambiarra

Folha de S. Paulo

Perdido em improvisos, governo eleva e avilta tributo para criar programa social

Não bastassem a inflação em alta e o risco de racionamento de energia, o caos decisório que emana do Planalto se mostra o principal fator de insegurança a minar as chances de retomada econômica.

Com foco nas eleições e tendo abandonado uma agenda econômica consistente, o governo Jair Bolsonaro recorre a sucessivos improvisos, que vão se tornando cada vez mais deletérios e custosos.

O exemplo mais recente é a majoração do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), de modo a arrecadar R$ 2,1 bilhões até o fim do ano para custear a criação do Auxílio Brasil, o novo programa assistencial que pretende substituir o Bolsa Família, politicamente associado à gestão petista.

Como a lei proíbe o lançamento da iniciativa durante o ano eleitoral e ao mesmo tempo exige que sejam identificadas fontes de receita, a opção do governo foi iniciá-lo a partir de outubro, com o encerramento do auxílio emergencial. A fonte de custeio veio de uma medida tributária que não depende de aprovação do Congresso.

Toda a decisão é errada, a começar pelo desvio de finalidade do IOF, um imposto de natureza regulatória na área monetária e creditícia.

O aumento do custo do crédito para pessoas físicas (de 1,5% para 2,04%) e empresas (de 3% para 4,08%), além disso, vem em péssimo momento, num quadro de endividamento elevado, juros já em alta e economia em desaceleração.

Poesia | Fernando Pessoa - O que há em mim é sobretudo cansaço

 

Música | Chico Buarque - Quem te viu, quem te vê

 

domingo, 19 de setembro de 2021

Luiz Werneck Vianna* - Desventuras e promessas do liberalismo brasileiro

Não foi a primeira vez e nem será a última em que se tentou nos infaustos acontecimentos deste 7 de setembro fazer a roda da história retroagir a fim de repor o país nos trilhos do malsinado regime do AI-5, obsessão manifesta do governo que aí está. A intentona, preparada como um plano de estado-maior a que não faltaram recursos oficiais e de setores reacionários das elites econômicas, em particular do agronegócio, tinha em mira jogar por terra a Carta de 88 cujas instituições obstam os arreganhos absolutistas no exercício do poder presidencial. O sistema de controle do poder contemplado no texto constitucional, orientado para a defesa dos direitos políticos e sociais consagrados por ele, demonizado pela clique no poder como entraves às suas ações liberticidas, deveria ser derrogado. Ferindo de morte o constitucionalismo democrático, ao Judiciário caberia apenas agir nos litígios privados na contramão dos processos civilizatórios emergentes desde a derrota do nazi-fascismo na segunda guerra mundial.

Foi por pouco. E ainda são obscuras as razões por que apenas em um dia a formidável arma de propaganda golpista que se abateu sobre o país fosse recolhida aos coldres, com o país estupefato tomando ciência de uma declaração presidencial reverente às instituições. Para tal resultado, os   pronunciamentos fortes e tempestivos de presidentes das altas cortes do Poder Judiciário, a que se seguiram manifestações dos dirigentes do Senado e da Câmara dos Deputados em defesa das instituições democráticas, decerto importaram, mas pode ter havido nos céus mais do que o movimento dos aviões de carreira embora ainda não registrados no radar. Enfim, por fas ou nefas, as trevosas nuvens que pairavam sobre a sociedade se dissiparam como num passe de mágica, ficando o dito pelo não dito enquanto se sussurra na sociedade até quando?

A envergadura do golpe que se tramava não pode ser subestimada, que não deve ser tratado como um pesadelo fortuito de uma noite mal dormida. Foi real a parada militar em Brasília – os militares sabiam o que se seguiria? –, como reais as concentrações de massas da avenida Paulista e na praia de Copacabana e noutras capitais, como também reais as vociferações do presidente Bolsonaro em todas elas, cruzando o país a bordo de aviões oficiais, dardejando ofensas a autoridades judiciárias com o ímpeto de Donald Trump no frustrado golpe ao Capitólio de 6 de janeiro do ano passado. Real igualmente o suporte financeiro com que setores das elites econômicas deram à mobilização de milhares de pessoas que acorreram às ruas em apoio a Bolsonaro naquela jornada equívoca de 7 de setembro.

Merval Pereira - Disse me disse

O Globo

Psiquiatras, que vivem de escarafunchar a mente humana, e jornalistas, que vivemos de escarafunchar a realidade, têm tido material de sobra nesses tempos estranhos que vivemos, onde a realidade quase nunca corresponde ao que os protagonistas dos acontecimentos falam ou prometem. O exemplo mais imediato é o do ex-presidente Michel Temer, que foi da glória ao fracasso em questão de dias, tudo por conta do que os gregos chamavam de húbris, conceito que define atitudes excessivas de confiança, que são punidas pelos deuses.

“Deus primeiro enlouquece aquele a quem quer destruir”. A frase, atribuída ao poeta grego Eurípedes, tem no episódio da mediação de Temer com o presidente Bolsonaro na crise com o Supremo Tribunal Federal (STF) exemplo evidente. Chamado pelo presidente Bolsonaro para ajudar a pacificar sua relação com o ministro Alexandre de Moraes, a quem indicou para uma cadeira no STF, Temer viu nessa aproximação um poderoso instrumento para relançar-se na vida política, quem sabe como uma terceira via na disputa presidencial.

As fotos divulgadas por sua assessoria, que o mostram orgulhosamente sentado sozinho em um avião vazio da FAB enviado especialmente para transportá-lo de São Paulo para Brasília já indicavam que a coisa poderia degringolar. Divulgada a carta de rendição de Bolsonaro, o ex-presidente Temer, em geral cauteloso, anunciou à imprensa que fora ele o autor do texto, e que Bolsonaro havia colocado ou tirado uma ou outra palavra.

Míriam Leitão - O risco real é o de banalizar o crime

O Globo

Discordo radicalmente da afirmação de que iniciar um processo para o afastamento do Presidente Bolsonaro seria banalização do impeachment. O verdadeiro risco que o país corre é o de banalizar o crime. A começar pelo crime de responsabilidade. O presidente os comete em série. Se o impeachment não for o propósito neste momento estarão sendo revogados o artigo 85 da Constituição, a Lei 1079, artigos do código penal e todo o arcabouço institucional e civilizatório em torno do qual o Brasil refez o seu pacto social após a ditadura militar.

O presidente Bolsonaro tem provocado retrocessos em todas as áreas, ameaçado direitos e avanços. Não houve uma semana de paz em todo este governo. Um tempo em que ele não tivesse infringido alguma lei, algum inciso, algum dos nossos mais caros valores. Está claro, a esta altura, que um dos defeitos a corrigir nas leis brasileiras é o direito absolutista dado ao presidente da Câmara. Os crimes se acumulam, e os pedidos de impeachment são ignorados. A mesa do presidente da Câmara receberá em breve um novo pedido apoiado em relatório da devastadora Comissão Parlamentar de Inquérito. E o deputado Arthur Lira (PP-AL) poderá continuar ignorando, porque nada há no ordenamento legal brasileiro que modere esse poder. Está claro também que o país subestimou o risco que pode representar um procurador-geral da República alinhado com o governo e em busca da ambição de uma cadeira no STF. Apesar de tudo o que ele não fez, foi amplamente aprovado para mais um mandato.

A professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, da USP, explicou numa palestra no Brazil Lab, de Princeton, que o Brasil vive um paradoxo: o sistema é democrático, mas o presidente é autoritário. Ele não controla as instituições, mas a estratégia é de sistemática confrontação. A definição do momento é perfeita, o país tem resistido aos ataques autoritários, mas há um dilema diante de nós. Nessa confrontação ele tem cometido crimes. Se esse paradoxo não for enfrentado da maneira correta, punindo-se o infrator, a democracia vai sair debilitada deste período infeliz.

Bernardo Mello Franco – Submissão de toga

O Globo

Mendonça apela a pastores para destravar indicação ao STF

Após dois meses de espera, André Mendonça resolveu apelar. Com a vaga no Supremo Tribunal Federal em risco, o dublê de jurista e pastor pediu socorro a figurões evangélicos. Aposta no lobby religioso para forçar o Senado a destravar sua indicação.

Na quarta-feira, Mendonça participou de um encontro de chefes de igrejas com Jair Bolsonaro. Entrou no gabinete presidencial com dois personagens notórios: Estevam Hernandes, da Renascer, e Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

O primeiro já foi preso ao tentar entrar nos Estados Unidos com dólares escondidos numa Bíblia. O segundo foi indiciado por lavagem de dinheiro na Operação Timóteo da Polícia Federal. Hoje se divide entre o proselitismo religioso e a militância bolsonarista na internet.

Três dias antes da reunião no Planalto, Mendonça foi a São Paulo para outra agenda de campanha. Visitou o templo da Assembleia de Deus no Brás e pediu a bênção ao bispo Samuel Ferreira, antigo conselheiro do ex-deputado Eduardo Cunha.

Eliane Cantanhêde - “Meu sentimento”

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro manda com base na internet e em palpites. O outro, Dr. Queiroga, obedece

Entre tantas crises e desgraças no nosso querido Brasil, só faltava o ministro da Saúde conclamar pais e mães a não vacinarem seus filhos adolescentes. Não falta mais. Ao se sujeitar a isso, o dr. Marcelo Queiroga manchou para sempre sua biografia, que ia tão bem até o casamento de conveniência e de submissão com o presidente Jair Bolsonaro, acusado de “charlatanismo e curandeirismo” pela CPI da Covid.

O general da ativa Eduardo Pazuello evaporou, mas sua máxima ficou: “um manda, o outro obedece”. Numa única entrevista, Queiroga produziu algo inédito num País onde a imunização é um sucesso histórico – um ministro da Saúde fazendo propaganda contra vacinas – e uma coleção de mentiras, meias verdades e absurdos. Citou indevidamente a OMS, a Anvisa, os especialistas do ministério, os pais e mães, os “eventos adversos”, os adolescentes vacinados e a morte de um deles. Um espanto!

Luiz Carlos Azedo - O refúgio de Bolsonaro

Correio Braziliense / Estado de Minas

O Palácio do Planalto faz mistério sobre o roteiro político do presidente da República na ONU, mas o próprio nos deu uma dica: “Podem ter certeza, lá teremos verdades

A tradição é o Brasil ser o primeiro país a se manifestar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), desde 1955, logo após os discursos de abertura do presidente da Assembleia e do secretário-geral da Organização. Nos últimos 65 anos, essa ordem somente não foi seguida três vezes. “Certos costumes surgiram durante o debate geral, incluindo o costume da ordem dos primeiros oradores”, explica a própria ONU. Nossos presidentes da República gostam de comparecer à abertura dos trabalhos do mais importante organismo de cooperação e governança global. Trata-se de uma vitrine para o mundo, um momento de reconhecimento e demonstração de prestígio internacional para o nosso país.

Entretanto, Bolsonaro está no pior momento de seu governo para a opinião pública nacional e internacional. Decidiu comparecer à abertura da Assembleia Geral, na terça-feira, para dizer algumas “verdades” sobre o país. Viaja, neste domingo, acompanhado pela primeira-dama, Michelle, e chegará “causando” porque, até hoje, não se vacinou contra a covid-19. Durante a semana, isso criou a maior celeuma, porque a Prefeitura de Nova York, cidade onde está localizada a sede da ONU, restringe a circulação de pessoas não vacinadas.

A própria ONU exige o atestado de vacina para participar da Assembleia Geral. Porém, diante do impasse, decidiu flexibilizar o protocolo e aceitar a presença de chefes de Estado que não tomaram a vacina, desde que apresentem um atestado de que estão saudáveis, ou seja, não sejam portadores do vírus da covid-19. É o tipo de atitude que queima o nosso filme já no desembarque. Nova York é uma cidade multiétnica e cosmopolita, na qual os brasileiros não passam batido: são 300 mil residentes na metrópole.

Dorrit Harazim - Sem bússola

O Globo

Estão fazendo tempestade em copo d’água, avaliou na sexta-feira o hemodinamicista Marcelo Queiroga, com a nonchalance recém-aprendida de simular segurança. Quarto titular da pasta da Saúde de Jair Bolsonaro, Queiroga é o mais recente equilibrista/prestidigitador com a saúde dos outros. Referia-se à grita nacional gerada pela abrupta suspensão de vacinas para adolescentes, anunciada 24 horas antes. A medida também abortava o próprio calendário oficial de imunizar jovens de 12 a 17 anos a partir da quinta-feira, empurrando os brasileiros para novo patamar de desinformação bolsonarista. Todos ao mar, sem bússola.

O jornalismo fez o que pôde para aquietar a população quanto à confiabilidade da vacina Pfizer — única autorizada para essa faixa etária — e convocou às pressas as vozes da ciência mais serenas e seguras para que se pronunciassem. Margareth Dalcolmo e Drauzio Varella, entre tantos outros, atuaram como dique para o desassossego em erupção. Coube ao médico sanitarista Gonzalo Vecina, a bordo do seu par de suspensórios e barba de Papai Noel, ser mais tonitruante. Por ter sido fundador e presidente da Anvisa, além de coidealizador do Sistema Único de Saúde (SUS) na década anterior, não lhe faltava conhecimento das entranhas e necessidades da saúde pública no Brasil. Ele rugiu.

Elio Gaspari - Uma viagem ao Brasil do atraso

Folha de S. Paulo / O Globo

Nunca na história da República se viu coisa igual: o governo de Pindorama está com os dois pés fincados no atraso

Com cerca de 590 mil mortos e perto de 10% da população tendo sido infectada pelo coronavírus, o Brasil tem um presidente que não se vacinou, combateu o distanciamento e defendeu a cloroquina. Seu primeiro chanceler se orgulhou por ter colocado o país na condição de pária, os agrotrogloditas continuam derrubando as florestas, e o pelotão palaciano que relutou em reconhecer o resultado da eleição americana tornou-se uma sucursal do trumpismo eletrônico.

Nunca na história da República se viu coisa igual: o governo de Pindorama está com os dois pés fincados no atraso. Isso nunca aconteceu na República, mas no Império aconteceu, custando caro à terra das palmeiras onde canta o sabiá. Há ocasiões em que países decidem andar para trás. Quando isso acontece, uma névoa embaça a percepção. Só com o tempo é que as coisas ficam claras. É temerário pretender fixar num dia o triunfo da insensatez. Aqui vai uma tentativa para ilustrar o salto dado em direção ao atraso na manhã de 23 de fevereiro de 1843, quando começou a sessão do Senado do Império. Ele funcionava no prédio do campo de Sant’Anna, onde hoje está a Faculdade de Direito da UFRJ.

Ruy Castro - Modernista, porém moderno

Folha de S. Paulo

Você sabia que sem Di Cavalcanti talvez não tivesse havido a Semana de Arte Moderna?

Fevereiro de 2022 está às portas e não será surpresa se adiarem o Carnaval para a comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna, que se deu naquele mês de 1922. Não serei consultado, óbvio, mas, se fosse, diria por que não? Afinal, já em 1922 a Semana ignorou o Carnaval, embora estivesse a duas semanas dele. Foi pena, porque um dos modernismos no encasacado Municipal poderia ser a declamação da letra de “Ai Seu Mé”, marchinha de Careca e Freire Junior e sátira ao odiado presidente Arthur Bernardes. Pensando bem, isso não seria possível —exceto Di Cavalcanti, os modernistas eram governistas.

Janio de Freitas - Corrente de fraudadores

Folha de S. Paulo

Presidente da República estava informado de pesquisa da Prevent Senior e a propagou em defesa da cloroquina

frase de Bolsonaro que menos deveríamos esquecer, vê-se hoje, era o seu programa de governo que nos parecia inexistente: "Tem que matar uns 30 mil".

Foi repetida e publicada várias vezes, e ainda assim sucumbiu, talvez porque crua demais até para bolsonaristas.

Nas 600 mil mortes atribuídas ao coronavírus, o destino de algumas centenas de milhares passa por Bolsonaro, sem por isso supor-se que estejam entre eles os 30 mil visados e inidentificados por Bolsonaro. Destes, só temos uma ideia pouco numerosa.

Sabe-se, porém, que quase a cada semana a CPI da Covid deparou-se com as evidências de mortes em massa e outras tantas iminentes. Com a causa comum de diferentes ações de indução letal por Bolsonaro e seus agentes.

Nessa linha de pasmos, e já quando a visão burocrática da vida fixa o encerramento da CPI, chega-lhe a denúncia de um grupo de médicos e auxiliares sobre práticas indutivas ainda encobertas.

A exposição simplória que lhe está dada, por equívoco quando não por conveniência comercial, está longe dos meios e fins escabrosos da trama denunciada.

Cacá Diegues - Direita selvagem

O bolsonarismo existe independente do presidente Bolsonaro. Um dia, como todo ser humano, o presidente se acaba; mas a tropa que ele formar, não

Agora, as vítimas da hora são os adolescentes. Em alguns países, já estão imunizando crianças de 2, 3 anos. Mas, no Brasil, o presidente telefonou para o ministro da Saúde e perguntou que negócio é esse de vacinar menores de idade. O ministro comunicou imediatamente à nação a decisão do chefe. O povo, sobretudo quem tem filhos, ficou perplexo, sem saber o que fazer. Estava indo tão bem!

O presidente tinha que intervir, evitar que a paz reinasse por muito tempo entre nós. Nem todo mundo havia percebido que aquela confissão de arrependimento, confusa e pouco confiável, era uma candente reafirmação do estilo Bolsonaro de ser. Ou, se você prefere, uma reafirmação da política bolsonarista, do bolsonarismo malgré lui-même.

Celso Lafer* - O Mal, Schmitt e a nossa circunstância

O Estado de S. Paulo

Há muita sintonia entre os paradigmas do jurista e o instinto da ação do presidente Bolsonaro

Pe. Antonio Vieira, refletindo sobre o bem e o mal, diz que da sua interação todos padecem: “Os males porque se temem, os bens porque se esperam; para afligir, o mal basta ser possível e para molestar-se, o bem basta ser duvidoso”. Também pontua: “O bem conhece-se na privação; o mal, na experiência”.

A intensidade da privação do bem e a ampliação da experiência do mal são uma das notas sombrias do mundo contemporâneo. Auschwitz é um paradigma da presença do mal na história humana. O mal é um grande e inquietante tema da teologia e da filosofia que Denis Rosenfield enfrentou com coragem e envergadura no seu recém-publicado Jerusalém, Atenas e Auschwitz, pensar a existência do mal.

O primeiro capítulo é dedicado a Carl Schmitt, um dos grandes juristas do século 20, que continua exercendo fascínio, favorecedor do arbítrio do poder, tanto à direita, de onde proveio, quanto à esquerda.

Bobbio propõe, em O Elogio da Serenidade, uma distinção analítica entre dois aspectos do mal que, embora vinculados, comportam diferenciação: o Mal ativo e o Mal passivo. O ativo é o infligido. O passivo é o sofrido. São os rostos de duas realidades humanas: a maldade e o sofrimento.

A contundente crítica de Denis a Schmitt tem como base sua avaliação de que o pensamento deste sustenta no trato da relação Direito/Poder o potencial do mal ativo na vida política.

Direito/Poder é tema recorrente da teoria jurídica e política. No século 20, nesta matéria, confrontaram-se duas visões antitéticas: a de Kelsen e a de Schmitt.

Luiz Sérgio Henriques* - Do Terceiro Reich até nós

O Estado de S. Paulo

Há versos ou poemas inteiros que grudam na memória e, mudos, passam a nos desafiar para sempre, retornando em particular nos momentos agudos de crise. Entre tais lembranças, difícil deixar de incluir Inquisitorial, de um jovem e talentoso José Carlos Capinan de meados dos anos 1960, ainda no rescaldo da guerra e do vasto sentimento antifascista que ela havia desencadeado.

“O poeta não mente, dificulta” – dizia Capinan –, e a dificuldade que propunha retirava-nos qualquer conforto possível: uma coisa é zombar, levados pelo gênio de Chaplin, do ridículo do Terceiro Reich, mas, de fato, o que faríamos se vivêssemos naquele tempo e tivéssemos de encarar em primeira pessoa o que só depois se revelaria absurdo?

Lição de arte e de vida, sem dúvida. A lição, porém, não implica comparações imediatas, como seria o caso se aplicássemos automaticamente o rótulo infame – fascismo ou nazismo – aos modernos ou pósmodernos movimentos de corrosão da democracia liberal ou, mais apropriadamente, da democracia tout court. Mais adequado é observar o modo como tais movimentos contemporâneos, repropondo em novas bases a figura do homem providencial, buscam arregimentar o povo, ou a “sua” parte do povo, indispondo-a contra as instituições republicanas que garantem as liberdades individuais e os direitos humanos.

Por óbvio, aqui nos valemos da engenhosa fórmula, criada por Yascha Mounk, para descrever a ação dos novos homens fortes. Da Rússia de Putin à Venezuela de Chávez e Maduro, países e estruturas políticas variam e personalidades podem não ser decalques umas das outras, ainda que haja entre elas imitadores baratos. Contudo, há algo de inquietantemente regular nos procedimentos que, hoje, buscam dissociar democracia e liberalismo e instaurar o cerco populista aos mais variados “Capitólios”, inclusive o nosso.

Paulo Fábio Dantas Neto* - As agruras da razão esclarecida diante da política como ela é

“[..} Os mineiros, como políticos, têm o seu perfil.  É o perfil de moderação, ponderação, busca de consensos, conciliação, mas que não confundam esse perfil de mineiro de se fazer política com inércia ou tolerância em relação àquilo que não transigimos. Porque quem objetivar mitigar o estado de direito ou estabelecer retrocessos à democracia terá o pulso firme e forte da política de Minas Gerais para resistir” (declarações de Rodrigo Pacheco, em evento promovido pela UFMG, publicadas em matéria da jornalista Luciana Amaral, UOL em 17.09.21)

A declaração do presidente do Senado transmite sensação de segurança institucional, pelo cargo que ocupa. Além disso, ao recorrer ao simbolismo da “mineiridade” política, reforça de modo importante, como faz desde que chegou ao cargo, o coro de vozes que pregam a pacificação do país. Trata de pacificação como algo bem distinto da mera conciliação com Bolsonaro, pois a disposição conciliadora compartilhada pelo senador mineiro, em seu conservadorismo republicano genuíno, significa, por definição, uma não-conciliação com o golpismo do presidente. Ambas as dimensões do posicionamento (a institucional e a política) agradam a este comentarista, mas não é disso que trata a coluna de hoje.

O intuito é analisar a declaração sob o ângulo de seu aparente sentido de posicionar o presidente do Senado na discussão pré-eleitoral que transcorre, contra o relógio, dentro do campo político que integra. As assim chamadas direita e centro-direita precisarão, nos próximos meses, definir-se por um caminho eleitoral próprio ou por contribuir a uma agregação mais ampla, que englobe o centro do espectro ideológico, podendo chegar à soleira da porta da assim chamada centro-esquerda. A premissa de que parto para considerar apenas essas duas possibilidades é o desvanecimento prático da opção de renovar, pela aposta na reeleição de Bolsonaro, o pacto regressista vencedor em 2018.

Sob esse enquadramento, a declaração parece mais um toque de reunir do que um chega para lá. Acena à reconfiguração republicana do governismo, mais do que ao nascimento de uma oposição conservadora ao governo. Do seu posto de observação privilegiado, Pacheco constata todos os dias que o fantasma da orfandade ronda a nuvem política que se agarrou no mito em 2018 e percebe seu esfarelamento a um ano das próximas eleições. Mas que mensagem será capaz de reunir proativamente essas forças hoje perdidas no varejo e dispersas no atacado? A da firme resistência institucional é, sem dúvida, um bom e nobre começo, capaz de reparar, na prática, o malfeito anterior.

O pulso forte do republicanismo mineiro-nacional, no entanto, além de espantar o perigo que ronda a nação e sua democracia, construirá o que? Sua agenda positiva será a das chamadas "ilhas de racionalidade" do atual governismo, quase invisíveis a olho nu enquanto Bolsonaro estiver sentado na sela em que transformou a cadeira presidencial? Que acenos concretos uma centro-direita racional, como a que Pacheco ensaia encarnar, pode fazer aos quase náufragos da aventura populista, para tomarem o barco governista das mãos nada limpas e ainda por cima ineptas do capitão e dos tripulantes mais chegados, ou para o abandonarem à deriva e tomarem assento em outra embarcação?

Bruno Boghossian - Saída de emergência

Folha de S. Paulo

Com previsão de desempenho fraco em 2022, caciques avaliam distanciamento sem timidez

Jair Bolsonaro também entrou em queda no mercado futuro da política. A escalada da inflação e as dificuldades da economia mudaram o cálculo de aliados que apostavam numa recuperação da popularidade do presidente até a largada da campanha de 2022. Caciques de partidos da base do governo já têm nas mãos um mapa para a saída de emergência.

A tropa de choque do centrão continua disposta a segurar o impeachment e nem pensa em abandonar agora as emendas que alimentam os políticos dessas legendas. Mas dirigentes da base bolsonarista falam com desembaraço da possibilidade de um desembarque caso a situação do presidente não melhore até março do ano que vem.

Vinicius Torres Freire - Na economia, Lula ainda faz política

Folha de S. Paulo

Caminho até a eleição é comprido, mais cheio de entulho do que de costume e sujeito a terremotos

Não se sabe o que Lula da Silva deve fazer da economia, caso eleito presidente. Alguns de seus amigos velhos do PT também não. Depois de uma conversa mole e genérica sobre “Estado”, “capacidade de planejamento” e “resgate das políticas que garantam direitos”, essas coisas, admitem ou fingem de modo convincente que não sabem de nada. É possível que Lula também não saiba.

O caminho que vai até a eleição é comprido, mais cheio de entulho do que de costume e sujeito a terremotos. Lula come esse angu de caroço quente pelas bordas. Procura aliados por quase toda parte ou, pelo menos, tenta conter o risco de que se forme uma coalizão que possa vir a triturá-lo.

Lula quer ser outra vez normalizado.

Almoça com FHC, visita Tasso Jereissati, negocia ou faz pazes com possíveis desgarrados do centrão ou caídos do MDB. Hoje, seu adversário é Jair Bolsonaro, que quase bate no primeiro turno. Amanhã, sabe-se lá. Até a transviada terceira via pode vir a ser viável.

Exagero? Em dezembro de 1988, Fernando Collor mal era citado nas pesquisas espontâneas. O líder era Leonel Brizola (1922-2004), seguido por Silvio Santos, Lula e Mário Covas (1930-2001). Para refrescar a memória dos novinhos, Collor bateu Lula no segundo turno em 1989.

Cristovam Buarque* - SOS Fome

Blog do Noblat / Metrópoles

Passados 130 anos da Abolição e da República, os estrangeiros se espantam, mas os brasileiros não, quando a TV mostra famílias sem comida

No século XIX, os estrangeiros que nos visitavam não entendiam como era possível o Brasil tolerar a escravidão, ao ponto de sequer perceber sua maldade. Ao chamar atenção de um brasileiro para o absurdo de um escravo sendo chicoteado na rua, o estrangeiro ouve: “Mas ele é negro”. Até hoje, se um estrangeiro se surpreende e comenta sobre as precárias condições de escolas públicas, certamente ouviria: “Mas estes alunos são pobres”.

Passados 130 anos da Abolição e da República, os estrangeiros se espantam, mas os brasileiros não, quando a televisão mostra famílias sem comida em casa, ao lado da notícia de que somos o maior exportador de alimento do mundo, programas para escolher e premiar o melhor chef de cozinha, além de propagandas sobre redes de “fast food”, com jovens em êxtase ao comer suculentos sanduíches. O visitante estrangeiro deve comparar isto com as chicotadas que escravos recebiam em plena rua: chicotadas virtuais sobre as famílias que têm acesso à televisão e não têm acesso à comida.

Os governos progressistas entre 1992 e 2018 mentem ao dizer que tiraram o Brasil do mapa da fome com Bolsa Escola de FHC e Bolsa Família de Lula: apenas suspenderam, mas não aboliram estruturalmente a fome. Bastaria uma crise econômica, inflação ou epidemia de covid, agravada por erros e insensibilidade do atual governo, e a fome voltaria, porque ela não estava abolida, apenas suspensa.

Entrevista | Bolsonaro quer ganhar a eleição, golpe já não dá mais, diz sociólogo*

Para Brasilio Sallum Jr., professor aposentado da USP, impeachment do atual presidente é improvável

Naief Haddad / Folha de S. Paulo, 17/9/2021

SÃO PAULO - Não há golpe nem impeachment no horizonte.

Para Brasilio Sallum Jr., professor titular aposentado de sociologia da USP, as instituições democráticas, especialmente o STF, reagiram com firmeza aos discursos de tom autoritário de Jair Bolsonaro (sem partido) no 7 de Setembro, demonstrando ao presidente que não existem condições para um golpe.

“O objetivo de Bolsonaro é ganhar a eleição no ano que vem, golpe já não dá mais”, afirma o autor de livros como "Labirintos - dos Generais à Nova República” e “Impeachment de Fernando Collor”.

Tampouco existe um cenário armado para impedimento do presidente. De acordo com o sociólogo, as circunstâncias são bem diferentes das verificadas em 1992, ano da queda de Collor, e 2016, quando Dilma sofreu impeachment.

O professor de 75 anos faz suas análises e, em seguida, deixa a ressalva, com uma ponta de humor: "É o que eu acho, mas você sabe que, em política, a gente pode errar".

O sr. estudou longamente o processo de impeachment de Fernando Collor. Identifica mais semelhanças ou diferenças daquelas circunstâncias, no início da década de 1990, com o que vivemos hoje com Bolsonaro? 

Vejo muitas diferenças. Estávamos saindo de enormes mobilizações dos anos 1980 e existia uma demanda imensa, especialmente da classe média, por democracia. Quando Collor assumiu e passou a agir de maneira autoritária, desconhecendo o Congresso, governando de modo isolado, deu-se um choque imediato. Havia uma unificação na sociedade na demanda por democracia.

Agora é completamente diferente. Existe hoje um movimento de defesa da democracia muito ancorado nas instituições, mas não há uma unificação. Embora a população, em geral, tenha simpatia pela democracia, não ocorreu uma conversão para um movimento coletivo. As manifestações do último dia 12 mostraram que há uma diferença grande entre a boa vontade em torno da democracia e a mobilização coletiva.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O voto ou a queda

Folha de S. Paulo

Datafolha ajuda a explicar por que Bolsonaro recuou da cavalgada autoritária

O presidente Jair Bolsonaro vislumbrou o abismo da deposição e decidiu recuar. Essa hipótese, corrente para explicar os acontecimentos da Semana da Pátria, ganhou solidez com os resultados do Datafolha que foi a campo quatro dias depois da nota do chefe de Estado colocando panos quentes nas declarações subversivas do feriado.

Indagados sobre se o impeachment deveria ser a consequência caso o mandatário cumprisse a promessa, feita nos comícios, de desobedecer a ordens do Supremo Tribunal Federal, 76% dos brasileiros disseram que sim. O repúdio às ameaças autoritárias do governante não poderia ser mais claro.

Metade dos entrevistados reconhece possibilidades golpistas nas atitudes do presidente da República, mais um indicador do zelo pelo patrimônio em que se converteu para a sociedade brasileira a democracia —definida por 70% como a melhor forma de governo.

Esse conjunto de resultados ajuda a entender o beco sem saída em que se meteu Jair Bolsonaro não exatamente no 7 de Setembro, mas sobretudo quando o dia seguinte amanheceu com o rochedo da institucionalidade avultando-se impávido sobre o aventureiro boçal.