sábado, 10 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brazil, o Filme

Por CartaCapital

A continuação da distopia prestes a entrar em cartaz 

Sam Lowry é o herói acidental de um país inoperante, regido por ordens desconexas de uma burocracia obtusa emitidas por computadores obsoletos. Enquanto uma elite cafona se esbalda em festas nababescas na cobertura, tal qual os irmãozãos de Daniel Vorcaro, o couro come nas ruas. Funcionário do quarto escalão de uma repartição pública, oprimido pela mãe dominadora, Lowry acaba confundido com um terrorista ao se apaixonar por uma mulher “suspeita”. Para a sua sorte, ou azar, o Estado que o persegue é incompetente e indolente. Por isso, mais perverso.

O que aconteceu com os jovens? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?

A ascensão política de pautas antifeministas é uma ameaça às mulheres? Sim, por Flávia Biroli*

Folha de S. Paulo

Estratégia promove projetos autoritários e normaliza violências e desigualdades

Movimento rende frutos em tempos de expansão de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita

É preciso avaliar concretamente a atuação política das mulheres. Qual trajetória as levou à política e de que modo ganharam visibilidade? Quais interesses representam? Quais são as consequências do que fazem quando têm espaços e recursos de poder?

Isso significa evitar duas armadilhas. A primeira é a idealização. Os estereótipos de gênero alimentam visões de que as mulheres seriam menos ambiciosas. Podem comportar-se assim, o que decorre tanto de incentivos presentes na socialização diferenciada de mulheres e homens quanto de desincentivos. Entre estes estão obstáculos históricos à participação na esfera pública, resultantes de sua responsabilização pelo trabalho de cuidado, da seletividade de instituições como partidos políticos e de valores machistas.

Esquema bolsonarista define eleição no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Douglas Ruas nem precisava de canetada do TSE e confusão armada por Garotinho

Impactado por votos na Baixada Fluminense, pleito virou um negócio de família

No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país –domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro –em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.

Mais uma vez à beira do abismo, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.

A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.

Poder e saber, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Será necessário Lula mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade, reatualizando os saberes. Se Flávio Bolsonaro for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe

O eleitorado brasileiro decidiu aposentar a geração de 1988. Esse time foi para casa. Seus últimos representantes são José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva. Um, curado de uma pneumonia aos 96 anos, faz ginástica todos os dias, está distante da política. O outro, aos 81 anos, tentou sem sucesso a recondução à Presidência da República no primeiro turno. Junto com eles, mais de 30 nomes expressivos na política foram mandados para casa. Foi um massacre.

Puxador sem time não enche bancada, por Amanda Vitoria Lopes*

Correio Braziliense

Em 2026, 19 chapas de partidos e federações perderam ao menos uma cadeira por falta de candidatos com votação mínima. Em 2022, foram 52

A federação PSol/Rede elegeu seis deputados federais por São Paulo em 2026. Pelo quociente partidário (QP), poderia ter elegido nove. Erika Hilton com seus 1.596.472 votos, teria a capacidade de garantir a eleição de três candidaturas da federação. Mas só seis candidatos da chapa passaram do mínimo exigido para ocupar uma vaga. O sétimo, Raul Marcelo, ficou 3.702 votos abaixo do piso. Três cadeiras que a federação tinha votos para ocupar foram para outros partidos.

As distorções do sistema eleitoral para o Congresso, por Marcus Pestana

Há uma semana, encerramos o primeiro turno das eleições gerais de 2026. Ainda teremos a segunda rodada da presidencial e para governador, em alguns poucos estados. Foram eleitos 54 senadores e 513 deputados federais. Houve um expressivo crescimento do Partido Liberal, que abriga o bolsonarismo, com a eleição de 121 deputados e a formação de uma bancada de 28 senadores, quase um terço das cadeiras. A esquerda elegeu 124 deputados, quatro a menos do que em 2022, e perdeu uma cadeira no Senado Federal em relação ao que é hoje, terá 15 senadores. A bancada dos partidos situados ao centro do espectro político é que cederam maior espaço. Portanto, qualquer que seja o presidente da República eleito, Flávio Bolsonaro ou Lula, haverá a exigência de um grande esforço político para formar uma base de apoio estável e sólida para o novo governo. Aí, aparece a primeira distorção, a desconexão entre as eleições presidenciais e as parlamentares. Elegemos um presidente, mas não construímos, no próprio processo eleitoral, as condições de governabilidade, ou seja, maioria parlamentar.

Sempre um alento, por Flávia Oliveira

O Globo

Soa como música que acalma o Nobel da Paz concedido a Navi Pillay

Em tempos de multilateralismo despedaçado, conflitos alongados, misoginia galopante, soa como música que acalma o Nobel concedido a Navi Pillay. O comitê foi explícito ao reconhecer os esforços da jurista sul-africana para “promover a paz e o Direito Internacional”. Não deixou de notar que a ex-alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos e ex-presidente do Tribunal Penal Internacional, uma advogada que lutou contra o apartheid e denunciou genocídio, hoje com 85 anos, enfrentou na trajetória profunda discriminação, segregação e exclusão. Ainda assim, não perdeu a coragem nem esmoreceu na luta por justiça e dignidade humana. Não por acaso, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Navi na Alemanha quando ela soube do prêmio, disse que a escolha foi inspiradora.

Corra, Lula, corra, por Eduardo Affonso

O Globo

Faltam 15 dias para o segundo turno, Lula, e você tem um forte adversário pela frente. Não o que pretende anistiar golpistas e retomar, talvez piorado, o pior governo da nossa história. Você precisa derrotar é o que subiu a rampa em 2023 com gay, mulher, indígena, portador de deficiência, criança — e não aumentou a representatividade feminina, negra ou LGBT em cargos de relevância, não melhorou a educação, não pôs fim à tragédia ianomâmi. O do triplex, das gafes machistas, do mensalão, do petrolão. O das promessas não cumpridas, dos sigilos de cem anos. O que bancou a candidatura de um poste e nos jogou numa recessão. O que apostou no antagonismo entre ricos e pobres, católicos e evangélicos, pretos e brancos — e cujos seguidores quase nos fizeram acreditar que a classe média é odiosa, o ecumenismo é uma ilusão, pardos e mulatos são uma alucinação coletiva.

Antes fosse, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

“Menos Janja e mais Alckmin.” Esse mote – produto da semana de lavação explícita de roupa suja – resume, reúne a campanha de Lula inteira. O “menos Janja” é uma impossibilidade. Janja é o governo que se pretende reeleger. Diagnosticou-se, por exemplo, que a campanha falhara na gestão das redes sociais, envelhecida. Solução: mais janjismo cultural, de imediato inundadas as postagens de Lula com as selfies-consultorias da juventude psolista. Para falar com o eleitor que Lula já tem.

Antes o problema principal fosse de forma. Quer-se atrair o eleitor de Renan Santos com discurso identitário. Quer-se conquistar o eleitor de Augusto Cury com texto woke. Quer-se baixar o índice de abstenção assim.

As eleições e o futuro como desafio, por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

Entre decepções, surpresas e lamentações, as urnas do primeiro turno impactaram a vida política brasileira. Como interpretá-las?

Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.

Lula III, o legado, por Paulo Gala

CartaCapital

O governo é marcado pela expansão das transferências de renda, o pleno emprego e o desafio da reindustrialização

A avaliação do desempenho econômico do terceiro mandato do presidente Lula comporta um diagnóstico relativamente claro. O controle das contas públicas pode ser considerado razoável, sobretudo quando comparado aos anos anteriores. Os déficits primários ficaram, em média, abaixo de 1% do Produto Interno Bruto por ano, patamar inferior ao observado durante o governo Temer e o início da gestão Bolsonaro. Esse dado costuma ser ofuscado no debate público, que tende a tratar a política fiscal do período como sinônimo de descontrole, mas os números do resultado primário não sustentam essa leitura.

A democracia em risco novamente, por Pedro Serrano

CartaCapital

A extrema-direita no Congresso seria amplificada com Flávio Bolsonaro, pois teríamos dois dos Poderes capturados por forças golpistas

Os resultados verificados nas eleições parlamentares do último dia 4 de outubro acendem um alerta vermelho para a democracia no Brasil. A ocupação pela extrema-direita de grande parte do espaço político no Legislativo, que vinha sendo preenchido pelo chamado Centrão e pela direita mais moderada, constitui um perigo para o Estado Democrático de Direito. Afinal, Câmara e Senado passarão a ser dominados por uma força política disruptiva, que já tentou um golpe de Estado há relativamente pouco tempo. Ainda é cedo para prever o desfecho das eleições presidenciais. O presidente Lula é um grande líder popular e, sendo pequena a diferença de votos, é ainda possível reverter o resultado desfavorável. Mas é preciso apontar que o risco à democracia já instalado pela nova composição do Congresso certamente seria amplificado com a vitória de Flávio Bolsonaro, uma vez que teríamos dois dos Poderes da República capturados por essas forças golpistas.

Bolsonarismo e sociedade de massa, Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os seus adeptos encarnam o “homenzinho” fascista, ansioso por autoridade, mas rebelde

Os trancos e barrancos do comportamento dos seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes, quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta deles – incrustrados no espírito do homem-massa.

A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.

O enterro de uma farsa, por Jamil Chade

CartaCapital

Após o fluxo contínuo de fake news sobre as urnas eletrônicas, Donald Trump elogia o sistema eleitoral brasileiro 

Por anos, ouvimos de bolsonaristas a mesma ladainha: as urnas eletrônicas não são confiáveis. Numa operação que contaminou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro, a extrema-direita passou anos conspirando contra a democracia e disseminando a desinformação sobre supostas fraudes no sistema de contagem de votos no Brasil. Numa delas, em 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para apresentar uma suposta denúncia contra as urnas no ­País­, um gesto que lhe valeu a inelegibilidade. Em julho, em mais uma tentativa de alimentar a polêmica, o bolsonarismo convocou para uma live o consultor argentino Fernando Cerimedo, atualmente preso na Bolívia, para promover um ataque às urnas.

Poesia | Saudade, de Clarice Lispector

 

Música | Noel Rosa - Gago Apaixonado

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reforma tributária deve entrar em vigor como promulgada

Por O Globo

Em vez de mudar avanços resultantes de décadas de debate, candidatos têm de se preocupar em implementá-los

Em 20 de dezembro de 2023, numa sessão histórica com a presença de autoridades dos três Poderes, o Congresso promulgou a reforma tributária, proposta discutida havia mais de 30 anos. Foi um momento raro de consenso político em favor dos brasileiros, reféns de um sistema tributário caótico e injusto. Esse avanço não pode ser desperdiçado. Por isso mesmo, os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputarão o segundo turno em 25 de outubro, precisam se comprometer a preservar o que foi decidido e dar andamento à implementação da reforma.

Disputa do segundo turno se acirra na rua, no Congresso e nos tribunais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Eleitos com milhões de seguidores têm força própria: à esquerda, Erika Hilton, Ana Elisa e Jones Manoel são as estrelas; à direita, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Jessé Sangalli

O segundo turno está na rua, mas uma parte decisiva da disputa ocorre nos corredores do Congresso e nos gabinetes dos tribunais. Enquanto Flávio Bolsonaro procura converter a vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva em vitória, o resultado de domingo já reorganiza alianças, estimula propostas de mudanças constitucionais e altera as expectativas sobre o futuro do Supremo Tribunal Federal. A eleição presidencial tornou-se também uma disputa pelas regras e pelos limites do poder. Flávio já fala em acabar com a reeleição e aumentar seu mandato para cinco anos.

A direita que dividiu o Centrão, por Karolina Roeder*

Correio Braziliense

É muita ironia do destino a democracia brasileira em 2026 depender do Centrão para sobreviver

 O primeiro turno de 2026 confirmou algo que vinha se desenhando desde 2018. A extrema-direita se consolidou como força eleitoral no Brasil, com quadros, eleitorado e um partido que, mesmo com uma organização frágil, dispõe da maior fatia individual do fundo eleitoral. O capital político de Jair Bolsonaro foi transferido para os filhos, especialmente Flávio, cuja candidatura presidencial funcionou como motor das candidaturas do PL ao Legislativo. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização, e terá a maior bancada do Senado a partir de 2027, com 28 senadores. 

Do outro lado, os seis partidos do Centrão — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e Podemos  — elegeram juntos 13 deputados a menos que em 2022. Isso chama atenção porque parte desses partidos passou os últimos anos ao lado do bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados do 8 de Janeiro e a oposição sistemática ao governo. Com isso, perderam espaço justamente para o campo político que ajudaram a fortalecer. 

Fim de época, por José de Souza Martins

Valor Econômico

No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem

O resultado da eleição de 4 de outubro não foi uma surpresa. Ele já se anunciava há tempos, desde a eleição do candidato do PT à Presidência em 2002. Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato, não disfarçou sua enorme e genuína emoção no momento da passagem da faixa presidencial a Lula.

FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como presidente.

Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.

Entrevista | Para Marcos Nobre, Flávio tentará ‘submissão negociada’ aos EUA

Valor Econômico, por César Felício

Cientista político vê cenário difícil para eventual Lula 4, com necessidade de montagem de base ‘anti-impeachment'

Autor de vários livros sobre a estruturação do bolsonarismo como um partido orgânico de caráter digital, o cientista político Marcos Nobre vê possibilidades do surgimento de uma “esquerda digital” no futuro, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perca a eleição para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Para Nobre, caso chegue ao poder, Flávio será um presidente longe do improviso: firmou liderança dentro do seu grupo, mesmo depois de contestado publicamente pela madrasta, a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF). Forjou aliança com os partidos do Centrão e sobreviveu a escândalos como o da “rachadinha” e do Banco Master.

Nobre aposta que, se eleito, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tentará negociar a submissão do Brasil aos Estados Unidos em troca de investimentos externos que viabilizem uma saída para os problemas fiscais sem comprometer o desenvolvimento.

Caso a estratégia não dê certo, ele não considera impossível que o Brasil derive para um modelo autoritário, nos moldes do de Recep Erdogan, autocrata da Turquia, no poder desde 2003.

Líder conservador, Erdogan enfrentou diversos obstáculos jurídicos para organizar o seu partido e chegar ao poder. Em seus dois primeiros mandatos fez governos com alta aprovação, marcados por crescimento econômico e inflação sob controle. A partir de 2013, com o país em crise, passou a fechar o regime por meio de medidas judiciais, processo que se acelerou depois que sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2016. Para Nobre, a democracia cai em uma espécie de armadilha quando é forçada a recorrer a medidas arbitrárias para sua própria autodefesa. 

A seguir, trechos da entrevista de Nobre ao Valor:

Lula retoma agenda de viagens aos Estados, por Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira e Cristiane Agostine

Valor Econômico

Campanha passou a escalar lideranças e personalidades regionais para comunicação mais direcionada

Após quatro dias de discussões internas para contornar o cenário adverso no segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retoma, nesta sexta-feira (9) e no sábado (10), suas agendas de campanha pelos Estados. A 16 dias da votação, a estratégia é tentar recuperar votos e fortalecer os palanques do PT, na tentativa de capilarizar eleitores. O foco principal é que Lula adote, de forma mais explícita, uma postura de candidato.

A nova fase da campanha deve priorizar mobilizações de rua, com caminhadas e atos de maior contato com o povo, em relação aos comícios tradicionais. A mudança ocorre depois de quase uma semana de reuniões sobre as dificuldades enfrentadas pelo presidente em regiões consideradas estratégicas.

Alckmin vai em busca de voto do eleitor de centro, por Lucas Borges Teixeira e Sofia Aguiar

Valor Econômico

Na leitura de petistas, Alckmin agrega imagem de ponderação no momento em que o partido busca convencer os indecisos

Chamado para participar mais ativamente da campanha à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) já intensificou sua agenda nos primeiros dias de segundo turno. Sua missão é tentar persuadir o eleitorado de centro, em especial aqueles que não foram às urnas votar no domingo (4). Antes mais restrito a São Paulo, um dos principais reforços será em torno de religiosos, segmento que a candidatura busca maior interlocução, além de manter os encontros com empresários.

Sensação de disputa resolvida não se confirma na pesquisa, por César Felício

Valor Econômico

Diferença de 4pp mostra descompasso com o clima de já ganhou entre bolsonaristas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já não faz mais campanha presidencial, embora ainda faltem mais de duas semanas para o segundo turno. Negocia as adesões do Centrão em troca não de votos, mas de espaços de poder nas mesas diretoras do Congresso e do ministério. Organiza como se dará o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até sinaliza para uma costura que, em nome de acabar com a reeleição, prorrogará o próprio mandato que disputa e adiará as eleições de 2030. Já há até especulação sobre a divisão de cargos de segundo escalão.

‘Influencers’ crescem, mas velha política resiste, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Regra elementar do poder dita que, em Brasília, manda quem tem votos

O ano era 2012. A imprensa aguardava, com desânimo, o resultado de uma reunião do PT com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, prevista para 16h, que definiria se a votação de um projeto de interesse do governo no Senado ocorreria naquele dia ou na semana seguinte. Passava das 17h quando o então líder do partido, senador Walter Pinheiro, da Bahia, cruzou o cafezinho do plenário do Senado em direção ao elevador, com a tranquilidade dos baianos, para se deslocar à Esplanada.

Alertado que o ministro o aguardava havia mais de uma hora, Pinheiro se voltou aos jornalistas e questionou: “Quantos votos o Mantega tem?” A resposta era nenhum. E prosseguiu: “Eu tenho 3,6 milhões, por isso, é ele que deve me esperar”. Em 2010, ele obteve 31% dos votos válidos. Mais do que o alcançado nesse domingo (4) pelo ex-ministro Rui Costa (PT), que conquistou 4,3 milhões de votos, equivalentes a 30% do total.

Corra, Lula, corra, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente deveria dar início a um plano de redução de danos institucionais

Precisa indicar nomes para cargos federais que estão vagos, começando pelo STF

É cedo para Lula desistir. Suas chances de virar no segundo turno são reduzidas, mas diferentes de zero. Até o dia 25, tudo pode acontecer. De todo modo, o petista já deve implementar um plano de redução de danos institucionais, que começa pelo preenchimento de cargos estratégicos que estão em aberto.

Refiro-me a quatro ou cinco dezenas de postos de direção em órgãos federais e vagas em tribunais que estão sem titular. Essas posições são providas com nomes indicados pelo presidente e aprovados pelo Senado. Para dar alguns exemplos, estão em aberto uma cadeira no STF, três no STJ, duas diretorias no BC, uma na CVM e três no Cade.

Flávio gera suspeita ao se propor a redemocratizar o país, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As palavras 'democracia' e 'Constituição' soam duvidosas ante o histórico golpista da família Bolsonaro

Candidato a presidente está obrigado a se expressar sem resquício de dubiedade em questões institucionais

Se não for bravata ou fruto de ignorância, a ideia de Flávio Bolsonaro (PL) de "redemocratizar o país" caso seja eleito é um acinte aos 41 anos de vigência da democracia e uma provocação à concertação nacional que pôs fim ao regime militar.

A dianteira no primeiro turno não dá ao candidato apenas o favoritismo na disputa presidencial. Obriga-o a medir palavras, sopesar pensamentos, conter certos ímpetos e, sobretudo, demonstrar conhecimento sobre a história (ao menos a mais recente) do Brasil.

Lula não ganha mais eleitores no Nordeste, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Apenas Flávio ganha voto na região; se fosse o contrário, eleição estaria perto de empate

Presidente-candidato ganhou mais votos do que adversário no Sul e no Sudeste

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não ganhou votos no Nordeste neste começo de segundo turno, a julgar pelos resultados do primeiro turno e pelos dados da primeira pesquisa Datafolha a respeito deste fim de campanha. Lula teve 63,8% dos votos válidos nas urnas nordestinas; na pesquisa, 63,4%. Flávio Bolsonaro passou de 30,9% para 36,6%. Ganhou votos na praça-forte petista.

É sempre possível que tenha havido migração muito mínima de eleitores de Lula para Flávio e vice-versa, mas parece por ora que Flávio levou todos os eleitores que não votaram nele ou em Lula no primeiro turno do Nordeste. Se tivesse ocorrido o inverso, a eleição estaria agora quase empatada no Datafolha, nessa aritmética elementar.

Lula e PT não sabem falar em autonomia e em prosperidade, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Dissociação entre condição econômica e identidade política ficou clara no recado da urna

Esquerda parece não entender novos tempos; onda de direita provoca mudança geracional

O recado das urnas, seja quem ganhe o segundo turno, foi uma grande onda de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de representação política com jeito de século 20 dominante na redemocratização.

Nada disso é tão novo e nada disso flutua no ar. Há uma base material da sociedade em movimento que nos leva à hipótese, senão à evidência, de que presenciamos uma dissociação entre condição econômica e identidade política.

Datafolha: 2º turno começa com vantagem estreita de Flávio Bolsonaro e caminho longo para Lula, por Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Senador herda mais votos de candidatos derrotados e avança além da base bolsonarista fiel

Petista reinicia campanha com esforço para ampliar desempenho entre os mais pobres e ampliar rejeição a rival

O segundo turno começa com uma vantagem estreita de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) e tarefas de dimensões diferentes para os dois candidatos. A nova pesquisa Datafolha indica que o senador tentará se segurar no apoio que consolidou em regiões e grupos diversos, enquanto o presidente precisa buscar mais votos fora do Nordeste e ampliar vantagem em segmentos próximos do petismo.

O resultado vai depender de quem consegue convencer os eleitores que ainda não se fecharam: os que não rejeitam nenhum dos dois candidatos e os que não se alinham automaticamente a nenhum dos lados. As duas campanhas vão gastar energia nesse território até 25 de outubro.

Centrão terá de compor para sobreviver, por Vera Magalhães

O Globo

Legendas correm a aderir a Flávio, na esperança de ficar com os camarotes da distribuição do poder em caso de vitória do candidato do PL, que saiu fortalecido

A eleição de 2026 produziu um rearranjo importante no Centrão. O grupo de seis partidos composto por União e PP, agora integrantes de uma federação, mais MDB, PSD, Republicanos e Podemos continua reunindo parcela expressiva da representação parlamentar e ampliou sua presença nos governos estaduais já definidos. Mas o crescimento do PL, sobretudo no Senado, alterou a correlação de forças e puxou a hegemonia do centro para a direita. Agora, essas siglas terão de recalcular a rota.

O peso das emendas na disputa pelo Parlamento prometia uma colheita gloriosa aos partidos do grupo, que sairiam com bancadas ainda maiores e manteriam o controle do Congresso tanto em caso de vitória de Lula quanto de Flávio Bolsonaro.

A sina do Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Após devassa em esquemas de corrupção, PL volta ao Palácio Guanabara com Douglas Ruas

Depois de ter cinco governadores presos e dois cassados, o Rio de Janeiro terá um novo governador investigado antes mesmo de tomar posse.

Ao anular os votos de Anthony Garotinho, o Tribunal Superior Eleitoral abriu caminho para declarar a vitória de Douglas Ruas no primeiro turno. O bolsonarista é alvo de procedimento que apura supostas práticas de peculato, lavagem de dinheiro, fraudes licitatórias e organização criminosa.

Para uma nova esquerda - 1, por Pablo Ortellado

O Globo

É necessário fugir daquelas posições que levam à radicalização da direita

A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno colocou a esquerda em modo desespero. Mais uma vez, vemos a difusão de campanhas para virar voto e tentar reverter em duas semanas o que deveria ter sido construído em oito anos.

A esquerda tem duas tarefas diferentes e concomitantes: para o bem do país, precisa fugir daquelas posições que levam à radicalização da direita e, para sua própria identidade e sobrevivência, se colocar de maneira distinta — responder aos problemas colocados pela direita, mas sem se descaracterizar caminhando para o centro. A partir desta semana, farei uma série de colunas sobre o que é preciso para construir uma nova esquerda.

Pausa no ‘já ganhou’ de Flávio, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Centrão pulou no barco de Flávio Bolsonaro, mas é cedo para o ‘já ganhou’

Poder atrai poder e, neste momento, todos os caminhos levam, não a Roma, mas ao barco de Flávio Bolsonaro, que acolhe os náufragos do primeiro turno e os partidos do Centrão, tão rápidos e vorazes como quando pularam em todos os governos eleitos e no barco de Lula quando ele era, ou parecia, favorito no primeiro turno.

Esse movimento criava a percepção de que Flávio era imbatível e puxava votos para ele, já que o eleitorado não ideológico e de baixa escolaridade gosta de votar em quem “vai ganhar”, para “não jogar o voto fora”. Por isso, o primeiro Datafolha do segundo turno foi um alívio na campanha de Lula: 49% para Flávio e 45% para ele.

Chefe da economia vai segurar a ‘boiada’? Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Flávio ainda não anunciou seu ministro da Fazenda; mercado parece não se importar

Às vésperas do segundo turno, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, favorito para vencer o pleito, ainda não anunciou seu ministro da Fazenda. Não quer provocar atrito entre seus auxiliares.

O mercado parece não se importar. Já iniciou um rally de alta confiando em promessas de austeridade, na boa equipe técnica que cerca o candidato e na base parlamentar confortável feita no Congresso.

O PL terá maioria na Câmara e no Senado e, com apoio de partidos do Centrão, poderá aprovar o que Flávio quiser.

Avanço da direita num mundo transformado, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Estamos diante de uma forte onda internacional de direita. Para fazer frente a ela é preciso estudo, pesquisa, humildade, uma tentativa de compreender o outro

O problema desse primeiro turno, encerrado com a vitória de Flávio Bolsonaro e uma grande votação da direita no Senado, é o fato de precisarmos de muito tempo para entender, num contexto em que não há tempo, pois o segundo turno já começou. É difícil corrigir em 20 dias erros que se arrastaram por quatro anos. Um deles se refere à amplitude e eficácia da frente democrática, bem-sucedida em 2022. Para ser fiel à proposta, o governo teria de evitar a hegemonia de um só partido e tentar, progressivamente, conquistar setores da sociedade que ainda estavam fora da frente. Não foi isso que aconteceu. A frente foi vista apenas como um instrumento da vitória eleitoral, e não como uma ferramenta que precisa ser aperfeiçoada para confrontar o crescimento da direita, uma realidade internacional.

Ana Elisa: Urnas mostraram que eleitores estão cansados do jeito velho de fazer política

 

Poesia | Epígrafe, de Manuel Bandeira