Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Existem boas ideias na educação — só falta espalhá-las
Por O Globo
Resultado do Pisa mostra que aluno valoriza
os professores e costuma receber atenção deles
Nem tudo é má notícia na educação brasileira. Pelo menos a motivação dos professores é valorizada pelo aluno, como constatou a última edição do Pisa, a avaliação internacional promovida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, 82% dos estudantes avaliaram positivamente seus professores, mantendo o patamar verificado em 2015 (81%). Para 78%, os docentes persistem até que o aluno entenda a lição. E 76% afirmam receber ajuda adicional, fora do tempo de aula, para compreender a matéria. Nesses quesitos, os alunos brasileiros tiveram desempenho melhor ou comparável aos da OCDE.
Sobre a (in)constância da humanidade atual, por Aldo Paviani*
Correio Braziliense
As sociedades que se encontram dentro da
curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e
realizam seus projetos. Já as que estão fora dela aplicam a máxima "o
futuro a Deus pertence"
A humanidade atravessa um período de profundas alterações estruturais e de processos, impulsionadas, em parte, pelas transformações no perfil populacional e sociocultural. O volume demográfico de diversas regiões tem se modificado, assim como a representação de gênero. As mulheres vêm ocupando papéis cada vez mais proeminentes na estrutura populacional, tanto em âmbito regional quanto nacional. A Região Centro-Oeste, por exemplo, segundo o IBGE, é atualmente composta por 52% de mulheres e 48% de homens. Espera-se, portanto, que elas assumam um protagonismo crescente não apenas na manutenção das famílias, mas na ocupação de cargos de liderança na sociedade, uma das principais pautas sociais do momento. Todavia, o aumento simultâneo da violência contra a mulher sugere que parcelas da sociedade ainda reagem de forma brutal a essas mudanças sociofamiliares.
Medida tem apelo, mas não contorna problema do endividamento, por César Felício
Valor Econômico
A motivação eleitoral da proibição das bets
no Brasil, decidida na sexta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é
óbvia.
Pelo menos duas pesquisas mediram nos últimos
meses a adesão a uma proibição total das apostas online e a maioria absoluta se
mostrou favorável à interdição. Na mais detalhada delas, da Ideia, de julho,
56% dos entrevistados concordaram com a proibição.
Um sinal do apelo da medida é o fato de que o
principal rival do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL), tachou a medida
de “eleitoreira, hipócrita, populista”, mas ao mesmo tempo ponderou: “sempre
fui contra os jogos”.
Renan Santos (Missão), em vídeo, procurou desqualificar a iniciativa como pouco efetiva. “Vou dizer exatamente o que vai acontecer: a Medida Provisória vai caducar. É só uma medida eleitoreira.” Frisou ser contra jogos.
Golpe de misericórdia ou tarde demais? Por Bruno Carazza
Valor Econômico
Medidas poderosas a poucos dias do primeiro
turno testam a capacidade de Lula de obter um quarto mandato
Na Zona Leste de São Paulo, a jornalista
Renata Lo Prete, apresentadora do Jornal da Globo, pergunta a um grupo de três
mulheres empregadas num salão de beleza: “O que motiva vocês a trabalharem
tanto?” Sem pestanejar, a manicure Janine Mendes Pereira responde: “As dívidas!”
Segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa
Experian, o Brasil tinha em agosto 83,9 milhões de pessoas com o CPF negativado
por pagamentos em atraso. Isso representa 51% da população adulta brasileira,
mas em algumas unidades da Federação esse índice é ainda mais preocupante, como
Mato Grosso do Sul (60,9%), Amazonas (61,2%), Distrito Federal (63,2%) e Amapá
(64,9%).
Trata-se de um problema de longa data, mas que se agravou no mandato do presidente Lula. Prova disso é que quatro anos antes, ainda no governo de Jair Bolsonaro, havia 68 milhões de inadimplentes - um quantitativo já bastante expressivo, embora 19% menor do que o atual.
Eleitores entre o velho e o retrógrado, por Carlos Pereira
O Estado de S. Paulo
Com Bolsonaro ou Lula, Brasil vira as costas
para o futuro ao ver a eleição cair em uma armadilha
Daqui a uma semana, o Brasil vai às urnas para celebrar o décimo episódio consecutivo de eleições livres, limpas e competitivas. Por si só, esse já deveria ser motivo de regozijo. Afinal, preenchemos com sobra os requisitos de uma democracia consolidada: incerteza sobre quem vencerá antes de o jogo acabar, certeza de que o vencedor governará e repetição do jogo em calendário estável e regular, com alternância de poder.
O paradoxo é que uma democracia que aprendeu a repetir o jogo parece ter desaprendido a renovar suas escolhas. Em vez de uma disputa entre agendas distintas para o futuro, a maioria dos eleitores brasileiros se vê diante de uma armadilha eleitoral: escolher entre o velho e o retrógrado.
O Brasil que vai votar cansado, por Preto Zezé
O Globo
A mesma pessoa que quer ordem quer proteção
social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro
No Acre, uma mulher me contou uma cena do
mercado. O filho pequeno colocou um chocolate no carrinho. Ela teve que tirar.
A criança chorou, e ela precisou explicar que não dava para pagar tudo, que
naquele mês era só o básico. Nenhum debate na TV tem essa cena. E ela resume o
Brasil que vai às urnas no dia 4.
Nas últimas semanas, estive em Brasília, Acre, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Realidades e sotaques diferentes, problemas que mudam de nome. Mas uma palavra atravessou quase todas as conversas: cansaço. E é esse eleitor cansado quem decidirá a disputa.
A crise vai da economia à política, por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
O quadro piora em 2027. Nesta reta final de
campanha, o governo tem tomado medidas que aumentam o gasto
Não será por falta de aviso. A economia tem
dado seguidos sinais de piora há algum tempo, mas a semana passada foi
especial. No sentido negativo. A inflação voltou a subir forte, os números
indicando que deverá terminar o ano mais perto dos 5%, acima do teto da meta.
Segundo dados do IPCA-15 de setembro, ficaram mais caros dois itens que
impactam diretamente o orçamento das famílias: energia elétrica e alimentação.
No quesito das contas públicas, a equipe econômica finalmente admitiu o que analistas independentes mostram há meses: haverá déficit neste ano, de novo. Isso apesar de a arrecadação de impostos continuar quebrando recordes. Em agosto, a receita alcançou R$ 235,5 bilhões, o melhor resultado para o mês em toda a série histórica. De janeiro a agosto, o governo federal arrecadou R$ 2,1 trilhões, um ganho real (descontada a inflação) de 7,12% sobre o mesmo período do ano passado.
A metástase institucional do caso Master, por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
O passivo de ilícitos passa a sobredeterminar
as relações entre os três Poderes e vira moeda de troca
Presidentes, ministros e parlamentares agora
calculam também os riscos de exposição e retaliação
As revelações mais recentes sobre Davi
Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise
política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica
institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo
hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente
representativo de uma maioria parlamentar.
Essa explicação institucional não é falsa. Tornou-se, porém, claramente insuficiente.
Presença de mulheres na política fortalece a democracia, por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
Maioria no eleitorado, mulheres ainda ocupam
espaço reduzido no poder
Candidatas negras enfrentam a pior taxa de
conversão em mandato
Lá se vão 31 anos desde que a legislação
eleitoral (lei nº 9.100/95) determinou que os partidos políticos devem
reservar vagas para candidaturas de mulheres. Originalmente, a reserva mínima
era de 20% e valia para as eleições
de 1996.
No ano seguinte, a determinação foi alterada (lei nº 9.504/97) para abranger as eleições proporcionais em geral. Até que a minirreforma eleitoral (lei nº 12.034/2009) ampliou para 30% o percentual mínimo de candidaturas para cada gênero.
Dois litros por dia, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Nenhum jovem sai mais à rua sem uma garrafa
d'água; seria como andar nu por aí
A pergunta é: onde ele despeja toda essa água
que manda para dentro o dia todo?
O espetáculo salta aos olhos: o batalhão de jovens (jovens hoje são todos entre 10 e 40 anos) nas ruas com uma garrafa d’água. Ela pode estar num bolso da mochila, presa à alça da própria, levada na cintura ou mesmo nas mãos. O importante é ter o produto ao alcance de um gole. É como se sair de casa sem água fosse sair sem calças. Nenhum millennial será apanhado nessa condição.
Entre o sonho e o ressentimento, por Rosana Pinheiro-Machado*
Folha de S. Paulo /Ilustríssima
Percepção do papel do Estado na
concretização das aspirações é decisivo no voto dos segmentos que aprenderam a
desejar
Anseio de se tornar CEO de si próprio expressa, mais que ímpeto neoliberal, busca por dignidade em país que humilha pobres
Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.
A explicação desse
fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e
Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons
indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva
do governo Lula (PT).
Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e
as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade
do presidente.
Um assobio de amor na repressão, por Claudio Leal*
Folha de S. Paulo / Ilustríssima
Canção
interpretada por Nara Leão venceu festival na TV em 1966 e virou fenômeno
cultural
Versos
do músico de 22 anos uniram país em fase traumática e foram louvados por
Drummond
(Resumo) Em 10 de
outubro de 1966, "A Banda" despontou da 2ª edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, para
a glória nacional, fazendo de seu autor, um jovem e tímido Chico Buarque de 22 anos, um ídolo de massa.
Nos dias seguintes daquele ano, como conta a reportagem a seguir, a passagem da
banda "cantando coisas de amor" foi um sopro de poesia em um Brasil
acossado pela ditadura, seduzindo jovens, bicheiros, militares e nomes ilustres
e díspares como Drummond, Nelson Rodrigues, dom Helder Câmara e Carlos Lacerda.
Uma canção de cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras
elevou Chico Buarque a ídolo de massa. Em 10 de outubro de 1966, "A
Banda", de Chico, e "Disparada", de Theo de Barros e Geraldo
Vandré, dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira,
da TV Record.
O empate, solução
ansiada por Chico, não as igualou em alcance. Defendida por Nara Leão, a marcha buarquiana virou um
fenômeno cultural, como se a história da passagem de uma banda emanasse do
imaginário brasileiro e a ele voltasse.
"Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor// A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor."
A odisseia de Chico, por Luiz Guilherme Piva*
Folha de S. Paulo / Ilustríssima
Obra de Homero parece ter marcado
profundamente o músico, que levou Penélope e Ulisses para suas letras
Protagonismo de anti-herói odisseico redimido
é característica distintiva de parte das canções de Chico
Quando publicou o conto "Ulisses",
em 1966, Chico Buarque
transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades
profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa
de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas
quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por
malandragem— com monstros que o derrotam.
Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.
domingo, 27 de setembro de 2026
Opinião do dia – Jürgen Habermas* (Eleições)
Eles não podem expressar irrefletidamente a
vontade da população, pois têm também um sentido cognitivo. O governo precisa
elaborar problemas urgentes com base nessas decisões sobre diretrizes. Em uma
democracia, eleições políticas não satisfazem sua determinação sistêmica se
meramente registram a distribuição de preferencias e de prejuízos. Os votos
eleitorais alcançam o peso institucional de decisões civis de um colegislador
somente porque procedem de um processo público de formação da opinião e da
vontade, no que esse processo é controlado pelos prós e contras públicos de
opiniões, argumentos e tomadas de posição livremente flutuantes. As opiniões
dos cidadãos devem primeiramente se constituir a partir da maré dissonante das
contribuições, a luz de uma troca de opiniões publicamente articulada.
De maneira ideal, a política deliberativa se
enraíza em uma sociedade civil que faz um uso anarquista de suas liberdades
comunicativas. Mas, em nossas esferas públicas espaçosas, produzidas
primeiramente pela rede comunicativa de mídias de massa, carece-se não só de
informações e impulsos da parte de uma imprensa espontânea e independente, mas,
em primeira linha, da iniciativa, do esclarecimento e da capacidade de
organização dos partidos políticos.”
*Jürgen Habermas (1929-2026), filósofo e sociólogo alemão que participou da tradição da teoria crítica, membro da Escola de Frankfurt. Dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias do agir comunicativo, da política deliberativa e da esfera pública. “Na esteira da tecnocracia”, p.172-3. Editora Unesp, 2014.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
É urgente rever custo de estatais dependentes
Por O Globo
Previsão no Orçamento de 2027 alcança R$ 36
bilhões — e grande parte disso não passa de desperdício
Empresas estatais incapazes de arcar com suas
despesas de pessoal, custeio e capital são classificadas como dependentes da
União — e todo ano são obrigadas a declarar no Orçamento quanto consumirão em
recursos públicos. É assim que o cidadão brasileiro fica sabendo que, em 2027,
elas custarão R$ 36 bilhões ao Tesouro. Pode ser que parte desse custo se
justifique, mas é provável que boa parte não. Quanto desse dinheiro poderia ir
para outras áreas do governo onde faz falta? Eis um tema que deveria ter
destaque no debate eleitoral, ainda mais em momento de deterioração da saúde
fiscal e desequilíbrio nas contas públicas.
Na lista das dependentes, há estatais estratégicas, comprovadamente relevantes. Outras, porém, não resistem a uma análise com base no interesse público. O primeiro grupo deveria passar por reavaliação detalhada, em busca de ganhos de eficiência e foco. Para o segundo grupo, só há duas soluções que deveriam ser tomadas com urgência: fechar ou privatizar.
A esquerda democrática em tempo de apatia, por Luiz Sérgio Henriques*
O Estado de S. Paulo
Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?
A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.
A eleição do ‘menos pior’, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Vença Lula ou Flávio, não há clima para festa nem grandes expectativas para o novo governo
A eleição presidencial de 2026 vai chegando
ao fim sem festa, alegria, esperança e bandeiras e cartazes em casas e carros,
num clima de espanto e indignação em que o grande dilema, individual e
nacional, não é quem é o melhor, mas quem é “o menos pior”. Está pau a pau,
numa disputa ponto a ponto.
Se vencer Flávio Bolsonaro, a expectativa é de fronteiras abertas para todas as loucuras de Donald Trump e volta imediata de Jair Bolsonaro, generais, almirante e os criminosos de 8 de Janeiro, com sangue nos olhos e planos de confiança na cabeça. Além de recuos graves em avanços de costumes.
Reativar o País sem desarrumar a economia, por Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo
Qualquer um dos candidatos parece capaz de
perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para
desemperrar o País
Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%, muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados para isso.
O andar do bêbado, a epidemia de bets e uma aposta de alto risco de Lula, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Acertar algumas apostas não transforma
o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as
cotações e algoritmos para obter lucro
Um homem ganhou na loteria espanhola com um bilhete terminado em 48. Explicou
sua escolha: sonhara com o número 7 durante sete noites; logo, 7 vezes 7 seriam
48. A conta está errada, mas o prêmio era real. O físico norte-americano Leonard
Mlodinow abre o livro O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas
(Zahar) com esse episódio para mostrar uma fraqueza humana: depois de conhecer
o resultado, inventamos uma lógica que parece explicá-lo. Nas loterias, cada
sorteio é independente; números atrasados não ficam mais próximos de sair, e
uma vitória não comprova a eficácia do palpite. O vencedor aparece nas
notícias. A multidão que fez contas igualmente fantasiosas e perdeu permanece
invisível.
Mlodinow, autor de livros de divulgação científica, assina uma coluna para o
The New York Times e escreveu roteiros das séries MacGyver e Star Trek. Com o
falecido Stephen Hawking, é coautor de “Uma nova história do tempo” (Ediouro),
um best-seller traduzido em 25 idiomas. Seus pais foram ambos sobreviventes do
holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra. Casado e pai de três
crianças, entre as quais uma menina adotada na China, Leonard Mlodinow é um
sortudo: estava no World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, e sobreviveu
ao ataque terrorista.
O Andar do Bêbado é um tratado sobre o poder do acaso em áreas da nossa vida
que vão de jogar futebol, conseguir emprego e receber um diagnóstico médico.
Mlodinow percorre a história das probabilidades e usa exemplos do esporte, das
finanças e da vida cotidiana para explicar por que confundimos sorte com
talento, coincidência com padrão e uma sequência passageira de acertos com uma
regra confiável. Seu livro ajuda a entender o fascínio das bets.
Quem acompanha futebol pode conhecer os times, avaliar jogadores e antecipar
tendências. Ainda assim, uma partida conserva muita criatividade e
imprevisibilidade; acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém
capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e programa os
algoritmos para obter lucro.
A loteria tradicional vende a esperança de uma mudança de vida concentrada em
um sorteio. As plataformas digitais multiplicaram essa promessa. Estão no
celular, aceitam pagamentos em segundos e oferecem novas oportunidades a cada
jogo, lance ou rodada de cassino virtual. A derrota convida à tentativa de
recuperar o dinheiro; uma pequena vitória alimenta a impressão de que o próximo
grande prêmio está perto. Publicidade, influenciadores e patrocínios esportivos
deram à aposta a aparência de hábito comum. O cassino entrou em casa sem
precisar abrir as portas.
É nesse ambiente que a epidemia das bets se tornou uma questão de saúde pública
e de economia doméstica. O custo não se resume ao dinheiro transferido para as plataformas:
inclui sofrimento psíquico, conflitos familiares, perda de produtividade e
tratamento. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões
por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam
ligados à saúde. É uma estimativa que não deve ser confundida com o total
apostado ou com a perda financeira direta dos jogadores.
Chegou atrasado
O governo demorou a acordar para o problema. Regulamentou o mercado, autorizou
empresas, cobrou outorgas e tentou impor mecanismos de fiscalização e proteção
ao apostador. Foram concedidas 85 autorizações, com pagamento total de R$ 2,55
bilhões em outorgas. Agora, abruptamente, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva decidiu encerrar a atividade por meio da Medida Provisória nº 1.394,
assinada na sexta-feira, 25 de setembro. A decisão impede novos depósitos e
prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro, dois dias
depois do primeiro turno. O governo associou a proibição a um pacote de
renegociação de dívidas.
Faltam nove dias para a votação. A proximidade das urnas torna a decisão uma
aposta política de alto risco, embora seus fundamentos sociais sejam sérios.
Para famílias atingidas pela dependência, Lula poderá aparecer como o
presidente que enfrentou um negócio poderoso. Para quem aposta sem identificar
prejuízo na própria rotina, a proibição poderá soar como perda de liberdade e
abuso de poder. Clubes, empresas de comunicação e outros setores que recebem
dinheiro das plataformas têm motivos para resistir e capacidade de levar essa
reação ao debate eleitoral.
O eleitor também poderá perguntar: por que o governo autorizou a expansão de um
mercado que agora considera intolerável? Há um risco prático por trás do
cálculo eleitoral. Proibir a oferta legal não elimina a vontade de apostar.
Sites clandestinos continuam acessíveis. O governo anunciou bloqueios de acesso
e de pagamentos, mas a eficácia dessas medidas dependerá de fiscalização
contínua. Operações da Polícia Federal já identificaram plataformas ilegais
divulgadas por influenciadores, inclusive com sinais falsos de regularidade.
E como reagirá o Congresso, onde o lobby das bets tem sua própria bancada? Uma
medida provisória produz efeitos imediatos, mas precisa ser aprovada para se
tornar definitiva. Entre a assinatura e a eleição, porém, haverá pouco tempo
para medir seus resultados. Defender as famílias do vício pode render apoio.
Convencer o país de que a proibição funcionará, depois de ter regulamentado as
bets, é a parte mais difícil dessa aposta.
Falta uma carta nesta campanha, por Míriam Leitão
O Globo
Não é exigido de Flávio Bolsonaro o
compromisso com a democracia, como em 2002 se exigiu de Lula uma carta
garantindo a estabilização econômica
O senador Flávio
Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele
foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem
chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente
dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então
candidato Lula
da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia
dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos
Brasileiros” e a cumpriu.
Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.
Às vésperas de eleição no Brasil, Trump escancara 'interesses vitais' na América Latina, por Bernardo Mello Franco
O Globo
Governador da Califórnia sugere que
interferência da Casa Branca na disputa brasileira deve aumentar na reta final
Donald Trump não é de esconder o jogo. Na
terça-feira, admitiu que a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico
foram só pretextos para invadir a Venezuela. “Assinamos o maior acordo de
petróleo da história”, festejou, na Assembleia Geral da ONU. “Foi uma guerra,
mas talvez tenha sido o maior negócio já feito. Ao vencedor, os despojos”,
congratulou-se.
O presidente dos Estados Unidos avisou que não vai permitir “ameaças à América” no Hemisfério Ocidental. “Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos EUA”, informou.
Distopia, por Merval Pereira
O Globo
Ambas as campanhas fazem “o diabo” para
ganhar, e por isso o índice de eleitores indecisos ou desanimados está tão
grande.
“A gente faz o diabo para vencer uma eleição” já dizia a ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro fez o diabo, mas perdeu. Basta lembrar a PEC Kamikaze, que injetou R$ 41,3 bilhões no orçamento alegando “estado de emergência”, com tempo limitado até o fim de seu governo, passando pelas eleições. Lula está fazendo o diabo, mas corre o risco de perder. Talvez por isso esteja tão açodado, liberando dinheiro a sete dias do primeiro turno. A proibição das bets talvez seja uma medida correta, mas se tomada no inicio de seu terceiro mandato, ou ao final dele, depois das eleições.
Lula errou em 2023, por Elio Gaspari
O Globo
Em terceiro mandato, petista não cultivou
arco democrático que o elegeu
Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por
uma pequena margem de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória
apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma
consagração. Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia
acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para
ninguém botar defeito, mas não é suficiente.
Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.
O baita ser humano Zuenir Ventura, por Dorrit Harazim
O Globo
Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele
leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos
Não há idade ou hora justa para a partida de um amigo — nem para quem parte, nem para quem deve continuar a tocar a vida. “A eternidade está no momento”, ensina Walt Whitman no monumental “Folhas de relva”. É na soma de momentos compartilhados que descobrimos nossas profundezas e limites, que nos temperamos ou transcendemos. E isso ocorre mais claramente no fluir da amizade, esse complexo entrelaçamento afetivo capaz de nos proporcionar uma ventura única.
Crença em razões razoáveis para o voto democrático, por Paulo Fábio Dantas Neto*
Além de avançar sobre Supremo e PF, novo presidente pode refazer Banco Central em um ano, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Novo governo pode nomear maioria dos
diretores até o início de 2028 e ter mais poder no BC
Lula 3 não deve ter tempo de preencher vagas
na autoridade monetária e no STF
Quem terá mais poder de controlar ou influenciar o Supremo a partir de 2027 é assunto maior desta eleição deplorável. O novo presidente e o Senado podem entrar em acordo ou conflito para fazer a maioria no STF, o que pode ter consequências funestas para a estabilidade política ou para a democracia. No entanto, pouca gente se lembra de que o próximo presidente da República poderá ter nomeado 6 dos 9 integrantes da direção do Banco Central até janeiro de 2028, início do segundo ano do mandato, e todos até janeiro de 2030, mudanças críticas para a estabilidade econômica.
Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela, por Celso Rocha de Barros
Folha de S. Paulo
Acordo de Trump com Maduro sobre petróleo
segue a mesma lógica do que ele propõe a Flávio para o Brasil
'Madurismo entreguista' e 'bolsonarismo' são
sinônimos perfeitos
Por uma dessas ironias latino-americanas, o
Brasil vai virar a Venezuela
se Flávio
Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.
Desde a invasão americana, o regime
venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.
Ora, "madurismo entreguista" e
"bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.
Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.
'Vou falar com a turma', por Muniz Sodré
Folha de S. Paulo
Contradição entre razão e práticas
político-sociais isentas de hábitos morais provoca perplexidade
Quebra dos protocolos de decoro na classe
política e no Judiciário é novidade
Não deverá haver novas sessões públicas do STF, para atenuar a perplexidade nacional com as cenas chocantes da última vez. Por minúsculo que seja, entretanto, o episódio não se esgota na estupefação imediata. A sociedade civil pode estar à espera de algo como "O Guia dos Perplexos" do filósofo judeu Maimônides (1138-1204). Atualizada, a questão desse livro é como conciliar uma ordem supostamente racional com aquilo que parece estar além de seus limites. "Perplexo" hoje é aquele lançado na aflição de compreender dois sistemas contraditórios entre si: o da razão e o de práticas político-sociais isentas de hábitos morais.
O que aconteceu com a democracia liberal? Por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Novo livro de Acemoglu defende regulação
tecnológica pró-trabalhador para salvar liberalismo
Obra foi criticada por liberais de estirpe
mais conservadora, que rejeitam intervencionismo estatal
O liberalismo é versátil. É compatível tanto
com visões de mundo conservadoras, como a das democracias cristãs da Europa
continental e a dos "tories" britânicos, quanto com políticas mais à
esquerda, como a das social-democracias dos países nórdicos.
Embora os dois polos até consigam concordar em relação a princípios básicos que caracterizariam o liberalismo, como o respeito às liberdades básicas, à propriedade privada e ao império da lei, eles frequentemente se desentendem sobre os detalhes. "What Happened to Liberal Democracy?", de Daron Acemoglu, é um bom exemplo dessa tensão.
'Amor' por Vorcaro explica omissão de Alcolumbre, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
O problema não é a amizade, mas o reflexo que
essa relação tem sobre as atitudes do presidente do Senado
A negligência deliberada é evidência da
atuação de Davi Alcolumbre em favor do irmão fraudador
Estava demorando para Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP)
entrar na dança das influências de Daniel Vorcaro. Entra não por ser amigo do
vigarista —pode acontecer com qualquer um. Cai na roda do escândalo por suas
atitudes como presidente do Senado.
As mensagens
divulgadas pela revista Veja dizem muito a respeito da conduta
passivo-agressiva de Alcolumbre no transcorrer da crise que atinge os três
Poderes.
Por exemplo, fornecem ao ministro Cristiano Zanin as evidências que ele alegou inexistentes ao negar pedido do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para que o Supremo Tribunal Federal desse aval à instalação de uma CPI para investigar o caso Master.
Seduzido e abandonado, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Nenhum dos figurões com quem Daniel Vorcaro
foi tão generoso quer saber dele
Negam que foram seus amigos, que o chamavam
de irmão e até que o conheceram
Daniel Vorcaro está arrependido do bem que praticou a tantos figurões em quem confiou. Vê agora que era um bando de ingratos. Ninguém quer saber mais dele. Há os que dizem tê-lo conhecido só de passagem, embora o chamassem de "irmão", ou que aceitaram seu dinheiro para ser gentis, sem saber que a grana era pública, suja e ilegal. Eu, se fosse Vorcaro, faria um caderninho com o nome de todos que beneficiou e, ao sair da cadeia, cobraria cada centavo dos zilhões que lhes repassou. À guisa de aide-mémoire, aqui vão alguns.
Filhos da Esperança ou quando o futuro se torna refugiado, por Pablo Spinelli*
Ao amigo Paulo Pace, amigo da trincheira democrática.
Vinte anos depois de seu lançamento, Filhos da Esperança (2006), dirigido por Alfonso Cuarón, parece menos uma distopia do que um telejornal adiantado. Em 2027, a humanidade tornou-se infértil e a Inglaterra anuncia ser a última sociedade ainda de pé. Contudo, o que permanece funcionando são as jaulas para imigrantes, a propaganda oficial e as tropas nas ruas. Theo (Clive Owen), funcionário público desencantado e ex-militante, recebe a missão de conduzir Kee, uma jovem refugiada e grávida, até um lugar seguro. Os longos planos-sequência de Cuarón nos colocam dentro dos ataques e campos de refugiados. A extrema direita retratada pelo filme não precisa abolir formalmente o Estado; basta esvaziá-lo de solidariedade e conservar sua carcaça policial. A distopia, afinal, não bateu à porta: entrou, sentou-se na sala e pediu a senha da internet.
sábado, 26 de setembro de 2026
Opinião do dia – Hannah Arendt* (A propaganda totalitária)
*Hannah Arendt (1906-1975), “Origens do
totalitarismo”, p. 474, Companhia de Bolso, São Paulo, 2020,
























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