quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca*

“Não há dúvida de que as “ideologias” têm para Gramsci peso maior do que para qualquer outro pensador marxista, mas afirmar que “tornam-se o momento primário da história” equivale a inserir seu pensamento nos quadros conceituais da “filosofia do espírito” de Benedetto Croce. É verdade que Bobbio aplica ao pensamento gramsciano um paradigma dicotômico (estrutura/superestrutura) que não se lhe adapta. A “distinção entre sociedade política e sociedade civil” – escreve Gramsci – é uma “distinção metodológica”, não “orgânica”. “Sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos”. É um dos trechos mais conhecidos do Caderno 13, no qual Gramsci polemiza com o liberalismo porque, considerando “orgânica” o que deveria ser uma distinção “metodológica”, contrapõe o mercado ao Estado, ignorando que “também o liberismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva”[1]. Além disso, para Gramsci, a distinção entre estrutura e superestrutura é de caráter “metodológico”, tanto que a “metáfora arquitetônica”, em certo momento, cede o passo a outras conceituações.

*Giuseppe Vacca, Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci, Brasília/ Rio de Janeiro: FAP/ Contraponto, 2016, p. 267


[1] A. Gramsci, Quaderni del carcere, cit., p. 1592.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula tenta se eximir de responsabilidade na segurança

Por O Globo

Por conveniência, Planalto resiste a criar ministério e ameaça abandonar PEC que amplia o papel federal

São frustrantes os sinais de que o Palácio do Planalto pretende desistir da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, um dos dois principais projetos do governo federal na área (o outro é a legislação antifacção). A ideia de engavetar a PEC passou a ser cogitada devido a dificuldades para aprová-la no Congresso, diante de divergências com parlamentares e governadores, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O governo considera que o texto em tramitação, relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), foi desfigurado e se afastou do propósito original.

2026 e o grande teste para a imprensa. Por Vera Magalhães

O Globo

A desqualificação sistemática do jornalismo profissional, tratado como inimigo, tornou-se parte do repertório eleitoral

Em 2026, enquanto o Brasil se prepara para mais uma eleição presidencial em ambiente de alta polarização e o mundo assiste perplexo ao embaralhamento da ordem multipolar por parte de Donald Trump, o jornalismo atravessa um dos momentos mais desafiadores de sua história recente. Não se trata apenas de uma revolução do modelo econômico ou tecnológica. É uma disputa aberta pela credibilidade da informação, com impacto direto na preservação da democracia.

A viagem do Zero Um. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador tentou foto com Marco Rubio, mas teve que se contentar com Paulo Figueiredo

em busca de uma foto com Marco Rubio. Teve que se contentar com uma visita ao blogueiro Paulo Figueiredo.

A viagem do Zero Um resultou num fiasco. O senador queria mostrar que a família ainda tem prestígio na Casa Branca. Só conseguiu ser recebido pelo deputado e ex-lutador Jim Jordan, da extrema direita do Partido Republicano.

No ano passado, os filhos de Jair apostaram numa intervenção trumpista para livrar o pai da cadeia. A ilusão durou pouco. O Supremo resistiu aos ataques e condenou o ex-presidente a 27 anos de prisão. Donald Trump se aproximou de Lula, revogou o tarifaço e deixou Eduardo Bolsonaro falando sozinho.

A cocaína passou pelo Brasil. Por Elio Gaspari

O Globo

A polícia espanhola anunciou que, na primeira semana de janeiro, interceptou um navio (com jeito de ferro-velho) que transportava cerca de 10 toneladas de cocaína, escondidas em 294 caixas debaixo de um carregamento de sal. O barco tinha a bandeira da República de Camarões, e sua tripulação de 13 pessoas era composta por sérvios e indianos. Em dezembro, o barco havia passado por portos brasileiros. Ele foi abordado pelos espanhóis em alto-mar. Sem combustível, teve de ser rebocado até o Porto de Tenerife.

Essa foi a maior apreensão de cocaína em alto-mar. Segundo as autoridades espanholas, a operação resultou da cooperação das polícias de Estados Unidos, França, Portugal e Brasil.

Enforcamento de jovem Erfan pode acelerar derrubada do regime xiita iraniano. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações “normais” com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar

A execução do jovem Erfan Soltani, 26 anos, na forca, hoje, sob acusação de terrorismo, pelo regime do aiatolá Ali Khamenei, 86, tem potencial para piorar a mais grave crise enfrentada pela República Islâmica desde 1979. A morte de um manifestante não é novidade na longa história de repressão do Estado teocrático iraniano. Mas há momentos em que um único corpo, pendurado em praça pública, condensa o medo, a indignação e a ruptura moral de uma sociedade que já não aceita ser governada pela combinação da moralidade religiosa, vigilância militar e miséria econômica.

Um mundo de múltiplas ordens. Por Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

Três delas são lideradas pelos EUA, Rússia e China, enquanto uma quarta poderá ter a liderança de Turquia, Arábia Saudita ou Irã

A intervenção de fato dos Estados Unidos na Venezuela nos coloca novamente diante de uma divisão geopolítica em que poucos países exercem dominância não só econômica, mas militar e territorial, sobre vastas regiões de sua influência. O economista Joseph Stiglitz chama de “nova era do imperialismo” os movimentos recentes. Outros preferem “novo imperialismo”, termo que se confunde com a denominação histórica atribuída aos fatos ocorridos nas últimas três décadas do século XIX, quando países europeus, o Japão e mesmo os EUA decidiram “tomar conta” de pedaços dos continentes africano e asiático.

Mundo corre para dissociar-se do risco americano. Por Edward Luce

Valor Econômico |   Financial Times

Não há precedentes de que uma potência dominante abandone sua primazia, como Trump vem fazendo

Até recentemente, o mundo acreditava que uma dissociação entre EUA e China estava a caminho. O que ocorre agora, no entanto, é que a maioria dos países está correndo para dissociar-se dos riscos americanos. Como podem atestar o presidente do banco central dos EUA, Jay Powell ou a Dinamarca, um dos aliados mais leais dos EUA, tentar acalmar Donald Trump só te leva até certo ponto. Pode te ajudar a comprar tempo, mas não substitui a necessidade de proteção contra uma superpotência que saiu da linha. Estamos, portanto, nos primeiros estágios da aceleração do processo de redução da exposição a riscos dos EUA.

Nixon, és tu? Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O receio dos investidores é de que o Fed se dobre diante da pressão de Trump para cortar os juros

O presidente Donald Trump está prestes a anunciar o nome de quem vai, a partir de maio, substituir Jerome Powell no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central considerado o bastião da estabilidade de preços nos Estados Unidos, e, por tabela, da liquidez mundial, além de ser o paradigma de independência da política monetária.

A pulsão de Trump é totalitária. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Pulsão do presidente dos EUA é totalitária, não apenas autoritária, o que implica em experiência desestruturante

Negar fascismo de Trump cria mais problemas do que resolve

Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.

O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.

Solta, Trump vai explodir o dólar. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Líderes da banca querem conter ataque contra independência do Banco Central americano

Trumpismo é força bruta na política e tentativa de fazer a vontade do rei na economia

Donald Trump quer dominar o Fed, o banco central dos EUA. Imagina que pode mandar na economia, sem mais —em juros, preços, dívida, empresas. Tudo não passaria de mera política, da vontade do rei. Imagina ainda que pode, sem mais, usar pura força na política mundial.

No limite, interessados, ofendidos e humilhados tendem a reagir. Na economia, com descrédito progressivo, em algum momento abrupto, do dólar e do mercado americano, onde está o grosso da poupança mundial. Na política, países vão pensar em coalizões de defesa e em ter bomba atômica.

A batalha real de 2026 será pelo Senado. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A próxima eleição decisiva do país pode não ser para presidente, mas para o Legislativo

Maioria no Senado permite que se avance uma agenda independentemente de quem governe

A próxima eleição decisiva no país será a batalha pelo Senado. O argumento parece esquisito, mas é preciso considerar duas coisas. A primeira é que, desde 2018, houve uma virada ideológica no voto brasileiro, na direção da direita radical.

Aquele centrão descrito como pragmático, disposto a trocar votos por cargos e grana, é hoje apenas uma ficção na cabeça dos jornalistas. O voto que deu bancadas a partidos como PL, Progressistas, União Brasil e Republicanos não é transacional; é ideológico e de matriz bolsonarista. Os detentores desses mandatos precisam provar, o tempo todo, fidelidade à base que os elegeu. O pragmatismo residual migrou para um espaço muito mais estreito, ocupado sobretudo pelo PSD, que não é centrão. O resto opera sob vigilância ideológica permanente.

O absurdo assume o poder. Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Universidade texana censura professor de filosofia e o impede de discutir diálogo de Platão

'O Banquete' afirma que humanos não são binários e isso seria ideologia de gênero, proibida por lei

"Reductio ad absurdum" é uma técnica argumentativa pela qual se busca refutar uma tese mostrando que sua aceitação leva a conclusões ilógicas, contraditórias ou absurdas. Já me vali algumas vezes desse recurso para criticar raciocínios, tanto por parte da direita como da esquerda, que desembocam em censura. Em mais de uma coluna afirmei que, a prevalecer esse tipo de pensamento, logo proibiríamos Aristóteles. Ele, afinal, defendia a escravidão.

BC oferece saída à francesa ao TCU. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Instituição financeira deu ao Tribunal de Contas a chance de sair de uma confusão em que nunca deveria ter entrado

No meio das suspeições sobre blindagem do Banco Master ainda restam o Supremo Tribunal Federal e o Congresso

O desfecho da reunião entre o Banco Central e o Tribunal de Contas da União, relatado por Vital do Rêgo Filho, deixou a nítida impressão de que o BC deu ao TCU a chance de sair de uma confusão em que nunca deveria ter entrado.

Uma saída mais ou menos honrosa: ficou combinada uma inspeção supervisionada que em nada muda a decisão técnica da liquidação do Banco Master, mas serve para o órgão auxiliar do Poder Legislativo reduzir os danos provocados pelo esquisito afã do ministro relator, Jhonatan de Jesus, em questionar o BC.

Haddad elogia BC e diz que caso Master pode ser 'maior fraude bancária do país'

Por Bruno Lessa / O Globo

Ministro elogiou atuação do Banco Central e disse que estar 'absolutamente seguro' do trabalho de Galípolo

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira que a pasta tem dado "todo o respaldo institucional" ao Banco Central no processo de liquidação do Banco Master. Segundo ele, o caso pode ser a "maior fraude do país".

– O caso inspira muito cuidado, nós podemos estar diante da maior fraude bancária da história do país. Temos que tomar todas as cautelas devidas com as formalidades, garantindo evidentemente todo o espaço para a defesa se explicar, mas ao mesmo tempo sendo bastante firmes em relação àquilo que tem que ser defendido, que é o interesse público – afirmou.

O titular da equipe econômica disse que tem falado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e elogiou o trabalho da autoridade monetária.

François Maspéro. Por Ivan Alves Filho

Aquela era uma livraria mítica, incrustada no coração do célebre Quartier-Latin de Paris, palco de tantas lutas memoráveis ao longo da História da França e da própria Humanidade. Estou me referindo à Joie de Lire, de François Maspéro

Filho e irmão de resistente antinazista, militante do Partido Comunista Francês (PCF), Maspéro praticamente dominou a cena editorial progressista da França do pós-guerra ao seu falecimento. Mais tarde, romperia com o PCF, passando a professar simpatias pelo movimento trotskista, relativamente forte na França.

Poesia | Não Desistas, de Mario Benedetti

 

Música | Chico Buarque - As Vitrines

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca

"Para Pasquino, a passagem do velho ao novo “reformismo” consistiria em promover, mais do que coalizões segundo interesses, coalizões segundo valores. Entre estes, como vimos, indica o ambiente, o direito à informação, a paz, associando-os à complementação da democracia política com a democracia social e à penetração da “cultura dos serviços” nos aparelhos da administração pública. São os novos “desafios” que a esquerda tem diante de si. Mas todos – uns mais, outros menos – pressupõem a possibilidade de desenvolver uma eficaz ação política supranacional. Não só as políticas de ambiente, paz e informação (que não poderiam ser implementadas sem a iniciativa pactuada dos países europeus e sem a ação que a Europa unida poderia desenvolver no cenário mundial), mas também o desenvolvimento da democracia econômica e da democracia social (que implicam o controle sobre a acumulação e a inovação, decididas de modo cada vez mais direto por “potências” econômicas supranacionais) e a reorientação dos aparelhos da administração pública e dos serviços requerem a unificação dos mecanismos de regulação em escala europeia e a superação dos modelos burocráticos herdados do Estado nacional."

*Giuseppe Vacca, ‘Por um novo reformismo”. Pág. 92. Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2009.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Protestos no Irã alimentam esperança

Por O Globo

Aiatolás voltam a reprimir oposição com violência, mas padecem de fraquezas internas e externas

Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.

Projeto da burrice é antigo. Por Larissa Leão de Castro

O Globo

Hélio Pellegrino descreveu em livro há mais de 30 anos não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos

Há pensamentos que o tempo não consome porque são escritos no nervo exposto de um país. O de Hélio Pellegrino é um deles. Resgatar hoje sua obra “A burrice do demônio”, mais de três décadas depois, é perceber como ele descreveu não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos, atravessado por desigualdades brutais, violências de Estado e uma tentativa insistente de organizar a burrice como projeto político.

Psicanalista, marxista, homem de fé e de poesia, recusou compartimentos. Para ele, a psicanálise não era luxo de consultório, mas instrumento de justiça social. Ao falar de desejo, falava também de salário, de moradia, de racismo, de tortura, de manicômios. Foi um dos primeiros a formular ideias como “sintoma social”, “patologia social” e “perversão social”, mostrando que alguns sofrimentos não cabem apenas no código do diagnóstico, nascem de estruturas históricas perversas, de pactos silenciosos de exclusão.

Democracia como limite. Por Merval Pereira

O Globo

As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.

O escândalo Master pode ajudar o Brasil. Por Fernando Gabeira

O Globo

O lado sombrio do país tem se projetado com efeito mais devastador do que a intensa luz do sol iluminando todo esse processo

Algumas vozes defendem que o escândalo do Banco Master não seja totalmente revelado. Segundo elas, o impacto seria tão grande que o Brasil não aguentaria. É um grande equívoco. Apesar de sua fragilidade, a democracia brasileira não só aguentaria saber de tudo, como poderia usar a revelação de combustível para algumas reformas. O que envenena a convivência democrática é ver o enorme esforço que se faz para abafar o escândalo.

Bancos centrais enfrentam ataque. Por Míriam Leitão

O Globo

Parece uma temporada de ataques a bancos centrais: o Fed na mira de Trump e o BC às voltas com o desenrolar do caso Banco Master

O Fed sob um ataque tão direto e diante de uma tentativa de intimidação tão explícita não é apenas algo que nunca se viu. É que não se pensava que pudesse acontecer. A reação foi imediata, e quem deu o tom foi o próprio Jerome Powell. Normalmente comedido diante das grosserias de Donald Trump, o presidente da instituição não mediu palavras. Através de comunicados, ex-presidentes do banco central americano, de ex-secretários do Tesouro e de bancos centrais de vários países apoiaram Powell. Todo mundo sabe o custo para a sociedade de tirar a credibilidade do banco central. Todo mundo, menos Trump.

Memória e esquecimento: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Kleber Mendonça Filho recusou soluções fáceis e o mito clássico do herói grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro

A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua não-inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geografo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia — feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme constrói sua crítica política mais profunda.

A internet do Irã. Por Pedro Doria

O Globo

O que está acontecendo no Irã não é reedição do que ocorreu na Primavera Árabe. Há 15 anos, as redes sociais nascentes permitiram que grupos diferentes na Síria, no Egito e em tantos outros países se organizassem para protestar contra os regimes em que viviam. Os aiatolás entendem isso. Desde então, promoveram apagões de internet em todo o território nacional sempre que havia novas ondas de manifestações. Mas isso não quer dizer que a internet não seja usada. Os manifestantes também aprenderam a lidar com a estratégia do regime.

Fé, esforço e disciplina não bastam para empreender. Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É óbvia a existência do desejo de viver sem patrão, uma busca de autonomia natural do ser humano, mas a opinião favorável à carteira assinada é uma realidade que se impõe em razão da segurança e dos benefícios da CLT

É difícil tirar os olhos do cenário global após a invasão da Venezuela pelos EUA. Mas vem aí a campanha eleitoral e não há como deixar de olhar para questões internas. Quando acabou o segundo turno das eleições municipais, em outubro de 2024, fervilharam análises para explicar as derrotas da esquerda.

Entre as causas, teve destaque a opinião de que a esquerda perdeu contato com as periferias. E a receita muito recomendada para retomar o diálogo era o apoio ao empreendedorismo.

O assunto voltou à discussão um ano atrás com o caso do atrapalhado anúncio da fiscalização das transferências bancárias acima de R$ 5 mil. Ganhou credibilidade naquele momento a mensagem falsa de que, com a medida, o governo iria taxar o Pix.

O cinema e a alma nacional. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula

O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.

Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.

Flávio se empolga, mas falha na moderação. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

O que no começo era um movimento para frear o avanço político da exprimeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e, também, um balão de ensaio para testar viabilidade eleitoral e manter a família em evidência começou a ganhar musculatura. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empolgou-se com sua pré-candidatura presidencial e passou a dar passos mais arrojados para tentar garantir apoios e sustentação à sua pretensão palaciana. Ele procurou empresários, agentes do mercado financeiro e foi até rezar numa igreja evangélica em Orlando. Agora, neste janeiro de 2026, já circula na Faria Lima que o filho zero um de Jair Bolsonaro conseguiu promessas de apoio para o cofre de sua campanha.

Procura-se um candidato. Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo

O Brasil enfrenta uma situação interna de extrema complexidade. A disfuncionalidade do sistema político afeta a governança e o equilíbrio entre os Três Poderes. Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo. O programa mínimo que a seriedade da crise atual exige é passar o Brasil a limpo e mudar o que tem de ser mudado dentro dos princípios democráticos.

Não se pode ignorar que tudo o que ocorre hoje é resultado de 20 anos de governos de esquerda e de direita que, pelas suas prioridades ideológicas, não levaram em conta as mudanças internas e as transformações globais e seus impactos sobre o País. A ausência de liderança no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no meio empresarial e no meio dos trabalhadores agrava o quadro nacional e exige de todos os que se preocupam com o futuro do Brasil um esforço para promover um debate sobre as mudanças que a sociedade brasileira terá de enfrentar para restaurar o crescimento em nível mais elevado, aumentar o emprego de forma sustentável, combater a corrupção sistêmica e a violência do crime organizado.

Trump contra o mundo. Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas

Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo perde.

Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói. Por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Os que sofrem merecem empatia, mas não são heróis

A dor nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito

Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado terrorista no teatro Bataclan, em Paris.

À primeira vista, a decisão poderia passar sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a elevação da vítima a um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.

Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?

O ópio do povo. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Embora Marx tenha feito crítica forte à religião, esquerda nunca foi muito consistente em condenar regimes teocráticos

Antiamericanismo é parte da explicação, mas também existe um vínculo metafísico que passa pela crença em utopias

Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral, econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.

Brasil se encolhe na liderança da América Latina. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente condena ação de Trump na Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia

Ambiguidade faz Lula perder a chance de marcar mandato com papel relevante no cenário internacional

O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.

Enrolado com o Master, Cláudio Castro foge do Palácio Guanabara. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Governador teme que desastre fiscal atrapalhe eleição ao Senado

Sua candidatura, porém, ainda depende de absolvição no TSE

Cláudio Castro fez três pedidos ao gênio da lâmpada. A urgência é escapar da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A ação no TSE teve início em novembro, dias depois da chacina nos complexos do Alemão e da Penha. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação e inelegibilidade. O ministro Antônio Carlos Ferreira pediu vista, e a expectativa é que o processo seja retomado em fevereiro.

Bondi Beach e o massacre. Por Marcus Cremonese*

Neste 14 de janeiro faz exatos 30 dias do atentado antissemita ocorrido em Bondi, praia ícone de Sydney, na Austrália. O mundo ficou chocado com esse massacre que é tido como o maior “atentado terrorista” já acontecido neste país.

Uma semana depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro, senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas rabinos, imãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.

Poesia | Tática e Estratégia, de Mario Benedett

 

Música | Chico Buarque e Djavan: Samba do Grande Amor + A Rosa

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Novos desastres climáticos desafiam as autoridades

Por O Globo

Pelo menos 83% do território do Rio e metade dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais

A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.

Entrevista | PEC da Segurança ‘subiu no telhado’, diz José Guimarães

Por Andrea Jubé e Murillo Camarotto / Valor Econômico

Líder do governo na Câmara avalia que proposta não deve ser aprovada, vê feridas na relação com Motta ‘cicatrizadas’ e analisa eleições

Em meio à crise com a saída prematura do ministro Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), acha difícil que a proposta que era a bandeira da pasta, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, seja votada antes das eleições. “Subiu no telhado”, admitiu. Ele também descarta a criação de uma pasta da Segurança Pública ainda neste ano.

Sobre o desentendimento do PT com o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), no fim do ano, afirmou que as feridas “estão cicatrizando”. Acrescentou que a redução da escala 6 x 1 é prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste semestre.

Vice-presidente do PT e coordenador do grupo de trabalho eleitoral da sigla, ele disse que o partido tem nesta eleição o desafio de alterar a correlação de forças na Câmara e no Senado. A meta é eleger pelo menos 90 deputados federais, e impedir a oposição de fazer maioria no Senado. Em tom de desabafo, reclamou da vida difícil do governo no Congresso: “É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser dilacerante”.

Guimarães sustentou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tem o direito de sair do governo e ir pra casa. Ele defende que Haddad seja candidato em São Paulo, ao governo ou ao Senado. “O Haddad tem missão a cumprir”. 

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor: