quinta-feira, 28 de maio de 2026

Opinião do dia - Nicolau Maquiavel* (ricos e pobres)

“Tratemos agora do outro aspecto da questão, isto é, vejamos o que ocorre quando um cidadão torna-se príncipe de sua pátria, não por meio de crime ou de outra intolerável violência, mas com a ajuda dos seus compatriotas. O principado assim constituído podemo-lo chamar civil, e para alguém chegar a governá-lo não precisa de ter ou exclusivamente virtude [virtù] ou exclusivamente fortuna, mas, antes, uma astúcia afortunada. Pois bem, a ajuda nesse caso é prestada pelo povo ou pelos próceres locais. É que em qualquer cidade se encontram estas duas forças contrárias, uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo. Destas tendências opostas surge nas cidades, ou o principado ou a liberdade ou a anarquia.

O principado origina-se da vontade do povo ou da dos grandes, conforme a oportunidade se apresente a uma ou a outra dessas duas categorias de indivíduos: os grandes, certos de não poderem resistir ao povo, começam a dar força a um de seus pares, fazem-no príncipe, para à sombra dele terem ensejo de dar largas aos seus apetites; o povo, por sua vez, vendo que não pode fazer frente aos grandes, procede pela mesma forma em relação a um deles para que esse o proteja com a sua autoridade”

*Nicolau Maquiavel (1469-1527) filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política. O Principe (1515), Capitulo lX, p. 45. Editora Martins Afonso, 2014

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.

Câmara aprova fim da escala 6x1 por 461 votos a 19; texto vai ao Senado

Por Beatriz Roscoe e Ruan Amorim – Valor Econômico

Proposta prevê redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais e duas folgas por semana, sem redução de salário

A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (27) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. Foram 472 votos a 22 no primeiro turno. No segundo turno, o placar favorável ao texto foi de 461 a 19. As duas votações superaram em muito o apoio mínimo de 308 votos necessários para alterações constitucionais.

Principal bandeira eleitoral do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, a proposta será agora analisada no Senado, cujo presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), indicou a pessoas próximas que não deve frear o avanço da matéria, apesar da tensão com o governo. Nesta semana, empresários foram ao parlamentar apresentar propostas de mudança, diante da avaliação de que a medida aumenta os custos da mão de obra e pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica.

O texto foi analisado em sessão marcada por grande disputa política entre governistas e oposição. Parlamentares da base buscaram ressaltar a posição do PL contra a redução da jornada. Por outro lado, deputados do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro optaram pela estratégia de constranger o governo e — de última hora — defender uma redução ainda maior, para uma escala 4x3, em vez do modelo 5x2, apoiado pelo governo.

PEC do fim da escala 6x1 cacifa Motta para tentar reeleição, por César Felício

Valor Econômico

A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 de trabalho ainda atravessará uma zona de incerteza no Senado e sua aprovação no Congresso este ano permanece no terreno da hipótese, mas o seu avanço (472 votos a 22 no primeiro turno) na Câmara produz efeitos políticos concretos.

Um deles é o do fortalecimento político do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ganha impulso para se reeleger à frente da Mesa Diretora, caso consiga um novo mandato pela Paraíba. Motta virou o jogo depois de um primeiro ano terrível como presidente da Casa, do ponto de vista de credibilidade junto a seus pares.

Fim da escala 6x1 dá um nó no bolsonarismo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Populismo de direita se embaralha para atender às suas bases sem perder o voto da maioria

A votação do fim da jornada 6x1 na Câmara dos Deputados deu um nó no PL tão ou mais enroscado que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Master: como manter a viabilidade eleitoral da direita na mão contrária do desejo de sete em cada 10 eleitores. Como cada um puxou de um lado, o nó ficou ainda mais difícil de ser desatado.

A campanha do senador à Presidência tem como coordenador o senador Rogério Marinho (PL-RN), que foi o relator da reforma trabalhista. Aprovada em 2017, a reforma foi a mais abrangente alteração das leis trabalhistas desde a criação da CLT há mais de 80 anos. A redução da jornada para 40 horas semanais com pelo menos dois dias de folga, sem redução de salário, foi no sentido contrário.

O fator Trump, por Merval Pereira

O Globo

Encontro com Trump reforça a imagem de Flavio e o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral

Se o encontro do pré-candidato à Presidência da República do PL, senador Flávio Bolsonaro, com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, não tivesse nenhuma importância, não provocaria tantos comentários e suposições por parte dos petistas. O encontro com certeza reforça a imagem dele — tanto que os petistas inventaram que a foto dos dois na Casa Branca é fruto de inteligência artificial. Não é qualquer um que tem acesso ao presidente americano, e sem dúvida foi uma boa jogada política — nada fundamental, mas o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral.

Moraes é variável nova para Flávio, por Julia Duailibi

O Globo

O encontro de Flávio com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha

Aos trancos e barrancos, Flávio Bolsonaro tem conseguido lidar com a sangria envolvendo o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para, diz ele, financiar o filme sobre o pai. O encontro com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha. A situação de Flávio também é melhor hoje, entre os donos do dinheiro, do que era ontem. Depois de reagir mal ao lançamento da candidatura do senador e às conversas com Vorcaro divulgadas pelo Intercept Brasil, a Faria Lima parece, pouco a pouco, se acomodar, novamente, ao nome dele como opção a Lula.

Um plano para o Rio de Janeiro, por Míriam Leitão

O Globo

Em sua primeira entrevista, o desembargador Ricardo Couto afirma que não sabe quanto tempo ficará no cargo e que passou a tomar decisões porque a população precisava dos serviços do Estado

Quem mora no Rio vive em permanente estado de desilusão. Viu tantos desmandos, tantos ex-governadores presos, tantos absurdos diários, que não espera muito da política, torce apenas para permanecer sendo capaz de se indignar. Por isso, estranha a gestão do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Ele tem tomado decisões que fazem sentido. Este é o espanto. O Rio não está acostumado com exonerações de pessoal excedente, fechamento de secretarias e expropriações de bens de devedores contumazes. Tudo o que é natural, não se espera.

Câmara aprova PEC que acaba com escala 6x1 e reduz jornada semanal para 40 horas

Por Fernanda Brigatti, Raphel Di Cunto e Augusto Tenório – Folha de S. Paulo

Proposta que institui duas folgas obrigatórias semanais ainda precisa ser aprovada em dois turnos pelo Senado

Redução de horas trabalhadas por semana será feita em duas etapas, sendo a primeira para 42 horas

A proposta, que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, teve 472 votos favoráveis e 22 contrários no primeiro turno. Na segunda votação, 461 parlamentares foram favoráveis e 19 votaram contra. A proposta precisava de ao menos 308 votos favoráveis.

O texto aprovado no plenário é o parecer do deputado federal Leo Prates (Republicanos-PB), que foi analisado horas antes na comissão especial criada para debater a mudança. A PEC aprovada na Câmara torna obrigatória a concessão de duas folgas semanais aos trabalhadores, uma delas preferencialmente aos domingos.

Seis propostas de alteração no texto principal foram apresentadas. Uma manobra da base governista inviabilizou os destaques do PL, como são chamadas as tentativas de alteração em plenário, que tentavam acabar com a transição, excluíam o poder público do faseamento na redução da jornada e acabava com o prazo de 12 meses para que os direitos previstos na PEC cheguem a funcionários de empresas com contratos públicos.

Governo vai acabar compensando fim da escala 6x1, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Parlamentares aproveitam redução da jornada para pedir aumento do teto de faturamento de MEIs e pequenas empresas

Equipe econômica pede para presidentes da Câmara e Senado não pautarem projetos de elevação dos limites

O acordo para vincular a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 a uma medida compensatória às empresas do MEI (Microempreendedor Individual) e do Simples é dor de cabeça para o governo, com um custo que pode chegar a R$ 50 bilhões por ano.

Com a proposta em votação em ano eleitoral, os parlamentares aproveitaram para engatar o pedido de aumento do teto de faturamento anual de MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

Elas integram o chamado sistema Simples, um regime tributário e previdenciário simplificado, com carga de impostos mais baixa. Se o limite é ultrapassado, as empresas têm que passar para o outro grupo com alíquotas maiores.

O que deve afetar Lula x Flávio durante o recesso da Copa e das festas juninas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Relações com gente de gangues financeiras e políticas são risco para o jogo bolsonarista

Fiasco de público de medidas eleitorais e piora discreta da economia são risco para Lula 4

A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.

Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais. Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.

O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.

Foto com Trump é teatro tardio para Flávio, Igor Gielow

Folha de S. Paulo

'Dark Horse' ficará no noticiário, imagem não dará voto e jogo de Lula com americano parece intacto

Pré-candidato demonstra amadorismo com obscura viagem, ganhando memes e desconfiança em troca

A trajetória política de Jair Bolsonaro a partir de sua encarnação como candidato antissistema em 2018 sempre buscou emular a de Donald Trump, por mais díspares que sejam a origem e a história pregressa de ambos.

Bolsonaro já chamou o republicano de ídolo, e sua gestão notabilizou-se por uma infrutífera adulação da Casa Branca. As franjas da direita radical global e brasileira mantêm, de todo modo, estreito contato.

Houve uma notável sincronia com atraso de dois anos na vida de ambos os líderes no poder. Trump elegeu-se na vaga populista de 2016; Bolsonaro surpreendeu o Brasil em 2018.

Celebrando o atraso, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A alteração na jornada e escala de trabalho tem consequências profundas e a longo prazo que estão sendo introduzidas pelas considerações políticas mais imediatas e mesquinhas. A de ganhar a qualquer vantagem político-eleitoral. Pode-se falar de um comportamento de “classe” política, pois não há relevantes diferenças entre a postura de “situação” e “oposição”, quaisquer que sejam os rótulos ideológicos.

O Brasil tem como características centrais alta informalidade, baixa produtividade, judicialização extrema das relações capital-trabalho, leis trabalhistas brigando com os avanços da tecnologia, formação de capital humano deficiente que se traduz em mão de obra cara e, em geral, de baixa qualificação. O que se faz agora é tornar esse macroambiente ainda pior.

A guerra entre ministros do Supremo, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Cabo de guerra camufla expectativa de estourar a corda do Master em cima de integrantes da Corte

À luz do dia, ninguém concorda com supersalários. Nem defende a falta de regramento mínimo na conduta de autoridades. Nem combate propostas para deixar o Judiciário mais eficiente. Ainda assim, esses temas alimentam a crise interna que habita o Supremo Tribunal Federal (STF) desde o ano passado.

Enquanto alas distintas da Corte seguram essas bandeiras, tentam camuflar a falta de explicações convincentes sobre a participação de ministros nos negócios de Daniel Vorcaro. Desviar o foco desse assunto agora é mais eficaz para garantir a sobrevivência de ministros no próprio cargo do que para reaver a credibilidade do Supremo.

O papa e a técnica, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os executivos e seus patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou notas inéditas de sadismo

A encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), intitulada Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), a primeira de seu pontificado, atraiu as câmeras de TV e as primeiras páginas dos diários do mundo. Editoriais esmerados a elogiaram. Comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes. De fato, esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade. O argumento evolui sem angústia, mas também sem deslumbramento, sem aflição, sem se refugiar na autoajuda, sem raiva, mas sem condescendência. A leitura nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito.

Mercado, política e ‘racionalidade’ ideológica, por José Serra

O Estado de S. Paulo

É legítimo precificar política, mas é ilegítimo vender essa precificação como análise técnica e neutra

A divulgação, em 13 de maio, dos áudios entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziu uma reação clássica e didática do mercado financeiro brasileiro: dólar a R$ 5,00, com alta de 2,31%, e Bolsa em queda de 1,80%, acompanhados de salto nos juros futuros. Uma plataforma de apostas em previsões que parte da Faria Lima adotou como termômetro do humor político passou a indicar que as chances de Flávio Bolsonaro haviam caído de 44% para cerca de 28%, enquanto Lula assumia o favoritismo com 45%. O episódio expõe, de forma incômoda, o que esse mercado de fato precifica, ficando claro que é muito distante do que alega precificar.

Entrevista* | A sociedade Brasileira é extremamente violenta e elitista

O jornal Catetear

*Marly Vianna, historiadora

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Marly Vianna: Creio que não. Vejo a extrema direita como um grande garda-chuva que abarca o nazi-fascismo e outros regimes e governos de extrema direita. Nossa sociedade é extremamente violenta e elitista, desigual e racista e, na minha opinião, essa é uma herança devida aos quatro séculos de escravidão, quatro séculos considerando uma parte da população como coisa, semoventes, junto ao gado, nos inventários. Quatrocentos anos que moldaram a mentalidade social. Nossa sociedade é ainda bastante a da casa grande e senzala.

Poesia | Da profissão de poeta (trecho), de Geir Campos

 

Música | Beth Carvalho - Meu Samba Diz

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC que extingue escala 6x1 criará novos problemas

Por O Globo

É inevitável piora no desemprego e na informalidade. Compensação para MEIs desvirtua programa ainda mais

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1, avança com rapidez no Congresso. O relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou parecer garantindo dois dias de folga e reduzindo a jornada máxima de 44 para 40 horas, mantendo o salário atual. A previsão é que a PEC seja votada em plenário nesta semana. A medida é eleitoreira, o debate tem sido raso, e os estragos para a economia e o mercado de trabalho serão enormes.

Foto com Trump não livra Flávio do Master, por Vera Magalhães

O Globo

Encontro protocolar com presidente americano está longe de conseguir encerrar um roteiro bem mais intrincado que o de 'Dark Horse'

Flávio Bolsonaro foi a Washington para tentar virar a página da crise desencadeada em sua pré-campanha pela descoberta das relações de “irmão” com Daniel Vorcaro. Volta com uma foto protocolar ao lado de Donald Trump, mas longe de conseguir virar a página de um roteiro bem mais intrincado que o de “Dark Horse”, a produção alegadamente milionária sobre a vida de seu pai.

Para conseguir o encontro na Casa Branca, Flávio contou com a ajuda do time avançado do bolsonarismo nos Estados Unidos, integrado por seu irmão Eduardo e pelo fiel escudeiro Paulo Figueiredo. A viagem também parece ter sido providencial para a turma alinhar as versões até aqui completamente desencontradas para o repasse de pelo menos R$ 61 milhões (ou US$ 10 milhões) de Vorcaro ao pré-candidato do PL.

Encontro com Flávio representa entrada oficial de Trump no processo eleitoral brasileiro, por César Felício

Valor Econômico

Para quem tinha alguma dúvida, senador é o candidato da Casa Branca para a sucessão de Lula

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou de maneira oficial, na terça-feira (26), na campanha presidencial brasileira. É até o momento o principal cabo eleitoral do senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) fora do âmbito partidário. Proporcionou a Flávio, no pior momento de sua pré-campanha, a “photo opportunity” que nenhum hierarca do Centrão ou governador aliado criou. Flávio, para quem tinha alguma dúvida, é o candidato da Casa Branca para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Discursos em plenário que pouco falam, por Fernando Exman

Valor Econômico

É difícil acreditar que o Estado não repassará a conta, de maneira a manter a arrecadação

O senador Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados, durante a sessão em que o Congresso Nacional derrubaria uma série de vetos presidenciais, e rapidamente foi ladeado por um punhado de aliados que dependem de um impulso nas eleições de outubro. Em outros tempos, o espaço da tribuna seria respeitado e o plenário se silenciaria. Todos ouviriam com atenção a aguardada explicação do principal candidato da oposição à Presidência da República sobre sua relação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, pivô do maior escândalo financeiro do país.

O despertador de Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-governador foi alvo de duas operações da PF em 12 dias; decisão aponta 'vínculo estreito' com Vorcaro

As manhãs já foram mais tranquilas no condomínio de Cláudio Castro na Barra da Tijuca. Pela segunda vez em menos de duas semanas, o ex-governador do Rio acordou com batidas na porta. Era a Polícia Federal.

No dia 15, Castro foi despertado por uma operação que apurou favorecimentos à Refit. A refinaria que não refina pertence ao foragido Ricardo Magro, apontado como o maior sonegador de impostos do país. Ontem os agentes voltaram em busca de provas de um esquema com o Banco Master, do presidiário Daniel Vorcaro.

Decisão traz Castro como um operador do Master no governo, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Na política do Rio não se pergunta mais se o ex-governador Claudio Castro será preso, mas quando. Seria o sexto titular do Palácio Guanabara, nos últimos dez anos, com este destino. Vereador de pouco destaque, Claudio Castro foi alçado a vice de um cabeça de chapa igualmente desconhecido, Wilson Witzel, eleito em 2018 no rabo de foguete da ascensão de Jair Bolsonaro.

Fragilizado ao assumir o cargo depois do impeachment do titular, empossado havia apenas um ano, poderia ter se valido da legitimidade de sua reeleição para sair da sombra e refundar sua gestão. Afinal, foi o primeiro governador do Rio reeleito em primeiro turno desde Sérgio Cabral, em 2010.

Passagem de bastão civilizatório, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

Sociologia política do bate-boca, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Mamãe era taxativa: “Jamais bata boca”. Essa gritaria dos mal-educados. O mesmo conselho surge nos jornais, revelando como o bate-boca é maleducado: ele expressa a falta de controle de dois “superiores” que se confrontam e nenhum deles pode ser inferiorizado, exceto no grito. O bate-boca é uma ferramenta aristocrática, prima do “você sabe com quem está falando?”. Exprime a perturbação diante do direito de discordar. Se sou superior, como alguém ousa reagir aos meus argumentos?

Todo mundo parece ter ouvido mamãe, pois continuamos a classificar dissidências como bate-bocas, como falta de educação, quando o certo é o justo oposto. Nada mais normal do que a dissidência entre pessoas numa democracia. Desclassificar discussões é típico de sistemas construídos por “gente que se lava”, como o nosso.

Creio que foi precisamente isso o que alavancou Jair Bolsonaro, pois um dos pontos críticos de sua figura era que ele exibia o furor dos bate-bocas.

Um susto com a inflação, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Os indicadores de preços nos EUA e no Brasil ainda não embutem, com rigor, vários riscos

Investidores dos Estados Unidos e do Brasil correm o risco de tomar um baita susto com a inflação, pois a maioria parece subestimar as pressões inflacionárias que podem vir à tona. Isso porque as projeções de analistas para os índices de preços ao consumidor de 2026 e de 2027 ainda não embutem – com o devido peso – vários riscos, desde cotações persistentemente elevadas do petróleo e de matérias-primas até impactos de fenômenos climáticos, como o El Niño.

O que falta na encíclica do papa Leão 14 sobre a IA, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Pontífice citou Agostinho, Tolkien, Beethoven, Guernica, Martin Luther King Jr. e até Frankl e seu 'otimismo trágico'

Difícil acreditar que tenha escapado ao papa que Pentecostes guarde tantas semelhanças com a inteligência artificial

Tem Santo Agostinho. Mas tem Tolkien também. Tem Beethoven, tem Guernica, tem Martin Luther King Jr., tem Viktor Frankl e o seu "otimismo trágico". Tem muita doutrina social da igreja, valorização dos trabalhadores e críticas ao nacionalismo, Realpolitik e pós-humanismo.

Para um ateu de esquerda como eu —com duas exceções, sobre aborto e família de "um homem e uma mulher"— não há quase nada para discordar na encíclica "Magnifica Humanitas" do papa Leão 14.

Mas quero é escrever do que não está lá. A encíclica foi datada de 15 de maio e apresentada em 25 de maio. E o que aconteceu entre uma coisa e outra? As celebrações de Pentecostes, no domingo (24). Que uma encíclica escrita e lançada em Pentecostes não fale de Pentecostes é uma coisa que me intriga e confunde. E acho que essa ausência é decisiva.

Uma aposta improvável, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

É incomum ver parlamentares do PL e do PT unidos para aprovar projeto de lei que não seja corporativista

Os dois partidos, porém, parecem empenhados em banir a propaganda de bets, o que seria bom para o país

Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas "em geral" não é sinônimo de "sempre".

Cena eleitoral é refém de emoções, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Fatos positivos e negativos não abalam nem impulsionam a situação dos favoritos nas pesquisas

Eleitorado parece ter se acomodado na armadilha do amor e ódio por seus políticos de estimação

Mudanças na dinâmica da relação entre os políticos e o eleitorado criam dificuldades para a análise e exigem a adoção de novos critérios no exame do andamento de campanhas eleitorais. Daí decorrem circunstâncias aparentemente inexplicáveis. O que valia já não vale.

Na cena atual, dois fatores em tese fortes o bastante para abalar ou impulsionar as intenções de voto não foram suficientes para alterar de modo significativo o quadro retratado pelas pesquisas de opinião.

Tanto Luiz Inácio da Silva (PT) como Flávio Bolsonaro (PL) ficaram mais ou menos onde estavam em levantamentos anteriores, a despeito de o primeiro patrocinar gastança calculada em R$ 190 bilhões para captar eleitores e o segundo ter sido pego em mentiras reiteradas sobre o relacionamento com Daniel Vorcaro.

Entrevista* | O Fascismo Encontrou terreno fértil no Brasil

O jornal Catetear

*Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Paulo Bracarense: Durante muito tempo, a historiografia e a memória política brasileiras trataram o fascismo como um fenômeno essencialmente europeu, ligado à Segunda Guerra Mundial, à Benito Mussolini e à Adolf Hitler. Isso produziu a impressão de que o Brasil teria sido apenas um observador periférico daqueles acontecimentos. Entretanto, os estudos mais recentes mostram que o fascismo encontrou terreno fértil no Brasil e dialogou profundamente com características estruturais da sociedade brasileira. Não significa afirmar que o Brasil tenha sido “um país fascista” em sentido clássico, mas sim reconhecer que elementos compatíveis com o fascismo estiveram presentes de forma recorrente em nossa formação política: autoritarismo, culto à ordem, militarismo, anticomunismo radical, racismo estrutural, violência contra movimentos populares, personalismo e a ideia de uma unidade nacional construída contra “inimigos internos”.

Poesia | Lição, de Geir Campos, por Aníbal Bragança

 

Música | 1955 - Nora Ney - Meu Lamento

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Encíclica de Leão XIV sobre IA reflete realismo e sensatez

Por O Globo

Papa reconhece valor da nova tecnologia, mas aponta os riscos intrínsecos a seu avanço

Leão XIV não é o primeiro papa a se preocupar com as transformações trazidas pela tecnologia à sociedade. A inspiração explícita de Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), sua primeira encíclica publicada ontem, é Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), em que Leão XIII — inspirador também do nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost — discorria sobre o impacto das “coisas novas” oriundas da Revolução Industrial e, ao mesmo tempo que reconhecia o valor do avanço científico, rogava pela proteção daqueles cujo trabalho ou vida fossem afetados pelas transformações. É também esse o tom de Leão XIV na encíclica que dedicou à maior revolução tecnológica em curso: o advento da inteligência artificial (IA).

Uma semana para revoltar, por Fernando Gabeira

O Globo

Quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão de mãos dadas

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.

Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.

Nós contra eles, por Merval Pereira

O Globo

Lula e os Bolsonaros têm apoio cego dos eleitores. Nada os abala. Lula ganhou uma eleição no auge do mensalão

Pelas informações que circulam no meio político, o presidente Lula pretende imprimir num eventual quarto mandato uma radicalização à esquerda que não esteve presente em nenhum dos anteriores. Já havia a suspeita de que ele pudesse querer deixar essa marca durante seu governo, embora, na campanha, pudesse vender a imagem de moderado para atrair um eleitor não petista que não pretenda votar em Flávio Bolsonaro. Como sempre se soube, na política uma coisa é o que se diz na campanha, outra é o que se faz durante o governo. Mas os relatos dão conta de que Lula está animado com a queda de Flávio nas pesquisas e pretende acelerar a tática do “nós contra eles”, se apoiando mesmo nas medidas já tomadas de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil e nos ataques aos “banqueiros e milionários” que diz se aproveitarem da desigualdade social do país para enriquecer mais ainda.

Lula dobra à esquerda, Por Thomas Traumann

O Globo

A campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai dobrar à esquerda. A estratégia de comunicação para dar a Lula um inédito quarto mandato será reforçar o atual slogan oficial, “um governo ao lado do povo brasileiro”, com um discurso que ataque “os privilégios dos super-ricos”. Será uma tentativa de demarcar para si o território da defesa dos interesses populares e nacionalistas, incorporando o antielitismo como eixo do futuro governo.

Esqueça o “Lulinha, paz e amor” da campanha de 2002 e, em alguns momentos, do segundo turno de 2022. O Lula candidato de 2026 vai falar mais grosso, será mais polarizante e vai cravar no bolsonarismo e na elite financeira as razões para os males do país. Se toda eleição é feita de inimigos, os do PT em 2026 serão quatro “Bs”: Bolsonaro, banqueiros, bets e as big techs.

A mudança na jornada, por Míriam Leitão

O Globo

A proposta é reduzir em dois meses para 42 horas e em um ano para 40. Casos específicos serão tratados por convenção coletiva e lei ordinária

No último fim de semana o deputado Leo Prates (Republicanos- BA), relator da PEC do fim da escala 6x1 ouviu o caso dos barqueiros no Amazonas. Há 62 municípios no estado, só em dez dá para ir de carro. Os barqueiros demoram, às vezes, oito dias para chegar no seu destino. Como cumprir uma escala cinco por dois? Diante de fatos concretos assim, ele foi formulando uma proposta para se adaptar às diversas especificidades. Por isso, colocou o teto e o piso. O teto é 30 dias. A cada 30 dias o barqueiro terá que ter oito folgas. A convenção coletiva vai dispor como serão distribuídas essas folgas.

O Papa e o trabalhador solitário, por Pedro Doria

O Globo

Leão XIV já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial

Papa Leão XIV apresentou ontem, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, celebrando os 135 anos exatos da publicação por Leão XIII de outra encíclica, a Rerum Novarum. Quando o cardeal Bob Prevost, cria de Chicago, foi escolhido papa no último conclave, tomou o nome Leão por causa da Rerum Novarum. Foi justamente em virtude do texto que estabeleceu a doutrina social católica perante a exploração absurda do trabalho no primeiro ciclo da Revolução Industrial. Prevost já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial. E, cuidadosamente, apresentou o texto ontem enquanto tinha ao lado Christopher Olah, o homem de ética da Anthropic.