domingo, 14 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Juros de títulos do Tesouro expõem gasto insustentável

Por Folha de S. Paulo

Taxas chegam a superar 8% acima do IPCA; inflação em alta trava abrandamento

Cenário deixa poucas opções ao próximo governo além de ajuste rigoroso. Alternativa será fechar as contas com alta de preços, à custa dos mais pobres

Como tem sido a regra na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a conduta perdulária com as contas públicas cobra seu preço na forma de juros cada vez mais altos.

Desde maio, dispararam as taxas futuras no mercado, que já não consideram haver mais espaço para cortes na estratosférica Selic, hoje em 14,5% ao ano.

O Espelho Argentino, por Merval Pereira

O Globo

Para o Brasil contemporâneo, preso a uma polarização estéril entre as tribos lulista e bolsonarista, as lições que vêm do Sul são providenciais

“Eu sou você amanhã”. O bordão propagandístico de uma marca de vodca tornou-se famoso no país como um alerta para as consequências de atitudes irresponsáveis, como tomar vodca vagabunda que dá ressaca, e não por acaso, tornou-se comum usar a expressão para comparar os equívocos econômicos de governos populistas brasileiros com o perigo de o Brasil tornar-se a Argentina, um país que já esteve entre as dez maiores economias do mundo - como o Brasil está hoje - e nos últimos anos esteve envolvido em crises diversas.

A situação da Argentina é tão peculiar que o economista Simon Kuznets, russo naturalizado americano, Nobel de Economia de 1971, cunhou a máxima de que existem quatro tipos de países - os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina. A situação ganha contornos de urgência para o leitor brasileiro no novo livro do economista Fabio Giambiagi, “Argentina para Brasileiros: Un País de Película”. A obra, que conta com a chancela do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan em sua "orelha”, é um exercício de história econômica comparada, uma advertência rigorosa para um Brasil que teima em ignorar os sinais de fadiga de seu próprio tecido institucional às vésperas do novo ciclo eleitoral.

Lula festeja queda no desmatamento, e Flávio Bolsonaro promete afrouxar leis ambientais, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em campanha, candidatos ao Planalto expõem visões opostas sobre a Amazônia

A Amazônia entrou na pauta da corrida presidencial. Na quinta-feira, Lula e Flávio Bolsonaro expuseram suas ideias sobre a região. Vale a pena conferir o que disseram.

Em Brasília, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais anunciou uma nova queda no desmatamento. A devastação recuou ao menor patamar em uma década. No último ano, a redução foi de 37,5%.

Lula festejou os números e defendeu a preservação da floresta. “Enquanto o desmatamento pode enriquecer uma ou duas pessoas, não desmatar ajuda o Brasil, a Amazônia e o mundo”, discursou.

O presidente aproveitou para fazer um alerta aos desmatadores: “Não faça coisa errada, que vai ser punido, porque nós queremos que a nossa floresta seja preservada para o bem da Humanidade”.

Flávio, um candidato pesado, por Elio Gaspari

O Globo

O senador, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda

O filme parcialmente financiado por Daniel Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio Bolsonaro cobraram seu preço na última pesquisa Quaest. Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.

Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.

Plano de estourar os cofres públicos, por Míriam Leitão

O Globo

O Senado ataca os cofres públicos ao aprovar bombas fiscais para atingir ao governo Lula, mas, na verdade, erra o alvo e acerta o país

Todo ano eleitoral, os políticos, de governo e oposição, ampliam gastos públicos, mas é difícil encontrar paralelo ao que está acontecendo agora. O Senado resolveu atacar os cofres públicos com dois objetivos, ambos condenáveis: fazer demagogia eleitoral e constranger o presidente Lula. O que se diz em Brasília é que o senador Davi Alcolumbre, por rancor, continua tentando atirar em Lula. Errou o alvo, senador, e acertou o Brasil.

Os senadores da oposição estão acusando o governo de gastador e fazendo o elogio da austeridade. Ao mesmo tempo, criam mais despesas. Quando criticam a gestão atual têm razão em vários pontos, mas as pautas que avançam no Senado desequilibram o país.

História, memória... e FHC, por Pedro Malan*

O Estado de S. Paulo

As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência

Este artigo é uma homenagem aos 95 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e à sua contribuição para a modernização do Brasil. É também um apelo por uma resposta, com visão de futuro, para a situação econômica, social e político-institucional do Brasil nesta quadra difícil e perigosa em que se encontram nosso País e o mundo. Já o fizemos no passado. Será necessário voltar a tentar, e com sentido de urgência.

Em 13 de junho de 1993, menos de um mês depois de FHC ter assumido o Ministério da Fazenda, foi dado a público o Programa de Ação Imediata. Visto em perspectiva histórica, o documento representa um marco importante por razões que guardam relevância para a situação do Brasil de hoje. O programa abre com a seguinte frase: “Somente quatro países do mundo tiveram inflação superior a 1.000% (em 1992): a Rússia, a Ucrânia, o Zaire (Congo) e o Brasil.” O documento deixava claro que o fim da inflação não era objetivo que se esgotasse em si mesmo.

Os problemas que a Copa não resolve, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?

Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.

Uma Copa como nunca se viu, Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Cadê nossa bandeira, o nosso verde e amarelo? A polarização comeu

Cadê o nosso verde e amarelo? Onde estão as bandeiras do Brasil, que sempre encheram de luz, alegria e esperança o País em época de Copa do Mundo, fosse na ditadura militar, no início da redemocratização, nos governos de esquerda, de direita ou de qualquer coisa?

Não foi o gato que comeu e nada disso subiu na árvore. Aliás, nem é por desconfiança na seleção do Ancelotti, nem pelas dúvidas sobre o Neymar, nem mesmo pela aposta do comentarista Juca Kfouri de que o Marrocos iria vencer na estreia brasileira. Então, o que aconteceu com as nossas cores, a bandeira, as camisetas, a torcida interna? A polarização política tragou. Milhões de brasileiros e brasileiras, inclusive aqui na capital da República, onde eu testemunho ao vivo, têm medo de serem confundidos com seus adversários. É o que se ouve por aí: “Eu? Eu, não. Para acharem que sou bolsonarista?”

Acordo à vista no Oriente Médio, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Um memorando de entendimento para a reabertura do Estreito de Ormuz parece prestes a ser assinado por EUA e Irã. O acordo obedece às condições impostas por Teerã: liberação de depósitos congelados no exterior, extensão do cessar-fogo por dois meses e adiamento da negociação sobre o programa nuclear iraniano para uma segunda etapa.

Os Emirados Árabes Unidos teriam concordado em liberar até US$ 20 bilhões de depósitos iranianos retidos em bancos de Dubai, segundo fontes ouvidas pela agência Reuters. Funcionários iranianos e dos Emirados teriam visitado Abu Dhabi e Teerã, respectivamente.

A profecia do messias Elon Musk tem agora crentes que rezam com trilhões de dólares, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Abertura de capital da SpaceX deu valor de US$ 2,1 tri para a missão do empresário

Prospecto do negócio tem estilo messiânico e plano de salvação da humanidade

As crianças dos anos 2030 talvez não se espantem de ver um céu de muitas luas quando olharem para o poente ou para o nascente. Coletores de energia solar e radiadores de calor de supercomputadores de inteligência artificial, os data centers orbitais, brilhariam como a Lua, mas com um quarto do tamanho.

Parece paisagem de contos de Arthur C. Clarke dos anos 1960, o autor de ficção científica que então imaginou também uma rede mundial de computadores que teria tantas conexões que se tornaria um cérebro com vontade própria.

Eduardo Bolsonaro mandou salvar o Master? Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando o ex-deputado fugiu para os EUA, indicou Filipe Barros para substituí-lo na presidência de comissão

Subitamente, o órgão começou a se meter na regulação do setor financeiro, algo completamente fora de sua alçada

Leitores desta coluna já sabem que o deputado bolsonarista Filipe Barros (PL-PR) apresentou um projeto de lei (PL 4395/2024) para elevar a cobertura do FGC e salvar o Banco Master. Graças à coluna da jornalista Malu Gaspar, agora sabemos que sua atuação a favor do banco de Vorcaro foi muito mais longe. E pode ter envolvido Eduardo Bolsonaro.

O projeto de lei de Barros, é bom lembrar, era exatamente igual à proposta de Emenda 11 à PEC 65/2023, redigida pelo Banco Master e apresentada no Congresso Nacional pelo ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira. Se tivesse sido aprovado, o rombo deixado pelo Master no sistema financeiro teria sido muitas vezes maior do que foi.

Quando zero quer fazer sentido, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que perderam relevância marcadores de sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia

Sem nada dizer, erige-se como totem de uma espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do nada

Era um júri no interior nordestino, desses a que se assistiam por obrigação acadêmica, quando o advogado de defesa contestou o promotor: "A minha objurgatória é peremptória no rechaço às ilações vitriólicas de Vossência". Exatamente assim. É difícil saber por que não se esquece linguagem de sentido obscuro, mas sonoramente marcante. Acontece, porém, mesmo quando se trata da empolação verbal que relega significação ao segundo plano do som. A palavra nua, o nome, para além de uma etiquetagem prática, guarda velado poder simbólico.

A história perdida do liberalismo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro faz uma arqueologia do conceito, mostrando sua origem, desenvolvimento e contradições

Liberalismo é compatível tanto com ideias de esquerda como com de direita

Você é liberal? A pergunta é capciosa, porque "liberal" e "liberalismo" podem significar mais ou menos qualquer coisa e o seu contrário. Nos EUA, o termo "liberal" é sinônimo de "de esquerda". Mas o liberalismo também é compatível com as ideias de Von Mises e Hayek, autores de direita. No meio do caminho, temos Adam Smith, Stuart Mill e Keynes. Liberalismo é um conceito não só naturalmente polissêmico como também um que adquiriu diferentes significados em diferentes momentos históricos.

TSE deve garantir lisura sem interferir na eleição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A boa notícia é que Nunes Marques não teve o apoio automático de seus pares no tribunal eleitoral

Será péssima notícia se o colegiado resolver prestar um desserviço à liberdade de opinião

A boa notícia é que os ministros do Tribunal Superior Eleitoral não se alinharam automaticamente a Kássio Nunes Marques na decisão que cria um precedente para a censura não só às pesquisas de intenções de votos, mas a análises dos responsáveis pelos institutos sobre o conteúdo dos levantamentos.

Se tivessem aderido aos argumentos do presidente do TSE, daqui em diante estariam vetadas as explicações sobre o significado dos números e proibidas quaisquer referências a informações conhecidas na metodologia de captação de tendências do eleitorado.

Saldanha, entre um cigarro e outro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Na série 'A Saga do Tri', ele fuma em todos os takes; na vida real, era quase isso mesmo

Seu intérprete Rodrigo Santoro, não fumante, acende 200 cigarros nos cinco episódios

Em clima de Copa, assisti a "Brasil 70: A Saga do Tri", a série de Pedro e Paulo Morelli sobre a seleção no México em 1970. Os personagens principais são um Zagallo enfezado e morrinha, como ele era, um Pelé mais angustiado do que os personagens de Kafka ou Dostoievski —como ele não era— e um delicioso João Saldanha, arguto, debochado, pródigo em bordões, fingindo acreditar nas histórias que contava.

Como todo mundo aqui no Rio, conheci Saldanha, claro. Era figura fácil no Bar do Osmar, um botequim na rua Miguel Lemos, em Copacabana, em que bebuns, ex-craques, jornalistas esportivos (Hans Henningsen, Sergio Noronha, Sandro Moreyra), intelectuais, poetas, ministros do Supremo, todos superbem informados, bebiam em pé e discutiam os segredos da República. Saldanha pontificava sobre a seleção como se treiná-la fosse a coisa mais fácil do mundo. Um dia, em 1969, foi da Miguel que ele saiu para falar com João Havelange, presidente da então CBD, e ser convidado a assumi-la.

Ingerência Inaceitável: o que pode nos afetar, por Abraham Benzaquen Sicsú*

Revista Será?

Como nação autônoma, um princípio basilar de nossa dignidade é a defesa da soberania. Precisamos preservar o direito de decidir nossos próprios caminhos e não admitir interferências indevidas em nosso território ou em nossa vida social.

Duas medidas recentemente adotadas ou discutidas pelos Estados Unidos podem produzir impactos relevantes sobre o Brasil: a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e as críticas dirigidas ao PIX, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central.

Em 28 de maio de 2026, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida entrou em vigor no início de junho.

Para o leitor desavisado, isso pode parecer apenas uma decisão interna norte-americana ou mais um episódio da intensa polarização política que marca o cenário daquele país. Entretanto, seus possíveis desdobramentos merecem atenção. Não se trata de uma medida irrelevante: ela pode gerar consequências significativas para instituições financeiras, empresas e para o próprio funcionamento de setores da economia brasileira.

O que significa continuar humano? Por Hubert Alquéres*

Revista Será?

A publicação da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, chamou atenção por um motivo incomum. Em vez de tratar de temas tradicionalmente associados à vida religiosa, o documento dedica-se à inteligência artificial, talvez a transformação tecnológica mais importante de nosso tempo.

A escolha não é casual. Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum, marco fundador da Doutrina Social da Igreja. Naquele momento, a Revolução Industrial alterava profundamente as relações de trabalho, a organização econômica e a própria vida social. A Igreja entendeu que não poderia permanecer indiferente diante de mudanças capazes de redefinir a condição humana.

Manoel Francisco dos Santos, por Ivan Alves Filho*

Manoel Francisco dos Santos. Assim escrito, o nome talvez não diga muita coisa, sobretudo aos leitores mais jovens. Quem terá sido ele mesmo? A dúvida se dissipa quando substituímos Manoel Francisco dos Santos por Mané Garrincha. Aí, nem Deus duvida mais.

Eu estava na França quando Mané Garrincha tentou jogar por lá, se não me engano no clube parisiense Red Star, no começo da década de 70. Confesso que torci por ele, mesmo se, àquela altura, o nosso Mané Garrincha já estivesse virtualmente acabado para o futebol. Ele bem que tentara uma volta pouco antes aos campos, envergando as cores do Flamengo. Infelizmente não foi muito bem sucedido, apesar de um recomeço promissor. A violência dos adversários – que o perseguiu por toda a vida profissional – acabou de vez com seu sonho. 

Poesia | Futebol, de Carlos Drummond de Andrade, por Pelé

 

Música | Chico Buarque: Conversa de Botequim (Noel Rosa)

 

sábado, 13 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Responsabilização de plataformas representa avanço

Por O Globo

Supremo confirmou em decisão unânime o ‘dever de cuidado’ delas diante de conteúdos criminosos

O Supremo Tribunal Federal (STF) aproxima-se do final de um julgamento que dotará o Brasil de regras mínimas para responsabilizar as plataformas digitais pelos conteúdos que fazem circular em suas redes. Em junho do ano passado, a Corte declarou inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que as eximia de qualquer responsabilidade pelo conteúdo produzido por terceiros. A decisão estabeleceu uma tese segundo a qual, diante de determinados tipos de conteúdo criminoso, elas têm, sim, um “dever de cuidado”. Em julgamento nesta semana, o plenário do STF confirmou a tese em decisão consensual.

Ao contrário do que estabelecia o artigo 19, as plataformas serão consideradas corresponsáveis a partir do momento em que notificadas pelas partes afetadas — e não apenas depois de sentença judicial. Se mantiverem o conteúdo no ar, arcarão com “responsabilidade solidária” pelos eventuais crimes cometidos. A tese se justifica porque as plataformas não são agentes passivos na difusão de imagens, textos ou sons. Agem como editores ao dar maior ou menor visibilidade aos conteúdos por meio de seus algoritmos. Devem valer para elas, portanto, regras semelhantes às que vigoram para outras empresas de comunicação.

Agravamento de pena e mudança de faixa etária não reduzem criminalidade, por Flávia Oliveira

O Globo

A convivência com criminosos experientes no sistema carcerário teria o condão de, em vez de afastar, formar jovens para a delinquência

Uma década atrás, Daniel Cerqueira, um dos grandes especialistas do país em indicadores de segurança pública, produziu com Danilo Santa Cruz Coelho, seu colega no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma nota técnica sobre redução da maioridade penal. O estudo foi decorrência da aprovação, em 2015, na Câmara dos Deputados, da PEC 171/1993, que baixava de 18 para 16 anos a idade em que adolescentes passariam a ser responsabilizados como adultos por crimes que cometessem. Em vez de medidas socioeducativas, como estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente, o cárcere. Já naquela época, os pesquisadores afirmavam, com base em evidências, que agravamento de pena e mudança de faixa etária não reduzem criminalidade.

Quem vigia os fiscais de fake news? Por Thaís Oyama

O Globo

Num ambiente eleitoral em que as plataformas podem ser punidas por omissão, elas tenderão, em caso de dúvida, a remover mais, e não menos

‘Antes, eu dizia que valia quase tudo. Hoje, vale tudo para salvar a democracia’, disse o deputado André Janones (Rede-MG) ao explicar em encontro do PT até onde estava disposto a ir como operador digital da campanha do presidente Lula.

É uma frase extraordinária.

No evento, Janones falava na condição de palestrante que atuou como ponta de lança digital na campanha que elegeu Lula em 2022 e agora se prepara para reassumir o posto. Com orgulho incontido, relatou como, em duas ocasiões, usou sua técnica de “desviar o foco” e “criar versão dos fatos”, que nega equivaler à mentira.

Os 'monstros' que maltratam animais, por Eduardo Affonso

O Globo

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro no Rio

O Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão Orelha não foi torturado e morto, e o caso acabou arquivado. Escrevi aqui, na ocasião, sobre “os monstros da Praia Brava”. Apontei “meninos ricos” como os culpados. Errei. Os monstros que imaginei continuam existindo — só não eram aqueles, e não estavam apenas lá. São muitos mais, de todas as idades e classes sociais. E contam, se não com a cumplicidade, com a omissão da família, da sociedade e da lei.

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro na Ilha do Governador. Uma “empresária” paulista foi presa (e solta em seguida) por torturar e matar coelhos, pintinhos e gatos, esmagando-os com os pés, em performances de zoossadismo vendidas em vídeo. Sim, há plateia para isso.

Xandonismo cultural, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O gênio que não voltaria mais à lâmpada nunca foi Xandão, o indivíduo; que, nalgum tempo, passará, descartável cedo ou tarde. Não voltará mais à lâmpada o código autoritário de precedentes xandônicos que, difundido como para defender a democracia, restabeleceu a censura entre nós.

Em 2022, o TSE de Alexandre de Moraes censurou previamente um filme. Para proteger a eleição do que arbitrou ser desinformação, censurou. Conjunto então aplaudido, pois combatia golpistas. Né? Conjunto ora disponível a quem lhe quiser lançar mão. A isso servem os precedentes. Conjunto de que se serve Nunes Marques. A interferência submetendo o comedimento; subjugando o valor de que, se em xeque a circulação livre das informações, melhor será errar pela mão leve – para garantir que circulem. Nunes Marques se serve da mão pesada – para nos proteger de nós mesmos.

IA é o novo polvo Paul, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Deixamos de lado os experts para confiar à IA a previsão sobre o vencedor da Copa de 2026

Na Copa do Mundo de 2010, o polvo Paul ficou famoso por prever corretamente todos os resultados da seleção alemã. Polvo, vidente, sinais no céu, cartas de tarô – nós sempre buscamos algo ou alguém para nos dizer o futuro.

Hoje, o nosso Oráculo de Delfos se transformou em tecnologia. O ganhador da Copa de 2026 está sendo urgido por ferramentas desenvolvidas para selecionar ações em Bolsas de Valores. Deixamos de lado a opinião de experts como técnicos, ex-jogadores e jornalistas esportivos e passamos o bastão para especialistas em fatores de risco, regressões estatísticas e modelos probabilísticos.

Pessimismo nacional, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O brasileiro é um pessimista profissional. E, na Itália, um a zero é goleada. Ou seja, o sofrimento e o pessimismo estarão garantidos nos próximos 30 dias.

O Velho do Restelo é personagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra maior da literatura portuguesa, publicada em 1572. Ele aparece quando a armada de Vasco da Gama parte para a Índia. Enquanto todos celebram a viagem, um velho, parado na praia do Restelo, em Lisboa, critica a expedição e alerta para os perigos, os sofrimentos e as mortes que ela poderá causar. O autor condena a busca da glória. O brasileiro herdou a maneira portuguesa de observar fatos. É um pessimista profissional. Coloca em dúvida o país em todas suas dimensões.

A Copa e a pulsão de vida, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

A copa também nos rende cenas incríveis de amizade entre povos, de alegria infantil genuína, de uma emoção que sobe pelos ossos por conta de uma vitória que, a rigor, a rigor, não vale nada além da alegria

Hoje é dia de estreia do Brasil na copa. Que o brasileiro é um apaixonado por futebol e um espectador entusiasmado do torneio é uma obviedade, por isso não deixa de chamar atenção o quanto nosso ânimo está amofinado com a seleção que disputa este ano. Eu suspeitaria que o abatimento geral é uma mistura de descrença com a qualidade do futebol apresentado com um incômodo com a apropriação de certos símbolos do futebol nacional por uma política muito polarizada.

A camisa amarelo canário se tornou "a camisa do Bolsonaro", assim como a bandeira nacional afixada em carros e sacadas de prédios se converteu, há anos, em posicionamento ideológico. É sintomático ver a saída bem-humorada que alguns torcedores encontraram para se dissociar do bolsonarismo: a frase "é pra copa" pode ser em vista aqui e acolá em decorações que ornamentam as ruas da cidade.

Desafios do constitucionalismo digital, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Normas criadas para ordenar o mundo analógico encontram-se sob profundo estresse

O desenvolvimento e a expansão do poder digital não devem ser negligenciados

As normas e instituições constitucionais, criadas para ordenar o mundo analógico, encontram-se sob profundo estresse em face das transformações impostas pelo mundo digital. O desenvolvimento e a expansão do poder digital, potencializados pela inteligência artificial, ubiquamente empregados tanto por Estados como pelo setor privado, não devem ser negligenciados pelas sociedades e seus cidadãos. Os benefícios são imensuráveis. Os problemas também.

Gasto é vida, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Governo e parlamentares travam corrida de bondades eleitorais

Armadilha fiscal tem ingredientes políticos que dificultam solução

Executivo e Legislativo parecem empenhados numa espécie de corrida armamentista para ver quem gasta mais a fim de extrair benefícios eleitorais. As contas estão longe de ser precisas, mas, numa estimativa grosseira, o pacote de bondades de Lula para o pleito deste ano custará aos cofres públicos um pouco mais de R$ 200 bilhões.

Pelo lado do Parlamento, tramitam nos escaninhos do Congresso Nacional nove propostas que, se aprovadas, teriam um impacto orçamentário de R$ 111 bilhões por ano ao longo de vários anos, segundo cálculos de técnicos do governo.

Com censura a pesquisas, filho 01 mistura autoritarismo e burrice, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas porque não consegue explicar dinheiro de Vorcaro

Presidente do TSE, Nunes Marques prometeu neutralidade, mas agiu de modo intervencionista

Foi mais um tiro no pé de quem vive fazendo gesto de arminha, levantando o polegar e estendendo o indicador para simular o cano e o gatilho de uma arma.

Se houvesse menos autoritarismo, vida inteligente ou mesmo harmonia (os dois principais articuladores, Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, não se bicam) na campanha presidencial do filho 01, o PL pensaria duas vezes antes de pedir ao Tribunal Superior Eleitoral a suspensão da pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrava queda de seis pontos nas intenções de voto do senador.

Trabalho e realização humana, por Marcus Pestana

  • O tema mais quente, no momento, é a introdução da escala de trabalho 5x2. O trabalhador teria direito legal a dois dias de descanso e a jornada de trabalho seria reduzida de 44 para 40 horas semanais. A PEC, aprovada na Câmara dos Deputados, prevê uma transição rápida de apenas quatorze meses.

É evidente que do ponto de vista da qualidade de vida dos trabalhadores é mais do que justo ter mais tempo para a família e o lazer. A redução da jornada de trabalho é reivindicação antiga do movimento sindical. Já em 1880, Paul Lafargue, em seu livro “O Direito à Preguiça” afirmava: “O trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica”. Em seu manifesto anticapitalista critica a ideia de que “o trabalha dignifica o homem”. Apontando a exaustão física e mental como o verdadeiro mal da humanidade. O tempo de ociosidade seria o caminho da emancipação.

A República da atenção, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Vivemos um tempo em que ser lembrado pesa mais do que ter razão

Vivemos um tempo em que a atenção virou o bem mais valioso. No início do século, dizia-se que a informação era o novo petróleo. Hoje a informação é abundante. O que escasseia é a atenção. Capturá-la, em meio à inundação de dados, tornou-se o que de fato importa. Foi Herbert Simon quem antecipou a equação, ainda nos anos 1970: uma riqueza de informação produz uma pobreza de atenção. Meio século depois, erguemos uma economia inteira sobre essa pobreza. As plataformas não vendem vídeos, notícias ou entretenimento. Vendem minutos do nosso olhar ao maior anunciante. O produto somos nós, distraídos. Cada clique, cada curtida, cada segundo de permanência converte-­se em dado, e cada dado converte-se em valor econômico.

Guerra espiritual, por Cláudio Couto

CartaCapital

A tática da extrema-direita de demonizar os adversários representa uma afronta ao Estado laico e à própria democracia, que pressupõe o respeito à pluralidade

Na quinta-feira 4, feriado do Corpus Christi, a cidade de São Paulo abrigou a já tradicional Marcha para Jesus, capitaneada pelo casal Estevam e Sônia Hernandes, líderes da neopentecostal Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Como de costume, além de milhares de fiéis, marcaram presença na manifestação religiosa diversos políticos, quase todos de direita ou ultradireita. Dentre eles destacavam-se o governador paulista, Tarcísio de Freitas, o prefeito paulistano, Ricardo Nunes, e o candidato presidencial do PL e de sua família, Flávio Bolsonaro. Mais discretamente compareceu o advogado-geral da União, Jorge Messias, cumprindo o duplo papel de representar o governo Lula e os evangélicos de esquerda.

Sem medo de ser de esquerda, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

Se não assumirem uma posição política clara, Lula e o PT correm o risco de ressuscitar Flávio ou eleger um Congresso pior que o atual

“A história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa.” A frase de Marx, que inicia O 18 de Brumário de Luís ­Bonaparte, sobre a ascensão do sobrinho de Napoleão Bonaparte ao poder, em 1851, na França, por meio de um golpe, poderia ter sido repetida nos últimos 175 anos em várias súbitas viradas políticas ocorridas ao redor do mundo. Não cabe, todavia, para definir o bolsonarismo. Jair Bolsonaro foi o líder medíocre, a exemplo de Luís Bonaparte, mas personificou uma tragédia tão marcada por farsas, e farsas tão marcadas por tragédias, que torna difícil qualificar seu filho como o sujeito de todas as farsas, ou como o farsante que quer ocupar o lugar de um grande líder.

Nenhum é grande líder. Ambos, Jair e Flávio, são produtos de grandes farsas. Mas Flávio Bolsonaro rema contra a maré.

A Copa da Vergonha, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Nem mesmo a Alemanha de Hitler, ao sediar os Jogos Olímpicos de 1936, estabeleceu as interdições e exclusões que vemos agora nos Estados Unidos

Os EUA e a Fifa, Donald Trump e Gianni Infantino, estão escrevendo a página mais triste, degradante e vergonhosa da história das Copas do Mundo. As interdições, as exclusões, as deportações, as perseguições e as proibições que estão praticando contra atletas, profissionais e torcedores de determinados países ofendem a tradição e o sentido histórico dos grandes eventos esportivos de caráter global.

Todos sabem que a Grécia Antiga não era propriamente um país, mas uma região constituída por várias cidades independentes, fundadas por quatro ou cinco tribos que vieram dos Bálcãs e que tinham em comum elementos étnicos, linguísticos e religiosos. Todos diziam-se helenos por terem em comum o deus Heleno como fundamento originário.

Moeda e finança, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A dita “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas a realização de sua natureza

O Manifesto sobre a PEC 65 suscitou-me o impulso de escrever sobre as condições que presidem aos Bancos Centrais e às políticas monetárias. Vou cometer a ousadia de retornar aos economistas de antanho para tratar das intrincadas e complexas questões que envolvem o dinheiro e a finança no capitalismo.

Reconhecido pelos Senhores dos Mercados após a crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado Schumpeter and Finance.

Entrevista | Francesca Albanese: “A paz exige justiça”

Por Jamil Chade - CartaCapital

A impunidade aos crimes de Israel não atinge apenas a Palestina, diz Francesca Albanese, relatora da ONU

Relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, a italiana ­Francesca Albanese paga um preço alto por sua coragem e independência. As denúncias dos crimes cometidos por Israel em Gaza levaram os Estados Unidos, aliado de primeira hora dos israelenses, a impor sanções econômicas e financeiras à advogada, uma “forma de morte civil”, segundo ela. Albanese sofre com as consequências, mas não se curva. E conta a própria história, das primeiras visitas à região às turbulências recentes, no livro Quando o Mundo Dorme: Histórias, Palavras e Feridas da Palestina, lançado no Brasil pela Editora Tabla. Apesar de ter assistido ao massacre e lidar com a desesperança, conforme afirma nesta entrevista, ela ainda acredita na possibilidad­e de uma convivência pacífica entre os dois povos. Mas a paz, observa, “exige responsabilização por violações, igualdade de direitos para todos, o fim da ocupação e do apartheid e a plena realização do direito do povo palestino à autodeterminação”.

Poesia | No mundo há muitas armadilhas, de Ferreira Gullar, por Ana Lis Soares

 

Música | Beth Carvalho - Último Desejo (Noel Rosa)