domingo, 18 de outubro de 2026

O perigo de se depender dos EUA, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O calvário vivido por Volodmir Zelenski em sua história com Donald Trump é completo para analisar como o presidente americano se comporta perante aliados e adversários.

O Brasil vive um contexto diferente da Ucrânia, mas no momento em que se prepara para entrar na órbita americana ou se manter sob a chinesa, a lição é clara: os riscos são severos em ambos os casos.

O amor de Trump pela Rússia e desprezo pela Europa datam de 1987, quando o empresário foi convidado a visitar a União Soviética depois de comprar centenas de televisores para um hotel que estava montando em Nova York em uma loja que era um aparelho da KGB. Ao voltar, Trump gastou US$ 94 mil em anúncios no Wall Street Journal , New York Times e Boston Globe defendendo o abandono dos aliados europeus, japoneses e sauditas.

Vida é poesia, por Ignácio de Loyola Brandão

O Estado de S. Paulo

Namorar era olhar, trocar sorrisos maliciosos. E, se desse, pegar na mão, escondido do irmão

Dois momentos me tocaram fundo na primeira semana de outubro, ambos ligados a esta vida que chegou aos 90. O que chamo de vida é a de todos nós, brasileiros. O primeiro momento, tenebroso, foi a frase de um candidato à presidência do Brasil. Ela me desestruturou. A que ponto de sordidez chega a ambição de poder? A repelente, repulsiva, horrenda referência à prostituição em um cargo atribuída a Simone Tebet me deixou irado, desesperado. É vulgar, de espantosa baixeza, cafajestice. Inadmissível. Em que país vivemos? Ou viveremos?

Entrevista | Marco Aurélio Nogueira: ‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’, diz cientista político

Por Vera Rosa \ O Estado de S. Paulo

Autor do livro ‘Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar’, Marco Aurélio Nogueira vê a democracia no Brasil ameaçada e diz que qualquer candidato eleito para a Presidência, seja Lula ou Flávio, terá de ‘descascar um abacaxi’

BRASÍLIA – O cientista político Marco Aurélio Nogueira define o atual momento que vivemos como “uma encruzilhada política paralisante”. No seu diagnóstico, trata-se de uma época na qual a manipulação de algoritmos domina o mundo e ergue muros. Diante deste cenário, construir pontes ficou mais difícil.

“Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre o lulismo e o bolsonarismo”, diz Nogueira. Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e articulista do Estadão, o cientista político observa que os democratas precisam reaprender a dialogar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou, na sua avaliação, ao deixar de lado a frente ampla que ajudou a elegê-lo, em 2022. Na outra ponta, o discurso antissistema do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, não reflete uma coesão social sustentável. A terceira via, por sua vez, não conseguiu sair do acostamento e “virou recheio de um sanduíche”.

Em seu mais novo livro, intitulado Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar, Nogueira trata dos muros que nos dividem e observa que o cenário atual, com seu dinamismo frenético, acabou trazendo mal-estar.

Questionado se a democracia está sob ameaça, ele não titubeou e encaixou um “sempre” na resposta. “A democracia é aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente”, afirmou o professor, citando frase do ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira.

Querem mudar o jeito de escolher o presidente, deputados, STFs e levar bandidos ao poder, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Há projetos de mudar a forma de governar o país entre o fim de 2026 e o início de 2027

Tentativa ocorreria em ano de economia difícil e política que afunda no crime organizado

As turmas do poder político pretendem mudar formas e modos de governo entre o final deste ano e o começo do próximo. Flávio Bolsonaro (PL) e cia. têm plano nebuloso de "mudar a Constituição para redemocratizar o país". O centrão-direitão quer se defender do avanço da extrema direita e dos políticos digitais. Todos querem mexer no falido STF.

Tais mudanças serão discutidas em momento que pode ser de domínio da extrema direita no governo federal e de grande força no Congresso, com o que tal corrente pode vir a ser hegemônica no partidarizado STF. A extrema direita é composta também de grupos políticos associados ao crime organizado. De resto, a elite no poder foi comprada ou alugada pelo gângster e cafetão Daniel Vorcaro.

Flávio perde votos quando eleitor o imagina governando, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Que candidato você prefere no comando em caso de nova pandemia?

Em retrospecto, a liderança no primeiro turno pode ter sido ruim para Flávio Bolsonaro

Para Flávio Bolsonaro vencer a eleição, precisa impedir que os brasileiros se lembrem de que, se votarem nele, ele será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Ou mais, dependendo do que ele e o pai fizerem com a Constituição que já disseram que esculhambarão.

Não houve campanha eleitoral no primeiro turno: houve noticiário sobre corrupção no STF. Leitores da coluna sabem que votar no PL para punir os corruptos do STF foi votar em 98% da quadrilha Master para usar os outros 2% como bodes expiatórios. Mas muita gente caiu no golpe, e Flávio terminou o primeiro turno na frente de Lula.

O apelo da dignidade, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Falha no primeiro turno não foi a falta de debates, mas a falta da vontade de debater

O rebaixamento nas redes sociais parece prioritário no pleito político; parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração

Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais.

Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 23 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país.

A maldição do vencedor, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro clássico de economia comportamental ganha atualização

Autores mostram como as pesquisas evoluíram nos últimos 30 anos

Especialmente em momentos de polarização afetiva, esperamos o pior de nossos semelhantes. Tentando ver o lado menos lúgubre das coisas, acho que dá para afirmar que humanos não somos tão maus quanto hoje pode parecer. Como espécie, somos cooperativos. Nosso impulso inicial é o de colaborar com o próximo, mas também não somos trouxas. Deixamos de cooperar a partir do instante que o próximo dá sinais de que não é um parceiro confiável. Faz sentido que seja assim. Se fôssemos seres totalmente egoístas e perfeitamente racionais, sempre empenhados em maximizar ganhos, não teríamos ido muito além do Pleistoceno.

Lula e Flávio vão em desespero rumo ao desempate, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Na reta final da corrida ao Planalto os erros de cada um serão mais determinantes que os acertos

À falta de projetos, o país se prende à expectativa do que vai vencer: a onda da direita ou a força da caneta

A terceira semana de campanha do segundo turno vai começar com as pesquisas paradas no empate entre os dois finalistas, em cenário que não deixa de ser desafiante para o perdedor, mas é preocupante para o vencedor da etapa inicial.

No histórico desse tipo de embate o segundo colocado estaria praticamente fadado à derrota. A escrita permeou as análises do placar de 4 de outubro, segundo as quais nunca houve uma virada. Ocorre que tampouco havia registro de diferença tão pequena.

Paulinho e Verinha em perigo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O jabuti Jonathan, 194 anos, ser mais idoso do mundo, está preocupado com a situação

Se vier o pior, um casal de jovens jabutis brasileiros poderá esperar pela salvação; nós, não

Fui apresentado outro dia a um casal de jabutis. Chamam-se Paulinho e Verinha. Não entendi como seus tutores sabem quem é quem —jabutis são tímidos, não gostam de botar nem a cabeça para fora, quanto mais as partes. Só sei que têm menos de um ano e, pelo amor com que são tratados, uma bela vida pela frente. Ao observá-los, concluí que não fazem nada sem pensar —não importa onde sejam colocados, permanecem estáticos, avaliando a situação. Pode acontecer de só se decidirem muito depois de você, temendo morrer de velhice, ter desistido de esperar para ver.

A democracia e suas vicissitudes, por João Rego*

Revista Será?

 – Uma mensagem aos democratas indecisos

Já falei sobre o que a democracia moderna representa para a humanidade. É a expressão civilizatória suprema que o ser humano, em meio aos seus conflitos, conseguiu alcançar ao longo de milênios de história, marcados por guerras, chacinas e genocídios.

A partir do século XVIII, com os pensadores do Iluminismo, o pensamento político-filosófico construiu o veio principal por onde as nações, com suas diversas formas de governo, começaram a caminhar em direção aos modelos modernos de sociedade democrática.

Embora, no século XX, ainda tenhamos experimentado duas terríveis guerras mundiais, que deixaram um rastro de dezenas de milhões de mortos, entre eles os milhões de vítimas do Holocausto planejado e executado pelo nazismo, também testemunhamos os crimes do stalinismo — duas das principais expressões do totalitarismo que deixou profundas cicatrizes no século passado.

As eleições vistas de outro ângulo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

O historiador, cientista político e escritor português João Pereira Coutinho publicou pela editora Três Estrelas um livro fortemente interessante. Intrigante, na verdade, e desde o título: As ideias conservadoras explicadas a reacionários e revolucionários (2014).

Bem resumidamente, Coutinho defende que o mundo moderno, nascido da Revolução Francesa, pariu três grandes ideologias: a conservadora, a reacionária e a revolucionária. O que as distingue? O conservadorismo, em essência, afirma que o mundo está em movimento, que a mudança é a forma de existir da modernidade; porém, considera que estas mudanças devem se fazer de forma lenta. A ideologia reacionária, ao contrário, se opõe à mudança e prega o retorno ao passado idealizado. No outro extremo, surgem as ideias revolucionárias, que querem “fazer do passado uma tábua rasa”.

Sobre o conceito de previsão ou perspectiva, por Antonio Gramsci*

É certo que prever significa apenas ver bem o presente e o passado como movimento: ver bem, isto é, identificar com exatidão os elementos fundamentais e permanentes do processo. Mas é absurdo pensar numa previsão puramente "objetiva". Quem prevê, na realidade, tem um "programa" que quer ver triunfar, e a previsão é exatamente um elemento de tal triunfo. Isto não significa que a previsão deva ser sempre arbitrária e gratuita ou puramente tendenciosa. Ao contrário, pode-se dizer que só na medida em que o aspecto objetivo da previsão está ligado a um programa é que esse aspecto adquire objetividade: 1) porque só a paixão aguça o intelecto e colabora para tornar mais clara a intuição; 2) porque, sendo a realidade o resultado de uma aplicação da vontade humana à sociedade das coisas (do maquinista à máquina), prescindir de todo elemento voluntário ou calcular apenas a intervenção das vontades dos outros como elemento objetivo do jogo geral mutila a própria realidade. Só quem quer fortemente identifica os elementos necessários à realização de sua vontade. Por isso, é um erro grosseiro de presunção e superficialidade considerar que uma determinada concepção do mundo e da vida tenha em si mesma uma superioridade em termos de capacidade de previsão. É claro que uma concepção do mundo está implícita em toda previsão; portanto, o fato de que ela seja um amontoado de atos arbitrários do pensamento ou uma visão rigorosa e coerente não é destituído de importância, mas ela só adquire essa importância no cérebro vivo de quem faz a previsão e a vivifica com sua vontade forte. Isto pode ser percebido através das previsões feitas pelos chamados "desapaixonados": elas estão plenas de inutilidades, de minúcias sutis, de elegâncias conjeturais. Só a existência, em quem "prevê", de um programa a realizar faz com que ele se atenha ao essencial, aos elementos que, sendo "organizáveis", suscetíveis de ser dirigidos ou desviados, são na realidade os únicos previsíveis. Isto vai contra o modo comum de considerar a questão. Geralmente se acredita que todo ato de previsão pressupõe a determinação de leis de regularidade como as leis das ciências naturais. Mas, como estas leis não existem no sentido absoluto ou mecânico que se supõe, não se levam em conta as vontades dos outros e não se "prevê" sua aplicação. Logo, constrói-se com base numa hipótese arbitrária, e não na realidade.

*Antonio Gramsci (1891-1937) Caderno 15 (1933). Cadernos do Cárcere, v. 3 p.342. 3ª Edição, 2007. Editora Civilização Brasileira.

Poesia | A Implosão da Mentira, de Affonso Romano Sant'anna, por André Morais

 

Música | Congênito com Lenine e João Cavalcanti

 

sábado, 17 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

O futuro nas ruas

Por CartaCapital

Um movimento alentador, independentemente do resultado 

Dominadas por zumbis verde-amarelos desde 2013, as ruas brasileiras estão novamente em disputa. O susto das urnas no primeiro turno teve o efeito positivo de tirar da letargia milhões de cidadãos, atraídos pela disposição dos mais jovens. “Os ideais estão se organizando de maneira espontânea”, resume Gabriel de Oliveira, coordenador do DCE na Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista à página 20 a João Victor Sampaio e Kamille Soumaili, ambos universitários como o entrevistado e movidos pela crença no jornalismo, fragilizado e imprescindível. Se o miasma de 1964 exala dos esgotos do bolsonarismo, excitado com a possibilidade de vitória, e se transforma em múltiplas agressões, como se depreende da reportagem de Maurício Thuswohl à página 14, o neutralizador tem sido irradiado por um movimento que, à revelia do apparatchik petista e dos doutos marqueteiros, deu outro vigor e sentido à campanha à reeleição do presidente Lula. Protagonistas da resistência ao golpe do século passado, à custa de vidas e expurgos, os estudantes assumem, de novo, a tarefa de servir de anteparo aos beleguins que se arvoram no direito de sufocar os direitos civis em nome da “liberdade”, caso Flávio Bolsonaro venha a ser eleito em 25 de outubro.

Asfixia constitucional, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

O Brasil precisa de mudanças, mas não as que asfixiem nossa democracia

Nosso edifício institucional ficará vulnerável se o sistema de freio e contrapesos for neutralizado

"Todo homem investido no poder é tentado a dele abusar (…) para viver em liberdade é necessário que o poder freie o poder". A máxima de Montesquieu deveria servir, ao menos para aqueles que se creem liberais, com um alerta sobre o que está em jogo na eleição do próximo domingo.

A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.

Incompetência ou perversidade? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Em menos de um mês, PM paulista mata terceira pessoa em aparente surto psicótico

É assustador que cúpula da polícia não consiga fazer agentes seguirem protocolo

Às vezes eu me pergunto se o governador Tarcísio de Freitas e a cúpula da segurança pública de São Paulo são apenas incompetentes ou se têm também maldade no coração. Só neste mês, que mal passou da metade, já se registraram três casos de cidadãos em aparente surto psicótico mortos pela PM. Em dois deles, os policiais dispararam mais de 20 vezes contra as vítimas.

Cortes orçamentários de Flávio Bolsonaro poupam a classe política, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Filho 01 sabe que, sem o dinheiro das emendas, a ideologia acaba na hora

Com desmonte do STF, Congresso prepara a reedição da PEC da Blindagem

Se eleito, o filho 01 vai aproveitar o embalo e pôr em prática os planos de "reformar" o Supremo Tribunal Federal nos primeiros meses de governo. O primeiro ato prevê o impeachment de ministros que resistiram ao projeto autocrata do pai e o condenaram por tentativa de golpe. Um espetáculo para saciar a sede de vingança, provavelmente com Jair Bolsonaro já em liberdade assistindo na primeira fila ao rolar das cabeças.

Flávio x Lula: atos de rua viram votos na reta final? Por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Partidos apostam em grandes atos no fim de semana, mas a ciência política explica por que encher avenidas nem sempre atrai votos novos

A nove dias de escolhermos o novo presidente da República, teremos pela frente um fim de semana em que o clima de eleição estará presente nas ruas e nas redes sociais. Atos tanto em defesa da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto da vitória do senador Flávio Bolsonaro estão previstos para as principais capitais. Além disso, pela primeira vez, salvo alguma desistência de última hora, os dois devem se enfrentar em um debate presidencial, na noite de domingo.

Palavra de candidato, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Nas eleições, os discursos são fantasiosos. Todos contêm fórmula mágica para gerar empregos, reduzir a inflação e promover a felicidade geral.

Flávio Bolsonaro afirmou que não participaria do debate com Lula promovido pela TV Bandeirantes. Palavra final. Horas depois, voltou atrás. Afirmou que iria. Ele também fez pesadas críticas ao projeto que termina a escala de trabalho 6x1. Mas também voltou atrás. Votou a favor. A palavra de candidato não vale muito. Ou quase nada. Lula promete mundos e fundos. Até esquecer a dívida de microempresários com o Fisco. Anistia inesperada. Vale tudo na corrida pela vitória. Estelionato eleitoral para todos os gostos.

Flávio deu "fraquejada" e votou pelo fim da 6x1, por Plínio Bortolotti

O Povo (CE)

Dito isso, analisando os fatos, seria "fake news" chamar Flávio Bolsonaro de Duas Caras? De mentiroso? De oportunista? De sujeito sem convicções? Ou tudo isso junto e misturado?

Há pouco tempo, 19/5/2026, o candidato a presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL), emitiu nota oficial chamando de “inoportuna e eleitoreira” a proposta de fim da escala de trabalho 6x1. Em seu lugar, propôs a remuneração por hora trabalhada, que daria mais “liberdade” ao trabalhador (na verdade, ao patrão) para escolher a própria jornada. Para ele, essa seria uma alternativa melhor para os assalariados (leia-se elite empresarial), acusando o presidente Lula de “pensar no poder e não nos trabalhadores”.

Big Techs e Judiciário estão em campanha? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Independentemente do campo político ao qual pertençamos, é fundamental defender e respeitar a paridade de armas nas eleições, sob pena de deixarmos de viver em uma democracia digna do nome que carrega

Se fosse possível eleger o aspecto mais distintivo das eleições presidenciais de 2026 eu diria que, neste ano, vimos o fim de qualquer fantasia de imparcialidade de dois atores políticos importantes: o Poder Judiciário e as big techs. Os leitores podem estranhar a qualificação de empresas e juízes como atores políticos, mas é exatamente o que são, em sua capacidade de exercer poder, determinando rumos e condições de competição em um pleito.

Fim da escala 6x1 é conquista civilizatória, por Flávia Oliveira

O Globo

É a maior conquista dos trabalhadores brasileiros em mais de uma década

A Constituição de 1988, a dois anos de completar quatro décadas, foi um marco em cidadania, direitos sociais e também trabalhistas. Veio dela a redução da jornada semanal de 48 para 44 horas e a licença-maternidade de 120 dias, entre outros benefícios aos empregados com carteira assinada. Neste século, marcado por reformas que flexibilizaram e precarizaram o mercado laboral, o principal avanço, até esta semana, fora a PEC das Domésticas, aprovada em 2013, regulamentada dois anos depois, que garantiu à categoria os direitos oferecidos aos demais empregados nos anos 1940. O fim da escala 6x1 é, portanto, a maior conquista dos trabalhadores brasileiros em mais de uma década.

Pare, Flávio. Olhe. E pense, por Eduardo Affonso

Por O Globo

Sua anunciada subserviência aos Estados Unidos é tão nefasta quanto a birra petista; não faltam aloprados no seu entorno

Pode haver conselho de mãe nos para-choques de caminhão (“Mantenha distância”), autoajuda nas tampas dos bueiros (“Força e Luz”) e pílulas de sabedoria nas placas de cruzamento com a linha do trem (“Pare. Olhe. Escute.”). Os sinais estão por toda parte, Flávio, é só prestar atenção.

Você disse que é um “Bolsonaro que tomou vacina”. Convenhamos que não tenha feito mais do que qualquer pessoa sensata faria. As vacinas nos salvaram da varíola, da poliomielite, da rubéola; nos salvam de sarampo, tétano, coqueluche, raiva, meningite, tuberculose; hão de nos salvar da mpox, do Ebola e do que vier por aí.

Os ‘quatro anos em um mês’ de Lula, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula concebeu o governo “quatro anos em um mês”. Este mês pujante – revisor de tabus e concentrador de muitas realizações e promessas – sendo coincidente com o período de campanha eleitoral. Não será coincidência.

Mês cujo marco disparador do calendário talvez seja o reajuste do Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno. Reajuste ignorado entre janeiro de 2023 e setembro de 2026. Reajuste que Lula – conforme disse a Renata Lo Prete – desconhecia não ter sido dado por seu terceiro governo. Ele não sabia. Ao saber, mandou dar tudo.

Preferiu passar por desinformado sobre sua gestão a admitir o que está fazendo.

O preço de nossas escolhas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Os dois candidatos prometem transformar as nossas riquezas naturais em prosperidade

O Brasil está prestes a escolher seu próximo presidente num momento em que a economia mundial se reorganiza em torno de grandes interesses estratégicos. A mídia tem colocado o Brasil como peça importante no tabuleiro de Donald Trump. No ambiente em que os choques econômicos devem continuar ocorrendo, tudo indica que viveremos uma ordem internacional na qual as grandes potências seguirão impondo seus interesses.

O Brasil entra nesse jogo com vantagens consideráveis. Possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, uma matriz elétrica renovável e recursos agrícolas, minerais e energéticos cobiçados internacionalmente. São ativos que podem adquirir ainda mais valor com a transição energética e a expansão das novas tecnologias.

Dois homens unidos pela luta e pelo dia 20 de novembro, por Ivan Alves Filho*

Nascido no distrito de Rio dos Índios, pertencente a Rio Bonito, no atual Estado do Rio de Janeiro, ele deixou a escola aos 15 anos de idade e foi trabalhar como operário gráfico. 

Sua família tinha uma condição financeira razoável, mas ele queria abrir seu próprio caminho. Um dos seus objetivos era aprender por conta própria. E este autodidata, aos 17 anos de idade, já devorava as obras de Machado de Assis, a quem fez uma visita poucas horas antes de morrer, deslocando-se de Niterói até a casa do grande escritor, no Cosme Velho, aprazível bairro do Rio de Janeiro. Euclides da Cunha, comovido pela atitude do jovem, publicou dias depois um artigo, intitulado A última visita, onde apontava que o coração daquele menino batera por “toda uma nacionalidade”. 

Depois, o garoto correu mundo: esteve por seis meses na Europa aos 20 anos de idade e, sem recursos, acabou sendo deportado para o Brasil. Isso se deu por volta de 1910. Vivendo as lutas sociais do seu século, tornou-se anarquista e secretário-geral da Confederação Operária Brasileira. Não tinha completado ainda 23 anos de idade quando isso ocorreu.

Por um pacto democrático pelo não-retrocesso nacional, por Julio Aurelio Lopes*

O resultado eleitoral do primeiro turno presidencial tornou incontestável quão espraiados e intensos são valores preconceituosos no Brasil, à medida que mesmo políticas governamentais distributivas e redistributivas, de evidentes benefícios nacionais (como “pé de meia” estudantil para ensino médio público e isenção tributária até 5 mil reais de renda, dentre outras promoções sociais), não têm sido tanto ou mais valorizadas pela população brasileira do que seu conservadorismo moral, radicalizado à direita nos últimos anos. Desde a emergência do bolsonarismo – confluência carismática historicamente inédita de todas as tendências reacionárias brasileiras tradicionais e novas (latifundiárias, militares, policiais, cristãs, heteronormativas e supremacistas da branquitude e da masculinidade sobre as respectivas feminilidade e negritude, em geral) através de Jair Bolsonaro – conservadores habituais se aproximaram de orientações reacionárias à direita.

Campanha e dívida dos estados: o caso de Minas (I), por Marcus Pestana

Quem acompanhou a campanha eleitoral em Minas Gerais viu o tema da dívida pública estadual ganhar centralidade e ser aventada uma possível renegociação como saída para o grave estrangulamento fiscal e alternativa para o financiamento dos investimentos e das políticas públicas. Decidida a eleição e iniciada a transição governamental, é hora de refinar o diagnóstico, entender melhor o assunto e identificar quais são os verdadeiros gargalos que obstruem a participação mais intensa do governo estadual no processo de desenvolvimento econômico e social de Minas.

A mídia sufoca a liberdade, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O vírus da intolerância midiática se desenvolve rapidamente na estufa da autocomplacência

Os poderosos da Grande Mídia nativa não cobriram, mas encobriram, por todos os meios e modos, a manifestação pró-Lula na Avenida Paulista. Nas tevês, durante a programação noticiosa, o telespectador ficou à mercê do excesso de gesticulação de âncoras e quetais, contorcionismos que denunciavam o mal-estar com a negação dos fatos que ocupavam as ruas. Não raro, os diálogos entre apresentadores e repórteres se encerravam com ataques ao vernáculo: “brigado”.

TSE usurpador, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Kassio Nunes Marques, mergulhado até a cabeça no escândalo Vorcaro, se esforça para transformar o tribunal eleitoral num subcomitê da campanha de Flávio Bolsonaro

O Judiciário brasileiro vive a noite mais trevosa da sua existência. Eivado de denúncias de corrupção, mergulhado em práticas parciais, tomado por vieses político-partidários, enlameado por privilégios e penduricalhos, extraviado em seus procedimentos, incompetente e lerdo nas efetivações processuais, tendencioso contra pobres e negros, tem perdido credibilidade e confiança da sociedade. O envolvimento de ministros do STF com o Master foi a pedra de toque do desprestígio.

Congresso promulga PEC que dá fim à escala 6×1, por Vinícius Nunes

CartaCapital

O presidente Lula, que busca a reeleição, participou da cerimônia

O Congresso Nacional promulgou nesta sexta-feira 16 a emenda constitucional que acaba com a escala 6×1. O texto, que já tinha passado pela Câmara dos Deputados, foi aprovado pelo Senado na quarta-feira 14.

Durante a cerimônia de promulgação, o presidente Lula (PT) defendeu a mudança como forma de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. “Ninguém quer que uma empresa quebre, mas ninguém quer que o trabalhador morra de tanto trabalhar”, afirmou.

Lula argumentou que o descanso é parte fundamental da dignidade dos trabalhadores e questionou as resistências históricas à ampliação de direitos trabalhistas. “Quanto vale mais tempo para descanso? Quanto vale mais tempo com a família? Quanto vale mais tempo para cuidar de si e de quem se ama?”, perguntou.

Kassio veste a camisa, por André Barrocal

CartaCapital

Por razões pessoais e ideológicas, o ministro faz do TSE um puxadinho da campanha de Flávio Bolsonaro

Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, tem sido parcial a favor de Flávio Bolsonaro, e o caso do canal de WhatsApp “Exército do Lula” é o capítulo mais gritante dos últimos dias. Por que age assim? Um colega de Supremo Tribunal Federal apontava, há meses, a boa e velha ânsia de poder. A vitória do senador dará a Nunes Marques uma influência na nomea­ção para cargos no Judiciário que ele não tem com Lula. Pode até assumir as rédeas do STF antes do previsto, em setembro do próximo ano. Alexandre de Moraes está com a cabeça a prêmio, graças à bancada bolsonarista eleita para o Senado, a casa legislativa autorizada a cassar juízes. O comandante do Supremo é escolhido por rodízio entre seus integrantes, em ordem de antiguidade. Indicado à Corte em 2017 por Michel Temer, Moraes é o próximo da fila, após Edson Fachin, atual timoneiro. Depois vem Nunes Marques, alçado ao tribunal em 2020 pelo pai de Flávio. “Ele está sendo leal a quem o nomeou. Sua atuação é partidarizada e desequilibra a eleição”, diz o senador petista Randolfe Rodrigues, líder de Lula no Congresso.

Levante estudantil, por João Victor Sampaio e Kamille Soumaili

CartaCapital

Universitários de todo o País se unem contra a ameaça bolsonarista e comandam a onda vermelha

Depois de um primeiro turno apático e do susto causado pela vitória de Flávio Bolsonaro no domingo 4, a esquerda brasileira iniciou uma mobilização urgente e intensa em busca da virada de Lula puxada principalmente pela juventude e pelo movimento estudantil. Enquanto a campanha do presidente apostava nas redes sociais se aproximando de figuras jovens recém-eleitas, como Guilherme Cortez, do PSOL, e as petistas Ana Elisa e Luna ­Zarattini, os estudantes já tomavam as ruas. Na segunda-feira à noite, alunos da Universidade Federal Fluminense saíram do campus de Gragoatá e atravessaram Niterói com faixas, cartazes e palavras de ordem a favor do presidente. Na terça, foi a vez de a União Nacional dos Estudantes lançar a campanha “Estudantes com Lula”, em que convocava as entidades estudantis a se organizar e construir focos de mobilização pela reeleição dentro e fora das universidades. No mesmo dia, já circulava a confirmação de 40 atos em 14 estados e no Distrito Federal. Em nota, a instituição relembrou os esforços dos universitários no enfrentamento à ditadura empresarial-militar e ressaltou ainda que Flávio Bolsonaro “representa um campo político que, quando no poder, exterminou as perspectivas de futuro e mudança do povo brasileiro”. Em entrevista a CartaCapital, a presidenta da UNE, Bianca Borges, reforça a importância histórica da mobilização: “Quando lembramos que a nossa sede foi incendiada depois do golpe de 1964, que a entidade foi colocada na ilegalidade, que estudantes foram presos, torturados e assassinados, e que, mesmo assim, o movimento estudantil continuou se organizando, estamos falando sobre escolhas feitas por jovens que tinham praticamente a mesma idade dos estudantes que hoje estão dentro das universidades”.

Poesia | Orquídea Negra, de Paulo Campos por Paula Campos

 

Lígia - Tom Jobim

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Oportunismo de Flávio se une ao de Lula contra a 6x1

Por Folha de S. Paulo

PEC tem votação acachapante no Senado sem consenso político; pressa eleitoreira prejudicou debate

Não é segredo que o PL, que ampliou sua bancada no pleito deste ano, articula um projeto alternativo, que permitiria uma jornada flexível

A proposta de emenda constitucional que elimina a escala de trabalho 6x1 foi aprovada pelo Senado com votação acachapante de 75 votos favoráveis e apenas um contrário. O placar, no entanto, está longe de espelhar um consenso político em torno da medida.

O que sobrou no plenário foi oportunismo eleitoreiro —e ao do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), patrocinador da PEC no último ano do mandato presidencial, somou-se o da oposição temerosa de perder apoios, a começar por Flávio Bolsonaro (PL).

Lula toma a iniciativa na segurança, mas a disputa é na praia de Flávio, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, mais de 110 por dia. A queda em relação ao ano anterior é relevante, mas não elimina a gravidade desse cenário

Desde a Constituinte de 1988, o Brasil tem dificuldade para resolver uma equação central da segurança pública: como assegurar a coordenação nacional do combate ao crime sem atropelar a autonomia dos estados, responsáveis pelo policiamento cotidiano. Devido ao trauma do regime militar, a Constituição consagrou direitos e garantias, mas preservou uma estrutura policial fragmentada. A democratização avançou mais na definição dos limites do poder do que na construção de uma capacidade integrada de enfrentar a criminalidade.

Fortalecer, e não reduzir a democracia, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Os resultados das eleições presidenciais de 2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático estabelecido pela Constituição de 1988 e quem aposta na destruição de seu legado

Um paradoxo marca a disputa presidencial de 2026: no primeiro turno, predominou um clima de insatisfação e desânimo entre os eleitores, o que agora é contrabalançado no segundo turno pela enorme mobilização nas ruas e nas redes sociais. Ambos os sentimentos são expressão dos avanços democráticos do país e seus limites. O voto e a participação popular continuam muito relevantes, mas há pontos problemáticos nas instituições e um medo de retrocesso democrático. O que está em jogo é como fortalecer e melhorar a democracia brasileira.

O Brasil não tem tradição democrática forte em sua história. Ao contrário, foram predominantes o autoritarismo e formas oligárquicas, com exclusão de muitos atores da participação política plena e acesso privilegiado ao poder para determinadas elites. Somente a partir da redemocratização que depôs o regime militar e, mais ainda, com a promulgação da Constituição de 1988 é que a democracia se tornou o eixo central da política brasileira.

A dupla cara do futuro, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral

De repente, o surpreendente resultado das eleições do chamado primeiro turno revela aquilo que o bolsonarismo e a direita não são nem aquilo que as esquerdas e o PT tampouco são. O processo político brasileiro, há muito, se desenrola fora do âmbito do racional e do compreensível e longe do que é propriamente político e a política.

Sem substância teórica e doutrinária e, portanto, sem competência para se propor como protagonista legítima do processo histórico brasileiro, a direita finge. Tanto finge o que é quanto o que não é.

Utilizando os meios técnicos abundantes e fáceis de manipulação das vontades, a direita conseguiu resultados espetaculares do ponto de vista numérico. Pessoas inexpressivas e até desconhecidas do eleitor tradicional obtiveram votações muito acima do que é numericamente normal num país como o Brasil.