sábado, 31 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo finge que cumpriu a meta fiscal de 2025

Por O Globo

Déficit dentro do limite tolerado pelo arcabouço só foi possível pela exclusão de R$ 49 bilhões em gastos do cálculo

Na ficção criada e disseminada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a gestão das contas públicas cumpre as metas fiscais estabelecidas, rumo à estabilidade da trajetória da dívida. Para o governo, o rombo de 2025 divulgado pelo Tesouro Nacional na quinta-feira, de R$ 13 bilhões, deu a sensação de dever cumprido. Pelas regras do arcabouço fiscal, o objetivo para 2025 era perseguir déficit zero, com margem de tolerância de 0,25% do PIB para mais ou para menos. Na prática, isso permitia um déficit de até R$ 32 bilhões. Na versão do governo, portanto, o resultado negativo de R$ 13 bilhões deveria ser motivo de comemoração.

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse estar satisfeito: “É o segundo ano consecutivo [de déficit] abaixo de 0,5% do PIB. Você não tem um resultado desses acumulado na década. Considero o resultado do ano muito satisfatório com todos os desafios apresentados. Não há uma piora”.

Esfera pública com pouca potência democrática. Por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa ‘opinião pública’

Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O Supremo Tribunal Federal (STF) está dividido e perdendo credibilidade.

O que chama a atenção é que a esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”.

Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (Mudança estrutural na esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas.

Como seria o Brasil sem os otimistas? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O que ora nos importa é perscrutar o passado recente para tentar entender como nos enredamos no atual lamaceiro

Há quem pense que o Brasil já entrou nos eixos; que vamos bem apesar da economia estagnada e de nossa incapacidade de identificar um candidato plausível para suceder a Lula nas eleições deste ano.

É ótimo que alguns pensem assim; otimistas sempre ajudam a aliviar o ambiente. Melhor ainda seria se conservassem alguma preocupação em compreender como chegamos ao paradeiro em que há tempos nos encontramos.

Sobre a economia, não há muito a dizer. Sabemos todos que um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo a pífios dois por cento ao ano não chegará a bom porto. Isso não significa que toda a economia esteja parada. A agricultura, que o renomado economista Celso Furtado via como um peso morto em nossa sociedade, é hoje, por meio do agronegócio, o baluarte de defesa de nossas contas externas. Veja-se o cultivo de frutas. O abacate, na região de Campinas, e as mangas nobres, na fronteira de Minas Gerais com a Bahia, são grandes exportadores mundiais.

Os fundamentos de Dias Toffoli. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Dias Toffoli, anulador-geral da República (do Império), está preocupado em evitar nulidades processuais. Preocupemo-nos também. Ele se manifestou sobre seus atos à frente do caso Master. Explicou-se. Explicou-se sobre o que poderia explicar; sobre o que seria explicável.

Há o não explicado. O que importa – inexplicável: que ainda seja relator em investigação que tem como um dos objetos o ex-sócio de seus irmãos. Edson Fachin diria – com razão – que isso se trata de matéria não jurisdicional; o fato de os irmãos do ministro terem sido sócios de fundos fornecedores da transfusão artificial de liquidez para o Master.

Sai Tarcísio, entra Ratinho Junior. Por Thaís Oyama

O Globo

Para Kassab, o governador do Paraná, comparado a Leite e Caiado, é quem melhor enverga o figurino da centro-direita

Desanuvia-se aos poucos o horizonte das eleições presidenciais. Tarcísio de Freitas, com sua primeira visita a Jair Bolsonaro desde que o ex-presidente ungiu o filho, selou apoio à candidatura Flávio Bolsonaro e afastou a sua própria do páreo. Abriu, assim, espaço na disputa a um terceiro nome. O governador do Paraná, Ratinho Junior, é hoje o mais provável.

Desde sempre o preferido de Gilberto Kassab para candidato do PSD à Presidência caso Tarcísio decidisse pela reeleição, Ratinho Junior ganhou, nesta semana, a companhia do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, no rol de presidenciáveis da sigla. A lista já comportava o também governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

É racismo, sem eufemismo. Por Flávia Oliveira

O Globo

Ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em votação simbólica, em dezembro, legislação que proíbe a aplicação de cotas raciais para ingresso em universidades estaduais e entidades de ensino que recebam recursos do governo catarinense. A casa, formada por 40 deputados, não indicou no painel do plenário quantos deputados votaram a favor, contra ou não se posicionaram sobre o projeto de um parlamentar do PL, posteriormente sancionado pelo governador. Pelo que declararam os próprios deputados, sete integrantes da Casa foram contrários ao texto que, ora judicializado no próprio estado e no Supremo Tribunal Federal (STF), suprime a reserva de vagas para pretos e pardos, mas a mantém para alunos oriundos de escolas públicas, de baixa renda e portadores de deficiência.

Réquiem por um cão. Por Eduardo Affonso

O Globo

Perdoe-os, Orelha. Os monstros da Praia Brava nunca leram Graciliano Ramos. Não choraram por Baleia

Já nos encontramos centenas de vezes, Orelha. Você vagando, coberto de sarna, costelas à mostra, nas ruas de Viçosa (onde há uma Faculdade de Veterinária que o poderia acolher e cuidar — e não acolhe).

Estivemos juntos na Vila do Abraão, na Ilha Grande, na longínqua década de 1970, lembra? Você passou as noites ao lado da barraca — não sei se nos protegendo, se pedindo proteção. Você, então, se chamava Sansão.

Vejo-o a cada manhã. Minha primeira visão do mundo é — cabecinha no travesseiro ao lado do meu — a Duda, encontrada há alguns anos numa caixa de papelão (pele, osso e vermes), numa calçada do Catete.

Vemo-nos em todas as cidades do país, nos postos de gasolina, na soleira dos botequins. Raspas e restos — de comida, de afeto — lhe interessam.

O recado de Vorcaro no STF. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Para uma instituição do porte do Master, R$ 4 milhões é praticamente zero, quase uma fatura mensal do cartão de crédito do ex-banqueiro

Caixa zerado revela que o banco já não tinha a menor condição de funcionar

Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa no dia em que o Banco Central decretou a sua liquidação. É quase uma fatura mensal do cartão de crédito de Daniel Vorcaro no pico da sua vida de ostentação e luxo, com a qual conseguiu atrair para o seu satélite autoridades e políticos.

De mãos dadas com o trambique. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O nepotismo das emendas família lembra a atuação de parentes de ministros na corte

Inquérito contra Vorcaro revela conexões perigosas com deputados, senadores e magistrados

Os embates entre Executivo, Legislativo e Judiciário não vêm de hoje, basta lembrar a tentativa de golpe. Marcaram o ano de 2025, deixando a impressão de que não haverá trégua no curto prazo. Erros e excessos se avolumam, e outra batalha institucional se desenha no horizonte.

Lula e Trump, diálogo imprevisto. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Lula fará uma visita de Estado a Washington em março. Esse é o mais importante sinal de que a diplomacia brasileira está trabalhando bem para tourear Donald Trump

Há algum tempo, tenho alertado o leitor para o fato de que o candidato da oposição à Presidência da República deve ser Carlos Massa, o Ratinho Junior, governador do Paraná. Ele, com 44 anos, é muito bem avaliado em seu estado, trabalha com ideias e práticas liberais. Trata-se da alternativa natural a Tarcísio de Freitas. O Governador de São Paulo prefere se candidatar à reeleição para continuar no Palácio dos Bandeirantes. É mais fácil, mais simples e dispensa a companhia dos bolsonaros, que significam demandas, queixas, pequenas intrigas e denúncias de corrupção. Ele prefere se resguardar para 2030.

Em ano de Copa, a política fiscal vai jogar por um empate. Por Marcus Pestana

Sendo um ano em que ocorrerão eleições nacionais gerais, é de se esperar um foco da gestão fiscal no controle sintonia fina sobre as receitas e despesas previstas no Orçamento. Monitorando o comportamento das principais variáveis, contornando riscos e ameaças, perseguindo objetivos menos ambiciosos do que seria o ideal para o país, endereçando a necessária reforma fiscal para 2027.

Ou seja, nenhuma medida heroica ou radical deverá ser proposta. Nem no aumento de tributos, no corte de gastos. Até mesmo em função das dificuldades de se obter apoio parlamentar para medidas mais ousadas em ano eleitoral. O objetivo a ser perseguido é o cumprimento da meta de resultado primário prevista, utilizando os descontos legais permitidos e mirando o limite inferior da margem de tolerância, zerando o déficit primário, em 2026 depois de doze anos de sucessivos déficits.

A tragédia da base na educação. Por Cristovam Buarque

Veja

Não dá para construir uma casa sem antes ter alicerces sólidos

Na semana passada, o país se assustou ao saber que uma avaliação do MEC reprovou mais de 100 faculdades de medicina. Se os mesmos critérios fossem aplicados aos demais cursos do ensino superior, inclusive enfermagem, o número de reprovados seria ainda maior. Embora sirva de alerta, essa avaliação só produzirá resultados se for usada para compreender as origens do problema.

A falência tem sete causas principais. A primeira é a tradição de adotar o diploma universitário como título de nobreza, símbolo de status social: “doutor” substituiu conde, barão e duque. A segunda causa decorre da ideia de que, em uma República, todos têm direito ao título de nobreza. No lugar do direito a uma educação básica de máxima qualidade, optamos pela promessa de “universidade para todos” —, ignorando dezenas de milhões de analfabetos e sem ensino médio. A terceira causa é a adoção do ensino superior como prolongamento da escolaridade, para compensar o descuido com a educação de base. Para aqueles que continuaram condenados a escolas deficientes, os governos criaram mecanismos para abrir as portas das universidades.

Mão amiga. Por André Barrocal

CartaCapital

O governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master

Daniel Vorcaro, dono do finado Banco ­Master, esteve com o presidente Lula no Palácio do Planalto no fim de 2024, levado por Guido Mantega, ministro da Fazenda no segundo mandato do petista e, à época da reunião, consultor da instituição financeira. Buscava apresentar ao governo federal sua versão sobre o que considerava uma perseguição de rivais poderosos no sistema financeiro. Em vão. Sob a batuta de ­Gabriel ­Galípolo, indicado por Lula, o Banco Central fechou o Master em novembro passado. Ricardo Lewandowski também havia se tornado consultor de Vorcaro­ depois de deixar o Supremo Tribunal Federal em 2023. O presidente sabia do contrato ao nomeá-lo ministro da Justiça. Se o banqueiro esperava ter no ex-juiz um defensor no governo, equivocou-se. Com Lewandowski na Justiça, o mineiro foi preso pela Polícia Federal em novembro, durante a Operação Compliance ­Zero, que investiga o banco. Tanto Mantega quanto Lewandowski tornaram-se consultores do Master por sugestão do líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, amigo de um conterrâneo e ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima.

O Código do Judiciário. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A democracia não vai sobreviver se o Poder Judiciário afundar sua reputação no lodaçal do narcisismo

O atual presidente do STF, ministro Edson Fachin, sugeriu a elaboração de um Código de Conduta para disciplinar o comportamento de magistrados em todas as instâncias do Poder Judiciário.

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Esse poder da República resistiu bravamente às incursões do totalitarismo bolsonarista.

Há que se considerar que a regra da separação e do equilíbrio harmônico dos poderes não pode ser substituída pela autonomização dos Poderes da República, ao se apresentarem uns diante dos outros como poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas. A democracia não vai sobreviver se o Poder Judiciário afundar sua ­reputação no lodaçal do narcisismo.

Ouvidos para quê? Por Maria Rita Kehl

CartaCapital  

Bolsonaro quase cumpriu a promessa de acabar com a democracia. Por que tantos brasileiros ignoraram – ou fingiram ignorar – essa ameaça?

Caros leitores, pela primeira vez uso este espaço para recomendar um livro: Arquitetura da Destruição: Um Diário da Era Bolsonaro, do Palanque à Condenação (Ed. ­Autêntica), de Bernardo Mello Franco. A obra reúne análises escritas pelo jornalista no calor dos acontecimentos e publicadas nas páginas do jornal O ­Globo. Reunidas em volume, essas colunas adquirem, como observa a historiadora Heloisa Starling no prefácio, a dimensão de um poderoso testemunho sobre a trajetória do homem que prometeu acabar com a democracia brasileira – e quase cumpriu a promessa.

Trumpismo. Por Pedro Serrano

CartaCapital

Estamos diante da ascensão de uma nova extrema-direita dotada de elevadíssimo potencial autoritário, assim como a clássica extrema-direita nazifascista, mas com novas vestes e novo instrumental

As formas de autoritarismo do século XXI possuem determinadas especificidades quando comparadas àquelas do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um estado de exceção em sua acepção clássica para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção. Em outras palavras, utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

O butim dos piratas. Por Jamil Chade

CartaCapital

A Casa Branca escolhe a contestada Trafigura para comercializar o petróleo “confiscado” do país caribenho

Uma empresa na Suíça envolvida em escândalos, uma conta obscura no Catar, acordos pouco transparentes e uma receita administrada integralmente pela Casa Branca. Desde o sequestro de Nicolás Maduro, um dos elementos mais delicados do novo controle dos Estados Unidos sobre a Venezuela passou a ser o destino do petróleo do país. Oficialmente, o governo de ­Donald Trump anunciou a interrupção e o confisco das vendas “clandestinas” de óleo e prometeu que, a partir de agora, as exportações do combustível iriam “beneficiar” o povo venezuelano e o norte-americano. Bravata. O que está em curso mais se parece, porém, com pirataria, com a gestão por tempo “indefinido” dos recursos da nação caribenha nas mãos do republicano, conforme as explicações do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.

A importância silenciosa, mas decisiva, do Presidente da República. Por Filipe Lobo d'Ávila*

Expresso(Portugal)

*Advogado, antigo vice-presidente do CDS

A história recente mostra que, em momentos de bloqueio, a intervenção presidencial foi determinante para devolver clareza ao sistema político ou, quando mal-usada, para acentuar crises democráticas. Esta magistratura de influência é um poder que exige coragem, ponderação e sobretudo exige sentido de responsabilidade

Num país habituado a olhar para o Governo como o centro da ação política, é fácil subestimar o papel do Presidente da República. No entanto, a estabilidade democrática portuguesa depende, em grande medida, da forma como o Presidente exerce os seus poderes - discretos na aparência, mas profundos no exemplo e nas consequências.

A importância do cargo não se mede pelo número de decisões diárias, mas pela capacidade de intervir nos momentos em que o país mais precisa de equilíbrio, prudência e visão institucional.

Poesia | O mundo é grande, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Beth Carvalho - Meu Lugar

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC faz o certo com sindicância interna sobre caso Master

Por Folha de S. Paulo

Órgão apura eventuais falhas na supervisão que facilitaram a fraude que já deixa custos acima de R$ 50 bi

Diante de sinais de risco perceptíveis, tudo indica que o BC tardou em agir; regulação do sistema deve se modernizar, diante de inovações

É oportuna a instauração de sindicância interna pelo Banco Central para revisar o processo de fiscalização e liquidação extrajudicial do Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro e liquidada em novembro de 2025 com evidências de fraude bilionária investigadas pela Polícia Federal.

A iniciativa, conduzida pela corregedoria do órgão, teve início no mesmo novembro. O objetivo é identificar eventuais falhas na supervisão —a demora em prevenir um rombo que já supera R$ 50 bilhões, valor a ser arcado principalmente pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e a cronologia das decisões sobre as negociações para a venda do Master ao BRB e da liquidação.

O privilégio da leitura na prisão. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e a direito. É necessário ter um programa de leitura

Foi uma surpresa a notícia de que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria manifestado interesse no programa de estímulo à leitura na prisão. Com isso, ele teria a possibilidade de diminuir a pena que lhe tocou na condenação do STF. Pessoalmente, vejo mais do que o que poderia ser tomado como egoísmo do preso. Ninguém sai ileso da leitura de um livro. Senti-me, por isso, tentado a fazer-lhe algumas sugestões de leitura.

Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e direito. É necessário ter um programa de leitura, ter alguma ideia e alguma curiosidade sobre temas, autores e livros. Ouso, portanto, fazer-lhe algumas sugestões às quais outros cidadãos poderão agregar as suas.

Antes de tudo, escândalo do Banco Master é um caso de polícia. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O banqueiro Daniel Vorcaro é apontado pela Polícia Federal como líder de uma organização criminosa estruturada para atuar contra o sistema financeiro e patrimônio público e privado

A politização do caso do Banco Master, que mudou seu eixo para disputas institucionais, alegações de perseguição ou conflitos entre Poderes, é uma estratégia de defesa dos envolvidos que tem certa eficácia nos tribunais superiores do país, como um dos efeitos colaterais da chamada “judicialização da política”, protagonizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Entretanto, já não é possível volatilizar o ponto central evidenciado pelas investigações: o que está em apuração são crimes tipificados na legislação penal e financeira brasileira, com indícios relevantes de violação ao Sistema Financeiro Nacional e de lesão direta ao patrimônio público e privado.

Brasil vive uma epidemia. Por Orlando Thomé Cordeiro

Correio Braziliense

Brasil enfrenta uma enxurrada de feminicídios e e país que mais mata pessoas trans e travestis. Há um traço comum aos dois tipos de crime: o ódio decorrente dos preconceitos e conservadorismo

Um dia

Vivi a ilusão de que ser homem bastaria

Que o mundo masculino tudo me daria

Do que eu quisesse ter

Que nada

Minha porção mulher que até então se resguardara

É a porção melhor que trago em mim agora

É o que me faz viver

Quem dera

Pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera

Ser o verão o apogeu da primavera

E só por ela ser

Quem sabe

O super-homem venha nos restituir a glória

Mudando como um Deus o curso da história

Por causa da mulher

A música acima é Super-Homem,  composta por Gilberto Gil em 1979. Caetano Veloso tinha acabado de voltar do cinema com Dedé Gadelha (sua esposa na época) e relatou para Gil que ficara impressionado com a cena em que a namorada do Super-Homem, Lois Lane, morre, e ele volta no tempo para salvá-la. A descrição, destacando o esforço de amor e a fragilidade do herói, foi de tal maneira intensa que Gil se sentiu profundamente tocado e compôs a música.

Tempo do "JÁ!" voa… Por José Sarney

Correio Braziliense

Temos a sensação de que o tempo está voando. Mas ainda existem os que querem o imediatismo do JÁ!

Vivemos atualmente com uma nova percepção sobre o tempo. Creio que os físicos encontrarão uma teoria sobre a sua compressão, porque temos a sensação de que o tempo está voando. Mas ainda existem os que querem o imediatismo do JÁ! 

O desenvolvimento do corpo humano, na evolução biológica desde os primórdios da criação, continua no mesmo ritmo, mas estamos vivendo agora o que jamais foi pensado, com a internet e a civilização digital, que estão aí para ficar e modificar o modo de pensar numa velocidade inacreditável, com a IA (inteligência artificial) e as redes sociais.

Banco Master nas eleições. Por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

As autoridades máximas da Justiça, com seu discurso de negação das críticas, podem estar nos empurrando para dias difíceis, um quadro oposto à democracia que afirmam defender

O ano eleitoral começa com um escândalo. Deve avançar nos próximos meses, mas não creio que possa influenciar a escolha presidencial. Mas isso não significa que é irrelevante. O escândalo atinge, de certa forma, o Supremo Tribunal Federal (STF). Na verdade, em termos populares, tanto o contrato da mulher de Alexandre de Moraes como a controvertida relatoria de Dias Toffoli são temas muito discutidos. As notas de Edson Fachin, alguns posts de Gilmar Mendes e a própria posição do procurador-geral indicam que Toffoli está blindado. A tendência, portanto, é de crescer a desconfiança em relação aos ministros, na medida em que avança o caso do Banco Master.

Covardia e realidade. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A tortura e morte do cão Orelha e a responsabilidade de pais, escola, Estado, redes e plataformas

A tortura e morte do Cão Orelha, que trazia alegria a uma comunidade e nunca fizera mal a ninguém, traz uma série de questões para o debate nacional: a responsabilidade dos pais, a educação nas escolas, a influência da internet nas crianças e adolescentes, o exemplo que vem dos Poderes e autoridades e o papel da Justiça num País cujo principal e mais doloroso problema é a desigualdade social.

Como se sentem as famílias que acolheram e cuidaram do Orelha, entre outros cães comunitários? Indignadas e confiantes na Justiça e na punição daqueles capazes de cometer uma atrocidade dessas? Ou com medo, impotentes, descrentes das devidas punições? E se os suspeitos fossem pretos, pobres, da própria comunidade?

O paradoxo da tal terceira via. Por Vera Magalhães

O Globo

Eleitor se diz cansado da polarização, mas não vê alguém capaz de fazê-lo dar um voto de confiança na mudança e acaba votando no que lhe parece menos pior

Terceira via é uma expressão candidatíssima a disputar o pódio das mais desgastadas e desmoralizadas do léxico da política brasileira. A última vez em que bateu na trave a possibilidade de uma candidatura nascer pequena e abalar a polarização foi em 2014, quando Marina Silva ascendeu na esteira da morte trágica de Eduardo Campos e teve chance real de ir ao segundo turno, até ser abatida por um ataque pesado do PT, principalmente, mas também do PSDB de Aécio Neves, em menor grau.

A trinca de Kassab. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Enquanto ensaia voo solo, ex-prefeito mantém cargos nos governos Lula e Tarcísio

“O PSD terá candidato à Presidência da República. É uma decisão irreversível.” As frases foram recitadas por Gilberto Kassab às vésperas da eleição de 2022. Pouco depois, ele reverteu a decisão e declarou “neutralidade” na disputa.

Passados quatro anos, Kassab ensaia o mesmo jogo. Nesta semana, ele anunciou que o PSD lançará um presidenciável em abril. Informou que o escolhido sairá de uma “trinca de ouro”, integrada por Ratinho Júnior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.

Os governadores do Paraná e do Rio Grande do Sul já figuravam como pré-candidatos da sigla. A novidade é o goiano Ronaldo Caiado, recém-saído do União Brasil. Veterano da turma, o homem do cavalo branco já concorreu à Presidência em 1989. Terminou em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Cotas merecem defesa, não blindagem. Por Pablo Ortellado

O Globo

O debate não se esgotou com o consenso no final dos anos 2000, nem deve ser interditado por desqualificações morais

Nos últimos dez anos, muitos livros tentaram explicar a onda populista. “O povo contra a democracia”, de Yascha Mounk (Companhia das Letras), foi um dos primeiros e continua entre os mais importantes. O diagnóstico que apresenta nos ajuda a entender o debate político em torno da lei catarinense que proibiu as cotas raciais no estado.

Aviso dos riscos de rolo em 2026. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Mesmo com Trump e medo de bolhas, cenários do establishment para 2026 são risonhos

'Bela armada' dos EUA está pronta para atacar aiatolás; valor da Microsoft cai US$ 360 bilhões

Os chutes informados para a economia mundial no ano de 2026 parecem risonhos, ao menos no universo de bancões, consultorias e até de centros de estudos estratégicos. Na média e na mediana, parecem assim.

Não raro, dá tudo errado. Ruídos recente no concerto do otimismo nos lembram motivos possíveis de rolo, que acabam por enrolar o Brasil, alerta também para os animados do "Ibovespa 200 mil" (ou mais).

Trabalho volta ao centro do projeto nacional de desenvolvimento. Luiz Marinho

Folha de S. Paulo

Perspectiva é de mais avanços no emprego formal, apoiado em valorização da renda e retomada de investimentos

Mais do que quantidade, houve avanços na qualidade do emprego, com aumento da formalização e maior inclusão

O ano de 2025 consolidou a reconstrução institucional do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e reafirmou uma escolha política central: recolocar o trabalho no coração do projeto nacional de desenvolvimento. Após um período de esvaziamento das políticas trabalhistas, o Brasil voltou a combinar resultados expressivos no mercado de trabalho com uma agenda voltada à ampliação de oportunidades, à melhoria da qualidade do emprego e à redução das desigualdades.

Os indicadores sintetizam essa inflexão histórica. Em 2025, o país atingiu a menor taxa de desemprego da série iniciada em 2012, com cerca de 5,9 milhões de pessoas desocupadas, o menor contingente já registrado. A população ocupada alcançou 102,6 milhões de trabalhadores, o maior patamar da história, evidenciando a expansão consistente da participação no mercado de trabalho.

Tolerância com Trump saiu caro. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Segundo mandato do americano é muito mais radical que o primeiro

Inércia das instituições lhe ensinou que ele poderia fazer o que quisesse

O homem é o mesmo, mas a diferença entre o Donald Trump do primeiro mandato e o do segundo é abissal. Os desatinos da primeira administração, que não foram poucos, ainda podiam ser interpretados como um acidente de percurso, consequência de um resultado eleitoral que surpreendeu não apenas os desavisados eleitores americanos como o próprio Trump, que entrara na disputa com baixas expectativas.

Kassab joga hoje de olho no amanhã. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Presidente do PSD acumula forças para ocupar lugar de destaque nas negociações do processo eleitoral

Ideia é abrir espaço de interlocução na centro-direita como alternativa às lideranças de Lula e Bolsonaro

Interessante, mas ainda confuso, o jogo da oposição para a eleição presidencial. Já deu para entender que a dispersão de candidaturas empurra a decisão para o segundo turno.

Até aí, nada de novo. Se já seria quase impossível Luiz Inácio da Silva (PT) levar a reeleição no primeiro, muito mais improvável que isso aconteça num cenário diversificado, com o eleitorado dividido em várias opções.

Pé frio de Trump. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

É como se a Groenlândia se despejasse sobre os EUA, provocando o pior inverno do século

No Brasil, os bolsonaristas levam um balde de gelo com a nova intimidade entre Trump e Lula

Parece castigo divino. Justamente quando Donald Trump ameaça falir o planeta se a Dinamarca não lhe der a Groenlândia, o caos ambiental —no qual ele não acredita e favorece com suas medidas de fim do mundo— castiga os EUA com o pior inverno dos últimos 40 anos: nevascas brutais, cidades a 30° abaixo de zero, mortes por hipotermia, comércio, indústria e transportes parados e vida impossível fora de casa.

E, portanto, se move. Por Ivan Alves

Tenho publicado textos sobre a realidade política brasileira há algum tempo, insistindo, muito particularmente, em dois pontos, a saber: de um lado, defendo a necessidade de uma Frente Ampla para superarmos os atuais impasses político-institucionais vividos pelo nosso país.; de outro, venho apontando para a urgência de nos dotarmos de um projeto de nação. Na prática, é preciso refundar o Brasil, tomando por ponto de partida todo um conjunto de reformas de estrutura. 

Poesia | Revolta, de Guimarães Rosa

 

Música | Aldemar Paiva - Saudade

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master exige melhora de normas republicanas

Por Folha de S. Paulo

Autoridades não deveriam manter encontros fora da agenda, como fez Lula com Vorcaro

É preciso rever quarentenas, regular contratações de advogados parentes, dar transparência ao lobby e instituir código de ética no STF

Impressiona no caso Master a extensão da rede de pessoas importantes que o banco influenciou ou tentou influenciar. Os tentáculos da empresa de Daniel Vorcaro se espalham pelos Três Poderes e não conhecem barreiras geográficas.

O banqueiro mineiro buscava aproximar-se de autoridades dos mais diversos calibres. Revelou-se agora que Vorcaro foi recebido pelo próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa audiência sem registro oficial em fins de 2024.

Caiado, Leite ou Ratinho: qual será a cara do candidato da terceira via? Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A decisão não será apenas sobre quem tem mais potenciais, o que pode se aferir com pesquisas, mas também sobre o projeto de centro-direita que o PSD quer representar

A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD de Gilberto Kassab introduziu um fato novo no tabuleiro eleitoral de 2026. Ao deixar o União Brasil por falta de legenda para disputar a Presidência, Caiado reforçou a disposição do PSD de apresentar uma candidatura própria ao Planalto, colocando o partido no centro do debate sobre a chamada “terceira via”, em oposição tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com isso, o PSD passa a reunir três governadores presidenciáveis que estão no segundo mandato, ou seja, que não podem concorrer à reeleição: Caiado; Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul; Ratinho Junior, do Paraná, cujos perfis políticos e trajetórias eleitorais são bastante distintos.