domingo, 2 de agosto de 2026

Opinião do dia: Manuel Castells*

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

*Manuel Castells, sociólogo espanhol. “Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Deterioração das estatais agrava crise fiscal

Por O Globo

No atual mandato de Lula, elas têm passado a representar custo cada vez maior aos cofres públicos

É preocupante a corrosão da saúde financeira das empresas estatais. O último relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, constatou deterioração no resultado das empresas federais ao longo dos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, o resultado financeiro primário consolidado passou de um superávit equivalente a 0,2% do PIB para um déficit de 0,07%. A situação se agravou durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o saldo no início do mandato ainda era positivo, em 0,06% do PIB.

Desafios internos e externos ameaçam projeto de reeleição de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O petista enfrenta problemas internos que não conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica na América do Sul e pela interferência direta de Trump

“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar este país. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para manter a democracia”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num misto de voluntarismo e soberba, às vésperas da convenção do PT, em São Bernardo do Campo, neste domingo.

Não se poderia esperar algo muito diferente de quem precisa mobilizar os militantes e aliados para uma eleição difícil. A declaração revela a estratégia de formar um movimento democrático e nacionalista capaz de garantir sua reeleição. O desafio, porém, não se limita a reunir a esquerda: Lula precisa conquistar os eleitores de centro e atrair setores das elites comprometidos com a democracia.

O futuro em jogo, por Merval Pereira

O Globo

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público.

Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde 1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou claramente dividido.

A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.

O tira-teima de Lula, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Petista larga como favorito à reeleição, mas não tem folga que esperava nas pesquisas

Luiz Inácio Lula da Silva lança hoje sua sétima campanha à Presidência. Será um tira-teima com a História. O petista foi derrotado nas primeiras três tentativas de chegar ao Planalto, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as outras três, em 2002, 2006 e 2022.

Aos 80 anos, o candidato à reeleição lembra pouco o metalúrgico que enfrentou Fernando Collor no início da Nova República. O Lula de 1989 falava em enfrentar a classe dominante e criar condições para o socialismo. O de 2026 promete estabilidade, temperança e defesa das instituições.

O petista já havia vestido o figurino “paz e amor” nas três campanhas vitoriosas. Agora também se apresenta como antídoto ao radicalismo e ao golpismo. “Não vou deixar a extrema direita voltar”, prometeu, na quinta-feira.

A violência como projeto, por Míriam Leitão

O Globo

É importante entender que cada ato de violência política contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso

A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.

Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.

A luta de Heleno Fragoso, por Elio Gaspari

O Globo

Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos

Vem aí um grande livro. Será lançado no dia 26 uma reedição de “Advocacia da liberdade — A defesa dos processos políticos”, do criminalista Heleno Fragoso (1926-1985). Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de presos políticos.

Preso em um arrastão intimidatório em 1970, Heleno Fragoso contou alguns de seus casos. Defendia presos num regime que não tinha habeas corpus e que casos políticos eram julgados em tribunais militares.

Passados quase 50 anos, é emblemática sua defesa dos dirigentes dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo (Lula) e Santo André (Benedito Marcilio) e de outros 11 sindicalistas pela deflagração da greve de 1980. Ela durou 41 dias e Lula passou 31 dias na cadeia. Fragoso entrou nesse caso em sua reta final. Julgados no ano seguinte, quatro dirigentes foram condenados a 3 anos e 6 meses, com direito a recorrer em liberdade. O primeiro julgamento foi anulado no Superior Tribunal Militar e, em 1982, veio outro. Fragoso e os demais advogados sustentavam que a Justiça Militar era incompetente para julgar grevistas. Prevaleceram.

Extrema direita usa medo como arma, por Dorrit Harazim

O Globo

Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os EUA serão Ceuta se os democratas vencerem em 2028

Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.

O maior mistério da eleição de 2026, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Neutralidade’ do Centrão custa caro; quem dá mais, o presidente Lula ou Flávio Bolsonaro?

Toda eleição tem lá seus mistérios e o maior de todos em 2026 é a conversa (ou conversas) entre o presidente Lula e o senador Ciro Nogueira, que deu uma cambalhota e tirou o PP e o próprio Centrão da candidatura de Flávio Bolsonaro e empurrou para o que chamam de “neutralidade”. Depois da reaproximação de Lula e Nogueira, a eleição nunca mais foi a mesma.

Nogueira, do Piauí, é um duplo recordista. Apoiou FHC, Lula, Dilma e Temer, até chefiar o que Jair Bolsonaro chamava de “coração” do seu governo, a Casa Civil. E esteve, de alguma forma, envolvido nos mais variados escândalos, desde a Lava Jato até o Banco Master. Foram sete esquemas de corrupção, cinco inquéritos e quatro denúncias formais, nenhuma condenação.

Em Gaza, uma manobra política, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O acordo de desarmamento do Hamas, anunciado por Donald Trump e confirmado pelo grupo palestino, não representa avanço real rumo à solução do conflito na Faixa de Gaza, mas uma manobra política do Hamas – na qual Trump embarcou, por conveniência – para elevar as tensões entre Israel e os EUA e as pressões sobre o governo de Binyamin Netanyahu.

É a continuação do movimento iniciado pelo Hamas no dia 6, quando o grupo renunciou ao governo civil da Faixa de Gaza, em favor do Comitê Nacional para a Administração

de Gaza (NCAG). Composto por tecnocratas palestinos, o órgão faz parte do plano americano e tem o apoio do Conselho de Paz, presidido por Trump. Israel, no entanto, impede a entrada de seus integrantes no território da Faixa de Gaza.

Milei é o cunhado picareta do Brasil, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Javier assinou a minuta do golpe que Flávio Bolsonaro apresentou

O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor

Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.

Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.

Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.

Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.

Macaquice tem lugar de fala, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade

'Paris da América do Sul' era epíteto da capital portenha

Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.

No encalço do Congresso, Dino aperta cerco às emendas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministro quer impor responsabilidade jurídica aos parlamentares no uso do Orçamento da União

Eleição atual pode ser a última chance do manejo desses recursos como financiamento de campanhas

O ponto mais recente que Flávio Dino acrescentou à escrita dele sobre a manipulação no uso das emendas parlamentares não mereceu destaque no noticiário voltado às campanhas eleitorais. Conviria, porém, prestar atenção aos movimentos do ministro.

Dino sinaliza introduzir na cena o conceito de responsabilidade jurídica de deputados e senadores no manejo daqueles recursos, hoje na ordem dos R$ 60 bilhões, em ação em curso no Supremo Tribunal Federal que os equipara a ordenadores de despesas do Orçamento da União.

Um ato de lesa-banana, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Há dias, sem pensar, reduzi a banana a fláviobolsonaro; leitores protestaram com razão

Sugiro também o apagamento da ligação injusta e involuntária da banana com Dudu Bananinha

Na quinta (30), cometi um ato de lesa-banana ao definir Flávio Bolsonaro como um político marca banana, por seus espasmos de filhinho do papai, choramingas e entreguista em campanha pela Presidência. Arrisquei que, se Flávio B. já é tão flácido como candidato, como seria no trono, posto que exige maturidade, firmeza e decisão? Ao mesmo tempo, deixei em aberto a possibilidade de ser isso o que a Faria Lima quer: um banana na Presidência, fácil de ser manipulado.

A Indústria Mundial de Petróleo e a Cultura da Paz, por George Gurgel*

Devemos compreender o Mercado, o Estado e a Sociedade em geral de uma maneira sistêmica, em diálogo e conflito, permanentemente.

Por exemplo, argumentamos   que   a Paz é uma variável fundamental a ser considerada nas relações internacionais, inclusive em relação a indústria petrolífera. A indústria petrolífera impacta a cada um de nós como humanidade que direta ou indiretamente participa do amplo fluxo desta indústria. 

Tenho colocado, onde posso alcançar, que a Paz é o fundamento da sustentabilidade humana no planeta.

Portanto, no cenário internacional, histórico, atual e em perspectiva, da Indústria Mundial de Petróleo, uma boa parte dos conflitos   foram e continuam sendo gerados em torno das reservas, produção e distribuição de Petróleo e de Gás Natural. 

Quem se apropriou e se apropria da renda petrolífera, inclusive manu-militare, eis a questão!

Veja o discurso do presidente Lula na convenção Estadual do PT do Ceará

 

Poesia | Os Mortos, de Ferreira Gullar

 

Música | Martinho da Vila e Dona Ivone Lara - Alguém me avisou - Tiê

 

sábado, 1 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Contas públicas atestam fracasso do arcabouço fiscal

Por O Globo

Nos últimos 12 meses, rombo alcançou 10% do PIB, o pior resultado desde a pandemia

A irresponsabilidade fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva produziu uma tragédia cujo clímax se aproxima. A cada novo retrato da saúde fiscal do Estado, acumulam-se as evidências de que o Brasil está perto de uma crise severa, provavelmente com a temida confluência de inflação em alta e estagnação econômica — situação que os economistas batizaram de “estagflação”. É o que se depreende dos dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira.

Nos últimos 12 meses, as contas públicas fecharam com um rombo de R$ 1,3 trilhão, levando em conta o déficit primário (receitas menos despesas do governo) e o pagamento de juros da dívida pública. Tal número — tecnicamente chamado “déficit nominal” — equivale a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem contar 2020, ano da pandemia, e o catastrófico ano de 2015, depois da reeleição de Dilma Rousseff, é o pior resultado registrado desde quando Lula subiu a rampa do Planalto pela primeira vez, em 2003. Com a sucessão de contas no vermelho, a dívida pública já alcança 82% do PIB, 8 pontos percentuais acima do início do atual mandato. Não há prova mais eloquente do fracasso do arcabouço fiscal implantado por Lula para controlá-la.

Bolsonarismo põe disputa eleitoral sob estresse democrático, por Flávia Oliveira

O Globo

O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política

Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de ataques — que envolveu até operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar — deu na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.

O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022, antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Bolsonarismo é agora ameaça existencial a Moraes, por Thaís Oyama

O Globo

Renovado em dois terços, o Senado arbitrará entradas e, possivelmente, saídas de juízes do Supremo

Até agora, o conjunto das pesquisas estaduais aponta um claro favoritismo da direita e da centro-direita na corrida deste ano ao Senado. A projeção mais abrangente disponível estima que, juntas, as duas forças políticas poderão reunir pelo menos 40 das 81 cadeiras a partir de 2027 — uma a menos, apenas, da maioria absoluta. Valdemar Costa Neto, com o otimismo regulamentar dos caciques, declarou que só seu PL poderá eleger em outubro 20 novos senadores. Somados aos oito atuais que, em sua conta, permanecerão no partido e no Senado, eles formarão uma bancada de 28 parlamentares. Pela projeção, basta ao PL conquistar 13 votos na centro-direita para reunir os 41 necessários à eleição do presidente da Casa. O presidente do Senado é o único com poder de dar início a processos de impeachment de ministros do Supremo.

Sobre mentiras e tarifas, por Fareed Zakaria

Washington post / O Estado de S. Paulo

Presidente parece ordenar que governo certifique formalmente como fato algo que não é verdade

Em dois anos, Trump converteu os EUA na economia avançada mais protecionista do mundo

Para quem achava que a Suprema Corte havia posto fim à obsessão de Donald Trump por tarifas, é melhor repensar. Em fevereiro, ela derrubou as tarifas abrangentes do Dia da Libertação, determinando que o presidente não possuía poderes de emergência para tributar importações de quase todos os países do mundo. A resposta de Trump foi vasculhar os códigos legais em busca de formas incomuns, obscuras e talvez ilegais de restabelecer tarifas semelhantes.

Primeiro veio uma tarifa global temporária. Quando ela expirou, ele impôs tarifas de 10% a 12,5% sobre 60 economias alegando práticas comerciais desleais. No caso do Canadá, Trump recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, uma disposição nunca invocada até então.

Em legítima defesa de crianças e jovens, por Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

A sociedade deve, uníssona, em legítima defesa, proteger a infância e a juventude da malvadeza digital

A inteligência artificial (IA), que tantos benefícios tem trazido e trará, pode, no entanto, colocar em risco a mais importante parcela da sociedade: nossas crianças e nossos adolescentes. Tim Wright, dirigente no Reino Unido da Agência Nacional de Combate ao Crime, observa: “As ferramentas de inteligência artificial estão se tornando mais poderosas, mais acessíveis e mais fáceis de usar, e estamos vendo criminosos explorá-las para atingir crianças de novas maneiras. Imagens podem ser manipuladas para criar conteúdo sexualizado sem o conhecimento da criança ou dos pais.”

Filho 01 é um boneco nas mãos da extrema direita transnacional, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O esquema que sabota o processo democrático é difundido por Trump

O alinhamento golpista se revela nas mentiras de Flávio sobre urnas eletrônicas

Como diria um velho caudilho dos pampas, Donald Trump está costeando o alambrado. Em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, nomeou negacionistas eleitorais para postos-chave, alterou regras para dificultar o voto popular e afastou funcionários que desmascararam suas teorias de conspiração sobre o pleito de 2020.

Para lançar dúvidas acerca das eleições legislativas de novembro —as pesquisas indicam que os democratas terão maioria—, usa a derrota de seis anos atrás diante de Joe Biden para afirmar que as votações no país não são legítimas. Claro, só aquelas que ele não vence.

A rivalidade e os estereótipos entre Brasil e Argentina, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

Os brasileiros têm uma rivalidade histórica com a Argentina que se expressa de forma intensa no futebol, embora reflita também a concorrência dos orgulhos nacionais, a empáfia dos brasileiros diante da soberba dos argentinos, que se acham os europeus da América (mesmo já tendo perdido a majestade). Durante a Copa do Mundo, o confronto futebolístico ganhou conotações políticas com a criação e difusão, pelos brasileiros, de um estereótipo negativo do povo argentino. “Torço contra a Argentina porque os argentinos são racistas” foi a frase mais comum ouvida ao longo do campeonato mundial.

Os brasileiros tornaram-se, de repente, zelosos fiscais do racismo alheio, condenando o racismo dos argentinos, como se o preconceito racial tivesse sido erradicado no Brasil. Não faltam testemunhos de manifestações racistas de parte dos argentinos, e não apenas no futebol. Da mesma forma, não se pode ignorar a persistência do racismo no Brasil e em vários outros países, bastando lembrar os atos racistas sofridos por vários jogadores brasileiros nos campeonatos europeus, como Vinicius Junior.

Morin e o Futuro (II) – O imprevisível e a complexidade, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

No artigo anterior visitamos a primeira concepção sobre o futuro presente na obra de Edgar Morin: a inevitabilidade da morte e os efeitos de sua recusa na transformação do Homo Sapiens em Homo Sapiens-Demens. Aqui, abordamos a segunda das três noções de futuro que destacamos na obra do filósofo francês, que recentemente nos deixou (20/05/2026): o futuro como incerteza, cuja dimensão tem crescido com o surgimento da policrise após a década de 1970.

A imprevisibilidade do futuro é um tema central em toda a obra do filósofo francês, constituindo um dos estímulos à compreensão e relevância do pensamento complexo. Para ele, a história não é linear, mas um processo cheio de desvios e imprevistos. E os estudos prospectivos erram ao considerar que o futuro é a simples realização das tendências dominantes do presente. “A concepção simplista crê que passado e presente são conhecidos, que os fatores da evolução são conhecidos, que a causalidade é linear e, portanto, o futuro é previsível” (Où va le monde. Paris, Éditions de L’Herne, 2007, p. 12)[1]. Ledo engano.

Um bom exemplo, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Em pouco mais de 70 anos, a Coreia do Sul passou de país devastado pela guerra a integrante do grupo das economias mais desenvolvidas do mundo. É uma trajetória que pode inspirar lideranças no Brasil e na América Latina

O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, visitou o Brasil semana passada. Foi recebido pelo presidente Lula, no Palácio da Alvorada, de maneira formal e recepcionado no Itamaraty com banquete de muitos talheres. Todo o evento foi cercado de mesuras e louvações ao ilustre convidado. No entanto, pouca gente percebeu a visita do asiático. Em Brasília as pessoas entenderam que alguém importante estava na cidade, porque as ruas centrais da capital foram fechadas e o trânsito ficou difícil. E um avião imenso ficou estacionado no aeroporto. 

A visita do presidente da Coreia do Sul concentra diversos significados neste dramático momento da história nacional. Pressionados pelo governo dos Estados Unidos, os brasileiros buscam alternativas para manter sua economia funcionando. A solução é diversificar mercados. E a Coreia do Sul, um dos chamados tigres asiáticos, tem apetite e dinheiro suficientes para compensar em boa parte as perdas nacionais no mercado norte-americano.

Os EUA e a eleição brasileira, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Já está bastante claro que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro

Teremos, nas eleições de 2026, uma preocupação nova na história da redemocratização: um possível cenário de interferência internacional no nosso pleito. Falo especificamente dos norte-americanos. Qualquer observador atento da política nacional já percebeu que as manifestações recorrentes do presidente dos EUA revelam um interesse genuíno no resultado das urnas e que nossa soberania pode estar ameaçada.

O fortalecimento do Congresso brasileiro, por Marcus Pestana

Nas ruas, em 1984, na campanha das Diretas; na vitória de Tancredo, no Colégio Eleitoral, em 1985; no texto constitucional nascido de uma Constituinte livre e democrática, em1988; o Brasil fez uma escolha clara, uma aposta que esperamos seja definitiva: a reconstrução da democracia brasileira como valor universal, permanente, inquestionável e inegociável.

O fantasma da dívida pública, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Não há registro de crises monetárias e financeiras provocadas pelo endividamento “excessivo” dos governos em moeda nacional

Em entrevista ao Estadão, o simpático economista José Roberto Mendonça de Barros abordou o tema do ajuste fiscal. Respeitosamente, devo assinalar as dúvidas que me assaltam quando o debate entre economistas da corrente conservadora repete o mantra do risco fiscal. Se me permitem, caros leitores de nossa ­CartaCapital, vou enfiar a colher da “heterodoxia” keynesiana na sopa das concepções que circulam nos arraiais da “macroeconomia do equilíbrio”.

Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a uma trajetória “insustentável” da dívida pública. Insustentável, porque essa vileza vai, no futuro, mortificar os mais jovens e os que ainda não vieram à luz, com um calote devastador na riqueza financeira que circula pelos balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do dinheirão e do dinheirinho. Não são poucos os que antecipam um calote na dívida do Estado. Esse calote seria devastador para a riqueza financeira privada, aquela que frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos e seus clientes do dinheirão e do dinheirinho.

Eleição além-fronteiras, por Jamil Chade

CartaCapital

No Brasil, o mapa mundial será desenhado

“Não temos tido sequer um minuto de sossego”, afirmou o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ao receber em 1982 o Nobel de Literatura em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da América do Sul. Mais de 40 anos depois, a frase parece ecoar uma vez mais e, no Brasil, será escrito e testado o próximo capítulo dessa história de assédio ao continente.

A eleição no País não vai determinar apenas quem será o novo presidente ou qual a composição do Congresso. O que está em jogo é uma disputa que vai muito além de nossas fronteiras. Vamos definir quem somos no mundo, que projeto de nação queremos. Mas também como a nova ordem global será desenhada. O que vimos nos últimos dias com o envolvimento de Javier Milei, viagens de equipes obscuras de Donald Trump ou mesmo um telefonema de Xi Jinping são sinais escancarados de que há muito mais em jogo na eleição brasileira do que interesses domésticos.

Autofagia eleitoral, por André Barrocal

CartaCapital

Caiado, Zema e Renan Santos estão obrigados a avançar sobre a base bolsonarista

Às vésperas do fim do prazo para a realização das convenções partidárias que definem as candidaturas à Presidência da República, o antipetismo em todas as suas variações está escalado, na esperança de impedir o tetra de Lula. Apesar da causa comum e de uma agenda muito semelhante, o time vai entrar em campo rachado, desunido. E o motivo tem um nome, ou melhor, um sobrenome: Bolsonaro. O ex-presidente ungiu o primogênito Flávio a fim de manter a hegemonia da família no polo reacionário e, claro, livrar-se da condenação por tentativa de golpe de Estado. Em uma situação como essa, só se pode, no fundo, confiar em laços de sangue. Ronaldo Caiado, do PSD, Romeu Zema, do Novo, e Renan Santos, do Missão, desafiam, no entanto, o bolsonarismo, convencidos de que o filho “zero um” é um competidor frágil demais para terminar a campanha de pé.

Os reis do gado, por Leonardo Avritzer*

CartaCapital

As fragilidades de Flávio Bolsonaro não se convertem em oportunidades aos clones

O fim de semana anterior foi marcado pelas convenções de dois pré-candidatos à Presidência da República: o candidato do Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, e o candidato do Partido Social Democrático, Ronaldo Caiado. As duas convenções apontam para a enorme fragilidade da direita brasileira, esteja ela dividida ou não. De um lado, é evidente que, unida, a direita poderia ter maiores chances eleitorais. Por outro lado, os próprios fatores que explicam sua desunião, entre eles a evidente falta de liderança do candidato do PL, são características decisivas que marcarão o pleito de 2026.

O momento eleitoral, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Disputa é uma corrida de erros, e Lula tropeça menos que Flávio

No início de agosto, temos um cenário basicamente semelhante ao do início de julho. Lula segue à frente nos cenários de primeiro e de segundo turno; Flávio Bolsonaro, apesar dos tropeços, continua firme no encalço do líder; e a terceira via faz barulho, mas não decola — apesar de Renan Santos aparecer com quase 8% na última pesquisa da AtlasIntel.

Já descrevi a disputa como uma corrida de erros, aqui mesmo nesta coluna, e o cenário prossegue igual. Mas, no momento, Lula erra menos do que Flávio Bolsonaro e ainda teve a ajuda luxuosa dos desentendimentos na família Bolsonaro e das medidas americanas contra o Brasil. Teve, ainda, a ajuda inesperada do espetáculo lamentável de Javier Milei na convenção do PL. Numa corrida assim, ganha mais quem erra menos — e, por ora, é o presidente quem administra melhor os próprios tropeços.

O engano pelas palavras, por Cristovam Buarque

Revista Veja 

O politicamente correto é moralmente imperfeito

Com a intenção de defender sua indústria, a Inglaterra usou o argumento humanista do combate ao trabalho escravo no Brasil, há pouco mais de duzentos anos. Agora, o governo de Donald Trump utiliza o mesmo argumento, com hipocrisia. É preciso condenar o oportunismo trumpista, mas sem perder de vista um drama social brasileiro real, que vem sendo camuflado por um vocabulário afeito a suavizar a tragédia. Para evitar caracterizar os brasileiros submetidos a trabalho análogo à escravidão como pobres desassistidos, o dicionário politicamente correto passou a chamá-los de “hipossuficientes”, termo técnico que esconde o drama e, de algum modo, absolve a responsabilidade dos políticos. Os sem-teto passam a ser “moradores em situação de vulnerabilidade”, expressão que não traduz o relento, nem a exclusão. Se, na África do Sul, o apartheid tivesse sido chamado de desigualdade racial, a bárbara desumanidade da separação entre negros e brancos teria sido diluída. É isso que se faz no Brasil ao chamar de desigualdade social a apartação que caracteriza a sociedade brasileira segregando condomínios de tugúrios.

Commodities ou indústria: que país queremos? Por Roberto Amaral*

Fundado sobre as bases do binômio escravismo-latifúndio (o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura e ainda hoje se recusa a promover a reforma agrária que as nações desenvolvidas levaram a cabo nos dois últimos séculos), nascemos e nos formamos determinados pela metrópole empobrecida a cumprir o papel de fornecedores das matérias-primas requeridas pelo mercado europeu.

Nascemos como economia agroexportadora, uma empresa territorial sob a intermediação de Lisboa, o entreposto de tudo o que importávamos e de tudo o que exportávamos, basicamente o açúcar produzido nos engenhos do litoral nordestino, depois da extração predatória do pau-brasil. Nenhum projeto de sociedade, de nação, de país. O fundamental era assegurar a posse de uma imensidade de terra ainda desconhecida e visitada por piratas e aventureiros.

Dom Ernesto de la Mancha e também um mito guarani, por Ivan Alves Filho*

Ele era descendente direto da índia guarani Leonor "Iboty-I Yu" Moquiracé, casada com o espanhol Domingos Martinez Irala. Esse matrimônio ocorreu no século XVI, no início da ocupação europeia do atual território paraguaio. Ursula Irala, a filha do casal em questão, expandiria a família, cujas ramificações atingiriam ainda a Argentina, o Uruguai e o Brasil de hoje. 

Foram muitas gerações até chegar a ele, médico, administrador revolucionário e, também, escritor e panfletário argentino-cubano. Percorreu a América Latina por um bom tempo, anotando suas impressões em um diário do qual li algumas passagens ainda na minha adolescência, no final da década de 60. Escreveu obras que revelavam uma concepção humanística da vida, a começar pelos seus próprios títulos: O socialismo e o homem em Cuba e O homem novo. 

Poesia | Poema Patético, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Beth Carvalho & Zeca Pagodinho - Ainda é tempo pra ser feliz

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vendaval mostrou despreparo para Super El Niño

Por O Globo

No Rio, alertas só chegaram aos cidadãos quando o vento já castigava as ruas — e imperava a confusão

A julgar pela situação caótica instalada pelo vendaval de quarta-feira em municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo, as autoridades dos três níveis de governo não passaram no teste do Super El Niño. Segundo meteorologistas, as rajadas de mais de 100km/h estão relacionadas ao fenômeno climático de forte intensidade previsto para este ano. À população, foi mostra preocupante do que está por vir. Ao governo, serve de alerta.

Chamam a atenção as falhas nos sistemas de informação. Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alertas severos a partir das 13h (para cidades do litoral) e das 13h30 (para a Região Metropolitana), cerca de meia hora antes do vendaval. No Rio, o aviso só começou a chegar às 16h41, quando os ventos já varriam o estado furiosamente. E nada de alerta severo, como aquele estridente que acordou milhões de brasileiros depois de uma invasão nos sistemas de disparo semanas atrás. O alerta de quarta-feira não dava a real dimensão do problema. Milhares de cariocas foram apanhados de surpresa nas praias. Ainda que meteorologistas digam que o fenômeno é raro no inverno e é difícil prevê-lo com antecedência, é de pouca utilidade um alerta que chega quando o cidadão já está em plena ventania.