terça-feira, 14 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Valdemar e Cunha expõem o despropósito das emendas

Por O Globo

Sem mandato, os dois direcionaram verbas públicas seguindo critério paroquial e eleitoreiro

As decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino de bloquear R$ 6,1 milhões em bens do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG) e R$ 119 milhões do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, por suspeita de atuação no direcionamento de verbas públicas são um alerta sobre o despropósito das emendas parlamentares. Sem mandato, Cunha e Valdemar seriam autores de mais de duas dezenas de repasses, segundo investigação da Polícia Federal (PF). Após o congelamento de bens de Valdemar, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse em nota que a decisão “não identifica desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas”. Para ele, o despacho tenta “criminalizar a atividade política”.

Jogamos sem alma na Copa do Mundo, por Fernando Gabeira

O Globo

Um desastre nem sempre tem uma causa única. A Argentina não chorará por nós, seu grande vizinho e rival

Quando era menino, jogávamos futebol num campo improvisado. Um dia, chegou um circo perto do campo. Um ator veio nos ver jogar. Chamava-se Raul e trabalhava todas as noites. O circo encenava um dramalhão ao som de uma música de Vicente Celestino:

Disse um campônio à sua amada/ Minha idolatrada, diga o que quer. A amada pedia o coração da mãe do campônio. E, todas as noites, Raul aparecia com o coração num prato. Fora disso, era um bom cara.

Um dia, depois do jogo, ele disse para o nosso time:

— Vocês jogaram com alma. Aprendam isto: tudo o que fizerem na vida, façam com alma.

Avatar, por Merval Pereira

O Globo

Os Bolsonaros estão conseguindo manter acesa a campanha eleitoral para a Presidência da República em torno de seus problemas

Em política há uma máxima que diz que o importante é estar no centro da discussão, não necessariamente vencê-la. É uma vertente maximizada daquela outra máxima: “falem mal, mas falem de mim”. Menos glamurosa que a de Ferreira Gullar:

— Não quero ter razão, quero é ser feliz.

É mais que isso. É controlar o debate político, como fazem os grandes armadores dos times de futebol, que ditam o ritmo do jogo, aceleram ou desaceleram as jogadas de acordo com o interesse do seu time. Pois os Bolsonaros estão controlando a campanha eleitoral para a Presidência da República, conseguindo mantê-la acesa em torno de seus problemas, de suas questões, transformando brigas familiares em tema de debate político que inunda as redes sociais e as conforma em nichos da direita, dando pouco espaço para a esquerda se expandir.

Longevidade não pode ser olhada só com lentes fiscalistas, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Transição demográfica implica custos, mas também pode gerar riqueza

Acabou a Copa do Mundo para o Brasil e o próximo grande evento aqui, muito mais importante, são as eleições de outubro. Os temas em debate destacam segurança, soberania, inflação, educação e corrupção. Nenhum dos pré-candidatos, porém, disse até agora uma única palavra sobre como pretende lidar com uma questão crucial: o envelhecimento da população brasileira.

No ano 2000, o número de pessoas com mais de 60 anos no país, 15 milhões, representava 8,7% da população. Atualmente, os idosos são 33 milhões, 15% da população - a ONU considera uma sociedade envelhecida quando esse índice ultrapassa 14%.

Lula amplia ações para aproximar-se do eleitorado evangélico, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Estratégia ganhou força com o recente contencioso entre Michelle e Flávio Bolsonaro

Num momento em que o PL ainda contabiliza os danos junto ao eleitorado religioso provocados pelo atrito entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ), a pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou as ações para melhorar o diálogo com os evangélicos, segmento refratário ao PT. Em paralelo, emissários tentam articular uma aproximação entre Lula e o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

A mais recente rodada da pesquisa Quaest, divulgada em 10 de junho - antes da publicação do vídeo de Michelle -, já havia revelado um derretimento de Flávio junto aos evangélicos, em contraste com um crescimento de Lula. A perda de apoio do senador nesse segmento foi atribuída à revelação de suas ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

As barreiras contra o crescimento de Flávio, por César Felício

Valor Econômico

Oposicionista pode crescer com voto útil, mas sua rejeição tem raízes estruturais

De cada seis eleitores, cinco dizem que definem o voto para presidente antes da campanha eleitoral começar ou logo no seu início. O eleitor brasileiro gosta de se dizer imune ao noticiário imediato, a pressões de amigos e familiares e à intensidade da propaganda.

A campanha eleitoral formal no Brasil é muito curta, bem menor que a de outros países presidencialistas como Estados Unidos, Colômbia e Argentina. As convenções partidárias podem ser realizadas a partir da próxima semana, mas a campanha propriamente dita começa apenas em 16 de agosto, um dia depois do prazo final para registro das candidaturas.

Moraes proíbe Bolsonaro de ver o filho, e Flávio se aproxima de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ministro do STF criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na percepção dos estrategistas de campanha, mais favorece do que prejudica o parlamentar na disputa pela Presidência da República, num momento em que o candidato do PL se beneficia da carta de seu pai defendendo sua candidatura.

Na decisão, o ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para burlar a proibição imposta ao pai de utilizar redes sociais por intermédio de terceiros, porém a medida interfere diretamente na dinâmica da campanha presidencial e pode alterar a disputa pelos eleitores independentes. Moraes criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente. Por isso, favorece a candidatura de Flávio, no momento de interrupção de sua trajetória de queda.

Um novo viés bolsonarista, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se Jair Bolsonaro está com Flávio, problema dele; Michelle tem projeto, é ‘imparável’ e boa de briga

O único motivo da carta manuscrita e pública de Jair Bolsonaro foi desautorizar sua mulher, Michelle, e tomar partido do filho 01, Flávio, a quem chamou de “meu candidato e meu porta-voz”. Após semanas de dúvidas, o ex-presidente foi claro: está com Flávio, contra Michelle.

Imagine-se o ambiente numa casa em que o patriarca está doente, preso, de tornozeleira, e sua mulher rompeu com seus filhos e declarou independência política. E mais: uma casa que, durante 90 dias, vai ficar de portas fechadas para o primogênito, por decisão de Alexandre de Moraes, do STF.

A emenda Valdemar, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É claro que uma ferramenta legislativa disparadora de bilhões de reais – aplicada de maneira obscura e autoritária – chegaria às mãos de poderosos sem mandato parlamentar. Desenvolvimento natural da cultura de fachadas e laranjas que norteia a atividade pública entre nós.

Falo do orçamento secreto. Instrumento obscuro, que, assaltando o Orçamento da União, ergue ode à falta de transparência como meio de ação. Instrumento também autoritário, porque a favor do desequilíbrio de forças em anos eleitorais. Falo de um Valdemar Costa Neto. É claro que essa ferramenta – com potencial para ser fundo eleitoral paralelo – chegaria a Valdemar, proprietário de partido, proprietário das lideranças partidárias de seu partido, senhor dos servidores legislativos de seu partido e sócio dos donos do Congresso.

Vergonha e prejuízo, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir

Coordenador em São Paulo da ainda incerta campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem procurado manter distância adequada da disputa pelo Palácio do Planalto. Carioca que mal sabia seu local de votação em 2022, quando foi eleito para o cargo, Tarcísio, como informou o Estadão, tenta evitar que sua imagem seja turvada pelas crises que assombram Flávio Bolsonaro.

Nisso o governador paulista está certo. Aproximar-se demasiadamente do filho do expresidente da República, atualmente cumprindo pena em prisão domiciliar, pode prejudicar a pretensão política de Tarcísio, candidato à reeleição. Presunçoso, arrogante e apontado como envolvido em nebulosas transações financeiras com o dono do extinto Banco Master, Flávio Bolsonaro parece não se cansar, por palavras e atos por ele mesmo decididos, de demonstrar como é extenso seu despreparo e como é incontrolável seu desejo de bajular Donald Trump.

Flávio Dino puxa um novo fio de fraudes na meada das emendas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Dirigentes dos partidos deixaram papel administrativo para avançar sobre atribuições legislativas

Quem controla a distribuição das verbas públicas tem poder de mando sobre deputados e senadores

descoberta da Polícia Federal sobre a captura de emendas ao Orçamento em proveito de Valdemar Costa Neto vai além de prejuízo que o presidente do PL possa causar à candidatura presidencial do partido, na figura de Flávio Bolsonaro.

Diz respeito, sobretudo, ao poder dos dirigentes partidários em relação à distribuição de verbas públicas. Fala-se em uso "irregular", mas o que se tem nos apontamentos da PF é o relato de uma ilegalidade das mais graves, que traduz o alcance do controle dos comandos dos partidos sobre as atribuições do Legislativo.

Ideologia e religião não evitam corrupção, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

EUA e Israel planejavam instalar Mahmoud Ahmadinejad no poder no Irã

Ex-presidente linha-dura estava na lista de pagamentos do Mossad, segundo NYT

Ideologia e religião imunizam seus portadores contra a corrupção? Até existem indivíduos tão dedicados a uma causa ou ideia –pense num Savanarola, por exemplo— que seu fanatismo os blinda de tentações terrenas. Mas a literatura mostra que, no agregado, nenhuma das duas funciona como barreira de proteção. Ao contrário até, é nos países mais religiosos, que são também os mais pobres e institucionalmente frágeis, que encontraremos maiores taxas de corrupção.

Um caso ainda em desenvolvimento ilustra bem essa história. Trump e Netanyahu erraram feio ao atacar o Irã, mas seu plano inicial era menos desvairado do que pode parecer. Eles tinham preparado um esquema de substituição de liderança que seguia o modelo da ação dos EUA na Venezuela.

Nova Praça Onze é pensada para turistas, não para moradores, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Projeto de revitalização privilegia a especulação imobiliária e atinge toda a cidade

Atual prefeito, Eduardo Cavaliere segue os passos de seu tutor, o xará Paes

A maquete é linda. Modelo de uma cidade-evento, de uma cidade pensada para o turismo, não para seus moradores. O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, assinou a lei que autoriza o Projeto Praça Onze Maravilha, com mudanças numa área de 2,5 milhões de metros quadrados próxima ao centro da cidade.

Com prazo de conclusão em 2032, o plano prevê o investimento de R$ 1,75 bilhão, "100% privado", por meio de concessões, PPPs e de instrumentos urbanísticos que privilegiam a especulação imobiliária, com influência em todos os bairros da capital.

A reestruturação da mineiridade política, por Pacelli Lopes*

"Mas toda a crise, leitor, é uma porta entreaberta para o futuro. E para um futuro nascido de um aprendizado com o mundo e com a nossa própria história. Que, aliás, é uma das mais cosmopolitas, juntando indígenas, africanos, portugueses, japonese, chineses, árabes, turcos, alemães, italianos, espanhóis, pomerânios, e uma infinidade de outros povos. Uma história que, ao longo do tempo, envolveu e misturou todos os diferentes."

BARBOZA FILHO, Rubem. Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2025. p. 26.

A atual conjuntura política mineira exige de todos nós, democratas, coragem para colocar o bem comum e público no coração institucional. A eleição de 2026 torna-se fundamental para que consigamos recompor a mineiridade política, com o centro político democrático de Minas Gerais em sua tradição republicana, pautada em diálogos, negociações e alianças.

Para isso, é importante entender que Minas Gerais não é apenas um estado pêndulo na eleição majoritária, onde se obtém um indicativo preciso de quem pode vencer o pleito presidencial. Minas Gerais possui uma população diversificada de 21.393.441 habitantes, formando um verdadeiro mosaico do Brasil.

Foi para isso que nos chamaram para vir a Copa, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

A edição de 2026 da Copa do Mundo de Futebol vai chegando ao fim... Não interessa ao brasileiro quem chegou às Quartas de Final, que é ou será o campeão. O Brasil está fora…Para a FIFA foi um grande negócio: coisa de dezenas de bilhões de dólares. Ninguém fala nisso, mas é provável que tenha sido o maior faturamento entre as Copas já realizadas ao longo da história do futebol no mundo. Alguns dos principais realizadores saem financeiramente com as “burras” cheias de dinheiro e alguns jogadores com “passes” supervalorizados. Tornam-se definitivamente milionários

Por outro lado, como sempre, deixa um rastilho de perdas irreparáveis: acusações de roubo de resultados, juízes omissos. atletas lesionados, frustrações nacionais e pessoais, entre jogadores e torcedores. Um prejuízo enorme na área dos comércios internos de produtos iconográficos que alimentavam esperanças de vitórias entre colombianos, paraguaios, marroquinos, tunisianos, iranianos, sauditas, ganeses, sul-africanos, egípcios e brasileiros. A Europa venceu mais uma vez.

Poesia | Vem, noite, de Fernando Pessoa por Paulo Autran

 

Música | Roberta Sá e Zeca Pagodinho - Pago pra ver

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Elucidação de homicídios é frustrante no Brasil

Por O Globo

Apenas quatro em 10 assassinatos cometidos no país são esclarecidos, de acordo com os dados disponíveis

É decepcionante a constatação de que apenas quatro em cada dez homicídios dolosos cometidos entre 2023 e o fim de 2024 (ou 39%) tenham sido esclarecidos, de acordo com a última edição do relatório “Onde mora a impunidade?”, do Instituto Sou da Paz. O dado resulta de extensa pesquisa junto aos Ministérios Públicos e Tribunais de Justiça estaduais, realizada desde 2017. A média nacional de elucidação de homicídios tem se mantido na faixa entre 30% e 40%. É muito pouco para um país que enfrenta grave crise de segurança pública, com a atuação crescente de facções criminosas por todo o território nacional.

Os Ministérios da Saúde e da Fazenda advertem, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Efeitos sociais e econômicos das bets impõem desafio de restringir a atividade

É difícil encontrar hoje em dia quem não tenha conhecimento de pelo menos um caso de drama pessoal e familiar envolvendo o vício em bets. Também nos últimos tempos têm sido frequentes as queixas de empresários e executivos sobre os danos que as apostas têm causado aos seus negócios.

Em 2025, as bets arrecadaram quase R$ 37 bilhões, já descontados os valores pagos para os vencedores das apostas. Os dados são da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda - para quem não sabe, temos um órgão na área econômica, com o mesmo status da Receita Federal e do Tesouro Nacional, especializado em autorizar e fiscalizar bets. Segundo a SPA, 25,2 milhões de CPFs fizeram apostas no ano passado, utilizando, para isso, mais de 100 milhões de contas ativas nas empresas.

O Banco Central entre Delfos e Ulisses, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Para parte dos analistas, BC é refém da transparência que promoveu no período recente

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga vai ajudar o Federal Reserve (Fed) a rever sua comunicação, dentro de uma força-tarefa criada pelo seu chairman, Kevin Warsh, para avaliar seu arcabouço mais amplo de política monetária. As conclusões podem ajudar também o BC brasileiro, que tem se visto às voltas com questões semelhantes.

Um bom ponto de partida para uma discussão nos trópicos é um texto para discussão do ex-diretor de Política Econômica do BC Fábio Kanczuk. Sua opinião vale, em especial, porque ele estava na cabine de comando na única vez que o Brasil chegou ao limite da baixa de juros, na pandemia, e teve que lançar mão da comunicação para cumprir a meta.

Kanczuk vê vantagens em o BC comunicar o que vai fazer no futuro, mas acha que o instrumento só deve ser usado se o mercado for maduro o suficiente para entendê-lo. Antes de entrar na sua visão, porém, é preciso dar um contexto das discussões.

O Ocidente está dobrando à direita, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o ‘espírito do tempo’ – é clara

Olhe-se para a nossa vizinhança ou para a Europa, a extrema direita avança. Na América do Sul, nas três eleições ocorridas até aqui em 2026, venceram candidatos desse naipe político (Chile, Peru e Colômbia). A tendência é semelhante no velho continente.

Em Portugal, o partido da extrema direita, o Chega, conquistou o segundo maior número de cadeiras da Assembleia da República nas eleições parlamentares de 2025. No Reino Unido, outro país que até recentemente parecia imune à ascensão da extrema direita, o Reform UK lidera todas as pesquisas de opinião.

Na Espanha, o longo ciclo de poder de Pedro Sánchez entrou em fase terminal. Quem cresce é o partido da extrema direita, o Vox. O partido tradicional da direita, o Partido Popular (PP), depende cada vez mais da extrema direita. Nas quatro Comunidades Autônomas em que houve eleições este ano, o PP só conseguiu obter maioria parlamentar depois de aceitar representantes e reivindicações do Vox na formação do governo. É um sinal do que deve ocorrer nas eleições marcadas para 2027. Nesse processo, a direita tradicional se aproxima do nacionalismo xenófobo e protofascista, normalizando-o.

A farra das emendas, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos com as emendas? Ninguém, na verdade

Emendas Pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome, mas a farra da destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso Nacional continua. Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente que quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos – perpetuando os mesmos grupos de sempre no poder local e em Brasília. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino correto.

A dança dos vices, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

 Candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o mais competitivo

Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido, fruto do acaso.

Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2) potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.

Como o Congresso da UNE caiu em 1968, por Miguel de Almeida

O Globo

Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador

O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado, quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:

— Não reajam, vamos atirar para matar.

Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Paulistas querem chamar a polícia, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Segurança pública exige mais policiamento. A resposta é simples, mas cara e de difícil implementação

Está em andamento um amplo debate sobre segurança pública no país. Muitas ideias estão na mesa, como a criação de um ministério específico e variados projetos de leis e emendas constitucionais. Tratam de redefinição de crimes, aumento de penas, nova classificação das facções e assim por diante. Não são discussões inúteis, mas a população se preocupa com coisas bem mais simples.

O Datafolha obteve uma boa amostra em pesquisa feita com moradores do estado de São Paulo, divulgada na semana passada. O instituto perguntou: qual o maior problema de segurança pública? Resposta majoritária: a falta de policiamento efetivo nas ruas. Assim responderam 20% dos paulistas.

Brasil não pode viver asfixia digital, por Irapuã Santana

O Globo

Equilibrar a necessária governança da internet sem criar mais dificuldades para o crescimento da produtividade é um desafio

Desde o ano passado, diversos debates sobre o projeto do Novo Código Civil têm atraído a atenção do mundo jurídico. A nova lei causa impacto na vida de todo mundo, porque regerá a forma como acordos privados são feitos diariamente. Quando fazemos sinal para um ônibus no ponto, celebramos um contrato de transporte. Se pegamos um carrinho do supermercado para fazer as compras, surge um contrato de comodato, e por aí vai.

O código atual foi publicado em 2002, mas começou a ser elaborado em 1975, na ditadura militar. Ele era recém-nascido, mas parecia Benjamin Button. Para relembrarmos, a internet era discada, os celulares eram usados apenas para ligações e SMS, YouTube, Facebook e Instagram nem sonhavam em surgir, e o finado Orkut só viria a aparecer em 2004.

O teorema de Buscetta: 'mob lawyers' e facções judiciais, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Caso Master e escândalo do Rio de Janeiro revelam estrutura de proteção institucional ao crime

Integrantes da própria comunidade jurídica atuam em múltiplos níveis em casos de corrupção

É assustador assistir à crescente interpenetração entre a corrupção política e a criminalidade violenta em nosso país. Referindo-se ao escândalo Master, o ministro André Mendonça afirmou: "Aqui há contornos de máfia. Há contornos de crime organizado, mafioso... Não é simplesmente um crime de colarinho branco. É mais do que isso. Não são simplesmente atores ... que praticaram fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro".

Antirracismo é jogo de ganha-ganha, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo

Falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como chororô ou mimimi

O que podemos fazer para que o Brasil seja mais justo? Essa indagação é feita no início do livro "Guia da Gestão Pública Antirracista", publicação escrita de maneira colaborativa por cinco importantes pesquisadores (Clara Marinho, Ellen da Silva, Giovani Rocha, Karoline Belo e Michael França), que se debruçaram sobre o tema numa imersão na Universidade de Oxford, em 2024.

Para além de questionar práticas carregadas de preconceito e discriminação adotadas no setor público, que resultam em exclusão de um segmento específico da população brasileira, a obra joga luz sobre o óbvio que muitos ainda não aceitam: "Ao erguer aqueles marginalizados, não apenas corrigimos injustiças, mas levantamos uma nação inteira", afirmam os pesquisadores.

Quer ser empregado de um robô? Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Robôs já são capazes de fazer tudo, exceto pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana

Para isso, uma empresa de IA criou um serviço para eles: Rent a Human, ou Alugue um Humano

Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".

O futuro não é destino, por Tostão

Folha de S. Paulo

Seleção e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol

Existe uma carência de bons laterais, falta um craque no meio campo e na posição de centroavante

Neste momento de decepção, de mais um fracasso da seleção brasileira, pois criamos uma enorme expectativa muito acima da realidade, surgem os discursos românticos, ilusórios, perdidos no tempo, de que o futebol brasileiro precisa voltar às origens, aos anos 60 e 70, e passar a jogar o futebol arte, de dribles, improvisações, sem disciplina tática. Dribles é que não faltam. Precisamos associa-los ao jogo coletivo, de mais trocas de passes e de domínio da bola e do jogo. A seleção brasileira e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol.

Eleições 2026 e a Afirmação da Democracia no Brasil. Quais os desafios? Por George Gurgel*

As eleições  de 2026 no Brasil desafia a sociedade  democrática  brasileira a eleger uma presidência da República,  uma bancada de parlamentares nas Assembleias Legislativas, no Congresso e no Senado Federal  comprometidos  com a democracia,  garantindo os direitos  constitucionais de cada brasileiro(a)  na perspectiva  de ampliar as nossas conquistas políticas, econômicas, sociais e ambientais  asseguradas na nossa Constituição de 1988 , construída  com uma  efetiva participação da sociedade  brasileira nas praças e  nas ruas, proclamada por Ulisses Guimarães em 1988,  quando em alto e bom som declarou que os traidores  da  Constituição  são os traidores da Pátria, são  os traidores  do povo brasileiro. 

Poesia | Navegue, de Fernando Pessoa

 

Música | João Bosco - Papel Machê (João Bosco/Capinam)

 

domingo, 12 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É urgente proteger juízes que atuam contra facções

Por O Globo

De acordo com Fachin, pelo menos cem magistrados temem represálias por combaterem crime organizado

É preocupante a situação dos juízes que atuam contra o crime organizado, exposta pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, ao participar da instalação de novas varas especializadas em organizações criminosas no Tribunal de Justiça de São Paulo. O Brasil, disse Fachin, tem hoje ao menos cem magistrados exercendo atividades consideradas de risco, sob temor de represálias. Desses, 79 contam com medidas protetivas, como escolta armada ou guarda-costas. As ameaças, segundo ele, se expressam principalmente por meio de ataques cibernéticos, exposição de dados pessoais e perseguição digital.

Mudança de rumo, por Merval Pereira

O Globo

Flavio Bolsonaro pode ser inviabilizado como candidato à Presidência até mesmo antes de chegar a ser indicado pelo PL, pois as investigações do crime organizado no Rio de Janeiro chegam cada vez mais próximas a suas conexões pessoais.

Vivemos nessa eleição presidencial uma situação inversa à que se deu em 2018, quando o então desconhecido Jair Bolsonaro venceu. Naquela ocasião, o então ex-presidente Lula estava na cadeia, e no último minuto colocou Fernando Haddad para representá-lo. Hoje, é Bolsonaro quem está preso, e apressou-se a indicar seu filho, o senador Flavio Bolsonaro, para representá-lo. Lula demorou até onde pôde para assumir que não seria o candidato, imaginando com isso que transferiria mais facilmente seus votos para Haddad. Não deu certo.

Já Bolsonaro pensou em fazer o mesmo, mas sua situação era mais crítica que a de Lula, pois havia sido condenado por golpe de Estado, e dificilmente conseguiria um golpe parlamentar para tirá-lo daquela situação. A escolha de Flavio pareceu um erro no início, mas consolidou-se quando ficou claro que uma maioria da direita estava sendo levada para o extremismo da famiglia, tornando-se refém do populismo radical que elevou Bolsonaro a líder antiesquerdista. A fraqueza intrínseca de Flavio, porém, revela-se insuperável, além de seu telhado de vidro.

A democracia oligárquica, por Elio Gaspari

O Globo

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, livro de Joaquim Falcão expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam

Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.

Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.

O fundo do fundo do poço, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao decretar novas prisões, juiz relatou 'sangria das verbas públicas' na gestão Cláudio Castro

A frase é do juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa: “O estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”.

O magistrado decretou a prisão preventiva de seis envolvidos em fraudes no Instituto Rio Metrópole. Criado para elaborar projetos de transporte, saneamento e habitação, o órgão foi transformado em mais um sorvedouro de dinheiro público.

A operação de quinta-feira desmantelou um esquema que desviou ao menos R$ 86 milhões. Entre os presos, está o presidente da autarquia, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro. Também foram em cana o pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch. Ele se apresenta nas redes como “casado, pai, evangélico”, “conservador de direita” e “pela família”.

Em nome do pai, por Dorrit Harazim

O Globo

Há, no caso dos filhos de Netanyahu, apenas a inconveniência de um sobrenome atrelado a um incômodo chamado Gaza

Na semana passada, o diário israelense Haaretz apurou que o filho mais velho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu havia formalmente trocado de sobrenome em algum momento dos últimos 18 meses. Em sua declaração de Imposto de Renda de 2024, ele ainda era Yair Netanyahu, enquanto documentos fiscais de 2026 já o listam legalmente como Yonatan Hon.

Não terá sido o primeiro da linhagem. Seu avô paterno fez parte do movimento sionista que migrou da Europa para a Palestina sob o Mandato Britânico no início do século XX. Adotou um sobrenome hebraico para enfatizar o enraizamento na terra prometida. Líderes históricos como David Ben-Gurion, que nascera na Polônia como David Grün, o também polonês Shimon Peres, nascido Szymon Perski, a ucraniana Golda Meir, ex- Mabovitch, e tantos outros optaram pela reidentificação sionista. Data daquela época, e pelos mesmos motivos, a conversão do polonês Mileikowsky em Benzion Netanyahu, avô de Yair.

A Revolução Americana explica por que a democracia sobreviverá com Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É impossível assistir à série da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas institucionais consolidadas durante mais de dois séculos

Geralmente, quando vivemos uma situação que não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e das contradições que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, "a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.

O presidenciável e o ministro do STF, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que a tentativa de golpe desuniu, o Master uniu: Flávio e Alexandre de Moraes

O prazo venceu e o presidenciável Flávio Bolsonaro não deu explicações ao PL sobre a dinheirama que pediu a Daniel Vorcaro. E o ministro Alexandre de Moraes? Jamais justificou o contrato fabuloso do escritório de sua mulher com Vorcaro. De Dias Toffoli, nem se ouve falar mais.

O mundo dá voltas. O que a tentativa de golpe desuniu, o Banco Master uniu. Flávio e Moraes, de lados extremos no julgamento de Jair Bolsonaro, estão numa situação semelhante em relação a Vorcaro e Master. De certa forma, inclusive, um serve de para-raios para o outro.

Como endurecer com Flávio e não Moraes, ou vice versa? Ambos alegam, um publicamente, outro entre amigos, que se trata de negócios ou acertos privados, sem nada a ver com dinheiro público, e nenhum dos dois sofreu operação de busca e apreensão da Polícia Federal.