segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Concessão se firma no transporte como política de Estado

Por O Globo

Governo prevê para este ano 14 leilões de rodovias e oito de ferrovias, com R$ 300 bilhões em investimentos

Estão previstos para este ano 14 leilões de rodovias federais e oito de ferrovias, pacote que deve gerar investimentos de R$ 300 bilhões ao longo dos contratos. Para atrair investidores, o governo tem apostado no BNDES como fonte de financiamentos. O banco encerrou 2025 com uma carteira de empréstimos estimados em R$ 22 bilhões para concessionárias de rodovias e em R$ 3,7 bilhões para as de ferrovias. O objetivo do BNDES é superar tais valores neste ano.

O entulho institucional a ser enfrentado. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A crise atual não se resolve nem pela troca de comando das instituições, nem por um redesenho institucional pontual

A degradação institucional no STF, STJ ou TCU não se resolve pela alternância do poder

A dimensão da degradação institucional brasileira não deve ser subestimada. O conhecimento acumulado sobre crises institucionais fornece pistas. A literatura identifica, em linhas gerais, dois padrões de superação. O primeiro ocorre em crises de grande envergadura, pela ascensão de uma força política nova, normalmente oriunda da oposição. É o que se observa em processos de transição democrática e de mudança de regime. A alternância de poder, nesses casos, desencadeia o desmonte do ancien régime e a elaboração de uma nova Constituição. Não é, contudo, o nosso caso.

Não mexa na minha sobrevivência eleitoral. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Ao interferir nas emendas, o conflito entre STF e Legislativo tende a escalar

O ano de 2026 tende a aprofundar um conflito que já vinha em gestação silenciosa: o embate entre o Legislativo e o STF em torno das emendas parlamentares, especialmente as impositivas. Não se trata apenas de uma disputa jurídica sobre regras orçamentárias, mas de algo politicamente mais sensível: a sobrevivência eleitoral dos parlamentares.

O STF deve avançar no julgamento da constitucionalidade dessas emendas. Caso imponha limites substantivos ou as declare inconstitucionais, o efeito político será imediato. O tribunal tocará no principal instrumento por meio do qual deputados e senadores constroem e mantêm suas redes locais de apoio.

Europa correrá risco se ceder a Trump.Por Gideon Rachman

Financial Times / Valor Econômico

É tentador dizer que a aliança transatlântica chegou ao fundo do poço. Infelizmente, ela ainda pode cair muito mais.

A ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de anexar a Groenlândia levantou a possibilidade, antes impensável, de que os EUA possam usar suas forças armadas para tomar o território da Dinamarca - um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Vários países europeus responderam com o envio de tropas para a ilha - com o pretexto declarado de que isso fazia parte de um exercício para reforçar a segurança no Ártico.

A reação de Trump foi acusar esses países - entre eles França, Alemanha e Reino Unido - de fazerem um “jogo muito perigoso”. E afirmou que todos eles serão atingidos por tarifas de importação de 10% no começo de fevereiro, que subirão para 25% em junho.

O caso Master e o silêncio dos ‘inocentes’. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Banco Master contou com a conivência e a leniência de empresas de auditoria, órgãos fiscalizadores e plataformas de investimento para promover a maior fraude da história

Na base de cadastro de pessoas jurídicas da Receita Federal, Daniel Bueno Vorcaro aparece como sócio de 14 empresas, além do Banco Master S/A. Seu pai, Henrique Moura Vorcaro, está ligado a 54 empreendimentos, a maioria imobiliários e de participações - muitos, porém, com capital social nulo ou muito baixo (coisa de R$ 1.000,00).

Mas a campeã é a irmã, Natália Bueno Vorcaro Zettel, que é sócia de 59 empresas. Seu marido, Fabiano Campos Zettel, responde por outros 19 CNPJs, da Moriah Asset (“o primeiro veículo de investimentos em Wellness do Brasil”) à Igreja Batista da Lagoinha Belvedere - é bom lembrar que instituições religiosas têm imunidade tributária no Brasil. Outro integrante da família, também investigado, o primo Felipe Cançado Vorcaro é sócio de outras 17 pessoas jurídicas.

Tratado “pode ser o primeiro de uma série”, diz Ricupero

Por Daniela Chiaretti / Valor Econômico

Ex-secretário geral da Unctad, diplomata acredita que tratado UE-Mercosul é positivo para economia brasileira, mas há desafios

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, assinado no sábado, 17, tem o potencial de abrir uma frente de novos tratados entre os países do Mercosul e o Canadá, Japão, Coreia do Sul e outros. A opinião é do diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e que durante dez anos foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad.

“No cenário atual, em que não estão surgindo grandes acordos comerciais, este do Mercosul e da União Europeia pode ser o primeiro de uma série no mundo”, diz. “Penso que esse acordo tem esta vantagem”, diz, em um mundo pouco multilateral. Ricupero vê o acordo como positivo para o Mercosul e o Brasil, mas com desafios.

Socialista surpreende e supera rival de extrema direita no 1º turno das eleições presidenciais de Portugal

Por O Globo, com agências internacionais

Com mais de 99% das urnas apuradas, António José Seguro alcançou 31,14% dos votos, contra 23,48% de André Ventura, líder do Chega

O socialista António José Seguro foi o candidato mais votado no primeiro turno da eleição presidencial em Portugal, realizada neste domingo, superando o adversário de extrema direita André Ventura, até então apontado como favorito pelas pesquisas de opinião. Com mais de 99,6% dos votos apurados, o candidato socialista tinha 31,14% dos votos válidos, contra 23,48% de Ventura — o que garante os dois no segundo turno, o primeiro que será disputado em quatro décadas, no dia 8 de fevereiro.

A superioridade do candidato socialista no primeiro turno contrariou as pesquisas realizadas até então, que apontavam que Ventura, líder do partido radical Chega, na primeira colocação. Seguro, de 63 anos , incorporou em sua campanha a imagem de integrador e moderado, defensor da democracia e dos serviços públicos frente ao "extremismo".

Juros elevados são o maior entrave ao crédito para 80% das indústrias, mostra CNI. Por Míriam Leitão

O Globo

Os juros elevados foram apontados como o principal obstáculo por 80% das empresas industriais que enfrentaram dificuldades para obter crédito de curto ou médio prazo (até cinco anos). O dado consta da Sondagem Especial nº 98 – Condições de Acesso ao Crédito em 2025, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE).

Depois dos juros, aparecem como principais dificuldades a exigência de garantias reais, como bens móveis ou imóveis, citada por 32% das empresas, e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades do setor, mencionada por 17%.

Só falta culpar o BC e absolver o Master. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Liquidação do banco não provocou qualquer abalo nos mercados. No ambiente político, parece um cataclismo

Liquidação de banco é sempre traumática. O trauma é tanto maior quão mais amplos forem os laços da instituição com o sistema financeiro. E quanto maior for o número de clientes, credores e devedores. Por aí, a liquidação do Banco Master deveria passar como episódio menor, sem qualquer abalo no sistema.

Para comparar: há 1,6 milhão de clientes do Master habilitados a receber seu dinheiro de volta. Parece muito, mas é nada diante do tamanho do sistema bancário no Brasil. Só o Itaú tem mais de 100 milhões de clientes, segundo dados recentes do Banco Central (BC). Por isso mesmo a liquidação do Master não provocou qualquer abalo nos mercados.

Cultura tem de ser projeto de nação. Por Preto Zezé

O Globo

A economia criativa brasileira permanece excessivamente dependente do eixo Rio-São Paulo

O Brasil é uma potência cultural de fato. Não por discurso, mas por evidência. Nossa música atravessa décadas influenciando o mundo. O setor audiovisual ganha espaço em festivais e plataformas. A moda, a literatura, os games e o poder de consumo cultural das favelas despertam interesse global. O problema nunca foi talento. O problema é estratégia.

Marcas da pandemia persistem. Por Demétrio Magnoli

O Globo

O vírus biológico já não atemoriza. O que assusta é o vírus político

Cinco anos atrás, no réveillon de 2021, sob a pandemia, milhões desceram ao litoral paulista, depois de meses intermináveis de congelamento da vida social. A peregrinação foi acompanhada de sombrias admoestações de especialistas e jornalistas. Mas a maior onda de infecções e óbitos chegou um ano depois, no verão de 2022, pelas artimanhas da biologia, com a variante ômicron. Já quase esquecemos aquilo, exilando a Covid-19 para o rodapé da História. O pesadelo passou, sem deixar os rastros previstos —exceto um, que ninguém profetizou.

Morre o ex-ministro Raul Jungmann

Por Lauro Jardim / O Globo

Morreu agora há pouco, em Brasília, aos 73 anos, o ex-ministro e ex-deputado federal por três mandatos Raul Jungmann. Ele estava internado no DF Star e lutava havia anos contra um câncer no pâncreas.

O ex-ministro chegou a ficar internado por longo tempo. Mas foi para casa recentemente já estava sob cuidados paliativos. No fim de semana, voltou ao hospital.

Jungmann foi ministro cinco vezes. No governo FHC, foi ministro do Meio Ambiente, do Desenvolvimento Agrário e de Políticas Fundiárias. No governo Temer, ocupou o Ministério da Defesa e em 2018 foi o primeiro ministro da Segurança Pública do país (o cargo, que agora Lula promete recriar, foi extinto no governo Bolsonaro).

Pernambucano, Jungamnn começou a militar na política no PCB, com o partido ainda na clandestinidade. Depois, ajudou a fundar o PPS, onde ficou até 2018,

Autoridades destacam legado democrático de Raul Jungmann

Por Danandra Rocha / Correio Braziliense

Ex-ministro, que morreu neste domingo (18/1), recebe homenagens de líderes de todos os Poderes e governadores

A morte de Raul Jungmann, neste domingo (18/1), provocou forte repercussão entre autoridades dos Três Poderes, governadores, parlamentares e lideranças políticas. Reconhecido pela capacidade de diálogo e pela atuação em momentos decisivos da vida institucional do país, o ex-ministro foi lembrado como uma referência republicana e democrática. Procurada pelo Correio, a família informou que não irá se manifestar.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), destacou a trajetória pública de Jungmann e lembrou a homenagem prestada recentemente. “Recebo com pesar a notícia do falecimento do ex-deputado federal, ex-ministro e presidente do Instituto Brasileiro de Mineração, Raul Jungmann. Ainda em dezembro, em nome da Câmara dos Deputados, concedi a Jungmann uma Moção de Louvor. Foi um reconhecimento da sua trajetória pública, de serviço prestado ao país”, afirmou. Motta ressaltou ainda “as lições sobre diálogo, construção de pontes e respeito institucional”.

Poesia | Mauro Mota - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Antônio Maria e a saudade do Recife

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

"Será interessante observar como a tomada de poder por Trump afetará a política interna de Taiwan. Mas, além desse ponto crítico, não são apenas a China e seus aliados regionais de um lado, e os EUA e os países da região com inclinação ocidental —sobretudo Japão, Coreia do Sul e Austrália — que se enfrentam.

A Índia também está em estreita proximidade, buscando agora suas próprias aspirações de se tornar uma potência mundial. A mudança nas relações de poder geopolítico se reflete não apenas na região do Pacífico, mas também na ascensão de potências médias como Brasil, África do Sul e Arábia Saudita, que buscam, com autoconfiança, maior independência. Muitos desses países em ascensão estão buscando admissão na associação mais ampla e flexível dos BRICS. O fim da hegemonia ocidental também é indicado pelas profundas transformações geoeconômicas da ordem econômica mundial liberal que os EUA criaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não que essa ordem comercial mundial baseada em regras — agora também pressionada pelo próprio Trump — possa ser simplesmente liquidada, como se vê hoje na interessante disputa sobre o fornecimento de “terras raras”; mas dificilmente algo ilustraria melhor as restrições de política de segurança, agora rotineiras, ao comércio mundial do que a recente decisão do governo alemão — que se orgulha de ser o campeão mundial das exportações — de sustentar com fundos estatais a indústria siderúrgica alemã, que já não é competitiva internacionalmente.

Embora essas mudanças nas relações de poder geopolítico já fossem evidentes há algum tempo, e embora a reeleição de Trump não pudesse ser descartada quando a guerra na Ucrânia começou, os governos ocidentais não conseguiram compreender, após a invasão russa, que esse conflito — uma vez que seu início não pudesse ser evitado — precisava ser concluído durante o mandato de Joe Biden.

Enquanto isso, o segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países."

*Jürgen Habermas (1929),é um filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, sendo membro da Escola de Frankfurt. De palestra proferida na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025: Será que a UE ainda consegue escapar da influência autoritária dos EUA?

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa entre China e EUA exige nova estratégia do Brasil

Por O Globo

Doutrina Trump desafia Itamaraty a renegociar termos que tragam benefícios ao país

A nova doutrina geopolítica de Donald Trump impõe desafio não trivial à diplomacia brasileira. A captura do ex-ditador Nicolás Maduro pelos americanos e a intenção declarada de Trump de assumir o controle do petróleo venezuelano deixaram claro para a América Latina que a reedição da Doutrina Monroe com seu Corolário Trump não é bravata.

Enquanto os Estados Unidos mantinham distância do continente, a China aproveitou para fincar raízes. Passou a financiar projetos de infraestrutura, a erguer fábricas e a firmar parcerias em setores estratégicos, como energia, mineração ou agronegócio. Agora, o Itamaraty será testado na defesa dos laços brasileiros com a China, maior parceiro comercial brasileiro, mas também na negociação de termos vantajosos na maior aproximação com Washington.

Conversas vãs. Por Merval Pereira

O Globo

Bem que o Ministro dizia que estamos numa cleptocracia.

Mas ele disse isso quando apoiava a Lava-Jato.

Mas, pelo jeito, tinha razão. Tá todo mundo envolvido nos Três Poderes.

No Legislativo também?

Você não viu aquele deputado que apresentou um projeto para colocar o limite do Fundo Garantidor de 250 mil para 1 milhão de reais? Do nada.

Já era para prevenir. Sabia o que ia acontecer.

Mas o caso de agora tem a ver com a Lava-Jato?

O inusitado Dias Toffoli. Por Míriam Leitão

O Globo

A maneira com que Dias Toffoli tem conduzido o caso Master mostra que ele não tem condições de continuar à frente do processo

O ministro Dias Toffoli não se cansa de tomar decisões inusitadas. Elas se tornaram diárias. Na última semana, o país viu estarrecido o ministro perseguir a Polícia Federal, depois de ter tentado intimidar o Banco Central. Ele escolheu os peritos que vão trabalhar no material recolhido na segunda fase da Compliance Zero. Deu à PF dois dias para ouvir 11 envolvidos e dentro do Supremo Tribunal Federal. É bizarro e desrespeitoso. Quem tem que escolher peritos, fazer as oitivas no prazo mais eficiente para a investigação é a Polícia Federal e, por óbvio, nas instalações da polícia que as pessoas têm que ser ouvidas.

Vergonha alheia. Por Dorrit Harazim

O Globo

María Corina Machado jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.

Êxitos e fracassos EUA no mundo. Por Elio Gaspari

O Globo

Lista reúne desde a invasão no Iraque, como destaque negativo, até o Plano Marshall, como positivo

As dez piores decisões

1) Iraque, 2003

A invasão do Iraque foi considerada a pior decisão da política externa dos Estados Unidos. Deu tudo errado.

2) Vietnã, 1965

No dia 8 de março, 3.500 fuzileiros navais americanos desembarcaram em Da Nang, no Vietnã do Sul.

3) 1838, EUA x Cherokees

O presidente Andrew Jackson conseguiu aprovar a lei que permitia a remoção dos nativos de suas terras. O Exército levou 100 mil Cherokees para as terras a Oeste do Rio Mississippi.

Morte de Manoel Fiel Filho escancarou a tortura nos quartéis do regime militar. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia em São Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico

Há exatamente 50 anos, num sábado, às 22 horas, um Dodge Dart parou em frente à casa do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato contínuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: “O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas”. Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com o macacão do operário morto. “Vocês o mataram! Vocês o mataram!”, gritou desesperada a esposa do operário metalúrgico morto em 17 de janeiro de 1976.

Entrevista | Guilherme Boulos: ‘Esquerda precisa dialogar com nova classe trabalhadora’

Guilherme Caetano e Vera Rosa / O Estado de S. Paulo

Ministro da Secretaria-Geral faz autocrítica, mas concentra artilharia em Flávio e Tarcísio Ministro da SecretariaGeral, é deputado federal pelo PSOL e está licenciado. Foi líder dos sem-teto e disputou a Prefeitura duas vezes

“O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na pratica, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será candidato.”

Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda perdida para a direita e atrair trabalhadores que têm flertado com o bolsonarismo, como aqueles das plataformas de aplicativos.

“A esquerda precisa aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora”, disse Boulos em entrevista ao Estadão, fazendo uma autocrítica global. “No mundo, a esquerda está lidando com esse mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu entre a esquerda e o povo evangélico”.

Ex-líder dos sem-teto, o novo ministro virou um dos principais nomes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia bolsonarista. O estilo combativo aparece até mesmo na parede de seu gabinete, onde há um brasão com a frase Madeira que Cupim não Rói, uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna.

Nesta temporada, os dois principais alvos de Boulos são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na sua avaliação, ainda não está certo qual deles será o desafiante de Lula.

Master: pimenta para todo lado. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Toffoli resvala para o perigoso terreno da obstrução de Justiça, usando a própria Justiça

O ministro Dias Toffoli, relator do Caso Master, resvala para um perigoso terreno usado por investigados: obstrução de justiça. No seu caso, usando a própria Justiça e a sua posição excepcional dentro dela. Sem consenso, o STF não sabe como reagir e não se ouve uma palavra do seu presidente, Edson Fachin, que está acuado.

O impedimento de Toffoli no caso Master é óbvio e cristalino, após revelações sobre sua amizade e o voo com advogado do grupo, e agora as relações financeiras de seus irmãos com o braço operador e cunhado de Daniel Vorcaro, pastor Fabiano Zettel.

O mundo às avessas. Por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Os Estados vêm manifestando sua inconformidade com a derrogação do Direito Internacional por meios diplomáticos

A mensagem mais explícita que vem sendo comunicada na atual dinâmica da vida internacional é a da desconsideração do Direito Internacional e, neste âmbito, de suas normas mais relevantes voltadas para balizar o quadro de referências no qual normalmente opera a densidade da convivência interestatal no espaço da interdependência do mundo contemporâneo.

Essas normas, elaboradas pelos Estados no pós-2.ª Guerra Mundial, foram consagradas na Carta da ONU. Preconizam condições de coexistência entre os Estados. Entre elas: o não recorrer à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado; a obrigação da não intervenção em assuntos de jurisdição interna dos Estados; e o respeito à igualdade soberana dos Estados.

Os limites de uma ação no Irã. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã

Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.

Tarcísio ameaça decolagem de Flávio, um avião já bem vagabundo. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se o governador anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato em São Paulo

Ele só se destacou porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo

última pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas caiu.

Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta arriscada.

Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua candidato.

Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.

Toffoli, acordões, centrões e o novo sistema de corrupção institucional do Brasil. Por Vinicius Torres Freire

Por Folha de S. Paulo

Quem é o juiz final quando está todo mundo no rolo, da roubança à exorbitância de poder?

Queda de Dilma e ascensão de Bolsonaro levaram corruptos sistemáticos ao centro do poder

Quem ainda se preocupa com a República está a se perguntar o que fazer, por exemplo, de Dias Toffoli. Esse ministro do STF toma decisões que encrencam a investigação do Master e da roubança do INSS; tenta meter medo em instituições que procuram esclarecer mutretas, como o Banco Central e a Polícia Federal.

As decisões de Toffoli chegam à fronteira nebulosa do que seria legal. Esticar a lei até esse limite de névoa de guerra tem sido a maneira mundial de avacalhar instituições republicanas, seja jogando duro a fim de usar as normas contra desafetos ou amolecendo a divisão de poderes a fim de se aboletar indevidamente em outras cadeiras do sistema de governo.

Que gente é mesmo essa? Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo  

O preconceito que transparece na fala do prefeito do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais

Irritado com os questionamentos sobre favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente preconceituosa é essa?'

Diz um aforismo afro que "se as palavras lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança verbal do prefeito do Rio de Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os questionamentos sobre seu favorecimento a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com "que gente preconceituosa é essa?"

Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.

Michelle muda o rumo da prosa com o Supremo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Confronto com a Justiça é contraproducente na busca pelo benefício da prisão domiciliar para Bolsonaro

O caminho do assédio agressivo foi substituído pela tentativa de vencer pela via do diálogo e do convencimento

Michelle Bolsonaro (PL) parece convencida de que não adianta confrontar o Supremo Tribunal Federal (STF). Para tentar dar ao marido uma chance de obter a prisão domiciliar, ela optou nos últimos dias por substituir o assédio agressivo pela via do diálogo e do convencimento.

Se a estratégia convencerá o ministro Alexandre de Moraes de que "seu Jair" merece o benefício e, em casa, não voltará a desafiar a Justiça, são outros quinhentos. O importante aqui é apontar a inflexão na abordagem da mulher do ex-presidente.

As tripas das palavras. Por Ruy Castro

Por Folha de S. Paulo

Azul, girafa, haxixe, safári, salamaleque, sucata e xerife vieram do árabe, sabia?

E mulato não vem de mula, mas do árabe muladi, o nascituro de um casamento interétnico

Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: "Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia...", não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.

Poesia | O albatroz, de Charles Baudelaire

 

Música | Dolores Duran - Castigo

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Karl Marx* - Democracia

“Dignidade pessoal do homem, a liberdade, seria necessário primeiramente despertá-la no peito desses homens. Somente esse sentimento que, com os gregos, desaparece desse mundo, e que, com o cristianismo, se evapora no azul do céu pode de novo fazer da sociedade uma comunidade dos homens, para atingir seus fins mais elevados: um Estado democrático.”

*Karl Marx (1818-1883), Euvres, III, Philosophie, p. 383, citado em “A democracia contra o Estado”, p.54. Editora UFMG, 1998.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Transferência de Bolsonaro foi uma concessão sensata

Por O Globo

É justificável oferecer-lhe condições melhores na cadeia, sobretudo levando em conta seu estado de saúde

Foi sensata a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro da Superintendência da Polícia Federal (PF) para a instalação do quartel da Polícia Militar do Distrito Federal conhecida como Papudinha, onde ficará em condições melhores. A mudança foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Advogados e a família defendiam prisão domiciliar, alegando problemas de saúde e más condições da prisão. Mas na PF ele já recebia tratamento digno e tinha acompanhamento médico em tempo integral, como acentuou Moraes em sua decisão. A transferência foi uma concessão a Bolsonaro. Voltar à prisão domiciliar não se justificaria, pois ele tentou romper a tornozeleira quando estava detido em casa.

Lula sai na frente do acordo entre Mercosul e EU

Por Victor Correia, Francisco Artur de Lima e Fabio Grecchi / Correio Braziliense

Presidente se reúne com Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, e antecipa assinatura do pacto entre blocos

Apesar de o acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia ser oficialmente assinado hoje, em Assunção, Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou-se à celebração e assumiu o protagonismo ao receber, ontem, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, para uma reunião no Rio de Janeiro. O encontro entre eles, no Palácio do Itamaraty, foi interpretado como uma forma de destacar a preponderância do Brasil nas negociações. Exceto no governo de Jair Bolsonaro, em 25 anos de negociações, os maiores esforços para que o acerto entre os dois blocos saísse foram nas presidências de Lula e de Dilma Rousseff.

O encontro com a presidente da CE embute, também, uma insatisfação. O Paraguai, que agora preside o Mercosul, havia convocado para a celebração da assinatura apenas os ministros de Relações Exteriores dos países do bloco, mas mudou os planos na última hora para incluir os presidentes, o que desagradou Lula — que decidiu não comparecer ao evento de hoje. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, mas os demais chefes de Estado estarão no evento: Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia) confirmaram participação.

O fim da inocência. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

A espetacular ascensão de Donald Trump à condição de dono do mundo modifica o entendimento de muitos observadores e coloca alguns especialistas na embaraçosa condição de aprendizes diante de tanta novidade. O presidente dos Estados Unidos não hesita em utilizar a força para sequestrar um presidente da República, anunciar a incorporação da Groenlândia, como Hitler fez com a Áustria nos anos 1930, além de ameaçar bombardear aliados que não façam comércio com seu país. Prática curiosa, semelhante a que os portugueses utilizaram contra cidades da Índia no século das grandes navegações.

A política externa do império: projeção e produto de sua história. Por Roberto Amaral *

Nada do que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

Quando a polarização vence o cálculo. Por Juliana Diniz

 O Povo (CE)

Todos os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro têm suas fragilidades, são políticos com debilidades que podem ser trabalhadas por um bom marketing e Flávio, o nome em evidência, não parece ser exceção à regra

Acreditamos que a política partidária é movida por interesses estratégicos e racionalidade, mas a realidade mostra que, não raro, é no campo do blefe, do arremedo e da sorte que decisões importantes são resolvidas. Há apostas que parecem estapafúrdias e que, no entanto, por fatores previsíveis e por outros imprevisíveis, acabam se consolidando com opção. Eu incluiria a candidatura possível de Flávio Bolsonaro nesse horizonte.