sábado, 29 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso promove retrocesso ao derrubar vetos de Lula

Por O Globo

Para atingir Executivo, Parlamento deteriora proteção ambiental e quadro fiscal. Maior derrotado é o Brasil

Congressistas podem ter mirado no governo, mas atingiram duramente o Brasil ao derrubar, na quinta-feira, vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpostos a dois projetos: o que muda regras de licenciamento ambiental e o que estabelece o Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). No primeiro, abriram a porteira à devastação do meio ambiente, mandando às favas qualquer preocupação com a preservação e ameaçando as metas ambientais brasileiras, logo depois do fim da COP30, em Belém. No segundo, beneficiaram estados endividados pondo em risco o equilíbrio das contas públicas. Em suma, um desserviço ao país.

Girando em falso, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A insistência em viver a disputa eleitoral como um choque entre polos enraivecidos dificulta que forças de mediação entrem em campo

Numa bela passagem de Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco estampou um pensamento que permanece instigante mesmo depois de ter atravessado tempos e gerações. Escreveu: “Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como o movimento da Terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que têm consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação”.

A frase famosa pode nos ajudar a refletir sobre o Brasil.

Fazemos parte da política que se movimenta, mas não supomos estar parados. Imaginamos estar na vanguarda dela, conduzindo-a. Na verdade, mais colidimos do que interagimos com ela. Os mais dinâmicos e espertos fazem da política uma via de ascensão. Nossa política é movimento permanente, desatento ao que importa.

Mutações não podem desvirtuar a essência da Constituição, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Sistema político brasileiro passa por acentuado processo de mutação

Força está migrando para o Poder que tem menos confiança da população

O sistema político brasileiro vem passando por um acentuado processo de mutação no que se refere à relação entre os Poderes. Embora não se deva cravar que abandonamos o chamado presidencialismo de coalizão, fica cada vez mais claro que o presidente perdeu a posição de dominância em relação ao Legislativo, tornando-se cada vez mais dependente do equilíbrio de forças dentro do Supremo Tribunal Federal.

derrubada dos vetos presidenciais à nova lei de licenciamento ambiental e a ameaça de não ratificação da nomeação de Jorge Messias para o STF confirmam esse processo de realocação de forças, em que o Parlamento busca ao mesmo tempo impor maiores custos de governabilidade ao Executivo e reduzir a influência do Executivo na composição do Supremo. Afinal, o Supremo não apenas tem jurisdição criminal sobre os membros do Parlamento como também decide vários temas de interesse dos parlamentares.

Autoritarismo global se inspira nos EUA, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Suprema Corte permissiva e Congresso submisso transformam Executivo no terror da democracia

A presidência passou de um cargo modesto para uma superpresidência que centraliza poder

Em uma conversa com um amigo paquistanês, lamentei a recente decisão do Paquistão de conceder poderes ampliados ao chefe do exército, incluindo imunidade vitalícia contra processos judiciais. Meu amigo respondeu: “Estamos apenas seguindo os passos dos EUA. A Suprema Corte americana não decidiu que o presidente poderia assassinar seu oponente político e ainda assim ser imune a processos na Justiça?”

Se os Pais Fundadores dos EUA retornassem e analisassem seu legado, a presidência moderna sem dúvida seria algo que os surpreenderia. Eles projetaram o sistema político americano para fragmentar o poder. Eles estavam reagindo contra uma monarquia e a “acumulação de todos os poderes nas mesmas mãos” (Federalista n.º 47).

Bolsonarismo arrefece, e aliados já cogitam Tarcísio sem Bolsonaro, por Thaís Oyama

O Globo

Aliados começam a semear a ideia de convencer governador a se candidatar sem o apoio do ex-presidente

‘Se for o Macaco Tião contra Lula, eu prefiro o Macaco Tião.’ Com a frase, o deputado Eduardo Bolsonaro, líder do bolsonarismo selvagem, reiterou ontem o que havia dito dias antes em entrevista ao UOL: não descarta apoiar uma eventual candidatura do governador Tarcísio de Freitas ao Planalto, ainda que no contexto de um segundo turno.

— Se o Tarcísio for esse candidato [contra Lula], a gente vai acabar falando, sim, de Tarcísio de Freitas — disse.

Ninguém arrisca um pão com leite condensado na garantia de que a afirmação do deputado se sustentará. Mas merece atenção ela ter sido feita num momento em que uma conjuntura inédita se desenha.

De um lado, pesquisas mostram o arrefecimento do apoio popular a Jair Bolsonaro, definitivamente preso e reduzido de Mito a “seu Jair” — por obra da delicadeza de uma policial penal que, ao analisar a calcinada tornozeleira eletrônica do ex-presidente, dirigiu-lhe o tratamento benevolente que se costuma dar a pessoas idosas e frágeis quando fazem algo que não deveriam. Do lado de Tarcísio, o vetor aponta para a direção oposta. Em fase animada, ele retoma suas falas de presidenciável e prospecta cenários para avaliar que nome daria um bom vice.

Golpistas foram condenados, mas democracia segue incompleta, por Flávia Oliveira

O Globo

Não é democrático o Estado que permite a tomada de territórios populares por grupos criminosos

Novembro termina com o desejado desfecho da Ação Penal 2668, que puniu o núcleo crucial da trama golpista, incluindo um ex-presidente da República, sentenciado a 27 anos e três meses em regime fechado, três generais e um almirante. Na semana derradeira, a prisão antecipada de Jair Bolsonaro numa sala tornada cela na Polícia Federal em Brasília e o trânsito em julgado, que encarcerou os demais integrantes do topo da organização criminosa, à exceção de um foragido, Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin.

O deputado federal (PL-RJ) foi o candidato bolsonarista a prefeito do Rio de Janeiro no ano passado. Foi derrotado por Eduardo Paes (PSD) no primeiro turno. Tivesse ganhado, escaparia pela fronteira amazônica abandonando a cidade, como fez com o mandato na Câmara? Fica o questionamento a quem entrega o voto a imerecidos. O abandono dos cargos para fugir da Justiça tornou-se método na extrema direita brasileira, a ponto de ser argumento para tirar Bolsonaro da custódia domiciliar para a prisão preventiva.

Um ciclo se fechou, André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A atual geração não deverá ver mais uma tentativa de derrubada violenta do poder no Brasil. Mas, é bom se manter alerta

O mais recente capítulo da longa história de tentativas de golpe militar no Brasil se encerrou nesta semana. O ministro Alexandre de Moraes anunciou o fim do processo, seu trânsito em julgado e determinou que os réus comecem a cumprir pena. São quatro oficiais de alta patente, um capitão, ex-presidente da República, e Alexandre Ramagem, civil, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que se aproveitou de um descuido das autoridades e fugiu para os Estados Unidos. Ele, aliás, inaugurou uma nova rota que é utilizada no sentido contrário pelos cubanos que fogem para o Brasil. A Guiana mantém relações estáveis com Cuba e também com os Estados Unidos.

Xandão como ideia, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O gênio xandônico não voltará mais à lâmpada. A coação contra o STF – eis o texto – é perene. O juiz deve estar de prontidão, para agir de ofício, para se antecipar, corrompido o sentido do verbo atacar de modo que a manifestação do pensamento seja compreendida preventivamente como ataque às instituições, de súbito criminalizada a expressão que considere haver uma “ditadura do Supremo”.

O sujeito tem o direito de difundi-la; sem que a prática o classifique como agente numa organização criminosa, vício em função do qual uma vigília logo consistirá em disfarce para “movimentos populares criminosos” – esse conceito em que tudo cabe. É lindo quando se condena à baciada, sem individualização de condutas, aqueles de quem não gostamos. Né?

A demência do general, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Diagnóstico de Alzheimer poderá dar a Augusto Heleno benefício de prisão domiciliar

Seria desejável criar controles para evitar que pessoas em declínio cognitivo assumam cargos políticos?

Está dando certo. O general Augusto Heleno apareceu com um diagnóstico de Alzheimer, seus advogados pleitearam prisão domiciliar e a PGR concordou. É bem possível que Alexandre de Moraes conceda o benefício humanitário. Ao contrário de Jair, Heleno não fez nada que pudesse ser interpretado como tentativa de fuga.

Sei que muitos desconfiarão do oportuno diagnóstico, mas não me embrenho nessa seara. O que me interessa aqui é a questão da capacidade jurídica. A crer no estratego, ele descobriu ter a doença em 2018 e, no ano seguinte, tornou-se ministro de Estado. Passamos quatro anos sob o tacão de uma alta autoridade que já apresentava síndrome demencial ou ao menos sinais de declínio cognitivo suficientes para procurar um médico.

O que ocorre com o capitalismo brasileiro? Por Alexa Salomão

Folha de S. Paulo

Na história, negócios vivem ciclos ruins, mas está difícil entender a recente toada de crises e prejuízos

Investidor sofre com fraude contábil, manipulação de ações e até crime organizado na economia formal

Vira e mexe, a história dos negócios brasileiros, como ocorre em outros países, vive ciclos ruins. A abertura de mercado nos anos 1990, por exemplo, criou um choque competitivo que levou muitos à falência. Às vezes, o baque vem de fora. Foi assim na crise financeira global de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers. Tivemos a Operação Lava Jato, momento em que Justiça e polícia propunham passar a limpo a corrupção entre público e privado.

É difícil, porém, definir a toada mais recente, que esfarela investimentos privados e, principalmente, a credibilidade institucional. O caso da Lojas Americanas espalhou espanto e prejuízos. Como um negócio com as digitais de três dos mais bem-sucedidos empresários do Brasil —Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira— pôde se envolver numa fraude contábil que, descoberta, levou a um rombo financeiro superior a R$ 25 bilhões?

A Transição Energética, o Brasil e a COP 30, por George Gurgel de Oliveira,

A interdependência entre as questões econômicas, sociais e ambientais e as demandas de energia colocam a discussão da questão energética nos planos nacional e internacional, mobilizando interesses de estado, de governo, de mercado e da cidadania preocupados com a maneira pela qual as potencialidades energéticas estão sendo apropriadas da natureza e de que maneira são utilizadas nas diversas atividades humanas. Estas relações, históricas e atuais, acontecem de maneira desigual entre os EUA, a China, a Rússia, os países da Europa, América Latina, África e Ásia, com impactos diferenciados na vida econômica, social e ambiental de cada sociedade. Estas escolhas e relações determinaram e determinam sociedades (in)sustentáveis.

Perde o Brasil sem Rodrigo Pacheco no STF, por Marcus Pestana

Em 2012, Daron Acemoglu e James A. Robinson publicaram um importante livro, que os levou ao Nobel de Economia em 2024. POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM discute os determinantes do desenvolvimento. E qual é a conclusão central? A diferença entre o êxito e o fracasso de uma nação é fruto da qualidade de suas instituições.

 As pessoas, os governos, os partidos, passam. As instituições, em países desenvolvidos e democráticos, ficam. As instituições moldam o destino de uma nação. Instituições robustas, legitimadas, inclusivas, promovem a participação social, a inovação, o desenvolvimento e a justiça.

A Constituição é a coluna vertebral da democracia. Aprendamos com o timoneiro da redemocratização e presidente da Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1986, deputado Ulysses Guimarães, no discurso da sua promulgação:

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afronta-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria... A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”.

O mapa para a COP31, por Cristovam Buarque

Veja

É preciso adotar a educação para enfrentar a tragédia ecológica

Não deveria causar espanto o fato de a COP30 não ter incluído em suas decisões um “mapa do caminho” para o mundo abolir o uso de combustíveis fósseis (leia a reportagem na pág. 52). Porque, embora busque soluções para o problema das mudanças climáticas no planeta, a COP reúne países independentes, cada um com interesses nacionais e imediatos. Com seus eleitores mais preocupados com o preço da gasolina do que com o nível do mar, fica difícil adotar uma estratégia de conjunto que implique sacrifícios para cada pessoa e cada país. O governante toma decisões comprometido com o presente de sua população, não com o futuro da humanidade.

Soldar a democracia, por Jamil Chade

CartaCapital

O mundo olha com especial atenção para o encarceramento de Jair Bolsonaro

O historiador e escritor Luiz Antônio Simas nos alerta que não é verdade que o Brasil fracassou em seu projeto. Seria um equívoco pensar que se trata de um país que “deu errado”. Se ele foi instaurado com o objetivo de ser explorado, de dar benefícios às metrópoles e às elites, a única conclusão possível é de que o êxito foi total e duradouro, por gerações e gerações. “O Brasil foi projetado pelos homens do poder para ser excludente, racista, machista, homofóbico, concentrador de renda, inimigo da educação, violento, assassino de sua gente, intolerante, boçal, misógino, castrador, famélico e grosseiro”, escreveu. “O Brasil como projeto, até agora, deu certo. Somos um empreendimento escravagista fodidor dos corpos extremamente bem-sucedido. Fazer o Brasil começar a dar errado é a nossa tarefa mais urgente.”

Golpe no golpismo, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Acaba a histórica Condescendência com Bolsonaro

O despacho de prisão de um ex-presidente da República, de quatro oficiais generais e de um almirante ex-comandante da Marinha, entre outros altos integrantes do governo passado, é o maior golpe que a tradição militar golpista recebeu até hoje. São eles: Jair Messias Bolsonaro, Walter Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Almir Garnier. Somam-se Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, e Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (foragido). A condenação desses personagens é inédita e histórica em termos de punição de golpistas. Expressa um duro golpe na doutrina golpista dos militares que floresceu com o nascimento da República, atingiu o apogeu com o golpe de 1964 e fez-se ouvir num eco pálido e moribundo no 8 de Janeiro de 2023.

A COP e o clima, por Cristina Serra

CartaCapital

Copo meio cheio ou meio vazio?

Vila da Barca é uma comunidade centenária, no bairro do Telégrafo, em Belém do Pará, com cerca de 5 mil moradores. Conhecida pelas palafitas fincadas sobre as águas da Baía do Guajará, a Vila mantém as características de povoação ribeirinha, onde vivem muitos pescadores e suas famílias, em plena área urbana da metrópole de 1,3 milhão de habitantes.

Quando eu tinha 18 anos e ainda era estudante de Jornalismo, pisei na Vila da Barca pela primeira vez. O professor de Fotografia orientara os alunos a andar pela cidade com o olhar atento para os seus habitantes. Escolhi conhecer a Vila. Lembro do choque ao me dar conta do contraste entre as carências da comunidade e o conforto do bairro de classe média onde eu vivia.

O Master e a maestria financeira, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Não há como escapar, no capitalismo as decisões são governadas pela especulação permanente sobre o futuro

A liquidação judicial imposta pelo Banco Central ao Banco Master suscitou manifestações de economistas e jornalistas econômicos. As manifestações buscaram identificar as razões do infausto episódio com base nos critérios que assolam o “espírito microeconômico”.

Vou cometer a ousadia de considerar a derrocada do Master a partir dos movimentos histórico-sistêmicos, gravados inexoravelmente nas formas constitutivas dos mercados financeiros, corpo e alma do capitalismo desde os primórdios de sua existência.

No livro Manias, Panics, and Crashes, o economista Charles Kindleberger faz uma autópsia dos processos maníacos que, inevitavelmente, culminam no colapso de preços dos ativos financeiros e nas crises de crédito. Assim foi em Amsterdã, no episódio da Tulipomania, um antepassado modesto dos grandes crashes dos séculos XX e XXI. Entre 1634 e 1637, os investidores holandeses, muitos de classe média, especularam furiosamente com a possibilidade de negociar, a preços cada vez mais elevados, os bulbos de tulipa, que, ademais, tinham a vantagem de exigir muito pouco ou nada para a sua reprodução.

Poesia | Os três mal amados (Trecho), de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Sem fantasia - Antônio Zambujo & Roberta Sá

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação contra Refit revela que unir esforços é essencial

Por O Globo

Ação contra criminosos envolveu Receita, Procuradoria da Fazenda, MPs, polícias e secretarias estaduais

Foi oportuna a megaoperação deflagrada nesta quinta-feira para desarticular um esquema de sonegação fiscal em cinco estados e no Distrito Federal. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão contra 190 alvos ligados a empresas de combustíveis e ao grupo Refit, dono da antiga Refinaria de Manguinhos. Batizada Poço de Lobato, a ação reuniu mais de 600 agentes e envolveu Receita Federal, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, polícias, Ministérios Públicos e secretarias de São Paulo e outros estados — mostra de que a cooperação entre diferentes instituições é fundamental para combater atividades criminosas.

Comandado pelo empresário Ricardo Magro, que mora em Miami, o Refit é acusado de ser o maior devedor de ICMS no estado de São Paulo e um dos maiores devedores da União. Segundo o MP paulista, o esquema de fraude fiscal causou prejuízos a estados e ao governo federal estimados em mais de R$ 26 bilhões. Autoridades informaram ter bloqueado R$ 10,2 bilhões em bens dos acusados.

Bolsonaro vai preso, e Tarcísio abre o jogo, por Andrea Jubé

Valor Econômico

O momento é mesmo de incertezas

O início da execução da sentença de 27 anos e 3 meses de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma cela da Polícia Federal (PF), deu uma chacoalhada na oposição, que reagiu.

Na mesma data escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para rufar os tambores com a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a direita providenciou um palco para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mandar recados.

Compartilhando os holofotes de quarta-feira (26) com Lula, que comemorou o trunfo eleitoral para 2026, Tarcísio tentou acalmar apoiadores, atordoados com a notícia da prisão e o futuro incerto, diante de uma direita acéfala e fragmentada. “Não tenham ansiedade”, recomendou, durante o fórum UBS WM Latin America Summit, observando que a candidatura da direita poderá ser anunciada até março.

Selo de Ignácio de Loyola Brandão, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Estampa comemorativa do escritor Ignácio de Loyola Brandão pelos 60 anos de seu primeiro livro lembra que a filatelia é uma educativa fonte de conhecimento, de arte, de história

Há dias, os Correios do Brasil lançaram um selo comemorativo dos 60 anos do primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão, membro não só da Academia Brasileira de Letras, mas também, há mais tempo, da Academia Paulista de Letras.

Ele começou com “Depois do sol”, que também abre o ciclo de livros inspirados em suas descobertas do que virá a ser o elenco de suas observações sobre a cidade grande em que passara a viver vindo de Araraquara, sua terra.

Munido com as referências da idílica cidade de origem, o que se tornou característico dos interioranos de muitos recantos do Brasil, desenvolveu um desdobramento literariamente crítico, próprio do romantismo dos que vêm de longe.

Caixa 2 de partidos do Centrão vai secar, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Circulam informações em Brasília de possíveis delações premiadas de figuras-chave dos esquemas desbaratados

Ricardo Magro não é apenas o eixo central da Operação Poço de Lobato, que desbaratou o esquema bilionário de sonegação do grupo Refit. Ele é também um empresário de muitas conexões em Brasília, particularmente com políticos do Centrão. Na capital federal, a percepção é de que a operação capitaneada por polícias civis e militares, Ministério Público e Receita Federal vai trazer dois benefícios para o governo Lula: um aumento da arrecadação formal e secar uma fonte importante de recursos de caixa 2 para os políticos do Centrão.

Com operações mais inteligentes, feitas em conjunto também com autoridades estaduais, os investigadores chegaram ao primeiro elo: os empresários.

A corrupção, como a história, se repete, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É inacreditável como os escândalos brasileiros, inevitavelmente, envolvem bilhões, homens marombados, namoradas maravilhosas, jatos, lanchas, mansões ou apartamentos espetaculares em Miami e Nova York e... promiscuidade com os poderes federais e estaduais, partidos e políticos, eventos, comemorações, viagens. E como seus “negócios” demoram a ser desbaratados!

Daniel Vorcaro, 42 anos, e Augusto Lima, 46, do Banco Master, estão neste caso e agora chega ao time o advogado e empresário Ricardo Andrade Magro, do Grupo Refit, que já passou dos 60, mas desbravou bem antes os mesmos caminhos, que trilha com desenvoltura há anos. Vidão. À custa de quê?

Como sempre, tudo acaba no Rio, onde o Master deu mais um tombo no fundo de pensão dos funcionários (Rioprevidência) e o Refit é o segundo maior sonegador de impostos. Mas os escândalos se estendem ao BRB, banco público do DF, a São Paulo, à União e são calculados em bilhões de reais.

Coalizão de predadores derruba vetos e instaura vale-tudo ambiental no Brasil, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Narrativa de que o Congresso apenas “moderniza o país” esconde a captura legislativa por interesses que rejeitam o consenso científico sobre a necessidade de licenciamento rigoroso

O Congresso Nacional derrubou, ontem, grande parte dos vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, chamada por ambientalistas de “PL da Devastação”. Na Câmara, o placar foi de 295 votos pela derrubada e 167 pela manutenção dos vetos. No Senado, 52 votos a 15. Com isso, o Palácio do Planalto, cientistas, entidades da sociedade civil e ambientalistas sofreram a maior derrota da história na legislação ambiental, considerada, até então, referência para o mundo.

Entre os trechos que devem ser retomados, está a autorização para que atividades e empreendimentos considerados de baixo e pequeno porte — ou com baixo e pequeno potencial poluidor — obtenham licenças por um processo de adesão e compromisso (LAC), mais simples do que o procedimento regular. Ou seja, uma porta aberta para o vale-tudo ambiental, sobretudo na Mata Atlântica, no Cerrado e na Amazônia.

De tédio não se morre no Brasil, por Orlando Thomé Cordeiro

Correio Braziliense

Claro que é absolutamente relevante, pela primeira vez na história brasileira, podermos ter levado a julgamento e condenado pessoas e grupos pelo crime de tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito, incluindo militares de alta patente

Na última semana, o país vivenciou fortes emoções. Sábado passado, fomos despertados com a notícia da decretação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da prisão preventiva do ex-presidente. As primeiras versões sobre a razão da decisão judicial apontavam que a convocação feita pelo seu filho senador de uma vigília em frente ao condomínio onde estava em prisão domiciliar causaria tumulto e poderia criar as condições propícias para uma fuga. Considerando que, semanas antes, outro condenado pela tentativa de golpe tinha fugido para os Estados Unidos, a preocupação parecia fazer sentido.

Porém, algumas horas mais tarde, verificou-se no pedido formulado pela Polícia Federal (PF) o apontamento de um período em que a tornozeleira eletrônica ficara inativa, podendo evidenciar um movimento para sua retirada. Qual não foi a surpresa quando as primeiras imagens mostraram a tentativa de danificar o equipamento com o uso de um ferro de solda, confirmada pelo próprio preso, alegando, no primeiro momento, tê-lo feito por curiosidade e, posteriormente, na audiência de custódia, afirmou ter tido um surto por uso de medicamentos.

Literatura, vocação, por José Sarney

Correio Braziliense

Comecei a escrever muito moço. Com meu pai, aprendi a amar os livros, amor que me acompanha por toda a vida. Sem eles não sei viver: vivo com eles

Ontem, na Academia Brasileira de Letras, a editora Ciranda Cultural lançou, sob um novo selo, Principis, meus três romances: O Dono do Mar, Saraminda e A Duquesa vale uma missa. Ao mesmo tempo, a Academia me fez uma homenagem que muito me tocou, ao me dedicar uma sessão especial, com meus confrades Domício Proença e Antônio Carlos Secchin analisando minha obra de prosador e de poeta.

Comecei a escrever muito moço. Com meu pai, aprendi a amar os livros, amor que me acompanha por toda a vida. Sem eles não sei viver: vivo com eles. Primeiro aprendi a ler alguns clássicos, na pequena biblioteca que tínhamos em São Bento, no interior do Maranhão. Depois comecei a fazer, à mão, pequenos livros, com folhas datilografadas, A Canção Inicial e Poemas Decadentes. Participei, mais tarde, de um pequeno grupo que sonhava recuperar o Maranhão: éramos escritores e pintores. Ali, tive grandes companheiros, como o grande poeta Bandeira Tribuzzi, que fora estudar em Coimbra, e nos trouxera a descoberta da poesia portuguesa, sobretudo Fernando Pessoa.

Dos livros e da literatura, por Ivan Alves Filho*

Escrevi uma vez que a Literatura vai além da própria Literatura, incorporando todas as esferas da vida. No Brasil, o melhor da nossa Literatura pode até não ter um conteúdo panfletário – e eu penso que não tem –, mas é uma cultura de resistência, no sentido de mergulho na nossa identidade e nos impasses promovidos pelas nossas mazelas sociais. Isto é, ela pode ser apreendida a partir de sua dimensão social, estética, ou, ainda do seu caráter experimental e de seus aspectos regionais. E pode ser até a soma disso tudo, enquanto expressão profunda de cada um de nós. Eu vejo a Literatura quase como um complemento da Biologia: ela é uma história de vida. Há algum tempo conheci a palavra guarani tekoporã, que significa algo como “viver com beleza” (de tekó, modo próprio de ser ou cultura, e porã, beleza, o bem). 

Literatura é isso: uma vida em coletividade, com beleza. Daí a sua grandeza e importância em nossas existências. A Literatura busca a verdade, mas de uma maneira própria: pelo belo. Essa é a sua forma de integração ao mundo e de interpretá-lo. O belo como o elo com o mundo. A realidade sintetizada em palavras.

Governo e Congresso perdem com embates, por Vera Magalhães

O Globo

Lista imensa de choques não é boa para nenhum dos lados, menos ainda para um país com tantas urgências, da segurança à estabilidade fiscal

A facilidade de arregimentar maiorias e impor derrotas, algumas delas amargas, ao governo pode dar aos presidentes da Câmara e do Senado a impressão de que saem vitoriosos dos embates, mas a conta de perdas e ganhos com a manutenção desse ambiente não é tão simples como parece.

A rebordosa da PEC da Impunidade deveria ter ensinado a deputados e senadores, ainda mais às vésperas de ter de ir pedir votos nas suas bases, que há um limite que a sociedade está disposta a aceitar para conchavos, defesa de pautas corporativistas e descaso com temas como meio ambiente, justiça tributária e combate à impunidade.

As operações recentes da Polícia Federal em parceria com a Receita Federal têm explicitado as relações nada republicanas de empresários envolvidos em toda sorte de delinquências com cabeças coroadas do Parlamento.

Fim do ciclo, por Pablo Ortellado

O Globo

Está na hora de encerrar os inquéritos contra as mobilizações antidemocráticas e de conferir transparência ao processo

Com a condenação de Jair Bolsonaro e dos generais conspiradores transitada em julgado, encerramos o ciclo de resposta institucional ao golpismo dos anos de 2022 e 2023. De lá até agora, o Supremo Tribunal Federal (STF) assumiu poderes extraordinários que esperamos ter sido excepcionais e transitórios. Está na hora de encerrar os inquéritos contra as mobilizações antidemocráticas e de conferir transparência ao processo, para que a sociedade possa avaliar o que foi feito.

Cruzadinha no xadrez, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Jair Renan deixou Balneário Camboriú para visitar o pai na cadeia em Brasília. “Tentei levantar o ânimo do meu velho”, declarou, ao sair da Polícia Federal. O Zero Quatro disse ter levado “alguns livros” para o capitão. A frase despertou a curiosidade dos repórteres, que quiseram saber os títulos escolhidos. “Trouxe um caça-palavras para ele”, informou o vereador.

O chefe do clã nunca foi conhecido pelo hábito da leitura. Apesar disso, sempre teve opiniões fortes sobre a cena editorial. No Planalto, tentou interferir no formato dos livros didáticos. “Os livros hoje em dia, como regra, é (sic) um montão, um amontoado de muita coisa escrita. Tem que suavizar aquilo”, ordenou, em janeiro de 2020.

Hugo Motta foi estrela de jantar oferecido pela Refit em Nova York, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente da Câmara é criticado por não pautar projeto contra devedores contumazes

O presidente da Câmara, Hugo Motta, foi a estrela de um jantar oferecido em Nova York pela Refit, alvo da megaoperação da Receita Federal contra fraudes fiscais.

O jantar ocorreu há seis meses, na noite de 12 de maio. Estava presente o dono da refinaria, Ricardo Magro, além de outros empresários e políticos brasileiros.

Na época, a Refit já era conhecida como a maior sonegadora de ICMS do país.

A irresponsabilidade fiscal do Congresso, por Bráulio Borges

Folha de S. Paulo

Não é só o Executivo federal que deve ser cobrado

Legislativo precisa apontar fontes de financiamento para as isenções

Estão em discussão no Congresso várias pautas-bomba fiscais, como a regulamentação da aposentadoria especial de agentes comunitários (aprovada no Senado nesta semana), aumentos dos limites de faturamento do Simples e MEI, ampliação dos critérios de elegibilidade para o BPC/Loas e criação de adicional de insalubridade para professores. Caso todas elas sejam aprovadas, o impacto sobre as contas públicas pode chegar a R$ 100 bilhões no acumulado de 2026 e 2027.

Ainda que algumas dessas medidas possam ser meritórias (várias certamente não o são), o problema é que o Congresso brasileiro quase nunca aponta a fonte de financiamento para essas novas medidas – algo que poderia ser feito por meio de aumento da carga tributária, por uma redução de outras despesas e renúncias fiscais ou por uma combinação delas. Esse tipo de postura do Congresso é uma afronta à responsabilidade fiscal, em particular ao artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Centrão vai mesmo barrar Messias? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Grupo parlamentar costuma criar problemas para o governo e depois vender soluções

Apesar de desserviços prestados ao país, bloco funciona como anteparo a forças antissistema

Senadores do chamado centrão vão mesmo vetar o ingresso de Jorge Messias no STF? É difícil dizer. A estratégia básica do grupo é criar dificuldades para extrair facilidades. Se o governo Lula der a Davi Alcolumbre compensações que o parlamentar considere justas, é perfeitamente possível que ele se torne, da noite para o dia, o melhor amigo de Messias.

Ocorre que, de tempos em tempos, o centrão promove um reajuste geral da tabela de preços. Desfere um golpe mais duro contra a administração para indicar que o apoio passou a custar mais caro. É numa dessas que o indicado de Lula para o tribunal pode ter seu nome vetado.

Lula enfrenta parada indigesta, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Na democracia, presidente algum se sustenta em estado de contraposição acentuada ao Parlamento

Lula tem muito a perder se não assumir a tarefa de reequilibrar o jogo de forças com o Congresso

Convites de presidente de República habitualmente não se recusam, ainda mais quando dirigidos a autoridades que estão na mesma cidade e sem afazeres que as impeçam de comparecer. A não ser que as ausências contenham significado e recado explícitos de contrariedade.

Foi assim interpretada a decisão dos presidentes da Câmara e do Senado de faltar à cerimônia de assinatura da lei de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o senador Davi Alcolumbre (União-AP) atiraram em várias direções: conseguiram que as ausências tivessem mais destaque que o projeto e mostraram que o desacerto vai além de atritos com líderes petistas —alcança o presidente Lula (PT).

Radiografia do 'falso 9', por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

'Falso 9' é o 9 que não entra na área, não leva bico no tornozelo e raramente faz gol

Tostão, em 1970, foi o protótipo do 'falso 9'. Mas nunca mais houve um Tostão. Só falsos 'falsos 9'

Rara a semana em que não escuto um comentarista de futebol se referir ao "falso 9". Está aí um número que não consta nas costas das camisas dos jogadores: "Falso 9". Nelas, lê-se apenas 9, e cada time tem um. O 9 é o centroavante, um sujeito grande, forte, pesado, e tem de ser assim. Pela sua posição —jogando de costas para o gol, prendendo os zagueiros na área e fazendo o pivô para os companheiros que vêm de frente—, o 9 é talvez o jogador mais sacrificado do time. Passa o jogo levando bicos no tornozelo, pisões no calcanhar, trompaços na bunda e sussurros ao ouvido, tudo aparentemente inócuo, mas cujo somatório vai doer e muito, no vestiário, depois do jogo.

Poesia | Eu, de Clarice Lispector

 

Música | A Volta do Boêmio

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Opinião do dia – Karl Marx* (As circunstâncias}

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.”

*Karl Marx (1818-1883). “O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852”, p.7. Os Pensadores, Marx, v. II. Editora Nova Cultura /Abril, 1988