segunda-feira, 27 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gravações em presídios para combater as facções

Por Folha de S. Paulo

Dispositivo legal que permite monitoramento de conversas de presos é medida essencial em segurança pública

A Lei Antifacção autoriza a gravação de conversas entre detentos vinculados a facções, grupos paramilitares ou milícias e seus visitantes

A expansão do crime organizado no Brasil é indissociável do controle que esses grupos exercem nos presídios, inclusive comandando, de dentro dessas instalações, atividades ilícitas externas.

Assim, realizar grandes operações policiais e prender infratores, mesmos os líderes desses grupos, não é suficiente. A inteligência investigativa passa a ser ainda mais importante.

A Lei Antifacção, aprovada em fevereiro, avança nesse sentido com dispositivos que permitem a gravação de conversas entre presos "vinculados a organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares ou milícias privadas e os seus visitantes". O monitoramento pode ser requerido pelo delegado de polícia, pelo Ministério Público ou pela administração penitenciária.

Na eleição, dinheiro chama dinheiro, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Neutralidade do Centrão na disputa presidencial tem também motivação financeira

A semana passada foi marcada pela negativa do Centrão em apoiar a empreitada de Flávio Bolsonaro rumo ao Palácio do Planalto. No lançamento de sua candidatura no sábado, nenhum presidente dos partidos cortejados pelo filho Zero Um compareceu: nem Republicanos, União Brasil ou Progressistas.

Essas legendas justificam a opção pela neutralidade com o desejo de liberdade para negociar individualmente os palanques em cada Estado. Sem celebrar um casamento formal com Flávio Bolsonaro, elas ficam livres para até mesmo dar e receber apoio lulista em algumas circunscrições.

Do outro lado do espectro ideológico, pela primeira vez desde a redemocratização teremos provavelmente um único candidato à Presidência no campo da esquerda - o que abre até a possibilidade matemática de uma vitória de Lula no primeiro turno.

Entrevista | Wellington Dias: "Tirar da fome não é o fim, é só o primeiro passo", por Fernanda Strickland e Rafaela Gonçalves

Correio Braziliense

Ministro rebate ataques ao Bolsa Família, destaca os resultados da política de transferência de renda e afirma que o programa contribuiu para manter o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio seguido, conforme relatório da FAO

Alvo recorrente de críticas nas redes sociais, sobretudo em ano eleitoral, o Bolsa Família é a porta de entrada para uma trajetória de ascensão social, rebate o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. "Estou falando de pessoas com quem a sociedade falhou", diz ele, que viveu a insegurança alimentar na infância no interior do Piauí.

Segundo o ministro, das 28 milhões de famílias que chegaram a receber o benefício, 9 milhões já saíram do programa por terem melhorado de vida — parte do contingente de 21 milhões de pessoas que ascenderam socialmente no país desde 2023.

Em entrevista ao Correio, Dias comentou o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês), que confirma o Brasil fora do Mapa da Fome pelo segundo triênio consecutivo (2023-2025), com a insegurança alimentar severa recuando de 9% para 0,6% da população.

Mesmo com guerras, tarifas comerciais e mudanças climáticas pressionando os preços dos alimentos, o ministro afirma que a transferência de renda, o controle da inflação e a geração de empregos explicam o resultado. Ele também abordou a modernização do Cadastro Único, que passou a cruzar 1,7 petabyte de dados para identificar fraudes. 

Confira os principais trechos:

BTG/Nexus: Dentro da margem de erro, Lula amplia vantagem no 1º e 2º turno, por Luiz Felipe

Correio Braziliense

No 2º turno, Lula abre 4pp contra Flávio, mas vê Ronaldo Caiado crescer e também entrar em empate técnico

Os dados da 7ª rodada da pesquisa eleitoral para presidente da República divulgada pela BTG/Nexus nesta segunda-feira (27/07) apresenta um cenário de estabilidade, com o presidente Lula (PT) mantendo uma vantagem discreta, porém crescente, sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tanto no primeiro quanto no segundo turno.  

Na simulação de 1º turno, Lula lidera a corrida com 42% das intenções de voto, seguido por Flávio, que registra 33%. Na esteira, aparece Ronaldo Caiado (PSD), com 6%, seguido por Renan Santos (Missão) com 5%, Romeu Zema (Novo) com 3%, Augusto Cury (Avante) com 2% e Cabo Daciolo (Mobiliza) com 1%. Os eleitores que declaram voto em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos somam 6%, enquanto 2% não souberam ou não responderam

O povo está fora do Congresso, por Miguel de Almeida

O Globo

Políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.

Não é o tarifaço, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A ameaça à soberania brasileira é uma questão brasileira, na qual o Estado falha em larga escala

Sim, há ameaças à soberania do Estado brasileiro. Mas não vêm dos Estados Unidos. Estão aqui mesmo, escancaradas. São aqueles locais onde o Estado não entra e a lei não vale.

Todo mundo sabe onde estão: nas comunidades, bairros e regiões controlados pelas facções do crime organizado. O caso mais evidente é do Rio de Janeiro.

Mas na vasta e longínqua Amazônia, nem se pode dizer que a soberania do Estado está ameaçada. Já foi perdida para traficantes de cocaína e quadrilhas de garimpeiros. Conseguem despachar seu “produto” de lá até os principais portos brasileiros, burlando (ou corrompendo) diversas polícias estaduais e federais.

Por uma nova direita, por Denis Lerrer Rosenfield*

O Estado de S. Paulo

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro

Urge que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro. Liberal ou conservadora ou mesmo uma mescla dos dois, ela não pode permanecer apenas tributária do antipetismo ou das vicissitudes erráticas do bolsonarismo em geral. Tudo indica, aliás, que o potencial eleitoral deste último está se esgotando, não sendo uma alternativa viável ao governo Lula. Suas fórmulas só capturam a adesão dos convertidos. O Brasil precisa de algo novo.

Milei na convenção, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

A falta de pudor da rede de apoiadores da internacional trumpista pode ajudar Lula

A convenção que lançou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência pelo PL, neste sábado, escancarou a falta de rumo de sua campanha. Os discursos e as participações especiais consagraram a aposta no antipetismo e na evocação da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas falharam em ocultar a falta de brilho pessoal daquele que deveria ser o protagonista do evento, ou seja, o candidato Flávio.

Em um discurso curto, o senador recorreu a dois temas centrais: o mito da perseguição política a Jair e o PT como culpado por todos os males da sociedade brasileira. Mas suas falas tiveram pouca repercussão, ofuscadas que foram pela participação do presidente argentino Javier Milei – que falou praticamente as mesmas coisas, mas com mais “stamina” (como diria o americano Donald Trump), e roubou as atenções.

Campanhas curtas protegem quem já tem mandato, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Dez anos depois, campanhas mais curtas não reduziram os custos e ampliaram a desigualdade entre incumbentes e desafiantes

Mudança acentuou a desigualdade entre incumbentes, aqueles que estão exercendo mandato eletivo, e desafiantes

Neste final de semana aconteceram as primeiras convenções partidárias do ciclo eleitoral de 2026. Elas podem ser realizadas até 5 de agosto e os partidos podem registrar suas candidaturas até 15 de agosto. A campanha eleitoral oficial, com propaganda, só começa em 16 de agosto. A propaganda no rádio e na televisão, ainda mais tarde, em 28 de agosto.

O calendário ajuda a entender por que, faltando pouco mais de dois meses para a eleição, ainda se discute quem ocupará a vice na chapa de Flávio Bolsonaro e se outros partidos o apoiarão formalmente.

Para candidatos conhecidos, e especialmente postulantes a cargos majoritários, tudo vira notícia e negociação, até bate-boca em família. Para quem tenta conquistar pela primeira vez uma cadeira na Câmara, no Senado ou nas assembleias estaduais, cada semana perdida significa menos tempo para se apresentar ao eleitor.

A nova armadilha institucional, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Quanto maior a rejeição a cada um dos polos, mais necessário o outro parece aos seus seguidores

Democracia se encontra em modo sobrevivência e competição democrática deixou de produzir renovação

Vista em perspectiva histórica, a atual eleição presidencial é singular. De um lado, o presidente da República, aos 80 anos, disputa a reeleição depois de exercer a liderança de um partido por quase meio século. Há casos de outsiders que chegaram ao poder em idade avançada (ex. Trump), mas a dependência em relação a uma única liderança é excepcional nas democracias atuais.

Do outro lado, temos o candidato-substituto de um clã familiar, escolhido porque o titular se encontra encarcerado por seu envolvimento em uma conspiração. Seu apoio deriva, em larga medida, da chancela paterna e do que chamo de voto por exclusão.

Brasil tem encontro marcado com o passado na Pequena África, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

O mês de julho tem se mostrado um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil

Cento de Interpretação e Memória Africana no Complexo do Valongo deverá promover um encontro do Brasil com um passado que precisa ser lembrado e jamais reprisado

Para além da mobilização política em torno da luta das mulheres negras contra o racismo e o sexismo, o destino tem feito do sétimo mês do ano um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil.

As tarifas dos EUA contra o Brasil são um erro estratégico, por Luiz Inácio Lula da Silva*

Washington Post (26/07/2026)

Há um ano, fui surpreendido pela publicação, em uma plataforma digital, de carta do Presidente Donald Trump que impunha tarifa de 50% a produtos brasileiros. A menção, logo no primeiro parágrafo, ao ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado no ano passado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado no Brasil — deixava explícita a motivação política da medida.

Nos diálogos que mantive com Trump desde então ressaltei que não é necessário compartilhar as mesmas visões de mundo para buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, somos líderes das duas maiores democracias e economias das Américas. Negociações entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do tarifaço.

Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%. Como resultado, a Global Trade Alert, organização independente baseada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são hoje os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, depois apenas da China. E isso apesar do superávit norte-americano no comércio bilateral de bens e serviços, que ao longo de quinze anos consecutivos acumula 428 bilhões de dólares.

Poesia | Eu, Etiqueta, de Carlos Drummond de Andrade, por Paulo Autran

 

Música | Marisa Monte e Paulinho da Viola - Dança da Solidão, de Paulinho da Viola

 

domingo, 26 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante cobertura vacinal global insuficiente

Por O Globo

Brasil tem se recuperado nos últimos anos, mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes

São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.

Análise das situações: relações de força. Antonio Gramsci*

É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas.  É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios).

[“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência.  Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política )] [23]. 

A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo

A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.

Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.

Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.

Trump e Milei em campanha no Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional

O senador Flávio Bolsonaro lançou a candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência externa nas eleições brasileiras.

A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.

Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo

Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%.

Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.

Tempo contra Flavio, por Merval Pereira

O Globo

Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno

A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.

Flávio Bolsonaro resiste nas cordas, por Elio Gaspari

O Globo

O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos seus sonhos.

Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Medo e delírio em Maceió, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-seminarista, tesoureiro de Collor usava citações em latim ao dissertar sobre corrupção

“Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu’s, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos”. É assim, com tintas de Garcia Márquez, que Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC. Ele e a namorada Suzana foram encontrados com balas no peito na manhã de 23 de junho de 1996. Era o fim trágico do maior vilão da Nova República: o tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.

É preciso entender o que os números querem dizer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Por mais essenciais que sejam, estatísticas acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações

Cada nova edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública merece atenção e esquadrinhamento, sobretudo porque o retrato final continua a apontar para uma sociedade doente — doente de violência. Não foi diferente na semana passada, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Publica divulgou os dados do seu 20º levantamento nacional. No geral, houve melhora considerável: pela primeira vez em duas décadas o número de mortes violentas por 100 mil habitantes ficou abaixo de 20. Em 2017, era bem pior: 31,2 mortes por 100 mil habitantes. Soa pouco? No Japão, esse índice fica em 0,3; na Itália e Coreia do Sul, não chega a 0,7; e nos Estados Unidos, estacionou em torno de 4,0 por 100 mil habitantes.

Sombra de Bolsonaro e Milei refletem isolamento de Flávio, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador assume sobrenome em evento com ares de festa de família, com direito a fantasma digial do pai

Protagonismo inédito a presidente estrangeiro em convenção é coerente com a submissão ao trumpismo

A convenção do PL que ratificou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência neste sábado (25) foi um espetáculo inusual em que o senador fluminense enfim abraçou seu sobrenome e destacou como grande cabo eleitoral um presidente impopular de nação estrangeira.

Sem grandes novidades retóricas a apresentar, Flávio comandou um evento com ares de festa de família —do tipo lacrimosa para fotos, dado o emprego de lenços para enxugar suas lágrimas em São Paulo.

"Eu sei a responsabilidade que meu sobrenome carrega. Eu te amo [meu pai]", discursou o agora candidato, que enfrenta uma estagnação nas pesquisas eleitorais. No mais recente levantamento do Datafolha, ele marca 32% ante 40% no primeiro turno contra o presidente Lula (PT).

Flávio prova que Ustra e Banco Master são faces da mesma moeda, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Discurso de Flávio Bolsonaro reforça seu alinhamento com a estratégia golpista do pai

Atuação do senador desafia a divisão entre bolsonarismo radical e centrão

Para quem gosta de dividir a direita entre fisiológicos do centrão e radicais bolsonaristas, Flávio Bolsonaro é um problema: é tão golpista quanto o pai e tão, digamos, enrolado quanto os Ciros Nogueiras deste mundo.

Em nome da responsabilidade jurídica, devo dizer que ainda não está provado que Flávio Bolsonaro é ladrão.

Tudo o que sabemos é que Flávio empregava parentes de um miliciano que participavam de um esquema de rachadinha, pagou por uma mansão com empréstimo camarada do Banco de Brasília (o mesmo do caso Master), pediu 130 milhões para o dono do Banco Master para fazer um filme que ninguém até agora explicou como pode custar tudo isso, certificou-se de que o dinheiro circularia pelos Estados Unidos, onde seu irmão Eduardo conspira contra o Brasil, e, descobrimos esta semana, emitiu notas fiscais por serviços prestados ao ecossistema Master.

Mais que nunca, pensar, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial ao mistério do mundo

As máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica

IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.

O país dividido, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra impacto eleitoral de mudanças sociodemográficas registradas entre 2002 e 2022

Os menos escolarizados apoiam mais o PT; população com ensino médio pende mais para a direita

Vinte anos não é pouco na vida de uma pessoa, mas é um intervalo de tempo relativamente curto na história de um país. É por isso que impressiona quanto o Brasil mudou nas duas décadas que separam a primeira eleição de Lula, em 2002, da mais recente, em 2022. Essas mudanças são o cerne de "O País Dividido", do cientista político Jairo Nicolau.

O perfil sociodemográfico do país passou por transformações importantes. O Brasil ficou mais velho, mais instruído e menos pobre. O eleitorado feminino se tornou preponderante. A proporção de evangélicos cresceu significativamente, à custa da fatia de católicos. Nicolau mostra, com base empírica e não em achismos, o impacto que essas transformações tiveram no voto.

Candidatos enfrentam o dilema de ir, ou não, aos debates, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Indo, o favorito se arrisca a perder a liderança por obra de ataques, tropeços e imprevistos

Não indo, vira personagem oculto da cadeira vazia e transmite imagem de arrogância e covardia

O dilema é recorrente entre candidatos favoritos nas pesquisas, ainda mais quando presidentes: ir ou não ir aos debates. Portanto, normal que a equipe de Luiz Inácio da Silva (PT) divulgue que ele cogita não ir. Segundo a conta do custo-benefício, o balão serve de ensaio ao teste.

Indo, o candidato se arrisca a tropeços que o façam perder a liderança e aos ataques dos demais oponentes que o coloquem numa posição de isolamento, mas também pode ganhar a parada e consolidar o favoritismo.

Poesia | Grande são os Desertos, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Gal Costa - Folhetim, de Chico Buarque

 

sábado, 25 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova tarifa dos EUA requer aliança do setor privado

Por O Globo

Parceria entre exportadores do Brasil e importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump

A política protecionista do presidente americano Donald Trump teve novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5% para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal e prejudicando os Estados Unidos.

Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las.

Morin e o Futuro (I), por Elimar Nascimento

Revista Será?

O Inevitável Transformador

Edgar Morin[1] é claro e contundente sobre os estudos prospectivos. Em geral, estes pecam por fazer previsões lineares que não têm pertinência. Isso pelo simples fato de que o futuro não é a continuidade do presente, sua reprodução ampliada. O futuro é uma trajetória complexa que reúne continuidades, descontinuidades e a criação de novos eventos e processos.

É impossível dizer quais tendências, que verificamos em um determinado momento, existirão após uma década ou menos, e o que de novo irá surgir. Em 1987, ninguém imaginava que a URSS iria ruir dois anos depois e que a Guerra Fria iria se encerrar abruptamente. Quando a internet foi criada, alguns CEOs de empresas de informática diziam que não passava de mais um fracasso tecnológico. Hoje, bilhões de pessoas a utilizam. Em 1980, ninguém previa que a China seria a segunda potência do mundo 35 anos depois.

A fúria dos eleitores ao redor do mundo, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

De Londres a Tóquio, governos estão fracassando em atender às expectativas modernas

A democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade

Nesta semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?

A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências

Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema.

Rabo preso, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça autorizou a abertura de inquérito para apurar o trânsito dos dinheiros de Vorcaro destinados a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A forma da movimentação dos recursos se encaixa no padrão de dissimulações da rede vorcárica. A PF suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Falamos de US$ 10,6 milhões captados por Flávio Bolsonaro, grana disparada – de fevereiro a maio de 2025 – por meio de empresa de fachada, a Entre, e que chegaria aos EUA pousando no fundo Havengate, administrado por advogado amigo de Eduardo Bolsonaro.

Suas Excelências, os fatos, na crise do tarifaço, por Mauro Vieira*

O Globo

A diplomacia brasileira é conhecida pelo profissionalismo, e já teve êxito na ampliação das exceções ao tarifaço original

Não se espera a unanimidade em regimes democráticos. Mas, diante do novo ataque tarifário dos Estados Unidos contra o Brasil, e suas confessadas motivações políticas desde a carta original do presidente Donald Trump, de julho de 2025, que continha claras ameaças à soberania e à democracia brasileiras e anunciava a abertura da investigação pela seção 301, recém-concluída, não cabem ambiguidades nem falsas equivalências.

O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza. E clareza é do que o país mais necessita diante do desafio histórico à soberania brasileira que se tenta impor, de fora para dentro, com ameaças, tarifas e bravatas.

Lula já levou o tetra? Por Thaís Oyama

O Globo

Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos

A notícia não é boa para Lula. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos. Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais candidatos.

O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição.

Nunca é só futebol, por Flávia Oliveira

O Globo

Há uma lição que mulheres negras aprendemos e reaprendemos. Recitamos, repetimos e insistimos. Não esquecemos. No discurso tido como marco do feminismo negro, durante uma convenção sobre direitos da mulher nos Estados Unidos, em 1851, Sojourner Truth, negra, ex-escravizada e ativista, provocou:

— E eu não sou uma mulher?

Lélia Gonzalez, mais de um século depois, em “Racismo e sexismo na sociedade brasileira” (1984), avisou:

— O lixo vai falar, e numa boa.

Uma década atrás, foi a vez de Conceição Evaristo desenhar:

— Não escrevemos para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonos injustos.

Todo poder corrompe, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou. Pequim passou a realizar suas encomendas no Brasil

No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.