sábado, 24 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

O que está em jogo?

Por Revista Será?

Tem muita coisa em jogo nas eleições presidenciais deste domingo, quando concorrem Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, dois candidatos com trajetórias políticas e propostas muito diferentes para o futuro do Brasil. Mas tem uma questão central, anterior a todas as outras, que deve ser avaliada pelos eleitores na hora de digitar o seu voto na urna: a preservação das instituições democráticas, já tão fragilizadas pela polarização e pela politização do Judiciário.

Garantir a democracia para bloquear a contrarrevolução reacionária, por Alberto Aggio

Revista Será?

O resultado do primeiro turno das eleições no Brasil apresentou uma surpresa e uma revelação. Surpresa porque mostrou uma inversão do que apontava a maior parte das pesquisas em relação à votação para a Presidência da República. No resultado das urnas Flavio Bolsonaro (PL) apareceu à frente de Lula (PT) por uma pequena margem dos votos (1,8%), invertendo o que sancionavam as pesquisas. Revelação porque atesta a força da extrema direita não apenas pelo desempenho de Flavio Bolsonaro, mas principalmente por conta do êxito sem precedentes alcançado nas disputas para os governos estaduais bem como para o Senado e a Câmara Federal, onde o PL saiu amplamente vitorioso.

A democracia brasileira está em risco? Sim, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Só o voto nos separa desse precipício; ameaça inclui autocratização do regime e fragilização da nossa soberania

Freios e contrapesos estarão debilitados, e o cenário internacional se tornou mais hostil aos regimes constitucionais

A democracia brasileira corre um triplo risco nesta eleição presidencial: a autocratização do regime, com a fragilização do sistema de freios e contrapesos, a distorção das regras eleitorais e a erosão dos direitos humanos; o aprofundamento do processo de cupinização do Estado de Direito, com consequente esgarçamento do tecido social e brutalização da vida cotidiana; assim como a fragilização de nossa soberania, especialmente nos campos ambiental e digital.

Como nos anos 1930, com a ascensão do nazismo e do fascismo, as democracias liberais voltaram a estar submetidas a forte pressão de movimentos extremistas. Diferentes fatores têm contribuído para que partidos e lideranças, sobretudo de extrema direita, capturem as frustrações e o desejo de mudança em países tão distintos quanto Alemanha, Índia, França, El Salvador, Turquia ou Estados Unidos.

Com regras mais rígidas, Globo baixou a temperatura do debate entre Flávio Bolsonaro e Lula, por Mauricio Stycer

Folha de S. Paulo

Nos primeiros três blocos, houve a sensação de alguma civilidade entre os dois candidatos

Última parte voltou a lembrar os piores momentos do encontro na Band, que entrou para a antologia da política brasileira

Cinco dias depois do debate na Band, um confronto eleitoral que entrou para a antologia dos momentos mais baixos da história política brasileira, a Globo blindou o seu evento, no esforço de subir um pouquinho o nível. Conseguiu em partes.

Não que o público tenha assistido a um debate esclarecedor a dois dias de uma das eleições mais disputadas da história do Brasil. Não que a emissora tenha evitado a difusão de mentiras a granel. Não que os candidatos não tenham fugido de muitas perguntas feitas.

Mas, no geral, com regras mais rígidas, a emissora carioca conseguiu baixar a temperatura do embate e enquadrou os candidatos quase o tempo todo. Foi um evento intencionalmente frio, que ofereceu, nos primeiros três blocos, a sensação de alguma civilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em debate mais civilizado do que o primeiro, Lula vence Flávio por pontos, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador se perdeu ao ser confrontado pelo presidente, inclusive no espinhoso tema da segurança pública

Se desempenho dos rivais terá o condão de chegar a algum indeciso ou pendular, é um dado ainda incerto

Como já lembrava Sigmund Freud em "Totem e Tabu" (1913), nada como um pouco de regras para tornar uma sociedade civilizada. O mesmo se aplica a debates.

A opção pelo vale-tudo de saída no primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na Band, domingo passado (18), levou a um desastre de escopo ainda insondável na intenção de voto dos líderes da disputa presidencial brasileira deste ano.

Nesta noite de sexta-feira (23) na TV Globo, o formato adotado enquadrou os dois candidatos e ofereceu um vislumbre de embate de ideias para os vitais pontos percentuais a serem pescados entre eleitores indecisos e pendulares na disputa.

Sem a gritaria e a ausência de respostas do confronto anterior, Lula levou vantagem sobre o senador fluminense. Não saiu, contudo, sem arranhões.

Régua e compasso, por Flávia Oliveira

O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Abrindo o voto, por Eduardo Affonso

O Globo

Nada contra Nossa Senhora Aparecida, mas para padroeira do Brasil meu voto será em Santa Rita de Cássia, a das causas impossíveis

Sim, o voto é secreto, mas, como faz tempo que não elejo presidente (o único foi há 32 anos), raramente um governador (moro no Rio...), dificilmente um senador e só a muito custo um deputado ou prefeito, quero abrir a possibilidade de votar em outras instâncias.

Não é que eu vote mal (ninguém vota mal, segundo os próprios critérios). Mas tenho o péssimo hábito de preferir os liberais. Pior: os dedicados à educação (um povo educado fará melhores escolhas nas urnas, e aí tudo o mais vem por tabela), à cultura (o cidadão com orgulho de si mesmo não se contentará com menos do que merece), ao meio ambiente (preservar o planeta aumenta as chances de uma vida mais saudável — e de continuar havendo vida) e aos direitos dos animais (quem não gosta de bicho — exceção feita à barata, ao pernilongo e ao bicho de goiaba — bom sujeito não é). E nada disso garante lugar entre os mais votados.

Lula sai na frente na disputa pelos indecisos, apoiado em deslizes de Flávio Bolsonaro, por Bianca Gomes

O Estado de S. Paulo

Pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, a pedido do ‘Estadão’, identifica reações de eleitores ao debate final entre os candidatos à Presidência

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegaram ao final do último debate da corrida presidencial de 2026 sem atrair, por méritos próprios, os eleitores que mais precisam nesta reta final: os indecisos. Na pesquisa qualitativa feita pelo instituto Travessia a pedido do Estadão na noite de sexta-feira, 23, foram raros os elogios aos dois candidatos. Flávio, porém, acumulou mais derrapadas, o que deu vantagem a Lula entre aqueles que ainda não decidiram quais teclas vão apertar no próximo domingo.

Debate na Globo não foi o evento decisivo, determinante, do que sairá das urnas, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Ninguém saiu nocauteado, o que era exatamente a proposta da campanha de Flávio Bolsonaro

Lula cita modelo econômico de Milei e Flávio diz que ‘esquerda é culpada por crise na Argentina’

Três perguntas deveriam ter sido respondidas no debate da TV Globo. Alguém conseguiu virar o voto de alguém? Alguém sentiu ter cometido um erro ao ter escolhido no primeiro turno o candidato que escolheu? Alguém se sentiu mais motivado a comparecer às urnas no domingo?

A resposta às três perguntas é “não”. A impressão produzida pelo debate é a de que não foi o evento decisivo, determinante, do que sairá das urnas daqui pouco mais de 24 horas.

Um segundo turno mais jovem e utópico, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Depois de um susto, Lula e o campo progressista empreenderam uma história de engajamento social extraordinariamente crescente, de mudança de linguagem e de estratégia comunicacional e mesmo de perspectiva de futuro

Hoje, véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, não somos capazes de dizer quem sairá vencedor das urnas. Na mais acirrada eleição desde a redemocratização, redescobrimos a grande beleza da política: sua abertura ao fluxo da história, dos acontecimentos e das decisões humanas. Que enredo esse segundo turno conta?

Ex-diretor do Datafolha analisa pesquisas e aposta na virada de Lula, por Nathallie Lopes

Correio Braziliense

Mauro Paulino aponta recuperação do petista e perda de apoio ao senador, mas pondera que o tempo até domingo (25/10) pode ser decisivo

O ex-diretor do Datafolha Mauro Paulino avalia que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ultrapassar Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial do próximo domingo (25/10). Em entrevista ao canal UOL nesta sexta-feira (23/10), o especialista em opinião pública e eleições afirmou que a evolução das pesquisas indica recuperação do petista e recuo na preferência pelo senador.

“Há uma grande probabilidade de que esteja ocorrendo, às vésperas, uma ultrapassagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro”, disse Paulino.

O futuro, hoje, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A eleição de domingo define o caminho do país nos próximos tempos. O desafio colocado diante do brasileiro é a escolha de seu futuro

Não dei sorte. Sonhei e me preparei para votar, quando entrei na maioridade, a favor do famoso slogan JK65, para entregar novo mandato ao presidente Juscelino Kubitschek, que havia promovido revolução pacífica no Brasil. Abriu estradas, construiu hidrelétricas, implantou a indústria automobilística, ergueu Brasília e transferiu a capital para o centro do país. Ele prometia mais cinco anos de prosperidade. O sonho durou pouco. Os militares assumiram o governo em 1964, anunciaram a cassação de vários políticos — entre eles, JK. Nos primeiros momentos, o primeiro presidente militar, Castello Branco, prorrogou seu mandato por um ano para respeitar o calendário eleitoral. Mas o processo desandou, e os militares, de todos os quartéis e níveis hierárquicos, se julgaram capazes de governar o país.

Esqueletos no armário revelam os crimes de Flávio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Esquema de lavagem de dinheiro vai de loja de chocolates a casa de apostas

O 'amigão' Willer Tomaz usou a mãe como laranja e dividiu conta bancária com filho 01

O caso das rachadinhas —movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão na conta do assessor Queiroz— veio a público no fim de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro. De lá para cá, é notável a evolução de investigações envolvendo o filho 01. Um enorme telhado de vidro, o qual, no entanto, se mostra inquebrantável aos olhos de seus eleitores.

Entre os 12 candidatos à Presidência, é o único que se beneficiou do esquema Vorcaro —pediu na caradura R$ 134 milhões ao banqueiro picareta. No rol de denúncias e suspeitas estão a compra da mansão de R$ 6 milhões, além de outras transações imobiliárias em dinheiro vivo, e a loja de chocolates utilizada para lavar R$ 1,6 milhão. Sua lavanderia, digo, seu escritório de advocacia, emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais sem detalhar os serviços. A sede da banca do senador é sua casa. É administrada à distância por uma funcionária que mora na periferia de Brasília.

O futuro não é mais como antigamente, por Elimar Pinheiro do Nascimento*

Revista Será?

Nesses dias, estou terminando de ler o livro 2041 – Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas, dos chineses Kai-Fu Lee, CEO da Sinovation Ventures (depois de ser executivo da Microsoft e da Apple), e Chen Qiufan, escritor e fundador do Thema Mundi. É uma coletânea de contos de ficção científica, comentados pelo especialista em IA. O formato e o conteúdo são muito intrigantes.

Ultimamente, tenho dedicado parte do meu tempo a estudar a Inteligência Artificial e suas consequências sobre nossas vidas. Em particular, do ponto de vista psicossocial: a pensar, portanto, nas consequências das inovações tecnológicas sobre nossa forma de trabalhar, conviver, criar, pensar, amar e nos divertirmos. Mudanças em nossos comportamentos, mas também em nossas percepções e valores. Fazer isso, do ponto de vista do futuro, significa trabalhar com hipóteses, ou seja, cenários.

Às urnas, por Pedro Serrano

CartaCapital

O bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las

A história humana não ocorre por meio de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece. Ao contrário, ela se revela por processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais. Na história vivida prevalece o caos.

É nesse cenário que afirmamos, enfaticamente: o bolsonarismo está, inequivocamente, aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las, esvaziando-o e abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

Ficha corrida, por André Barrocal

CartaCapital

Os BOs de Flávio Bolsonaro não param de pipocar

Flávio Bolsonaro é um candidato “sambarilove”, bordão de um personagem de um antigo programa de humor na televisão. Armando Volta tinha um jeito malandro, nunca respondia às perguntas do Professor Raimundo, era um enrolador profissional. Descrição apropriada para o senador do PL. O filho de Jair passou a campanha sem dar explicações sobre temas indigestos: a relação com o advogado Willer Tomaz, os milhões pedidos a Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, a tomada “na mão grande” de uma ilha em Angra dos Reis reservada ao jogador Richarlison, a defesa do PM que matou com fuzil uma menina de 5 anos, a suspeita de financiamento norte-americano em sua campanha presidencial. Dessas histórias, a única capaz de ter consequência prática para o senador é aquela do dinheiro estrangeiro, caso o Tribunal Superior Eleitoral abra a investigação solicitada pela campanha de Lula. Ele poderia ter a chapa cassada. E quanto aos outros episódios? Pela Constituição, um presidente não paga por atos anteriores ao mandato.

O mal da banalidade, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Enquanto o povo luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”

Num mundo que volta a surfar nas ondas do discurso de ódio como tábua de salvação, não Jeová, nem Jesus, muito menos Buda, mas as falsas promessas do paraíso da extrema-direita, penduradas na cruz ou na suástica, impulsionam a marcha do exército de ressentidos. Quando as promessas que levariam as classes médias ao padrão de consumo das elites se deterioram, a ralé enfurecida, sedotta e abbandonata, entrega sua alma à sereia do totalitarismo.

Depois de várias tentativas, entrevistamos Hannah Arendt em seu gabinete como professora na New School for Social ­Research, em Nova York, para discutirmos duas de suas grandes obras: Origens do Totalitarismo e A Condição Humana. Agradecemos à professora pela hospitalidade e por sua tradicional liberdade de pensamento.

Campanha e dívida dos estados: o caso de Minas (II), por Marcus Pestana

Amanhã, a população brasileira tomará importante decisão sobre o futuro do País. Aqui retomo a discussão sobre um aspecto central do principal problema econômico brasileiro: o estrangulamento fiscal e a dívida dos estados, particularmente de Minas Gerais, com o governo federal.

É natural que, durante a campanha, candidatos evitem temas espinhosos e difíceis e avancem em promessas que nem sempre encontrarão acolhimento na realidade concreta dos futuros governos. Fechadas as urnas, no dia seguinte, os fatos e a vida começam a se impor, com seus limites e possibilidades reais.

Minas Gerais, assim como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, vive uma crise fiscal radical e crônica. Têm um enorme estoque de dívidas e um fluxo de receitas e despesas deficitário.

Uma eleição indefinida para uma sociedade sombria, por Vagner Gomes*

“É algo estranho ver com que espécie de ardor febril os americanos perseguem o bem-estar e como se mostram constantemente atormentados por um temor vago de não ter escolhido o caminho mais curto que pode conduzir ele. O habitante dos Estados Unidos apega-se aos bens deste mundo como se tivesse certeza de que jamais morreria, e é com tanta precipitação que procura apoderar-se daqueles que passam ao seu alcance, que se diria que teme a cada instante deixar de viver antes de os ter gozado. Toma-os todos, mas sem os estreitar, e os deixa logo escapar das suas mãos, para correr atrás de prazeres novos.” (Alexis de Tocqueville, A Democracia na América)

Em poucas horas o eleitorado brasileiro vai votar no Segundo Turno das eleições presidenciais, naquela que é apresentada como a mais competitiva das últimas décadas. Não uso o termo por referendar a interpretação de uma hipótese de “polarização afetiva”, pois os dois campos estão nas redes sociais e nas ruas sem qualquer situação semelhante a uma ex-Deputada foragida a correr com arma nas mãos contra um eleitor. Estamos num momento em que a moldura do Estado de Bem Estar Social, garantido nas conquistas sociais e políticas da Carta de 1988, se encontram questionadas diante da emergência de uma sociedade em busca não mais da felicidade e, sim, da prosperidade.

Márcia Heliane Gomes, escritora e editora, por Ivan Alves Filho

É muito difícil falar o que quer que seja em uma hora dessas. Porém, quero repetir aqui as palavras que disse outro dia à mãe da Márcia, Dona Maria José: sua filha foi a melhor pessoa que eu conheci em toda a minha vida. Pela dignidade, pela bondade e, também, pela capacidade de trabalho. 

Eu tenho 74 anos, morei dez anos fora do Brasil, conheci figuras admiráveis por onde andei. Porém, somente duas pessoas me impressionaram tanto quanto a Márcia: o arquiteto Oscar Niemeyer e o poeta Ferreira Gullar. Oscar foi o Aleijadinho do século XX; Gullar, o Tomás Antônio Gonzaga deste mesmo século. No tocante à minha adorada Márcia, eu diria que ela é a herdeira, pela grandeza pessoal, de Bárbara Heliodora. Como escritora, Márcia é comparável a Cora Coralina. Seus textos possuem a mesma leveza, doçura e profundidade daqueles da poetisa de Goiás Velho.

Poesia | Definição de filho, de José Saramago

 

Música | Construção | Chico Buarque

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Campanha deixa de lado temas essenciais ao país

Por O Globo

Com profusão de ataques pessoais, faltou debate sobre Previdência, ajuste fiscal e reocupação de territórios

Com a campanha eleitoral perto do fim, fica claro que candidatos, marqueteiros e estrategistas deixaram fora da propaganda e do debate temas fundamentais para o próximo governo. Assuntos inexoráveis como a deterioração das contas da Previdência, a necessidade de um ajuste fiscal robusto e propostas concretas para combater o crime organizado para além do populismo penal foram omitidos ou abordados de forma superficial pelas campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sucumbindo à profusão de ataques pessoais, ambos ficaram devendo ao eleitor.

O que será o amanhã depois do debate entre Lula e Flávio na Globo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O confronto entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro pode decidir a eleição, mas a maior incerteza está no futuro que cada candidato oferece ao país

O conhecido samba-enredo da União da Ilha do Governador, apresentado no carnaval carioca de 1978, que inspira o título desta coluna, é de autoria de Didi e João Sérgio. Didi era o procurador da República Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, fundador da escola e autor de outros sambas antológicos. Naquele ano, na voz de Aroldo Melodia, “O Amanhã” empolgou o público. A União da Ilha terminou em quarto lugar, mas a composição conquistou um lugar permanente na memória dos brasileiros.

Revelações da redução da jornada, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Ela tem por função superar a ignorância e o senso comum pobre e tosco. Com essas limitações não há cidadãos

O descabido alvoroço que cercou a proposta de atualização de nossa concepção oficial de jornada de trabalho tem aspectos reveladores do que sociologicamente são e o que pensam sobre obrigações e direitos sociais os que a combatem. Concebem como faz de conta as decisões quanto a transformações sociais necessárias ao próprio capitalismo. Esta é uma sociedade marcada por crônico atraso em relação a mudanças inevitáveis ao nosso ingresso na modernidade do desenvolvimento econômico com justiça social.

‘Domingo será um bonito dia’ para nossa democracia, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Obra de José Saramago dialoga com a realidade brasileira, num momento em que os brasileiros voltarão às urnas no domingo

“Domingo, queridos compatriotas, será um bonito dia”, saudou o primeiro-ministro, referindo-se à segunda rodada de votações. A nova consulta aos eleitores se impôs diante do resultado do escrutínio anterior, quando a soma dos votos válidos dos partidos da direita, do centro e da esquerda não alcançou 25%. Mais de 70% foram votos em branco.

No país imaginário criado por José Saramago em seu “Ensaio sobre a Lucidez” (2004), o placar inédito obrigou o retorno dos eleitores às urnas. Uma preocupação das autoridades era com a abstenção, em face da apatia do eleitorado. Mas se deu o contrário: o povo compareceu em massa para enviar um recado ainda mais estridente: 83% dos votos em branco.

Mudança das campanhas está por se comprovar extensiva ao eleitor, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A ideia de que o 2º turno é uma outra eleição foi confirmada por este que se encerra. A dúvida é se o eleitor também terá mudado. É desta mudança que, em grande parte, depende o resultado do domingo.

A mudança nas campanhas foi impulsionada, de um lado, pela tensão provocada no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em decorrência dos 2,2 milhões de votos a mais obtidos pelo adversário em 5 de outubro. E, de outro, pelo conforto suscitado na campanha do senador Flávio Bolsonaro com a vantagem obtida. A tensão foi produtiva e o conforto, enganador. Foi isso, em grande parte, que moveu a discreta aproximação nas trajetórias de ambos nas pesquisas ao longo do 1º turno.

A tensão petista levou à incorporação do senador Camilo Santana (PT-BA) à coordenação de campanha, que acabou agindo como um catalisador das disputas que antagonizaram o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva.

Lula e o desafio de sua vida, por Vera Magalhães

O Globo

Se conseguir operar a virada inédita, presidente terá diante de si um Congresso mais hostil que o atual

Muito já se cantou, em prosa e verso, quanto Luiz Inácio Lula da Silva subverteu as probabilidades para descrever uma trajetória biográfica e política inédita na História brasileira: primeiro retirante a virar o maior líder sindical do país e a fundar um partido; primeiro líder oriundo das classes populares a, tendo perdido três disputas presidenciais, se tornar presidente; primeiro a ocupar a Presidência três vezes pelo voto, a terceira delas depois de ter sido condenado e preso por corrupção.

Agora, ele se vê diante da circunstância de tentar ser o primeiro incumbente a passar ao segundo turno de uma eleição presidencial em desvantagem no placar, precisando operar uma virada épica, conquistando votos não só de quem se absteve ou votou branco e nulo, mas também de eleitores do adversário, para se reeleger.

Armação ilimitada, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Caso de suspeitos uniformizados em Piracicaba lembra manipulação do sequestro de Abilio Diniz

Aconteceu em Piracicaba, cidade do interior paulista onde Flávio Bolsonaro colheu 63% dos votos no primeiro turno. Policiais militares prenderam três jovens, incluindo um menor de idade, sob suspeita de tráfico de drogas. Antes de serem levados à delegacia, os três foram obrigados a vestir camisetas com o nome de Lula e a estrela do PT.

Parece 1989, mas ocorreu nesta quarta-feira, a quatro dias da eleição presidencial. Testemunhas ouvidas por diferentes órgãos de imprensa denunciaram a armação. De acordo com os relatos, nenhum dos suspeitos vestia roupas ou adereços políticos durante a abordagem. “Um estava todo de cinza, um de moletom azul e boné, e o outro estava de bermuda jeans e camiseta branca”, contou uma entrevistada.

O dia seguinte, por Pablo Ortellado

O Globo

A eleição decide quem governará. O que fizermos no dia seguinte decide se ainda saberemos viver juntos

O Brasil está cindido entre os que apoiam Lula e os que apoiam Flávio Bolsonaro. Seja quem for o vencedor na noite de 25 de outubro, a vitória será apertada, e acordaremos no dia 26 divididos. Nosso primeiro problema, depois de aceitarmos o resultado, será como reconstruir a coesão social, recuperando os laços de solidariedade e cooperação que mantêm a sociedade brasileira de pé.

A campanha eleitoral transcorreu simultaneamente em duas pistas. Na pista secundária, protocolar, tivemos uma disputa programática: num lado, Flávio prometendo melhoria no custo de vida e mais segurança pública; no outro, Lula prometendo mais direitos e proteção social. A campanha, porém, não foi essencialmente programática.

Entrevista | 'Eleição é comparação. Nós defendemos a democracia', diz Alckmin

Por Carlos Alexandre de Souza, Denise Rothenburg e Maria Beatriz Giusti \ Correio Braziliense

Vice-presidente afirma que, para atrair os indecisos, é preciso mostrar a diferença entre os concorrentes: um que defende o Estado de Direito, e o outro que tem "saudade da ditadura"

Candidato à reeleição na chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) disse que a estratégia da campanha para virar votos é a humildade e o diálogo com os eleitores. "Vamos conversar com os eleitores que não foram votaram. Vamos conversar também com quem votou em outro candidato. Eleição é comparação. Nós defendemos a democracia, em que é o povo que decide. E os nossos adversários têm saudade da ditadura. É preciso respeitar a Constituição, fortalecer a democracia e mostrar as diferenças", ressaltou, em entrevista no programa CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília.

Alckmin comentou sobre a sua confiança para o segundo turno. "Há um enorme crescimento da candidatura nas ruas e nas redes", destacou. O vice-presidente também defendeu uma apuração sobre a eventual interferência da Meta nas eleições. "Ela reconheceu que houve prejuízo para a campanha do presidente Lula. O que justificou foi que não teria sido proposital. Ora, não é possível ter uma atitude discriminatória que acabe beneficiando um candidato e prejudicando outro. Então, é preciso, sim, verificar isso", frisou.

Três certezas da eleição, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Tudo indica que o cenário de imprevisibilidade na corrida pelo Palácio do Planalto continuará até o fim. Será uma apuração tensa, sem ser possível cravar antecipadamente quem sairá vitorioso. A campanha de 2026 se aproxima do fim, mas deixa três lições

Vamos às urnas daqui a dois dias para definir o próximo presidente da República e os seis governadores que faltam. Tudo indica que o cenário de imprevisibilidade na corrida pelo Palácio do Planalto continuará até o fim. Será uma apuração tensa, sem ser possível cravar antecipadamente quem sairá vitorioso. A campanha de 2026 se aproxima do fim, mas deixa três certezas.

Algumas horas para o futuro, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A alternância é a grande qualidade sistema. Essa qualidade jamais poderá ser roubada

Faltam apenas algumas horas para a decisão. São duas visões antagônicas. O País será algo muito diferente com a vitória de um ou outro. Nossas vidas serão impactadas. É natural que seja uma semana tensa.

No meu caso, temo pelos anos dedicados à legislação ambiental. Ouço Flávio declarando sobre a Amazônia que os fazendeiros serão livres para fazer o que quiserem em suas terras. O pai dele também pensava assim. Mas é um delírio. Nenhuma terra está fora de uma região, de um país ou do próprio planeta. Se um rio passa em sua propriedade, você não pode nem represá-lo nem contaminá-lo sem prejudicar os que vivem à jusante. Não é possível atear fogo dentro de suas terras sem levar em conta a segurança das terras vizinhas. Quando se vive numa região tão especial como a Amazônia, por lei, não se pode desmatar livremente, apenas 20% da área.

Contas reais ou para eleitor ver? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com 50% a 50%, o último debate e quebra de sigilos podem ser fatais? Para quem?

No início, o presidente Lula ganhou pontos e obrigou o adversário Flávio Bolsonaro a entrar no jogo, ao fazer o desafio para que ambos quebrassem seus sigilos bancários e fiscais. Nunca se sabe, porém, quem ganha ou perde num campeonato desses, ainda mais numa eleição com Lula e Flávio empatados em 50% no Datafolha.

Desde o fim do primeiro turno, a diferença a favor de Flávio caiu de quatro pontos para dois, depois para um e agora evaporou, traçando duas linhas que tendem a se cruzar a favor de Lula até domingo. Mas isso depende do duelo de sigilos bancários e do debate da Rede Globo hoje.

Candidatos preparam estelionato eleitoral, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Seja qual for o resultado das eleições de domingo, o País se prepara para um estelionato eleitoral ou para uma crise econômica em 2027. Não é catastrofismo. Nem o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, nem o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, apresentaram até agora propostas concretas para lidar com a economia.

Flávio negou todos os ajustes necessários para reduzir a dívida pública: desindexação do salário mínimo, mudança nos pisos de saúde e educação, reforma da Previdência, entre outras medidas. Chegou até a se comprometer com a escala 6x1, que, num primeiro momento, vai afetar a produtividade da economia.

Brasil e o ‘efeito Orloff’, por Luiz Fernando de Paula*

O Estado de S. Paulo

No debate sobre política econômica, mais importante do que procurar modelos a serem copiados é compreender as especificidades de cada economia

O“efeito Orloff” é uma expressão usada no Brasil para sugerir que a experiência econômica de um país – especialmente a Argentina – poderia antecipar o que aconteceria depois por aqui. A origem está na antiga propaganda da vodca Orloff, cujo slogan era: “Eu sou você amanhã”.

É frequente, no debate econômico brasileiro, que algum analista critique a política econômica do governo e vaticine: “O Brasil vai se tornar uma Argentina!”. Essa comparação, porém, ignora diferenças estruturais importantes entre as duas economias.

Embora Brasil e Argentina tenham enfrentado profundas crises nos anos 1980, em grande medida associadas à crise da dívida externa, suas trajetórias macroeconômicas foram bastante distintas.

Mundo capitulará diante do neofascismo? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Protestos na França beneficiam partido de Marine Le Pen

Centro político tem perdido espaço para legendas radicais

A onda de protestos na França tem dois beneficiários eleitorais: o ultradireitista Reunião Nacional, de Marine Le Pen e Jordan Bardella, e, em menor escala, o França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical. O grande perdedor é o centro político do qual Emmanuel Macron era o grande representante. As eleições presidenciais francesas ocorrem em abril e maio próximos.

Não é só na França que o centro passa por apuros. Na vizinha Alemanha, o extremista Alternative für Deutschland (AfD) vem obtendo formidáveis ganhos eleitorais em cima principalmente da democracia cristã, enquanto Die Linke, uma esquerda mais vocal, vem tirando cadeiras dos social-democratas e dos verdes. Em diferentes graus, o fenômeno se repete em vários outros países europeus e fora da Europa.

'Trump, bombardeie o Brasil', por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os bolsonaristas sugeriram isso a Trump em São Paulo, mas ele nunca aceitará a ideia

Precisa dos nossos minerais críticos, que Flávio Bolsonaro já lhe garantiu se for eleito

No ato bolsonarista em São Paulo, no domingo (18), um objeto inflável em forma de míssil, de 3 metros de altura, desfilou pela avenida Paulista. Nele lia-se: "Trump nuke Brazil". "To nuke" é um verbo em inglês, significando destruir algo usando uma bomba nuclear. Era o que os bolsonaristas pediam a Donald Trump, que jogasse uma bomba no Brasil —claro que no Brasil "de Lula". Os americanos são craques em matar a distância, mirando alvos isolados com drones de alta precisão. Mas como conseguir isso com uma bomba feita para varrer milhões de uma sentada?

Choque de realidade leva Lula 3 a reconquistar alguns pobres e jovens, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Petismo-lulismo ficou alheio à política e a temas populares por quase quatro anos

Avaliação do governo, ainda negativa, é a melhor desde dezembro de 2024

Desde dezembro de 2024, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não tinha avaliação tão boa quanto na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (22). Para ser mais preciso, o saldo negativo da avaliação de Lula 3 foi o menor nesses quase dois anos. A diferença entre quem dá ao governo nota "ruim ou péssimo" e "ótimo e bom" baixou a 3 pontos negativos, ainda um tico pior que a de Jair Bolsonaro a esta altura da campanha de 2022 (tinha saldo negativo de 1 ponto).

E daí? A eleição não está praticamente empatada, a julgar pelo que dizem agora os eleitores ao Datafolha? Não seria o mais importante? Talvez não.

A extrema direita não ajuda o empreendedor, por Pedro Erber*

Folha de S. Paulo

Corrente se limita a afastar o Estado; depois do 'eu te entendo, deixa comigo', quem 'vive por conta' fica sozinho

Cabe a quem empreende cobrar; à esquerda, ter a coragem de rever suas categorias

Virou lugar-comum dizer que a esquerda não leva a sério quem empreende. "CEO de MEI" já é piada antiga na internet de esquerda. É a ideia de que essas pessoas se enganam sobre a própria condição e, se entendessem melhor, se reconheceriam como trabalhadores precários.

A liberdade que o mercado promete não é só um véu ilusório a encobrir a realidade da exploração do trabalho. Ela organiza a vida de milhões de pessoas, muitas das quais optaram livremente por trocar a carteira assinada pela independência do empreendedorismo. Tratar essa aspiração como simples engano é perder esse eleitor antes de começar a conversa.