domingo, 1 de março de 2026

Flávie dará golpe de estade, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se eleito, filho de Bolsonaro tem boas chances de governar com maioria golpista no Senado

Tudo que queremos é uma eleição em que possamos, em caso de derrota, ficar chateados, culpar o neoliberalismo, e voltar à vida normal

O debate de hoje será sobre o tema "o golpe de Estado empatou com a democracia na última pesquisa Atlas". Podem perguntar.

"Mas isso não é um exagero? Flávio Bolsonaro outro dia fez um post direcionado à comunidade LGBT usando linguagem neutra. Ele não está moderando?"

Ok, Flávio não dará golpe de Estado, dará golpe de estade. Mas será golpe de todo o jeito. Elu já prometeu soltar os membros da quadrilha golpista de que é membre. Se eleite, tem boas chances de governar com maioria golpiste no senade, o que lhe possibilitaria impichar ministres do STF em um momento em que a imagem do tribunal está fragilizade. Nenhuma outra instituição, além do STF, atuou contra a última tentativa de golpe.

Regra de transição cheira a embromação, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Pactos de aperfeiçoamento não se realizam porque há resistência para corrigir distorções nos três Poderes

De adiamento em adiamento, o fim das regalias indevidas corre o risco de ficar para o dia de são nunca

A cada vez que os Poderes se reúnem para combinar pactos de aperfeiçoamento nos respectivos comportamentos criam-se expectativas que em geral não se realizam por completo. Acontece quando há distorções a serem corrigidas, mas há resistências quase impossíveis de serem vencidas.

Aconteceu assim com o acordo sobre as emendas parlamentares, firmado num encontro entre representantes do Judiciário, Executivo e Legislativo, em agosto de 2024.

O neoterrorismo dos notáveis, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Ataque ao Irã é ilegal e não satisfaz critério de autodefesa imediata, por João Paulo Charleaux

Folha de S. Paulo

Ação contra Teerã distorce conceito de autodefesa previsto na Carta da ONU

Trump ressuscita argumentos que levaram à queda de Saddam no Iraque em 2002

A brecha que os Estados Unidos e Israel têm para defender a legalidade do bombardeio contra o Irã neste sábado (28) é estreita. Pela Carta da ONU, um país só pode atacar outro em caso de legítima defesa ou sob aprovação do Conselho de Segurança. Como nenhuma das duas condições está presente, será preciso contorcionismo para legalizar esses atos.

O conceito de autodefesa previsto no direito internacional é muito estrito. A Carta da ONU não autoriza uma resposta extemporânea contra um ataque sofrido meses antes, nem tampouco permite a retaliação preventiva a uma ameaça hipotética, distante ou presumida.

No Irã, na Venezuela ou em Cuba, terror e negociata são os objetivos da 'guerra de Trump', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque a iranianos não tem sentido ou fins claros, nem país era ameaça imediata

EUA trumpianos fazem extorsão e recorrem a bombardeios negocistas e impensados pelo mundo

Israel matou 3% dos palestinos e avariou ou arruinou 80% das construções de Gaza. Queria aniquilar o Hamas, que ainda está lá, depois de mais de dois anos de guerra e massacre. A situação política continua indefinida, embora o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) tenha decidido em 2025 que Gaza será até o fim de 2027 governada por um "Conselho de Paz" comandado por Donald Trump.

Ainda que falhe, mesmo barbarizando, a cúpula de Israel costuma saber o que faz ou quer. O que Trump quer no Irã? No discurso em que declarou a guerra, aliás ilegal, afirmou que quer acabar com o programa nuclear, mísseis balísticos e marinha do Irã. Que quer a queda do regime, tarefa que terceirizou para os iranianos.

Quanto ao mais, Trump pegou gosto por bomba e ameaças. De março a maio de 2025, atacou os houthis, do Iêmen (grupo apoiado pelo Irã), que atacam Israel e navios. Em dezembro, bombardeou a Nigéria, supostamente autorizado pelo governo nigeriano a atacar grupos islâmicos.

Desde 2025, afunda barcos de "narcoterroristas" no Caribe e no Pacífico. Neste ano, foi a vez da Síria. Estrangulou a Venezuelasequestrou Nicolás Maduro e mantém uma faca no pescoço da ditadura chavista, a quem dá ordens. Ameaçou México e Colômbia com ataques a "narcoterroristas". O próximo alvo é Cuba.

Trump quer dizer, enfim, que ninguém está seguro. Imagina que pode obter "deals" (acordos e negócios) com guerras em que americanos não morrem. O caso do Irã é mais enrolado.

O Irã é um país grande e ditadura enraizada, com vários centros fortes de poder: aiatolás, Guarda Revolucionária, tecnocracia e empresários que se dão bem no regime. Parte da população é religiosa e, como a elite ideológica, avessa a "valores ocidentais" e nacionalista. Apesar da revolta recente, não há oposição organizada. Os aiatolás preferem matar e morrer a fazer concessões.

Vitórias decisivas, quando há vitórias, ou rendições são mais e mais raras. Exigem destruição da força armada inimiga e da infraestrutura; morte ou cooptação de elites do poder (desfazimento do Estado). Os EUA fizeram algo assim no Iraque (2003), mas tiveram de invadir. O "Ocidente" fez em parte isso na Líbia e na Síria, deixando caos e barbárie, ou foi derrotado, como no Afeganistão.

Uma guerra decisiva toma tempo. No Oriente Médio, pode causar danos a interesses ocidentais, como no petróleo, embora o risco maior não se concretize desde 1979 (Revolução Iraniana). Apesar de tentativas, nunca houve o famoso fechamento do estreito de Ormuz (por onde passa um quarto do petróleo mundial transportado por mar).

Em 2019, um ataque de Irã e/ou houthis à Arábia Saudita arruinou a produção de 5% do petróleo mundial. O preço do barril subiu 15%, mas caiu no mês seguinte, pois os sauditas deram um jeito. Além do mais, a economia do petróleo mudou, com mais produção nas Américas. Mas ainda se trata de risco econômico, o mais temido por Trump.

A força militar do Irã vira pó com os ataques de Israel e EUA. Os iranianos não têm amigos que lhes deem dinheiro ou apoio militar (a Rússia é mui amiga, só). Ainda assim, não é difícil perder o controle da situação no Oriente Médio.

Trump quer mandar no mundo e arrumar negócio para si e compadres por meio de extorsão e ameaça de tiro. Em alguns casos, no curto prazo, funciona, como na Venezuela, talvez em Cuba. O resultado geral é insegurança, fragmentação política mundial perigosa e rearmamento.

Extrema direita canalizou ódio contra imigrantes, mas ele é bem mais antigo, por Vinícius Mendes

Folha de S. Paulo

Historicamente visto como anormal, quem migra tem sua saída questionada e, no destino, não é plenamente aceito

Mesmo com cidadania, estrangeiro é visto antes de tudo como um outro, condição que persiste além de direitos nacionais

[RESUMO] O autor sustenta que o imigrante é historicamente construído como um outro, estranho e marginal, resultado de anomalias sociais e econômicas. O texto argumenta que sociedades e governos canalizam esse estranhamento em políticas de exclusão e controle, exemplificadas por muros em fronteiras, novas tecnologias de vigilância, leis restritivas e atuações policiais como as do ICE.

"Essas pessoas que cresceram quase sem conhecer os benefícios da civilização, (...) grosseiros, bebedores, despreocupados do futuro, chegam trazendo seus costumes brutais a uma classe da população que tem, para falar a verdade, pouca inclinação para a cultura e a moralidade".

Essa percepção seria atribuível a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria que já ameaçou levar os imigrantes —sírios, afegãos, filipinos— até a porta do prédio da União Europeia, em Bruxelas, na Bélgica.

Mas essa frase também poderia ter saído da boca de José Antonio Kast, presidente do Chile que ganhou as eleições de 2025 prometendo sancionar empresas que contratarem imigrantes indocumentados, a maioria venezuelanos.

Quando o recuo vira destino, Roberto Amaral*

“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente”.  
Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fora negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois.

Poesia | Pátria Minha - Vinicius de Moraes

 

Música | Xande - Faroeste Caboclo - Versão exclusiva com o Revelação

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Redução de jornada semanal é equívoco econômico e político

Por O Globo

No Brasil atual, não dá para trabalhador gerar mais riqueza — e ganhar mais — trabalhando menos horas semanais

A proposta populista e demagógica de reduzir a jornada de trabalho sem corte salarial que tramita no Congresso apoia-se em premissas que, embora façam sucesso junto ao eleitorado e a parcelas bem-intencionadas da sociedade, estão erradas. Na leitura mais generosa, traduzem apenas ignorância sobre os princípios básicos da economia.

O primeiro equívoco é supor que a jornada de trabalho no Brasil seja excessiva. Ela tem caído — de 43,8 horas em 1981 para 38,4 horas em 2024, de acordo com análise do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base em dados do IBGE. Adotando critério diferente — o banco de dados global mantido pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley —, o economista Daniel Duque, também do FGV Ibre, constatou que o brasileiro trabalha menos horas semanais (40,1) que a média mundial (42,7). Na lista de 86 países para os quais há mais de duas décadas de dados, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas por semana.

Depois do carnaval, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

O confronto será, mais uma vez, entre dois ‘mitos’, o lulismo e o bolsonarismo, o que não deixará margem para conversas sérias

Fevereiro teve carnaval durante o mês inteiro. Sem que se saiba bem as razões, ampliaram o “tríduo momesco” para além do calendário. Agora, há um pré e um pós. Patrocinadores e foliões adoraram, mas muita gente reclamou.

Do outro lado da avenida, houve um desfile de sobressaltos e passos trôpegos. Nada de samba no pé. Foi um verdadeiro anticlímax, que estragou a festa de muitos graúdos.

50 anos da transição espanhola: lições para o agora, por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

A política deve ser feita para construir acordos que permitam à sociedade lidar com seus traumas e conflitos sem recorrer à violência

o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) se afastava do marxismo-leninismo e abraçava a social-democracia. Não foram esses partidos, porém, que assumiram ao início a liderança da transição democrática. E sim uma nova geração de funcionários do regime franquista, cuja principal figura foi Adolfo Suárez, em ascensão dentro das estruturas burocráticas e políticas do regime.

Pouco conhecido até assumir a presidência do governo, em 1976, Suárez mostrou qualidades políticas insuspeitadas. Percebeu a impossibilidade de manter “todo atado y muy bien atado” e intuiu que haveria vida depois do franquismo para uma direita liberal. Ainda mais importante, entendeu que o espaço político que se abria só seria legítimo e duradouro se incorporasse todas as forças políticas do país. Nos primeiros meses de 1977, o PCE e o PSOE retornaram à legalidade, graças à Lei de Reforma Política aprovada no ano anterior.

Chegou o decano, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes teve de entrar em campo. Dias Toffoli tentou controlar o bicho; Alexandre de Moraes ainda tenta domá-lo. Davi Alcolumbre mostra que nem o exercício autoritário do poder – o rolo compressor com que governa o Congresso – consegue dirigir o ímpeto imprevisível de uma crise que veio para ficar. Não tem a caneta togada capaz de decidir como bem quiser, quando quiser. Gilmar Mendes tinha de entrar em campo. Foram chamá-lo. Ele veio.

O caso Master veio para ficar. É incontrolável. Empurra-pressiona tudo em Brasília e a partir de Brasília – e desafia a operação abafa contra as investigações.

Crime de homens público, por Flávia Oliveira

O Globo

Julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena

Chegou ao fim, quase oito anos depois da barbaridade, o longo caminho de punição aos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, mais cinco envolvidos no crime. O desfecho, essencial a uma nação que se entende democrática, sinaliza repúdio à impunidade e atenção à cobrança incessante das famílias das vítimas, da sociedade civil e da opinião pública, estrangeira inclusive. Ninguém soltou a mão de ninguém, até que as autoridades fossem capazes de identificar tanto quem matou quanto quem encomendou a morte da vereadora carioca em pleno exercício do mandato.

Vem aí o Ministério da Prosódia, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez o MP escafuasse Guimarães Rosa, por comprometer a norma culta com palavras que não existem

O ano de 2026 começou com tudo. O Rio teve o melhor janeiro de sua história, com número recorde de turistas. Juiz de Fora, em contraste, bateu o recorde de chuvas para o mês de fevereiro.

Agora, leitor, me diga, com toda sinceridade: como você pronunciou mentalmente a palavra “recorde” ao ler o parágrafo acima? Ainda bem que não leu em voz alta, nem havia ninguém do Ministério Público Federal por perto, ou o saldo de sua conta bancária poderia superar o recorde negativo anterior. Ops, errou de novo: não é “récorde” (proparoxítona), mas “recorde” (paroxítona, sem acento).

A hora e a vez da resiliência, por Orlando Thomé

Correio Braziliense

O maior desafio frente aos eventos climáticos extremos é construir as chamadas cidades resilientes, que são aquelas capazes de enfrentar, resistir e se adaptar a choques e tensões — sejam eles climáticos, sociais ou econômicos — sem colapsar 

Dia 21 de dezembro de 2025 teve início o verão no Hemisfério Sul do planeta que se encerrará em 20 de março deste ano. É de conhecimento público que se trata do período em que nosso país, historicamente, passa por chuvas intensas, provocando desastres em diversas regiões. Nesta semana, estamos assistindo ao drama vivido em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Até o momento que escrevo esta coluna, já foram contabilizados 55 óbitos e 13 desaparecimentos nos dois municípios. No mesmo período, na Baixada Fluminense, a contagem já passou de 2 mil pessoas atingidas, sendo 1 mil em Nova Iguaçu e 600 em São João de Meriti, onde houve um óbito de uma senhora de 85 anos.

A injustificável farra dos penduricalhos, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Os argumentos são surpreendentes, até chocantes para a maioria dos brasileiros. Alguns magistrados alegam que o salário é baixo e a carreira pouco atrativa: os juízes estariam sofrendo uma penúria que justificaria a remuneração indireta fora do teto de R$ 46.3 mil

O Supremo Tribunal Federal colocou em pauta um debate extremamente importante para a saúde orçamentária brasileira e para preservação da moralidade pública: a farra dos penduricalhos em carreiras de estado, sobretudo aqueles pagos pelo Poder Judiciário e Ministério Público aos seus membros. Os chamados penduricalhos compreendem verbas indenizatórias, gratificações e auxílios. Por sua natureza, esses valores não sofrem qualquer limitação do teto de gastos ou tributação de imposto de renda.

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento, por André Régis

Folha de Pernambuco

Como explicar que, num cenário de primeiro turno, o candidato que lidera entre os mais pobres não seja Lula, mas Flávio Bolsonaro? A Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026 obriga o país a encarar esse dado sem filtros ideológicos. No recorte de renda familiar até R$ 2.000, Flávio aparece com 46,8%, enquanto Lula marca 32,5%. No extremo oposto, acima de R$ 10.000, o desenho se inverte com nitidez: Lula lidera com 57,8% e Flávio fica em 26,7%. É esse cruzamento — fragilidade onde Lula sempre foi mais forte, vigor onde raramente foi hegemônico — que dá ao quadro atual caráter de forte complexidade, não de simples oscilação.

O celular do Vorcaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Smartphones facilitaram bastante a atividade de investigação policial

As próprias vítimas produzem e juntam as provas que poderão condená-las

Se os avanços tecnológicos ameaçam vários empregos, eles foram uma bênção para a atividade policial. Um investigador do início do século 20 gastava sola de sapato para entrevistar as sempre pouco confiáveis testemunhas e dispunha de poucas ferramentas científicas para ajudá-lo. Não havia muito mais que datiloscopia, rudimentos da balística e da toxicologia. A partir da segunda metade do século 20, vieram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, além da proliferação de câmeras de vigilância, que fizeram com que as evidências físicas também contassem a sua história.

Magistrada debocha da população em julgamento no STF, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Ela reclamou que juiz não tem carro, apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café

Para quem esperava um avanço para barrar os supersalários, a semana não terminou bem

fala da presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho, Claudia Marcia de Carvalho Soares, no julgamento da liminar que limita os supersalários no serviço público, do ministro do STF Flávio Dino, expôs na forma bruta o abismo que existe entre o Judiciário e o resto da população brasileira.

Claudia Soares reclamou que o juiz de primeiro grau não tem carro, paga o combustível do próprio bolso e não tem apartamento funcional, plano de saúde, refeitório, água e café.

Entrave lobista impede fim da escala 6x1 e supersalários, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Deputados sentem-se à vontade para dizer ao trabalhador que 'ócio demais faz mal'

Projetos sobre pagamento de penduricalhos estão parados no Congresso

Já tínhamos a lei que não pega, consagrada na expressão popular. Agora temos o projeto de lei, não importando sua urgência, legitimidade ou necessidade moral, cuja aprovação depende da conveniência, da simpatia, do humor, das condições sazonais (o "voto impopular" em ano eleitoral) e sobretudo da influência de lobistas.

Uma ideia insustentável? Por Cristovam Buarque

Veja

A redução da jornada precisa estar acompanhada de reformas

Todas as sociedades que reduziram a jornada de trabalho ampliaram antes a permanência de crianças e jovens em escolas de qualidade. Foram sistemas públicos escolares acessíveis a todos que possibilitaram o aumento de produtividade e a consequente redução na jornada sem perda de competitividade nem redução de renda. Em geral essas reformas estruturais foram possibilitadas por lutas de partidos progressistas. As revoluções das últimas décadas — tecnológica (digital), psicossocial (individualismo) e geopolítica (globalização e queda do Muro de Berlim) — moldaram uma esquerda com propostas voltadas à ampliação de direitos identitários e individuais, sem reformas estruturais que assegurem direitos sociais duradouros. A proposta de redução da jornada semanal de trabalho é justa. No entanto, não altera a estrutura social e, por isso, é insustentável.

Keynes e a esfinge do dinheiro, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Quando percebeu que transformavam a sua teoria em dogma, ele disse: “Não sou keynesiano”

Em um seminário realizado sobre o livro A Teoria Geral, do Juro, do Emprego e da Renda na Universidade de Campinas, um dos escribas deste artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, de Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Neste artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria Geral, o capítulo XII – O Estado da Expectativa a Longo Prazo.

Neste capítulo, Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lorde Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods, foi visionário ao declarar: I am not a Keynesian (“Eu não sou um keynesiano”), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard rompeu com as simplificações da ortodoxia.

Fardo ou dádiva? Por Pedro Serrano

CartaCapital  

Estudo comprova que a presença de imigrantes é benéfica para a economia dos Estados Unidos

Governos europeus de extrema-direita têm adotado políticas restritivas à entrada e permanência de estrangeiros, utilizando argumentos populistas que associam criminalidade e dificuldades econômicas à presença de imigrantes ilegais. É nesse tipo de narrativa que também se apoia o governo Trump, ao implementar medidas anti-imigração nos Estados Unidos.

Trump tem associado os estrangeiros a ameaças terroristas e os acusa de drenar recursos públicos que, em sua visão, deveriam ser destinados prioritariamente aos norte-americanos. No entanto, a violência empregada na repressão aos imigrantes já resultou em mortes até de cidadãos natos, e tais atos extremos começam a ser cada vez mais rechaçados pela população.

A lei da selva, por Jamil Chade

CartaCapital

Como as sanções de Washington a juízes e promotores emperram o funcionamento do TPI

Pouco mais de um ano após a chegada de Donald Trump ao poder, as sanções adotadas pelo presidente dos Estados Unidos contra as Cortes internacionais e os relatores de direitos humanos asfixiam a Justiça e revelam a ambição da Casa Branca em garantir uma absoluta impunidade das atrocidades cometidos em Gaza. Ao longo dos meses, o republicano adotou medidas contra procuradores e juízes do Tribunal Penal Internacional que “ousaram” denunciar Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, por crimes de guerra e contra a humanidade. As sanções abalaram o funcionamento do organismo, o acesso ao e-mail, viagens, pagamento de salários e a própria investigação contra os suspeitos.

Trump, o anticapitalista, por Marcus Pestana

Donald Trump é um ator político fora da curva. Empresário milionário controverso por seus métodos heterodoxos; apresentador do reality show “O APRENDIZ”, que o projetou como influenciador midiático; outsider político que dominou o Partido Republicano, transformando o conservadorismo clássico no atual populismo iliberal espalhafatoso; surpreendeu, nas eleições de 2016, derrotando Hilary Clinton.

Poesia | Gargalhada, de Guimarães Rosa

 

Música | Chico Buarque - Paratodos

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master mostra por que é melhor privatizar BRB

Por O Globo

Banco de Brasília estima rombo por falcatrua em R$ 6,6 bilhões — e ninguém sabe como ele será coberto

A liquidação do Banco Master expôs os problemas enfrentados pelo BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. No ano passado, a Câmara Legislativa do DF deu sinal verde para o BRB adquirir parte do Master. O negócio foi vetado pelo Banco Central (BC), que já via como irreversível a derrocada do banco de Daniel Vorcaro. Mas o BRB acabou comprando uma carteira fraudulenta de títulos do Master avaliada em R$ 12,2 bilhões. Uma auditoria do BC constatou que os papéis não existiam ou estavam supervalorizados, e a Polícia Federal abriu inquérito para investigar fraudes.

O Congresso é responsável por nosso futuro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país

A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.

Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios do Brasil.

Os mais iguais, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Privilégios evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais

“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é um desses livros que a gente lê com a estranha sensação de que já o havia lido e até mesmo de que já esteve no lugar ali descrito e até presenciou os acontecimentos ali ocorridos. O livrinho trata do poder das entrelinhas e do avesso na edificação da lógica perversa e oculta da dominação política fora dos marcos da grande herança da Revolução Francesa.

A familiaridade que a leitura nos sugere dá a impressão de que Orwell esteve no Brasil (ou Brazil?). Não só a gente já viu isso, mas ainda está vendo.

Tudo começa com uma insurreição dos bichos da chácara de Mr. Jones. Preguiçoso e bêbado, ele descuidava dos animais e os maltratava. Os animais haviam espalhado que Major, um porco premiado, tinha tido um sonho que gostaria de contar a todos logo que o dono da granja fosse dormir. E começou: “Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes?”. Ressaltou as condições adversas em que viviam os animais: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.

Alô, alô, eu vou chamar o marqueteiro: Sidônio! Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Diferença de 0,1 ponto percentual em pesquisa fez o chão tremer para a ala racional do PT

Ninguém irá passar recibo, mas a sucessão de reveses nos últimos dias dividiu o time lulista entre os sinceramente preocupados, os aflitos e os negacionistas. Estes minimizaram o resultado da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira (25), que mostrou pela primeira vez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno: 46,3% a 46,2%, respectivamente. Uma diferença de 0,1 ponto percentual, que fez o chão tremer para a ala racional do PT.

CPIs têm espetáculo turbinado em anos eleitorais, mas é o STF que surpreende, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Maior escândalo financeiro em ano de eleição hiperpolarizada aumenta a indefinição mas é Mendonça quem mais surpreende governo

CPMI do INSS pautou e aprovou, no atropelo do regimento, a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República. A mesma comissão sequer pautou a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. Os dois controlam uma empresa sediada nas ilhas Virgens Britânicas, suspeita de lavagem de dinheiro.

Escândalo embola o jogo da política, por Vera Magalhães

O Globo

Integrantes do Executivo imaginavam que Lula poderia sair incólume, mas percepção difusa de escândalo também atinge o governo e ajuda a explicar nova queda em pesquisas

O rastro de destruição deixado pela fraude do Banco Master em Brasília é tão grande que é difícil, hoje, apontar quem tem algo a ganhar com os desdobramentos do escândalo. Em maior ou menor grau, perdem o governo, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso e os partidos políticos, de A a Z.

Num ambiente marcado por alta tensão, em que um Poder aponta o dedo para o outro para detectar culpas, omissões, relações com o esquema de Daniel Vorcaro e responsabilidade por vazamentos de toda natureza, o rombo provocado pelo banco e a demora em estancá-lo são um trabalho de muitas mãos, que deixará mortos e feridos pelo caminho em todos os campos agora que as investigações acontecem de forma desordenada, tamanho foi o afã de abafá-las.

Juízes sem juízo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao defender penduricalhos, magistrados dão novos argumentos para banir pagamentos acima do teto

A causa do fim dos penduricalhos ganhou um impulso inesperado. Na quarta-feira, representantes de associações de juízes foram ao Supremo defender os pagamentos acima do teto. Em vez de justificá-los, deram novos argumentos por sua extinção.

O advogado Alberto Pavie Ribeiro, da Associação dos Magistrados Brasileiros, disse que a carreira não seria mais “atrativa” por causa dos salários pagos aos juízes. No Tribunal de Justiça do Rio, o subsídio inicial de um juiz substituto é de R$ 35,8 mil, fora benefícios.

Cem anos do mesmo argumento, por Pablo Ortellado

O Globo

Se o incômodo para os setores econômicos é pontual e momentâneo, o benefício para os trabalhadores é permanente e duradouro

O jornal Folha de S. Paulo publicou ontem uma entrevista com Marcos Pereira, presidente do Republicanos, em que o deputado explicou sua oposição ao fim da jornada 6x1. Questionado sobre como via a demanda por mais tempo de lazer e menos tempo de trabalho, o deputado respondeu:

— Acho que, quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais, ócio demais, faz mal. Tem vários casos de pessoas que conheço. Fulano, quando parou de trabalhar, morreu rápido, ficou doente. A gente precisa de atividade. O lazer é importante para a saúde mental. Mas a população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?

Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático

A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI.

O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.

Crise para além das eleições, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos

Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.

Para começar, uma das instituições mais criticadas, o Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento, não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da continuidade de deputados e senadores.

Lula já venceu? Será? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Outubro terá um candidato com o pai na cadeia e outro com o filho sob investigação

As quebras dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha remetem aos piores momentos da longa carreira política do presidente Lula – mensalão, Lava Jato e prisão – e desabam sobre a campanha da reeleição justamente quando o senador Flávio Bolsonaro se firma e ganha fôlego como o principal candidato da oposição. Quanta poeira, ou lama, pode sair daí?

E, afinal, Lula não estava virtualmente reeleito? A resposta, nua e crua, é não. Se as pesquisas até aqui capturavam o favoritismo do presidente, agora registram que a campanha vai ser ainda mais difícil do que a de 2022, que ele venceu por margem já bem apertada.

Sem antecedentes criminais, Lulinha tem uma relação que vai de mal a pior com a Polícia Federal, após as revelações sobre seus laços com o escândalo do INSS e a quebra dos sigilos, tanto pelo ministro do STF André Mendonça quanto pela CPMI do INSS. Ambos decidiram com base na PF.

Flávio Bolsonaro e um ‘Paulo Guedes de saias’, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Senador está sendo cobrado pela Faria Lima a anunciar o comandante da economia

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está sendo cobrado pela Faria Lima a anunciar o comandante da economia caso vença as eleições em outubro. A expectativa em seu entorno é de que o nome seja divulgado em breve, seguindo o mesmo roteiro adotado por seu pai na campanha de 2018.

À medida que o senador vai subindo nas pesquisas de intenções de voto e se consolidando como o candidato da direita, a ansiedade do mercado aumenta. Enquanto o posto de vice-presidente é barganhado pelos partidos políticos, é o ministro da Fazenda que interessa aos investidores porque ele precifica o “risco” do candidato.