Lula se recusa mais uma vez a participar de
confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo
O país está diante de uma escolha difícil
entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse
financeiro
A decisão de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
de não
participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial
deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro
turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que
essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política
nacional.
Flávio
Bolsonaro (PL),
que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser
mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo
de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando
desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de
afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.
A indigência do cotejo de programas é o
efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos
candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É
fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de
platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.
Quatro em cada dez eleitores não têm Lula ou
Flávio na ponta da língua. Quer melhoria de vida, mas, nesse tiroteio, terá que
escapar de bala perdida
A 72 horas do início da votação, quatro em
cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador
Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem
quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer
interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram
conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.
O eleitor típico desta escolha derradeira é
mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8
mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas.
Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja
porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para
pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era
preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo.
Agora são, em média, 300.
As polêmicas eleitorais foram deslocadas para o
terreno institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as
intervenções da Justiça Eleitoral e a exploração da religião
Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de
1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios
petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som
“três em um” — rádio, vitrola e toca-fitas — que teria dado de presente a uma
ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa
Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia
sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam
Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado
e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.
Guinada aparece em materiais que a campanha
passou a distribuir, com propostas mais rígidas no enfrentamento à
criminalidade
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) endureceu o discurso sobre segurança pública às vésperas do
primeiro turno, numa tentativa de atrair indecisos e o eleitor de centro e de
desgastar o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), adversário do petista na disputa pela Presidência.
Pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou que a violência é a principal
preocupação dos eleitores, com 33% de menções.
A guinada aparece em materiais que a campanha
passou a distribuir, como uma lista com 13 propostas por "mais firmeza
contra o crime". Uma delas endurece regras para a liberação de presos por
crimes violentos após audiência de custódia, numa mudança de tom em relação ao
que a esquerda defende historicamente. O conteúdo também defende mais câmeras
corporais em policiais, ampliação do programa Celular Seguro e construção de
novos presídios federais, entre outros pontos.
Além disso, foi divulgado um vídeo que
apresenta tom mais duro no combate à criminalidade, ao mostrar quatro homens
atrás das grades e falar em "quatro inimigos" que precisam ser
vencidos: "Os traficantes, os agressores de mulheres, os ladrões de
celular e os magnatas do crime". Outra peça no horário eleitoral mostra
uma mulher caminhando pela rua acompanhada do filho, desviando de munições e
exibindo a frase "a família Bolsonaro deixou o Brasil mais violento"
para criticar a flexibilização da política armamentista implementada no governo
passado.
O sentimento do presidente é mais de soberba
que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser
criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas
pesquisas.
O presidente Lula já teve a experiência, em
outra encarnação presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da
eleição presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco
sua reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi
grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu
vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos,
aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi
imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno,
deixando tontos os petistas.
Supremo apareceu não porque foi provocado a
agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir a sobrevivência
Na terça-feira, o presidente Lula
telefonou de cima de um palanque para o ministro Flávio Dino
em plena campanha eleitoral. Estava em Belém e queria parabenizá-lo por um
projeto criado por Dino, enquanto senador, que prevê controle de qualidade dos
serviços prestados pelos hospitais privados. A iniciativa do ministro,
sancionada por Lula, ocorreu depois da trágica morte do filho dele, de 13 anos,
durante atendimento num hospital privado de Brasília.
Para além da importância da matéria
sancionada, a imagem sintetiza o que foi a campanha de 2026. Uma confusão entre
política, candidatos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo junto
e misturado. Uma disputa eleitoral em que se falou muito pouco sobre o que
aflige os eleitores ou o que é fundamental para um projeto de país. Mas foi
dominada pelo STF, que entrou com os dois pés na eleição.
A explicação para o crescimento da dívida
pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo
ou os altos juros
A dívida pública subiu e ronda o país. Mas
para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões
políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83%
do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do
governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil
e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos
nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica
toda a alta da dívida pública.
Muita gente aí do seu lado celebra por
antecipação o vislumbre de que ‘aquilo a que odeia’ será destruído
A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou,
se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que
aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da
parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.
Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data
boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o
nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém,
como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como
ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como
ele, foi tão incompreendido.
Salvo o imprevisível a 48 horas das eleições,
o que parece pesar mais são fatores amplos e fora do controle. A saber:
abstenção e a “temperatura”, ou “percepção”, ou “sentimento” em relação à
economia.
Sim, a definição da situação de empate
ocorrerá dentro do que se previa. Junto a uma pequena parcela do eleitorado
concentrada no Sudeste. Como Lula sai mais prejudicado (em termos relativos)
pela taxa de abstenção no Nordeste, a diferença que ele precisa buscar está no
eleitorado mais “sensível”, digamos assim, ao famoso “feel good factor”.
Não importa tanto a camada social, esse
sentimento é contrário ao incumbente, tal como captado em sucessivas pesquisas.
Ele sugere um estado de espírito disseminado segundo o qual tudo é difícil e
caro. Os economistas constatam que a renda aumentou, mas a renda disponível,
não.
Ministros do tribunal se encontram antes das
sessões para tomar café em ambiente tenso
Nos dias de sessão, antes de entrarem no
plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma
espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às
conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A
crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem
nele.
Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram
acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça, a atmosfera também está
ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir
gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por
exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente. Na semana passada, o clima
estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin,
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes
Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na
antessala.
Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro
no país também ofende a Cristo
Mas tenho direito à ignorância e sou livre
para renunciar à minha liberdade
Eu posso ignorar que Flávio
Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao
anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do
Senhor Jesus
Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.
Posso ignorar que o pastor JB Carvalho,
fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição
religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e
assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora
Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB
e os riscos à liberdade religiosa.
Posso ignorar o desprezo de Flávio por
mulheres, sua rejeição à Lei Maria da
Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar
apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes
bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões
extremistas do Brasil e dos Estados
Unidos.
Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se
irmão for eleito
E há o risco de a promessa se alastrar para
outros órgãos, como PF e BC
Duas reportagens
de Patrícia Campos Mello publicadas
nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio
Bolsonaro, se eleito.
Depois do isolacionismo implementado durante
o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se
bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na
condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do
Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.
Campanha de 2010 também teve questão
religiosa oportunista; 2026 é muito pior
Selvageria que tira carne e medula do osso
das instituições é a nova regra do jogo
A eleição para presidente de 2010 teve
"guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a
azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim
da picada.
Direitas optaram por entregar liderança à sua
facção mais autoritária
Esquerdas têm que oferecer tradução renovada
de seus compromissos
O presidente Lula, seu vice, Geraldo
Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os
três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de
1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim
dizer, a última eleição da Nova República.
As direitas, em transição geracional, optaram
por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida
com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim,
produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo
prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.
Por suas declarações em palanques, é como se
Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus
Um deles é o de que vai terceirizar seu
mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?
Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer
que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar
com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais
assim. Flávio
Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em
comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência.
E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e,
se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.
"Deus está me preparando há 24 anos para
ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi
Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como
quem respira e suplicar
dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em
minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de
ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma
midiática crucificação.
Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA
expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos
Algo ruim vai nos acontecer como resultado
disso
Donald Trump
é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que
presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira
como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um
quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no
lugar do retrato de Biden?
Infelizmente, porém, quando alguém tão
moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou
de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da
Era da Inteligência
Artificial, não se pode ignorá-lo.
Porque, neste momento, Trump está deixando os
Estados
Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos.
Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos
por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.
Cinco anos atrás, uma percepção do economista
francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo
estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução
Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que
elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão
de pessoas em situações precárias.
Era mais um alerta do
que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado
foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.
"Em muitos
sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia
ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos em um
período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão
elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para
"uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas
de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty retornou à
cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no
Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe
liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na
capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários
países ao longo dos últimos anos.
No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no
estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida
pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e
impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil,
na cotação do final de setembro) até 2100.
O relatório também
propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional,
cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção
de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além disso, há
propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou
famoso, nos anos 2010, com seu O
capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto
global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel
central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu
incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no
comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.
Nos fóruns que se
seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas
de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A
próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.
"Será muito
triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na
direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições].
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário,
econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático
e consciente sobre o clima", diz.
A seguir, trechos da
entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do
primeiro turno da eleição presidencial brasileira.
Tornar mais racional gasto com o benefício
não significa deixar quem precisa sem assistência — ao contrário
A trajetória do gasto com o Benefício de
Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo a brasileiros com
mais de 65 anos ou com deficiência e baixa renda, ressalta a urgência de
reformular os programas sociais. Entre 2016 e 2025, o BPC foi a despesa com
maior aumento médio real entre os gastos não financeiros do governo. Pelos
cálculos otimistas da equipe econômica, custará R$ 153,3 bilhões aos cofres
públicos em 2027, alta de 7,2% na comparação com 2026. Computando o reajuste
recente do Bolsa Família, os dois principais benefícios assistenciais
consumirão mais de 10% das despesas primárias da União no ano que vem.
A poucos dias da eleição, a impressão de que
ministros estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há
risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança
Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma
profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países
demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades.
Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com
apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte
marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força
bruta.
Primeiro turno se aproxima sem que os
principais candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória
A campanha à reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu nos últimos dias estancar os problemas que
vinham se acumulando e, após semanas na defensiva, reequilibrou o jogo. Para
aliados do petista, o freio de arrumação precisa continuar. E deve ser ainda
mais intenso, se a direita repetir a arrancada final que costuma dar nas
disputas presidenciais e o senador Flávio Bolsonaro (PL) passar para o segundo
turno na dianteira.
Como dizem no mundo do futebol, Lula estava “encaixotado” pelo adversário. Em
outras palavras, estava bloqueado por uma marcação tática que o impedia de
trocar passes, avançar pelo campo e criar novas jogadas. Flávio tinha maior
posse de bola, dominando a pauta da campanha e neutralizando as investidas do
presidente.
Os estrategistas de Flávio sabiam que o plano
do Palácio do Planalto era insistir no discurso de que Lula recebeu do
ex-presidente Jair Bolsonaro um país destruído, com a máquina federal aos
pedaços, e ao longo dos últimos anos conseguiu restabelecer as políticas
públicas que haviam sido abandonadas. Com a casa arrumada, a reeleição então
serviria como ponto de virada para um país melhor, com mais qualidade de vida e
poder de compra para a população.
Documento cita ameaças e intimidações a
bispos católicos; início da ofensiva coincide com ano em que o clã chegou ao
poder
No último domingo, a cúpula da Igreja
Católica se viu arrastada para a guerra eleitoral. O candidato do PL ao
Planalto acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de
propagar mentiras para prejudicá-lo.
Sem apresentar provas, Flávio Bolsonaro disse
que “gente de dentro da CNBB” teria ajudado a disseminar o que ele chamou de
fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. A fala viralizou nas redes e deu
início a uma série de ataques à entidade. Não foi a primeira vez.
Um estudo feito pela Comissão Brasileira de
Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O
início da ofensiva coincide com o ano em que Jair Bolsonaro chegou ao poder.
Entre os detratores citados no relatório,
estão influenciadores bolsonaristas, uma produtora de vídeos de extrema direita
e políticos do PL, como Paulo Bilynskyj, Gil Diniz e Eduardo Bolsonaro. O
documento deixa claro que os ataques ultrapassam a disputa de opiniões. Há
casos de ameaças, intimidações e ofensas.
Captura da campanha por assuntos inflados
artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da
política e esgotamento da atual polarização
Quando parecia que a eleição deste ano não
tinha como ficar mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por
uma escalada sem pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida
e terminou, como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal
(STF).
A guerra santa se fundiu à guerra aberta
entre ministros da Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam
imaginar para uma campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à
lista de favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às
propostas para o futuro do Brasil.
Como não há ideias nem propostas, Nossa
Senhora Aparecida ocupou o espaço vazio
Lula tende a não ir ao debate de quinta-feira
na TV Globo.
Com isso, o primeiro turno ficará sem debate entre os candidatos competitivos.
É pena, mas os nomes de uma terceira via tiveram meses para romper a barreira
de um dígito e não conseguiram. Essa monotonia fez da eleição presidencial um
evento burocrático, sem ideias, plataformas ou desafios. Lula 4.0 seria uma
continuação de Lula 3.0, que nada foi além dos Lulas passados. Há um candidato
do PT,
outro contra o PT, e estamos conversados.
A ideia de faltar a mais esse debate é
arriscada. Numa eleição apertada como esta, a imagem da cadeira vazia pode ter
um efeito desastroso mesmo para o segundo turno.
A guerra santa promovida após vir à tona uma
notícia falsa de que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, pretendia tirar de
Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ressuscitou a batalha
entre duas alas do STF, às vésperas das eleições.
Não bastasse a campanha do primeiro turno
estar chegando ao fim sem que os eleitores saibam as propostas dos candidatos
para comandar o País pelos próximos quatro anos, agora os dois principais
postulantes à Presidência têm um juiz para chamar de seu. Na prática, a agenda
sobre o que precisa ser feito para impulsionar o desenvolvimento do Brasil foi
sequestrada pelo escândalo do Banco Master e pela crise do STF.
Na reta final do primeiro turno, Lula parte
para o vale-tudo do populismo
Medidas testam limites do eleitor moderado,
que não tem tantas alternativas
O eventual eleitor institucionalista em busca
de argumentos para não votar em Lula
deparou-se com vários no último par de semanas. Como a lista é longa,
concentro-me nos dois casos mais gritantes de populismo
eleitoreiro.
O primeiro foi o reajuste de
15% nos benefícios do Bolsa Família,
decretado a apenas 17 dias do primeiro turno. O problema aqui não é o conteúdo,
mas o timing. Compensar o programa pelas perdas inflacionárias dos últimos anos
sempre teve sentido, mas o governo Lula, por boas ou más razões, havia
preferido não fazê-lo. O reajuste não constava da proposta de Orçamento para
2027 enviada ao Congresso pouco antes. Mas bastaram as pesquisas o colocarem
num quadro eleitoralmente desafiador para ele agir.
STF enfraquecido, Trump e aprendizado
institucional tornam diferente um eventual novo ciclo bolsonarista
Em 2026, o projeto é mais legível e as
condições para executá-lo podem ser mais favoráveis
Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos
partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida
havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo
radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase
desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder
praticamente um cheque em branco a Jair
Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia
poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem
se pretende entregar o governo do país.
Em 1986, nas eleições legislativas para a
Constituinte, o sociólogo Luiz Werneck Vianna foi candidato a Deputado Federal
pelo PMDB do Rio de Janeiro. Aqueles que gostam de fazer o exercício da memória
das antigas campanhas eleitorais deveriam resgatar as imagens dessa campanha
eleitoral, que foi a primeira após o prolongado período de autoritarismo no
Brasil. O partido mencionado fazia um “círculo” de candidaturas ao legislativo,
debatendo propostas no horário da propaganda eleitoral gratuita. Muito distante
da competição individualizada nas eleições atuais.
Foi naquele ano que o PMDB se tornou
vitorioso em todo o país ao ponto da imprensa o comparar ao PRI do México (uma
comparação que demonstrava o temor dos meios de comunicação de uma hegemonia em
favor de um Estado de Bem Estar Social). A comparação se apresentou como
equivocada, pois o Partido de Ulisses era uma grande frente de diversificadas
tendências que tinham em comum a luta pela derrota política do atraso ao qual o
país se entregou após 1964.
Autorização para fake news sobre Nossa
Senhora e decisão de Gilmar sobre Bolsa Família atropelam TSE
Tem sido preocupante a politização das
decisões eleitorais da Justiça. Na semana passada, espalhou-se a notícia falsa
de que Flávio Bolsonaro, se eleito, tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título
de padroeira do Brasil. Era uma especulação descabida, que Flávio desmentiu de
imediato. Ele entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e,
no mesmo dia, o ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, determinou a
remoção de conteúdos das redes sociais. O ator e humorista Antonio Tabet
recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando o caminho institucional
correto teria sido acionar o plenário do TSE. Já no domingo, o ministro Flávio
Dino anulou decisão de Mendonça e, por motivação nitidamente política, liberou
as publicações com a mentira, favorecendo a campanha do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva.
Até domingo, a tendência mais consistente é a
de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la
pelo voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor.
Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e pelo
confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as
pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao
menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que
proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro
turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro.
Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus
registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada
anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de
Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante
das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha
produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para
cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate
técnico.
Em artigo-ensaio recente (“O golpe
continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um
só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que,
pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as
apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático
brasileiro.
Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo
constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos
trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista
conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para
além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado
pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar
fim à miséria.
É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina,
que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso
e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a
que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos
assassinatos ainda sem conta fechada.
A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram
dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se
movendo
Dentro de cinco dias estaremos diante da urna
eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o
próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da
Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha
curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos
mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com
blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal,
traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.
A sondagem foi melhor para Lula
do que para Flávio
Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos
percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse
aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no
eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022.
Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele
estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado
brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo,
Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora
caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.
O maior perigo que corremos, como nação
laica, é cairmos na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas
políticas.
Os últimos dias de campanha trazem novas
discussões, mais debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país.
Discute-se se o voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece
improvável — ou se Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do
Brasil. Perde-se tempo numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada,
quanto mais disputada. O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos
nesse tipo de embate, que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em
casos pontuais e não institucionais.
Apesar dos grandes julgamentos e de todas as
críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu
Ao proibir as bets nove dias antes do
primeiro turno, Lula
fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de
êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande
número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.
É impossível cravar cientificamente qual será
o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula
fez menção ao Flamengo;
a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.
O regime parece ter perdido a capacidade de
se regenerar. De se aperfeiçoar
Entre novembro e dezembro de 2022, o pai do
senador Flávio
Bolsonaro (PL) dedicou
boa parte de seu tempo a convencer os comandantes do Exército e da Aeronáutica
a dar um golpe militar em seu nome. Não é uma hipótese. É um fato histórico
documentado. Foi o que disseram em depoimento à Polícia
Federal e ao Supremo o general Marco Antônio Freire Gomes, que estava no
topo da hierarquia do Exército, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista
Junior, seu par na Força Aérea. Baptista Junior é autor do livro “Eu disse
não”, que conta justamente os detalhes daqueles dias, publicado neste mês pela
Autêntica. E, no entanto, quando a pesquisa Meio/Ideia perguntou aos brasileiros
em março sobre o tema, 39% disseram acreditar que o golpe fora tentado por Jair
Bolsonaro; 54% falaram que não acreditam. Foi a última vez em que uma pesquisa
nacional tratou do tema. Nesta semana, à medida que entramos na reta final do
primeiro turno destas eleições, as pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
no que, essencialmente, é um empate com Flávio. Pode dar qualquer coisa.