*Giuseppe Vacca, ‘Por um novo reformismo”. Pág. 92. Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2009.
Democracia Política e novo Reformismo
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Opinião do dia - Giuseppe Vacca
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Protestos no Irã alimentam esperança
Por O Globo
Aiatolás voltam a reprimir oposição com
violência, mas padecem de fraquezas internas e externas
Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.
Projeto da burrice é antigo. Por Larissa Leão de Castro
O Globo
Hélio Pellegrino descreveu em livro há mais
de 30 anos não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que ainda vivemos
Há pensamentos que o tempo não consome porque
são escritos no nervo exposto de um país. O de Hélio Pellegrino é um deles.
Resgatar hoje sua obra “A burrice do demônio”, mais de três décadas depois, é
perceber como ele descreveu não apenas o Brasil da ditadura, mas o país em que
ainda vivemos, atravessado por desigualdades brutais, violências de Estado e
uma tentativa insistente de organizar a burrice como projeto político.
Psicanalista, marxista, homem de fé e de poesia, recusou compartimentos. Para ele, a psicanálise não era luxo de consultório, mas instrumento de justiça social. Ao falar de desejo, falava também de salário, de moradia, de racismo, de tortura, de manicômios. Foi um dos primeiros a formular ideias como “sintoma social”, “patologia social” e “perversão social”, mostrando que alguns sofrimentos não cabem apenas no código do diagnóstico, nascem de estruturas históricas perversas, de pactos silenciosos de exclusão.
Democracia como limite. Por Merval Pereira
O Globo
As milícias armadas pelo chavismo/madurismo
espalham terror pelas ruas na Venezuela, e a insegurança jurídica impede que se
faça um planejamento de longo prazo para o país.
A estratégia de Donald Trump de não invadir a Venezuela, mas transformar o governo chavista em marionete manipulada à distância, como se fosse um drone teleguiado, esbarra em detalhes fundamentais: a violência interna está aumentando, com repressão até mesmo aos que apoiam os Estados Unidos. As milícias armadas pelo chavismo/madurismo espalham terror pelas ruas, e a insegurança jurídica impede que se faça um planejamento de longo prazo para o país.
O escândalo Master pode ajudar o Brasil. Por Fernando Gabeira
O Globo
O lado sombrio do país tem se projetado com
efeito mais devastador do que a intensa luz do sol iluminando todo esse
processo
Algumas vozes defendem que o escândalo do Banco Master não seja totalmente revelado. Segundo elas, o impacto seria tão grande que o Brasil não aguentaria. É um grande equívoco. Apesar de sua fragilidade, a democracia brasileira não só aguentaria saber de tudo, como poderia usar a revelação de combustível para algumas reformas. O que envenena a convivência democrática é ver o enorme esforço que se faz para abafar o escândalo.
Bancos centrais enfrentam ataque. Por Míriam Leitão
O Globo
Parece uma temporada de ataques a bancos
centrais: o Fed na mira de Trump e o BC às voltas com o desenrolar do caso
Banco Master
O Fed sob um ataque tão direto e diante de uma tentativa de intimidação tão explícita não é apenas algo que nunca se viu. É que não se pensava que pudesse acontecer. A reação foi imediata, e quem deu o tom foi o próprio Jerome Powell. Normalmente comedido diante das grosserias de Donald Trump, o presidente da instituição não mediu palavras. Através de comunicados, ex-presidentes do banco central americano, de ex-secretários do Tesouro e de bancos centrais de vários países apoiaram Powell. Todo mundo sabe o custo para a sociedade de tirar a credibilidade do banco central. Todo mundo, menos Trump.
Memória e esquecimento: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura. Por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Kleber Mendonça Filho recusou soluções fáceis
e o mito clássico do herói grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura
deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro
A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua não-inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geografo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia — feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme constrói sua crítica política mais profunda.
A internet do Irã. Por Pedro Doria
O Globo
O que está acontecendo no Irã não é reedição do que ocorreu na Primavera Árabe. Há 15 anos, as redes sociais nascentes permitiram que grupos diferentes na Síria, no Egito e em tantos outros países se organizassem para protestar contra os regimes em que viviam. Os aiatolás entendem isso. Desde então, promoveram apagões de internet em todo o território nacional sempre que havia novas ondas de manifestações. Mas isso não quer dizer que a internet não seja usada. Os manifestantes também aprenderam a lidar com a estratégia do regime.
Fé, esforço e disciplina não bastam para empreender. Por Pedro Cafardo
Valor Econômico
É óbvia a existência do desejo de viver sem patrão, uma busca de autonomia natural do ser humano, mas a opinião favorável à carteira assinada é uma realidade que se impõe em razão da segurança e dos benefícios da CLT
É difícil tirar os olhos do cenário global
após a invasão da Venezuela pelos EUA. Mas vem aí a campanha eleitoral e não há
como deixar de olhar para questões internas. Quando acabou o segundo turno das
eleições municipais, em outubro de 2024, fervilharam análises para explicar as
derrotas da esquerda.
Entre as causas, teve destaque a opinião de
que a esquerda perdeu contato com as periferias. E a receita muito recomendada
para retomar o diálogo era o apoio ao empreendedorismo.
O assunto voltou à discussão um ano atrás com o caso do atrapalhado anúncio da fiscalização das transferências bancárias acima de R$ 5 mil. Ganhou credibilidade naquele momento a mensagem falsa de que, com a medida, o governo iria taxar o Pix.
O cinema e a alma nacional. Por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o
cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula
O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.
Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.
Flávio se empolga, mas falha na moderação. Por Roseann Kennedy
O Estado de S. Paulo
O que no começo era um movimento para frear o avanço político da exprimeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e, também, um balão de ensaio para testar viabilidade eleitoral e manter a família em evidência começou a ganhar musculatura. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empolgou-se com sua pré-candidatura presidencial e passou a dar passos mais arrojados para tentar garantir apoios e sustentação à sua pretensão palaciana. Ele procurou empresários, agentes do mercado financeiro e foi até rezar numa igreja evangélica em Orlando. Agora, neste janeiro de 2026, já circula na Faria Lima que o filho zero um de Jair Bolsonaro conseguiu promessas de apoio para o cofre de sua campanha.
Procura-se um candidato. Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo
Não haverá saída e recuperação sem medidas estruturais de médio e longo prazo
O Brasil enfrenta uma situação interna de
extrema complexidade. A disfuncionalidade do sistema político afeta a
governança e o equilíbrio entre os Três Poderes. Não haverá saída e recuperação
sem medidas estruturais de médio e longo prazo. O programa mínimo que a
seriedade da crise atual exige é passar o Brasil a limpo e mudar o que tem de
ser mudado dentro dos princípios democráticos.
Não se pode ignorar que tudo o que ocorre hoje é resultado de 20 anos de governos de esquerda e de direita que, pelas suas prioridades ideológicas, não levaram em conta as mudanças internas e as transformações globais e seus impactos sobre o País. A ausência de liderança no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, no meio empresarial e no meio dos trabalhadores agrava o quadro nacional e exige de todos os que se preocupam com o futuro do Brasil um esforço para promover um debate sobre as mudanças que a sociedade brasileira terá de enfrentar para restaurar o crescimento em nível mais elevado, aumentar o emprego de forma sustentável, combater a corrupção sistêmica e a violência do crime organizado.
Trump contra o mundo. Por Jorge J. Okubaro
O Estado de S. Paulo
Trump reforça o isolamento dos Estados Unidos. O país está fora da mesa em que o mundo discute seus grandes dramas
Trump não conseguirá destruir o mundo para cumprir sua promessa de fazer os Estados Unidos grandes novamente – Make America Great Again (Maga), seu lema de campanha –, que encantou certos políticos daqui). É o que esperam bilhões de pessoas que habitam o planeta. Mas Trump está destruindo as instituições que o mundo conseguiu erigir nas últimas décadas para estabelecer um complexo de relações e compromissos por meio do qual os países conseguem debater problemas comuns, encontrar soluções e preservar relações de convivência entre si, cada um cedendo ou ganhando para ficar em paz com os demais. Há esperanças de que, em algum tempo, suas decisões sejam revistas por pessoas mais sensatas que venham a sucedê-lo no cargo. No momento, o mundo perde.
Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói. Por João Pereira Coutinho
Folha de S. Paulo
Os que sofrem merecem empatia, mas não são
heróis
A dor nem sempre atesta a superioridade moral
do sujeito
Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na
história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a
Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar
feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado
terrorista no teatro Bataclan, em Paris.
À primeira vista, a decisão poderia passar
sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a
elevação da vítima a
um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.
Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?
O ópio do povo. Por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Embora Marx tenha feito crítica forte à
religião, esquerda nunca foi muito consistente em condenar regimes teocráticos
Antiamericanismo é parte da explicação, mas
também existe um vínculo metafísico que passa pela crença em utopias
Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral, econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.
Brasil se encolhe na liderança da América Latina. Por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
O presidente condena ação de Trump na
Venezuela, mas não assume a defesa pela restauração da democracia
Ambiguidade faz Lula perder a chance de
marcar mandato com papel relevante no cenário internacional
O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem falado ao telefone com mandatários das Américas e, ao que informa o serviço de comunicação do Palácio do Planalto, os assuntos são a Venezuela e o acordo Mercosul-União Europeia. Até aí, temos o óbvio, dada a atualidade dos temas.
Enrolado com o Master, Cláudio Castro foge do Palácio Guanabara. Por Alvaro Costa e Silva
Folha de S. Paulo
Governador teme que desastre fiscal atrapalhe
eleição ao Senado
Sua candidatura, porém, ainda depende de
absolvição no TSE
Cláudio Castro fez três pedidos ao gênio da lâmpada. A urgência é escapar da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A ação no TSE teve início em novembro, dias depois da chacina nos complexos do Alemão e da Penha. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação e inelegibilidade. O ministro Antônio Carlos Ferreira pediu vista, e a expectativa é que o processo seja retomado em fevereiro.
Bondi Beach e o massacre. Por Marcus Cremonese*
Uma semana depois, em 21 de dezembro, a mesma praia e os gramados adjacentes foram o cenário de uma manifestação vibrante de unidade, de reflexão e de respeito mútuo. Nesse dia, cerca de 16.000 pessoas ali se reuniram numa celebração de luto, o “National Day of Reflexion”. Dela participaram o primeiro-ministro, senadores, deputados federais e estaduais e diversas autoridades entre elas rabinos, imãs, padres, pastores e líderes muçulmanos.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Novos desastres climáticos desafiam as autoridades
Por O Globo
Pelo menos 83% do território do Rio e metade
dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais
A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.
Entrevista | PEC da Segurança ‘subiu no telhado’, diz José Guimarães
Por Andrea Jubé e Murillo Camarotto / Valor Econômico
Líder do governo na Câmara avalia que proposta não
deve ser aprovada, vê feridas na relação com Motta ‘cicatrizadas’ e analisa
eleições
Em meio à crise com a saída prematura do ministro
Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o líder do governo na Câmara dos
Deputados, José Guimarães (PT-CE), acha difícil que a proposta que era a
bandeira da pasta, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública,
seja votada antes das eleições. “Subiu no telhado”, admitiu. Ele também
descarta a criação de uma pasta da Segurança Pública ainda neste ano.
Sobre o desentendimento do PT com o presidente da
Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), no fim do ano, afirmou que as
feridas “estão cicatrizando”. Acrescentou que a redução da escala 6 x 1 é
prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste semestre.
Vice-presidente do PT e
coordenador do grupo de trabalho eleitoral da sigla, ele disse que o partido
tem nesta eleição o desafio de alterar a correlação de forças na Câmara e no
Senado. A meta é eleger pelo menos 90 deputados federais, e impedir a oposição
de fazer maioria no Senado. Em tom de desabafo, reclamou da vida difícil do
governo no Congresso: “É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser
dilacerante”.
Guimarães sustentou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tem o direito de sair do governo e ir pra casa. Ele defende que Haddad seja candidato em São Paulo, ao governo ou ao Senado. “O Haddad tem missão a cumprir”.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
O BC pode cortar a Selic contra o mercado? Por Alex Ribeiro
Valor Econômico
A mensagem do Copom de dezembro acabou sendo contaminada por outros fatores, como as preocupações com as eleições de 2026 e as remessas de lucros e dividendos ao exterior
O jeito de os banqueiros centrais se
comunicarem mudou muito desde que Alan Greenspan, que foi chefe do Federal
Reserve (Fed), afirmou que havia aprendido a “murmurar com grande incoerência”.
Se algo que ele tivesse dito parecesse muito claro, era porque o ouvinte havia
entendido mal. Agora, a nova fronteira é falar até por memes, como fez o
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na entrevista do Relatório de
Política Monetária (RPM), citando um deles.
A mensagem que ele queria passar: alguns participantes do mercado financeiro se enganaram quando leram uma mensagem conservadora apenas porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC não telegrafou que vai começar a cortar os juros já nesta reunião de janeiro.
Na guerra das montadoras, o lobby não tira férias. Por Bruno Carazza
Valor Econômico
Grandes questões econômicas são decididas na
surdina, com pouca discussão na sociedade
O Estado brasileiro é uma fonte quase inesgotável de oportunidades de negócios e as grandes empresas que atuam no país sabem que, para se manter lucrativas, precisam combinar estratégias de mercado com o desenvolvimento de relações íntimas com a classe política.
É difícil cravar que as coisas por aqui são piores do que em outros países, mas lacunas institucionais levam a crer que as decisões de políticas públicas e econômicas, no Brasil, quase sempre são tomadas levando em conta apenas os interesses privados, e não o que seria melhor para a sociedade.
Trump: a lei sou eu. Por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Ele parece ignorar algumas questões
essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar
Donald Trump tem certeza de que é o dono do
mundo — e age com base nessa convicção —, mas parece não ter conhecimento de
questões cruciais envolvendo desde petróleo até armas nucleares. Dentro de um
mês, expira o último e mais amplo acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia.
Com isso, as duas potências estarão livres para aumentar (e eventualmente usar)
seus arsenais sem qualquer restrição. Jornalistas do New York Times perguntaram
a Trump, em entrevista na semana passada, como ele se preparava para essa
situação. Ele respondeu vagamente:
— Se vai expirar, vai expirar.
Os jornalistas ficaram com a nítida impressão
de que Trump simplesmente não estava a par do assunto. Tanto que acrescentou,
sem dar qualquer detalhe:
— Faremos um acordo melhor.
Jornalismo investigativo. Por Miguel de Almeida
O Globo
A civilização ganha com a imprensa
independente
Por meio de soldados arrependidos, o
jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de
1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo
vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes
vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre
crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos
a tiros ou na ponta das baionetas.
Nenhuma arma foi encontrada.
A face do crime. Por Irapuã Santana
O Globo
Protocolo de Reconhecimento de Pessoas é
fundamental para que as polícias abandonem métodos amadores
No dia 5, o Ministério da Justiça e Segurança Pública editou uma norma histórica: a Portaria 1.122/2026, que institui o Protocolo Nacional de Reconhecimento de Pessoas. Trata-se de um guia fundamental para que as polícias brasileiras abandonem métodos amadores e passem a tratar o reconhecimento como prova científica e rigorosa.
Lula e a Venezuela. Por Diogo Schelp
O Estado de S. Paulo
Se governo interino colaborar com Trump, as atenções sobre a Venezuela tendem a diminuir
Pode soar contraintuitivo, mas o ocaso de Nicolás Maduro pode ter vindo em boa hora para os planos de reeleição do presidente Lula. Como assim, se Lula e o PT têm uma relação histórica de amizade e conivência com o regime chavista, que esteve sob o comando de Maduro nos últimos 15 anos? Como assim, se o episódio revela a disposição de Donald Trump de usar a lei do mais forte para fazer valer seus interesses externos? As duas premissas são verdadeiras, mas é preciso analisar quais são os riscos reais que elas carregam para o projeto de poder petista.
Tutelas na América Latina fracassaram. Por Oliver Stuenkel
O Estado de S. Paulo
A promessa de ‘boa governança’ na AL por meio de supervisão externa mostrou-se ilusória
A história das “tutorias fiscais” –
protetorados de facto – dos Estados Unidos na América Latina explica a
hesitação do setor petrolífero americano com a Venezuela. Na semana passada,
após a operação militar dos EUA que levou à queda de Nicolás Maduro, o governo
Trump anunciou que pretende administrar, a partir de Washington, a produção, a
venda e o uso das receitas do petróleo venezuelano.
A proposta vai além da supervisão técnica: ao sugerir que os EUA poderão decidir o destino dos recursos, dá a Washington influência direta sobre o principal eixo do orçamento do país sul-americano. Trata-se de uma iniciativa sem precedentes no pós-Guerra Fria – mas com paralelos na história americana do início do século XX.
Bye bye’, Maduro. Por Denis L. Rosenfield
O Estado de S. Paulo
Eis uma oportunidade que não poderia ser perdida, capaz de assegurar o futuro da democracia e o enterro do ‘socialismo do século 21’
Maduro, hoje recolhido a uma cela num presídio nova-iorquino – destino merecido – foi um cruel ditador, impiedoso em suas ações. Seus meios de governar, se é que se pode utilizar essa expressão, foram a violência generalizada por meio da repressão, da tortura, do estupro, do silenciamento de toda e qualquer crítica. Utilizou um sistema repressivo baseado nas Forças Armadas, na polícia e nas milícias bolivarianas, com o uso constante da intimidação e do assassinato. Nada o detinha em sua dominação despótica. Eis o resultado do tão alardeado “socialismo do século 21”, produtor de miséria, de desigualdade social extrema, reduzindo a sua população à maior pobreza, enquanto a nomenclatura “socialista”, “comunista” usufrui dos maiores privilégios. Que tal regime tenha sido e seja ainda para alguns, um farol da esquerda beira ao incompreensível.
Master era um morto-vivo. Por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Banco não recolhia nem dinheiro que
instituições são obrigadas a deixar no BC
Ativos eram superavaliados ou fictícios, não
entrava dinheiro para cobrir o que saía
O Master foi liquidado por "profunda e crônica crise de liquidez" que comprometeu a "capacidade para satisfazer seus compromissos". Por "grave e reiterado descumprimento de normas", em "particular quanto à manutenção dos níveis regulamentares de recolhimentos compulsórios" e gestão de riscos de crédito e liquidez. Por "prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros". É o que escreveu o Banco Central em esclarecimentos prestados ao TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de dezembro de 2025.
De Lima Barreto ao Banco Master. Por Marcus André Melo
Folha de S. Paulo
A degradacao institucional expõe também o TCU
O vale tudo pós-Lava Jato explica muita
coisa, mas não se trata apenas da velha promiscuidade entre Estado e grandes
interesses privados
Em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", o personagem Genelício é o arquétipo do barnabé indolente, inepto, e diligente apenas na arte de parecer ocupado. Finge trabalhar enquanto se ocupa obsessivamente de regras obsoletas e protocolos irrelevantes. Dizia dedicar-se à redação de um monumental volume intitulado "Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos" —iniciativa tão inútil quanto o aprendizado do javanês em outro texto cáustico de Lima Barreto. O autor escrevia em 1911. Mais de um século depois, porém, o tema outrora exótico e quase irrelevante dos tribunais de contas converteu-se em questão central da agenda pública na atual conjuntura.
Legitimidade democrática e revisão dos tribunais. Por Lara Mesquita
Folha de S. Paulo
Segundo cientista político, certas elites
encontram no Judiciário proteção contra mudanças legislativas
Cortes que revisam leis aprovadas não
protegem minorias nem colaboram para o desenvolvimento
Há um ano publiquei meu primeiro artigo neste
espaço. Na ocasião, recorri a Adam Przeworski para discutir o que esperamos da
democracia e quais são seus principais desafios. Entre estes, mencionei o
cenário que se desenhava com o retorno de Donald Trump à
Presidência dos Estados
Unidos e a fraude nas eleições venezuelanas.
Nesta primeira coluna de 2026 volto a recorrer a Przeworski. Em artigo ainda em fase de preprint, o professor da NYU, em coautoria com José Antonio Cheibub, Fernando Limongi e Ye Wang, analisa diferentes modelos de controle constitucional e o papel contramajoritário das cortes que exercem revisão ex-post, isto é, sobre leis já aprovadas pelo Legislativo (modelo que adotamos no Brasil).
Sobre a noção de classes e grupos subalternos em A. Gramsci
Por Ivete Simionatto e Mirele Hashimoto Siqueira
Serviço Soc. Soc. São Paulo, v.147 (3) 2024
O objetivo do artigo é resgatar a
concepção de classes e grupos subalternos no pensamento de Antonio Gramsci,
demarcando a relação orgânica do tema com suas condições de vida, suas origens
sardas e a “questão meridional”. Através de um estudo bibliográfico e
teórico-filológico, recupera-se a presença dos conceitos nos escritos
pré-carcerários, o aprofundamento nos Cadernos do cárcere, com
destaque para os Cadernos 3 e 25, e as mediações
com outras categorias desenvolvidas na obra carcerária.
Palavras-chave:
Gramsci; Classes subalternas; Grupos subalternos
“Classes e grupos subalternos” estão entre os conceitos gramscianos mais discutidos nas últimas décadas, empregados nos mais variados discursos acadêmicos, científicos e políticos. Seu uso difundiu-se e alastrou-se largamente, em especial a partir dos estudos do coletivo indiano Subalter Studies, surgido nos anos 1980, ganhando popularidade entre os estudiosos de língua inglesa. Essa rápida disseminação, contudo, não raro vem acompanhada de equívocos interpretativos, decorrentes de uma apropriação indireta da obra de Gramsci, sem recorrer às fontes originais. Não é incomum, por exemplo, encontrarmos referência à discussão da subalternidade sem menção ao nome de Gramsci, o qual, mesmo que muito citado, permanece pouco lido na fonte viva de seu pensamento.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Opinião do dia – Antonio Gramsci*
*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.1. p. 103. Civilização Brasileira, 2006.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Acordo entre Mercosul e UE deve ser celebrado
Por O Globo
Em tempos turbulentos, ele representa uma
vitória do multilateralismo e uma derrota do protecionismo
Num mundo fraturado pelo protecionismo, é uma
resposta histórica corajosa o acordo entre Mercosul e União
Europeia, cuja assinatura oficial está prevista para esta semana em
Assunção, no Paraguai. Referendado na última sexta-feira pela UE, ele é o maior
tratado comercial já firmado, reunindo um mercado com 721 milhões de consumidores
e PIB de US$ 22,34 trilhões. O Brasil será sem dúvida um dos principais
beneficiários, tanto pelas exportações quanto pelas importações. O acordo prova
que, a despeito das medidas protecionistas que proliferam, livre-comércio e
multilateralismo estão vivos — e ainda são o melhor caminho para o planeta.
As negociações se arrastavam desde 1999. Sofreram inúmeras reviravoltas devido à pressão de grupos protecionistas, em especial agricultores europeus (os protestos pela Europa mostram que ainda não desistiram). As tratativas ganharam fôlego depois do tarifaço de Donald Trump, que forçou os países prejudicados a buscar novos mercados e alianças estratégicas. Na Europa, a resistência que emperrava o acordo se tornou gradativamente minoritária. A assinatura estava prevista para dezembro, mas acabou adiada em meio às dúvidas da Itália, que exigia salvaguardas mais robustas para os agricultores. Os italianos cederam depois do ataque americano à Venezuela.
Perda de tempo. Por Merval Pereira
O Globo
O presidente dos Estados Unidos parece ter
esquecido, ou não se dá conta, é de que sem uma democracia estabelecida é
difícil, quase impossível, fazer negócios que exigem muitos investimentos de
longo prazo.
Quando a criação do ministério da Segurança Pública volta a ser uma possibilidade, diante da crise de violência que assola o país, e o domínio do crime organizado torna-se uma ameaça explícita, vale a pena lembrar, e lamentar, que há mais de 20 anos essa mesma discussão dominava a política nacional. O então todo poderoso ministro Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, declarava sua vontade de ser nomeado o “czar antidrogas”, e numa manhã de novembro de 2003, em reunião com políticos, empresários e investidores em Campos de Jordão, deu um choque na plateia ao afirmar que se a América do Sul não se unisse no combate das drogas, os Estados Unidos poderiam invadir a Colômbia e, a partir dela, assumir o controle da Amazônia.
Lembrar é preciso. Por Bernardo Mello Franco
O Globo
Em livro, cientista político Leonardo
Avritzer lembra tentativa de golpe e alerta para permanência do extremismo:
“Democracia segue sendo um projeto contencioso”
A cada 15 anos, o Brasil esquece o que
aconteceu nos últimos 15 anos. A frase foi cunhada por Ivan Lessa antes do
surgimento da internet. Na era das redes sociais, há quem precise de apenas 15
minutos para perder a memória.
Na semana em que o 8 de Janeiro completou três anos, parte da elite dirigente fez uma opção pela amnésia. Os presidentes da Câmara e do Senado ignoraram a data. A oposição só se manifestou para pedir impunidade aos golpistas. No Supremo, o ministro Edson Fachin marcou um ato com exposição e rodas de debate. Dos dez juízes em atividade na Corte, foi o único a comparecer.
Relembrar os ataques à democracia brasileira é o mote de “O golpe bateu na trave”, do cientista político Leonardo Avritzer. Lançado no fim de 2025, o livro sustenta que a legalidade foi salva por pouco. E discute os fatores que mantêm o extremismo vivo entre nós.














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