segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas em alta expõem populismo do Desenrola

Por O Globo

Endividamento alcançou maior nível do atual mandato: metade do que as famílias ganham está comprometido

Foram efêmeros os efeitos do Desenrola Brasil, programa do governo Lula para renegociação de dívidas de tons nitidamente populistas. O endividamento das famílias aumentou e chegou a 49,8 % da renda anual em novembro, maior nível no atual mandato, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central (o recorde histórico é 49,9%, em julho de 2022). Na prática, pode-se dizer que as dívidas, como financiamentos de carros, motos e outros bens, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartão de crédito, correspondem à metade de tudo o que as famílias ganham em um ano. A inadimplência também subiu no ano passado. Chegou a 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses. Trata-se de patamar alto para os padrões históricos.

Noventa anos de salário mínimo no Brasil. Por João Saboia

Valor Econômico

Após década de estagnação, produtividade deveria crescer para garantir continuidade de aumentos

O salário mínimo está completando 90 anos no Brasil. Não é pouca coisa. Seu histórico é longo, possui altos e baixos, momentos mais favoráveis, outros nem tanto, mas conseguiu sobreviver e continua na ordem do dia. Alguns acreditam que ele pode crescer, outros apontam para os riscos de seu crescimento. Ou seja, não há consenso. Embora com opiniões distintas, todos reconhecem sua importância para o país.

O artigo 121 da Constituição brasileira de 1934 mencionava, pela primeira vez, o salário mínimo, mas foi preciso esperar pela Lei 185 de janeiro de 1936 para que fosse afirmado, em seu primeiro parágrafo, que todo trabalhador tinha direito a um salário mínimo. Dois anos depois, em abril de 1938, a lei 185 foi regulamentada através do Decreto-Lei 399. Segundo ele, todo trabalhador adulto, sem distinção de sexo, passaria a ter direito a uma remuneração mínima, por dia normal de serviço, capaz de satisfazer às suas necessidades de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.

Milagres, fraudes e riquezas que viram pó. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Seguir o dinheiro é o caminho para identificar as conexões políticas e a extensão das práticas fraudulentas no mercado

No final dos anos 1960 e início da década de 1970, o mercado acionário brasileiro viveu um dos seus períodos de maior valorização. Em pleno milagre econômico da ditadura militar, o índice da bolsa do Rio de Janeiro, então a maior do país, passou de 110,1 pontos, em fevereiro de 1967, para 5.236,3 pontos em junho de 1971.

Os dados vêm do livro “Crises Financeiras: Brasil e mundo (1929-2023)”, de Roberto Teixeira da Costa, observador privilegiado da história do sistema financeiro brasileiro. Naquela época, ele era gestor do Crescinco, maior fundo de investimentos da América Latina. Costa mostra como a intensa escalada de preço das ações, de um lado, e a qualidade dos dados financeiros das empresas e os mecanismos de controle do mercado frágeis, de outro, indicavam que o colapso era previsível.

Agenda para o Brasil real. Por Preto Zezé

O Globo

O país tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento

O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra dependência de ciclos políticos curtos.

Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.

Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser permanente.

BC mira o alvo; Fazenda alarga a trave. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Na atual circunstância, o governo precisa fazer superávit para colocar as contas públicas na direção do equilíbrio

A inflação oficial fechou o ano passado em 4,26%, dentro da margem de tolerância, que ia até 4,5%. Mas o Banco Central não está satisfeito. Já informou que manterá elevada a taxa básica de juros nos próximos meses, para buscar a meta central, de 3% ao ano.

As contas públicas, do governo federal, fecharam o ano com um déficit elevado, de R$ 61,7 bilhões. Pelas regras do arcabouço fiscal, a meta era zero, quer dizer, com receitas do tamanho das despesas. Pois o Ministério da Fazenda alardeou ter cumprido o déficit zero.

A diferença: o BC não faz truques; a Fazenda tira vários coelhos da cartola para zerar um buraco de R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. Detalhe nada desprezível: o rombo do ano passado é pior que o registrado em 2024, de R$ 42,9 bilhões.

Sob a lei do mais forte. Por Demétrio Magnoli

O Globo

Trump e Putin desenham esferas de influência submetidas ao poder militar das duas grandes potências

‘Vivemos num mundo, o mundo real, que é governado pela força, pelo poder. São essas as leis de ferro do mundo, desde o início dos tempos.’ As sentenças foram proferidas por Stephen Miller, alto assessor de Trump e notório advogado da anexação da Groenlândia.

— A lei do mais forte é, claramente, mais forte que a Justiça ordinária — declarou o russo Dmitri Medvedev, no rastro da extração de Maduro pela ação militar dos Estados Unidos.

Medvedev, arauto radical do neonacionalismo grã-russo, não emitia uma crítica. Sua mensagem concluía-se pela constatação celebratória de que, desde a intervenção na Venezuela, a Casa Branca “carece de fundamentos, mesmo formais, para repreender nosso país”.

Onde cantam as cigarras do verão 2026. Por Joaquim Ferreira dos Santos

O Globo

Hoje, 2 de fevereiro, é dia de festa no mar, mas no coração da mata alguma coisa acontece

Antes da música da Marina, sabia-se que vinha chegando o verão não porque as moças estavam todas de bundinha de fora, como anuncia a letra de Renato Rocketh, mas porque das árvores ao redor de cada bairro do Rio vinha o canto veemente da natureza tropical. “Zinem as cigarras”, registrou o poeta Manoel Bandeira nos versos de “Elegia de verão”, em 1952.

Hoje, dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, das árvores vem apenas o silêncio ensurdecedor de que alguma coisa acontece no coração da mata, e desta vez não tem poesia. O verão já embica para a metade, graças a Deus as moças já estão nas praias exatamente como a música previra – mas e as cigarras? Você ouviu alguma zinindo neste verão 2026?

O canto das cigarras, num tempo em que o serviço de meteorologia não tinha tantos computadores, era um indicador urbano confiável de que “amanhã vai dar praia”. O zinir delas no fim da tarde cortava o espaço, fundia-se à “Ave Maria” do Júlio Louzada, às 18 horas na Rádio Tupi, e enchia os corações de uma melancolia preguiçosa, bonita que só vendo.

De coadjuvante ao protagonismo. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Com decisão de lançar governadores ao Planalto, PSD sinaliza mudança arriscada de trajetória

Quando o Partido Social Democrático (PSD) foi criado, em 2011, sua principal liderança, Gilberto Kassab, definiu-o de forma negativa: “o PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro”. A frase não era um truque retórico. Ela revelava uma estratégia clara: abdicar do protagonismo presidencial para maximizar poder político no Legislativo e na política subnacional.

Desde então, o PSD seguiu essa trajetória. Ao evitar amarras ideológicas e candidaturas presidenciais, o partido se consolidou como ator pivotal no Congresso, capaz de integrar coalizões de governos ideologicamente distintos. Foi assim que passou a ocupar espaços tanto no governo Lula, quanto no governo Tarcísio, em São Paulo.

Congresso reabre nesta segunda-feira sob clima eleitoral

Por Danandra Rocha e Wal Lima / Correio Braziliense

Início do ano legislativo expõe agendas divergentes entre oposição, focada em anistia e vetos, e base governista, que aposta em pautas sociais e econômicas. Para analistas, embate escancara fragilidades estruturais da direita

Com a abertura do ano legislativo em um ambiente marcado pela antecipação do debate eleitoral de 2026, Câmara e Senado retomam hoje os trabalhos, sob forte polarização política e disputa por narrativas. De um lado, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta imprimir ritmo a uma agenda social e trabalhista, com foco em temas como a revisão da escala 6x1 e a ampliação da isenção do Imposto de Renda. De outro, a oposição inicia o período sem apresentar um conjunto claro de propostas sociais, concentrando sua atuação em pautas de caráter político e institucional, como a anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e a derrubada de vetos presidenciais.

Lima Barreto e a corrupção sistêmica. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção sistêmica?

Resposta está nos microfundamentos; explicações culturalistas não dão conta do fenômeno

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).

Desigualdades em nome da fé. Por Waldemar Magaldi Filho

Folha de S. Paulo

A incorporação da lógica do mercado pela religião reconfigura o sentido da fé no século 21

Prosperidade passa a ser sinal de bênção divina, enquanto pobreza, de fracasso espiritual

[RESUMO] O texto analisa a ascensão da teologia da prosperidade como expressão de um deslocamento mais amplo da fé em direção à lógica do mercado. Ao transformar riqueza material em sinal de bênção e pobreza em falha espiritual, essa teologia submete o sagrado à gramática do desempenho, do cálculo e da recompensa. O antigo conceito bíblico de Mamon reaparece como símbolo desse processo, no qual o dinheiro deixa de ser meio e passa a ocupar o centro da experiência religiosa. O resultado é uma espiritualidade funcional, que oferece consolo individual, mas esvazia o mistério, enfraquece a crítica social e legitima desigualdades em nome da fé.

Em muitos templos pelo país, fiéis são convidados a subir ao púlpito para relatar conquistas materiais: a casa financiada, o carro novo, a empresa que prosperou "pela fé". Carteiras de trabalho, chaves de carro e contratos são ungidos em cultos transmitidos ao vivo. Pastores falam em "sementes", "investimentos" e "retornos". O vocabulário não é casual. Ele traduz uma teologia em que prosperidade material se tornou sinal de bênção divina, e a pobreza, indício de falha espiritual.

Esse deslocamento não surgiu do nada. Ele tem nome antigo. Mamon é um conceito quase arquetípico que atravessa a teologia ocidental desde que um carpinteiro da Galileia fez uma advertência radical: "Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mateus 6:24).

No aramaico, māmōnā significava riqueza ou propriedade. No discurso de Jesus, porém, o termo se personifica: deixa de ser coisa e se torna poder rival, uma soberania que exige lealdade exclusiva. Mamon não é o dinheiro no bolso, mas o dinheiro entronizado no coração.

Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad

Folha de S. Paulo

Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda

Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica

[RESUMO] Autor sustenta que o capitalismo não foi superado, mas transformado pela centralidade dos ativos intangíveis, como softwares e patentes, e pela mercantilização do conhecimento. Nesse contexto, a inovação produzida continuamente nas empresas, por equipes criativas dedicadas, se torna fonte regular de superlucros. Trecho inédito de "Capitalismo Superindustrial" (Zahar) discute a nova dinâmica entre lucro e renda que levou o capitalismo a outro patamar.

No debate contemporâneo, importantes autores comungam a ideia de que vivemos uma realidade pós-capitalista. A maioria deles joga luz sobre um mesmo fenômeno: a perda de relevância do capital fixo em instalações, máquinas e equipamentos frente aos ativos intangíveis como patentes, marcas, direitos autorais, arranjos organizacionais entre outros.

Em meados de 1990, o investimento intangível ultrapassou o investimento tangível nos Estados Unidos, seguidos por outros países, e ele hoje é tanto maior, como proporção do PIB, quanto mais desenvolvido o país, mais integrado globalmente seu mercado e maior a extensão do coinvestimento do setor público.

Como todo investimento, o investimento em intangíveis cria um ativo que custa dinheiro e gera um retorno de longo prazo que pode, pelo menos em parte, ser desfrutado pelo investidor, o que permite calcular seu valor. Apesar de suas peculiaridades, esse cálculo, com alguns cuidados, pode ser integrado à contabilidade das empresas e à contabilidade nacional.

Poesia | Soneto da saudade, de Guimarães Rosa

 

Música | Mônica Salmaso - Quem te viu, quem te vê (Chico Buarque)

 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil tem de se preparar para seca severa

Por O Globo

Chuvas em certas regiões transmitem sensação falsa de segurança hídrica. Situação dos reservatórios é crítica

As chuvas dos últimos tempos transmitem um recado ilusório. É crítica a situação hídrica do Brasil, como mostrou reportagem do GLOBO. O país sofre escassez de água em boa parte de seu território, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Há 40 anos se registra queda anual nas chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou 25 dias. Além do impacto no abastecimento das cidades, a situação põe em risco agropecuária e geração de energia.

Não é necessário apenas que chova. É preciso que chova nos lugares certos, as cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas de Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, por isso o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) recomenda que a gestão dos reservatórios no decorrer do ano seja feita considerando o pior cenário. As taxas escandalosas de desperdício de água tratada (da ordem de 40%, segundo os últimos dados do Instituto Trata Brasil) reforçam tal recomendação.

De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Estado da Arte / O Estado de S. Paulo

Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas.

É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos.

A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia. 

Miscelânea partidária. Por Merval Pereira

O Globo

As crises do mensalão, e depois do petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje

Não é possível chegar-se a uma conclusão sobre os acordos eleitorais para a eleição presidencial por causa da miscelânea da nossa política partidária. As fotos dos pré-candidatos do PSD podem dar a impressão de que a união deles faria a diferença no segundo turno, pois, nas pesquisas eleitorais, a soma dos candidatos de direita é maior do que os votos dados a Lula. Essa conta simples mostra que a maioria prefere um candidato de direita ao eterno representante da esquerda, o presidente Lula. Mas, se no Brasil até o passado é duvidoso, o que dizer do futuro?

Um palanque na Sapucaí. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca

Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.

Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.

Hora de rever procedimentos. Por Míriam Leitão

O Globo

Assim como fez o Banco Central, as instituições envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas

No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto à primeira instância.

A voz do silêncio. Por Dorrit Harazim

O Globo

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que a menina de 6 anos está presa num carro metralhado, rodeada de parentes mortos

Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.

As boquinhas do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

Mantega e Lewandowski, estrategistas de Vorcaro

O Planalto tem feito o possível para se afastar do escândalo do Banco Master. Como bem lembra o ministro Fernando Haddad, em 2024, quando Lula recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro (fora da agenda) as malfeitorias eram apenas murmuradas.

Vorcaro foi levado a Lula pelo ex-ministro Guido Mantega. Até aí, o doutor é amigo do banqueiro e levou-o ao chefe. Lula acautelou-se, chamando Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, e mais duas testemunhas.

A sociedade é toda ouvidos. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Fachin e Cármen Lúcia para o STF e a sociedade: amigos, amigos, Judiciário à parte

As atenções, nesta segunda-feira, na reabertura do Judiciário pós-recesso, estarão sobre dois personagens, o presidente do STF, Edson Fachin, e a presidente do TSE, Cármen Lúcia, ambos considerados independentes, apolíticos e sóbrios, diferentemente do que se naturalizou nos dois tribunais, e (um menos, outra mais) capazes de dizer o que precisa ser dito, em vez de passar pano no que é errado e a mão na cabeça de quem não merece.

Enquanto o vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes, o decano Gilmar Mendes e principalmente o relator do caso Master, Dias Toffoli, se perdem num redemoinho corporativista e de autoproteção, o desafio de Fachin é ajustar o próprio tom, defender firmemente a ética (e não só um código) e cumprir o papel de mostrar ao País que instituições estão acima de homens.

Dissuasão determina ações de Trump. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Se seu alvos não contam com meios que o façam mudar de objetivo, presidente segue em frente

O poder de dissuasão determina desfechos das crises desencadeadas por Donald Trump. Ele jamais ameaça Xi Jinping e Vladimir Putin porque reconhece neles ditadores de grandes potências nucleares e, no caso chinês, econômica, sem limites para usar esse poderio. Com a Coreia do Norte, de status semelhante, embora menor, Trump ameaçou, depois cortejou Kim Jong-un e finalmente desistiu, diante do custo alto demais.

Pelo menos desde o livro A Arte de Negociar, de 1987, Trump tem reiterado que não persegue objetivos fixos, que enfraqueceriam sua posição de negociador. Esse princípio se confirma quando o presidente se apega demais a um objetivo, como o Nobel da Paz.

Congresso reabre com oposição em clima de “esquenta” pré-carnavalesco. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Executivo depende do Legislativo para governar; senadores e deputados, do Orçamento, para se blindar eleitoralmente e evitar um novo “tsunami eleitoral

Ainda que o calendário político comece formalmente situado no período pré-carnavalesco — tradicionalmente marcado por decisões empurradas para depois da Quarta-Feira de Cinzas —, o Congresso Nacional reabre os trabalhos amanhã sob forte tensão. A oposição chega organizada, com múltiplas frentes de ataque, enquanto o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia 2026 com uma agenda positiva mais restrita e claramente defensiva, num ambiente já contaminado pelo horizonte eleitoral. A máxima atribuída ao folclórico Neném Prancha, “quem está com a bola ataca; quem não está, se defende”, ajuda a sintetizar o momento: a iniciativa está majoritariamente nas mãos da oposição.

Bolsonaro centraliza decisões sobre a corrida eleitoral na Papudinha

Por Alice Bernardes / Correio Braziliense

Segundo aliados, há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e "desejos" do ex-presidente circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista

Sob custódia e com visitas controladas por decisão judicial, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continua no centro das articulações políticas da direita. Nos bastidores, aliados admitem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não autorizará todos os pedidos de visita, mas afirmam que há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e "desejos" do ex-chefe do Executivo circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista.

Segundo uma aliada do primeiro escalão, a movimentação tem como objetivo manter a coesão do grupo e assegurar que decisões políticas sejam alinhadas com Bolsonaro, independentemente do local onde ele esteja. "Nós sabemos que Moraes não autorizará todos a visitar Bolsonaro, mas estamos nos articulando para que todos estejam a par dos desejos do ex-presidente. Não tenho dúvidas de que, onde quer que ele esteja, nós vamos cumprir o que for dito."

Mensagem de Lula ao Congresso terá recado central: 2026 será o "ano da entrega"

Por Fernando Strickland e Francisco Artur de Lima / Correio Braziliense

O documento, que deve ser entregue nesta segunda-feira (2/2), deve listar projetos considerados prioritários pelo Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviará ao Congresso Nacional, amanhã, a mensagem de abertura dos trabalhos legislativos com um recado central: 2026 será o "ano da entrega" de políticas públicas construídas após um período de "reconstrução". O documento deve listar projetos considerados prioritários pelo Palácio do Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre, tanto na Câmara quanto no Senado.

A estratégia surge após um 2025 marcado por turbulências na relação entre Executivo e Legislativo. Um dos episódios recentes foi a troca de críticas entre a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre o uso de emendas parlamentares. Tebet afirmou que o Congresso teria feito um "sequestro" de R$ 61 bilhões do Orçamento, enquanto Motta respondeu que a alocação de recursos é uma prerrogativa constitucional do Parlamento.

A dança das cadeiras na equipe econômica de Lula e mulheres no BC. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Haddad diz que sai da Fazenda em fevereiro, deixando Dario Durigan em seu lugar

Mudanças incluem vagas abertas do BC, secretarias da Fazenda e Planejamento e Gestão

Fernando Haddad diz desde o ano passado que deixará a cadeira de ministro da Fazenda em fevereiro. Por ora, parece que seu sucessor será seu vice-ministro, Dario Durigan, secretário-executivo, apesar de fracas especulações a respeito de alternativas.

A substituição não deve provocar mudança de política econômica, até porque o grosso do programa da Fazenda, contas públicas, foi decidido por Lula, apesar de sugestões de Haddad. Mas pode haver dança de cadeiras na Fazenda, no Planejamento e no Banco Central. Planejamento e Gestão podem ser fundidos, por exemplo.

O candidato Ratinho Jr.: se PSD quer direita democrática, início não foi promissor. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Tanto governador do Paraná quanto Caiado já prometeram anistia aos golpistas de 2022-2023

Se bolsonarismo tivesse sido rejeitado em sua inteireza após 8/1, centro-direita teria opção melhor

PSD de Gilberto Kassab anunciou que terá candidato a presidente da República. Já que Tarcísio se mostrou covarde, o centrão foi cuidar da própria vida.

O anúncio do PSD foi feito durante a filiação de Ronaldo Caiado ao partido, e na presença de outro presidenciável, o governador gaúcho Eduardo Leite. Mas o candidato mais provável é o governador do Paraná, Ratinho Jr..

O bullying da palavra final. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Se prevalece a vontade individual num órgão máximo de Justiça, periga o juiz assumir posição de parte litigiosa

Caso Master, que Haddad considera maior fraude bancária do Brasil, é teia de aranha que envolve os três Poderes

Quando presidente dos EUA, Harry Truman exibia na mesa uma plaquinha com os dizeres "here stops the buck". A expressão, originária do jogo do pôquer, sinaliza o ponto de parada das questões públicas, o mandatário assume todas as responsabilidades sem repassar decisão. Era afirmação de poder, não de sono tranquilo: ele, mais ninguém, ordenou despejar duas bombas atômicas sobre o Japão.

Qual é o nosso problema? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro tenta explicar o que deu errado na política norte-americana

Autor traz conceitos úteis, mas superestima estrago causado pelo identitarismo

"What´s Our Problem?", de Tim Urban, é um livro ambicioso. Tenta explicar o que há de errado com a sociedade americana e, a meu ver, acerta na mensagem central, que é a de que é preciso restaurar o liberalismo que já a caracterizou. Receio, porém, que Urban erre na dose dos ingredientes com os quais opera.

Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo

Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado

Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo.

Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia.

A guerra de Trump contra os EUA. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No passado, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil

Hoje, um ferrabrás eleito democraticamente se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria

Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça.

O vinho do senhor e o bordeaux. Por Ivan Alves Filho

“É preciso estar sempre bêbado”, vaticinou certa vez o poeta Baudelaire. Mas nada de precipitações, pois o autor de As flores do mal, que muitos consideram o maior livro de poesia moderna da França, acrescentou imediatamente: “De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”.  

Caso opte por ficar bêbado pelo vinho – o que pode conter, vá lá, a sua dose de poesia, ainda que não implique forçosamente atitude virtuosa – deve o leitor fazê-lo com o máximo de prazer possível. E isso não é muito difícil em se tratando de vinho, a bebida predileta dos deuses, segundo alguns, e também de meros mortais, como os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, gregos e afins.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond De Andrade

 

Música | Euforia, por Roberto Riberti

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo finge que cumpriu a meta fiscal de 2025

Por O Globo

Déficit dentro do limite tolerado pelo arcabouço só foi possível pela exclusão de R$ 49 bilhões em gastos do cálculo

Na ficção criada e disseminada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a gestão das contas públicas cumpre as metas fiscais estabelecidas, rumo à estabilidade da trajetória da dívida. Para o governo, o rombo de 2025 divulgado pelo Tesouro Nacional na quinta-feira, de R$ 13 bilhões, deu a sensação de dever cumprido. Pelas regras do arcabouço fiscal, o objetivo para 2025 era perseguir déficit zero, com margem de tolerância de 0,25% do PIB para mais ou para menos. Na prática, isso permitia um déficit de até R$ 32 bilhões. Na versão do governo, portanto, o resultado negativo de R$ 13 bilhões deveria ser motivo de comemoração.

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse estar satisfeito: “É o segundo ano consecutivo [de déficit] abaixo de 0,5% do PIB. Você não tem um resultado desses acumulado na década. Considero o resultado do ano muito satisfatório com todos os desafios apresentados. Não há uma piora”.

Esfera pública com pouca potência democrática. Por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa ‘opinião pública’

Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O Supremo Tribunal Federal (STF) está dividido e perdendo credibilidade.

O que chama a atenção é que a esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”.

Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (Mudança estrutural na esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas.

Como seria o Brasil sem os otimistas? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O que ora nos importa é perscrutar o passado recente para tentar entender como nos enredamos no atual lamaceiro

Há quem pense que o Brasil já entrou nos eixos; que vamos bem apesar da economia estagnada e de nossa incapacidade de identificar um candidato plausível para suceder a Lula nas eleições deste ano.

É ótimo que alguns pensem assim; otimistas sempre ajudam a aliviar o ambiente. Melhor ainda seria se conservassem alguma preocupação em compreender como chegamos ao paradeiro em que há tempos nos encontramos.

Sobre a economia, não há muito a dizer. Sabemos todos que um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo a pífios dois por cento ao ano não chegará a bom porto. Isso não significa que toda a economia esteja parada. A agricultura, que o renomado economista Celso Furtado via como um peso morto em nossa sociedade, é hoje, por meio do agronegócio, o baluarte de defesa de nossas contas externas. Veja-se o cultivo de frutas. O abacate, na região de Campinas, e as mangas nobres, na fronteira de Minas Gerais com a Bahia, são grandes exportadores mundiais.

Os fundamentos de Dias Toffoli. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Dias Toffoli, anulador-geral da República (do Império), está preocupado em evitar nulidades processuais. Preocupemo-nos também. Ele se manifestou sobre seus atos à frente do caso Master. Explicou-se. Explicou-se sobre o que poderia explicar; sobre o que seria explicável.

Há o não explicado. O que importa – inexplicável: que ainda seja relator em investigação que tem como um dos objetos o ex-sócio de seus irmãos. Edson Fachin diria – com razão – que isso se trata de matéria não jurisdicional; o fato de os irmãos do ministro terem sido sócios de fundos fornecedores da transfusão artificial de liquidez para o Master.

Sai Tarcísio, entra Ratinho Junior. Por Thaís Oyama

O Globo

Para Kassab, o governador do Paraná, comparado a Leite e Caiado, é quem melhor enverga o figurino da centro-direita

Desanuvia-se aos poucos o horizonte das eleições presidenciais. Tarcísio de Freitas, com sua primeira visita a Jair Bolsonaro desde que o ex-presidente ungiu o filho, selou apoio à candidatura Flávio Bolsonaro e afastou a sua própria do páreo. Abriu, assim, espaço na disputa a um terceiro nome. O governador do Paraná, Ratinho Junior, é hoje o mais provável.

Desde sempre o preferido de Gilberto Kassab para candidato do PSD à Presidência caso Tarcísio decidisse pela reeleição, Ratinho Junior ganhou, nesta semana, a companhia do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, no rol de presidenciáveis da sigla. A lista já comportava o também governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.