O Estado de S. Paulo
De Moro a Moraes, os personagens mudaram, mas
permaneceu a disposição de tolerar a expansão do poder quando ela parece
trabalhar a favor
Há mais de uma década, parte da sociedade
brasileira tolera, alternadamente, formas cada vez mais amplas de exercício do
poder por magistrados. Na década passada, o protagonista era o hoje senador
Sergio Moro, tido como o juiz que desmantelaria a corrupção na política brasileira.
Seu prestígio superava a legalidade de seus métodos, e parte da sociedade fazia
vistas grossas às suas ações em prejuízo dos direitos dos acusados. Moro
passou, a corrupção ficou.
Nesta década, o ministro Alexandre de Moraes
tem ocupado, para parte da sociedade, o posto de garante da democracia. Sua
atuação contra o arreganho golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro foi o
passaporte para ações reiteradamente distantes da ortodoxia legal. Agora, as
trocas de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, tornadas públicas pelo
ministro André Mendonça, lançam luz também sobre a proximidade de Moraes com o
ex-banqueiro e seus interesses. O episódio desencadeou a inaudita crise vivida
pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na qual seus ministros trocam acusações de
abuso, parcialidade e monitoramento indevido. Essa crise explicita o
descompasso entre a dinâmica de um poder desmedido e nossa capacidade de
antecipar – e, assim, prevenir – seus desdobramentos. Tal descompasso, porém,
não é uma peculiaridade brasileira. Talvez seja uma das características do
nosso tempo.