terça-feira, 31 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

O peso histórico do 31 de Março no Brasil

Por O Povo (CE)

A data de 31 de Março tem um peso simbólico importante para a história do Brasil e precisa ser lembrada a cada ano dentro da perspectiva que oferece. Seja pelo que representou em termos de passado, seja pelas dúvidas que alimenta num olhar de futuro, diz respeito a um momento que merece uma ampla reflexão da sociedade.

Num dia como hoje, há 62 anos, entrávamos numa sombra política que se estenderia até 1985, quando o País começou a traçar a trajetória que o levaria de volta à democracia plena, devolvendo-se ao cidadão o direito de definir, pelo voto, seu próprio destino. Foram, desde então, nove eleições seguidas nas quais o brasileiro pode escolher o presidente da República, errando e acertando como é próprio de um regime democrático.

A democracia é a questão central, por Míriam Leitão

O Globo

Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho do pai. Caiado promete anistia a Bolsonaro e o defendeu em palanque

O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.

Cuba é o próximo alvo de Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Ajudar o povo cubano não significa apoio a seu governo. Latino-americanos precisam, mais que nunca, ser solidários

Se você acorda com a sensação de que este mundo é maluco, tem razão. Uma das causas: o homem mais poderoso é um estúpido. Trump declarou guerra ao Irã usando o falso pretexto de que havia ameaça à segurança americana. A capacidade nuclear dos iranianos já tinha retrocedido décadas com os bombardeios de junho.

Trump achou que o bombardeio levaria multidões às ruas para derrubar a ditadura sangrenta dos aiatolás. Tremendo erro de avaliação. Ninguém sairia às ruas para ser morto pela Guarda Revolucionária, quase ninguém se sentiria à vontade para lutar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, horrorizados com a destruição de uma escola em que morreram mais de 150 crianças.

O que US$ 200 bi compram, por Pedro Doria

O Globo

A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões

Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?

Caiado na pista, por Merval Pereira

O Globo

Ronaldo Caiado, candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas.

A escolha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas. A ideia é que o eleitorado está cansado dessa disputa, existente desde a eleição de 2018, e anseia por uma novidade que o mobilize. Caiado não é exatamente uma novidade na política, mas é um fator novo na disputa, com a vantagem de ter experiência em cargos públicos que o credencia. Novidade seria o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, mas não há indícios de que ele teria condições de enfrentar o presidente Lula ou o clã Bolsonaro.

Kassab libera ala lulista do PSD e avalia que Caiado une mais grupo da direita do que Leite, por Lauriberto Pompeu

O Globo

PSD consultou situação dos diretórios estaduais antes de tomar a decisão

A definição de lançar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como candidato à Presidência pelo PSD passou por uma consulta do partido aos diretórios estaduais. A avaliação da cúpula nacional da legenda é que Caiado atrai com mais facilidade os apoios dos líderes regionais da legenda do que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que era a outra alternativa presidencial da sigla.

Pelo mapa montado pelo comando nacional do PSD, há um entendimento de que a maioria do Nordeste estará com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em qualquer cenário e que esses estados não dariam palanque nem para Caiado e nem para Leite.

Ao se equilibrar entre os 'valores do Brasil profundo' e o gestor moderno, Caiado tem tarefa quixotesca em eleição polarizada por Lula e Flávio, por Eduardo Graça

O Globo

Governador tem aprovação recorde em estado com pouco peso eleitoral e enfrenta uma série de obstáculos para não repetir este ano sua primeira campanha à Presidência, em 1989, quando não teve sequer 1% dos votos, entre eles a aversão a acenos ao centro e a disputa com o bolsonarismo pelo voto à direita

Obstinado aspirante da segunda via da direita. O título do perfil do governador Ronaldo Caiado (PSD-GO), publicado no selo Persona de O GLOBO há um ano e quatro meses, provou-se tão preciso em retrospecto quanto revelou-se síntese dos obstáculos que o político de 76 anos terá pela frente até outubro, em disputa pela Presidência polarizada pelas candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

De lá para cá, Caiado trocou o União Brasil pela sigla de Gilberto Kassab para viabilizar sua ambição de encerrar a longeva trajetória pública na disputa pelo mesmo cargo que a iniciou, em 1989, quando mirou o Planalto pela primeira vez. Era então a face da União Democrática Ruralista (UDR) e de um setor agropecuário consideravelmente mais coadjuvante do que hoje, em suas esferas econômica e política. No horário eleitoral, aparecia montado em um cavalo branco. Um ano após a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), o líder setorial de 40 anos, personagem da elite goiana, apresentava como trunfo nos debates televisivos sua especialização médica em Paris.

Miséria eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Real empenho do PSD na candidatura de Caiado será medido pelas verbas que irão para a campanha

Critérios do financiamento público fazem com que partidos se concentrem em eleger deputados federais

As bases do PSD, isto é, Gilberto Kassab, decidiram que o candidato presidencial do partido será mesmo Ronaldo Caiado. Mas, a menos que Caiado consiga o milagre de subir rapidamente nas pesquisas, eu me pergunto se as bases do PSD estarão dispostas a financiar muito seriamente sua candidatura. Se há algo que mudou na política nos últimos anos, é a estrutura de incentivos à participação em pleitos presidenciais.

Em 1989, a primeira eleição da redemocratização, 22 candidatos concorreram. Não eram obviamente todos competitivos, mas quatro deles saíram do primeiro turno com mais de 10% dos votos válidos e oito marcaram mais de 1%. No pleito de 2022, o total de participantes caiu para 11, dos quais dois ultrapassaram os 10% e só quatro superaram o 1%. Está deixando de ser interessante para partidos políticos lançar candidatos a presidente se não tiverem chance clara de vitória.

Por que Caiado e não Flávio? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Pelos valores, candidato do PSD está próximo de uma maioria crescente do eleitorado, mas Flávio também

Talvez maior ativo de Caiado seja os resultados positivos de seus sete anos como governador

É bom que o PSD tenha se adiantado na escolha do candidato. Quanto antes Caiado entrar na arena, mais chances tem de virar o jogo. E ele precisa realmente chacoalhar o tabuleiro, porque nada indica que o eleitorado, polarizado e calcificado, pense numa terceira via.

A escolha por Leite seria a aposta na promessa de um eleitorado fora da polarização —abrangendo a centro-esquerda e a centro-direita— que está só esperando um candidato mais ao centro. Até hoje, nunca se concretizou; Marina (2014), Alckmin (2018) e Simone Tebet (2022) estão aí de prova.

Governo não enxerga razões do desgaste, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O personagem de Lula que falava aos pais e avós já não exerce o mesmo fascínio sobre os filhos

Além disso, o PT perdeu o discurso da ética na política ao estrelar dois históricos escândalos de corrupção

Têm sido frequentes as notícias sobre a justificada preocupação do governo com o crescimento da oposição nas pesquisas de intenção de votos. Esse noticiário diz que no ambiente palaciano não se compreende as razões para tal e, de maneira contraditória, ao mesmo tempo ali se tenta emplacar a ideia de que a eleição pode ser resolvida no primeiro turno em favor de Lula (PT).

Diretas Já no Rio vira laboratório da eleição presidencial, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Pleito popular por mandato-tampão repete disputa entre lulistas e bolsonaristas

Vácuo no poder está ligado à infiltração de organizações criminosas

Eduardo Paes pegou o túnel do tempo, deu um rolé (carioca não dá rolê) em 1984 e voltou sonhando com multidões. Postou nas redes fotos da campanha das Diretas Já, um dos maiores movimentos políticos da história brasileira, que acabou frustrado no Congresso, mas enfraqueceu a ditadura militar. Com o voto popular, o ex-prefeito e candidato a governador do Rio de Janeiro espera conter a infiltração de organizações criminosas nas instituições, sobretudo na Assembleia Legislativa.

STF: quando a blindagem agrava a crise, por André Régis*

Folha de Pernambuco

O Supremo Tribunal Federal já ultrapassou o ponto em que poderia sair desta crise por meios suaves. A fase das explicações laterais, dos gestos cosméticos e do controle de danos ficou para trás. Quanto mais a Corte se fecha para conter o desgaste, mais aprofunda sua crise de autoridade.

Desde o Inquérito das Fake News, o STF passou a depender menos da autoridade que lhe era espontaneamente reconhecida e mais do exercício direto de poder. Como toda corte constitucional, sempre dispôs de poder duro: pode anular atos, impor limites e conter abusos. Mas sua força histórica nunca decorreu apenas disso. Decorreu, sobretudo, do prestígio institucional, da deferência pública e da confiança de que agia como árbitro, não como parte interessada. Esse equilíbrio se rompeu.

Poesia | Desterro, de João Guimarães Rosa

 

Música | Os Originais Do Samba - Clementina de Jesus

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O declínio da democracia americana

Por Folha de S. Paulo

Relatório aponta retrocesso sob Trump, com ataques a instituições e a vozes dissidentes

Avanço do autoritarismo é fenômeno global; no Brasil, documento vê sociedade polarizada e poderia dar mais atenção a abusos do Supremo

O voto popular é o que há de mais essencial em uma democracia, mas não é o bastante para atestar o pleno funcionamento do regime. Para tanto é preciso também haver liberdades civis, igualdade de todos perante a lei, freios e contrapesos ao poder dos governantes. Nesse sentido, a democracia americana, uma das mais longevas do mundo, está fragilizada.

Esse fato, perceptível para a opinião pública global, é mensurado no mais recente relatório do respeitado instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. No levantamento dos diferentes graus de soberania popular e autoritarismo no mundo, o grande abalo no ano passado se deu com o início do novo mandato de Donald Trump.

O STF e os supersalários: eine grosse konfusion, Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Covardia perante o corporativismo legitimou penduricalhos e ressuscitou privilégios extinto

Desde que comecei minha pesquisa para escrever O País dos Privilégios: os novos e velhos donos do poder, eu esperava o dia em que o plenário do Supremo Tribunal Federal iria se pronunciar sobre o descumprimento do teto remuneratório por juízes, desembargadores, promotores e procuradores. E desde a publicação do livro, em 2024, os pagamentos em desrespeito ao limite constitucional só cresceram, situação que expus em diversas colunas no Valor.

Piora o cenário para a inflação de alimentos, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Alta mais forte dos preços de alimentação no domicílio é má notícia para popularidade do governo, que também sofre o impacto do endividamento das famílias

A inflação de alimentos tende a ganhar força nos próximos meses, um mau sinal para a popularidade do governo. Em março, os preços de alimentação no domicílio já subiram 1,1% no IPCA-15, a prévia do indicador que baliza o regime de metas. Depois de uma variação modesta em 2025, de pouco mais de 1%, o grupo pode ter uma alta próxima de 4,5% neste ano, entre outros motivos pelos efeitos dos combustíveis mais caros sobre fretes e fertilizantes. Não é um aumento explosivo, mas parte de um nível de preços de alimentos já muito alto, devido às elevações observadas desde 2019. Esse fato, aliado ao endividamento das famílias, ajuda a explicar uma aprovação menor do governo do que sugere a força do mercado de trabalho, com desemprego baixo e renda em alta.

O dilema do PSD, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O partido precisa decidir se deve focar no eleitor anti-Lula ou ir além da polarização

A eleição presidencial de 2026 tende a ocorrer em um ambiente marcado por escândalos, investigação e desgaste institucional – um típico “clima de devassa”. Em contextos assim, a indignação se generaliza, a política passa a ser percebida como estruturalmente corrompida e a competição eleitoral se organiza menos em torno de propostas e mais em torno de rejeições.

De um lado, o incumbente paga o custo da crise. De outro, adversários exploram a narrativa de ruptura. Ainda assim, há um elemento novo: a fadiga crescente com os dois polos. A elevada rejeição tanto de Lula quanto do “Bolsonaro da hora” abre espaço para uma candidatura alternativa – desejada por um contingente expressivo do eleitorado, mas ainda sem uma conexão e narrativa clara.

Ronaldo Caiado será lançado pré-candidato ao Planalto por Kassab

Por Lauriberto Pompeu/O Globo

Anúncio será feito hoje em São Paulo

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, será escolhido nesta segunda-feira pelo PSD como candidato à Presidência da República. O presidente do partido, Gilberto Kassab, confirmou ao GLOBO a definição. O anúncio será divulgado em São Paulo.

Além de Caiado, a legenda apresentou o nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, como opção presidencial. O governador do Paraná, Ratinho Júnior, também era uma opção, mas ele abriu mão de ser o escolhido na semana passada.

Como mudam as decisões do STF, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Supremo disse que os penduricalhos, agora legalizados, estão aí até que o Congresso aprove legislação nacional sobre o assunto

O Supremo Tribunal Federal, em duas raríssimas reuniões plenárias na semana passada, criou um novo teto salarial para o funcionalismo, por unanimidade, e decidiu que não pode obrigar o Congresso a prorrogar uma CPI, por 8 a 2.

A primeira decisão tinha o objetivo de acabar com a farra dos penduricalhos. E terminou legalizando duas modalidades que, na prática, elevam o teto salarial dos atuais R$ 46 mil, remuneração de um ministro do STF, para R$ 78 mil, em valores arredondados. Para a segunda decisão, o objetivo não estava muito claro. Mas havia uma disposição oculta, digamos assim, de acabar com uma certa farra de investigações.

O Brasil que desafia a política, por Preto Zezé

O Globo

Polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica

O Brasil chega a 2026 com uma sensação estranha. Os indicadores mostram alguma melhora: desemprego mais baixo e certa estabilidade. Mas a vida cotidiana conta outra história. Nas ruas, o que aparece é desânimo, insegurança e medo. Há descolamento entre os números e o sentimento das pessoas.

Li as últimas pesquisas e as levei para o cotidiano. Cruzei a mais recente do Data Favela, sobre os sonhos das favelas, com outros levantamentos que ajudam a entender o humor do país. Mais que isso, escutei. Conversei com trabalhadores de aplicativos, quem está na ponta da precarização, donos de plataformas e também com gestores públicos. É do encontro de dados e experiência que nasce a leitura desse novo ator social e político.

Trump opera como chefe mafioso, por Demétrio Magnoli

O Globo

Os Estados Unidos tornaram-se um Estado perigoso

"Se o Irã não abrir completamente, sem ameaças, o Estreito de Ormuz, em 48 horas a partir deste momento, os Estados Unidos obliterarão suas várias centrais elétricas, começando pela maior delas." O ultimato de Donald Trump de 21 de março, um blefe como logo se constatou, prova que a maior potência mundial converteu-se à barbárie. Bombardear infraestruturas civis viola as leis de guerra. Estados cometem crimes de guerra, às vezes deliberadamente. Mas nunca prometem cometê-los.

Trump copia Putin, a quem inveja. O autocrata russo nomeou sua guerra de conquista na Ucrânia como “operação militar especial”. O presidente americano batiza sua guerra de escolha no Irã como “excursão”. Seu motivo: circundar as leis dos Estados Unidos que exigem autorização do Congresso para fazer guerra. O governo da potência que patrocinou a criação da ONU e impulsionou a Declaração Universal dos Direitos Humanos coloca-se fora da lei, tanto interna quanto internacional.

Conselho de Segurança ou de Insegurança? Por Luiz Inácio Lula da Silva*

Folha de S. Paulo

Linha que separa o que é permitido do que é proibido foi sendo borrada com a omissão cúmplice da ONU

Quando governos se deixam arrastar para a guerra pela intolerância ou arrogância do poder, plantam a semente do ressentimento que vai germinar mais ódio e violência

Cada situação de descumprimento do direito internacional é um convite para novas violações. Do Afeganistão ao Irã, passando por IraqueLíbiaSíriaUcrâniaGaza e Venezuela, a linha que separa o que é permitido do que é proibido foi sendo borrada com a omissão cúmplice do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Usando o veto ora como escudo, ora como arma, os membros permanentes do órgão agem sem amparo na Carta da ONU. Jogam com o destino de milhões de pessoas, deixando um rastro de morte e destruição.

Até há pouco tempo, tentava-se, pelo menos, conferir às intervenções algum verniz de legitimidade por meio da chancela da ONU. Hoje, o exercício escancarado do poder nem se preocupa em manter as aparências. As balizas das instituições multilaterais estão ficando estreitas demais para conter disputas hegemônicas. Sem o multilateralismo, corremos o risco de trocar um sistema imperfeito de segurança coletiva pela realidade brutal da insegurança generalizada. Quando se eliminam todos os constrangimentos ao uso da força, o caos prevalece.

O TCU, esse desconhecido, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Os juízos de contas com base em auditorias limitadas são, em sua vasta maioria, falsos negativos

Não há similar internacional em termos de seu modelo institucional

Quando Aliomar Baleeiro publicou "O Supremo Tribunal Federal, Esse Outro Desconhecido" (1968), pouco se sabia sobre a instituição. Hoje sabe-se pouco sobre o TCU. Mas ele tem estado nas páginas policiais.

Os indícios de que o ministro do TCU Jhonatan de Jesus agiu em conluio com Daniel Vorcaro para pressionar o Banco Central a cancelar a intervenção no Master são fato gravíssimo. No Rio de Janeiro, cinco ex-conselheiros foram afastados e condenados por receberem propinas; um deles está preso pelo assassinato de Marielle Franco. Em Roraima, terra do ministro, dois conselheiros perderam o cargo e foram condenados a 11 anos atrás das grades.

Por que o Brasil passou à frente dos EUA em ranking global de democracia, por João Gabriel de Lima*

Folha de S. Paulo

Instituto aponta que líderes autoritários pesam mais que escândalos de corrupção na deterioração do regime político

País perdeu status de democracia liberal em relatório do V-Dem, que alertou para a corrosão de instituições sob Trump

[RESUMO] Autor expõe como funcionam e para que servem os rankings que avaliam a qualidade da democracia em todo o mundo. Os relatórios do V-Dem, instituto que produz o levantamento mais utilizado, apontam que líderes com tendências autoritárias como Trump são os grandes responsáveis pela erosão dos regimes democráticos, mais que casos de corrupção e guerra entre Poderes.

A democracia americana está doente. O check-up feito pelo V-Dem apontou disfunção no sistema judicial, falência múltipla de liberdades civis e hipertrofia da Presidência da República, sintomas causados por um vírus chamado Donald Trump.

O instituto rebaixou os Estados Unidos à categoria de democracia eleitoral, uma espécie de segunda divisão dos regimes de liberdade. Na pontuação final, ficou atrás de países como Coreia do Sul, Japão, Portugal e Brasil.

Rankings de democracia como o V-Dem, o mais utilizado em pesquisas acadêmicas na área de ciência política, há muito tempo saltaram o muro das universidades e entraram na corrente sanguínea do debate público. Nas redes sociais brasileiras, nossa colocação à frente dos EUA gerou um questionamento: como podemos ter uma boa pontuação se estamos mergulhados em uma crise institucional, em que um escândalo financeiro abala a credibilidade do Judiciário e joga os Poderes uns contra os outros?

Para responder a essa pergunta, é necessário entender como funcionam os rankings de democracia, para que servem e como, ao longo dos anos, vêm mostrando que nada tem mais peso para a deterioração dos regimes de liberdade que a existência de um líder com tendências autoritárias.

Como a crise de confiança em pessoas e instituições ameaça a democracia no Brasil, por Christian Lynch*

Folha de S. Paulo

Num país em que a desigualdade social e cultural sempre foi a regra, os próprios cidadãos passam a não se perceber mais como parte de uma totalidade

Solidariedade demanda um novo imaginário nacional que reconheça o papel de grupos marginalizados na formação da sociedade

[RESUMO] Autor reflete sobre meios para fortalecer a confiança entre cidadãos no Brasil, país que teve dificuldade em forjar um horizonte comum de pertencimento ao longo da história. Em sua avaliação, é preciso reexaminar o repertório simbólico da construção da nacionalidade brasileira no século 20 e recompor um passado compartilhado que reconheça a pluralidade de origens do país.

Nos últimos anos, se tornou recorrente falar em crise de confiança nas democracias. O tema da confiança ocupa hoje um lugar central na ciência política, porque as democracias dependem não apenas de instituições formais, mas também de expectativas compartilhadas de legitimidade e cooperação entre governantes e cidadãos. Convém, porém, fazer uma distinção.

Alguma dose de desconfiança em relação às instituições não é um problema da democracia, mas uma das suas condições. O povo soberano deve manter vigilância permanente sobre as instituições e aqueles que governam em seu nome.

Memória | Resolução política do CE da Guanabara do PCB (março de 1970)

Caros (as)amigos (as)

Nesta semana, completará 62 anos da instauração, no Brasil, de um regime militar, autoritário, que revogou a Constituição democrática de 1946. Para relembrar, disponibilizo um documento, do qual participei, dos debates, da sua elaboração, como membro da Executiva do Comitê Estadual do PCB, do antigo Estado da Guanabara. O texto foi publicado na revista Temas – de Ciências Humanas, vol. 10, p. 71-91, São Paulo,1981.

Leiam abaixo:

Poesia | A Implosão da Mentira, de Affonso Romano Sant'anna - por André Morais

 

Música | João Gilberto - Pra que discutir com Madame

 

domingo, 29 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Diretas no Rio são a resposta recomendada pela lei e pela jurisprudência

Por O Globo

Fachin tem de marcar logo sessão para referendar liminar de Zanin que suspendeu eleição indireta na Alerj

Fez bem o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), em suspender a eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para escolher o governador que exercerá o mandato-tampão até dezembro, após a renúncia de Cláudio Castro ao governo fluminense. Diante da turbulência que tomou conta da política estadual, a eleição tem de ser feita por sufrágio universal, já que a renúncia de Castro não passou de manobra para driblar a cassação e manter no poder seu grupo político.

A guerra sem retórica para disfarçar o horror, por Dorrit Harazim

O Globo

É digno de nota o sucesso do governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário

Algumas mentes privilegiadas conseguem produzir ensaios imperecíveis sobre o viver humano. George Orwell foi uma delas. Costumeiramente celebrado pela distopia visionária de “1984”, publicada em 1949, é na coletânea de ensaios e correspondência escritos durante e após a Segunda Guerra Mundial que Orwell brilha pela clareza. O quarto volume dessa coletânea (em parte publicada no Brasil pela Pé da Letra e Edições 70) leva o título “In front of your nose: 1946-1950”. São textos críticos de invejável honestidade intelectual e amplo espectro temático. Como denominador comum, a defesa da verdade contra o totalitarismo. Tome-se um trecho do ensaio “Diante do seu nariz”, em que discute a capacidade humana de se iludir:

Diretas já, por Merval Pereira

O Globo

Está na hora de colocar para fora do poder os políticos que foram cooptados pelo crime organizado.

Como a maioria dos casos que acontecem na política do Rio de Janeiro nas últimas dezenas de anos, o da eleição do governador-tampão para terminar o mandato do governador inelegível Claudio Castro é cheio de contradições e reviravoltas. O que parecia uma questão simples de resolver, pois as provas de corrupção do governador eram irrefutáveis, transformou-se em uma chance política de remover os grupos criminosos que dominam o Estado do Rio antes mesmo da eleição marcada para outubro.

Como se faz um presidente, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Chega nesta semana às livrarias a segunda parte da biografia de Lula escrita por Fernando Morais. O novo volume narra o período entre a campanha das Diretas e a conquista do Planalto. É uma história de persistência. O ex-metalúrgico perdeu três disputas presidenciais até vencer a quarta, em 2002.

A escalada começou em 1989, na primeira eleição direta pós-ditadura. Forjado na luta sindical, o candidato do PT assustou as elites com ideias tachadas de radicais. Falava em reforma agrária, tabelamento de lucros, suspensão do pagamento da dívida externa.

Lula está tonto, por Elio Gaspari

O Globo

Lula resolveu culpar os endividados pelo endividamento da população. Nas suas palavras:

“Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo.”

Próximos passos do caso Master, por Míriam Leitão

O Globo

PF e MPF juntos vão impedir delação seletiva. BRB pode ter redução do rombo, mas vive dias decisivos. Caso Master entra em nova fase

Há duas dúvidas cruciais neste momento sobre o caso Master. Na política, a pergunta é se a delação de Daniel Vorcaro será enviesada e seletiva. Na economia, é o que vai acontecer com o BRB. Quem acompanha a investigação acha que existem seguros contra o risco de uma delação parcial. Um deles é o fato de a Polícia Federal e o Ministério Público atuarem em conjunto, outro é a abundância de fatos já revelados. Sobre o BRB, momentos decisivos acontecerão nos próximos dias. O governador Ibaneis Rocha tem atrapalhado a busca de soluções. O prazo para a divulgação do balanço se esgota depois de amanhã.

Guerra do Irã, crise do petróleo, o Brasil e a velha “Carreira das Índias”, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Índia e Coreia do Sul ampliaram as compras de petróleo da Petrobras, que renovou e ampliou contratos de venda para as principais estatais indianas

O Brasil está de olho nas oportunidades para exportação de petróleo bruto e etanol para a Ásia, com as mudanças geopolíticas provocadas pela guerra do Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz, a imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os conflitos no Oriente Médio, que atingiram uma escala inimaginável, reposicionam as potências da Ásia. Essas mudanças ficaram evidentes no encontro dos chanceles do G7, grupo de países mais industrializados do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

Nós difíceis de desatar nas alianças estaduais

Por Danandra Rocha, Victor Correia e Wal Lima / Correio Braziliense

Imposições, traições, duplos apoios... Tem de tudo no quadro de algumas unidades da Federação, o que não ajuda na construção de palanques para Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais pré-candidatos à Presidência da Republica

A eleição dá os primeiros passos e a confusão das alianças em alguns estados já parece nós difíceis de desatar. Tem desde a imposição de nomes a veteranos da política, e bons de voto, sendo escanteados. Tem candidato caindo de paraquedas para disputar cargo eletivo por um estado onde não tem história política. Tem até presidenciável desistindo da disputa para evitar perder o controle da máquina local.

CPMI do INSS acaba de forma melancólica

Por Alícia Bernardes e Fabio Grecchi / Correio Braziliense

Comissão fecha sem relatório, rejeitado por 19 x 12. Nos bastidores, críticas eram de que sessões tornaram-se palanque e que investigações de fraudes ficaram em segundo plano

Depois de sete meses de funcionamento, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS encerrou os trabalhos na madrugada de ontem de forma melancólica — sem a aprovação de um relatório final. O parecer apresentado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), foi rejeitado por 19 x 12. Sem consenso e sem a designação de um novo relator, o colegiado presidido pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG) deu por concluída sua tarefa.

Flávio se define como "Bolsonaro 2.0" durante evento de direita nos EUA

Por Correio Braziliense*

Senador e presidenciável participou da CPAC e fez um discurso mais agressivo

O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou neste sábado (28/3) da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, em inglês), nos Estados Unidos. Na prática, o evento é uma espécie de convenção conservadora e de direita. Diferente do tom moderado que tem adotado em discursos no Brasil, Flávio Bolsonaro praticou um discurso mais agressivo e até se definiu como um "Bolsonaro 2.0" durante o painel que apresentou.

Triste fim de mais uma CPI, sem choro nem vela, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O único troféu da CPMI do INSS foi jogar Lulinha no colo de Lula na campanha eleitoral

ACPMI do INSS morreu de madrugada, sem choro nem vela, e só teve um resultado prático: empurrar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para o centro da campanha eleitoral, atingindo o presidente Lula no seu ponto mais fraco e deixando em segundo plano as culpas de Jair Bolsonaro, agora doente, em prisão domiciliar e fora de combate. Lulinha é o único troféu do triste fim de mais uma CPI.