segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Lula vai concorrer com Bolsonarinho", diz Haddad

Por Vanilson Oliveira / Correio Braziliense

Ministro afirma que país foi "reconstruído grão a grão" e diz que eleições serão decisivas para o futuro

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad afirmou neste domingo (26/4) que o Brasil vive um processo de reconstrução baseado na retomada de políticas públicas e na mobilização coletiva. Em discurso no 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, ele criticou os retrocessos do governo anterior e disse que “Lula vai concorrer com o Bolsonarinho, o filho de Jair Bolsonaro. Uma família que só entregou caos”.

O ex-ministro criticou adversários, afirmando que “não podemos, de maneira nenhuma, considerar a hipótese de retrocesso”. Para Haddad, o momento exige avançar além da reconstrução e apresentar novas propostas. “Nós não podemos ficar só na reconquista. Temos que oferecer ao povo brasileiro um programa que vá além”.

Lula reforça agendas em SP e disputa ‘paternidade’ de projetos com Tarcísio

Por Cristiane Agostine e Marcello Corrêa / Valor Econômico

Presidente intensifica eventos no Estado após lançamento da pré-candidatura de Haddad

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou neste ano sua presença em São Paulo e dobrou a participação em eventos no Estado após lançar a pré-candidatura do ex-ministro Fernando Haddad (PT) ao governo paulista, há pouco mais de um mês. Lula tenta reforçar bandeiras do governo federal no Estado e disputa a “paternidade” de obras com o governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

As campanhas de Lula e Haddad serão “casadas”, segundo o PT, e o desempenho eleitoral do presidente em São Paulo será fundamental para sua tentativa de reeleição. O presidente busca construir um palanque forte em São Paulo e tenta atrair apoio para Haddad, sobretudo no interior, que resiste à centro-esquerda.

Lula faria na segunda-feira (27) sua sétima viagem oficial ao Estado neste ano, para visitar duas cidades do interior, Presidente Prudente e Andradina. Por recomendação médica, depois de tratar um câncer de pele no couro cabeludo, na sexta-feira (24), a viagem foi cancelada e o presidente será representado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). O presidente, no entanto, insistiu para participar dos eventos nas duas cidades e deve falar remotamente, segundo a Presidência.

PT aprova manifesto ameno e que não toca em ‘feridas’

Por /Andrea Jubé, Sofia Aguiar e Érica Ribeiro

Sem a presença de Lula, documento não trata de segurança pública ou atuação nas redes sociais nem do descontentamento da população

Num momento em que mais da metade dos brasileiros desaprova a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT) encerrou o seu 8º congresso nacional com a aprovação de um manifesto em tom ameno, sem menção ao descontentamento da população. Enquanto Lula cobrou do partido promessas factíveis para o futuro e a defesa de seu governo, a abordagem crítica coube aos discursos finais do presidente da sigla, Edinho Silva, e do ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

Lideranças petistas ouvidas pelo Valor lamentaram que o documento não tocou em “feridas” do partido, como as dificuldades ainda não superadas com o debate sobre segurança pública e a atuação nas redes sociais, áreas de domínio da direita, bem como o diálogo com o segmento evangélico.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Terrabras e outras más ideias do PT para minerais críticos

Por Folha de S. Paulo

Bancada petista quer criar nova estatal, apenas o dispositivo mais caricato de um projeto intervencionista

Governos de fato atuam no setor, mas cumpre avaliar custos e benefícios; falta, ainda, mais investimento em pesquisa e pessoal qualificado

Parece piada, mas a bancada do PT na Câmara dos Deputados pretende criar uma nova estatal, de nome Terrabras —hoje já existem 44 empresas sob controle direto do Tesouro, fora mais de 70 subsidiárias.

Esse é apenas o dispositivo mais caricato de um projeto que prevê intervenção estatal ampla em exploração, produção e exportação de minerais críticos, entre eles, terras raras. Além da criação da estatal, o texto petista institui o sistema de partilha da produção entre setor público e empresas concessionárias, prevê conteúdo nacional para insumos e restringe a exportação.

Discurso de Alckmin no Congresso do PT

 

PT aprova manifesto para 2026 com foco em reeleição do presidente

Por Felipe Matoso, Guilherme Balza, Mariana Laboisiere, g1 e GloboNews

Em sua oitava edição, o evento, que ocorre em Brasília desde a última sexta-feira (24) e termina neste domingo (26), reuniu representantes escolhidos pela legenda, que analisaram e debateram o documento.

O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou neste domingo (26), durante Congresso Nacional do partido, um manifesto com foco nas eleições de outubro, além de futuras diretrizes partidárias.

Em sua oitava edição, o evento, que ocorre em Brasília desde a última sexta-feira (24) e termina neste domingo (26), reuniu representantes escolhidos pela legenda, que analisaram e debateram o documento.

O texto aprovado, intitulado "Construindo o futuro", estabelece a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026 como o eixo central da tática política do PT para o próximo período.

Lula, contudo, não estava presente. Ele ainda se recuperava de dois procedimentos médicos realizados em São Paulo e tem previsão de voltar para Brasília ainda neste domingo.

Construindo o futuro: manifesto do PT para seguir transformando o país

Leia na íntegra o Manifesto aprovado no 8º Congresso Nacional do PT

Vivemos uma mudança de época, marcada pela crise do capitalismo neoliberal e pela crescente desordem global. Nessa conjuntura, se sobrepõem crises estruturais que atingem o sistema capitalista, a ordem internacional, as democracias liberais e as próprias condições de vida no planeta. A promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria. Em seu lugar, consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade, a precarização do trabalho, a insegurança e o enfraquecimento das instituições democráticas.

O que se apresenta hoje não é apenas o esgotamento de um modelo, mas a intensificação das disputas sobre os rumos da sociedade.

A crise de 2008 deixou evidente que um sistema que se organiza sob a lógica da concentração de riqueza, diante do colapso, não corrige suas distorções: socializa prejuízos e preserva privilégios. O resultado foi a ampliação do endividamento público, o corte de direitos sociais e a consolidação de um padrão de acumulação baseado na captura de renda e na subordinação das economias nacionais ao capital financeiro global. Novas oligarquias emergiram com força. Grandes corporações, sobretudo no campo tecnológico, passaram a controlar fluxos de informação, organizar o trabalho, influenciar comportamentos e intervir na vida política. A democracia liberal, cada vez mais mediada por plataformas privadas, tornou-se terreno de disputa desigual.

PT suaviza propostas em manifesto para tentar atrair apoio do centro à reeleição de Lula, por Caio Spechoto

Folha de S. Paulo

Texto poupa Banco Central e diminui tom sobre Judiciário em comparação com outras peças da sigla

Documento foi aprovado em congresso do partido, que buscou evitar polêmicas para preservar presidente

O PT aprovou três documentos em seu congresso partidário, em votações concluídas neste domingo (26), incluindo um manifesto que reduz o tom de crítica ao Judiciário e que faz acenos ao centro político para atrair apoio à reeleição de Lula.

Além do sistema de Justiça, as manifestações tocam em temas como a política econômica. O partido também prega, nesses documentos, mais verba para assistência social, aumento dos tributos para bets e tarifa zero no transporte público.

O primeiro dos documentos contém as linhas gerais da tática eleitoral do partido. O segundo traz sugestões de diretrizes para o programa de governo que o presidente Lula apresentará em sua campanha de reeleição. O terceiro, tido como o mais importante pela cúpula da legenda, é um manifesto. O texto suaviza algumas propostas contidas nas demais manifestações.

Gilmar e a derrota autoinfligida, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Quanto mais o ministro intervém, maior o dano reputacional à corte

A escala do impacto reputacional é consistente com a natureza dos malfeitos

Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos ataques desferidos. Em vários momentos, não fica claro se suas falas constituem narrativas retóricas em reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações efetivas dos fatos ou simplesmente atos falhos.

Dentre estes últimos, sua afirmação que o Supremo é parlamentarista deixa entrever uma visão da corte como governo ou estado dentro do estado, no qual ele próprio seria uma espécie de primeiro ministro que já teria iniciado démarches com chefes do poder executivo e das casas do legislativo para um "pacto republicano".

'Voto não tem preço, tem consequência', por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Em ano eleitoral, é fundamental combater o aliciamento e a compra de votos

É imperioso proteger a verdade, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral

Não é segredo que a igreja católica foi conivente e se beneficiou da escravização negra. Embora tenha havido vozes que se manifestaram contra o tratamento desumano dado aos africanos escravizados (a exemplo do Papa Pio II, que em 1462 instruiu os bispos a condenarem o tráfico como um "crime terrível"), foi só no século 19 que os católicos se posicionaram de maneira enfática em defesa dos direitos humanos.

Poesia | Minha Terra, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | João Gilberto - Samba da minha terra (Dorival Caymmi) - Alemanha, 1967

 

domingo, 26 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescem riscos do controle de preços dos combustíveis

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula quer usar receita adicional com alta do petróleo para compensar desoneração dos derivados

Alguma mitigação do choque gerado pela guerra no Irã faz sentido, mas subsídios custosos não podem se prolongar indefinidamente

Há preocupações eleitorais, sobretudo, na proposta do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de reduzir tributos sobre a gasolina e o etanol com recursos oriundos da arrecadação adicional a ser obtida pela União com as cotações mais altas do petróleo.

Desde o início da guerra no Irã, os preços internacionais dispararam —o barril Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 100, com picos próximos a US$ 110. Até agora, porém, a alta dos preços da gasolina se limitou a 7,5% aqui, enquanto nos Estados Unidos já se aproxima de 50%.

A dupla asfixia de Cuba, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O caso cubano é daqueles que exigem capacidade de lidar com verdades antagônicas e até inconciliáveis

Cuba parece estar em suspensão, à espera de acontecimentos que remodelarão sua fisionomia em futuro mais ou menos próximo. Vive uma drôle de guerre, dir-se-ia, assemelhada à que acometeu os franceses em 1940, antes da guerra propriamente dita.

Bem verdade que as diferenças também são cruciais. Agora, prevalecendo minimamente a lógica, não se espera invasão por terra ou chuva de bombas aéreas. Em compensação, os sofrimentos humanos já são reais e não podem ser dissimulados, como se a vida pudesse seguir com a aparência de sempre. A crueldade de Donald Trump não só afeta a economia da ilha, mas irrompe na emergência dos hospitais, nos cortes de água, na escassez de alimentos e remédios.

EUA lutam sem vitórias, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A guerra no Irã contribuiu para reduzir a vantagem comparativa dos EUA perante a China no campo da defesa, num cenário de esfacelamento das alianças americanas, e ampliar o alcance do sistema financeiro chinês.

Dados do Departamento de Defesa e do Congresso americano revelam que a guerra custa quase US$ 1 bilhão por dia. Os EUA consumiram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance – metade do estoque –, projetados para uma guerra contra a China.

As forças armadas dispararam mais de mil mísseis de cruzeiro Tomahawk, e compram apenas 100 por ano. Entre 1,5 mil e 2 mil mísseis críticos para a defesa antiaérea, como Thaad, Patriot e Atacms, foram usados. A reposição dessa munição pode levar seis anos.

Crise global dá recado de prudência a Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Com ou sem crise internacional, as falhas da política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia do Brasil

As aventuras guerreiras de Donald Trump e de seu companheiro Benjamin Netanyahu foram insuficientes, até agora, para causar perdas – ou perdas visíveis – às exportações brasileiras. Com superávit de US$ 7,54 bilhões nas três primeiras semanas de abril e de US$ 21,72 bilhões desde o começo do ano, o comércio exterior do Brasil parece ter sido pouco afetado, por enquanto, pelo conflito no Oriente Médio e pela navegação restrita no Estreito de Ormuz. Desde janeiro, o País exportou US$ 103,58 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Para 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior projeta vendas externas de US$ 364,20 bilhões e superávit de US$ 72,1 bilhões.

Um mineirinho na parada, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Empurrado por STF, polarização e rejeição de Lula e Bolsonaro, Zema vai crescer nas pesquisas eleitorais

Romeu Zema, do Novo, pode surpreender e disparar nas pesquisas ou repetir os efêmeros quinze minutos de glória de Sérgio Moro em 2022, mas o fato concreto, hoje, é que ele se afirmou como o “anti Supremo” das eleições, usa a internet para massificar essa posição e conseguiu o principal: as atenções voltaram-se para ele.

Afinal, quem é esse mineiro de 61 anos, empresário, formado em Administração na FGV, sem lastro político antes do governo de Minas? Por ora, é seguro dizer que é craque em marketing pessoal, com jeitão de bom moço, sotaque caipira, mangas de camisa, dirige seu próprio carro e mora longe dos palácios. O “povo” adora.

STF e a questão democrática, por Míriam Leitão

O Globo

Os ministros precisam olhar com mais cuidado para as próprias ações e decisões com o objetivo de proteger a democracia

Quando o STF é atacado dentro do plano de um golpe de Estado é problema de todos e o país precisa se mobilizar em defesa do tribunal. Quando é atacado pelos erros de conduta de seus ministros, eles que se defendam sozinhos. Críticas ao Supremo podem ser um risco institucional, como vimos recentemente na estratégia usada pelo governo Bolsonaro. As dúvidas em relação à conduta dos ministros e seus familiares são legítimas e estamos vendo agora. No meio do caminho, há os oportunistas como Romeu Zema.

Visita real, por Dorrit Harazim

O Globo

O atual ocupante da Casa Branca tem dado provas de insanidade maior que a do amaldiçoado rei George III

Não é todo dia que um monarca britânico cruza o Atlântico para receber tratamento real na Casa Branca. O primeiro a ser recebido na antiga colônia foi George VI, em 1939, com a fúria nazifascista já em marcha na Europa. Sua sucessora Elizabeth II tratou de estreitar os laços, empreendendo uma visita de Estado a cada 20 anos de seu longo reinado. Dos quatro presidentes dos Estados Unidos que a receberam, ela manifestou apreço nítido apenas por Dwight Eisenhower, com quem trocou receitas de cozinha. De resto, manteve inalterado o sangue azul mesmo quando recebeu o mais improvável dos presentes, cortesia de Richard Nixon: um manual de autoajuda em oratória.

Freada de arrumação, por Merval Pereira

O Globo

A surpreendente performance até agora do senador Flavio Bolsonaro pegou Lula e os seus sem estruturas de defesa eficientes

A campanha eleitoral parece ter começado mesmo a partir da disputa entre o candidato Romeu Zema, ex-governador de Minas, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. O episódio parece ter aberto uma imensa avenida por onde pode passar uma candidatura alternativa à polarização entre o presidente Lula e o representante da extrema-direita Flavio Bolsonaro. Enquanto Lula mais uma vez tentará trafegar pela via da união nacional contra o golpismo, Flavio tenta se aproximar da direita moderada, ou do centro político. Ambos trilham um caminho conhecido por todos, pois a maioria do eleitorado é conservador e centrista e esse típico “swing vote” brasileiro é que define a eleição há muito tempo.

A caixinha da repressão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Telegramas reunidos em novo livro revelam que Fiesp criou falso fundo educacional para financiar centro de tortura

No fim de 1971, o comandante do II Exército, general Humberto de Sousa Melo, procurou a Fiesp com um pedido. Queria dinheiro dos empresários paulistas para montar o DOI-Codi, sucessor da Operação Bandeirante.

O americano Thomas Romanach, presidente da General Electric do Brasil, foi convidado para as conversas. Entusiasmado com o que ouviu, recrutou outros executivos de multinacionais para abastecer a caixinha da repressão.

As reuniões são detalhadas em “Olhares ianques: A ditadura brasileira nos arquivos americanos”, novo livro do historiador Felipe Loureiro. Professor da USP, ele leu centenas de telegramas diplomáticos em busca de novos dados sobre a colaboração entre o empresariado e os porões do regime.

O arquivo de Cyro Etchegoyen, por Elio Gaspari

O Globo

São 23 pastas, com 3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do 'Doutor Bruno' na casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE

Três repórteres do ICL Notícias (Juliana Dal Piva, Chico Otavio e Igor Mello) desvendaram um dos mistérios dos “anos de chumbo”: a conexão do aparelho repressivo da ditadura com os serviços de informação da Inglaterra. Conheciam-se algumas pistas, mas a trinca expôs o monstro nos seus detalhes, na série da reportagens “Bandidos de Farda”.

Eles trabalharam em cima do arquivo deixado pelo coronel Cyro Etchegoyen, um dos cabeças do Centro de Informação do Exército, o CIE, de 1971 a 1974. São 23 pastas, com 3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do “Doutor Bruno” na casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE. A chamada “Casa da Morte” era uma fábrica de “cachorros”, nome dado aos militantes de organizações de esquerda que eram presos, soltos e infiltrados na militância. Quem aceitava o novo papel vivia. Os demais morriam. Estima-se que lá tenham sido assassinadas 22 pessoas. Só Inês Etienne Romeu (1942-2015) contou o que viu.

Conheciam-se colaborações dos serviços americanos e franceses. Dos ingleses só se tinham pistas esparsas.

O poeta, o carteiro, o rombo dos Correios e o modelo logístico alemão, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A privatização dos Correios não é uma questão ideológica, nem a favor, nem contra, decorre de fatores econômicos, estruturais e políticos que tornam a estatal insustentável

O Carteiro e o Poeta (Il Postino) é um filme de 1995, belíssimo, que se baseia em fatos verídicos: a amizade, numa pequena ilha da Itália, em 1953, entre um carteiro que mal sabe ler e o poeta Pablo Neruda, que o governo italiano aceitou como exilado do Chile, desde que ficasse quieto em lugar distante e não perturbasse. O diretor Massimo Troisi brilha neste seu último filme: morreu do coração, aos 41 anos, em 1994, ano das gravações. A música é do maestro Luís Bacalov, que fez Os Saltimbancos. A fotografia e as locações são espetaculares.

PT coloca comunicação no centro da estratégia eleitoral de 2026

Por Vanilson Oliveira / Correio Braziliense

Partido aposta em narrativa digital e defesa do legado de governo para enfrentar os adversários

A estratégia eleitoral do Partido dos Trabalhadores para 2026, um dos temas discutidos durante o 8º Congresso Nacional do partido é a comunicação, eixo considerado decisivo pela direção da legenda. O PT, já vem, inclusive, investindo fortemente neste mês de abril em publicidades na redes sociais, com vídeos que defendem a soberania, o pix, entre outros temas.

Em meio a um ambiente político marcado por polarização e desinformação, o partido busca estruturar uma rede de divulgação capaz de fortalecer a imagem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva  e sustentar a disputa eleitoral nos próximos meses. O Correio conversou com o presidente do PT, Edinho Silva, que revelou que o desafio central é fazer com que as ações do governo cheguem à população de forma clara. 

Como punir a corrupção na Justiça? Por Flávio Dino*

Correio Braziliense

Os agentes públicos, como regra inafastável no exercício de seus cargos/funções, ou fora deles, devem orientar suas ações pela probidade, retidão, justiça, integridade, optando pelos caminhos que melhor alcancem o bem comum

Ingressei na magistratura federal em concurso público realizado em 1993/1994. Em uma análise comparativa entre o ontem e o hoje sobre corrupção no Sistema de Justiça, algo continua igual: a imensa maioria dos integrantes das carreiras jurídicas está longe desse mal, sem "comprar", "vender" ou falsificar decisões, pareceres, indiciamentos etc. Contudo, três aspectos mudaram para pior: o primeiro, a quantidade de casos aumentou; o segundo, esses casos se tornaram mais graves, envolvendo elevados montantes e sofisticadas redes de lavagem (inclusive fundos de mercado); e, por fim, aumentou o exibicionismo dos ímprobos.

O bafo quente das eleições de 2026, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

Proteger a verdade, lutar contra a desinformação e abraçar valores humanos são missões coletivas na campanha eleitoral

Já dá para sentir o sopro no cangote, como se diz no meu Nordeste. O ano voa e as eleições estão logo ali. Se as últimas duas campanhas eleitorais nos mostraram o poder das redes, das mídias sociais, do WhatsApp, além do fenômeno das fake news, nesta teremos a avassaladora presença da inteligência artificial generativa, uma ferramenta incrível, mas também usada para propagar desinformação em alta escala. Estamos correndo riscos.

Somada à polarização política exacerbada e à exposição ao excesso de informação e a todos os ruídos que isso provoca, a campanha promete ser uma prova de resistência longa, estressante, barulhenta e perigosa. O cenário mundial não é dos melhores e essa energia reverbera, provocando medo e angústia. Aqui, parece que não conseguimos superar a última eleição e já chega a próxima, animada por escândalos político-econômicos e crise institucionais entre Poderes.

Será que é infeliz a nação que precisa de heróis? Por Isabel Lustosa*

Folha de S. Paulo

Conceito inclui uma contradição intrínseca: a parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos

A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de seu ídolo, Napoleão, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais impressionantes

artigo "’Honrar heróis’ do passado só disfarça horror antigo" (11/4), do colunista Reinaldo José Lopes, publicado nesta Folha, trouxe-me à memória a frase final da peça de Bertolt Brecht que vi na adolescência, em Fortaleza, encenada no Teatro Oficina e tendo Renato Borghi no papel título: "Galileu Galilei".

A renúncia do astrônomo às teses que vinha difundindo sobre o sistema solar, depois das ameaças da Inquisição, decepcionou seus admiradores. Entre os instrumentos de suplício que lhe mostraram e a defesa de suas descobertas científicas, ele escolheu salvar a pele.

O lugar de Flávio Bolsonaro na história de truques e estelionatos eleitorais do Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato chamou de fake news reportagem da Folha que tratou de seu plano econômico

Quebras de promessas de campanha costumavam arruinar o prestígio de presidentes

Dias antes de Fernando Collor se sentar na cadeira de presidente, eu estava em uma fila de banco, como quase todo o mundo preocupado com mais um pacote econômico por vir. Uma poupança mirrada seria juntada na conta-corrente ao salário e ao 13º antecipados. Sairia de férias e temia confisco.

Perto de mim estava uma senhora miúda, que parecia de poucas posses, de lenço na cabeça como tantas mulheres então chamadas de "crentes". "O senhor acha que o homem [Collor] vai pegar o dinheiro que a gente tem na conta?" —perguntou algo assim. Respondi que temia o sequestro da poupança, mas achava difícil que mexessem "na conta".

Do petrolão ao Master: dez anos do impeachment de Dilma, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Uma década depois, a direita novamente consegue lucrar com a onda da indignação política, mas a manobra é muito mais impressionante

As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, e podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza

O caso Master é a melhor festa de aniversário de dez anos possível para o impeachment de Dilma Rousseff.

As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, mas já podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza do petrolão, que parou o país por dois anos e foi a causa imediata do impeachment de 2016.

A alegria trágica das ruas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Entre nós, trágica é a absoluta falta de lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania por meio da corrupção do Estado

Violência estrutural e desalento coletivo atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social

As redes mostraram: em meio ao quase colapso total da infraestrutura civil de CubaChico Buarque, que tinha ido fazer uma gravação, despediu-se num passeio frente ao mar. Dele se aproximou um grupo afro-cubano, desses que povoam as ruas de Havana com instrumentos musicais às mãos. Abraçaram-no efusivamente, pediram que cantasse. Chico soltou a voz em espanhol, acompanhado por eles ao violão e maracas. E de repente parecia que o instante alegre resgatava a nação cubana do infame bloqueio que lhe cerceia há décadas acesso a recursos energéticos, alimentos, vida normal, enfim.

Flávio Bolsonaro tem obstáculos a vencer até as urnas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A vida real impõe grandes desafios aos hoje favoritos nas intenções de votos para a eleição a presidente

A situação é mais difícil para o filho de Jair, que enfrenta divergências internas e resistências externas

Enquanto os pretendentes do PT e do PL figuram nas pesquisas como favoritos na eleição presidencial, a vida real impõe desafios às posições hoje de ponta de Luiz Inácio da Silva e Flávio Bolsonaro nas intenções de votos. O ponto de convergência nas dificuldades é a rejeição a ambos.

Queridas ênclises, próclises e mesóclises, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Jânio Quadros me bombardeou por três horas com dar-lhe-ias, lembrar-me-eis e enviar-vos-emos

Por que matar certas formas de escrever por serem antigas? Pound propunha fazer do velho o novo

Em 1983, repórter da Folha, fui a Guarujá entrevistar Jânio Quadros. Durante quase três horas de conversa, ele tomou uma garrafa do uísque Cutty Sark, a caubói. Eu, modestamente, dei conta de uma garrafinha gelada da vodca Wiborowa. Depois, Jânio convidou-nos a mim, ao fotógrafo e ao motorista da Folha para almoçar ("Eloá faz questão!"). O rango foi com cerveja e, após a sobremesa, Jânio serviu licores. Como tinha de voltar para o jornal e escrever a matéria, moderei nesses bebericos. Mas Jânio mandou cada gole para dentro e, ao fim da jornada etílica, continuava não apenas sóbrio como, com sua cômica voz de frango, colocando as ênclises, próclises e mesóclises com perfeição.

Angelo Agostini, por Ivan Alves Filho*

Ele foi, seguramente, um dos mais importantes artistas gráficos do Brasil no período que vai da transição da Monarquia à República, ou seja, durante boa parte do século XIX. Italiano da região do Piemonte, onde nascera em 1843, veio para São Paulo em 1859, acompanhando sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini.

Estamos falando de Angelo Agostini, cujos desenhos encantam ainda hoje pelo sopro libertário e alegria do traço. E também pelo pioneirismo tanto estético quanto político. Conforme salientou o respeitado historiador e crítico literário Nelson Werneck Sodré, "suas caricaturas, por vezes contundentes, puseram a nu os traços grotescos da classe dominante brasileira do tempo, suas irremediáveis mazelas, seu atraso insuportável". Autor de exatos 57 livros, versando sobre os mais diferentes domínios do conhecimento humanístico, o mínimo que se pode dizer é que Nelson Werneck Sodré sabia muitíssimo bem o que estava afirmando.

Poesia | Procura-se um amigo, de Vinicius de Moraes

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Música | Nara Leão - Nega Dina (Zé Keti)

 

sábado, 25 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Antagonizar Trump convém a Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista, que já se beneficiou da oposição ao tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã

Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do americano

O antiamericanismo, amparado em momentos da história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um aliado próximo.

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.

Tempos movediços, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

O que um editorial não diz, por Vanessa Ribeiro Mateus*

O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

Um case do Supremo, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

Trabalho que mata, por Flávia Oliveira

O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.