quinta-feira, 14 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Orelha reflete valor da imprensa profissional

Por O Globo

MP concluiu que cão achado morto não foi vítima de agressão, como insistia ‘tribunal das redes sociais’.

Após longa análise, o Ministério Público (MP) de Santa Catarina concluiu que o cão Orelha, achado morto no início do ano na Praia Brava, em Florianópolis, não foi vítima de agressão humana, como sugeria a investigação policial. Pelas evidências disponíveis, o cão morreu em decorrência de uma infecção óssea. Os erros cometidos ao longo da investigação foram graves e incentivaram a condenação pública de adolescentes injustamente acusados. Causaram prejuízos à rotina e à saúde mental deles. Por isso o arquivamento do caso não deveria encerrar o assunto. É preciso responsabilizar as autoridades que, por oportunismo, incentivaram o prejulgamento. Sobretudo, é essencial que o episódio sirva para a população entender o perigo de pensar e agir com base nos “tribunais das redes sociais” e reconhecer o papel do jornalismo profissional na busca pela verdade.

Reviravolta na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

A revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro pode representar um plot twist num processo eleitoral que promete ser de muita emoção

A notícia do financiamento de Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro é uma bomba com poder de implodir sua pré-campanha. E tem essa força pelo volume de dinheiro para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, pelos abundantes diálogos em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro, pela exibição de intimidade com o banqueiro das falcatruas, pelas mensagens de visualização única e pela incapacidade do senador de reagir quando tudo foi revelado. Ele deu resposta fraca. Na verdade não seria um filme sobre um personagem qualquer, mas sim uma peça da campanha eleitoral.

Sangria de Flávio é dúvida até eleição, por Julia Duailibi

O Globo

Senador passou por rachadinhas e relações com a milícia, e aí está, competitivo nas pesquisas

O que realmente interessa no filmegate envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro é o tamanho do impacto que o escândalo terá nas intenções de voto no pré-candidato à Presidência pelo PL. A conversa entre Flávio e Vorcaro já causou estrago na largada. Fez preço ontem, com o Ibovespa fechando em queda de 1,8%, e o dólar subindo 2,3%. Site de bets fora do país mostrou diminuição das apostas numa vitória do senador, e a curva de juros futuros estressou. O dia foi chamado de “segundo Flávio Day”, em referência ao “Flávio Day” original, em dezembro, quando o lançamento de sua candidatura causou estrago por desbancar Tarcísio de Freitas, o preferido do mercado.

O Master e a carnificina eleitoral, por Malu Gaspar

O Globo

A revelação de que Daniel Vorcaro negociou com Flávio Bolsonaro (PL) pagamentos de R$ 62 milhões para um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro usando uma empresa laranja deixou toda a direita desnorteada. Na semana passada, o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP), recebeu a Polícia Federal em casa em virtude da apuração que liga sua “emenda Master” a contrapartidas generosas e milionárias.

Os dois episódios machucam a candidatura bolsonarista, reforçam o rótulo “BolsoMaster” que o PT bolou para martelar durante a campanha e dão um respiro aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) atingidos pelo escândalo. Mas não garantem que Lula terá sossego daqui para frente.

Desmanche de Flávio abre avenida (esburacada) para Michelle, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Candidato bolsonarista tropeça na suspeita de corrupção, quesito mais valorizado pela direita

Que a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) era de papel já se sabia. O que não se imaginava era que incinerasse tão cedo. A quase cinco meses do primeiro turno, ainda há tempo de seu partido emplacar outro nome. Michelle? É o estepe natural, até porque sempre pareceu menos vulnerável como candidata - e menos previsível como presidente - que o enteado.

Para pôr em pé uma candidatura, a ex-primeira-dama enfrentaria a dificuldade de encabeçar o mesmo combo de interesses reunidos em torno do senador - do marido ao Centrão, passando por investidores cuja frustração com a reportagem do “The Intercept”, na tarde desta quarta, fizeram balançar bolsa e câmbio.

Gravação de conversa com Vorcaro abala candidatura de Flávio Bolsonaro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O sinal de que os demais candidatos sentiram cheiro de animal ferido na floresta veio do ex-governador mineiro Romeu Zema, o candidato do Novo

A divulgação do áudio da conversa entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro pode representar o início de um processo de desconstrução da imagem do principal candidato da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição. Independente da natureza jurídico do caso, que ainda não é investigado formalmente pela Polícia Federal, o episódio abre uma guerra de narrativas entre lulistas e bolsonaristas com capacidade de alterar o empate técnico entre ambos registrado por sucessivas pesquisas de opinião.

O trecho da conversa divulgado pelo portal Intercept Brasil é devastador porque mostra afetividade entre o candidato oposicionista e o personagem central do escândalo Master. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, afirmou Flávio a Vorcaro. Protagonista de um escândalo de grandes proporções, envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro, lobby político e prejuízos bilionários ao BRB, o banqueiro se tornou uma companhia muito tóxica.

Um pacto pela dívida pública, por Benito Salomão*

Correio Braziliense

Solucionar o problema fiscal passará por um pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir sua credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do mercado que adquire essa dívida

No artigo de abril, propus uma reflexão sobre um tema que dificilmente ocupará o debate eleitoral de 2026, mas certamente ocupará a agenda do próximo governo: trata-se da dívida pública e a sua contínua expansão. O último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) ultrapassa a casa dos 80% do PIB. Há aproximadamente um mês, quando escrevi o texto anterior, ele se encontrava em 79,4%. Em suma, a DBGG deve continuar se expandindo no horizonte próximo.

Duas perguntas devem ser levantadas sobre essa questão: primeiramente, quais as causas de uma trajetória de endividamento público tão insustentável? Em segundo lugar, como corrigir essa trajetória. Este artigo focará na primeira pergunta.

Quando a farda estapeia a beca, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de outra natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa tradição e nosso modo de vida

Em licença-prêmio, eu estava fora do Brasil. Recebi relatos de docentes e estudantes da minha universidade. Foi aflitivo acompanhar, de longe, tamanho ultraje contra a Universidade de São Paulo (USP).

Vou aos fatos. Na madrugada de domingo, por volta de quatro da manhã, policiais militares fantasiados de Swat arrancaram de dentro da reitoria, à força, alunas e alunos que tinham ocupado o prédio dois dias antes. Segundo depoimentos de todas as testemunhas, houve agressões gratuitas e descabidas. A desocupação se deu a tapas e pontapés. Em vídeos e fotografias que os manifestantes conseguiram fazer, vemos, num corredor polonês, cassetetes espancando jovens desarmados. Foi um ritual de aviltamento, sujeição e sadismo, com bombas de efeito moral, ou imoral. “Dezenas de estudantes foram feridos”, declarou à rádio CBN o aluno Gabriel Borges, do Diretório Central dos Estudantes. Segundo ele, “alguns tiveram de ser hospitalizados com fratura no braço, fratura no nariz”. Houve quatro prisões, ainda que por poucas horas.

Setor de fertilizantes e o desenvolvimento, por José Serra

O Estado de S. Paulo

Não podemos controlar conflitos internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e duradouras

De cada dez habitantes da Terra, um consome alimentos produzidos no Brasil. Poucos, porém, têm consciência do complexo processo envolvido desde a produção até a comida chegar às suas mesas. Nesse ciclo, há um fator crítico: o fertilizante, cujo abastecimento global sofre forte impacto causado pela prolongada crise geopolítica enfrentada pela humanidade. Para o Brasil, que importa quase todo o adubo que consome, o cenário é muito desafiador.

Fertilizantes são o alimento da planta e, portanto, um elo essencial da cadeia do agronegócio, que tem sido a âncora do crescimento do nosso país. Lideramos as exportações globais de soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, celulose e fumo. Este ano, também assumimos a liderança no comércio do algodão e mantivemos a segunda posição com o milho e o etanol.

O que as pesquisas não dizem, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Existe um ‘humor sombrio’ no eleitorado do País que afeta também a oposição

Profissionais frios e calculistas que lidam com pesquisas de intenção de voto dizem que as eleições trarão um resultado de 52 a 48 “para alguém”. Quem? Ainda não sabem. O que eles aprenderam de recentes episódios da História é que eleições não têm automaticamente o dom de alterar “grandes correntes” que formam comportamentos. O exemplo em questão foi a vitória de Dilma em 2014 – que pouco freou o fenômeno de indignação social logo depois simbolizada pela Lava Jato (sem a qual é difícil explicar o impeachment dela).

Pistas sobre a atuação de Nunes Marques, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Relações políticas do ministro dão à direita esperança nas eleições e resignação no STF

Celebridades da música, ministros de Cortes superiores, advogados que circulam por tribunais de Brasília, políticos de diferentes matizes. Esse era o público que lotou a festa da posse de Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Mas nem todo mundo estava lá.

Dos outros nove ministros do Supremo Tribunal Federal, apenas dois compareceram: André Mendonça, que tomou posse como vice-presidente da Corte Eleitoral, e Gilmar Mendes. É pouco e destoa de posses anteriores de integrantes do STF.

Da lista de convidados, é possível constatar que o ministro tem perfil mais político que jurídico. As amizades mais fiéis, aquelas que prestigiaram o evento, dão uma pista sobre o que esperar dele à frente do TSE e no Supremo.

Donald Trump contra os Estados Unidos, por Maria Hermínia Tavares*

Folha de S. Paulo

Estudo mostra a rápida erosão do soft power da grande potência

Entre 68 países, EUA estão em 64°, à frente apenas de Irã, Afeganistão, Coreia do Norte e Israel

Em pouco mais de um ano, Donald Trump abalroou o conjunto de instituições que deram feição própria à ordem internacional liberal, criada no segundo pós-Guerra e da qual os EUA foram avalista e principal beneficiário.

Megalomaníaco, desorganizou o sistema de comércio com o tarifaço e debilitou o FMI e o Banco Mundial; paralisou o Conselho de Segurança, cerne das Nações Unidas; abandonou o Acordo de Paris, dificultando ainda mais os já penosos esforços de mitigação da crise climática. Enfraqueceu a Otan, pilar do sistema de segurança europeu; destruiu o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), substituindo a proveitosa cooperação comercial com o Canadá e o México pela ameaça à soberania dos vizinhos. Invadiu a Venezuela e sequestrou seu ditador, retomando uma prática de intervenção armada na vizinhança que se imaginava confinada ao passado. Estrangula Cuba, ao extremar um cruel bloqueio econômico a fim de derrubar o regime castrista. Em parceria com Israel, a quem apoiou no massacre de Gaza, faz agora guerra ao Irã, com consequências imprevisíveis —mas certamente nefastas— para o Oriente Médio e a economia mundial.

Flávio Bolsonaro pedia dinheiro dos fundos sujos do 'irmão' Vorcaro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ex-dono do Master sumiu com recursos de seus credores e faz país pagar essa conta

Candidato em longa história de escândalos, mas ainda assim tem cerca de 40% dos votos

Flávio Bolsonaro é muito família. De família de golpista e de simpatizantes do golpe. É muito amigo. Muito amigo do dinheiro vivo, da boca do caixa à compra de casa grande. Foi amigo de uma família de milícias e de um pistoleiro. Ainda assim, tem perto de 40% nas pesquisas sobre a disputa da Presidência da República.

Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro é um dos tantos amigões de Daniel Vorcaro, chefe de máfia que era proprietária de banco, o Master. É "irmão", parceiro eterno de papo reto: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu para Vorcaro quando pedinchava dinheiro, informação revelada pelo site Intercept Brasil e confirmada em parte por este jornalista. Flávio Bolsonaro, que escondeu a amizade, diz que não havia rolo. O silêncio vale ouro.

Grande centrão: Veredas, por Conrado Hübner Mendes*

Folha de S. Paulo

Voa em jato de bet até paraíso fiscal e volta com mala cheia por fora do raio-X

Vende aposentados de seu Estado em troca de relações carnais com Banco Master

"O senhor sabe: centrão é onde manda quem é forte, com as astúcias."

O centrão se transmutou. Funcionava como bloco invertebrado da governabilidade num contrato de coalizão com o Poder Executivo, assumiu papel de controlador do orçamento e de pulverização do dinheiro público. Em 2026, só quer manter esse controle, pouco importa quem se eleja. Nem que para isso ameace impeachment de ministro do STF e de presidente da República.

"Centrão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada."

Davi AlcolumbreHugo MottaArthur Lira e Ciro Nogueira são seus operadores de maior expressão no momento. Envolvidos em escândalos de aportes suspeitos de dinheiro de aposentados no Banco Master, de mesadas do Banco Master em troca de uma "Emenda Master", de viagem em jato de bet a paraíso fiscal de onde voltam de mala cheia por fora do raio-X, sua grande obra foram as emendas parlamentares.

Flávio Bolsonaro, Vorcaro e o filme mais caro do Brasil, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Conversa é o primeiro áudio conhecido de alguma autoridade cobrando dinheiro diretamente do dono do Master

O valor do negócio acertado chama atenção e exige explicações do Flávio sobre o real destino dos recursos

áudio divulgado pelo site Intercept Brasil com uma conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mostra uma relação indiscutivelmente próxima entre os dois.

É o primeiro áudio conhecido de alguma autoridade cobrando dinheiro diretamente de Vorcaro. O diálogo chegou como um tsunami à campanha do pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto, balançou a República e caiu como uma bomba no mercado financeiro.

O filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro cobra dinheiro do dono do Master, o brasileiro mais tóxico do momento, de quem todos os políticos querem ficar a léguas de distância, para pagar um filme que conta a história do pai.

Próximo de bandidos demais, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro disse que não responde pelas pessoas com quem tem proximidade

Por coincidência, todas essas pessoas tiveram problemas com a lei envolvendo o seu nome

Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.

O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.

Poesia | A flor e a náusea, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Beth Carvalho - O que é o que é (Gonzaguinha)

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cúpula entre Xi e Trump terá na IA um tema estratégico

Por O Globo

Não há discussão sobre Taiwan ou terras-raras que possa passar ao largo do futuro da tecnologia

Quando os líderes das duas superpotências globais se reúnem, todo o planeta é afetado. Na agenda do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na China a partir de amanhã, estarão temas inescapáveis, como o tarifaço americano ou a reabertura do Estreito de Ormuz no Oriente Médio. Qualquer consenso em torno dessas pautas teria efeitos econômicos benéficos, em especial o arrefecimento das pressões inflacionárias mundiais. Há também temas de interesse específico para o Brasil, como a possibilidade de, em troca de alívio tarifário, os chineses comprarem mais soja e carne dos americanos, em prejuízo dos brasileiros. E há, por fim, temas estratégicos, com impacto talvez menor no presente imediato, mas relevância maior num futuro não tão distante. É o caso da inteligência artificial (IA).

O exemplo Lula, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Lula tem sido um raro exemplo de líder que tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro

O mapa-múndi não é mais a soma de países independentes, cada um com a própria cor; a globalização transformou cada país em um pedaço do mundo, com interesses entrelaçados. Mas a política continua por país. Os líderes ficam perplexos porque seus países são pedaços do mundo, seus habitantes vivem problemas globais, mas seus eleitores continuam nacionais na defesa dos interesses do seu país no presente. Embora estejam entrelaçados pela crise ecológica, pressão demográfica e drama social, seus líderes não têm propostas que atendam aos interesses específicos de seus eleitores e ofereçam solução para os problemas globais. Diferentemente do que ocorria até algumas décadas atrás, a democracia nacional hoje se opõe ao humanismo planetário. A Europa se adaptou ampliando suas fronteiras formando a Comunidade Econômica Europeia, mas tratando os habitantes dos demais países como imigrantes indesejáveis, como se fossem invasores. Ao unirem-se, isolaram-se para atender aos desejos dos eleitores europeus, em detrimento dos seres humanos do restante do mundo. 

Alcolumbre não vai a anúncio do plano de segurança e frustra Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O litígio entre os dois se acirrou com a rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF, articulação liderada pelo próprio presidente do Senado

A ausência do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), no lançamento do programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, no Palácio do Planalto, frustrou as expectativas do presidente Luiz Inácio da Silva de que pode haver uma agenda de colaboração entre o Palácio do Planalto e o Senado, que cicatrize as feridas da rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Essa foi a maior derrota Lula no Congresso.

Durante o lançamento, ao lado do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), Lula não deixou por menos: “O dia que o Senado aprovar a PEC da Segurança, nos próximos dias, nós criaremos Ministério da Segurança Pública neste país”, afirmou. Lula mencionou, também, que sempre se opôs à criação de um Ministério da Segurança Pública sem que antes fosse definido o papel do governo federal na área.

Lula acelera medidas de última hora, por Vera Magalhães

O Globo

Presidente atira para todos os lados em busca de popularidade, mas pacote improvisado terá de vencer cansaço mais profundo demonstrado pelo eleitor

Com a água subindo perigosamente ao casco do navio, Lula resolveu acelerar ideias que estavam tempo demais em gestação para turbinar simultaneamente a avaliação de seu governo e suas chances eleitorais. No curso de pouco mais de uma semana, saíram o novo Desenrola, um plano de combate ao crime organizado com injeção de R$ 11 bilhões e, como bônus, o fim da “taxa das blusinhas”.

São medidas que apontam para todo lado, diferentemente do receituário de última hora adotado por Jair Bolsonaro em 2022. Este apostou quase unicamente em iniciativas populistas de repasse de renda e concessão de benefícios tributários, furando o teto de gastos e contrariando até vedações da lei eleitoral (que proíbe alguns repasses em período de campanha) — depois, trechos da PEC Kamikaze, que aprovou a derrama com votos até da esquerda, foram considerados inconstitucionais.

Bactéria no gargalo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Políticos atacam Anvisa e fazem discurso anticiência em busca de engajamento e voto

O vídeo circula desde domingo, impulsionado por perfis de extrema direita. Um homem de boné e camiseta bebe um frasco de detergente até a última gota. Suga o líquido com vontade, como se matasse a sede após atravessar o deserto. Em seguida, vira-se para a câmera e faz um gesto obsceno. “Aqui para você, petista”, provoca, exibindo o dedo médio.

O detergente é da marca Ypê, que teve a fabricação suspensa na semana passada. A decisão foi da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que apontou risco de contaminação num lote inteiro de produtos de limpeza. Para os bolsonaristas, tudo não passou de um complô. O objetivo seria prejudicar a empresa, cujos donos doaram R$ 1,5 milhão à campanha do capitão em 2022.

Atritos no início da reforma tributária, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Penduricalhos inseridos na regulamentação pós-reforma inviabiliza o drawback, regime que vinha funcionando bem desde 1961

O mundo dos tributaristas, contadores e administradores tributários ferve após a publicação dos regulamentos dos novos tributos sobre o consumo, o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), no fim de abril. Pelo menos dois pontos de preocupação já emergiram: drawback suspensão e utilização dos créditos tributários. Além disso, já há decisões judiciais colocando em xeque pontos da legislação do novo sistema.

A âncora das contas externas, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

A melhora das contas externas virou um diferencial da economia do País em meio à guerra no Irã

As contas externas passaram a ser uma das principais âncoras da economia brasileira desde que a guerra no Irã aumentou a tensão nos mercados globais, fazendo disparar os preços do petróleo e de outras matérias primas. Com uma das taxas de juros mais elevadas e um dos mais baixos déficits em conta corrente entre os países emergentes, o Brasil atraiu um grande fluxo do capital estrangeiro em busca de refúgio, em meio à turbulência geopolítica, levando à valorização do câmbio.

Sobre política e politicagem, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.

A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.

Como o detergente e a inflação afetam as campanhas eleitorais de Lula e Trump, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preços comem os salários nos EUA e ameaçam maioria dos republicanos no Congresso

Preferências políticas por vezes delirantes afetam modo de enxergar a situação da economia

O salário médio nos Estados Unidos perdeu para a inflação nos últimos 12 meses, o que não acontecia desde meados de 2023. Quer dizer, o poder de compra diminuiu.

Em novembro, haverá eleição nos EUA. Em outubro, no Brasil. Os preços aumentam também por aqui. O salário médio, no entanto, cresce 5% mais do que a inflação, ao ano. Mesmo assim, a situação de Lula 4 é periclitante. Está evidente desde o segundo ano de Lula 3 que as melhoras econômicas não influenciam o voto de muita gente ou são relativas.

Clamor por CPI do Master tem intenções ocultas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

É de se desconfiar do súbito empenho suprapartidário para levar as investigações para o palco do Parlamento

Quanto mais se espalha a lama na arena política, menor a chance de um campo ideológico ficar no prejuízo

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é o mais graúdo, mas não deve ser o único peixe do Congresso a cair na rede da Polícia Federal na investigação do caso Master. O próprio Daniel Vorcaro confirmou em depoimentos e mensagens no celular como era ampla sua influência no mundo político.

Questão de tempo, portanto, que apareçam outros a criar embaraços partidários. E, talvez, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida, quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor a chance de que esse ou aquele campo político em disputa arque com o prejuízo na eleição.

A alforria do olhar a partir das favelas do Rio, por Denise Mota

Folha de S. Paulo

Experiências e projetos em comunidades cariocas ocupam papel central na revista aMARÉlo

Combate a estereótipos pontua série sobre Carlinhos Brown e seu Candeal em Salvador

Eu não sabia que há quase 15 anos um homem pedala pelas ruas da Maré levando cinema para crianças em vários rincões da favela —a partir de um projetor doado e de potes de óleo de cozinha usados que ele recicla para vender e manter o projeto.

Eu também não conhecia a obra de Albarte, jovem e instigante artista plástico que mora em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, e que tece sua criação em consonância com o território que habita. Eu não sabia. Eu não conhecia. Estava fora do radar.

Em meio ao barulho permanente das redes sociais que parecem falar sempre das mesmas coisas —de comentários vazios sobre reality shows a análises catastrofistas do noticiário ou métodos milagrosos para rejuvenescer, emagrecer ou ascender espiritualmente em suaves prestações—, voltar a maravilhar-se com histórias reais e diversas não é pouca coisa.

História e Memória; Sociedade e Estado, por Ivan Alves Filho*

Minha visão sobre alguns episódios centrais da vida brasileira do século XX se formou a partir de uma série de contatos e encontros que mantive com determinadas pessoas e isso se deu quase sempre por intermédio de laços familiares, ao menos no início da minha vida. Mais uma vez, a experiência é fundamental, e tudo que fazemos depois, como o ato de escrever, parte dela. “Saber sentir, saber ver, saber dizer”, destacou certa vez Monteiro Lobato.

Presidente Lula participa do lançamento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado

 

Poesia | Ariano Suassuna - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | GANGA BRUTA | Hekel Tavares e Joracy Camargo - Moacyr Bueno Rocha e Orquestra Columbia (1933)

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crime intimida população — e o governo faz pouco

Por O Globo

Ação tardia reflete maior preocupação com indicadores de popularidade que de segurança

A proximidade com a violência faz parte do dia a dia da população. Para 41% dos brasileiros, grupos criminosos envolvidos com o tráfico de drogas ou milícias atuam no bairro onde moram, de acordo com pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pelas projeções demográficas, isso corresponde a 68,7 milhões de cidadãos. Destes, um quarto afirma que tal presença é “muito visível”.

A situação é percebida principalmente nas capitais (56%) e regiões metropolitanas (46%). Para 35%, criminosos “influenciam muito” as decisões e regras de convivência no bairro. Os receios mais citados são “ficar no meio de um confronto armado” (81%), “ter familiar envolvido com o tráfico” (71,1%) e “sofrer represálias e punições por denunciar crimes” (64,4%). Nesse clima de medo, 74,9% evitam circular em determinados lugares e horários (65,2%) ou falar sobre política (59,5%). O domínio perverso das quadrilhas fica patente quando 12,5% dizem se sentir obrigados a contratar serviços indicados pelo crime e 9,4% a comprar marcas e produtos impostos pelos bandidos.

Eleição nacional, estratégia global, por Guilherme Casarões*

O Globo

A dimensão internacional estrutura as estratégias de quase todos os principais postulantes

Há algo inédito na corrida presidencial brasileira de 2026: antes mesmo de o horário eleitoral começar, os principais candidatos já acumulam passaportes carimbados. Lula, em clara sinalização eleitoral, encontrou Donald Trump na Casa Branca. Flávio Bolsonaro visitou El SalvadorIsraelFrançaBahrein e Estados Unidos (pelo menos três vezes). Ronaldo Caiado desembarcou em Israel em 2024, ao lado de Tarcísio de Freitas. Há um ano, Romeu Zema foi a San Salvador numa missão do governo mineiro sobre segurança pública.

A disputa presidencial brasileira está globalizada, cada vez mais conectada com os ventos do mundo. Isso não é inteiramente novo. Em 1989, Lula, Fernando Collor de Mello, Leonel Brizola e até Paulo Maluf viajaram para o exterior durante a campanha. Bolsonaro fez o mesmo na longa pré-campanha que o conduziu à vitória de 2018, apostando na visibilidade que Israel e a proximidade com Trump lhe conferiam.

A ilusão do caso Vorcaro, por Fernando Gabeira

O Globo

Ele não entende a colaboração premiada como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou

Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: "Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza." Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.

O alto custo da guerra de Trump, por Míriam Leitão

O Globo

Conflito iniciado por Trump já fez o americano pagar US$ 35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge também a inflação brasileira

O custo da guerra para os Estados Unidos não é apenas a cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras. Essa é a ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao Financial Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento da despesa com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito contra o Irã é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.

Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma, com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família, aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.

Ensine ética a um robô, por Pedro Doria

O Globo

Como crianças, elas aprendem a se portar de acordo com aquilo que lhes é dado nas primeiras lições

Contamos histórias a respeito de inteligências artificiais, e em profusão, desde a segunda metade do século XX. De “Blade Runner” a “Eu, robô”, passando pelo HAL 9000 de “2001” ou mesmo pelo androide de “O exterminador do futuro”, há muito tentamos imaginar como seria, como funcionaria, uma mente sintética. Um dos traços principais de quase todas essas histórias é o medo ancestral de que possamos terminar vítimas da tecnologia que criamos. Esse medo não é bobagem. Por isso mesmo, é dos temas mais batidos em todos os debates a respeito de IA desde que o ChatGPT pegou todo mundo de surpresa. Talvez ninguém pudesse imaginar que a profecia é autorrealizável.

Cerco sobre Ciro trinca maior cartório do Centrão, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Operação da PF atinge federação PP-União no momento da definição de chapas e dos critérios de repartição do fundo eleitoral e das inserções comerciais

No mesmo dia em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) soltou um “doa a quem doer” na defesa da apuração do “grande escândalo” que envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o diretório estadual do Progressistas anunciou o adiamento da cerimônia, marcada para esta segunda, em que seria oficializado o apoio do partido à reeleição do governador de São Paulo e o lançamento da candidatura do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado. Na véspera, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), já havia soltado uma nota em que reputou de “graves” as acusações que pesam sobre o senador que foi ministro da Casa Civil do governo do seu pai e a quem já havia cobiçado para vice.

Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Um coro canta persistentemente ‘gastança, gastança’, forma expectativas de inflação que na maioria das vezes não se realizam, mas forçam o BC a manter juros nas alturas

Dias atrás, um economista brasileiro fez palestra para um pequeno grupo de pessoas de círculos acadêmicos em São Paulo. Ao sair da sala, um dos ouvintes, brincando, disse: “Vou passar na farmácia mais próxima e comprar um antidepressivo”.

De fato, como dizia Tom Jobim, o Brasil é para profissionais. Tem um número enorme de problemas em todas as áreas, oriundos de dificuldades burocráticas, instabilidade econômica, corrupção e desafios na área cultural e para fazer negócios.

Talvez esse conjunto de problemas leve o brasileiro a olhar para o futuro sempre com pessimismo e quase sem reconhecer qualidades que poderia ver no retrovisor.