terça-feira, 15 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF não tem o direito de errar hoje

Por O Globo

Impedir a investigação contra Moraes levará o país à certeza de que nem todos são iguais

Hoje, tendo o Brasil como testemunha, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) podem seguir um de dois caminhos: reconstruir a Corte ou mantê-la no descompasso moral em que se encontra. Se optarem pela reconstrução, farão uma sessão histórica, dolorida, mas respeitosa — e começarão a recuperar a credibilidade que, em conjunto, perderam. Se optarem pela manutenção do atual estado de coisas, farão um mal imenso a si próprios, mas, fundamentalmente, à nossa República e à nossa democracia. Essa segunda hipótese deve ser afastada. Deste julgamento, só pode emergir um vencedor: o Brasil.

Hoje é o Dia D de uma guerra do Peloponeso entre ministros do Supremo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Pesquisa Quaest: 56% afirmam não confiar no STF, dez a mais do que em agosto. Somente 9% dizem confiar na instituição, contra 18% no levantamento anterior

A sessão do Supremo Tribunal Federal marcada para esta terça-feira é o Dia D de uma crise sem precedentes na história da Corte. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, o plenário decidirá se autoriza a abertura de investigação sobre Alexandre de Moraes por causa de suas relações com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Não se trata ainda de julgar nem de condenar o ministro, mas de decidir se os indícios reunidos pela Polícia Federal justificam uma investigação. Essa distinção é fundamental para o devido processo legal.

O Supremo vive sua própria guerra do Peloponeso. No conflito narrado por Tucídides, Atenas e Esparta arrastaram seus aliados para uma disputa prolongada que enfraqueceu todos, destruiu equilíbrios e abriu caminho para a decadência das cidades gregas. No STF, a guerra de despachos, ofícios, pedidos de suspeição, mudanças de relatoria, levantamento de sigilos e acusações cruzadas transformou divergências jurídicas numa luta interna sem precedentes pelo controle dos processos e pela sobrevivência das biografias.

O risco de Lula entre as mulheres, por Míriam Leitão

O Globo

Segundo a pesquisa Quaest, o atual presidente perdeu tração no público feminino, que foi decisivo na disputada eleição passada

O presidente Lula está perdendo seu maior trunfo: as mulheres. Na pesquisa Quaest mais recente, em que ele reduz consistência em vários dos segmentos nos quais sempre venceu, um dado salta aos olhos. Hoje há um empate entre as mulheres quando perguntadas do que elas têm mais medo, se da reeleição de Lula ou da volta de Bolsonaro. Em um mês caiu de 49% para 42% as que têm medo da volta dos Bolsonaro, e subiu de 36% para 42% o medo da reeleição do Lula. Há um empate no medo.

Briga no escuro, por Merval Pereira

O Globo

Fachin terá de ter muito pulso para dirigir a sessão hoje, porque ainda haverá várias tentativas de adiamento

A diversificação de ações para tentar adiar a sessão que deve começar hoje de manhã no Supremo Tribunal Federal (STF) demonstra que o grupo que apoia o ministro Alexandre de Moraes receia perder a parada e está disposto a uma briga de foice no escuro, à Tarantino. O ministro Gilmar Mendes já avisou:

— Quem não gosta de pisão não vai ao bailão.

O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, mostra-se firme na decisão de realizá-la e, como será o primeiro a votar, dará o rumo do debate, tanto limitando-o ao tema único de hoje, o pedido de investigação de Moraes, quanto determinando a melhor maneira de preservar a instituição máxima da nossa Justiça e, por tabela, da própria democracia brasileira. Os que se gabavam de ter salvado a democracia durante a tentativa de golpe do bolsonarismo e suas consequências hoje põem em risco o que consideram ter salvado, pois o poder que ganharam no correr dos tempos fez o que os deuses já previam e os homens definiram na História: poder em excesso corrompe completamente.

Terça, 15/9, por Fernando Gabeira

O Globo

Os problemas do STF não se esgotam no comportamento de Moraes, mas demandam reforma profunda na instituição

Hoje não passa de um dia perdido no tempo. Mas pode se tornar uma data histórica, um 15 do 9 nos arquivos nacionais. Tudo depende do que acontecer no Supremo Tribunal Federal (STF).

A hipótese inicial é iniciar uma investigação a respeito das ligações do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master. O material já é conhecido, passa por um contrato de R$ 130 milhões entre Vorcaro e a família Moraes e mais de 50 mensagens trocadas pelo banqueiro com o ministro às vésperas da prisão.

Outros ministros, como Dias Tofolli, também estão envolvidos. Mas o pedido de investigação é específico sobre Moraes. E há outro sobre André Mendonça.

A IA nos matará? Por Pedro Doria

O Globo

Bill Gates afirmou que os modelos em desenvolvimento já cruzaram inúmeros limiares de risco

No último dia 26, agosto já terminando, Bill Gates publicou em seu site pessoal um longo ensaio a respeito de inteligência artificial. Afirmou que os modelos em desenvolvimento já cruzaram inúmeros limiares de risco. Já são capazes de desenvolver bioarmamento, quebrar cibersegurança, manipular psicologicamente pessoas, destruir empregos. Ainda assim, não temos qualquer conversa organizada sobre como gerenciar quaisquer riscos. Pois Gates publicou o ensaio, passou o dia na TV dando entrevistas. E aí nada aconteceu. No dia 11 agora, sexta-feira passada, foi a vez de Yoshua Bengio se manifestar num ensaio. Ele é um dos três padrinhos da IA. Pediu que o ritmo de atualização fosse mais lento. Que as empresas desacelerassem. No sábado, veio Dario Amodei com seu ensaio. O CEO da Anthropic e criador do Claude diz que há risco existencial para a humanidade. Quando chegou domingo agora, se manifestaram concordando com Gates, Bengio e Amodei tanto Sam Altman, da OpenAI (GPT), quanto Elon Musk, da x/AI (Grok).

Flávio ganha vantagem, mas pesquisa indica eleição aberta, por César Felício

Valor Econômico

Simulação de segundo turno é ponto de partida, e não de chegada

Aumentou a chance do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vencer as eleições presidenciais deste ano. A pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (14) mostrou diversos vetores indicam para o cenário de sua vitória. O mesmo levantamento, contudo, indica que a rejeição a seu nome não cede, o que faz com que a eleição ainda esteja em aberto.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) permaneceu no patamar de 36% na simulação de primeiro turno, com crescimento de Flávio de 29% para 31%. Em julho, esta diferença era de 40% a 28%. Na simulação de segundo turno entre os dois, Lula recuou pela quinta vez consecutiva, pontuando em 40%, ante 42% de Flávio.

A batalha do Supremo e a exaustão do eleitor, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A sessão desta terça não é a de um processo judicial mas de uma disputa política

Em uma semana, o grupo formado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, transformou o clima de linchamento em praça pública deste último num ambiente em que também pairam suspeitas de partidarismo na atuação do ministro André Mendonça.

Vem daí a aposta de que agirão no limite para evitar que a sessão desta terça siga o rito anunciado: leitura do relatório do caso pelo presidente do STF, manifestação da Procuradoria-Geral da República, defesa de Moraes e a apresentação do primeiro voto, de Edson Fachin, que também é do relator. Este é o rito para uma corte judicial. O que se verá nesta terça é uma sessão política.

A 20 dias da eleição, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

STF e inversão nas pesquisas se somam numa pergunta: qual seria o Brasil de Flávio?

A sessão do Supremo hoje, sobre abrir ou não investigação sobre Alexandre de Moraes, ocorre quando Flávio Bolsonaro, apesar do empate técnico, passa a frente numericamente do presidente Lula e assume a dianteira na eleição presidencial. Logo, o dia 14 de setembro de 2026 pode se transformar no marco de uma reviravolta histórica.

Somadas as duas hipóteses, de vitória de Flávio e de derrota da justiça e da realidade na decisão do Supremo, o Brasil pode dar uma cambalhota atordoante em 2027, anulando os movimentos pró-democracia, liderado pelo STF, e pró-soberania, capitaneado por Lula, para cair numa incógnita.

O julgamento de Xandão, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A bancada gilmarmendista catimba. Quer transformar em “Julgamento de Xandão”, como se sessão derradeira de processo penal, o que seria deliberação sobre se Alexandre de Moraes deve ser investigado. Catimba-se porque Moraes não pode ser investigado – o que significaria sabermos o que respondeu a Vorcaro, o que compartilhou com ele. Não pode. Então: blitz e blindagem.

Cada um a seu modo, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e o próprio Moraes (que Xandão talvez já tivesse mandado afastar) investem no afogamento do Supremo – o propósito da batalha de petições por meio das quais sucessivamente exigem informações tão volumosas quanto estranhas ao objeto definido por Edson Fachin para o julgamento: se os dados disponíveis sobre as relações entre Moraes e Vorcaro, a todos os integrantes do tribunal formalmente entregues, seriam suficientes para que o ministro fosse investigado. São suficientes? Você sabe a resposta.

PT erra com evangélicos pela terceira eleição consecutiva, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Escolha de Janja como porta-voz expõe a falta de afinidade do partido com o segmento  

Quaest apresentou Flávio Bolsonaro pela primeira vez à frente. Se Lula for derrotado em outubro, uma parte da responsabilidade será do PT, que, pela terceira vez, terá perdido a oportunidade de dialogar com os 26,9% de evangélicos brasileiros.

Nada mudou no desempenho do PT desde a derrota de Fernando Haddad em 2018. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, aponta que Flávio Bolsonaro abriu 18 pontos sobre Lula entre evangélicos no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Flávio marca 58%, e o presidente, 31%.

Quais foram os pecados do partido em relação a evangélicos? A direção não tem afinidade nem simpatia pelo segmento e permite que ele seja tratado de maneira amadora. Não existe um nome no partido com poder de decisão para ser cobrado por seu desempenho.

Vamos acabar com as togas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Vestes talares foram concebidas para indicar impessoalidade e imparcialidade da Justiça

Na percepção popular, porém, esses trajes hoje passam a ideia de diferenciação e hierarquia

Para uma época que prefere travar batalhas simbólicas a resolver problemas substantivos, minha sugestão no que diz respeito à crise no STF é simples: vamos eliminar as togas. No Brasil, o uso de vestes talares, em sua versão plena ou simplificada, por magistrados é uma exigência legal, aplicada em geral a partir da segunda instância e nos tribunais do júri.

A semiologia é bonita. Usar roupas até o calcanhar (é isso que "talar" significa aqui) serviria para esconder o corpo do juiz, apagando-lhe qualquer traço de individualidade e revestindo-o assim do manto da impessoalidade e da imparcialidade. A prática teria tido início na Idade Média e persistido até nossos dias.

Supremo dirá se o Brasil tem, ou não, um tribunal de confiança, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Acusações, postergações e acordos de ocasião não devolvem ao STF a reputação derretida

A pior escolha será os ministros se esconderem sob o frágil biombo de proteção à democracia

De gente com larga experiência adquirida na vida, e autoridade conferida pela lei maior, espera-se que enxergue com clareza o que se passa à sua volta, avalie as circunstâncias e daí tome a melhor decisão. Requisitos básicos à função do julgador.

Não é o que se vê prevalecer nas atitudes de ministros do Supremo Tribunal Federal ativos nos embates internos e passivos ante o imperativo de recuperação da credibilidade da corte. Descontada a hipótese de surto coletivo de carência de percepção, a indiferença ao ponto central da crise só pode ser proposital.

Além de bets, brasileiros elegem canetas emagrecedoras, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Uso das seringas supera o negacionismo que prejudica a cobertura vacinal no país

Medicamentos revolucionários para obesidade viram objeto de desejo e alvo do crime organizado

Esqueça o futebol, os candidatos ao Planalto e os ministros do STF. O que entusiasma os brasileiros são as canetas emagrecedoras e as apostas eletrônicas.

O curioso é que as canetas são canetas apenas no nome. Na verdade são seringas preenchidas com medicamentos injetáveis. O uso delas, no entanto, consegue superar o medo, a desconfiança e o preconceito que envolve injeções e agulhas e o negacionismo que, promovido de maneira criminosa pelo governo Bolsonaro no período da pandemia, ainda prejudica a cobertura vacinal no país.

Dani Lima ao vivo: Mendonça derruba sigilo sobre pagamentos de Vorcaro após pedido de Moraes e mais

 

Poesia | Cantares - Caminhante não há caminho, de Antonio Machado Ruiz

 

Música | Sandra Duailibe - Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos - Aldir Blanc)

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Opinião do dia: Manuel Castells*

“Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.”

*Manuel Castells, sociólogo espanhol. “Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sessão do STF exigirá decoro dos ministros

Por O Globo

Integrantes da Corte terão a última oportunidade de restituir ao tribunal a credibilidade que lhe é essencial

Todo brasileiro tem a consciência de que a sessão de amanhã do Supremo Tribunal Federal (STF) não será fácil. Certamente será a mais difícil já vivida por seus ministros. Haverá debates acalorados, diferentes pontos de vista, enfrentamento de controvérsias jurídicas. Por isso, alguns de seus integrantes temem que a imagem da Corte saia ainda mais arranhada. E farão até a última hora manobras ou por sessão fechada ou por adiamento.

Trata-se, porém, de um sofisma: se houver excessos, não é a imagem da Corte que sofrerá danos, mas daqueles que perderem a compostura diante da população. São adultos, conhecem as boas maneiras, estudaram em universidades de ponta. Sabem, portanto, o que é discussão legítima e o que é vulgaridade e insulto. Conhecem o que é motivo real para suspeição e o que é apenas fumaça sem sentido para tumultuar a sessão. Aqueles que passarem do limite do aceitável devem, eles mesmos, responder por falta de decoro nas instâncias devidas.

Crise no STF muda estratégia eleitoral de Lula e Flávio, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Líderes das pesquisas ajustam discursos e incorporam propostas para o futuro do tribunal, enquanto tentam conter desgastes do caso Master

Com a escalada da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), o futuro da Corte ganhou centralidade nos discursos dos líderes da corrida presidencial e passou a ser usado como estratégia eleitoral pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo que buscam se desvencilhar dos impactos negativos do escândalo do Banco Master para as respectivas campanhas.

Flávio, que é investigado em inquérito sobre repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme “Dark Horse”, repete a acusação de perseguição e tenta explorar a indignação de parcelas do eleitorado apresentando-se como quem poderá mudar a composição do tribunal. Na quinta-feira, classificou como “terceira facada” a decisão do ministro Flávio Dino de levantar sigilos sobre as investigações que envolvem a produtora Karina Gama, do filme “Dark Horse”. Na sexta-feira, quando se tornou público que ele era formalmente investigado no inquérito sobre responsabilidade de Mendonça, procurou demonstrar tranquilidade. “Para mim a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto, porque vão só confirmar o que eu sempre falei”, disse, em visita a Manaus. No sábado (12), não comentou o tema. No domingo (13), cancelou toda a sua agenda pública, prevista em Presidente Prudente (SP), alegando mau tempo.

Ao expor suspeita sobre o PCC, Dino desafia Mendonça e expõe Flávio Bolsonaro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Ministro diz que segue métodos de Mendonça e expõe suspeitas sem comprovação 

Se a tragédia que abate o Supremo Tribunal Federal – e o país – neste caso Master se transformasse numa história em quadrinhos, a cena produzida na manhã deste domingo (13) com a decisão do ministro Flávio Dino o reproduziria, em frente ao ministro André Mendonça e uma simples frase escrita num balão: “Vai encarar?”. As armas em seus coldres não têm a mesma munição.'

O desafio está escancarado numa decisão que não se limita a reproduzir, com ironia, trechos do despacho do relator do Master com  diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro em que são mencionados artigos da Constituição em defesa da transparência. Dino os reproduz em profusão, a começar pelo inciso LX do artigo 5: “A lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”.

Em sua provocação, Dino inclui o presidente do Supremo Tribunal Federal ao mencionar despachos do ministro Edson Fachin tornados públicos em investigações que ainda estão em fase de instauração. Ao fazê-lo, diz Dino, o presidente da Corte executa diretriz emanada do ministro André Mendonça. Por isso, conclui haver uma “viragem jurisprudencial em curso à qual devo me adaptar, em homenagem ao princípio da colegialidade”.

O voto das mulheres, por Ana Paula Araújo

O Globo

Um voto parece pouco, mas é o que nos cabe dentro de uma construção coletiva. E é um direito conquistado com muita luta

‘Eu não deixava!’ Essa era a senha para atiçar qualquer conflito na escola. Quando alguém estava quase levando um desaforo para casa em nome de evitar confronto, vinha a frase que reanimava a briga. E afinal, como diria o gênio Marcelo Yuka, paz sem voz é medo. Às vezes também é desleixo, tédio, desinteresse. Nenhum desses sentimentos deveria prevalecer quando se trata do que impacta nossa vida.

Um pouco depois dessa fase escolar mais selvagem, já era universitária quando boa parte dos brasileiros votou pela primeira vez para presidente, em 1989. Estudante da Universidade Federal de Juiz de Fora e engajada, fui a comícios, tive meus primeiros embates políticos e cheguei a panfletar santinho de candidato. Acredite, as pessoas paravam para me ouvir e trocar ideias. Eu tinha 17 anos.

Eleição vai para a prorrogação, por Preto Zezé

O Globo

Quem decide é quem ainda não vestiu a camisa de nenhum time: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível

Rato de estádio como eu sabe que em jogo apertado ninguém comemora antes do apito final. Muita torcida já soltou foguete aos 44 do segundo tempo e voltou para casa calada. Pesquisa é placar de intervalo, não é taça. Na Quaest, Lula lidera o primeiro turno por 36% a 29% e empata o segundo em 41% a 41%. Os dois carregam uma rejeição enorme: 53% não votariam em Lula, 55% não votariam em Flávio. Flávio pode vencer, e Lula pode perder, mas nenhuma das duas frases é resultado consumado.

O poder, a glória e o dinheiro, por Demétrio Magnoli

O Globo

Brasil tende a idolatrar a figura do juiz-redentor, como se viu antes, nos casos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro

Em seu esforço para decifrar o capitalismo, Karl Marx imaginou que os indivíduos buscam, acima de tudo, o vil metal. Errou, como mostra a História: o que mais almejam é o poder e a glória. A trajetória de Alexandre de Moraes, que entra em seu outono, evidencia os riscos de atribuir prerrogativas excepcionais a um juiz e, também, de cercá-lo de louros excessivos.

Moraes fez carreira profissional como promotor e lançou-se à política como secretário estadual de Segurança Pública em São Paulo. Quando chegou ao STF, confundiu o papel de juiz com o de acusador — e, talvez por isso, foi escolhido arbitrariamente por seu colega Dias Toffoli para a relatoria de um inquérito de exceção.

O risco Lula 4.0? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A alternância do poder preserva a independência das instituições de controle

Qual o principal risco institucional de um quarto mandato de Lula? Talvez não esteja nos poderes da Presidência, mas em algo menos visível: os efeitos de um período excepcionalmente longo sem alternância de poder sobre as instituições encarregadas de controlar o próprio Executivo.

O Supremo ilustra esse risco. Dos dez atuais ministros, seis foram indicados por governos petistas: Cármen Lúcia e Dias Toffoli por Lula; Luiz Fux e Edson Fachin por Dilma; Cristiano Zanin e Flávio Dino novamente por Lula. Além da vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso, outros quatro ministros atingirão a aposentadoria compulsória no próximo mandato.

O retrocesso democrático que vem do poder judicial, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Crise do STF não é obra de uma maçã podre, mas de facções judiciais que transformaram prerrogativas processuais em instrumentos de proteção recíproca

De alvo do retrocesso democrático, o Judiciário converteu-se em agente da erosão institucional

Há algum tempo inverti o título da obra clássica de Alexander Bickel, "The Least Dangerous Branch", para advertir que o Supremo havia se tornado o poder mais perigoso da República. Em outras colunas, recorri à imagem das "facções judiciais" mob lawyers. O escândalo atual mostra que não eram apenas figuras de linguagem.

O problema do STF não se resume a uma maçã podre. Quando duas ou três maçãs estão comprometidas, elas formam maiorias em turmas e podem integrar maiorias no plenário. Como o tribunal é um órgão coletivo, desvios individuais passam a contaminar suas decisões institucionais.

Voto antirracista tem poder de definir a eleição e transformar o Brasil, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Por que as desigualdades étnico-raciais não estão no centro do debate político?

Só os políticos que reconhecem o impacto do racismo nas vidas de milhões de cidadãos brasileiros deveriam merecer voto

A três semanas das eleições gerais —pleito para escolher presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador dos estados e do Distrito Federal, senadores e deputados federais, estaduais e distritais (TSE)— decidi compartilhar algumas indagações que me acompanham sobre o voto no Brasil.

Considerando que o papel dos políticos é representar os interesses dos cidadãos para garantir que as decisões levem em conta direitos e necessidades do povo:

Por que as desigualdades étnico-raciais (que constituem um dos principais entraves nacionais ao desenvolvimento e ao estabelecimento de uma sociedade mais justa, próspera e democrática) não estão no centro do debate político?

Babando na gravata, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Além dos cochilos em reuniões e das pernas inchadas, Trump pode estar ficando gagá

O problema é se o trumpismo depende dele para existir, assim como o bolsonarismo

Fotos de Donald Trump o mostram com hematomas nas mãos, pernas inchadas e dificuldade de ficar acordado em cerimônias. Alguns veem nisso sinais de decrepitude. A Casa Branca desmente. Segundo ela, as manchas são provocadas pelos apertos de mão que Trump tem de cumprir —mas, como elas aparecem também em sua mão esquerda, será porque, às vezes, ele cumprimenta canhotos? As pernas inchadas se deveriam às horas que passa sentado com outros líderes —mas estes cumprem a mesma rotina em seus países e não aparentam o problema. Quanto a cochilar nas cerimônias, por que não se Trump mal escuta o que dizem nelas?

A posição diagonal: em busca de freios e rumo ao descer ladeira*, por Paulo Fábio Dantas Neto**

Começo pela franqueza necessária para dizer que não encontro nada não redundante a dizer sobre o tema especifico da campanha eleitoral, muito menos sobre prognósticos a respeito dos seus resultados possíveis ou do que podem ser seus desdobramentos políticos. Tudo o que meu discernimento alcança como diagnóstico já vem sendo dito. Isso vale para o que chamamos análise, sejam elas platitudes que lemos e ouvimos por aí, sejam opiniões qualificadas e equilibradas. E quanto a prognósticos, confesso que os que poderia fazer estariam irremediavelmente contaminados por desejos e/ou pelo efeito de sua quase certa frustração. Evito-os, na medida do possível. Logo, tento, mas não os evito totalmente.

Estou consciente dos efeitos embaraçosos que o atual processo eleitoral tem provocado em mentes como a minha, treinadas para através do pensamento procurarem soluções políticas, por mais opaco que o cenário possa parecer ao escrutínio de suas nuances. Suponho, contudo, que essa reação mental encapsulada não é algo meu ou de mentes afins. Reflete até sentimentos públicos compartilhados por um número de pessoas que não sei mensurar, incluindo outros profissionais da ciência política.

Poesia | O açúcar, de Ferreira Gullar

 

Música | João Cavalcanti - Ponto de Vista

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domingo, 13 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo diante da História

Por O Globo

Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias

Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.

A eleição na Alemanha, a crise do Supremo e a desesperança na democracia, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A insegurança jurídica adia investimentos, interrompe decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e aumenta a frustração social e política

A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44% dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política alemã.

A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas vidas.

Terremoto no Supremo, por Míriam Leitão

O Globo

A crise no STF está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível

Soterrado por muitos gigabytes de informação, o Brasil tenta entender o que está acontecendo enquanto caminha para as urnas, dentro de três semanas, numa eleição diferente de todas as outras. Não há programas, não há ideias, nada. O debate incandescente é o Supremo Tribunal Federal. A crise está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível.

A corrupção de Daniel Vorcaro espalhou-se, e atingiu mais fortemente alguns atores. O ministro Alexandre de Moraes está cercado por uma montanha de dúvidas e a maior delas é sobre o seu futuro na Corte. A previsão é ele assumir a presidência do STF daqui a um ano. O ministro André Mendonça é acusado de selecionar politicamente alvos de investigação, poupando outros, e continuar fazendo isso até na quebra de sigilo.

Brasíliada, por Merval Pereira

O Globo

Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra no STF teve início.

A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.

Ministros do STF deveriam ler Madame Satã, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em busca de argumentos para defender o indefensável, vale consultar a lendária entrevista do malandro da Lapa ao Pasquim

Madame Satã era o apelido do transformista João Francisco dos Santos, figura mitológica da Lapa na primeira metade do século passado. Malandro e destemido, não recusava uma briga. Somou 27 anos de cadeia antes de inspirar livros, filmes e peças de teatro.

Madame Satã é o nome de uma casa noturna da cena underground de São Paulo. Nos últimos dias, notabilizou-se como cenário de uma farra promovida por Daniel Vorcaro. Pivô da maior fraude financeira da História do país, o banqueiro corrompeu a República com propinas, viagens e bacanais.

Dez escorpiões numa garrafa, por Elio Gaspari

O Globo

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Narcisismo patológico de Trump é um perigo, por Dorrit Harazim

O Globo

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar

Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.

O arco conservador nas Américas, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.

No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.

Democracia e ideal republicano, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

A visão política surge do encontro oportuno entre uma nova realidade social, ideias aptas a captá-la e líderes capazes de estabelecer a ligação entre ideia e realidade

A mais bela defesa do ideal democrático que conheço é aquela de Norberto Bobbio: “Apenas em um regime democrático são possíveis a aceitação e o elogio da diversidade; o reconhecimento da legitimidade e da fecundidade dos conflitos de razão e de interesse; a absoluta liberdade de opinião; o ideal da tolerância; o ideal da não violência. Apenas em democracias é possível livrar-se de governantes sem derramamento de sangue e resolver conflitos sem o recurso à força. Apenas em democracias é possível a renovação gradual da sociedade pelo livre debate de ideias e pela mudança de mentalidades. Apenas em democracias é reconhecida a necessidade de antepor limites ao poder, mesmo quando esse poder é o da maioria que o conquistou pela força do voto”.