sábado, 31 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Vitória de Lula e vergonhosa fuga de Flávio

Por Revista Será?

Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas – confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a uma posição de líder da direita brasileira.

O futuro que virá, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O horizonte é de dificuldades, ruídos e tensões. Precisamos ingressar numa dimensão pós-bolsonarista e pós-lulista 

Vitórias eleitorais não caem do céu. Vitórias podem ser explicadas por mudanças circunstanciais, por abalos inesperados que alteram a correlação de forças, truques de marketing, lufadas de sorte e acaso. Porém, numa disputa acirrada como a que tivemos no Brasil, a vitória de Lula não ocorreria sem mobilização e engajamento. O repúdio ao bolsonarismo levou milhões de jovens, idosos, homens e mulheres às redes e às ruas. Foi uma arrancada vigorosa, com emoções à flor da pele.

Não foi uma vitória da “esquerda”, mas do conjunto dos democratas – dos socialistas aos liberais e conservadores –, dos cidadãos sem partido e cheios de sonhos na cabeça.

Metade dos eleitores sufragou a candidatura da ultradireita, mantendo viva a base da polarização tóxica dos últimos anos. Como dissolver os laços que ligaram 60 milhões de cidadãos às fantasias bolsonaristas? A democracia não pode simplesmente descartá-los. Uma sociedade culturalmente rica e diversificada como a brasileira não pode ser refém de fanatismos e procedimentos de “ordem unida”. Parte da população não se sente acolhida pela democracia representativa e não aceita a esquerda, que é mais fechada e restrita do que fazem acreditar os discursos de Lula. A esquerda brasileira tem pouco poder de diálogo.

Encontro marcado com o império da lei, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Campo democrático precisará superar suas divergências para neutralizar milicianos

Primeiro teste será a aprovação da chamada PEC da Segurança Pública no Congresso

Se o Brasil não for capaz de fortalecer seu Estado de Direito, reformando e modernizando suas instituições de Justiça e segurança, a democracia brasileira será novamente colocada em risco por extremistas autoritários, que buscaram capturá-la nesta eleição.

O importante é que a democracia sobreviveu. Milhões de brasileiros foram conscientemente às ruas para defendê-la e usaram o voto para impedir que um clã de desordeiros corruptos e autoritários retomasse o poder. Não podemos nos esquecer que outra metade do Brasil se deixou, mais uma vez, seduzir pelo bolsonarismo, ainda que muitos desses eleitores não comunguem de seus valores.

A polarização é menor do que se imaginava, por Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

No mundo todo, eleitores estão abandonando suas lealdades políticas a uma velocidade recorde

A imagem que temos dos EUA é a de um país profundamente dividido, separado pela educação, pela classe social e pela cultura em dois campos rivais que não se suportam. Quando se observa Donald Trump em campanha eleitoral ou se dá uma olhada nas redes sociais, essa percepção é constantemente reforçada.

Mas as pesquisas, à medida que nos aproximamos das eleições de meio de mandato, sugerem que talvez tenhamos deixado passar algo muito importante sobre os EUA de hoje. Trata-se de um país em transformação, com grande parte da população inquieta quanto ao futuro e incerta quanto a quaisquer lealdades políticas. Em outras palavras, o país está politicamente em aberto.

Aos vencedores, o governo, por Flávia Oliveira

O Globo

Candidatura de Flávio jamais deveria ter sido levada a sério

O Brasil, felizmente, acordou a tempo da hibernação que por pouco não fez presidente da República um senador sem brilho, herdeiro de um líder político golpista, mergulhado em investigações por crimes comuns, de corrupção passiva a lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A candidatura de Flávio Bolsonaro, alavancada pelo capital político do pai, jamais deveria ter sido levada a sério, seja pela escassez de propostas, seja pela biografia minúscula, cujo epílogo (espera-se) contém vexatória fuga para os Estados Unidos e uma carta à nação em que se proclama “presidente eleito” num pleito em que foi derrotado por mais de 4,4 milhões de votos, mais que a população inteira da Paraíba.

É o fim do bolsonarismo? Por Thaís Oyama

O Globo

Mercado de votos está de agora em diante aberto — e pronto para ser disputado por quem se provar viável para enfrentar petismo

Os Bolsonaros já haviam provado sua tendência à autocombustão. Antes da incineração política de Flávio na quarta-feira, o pai fora preso por tentar incendiar a República, e o irmão Eduardo se lançara ao autoexílio na campanha pelo tarifaço americano contra o Brasil. Ao abandonar o país dois dias depois de receber quase 60 milhões de votos — e divulgar dos Estados Unidos uma carta sobretudo ridícula —, o primogênito seguiu a tradição familiar.

Hoje, da cesta de onde Jair tirou o Zero Um e o Zero Três, já não há sucessor eleitoralmente competitivo para comandar a direita. Carlos, Jair Renan e Laura — por inapetência, inaptidão ou pouca idade — não podem ser considerados. Michelle pode disputar o espólio, mas seus enteados não a reconhecem como sucessora, nem a maior parte da bancada do PL que gravita em torno de Flávio e Eduardo. Jair, por sua vez, está virtualmente inelegível pelo resto da vida. Estaria o bolsonarismo em via de extinção?

Desinteligência abissal, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Flávio Bolsonaro seria o principal nome da política brasileira com chances de rivalizar com o presidente da República. Poderia exercer a função de líder de uma oposição numerosa e eficaz. Jogou tudo fora

Tarcísio Gomes de Freitas é um homem de sorte. Aos 51 anos, depois de passar pela Academia Militar das Agulhas Negras, pelo Instituto Militar de Engenharia, pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados e pelo Ministério da Infraestrutura, ele, apesar de carioca, foi eleito governador de São Paulo. Sorte é outro nome de competência. O político, que iniciou sua vida pública como burocrata bem preparado, preferiu não ficar sob o controle de Jair Bolsonaro e se desviou do possível confronto eleitoral com o presidente Lula. Foi reconduzido ao Palácio Bandeirantes com folga, eleito no primeiro turno. Além disso, de repente, as portas da política brasileira se abriram à sua frente. 

O que uma boa eleição nos ensina? Por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Acreditando na política, participando ativamente das eleições, o brasileiro decidiu dedicar tempo e energia para a defesa de uma ideia de Brasil. Uma energia que atravessou os dois campos, cada um pleiteando o seu projeto de preferência

A democracia brasileira sai mais forte das eleições de 2026, e me refiro ao que boa parte da sociedade exercitou, compreendeu e reivindicou nos últimos meses. Vale a pena refletirmos sobre esses aprendizados de amadurecimento político.

Em primeiro lugar, eu ressaltaria a defesa forte da Constituição de 1988. Um dos pontos mais relevantes do debate vivenciado entre os dois turnos se deu em torno da proposta do candidato Flávio Bolsonaro de mudar a constituição. Sabemos que nenhuma constituição é eterna, mas a reação popular à possibilidade de uma mutilação da identidade constitucional foi digna de nota e obrigou o candidato a se explicar.

Celebrar é preciso, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Desculpem meus amigos acadêmicos, filósofos, analistas políticos, intelectuais e jornalistas. A semana é de celebrar. Os jornalistas são os únicos que têm desculpas de não o fazerem por razões profissionais. Às vezes até penso que esses personagens não dormem.

Antes de fazer cenários e conjecturas sobre o quarto mandato de Lula, que não vai ser fácil, deve-se celebrar o salto que demos. Conseguimos evitar um governo golpista, corrupto como poucos e subserviente. A natureza agradece. E os que sofrem de insegurança alimentar também.

Celebrar é essencial, sobretudo, pelo feito realizado, quando a vitória foi alcançada não apenas por um homem ou dois, por um ou dois partidos, por um grupo de mulheres ou de jovens, por uma região ou outra, mas por um trabalho de milhões que se engajaram nas redes, saíram às ruas e se dirigiram a familiares, amigos, colegas e vizinhos para convencer os que não votaram no primeiro turno a votar em Lula, assim como trabalharam junto aos que votaram nulo ou branco. Porém, isso não era suficiente e milhões de pessoas foram mais longe: convenceram milhões de eleitores ou eleitoras a mudarem de voto, fazer aqueles e aquelas que votaram no candidato do PL votarem no Lula.

O dilema de Lula, por Sérgio C. Buarque*

Revista Será?

O presidente Lula da Silva obteve uma vitória eleitoral consagradora, com grandes manifestações populares que se traduziram em 64,2 milhões de votos, superando o adversário em mais de quatro milhões de votos. Lula passa à história brasileira com quatro mandatos presidenciais e quase 20 anos de participação direta ou indireta nas decisões políticas do Brasil. Passadas as eleições e as comemorações da vitória, Lula terá que governar o Brasil em condições políticas adversas, a força futura da oposição no Congresso, e tendo que lidar com graves restrições fiscais para realizar as promessas e atender às enormes expectativas da sociedade.

Netanyahu ainda não perdeu, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bloco do premiê não atinge as 61 cadeiras para manter-se no poder

Oposição só consegue maioria se tiver apoio formal ou informal dos árabes

Binyamin Netanyahu não venceu, mas também não perdeu a eleição em Israel. A coalizão de extrema direita que sustenta o governo viu sua representação reduzir-se e não terá mais os 61 assentos necessários para manter-se no poder. Encerrada a apuração, o bloco de Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento, enquanto a oposição sionista, liderada por Gadi Eisenkot, obteve 48. As 19 cadeiras restantes caberão às duas coligações de partidos árabes.

Filho 01 vira chacota e abala o bolsonarismo, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Mais do que golpista, carta do presidente Flávio é ridícula

EUA sob Trump se transformam em esconderijo de políticos corruptos

Triste destino o dos Estados Unidos sob Donald Trump. Tornar-se o valhacouto de um investigado por corrupçãqo em fuga que, ao desembarcar no aeroporto, recebe as boas-vindas da polícia e a promessa do Departamento de Estado de que em breve, desculpe a demora, o visto de permanência no país estará pronto. Por enquanto, tome aqui o visto humanitário. Sinta-se em casa.

Haja ajuste, por Luiz Gonzaga Belluzzo

 

CartaCapital

O pessimismo do mercado e a imposição de uma agenda

As regras autodestrutivas da finança são capazes de apagar o sol e as estrelas porque não pagam dividendos (John Maynard Keynes)

O tiroteio ­travado na campanha eleitoral sobre os ­rumos da economia culminou, entre trancos e barrancos, no desfecho entre a mídia e os resultados das urnas. A Bolsa de Valores para baixo e o câmbio para cima revelaram o pessimismo do mercado financeiro e o mau humor da “grande imprensa”.

As opiniões dos articulistas ­ressoam as certezas das gentes dos mercados. Nada resta ao governo Lula senão enveredar pelas alamedas do ajuste fiscal. Os sábios da Crematística abrigados nas manchetes e nas colunas de opinião celebram: “Aleluia, teremos as políticas corretas”. Sendo assim, diria Luís de Camões, às opiniões divergentes resta ensarilhar as armas e deixar que os barões assinalados toquem o barco por mares já dantes navegados, sem abandonar, é claro, as impertinências do Velho do Restelo: a nau pode afundar na Taprobana.

Rei morto, rei posto, por Cláudio Couto*

CartaCapital

A fuga de Flávio Bolsonaro acelera a disputa sucessória na ultradireita

Desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, os brasileiros se acostumaram a viver sobressaltados com a política. Quase todos os dias, principalmente durante o quadriênio bolsonarista no governo federal, algum absurdo ou bizarrice nos surpreende. Paradoxalmente, as surpresas são tantas que já nem surpreendem tanto assim. Ressalve-se que nisso o clã Bolsonaro não age sozinho, pois conta com a colaboração até mesmo de quem deveria zelar pela tranquilidade do País, o Supremo Tribunal Federal. Entretanto, também aqui não há como desvincular ações atabalhoa­das de membros da Corte do ambiente de caos que a ultradireita suscita. Reconheçamos que ainda antes de 2018 o STF era dado a extravagâncias. Porém, os inúmeros descalabros já consumados ou perto de serem praticados pelo bolsonarismo levam o tribunal a produzi-las em maior quantidade, às vezes porque a Corte, no cumprimento de suas atribuições, é de fato instada a fazê-lo, noutras ocasiões, contudo, porque os desplantes bolsonaristas lhe oferecem pretextos.

A vitória de uma ideia, por Sergio Lirio

CartaCapital

Os eleitores não escolheram o político Lula, mas o que ele representa

“Não sou um ser humano, sou uma ideia. E não adianta tentar acabar com as ideias.” Poucas horas depois de pronunciar a frase, no início da tarde de 8 de abril de 2018, Lula abriria caminho no mar de apoiadores que separava os policiais federais enviados para cumprir a ordem de prisão emitida pelo juiz Sergio Moro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São ­Bernardo do Campo. Foram 580 dias de reclusão sem crises de soluço, palpitações ou falta de ar, até o Supremo Tribunal Federal restabelecer os direitos políticos confiscados pela República de Curitiba. Lula falava àquela altura das maquinações da força-tarefa de Curitiba para encarcerá-lo sem provas, mas a afirmação sobreviveu ao tempo e nunca fez tanto sentido como agora. No domingo 25, na mais espetacular inversão de expectativas de uma disputa eleitoral, a maioria dos brasileiros aptos a votar não escolheu um ser humano, um político em carne e osso. Escolheu o que ele representa. Pela primeira vez o petista não carregou nos ombros uma porção do País, foi carregado por ela, em uma onda que se agigantou em três semanas e se tornou avassaladora nas ruas e nas redes sociais. Um tsunami, na verdade, que afogou as manipulações da Justiça Eleitoral, da Faria Lima e das big techs, boias lançadas na esperança de converter Flávio Bolsonaro, náufrago sem rumo, em comandante do transatlântico. Sensato, o eleitor salvou o Brasil do desatino e do destino do Titanic.

Sangue, suor e lágrimas, por André Barrocal

CartaCapital

A virada inédita de Lula ganha contornos épicos que lembram a Batalha de Stalingrado

A Batalha de Stalingrado mudou o curso da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha nazista estava no auge da força em 1942, ocupava boa parte da Europa, quando invadiu o sul da União Soviética. Foi uma carnificina, milhares de baixas de lado a lado. No início de 1943, seis meses depois, os russos expulsavam as tropas de Hitler. A derrota total dos nazistas na guerra era questão de tempo. Certa vez, um colaborador do presidente Lula comparou as atuais eleições brasileiras àquela batalha. Os “tarifaços” dos Estados Unidos, o apoio de Donald Trump a todos os direitistas em disputas presidenciais nas Américas, o triunfo desses candidatos e o desejo da Casa Branca de fazer da região seu “quintal” deixavam Lula sob cerco da extrema-direita. O presidente petista era o último bastião contra a dominação de Tio Sam nas Américas. A vitória contra Flávio Bolsonaro, o candidato do chefe da diplomacia imperialista ianque, foi épica como a dos soviéticos em Stalingrado.

Pedra no sapato, Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump é o maior empecilho do próximo mandato

Não foi apenas a vitória da democracia. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato foi comemorada entre diplomatas como uma vitória da política externa brasileira. Após meses de trabalho nos bastidores, o Itamaraty e o Palácio do Planalto conseguiram duas façanhas: anular Donald Trump e conseguir que quase todos os países latino-americanos governados pela extrema-direita reconhecessem e até telefonassem para Lula, parabenizando-o por sua virada.

Por um novo governo, Aldo Fornazieri

CartaCapital

Lula 4 precisa colocar-se em linha com os tempos de hoje, atualizar-se com renovação e inovação. Este foi o recado

A maioria do povo brasileiro evitou uma grande tragédia ao derrotar Flávio Bolsonaro e garantir um novo mandato para o presidente Lula. Evitou que o golpismo, o neofascismo, o crime organizado, a milícia, a corrupção, a predação ambiental, a mentira, a hipocrisia, a imoralidade, o entreguismo, o negacionismo, o preconceito, a misoginia e tantos outros males se instalassem no centro do poder nacional.

O risco de vitória do mal foi enorme e só foi evitado porque os jovens e o povo tomaram a campanha em suas próprias mãos, passando por cima do comitê de campanha, dos partidos, dos dirigentes políticos e dos marqueteiros, numa luta desesperada e entusiástica para impedir que a opção pela tragédia triunfasse.

A voz das urnas e um olhar para o futuro, por Marcus Pestana

Fechadas as urnas, proclamado o resultado, é hora de encarar a agenda brasileira para os próximos quatro anos. O importante é a democracia brasileira ter se mostrado revigorada ao realizar a 10ª eleição livre e democrática da Nova República. Os desafios não são poucos.

Quais são os recados deixados pelas urnas? Qual são os impactos e os cenários futuros?

Poesia | A Guerra que aflige com os seus esquadrões, de Fernando Pessoa

 

Música | Zeca Pagodinho - Camarão que dorme a onda leva

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Fuga de Flávio caiu no ridículo

Por O Globo

Carta golpista é rechaçada pelos próprios aliados, e episódio revela oposição mais madura e democrática

Ao fugir do país de forma vergonhosa e sorrateira depois de perder a eleição no último domingo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) desrespeitou não apenas a ordem judicial para entregar seus passaportes, mas o voto dos mais de 59 milhões que o escolheram na urna. Ao publicar, na chegada ao autoproclamado “exílio” nos Estados Unidos, uma carta contestando o resultado da eleição e se proclamando “presidente eleito” do Brasil (ou “líder”, numa versão corrigida), deu prova não apenas de desconexão absoluta da realidade, mas do mesmo DNA golpista que levou à cadeia seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tramar uma insurreição depois de perder a eleição de 2022.

Desafios à renovação do lulismo, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

Ampliação da base social de apoios, acréscimo de novos temas prioritários, conjugação do ajuste fiscal com a agenda social e reformulação da forma de relacionamento com o sistema político estão entre as necessidades

Renovação se tornou a palavra de ordem do quarto e último mandato de Lula. As lições da eleição de 2026 apontam para esse caminho. Renovar não é abandonar tudo que o lulismo trouxe de ganhos à sociedade brasileira, fato comprovado pela sua força política de congregar, regularmente, algo próximo da metade do eleitorado. O desafio é combinar o aperfeiçoamento de políticas sociais com uma nova estratégia, marcada por um contexto diferente, por novas questões e alianças, além de necessitar de um processo deliberado de sucessão no quadro dirigente do governo e do petismo.

A reeleição de Lula o consagra como o maior líder político da história brasileira. Ele começou sua carreira como oposicionista vindo do movimento sindical e depois ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Perdeu três eleições presidenciais, mas posteriormente ganhou quatro disputas, tornando-se o maior vencedor em períodos democráticos. A virada do segundo turno, algo inédito em toda a redemocratização, deveu-se muito a suas qualidades como liderança, com seu carisma, compromisso popular, a herança de suas políticas sociais e a capacidade de falar para diferentes grupos de brasileiros.

O quarto mandato de Lula, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

As pesquisas de opinião eleitoral lidam insuficientemente com a complexidade sociológica da realidade política e suas determinações antropológicas e, em grau menor, econômicas e mesmo políticas

A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de 25 de outubro, às 9 horas da noite, para um quarto mandato presidencial, envolveu um conjunto de fato extenso de surpresas e revelações de natureza histórica. Pendências, irracionalidades e injustiças acumuladas desde o golpe militar de abril de 1964 agravaram-se durante a ditadura e emergiram aos poucos durante o cansativo regime de Jair Messias Bolsonaro, foram se depositando na consciência social e explodiram em atitudes do seu governo durante a pandemia.

As pesquisas eleitorais não levaram em conta o que é próprio da realidade política que não aparece nelas, mas aparecem no resultado das eleições. Mesmo com o recurso preventivo do chamado cálculo do erro amostral.

Reforma do Judiciário pode blindar ministros do STF, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Esforços agora se voltam para o arrefecimento da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo

Enquanto as principais forças políticas da direita, do centro e da esquerda se alinharam para reconhecer o resultado da eleição presidencial, isolando o candidato derrotado à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os esforços agora se voltam para o arrefecimento da crise institucional e a tentativa de reconstrução da imagem do Supremo Tribunal Federal (STF).

O que esperar de novo para Lula 4, por Vera Magalhães

O Globo

Em discurso da vitória, presidente disse ter entendido necessidade de fazer governo diferente, mas velhas premissas aparecem nas primeiras conversas

Lula deu poucos sinais sobre como pretende implementar a promessa que fez de improviso, no discurso da vitória, de que o novo governo será diferente do atual. Mas uma coisa a virada épica e os recados das urnas e das ruas no segundo turno deixam clara: não é possível agir com as premissas de sempre para chegar a um resultado novo.

São muitas essas premissas, a começar por uma clássica do modo lulista de compor equipes: premiar companheiros leais, tenham sido eles vitoriosos ou derrotados nas próprias disputas. Não há ministérios suficientes para recompensar a todos os que não se elegeram num primeiro turno que foi uma carnificina para a esquerda. Além disso, recorrer a esse expediente comum aos mandatos de Lula seria dar a seu derradeiro quadriênio uma cara de mais do mesmo que não condiz com o reconhecimento de que ele foi eleito não pelas qualidades do governo, mas pelo somatório de muitos e complexos fatores.

Flávio Bolsonaro encarnou o Brazil que não conhece o Brasil, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao errar nome do próprio país, ex-presidenciável mostrou que letra de Aldir Blanc continua atual

O Brazil não conhece o Brasil. No último debate presidencial, Flávio Bolsonaro ofendeu moradores de Belém ao descrever a cidade como um “esgoto a céu aberto”. “É urubu revirando comida na porta de casa, e as pessoas se acostumando a morar, a viver num lugar que tem cheiro ruim”, disse.

O Brasil nunca foi ao Brazil. Instado a apresentar ideias para o Nordeste, o senador afirmou: “Vou ser o carioca mais nordestino que vocês já viram na face da Terra”. Na Presidência, seu pai costumava se referir aos habitantes da região como “paus de arara”. “Se chamar cearense de cabeçudo, você não consegue identificar ninguém, lá todo mundo é cabeçudo”, gracejou, certa vez.

O perigoso legado de Janones, por Pablo Ortellado

O Globo

Deputado dá ideia de que só é possível vencer eleições com centralização, obediência e uma moral flexível

A surpreendente vitória de Lula, revertendo a derrota no primeiro turno, tem sido atribuída à estratégia digital de André Janones. Mas uma análise do canal de WhatsApp “Exército do Lula” sugere que a centralização da campanha pode ter limitado sua eficácia e, sobretudo, deixado um legado preocupante para a política brasileira.

Trump mantém críticas às eleições, porém anuncia que conversará com Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A disposição para o contato abre uma possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que alimentam a narrativa do candidato derrotado

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos foi politicamente desastrosa aqui no Brasil. Derrotado nas urnas, o senador tinha condições de disputar o comando de uma oposição numerosa, com força no Congresso e nos estados. Ao deixar o país e divulgar uma carta na qual se proclamava "verdadeiro presidente eleito do Brasil", transformou esse patrimônio numa crise de credibilidade. O recuo, substituindo a expressão por "líder do Brasil", agravou o constrangimento. Sua iniciativa não encontrou sustentação entre seus próprios aliados nem teve respaldo da Casa Branca.

O fim de duas eras se aproxima na política brasileira: o bolsonarismo e o lulismo, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

A disputa presidencial de 2026 sela o esgotamento do bolsonarismo e abre a contagem regressiva para a sucessão de Lula, exigindo renovação total nas urnas

A eleição presidencial, finalmente, chegou ao fim. Com uma virada inédita na disputa pelo Palácio do Planalto, temos hoje um cenário impensável uma semana atrás. Não pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afinal, as pesquisas mostravam um empate técnico, com uma grande mobilização petista nas ruas e nas redes sociais na reta final. Mas por termos o candidato derrotado optado por deixar o país para trás, com seus quase 60 milhões de votos, e adotar um tom golpista menos de 72 horas após a apuração das urnas.

O voto não pode custar o emprego, por Valdir Florindo e Thomaz Werneck*

Correio Braziliense

As orientações presentes nas redes sociais para que empregadores examinassem os perfis dos empregados sinalizam que o próprio sustento do empregado pode estar em risco, mesmo com o voto protegido pelo sigilo

Entre 26 e 28 de outubro, após o segundo turno, o Ministério Público do Trabalho recebeu mais de 1.100 denúncias de assédio eleitoral. Circularam nas redes sociais orientações para que empregadores examinassem os perfis dos empregados e escolhessem quem deveria ser demitido. Até uma curtida pode virar indício de deslealdade profissional.

A disseminação dessas mensagens motivou o MPT a ajuizar, em 29 de outubro, ação civil pública contra a Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e Threads. O órgão pede que a empresa retire publicações apontadas como incentivo à discriminação política e pague indenização de R$ 50 milhões por danos morais coletivos.

Um dia não é uma tese, por Giovanni Beviláqua*

Correio Braziliense

Um dia de queda de 13,88% não diz que a economia brasileira piorou na madrugada de domingo para segunda. Diz que muita gente estava do mesmo lado e que o lado perdeu

Toda segunda-feira depois de eleição produz o mesmo espetáculo retórico. De um lado, manchetes que tratam uma queda de bolsa como sentença sobre o futuro do país. De outro, uma tentativa igualmente apressada de negar que algo relevante tenha acontecido. Os dois erros têm a mesma raiz: confundir o preço de um dia com uma tese sobre a economia.

Vale começar pelo que efetivamente ocorreu. Na segunda-feira, o Ibovespa caiu 13,88%, e o dólar subiu 8,21%. São números enormes, os maiores em décadas, e não há nenhum interesse em minimizá-los. Mas número grande não é sinônimo de diagnóstico grave. É preciso perguntar o que aquele preço estava medindo.

A resposta é direta para quem conhece a mecânica: media a posição dos investidores, não a saúde da economia. O primeiro turno havia produzido um rali ancorado na expectativa de vitória da oposição e de ajuste fiscal mais duro. O capital estrangeiro entrou pesado nessa tese, com R$ 19,13 bilhões líquidos em outubro até o dia 22. Quando o resultado contrariou a aposta, todo mundo precisou sair pela mesma porta ao mesmo tempo. E quando todo mundo vende junto, o preço que se forma na abertura não é a média das avaliações sobre o Brasil, é o preço de uma fila.

Flávio, amigão de Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Flávio isolou o bolsonarismo, lançou Tarcísio e deixou a direita livre para negociar com Lula

Com a sua fuga patética para os braços de Donald Trump e para o antro do sempre equivocado irmão Eduardo, Flávio Bolsonaro uniu o mundo político num rechaço uníssono, deu o pretexto que a direita precisava para negociar com Lula e isolou o bolsonarismo mais danoso no Congresso. É a volta da normalidade, com suas qualidades e defeitos, mas democrática.

Presentão de aniversário de 81 anos de Lula, que entra no quarto mandato mais aliviado e diante de mais equilíbrio e sensatez na Câmara e no Senado. Um presentão, também, para Tarcísio de Freitas, que, com uma ressalva conveniente daqui, outra dali, para não magoar Jair Bolsonaro, já está em plena campanha.

Entre Moraes, Alcolumbre e o PL, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva mudou significativamente a disputa pelo controle do Senado e, consequentemente, ajudou a dar fôlego ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que vinha acuado pelo caso Vorcaro.

Enquanto o senador Rogério Marinho (PL-RN), candidato do PL que tenta ocupar a Presidência da Casa, quer pautar o impeachment do ministro, o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil – AP), candidato à reeleição, já disse ser contra. Quando Flávio era o favorito, era jogo jogado. O PL somou impressionantes 29 cadeiras para a próxima legislatura e com os partidos do centrão apoiando-o, parecia simples fazer a presidência do Senado. Mais complicado seria chegar aos 54 votos necessários para impichar um ministro do Supremo, mas o ambiente político poderia criar uma espécie de “onda”. Ao frustrar os planos dos Bolsonaros de voltar ao Planalto, Lula virou a partida favorecendo Alcolumbre e Moraes. Com Lula na presidência e o PL com a maior bancada, os dois lados agora vão precisar conquistar o centrão para atingir seus objetivos.

Dizer que Lula 4 será Dilma 2 é exagero, assim como achar que não há risco de colapso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Aperto das condições financeiras que houve depois da eleição logo chega à economia real

Cumprir à risca o arcabouço fiscal evita explosão certa, mas crescimento será bem baixo

Produção, vendas e emprego caíam no trimestre final de 2014. Despencavam quando Dilma Rousseff estava para voltar ao governo em 2015. Não há números indiretos e muito menos indicadores (que saem com atraso de uns dois meses) de que tal derrocada esteja acontecendo agora. Também não se está dizendo que Lula 4 seria reprise de Dilma 2. Primeiro, porque há providências a tomar a fim de impedir tal desastre. Segundo, porque o colapso que se viu a partir de 2015 não se deveu apenas à pavorosa política econômica.

Mas a dívida do governo e a dívida das pessoas são maiores do que no final de Dilma 1. Diminuir endividamento quando receita e salário crescem menos, se crescem, é mais difícil. Para piorar, problemas como gasto, dívida e eficiência da despesa do governo estão amarrados por uma camisa de força.

Janones e militância deram impulso decisivo à campanha de Lula, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Canal de WhatsApp encabeçado pelo deputado centraliza tarefas e acelera a ação nas plataformas

Estratégia converte apoiadores comuns em ativistas disciplinados

"Espontâneo" é juízo corriqueiro para megamobilizações, como a pró-Lula no segundo turno. O adjetivo oculta o trabalho organizacional que o enunciador desconhece.

A campanha foi tessitura de vários tecelões. Constituiu-se como rede nacional (com pernas globais), amarrio de iniciativas autônomas: militância partidária da base governista, lobby junto a elites sociais, ativismo presencial e digital.

Parte foi de carne e osso. Três exércitos de profissionais treinados no ativismo foram para a batalha. Um foi o petista raiz, socializado na redemocratização, que fez corpo a corpo e encheu os eventos de movimentos e sindicatos próximos ao PT.

As peripécias de um Bolsonarinho derrotado, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Flávio se evade para a Flórida e publica carta delirante com efeito cômico involuntário

Família fica isolada politicamente, mas resiliência do clã não deve ser subestimada

Marx errou. Ao menos no Brasil, a história não se repete como farsa, mas como sátira. O pós-derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro superou o de Jair no quesito delírio com efeitos humorísticos involuntários.

Ambos optaram por curar a ressaca nos EUA, mas Flávio, em tese o moderado da família, recorreu a uma evasão rocambolesca e publicou uma carta que entrará para os anais da psiquiatria política na qual se declarou "verdadeiro presidente eleito" e que ilustrou com um brasão de armas da República com a inscrição "Estados Unidos do Brazil", que deixou de ser o oficial em 1968. Pensar que a população quase entregou as chaves do Planalto a este homem escancara as vulnerabilidades irredutíveis da democracia.

Aos trancos, os Bolsonaros dissolvem o capital político da família, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Flávio é o terceiro do clã a ficar de fora da cena nacional por erro de cálculo sobre os efeitos dos próprios atos

Considerando que na política não há vácuo, cedo ou tarde o lugar será ocupado por alguém na fila da direita

Os quase 60 milhões de brasileiros que optaram pelo candidato derrotado na eleição à Presidência tiveram seus votos inutilizados por ele. Em suma, foram feitos de palhaços.

No lance da fuga, de uma tacada Flávio Bolsonaro (PL) revelou sua face golpista e mostrou-se um colosso em matéria de autodestruição. Virou as costas para o eleitorado, deixou no "ora, veja" os políticos aliados, provou-se inabilitado para liderar a oposição e lustrou de razão o equívoco tático de Alexandre de Moraes de retomar a ofensiva judicial na base da afobação.

Advogado de araque, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Dos 38 presidentes da República, 23 eram advogados; isso não impediu os golpes

Flávio Bolsonaro, especialista em advogar em causa própria, quase foi mais um

No domingo (25) da eleição, os jornais abriram páginas com a galeria dos presidentes da República. Sob as fotos, a profissão e o mandato de cada um. Três foram eleitos, mas, por impedimento (Júlio Prestes) ou morte (Rodrigues Alves e Tancredo Neves), não tomaram posse.

Oito (Deodoro, Floriano, Getúlio e os cinco milicos de 1964) não foram eleitos —nem precisavam, porque tinham cavalos e tanques. E quatro exerceram mandatos-tampão constitucionais. Excluindo as reeleições (donde Lula só contou uma vez), foram 38 presidentes.

Direita entra em parafuso com fuga de Flávio, e Tarcísio desponta como novo líder, por Fábio Zanini

Folha de S. Paulo

Clã poderá ter de abrir espaço para nome mais ao centro em 2030

Senador havia saído fortalecido de eleição, mas pôs tudo a perder com ida aos EUA e carta golpista

O que acontecerá com a direita brasileira após a fuga espetacular de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos?

Seria o fim do domínio dessa família sobre a parte mais conservadora do eleitorado?

Passado o choque inicial da escapada do senador na calada da noite, essas são as perguntas que vêm sendo feitas por bolsonaristas que agora se sentem meio órfãos.

Afinal, Jair está preso, enquanto Eduardo e Flávio estão fora do país. Carlos e Michelle Bolsonaro, os novos senadores da família, são meio inexperientes e ainda uma incógnita. Tem também o Jair Renan, eleito deputado federal, mas esse deixa para lá.