domingo, 20 de setembro de 2026

Falta foco à diplomacia americana, por Elio Gaspari

O Globo

A divulgação dos documentos de outubro do ano passado e de janeiro passado que continham o que seriam as condições para a abertura de negociações comerciais com o Brasil mostra algo inquietante: a diplomacia americana perdeu o foco, virou assembleia estudantil.

O conjunto de condicionantes virou um terreno baldio, fica a impressão de que os diversos lobbies de Washington passavam pelo rascunho e jogavam seus pleitos. A Boeing quer que as empresas aéreas brasileiras só comprem seus produtos. As big techs querem continuar fazendo o que bem entendem e os plantadores de soja querem que o Brasil ajude a “estabilizar o comércio mundial de soja”. Traduzindo: querem que o agro brasileiro ajude a turma da soja americana.

As propostas americanas foram rechaçadas, até porque essas negociações não podem ser conduzidas como pacotes. Cada item é um item e conversa-se devagar. Lidos de uma vez, parecem um instrumento de capitulação.

Os itens que tratam da próxima eleição brasileira são de uma ignorância abissal, como se em Pindorama houvesse um candidato prometendo melar o pleito.

A diplomacia americana já foi outra, ela dava pouco espaço ao improviso, ajudava os lobbies, porém mantinha a elegância.

A diplomacia trumpista é arrogante e vazia. O melhor que se pode fazer nesses casos é ficar longe. Bater boca não adianta nada e tentar negociar a sério poderá ser possível, mas dará muito mais trabalho, pois não havendo foco, não haverá prioridades.

Duas palavras, por Dorrit Harazim

O Globo

É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

A consideração tem pedigree nobilíssimo (Nietzsche) e volta e meia surge na tela de quem navega na web entre citações de autoajuda. Ainda bem, senão seria preciso enfronhar-se na obra possivelmente impenetrável de que foi pinçada (“Schopenhauer como educador”, de 1874). A consideração nietzschiana tem mil e uma utilidades — serve tanto para desancar os juízes do nosso Supremo Tribunal Federal como para, aqui, explicar o dilema que na semana passada incendiou a cena musical planetária.

Lula x Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na reta final das eleições, a polarização Lula versus Bolsonaro virou Lula versus Lula, com Flávio Bolsonaro jogando parado e o candidato a um quarto mandato concentrando todas as atenções e toda a indignação nacional com qualquer coisa que aconteça, inclusive, ou principalmente, os escândalos do Supremo Tribunal Federal (STF).

É surpreendente que os R$ 134 milhões do contrato de Alexandre de Moraes façam mais estrago na campanha de Lula do que os R$ 131 milhões do filme Dark Horse na de Flávio. Um suspeito é ministro do STF que nem sequer foi nomeado por Lula. O outro é, ele próprio, candidato à Presidência.

O Brasil e o mundo, por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países. Na interligação do nacional e do global se situa o juízo diplomático que está voltado para avaliar perspectivas, possibilidades, dificuldades e resistências.

No entendimento da nossa circunstância diplomática, Helio Jaguaribe aponta que é preciso tanto perceber e analisar o Brasil na perspectiva do mundo, quanto pensar e avaliar o mundo na perspectiva do Brasil. Ambas obedecem a uma dialética de mútua complementariedade que, na sua dinâmica, oferece as indicações de como concretizar necessidades internas em possibilidades externas, em distintas conjunturas históricas.

Sem avanços à vista, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A perda de credibilidade do sistema de Justiça brasileiro e os riscos geopolíticos acarretados pela eleição, seja de Lula ou de Flávio Bolsonaro, inibem investimentos em áreas estratégicas, no momento em que o mundo vive uma revolução tecnológica que aumentará o abismo entre países avançados e os que seguem a reboque, como o Brasil.

Com US$ 77 bilhões, o Brasil é o quinto maior destino de investimento estrangeiro direto (IED), depois de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China. Concorrentes diretos, México e Índia receberam em torno de metade desses valores em 2025.

Esses investimentos são atraídos pelo tamanho do mercado, recursos naturais, matriz energética limpa, agronegócio, infraestrutura e oportunidades na transição energética. Tudo isso é bom.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Todos no STF precisam seguir a Constituição

Por O Globo

Alexandre de Moraes tem de ser investigado — todos são iguais perante a lei

Numa de suas falas procrastinatórias na sessão vergonhosa do dia 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino disse que não leva em conta em seus julgamentos o clamor popular. “Não me importa se haverá no meu Instagram ou no meu Facebook milhares de mensagens dizendo da impunidade da corrupção”, afirmou. Não está errado, nenhum juiz deve agir de modo diferente. Dino também assegurou que todos os magistrados têm de seguir apenas a lei. E, de novo, acertou.

Ocorre, porém, que esses argumentos são todos falaciosos. Ninguém pede que a Corte julgue de acordo com a opinião pública. O que se exige é exatamente aquilo que Dino se recusou a fazer: seguir a literalidade de nosso ordenamento jurídico. A Constituição afirma expressamente: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

'Dark Horse' foi o caixa 2 do tarifaço, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

É preciso parar de tratar o assunto como a história de um filme ou a discussão sobre as inconsistências no seu financiamento

Coisas parecem claras ao pensar em caso como caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados para financiar uma tentativa de golpe

Novas evidências sugerem que "Dark Horse" foi o caixa 2 do tarifaço.

Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.

Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".

Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desgosto antissistêmico, que vem desde 2013, piora com notícias de crime no poder

Mais dificuldades na economia, corrupção e tolerância com autocratas são alerta

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?

Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.

Apertemos os cintos; as lideranças sumiram, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não se vê um gesto nem se ouve uma voz capaz de inspirar e dar segurança ao país sobre o rumo a seguir

Enquanto uns se omitem e outros atuam em causa própria, locupletam-se todos e o Brasil que se vire

O cenário de total desacerto que assola a República encontrou o Brasil na orfandade em matéria de lideranças capazes de iluminar um caminho para a saída da crise.

O chefe do Executivo só tem olhos para o umbigo da reeleição; tira o corpo fora e transfere responsabilidade ao presidente do Supremo Tribunal Federal, que é desacatado por seus pares, enquanto o comando do Congresso entrega-se ao exercício da omissão e os governadores se calam. Não é com eles.

Educação tem nome próprio, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Paulo Freire propõe um método de conscientização como centro de sua teoria pedagígica

Foi autor de um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

Não fale sobre política, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra equívocos de idealizações de inspiração liberal

Autora defende intervenções ambientais para mudar mentalidades

Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.

Tortas na cara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A forma ideal de protestar contra alguém sem precisar alvejá-lo com balas de verdade

Noel Godin empastelou Bill Gates, Nicolas Zarkozy, Jean-Luc Godard e Marguerite Duras

Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro, em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 –mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube.

Poesia | Menina e Moça, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc)

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Opinião do dia – Montesquieu*

“Procurando instruir os homens é que poderemos praticar esta virtude geral que compreende amor de todos. O homem, este ser flexível, dobrando-se na sociedade aos pensamentos e impressões de outrem, é igualmente capaz de conhecer sua natureza própria, quando lha mostram, e de perder até o sentimento, quando lho roubam.”

*Montesquieu (1689-1755). ‘O Espírito das leis’ (1748), Prefácio, p. 28. Editora Nova Cultura, 2005 (Tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues)

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tempos sombrios

Por CartaCapital

O STF curva-se novamente ao golpismo

Foi um dia constrangedor, e não estamos aqui a ratificar a penitência calculada de Cármen Lúcia. Desde a nomeação a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, lá se vão 20 anos, a magistrada não decepciona, sempre enverga o mesmo figurino. Entre o aplauso e o cumprimento do dever, a opção pelo reconhecimento popular é impulso incontrolável. Após o pedido de desculpas “ao povo brasileiro” na terça-feira 15, desfecho de uma jornada deprimente, a ministra está liberada para frequentar, sem temor, a farmácia que tanto gosta de citar nas sessões plenárias. Talvez até ganhe um desconto extra. Sob o restante do País paira, no entanto, o cúmulo-nimbo. “Pior momento de erosão da imagem” do STF, afirma Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e colunista desta revista, na reportagem “O caldo entorna”, à página 20. “Ratificar um relatório de origem duvidosa e um ministro que julga com suas próprias regras é abrir a porta do tribunal para uma nova aventura autoritária”, alerta Maria Inês Nassif à página 17.

E agora, para onde iremos? Por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

A boa análise política e sociológica se sustenta em alguns pressupostos “clássicos”: reconhecer e valorizar a relevância das instituições mediadoras e compreender a organização das ideias e dos interesses como fator essencial em sistemas democráticos representativos. A democracia não funciona bem sem que o protagonismo individual – a liderança personalizada – seja mediada por organizações (partidos) e instituições. Também não pode se sustentar se as instituições que devem protegê-la se inviabilizarem. A democracia não pode operar no vácuo, nem se submeter ao capricho das partes, de seus agentes coletivos ou individuais.

Fora daí, estamos num terreno franqueado a aventureiros e livres-atiradores, cada qual com sua dose de egocentrismo, ferocidade e desinteresse público.

Soberania e cidadania em risco, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Não podemos pôr em risco o direito fundamental de determinarmos nosso destino

Na crescente desordem mundial, o poder bruto tem se imposto às regras internacionais

O Brasil se aproxima da mais dramática eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.

O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.

Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.

A estrutura não vota, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

São múltiplas as forças que influenciam o comportamento do eleitor

Não há, porém, como isentá-lo de responsabilidade pelos políticos escolhidos

Um dos problemas de nossa época é que nos enamoramos tanto de explicações estruturalistas que já quase não olhamos para ações individuais. O racismo e o machismo tornaram-se estruturais; a heteronormatividade e o capacitismo, institucionais; a pobreza é sistêmica. Não nego a importância de estruturas sociais, desenhos institucionais ou mesmo incentivos econômicos. Estudos científicos demonstram as consequências reais dessas forças.

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Há pelo menos cinco ministros que escondiam suas relações com Daniel Vorcaro

No pacote Master entram conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção

Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.

A erosão da autoridade do STF, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

O que nos restou foi o testemunho de um debate que teve pouco de valor jurídico e que mostrou o quão grave é a crise ética que se abate sobre o STF como um todo. Levará muito tempo e um grande esforço para reconstruir o plenário

A sessão do Supremo Tribunal Federal da última terça-feira foi um melancólico momento histórico. Observamos, num intervalo de horas, o ápice de um ciclo de decadência da corte suprema do país. Trata-se de uma afirmação arriscada tanto política como eleitoralmente, mas é preciso admitir a crise ética diante de nós.

Como tribunal composto por pares sem hierarquia entre si, o STF depende, para funcionar bem, mais do respeito tácito entre seus juízes do que do exercício da coerção por um presidente. Por isso, diante de uma disputa fratricida entre seus ministros, em que duas alas se mostram tão inflamadas, um presidente pode pouco, especialmente se se tratar de uma pessoa conhecida pela serenidade e fleuma, como o ministro Edson Fachin.

A multiplicação dos Dinos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O jurista Gilberto Morbach escreveu que, eleito Lula ou Flávio Bolsonaro, “cada um a seu modo” terminará “de destruir o tribunal e qualquer resquício de integridade e impessoalidade no sistema de Justiça”. Referia-se ao Supremo e à projeção de o próximo presidente lhe indicar quatro ministros.

A provocação, realista, implica avaliar quais serão hoje os valores que compõem o critério para a escolha. Há uma premissa: o STF como Congresso paralelo, em que o governo forma bancada para ter resolvidos os seus reveses no Parlamento do orçamento secreto. (O Parlamento

do orçamento secreto que tem em Flávio Dino, líder do governo no Supremo, o tesoureiro – aquele que abre e fecha a torneira das emendas – e o carrasco, gestor xandônico de inquéritos mantidos como espada sobre a cabeça dos políticos.)

É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso, por Flávia Oliveira

O Globo

São crescentes a intolerância e o ativismo político em nome de Deus

A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.

Lula vai para o tudo ou nada, por Thaís Oyama

O Globo

Presidente pode — e vai — apertar todos os botões a seu alcance, numa eleição em que um fio de cabelo pode separar o vencedor do derrotado

Nesta eleição em que — entra pesquisa, sai pesquisa — os favoritos na corrida presidencial continuam cabeça a cabeça, dois movimentos podem romper esse equilíbrio: um tombo do desafiante Flávio Bolsonaro ou uma recuperação do incumbente Lula. O presidente apostou no segundo ao apertar o botão que Jair Bolsonaro já havia usado em 2022 — o reajuste do principal benefício social do governo, desta vez anunciado a 17 dias da eleição.

Lula, como sabem seus marqueteiros, arrisca-se a ter ganho apenas marginal com a medida, que acrescentará R$ 22,7 bilhões às despesas em 2027, a ser acomodados na marra no Orçamento, quem quer que vença. A maior parte dos beneficiários do Bolsa Família (53%) já vota no presidente. São os independentes que podem desequilibrar a balança. Mas esse segmento está concentrado na faixa que ganha entre 2 e 5 salários mínimos — fora, portanto, do alcance do benefício.

Não é pelos 20 centavos, por Eduardo Affonso

O Globo

Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.

Previdência: eis a questão! (II), por Marcus Pestana

Já vimos aqui que o sistema previdenciário foi criado para proteger os trabalhadores que, na velhice, não pudessem mais assegurar a sua subsistência e de sua família através da renda aferida como o seu trabalho. Para suprir as despesas com benefícios previdenciários há dois caminhos: os trabalhadores ativos e as empresas pagam a conta relativa aos direitos dos aposentados e pensionistas ou se faz uma poupança individual ou coletiva, que é capitalizada ao longo do tempo para, no futuro, fazer frente aos gastos do sistema.

Brasília: nada de novo no front, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia

O que há em comum entre as guerras na Ucrânia e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.

Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.

Fim de ciclo, por José Casado

Revista Veja

O Supremo perdeu o controle da crise na República rachada por dinheiro e sexo

Fim de ciclo é o que sugerem as cenas explícitas no plenário do Supremo Tribunal Federal, na última terça, 15. Foram quase cinco horas de orgia de insultos ao vivo, na televisão, em tumulto premeditado para impedir a abertura de investigação sobre o juiz Alexandre de Moraes, suspeito de relações impróprias com o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que está preso por trapaças em série no mercado financeiro.

Foi, enfim, uma sessão “histórica” sobre o buraco “histórico” em que o Supremo se meteu — e que continua cavando. A manobra resultou num impasse favorável aos interesses imediatos de Moraes e aliados, os juízes Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. O custo do “triunfo”, porém, ultrapassou expectativas. Não resolveu, só adiou o problema da investigação. E reduziu muito as chances de uma ofensiva por nulidades processuais, do tipo que fez a felicidade, principalmente monetária, de protagonistas de histórias de corrupção como as desveladas na Operação Lava-Jato.

A lei e os sentimentos, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Na crise do Judiciário, as redes sociais escorregam nas veredas do pequeno fascismo da vida cotidiana

Na ressaca de uma derrota escabrosa do meu Palmeiras, vitimado por um juiz de futebol, entendi que deveria alargar meus horizontes e assumir o risco de falar dos tormentos que afligem os magistrados incumbidos de aplicar a lei, sob os rigores da impessoalidade e independência, não obstante as pressões da mídia e dos desvariados de todos os gêneros.

Começo com Montesquieu no Espírito das Leis: “O amor da igualdade e da frugalidade é extremamente estimulado pelas próprias igualdade e frugalidade, quando se vive numa sociedade em que as leis estabeleceram uma e outra. Nas monarquias e nos Estados despóticos, ninguém aspira à igualdade; isso nem sequer passa pela cabeça de ninguém: cada qual busca a superioridade. As pessoas de condição mais baixa não desejam dela sair senão para serem senhoras das outras. O mesmo ocorre com a frugalidade: para amá-la, cumpre fruí-la. Não são os que estão corrompidos pelas delícias que amarão a vida frugal; e se isso fora natural e comum, Alcibíades não teria conquistado a admiração do universo. Tampouco amarão a frugalidade os que invejam ou admiram o luxo dos outros: pessoas que só têm diante dos olhos homens ricos ou homens miseráveis”.

Dino salva o STF, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

O pedido de vista dá uma chance ao tribunal. Adiamento não é inação, mas construção de uma solução para a corte

A sessão do Supremo Tribunal Federal da terça-feira 15 para examinar a pertinência da abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes foi uma batalha campal entre dois grupos em guerra, da qual o principal resultado foi a depredação do STF e sua ruína. No meio dessa guerra entre dois grupos está a instituição, o poder da República que deveria ser incólume a crises, impoluto, inatacável, pois ele tem o dever de ser o guardião das leis e da Constituição e o administrador da Justiça superior e última do País.

Nas guerras políticas e militares vale quase tudo. Nelas há uma degradação da dignidade humana, há uma redução da ação à instintividade violenta, há o uso instrumental da razão e a falência da moralidade. Na guerra do STF, só a ministra Cármen Lúcia se salvou, consignando a sua tristeza, o seu desalento e o seu pedido de perdão ao povo brasileiro.

Lavajatismo no Supremo, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

O método entra pela porta da frente, pelas mãos do ministro Edson Fachin 

O udenismo não veste bem a toga dos magistrados. O clamor popular (e o insuflado artificialmente, como na Lava Jato e, recentemente, pela Operação Compliance) não deve virar jurisprudência. A Justiça não precisa de aprovação popular, precisa ser justa. Não pode produzir atos que confrontem e colidam com o devido processo legal. É isso que um aflito ministro Flávio ­Dino tentou dizer ao plenário do Supremo Tribunal Federal, no momento em que o presidente da Corte, Edson Fachin, colocava em votação um relatório da PF, não se sabe de qual PF, trazido pelo terrivelmente bolsonarista André Mendonça, base para a abertura de um processo contra Alexandre de Moraes por improbidade administrativa.

Poesia | Lição de um gato siamês, de Ferreira Gullar

 

Música | Zeca Pagodinho - Toda a hora

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reajustar Bolsa Família não passa de ardil eleitoreiro

Por O Globo

Em 2024, STF decidiu que o aumento do Auxílio Brasil durante a campanha à reeleição de Jair Bolsonaro foi ilegal

Há um paradoxo incontornável na última “bondade” eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reajuste no valor do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, para pagamento já entre o primeiro e o segundo turno. O próprio Lula, quando candidato à Presidência, criticou o uso da máquina pública na campanha à reeleição de Jair Bolsonaro, destacando a faceta eleitoreira do aumento de R$ 200 no então Auxílio Brasil. Quatro anos depois, preocupado com as pesquisas eleitorais, adota a mesma estratégia para tentar a vitória nas urnas.

Medo move o centro político diante da radicalização e da crise do STF, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A 15 dias das eleições, o centro se move, porém não caminha unido. Divide-se entre o medo da continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder

A proximidade das eleições começa a provocar um movimento de placas tectônicas no centro político. Liberais que rejeitam o governo Lula se aproximam do presidente por medo de uma vitória da extrema-direita. Conservadores que mantinham alguma distância do bolsonarismo ensaiam o voto útil em Flávio Bolsonaro para impedir a reeleição do petista. Em ambos os casos, a decisão não nasce da esperança, mas do medo.

Lula aposta todas as suas fichas na chamada “economia do afeto”, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio: programas sociais, aumento da renda, proteção aos mais pobres e recuperação do poder de compra. O reajuste do Bolsa Família, anunciado a poucos dias do primeiro turno, tornou-se a expressão mais evidente dessa estratégia. O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões neste ano.

Assombrações eleitorais, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Estamos em face do imenso risco de que o eleitorado compareça à mesa eleitoral como rebanho, e não como assembleia de cidadãos

De certo modo, os vitoriosos das eleições de 2026 já estão escolhidos faz tempo. Resta saber se serão confirmados no voto popular.

O que assombra é o caráter completamente anômalo do processo eleitoral. É a pouca ou quase nenhuma mudança na posição dos dois primeiros colocados na disputa pela Presidência da República por causas opostas. Ambos com alto índice de recusa e com não tão alto índice de opção eleitoral. O país à beira do abismo.

Isso não é normal. É normal investigar o ilícito na política, mas não é normal seguir o caminho do dinheiro suspeito e encontrar a religião, igrejas que aprisionaram Cristo no gazofilácio da coleta e da esmola. Até mesmo reduzido a diretor de agência bancária dentro do templo.

Quaquará quaquá: quem vai rir por último na eleição, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Vice-presidente do PT, Washington Quaquá, levou às redes sociais suas críticas à estratégia eleitoral e à postura da coordenação lulista

Vice-presidente do PT e principal liderança no Rio de Janeiro, mas alijado do restrito núcleo que toma decisões no partido e na campanha, Washington Quaquá cansou de ser ignorado, e ao contrário de outros petistas que se queixam em privado, levou às redes sociais suas críticas à estratégia eleitoral e à postura da coordenação lulista, que se fechou ao diálogo, e na sua visão, pode conduzir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao abismo.

“O Flávio [Bolsonaro] vai para a televisão de dentro de um supermercado e fala da vida real, e nós, falando de terras raras”, criticou Quaquá em vídeo, citando o projeto que regulamentou a exploração dos minerais críticos, cobiçados por Estados Unidos e China. Lula quer falar de soberania, pauta que não seduziu o eleitor.

Eficácia eleitoral do reajuste do Bolsa Família é duvidosa, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se o monstro previsto por Mano Brown sair à rua antes da eleição não é o reajuste do Bolsa Família que vai resolver

O precedente que preocupa o PT nunca foi o de uma ação da oposição no TSE por uso eleitoral do reajuste do Bolsa Família a 17 dias da eleição. E não apenas por conta da impopularidade de um questionamento do gênero. Ainda que o Tribunal Superior Eleitoral seja presidido por um ministro indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, que está no meio do fogo cruzado no Supremo Tribunal Federal, a eleição de 2022 ofereceu um precedente tranquilizador.

A contestação ao pacote de bondades eleitorais de Bolsonaro naquele ano não progrediu. Na mesma tarde em que o deputado Zé Trovão (PL-SC) acionou o TSE contra o reajuste, o ministro sorteado para relatar o recurso, André Mendonça, a rejeitou. Não deixou de ser uma resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, nesta quinta, o havia acusado de atuar como relator do Master no Supremo Tribunal Federal com interesse eleitoral.

Reajuste do Bolsa Família terá impacto maior no segundo turno, por César Felício

Valor Econômico

Aumento do pagamento do benefício não mira o eleitor independente, pêndulo; o alvo é o eleitor cativo

Ameaçado de perder a liderança das pesquisas nas sondagens do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se volta para suas fortalezas. O anúncio do aumento do pagamento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 não mira o eleitor independente, pêndulo, das periferias das grandes metrópoles do Sudeste, aquele que em 2018 foi de Jair Bolsonaro, em 2022 marcou Lula e agora se divide entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O alvo é o eleitor cativo. Do ponto de vista eleitoral, o que se pode esperar é crescer em uma faixa em que o presidente já predomina.

Segundo a Quaest divulgada na segunda-feira, Lula está com 52% no Nordeste, região que concentra a maioria dos benefícios. Ficou neste patamar no último mês. Flávio oscila entre 19% e 20% e o dos demais candidatos entre 14% e 16%. Entre os eleitores apenas com ensino fundamental, Lula está com 44%, ante 25% de Flávio e 15% da soma dos demais. Também não há movimento relevante no último mês. De acordo com a BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira e única com um recorte específico para eleitores beneficiários do Bolsa Família, Lula tem 64% entre os recebedores do benefício, ante 20% de Flávio e 10% do restante. Ressalve-se que a pesquisa Quaest é presencial e a da BTG/Nexus por telefone.

Tudo menos STF, por Vera Magalhães

O Globo

Reajuste do Bolsa Família, ida a Nova York para Assembleia da ONU e outras medidas em estudo visam mudar de assunto e recuperar terreno perdido na disputa eleitoral

Lula tirou da cartola um reajuste do Bolsa Família, colocou na incubadora um Desenrola 2027, está de malas prontas para embarcar para Nova York para a Assembleia Geral da ONU a menos de duas semanas da eleição e prometeu até caneta emagrecedora no SUS. Qualquer assunto serve para virar a página da crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Só falta os ministros sairem do meio do ringue e se tocarem de que o Palácio quer que voltem para atrás das cortinas.

A quinta-feira mostrou que eles ainda estão no veneno. Flávio Dino autorizou investigação da Polícia Federal e da Comissão de Valores Mobiliários de repasses feitos pelo Master à concessionária que opera cemitérios municipais de São Paulo. A decisão se deu na mesma ação em que apareceu a menção a um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, mas, ao abrir a investigação, Dino fez questão de frisar que ela não deve atingir o colega.