sábado, 11 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Messias deve ser submetido a arguição rigorosa

Por O Globo

Alcolumbre fez bem em marcar logo sabatina. Senadores devem manter foco no lado técnico, não no político

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não demorou a enviar à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria do ex-ministro Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado. A decisão desfez os rumores de que, em meio às rusgas com o Palácio do Planalto, os senadores pudessem empurrar a sabatina para depois das eleições. Seria péssimo para o país, uma vez que o Supremo está com um ministro a menos. A sabatina foi marcada para 29 de abril.

A coreografia do genocídio, por José Eduardo Agualusa

O Globo

O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista

Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”

Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.

Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”

Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.

Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.

Sentido da primavera, 2026, por Eduardo Affonso

O Globo

Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas

É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso específico de sonho. Era o ar da primavera.

Sente o cheiro da filha — “mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a criançada rica e a da Praia do Pinto.

Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.

Morreu de São Paulo, Brasil, por Flávia Oliveira

O Globo

Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos

Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.

O companheiro Alexandre, por Thaís Oyama

O Globo

Presidente tem vários motivos para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia

O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias, referiu-se ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “companheiro Alexandre” para, três frases depois, jogar o companheiro Alexandre aos leões. Dois dias após a CPI do Banco Master revelar que o patrimônio do magistrado triplicou desde a sua chegada ao STF — e que só os 17 imóveis que possui com a mulher estão avaliados em R$ 31,5 milhões —, Lula afirmou que quem quer “ficar milionário não pode ser ministro da Suprema Corte”. Disse ainda que “salário de deputado, governador, presidente da República não permite que ninguém seja rico”. E acrescentou: se alguém enriquece durante o mandato, é “porque teve outras coisas para ficar rico”. Um pouco mais e Moraes ficaria tentado a enquadrar Lula num de seus inquéritos imorríveis.

Intervenção do bem no Rio, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Flávio Dino pediu vista. Tem dúvidas. Esperará pelo acórdão do TSE sobre o julgamento que tornou inelegível Cláudio Castro. Pareceu querer respeitar a Justiça Eleitoral. Na prática, faz pressão para que o tribunal entregue cassação que não declarou. É pesada a carga por eleições suplementares diretas. Não descartado que essa carga seja fachada para outra solução. O laboratório do Supremo está ativo.

O império é forte, mas já não resolve, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O dólar continua um instrumento de força, mas não garante a imposição dos interesses dos EUA

Como na saga hollywoodiana, o império ainda tem força para contra-atacar. Mas isso já não decide o rumo da história. A cada escalada do conflito no Irã, o petróleo sobe, os mercados se reposicionam e o poder americano se move com intensidade – sem garantir o desfecho. Os instrumentos centrais desse poder – militar e financeiro – continuam fortes, mas estão ficando menos decisivos. Como argumenta em artigo o Financial Times, a guerra expôs a fragilidade do dólar.

Fundamentalistas americanos, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A confusão entre política e religião fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da força e da negação da diplomacia

Fiz meu mestrado na School of Advanced International Studies (Sais), em Washington, Estados Unidos, nos anos de 1980. Período muito fértil na vida acadêmica. Estudei muito, conversei bastante, frequentei palestras e cheguei a falar para alunos e professores sobre Brasil e suas circunstâncias, porque o país atravessava a imensa dificuldade ocasionada pela doença e morte de Tancredo Neves, depois de ele ter sido eleito presidente da República. Fiz palestra no Clais — Centro de Estudos Latino-americanos e Ibéricos —, em Harvard, sobre o cenário político brasileiro da época.

Trump diz que vai fortalecer economia da Hungria se Orbán vencer eleição

Por Folha de S. Paulo

Governo dos EUA interfere no pleito húngaro para tentar ajudar autocrata, no poder há 16 anos

Presidente diz estar ansioso para 'investir na prosperidade criada pela liderança contínua" de Orbán

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse nesta sexta-feira (10) que vai "fortalecer a economia da Hungria" caso o primeiro-ministro Viktor Orbán, que enfrenta uma eleição acirrada neste domingo (12), permaneça no poder.

"Meu governo está pronto para usar todo o poderio econômico dos EUA para fortalecer a economia da Hungria, como fizemos para nossos aliados no passado, se [Orbán] e o povo húngaro precisarem", escreveu Trump em sua plataforma, a Truth Social. "Estamos ansiosos para investir na prosperidade futura gerada pela liderança contínua de Orbán!"

Trata-se da mais recente e flagrante interferência de Trump e seu governo no pleito da Hungria —que, segundo pesquisas, pode acabar com o longo período de Orbán no poder. O autocrata comanda o país do Leste Europeu há 16 anos e transformou suas instituições para permanecer no cargo, aparelhando o Judiciário, alterando regras eleitorais e controlando a imprensa.

Quantos Coringas existem na política no Rio, e quem os chefia? Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Com a bênção do pai, Flávio Bolsonaro quer levar Cláudio Castro ao Senado

Ex-governador, que renunciou para evitar cassação, é responsável pelo vácuo no poder

Postada na quarta (8) —dia em que o STF começou a analisar o modelo para um mandato-tampão no Rio de Janeiro—, a foto mostra o ex-governador Cláudio Castro e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro reunidos na sede do Partido Liberal, em Brasília. Os dois exibem um sorriso amarelo, típico de quem não se suporta, mas precisa manter as aparências. Em segundo plano aparece um boneco de papelão de Bolsonaro, indicando que, mesmo preso, o ex-presidente segue dando as cartas na política fluminense.

Fórum da Liberdade reforça mensagem de união da direita contra Lula

Painel / Folha de S. Paulo

Plateia formada principalmente por jovens ficou entusiasmada com presença de Flavio Bolsonaro

Equipe do filho do ex-presidente ainda acredita que convencerá Romeu Zema a sair vice na chapa

Encerrado nesta sexta-feira (10), o Fórum da Liberdade reforçou a mensagem de união entre liberais e conservadores para derrotar Lula. O recado foi dado, por exemplo, pelo ex-ministro Paulo Guedes, em uma das falas mais aplaudidas do evento, em Porto Alegre.

O encontro mostrou a força de Flávio Bolsonaro (PL) na direita, em um ambiente em tese mais favorável a Romeu Zema (Novo). Sua participação gerou a reação mais entusiasmada da plateia, formada majoritariamente por jovens liberais.

Zema deve manter sua pré-candidatura ao menos até as portas das convenções, no meio do ano. Aliados de Flávio apostam, no entanto, que ele dificilmente resistirá a um eventual convite para ser vice, em nome da união da direita.

O jornalista viajou a convite do Fórum da Liberdade

Sindicalistas entregam 68 pedidos a Lula na marcha em Brasília, por Carlos Petrocilo

Folha de S. Paulo

Entidades esperam reunir 10 mil pessoas na Esplanada no dia 15 de abril

Pauta reúne itens como regulação dos trabalhos por aplicativos e redução dos juros

Em encontro com o presidente Lula na quarta-feira (15) em Brasília, as centrais sindicais vão levar ao governo uma pauta com 68 itens de reivindicações. O documento é assinado pela CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCTS, CSB, Intersindical e Pública.

Dentre elas, 12 são prioritárias. Há itens como fortalecimento das entidades que representam os trabalhadores, a regulação dos trabalhos mediados por aplicativos e a redução da taxa básica de juros diante do endividamento das famílias e empresas, além do fim da escala 6x1.

Nosso Estreito de Ormuz, por Cristovam Buarque

Veja

No Brasil, barramos a formação educacional de toda uma geração

O Brasil percebe o custo do bloqueio no Estreito de Ormuz, que impede o fluxo de navios com petróleo, mas parece não perceber os obstáculos que impedem o fluxo de nossas crianças ao longo da educação de base, dos ensinos fundamental e médio. É corte que subtrai um recurso seminal: o conhecimento. Nosso Estreito de Ormuz interrompe a travessia de 80% dos brasileiros em direção à conclusão do ensino médio com a qualidade necessária para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Assim como o Irã faz com os petroleiros em Ormuz, aqui barramos a formação de nossa população. Barramos o progresso econômico por falta de produtividade, inovação e competitividade. Ficamos presos na armadilha da baixa renda média; barramos o progresso social, impedindo a distribuição da renda conforme o talento desenvolvido. No passado, uma escrava grávida era um navio negreiro levando seu filho para a escravidão; no presente, um brasileiro sem acesso à educação é um navio negreiro levando a si próprio para a escravidão moderna.

Diálogo de gigantes: uma aula de respeito e democracia, por Marcus Pestana

Concluí a leitura de “O Horizonte, conversas sem ruído entre Sanguinetti & Mujica” (Alejandro Ferreiro e Gabriel Pereyra - organizadores, L&PM Editores). Confesso que senti uma ponta de inveja em relação ao Uruguai e seu povo. No Brasil, os espaços de diálogo estão cada dia mais estreitos. As bolhas ideológicas não conversam entre si, não ouvem os argumentos divergentes, digladiam, polarizam de forma estéril, não para fazer do debate um caminho para a construção de consensos, mas para alargar as distâncias e desqualificar os adversários.

10 pontos para dialogar com o conservadorismo sem ceder princípios, por Julio Lopes*

CartaCapital

Políticas econômicas não bastam diante de uma moralidade que estrutura o bolsonarismo

Por que às iniciativas governamentais, evidentemente favoráveis aos interesses econômicos da maioria absoluta da população, como para reduzir oneração dos bens da cesta básica e isentar do imposto sobre a renda até 5 mil reais ao mês, não trouxeram logo um correspondente maior apoio dela ao governo Lula 3?

Porque, além da dimensão econômica, a dimensão moral da política continua sendo tão ou até mais importante no Brasil, há mais de 10 anos. E a moralidade brasileira, apesar de cada vez mais evidentes avanços igualitários nos seus costumes ao longo das décadas após a Constituição de 1988, continua sendo ostensivamente conservadora. Tal qual noutros cantos do Planeta, a maior visibilidade às diferenças humanas, conferida pelas redes sociais, instiga todo conservadorismo habitual, cuja resistência à convivência diferenciada foi a oportunidade política que à direita se aproveitou para radicalizar contra autonomia feminina, segmentos LGBTQIAPN+, religiões e etnias não padronizadas, imigrantes, etc.

A contrariedade às diferenças emergentes na sociabilidade humana, segundo o Filósofo Ludwig Feuerbach (1804-1872), é a própria condição histórica da Humanidade, à medida que novos seres humanos portam possibilidades diversas das já expressas pelos que os antecedem, inclusive porque são gerados das combinações entre seres humanos anteriores. Neste sentido, o conflito entre costumes precedentes e inéditos desafia progressistas contra conservadores.

Circo, por Pedro Serrano

CartaCapital

Um modelo inquisitorial não se coaduna com o poder investigatório incumbido a uma CPI. Nessa esfera, o parlamentar deve ser um agente dos direitos fundamentais

As Comissões Parlamentares de Inquérito desempenharam, ao longo das últimas décadas, um papel fundamental no fortalecimento da democracia. Por outro lado, não se pode desconsiderar que muitas CPIs se tornaram palcos de espetacularização midiática e de esvaziamento de sentido dos direitos fundamentais.

Na compreensão dos limites constitucionais à atuação das CPIs, podemos classificar os limites constitucionais ao poder parlamentar de investigar em explícitos e implícitos na Constituição. Os limites constitucionais explícitos estão relacionados ao objeto determinado e ao prazo certo. Os limites constitucionais implícitos ao poder parlamentar de investigar, especialmente no que tange ao objeto determinado e ao prazo certo, dizem respeito, no fundo, a um valor essencial da Constituição, qual seja o de vedação à devassa.

Os três mosqueteiros, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

Marx, Keynes e Schumpeter contra as mazelas do pensamento único em economia

Os três mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, protegiam a rainha Ana da Áustria contra as intrigas políticas do cardeal Richelieu. Na nossa trilogia, Athos (Marx), Porthos (Keynes), faltava Aramis, o grande economista austríaco Joseph Alois Schumpeter. Cada um, à sua maneira de pensar, forma o trio que combate o pensamento único em economia e procura observar e explicar a economia como um sistema. Em 1942, Schumpeter disse: “A destruição criativa é o fato essencial do capitalismo”. Ele foi ministro das Finanças da Áustria.

Império odiado, por Jamil Chade

CartaCapital

Sob Donald Trump, os EUA experimentam um rápido declínio de sua liderança global

“Tivemos um bom período – cerca de oito décadas –, mas agora está claro que os Estados Unidos deixaram de ser os líderes do mundo livre.” A avaliação foi publicada em 24 de março pelo colunista do The New York Times Carlos Lozada, autor do livro The Washington Book: How to Read Politics and Politicians. Um de seus argumentos é de que parte do que diferentes governos norte-americanos tentaram realizar, ao longo de décadas, foi preservar um recurso essencial, a legitimidade internacional. Lozada conclui o artigo com um alerta: “Podemos estar entrando em um mundo pós-norte-americano, um mundo no qual o significado da América, os princípios e valores que o país sempre representou – às vezes na realidade, às vezes em aspiração – estão desaparecendo”. Mais: “A perda dessa América pode provar-se tão prejudicial, e muito mais duradoura, do que qualquer dano que as incursões de Donald Trump possam causar”.

Uma lenda viva, uma lenda Maya, por Ivan Alves Filho*

Estados Unidos, 1928. Aos três anos de idade, ela foi colocada em um trem de St. Louis para Arkansas, juntamente com o irmão, um ano mais velho, e enviada para a casa dos avós. Aos oito anos, foi estuprada pelo namorado de sua mãe. No seu depoimento, ela mentiu, dizendo que o fato terrível ocorreu apenas uma vez, quando na verdade aconteceu várias vezes. O homem foi condenado a somente um ano de cadeia, mas permaneceu um dia na prisão. Solto, seria assassinado pouco tempo depois. 

Poesia | Não sei. Falta-me um sentido, um tacto, de Fernando Pessoa

 

Música | Falsa Baiana (Geraldo Pereira) - Maria Bethânia & Paulinho da Viola (1973)(ao vivo em Oslo, Noruega)

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vincular gastos sociais é armadilha orçamentária

Por O Globo

PEC aprovada na Câmara teria impacto de R$ 100 bilhões em uma década, pela estimativa do governo

Em pleno ano eleitoral, a Câmara aprovou em primeiro turno uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que destina um percentual mínimo da receita da União ao Sistema Único de Assistência Social (Suas). A iniciativa é bem-intencionada, pois engloba uma série de ações sociais. Mas se mostra descolada da realidade, ao ignorar o impacto nas contas públicas. A PEC é vista pelo governo como mais uma pauta-bomba. O custo é estimado pela equipe econômica em R$ 36 bilhões durante quatro anos e pode alcançar R$ 100 bilhões em uma década. Pela PEC, o percentual começaria com 0,3% da Receita Corrente Líquida da União em 2027, passaria a 0,5% em 2028, subiria a 0,75% em 2029 e atingiria 1% em 2030. O escalonamento, no entanto, não torna a proposta menos prejudicial aos cofres públicos.

Quatro pedras no caminho da polarização, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Força dos candidatos vai variar conforme lidem com efeito Trump, casos de corrupção, situação nos estados e eleitor independente

O que as eleições presidenciais de 2022 e 2026 têm em comum? Os analistas políticos, de forma quase unânime, responderiam: a permanência da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Mas isso quer dizer que o enredo da corrida eleitoral será o mesmo? Aqui estão as diferenças.

Há temas que podem afetar ambos os lados, de maneira a enfraquecer um ou outro, gerando maior incerteza do que no pleito passado. Na verdade, existem pelo menos quatro pedras no trajeto cujas dificuldades podem ser antevistas agora, mas cujos desfechos ainda são imprevisíveis.

A história de 2022 foi um samba de uma nota só. Foi uma eleição polarizada e a mais concorrida desde a redemocratização, mas o enredo dividia claramente os presidenciáveis e suas estratégias. O fio condutor era o desempenho do governo Jair Bolsonaro. Os bolsonaristas defendiam com unhas e dentes seu líder, aceitando inclusive algum desfecho “heterodoxo” e golpista, enquanto a oposição comandada por Lula dizia que a reeleição do presidente significaria a continuação da tragédia simbolizada pela política contra a covid-19 e mesmo o fim da própria democracia.

Houve episódios emocionantes durante a campanha, como as loucuras de Roberto Jefferson e Carla Zambelli, porém, o plebiscito da eleição nunca mudou de sentido. O resultado final foi uma vitória apertada e pelo negativo, pois Lula venceu principalmente para que o bolsonarismo não continuasse no poder. Obviamente que agora há também um voto de avaliação do governo lulista, como sempre ocorre em tentativas de reeleição. Só que o jogo de 2026 é mais complexo, pois as forças dos candidatos poderão variar na longa caminhada até outubro conforme lidem com quatro pedras presentes na corrida eleitoral.

E se Lula realmente não for candidato? Por Andrea Jubé

Valor Econômico

Na cúpula petista há quem afirme que presidente pode dar um passo para trás se conjuntura não melhorar; maioria das lideranças, no entanto, é veemente ao assegurar candidatura

Em outros tempos, a vida dos presidentes da República, se não era mais fácil, parecia ter soluções mais simples para os problemas. Enquanto nos dias de hoje a queda de braço por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) deflagrou uma crise institucional entre Senado e Palácio do Planalto, no passado, o presidente Getúlio Vargas resgatou um aliado dissidente com uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL).

O isolamento de Lula, por Vera Magalhães

O Globo

Os canais do governo com o comando do Congresso se mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse um mero espectador da agenda do país

Lula chega à sua sétima disputa presidencial isolado como nunca e demonstra mais dificuldade que em ocasiões passadas de reverter uma maré negativa. As trocas nos ministérios esvaziaram a já precária articulação política de seu terceiro mandato, ele está cercado de políticos e assessores com visão de esquerda e não tem diálogo fluente nem com o Congresso, nem com os setores da economia que mais se envolvem nas conversas preparatórias para as eleições.

Guerra, eleições e a economia, por Armando Castelar Pinheiro*

Valor Econômico

O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como aponta a curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano

Quase seis semanas depois de o conflito iniciado, o cessar-fogo, de duas semanas, saiu. Até certo ponto, foi uma surpresa: Israel não parecia interessada em parar os ataques, os EUA não pareciam ter um caminho politicamente aceitável para sair do conflito e o Irã não parecia ter uma liderança capaz de negociar uma saída. Talvez não por outra razão o que foi acertado soe tão confuso, com detalhes diferentes aparecendo em línguas e porta-vozes distintos. O que, claro, coloca em questão se será possível alcançar um acordo duradouro e o que este contemplará.

Cármen, Dino e Messias pautam agenda do STF e ofuscam Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor da crise na Corte

Uma sequência de movimentos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Senado, embora aparentemente desconectados, revela uma engrenagem institucional em pleno funcionamento sob tensão. A reorganização da agenda política deixou em segundo plano o explosivo caso do Banco Master, que gerou grande constrangimento para o ministro Alexandre de Moraes.

O primeiro fato relevante foi protagonizado pela ministra Cármen Lúcia, que anunciou a antecipação de sua saída da presidência do TSE para 14 de abril. O gesto, justificado como uma medida administrativa para permitir melhor preparação das eleições, tem implicações políticas evidentes. Ao abrir espaço para o ministro Nunes Marques assumir a presidência da Corte eleitoral, consolida-se uma inflexão no comando do processo eleitoral de 2026, com a presença de nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em posições-chave, incluindo André Mendonça na vice-presidência da Corte. Trata-se de uma mudança silenciosa, mas estratégica, no equilíbrio de forças institucionais que conduzirão o pleito.

Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio de Janeiro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram calamidade da política do Rio

Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na tribuna do Supremo.

O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de Batman.

Em defesa do desalinhamento, por Pablo Ortellado

O Globo

No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia

A literatura política frequentemente associa o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento.

O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.

Lições da guerra, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo

A guerra ainda não acabou, mas já nos deu um farto material de reflexão para além do simples ajuste do preço do diesel e do querosene de aviação. A primeira conclusão estratégica é óbvia e bastante velha: é preciso realizar logo a transição energética e liberar o País da dependência de petróleo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Irã. Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo.

Essa guerra no Irã tem se caracterizado por ataques à infraestrutura energética. O fechamento do Estreito de Ormuz era uma das consequências previsíveis, mas os EUA não a consideraram. Trump deu uma pista da indiferença americana, afirmando que os EUA tinham muito petróleo. Na visão dele, se os europeus não tivessem coragem de abrir o estreito, poderiam comprar óleo nos EUA, que o tem em abundância.

A autofagia do PT, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Rio Grande do Sul é um case de como Lula sacrifica o PT em nome do ‘projeto maior’: ele

Às vésperas de completar 81 anos e disputar um quarto e último mandato, o presidente Lula mantém sua determinação de impedir o surgimento de novos líderes à esquerda, desestimular a construção de um sucessor para o pós-Lula e sacrificar o PT em favor do “projeto maior”: ele.

O novo alvo de Lula é o PT do Rio Grande do Sul, que teve os governadores Olívio Dutra e Tarso Genro e fica sem candidato próprio ao governo do Estado desde 1982, primeiras eleições diretas para governador após 1965. Lula quis e o partido foi obrigado a engolir o nome, ou melhor, o sobrenome da ex-deputada Juliana Brizola, do PDT.

O que mudou desde a delação de Cid? Por Raquel Landin

O Estado de S. Paulo

Lei da delação premiada serviu para Mauro Cid. Por que não para Daniel Vorcaro?

O tenente-coronel Mauro Cid fechou sua delação premiada em setembro de 2023. À época, o pedido do PT para revisar a lei da delação premiada já descansava nos escaninhos do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes há mais de dois anos. A solicitação do partido, feita pelos advogados Lenio Streck, André Trindade, Marco Aurélio de Carvalho e Fabiano Santos, é de dezembro de 2021.

Cid prestou vários depoimentos à PF, alterando versões e implicando mais pessoas. Nos depoimentos iniciais, “esqueceu” que o general Braga Netto carregava uma sacola de dinheiro.

Faz-não-faz e desfaz, por José Sarney*

Correio Braziliense

A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

Aumentos de gasolina e diesel no Brasil estão entre os menores do mundo durante a guerra, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reajuste da gasolina por aqui fica na 90ª posição entre 128 países; o do diesel, na 71ª

Além de dar subsídios e redução de impostos, país enfrenta crise em situação mais favorável

Os preços da gasolina e do diesel aumentaram mais na maioria dos países do mundo do que no Brasil, que fica perto da rabeira desse ranking. No caso da gasolina, ficamos em 90º lugar entre 128 países —em 25 deles, a variação foi menor do que 1%, nada, ou negativa. Quanto ao diesel, ficamos em 71º lugar —em 21 países, a variação foi menor do que 1%.

Os dados são da Global Petrol Prices. Baseiam-se na conta de variação de preços entre 23 de fevereiro (a guerra começou em 28 de fevereiro) e 6 de abril. Como se deve fazer em relação a qualquer ranking ou comparação, é preciso descontar a precisão dos dados. Trata-se de médias nacionais ou preços típicos. Alguns países controlam reajustes (oi, Brasil), ditam as datas de aumento, outros não intervêm no mercado, poucos são grandes produtores, outros importam quase tudo etc.

Uma guerra só com derrotados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Se cessar-fogo precário puser fim a conflito, EUA, Israel e Irã saem com mais perdas do que ganhos

Conflito sem vitória também poderá trazer repercussões eleitorais negativas para Trump e Netanyahu

dSempre que vejo Palmeiras e São Paulo se enfrentando, me pergunto se não haveria um jeito de os dois times perderem. No futebol, parece que não, mas, no que diz respeito a guerras, a derrota de todos os envolvidos é um desfecho possível e até frequente. Lembrem-se de 

guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã encaminha-se para ser um desses conflitos sem vencedores, ainda que todas as partes reclamem ter logrado brilhante vitória. O regime iraniano pode de fato congratular-se por ter sobrevivido a um inimigo militarmente muito superior, mas é só. A coluna dos ônus é extensa demais para ser ignorada: cerca de duas dezenas de suas principais lideranças, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, foram assassinadas, o país sofreu enorme destruição de vidas e de infraestrutura, notadamente a militar, e comprou décadas de inimizade com os países vizinhos do Golfo Pérsico que atacou.

Lambança de Trump no Irã é apoio a plano de Grande Israel, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Líder americano achou que o explosivo tabuleiro de xadrez da guerra contra o Irã seria um jogo de damas

Com Netanyahu, alguém ainda acredita nas fantasias de dois Estados e devolução de territórios ocupados?

Estados Unidos e Israel, nas figuras abomináveis de Donald Trump e Binyamin Netanyahu, estão transformando o mundo num lugar ainda mais perigoso para se viver. Sim, isso é possível. Os dois têm muitas coisas em comum, nenhuma delas animadoras: são autoritários, expansionistas, imperialistas, racistas (por que não dizer?) e não medem consequências em busca de seus objetivos.

Enquadram-se perfeitamente na categoria de lideranças fascistas contemporâneas. "Ah, mas isso não é igual ao que aconteceu nos anos 30"... Bem, não estamos nos anos 30 do século passado. Falamos do conceito do século 21. É duro e triste dizer que um político que comanda Israel veste bem esse perfil fascista, mas lamentavelmente é o caso.

Sob as asas, digo, membranas do pai, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro ainda nem começou a apanhar, mas já reage como se no meio da campanha

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra; da candidatura de Flávio só se verão os eclipses

Nada de mais em a nave Artemis 2 ter dado uma volta pelo lado oculto da Lua e ficado 40 minutos sem que soubéssemos o que estava acontecendo. A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência passa ainda mais tempo no lado oculto de si mesma e só tenta mostrar o que lhe interessa. Mas não adianta —ao contrário da Lua, cuja massa rochosa interrompe o sinal e impede que este chegue à Terra, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem a densidade de uma cortina de banheiro.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Roberta Sá - Gostoso veneno

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tentativa de trégua no Irã atesta inépcia de Trump

Por Folha de S. Paulo

Para acalmar eleitores e mercados, americano recua de ultimato pela 5ª vez numa guerra sem objetivo claro

Nenhum dos rivais concorda com os termos tornados públicos da base de negociações, proposta pelo Irã; cessar-fogo é frágil

Após muito suspense, passou a vigorar, na noite de terça-feira (7), um cessar-fogo na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ao menos, foi o que disse acreditar Donald Trump, ciente dos riscos inerentes à empreitada.

De um lado, a pressão global devido à escalada dos preços de energia decorrente do fechamento do estreito de Hormuz —o corredor de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo— pela teocracia islâmica.