domingo, 13 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo diante da História

Por O Globo

Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias

Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.

A eleição na Alemanha, a crise do Supremo e a desesperança na democracia, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A insegurança jurídica adia investimentos, interrompe decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e aumenta a frustração social e política

A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44% dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política alemã.

A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas vidas.

Terremoto no Supremo, por Míriam Leitão

O Globo

A crise no STF está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível

Soterrado por muitos gigabytes de informação, o Brasil tenta entender o que está acontecendo enquanto caminha para as urnas, dentro de três semanas, numa eleição diferente de todas as outras. Não há programas, não há ideias, nada. O debate incandescente é o Supremo Tribunal Federal. A crise está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível.

A corrupção de Daniel Vorcaro espalhou-se, e atingiu mais fortemente alguns atores. O ministro Alexandre de Moraes está cercado por uma montanha de dúvidas e a maior delas é sobre o seu futuro na Corte. A previsão é ele assumir a presidência do STF daqui a um ano. O ministro André Mendonça é acusado de selecionar politicamente alvos de investigação, poupando outros, e continuar fazendo isso até na quebra de sigilo.

Brasíliada, por Merval Pereira

O Globo

Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra no STF teve início.

A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.

Ministros do STF deveriam ler Madame Satã, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em busca de argumentos para defender o indefensável, vale consultar a lendária entrevista do malandro da Lapa ao Pasquim

Madame Satã era o apelido do transformista João Francisco dos Santos, figura mitológica da Lapa na primeira metade do século passado. Malandro e destemido, não recusava uma briga. Somou 27 anos de cadeia antes de inspirar livros, filmes e peças de teatro.

Madame Satã é o nome de uma casa noturna da cena underground de São Paulo. Nos últimos dias, notabilizou-se como cenário de uma farra promovida por Daniel Vorcaro. Pivô da maior fraude financeira da História do país, o banqueiro corrompeu a República com propinas, viagens e bacanais.

Dez escorpiões numa garrafa, por Elio Gaspari

O Globo

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Narcisismo patológico de Trump é um perigo, por Dorrit Harazim

O Globo

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar

Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.

O arco conservador nas Américas, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.

No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.

Democracia e ideal republicano, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

A visão política surge do encontro oportuno entre uma nova realidade social, ideias aptas a captá-la e líderes capazes de estabelecer a ligação entre ideia e realidade

A mais bela defesa do ideal democrático que conheço é aquela de Norberto Bobbio: “Apenas em um regime democrático são possíveis a aceitação e o elogio da diversidade; o reconhecimento da legitimidade e da fecundidade dos conflitos de razão e de interesse; a absoluta liberdade de opinião; o ideal da tolerância; o ideal da não violência. Apenas em democracias é possível livrar-se de governantes sem derramamento de sangue e resolver conflitos sem o recurso à força. Apenas em democracias é possível a renovação gradual da sociedade pelo livre debate de ideias e pela mudança de mentalidades. Apenas em democracias é reconhecida a necessidade de antepor limites ao poder, mesmo quando esse poder é o da maioria que o conquistou pela força do voto”.

Inflação recua, mas ainda falta PIB mais dinâmico, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Não haverá crescimento mais veloz enquanto os setores público e privado mantiverem uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas

Comer, morar, acompanhar o mundo pela TV e assistir a novelas – tudo isso ficou mais barato em agosto, quando o custo de vida recuou 0,32%, puxado pelas despesas com alimentação (0,34%), habitação (-1,87%) e eletricidade (-7,63%). Milhões de famílias endividadas e pressionadas pelos juros pouco devem ter percebido essas melhoras, mas suas finanças – pelo menos objetivamente – ganharam alguma estabilidade. É difícil apostar se essa condição persistirá até dezembro ou, num quadro muito mais otimista, se ainda se manterá no início do novo mandato presidencial, em 2027.

O triste fim de um ‘xerife’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se a cabeleireira pegou 14 anos por pintar uma estátua, qual a pena para quem enlameia a Justiça?

A decisão que o Supremo Tribunal Federal está prestes a tomar, na próxima terça-feira, é doída, sim, mas de uma simplicidade desconcertante: se, em tese, qualquer cidadão pode ser investigado por suspeita de ter cometido desvios, por que não Sua Excelência Alexandre de Moraes? Se julgado culpado, que seja condenado. Se não, inocentado. Pelo menos, deve, ou deveria, ser assim...

O que, definitivamente, os ministros da Corte não podem fazer é ignorar os 134 milhões de motivos para uma investigação. Para tentar salvar Moraes, um caso perdido, ao custo de esgarçar sem conserto a credibilidade do Supremo, desmoralizar as instituições e, tudo junto e combinado, impactar a eleição presidencial sem retorno?

Sem precedente, crise no STF esvazia campanha presidencial, por César Felício

Valor Econômico

Noticiário sobre possível envolvimento de ministros da Corte com Vorcaro jogou atenção nas mídias para plano secundário e, em graus diferentes, atinge os seis principais candidatos

A crise dentro do Supremo Tribunal Federal (STF), que poderá ter seu ponto alto nesta terça-feira (15), com a deliberação em plenário sobre a abertura ou não de investigação contra o ministro Alexandre Moraes, esvaziou a campanha eleitoral. O noticiário sobre o possível envolvimento dos ministros da Corte com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, jogou para um plano secundário de atenção nas mídias eventos de impacto eleitoral óbvio, como por exemplo a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que eliminou a chamada “taxa das blusinhas”. A crise já havia desconcentrado o Congresso Nacional, que prometera na primeira semana de setembro um esforço concentrado que poderia ter aprovado a PEC que acaba com a escala 6 por 1 de trabalho, outra iniciativa de apelo eleitoral que poderia beneficiar o governo.

Flávio e Moraes receberam a mesma grana do mesmo esquema, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

O fim do sigilo do inquérito do Master vai explicar quais candidatos estão envolvidos no escândalo

Se as suspeitas forem verdadeiras, senador e ministro são cúmplices

Se as acusações contra Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes forem verdadeiras, os dois foram cúmplices.

É estranho, eu sei.

Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).

É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?

Ao que parece, sim.

Flávio e Moraes ganham apoios de quem tem memória e ideias seletivas sobre democracia e república, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Revolta justa contra ministro abafa o caso do candidato da 'rachadinha' e do Rio podre

Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas

Manifestos de empresários e da "sociedade civil", associações de gente bem-situada na vida, pedem "transparência" no Supremo. Sob muitos aspectos, têm razão. Pela decência básica, ao menos dois ministros do STF estariam com o pé na cova judicial. Sob outro aspecto, a revolta é seletiva, assim como vazamentos, inquéritos, juízes, a memória etc.

Esquece-se da história de Flávio "Página Virada" Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Perto do passado dele, o que se sabe por ora do dinheiro para financiar as artes da família, o "Dark Horse", ainda é fichinha.

A ascensão violenta da mentira, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica; mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico

Fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado

Na última conversa com TrumpLula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news, portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.

Os fatos, mais que os ataques, vão ditar o rumo dos independentes, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As campanhas têm margem ínfima de manobra para tentar tirar Lula e Flávio da situação de empate

O presidente achou que o senador seria o adversário mais fácil de derrotar, mas a prática desmentiu a tese

Três semanas neste Brasil de sobressaltos é muito tempo. Seis, então, equivalem à eternidade. É o que nos separa dos primeiro e segundo turno das eleições gerais.

Daqui até lá vão acontecer muitas coisas, dentre as quais nada indica que estará a alteração do quadro de disputa entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Na fotografia das pesquisas, Lula ainda aparece à frente; o filme, contudo, conta outra história: a distância se estreita e, em algumas delas, Flávio chega a inverter a linha da liderança.

Múltiplo Ismael, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Difícil dizer o que era mais fascinante em Ismael Nery, se a obra ou a vida

Seu objeto eram homens e mulheres andróginos, belíssimos, de sedução letal

Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna", em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas.

Poesia | Saudade, de Pablo Neruda

 

Música | Chico Buarque | Paratodos

 

sábado, 12 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Coragem, Fachin

Por CartaCapital

Como se portará o presidente do STF diante da encruzilhada? 

Nos momentos de encruzilhada do Brasil, e não foram poucos em mais de 70 anos de jornalismo, quando os responsáveis pelos caminhos ou descaminhos do País eram postos à prova, Mino­ ­Carta sacava da algibeira uma frase: “Os homens se medem nas circunstâncias”, combinado das reflexões de pensadores de épocas distintas. Ao contrário do que se imagina, Mino era um otimista incorrigível e nunca seguia a recomendação de depositar as esperanças no chão antes de cruzar o umbral de mais um círculo do Hades brasileiro. A esperança durava pouco, pois, em geral, a coragem dessas personagens nos momentos decisivos se media em centímetros, como os habitantes de Lilliput. A reação seguinte, óbvio, era de indignação, aliviada por meio de impropérios cujo mais sonoro era “CREEEETIIIIINOOOOS!” Também não podia faltar o “bando de corja”, expressão que poderia ter saído das páginas de Manuelzão e Miguilim, mas é da lavra do pai de ­Políbio. Mundialmente conhecido como Dó, Políbio foi o Sancho Pança do cavaleiro errante Mino nas intermináveis batalhas contra os moinhos de vento.

Por que demorou? Demorou por que? Por Flávia Oliveira

O Globo

Eleitorado só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois

Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

A Corte à beira do abismo, por Thaís Oyama

O Globo

Se o inquérito das fake news se tornar público, virão à luz procedimentos mantidos há quase oito anos em sigilo

Ao emergir de sua meditação profunda, Edson Fachin tomou nesta semana uma série de medidas para suspender o bangue-bangue do STF — a última delas, a determinação para que André Mendonça levante integralmente o sigilo dos procedimentos do caso Master. As ações do presidente do Supremo se provaram tão tardias quanto vãs. Na quarta-feira, quando foram divulgadas, a Corte já parecia terra sem lei; e até ontem o tiroteio entre os ministros não dava mostra de arrefecer. Duas das providências anunciadas por Fachin, porém, ainda podem mudar os rumos do tribunal, caso sobrevivam à cortina de fumaça com que se pretende desviar o foco do que importa.

O que fazer com a AfD? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Estratégia de isolar partidos da direita radical pode estar com os dias contados

Forças democráticas precisam buscar meios de reduzir virulência dessas legendas

Até aqui, a estratégia dos partidos mainstream europeus de isolar a direita radical para impedir que ela chegue ao poder tem experimentado sucesso relativo. Exemplos desse mecanismo de "cordon sanitaire" incluem a eleição presidencial portuguesa de fevereiro, quando o ultradireitista André Ventura, do Chega, foi derrotado, e as duas vezes, 2017 e 2022, em que sua congênere francesa, Marine Le Pen, perdeu o segundo turno do pleito para Emmanuel Macron.

Para bolsonaristas, Mendonça vale mais que Trump, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Personagem das eleições, ministro do STF vive hoje seu momento BBB

De interferência na PF ele entende desde os tempos em que substituiu Moro na pasta da Justiça

A menos de um mês do comparecimento às urnas, quando o debate de propostas e programas deveria alcançar o ponto máximo nas ruas e redes, todas as atenções se voltam para a rinha de galos no STF. É mais uma falsificação que busca se intrometer e deturpar o processo eleitoral. De esporada em esporada, de golpinho em golpinho, morre a democracia.

Até o mais ingênuo lobo-guará de Brasília sabe que o ministro André Mendonça —indicado por Bolsonaro com credenciais de "terrivelmente evangélico"— age para favorecer uma certa candidatura. Louve-se a ausência de cinismo nas maquinações. É um jogo pesado, mas às claras.

Sobre como se blinda, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A sessão do Supremo marcada para 15 de setembro tem como fundamento uma mentira: a de que seria competência exclusiva do plenário autorizar investigação contra ministro. Isso inexiste na Lei e no Regimento do STF – invenção destinada a tornar ainda mais difícil o impossível.

Este artigo parte de um pressuposto: o de que o Supremo não autorizará investigação contra Alexandre de Moraes; consultor de Vorcaro sobre se o banqueiro com ordem de prisão expedida contra si – sabedores ambos dessa informação sigilosa, que discutiam – deveria fugir do País. O cronista quer estar errado. Nunca um ministro do STF foi investigado. Não será esta composição do tribunal a fazê-lo.

O Auto da Compadecida americano, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5 mil a cada americano. A plateia aplaude

Não sei, só sei que são US$ 5.000! Diria Chicó, que estaria feliz com a oferta de Trump. Ariano Suassuna talvez tivesse dificuldade para imaginar uma cena melhor. Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5.000 a cada americano adulto se os republicanos mantiverem o controle do Congresso. A plateia aplaude. Alguém pergunta quanto vai custar. Cerca de US$ 1,2 trilhão.

De onde virá o dinheiro? Das tarifas, dizem seus defensores. Mas elas estão arrecadando algo próximo de um décimo do necessário.

Quem exatamente receberá? Inicialmente, todos os adultos. Depois, talvez apenas trabalhadores e classe média.

Previdência: eis a questão! (I), por Marcus Pestana

Há uma questão absolutamente central, complexa e de grande repercussão social que é solenemente tangenciada nas discussões eleitorais: o futuro do sistema previdenciário.

O mundo moderno surgiu a partir da Revolução Industrial, no final do século XVIII. Inaugurou-se uma longa etapa apelidada de capitalismo selvagem. Não havia direitos dos trabalhadores, nem políticas públicas sociais. As jornadas de trabalho eram exaustivas. As condições de vida (alimentação, moradia e saneamento) eram sub-humanas. Neste ambiente residem as raízes do movimento e do pensamento socialistas e das estruturas sindicais. A luta dos trabalhadores e o avanço da democracia política resultaram na consolidação paulatina do Estado do Bem-Estar Social. Surgiram previdência, educação e saúde públicas e reformas e leis para humanizar o sistema.

O preço da negociação, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.  

O STF diante de seus próprios limites, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quando a política se transforma em vale-tudo, o Direito Constitucional deixa de operar, se torna inócuo. Testemunhamos um momento inédito de disputa fratricida entre ministros, e o risco é de que o STF perca sua legitimidade social, sua autoridade

Supremo Tribunal Federal está imerso em crise profunda, e o momento nos oferece a oportunidade de entender o quão delicado (e importante) é o equilíbrio das instituições em uma democracia. Disfunções, violações de formalidades, invasões de competência e desrespeito à independência entre os poderes cobram um preço alto, e quem paga é a sociedade como um todo.

Convido os leitores a pensarem especificamente sobre o papel institucional do STF. Como corte constitucional, o Supremo tem o papel de zelar pela integridade e cumprimento da constituição. Ele pode declarar que leis são inconstitucionais e tem, excepcionalmente, o papel de julgar criminalmente autoridades da cúpula dos poderes da República.

Nota conjunta da SBPC e da ABC em defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) acompanham com preocupação as tensões que envolvem instituições centrais da República e reafirmam seu compromisso com a Constituição, o Estado Democrático de Direito e a igualdade de todos perante a lei.

Não cabe às entidades científicas substituir as instâncias competentes na investigação dos fatos ou antecipar juízos sobre responsabilidades individuais. Cabe-lhes, contudo, participar do debate público e defender os princípios que sustentam a vida democrática. É com esse compromisso, e não em defesa de pessoas ou interesses político-partidários, que a SBPC e a ABC se manifestam.

A democracia exige instituições independentes e, ao mesmo tempo, submetidas à Constituição. Defender as instituições não significa proteger seus integrantes de investigação ou responsabilização. Nenhuma autoridade está acima da lei ou dispensada do escrutínio público e do dever de prestar contas à sociedade.

Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelas instâncias competentes, com independência e imparcialidade, assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Responsabilidades comprovadas devem produzir as consequências previstas em lei. A blindagem de autoridades não fortalece as instituições: corrói sua credibilidade.

Ressentimento e saudosismo, por Sérgio C. Buarque *

Revista Será?

A vitória da AfD (Alternative für Deutschland), partido de extrema direita, nas últimas eleições no Estado da Saxônia-Anhalt despertou grande inquietação mundial ao confirmar a força política de um partido de inspiração nazista na Alemanha. A Saxônia-Anhalt é um dos menores Estados alemães, com apenas 2,1 milhões de habitantes, o equivalente a 2,5% da população do país. Mesmo assim, a ascensão da AfD assusta, especialmente porque, em se tratando da Alemanha, desperta também o fantasma do nazismo, de triste memória.

Presenças Impróprias e Ausências Lastimáveis, por Elimar Nascimento *

Revista Será?

Outra vez a nação está atolada no lodaçal dos malfeitos. O escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar. O envolvimento de juízes, procuradores, senadores, deputados, ministros, burocratas e governadores ganha contornos mais nítidos. A sensação é de que meio mundo se locupletou. Daniel Vorcaro é um astro. Ninguém conseguiu tanto. Nenhum escândalo neste século envolveu tanto dinheiro e tantas autoridades públicas. A OAB e o presidente da República pedem que todas as investigações se tornem públicas e que cesse a quebra seletiva de sigilo, como a promovida pelo ministro André Mendonça. O presidente do STF, ministro Fachin, tem diante de si um desafio que jamais imaginou.

A eleição não encerrará a crise, por Murillo de Aragão

Veja

As urnas distribuem poder, mas não corrigem as instituições

Quando escrevo este artigo, faltam 25 dias para o primeiro turno da eleição. Para quem tem telhado de vidro, três semanas podem parecer uma eternidade, sobretudo num ambiente em que revelações constrangedoras surgem quase diariamente e se incorporam à disputa política. Muita coisa ainda pode acontecer até o eleitor chegar à urna.

O que chama atenção não é apenas a exposição dos candidatos presidenciais, mas a dificuldade das instituições para assegurar que o processo eleitoral transcorra dentro do mínimo de normalidade. A disputa de 2026 apresenta, nesse sentido, duas características que a diferenciam das anteriores.

A crise no STF, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.

Corte em pedaços, por André Barrocal

CartaCapital

As recentes decisões de Edson Fachin não garantem o fim da crise no STF

Flávio Bolsonaro bem que tenta, mas Dark Horse não é página virada. O homem encarregado de fazer com que o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master, chegasse aos realizadores do filme sobre Jair Bolsonaro acaba de ter a delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal e os detalhes sobre o envio dos dólares começam a vir a público. Um dia depois, a Polícia Federal foi às ruas apreender documentos e vasculhar endereços da dona da produtora da cinebiografia, ­Karina Ferreira da Gama, e do roteirista da obra, o deputado Mario Frias, secretário de Cultura no governo do capitão. A batida policial foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, encarregado no STF de um inquérito sobre o repasse de uma emenda parlamentar de Frias a uma ONG de Karina, o Instituto Conhecer Brasil. A ONG é alvo da Polícia Civil paulista por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura da capital, e o delegado do caso, Antônio Carlos Munuera Silveira, aponta “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Em agosto, Dino havia liberado a PF para ter acesso total às investigações em curso em São Paulo.

Credibilidade em risco, por Pedro Serrano

CartaCapital  

Não se pode permitir que um integrante do STF interfira de forma inconstitucional na estrutura republicana 

O Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise inaudita, escalada no exato momento em que escrevo este artigo. A decisão do ministro André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, é absolutamente inconstitucional e ilegal. Ela implica interferência indevida no funcionamento do Poder Executivo e da PF como instituição autônoma, contrariando a tripartição de poderes da República e diversos princípios essenciais da nossa Constituição.

Aparentemente, estamos ingressando em um momento em que o papel do ministro Mendonça passa a ser o de um agente político que interfere diretamente nas condições de disputa política de poder no plano eleitoral. A rigor, trata-se da destruição da função de magistrado como aplicador da Constituição e da lei. Não se pode permitir que um ministro do STF exerça uma interferência desse tipo na estrutura republicana e no funcionamento do Poder Executivo. Um delegado da Polícia Federal exerce função de polícia judiciária, mas é vinculado ao Executivo.

Fargo ou o interesse bem triturado, por Pablo Spinelli

Dedicado ao amigo Ricardo, que ria no cinema vendo o moinho.

Trinta anos depois, Fargo (1996), dos irmãos Joel e Ethan Coen, permanece soterrado naquela neve excessivamente branca que, longe de purificar os homens, apenas torna mais visíveis as manchas de sangue deixadas por suas escolhas. Jerry Lundegaard (William H. Macy), vendedor de automóveis, marido submisso e pequeno empreendedor de grandes desastres, organiza o sequestro da própria esposa para arrancar dinheiro do sogro. Não deseja conquistar o mundo: quer apenas resolver rapidamente seus problemas financeiros. É justamente aí que mora o perigo. As democracias raramente são destruídas somente por grandes vilões; frequentemente começam a apodrecer pelas mãos de homens aparentemente comuns, convencidos de que uma pequena fraude, uma mentira provisória ou um sequestro familiar de consequências supostamente controláveis seriam apenas atalhos legítimos para a felicidade.

Poesia | João Cabral de Melo Neto, de Graciliano Ramos

 

Música | MPB4 - Roda viva

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Moraes exige discussão aberta transmitida ao vivo

Por O Globo

País está estarrecido com revelações sobre ministro. É inaceitável decisão a portas fechadas ou sessão secreta

A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) marcada para a próxima terça-feira traz à Corte a oportunidade de recobrar um mínimo de normalidade institucional. O país está estarrecido com as revelações sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e artífice da maior fraude financeira da História brasileira — e exige que a questão seja passada a limpo diante do público. Não há espaço para conchavos de bastidor, acordos a portas fechadas ou sessões secretas.