terça-feira, 23 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante a retirada de policiais cedidos a tribunais

Por O Globo

Supremo deve continuar preservado, ou haverá interferência indevida em investigações que atingem o governo

Investigações contra corrupção no Brasil esbarram com frequência em obstáculos que contribuem para transmitir a sensação de impunidade. O exemplo mais citado costuma ser a Operação Lava-Jato, desmontada depois que vieram à tona erros processuais, em especial a ação coordenada entre magistratura e procuradoria — que levou à anulação da vasta maioria das condenações, mesmo de réus confessos, diante de provas irrefutáveis.

Dar emprego a todos que queiram trabalhar: uma utopia? Por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Ano eleitoral é momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal

Mais cedo ou mais tarde, não muito tarde, o Brasil e outros países terão de enfrentar o problema do desemprego estrutural. Vários fatores, principalmente as inovações tecnológicas, aceleradas pela inteligência artificial (IA), indicam que o simples crescimento econômico não será suficiente para gerar postos de trabalho que garantam ocupações dignas e o sustento das famílias.

A despeito dos baixos níveis atuais de desemprego, a informalidade é uma marca do mercado brasileiro, com 40 milhões de trabalhadores, muitos deles iludidos pelo discurso do empreendedorismo.

A constatação da incapacidade de o sistema capitalista prover pleno emprego não é nova. O excedente estrutural de mão de obra sempre foi uma arma para redução de custos. Já nos anos 1960, o economista Hyman Minsky defendia a tese do “Estado como empregador em última instância”. Mas a constatação de que há uma emergência no enfrentamento desse problema fez ressurgir nos meios acadêmicos do país o debate sobre a criação de um Programa de Garantia de Emprego (PGE).

As chances de uma eleição de turno único em SP, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saída de dois pré-candidatos da disputa aumenta chances de reeleição de Tarcísio no primeiro turno deixam Lula sem palanque no segundo

A desistência de dois pré-candidatos ao governo de São Paulo, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) e ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), faz da eleição em turno único o cenário mais do que provável no Estado que agrega 22% do eleitorado nacional. A perspectiva de enfrentar um 2º turno sem palanque em São Paulo, visto que as projeções de todos os institutos são de elevadas chances de reeleição do governador Tarcísio de Feitas, levou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a refazer as contas.

Amigos, amigos, eleições à parte. Saída de Wagner é dilema de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o poder. Foi assim no mensalão e na Lava Jato.

A permanência do senador Jaques Wagner na liderança do governo no Senado é insustentável, não apenas pelo desgaste pessoal provocado pela Operação Compliance Zero, mas pelo risco crescente de que o Caso Master ultrapasse as fronteiras de uma investigação financeira e alcance o núcleo político do governo Lula. No Palácio do Planalto, a compreensão é de que o problema deixou de ser exclusivamente jurídico. Virou uma ameaça com potencial para influenciar a sucessão presidencial de 2026.

Onde está a magia do futebol brasileiro? Por Fernando Gabeira

O Globo

O futebol era o nosso principal recurso em ‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Forma e conteúdo, por Merval Pereira

O Globo

Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

Juros, inflação e contas públicas, por Míriam Leitão

O Globo

Os economistas discordam sobre a elevação da meta de inflação, mas concordam sobre a necessidade do ajuste fiscal de forma urgente

É uma boa ideia aumentar a meta de inflação para 4,5%, em vez dos atuais 3%, ou essa é uma proposta inflacionista? O economista Sérgio Werlang, que implantou o sistema de metas de inflação em 1999, defendeu que seja elevada. Arminio Fraga, que era presidente do Banco Central quando foi adotado o sistema, discorda de Werlang. Prefere que se discuta o “alongamento da convergência”, ou seja, que o prazo para que a meta seja atingida seja maior do que os atuais 18 meses. Arminio teme uma crise de crédito. O economista Bráulio Borges me disse que a mudança da meta é a discussão que ninguém gosta de ter, e a chamou de tabu.

Esquerdista or not esquerdista? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula dizer que ‘nunca foi de esquerda’ muda o quê, na eleição, nas Américas e no mundo?

Não é novidade o presidente Lula dizer agora que “nunca foi esquerdista”, mas o local, o momento e o ambiente político da América do Sul indicam que, desta vez, há uma clara intenção eleitoral, para ficar bem com o grande capital no Brasil e no mundo. Logo, foi um movimento calculado, em pleno G-7, o grupo dos países mais ricos.

Já em agosto de 2003, durante viagem à Venezuela, no seu primeiro mandato, Lula reagiu a uma pergunta minha com ênfase: “Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda e, quando me perguntaram se eu era comunista, eu respondi: ‘Sou torneiro mecânico’”.

Pactos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ocaso Master estabeleceu a lama como arena para a disputa eleitoral. Em curso a peleja por impor a própria versão sobre quem estará mais enredado na teia vorcárica, reivindicada já a vantagem de ser daquele grupo político com menos tentos no placar de contaminação por Daniel Vorcaro.

Já era sabido que Jaques Wagner, expressão maior do petismo baiano, deitara-se na rede vorcárica. Não se sabia a que custo e com que extensão – segundo a Polícia Federal, tal e qual o de Ciro Nogueira, configurado outro mandato parlamentar instrumentalizado a serviço de interesses privados do banqueiro.

A onda azul da direita sul-americana vai levar o Brasil? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Há temas que estão em alta e que direitistas souberam trabalhar melhor do que a esquerda

Movimento é pendular e, no futuro, veremos outras 'ondas vermelhas'

Se o padrão ainda não era claro, agora, depois Colômbia e provavelmente o Peru elegerem líderes de direita, ele deve estar: uma onda de direita está varrendo a América do Sul. Quando Lula iniciou seu mandato, Argentina, Colômbia, Peru, Bolívia e Chile tinham líderes de esquerda. Hoje, ou já têm líderes de direita ou acabaram de os eleger.

É um movimento pendular. No futuro, veremos outras "ondas vermelhas". Por enquanto, o trabalho é tentar entender o que está por trás desse movimento à direita. Segurança, corrupção, economia, migração; temas que estão em alta e que a direita soube trabalhar melhor do que a esquerda.

Por una cabeza, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eleição na Colômbia, a exemplo do que ocorrera no Peru, é decidida por margem mínima de diferença

Polarização afetiva e ambientes de circulação rápida de informações favorecem a volatilidade do eleitorado

Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.

O país da 'generosidade excessiva', por André Borges

Folha de S. Paulo

Parlamentares comparecem ao Congresso basicamente às terças e quartas-feiras

Magistrados e membros do Ministério Público podem parcelar descanso em cotas de cinco dias

No país onde o fim da escala 6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos empregos e ao crescimento do país, os homens da lei e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.

É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.

Como outros investigados, Jaques Wagner dá explicações vazias, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tragado pelo buraco do Master, senador petista vira dor de cabeça para projeto da reeleição

PF não para de investigar esquema de corrupção montado por Vorcaro nem na Copa do Mundo

Jaques Wagner —a mais recente dor de cabeça da campanha petista à Presidência da República— não é da Bahia. É do Rio de Janeiro, nascido em 1951, no seio de uma família judia que fugiu do nazismo. Seu pai militou no Partido Comunista da Polônia. Com 15 anos, o filho começou a fazer política no movimento sionista e a ler Marx. Perseguido pelo regime militar, abandonou o curso de engenharia civil e se estabeleceu em Salvador, onde conheceu Lula nos anos 80, ajudando a fundar o PT. Em 2018, ele quase foi o candidato do partido ao Planalto.

Uberização: o marco global da OIT e o desafio civilizatório do STF, por Adenir Carruesco*

Correio Braziliense

A flexibilidade valorizada por muitos trabalhadores não pode servir como salvo-conduto para a ausência total de proteção social. É aqui que a ética deve guiar a interpretação jurídica

Em 1750, Jean-Jacques Rousseau alertava que o progresso poderia esconder novas formas de servidão, ao tecer "grinaldas de flores sobre cadeias de ferro". Mais de dois séculos depois, sua metáfora parece descrever com precisão o trabalho em plataformas digitais.

As plataformas tecnológicas oferecem conveniência, flexibilidade e autonomia aparentes. Seriam as novas "grinaldas de flores"? Controles algorítmicos invisíveis, sistemas de pontuação que determinam quem trabalha e quem fica de fora, jornadas exaustivas disfarçadas de "horários livres" implicam em autonomia ou o trabalhador descobre-se amarrando a própria coleira?

O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Tema 1.291 ("uberização"), enfrenta o desafio de remover as grinaldas sem destruir a flor. A questão central é: podemos manter o pensamento maniqueísta, analisando apenas os extremos, entre relação de emprego típica (art. 3º da CLT) e relação autônoma, civil ou comercial? Ou será que se pode pensar em uma decisão que saia desse campo antagonista?

O homem apagado, por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido.  Mas era tarde demais.

O Filme da Revelação, por Vagner Gomes*

“O interesse, como instância isolada – como já fora percebido nas lições clássicas do radicalismo filosófico inglês, em Hegel, Tocqueville, para não falar de Marx -, conduzia ao particularismo na forma do Estado, e, nas condições retardatárias da sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da dependência pessoal, tendia a se combinar com as formas de mando oligárquicas e a sociabilidade de tipo hierárquico que prevaleciam no país. O primado do interesse, na Primeira República, assim, não se confronta com as formas de dominação tradicionais, antes as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstração de Victor Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o moderno que estaria representado pela economia dominante em São Paulo, sob a direção de um patriciado com origem na propriedade fundiária e orientado por valores de mercado – a Prússia paulista será uma invenção da Primeira República.” (Luiz Werneck Vianna, “Weber e a interpretação do Brasil”, 1999)

Poesia | Erro, de Machado de Assis

 

Música | Mônica Salmaso -Mar e Lua

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso deve ao país respostas sobre o caso Master

Por Folha de S. Paulo

PF avança em investigações que mostram relações de Ciro Nogueira e Jaques Wagner com a rede de Vorcaro

Presidente da Câmara recebeu favores, enquanto o do Senado tem seu estado envolvido; regulação do lobby seria medida moralizadora básica

A semana que passou trouxe novas e chocantes evidências do envolvimento de parlamentares na rede de influência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sem que as lideranças do Congresso Nacional tenham esboçado uma reação à altura do escândalo.

O caso em apuração mais avançada pela Polícia Federal é o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), cujas relações com o ex-controlador do Master eram conhecidas desde antes da quebra do banco.

Entrevista | presidente do PT: ‘Todos envolvidos no escândalo Master terão que se explicar’

Por Andrea Jubé – Valor Econômico

Presidente do PT, Edinho Silva diz que decisão de deixar ou não a liderança do governo no Senado é decisão de Jaques Wagner

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, disse ao Valor que a operação da Polícia Federal (PF) que arrastou o líder do governo e quadro histórico do PT, senador Jaques Wagner (BA), para o escândalo do Banco Master não atingirá a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Segundo o dirigente, que é coordenador-geral da campanha, Lula sempre cobrou a investigação das denúncias contra o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e acrescentou que o Master é “criação” do governo de Jair Bolsonaro. Sobre o afastamento de Wagner da liderança, argumentou que a prioridade é a defesa do aliado, e que deixar, ou não, o cargo será uma decisão dele, que terá o seu apoio.

Na área econômica, Edinho relativizou declarações recentes do coordenador do programa de governo, José Sérgio Gabrielli, que provocaram ruído com o mercado e com o setor produtivo. “Só tem um condutor da política econômica, se chama presidente Lula. E o seu porta-voz na economia, que é o ministro Dario Durigan”, afirmou.

Lembrando que o próprio Lula tem defendido a expansão dos gastos públicos, mesmo com a trajetória de alta da dívida, o dirigente ponderou que o presidente fala em meio a uma conjuntura de crise econômica mundial. Argumenta que o déficit é “controlado”, e que isso não significa acomodação, porque o governo vai buscar a responsabilidade fiscal e a eficiência dos gastos.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

A última linha de defesa da racionalidade se foi, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Novos argumentos contra a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central

Na semana passada expus minhas preocupações com a possível aprovação da PEC nº 65/2023, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central. A publicação do texto mobilizou servidores do Bacen, inclusive amigos, que me procuraram para apresentar as suas divergências aos riscos que apontei.

No artigo, embora tenha reconhecido as atuais limitações orçamentárias e de pessoal da autoridade monetária brasileira, destaquei os temores de que os superpoderes a serem concedidos pela PEC possam, no futuro, se converter em supersalários e irresponsabilidade fiscal.

Juro alto asfixia economia; resposta precisa ser no campo fiscal, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Sem medidas de ajuste das contas públicas, as taxas continuarão a castigar empresas e famílias e a manter as despesas financeiras do setor público na casa do trilhão

Os juros viraram o ano nas alturas, caíram pouco no primeiro semestre e não devem recuar muito mais nos próximos meses - se é que haverá na segunda metade de 2026 mais uma queda da Selic, hoje em 14,25% ao ano. A economia brasileira, tudo indica, vai continuar a conviver com taxas reais (descontada a inflação) de curto prazo próximas a 10%, e acima de 7,5% nos casos dos títulos de longo prazo do Tesouro corrigidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse nível de juros tem castigado empresas e famílias endividadas e aumentado fortemente o custo financeiro do setor público. Em 12 meses até abril, os gastos com juros atingiram R$ 1,095 trilhão, o equivalente a 8,43% do PIB.

Juros altos, país caro, por Preto Zezé

O Globo

Quem acorda às 4 da manhã para garantir o pão dos filhos não pode colocar a vida em pausa até que os indicadores melhorem

O Brasil é um país curioso. Quando a economia vai mal, a conta chega rapidamente à mesa do trabalhador. Quando melhora, os efeitos demoram a aparecer no supermercado, no crediário e no bolso de quem acorda cedo para fazer a vida acontecer. Nos últimos meses, o Banco Central iniciou um movimento de redução da taxa básica de juros. A Selic caiu para 14,25%, mas continua entre as mais altas do mundo. As projeções apontam desaceleração da economia, com crescimento em torno de 1,9%. Os números recomendam cautela, mas a experiência cotidiana dos brasileiros revela outra coisa: a sensação de que o esforço tem custado cada vez mais caro.

Em Brasília, acha-se normal o que é totalmente anormal, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.

A cena se passa em Brasília, em meados de 2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba Hugo Motta, do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao Estadão:

— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.

No Pantanal, iniciativa alia preservação e desenvolvimento econômico, por Demétrio Magnoli*

O Globo

O Revis da Bodoquena ao Delta do Salobra reduz antagonismos históricos entre conservação e produção rural. Não é 'de esquerda', nem 'de direita'

Num Pantanal que experimenta déficit hídrico desde 2019, o fogo vem aí, na esteira de uma nova seca excepcional impulsionada pelo El Niño. Lá, oeste de Mato Grosso do Sul, no corredor ecológico que conecta a Serra da Bodoquena ao Pantanal do Delta do Salobra, semeia-se uma resposta: um Refúgio de Vida Silvestre (Revis). A iniciativa alia preservação e desenvolvimento econômico.

A investigação se aproxima do poder, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A decisão do governo Luiz Inácio Lula da Silva de determinar o retorno de delegados da Polícia Federal (PF) cedidos a outros órgãos, inclusive gabinetes de magistrados, gerou controvérsia. O momento da medida coincide com o avanço das investigações do escândalo do Caso Master, que já alcançam figuras da oposição, mas também nomes do próprio governo Lula.

Seria uma tentativa de interferência política na PF? Mais importante do que especular sobre intenções é compreender os incentivos que surgem quando corrupção e eleições se encontram.

Entrevista | 'Chegou-se ao 8 de Janeiro por tolerarmos o que era intolerável', diz presidente do STM*, por Eliane Trindade

Folha de S. Paulo

Primeira mulher nomeada para o Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha preside a corte que julga a perda de patente de oficiais envolvidos na trama golpista

Casada com um general que teve irmão morto pela ditadura, ela critica o processo de anistia e resgata memória de julgamentos históricos em coletânea

Brasília - Uma boneca de pano vestida de toga enfeita a mesa da ministra Maria Elizabeth Rocha, 66, primeira mulher a integrar o Superior Tribunal Militar (STM) e a chegar à presidência da corte mais antiga do país.

O caminho até o amplo gabinete em um tribunal superior em Brasília foi trilhado com foco pela mineira de Belo Horizonte. "Não vou dizer que foi o destino, mas uma construção", diz ela, nomeada para o cargo pelo presidente Lula em 2007.

Naquele momento, estava bem posicionada como subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, de onde saíram vários indicados para os disputados cargos do topo da magistratura.

"Quando abriu uma vaga para o STM, Gilberto [Carvalho] dizia nos ouvidos do presidente Lula: ‘Coloque a Beth lá. Ela é uma constitucionalista feminista, progressista’", relata a ministra sobre a proatividade do amigo e então chefe de gabinete no Planalto.

Cena política nacional em alta definição, por Paulo Hartung*

Folha de S. Paulo

Novo livro de Jairo Nicolau nos convida a enxergar além da 'poeira' que a correria digitalizada espalha

Em "O País Divido", ele apresenta aspectos da cena política de 2002 a 2022, revelando um Brasil em profunda transformação

Vivemos, em grau maior ou menor, sob a lógica de uma temporalidade ultraveloz. As tecnologias da digitalidade promovem mudanças em escala jamais vista, nas mais variadas dimensões, dos processos produtivos às lógicas comportamentais.

Nesse contexto vertiginoso e de precária percepção de suas experiências, é fundamental observar o desenho que o movimento das sociabilidades vem riscando no chão da história.

Assim, o novo livro do professor Jairo Nicolau nos convida a enxergar além da "poeira" que a correria digitalizada espalha, muitas vezes ofuscando nosso olhar. Em "O País Divido", apresenta aspectos da cena política brasileira de 2002 a 2022, no marco de seis eleições presidenciais, revelando um Brasil em profunda transformação.

A Copa 2026 e a política das emoções, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Pesquisas medem efeitos de eventos que independem de governantes

Torneio mitiga impacto das sórdidas revelações do escândalo Vorcaro

Eventos fortuitos e alheios à ação dos governantes —como o desempenho da seleção na Copa— influenciam o comportamento dos agentes políticos? A democracia funciona quando os eleitores recompensam bons governantes e punem maus governantes. Mas se os cidadãos atribuem responsabilidade a governos por acontecimentos que não controlam, a racionalidade do processo democrático está em xeque. Autocratas mobilizam sucessos em eventos para alavancar popularidade, mas sua sobrevivência no cargo depende de força bruta e abuso de poder, não de eleições.

Lições de resistência ao racismo, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ritmo de transformação do Brasil é tímido demais, mesmo com políticas públicas de ação afirmativa

Professor e ativista Helio Santos propõe equidade racial como política central para o país

"No dia 14 de maio, eu saí por aí/ Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma, subi a favela/ Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci."

As estrofes iniciais da canção "14 de Maio", de Lazzo Matumbi, descrevem o pós-abolição e ilustram a construção dos alicerces de um dos países mais desiguais do planeta —o nosso.

A humilhação diária, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Pessoas de 90 anos têm de usar um smartphone para pagar uma conta ou marcar uma consulta

Os idosos se tornaram analfabetos dentro de casa, dependendo de um filho ou neto, se houver

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.

Poesia | O Gondoleiro do Amor, de Castro Alves

 

Música | Nara Leão - Chorinho (Chico Buarque)

 

domingo, 21 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Agenda econômica comum merece atenção na eleição

Por O Globo

Movimento Brasil Competitivo elenca sete prioridades sensatas para o Brasil dar um salto de desenvolvimento

Em tempos de polarização política, é bem-vinda a iniciativa do Movimento Brasil Competitivo (MBC), grupo formado por empresas e entidades empresariais, de apresentar uma agenda comum para o futuro do Brasil. A busca por um consenso mínimo na área econômica parte de três metas ambiciosas para os próximos quatro anos: aumentar a taxa de investimento dos atuais 17% para 20%; reduzir os custos de produzir e fazer negócios; e saltar da 65ª para a 30ª posição no ranking de competitividade do International Institute for Management Development (IMD) — na última edição, o país sofreu queda de sete posições.

A pátria em chuteiras e o desafio de Ancelotti no comando da seleção, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Não é apenas escolher os melhores jogadores e definir o esquema tático mais eficiente. A tarefa é transformar talentos dispersos num força coletiva que emocione os brasileiros

A memória é traiçoeira, ainda mais do nosso futebol. Com o passar do tempo, vitórias parecem inevitáveis e derrotas são acidentes de percurso. É o caso da Seleção Brasileira de 1970, lembrada hoje como a maior equipe de futebol de todos os tempos, liderada por Pelé, que encantou o mundo e conquistou definitivamente a Taça Jules Rimet. Entretanto, quando desembarcou no México, aquela seleção estava desacreditada.

A recente série da Netflix sobre a campanha de 1970, embora misture fatos e ficção, recupera essa verdade esquecida: o Brasil chegou à Copa cercado por dúvidas, como acontece agora com o time do técnico italiano Carlo Ancelotti. O trauma da eliminação na Inglaterra, em 1966, ainda estava vivo. A substituição de João Saldanha por Zagallo provocara enorme polêmica. Havia interferência política do regime militar. E dúvidas sobre a condição física de Pelé e Tostão e a capacidade do supersticioso técnico Mario Jorge Zagallo.

E La Nave va, por Merval Pereira

O Globo

Temos que esperar o que os fatos vão dizer, em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade

Do jeito que vai a política nacional, não é possível afirmar que o presidente Lula atingiu seu teto eleitoral, nem que o senador Flavio Bolsonaro está mantendo seu piso. A pesquisa do DataFolha indica, porém, a possibilidade de que a eleição se resolva no primeiro turno, ou que chegue ao segundo com os dois candidatos empatados na margem de erro. Os demais candidatos, tanto à esquerda quanto, especialmente, à direita, não parecem ter fôlego para dar uma arrancada nos próximos dois meses. A eleição dos rejeitados parece ser também a dos envolvidos em questões de corrupção.

O fator Master nesta eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Os atos de Daniel Vorcaro expõem uma crise política mais profunda, na qual a relação entre autoridades e endinheirados ultrapassa os limites do aceitável

O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.

Digital do PT no caminho no caso Master, por Elio Gaspari

O Globo

Entrada do senador Jaques Wagner era questão de tempo

A entrada do senador Jaques Wagner no panelão do Banco Master era uma questão de tempo. A oposição repetia há meses que as delinquências de Daniel Vorcaro começaram na Bahia. Lá atrás, durante a Lava-Jato, a polícia encontrou 15 relógios de luxo na casa do senador. (Um deles, mimo da empreiteira Odebrecht, foi avaliado pela Polícia Federal em 20 mil dólares. Ele explicou que eram imitações chinesas. Passaram-se dez anos, a PF foi lá e voltou a achar 15 relógios. O senador voltou a dizer que eram imitações chinesas. A reprise transforma Wagner num caso raro de colecionador de falsificações chinesas.

O PT já havia deixado uma digital no caminho de Daniel Vorcaro quando o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega levou-o a Lula no final de 2024.

Em 2016, quando uma parte do PT foi apanhada pela Lava-Jato, Wagner disse que “o PT se lambuzou”. Na quinta-feira, lambuzou-se o líder do governo no Senado.

O chefe na sala, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Extrema direita lidera pesquisas para eleição na Colômbia neste domingo; favorito se inspira em Bukele e Milei

Foi uma cena de teatro. Atrasado para a sessão do G7, Donald Trump adentrou a sala quando os demais líderes já estavam sentados. Ao passar pela cabeceira da mesa, estancou o passo, girou o corpo e proclamou, com humor canastrão: “I’m the boss” (Eu sou o chefe).

Divulgada pela Casa Branca, a performance bombou no noticiário e nas redes. Foi mais uma demonstração de poder do presidente dos Estados Unidos, que gosta de constranger aliados para afirmar sua força.

Não está faltando alguém? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Não é crível fazer busca contra dois senadores e não contra Flávio, com áudio, dinheiro e mentira

Dois senadores de polos políticos opostos, Jaques Wagner, do PT, e Ciro Nogueira, do PP, já sofreram operação de busca e apreensão, a pedido da PF e com autorização do relator, ministro André Mendonça, por suspeita de recebimento de altos valores e favores no caso Master. Não ficou faltando alguém? E o também senador Flávio Bolsonaro, do PL?

Não há respostas técnicas e jurídicas inquestionáveis. Como o processo corre sob sigilo, não se sabe sequer se a PF fez ou não o pedido de busca contra Flávio e se esse pedido foi ou não analisado por Mendonça. Em qualquer dos casos, “por quê?”.