sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Para surpresa de ninguém, rombo dos Correios continua

Por Folha de S. Paulo

Empresa puxa novo déficit recorde de estatais sob Lula, de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre

Após plano de reestruturação, programa de demissões voluntárias fracassa; gestão petista insiste tolamente em rejeitar a privatização

Sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as empresas estatais federais consideradas na apuração do resultado das contas públicas acumulam déficits históricos, agravando a pressão sobre o Tesouro Nacional. Em apenas dois meses deste 2026, o rombo já se aproxima do apurado em todo o ano anterior.

Dados do Banco Central mostram o descalabro. As estatais federais —excluídas as financeiras, como Banco do BrasilCaixa Econômica Federal e BNDES, e a Petrobras— registraram saldo negativo (excluindo gastos com juros) de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre —o pior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2002.

O Brasil oculto da polarização, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro

Parece que todos são contra a polarização política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se.

Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964.

Propostas para conter alta no custo de vida dividem o governo

Novo chefe da articulação política, Guimarães defende subvenção à gasolina e revisão da ‘taxa das blusinhas’, Alckmin diverge

Por Sofia Aguiar e Mariana Andrade / Valor Econômico

Os pacotes em elaboração pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva para tentar reverter a queda de popularidade da gestão federal têm sido marcados por divergências entre integrantes da Esplanada. A possível revogação da chamada “taxa das blusinhas”, como é popularmente conhecida a sobretaxa de importações abaixo de US$ 50 no Brasil, e propostas para mitigar os efeitos do conflito no Oriente Médio são exemplos de propostas que ainda não têm consenso na gestão.

Na quinta-feira (16), o recém-empossado ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse que as medidas anunciadas até agora pelo governo para reduzir o impacto da guerra no Irã nos combustíveis são “insuficientes”. Por conta disso, segundo ele, o Executivo deve anunciar novas ações “logo, logo”.

Dentre as medidas, ele citou a possibilidade de se oferecer subvenção à gasolina, como já foi aplicado a óleo diesel e gás de cozinha. Mais tarde, no entanto, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, negou tal estudo.

“Neste momento, [o governo] não [estuda subvenção para a gasolina]. Até porque a Petrobras não aumentou o [preço] gasolina, não teve nenhum reajuste”, comentou Alckmin.

Boulos e Guimarães, duas táticas de Lula na cozinha do Planalto, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade

Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm perfis completamente diferentes.

Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente, com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico, interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher resultados.

A Sabesp no palanque em SP, por Vera Magalhães

O Globo

Oposição a Tarcísio já deixou claro que a privatização será um dos principais focos da tentativa de desconstruir a imagem de eficácia

A privatização da Sabesp entrou definitivamente na pauta da campanha eleitoral em São Paulo. Isso porque começam a aparecer efeitos mensuráveis da venda, e muitos deles não são bons.

Concluída em julho de 2024, a operação marcou a venda do controle da companhia pelo governo de Tarcísio de Freitas, com a transferência de participação relevante ao setor privado e a entrada de um investidor de referência. Foram vendidos cerca de 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, com a Equatorial Energia adquirindo 15% e assumindo posição estratégica. O governo manteve participação minoritária e estruturou o modelo, com metas de universalização até o fim da década e promessa de até R$ 66 bilhões em investimentos.

A verdade de Eduardo Cunha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-deputado afirma que abriu caminho para ascensão do bolsonarismo

Eduardo Cunha disse uma verdade. O fato, por si só, já mereceria registro. Neste caso, ajuda a pensar os rumos do país na última década.

Em entrevista ao jornal mineiro O Tempo, o ex-deputado afirmou que a derrubada de Dilma Rousseff abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo. “Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República”, sentenciou.

Cunha perdeu o poder, mas não perdeu a pose. Imodesto, apresentou-se como precursor de “todos os expoentes da direita que aí estão”. Em provocação a Nikolas Ferreira, disse que muitos ainda usavam fraldas quando ele comandou a cassação da ex-presidente. “Tudo é fruto do meu ato. Sem o meu ato, nada teria ocorrido”, jactou-se.

Oposição às bets superou a polarização? Por Pablo Ortellado

O Globo

Lula e Flávio Bolsonaro têm criticado as apostas on-line, apontando — corretamente — a proliferação do vício e o alto nível de endividamento das famílias.

Nesta semana, em publicação nas redes sociais, Flávio atribuiu a regulação das apostas ao governo Lula e observou que tem “um monte de gente se iludindo e achando que vai ganhar dinheiro apostando até o que não tem, perde tudo e ainda fica endividado”. Na semana anterior, em entrevista ao portal ICL Notícias, Lula disse que “não é possível continuar com a jogatina desenfreada” e que, se depender dele, “a gente fecha as bets”.

Apesar de tudo, PIB vai levando, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

No Brasil, elemento adicional complica os prognósticos: o País entrou no modo eleições

Saiu mais um indicador do comportamento da economia neste ano tão cheio de incertezas. Trata-se do Índice da Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br. Em fevereiro, veio +0,60%, dentro do esperado, mas abaixo do obtido em janeiro, que foi de +0,78%. No período de doze meses terminado em fevereiro, o crescimento ficou em 1,88%.

O IBC-Br funciona como prévia do PIB, esta, sim, uma avaliação mais precisa da evolução da renda do brasileiro. Mas o número do PIB, aferido pelas Contas Nacionais, exige uma apuração complicada e leva mais tempo para conclusão. Sai apenas trimestralmente, com um atraso de mais de dois meses depois de fechado o trimestre. O IBC-Br é um cálculo mais ligeiro, que dá uma boa ideia de como está evoluindo a economia.

O faro de Vorcaro, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nem todo mundo ‘tem seu preço’, mas Vorcaro sabia farejar quem tem e vende a própria honra

Quando se olha a foto de Paulo Henrique Costa, a pergunta que vem à cabeça é imediata: como um homem de 49 anos, com mulher e filhos, bem-sucedido, que chegou a presidente do BRB, o banco estatal de Brasília, joga fora tudo isso, honra, biografia, liberdade, a própria vida e o futuro da família, por dinheiro?

O onipresente Daniel Vorcaro, que agiu desde o início do Master comprando poderosos, sabia que “nem todo mundo tem seu preço” e farejava quem era mais suscetível a vender a própria honra. A de Costa, por exemplo, custou a ele seis imóveis, no valor extraordinário de R$ 146,6 milhões, mas é bem provável que já estivesse à venda quando assumiu o BRB, em janeiro de 2019, por escolha pessoal do então governador Ibaneis Rocha.

Prejuízo de bilhões, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ibaneis Rocha diz que nada sabe. Celina Leão tenta vender ativos, mas encontra dificuldades

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi pego pelos investigadores da Polícia Federal em conversas para lá de comprometedoras com o exbanqueiro Daniel Vorcaro.

Poucas vezes em investigações de corrupção encontraram-se provas tão robustas.

“Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando”, escreveu Paulo Henrique Costa.

“Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apartamento”, responde Vorcaro.

Lula é visto como favorito em eleição presidencial por 48% dos brasileiros, aponta Quaest, por Mônica Bergamo

Folha de S. Paulo

Segundo pesquisa, 32% acreditam que o vitorioso seria Flávio Bolsonaro

Petista é apontado como provável vencedor em quase todas as regiões do país, exceto o Sul

Apesar da queda contínua em sua popularidade desde o fim do ano passado, e de sondagens que mostram que está empatado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, o presidente Lula (PT) segue sendo visto como o mais competitivo candidato a Presidente da República pelo eleitorado brasileiro.

É o que mostra a pesquisa Quaest realizada entre 10 e 13 de abril, e registrada sob o número BR-09285/2026.

Questionados sobre "quem ganharia as eleições para presidente deste ano" se o pleito estivesse sendo realizado agora, 48% apostaram no petista, contra 32% que acreditam que o vitorioso seria Flávio Bolsonaro e 2% que dizem acreditar nas chances de Ronaldo Caiado (PSD-GO).

Vorcaro e Costa, ex-BRB, devem fazer concurso de quem dá mais na delação de outros bandidos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ex-presidente de banco do DF negociava propina como quem fala de linguiça no churrasco

Governadora do DF ainda quer ajuda federal para tapar buraco criminoso do banco

A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP) ainda quer que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva arrume dinheiro para tapar o rombo da roubança do BRB, o banco estatal de Brasília. Como o banco não tem publicado balanços, não se sabe o tamanho do buraco —o Banco Central sabe. Se não interveio na coisa ou não liquidou o banco, deve imaginar que o buraco ainda possa ser coberto.

Leão diz que arrumou dinheiro de uma gestora de fundos, uma solução que parece espantosamente criativa, ao menos pelo pouco que se sabe dela, mas não o quanto realista ou suficiente, para dizer o menos. Não deve bastar, pois o banco adia sine die o balanço e pede dinheiro a Lula. Seria um escândalo que recebesse, ainda mais agora que se sabe mais sobre o propinaço do BRB. O governo Lula tem dito nas internas e em público que não vai fazer parte da operação tapa-buraco, nem por meio de bancos federais.

Injustiça eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula e o PT buscam culpados por maus resultados em pesquisas de intenção de voto

Eleitorado não costuma ser consistente na responsabilização de governantes

Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições.

Quem abusou da autoridade: o ministro ou o senador? Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Gilmar Mendes talvez tenha dado um tiro de efeito bumerangue na reação ao relatório de Alessandro Vieira

Senador pode ter errado o cálculo ao provocar o Supremo, mas o ministro extrapolou ao recorrer à PGR

Se as coisas funcionarem como manda o figurino da institucionalidade, o ministro Gilmar Mendes pode ter dado um tiro de efeito bumerangue ao pedir que a Procuradoria-Geral da República investigue o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) por abuso de autoridade.

Na concepção do magistrado do Supremo Tribunal Federal, o então relator da CPI do Crime Organizado teria abusado de suas prerrogativas ao incluir no seu relatório pedido de indiciamento dele, dos colegas Dias Toffoli e Alexandre de Moraes e do procurador-geral, Paulo Gonet.

Táxi Aéreo Vorcaro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Daniel Vorcaro deu carona a tanta gente pesada em seus jatinhos que eles tinham de cair

Neste momento, ele está consultando suas listas de passageiros e quanto cobrou de cada um

De tanto ler que o juiz Fulano, o senador Beltrano e o deputado Cicrano voaram "nas asas de Daniel Vorcaro", apelei para a IA a fim de saber mais. Recebi como resposta: "Daniel Vorcaro não tem asas. Seus membros posteriores, como os de qualquer ser humano, são braços. Talvez a pergunta se refira à sua frota de aviões particulares, entre os quais jatinhos dos quais se serviram diversas autoridades. Mesmo nesse caso, elas não voaram nas asas dos jatinhos, mas dentro das aeronaves. ‘Voaram’ é uma metáfora. Na verdade, viajaram confortavelmente sentadas e presas aos assentos por cintos de segurança".

Zuenir Ventura é tema de documentário

‘Mestre Zu’, dirigido pelo cineasta Zelito Viana, tem sessão hoje em São Paulo, parte da programação do Festival É Tudo Verdade

Gabriel Zorzetto / O Estado de S. Paulo

Muitos colegas se referem a Zuenir Ventura como uma “unanimidade”. De fato, o jornalista de 94 anos, um dos mais relevantes do País, parece não ter defeitos, conforme mostra o novo documentário Mestre Zu. “É complicado fazer um filme sem antagonista”, diz o diretor Zelito Viana (de Avaeté – Semente da Vingança e Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão), de 87 anos, que é irmão de Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. “Mas eu não quis que fosse algo chapa-branca.”

A película, com 70 minutos de duração, tem sessões de pré-estreia nesta semana em São Paulo, no É Tudo Verdade – o principal festival dedicado ao gênero na América Latina – e estreia comercial prevista para novembro. A obra retrata um homem ao mesmo tempo generoso e exigente, profundamente comprometido em interpretar e explicar o Brasil.

Revistas culturais, a falta que faz, por Ivan Alves Filho

As revistas culturais são, por vezes, a voz de um país. Nisso, se assemelham a algumas cantoras – e eu poderia citar aqui Cesária Évora, Dalva de Oliveira, Edith Piaf, Oum Kalthoum, Mercedes Sosa, Bessie Smith, Violeta Parra e Amália Rodrigues, que encarnam suas respectivas nações. A saber, pela ordem: Cabo Verde, Brasil, França, Egito, Argentina, Estados Unidos, Chile e Portugal.

Assim, como imaginar a França, por exemplo, sem a publicação L´Homme, fundada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss? Ou a revista La Pensée, voltada para o racionalismo moderno? Mais: como pensar essa mesma França sem Les Temps Modernes, revista dirigida durante anos pelo casal Jean-Paul Sartre – Simone de Beauvoir? La Nouvelle Critique é outra estupenda publicação francesa, assim como Europe. A Magazine Littéraire, por seu turno, era de leitura obrigatória, com riquíssimas edições temáticas. E a Revue des Deux Mondes, fundada em 1829 e cuja versão eletrônica acompanho sempre, ainda cumpre uma bela função. E o como imaginar a Itália sem Rinascità, fundada por Palmiro Togliatti e que circulou entre 1944 e 1991? Ou Portugal sem a Revista Camões?

Poesia | Se os tubarões fossem homens, de Bertold Brecht

 

Música | João Gilberto - Saudosa Maloca (1982), de Adoniran Barbosa

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Excessos puseram a perder a CPI do Crime Organizado

Por O Globo

Embora relator tenha apresentado argumentos para indiciar ministros do Supremo, nenhum era suficiente

Depois da rejeição do relatório da CPI do Crime Organizado que pedia o indiciamento por crime de responsabilidade de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República, o momento exige comedimento das autoridades. Houve excessos de Legislativo e Judiciário, e nada seria pior do que manter um clima de ataques, ameaças e xingamentos, que, além de desalentador, é contraproducente.

No Legislativo, a CPI ficou muito aquém do esperado. Pouco avançou na exposição dos mecanismos usados pelo crime organizado. Não revelou nenhuma novidade surpreendente sobre as ramificações de PCC, CV, milícias e outras organizações criminosas. Num momento em que a segurança desponta como maior preocupação dos brasileiros, o Senado perdeu uma oportunidade de responder aos anseios das ruas.

Revelações sobre ex-presidente do BRB explicam insistência para negócio tão danoso, mas há muito a esclarecer, por Míriam Leitão

O Globo

prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, conhecido como PH Costa, e do advogado Daniel Monteiro, homem de confiança do banqueiro Daniel Vorcaro, na quarta fase da operação Compliance Zero, ajuda a esclarecer o que ocorreu dentro do Banco de Brasília (BRB). A investigação da Polícia Federal identificou que PH Costa recebeu propina do Master e que lavou esse dinheiro com a compra de imóveis de luxo, entre eles um apartamento no edifício Vizcaya Itaim, próximo à Faria Lima, ainda em construção, com unidades à venda entre R$ 30,1 milhões e R$ 46,2 milhões, como mostrou a colunista Malu Gaspar. As investigações ainda estão em andamento, mas já se descobriu o suficiente como o papel do advogado nesse trabalho de lavar o dinheiro em compra de imóveis.

A apatia política, por Merval Pereira

O Globo

O confronto tribal entre lulismo e bolsonarismo, um duelo de rejeições que paralisa o país, está restrito a manobras eleitoreiras personalistas

A mais recente pesquisa Quaest revela, além dos números, uma apatia eleitoral que favorece o candidato da extrema direita, senador Flávio Bolsonaro. Jogando parado, ele vai crescendo na simpatia do eleitorado a ponto de estar, pela primeira vez, numericamente à frente do presidente Lula, que patina em torno dos 40% no segundo turno. Na eleição de 2022, não houve apresentação de programas, somente promessas vãs durante o horário eleitoral. Hoje repete-se a situação, com os dois principais candidatos se digladiando sem que haja uma discussão aprofundada sobre os problemas brasileiros.

Menos carne de paca e mais olho no centro, por Julia Duailibi

O Globo

Campanha de Lula deveria apertar o botão do ‘para’ e mudar a estratégia se quiser vencer

Pesquisa Quaest mostra avanço consistente de Flávio Bolsonaro (PL) entre os eleitores independentes, e essa é a pior notícia que o Planalto poderia ter no levantamento divulgado ontem. Uma vez que os independentes decidirão a eleição, a campanha de Lula deveria apertar o botão do “para” e mudar a estratégia, se quiser vencer.

A diferença entre os dois candidatos, que era de 16 pontos percentuais a favor de Lula no começo do ano, se inverteu e agora é de 7 pontos percentuais pró-Flávio. Ele lidera o segmento com 33% das intenções de voto ante 26% de Lula. Em janeiro, Flávio tinha 21% no grupo, ante 37%. A rejeição do presidente também é maior no segmento: 61% dizem que não votariam nele, e 54% não votariam em Flávio. Outra notícia ruim é o aumento do percentual de independentes dizendo que Lula não deve continuar na Presidência: em janeiro, eram 64%; agora são 71% — a margem de erro no grupo é de 3 pontos percentuais.

Lula, Flávio, as classes médias e a maldição de Marilena Chauí, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Pesquisa Quaest indica percepção negativa sobre o custo de vida e o poder de compra, especialmente entre os segmentos de renda intermediária

Desde o golpe de 1964, a esquerda brasileira tem dificuldade de compreender o comportamento das classes médias na política. À época, a deriva à direita desses segmentos da população deu base social ao golpe militar, inviabilizando qualquer resistência do governo João Goulart. Também foi o apoio das classes médias, devido ao chamado “milagre econômico”, que garantiu o grande respaldo obtido pelo governo fascista do general Emilio Médici na sociedade.

A volta do pêndulo se deu apenas em 1974, em consequência do primeiro choque do petróleo, do fracasso econômico do general Ernesto Geisel e da alta da inflação, que atingiu indistintamente a grande massa de assalariados, inclusive os de classe média. O resultado foi uma surra do MDB no partido do governo, a Arena, em novembro daquele ano. Historicamente, a noção de “classes médias”, no plural, é central para compreender a política brasileira.

Brasília, entre a trégua e a pizza, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Entre a rejeição do relatório da CPI e o favoritismo de Messias, os Três Poderes fazem acordos que não ficarão incólumes às eleições

Em breve se saberá se o que se viu esta semana em Brasília foi o arranjo de uma trégua ou a preparação de uma pizza. Um e outra têm consequências distintas para o poder a ser disputado em outubro e, como causa, ou, pelo menos, uma delas, a busca (desastrada) por sua excelência, o eleitor.

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) desentendeu-se com o governador do seu Estado. Não conseguiu vaga para a recondução de seu mandato na chapa de Fábio Mitidieri (PSD) à reeleição. O isolamento favoreceu uma estratégia sôfrega de pesar a mão no relatório da CPI do crime organizado. Todos fazem comissões de inquérito de palanque eleitoral, mas, até para isso, precisam de aliados.

O Brasil diante do risco de ficar mais para trás, por Assis Moreira

Valor Econômico

Há necessidade de um choque de reformas diante de um cenário internacional cada vez mais desafiador

Em 2011, o PIB per capita do Brasil era equivalente a apenas 31,18% da média daquele dos 19 países mais ricos. Dez anos depois, caiu para 26,44%, com o nível de desenvolvimento socioeconômico do país ficando mais distante de convergência com grandes economias.

Após a pandemia de covid-19, o Brasil registrou forte crescimento da economia, mas a diferença de PIB per capita em relação aos países da OCDE continua significativa. Em 2024, o PIB por empregado no país era 73,33% menor do que a da média nos principais países desenvolvidos.

Crônica de uma guerra estúpida, por José Vicente Pimental*

Correio Braziliense

No seu triunfalismo midiático, Donald Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia

Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras. Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro. Movido por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas do Estreito.  

A constelação obscura se partiu, por Eugênio Bucci*

O Estado de S. Paulo

Orbán foi o que podemos chamar de significante inaugural na composição da rede de líderes nacionalistas, antidemocráticos e reacionários que empesteia o planeta

A derrota eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria, no domingo passado, é um acontecimento de proporções globais. A barulhenta repercussão na imprensa internacional atesta o que digo aqui, mas uma das razões da magnitude desse fato ainda não foi exposta. Vale um artigo.

Muito se disse que Orbán era o centro europeu da estratégia da ultradireita na Europa. Verdade. Ele procurava seus aliados entre os que sabotam consistentemente o Estado Democrático de Direito. Como um agente duplo (um carro flex, uma lente multifocal ou um chip ambivalente), pactuou com Donald Trump e com Vladimir Putin, simultaneamente. Tirou vantagens e as devolveu. Cuidou de atrapalhar, de embolar e de descosturar o apoio europeu à Ucrânia, em manobras que a Casa Branca e o Kremlin, por interesses distintos, agradeceram.

‘No pasarón’, por William Waack

 

O Estado de S. Paulo

A crise entre os Poderes, com o Supremo e o Executivo unidos, está escalando

A operação de salvamento do STF da atual crise de credibilidade e legitimidade parece baseada em ordens que se tornaram célebres na história militar. Por não funcionarem. “É proibido recuar”, diz a ordem, geralmente dada quando não se sabe mais o que fazer.

No caso do STF, é preciso saber se há contingentes suficientes para cumprir essa ordem. Não há mais uma direção central dizendo por onde caminhar. E as diferentes posturas para sair da crise estão aprofundando um racha inédito. Pelo menos uma ala dentro da Corte acha que fincar o pé no lugar é uma postura fatal.

Quem tem medo de André Mendonça? Por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Ministros do STF acreditam que relator das investigações sobre o Master poupará colegas

A pergunta que paira sobre Brasília é: qual o tamanho da delação de Daniel Vorcaro? Ao mesmo tempo, outra dúvida ronda o Supremo Tribunal Federal (STF): André Mendonça vai partir com tudo para cima dos colegas nas investigações sobre o Banco Master, ou vai poupá-los?

A resposta à primeira dúvida ainda é desconhecida. Vorcaro segue negociando a colaboração premiada com a PF e a PGR. Gente com acesso ao caso acredita que a delação ficará pronta a partir de maio, margeando o processo eleitoral.

E o dólar vai deslizando, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Nesta semana, a cotação do dólar resvalou para abaixo dos R$ 5, patamar que não se via havia mais de dois anos. Ontem, fechou a R$ 4,9922. Em doze meses, a queda do dólar em relação ao real alcança 15,16%.

Como a economia brasileira continua carunchada pelo rombo nas contas públicas e a dívida vai galopando para acima dos 80% do PIB, cabe entender de onde vem essa força do real e examinar suas consequências.

Tem a fraqueza do dólar, que pode pesar mais do que a força do real. As despesas do governo Trump só vêm aumentando e o déficit por lá preocupa. Não dá para ignorar o movimento de redução das aplicações em títulos da dívida dos Estados Unidos pelos países que detêm volumes altos de reservas. O enfraquecimento do dólar em relação ao euro ao longo deste ano alcança 4,3%.

Tarcísio não é um moderado, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Polícias de SP mataram em média duas pessoas por dia neste ano

Abusos policiais não têm nada a ver com combate ao crime

As polícias paulistas nunca foram tão violentas quanto hoje sob Tarcísio de Freitas, ao menos desde o início da série histórica, há 30 anos. Entre outubro a dezembro de 2025, policiais em SP mataram 276 pessoas, o trimestre mais sangrento desde 1996, quando se iniciou a contagem. Em 2026, policiais paulistas mataram uma média de duas pessoas por dia, 130 ao todo entre janeiro e fevereiro, um aumento de 41% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Blusinhas', mentira do Pix e INSS assombram Lula, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente pede ideias para mexer em imposto de importação sobre compras até US$ 50

Estão em estudo também medidas de crédito para caminhoneiros, taxistas e inadimplentes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende fazer algo a respeito da "taxa das blusinhas", o imposto federal de 20% sobre importações no valor de US$ 50, regulamentado em junho de 2024. A possível providência faria parte do jorro entre apressado e improvisado de medidas eleitorais. O governo está aflito com a inesperada baixa extra do prestígio presidencial —inesperada ao menos para o governismo.

Pesquisas de opinião indicam que o tributo ficou atravessado na garganta do povo até hoje. Há revolta mesmo contra a fiscalização do Pix, medida técnica e meritória que, na propaganda mentirosa e esperta da direita, foi pintada em janeiro de 2025 como um primeiro passo para a tributação dessas transferências de dinheiro, que levaram o povo miúdo para o sistema financeiro.

Está inaugurada a temporada das bondades eleitorais, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Como se não houvesse amanhã, governo de plantão e Congresso usam período para acelerar benesses

Há quatro anos, no dia 14 de abril, manchete da Folha estampava: 'Bolsonaro decide dar aumento de 5% a servidores e militares'

Está inaugurada a temporada das bondades eleitorais. O governo de plantão e o Congresso usam esse período para acelerar a adoção de benesses como se não houvesse amanhã.

Essa não é uma ação particular do governo Lula. Uma pesquisa simples das manchetes dos jornais deste mesmo período do ano, em 2022, mostra medidas adotadas pelo então presidente Jair Bolsonaro para angariar apoio à sua reeleição.

A insanidade tomou a Casa Branca, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Nação mais poderosa do mundo é conduzida por um desvairado

Ao contrário das autocracias, democracias têm recursos para conter aspirantes a ditadores

Não poderia ter acontecido, mas aconteceu. A nação mais poderosa do planeta passou a ser conduzida por um desvairado. A lista dos desatinos de Donald Trump é estarrecedora. No plano interno, desorganizou a administração pública; desencadeou o terror contra os imigrantes; ameaçou as melhores universidades; pôs em xeque a pesquisa científica; chantageou a mídia e espalhou a incerteza sobre o que está por vir.

Já no plano externo, virou de ponta-cabeça o comércio mundial; tratou aliados como inimigos; ameaçou anexar nações soberanas; invadiu a frio uma, a Venezuela, e sequestrou seu ditador; iniciou a guerra que incendeia o Oriente Médio; xingou o papa.

Trump, o Jesus de hospício, por Rui Castro

Folha de S. Paulo

Já não basta a Trump ser o homem mais poderoso deste mundo; quer ser o do outro também

Para a psiquiatria nos EUA, seu caso já é de camisa de força e doses triplas de sossega-leão

Quais são os mais populares heróis de hospício? Perdão, quais são as figuras históricas que pessoas mentalmente comprometidas mais são dadas a interpretar nas casas de repouso? Pelos compêndios, os campeões são Napoleão, Sherlock Holmes, Elvis Presley e Jack, o Estripador. Para as mulheres, Cleópatra, a rainha Elizabeth e Marilyn Monroe. Mas há uma figura que supera todas as outras, e que a ciência já nem considera: Jesus Cristo.

Os Cadernos do Cárcere de Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, por Marco Mondaini*

A terra é redonda

As cópias anotadas dos Quaderni del Carcere de Gramsci pertencentes a Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, descobertas na Unicamp, revelam ênfases distintas: o primeiro nos processos históricos europeus, o segundo na literatura e na práxis política

A descoberta

Tudo começou numa terça-feira, 17 de março, do ano em curso. Acabara de chegar à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o início de um pós-doutorado junto ao seu Departamento de Sociologia, sob a supervisão do professor Marcelo Ridenti, que gentilmente me convidou a acompanhar uma visita guiada – com a sua turma de graduação da disciplina Pensamento Social do Brasil – à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho.

Adquirida pela Unicamp em 1983, logo após o falecimento do autor de Raízes do Brasil, em 24 de abril de 1982, a coleção é composta por aproximadamente 10 mil volumes, dentro de um espaço que procura reconstituir o escritório de Sérgio Buarque, com a sua escrivaninha, cadeira de repouso e máquina de escrever.

Vantagens da oposição nas opiniões aferidas nas pesquisas, por Vagner Gomes*

A ninguém escapa a observação d’este facto curioso que toda oposição, por mais inexplicável, ou impura, que seja a sua origem, com o andar do tempo, vai gradativamente ganhando a simpatia pública. A meu ver, não é difícil encontrar a explicação de tal fenômeno. Pensam em geral que o público é oposicionista por índole. Mas não, o que o público é por índole, desde que não entre em questão o imediato interesse dos indivíduos que o compõem – é amigo da virtude, e, para mim, é regra que a oposição é virtuosa. Esta regra terá exceções, mas não deixará de ser uma regra.

Assis Brasil, Democracia representativa, 2022, p. 113¹

Não faltaram os avisos de que o atual incumbente presidencial não seguiu os caminhos políticos que o elevou ao terceiro mandato. A Frente Ampla foi assumida como uma tática eleitoral em 2022 deixando a cultura política da Aliança Democrática (vitória no Colégio Eleitoral em 1985) a intermitentes referências. A governança esteve “anos luz” de distância da política de Frente Democrática, portanto ela não está esgotada diante da política sectária de sobrevivência de uma máquina partidária que empurrou um senhor conservador filho de Dona Lindu a proferir opiniões de uma pluralidade de “bolhas”.

Poesia | Capinan - Te esperei - com violão de Gerado Azevedo