domingo, 16 de agosto de 2026

Lixão de cacarecos em órbita, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Começou com o humilde Sputnik em 1957; hoje há mais de 1 milhão de objetos no espaço

Uma arruela de 2 centímetros, voando a 28 mil quilômetros por hora, pode esburacar uma nave

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Brasil descobre mais petróleo e torra o dinheiro como se não houvesse amanhã, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Receita petrolífera do governo cresce, mas investimento produtivo cai e dívida explode

Mesmo com mais descobertas, falta de regras prejudica crescimento e investimentos para gerações futuras

Parece que há petróleo no mar diante e distante da costa do Amapá e do Pará, chamado de bacia da Foz do Amazonas, disse a Petrobras. Vai levar tempo para saber quanto petróleo explorável há por ali. Pode bem ser que exista mais petróleo em toda a Margem Equatorial (o mar diante de Norte e parte do Nordeste) e na Bacia de Pelotas.

Caso exista petróleo na Foz do Amazonas, vai levar tempo para que comece a ser extraído (uns sete anos). Ainda assim, diminuiria o risco ora previsto de que, a partir de 2031, por aí, comece a diminuir a produção petroleira do Brasil.

Seja como for, a disposição política quase geral é de gastar em despesa corrente o dinheiro que os governos recebem com impostos, dividendos, royalties, participações e outras rendas petrolíferas.

O país já torra a receita crescente de petróleo ou se endivida com base na ideia de que tal receita é regular e permanente. O futuro que se dane.

Um cacique contra tempestades, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Acordo entre Prefeitura do Rio e Fundação Cacique Cobra Coral desperta troll das redes sociais

Pretensão à racionalidade absoluta é contradição em todo fiel religioso

Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.

Confraria de interesses se une a Lula, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Comandantes do Congresso, centrão e parte do STF jogam fichas na reeleição de olho em garantias

Kassab disse alto o nome de um jogo perceptível, mas que estava sendo jogado com discrição

Gilberto Kassab (PSD) revelou um segredo de polichinelo quando disse que "o centrão está com Lula". Quem não sabia disso passou a desconfiar a partir das digitais do Palácio do Planalto nas declarações de neutralidade de partidos como PPUnião BrasilRepublicanos, Podemos e MDB.

A certeza veio pela voz do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), na saída do segundo encontro entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União) depois de três meses sem se falarem.

A Última Democracia, por Vagner Gomes*

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O vai e vem das pesquisas, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

A explicação para a dança dos números que se observa nas pesquisas envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível

Já começamos a temporada de intensificação das pesquisas de intenção de voto. Ao longo dos últimos pleitos, uma maior variabilidade de resultados encontrados entre os diferentes institutos de pesquisa tem sido observada de forma mais frequente, além da ampliação do número de institutos operando. Afinal, para que servem as pesquisas e por que os números têm nos parecido tão instáveis?

Avaliar as intenções do eleitorado e mapear a sua evolução ao longo das campanhas é algo importante em uma eleição. Os números nos permitem observar não apenas quem está numericamente à frente, mas movimentos de crescimento, queda, estabilidade, rejeição, indecisão e transferência de votos.

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Hoje sabemos que Platão e Aristóteles foram a culminação, não o início, do pensamento filosófico grego, cujo voo se iniciou quando a Grécia atingiu ou estava prestes a atingir o seu clímax. O que permanece verdadeiro, porém é que Platão e Aristóteles vieram a ser o início da tradição filosófica ocidental e que esse início, diferentemente do início do pensamento filosófico grego, ocorreu quando a vida política grega já se aproximava realmente do seu fim. Talvez não exista em toda a tradição do pensamento filosófico, e em particular do pensamento político, um fator de importância e influência tão avassaladora sobre tudo o que viria depois do que o fato de Platão e Aristóteles terem escrito no século IV a.C. o pleno impacto de uma sociedade política decadente.

Surgia assim o problema de como o homem, se tem de viver numa polis, pode viver fora da política. Esse problema, que por vezes apresenta uma estranha semelhança com a nossa própria época, muito rapidamente se converteu na questão de como é possível viver sem pertencer a nenhuma comunidade politicamente organizada, vale dizer, em condições de apolitismo ou o que diríamos em condições de não-cidadania. Ainda mais sério foi o abismo que imediatamente se abriu, e desde então nunca mais se fechou, entre pensamento e ação. Todo pensamento que não seja o mero cálculo dos meios necessários para se obter um fim pretendido ou desejado, mas se ocupe do significado no sentido mais geral, veio a desempenhar o papel de um ”pós-pensamento”, isto é, um pensamento posterior à ação que decidiu e determinou a realidade. A ação, por sua vez, foi relegada à esfera sem significado do aleatório e do fortuito. “

*Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, pp.45-6, Difel, Rio de Janeiro, 2008.

Poesia | Ode ao burguês, de Mário de Andrade

 

Música | Tom Jobim e Chico Buarque: Sabiá

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto, como qualquer outo partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.”

*Hannah Arendt (1906-1975), “Origens do totalitarismo”, p. 474, Companhia de Bolso, São Paulo, 2020.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descaso fiscal é a alma da nova lei dos combustíveis

Por O Globo

Equipe econômica saiu celebrando ajuste de fachada depois de governo ceder a Congresso ávido por vantagens

As negociações que levaram à aprovação nesta semana do Projeto de Lei Complementar (PLP) dos Combustíveis dão a dimensão do descaso do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Congresso com a situação das contas públicas. Com a guerra no Oriente Médio, o preço do barril do petróleo disparou, e o Planalto começou a anunciar medidas com a intenção de amortecer a escalada no preço dos combustíveis. Criou um imposto sobre exportações de petróleo para poder desonerar a venda de diesel. Mas queria mais: oferecer subsídios que garantissem gasolina barata na bomba — e, para isso, precisou usar recursos do Tesouro.

‘Para Flabia, Fidel Castro’, por Flávia Oliveira

O Globo

O regime que ele inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump

Fidel Castro (1926-2016) completaria 100 anos na última quinta-feira, 13 de agosto. Líder da Revolução Cubana (1959), ícone da resistência ao boicote econômico dos Estados Unidos, que se estende desde então, foi inequívoca personalidade histórica do século XX. Jovem jornalista, fui a Havana, encontrei Fidel. O enredo começou em meados de 1999, quando o então presidente cubano veio ao Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro, reunião de chefes de Estado de América Latina, Caribe e União Europeia. De olho em potenciais investidores brasileiros, Fidel desafiou o então presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, a levar à ilha uma delegação de empresários. Desafio aceito, partimos, eu pelo GLOBO, quatro meses depois.

Por que decisões de Moraes têm de ser lidas à luz da política, por Thaís Oyama

O Globo

Ministros do STF ‘fazem política’ com tanta naturalidade que é como se a atividade fizesse parte de suas atribuições

Em que momento magistrados do Supremo Tribunal Federal passaram a agir como políticos é difícil precisar. Mais fácil, talvez, seja tentar localizar quando começaram a se comportar assim de forma pública.

Pouca gente criticou quando, em maio de 2023, o ministro Alexandre de Moraes trabalhou à luz do dia para que o presidente Lula indicasse dois nomes próximos dele para as duas vagas de juristas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que ele presidia. Moraes vivia, então, a fase em que seu status de “herói da democracia” lhe servia como salvo-conduto para heterodoxias diversas. Jornais trataram a nomeação dos apadrinhados do ministro como prova de sua “força”. Ninguém perguntou desde quando juiz monta grupos. Muito menos alguém perguntou se era adequado que o presidente do TSE fizesse isso poucas semanas antes do julgamento da inelegibilidade de um ex-presidente da República e adversário derrotado pelo presidente no poder.

O que devo a Ney Matogrosso, por Eduardo Affonso

O Globo

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa

Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53 anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14 anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.)

Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo, Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que era, a um tempo, geografia e metáfora.

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma festa.

Fim da credibilidade de uma superpotência, por Fareed Zakaria

Washington Post / O Estado de S. Paulo

Trump trata promessas como blefes; os aliados estão reagindo criando alternativas

As potências entram em declínio quando os países deixam de organizar o mundo em torno delas

Na semana passada, um pequeno terremoto geopolítico abalou o Oriente Médio. A Arábia Saudita e a Turquia – duas nações que mantiveram uma hostilidade aberta uma em relação à outra durante grande parte da última década – comprometeram-se a entrar em guerra em defesa uma da outra. Juntamente com o Paquistão, elas assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, declarando, ao estilo da Otan, que um ataque a uma delas seria considerado um ataque a todas.

O Paquistão e a Arábia Saudita mantêm, há muito tempo, laços estreitos em matéria de segurança. Mas a Arábia Saudita e a Turquia têm sido rivais regionais acirrados, entrando em conflito por causa do Catar, do Egito, da Irmandade Muçulmana e, de forma mais explosiva, do assassinato de Jamal Khashoggi em Istambul, pelo qual o líder turco, Recep Tayyip Erdogan, pareceu culpar diretamente o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman.

Quaest: Lula tem 43% ante 40% de Flávio no segundo turno, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 38% das intenções de voto e o senador Flávio Bolsonaro (PL) registra 31% no primeiro turno da eleição presidencial, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta sexta-feira (14). Num segundo turno entre os dois, Lula marca 43%, enquanto Flávio aparece com 40%.

Na rodada anterior, divulgada no dia 5 deste mês, Lula possuía 39% no primeiro turno, ante 30% de Flávio. Os levantamentos, porém, não são diretamente comparáveis, já que a lista de candidatos mudou. No segundo turno, o candidato do PT alcançava 44%, enquanto o do PL tinha 39%.

As oscilações de Lula e Flávio se deram dentro da margem de erro, mas começam a apontar uma tendência de recuperação de Flávio, após uma série de crises em sua campanha. O quadro de segundo turno é de empate, do ponto de vista estatístico, considerando a margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos.

Kassab diz que chance de Flávio Bolsonaro ser eleito é ‘zero’ e que Centrão está com Lula, por Pedro Augusto Figueiredo e Renan Porto

O Estado de S. Paulo

Candidato a vice-presidente disse a empresários que filho de Jair Bolsonaro é poupado neste momento e que ‘desabará’ após início da campanha

Presidente do PSD e candidato a vice-presidente, Gilberto Kassab disse a uma plateia de empresários na quinta-feira, 13, que o senador Flávio Bolsonaro (PL) é “preservado” neste momento das críticas dos adversários e que vai “desabar” nas pesquisas quando a campanha começar oficialmente, no próximo domingo, 16.

“Eu posso falar para vocês que a chance do Flávio se eleger é zero”, disse Kassab durante uma reunião na sede do Iate Clube de Santos, localizada em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. “A própria pesquisa é tendenciosa porque ela não pega o Flávio que está apanhando durante a campanha. Ele está sendo preservado. Na hora que o PT mostrar quem é o Flávio e as pessoas que estão no entorno dele, ele vai desabar”, acrescentou.

2027, a hora da verdade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Quem quer que vença a eleição presidencial terá de lidar com o problema fiscal

Não ser claro sobre as dificuldades à frente é uma forma de estelionato eleitoral

Se as análises de economistas não estão erradas, 2027 terá algo de hora da verdade. Não importa quem vença a eleição presidencialterá de lidar com o nó fiscal em que o país se enredou.

A fórmula que Lula encontrou para promover índices de crescimento confortáveis com baixo desemprego não é sustentável. Ela se baseou em estímulos ao consumo e expansão de gastos públicos. A prodigalidade do Executivo, sancionada e reproduzida pelo Legislativo, impacta nos juros. Para conter a inflação, o Banco Central precisa manter taxas reais em níveis elevados, o que tem efeito sobre a dívida pública. Pelas projeções, sob Lula 3, a dívida bruta do governo aumentará em 11 pontos percentuais, chegando a 83% do PIB.

Lula, a última valsa, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

A campanha do presidente tornou-se o guarda-chuva sob o qual articula-se a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está

No terceiro mandato, o reformismo brando de Lula dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista

PT veste vermelho, quando concorre para marcar posição, alternando às cores nacionais quando crê no triunfo. Lula vestiu branco, sob o fundo de uma bandeira verde-amarela, na convenção de lançamento de sua sétima candidatura presidencial. "Lulinha porreta", como se exibiu? Não: isso foi dirigido à militância. O sétimo Lula é o candidato da "ordem".

"Ordem", aí, com aspas. O certo é candidato do status-quo, ou seja, da desordem institucional. Sua campanha tornou-se o guarda-chuva sob o qual se articula a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está.

Ao confiar mais em balas que em urnas, políticos conservadores se tornam alvo de violência, por Angela Alonso*

Folha de S. Paulo

Ocorrências são tão velhas quanto a República, mas governos de direita abrem campo com estímulo a armas

De 2003 a 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados

A saída acabou sendo mais momentosa que o debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do partido adversário. Aconteceu em São Paulo e não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.

Na presidencial, Flávio Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude à arminha do pai: "A esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio de Freitas tinham prometido conter.

Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.

Os sonhos não envelhecem, a esperança não se apagou, por Marcus Pestana

Não tenho dúvidas, o melhor ambiente para a condução dos destinos do mundo é a democracia. Mas ela, humana, carrega as contradições que são próprias de nossa natureza: virtudes e pecados, sentimentos generosos e perversos. Talvez, seja a política a atividade que melhor encarna a complexidade e os mistérios da existência humana. Há um lado nobre convivendo com traços abjetos. Solidariedade ao lado de ambições desmedidas. Fome de liberdade e justiça disputando espaço com a corrupção. Vontade de melhorar a vida de todos, lado a lado, ao egoísmo, ao patrimonialismo e à manipulação.

Ainda sobre a Lava Jato, por Pedro Serrano

CartaCapital

A operação vestiu-se da aparência de um processo penal comum, mas com conteúdo material de caráter tirânico com fim imediato de destruição da democracia brasileira

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça aplicou, por unanimidade, a pena de disponibilidade pelo prazo de 60 dias aos desembargadores federais lavajatistas do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, isso por descumprirem decisões de lavra do Supremo Tribunal Federal que determinavam a suspensão de ações penais. A vulgarmente conhecida Operação Lava Jato, sob pretexto de combater a corrupção, acarretou efeitos nefastos para os direitos fundamentais, à dignidade e à liberdade de muitas pessoas, consoante inclusive reconhecido por instâncias do Judiciário brasileiro e mesmo pelas Nações Unidas.

Candidato a capitão do mato, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

Flávio Bolsonaro não procura voto, espera apenas que Trump tome o poder para ele, à força

Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.

Chantagem e segredos, por André Barrocal

CartaCapital

O jogo de Luiz Antonio Lopes na denúncia de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar, vice de Flávio

Está nas mãos de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a decisão capaz de esclarecer uma acusação gravíssima contra o deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas. O escolhido para ser vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro cometeu ou não estupro de vulnerável, ou seja, fez sexo com uma menor de 14 anos? Pelo artigo 217-A do Código Penal, esse crime é punível com prisão por um período de dez a 18 anos, e não importa que o acusado alegue ter havido consentimento da vítima. A Polícia Federal pede desde abril para investigar o caso. Antes de autorizar ou negar, Mendes quer ouvir o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e este requereu à PF diligências preliminares antes de se manifestar. No início de agosto, o juiz enviou a solicitação de ­Gonet à polícia e, também, àqueles que em março acionaram a PF, o deputado ­Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, e a senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul.

Keynes e Descartes, por Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O inglês subverteu os modelos da “economia das certezas”, que engessam a capacidade de observar

Quem procura conhecimento, procura saber mais. Essa correlação só acontece se você procura conhecimento livre de dogmas, doutrinas e certezas. Saber mais requer algumas características: ceticismo, inconformismo e incomodação. A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige ter mais dúvidas do que certezas. Sempre duvide das certezas ou verdades absolutas.

Hegel invocou René Descartes e disse que o pensador iluminista “começou do zero, do universal, do pensamento como tal, e que esse é um novo e absoluto começo.

“A afirmação de que o começo deve ser construído a partir do pensamento apenas ele expressou, dizendo que devemos duvidar de todas as coisas – de omnibus est dubitantur, não no ceticismo, como se devêssemos permanecer sempre em dúvida, na completa indecisão da mente.”

Eleições dramáticas, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Tensão institucional e polarização elevam a temperatura do pleito

Finalmente, a campanha de verdade vai começar. Até agora foi o ensaio de um espetáculo desafinado, com protagonistas desastrados e enrolados nos cadarços dos próprios sapatos. A plateia se divide entre odiar um ou outro dos ponteiros — e torcer por uma terceira via que não consegue entrar em cena.

Como toda eleição presidencial, temos dramas em curso. Teme-se a transição; outros temem o continuísmo. Nesta eleição, porém, há camadas adicionais: tensão institucional, incerteza econômica, polarização, escândalos graves, questões geopolíticas e uma disputa intensa pelas narrativas.

Luta pelo poder, por José Casado

Revista Veja

Manifesto de chefes da PF mostra a dimensão da crise nos Três Poderes

Uma crise avança como rio de enchente pela Praça dos Três Poderes, em Brasília. Governo, Supremo Tribunal Federal e Congresso estão em conflito, enredados numa profusão de investigações criminais por corrupção com patrocínio e beneficiários políticos — fraudes bilionárias no Banco Master, no INSS e nas emendas parlamentares ao Orçamento, entre outras.

Esses múltiplos inquéritos já desenhavam contornos de uma liquefação, reafirmada em plena campanha eleitoral com o inédito manifesto dos chefes da Polícia Federal em 26 estados e no Distrito Federal.

É uma grande confusão institucional na qual predominam interesses privados dos dois candidatos mais destacados nas pesquisas sobre a disputa para a Presidência da República: Lula, que tem um dos filhos sob investigação nas maracutaias do INSS; e, Flávio Bolsonaro, que já confessou ter recebido dezenas de milhões de reais em transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por trapaças em série.

A razão da Grécia, por Ivan Alves Filho*

O maior livro de síntese que eu li sobre a história grega, sua cultura e impacto sobre a própria trajetória do Ocidente e, mesmo, sua expansão para outras áreas do globo, foi Pourquoi la Grèce?, de Jacqueline Romilly. Desconheço se existe tradução em português dessa obra que revela, em um volume apenas, a extraordinária contribuição grega no campo da Filosofia, da Democracia Política, da História, das Artes e mesmo da Medicina. 

Poesia | Tecendo a manhã, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Mônica Salmaso - Senhora das Canções - Um Tributo a Elizeth Cardoso

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirar do ar lives do Discord foi medida desproporcional

Por O Globo

Suicídio induzido expôs omissão da plataforma, mas ANPD agiu de modo intempestivo para agradar Janja

A morte de uma menina de 13 anos na pequena Naviraí (MS) deu realidade aos piores temores dos pais de adolescentes. As investigações revelaram que ela foi induzida a se mutilar e ao suicídio por um grupo reunindo um jovem de 18 anos e cinco adolescentes durante transmissão ao vivo na plataforma Discord. Diferente de uma rede social convencional, o Discord oferece a possibilidade de abrir canais privados com ferramentas de comunicação por voz, vídeo, texto ou transmissões ao vivo (lives).

A repercussão do caso foi tão grande que a primeira-dama Janja Lula da Silva exigiu que o Discord fosse “imediatamente” retirado do ar. Menos de uma semana depois, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as transmissões ao vivo e recursos de compartilhamento de vídeo da plataforma no Brasil.

Que eleitor é esse? Por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O enrijecimento do eleitorado indica a impossibilidade de inovar na política

Quem é, de fato, o eleitor brasileiro desta quadra de anomalias políticas que é soma de várias “pequenas” ciladas propositais, semeadas ao longo dos anos que começam com o fim da ditadura militar, para impedir que eleitor seja de fato pessoa e cidadão?

“Só Deus sabe”, pretexto entre nós comum para dizer que não cabe a nós decidir. Nosso eleitor é a expressão de um republicanismo que foi criado aqui como mera forma externa de República “para inglês ver”, simular civilização e fazer de conta que não somos um país muito atrasado. Esse é lado aparente e forma da realidade política.

Por votos, Lula vai rugir contra bets e big techs, por Andrea Jubé

Valor Econômico

O pior dos mundos para o presidente será a volta da “taxa das blusinhas” a um mês do primeiro turno

É conhecida a admiração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ex-presidente Getúlio Vargas, por legados como os direitos trabalhistas e a Petrobras. Porém, atualmente, é o general Eurico Gaspar Dutra, sucessor do “pai dos pobres”, que provoca inveja no petista, porque, há 80 anos, com uma canetada, ele proibiu cassinos e jogos de azar no Brasil.

Conselheiros de Lula passaram a defender que ele faça o mesmo, assinando, ainda durante a campanha, uma medida provisória (MP) para proibir as bets no país. Em 1946, o instrumento de Dutra foi o “decreto-lei”, antecessor da MP.

O Centrão 'lulou'? Por Vera Magalhães

O Globo

Apoio de Hugo Motta e retomada de conversas com Alcolumbre mostram que caciques do Congresso enxergam chance maior de reeleição do petista

Às vésperas de voltar ao cenário onde tudo começou, na Vila Euclides, em São Bernardo, Lula passou a semana costurando em Brasília, com resultados que passam longe da vista do eleitor, mas podem ter efeitos importantes para o desenrolar da campanha. Num intervalo de poucos dias, obteve o apoio público do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à sua reeleição e conseguiu conduzir uma reunião menos truncada e tensa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A adesão de Motta, com quem o Planalto viveu uma relação de altos e baixos desde fevereiro do ano passado, quando ele assumiu a Câmara, se explica por fatores da conjuntura política local, é verdade. Mas tem mais do que isso: um apoio explícito, logo na largada da campanha, por parte de um político que chegou a gravitar em torno do bolsonarismo demonstra aposta clara na reeleição do petista.

De volta para o futuro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Desafio de presidenciáveis é atrair público para exibir força no início da campanha

A corrida presidencial vai começar em clima de déjà vu. Na largada oficial da campanha, Lula e Flávio Bolsonaro tentarão recriar cenas do passado. O presidente voltará a São Bernardo do Campo para relembrar as greves do ABC. O senador vai à Praia de Copacabana, onde espera reviver os tempos de glória do pai.

O ato de Lula foi batizado de “Onde tudo começou”. A ideia é lotar o estádio da Vila Euclides, palco das assembleias de metalúrgicos que o projetaram na cena nacional. Os marqueteiros querem recriar as imagens do líder no meio do povo, como se caminhasse sobre a multidão. Na versão original, ele discursou aboletado numa mesa de escritório. No remake deste domingo, poderá andar sobre uma passarela, como um astro da música pop.

Regulação de plataformas digitais não é banimento, por Pablo Ortellado

O Globo

O pedido da primeira-dama teve enorme repercussão e politizou a discussão sobre o Discord, que deveria ser tratada tecnicamente

Na quinta-feira da semana passada, Janja da Silva pediu o banimento do Discord pela morte de uma menina de 13 anos. O pedido da primeira-dama teve enorme repercussão e politizou um tema que deveria ser tratado tecnicamente, agora que temos um arcabouço regulatório moderno com o ECA Digital.

Parte da esquerda correu para apoiar o banimento — uma medida autoritária e completamente desproporcional —, enquanto parte da direita correu para denunciar o banimento como medida típica de autocracias e ditaduras. A medida cautelar da ANPD, que suspendeu temporariamente uma funcionalidade do Discord, foi técnica e proporcional, mas sua recepção foi contaminada pela gritaria da política. Sob a fumaça do fogo cruzado, foi difícil perceber que o Discord continua no ar, que a medida é reversível (se condições forem cumpridas) e que há mecanismo de recurso para a empresa. Mais importante: a ANPD poderia ter pedido ao Judiciário a suspensão do Discord e não pediu.

Uma defesa nacional de portões fechados, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

A frase que deveria ser dita é esta: sim, temos condições de nos defender, desde que compreendamos a urgência e a amplitude dessa tarefa

Falar de defesa nacional como um indivíduo não especialista é um pouco de ousadia. No entanto, é democrático que um tema dessa dimensão possa ser discutido pelo maior número de gente possível.

Esta semana, recebi um artigo que escrevi em O Pasquim criticando, quem diria, o velho Tancredo Neves. Ele havia passado pela Itália e anunciado que na Presidência iria fortalecer a produção bélica no Brasil, que, naquela época, já rendia US$ 3 bilhões em exportações. Minha crítica baseava-se no fato de que o tema era muito restrito ao poder, não havia uma discussão pública sobre o tema. Mas era, também, uma discordância em relação à produção de armas para exportar. O mundo naquele momento parecia rumar para a paz, havia um maior respeito das leis e convenções internacionais.

Inquérito das fake news virou escudo, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ocaso do jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida é um exemplo de como o inquérito das fake news está sendo utilizado para violar o sigilo da fonte e perseguir jornalistas que apontam supostas irregularidades de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Criminalistas e defensores da liberdade de imprensa ouvidos pela coluna apontam uma sequência de erros na condução do caso. O primeiro é a busca e apreensão do notebook e do celular do jornalista por suposto crime de perseguição por causa de publicação de reportagens que apontavam familiares do ministro Flávio Dino utilizando carros oficiais do governo do Maranhão e do Tribunal de Justiça do Estado.

Se a moda do Xandão pega..., por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao violar o sigilo da fonte, Moraes fez um favor a Flávio Dino e um desfavor à democracia

É inacreditável a insistência de ministros do Supremo para tentar confirmar as acusações equivocadas do governo Donald Trump de que Alexandre de Moraes, o STF e o próprio Brasil não são democráticos. Moraes não para de atrair chuvas e trovoadas contra si e contra um poder vital para a democracia que ele tanto defendeu.

A última do ministro foi excessiva e desnecessária: mandar vasculhar o repórter e a fonte da informação de que o também ministro Flávio Dino e sua família usam carro oficial e blindado do Estado quando estão no Maranhão. A fonte vazou e o repórter publicou dentro das regras e da rotina do jornalismo.

Inteligência artificial na educação, por Simon Schwartzman*

O Estado de S. Paulo

A depender de como ela é usada, a IA pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir desigualdades não só no acesso às informações, mas também na aprendizagem

A professora passa um trabalho para casa, o aluno pede ao Claude ou outro programa de inteligência artificial (IA) que faça para ele, e entrega tudo certinho e bem feito. A professora desconfia, manda fazer um trabalho semelhante em sala de aula, e ele não consegue. Conclusão: com a inteligência artificial as pessoas podem até ficar mais espertas, mas ficam mais burras, aprendem menos. Certo?

Não necessariamente. Antigamente, para fazer multiplicações, era necessário saber de cor a tabuada, e, para números maiores, saber as regras de multiplicação por grade ou coluna. Hoje, com as calculadoras, quase ninguém mais decora tabuada e qualquer um consegue fazer as contas em segundos. Ficamos todos mais burros em aritmética ou ganhamos ao abandonar uma metodologia antiga e substituí-la por uma tecnologia moderna?