Cientista político afirma que pacote para bolso do eleitor, ruas
mobilizadas e apoio de Janones foram chave da vitória de Lula, mas que avanço
da direita radical é 'ameaça' que não desaparece com resultado da eleição.
Marina Rossi - Da BBC News Brasil
A vitória do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano foi, em grande parte,
sustentada pela mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as
necessidades reais da população.
Extinguir as bets, reconhecer o alto preço dos
alimentos e criar medidas com impacto direto no bolso da população foram
iniciativas cruciais para a virada do
primeiro para o segundo turno, analisa o cientista político André Singer,
professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São
Paulo (USP).
Mas o autor do recém-lançado Impasse - O
Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre
outras obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de Donald Trump
nas eleições de meio de mandato nos
Estados Unidos, a democracia ainda corre risco.
"Estamos diante de uma extrema-direita violenta e
abertamente antidemocrática", afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.
Uma das explicações para o avanço da direita radical,
segundo o pesquisador, seria o agravamento das desigualdades causado pela crise
financeira de 2008, apontada como a pior recessão global desde a Grande
Depressão de 1929.
De lá para cá, não importa muito quem vem ganhando as
eleições: a vida das pessoas não está melhorando, defende Singer. "A
sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e
para os seus filhos", afirma.
Parte dessa população, portanto, se deslocou para a direita
radical, que avançou muito nos últimos anos em todo o mundo.
"A boa notícia que eu posso dar para quem é
favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não
está encontrando solução para essas pessoas."
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.