sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Democracia de massa, por José Sarney*

Correio Braziliense

No domingo, vamos viver a nossa festa democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar esse pacto entre o governo e o povo

Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.

Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Voto ao Legislativo exige atenção maior do eleitor

Por O Globo

A dias do pleito, quase três em cinco brasileiros não sabiam em quem votar para deputado ou senador

A menos de uma semana da eleição, 59% declaram não saber em quem votarão para senador e 57% não definiram seus votos para deputado federal e estadual, segundo pesquisa Datafolha. É compreensível que a atenção do eleitor esteja fixada nas disputas por cargos no Executivo, sobretudo presidente. Mas a indefinição a respeito de candidatos ao Congresso a tão pouco tempo do pleito revela falta de conhecimento sobre a extensão da influência dos parlamentares nos destinos do país. Ela é enorme.

Filha de FHC declara voto em Lula e cita defesa da democracia, por Gabriela Echenique

Folha de S. Paulo

Beatriz Cardoso afirma que valor democrático é indispensável para 'sociedade mais justa'

Declaração reforça posicionamento público adotado no segundo turno de 2022, quando Lula disputava com Jair Bolsonaro

Filha do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Beatriz Cardoso declarou que votará em Lula (PT) nesta eleição e que escolheu defender a democracia brasileira.

O pai dela, que governou entre 1995 e 2002, foi um dos principais adversários políticos de Lula antes do surgimento do bolsonarismo, na década passada.

Datafolha: Lula tem 45% e Flávio Bolsonaro, 40% em votos válidos no 1º turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Cálculo exclui brancos e nulos, como faz TSE para declarar resultado; 17% dizem que ainda podem mudar de voto

Na simulação de 2ª rodada, presidente e filho de Bolsonaro empatam com 48% e 45%, respectivamente

A corrida eleitoral de 2026 chega às vésperas do primeiro turno com Lula (PT) somando 45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio Bolsonaro (PL).

Já no segundo turno, em votos totais, há empate técnico: 48% para o presidente e 45% para senador fluminense.

É o que aponta nova pesquisa do Datafolha, realizada de terça-feira (29) a esta quinta (1º), com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

Há uma semana, o petista tinha 43% de votos válidos no primeiro turno e 47% de totais no segundo. Seu principal rival, 39% e 45%, respectivamente.

O imponderável, as omissões, as baixezas e os azares que podem definir a eleição acirrada, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Disputa não muda faz um mês, indica Datafolha; decisão de primeiro turno seria improvável

Resultado pode depender de corpo a corpo, abstenção e dificuldades do eleitor mais pobre

A distância de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para Flávio Bolsonaro (PL) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da pesquisa Datafolha, haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do Fluminense (o time do escritor).

Em suma, campanha corpo a corpo, um evento digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.

O currículo de Flávio Bolsonaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Democracia não se presta a favorecer boas escolhas para governantes

Possibilidade real de eleição do candidato do PL é a melhor prova disso

O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência, por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

'A Vida de Galileu' parte da biografia do físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade

Questões levantadas por Brecht fazem pensar em temas contemporâneos como a regulação da IA

Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.

A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.

Lula no Flow Podcast: veja entrevista na íntegra

 

Poesia | Poética, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola - Nervos de Aço

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

País pagará o preço do debate eleitoral indigente

Por Folha de S. Paulo

Lula se recusa mais uma vez a participar de confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo

O país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro

A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional.

Flávio Bolsonaro (PL), que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.

A indigência do cotejo de programas é o efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.

As últimas 72 horas da guerra eleitoral, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quatro em cada dez eleitores não têm Lula ou Flávio na ponta da língua. Quer melhoria de vida, mas, nesse tiroteio, terá que escapar de bala perdida

A 72 horas do início da votação, quatro em cada dez eleitores não têm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o senador Flávio Bolsonaro na ponta da língua. São brasileiros que não apenas não sabem quem são Daniel Vorcaro ou Roberta Luchsinger, como tampouco têm qualquer interesse nos personagens. A decisão acontece na virada do mês que mal deram conta de fechar, uma grande parte deles, no prejuízo.

O eleitor típico desta escolha derradeira é mulher, católica, do Sudeste e da classe C (renda familiar de R$ 2 mil a R$ 8 mil). Este é um perfil que tem-se repetido ao longo das últimas disputas. Trata-se de um eleitor que é mais dificilmente captado pelas pesquisas, seja porque não para pra responder quando é abordado na rua e não abre sua casa para pesquisador, seja porque desliga quando recebe uma ligação. Dez anos atrás era preciso fazer 15 chamadas para que se conseguisse um questionário completo. Agora são, em média, 300.

Flávio vai; Lula, não. Faltar ao debate da Globo é decisão de alto risco, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As polêmicas eleitorais foram deslocadas para o terreno institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as intervenções da Justiça Eleitoral e a exploração da religião

Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de 1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som “três em um” — rádio, vitrola e toca-fitas — que teria dado de presente a uma ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.

Lula endurece discurso sobre segurança na reta final para buscar indecisos e desgastar Flávio

Por Victoria Azevedo e Jeniffer Gularte / O Globo

Guinada aparece em materiais que a campanha passou a distribuir, com propostas mais rígidas no enfrentamento à criminalidade

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) endureceu o discurso sobre segurança pública às vésperas do primeiro turno, numa tentativa de atrair indecisos e o eleitor de centro e de desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário do petista na disputa pela Presidência. Pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou que a violência é a principal preocupação dos eleitores, com 33% de menções.

A guinada aparece em materiais que a campanha passou a distribuir, como uma lista com 13 propostas por "mais firmeza contra o crime". Uma delas endurece regras para a liberação de presos por crimes violentos após audiência de custódia, numa mudança de tom em relação ao que a esquerda defende historicamente. O conteúdo também defende mais câmeras corporais em policiais, ampliação do programa Celular Seguro e construção de novos presídios federais, entre outros pontos.

Além disso, foi divulgado um vídeo que apresenta tom mais duro no combate à criminalidade, ao mostrar quatro homens atrás das grades e falar em "quatro inimigos" que precisam ser vencidos: "Os traficantes, os agressores de mulheres, os ladrões de celular e os magnatas do crime". Outra peça no horário eleitoral mostra uma mulher caminhando pela rua acompanhada do filho, desviando de munições e exibindo a frase "a família Bolsonaro deixou o Brasil mais violento" para criticar a flexibilização da política armamentista implementada no governo passado.

O fato novo, por Merval Pereira

O Globo

O sentimento do presidente é mais de soberba que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas pesquisas.

O presidente Lula já teve a experiência, em outra encarnação presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da eleição presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco sua reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos, aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno, deixando tontos os petistas.

STF na eleição mostra Brasil disfuncional, por Julia Duailibi

O Globo

Supremo apareceu não porque foi provocado a agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir a sobrevivência

Na terça-feira, o presidente Lula telefonou de cima de um palanque para o ministro Flávio Dino em plena campanha eleitoral. Estava em Belém e queria parabenizá-lo por um projeto criado por Dino, enquanto senador, que prevê controle de qualidade dos serviços prestados pelos hospitais privados. A iniciativa do ministro, sancionada por Lula, ocorreu depois da trágica morte do filho dele, de 13 anos, durante atendimento num hospital privado de Brasília.

Para além da importância da matéria sancionada, a imagem sintetiza o que foi a campanha de 2026. Uma confusão entre política, candidatos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo junto e misturado. Uma disputa eleitoral em que se falou muito pouco sobre o que aflige os eleitores ou o que é fundamental para um projeto de país. Mas foi dominada pelo STF, que entrou com os dois pés na eleição.

O que houve com a dívida pública, por Míriam Leitão

O Globo

A explicação para o crescimento da dívida pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo ou os altos juros

A dívida pública subiu e ronda o país. Mas para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83% do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica toda a alta da dívida pública.

A eleição dos desafetos, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo.

Muita gente aí do seu lado celebra por antecipação o vislumbre de que ‘aquilo a que odeia’ será destruído

A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou, se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.

Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém, como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como ele, foi tão incompreendido.

‘Quem ganhar a eleição leva’, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Salvo o imprevisível a 48 horas das eleições, o que parece pesar mais são fatores amplos e fora do controle. A saber: abstenção e a “temperatura”, ou “percepção”, ou “sentimento” em relação à economia.

Sim, a definição da situação de empate ocorrerá dentro do que se previa. Junto a uma pequena parcela do eleitorado concentrada no Sudeste. Como Lula sai mais prejudicado (em termos relativos) pela taxa de abstenção no Nordeste, a diferença que ele precisa buscar está no eleitorado mais “sensível”, digamos assim, ao famoso “feel good factor”.

Não importa tanto a camada social, esse sentimento é contrário ao incumbente, tal como captado em sucessivas pesquisas. Ele sugere um estado de espírito disseminado segundo o qual tudo é difícil e caro. Os economistas constatam que a renda aumentou, mas a renda disponível, não.

A sala de lanches e a guerra fria no STF, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Ministros do tribunal se encontram antes das sessões para tomar café em ambiente tenso

Nos dias de sessão, antes de entrarem no plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem nele.

Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça, a atmosfera também está ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente. Na semana passada, o clima estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na antessala.

O dever cristão de se manter informado, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro no país também ofende a Cristo

Mas tenho direito à ignorância e sou livre para renunciar à minha liberdade

Eu posso ignorar que Flávio Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.

Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.

Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.

Bolsonaros propõem caça às bruxas no Itamaraty, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se irmão for eleito

E há o risco de a promessa se alastrar para outros órgãos, como PF e BC

Duas reportagens de Patrícia Campos Mello publicadas nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio Bolsonaro, se eleito.

Depois do isolacionismo implementado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.

Guerra santa é apenas sintoma do vale-tudo da política de um país sob ameaça de golpes, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha de 2010 também teve questão religiosa oportunista; 2026 é muito pior

Selvageria que tira carne e medula do osso das instituições é a nova regra do jogo

A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada.

Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.

A última eleição da Nova República, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Direitas optaram por entregar liderança à sua facção mais autoritária

Esquerdas têm que oferecer tradução renovada de seus compromissos

O presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República.

As direitas, em transição geracional, optaram por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim, produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.

Deus, cabo eleitoral com exclusividade, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Por suas declarações em palanques, é como se Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus

Um deles é o de que vai terceirizar seu mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?

Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais assim. Flávio Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência. E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e, se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.

"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.

Donald Trump é um ser humano horrível que viraliza das piores formas, por Thomas L. Friedman

The New York Times / Folha de S. Paulo

Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos

Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso

Donald Trump é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no lugar do retrato de Biden?

Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da Era da Inteligência Artificial, não se pode ignorá-lo.

Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos. Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.

Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve', por Vinícius Mendes

BBC Brasil

Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.

Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.

"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.

"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".

Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.

No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.

O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.

Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.

E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.

Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.

"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.

A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

Poesia | O operário em construção, de Vinicius de Moraes

 

Música | Xande Canta Caetano - Muito Romântico

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta no custo do BPC exige revisão de critérios

Por O Globo

Tornar mais racional gasto com o benefício não significa deixar quem precisa sem assistência — ao contrário

A trajetória do gasto com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo a brasileiros com mais de 65 anos ou com deficiência e baixa renda, ressalta a urgência de reformular os programas sociais. Entre 2016 e 2025, o BPC foi a despesa com maior aumento médio real entre os gastos não financeiros do governo. Pelos cálculos otimistas da equipe econômica, custará R$ 153,3 bilhões aos cofres públicos em 2027, alta de 7,2% na comparação com 2026. Computando o reajuste recente do Bolsa Família, os dois principais benefícios assistenciais consumirão mais de 10% das despesas primárias da União no ano que vem.

O discípulo do Conde Koma, as eleições e a dimensão da crise do Supremo, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança

Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades. Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força bruta.

Cenas finais de um 1º turno estéril em propostas, por Fernando Exman

Valor Econômico

Primeiro turno se aproxima sem que os principais candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória

A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu nos últimos dias estancar os problemas que vinham se acumulando e, após semanas na defensiva, reequilibrou o jogo. Para aliados do petista, o freio de arrumação precisa continuar. E deve ser ainda mais intenso, se a direita repetir a arrancada final que costuma dar nas disputas presidenciais e o senador Flávio Bolsonaro (PL) passar para o segundo turno na dianteira.

Como dizem no mundo do futebol, Lula estava “encaixotado” pelo adversário. Em outras palavras, estava bloqueado por uma marcação tática que o impedia de trocar passes, avançar pelo campo e criar novas jogadas. Flávio tinha maior posse de bola, dominando a pauta da campanha e neutralizando as investidas do presidente.

Os estrategistas de Flávio sabiam que o plano do Palácio do Planalto era insistir no discurso de que Lula recebeu do ex-presidente Jair Bolsonaro um país destruído, com a máquina federal aos pedaços, e ao longo dos últimos anos conseguiu restabelecer as políticas públicas que haviam sido abandonadas. Com a casa arrumada, a reeleição então serviria como ponto de virada para um país melhor, com mais qualidade de vida e poder de compra para a população.

Quando a Igreja entra na mira, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Documento cita ameaças e intimidações a bispos católicos; início da ofensiva coincide com ano em que o clã chegou ao poder

No último domingo, a cúpula da Igreja Católica se viu arrastada para a guerra eleitoral. O candidato do PL ao Planalto acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de propagar mentiras para prejudicá-lo.

Sem apresentar provas, Flávio Bolsonaro disse que “gente de dentro da CNBB” teria ajudado a disseminar o que ele chamou de fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. A fala viralizou nas redes e deu início a uma série de ataques à entidade. Não foi a primeira vez.

Um estudo feito pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O início da ofensiva coincide com o ano em que Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Entre os detratores citados no relatório, estão influenciadores bolsonaristas, uma produtora de vídeos de extrema direita e políticos do PL, como Paulo Bilynskyj, Gil Diniz e Eduardo Bolsonaro. O documento deixa claro que os ataques ultrapassam a disputa de opiniões. Há casos de ameaças, intimidações e ofensas.

Eleição descamba para temas aleatórios, por Vera Magalhães

O Globo

Captura da campanha por assuntos inflados artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da política e esgotamento da atual polarização

Quando parecia que a eleição deste ano não tinha como ficar mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por uma escalada sem pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida e terminou, como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

A guerra santa se fundiu à guerra aberta entre ministros da Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam imaginar para uma campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à lista de favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às propostas para o futuro do Brasil.

Ideia de Lula de faltar a debate é arriscada, por Elio Gaspari

O Globo

Como não há ideias nem propostas, Nossa Senhora Aparecida ocupou o espaço vazio

Lula tende a não ir ao debate de quinta-feira na TV Globo. Com isso, o primeiro turno ficará sem debate entre os candidatos competitivos. É pena, mas os nomes de uma terceira via tiveram meses para romper a barreira de um dígito e não conseguiram. Essa monotonia fez da eleição presidencial um evento burocrático, sem ideias, plataformas ou desafios. Lula 4.0 seria uma continuação de Lula 3.0, que nada foi além dos Lulas passados. Há um candidato do PT, outro contra o PT, e estamos conversados.

A ideia de faltar a mais esse debate é arriscada. Numa eleição apertada como esta, a imagem da cadeira vazia pode ter um efeito desastroso mesmo para o segundo turno.

Nossa Senhora Aparecida que se cuide, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

A guerra santa promovida após vir à tona uma notícia falsa de que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, pretendia tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ressuscitou a batalha entre duas alas do STF, às vésperas das eleições.

Não bastasse a campanha do primeiro turno estar chegando ao fim sem que os eleitores saibam as propostas dos candidatos para comandar o País pelos próximos quatro anos, agora os dois principais postulantes à Presidência têm um juiz para chamar de seu. Na prática, a agenda sobre o que precisa ser feito para impulsionar o desenvolvimento do Brasil foi sequestrada pelo escândalo do Banco Master e pela crise do STF.

O gênio das eleições, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Na reta final do primeiro turno, Lula parte para o vale-tudo do populismo

Medidas testam limites do eleitor moderado, que não tem tantas alternativas

O eventual eleitor institucionalista em busca de argumentos para não votar em Lula deparou-se com vários no último par de semanas. Como a lista é longa, concentro-me nos dois casos mais gritantes de populismo eleitoreiro.

O primeiro foi o reajuste de 15% nos benefícios do Bolsa Família, decretado a apenas 17 dias do primeiro turno. O problema aqui não é o conteúdo, mas o timing. Compensar o programa pelas perdas inflacionárias dos últimos anos sempre teve sentido, mas o governo Lula, por boas ou más razões, havia preferido não fazê-lo. O reajuste não constava da proposta de Orçamento para 2027 enviada ao Congresso pouco antes. Mas bastaram as pesquisas o colocarem num quadro eleitoralmente desafiador para ele agir.