sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Tarcísio diz que candidatura à Presidência é 'especulação' e confirma visita a Bolsonaro

Por Joelmir Tavares e Tiago Angelo / Valor Econômico

Após adiar encontro com ex-presidente, governo de SP tem previsão de ir à "Papudinha" na próxima quinta-feira e diz que trabalhará por "direita unida" na eleição

Após adiar o encontro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) confirmou que visitará o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão na próxima quinta-feira (29). A nova data foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao se pronunciar pela primeira vez depois do recuo, Tarcísio reafirmou ser candidato a reeleição e chamou de “especulações” os rumores de que tem interesse em concorrer à Presidência da República.

“Sou candidato à reeleição do governo do Estado de São Paulo e irei trabalhar sempre por uma direita unida e forte para tirar a esquerda do poder. Qualquer informação diferente desta não passa de especulação”, afirmou Tarcísio nas redes sociais na quinta-feira (22).

Tarcísio reagenda visita a Bolsonaro e reafirma lealdade

Por O Globo

Pelas redes sociais, governador de São Paulo também reafirmou que será candidato à reeleição no estado

Após ter cancelado a visita que faria a Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (22), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que irá se encontrar com o ex-presidente, preso na Papudinha, na próxima quinta (29). Pelas redes sociais, Tarcísio também reafirmou que será candidato à reeleição no estado de São Paulo.

"Sou candidato à reeleição do governo do estado de São Paulo e irei trabalhar sempre por uma direita unida e forte para tirar a esquerda do poder. Qualquer informação diferente desta não passa de especulação. Irei visitar o presidente Bolsonaro, a quem sou e serei grato e leal, na próxima quinta-feira para prestar o meu total apoio e solidariedade", escreveu Tarcísio.

Toffoli precisa deixar relatoria. Por Vera Magalhães

O Globo

Ao permitir que ministro se mantenha à frente das investigações mesmo com tantas imbricações pessoais, STF transforma desgaste pessoal em institucional

Desde que assumiu o caso, Toffoli tomou uma série de decisões no mínimo controversas para centralizar as investigações no STF: suspendeu apurações em curso na primeira instância, impôs sigilos amplos, questionados por investigadores, e restringiu o acesso do Ministério Público a elementos relevantes. Também determinou limites estritos à coleta de depoimentos.

Isoladamente, essas decisões podem ser enquadradas no guarda-chuva de um princípio famoso e sempre moldável ao gosto do freguês: o garantismo penal. Em conjunto, porém, produziram falta de transparência e, por vezes, constrangimento a quem agiu para investigar e conter os gravíssimos indícios de que foram praticados desvios em série nas transações do Master.

Radiografia do trumpismo. Por Pablo Ortellado

O Globo

Estudo mostra uma coalizão dividida sobre o respeito às regras constitucionais e sobre o papel da religião na vida nacional

Uma pesquisa da More in Common (Beyond Maga) publicada no aniversário de um ano do governo Donald Trump traz muitas novidades sobre o que caracteriza e o que move o trumpismo. Ele aparece como uma coalizão movida por preocupações com imigração e a “cultura woke”. Os resultados foram publicados no GLOBO na terça-feira.

A pesquisa segmenta o eleitorado de Trump em quatro grandes grupos, dois deles mais radicais, dois mais moderados. A segmentação foi produzida agrupando os eleitores por padrões de identidade, visão sobre o presidente, partidarismo e religiosidade.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Master deve ser devolvido à primeira instância

Por O Globo

Seria melhor para a investigação, para a imagem do Supremo e de Toffoli que não pairasse dúvida sobre o inquérito

Os danos do Banco Master têm ido além dos prejuízos bilionários causados pelas fraudes ao sistema financeiro. Há dois meses, a conduta do Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo tem causado desgaste imenso e desnecessário à Corte. Não faz sentido o processo tramitar no STF. O inquérito precisa ser devolvido à primeira instância do Judiciário, de onde jamais deveria ter saído.

O pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para que o processo saísse da Justiça Federal de Brasília se baseou num contrato imobiliário apreendido pela Polícia Federal (PF) mencionando o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). Mas apenas essa suspeita frágil de envolvimento não justifica que o caso todo seja mantido no STF. Sem indícios concretos da participação de Bacelar e de relação com o exercício do mandato, o inquérito deveria seguir na primeira instância, pelo entendimento do próprio Supremo. Ou, havendo tais indícios, a parte que lhe diz respeito poderia ser desmembrada.

Edson Fachin: ‘STF não se curva a ameaças’

Leia a íntegra da nota do Presidente do STF:

Adversidades não suspendem o Direito. É precisamente nos momentos de tribulações que o império da legalidade, discernimento e serenidade demonstra sua razão de ser. É com os olhos voltados para esse dever que miro fatos presentes.

As situações com impactos diretos sobre o sistema financeiro nacional exigem mesmo resposta firme, coordenada e estritamente constitucional das instituições competentes.

A Constituição da República atribui ao Banco Central do Brasil o dever jurídico de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, a continuidade das operações bancárias essenciais, a proteção dos depositantes e a prevenção de riscos sistêmicos. Tais competências, de natureza técnica e indelegável, devem ser exercidas com plena autonomia e sem ingerências indevidas.

Euforiazinha na Bolsa e no dólar pode tirar uma pedrinha do sapato do Banco Central. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de anos de miséria, Ibovespa ressuscita com dinheiro e impulso do exterior

Valorização do real, ainda barato, pode ajudar a reduzir expectativas de inflação

Parte do pessoal que tem dinheiro em ações está animado com as novas alturas do Ibovespa. Parte, pois nem todo mundo está com as ações certas e, muito menos, com uma carteira de ações de desempenho similar ao da média do índice principal da Bolsa brasileira, claro. Que o digam acionistas da Petrobras. A companhia vai até bem, mas o preço do petróleo vai mal.

Mas passemos. O assunto aqui é a euforia do início de 2026, que também se vê no mercado de câmbio e, em quase nada, por ora, no mercado de juros. Se durar um tempo, pode ter consequências importantes.

Dificuldade em explicar Trump é sinal de época de mudanças. Por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Imprevisibilidade do autocrata americano se confunde com crise de conceitos criados para explicar outros tempos

Para cientista político Christian Lynch, não é hora de ficar preso em caixinha analítica e dizer que tudo está igual

Não é a economia, não é a política, não é a ordem internacional. É tudo. O mundo não é mais aquele. É cada vez menos segura a confiança no funcionamento das instituições, nos sistemas de freios e contrapesos, na capacidade da democracia liberal e do establishment de responder à erosão em curso e as coisas voltarem ao antigo normal.

Mesmo que Donald Trump seja futuramente derrotado nas urnas, veremos os Estados Unidos restabelecerem a credibilidade e a previsibilidade? Ou estamos nos aproximando de um ponto de não retorno para a ordem republicana anterior?

Conselho imperial. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Órgão global criado por Trump é tentativa de contornar e deslegitimar a ONU

Brasil, que foi convidado para participar, deveria recusar cuidadosamente

conselho da paz (CP) de Donald Trump é a tentativa de criar um "bypass" do Conselho de Segurança (CS) da ONU sobre o qual o presidente americano possa imperar. Não será, portanto, uma força estabilizadora em termos globais. O mais provável é que vire uma ferramenta da qual o Agente Laranja se utilizará a fim de impor seus caprichos ao mundo.

Leite dá a Lula aula de equilíbrio político. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governador gaúcho tem a metade da idade do presidente, mas aparenta ter o dobro em matéria de bom senso

Em poucas palavras, político do PSD expôs a incoerência da pregação governista por união e reconstrução

O governador do Rio Grande do Sul tem a metade da idade do presidente da República, mas pareceu ter o dobro em termos de bom senso numa solenidade para assinatura de contratos da Petrobras, na cidade de Rio Grande.

Em cerimônia do governo federal, com público controlado e amigável, a hostilidade era a mesma fava contada que já fez outros governadores desistirem de comparecer a atos sob o patrocínio do Planalto e serem por isso acusados por Luiz Inácio da Silva (PT) de partidarismo indevido.

Hannah Arendt e Simone de Beauvoir nos ensinam a dimensão política de julgar. Por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

Coincidência no percurso das duas filósofas ao tratar da tensão entre política e moral havia me passado despercebida

Reler autores prediletos enriquece textos em significados e possibilidades, à medida que projetamos neles experiências

Durante o recesso de final de ano, passei boa parte do meu tempo revisitando alguns textos de Simone de Beauvoir com a intenção de produzir um artigo acadêmico em comemoração aos 80 anos de publicação de "Por uma Moral da Ambiguidade" (1947).

Foi a partir desse exercício que também acabei escrevendo sobre Beauvoir em minhas colunas de dezembro e do início deste mês, justamente na semana do aniversário da filósofa, nascida em 9 de janeiro de 1908.

Recentemente, um dos temas que tem me chamado bastante atenção em seus escritos trata da tensão entre política e moral, talvez em virtude do nosso momento político, em que questões morais têm se mostrado cada vez mais relevantes; talvez também porque, durante os últimos anos, eu tenha me dedicado cada vez mais à leitura de outros pensadores, como Hannah Arendt.

Opinião do dia – Antonio Gramsci* (Solidez material das ideias)

"Um trabalho como o Ensaio popular destinado essencialmente a uma comunidade de leitores que não são intelectuais de profissão, deveria partir da análise crítica da filosofia do senso comum, que é a “filosofia dos não-filósofos”, isto é, a concepção do mundo absorvida acriticamente pelos vários ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a individualidade moral do homem médio. O senso comum não é uma concepção única, idêntica no tempo e no espaço: é o “folclore” da filosofia e, como o folclore, apresenta-se em inumeráveis formas; seu traço fundamental e mais característico é o de ser uma concepção (inclusive nos cérebros individuais) desagregada, incoerente, inconsequente, conforme à posição social e cultural das multidões das quais ele é a filosofia. Quando na história se elabora um grupo social homogêneo, elabora-se também, contra o senso comum, uma filosofia homogênea, isto é, coerente e sistemática. O Ensaio popular se equivoca ao partir (implicitamente) do pressuposto de que, a esta elaboração de uma filosofia original das massas populares, oponham-se os grandes sistemas das filosofias tradicionais e a religião do alto clero, isto é, a concepção do mundo dos intelectuais e da alta cultura. Na realidade, estes sistemas são desconhecidos pelas multidões, não tendo eficácia direta sobre o seu modo de pensar e de agir. Isto não significa, por certo, que eles sejam desprovidos inteiramente de eficácia histórica: mas esta eficácia é de outra natureza. Estes sistemas influem sobre as massas populares como força política externa, como elemento de força coesiva das classes dirigentes, e, portanto, como elemento de subordinação a uma hegemonia exterior, que limita o pensamento original das massas populares de uma maneira negativa, sem influir positivamente sobre elas, como fermento vital de transformação interna do que as massas pensam, embrionária e caoticamente, sobre o mundo e a vida. Os elementos principais do senso comum são fornecidos pelas religiões e, consequentemente, a relação entre senso comum e religião é muito mais íntima do que a relação entre senso comum e sistemas filosóficos dos intelectuais. Mas, também com relação à religião, é necessário distinguir criticamente. Toda religião, inclusive a católica (ou antes, sobretudo a católica, precisamente pelos seus esforços de permanecer “superficialmente” unitária, a fim de não fragmentar-se em igrejas nacionais e em estratificações sociais), é na realidade uma multiplicidade de religiões distintas e frequentemente contraditórias: há um catolicismo dos camponeses, um catolicismo dos pequenos burgueses e dos operários urbanos, um catolicismo das mulheres e um catolicismo dos intelectuais, também este variado e desconexo. Sobre o senso comum, entretanto, influem não só as formas mais toscas e menos elaboradas destes vários catolicismos, atualmente existentes, como influíram também e são componentes do atual senso comum as religiões precedentes e as formas precedentes do atual catolicismo, os movimentos heréticos populares, as superstições científicas ligadas às religiões passadas, etc. 

Predominam no senso comum os elementos “realistas”, materialistas, isto é, o produto imediato da sensação bruta, o que, de resto, não está em contradição com o elemento religioso, ao contrário; mas estes elementos são “supersticiosos”, acríticos. Eis, portanto, um perigo representado pelo Ensaio popular-, ele confirma frequentemente estes elementos acríticos, graças aos quais o senso comum é ainda ptolomaico, antropomórfico, antropocêntrico, ao invés de criticá-los cientificamente. O que se disse acima sobre o Ensaio popular, a saber, que ele critica as filosofias sistemáticas ao invés de partir da crítica do senso comum, deve ser entendido como observação metodológica, dentro de certos limites. Por certo, isto não quer dizer que se deva esquecer a crítica às filosofias sistemáticas dos intelectuais. Quando, individualmente, um elemento da massa supera criticamente o senso comum, ele aceita, por este mesmo fato, uma filosofia nova: daí, portanto, a necessidade, numa exposição da filosofia da práxis, da polêmica com as filosofias tradicionais. Aliás, por este seu caráter tendencial de filosofia de massa, a filosofia da práxis só pode ser concebida em forma polêmica, de luta perpétua. Todavia, o ponto de partida deve ser sempre o senso comum, que é espontaneamente a filosofia das multidões, as quais se trata de tornar ideologicamente homogêneas.

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, v.1, p.114-6. Civilização Brasileira, Rio de janeiro, 2006.

Poesia | O Sono das Águas de João Guimarães Rosa

 

Música | Nara Leão – Odeon, de Ernesto Nazareth e: Vinícius de Moraes

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Obsessão de Trump pela Groenlândia desafia a razão

Por Folha de S. Paulo

Se motivação é segurança, EUA já contam com anuência da Dinamarca para aumentar presença militar na ilha

Ameaças ora atenuadas só enfraquecem a Otan; não se pode mais descartar a hipótese de que não há razões de Estado, mas sim vaidade

O que quer Donald Trump com a Groenlândia? Até aqui, são incompreensíveis as reais intenções do presidente americano em relação à ilha ártica que, segundo ele disse repetidas vezes nos últimos dias, pretende anexar aos EUA.

Ameaças comerciais e militares, a esta altura, não são mais novidades neste segundo mandato do republicano. Até a invasão da Venezuela, a retórica inflamada e os tarifaços pareciam se limitar a meios de forçar negociações. No caso da Groenlândia, porém, é difícil entender o que poderia ser negociado.

Se Trump está preocupado com a segurança, como alega, não seria necessário negociar mais nada. Por força de um acordo bilateral entre os Estados Unidos e a Dinamarca, que comanda a política externa do território autônomo, e de outras convenções, os militares americanos já têm todo o acesso ao local de que poderiam precisar.

O fim das ilusões progressistas. Por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

As mudanças na direita desde 2018 não são um fenômeno fortuito

Ainda estamos por entender as razões do crescimento do direitismo extremista

Por décadas, as elites progressistas vivemos uma espécie de ilusão de ótica, como aquelas que fazem os viajantes enxergar oásis inexistentes no meio do deserto. Foram oito anos de Presidência nas mãos de liderança reformista de centro, seguidos por uma década e meia de governos encabeçados pela centro-esquerda. Tudo isso ­e mais uma Constituição muito avançada em termos de garantias individuais e direitos sociais —parecia confirmar que, depois de 20 anos de autoritarismo, o Brasil estava se transformando em um país politicamente arejado.

É bem verdade que as eleições para o Congresso contavam outra história. Ali, as várias correntes da direita sempre formaram entrincheirada maioria. Mas, por operarem sob a batuta do pragmático "centrão", eram vistas como forças do atraso, incontornáveis parceiras de coalizões no presente, fadadas a serem superadas mais adiante.

Como o Master invadirá o ano eleitoral. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula

liquidação do Will, braço do grupo Master com clientela nas classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?

É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.

A escatologia como método. Por Merval Pereira

O Globo

Temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José Sarney chamava de “liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na boca dos presidentes.

Na era classificada como “do populismo”, corremos o risco de ter uma campanha eleitoral de baixo nível, mesmo que o candidato oficial do bolsonarismo, senador Flávio Bolsonaro, se disponha a fazer o papel de moderado, que não cabe no figurino do irmão autoexilado, muito menos no do pai preso. Embora a linguagem populista não seja obrigatoriamente escatológica, já temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José Sarney chamava de “liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na boca dos presidentes.

Adiamento do encontro de Tarcísio com Bolsonaro frustra a Faria Lima. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O mercado reage à viabilidade, governabilidade e risco de cada candidatura de oposição: Lula lidera; Flávio consolida-se como segundo polo; a alternativa “moderada” não cresce

No começo da semana, na bolsa de apostas da Faria Lima, acreditava-se que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, teria uma conversa decisiva com o ex-presidente Jair Bolsonaro durante uma visita previamente agendada e autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A expectativa era de que o gesto — embora apresentado como manifestação de solidariedade pessoal — carregasse um significado político mais profundo: abrir uma janela para rearranjo da direita na disputa presidencial e, sobretudo, reanimar a esperança do mercado de que ainda existe um caminho eleitoral capaz de derrotar Lula sem recorrer ao bolsonarismo “raiz”.

Haddad no fogo fortalece Lula. Por Julia Duailibi

O Globo

A conta do PT não passa por ganhar em São Paulo se o adversário for Tarcísio, cenário mais provável hoje. Passa por não perder de muito

Lula começou a montar os palanques estaduais para a eleição deste ano. A primeira convocação foi feita: Fernando Haddad para perder em São Paulo. O PT sabe que é improvável a vitória contra Tarcísio de Freitas. Nunca ganhou no estado. Perdeu com Lula, em 1982, e continuou perdendo com nomes estrelados, como Suplicy, Marta, Dirceu, Genoino, Mercadante, Padilha, Marinho e com o próprio Haddad. As derrotas mostram o tamanho da trincheira antipetista no interior paulista, situação agravada pelo adversário, Tarcísio, que disputa com a caneta na mão e a aprovação na casa dos 60%.

Parlamento Europeu freia o acordo com Mercosul, em novo obstáculo. Por Assis Moreira

Valor Econômico

A opção que fica é a de a Comissão Europa, o braço executivo da UE, colocar em vigor provisoriamente a parte comercial do acordo

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia ganhou um novo obstáculo, com o Parlamento Europeu aprovando nesta quarta-feira uma moção para submeter o texto legal do tratado à análise da Corte de Justiça da União Europeia.

Dos 669 eurodeputados presentes, 334 votaram a favor da revisão jurídica e 324 contra. Ou seja, o Parlamento ficou rachado, com vitória por dez votos. Houve 11 abstenções. O resultado foi recebido com aplausos pela metade dos eurodeputados.

A moção, apresentada por um grupo de 144 eurodeputados, solicita ao Tribunal de Justiça da UE que se pronuncie sobre dois pontos: se o acordo pode ser aplicado antes da ratificação total por todos os 27 Estados-membros e se suas disposições restringem a capacidade da UE de definir políticas ambientais e de proteção ao consumidor.

O começo do grande recuo sobre a Groenlândia. Por Gideon Rachman

Em Financial Times / Valor Econômico

Reação do mercado pode ter convencido Trump a mudar sua posição de tomar a ilha à força

Os ricos e poderosos se empurravam e acotovelavam para conseguir entrar e ver o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursar no Congress Centre de Davos. Talvez fosse o medo de perder algo importante; talvez fosse o desejo de presenciar um momento histórico.

Mas lá pela metade do discurso de mais de uma hora e cheio de divagações do presidente americano, muitos dos ouvintes já estavam checando seus celulares — ou saíam para outros compromissos.

O discurso de Trump não foi nenhum momento histórico. Mas marcou, sim, o início de um recuo em relação à Groenlândia. Em uma das poucas passagens relativamente coerentes, Trump descartou de maneira explícita a possibilidade de os EUA usarem a força para tomar a ilha da Dinamarca.

Acordos contra a distopia americana. Por Míriam Leitão

O Globo

Apesar da judicialização na UE, Brasil mantém otimismo e amplia negociação do Mercosul com outros países como Canadá, Índia e Emirados Árabes

O Brasil decidiu manter a tramitação do acordo União Europeia–Mercosul o mais acelerada possível. O texto deve ser enviado ao Congresso em questão de dias. Isso apesar de o Parlamento Europeu ter decidido, ontem, levar o texto ao Tribunal de Justiça. Segundo o embaixador Philip Fox, da Secretaria de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, a Corte normalmente demora 18 meses para dar seu veredito, mas a Comissão terá ainda que se posicionar quanto à decisão de enviar o acordo para a análise do Tribunal.

Em entrevista que me concedeu ontem na GloboNews, o embaixador disse que, apesar dessa judicialização, continua muito otimista em relação ao caminho escolhido pelo Brasil de negociar, em parceria com o Mercosul, acordos comerciais com países e blocos. Estão sendo negociados tratados com o Canadá, a Índia, os Emirados Árabes Unidos, o Vietnã e possivelmente o Japão.

A Europa espezinhada (ou a bola da vez). Por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

O método da humilhação espetacular explicita o caráter fascista do trumpismo

A União Europeia é a nova vítima do método da humilhação espetacular empregado pelo governo Trump como arma de guerra simbólica. Pobre Europa. De repente, ela se viu submetida a um padecimento moral inédito, impensável. O bullying e o escárnio voltamse contra ela. A Casa Branca a insulta com tarifas e desaforos. O Reino Unido, aliado histórico do Tio Sam, não escapou. Keir Starmer, polidamente, chama de “erro” a postura agressiva e predatória dos Estados Unidos. Não fez nem cócegas no Pentágono.

Trump e os invertebrados. Por William Waack

O Estado de S. Paulo

Trump ressuscitou a antiga teoria do Grande Homem na História, que já andava meio esquecida. Ao mais tardar com o famoso “Fim da História”, convencionou-se que indivíduos tem peso específico nos acontecimentos, mas não são capazes de alterar grandes rumos.

Quanto Lula é responsável pelo que o Brasil é (ou Bolsonaro, ou Vargas, ou FHC)? Teria acontecido a Revolução Russa sem Lenin? Ou a chinesa sem Mao? Ou a vitória soviética na Segunda Guerra sem Stalin? Ou teria acontecido essa guerra sem Hitler?

Três ministros ameaçam código de ética. Por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Fachin está diante de dilema: vale a pena defender princípios em troca do isolamento interno?

Edson Fachin está diante de um dilema. Se liberar logo para votação a proposta de um código de ética para o Supremo Tribunal Federal (STF), tem chance de conquistar a maioria no plenário. Fincará uma bandeira digna em sua gestão, mas o custo da vitória para ele pode ser maior que o benefício.

Aos olhos da opinião pública, a aprovação de um código de conduta pode ser interpretada como censura à participação de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes no caso do Banco Master. Funcionaria como uma espécie de confissão da existência de ministros do Supremo descomprometidos com a ética.

Por dentro do Dops. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O prédio que serviu a duas ditaduras deve se tornar um museu dos direitos humanos

Em suas masmorras, praticaram-se horrores que não podem ser apagados nem se repetir

O prédio da ex-sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), na rua da Relação, aqui no Rio, foi tombado pelo Iphan e, depois de passado o rodo e restaurado, pode se tornar um museu dos direitos humano. Por suas masmorras passaram presos de duas ditaduras, a de Getúlio Vargas (1937-1945) e a dos militares, de 1964 a 1985, quando foi desativado. Entre uma e outra, na democracia, muita gente apanhou lá, sem motivo político ou sem motivo.

Escândalo de crédito carbono falso no caso Master mina confiança. Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Pirâmide financeira para a fabricação de R$ 45 bilhões mostra que o sistema de regulação falhou

A começar pela Comissão de Valores Mobiliários, é preciso enfrentar o problema de peito aberto

Os detalhes da teia montada para sustentar o esquema de fraudes com uso de crédito de estoque de carbono, envolvendo a família Vorcaro, a empresa Alliance Participações e os fundos de investimento, já apontam para um dos maiores escândalos do setor no Brasil.

Revelada pela Folha numa série de reportagens publicadas desde a semana passada, a pirâmide financeira para a fabricação de R$ 45 bilhões em crédito de estoque de carbono fake coloca em xeque as negociações desses ativos no momento em que o setor se preparava para ganhar impulso após a criação da lei sobre o mercado regulado.

A questão colonial da Groenlândia. Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Maior razão para Trump querer a maior ilha do Ártico é seu ego

Quem esperava cooperação contra o caos climático encara o colonialismo

Há muitas razões geopolíticas para que Trump queira a maior ilha do Ártico, mas nenhuma supera o que o motiva de fato: satisfazer seu ego. Foi o próprio Trump que colocou o imbróglio sobre a Groenlândia nestes termos em mensagem ao premiê norueguês. Ao relacionar o fato de não ter recebido o Nobel da Paz à sua insistência bélica de anexar a Groenlândia, Trump explicita sua política externa personalíssima, na qual o interesse nacional é condicionado à maximação errática de sua autoimportância.

Reação política e promessa de Guantánamo no gelo fazem Trump recuar na Groenlândia, por ora. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Americano teme poder de armas e dinheiro, mas União Europeia menos submissa ajudou

Acordo sugerido na Otan prevê entrega de bases maiores, sob domínio eterno dos EUA

Donald Trump recuou. Ao menos da boca para fora. Na manhã desta quarta, cancelou a ameaça de guerra na Groenlândia, mas disse que não abriria mão de tomar posse daquele "pedaço de gelo"; que um "não" europeu teria consequência.

O negocista imobiliário chegou a perguntar: "quem defenderia uma propriedade arrendada ou alugada?". De tarde, na prática passou a dizer a repórteres que não queria se apropriar da ilha. Mais importante, anunciou o cancelamento de novo tarifaço contra europeus e "diretrizes" para um acordo.

Como Trump recua? Como recuou, se foi isso mesmo que aconteceu? De mais novo, houve mais reação política. O que pode ter sido relevante?

Enfrenamos o mundo como ele é. Por Mark Carney*

*Discurso do Primeiro Ministro do Canadá Mark Carney no Fórum Econômico Mundial

É um prazer — e um dever — estar com vocês neste momento decisivo para o Canadá e para o mundo.

Hoje, falarei sobre a ruptura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal onde a geopolítica entre as grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições.

Mas também afirmo que outros países, particularmente potências médias como o Canadá, não são impotentes. Eles têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados.

O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Parece que todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está desaparecendo. De que os fortes podem fazer o que podem, e os fracos devem sofrer o que devem.

Os EUA, polícia do mundo. Por Ivan Alves Filho

Os Estados Unidos se arvoram em polícia do mundo. A face externa dos Estados Unidos repousa em uma espécie de fascismo de exportação.

Senão vejamos. A História registra que os sucessivos governos norte-americanos promoveram invasões de todo tipo em mais de 70 países, e estamos nos referindo somente ao século XX. Assim, os Estados Unidos invadiram a Nicarágua em 1912, o Haiti em 1915, a República Dominicana em 1916, a Rússia Soviética em 1918, o Panamá em 1941, a Coréia em 1945, além de terem fomentado golpes militares em países como Guatemala em 1954, Laos em 1955, Indonésia em 1957-1959, Congo em 1961, o Brasil em 1964. A guerra contra o Vietnam, quando os Estados Unidos lançaram contra esse país do sudeste asiático duas vezes e meia a quantidade de bombas lançadas durante toda a Segunda Guerra Mundial, se configurou como uma das ações mais tenebrosas cometidas por um país contra outro ao longo da História. 

A liberdade e seu pulso, por Marcio Junior

Livro Resenhado: SNYDER, Timothy. Nossa moléstia: lições sobre liberdade extraídas de um diário hospitalar. Tradução de Fábio Lopes da Silva, André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2022.

O adoecimento faz parte da vida; é uma condição dela, na medida em que todos (inclusive outras formas de vida) estamos suscetíveis a situações em que o corpo não funciona como deveria funcionar, causando sofrimento e risco à vida e nos lembrando que, como sabemos, a sua finitude e a única certeza que temos.

Há, todavia, uma enorme complexidade em torno disso, e essa complexidade se faz maior na medida em que estarmos minimamente saudáveis é um fator fundamental para que possamos realizar não apenas as atividades cotidianas, mas aquelas que também nos fazem, como humanidade, melhores do que fomos ontem. Nesse sentido, é impossível a saúde não se fazer um tema essencial para o avanço civilizatório, e entendê-la e tratá-la com esta devida importância é contribuir em muito para caminharmos rumo ao bem-estar de todas e todos.

Poesia - Os três mal amados (Trecho), de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti - O Bom Sebastião

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Mark Carney*

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

*O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil deve instituir prova para formado exercer a Medicina

Por O Globo

Qualidade sofrível dos cursos, exposta por exame do MEC, põe em risco saúde da população

É alarmante a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, como demonstrou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Parcela considerável dos alunos prestes a terminar o curso não tem conhecimentos mínimos para exercer a profissão. Dos 351 cursos avaliados, 107 ficaram em patamar abaixo do aceitável — menos de 60% dos alunos atingiram nível mínimo de proficiência. Dos 39 mil estudantes perto de se graduar, quase um terço não foi capaz de comprovar deter a formação básica. Em pouco tempo, estarão em postos de saúde, clínicas e hospitais sem qualquer impedimento. Diante de tal realidade, é essencial impor como condição para a prática da Medicina a aprovação numa prova nacional compulsória, em moldes semelhantes aos adotados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a advocacia.

Ninguém pode, nem tenta, deter Trump. Por Vera Magalhães

O Globo

É estarrecedora a letargia completa das instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo

A cada dia com ao menos uma nova e grave arbitrariedade de Donald Trump, doméstica ou além-fronteiras, cresce uma dúvida tão básica quanto perturbadora: nenhuma instituição ou país será capaz de detê-lo? Há meses já não é exagero temer pela implosão não só da democracia americana, mas de todos os complexos mecanismos que configuraram a ordem mundial desde o Pós-Guerra, e, ainda assim, não se forma uma coalizão capaz de minimamente representar um freio à escalada.

O capítulo da semana é a inacreditável crise pelo controle da Groenlândia, que parece coisa de jogo de tabuleiro de criança, mas é séria. Trump reavivou sua antiga obsessão por adquirir o território, pertencente à Dinamarca, com desculpas para lá de delirantes. A ofensiva veio, uma vez mais, acompanhada de ameaças tarifárias contra os aliados da Europa, que, por sua vez, ditaram o anúncio de retaliações — dinâmica que vai se reproduzindo em relação a vários países e blocos e mina qualquer previsibilidade nas relações geopolíticas e comerciais.

O Enamed é uma vitória. Por Elio Gaspari

O Globo

Faculdades formam médicos incapazes

A má notícia veio na semana passada. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) queria barrar na Justiça a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Logo depois, veio a boa notícia: o pedido foi negado, e na segunda-feira os dados do Enamed foram divulgados.

O comportamento da Anup equivale ao de um médico que se recusa a mostrar ao paciente os resultados de um exame mandado pelo laboratório.

Deu o que se previa: de uma maneira geral, os melhores cursos são de universidades públicas (gratuitas) e os piores são de faculdades privadas (pagas).