quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sanções contra plataformas digitais merecem aplausos

Por O Globo

Enquanto Meta fecha acordo de US$ 17 bilhões nos EUA, TikTok leva multa de R$ 154 milhões no Brasil

Foi acertada a decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de multar a ByteDance, controladora do TikTok, por falhar na proteção de dados de crianças e adolescentes. O valor da multa — R$ 153,7 milhões, maior sanção aplicada a uma empresa do setor no Brasil — comprova a seriedade com que a agência começa a tratar o tema, num momento em que o cerco contra as plataformas digitais se fecha no mundo todo. Nos Estados Unidos, a Justiça anunciou ontem um acordo pelo qual a Meta (dona de InstagramFacebook e WhatsApp) comprometeu-se a pagar US$ 17 bilhões e a realizar modificações na arquitetura de suas redes — como acabar com a rolagem infinita — para escapar de um processo, movido por 47 estados, em que era acusada de tê-las projetado com a intenção de viciar crianças e adolescentes. Se perdesse, o prejuízo poderia chegar a US$ 1,4 trilhão.

A ultradireita pôs a política exterior na urna, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Interferência externa é possibilidade considerada e divide a opinião pública

Metade dos eleitores vê chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa

Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.

Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.

A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.

A piora das finanças de SP sob a gestão de Tarcísio, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Contas pioram, e os números oficiais do próprio estado apontam para essa realidade

Candidatos vendem números a torto e a direito sem o mesmo escrutínio que se faz dos resultados do governo federal

As contas do governo Tarcísio pioram, e os números oficiais do próprio estado apontam para essa realidade.

O filme da evolução do desempenho das finanças paulistas ao longo do mandato do governador mostra uma deterioração gradativa que culminou com um déficit orçamentário de R$ 12,2 bilhões no ano passado, o pior resultado desde 1995.

Para 2026, a projeção oficial aponta para um déficit de R$ 9 bilhões. Detalhe: o governador recebeu o estado com um superávit de R$ 11,1 bilhões em valores atualizados pela inflação.

Pelo fim das candidaturas policiais, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Sendo carreiras de Estado, policiais e militares não cabem nas urnas

Candidatos são em sua maioria de partidos de direita

Ao menos 1.229 candidaturas no pleito de 2026 possuem relação com as polícias, Civil ou Militar, ou com as Forças Armadas —6% do total de mais de 20 mil candidatos. Os dados são de um levantamento da Agência Pública com base na Justiça Eleitoral.

Embora tenha havido uma redução significativa em números absolutos das candidaturas de policiais e militares —37,4% em relação ao pleito de 2022—, o montante ainda é relativamente expressivo —queda proporcional de apenas 0,71% em comparação a quatro anos atrás— e os números continuam a preocupar pelo uso da farda e das instituições como alavanca eleitoral.

Renan Santos repete Enéas com ideia de bomba atômica, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Candidato do Missão retoma posição de presidenciável do Prona, que fazia campanha na década de 1990

Proposta insensata causaria terremoto de reações, embora arma nuclear possa funcionar como dissuasão

A ideia de construir uma bomba nuclear no Brasil circulou durante a ditadura e alimentou um programa sigiloso. Em 1986, já no governo Sarney, a repórter Elvira Lobato revelou, na Folha, que a Aeronáutica havia construído na serra do Cachimbo, no Pará, um poço de 320 metros cujas características eram compatíveis com testes nucleares subterrâneos.

Casas Bahia e Habib's fazem país acordar para problema faz meia década no forno, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Dívida alta das famílias é problema pelo menos desde 2021; juros pioraram situação

Número de pedidos de recuperação judicial já era problema visível desde 2023

A recuperação extrajudicial de Casas Bahia e Habib’s, marcas "pop", acabou por dar rosto para uma situação que anda ruim faz tempo, não apenas por causa de juros e dívidas. O enrosco, porém, não é bem compreendido ou é manipulado a depender do gosto político do freguês.

Parece ficar mais forte a sensação de "crise no ar", de que o "Brasil vai mal". Até pessoas que deveriam estar mais informadas do problema não se deram conta de que o novo rolo começou faz meia década, tanto em empresas avariadas como na situação do crédito de firmas e famílias.

Tarcísio enrola Flávio em ‘relação tóxica’, por Julia Duailibi

O Globo

A campanha do governador de São Paulo empurra com a barriga as agendas públicas com o presidenciável

Flávio Bolsonaro está num “relacionamento tóxico” com Tarcísio de Freitas. O candidato a presidente pelo PL depende do governador de São Paulo para ampliar sua margem de votos no maior colégio eleitoral do país e compensar, pelo menos em parte, a liderança de Lula no Nordeste. Tarcísio, no entanto, faz ghosting nas tentativas de encontros públicos com Flávio. E faz de caso pensado.

As chances de Flávio na eleição presidencial passam por uma margem de votos favorável no Sudeste. Em 2022, Jair Bolsonaro levou quase 4 milhões de votos a mais que Lula em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois estados, no entanto, Bolsonaro filho está hoje empatado com Lula. Precisa de uma mãozinha local e, para isso, aposta no conservadorismo do interior paulista e na máquina que está nas mãos do governador. Os caminhos levam a Tarcísio. Mas, como se diz por aí, o governador faz a egípcia.

A batalha decisiva, por Malu Gaspar

O Globo

A guerra mais sangrenta e decisiva para o resultado da eleição presidencial não se dará no horário eleitoral, nas redes sociais ou nos debates, mas no Supremo Tribunal Federal (STF), onde tramitam os casos Dark Horse e Lulinha. O ritmo de cada um e as revelações produzidas daqui para a frente não definirão só quem tem mais chance de vitória numa eleição pautada pela rejeição, mas também com quem ficará o domínio do tribunal.

À primeira vista, tudo se resume a uma disputa de poder. Se der Lula, a ala de que fazem parte Alexandre de MoraesFlávio Dino e Gilmar Mendes tende a emplacar aliados nas três vagas que se abrem até o fim do próximo mandato com as aposentadorias de ministros, mais a de Luís Roberto Barroso, que continua indefinida com a derrota de Jorge Messias no plenário do Senado Federal. A vitória de Flávio Bolsonaro faria o Supremo pender à direita e empurraria o centro de gravidade na direção do ministro André Mendonça, que detém ao mesmo tempo a relatoria dos casos do Banco Master e do INSS.

Razões da deflação de agosto e o futuro próximo, por Míriam Leitão

O Globo

A deflação de agosto é uma boa notícia, mas pode não se repetir nos próximos meses. O fato é que não há sombra de descontrole inflacionário

A inflação deu ontem um refresco num país premido por urgências e números preocupantes. O IPCA-15 registrou uma deflação de 0,4%. Os preços caíram em quase todos os segmentos, inclusive o de alimentação, com vários preços encolhendo, mas o mais importante para os economistas é que a inflação de serviços está cedendo. Há uma razão específica que ajudou a levar para a deflação: o bônus de Itaipu. Mesmo assim, o efeito baixista foi geral.

O bônus de Itaipu é um recurso proveniente da sobra dos resultados da hidrelétrica binacional, dividido meio a meio entre o Brasil e o Paraguai. Aqui, ele se transforma num desconto na conta de luz. Não explica toda a deflação, mas em parte sim. Só que isso acontece uma vez e, no mês de setembro, a tendência é subir, exatamente pela comparação do preço de um mês com o do mês anterior.

Motta, Lula e Alcolumbre falam sobre fim da taxa das blusinhas, 6x1 e PEC da Segurança - 26/08/26

 

Poesia | Soneto II - Cem Sonetos de Amor | Pablo Neruda

 

Música | Marisa Monte e Paulinho da Viola - Carinhoso (Pixinguinha)

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medir eficácia deve ser condição para incentivo tributário

Por O Globo

Governo não pode abrir mão de 7% do PIB em impostos sem ter garantia de que não há desperdício de recursos

As isenções e os incentivos tributários somaram R$ 96 bilhões no primeiro trimestre. A previsão é o governo perder R$ 400 bilhões em arrecadação até dezembro, de acordo com dados da Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi). Esse termômetro da Receita Federal leva em conta apenas os incentivos concedidos ao setor produtivo e mede os benefícios que as empresas dizem ter usufruído. O custo total é muito maior.

Perigos do “Triângulo das Bermudas” (SP, MG e RJ) desafiam campanhas de Lula e Flávio, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional está assentado em grandes assimetrias

“Um dia de cada vez”, máxima consagrada pelos Alcoólicos Anônimos, aplica-se sob medida às campanhas dos dois candidatos que polarizam a eleição presidencial: Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, e Flávio Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sucessão de fatos negativos produz oscilações nas pesquisas e obriga os marqueteiros das duas campanhas a ter menos ansiedade com o futuro e mais atenção aos problemas do presente, sobretudo àqueles aparentemente pequenos, mas capazes de assumir grandes proporções.

Candidatos no olimpo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidatos fogem de confronto e encerram entrevistas ao ouvir questões incômodas

Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado por Paulo Skaf, desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do empresariado paulista. O senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo de repórteres. Mudou de semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark horse”, que revelou suas relações com Daniel Vorcaro.

“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.

Lula tenta mudar de assunto, por Vera Magalhães

O Globo

Os conselheiros da campanha petista sabem que o presidente não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida

O vento virou, e o favoritismo que vinha sendo atribuído a Lula desde o escândalo “Dark Horse” e os entreveros na família Bolsonaro se esvaiu diante das revelações das andanças de Lulinha por gabinetes estrelados de Brasília. Levado de volta ao incômodo tema da corrupção às vésperas do início da campanha na TV, e sem ter mais como se esquivar de debates e sabatinas como fez até aqui, o petista busca desesperadamente mudar de assunto. O irônico é ter de contar com o Congresso, que já está em ritmo de letargia eleitoral, para ter alguma boa notícia para apresentar ao eleitor.

Lula ignora sinais de uma economia doente, por Elio Gaspari

O Globo

Grandes empresas estão na chuva

Num espaço de duas semanas, a grande rede varejista Casas Bahia e a gigante petroquímica Braskem anunciaram que entrarão em recuperação judicial ou extrajudicial. Querem repactuar suas dívidas com bancos e fornecedores. Uma deve R$ 17,3 bilhões, a outra renegociará um espeto em dólares equivalente a R$ 56,5 bilhões. A economia brasileira está doente.

Antes delas, foi a vez da varejista Marabraz. Noutro grupo, ficaram a Raízen, produtora de açúcar e distribuidora de combustíveis, mais o grupo Pão de Açúcar. Em outros tempos, ele teve 800 lojas e mostrava-se como modelo de expansão e vitalidade do empresariado brasileiro. Até em Angola se meteu.

Como o governo e o empresariado são maus pacientes, só admitem a doença quando precisam ir para o hospital. As Casas Bahia, como a Braskem, foram vítimas de encrencas com que conviveram, julgando-se onipotentes.

Eleição pode terminar no primeiro turno em 19 dos 27 Estados, por César Felício

Valor Econômico

Cenário de poucas disputas regionais pode impactar eventual segundo turno entre Lula e Flávio

É grande a chance de as eleições para governadores terminarem no primeiro turno na maioria dos Estados. Caso este cenário se concretize, é um potencial complicador tanto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um eventual segundo turno.

Em uma vista panorâmica das últimas pesquisas e do mapa de alianças Estado por Estado, há 14 casos em que o desfecho no primeiro turno é altamente provável. Em seis deles, porque existe um franco favorito.

Incertezas geradas no campo da Justiça Eleitoral, por Fernando Exman

Valor Econômico

Há críticas ao ritmo da análise das regras para o uso de inteligência artificial

Fundamental na construção e consolidação da democracia, a Justiça Eleitoral pode ser levada a realizar uma autocrítica para viabilizar aprimoramentos em normas e prazos que hoje geram incertezas entre eleitores, partidos e candidatos. O Supremo Tribunal Federal (STF) precisará ser sensibilizado. O Congresso pode ser chamado a aprimorar a legislação.

O que não deveria ocorrer, no entanto, é a repetição de alguns episódios que colocam o sistema como um fator de instabilidades.

Polêmica, Ferrogrão é prioridade para candidatos, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Conflito entre a preservação ambiental e a expansão da fronteira agrícola remete ao debate sobre qual país o Brasil quer ser nos próximos anos

Quatro dos cinco principais candidatos à Presidência da República citam explicitamente a Ferrogrão como prioridade em seus programas de governo. Concebida por tradings do agronegócio, é uma linha de 933 km que ligará Mato Grosso aos portos do Norte do país, barateando o frete. É, porém, um projeto cercado por polêmicas que têm origem numa questão bem mais ampla: o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia, que provoca resistência dos ambientalistas.

Caiado e os bons modos, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Único a mostrar no debate o respeito e a civilidade que a política exige em vez da estética de coach

Plutarco conta em sua Vida de Demóstenes que o orador grego atribuía uma importância capital à entonação e à atitude das pessoas que falam para persuadir. Certa vez, quando um homem que fora espancado pediu-lhe que o defendesse em juízo, Demóstenes disse: “Ora, não recebeste um só dos golpes de que falas!”. O homem, levantando a voz, gritou: “Eu, Demóstenes, não recebi os golpes?!”. “Agora, sim, ouço a voz de um homem maltratado”, respondeu.

Hannah Arendt viu na ratio et oratio de Cícero, o outro orador tratado por Plutarco no quinto livro de suas Vidas Paralelas, um último vestígio dessa antiga conexão entre a fala e o pensamento, “ausente de nossa noção de exprimir o pensamento por meio de palavras”.

A degradação do dólar, Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Trump agrava a situação fiscal dos EUA a ponto de deflagrar uma crise nos mercados globais

Um número assombrou os investidores na semana passada: a dívida pública federal dos Estados Unidos acabou de ultrapassar a barreira dos US$ 40 trilhões. Esse deveria ser um problema só dos americanos, mas a repercussão de seus efeitos será sentida em todo o mundo, incluindo o Brasil. A má notícia é que o presidente Donald Trump está agravando a situação fiscal do país a ponto de deflagrar uma séria crise nos mercados globais.

Trump barbariza o Canadá, Brasil está na fila da agressão, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Além de termos relevância econômica menor, EUA têm outros interesses por aqui

Ataques americanos devem continuar mesmo depois do fim do governo Trump

Canadá é o destino de 14% do valor total das exportações americanas de bens, uns US$ 350 bilhões por ano. Fica apenas atrás do México, que compra US$ 380 bilhões dos Estados Unidos. Para começar, pois o assunto vai além disso, trata-se de muito dinheiro. Mas Donald Trump e cia. barbarizam o Canadá.

O Brasil é o destino de 2,3% do valor das exportações de bens americanas. Para começar, é pouco dinheiro, é impacto pequeno em quantidade e qualidade na cadeia de produção e na segurança econômica dos Estados Unidos. Além disso, grande parte do governo Trump, do establishment e megaempresas têm outros interesses no ataque ao Brasil.

Cargos de que não precisamos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Suplente de senador é posição que passa quase totalmente despercebida pelo eleitor

Isso dá margem a arranjos familiares ou para recompensar doadores de campanha

Michelle Bolsonaro designou o irmão para ocupar o posto de primeiro suplente na chapa que ela encabeça para uma das vagas de senador pelo Distrito Federal. Bia Kicis, que concorrerá à segunda vaga pelo mesmo PL da ex-primeira-dama, pôs o filho. Helder Barbalho, que pretende tornar-se senador pelo Pará, escolheu o pai, o eterno Jader Barbalho.

Arranjos familiares desse tipo são corriqueiros em eleições para o Senado. Também é comum ver financiadores de campanha galgados à posição de suplente. É um investimento que pode "se pagar", quando se considera que, na atual legislatura, 20 suplentes já chegaram a exercer, ainda que momentaneamente, o mandato. O suplente substitui o titular em caso de morte, afastamento, renúncia ou cassação.

Duas campanhas com as almas enfiadas na lama, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Quem é vidraça reclama das investigações, mas celebra quando os vazamentos atingem o adversário

Na corda bamba sobre o lodo, Lula e Flávio fogem da cobrança e fazem de conta que não é com eles

A autorização para que a Polícia Federal tenha acesso aos dados colhidos pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme "Dark Horse" provocou tremores de regozijo entre militantes indignados com notícias que transpiram das investigações sobre tráfico de influência envolvendo um filho, uma amiga lobista e o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio da Silva (PT).

Estaria aí pavimentado o terreno para uma paridade de vazamentos com potencial mútuo de constrangimentos. No caso do filme, a suposição é a de que, a partir da PF, comecem a ser conhecidas as informações que Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, mas não forneceu, sobre as andanças dos milhões de Daniel Vorcaro de um fundo no Texas (EUA) até o caixa da Go Up Entertainment —e dali sabe-se lá para onde.

Por que candidatos de direita buscam confronto no campus? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Denúncia, provocação, reação e vídeo compõem um método político moldado pelas redes

A guerra cultural encontrou nos campi um cenário ideal para gerar indignação e engajamento

Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL, entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça.

Filmou, retirou adesivos eleitorais, fez discursos, encenou sua revolta diante da câmera e de estudantes que correram para o espetáculo. E, como se diz no futebol, "esperou o contato, o contato veio", na sequência prevista: berros, dedos na cara, empurrões, boletins de ocorrência, notas de repúdio, reportagens e vídeos para as redes. No dia seguinte, um influenciador que se apresenta como Heitor Bolsonaro voltou ao local, também com o celular ligado, à procura de adesivos, placas de banheiro e reação.

Poesia | Não sei o que dizer quem sou, de Clarice Lispector por Fernanda Torres

 

Música | Moraes Moreira "Lá vem o Brasil descendo a ladeira"

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debate viola direito do eleitor a informação

Por O Globo

No primeiro confronto desta eleição, três candidatos faltaram, entre eles os dois primeiros nas pesquisas

Foi frustrante o primeiro debate presidencial desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas pesquisas. Romeu Zema (Novo) também se negou a ir.

Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.

Quando a Câmara censura a história e resgata o passado colaboracionista, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo. Em 1977, Ernesto Geisel fez o mesmo

Há uma ironia inquietante na decisão da Câmara dos Deputados de impedir que uma obra acadêmica utilize a expressão “ditadura militar” para caracterizar o regime instaurado em 1964. A Casa, que teve 173 deputados e oito senadores cassados, foi fechada três vezes pelos generais, mesmo tendo legitimado o golpe militar de 1964. Ao suavizar a linguagem empregada para caracterizar o regime militar, não apenas contraria a pesquisa histórica: renega a própria memória.

Entrevista |'A universidade não pode ter alergia à política nem ser bunker protegido', afirma cientista político, por Adelia Felix

Bnews

A recente invasão da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo deputado Diego Castro (PL) após receber denúncias sobre a colagem de adesivos políticos no prédio ilustra um fenômeno cada vez mais comum na política brasileira: a transformação de espaços tradicionais em cenários para gerar vídeos e tumulto nas redes sociais.

Em entrevista ao BNEWS, Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político, professor associado da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH), avalia que a substituição do debate por monólogos e versões sobre os fatos alimenta uma polarização que afeta diretamente o ambiente universitário.

Dantas Neto defende que a instituição deve ser plural e "não um bunker". Ele considera legítima a circulação de ideias, mas ressalta: "Nada disso se aplica a quem provoca tumulto, por intimidação ou agressão".

Segundo o professor, a democracia perde força quando passa a ser cobrada para resolver uma "briga de turma". Ele aponta que o ambiente político ficou menos plural e que, com o retorno da guerra de narrativas, as instituições democráticas resistem, mas a conduta democrática sofre pressão.

"A disputa é sobre quem é o dono da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais generalizado", avalia o especialista.

Ao avaliar o cenário eleitoral, o especialista indica que propostas realistas enfrentam dificuldades para ganhar destaque. O ambiente político, segundo o professor, sofre com a perda de pluralismo e o avanço da intolerância.

Na visão dele, "as instituições democráticas não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá direito ao benefício da dúvida".

Leia a entrevista:

Perdas e ganhos, por Merval Pereira

O Globo

Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana.

Por incrível que pareça, a eleição presidencial tem sido decidida por medidas do Supremo Tribunal Federal (STF) e atuações da Polícia Federal. Não se trata de figura de linguagem. Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana. Existem três ministros envolvidos em diversas decisões supremas fundamentais para ditar o rumo dos acontecimentos, que têm tido repercussão nos resultados das pesquisas de opinião.

Diferenças entre as duas eleições, por Míriam Leitão

O Globo

A taxa de eleitores indecisos na pesquisa espontânea é maior nesta eleição do que na de 2022. Este ano, na pesquisa mais recente da Quaest, 51% dos eleitores se diziam indecisos antes da apresentação dos nomes dos candidatos. Na eleição de 2022, em agosto, os indecisos estavam em torno de 36%. A campanha começou mais fria. Mas há outra diferença, quando se comparam os detalhes das sondagens. Na última disputa, o eleitor de Jair Bolsonaro estava mais interessado nas eleições, agora é o eleitor de Lula que se mostra mais interessado.

Inimigos da democracia, por Pedro Doria

O Globo

A VPN da Proton aumentou em 800% o número de clientes brasileiros na semana passada. A maioria nem sequer desconfia do que seja uma VPN. Isso aqui, no Brasil. Em países como Rússia, Turquia, Irã ou China, todo mundo sabe. Afinal, VPN é um serviço que você contrata, instala no computador ou celular, e aí faz parecer que usa a internet de outro canto. Parece que vem de Londres, do Canadá, das Ilhas Canárias — de onde for. Serve para driblar proibições de uso em países com censura a sites específicos. Quando a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) decidiu que o Discord não poderia fazer mais lives, no Brasil, a plataforma impôs uma barreira ao território nacional. Aos computadores que vêm daqui, vídeo ao vivo está bloqueado. Vale para todo mundo — menos para os que usarem VPN. Pois é. Muito pouca gente sabe de que serve a VPN. Mas quem sabe inclui a garotada que comete crimes virtuais. O Discord está restrito para todo mundo, mas não para aqueles a quem a proibição se dirigia.

O dilema da exploração na Margem Equatorial, por Fernando Gabeira

O Globo

Será que a região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

Egressos da eleição mais perdulária vão votar o ajuste, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Redução no número de candidatos e verba pública recorde enriquecem campanha de parlamentares que vão votar o ajuste seja qual for o presidente eleito

A redução no número de candidaturas combinada com fundo eleitoral e partidário recordes e o maior volume de emendas já registrado vai proporcionar a eleição mais perdulária da história. Não poderia haver contraste maior com a agenda de ajuste fiscal que aguarda o Congresso em 2027, seja qual for o presidente a ser eleito.

O contraste do mar de dinheiro que os elegerá e a agenda que os parlamentares têm pela frente só se equipara ao da indefinição da disputa presidencial e a previsibilidade daquela da Câmara dos Deputados. A primeira deve durar, pelo menos, até 4 de outubro sem favorito. A segunda já tem bolsa de apostas sobre o baixo grau de renovação. Nenhuma delas ultrapassa a metade da Câmara.

Qualidade das campanhas pode ser decisiva, por Christopher Garman

Valor Econômico

O ataque mais eficaz contra Lula não são denúncias de corrupção, mas a associação entre carga tributária e custo de vida

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou na campanha eleitoral como um ligeiro favorito, favorecido pela vantagem de estar no governo. Mas, com os modelos de previsão eleitoral apontando em direções opostas, a qualidade das campanhas e a capacidade dos candidatos de se conectarem aos temas que realmente preocupam o eleitorado podem ter um peso incomum no resultado das urnas.

Campanhas presidenciais raramente decidem eleições. Comentaristas políticos e marqueteiros dispendem uma energia enorme para analisar discursos, debates, estratégias e mensagens - que, de modo geral, têm pouco impacto no resultado. A maioria das eleições é decidida por um desejo difuso de mudança ou de continuidade, ou pela credibilidade que um candidato projeta em torno de um tema central para o eleitor.

O intocável regime de metas precisa ser aperfeiçoado, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Diversas fontes inflacionárias além da demanda podem ter peso muito maior na alta dos preços e tornar o regime ineficaz

O Regime de Metas de Inflação (RMI), bastante utilizado no mundo para o controle da inflação, é hoje quase um dogma no Brasil. Poucos economistas ousam contestá-lo. Um trabalho dos economistas André Luis Campedelli, da Unifesp, e Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da PUC-SP, lança luzes até para não acadêmicos enxergarem o alcance e as limitações desse regime no Brasil.

O RMI foi instituído no país em 1º de julho de 1999. Estabeleceu-se que o Conselho Monetário Nacional fixaria a meta, cabendo ao Banco Central cumpri-la - atualmente é 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O regime parte do pressuposto de que a inflação é explicada, na maior parte do tempo, por uma demanda econômica aquecida. Portanto, choques de oferta seriam casuais e não deveriam preocupar, pois seus efeitos se dariam apenas no curto prazo.

Riqueza é poder, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A fragilidade econômica das camadas mais pobres é expressa numa deficiência na sua representação política

O mais recente relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostrou avanços importantes em diversas áreas. Resultado do trabalho conjunto de diferentes organizações e entidades não governamentais, o relatório, com dados de 2025, mostrou melhoria em 71% dos indicadores avaliados. Entre esses indicadores estão insegurança alimentar, desnutrição infantil, porcentagem da população em situação de extrema pobreza, homicídios entre jovens e desmatamento. Em média, a vida melhorou em relação ao ano anterior.

No caso de um importante indicador econômico e social, entretanto, o Observatório constatou não a persistência de um quadro ruim, mas sua piora. Já muito elevada no Brasil, que por isso ocupa uma posição destacada entre os países socialmente mais desiguais do mundo, a concentração de renda se acentuou. Não foi muita coisa, mas aumentou. O rendimento médio do grupo das pessoas que compõem a faixa dos 1% mais ricos correspondia a 30,2 vezes o rendimento dos 50% mais pobres; em 2025, a 31,5 vezes. Isso quer dizer que a renda apropriada por 2,1 milhões de ricos equivale a mais de 31 vezes o total recebido por 106 milhões de brasileiros na faixa de renda mais baixa.

A pior eleição desde 1989, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula não tem marca, Flávio não tem nada, Caiado perdeu o trem e o resto virou o resto

O debate da Band e do Estadão, o primeiro entre candidatos à Presidência neste ano, foi importante por expor uma síntese triste, dolorosa, de como a eleição de 2026 tende a entrar para a história como a mais desanimada e mais desanimadora entre as nove desde a primeira direta na redemocratização. Logo, também a pior.

Com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro polarizando a campanha, não houve espaço para alternativas competitivas. O ex-senador e ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que tem 5%, no terceiro lugar, tenta discutir programas e propostas, mas fica falando sozinho.