Por Vinicius
Mendes – BBC News Brasil, publicada em 22 de maio de 2026.
Em
entrevista à BBC News Brasil, o filósofo e pesquisador Marcos Nobre afirma que
terceira via é uma 'ilusão' e contesta a ideia de que exista uma polarização no
país hoje.
Embora a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o
banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, hoje preso, tenha afetado
negativamente a campanha à Presidência do filho de Jair Bolsonaro (PL), ela não será suficiente
para impedi-lo de chegar, competitivo, ao segundo turno das eleições de outubro.
A leitura do cenário atual pelo filósofo e
cientista político Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), porém, não vai na direção de que a polarização calcifica os polos antagônicos
de forma a blindá-los de crises como essa.
Ao contrário, seu argumento é que, na estrutura da
divisão social que o Brasil vive hoje, Flávio lidera a coalizão que busca
interromper políticas de redistribuição de renda iniciadas nos anos 1990.
Essa coalizão, conformada por uma parte da direita
tradicional e da direita radical, tem angariado votos desde, pelo menos, a eleição de 2018 — e reúne muitas condições
para seguir disputando o pleito desse ano, na avaliação de Nobre.
Para ele, embora a relação de proximidade de Flávio
com Vorcaro prejudique sua imagem de alguma forma, não abala sua campanha.
"Além disso, o timing da
crise foi bom para o Flávio, porque dará tempo de ele se recuperar. Tem muito
tempo até outubro", diz Nobre em entrevista à BBC News Brasil.
Flávio conta, para isso, com um novo ator da
política brasileira, na visão de Nobre: um partido digital. Este é eixo central
de O partido digital bolsonarista, livro que ele lançará em junho,
ao lado da cientista política Ana Cláudia Chaves, pelo Centro para Imaginação
Crítica (CCI) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apontado
por Nobre como o líder de uma coalizão distributivista, que tem o desafio de
não ter mais como acomodar o conflito pela distribuição da riqueza como fazia
antes: por meio de um acordo entre as classes sociais. Foi por isso que, no
atual mandato, ele partiu ao confronto com o Congresso, aponta o filósofo.
Para Nobre, é por isso que a tentativa de criar uma
"terceira via" para o pleito de outubro é uma "ilusão".
"Ela é como um estacionamento em que as pessoas ficam ali esperando se vão
para um lado ou para o outro. É uma ideia fantasiosa", afirma.
Confira os principais trechos da entrevista.