domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil tem de se preparar para seca severa

Por O Globo

Chuvas em certas regiões transmitem sensação falsa de segurança hídrica. Situação dos reservatórios é crítica

As chuvas dos últimos tempos transmitem um recado ilusório. É crítica a situação hídrica do Brasil, como mostrou reportagem do GLOBO. O país sofre escassez de água em boa parte de seu território, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Há 40 anos se registra queda anual nas chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou 25 dias. Além do impacto no abastecimento das cidades, a situação põe em risco agropecuária e geração de energia.

Não é necessário apenas que chova. É preciso que chova nos lugares certos, as cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas de Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, por isso o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) recomenda que a gestão dos reservatórios no decorrer do ano seja feita considerando o pior cenário. As taxas escandalosas de desperdício de água tratada (da ordem de 40%, segundo os últimos dados do Instituto Trata Brasil) reforçam tal recomendação.

De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Estado da Arte / O Estado de S. Paulo

Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas.

É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos.

A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia. 

Miscelânea partidária. Por Merval Pereira

O Globo

As crises do mensalão, e depois do petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje

Não é possível chegar-se a uma conclusão sobre os acordos eleitorais para a eleição presidencial por causa da miscelânea da nossa política partidária. As fotos dos pré-candidatos do PSD podem dar a impressão de que a união deles faria a diferença no segundo turno, pois, nas pesquisas eleitorais, a soma dos candidatos de direita é maior do que os votos dados a Lula. Essa conta simples mostra que a maioria prefere um candidato de direita ao eterno representante da esquerda, o presidente Lula. Mas, se no Brasil até o passado é duvidoso, o que dizer do futuro?

Um palanque na Sapucaí. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca

Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.

Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.

Hora de rever procedimentos. Por Míriam Leitão

O Globo

Assim como fez o Banco Central, as instituições envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas

No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto à primeira instância.

A voz do silêncio. Por Dorrit Harazim

O Globo

Os atendentes levam algum tempo para decifrar que a menina de 6 anos está presa num carro metralhado, rodeada de parentes mortos

Quinta-feira é o dia da semana em que novos filmes entram em cartaz. Na semana passada, a sessão das 18h30 na sala 3 do Reserva Cultural, na Avenida Paulista, foi pouco concorrida. Melhor assim, pois permitiu a quem assistiu ao drama documental “A voz de Hind Rajab” permanecer colado na poltrona, mudo e no escuro, antes de sair de cabeça encolhida para não ter de olhar para os outros nem se ver no espelho. Mesmo para quem conhece os detalhes da história real e escreve sobre as investigações do caso, o filme dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania tem a força de um soco. Na cara.

As boquinhas do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

Mantega e Lewandowski, estrategistas de Vorcaro

O Planalto tem feito o possível para se afastar do escândalo do Banco Master. Como bem lembra o ministro Fernando Haddad, em 2024, quando Lula recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro (fora da agenda) as malfeitorias eram apenas murmuradas.

Vorcaro foi levado a Lula pelo ex-ministro Guido Mantega. Até aí, o doutor é amigo do banqueiro e levou-o ao chefe. Lula acautelou-se, chamando Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, e mais duas testemunhas.

A sociedade é toda ouvidos. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Fachin e Cármen Lúcia para o STF e a sociedade: amigos, amigos, Judiciário à parte

As atenções, nesta segunda-feira, na reabertura do Judiciário pós-recesso, estarão sobre dois personagens, o presidente do STF, Edson Fachin, e a presidente do TSE, Cármen Lúcia, ambos considerados independentes, apolíticos e sóbrios, diferentemente do que se naturalizou nos dois tribunais, e (um menos, outra mais) capazes de dizer o que precisa ser dito, em vez de passar pano no que é errado e a mão na cabeça de quem não merece.

Enquanto o vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes, o decano Gilmar Mendes e principalmente o relator do caso Master, Dias Toffoli, se perdem num redemoinho corporativista e de autoproteção, o desafio de Fachin é ajustar o próprio tom, defender firmemente a ética (e não só um código) e cumprir o papel de mostrar ao País que instituições estão acima de homens.

Dissuasão determina ações de Trump. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Se seu alvos não contam com meios que o façam mudar de objetivo, presidente segue em frente

O poder de dissuasão determina desfechos das crises desencadeadas por Donald Trump. Ele jamais ameaça Xi Jinping e Vladimir Putin porque reconhece neles ditadores de grandes potências nucleares e, no caso chinês, econômica, sem limites para usar esse poderio. Com a Coreia do Norte, de status semelhante, embora menor, Trump ameaçou, depois cortejou Kim Jong-un e finalmente desistiu, diante do custo alto demais.

Pelo menos desde o livro A Arte de Negociar, de 1987, Trump tem reiterado que não persegue objetivos fixos, que enfraqueceriam sua posição de negociador. Esse princípio se confirma quando o presidente se apega demais a um objetivo, como o Nobel da Paz.

Congresso reabre com oposição em clima de “esquenta” pré-carnavalesco. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Executivo depende do Legislativo para governar; senadores e deputados, do Orçamento, para se blindar eleitoralmente e evitar um novo “tsunami eleitoral

Ainda que o calendário político comece formalmente situado no período pré-carnavalesco — tradicionalmente marcado por decisões empurradas para depois da Quarta-Feira de Cinzas —, o Congresso Nacional reabre os trabalhos amanhã sob forte tensão. A oposição chega organizada, com múltiplas frentes de ataque, enquanto o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia 2026 com uma agenda positiva mais restrita e claramente defensiva, num ambiente já contaminado pelo horizonte eleitoral. A máxima atribuída ao folclórico Neném Prancha, “quem está com a bola ataca; quem não está, se defende”, ajuda a sintetizar o momento: a iniciativa está majoritariamente nas mãos da oposição.

Bolsonaro centraliza decisões sobre a corrida eleitoral na Papudinha

Por Alice Bernardes / Correio Braziliense

Segundo aliados, há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e "desejos" do ex-presidente circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista

Sob custódia e com visitas controladas por decisão judicial, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continua no centro das articulações políticas da direita. Nos bastidores, aliados admitem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não autorizará todos os pedidos de visita, mas afirmam que há uma estratégia em curso para garantir que as orientações e "desejos" do ex-chefe do Executivo circulem entre os principais nomes do campo bolsonarista.

Segundo uma aliada do primeiro escalão, a movimentação tem como objetivo manter a coesão do grupo e assegurar que decisões políticas sejam alinhadas com Bolsonaro, independentemente do local onde ele esteja. "Nós sabemos que Moraes não autorizará todos a visitar Bolsonaro, mas estamos nos articulando para que todos estejam a par dos desejos do ex-presidente. Não tenho dúvidas de que, onde quer que ele esteja, nós vamos cumprir o que for dito."

Mensagem de Lula ao Congresso terá recado central: 2026 será o "ano da entrega"

Por Fernando Strickland e Francisco Artur de Lima / Correio Braziliense

O documento, que deve ser entregue nesta segunda-feira (2/2), deve listar projetos considerados prioritários pelo Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviará ao Congresso Nacional, amanhã, a mensagem de abertura dos trabalhos legislativos com um recado central: 2026 será o "ano da entrega" de políticas públicas construídas após um período de "reconstrução". O documento deve listar projetos considerados prioritários pelo Palácio do Planalto para aprovação ainda no primeiro semestre, tanto na Câmara quanto no Senado.

A estratégia surge após um 2025 marcado por turbulências na relação entre Executivo e Legislativo. Um dos episódios recentes foi a troca de críticas entre a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre o uso de emendas parlamentares. Tebet afirmou que o Congresso teria feito um "sequestro" de R$ 61 bilhões do Orçamento, enquanto Motta respondeu que a alocação de recursos é uma prerrogativa constitucional do Parlamento.

A dança das cadeiras na equipe econômica de Lula e mulheres no BC. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Haddad diz que sai da Fazenda em fevereiro, deixando Dario Durigan em seu lugar

Mudanças incluem vagas abertas do BC, secretarias da Fazenda e Planejamento e Gestão

Fernando Haddad diz desde o ano passado que deixará a cadeira de ministro da Fazenda em fevereiro. Por ora, parece que seu sucessor será seu vice-ministro, Dario Durigan, secretário-executivo, apesar de fracas especulações a respeito de alternativas.

A substituição não deve provocar mudança de política econômica, até porque o grosso do programa da Fazenda, contas públicas, foi decidido por Lula, apesar de sugestões de Haddad. Mas pode haver dança de cadeiras na Fazenda, no Planejamento e no Banco Central. Planejamento e Gestão podem ser fundidos, por exemplo.

O candidato Ratinho Jr.: se PSD quer direita democrática, início não foi promissor. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Tanto governador do Paraná quanto Caiado já prometeram anistia aos golpistas de 2022-2023

Se bolsonarismo tivesse sido rejeitado em sua inteireza após 8/1, centro-direita teria opção melhor

PSD de Gilberto Kassab anunciou que terá candidato a presidente da República. Já que Tarcísio se mostrou covarde, o centrão foi cuidar da própria vida.

O anúncio do PSD foi feito durante a filiação de Ronaldo Caiado ao partido, e na presença de outro presidenciável, o governador gaúcho Eduardo Leite. Mas o candidato mais provável é o governador do Paraná, Ratinho Jr..

O bullying da palavra final. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Se prevalece a vontade individual num órgão máximo de Justiça, periga o juiz assumir posição de parte litigiosa

Caso Master, que Haddad considera maior fraude bancária do Brasil, é teia de aranha que envolve os três Poderes

Quando presidente dos EUA, Harry Truman exibia na mesa uma plaquinha com os dizeres "here stops the buck". A expressão, originária do jogo do pôquer, sinaliza o ponto de parada das questões públicas, o mandatário assume todas as responsabilidades sem repassar decisão. Era afirmação de poder, não de sono tranquilo: ele, mais ninguém, ordenou despejar duas bombas atômicas sobre o Japão.

Qual é o nosso problema? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro tenta explicar o que deu errado na política norte-americana

Autor traz conceitos úteis, mas superestima estrago causado pelo identitarismo

"What´s Our Problem?", de Tim Urban, é um livro ambicioso. Tenta explicar o que há de errado com a sociedade americana e, a meu ver, acerta na mensagem central, que é a de que é preciso restaurar o liberalismo que já a caracterizou. Receio, porém, que Urban erre na dose dos ingredientes com os quais opera.

Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo

Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado

Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo.

Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia.

A guerra de Trump contra os EUA. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No passado, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil

Hoje, um ferrabrás eleito democraticamente se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria

Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça.

O vinho do senhor e o bordeaux. Por Ivan Alves Filho

“É preciso estar sempre bêbado”, vaticinou certa vez o poeta Baudelaire. Mas nada de precipitações, pois o autor de As flores do mal, que muitos consideram o maior livro de poesia moderna da França, acrescentou imediatamente: “De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”.  

Caso opte por ficar bêbado pelo vinho – o que pode conter, vá lá, a sua dose de poesia, ainda que não implique forçosamente atitude virtuosa – deve o leitor fazê-lo com o máximo de prazer possível. E isso não é muito difícil em se tratando de vinho, a bebida predileta dos deuses, segundo alguns, e também de meros mortais, como os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, gregos e afins.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond De Andrade

 

Música | Euforia, por Roberto Riberti

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo finge que cumpriu a meta fiscal de 2025

Por O Globo

Déficit dentro do limite tolerado pelo arcabouço só foi possível pela exclusão de R$ 49 bilhões em gastos do cálculo

Na ficção criada e disseminada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a gestão das contas públicas cumpre as metas fiscais estabelecidas, rumo à estabilidade da trajetória da dívida. Para o governo, o rombo de 2025 divulgado pelo Tesouro Nacional na quinta-feira, de R$ 13 bilhões, deu a sensação de dever cumprido. Pelas regras do arcabouço fiscal, o objetivo para 2025 era perseguir déficit zero, com margem de tolerância de 0,25% do PIB para mais ou para menos. Na prática, isso permitia um déficit de até R$ 32 bilhões. Na versão do governo, portanto, o resultado negativo de R$ 13 bilhões deveria ser motivo de comemoração.

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse estar satisfeito: “É o segundo ano consecutivo [de déficit] abaixo de 0,5% do PIB. Você não tem um resultado desses acumulado na década. Considero o resultado do ano muito satisfatório com todos os desafios apresentados. Não há uma piora”.

Esfera pública com pouca potência democrática. Por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa ‘opinião pública’

Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O Supremo Tribunal Federal (STF) está dividido e perdendo credibilidade.

O que chama a atenção é que a esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”.

Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (Mudança estrutural na esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas.

Como seria o Brasil sem os otimistas? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O que ora nos importa é perscrutar o passado recente para tentar entender como nos enredamos no atual lamaceiro

Há quem pense que o Brasil já entrou nos eixos; que vamos bem apesar da economia estagnada e de nossa incapacidade de identificar um candidato plausível para suceder a Lula nas eleições deste ano.

É ótimo que alguns pensem assim; otimistas sempre ajudam a aliviar o ambiente. Melhor ainda seria se conservassem alguma preocupação em compreender como chegamos ao paradeiro em que há tempos nos encontramos.

Sobre a economia, não há muito a dizer. Sabemos todos que um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo a pífios dois por cento ao ano não chegará a bom porto. Isso não significa que toda a economia esteja parada. A agricultura, que o renomado economista Celso Furtado via como um peso morto em nossa sociedade, é hoje, por meio do agronegócio, o baluarte de defesa de nossas contas externas. Veja-se o cultivo de frutas. O abacate, na região de Campinas, e as mangas nobres, na fronteira de Minas Gerais com a Bahia, são grandes exportadores mundiais.

Os fundamentos de Dias Toffoli. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Dias Toffoli, anulador-geral da República (do Império), está preocupado em evitar nulidades processuais. Preocupemo-nos também. Ele se manifestou sobre seus atos à frente do caso Master. Explicou-se. Explicou-se sobre o que poderia explicar; sobre o que seria explicável.

Há o não explicado. O que importa – inexplicável: que ainda seja relator em investigação que tem como um dos objetos o ex-sócio de seus irmãos. Edson Fachin diria – com razão – que isso se trata de matéria não jurisdicional; o fato de os irmãos do ministro terem sido sócios de fundos fornecedores da transfusão artificial de liquidez para o Master.

Sai Tarcísio, entra Ratinho Junior. Por Thaís Oyama

O Globo

Para Kassab, o governador do Paraná, comparado a Leite e Caiado, é quem melhor enverga o figurino da centro-direita

Desanuvia-se aos poucos o horizonte das eleições presidenciais. Tarcísio de Freitas, com sua primeira visita a Jair Bolsonaro desde que o ex-presidente ungiu o filho, selou apoio à candidatura Flávio Bolsonaro e afastou a sua própria do páreo. Abriu, assim, espaço na disputa a um terceiro nome. O governador do Paraná, Ratinho Junior, é hoje o mais provável.

Desde sempre o preferido de Gilberto Kassab para candidato do PSD à Presidência caso Tarcísio decidisse pela reeleição, Ratinho Junior ganhou, nesta semana, a companhia do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, no rol de presidenciáveis da sigla. A lista já comportava o também governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

É racismo, sem eufemismo. Por Flávia Oliveira

O Globo

Ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em votação simbólica, em dezembro, legislação que proíbe a aplicação de cotas raciais para ingresso em universidades estaduais e entidades de ensino que recebam recursos do governo catarinense. A casa, formada por 40 deputados, não indicou no painel do plenário quantos deputados votaram a favor, contra ou não se posicionaram sobre o projeto de um parlamentar do PL, posteriormente sancionado pelo governador. Pelo que declararam os próprios deputados, sete integrantes da Casa foram contrários ao texto que, ora judicializado no próprio estado e no Supremo Tribunal Federal (STF), suprime a reserva de vagas para pretos e pardos, mas a mantém para alunos oriundos de escolas públicas, de baixa renda e portadores de deficiência.

Réquiem por um cão. Por Eduardo Affonso

O Globo

Perdoe-os, Orelha. Os monstros da Praia Brava nunca leram Graciliano Ramos. Não choraram por Baleia

Já nos encontramos centenas de vezes, Orelha. Você vagando, coberto de sarna, costelas à mostra, nas ruas de Viçosa (onde há uma Faculdade de Veterinária que o poderia acolher e cuidar — e não acolhe).

Estivemos juntos na Vila do Abraão, na Ilha Grande, na longínqua década de 1970, lembra? Você passou as noites ao lado da barraca — não sei se nos protegendo, se pedindo proteção. Você, então, se chamava Sansão.

Vejo-o a cada manhã. Minha primeira visão do mundo é — cabecinha no travesseiro ao lado do meu — a Duda, encontrada há alguns anos numa caixa de papelão (pele, osso e vermes), numa calçada do Catete.

Vemo-nos em todas as cidades do país, nos postos de gasolina, na soleira dos botequins. Raspas e restos — de comida, de afeto — lhe interessam.

O recado de Vorcaro no STF. Por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Para uma instituição do porte do Master, R$ 4 milhões é praticamente zero, quase uma fatura mensal do cartão de crédito do ex-banqueiro

Caixa zerado revela que o banco já não tinha a menor condição de funcionar

Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa no dia em que o Banco Central decretou a sua liquidação. É quase uma fatura mensal do cartão de crédito de Daniel Vorcaro no pico da sua vida de ostentação e luxo, com a qual conseguiu atrair para o seu satélite autoridades e políticos.

De mãos dadas com o trambique. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O nepotismo das emendas família lembra a atuação de parentes de ministros na corte

Inquérito contra Vorcaro revela conexões perigosas com deputados, senadores e magistrados

Os embates entre Executivo, Legislativo e Judiciário não vêm de hoje, basta lembrar a tentativa de golpe. Marcaram o ano de 2025, deixando a impressão de que não haverá trégua no curto prazo. Erros e excessos se avolumam, e outra batalha institucional se desenha no horizonte.

Lula e Trump, diálogo imprevisto. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Lula fará uma visita de Estado a Washington em março. Esse é o mais importante sinal de que a diplomacia brasileira está trabalhando bem para tourear Donald Trump

Há algum tempo, tenho alertado o leitor para o fato de que o candidato da oposição à Presidência da República deve ser Carlos Massa, o Ratinho Junior, governador do Paraná. Ele, com 44 anos, é muito bem avaliado em seu estado, trabalha com ideias e práticas liberais. Trata-se da alternativa natural a Tarcísio de Freitas. O Governador de São Paulo prefere se candidatar à reeleição para continuar no Palácio dos Bandeirantes. É mais fácil, mais simples e dispensa a companhia dos bolsonaros, que significam demandas, queixas, pequenas intrigas e denúncias de corrupção. Ele prefere se resguardar para 2030.

Em ano de Copa, a política fiscal vai jogar por um empate. Por Marcus Pestana

Sendo um ano em que ocorrerão eleições nacionais gerais, é de se esperar um foco da gestão fiscal no controle sintonia fina sobre as receitas e despesas previstas no Orçamento. Monitorando o comportamento das principais variáveis, contornando riscos e ameaças, perseguindo objetivos menos ambiciosos do que seria o ideal para o país, endereçando a necessária reforma fiscal para 2027.

Ou seja, nenhuma medida heroica ou radical deverá ser proposta. Nem no aumento de tributos, no corte de gastos. Até mesmo em função das dificuldades de se obter apoio parlamentar para medidas mais ousadas em ano eleitoral. O objetivo a ser perseguido é o cumprimento da meta de resultado primário prevista, utilizando os descontos legais permitidos e mirando o limite inferior da margem de tolerância, zerando o déficit primário, em 2026 depois de doze anos de sucessivos déficits.

A tragédia da base na educação. Por Cristovam Buarque

Veja

Não dá para construir uma casa sem antes ter alicerces sólidos

Na semana passada, o país se assustou ao saber que uma avaliação do MEC reprovou mais de 100 faculdades de medicina. Se os mesmos critérios fossem aplicados aos demais cursos do ensino superior, inclusive enfermagem, o número de reprovados seria ainda maior. Embora sirva de alerta, essa avaliação só produzirá resultados se for usada para compreender as origens do problema.

A falência tem sete causas principais. A primeira é a tradição de adotar o diploma universitário como título de nobreza, símbolo de status social: “doutor” substituiu conde, barão e duque. A segunda causa decorre da ideia de que, em uma República, todos têm direito ao título de nobreza. No lugar do direito a uma educação básica de máxima qualidade, optamos pela promessa de “universidade para todos” —, ignorando dezenas de milhões de analfabetos e sem ensino médio. A terceira causa é a adoção do ensino superior como prolongamento da escolaridade, para compensar o descuido com a educação de base. Para aqueles que continuaram condenados a escolas deficientes, os governos criaram mecanismos para abrir as portas das universidades.

Mão amiga. Por André Barrocal

CartaCapital

O governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master

Daniel Vorcaro, dono do finado Banco ­Master, esteve com o presidente Lula no Palácio do Planalto no fim de 2024, levado por Guido Mantega, ministro da Fazenda no segundo mandato do petista e, à época da reunião, consultor da instituição financeira. Buscava apresentar ao governo federal sua versão sobre o que considerava uma perseguição de rivais poderosos no sistema financeiro. Em vão. Sob a batuta de ­Gabriel ­Galípolo, indicado por Lula, o Banco Central fechou o Master em novembro passado. Ricardo Lewandowski também havia se tornado consultor de Vorcaro­ depois de deixar o Supremo Tribunal Federal em 2023. O presidente sabia do contrato ao nomeá-lo ministro da Justiça. Se o banqueiro esperava ter no ex-juiz um defensor no governo, equivocou-se. Com Lewandowski na Justiça, o mineiro foi preso pela Polícia Federal em novembro, durante a Operação Compliance ­Zero, que investiga o banco. Tanto Mantega quanto Lewandowski tornaram-se consultores do Master por sugestão do líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, amigo de um conterrâneo e ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima.

O Código do Judiciário. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

A democracia não vai sobreviver se o Poder Judiciário afundar sua reputação no lodaçal do narcisismo

O atual presidente do STF, ministro Edson Fachin, sugeriu a elaboração de um Código de Conduta para disciplinar o comportamento de magistrados em todas as instâncias do Poder Judiciário.

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Esse poder da República resistiu bravamente às incursões do totalitarismo bolsonarista.

Há que se considerar que a regra da separação e do equilíbrio harmônico dos poderes não pode ser substituída pela autonomização dos Poderes da República, ao se apresentarem uns diante dos outros como poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas. A democracia não vai sobreviver se o Poder Judiciário afundar sua ­reputação no lodaçal do narcisismo.

Ouvidos para quê? Por Maria Rita Kehl

CartaCapital  

Bolsonaro quase cumpriu a promessa de acabar com a democracia. Por que tantos brasileiros ignoraram – ou fingiram ignorar – essa ameaça?

Caros leitores, pela primeira vez uso este espaço para recomendar um livro: Arquitetura da Destruição: Um Diário da Era Bolsonaro, do Palanque à Condenação (Ed. ­Autêntica), de Bernardo Mello Franco. A obra reúne análises escritas pelo jornalista no calor dos acontecimentos e publicadas nas páginas do jornal O ­Globo. Reunidas em volume, essas colunas adquirem, como observa a historiadora Heloisa Starling no prefácio, a dimensão de um poderoso testemunho sobre a trajetória do homem que prometeu acabar com a democracia brasileira – e quase cumpriu a promessa.

Trumpismo. Por Pedro Serrano

CartaCapital

Estamos diante da ascensão de uma nova extrema-direita dotada de elevadíssimo potencial autoritário, assim como a clássica extrema-direita nazifascista, mas com novas vestes e novo instrumental

As formas de autoritarismo do século XXI possuem determinadas especificidades quando comparadas àquelas do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um estado de exceção em sua acepção clássica para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção. Em outras palavras, utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

O butim dos piratas. Por Jamil Chade

CartaCapital

A Casa Branca escolhe a contestada Trafigura para comercializar o petróleo “confiscado” do país caribenho

Uma empresa na Suíça envolvida em escândalos, uma conta obscura no Catar, acordos pouco transparentes e uma receita administrada integralmente pela Casa Branca. Desde o sequestro de Nicolás Maduro, um dos elementos mais delicados do novo controle dos Estados Unidos sobre a Venezuela passou a ser o destino do petróleo do país. Oficialmente, o governo de ­Donald Trump anunciou a interrupção e o confisco das vendas “clandestinas” de óleo e prometeu que, a partir de agora, as exportações do combustível iriam “beneficiar” o povo venezuelano e o norte-americano. Bravata. O que está em curso mais se parece, porém, com pirataria, com a gestão por tempo “indefinido” dos recursos da nação caribenha nas mãos do republicano, conforme as explicações do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.

A importância silenciosa, mas decisiva, do Presidente da República. Por Filipe Lobo d'Ávila*

Expresso(Portugal)

*Advogado, antigo vice-presidente do CDS

A história recente mostra que, em momentos de bloqueio, a intervenção presidencial foi determinante para devolver clareza ao sistema político ou, quando mal-usada, para acentuar crises democráticas. Esta magistratura de influência é um poder que exige coragem, ponderação e sobretudo exige sentido de responsabilidade

Num país habituado a olhar para o Governo como o centro da ação política, é fácil subestimar o papel do Presidente da República. No entanto, a estabilidade democrática portuguesa depende, em grande medida, da forma como o Presidente exerce os seus poderes - discretos na aparência, mas profundos no exemplo e nas consequências.

A importância do cargo não se mede pelo número de decisões diárias, mas pela capacidade de intervir nos momentos em que o país mais precisa de equilíbrio, prudência e visão institucional.

Poesia | O mundo é grande, de Carlos Drummond de Andrade