segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso militar da IA exige atenção de todo o planeta

Por O Globo

Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica

É provável que o dia 6 de julho de 2026 entre para a História como o primeiro registro de morte provocada por inteligência artificial (IA) numa guerra. Naquele dia, um drone russo controlado desceu sobre a cidade de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia, em direção a um posto de gasolina, explodiu num muro, e seus estilhaços mataram três pessoas. Peritos concluíram que o drone estava programado para voar até o local e escolheu explodir perto do provável alvo: um tanque de combustível. Não devido a erro, mas porque decidiu fazer aquilo, sem qualquer controle humano. Foi guiado por IA.

Foi o primeiro caso documentado com morte de civis por drone do tipo, de acordo com análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. A perícia foi confirmada pelo resgate, dentre os destroços, de um pequeno processador da Nvidia, principal fornecedora de chips para IA. O drone foi considerado arma autônoma.

Depois da Independência: quem decide o futuro do Brasil? Por Sami Sternberg

Correio Braziliense

O objetivo oculto da interferência externa sobre o Brasil é impactar diretamente a maneira como a população enxerga as próprias instituições e a capacidade do país de lidar com seus desafios internos

Enquanto o Brasil passa por mais um 7 de setembro que simboliza sua autonomia e soberania, o país convive com ações de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro que saíram da esfera especulativa e se tornaram realidade. Não há dúvidas de que as sucessivas medidas econômicas, políticas e diplomáticas tomadas pelo atual governo dos Estados Unidos e seus aliados geram impactos diretos na corrida eleitoral do país. Mas a maior vítima dessa engrenagem de ingerência e desinformação é algo que transcende os diferentes espectros ideológicos: a integridade da democracia brasileira.

De espancamentos e chacinas, por Miguel de Almeida

O Globo

Só faltou acrescentar que deveria ter o destino do ciclista de Copacabana, morto a pauladas por seguranças

Um recorte de 1978: em “Um homem chamado Opinião”, de Márcio Pinheiro, sobre o publisher Fernando Gasparian, criador do jornal “Opinião”, célebre órgão de oposição à ditadura, há a inauguração de sua Livraria Argumento, na paulistana Rua Oscar Freire. Impressiona a lista de presentes: entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, José Arthur Giannotti, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Francisco Weffort. Todos professores universitários, intelectuais que participavam do debate público. Sofreram todos sob o regime militar — cassados ou exilados —, mas buscaram vencer o arbítrio. Cada um, a seu jeito, esteve na base da formação do PSDB ou do PT.

Eleições com IA, sim! Por Irapuã Santana

O Globo

A simples proibição de um instrumento não é o melhor caminho para a sociedade. Parece ser um esforço para impedir o inevitável

Na última terça-feira, o TSE definiu os critérios para caracterizar um deepfake nas eleições de 2026. Estabeleceu que é o conteúdo sintético produzido por inteligência artificial (IA) que apresente grau de realismo com potencial de induzir o eleitor a erro. Esse é um exemplo do grande desafio diante da nossa Justiça Eleitoral para regular o uso da tecnologia em 2026.

A fim de proteger o pleito, o tribunal se aprofundou bastante no tema e, como não poderia ser diferente, isso produziu alguns efeitos negativos sobre a própria democracia. “Numa democracia, em que rege a ideia de autogoverno, nós usamos os processos democráticos para que o Estado consiga captar corretamente a vontade das pessoas, as preferências em geral do eleitorado, através do voto, da escolha dos seus representantes”, diz o desembargador eleitoral do TRE-RJ Bruno Bodart.

Não há empate entre Mendonça e Moraes, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O pessoal do abafa, a longa fileira de autoridades que se beneficiaram do dinheiro de Vorcaro, já está em campo

Muitos analistas sugeriram que Alexandre de Moraes deveria renunciar ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) diante da revelação dos fortes indícios de relações impróprias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Afastado, Moraes contrataria um bom advogado e se dedicaria a sua defesa. Seria, de fato, uma atitude republicana, levando em conta os interesses do país — dado o tamanho do caso — e preservando o próprio STF.

Se fizesse isso, Moraes se despiria da couraça que o protege — o poder do cargo — e perderia o foro privilegiado. Voltaria a ser um brasileiro comum, embora rico. Especulando: que condições deveriam estar presentes para que Moraes tomasse tal decisão? Duas: a convicção pessoal de que é inocente e a certeza de que teria um julgamento justo.

Dois juízes ‘heróis’: tudo que não precisamos, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Tudo o que o Brasil não precisava era de 2 juízes ‘heróis’ para energizar torcidas políticas

A crise do Supremo Tribunal Federal é fruto de um mal: a existência de ministros que tudo podem e, como deuses intocáveis, acreditam estar acima das leis. Esses juízes supremos não surgiram do nada. Eles foram gerados pela carência da população brasileira por heróis e cresceram (em poder, em número, em ousadia nas decisões monocráticas) porque as instituições, entre as quais o próprio STF, falharam em contê-los.

Decepcionados com os políticos, os brasileiros passaram a olhar para certos juízes como salvadores imbuídos da missão de varrer a corrupção do País ou de fazer justiça social. A tentação de encontrar tais heróis nos tribunais se nutre do desejo de acreditar que só um homem forte, sem precisar prestar contas a ninguém, pode consertar as coisas e fazer “o que precisa ser feito”.

Crise institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Se o STF optar pela Justiça, poderá recuperar o seu prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade

O Supremo é um trem descarrilhado chocando-se com a República. Não poderá ela resistir se nada for feito, pois o que se tem visto é uma instituição na qual alguns de seus membros, além de exorbitarem de suas funções e prerrogativas, defendem prioritariamente interesses privados e corporativos. As relações promíscuas, esse é o termo mais apropriado, entre o mafioso – impropriamente denominado de banqueiro – Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, são estarrecedoras. A mulher do ministro faz um contrato de R$ 131 milhões com o mafioso, contrato esse por ele próprio revisado. Fica-se com a impressão de que o trata como um funcionário seu. A República não pode conviver com cenas desse tipo, a menos que abdique de ser a “coisa pública” para ser a “coisa privada” de alguns.

A encruzilhada política da Alemanha, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Restam 3 opções para lidar com a extrema direita alemã: isolar, proibir ou deixar governar

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

Vitória da extrema direita na Alemanha revela desejo de voltar ao passado, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

AfD encontrou eleitorado desencantado com promessas

Partido tem programa politicamente indigno e até perigoso

A história não se repete. Às vezes, nem sequer rima. Mas é tentador olhar para 2026 com os olhos postos em 1933. No estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a direita radical conseguiu uma vitória histórica.

Sem maioria absoluta, ainda não está claro se conseguirá governar. Mas foram incontáveis os artigos de jornal que pintaram em Ulrich Siegmund, o candidato da AfD – Alternativa para a Alemanha –, o célebre bigodinho do cabo austríaco. Antes de mais nada: o programa da AfD é politicamente indigno e, em suas simpatias russófilas, até perigoso.

Mas serei o único a achar estranho que a direita radical se imponha nas urnas porque, entre outras razões, também soube apelar à nostalgia pela antiga RDA comunista? Se dúvidas houvesse, Ulrich Siegmund fez questão de aparecer na campanha com sua moto Simson – um pedaço de "Ostalgie" sobre duas rodas, só superado pelas quatro do inevitável Trabant, o carro emblemático do antigo regime. As causas do sucesso da AfD talvez estejam mais próximas de nós do que as cervejarias de Munique de um século atrás.

STF: fora de campo, dentro do jogo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A menos de um mês do primeiro turno, o Supremo deixou de arbitrar o jogo eleitoral para se tornar seu principal personagem

Enquanto o STF trava uma guerra interna, debate sobre planos de governo e propostas eleitorais fica em segundo plano

Em quatro semanas estaremos nas urnas escolhendo presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. As manchetes dos jornais deveriam estar dedicadas aos planos de governo, propostas, candidatos azarões e peculiaridades do financiamento político. Mas a realidade é diferente, tudo o que discutimos foi o Supremo Tribunal Federal e seus ministros.

Que a corte é inventiva em sua função de guardiã da Constituição sabemos há tempos. Para ficarmos em exemplos recentes, o STF reinterpretou a regra constitucional que estabelece um teto para pagamentos dos servidores públicos criando um teto paralelo para o Judiciário. Outro exemplo é a manutenção do presidente do TJ-RJ como governador em exercício do estado. Que a corte atua politicamente também não é novidade. O decano da casa, ministro Gilmar Mendes, é o melhor exemplo. Em uma de suas decisões mais emblemáticas, em dezembro do ano passado restringiu, sozinho, à PGR o poder de pedir impeachment de ministros do STF, blindando a si e aos colegas.

A República à venda, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A pergunta já não é apenas quem tentou comprá-la, mas quem se dispôs a negociar com o comprador

Reformas no STF eliminam incentivos perversos, mas não substituem a responsabilização necessária

Urbem venalem et mature perituram, si emptorem invenerit (uma cidade à venda e condenada a perecer rapidamente, caso encontrasse um comprador). A frase, atribuída por Salústio a Jugurta, rei da Numídia, depois de ter corrompido senadores, diplomatas e tribunos da plebe, tornou-se a expressão máxima da corrupção política. Evoca não apenas a compra de autoridades, mas o colapso de uma República.

Jugurta concluiu que Roma estava à venda. No Brasil, a pergunta já não é apenas quem tentou comprar a República, mas quem se dispôs a negociar com o comprador —e quem utiliza o poder de julgar para impedir que saibamos a resposta. E é com isso que estamos nos deparando: contra-ataques diversionistas disparados a toque de caixa. A estratégia parece clara: criar falsas equivalências. A que ponto chegamos? E como chegamos a esse ponto?

Até quando a elite vai ignorar vidas negras? Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Reconhecer o impacto do racismo na vida de milhões não é prioridade no país mais negro fora da África

Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais

Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.

Obra de Roberto Schwarz, 88, concebe a literatura brasileira como espelho de sociedade desigual, por Edu Teruki Otsuka*

Folha de S. Paulo

Crítico investigou a impressão de desajuste entre as ideias modernas, importadas da Europa, e a realidade do país

A partir de Machado de Assis, Schwarz reconstituiu o processo de formação do romance brasileiro

Ler extensivamente a obra de Roberto Schwarz é o melhor caminho para compreender os argumentos dos seus estudos mais conhecidos porque possibilita perceber as relações internas que dão ao conjunto dos seus textos ensaísticos um caráter muito articulado, sugerindo um ponto de vista crítico de alcance sistemático.

Os seus textos não fazem concessões ao leitor e, ao mesmo tempo que buscam o máximo de clareza e precisão, exigem dele disposição para acompanhar argumentos complexos, juntar conhecimentos de áreas que a especialização separa e se preparar para raciocínios contraintuitivos, sempre em luta contra o senso comum e em atrito com opiniões estabelecidas.

Só assim é possível apreciar a beleza dos movimentos do pensamento e da composição altamente refletida, o senso de humor e as sutilezas de inflexão que compõem a sua prosa de ensaio —um estilo literário construído e adaptado em cada caso para fazer frente à complexidade dos objetos de que trata, visando ao seu significado estético e político.

Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação, por Bernardo Carvalho

Folha de S. Paulo

Podemos estar cercados de 'amigos desleais' que, em nome de interesses aparentemente comuns, preparam armadilha fatal

Em entrevista em 1964, Hannah Arendt discutiu pertencimento a grupos organizados politicamente

A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

Pronunciamento à Nação: 7 de Setembro (6/09/2026)

 

Poesia | Pátria Minha, de Vinicius de Moraes

 

Música | Gal Costa - Aquarela do Brasil (Ary Barroso)

 

domingo, 6 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência tem de ser duradoura

Por O Globo

Estudo tem o mérito de não fugir às questões espinhosas e de propor solução de longo prazo

Menos de oito anos depois da última reforma, a Previdência apresenta rombos crescentes. As contribuições recolhidas são insuficientes para pagar benefícios, aposentadorias e pensões. Em 2025, o Tesouro teve de gastar R$ 320 bilhões para honrar os compromissos do INSS. Na Previdência dos servidores públicos, foram mais R$ 62 bilhões e, nas pensões dos militares, outros R$ 53 bilhões. As despesas do INSS equivalem a 8% do PIB e, com o envelhecimento da população, chegarão a mais de 17% até o fim do século.

Toda caminhada começa pelo primeiro passo, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Foi divulgada ontem, dia 04.09, pela Transparência Internacional, uma nota pública intitulada "O Brasil precisa neutralizar as ameaças às suas instituições e ao seu regime democrático", em cujo primeiro parágrafo lê-se:

“Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes”.

Claro que não se pode recepcionar um texto de um movimento global monotemático, como é o Transparência Internacional - para o qual o combate à corrupção é fundamental a ponto de pretender erradicá-la - como se fosse um texto plenamente político. Seu posicionamento é assumidamente concentrado na dimensão institucional e é, desse modo, distinto e muitas vezes vai mesmo na contramão do que se deve esperar de algum ator político relevante, obrigado a olhar simultaneamente para várias direções, sem aderir à ideia de que a corrupção seja o único ou o principal problema do país.

Crime, castigo e relações perigosas de ministros do STF no caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça

“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.

— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!

Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.

— É que eu… — começou Raskólhnikov.

— Beba água.

Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:

— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.

Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”

O que proteger em tempos extremos, por Míriam Leitão

O Globo

A confiança na democracia está se estiolando, num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro da história

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.

O autoritarismo revivido, por Merval Pereira

O Globo

A manipulação da Suprema Corte dos EUA pelo presidente Roosevelt e a cassação de ministros no Brasil em 1969 são exemplos de controles das Cortes

A politização do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início a essa crise institucional que estamos vivendo que, com diferenças de características sociais e geopolíticas, se repete em diversos países. De aspirantes a ditadores até a democracias liberais, o papel das Cortes Superiores vem ganhando uma dimensão política que não se coaduna com princípios de equilíbrio de poderes de uma democracia. O poder excessivo do ministro Alexandre de Moraes é exemplar dessa situação.

Na semana passada, debatendo o tema do autoritarismo na Academia Brasileira de Letras a partir de conferências feitas pelo embaixador e acadêmico João Almino, discutimos a questão dos “democratas autoritários”, título de um livro do próprio Almino, a partir da aceitação de que estamos vivendo um momento de regressão política e de abandono da experiência democrática em vários lugares do mundo, o que nos levou ao momento que vive o país.

Um morto-vivo na eleição do Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Cláudio Castro se lambuzava em caviar enquanto estado era rapinado, indica PF

Um fantasma ronda a disputa pelo Palácio Guanabara: o fantasma de Cláudio Castro. O ex-governador virou um morto-vivo na política fluminense. Os aliados fingem não conhecê-lo, e os rivais apostam nele como anticabo eleitoral.

O candidato do PL, Douglas Ruas, esconde o antigo chefe da propaganda partidária. Na TV, ele é apenas um caminhante solitário que esbraveja contra o “Rio da novela” e repete que “a gente não criou esses problemas”. Quem terá criado?

Os bolsonaristas que concorrem ao Senado também fazem ginástica para se distanciar do ex-governador. “Nunca fui aliado de Castro”, diz Carlos Jordy. “Não preciso defender o legado dos outros. Cada um tem seu CPF”, emenda Carlos Portinho.

A responsabilidade do Supremo, por Elio Gaspari

O Globo

No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar “toda a história” do Master.

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade.

O apagamento de Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista

Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.

Ao som de Xandão e Lulinha, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com foco em Vorcaro, o prejudicado era Flávio; em Xandão, passa a ser Lula

O resultado da crise sem precedentes no Supremo, devastador para o humor nacional e a já frágil confiança nas instituições, atinge as eleições. Sem programas de governo, com propostas reais e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.

O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 130 milhões para o “irmão” banqueiro. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga sobre o presidente Lula.

Estratégia dos EUA cheira a anos 60, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Nova política amplia risco de interferência em um país em caso de derrota de um aliado de Trump

Os pilares do plano de Donald Trump para a Venezuela sugerem um potencial padrão para a América Latina: coerção militar, pacto de sustentação do governo, expropriação de riquezas e ausência de compliance. O alinhamento de líderes políticos da região, incluindo do Brasil, à estratégia americana cria o risco de retrocesso institucional, econômico e geopolítico.

Mendonça, o novo justiceiro, também precisa ser cobrado, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Erros de um e de outro deveriam ser tratados sem a contaminação da guerra ideológica

Politização toma conta de instituições e mídia durante campanha sem discussão de propostas

As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Ideias e paliativos para conter a bandalheira no Supremo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reformas podem atenuar risco de crises, mas país está institucionalmente podre

Difícil conter nomeação de amigos políticos para o STF e advocacia familiar bandida

Bandalheiras no Supremo causam escândalo justificado. Também dão oportunidade a comportamento santarrão ou hipócrita de outra espécie, que prega soluções de moralismo política ou eleitoralmente interessado. O apodrecimento do STF vem de década e meia, anos em que a promiscuidade política e econômica do tribunal não causava tanta sensação, pois camuflada de modo útil para elites políticas e econômicas, antes que festas e farofas ricas de lobby ficassem exageradas. De resto, candidatos de grupos políticos associados a facções criminosas estão aí, sem suscitar manifestos de indignação.

Direita quebrou banco e comprou STF, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir

Banqueiro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal melaram seu esquema

A direita criou o Banco Master, foi pega roubando com o Banco Master e agora teve que pagar uns caras do STF para escapar da cadeia.

Na última semana, descobrimos novos indícios de que o dono do Master tentou comprar o apoio do ministro Alexandre de Moraes. Há também indícios contra os ministros Dias Tóffoli e Nunes Marques. Mas só as acusações contra Moraes ajudam o candidato em que o ministro André Mendonça vota.

Relatos de puro espanto, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia

Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.

Origem da crise é o desrespeito à Constituição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A responsabilidade não é do sistema; é de quem comanda e opera os Poderes ao arrepio das regras e rituais

A geração subsequente aos artífices da redemocratização foi incapaz de seguir os passos dos antecessores

Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria.

O enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte.

As cores do coração, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso

O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Poesia | Minha terra, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | Alceu Valença - Tropicana

 

sábado, 5 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo vandalizado

Por CartaCapital

O ministro André Mendonça produz o seu 8 de Janeiro particular

Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

É preciso reconstruir, e não implodir a democracia, por Flávia Oliveira

O Globo

Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo

Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.

Moraes não nasceu ontem, por Thaís Oyama

O Globo

O poder do ministro cresceu num ambiente em que cada heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade

Exposto em conversas indefensáveis com o hoje presidiário Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes sacou do coldre o inquérito das fake news e apontou-o para a cabeça do seu colega de Corte, André Mendonça, mergulhando o Supremo numa crise nunca vista. Ministros do STF se disseram perplexos. Democratas se abanaram. O presidente Lula apressou-se em afetar indignação.

Ninguém duvida de que a crise é abissal. Mas tanta surpresa não se justifica. Alexandre de Moraes não acordou um dia transformado em Alexandre de Moraes. Tampouco virou sozinho o que é.

Em momentos de crise, a soberba é má conselheira, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

É fundamental fortalecer o colegiado do STF em detrimento de seus membros

E os mandatos na corte não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas.

A autoridade do tribunal sempre foi contestada por setores autoritários da vida brasileira, que desrespeitaram suas decisões, violaram suas prerrogativas, aposentaram ministros e, mais recentemente, vandalizaram sua sede. O que torna a crise atual mais grave que as anteriores é que às ameaças externas se somam os ataques internos, que colocam em risco a sobrevivência não apenas da instituição mas da própria Constituição.

Não será fácil superar a presente crise pela qual passa o Supremo, se é que ela será um dia superada. O termo crise, em sua origem, designa não apenas o risco de perecimento de um organismo ou instituição mas um momento crucial, em que decisões precisam ser tomadas com vistas à correção de rumos e reestabelecimento da normalidade. A soberba apenas nos aproximará do precipício.

Quando todo mundo está certo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

André Mendonça está certo em cobrar investigação sobre Alexandre de Moraes

E Moraes aponta problemas reais em ações de Mendonça à frente do inquérito

André Mendonça está certo e Alexandre de Moraes está certo —e é por isso que o STF vive a mais grave crise de sua história.

O relator do caso Master tem razão ao sustentar que o relacionamento de Moraes com Daniel Vorcaro precisa ser investigado. Não dá para cravar que Moraes tenha cometido crimes —só a investigação poderia determiná-lo—, mas, no plano ético, a situação do ministro é insustentável. O conflito de interesses está provado. A família de Moraes auferiu dezenas de milhões de reais com um contrato com o banco Master totalmente fora dos padrões de mercado e que não poderia ter motivações republicanas. Era dever do ministro perceber isso.