terça-feira, 14 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Carga tributária evidencia erro da política fiscal de Lula

Por Folha de S. Paulo

Novo recorde de arrecadação fracassa em evitar escalada do déficit movida à expansão contínua dos gastos

A carga pode e deve ser mais bem distribuída, com maior peso na renda alta e menor tributação regressiva sobre o consumo

Ao bater mais um recorde em 2025, como recém-divulgado pelo Tesouro Nacional, a carga tributária do país evidencia o erro básico da política fiscal do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No ano passado, União, estados e municípios arrecadaram em impostos, taxas e contribuições R$ 4,127 trilhões, equivalentes a 32,4% do Produto Interno Bruto. Dito de outra maneira, o Estado brasileiro consumiu perto de um terço da renda da população.

Essas cifras seriam ainda maiores se considerassem, como fazem outros trabalhos, encargos como as contribuições para o FGTS e o Sistema S, que somam 1,95% do PIB. De todo modo, os números do Tesouro dão boa ideia de como evolui a carga.

Aliado de Trump, Putin e Bolsonaro, Orbán perde as eleições na Hungria, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A experiência húngara indica que narrativas ideológicas globais têm alcance limitado quando confrontadas com a realidade econômica e social dos países

A derrota de Viktor Orbán na Hungria, após 16 anos no poder, sinaliza uma mudança de rumo na Europa e o esgotamento da capacidade de projeção política de lideranças associadas ao chamado “iliberalismo”. E impôs um revés político à estratégia de interferência internacional do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente russo, Vladimir Putin. Em um momento em que a eleição brasileira ganha contornos mais definidos, o episódio europeu mostra os limites do apoio externo na disputa pelo Palácio do Planalto.

A queda de Orbán representa a fadiga política acumulada ao longo de anos de concentração de poder, autoritarismo institucional e desgaste econômico. Sua associação explícita com lideranças estrangeiras controversas, como Trump e Putin, foi um forte fator de rejeição, sobretudo entre os eleitores mais jovens. Orbán é um ícone de movimentos Maga (Make America Great Again) nos EUA, por ter iniciado o combate à cultura woke, à imigração, às elites universitárias e à liberdade de imprensa, entre outras coisas.

Além da guerra, persiste o ‘fogo amigo’ dos juros, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

De acordo com a CNI, antes da guerra no Irã, a taxa de juros de equilíbrio seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual

Um mês atrás, esta coluna saiu com o título “Empresas vão ao ‘matadouro’ sem dar um pio”. Era uma forma de sugerir que os juros altíssimos no país estavam levando grandes e médias empresas, silenciosamente, a uma situação de endividamento insustentável.

Por coincidência, no mesmo dia e no seguinte, dois grupos gigantescos pediram recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,5 bilhões e R$ 65 bilhões. A estranheza do colunista era pelo fato de que praticamente não havia críticas de empresários do setor produtivo à política monetária do Banco Central, que mantinha a Selic em 15% ao ano, uma das causas mais importantes desses pedidos de renegociação de dívidas com credores.

Um empresário, Rafael Cervone, contestou essa afirmação, argumentando que tem lutado de forma sistemática contra a política dos juros altos. E ele tinha provas. Uma busca detalhada de suas manifestações em artigos e entrevistas confirma empenho frequente no combate ao “triste consenso” entre analistas de mercado e o Banco Central para manter juros exorbitantes há três décadas no país.

Lula e a maldição do incumbente, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se a campanha petista não entender a razão por que a isenção do IR não trouxe benefício eleitoral para a reeleição, não é a escala 5x2 que o fará

Confirmado o envio da escala 5 x 2 de trabalho para a Câmara dos Deputados, pelo governo, restará a dúvida se a proposta, uma vez aprovada, trará dividendos eleitorais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feito que a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil não foi capaz.

Há indicadores mais preocupantes no Datafolha para Lula do que a ultrapassagem, na margem de erro, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O primeiro é a taxa de aprovação (soma da avaliação boa e ótima). Dos presidentes reeleitos, Dilma Rousseff foi aquela que disputou com a menor taxa: 39%. Neste quesito, Lula tem 29%.

O segundo é que Lula, desde 2002, não chegava ao início do semestre das eleições tão mal situado nas pesquisas. Naquele ano, ele estava bem atrás do ex-ministro José Serra, mas disputou como desafiante numa campanha marcada pelo desejo de mudança. Agora é o incumbente.

O bengalão, por Merval Pereira

O Globo

Na convicção de que são os salvadores da pátria, já existe nos bastidores do STF a ideia de aumentar de 75 para 80 anos a idade da aposentadoria compulsória.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) continuam se sentindo os sustentáculos da democracia brasileira, por causa disso consideram que criticar a instituição é trabalhar contra o regime. Houve época em que isso foi verdade, especialmente no governo Bolsonaro, que, constatou-se posteriormente, queria enfraquecer o Supremo para dar um golpe de Estado. Certamente por essa circunstância especial, em que a mais alta Corte do país lutava para neutralizar o golpe, algumas interpretações heterodoxas dos ministros foram incorporadas ao nosso sistema jurídico e aceitas pela sociedade.

O fator Trump na eleição brasileira, por Fernando Gabeira

O Globo

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica

Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?

Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.

Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.

É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.

Prisão de Ramagem e o policial no ICE, por Míriam Leitão

O Globo

Prisão de Ramagem é fruto da cooperação internacional entre os países, com atuação de um brasileiro junto ao ICE na busca por foragidos

Um delegado brasileiro trabalha dentro do ICE à procura de foragidos da Justiça entre imigrantes ilegais. Foi assim que o serviço de imigração e alfândega dos EUA soube de Alexandre Ramagem e o Brasil foi informado de sua prisão ontem. Por isso, o caso está sendo entendido pelas autoridades brasileiras como de deportação, e não de extradição. O próximo passo é que o ex-diretor da Abin seja levado a um juiz, que pode soltá-lo mediante pagamento de fiança ou decidir pela deportação.

Tiros contra a IA, por Pedro Doria

O Globo

Estamos perdidos em guerras tribais enquanto o futuro se constrói

Foi uma semana atribulada no Vale do Silício. Começou com a Anthropic soltando para a concorrência, e não para o público, seu novo modelo de inteligência artificial. Terminou na madrugada de domingo, quando um jovem casal disparou tiros contra a casa do CEO da OpenAI, Sam Altman. Foi o segundo ataque à casa. Na sexta-feira, também de madrugada, um coquetel molotov havia sido atirado contra o muro da entrada.

A extrema direita não é eterna, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

As lições, ou reflexões, que a derrota de Orbán na Hungria traz para o Brasil

A surpreendente derrota de um dos principais líderes da extrema direita, Viktor Orbán, da Hungria, traz ao menos quatro reflexões, ou lições, para um Brasil polarizado e em ano eleitoral. A Hungria é a Hungria, o Brasil é o Brasil, mas as guerras políticas assolam o mundo inteiro e os extremos avançam, ainda mais com internet e redes sociais.

Orbán “reinou” na Hungria por 16 longuíssimos anos e tornou-se um polo de atração e inspiração da extrema direita, aliando-se a Trump, de um lado, e Putin, de outro, inclusive para fóruns de caráter religioso que, por exemplo, animam Trump a atacar o papa Leão XIV como “fraco”. Por quê? Porque não é arrogante, autoritário e histriônico como ele próprio.

Gilmar quer reforço, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Jorge Messias vem aí. Vencidas, algumas codevasfs depois, as principais dificuldades forjadas por Davi Alcolumbre, os seus wevertons já afrouxam as cordas e apontam para aquela sabatina teatral padrão. Messias vem aí. E Gilmar Mendes o reivindica para si. Quer reforço à sua bancada no Supremo, também a bancada do governo na Corte constitucional – o terceiro parlamento, com todos os ônus eleitorais decorrentes da associação de Lula ao “companheiro” Alexandre de Moraes, a própria imagem de um tribunal percebido ao mesmo tempo como agente líder em operação abafa (contra as investigações do caso Master) e extensão proativa do Planalto.

As FFAA e a política no Brasil, por Rubens Barbosa*

O Estado de S. Paulo

A prisão de militares de alta patente marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no País

A prisão de militares de alta patente, inclusive de um ex-presidente, ex-ministro da Defesa e comandantes das forças singulares, marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil. Foram 27 militares que participaram de uma tentativa de golpe, de acordo com a acusação do Supremo Tribunal Federal (STF), todos tornados réus e condenados.

Como consequência das prisões, o Superior Tribunal Militar (STM) julgará se todos os oficiais e o presidente perderão seus postos e patentes por serem considerados indignos do oficialato ou com ele incompatíveis. O resultado é incerto e poderá tornar-se controvertido.

Um mineiro que retorna, Por Simon Schwartzman*

O Estado de S. Paulo

Obra deve ser lida como uma coleção de pistas sobre as ideias e contribuições de Lamounier para o debate político brasileiro ao longo de sua carreira

Seis gigantes que retornam e outros estudos, de Bolívar Lamounier (Edicon, 2025), não deve ser lido apenas como uma apresentação erudita de clássicos das ciências sociais, e sim como uma coleção de pistas sobre as ideias e contribuições do autor para o debate político brasileiro ao longo de sua carreira. A parte mais substancial é um belo ensaio sobre Minas Gerais no período colonial, que não aparece no título, mas revela não só as origens do autor como também sua interpretação sobre as características do Estado e do sistema político brasileiro, objetos de suas preocupações.

A renda básica e a dignidade das mulheres, por Eduardo Suplicy

Folha de S. Paulo

Em um país onde a dependência financeira aprisiona tantas brasileiras à violência, modelo é instrumento de autonomia e segurança

Ouvi de beneficiários no Quênia que há mais paz entre os casais e maior participação das mulheres nas decisões do lar

Renda Básica de Cidadania é o meio mais eficiente para garantir dignidade às mulheres. Além de importante instrumento de combate à pobreza, assegura autonomia com liberdade financeira. Em um país marcado pelo aumento assustador do feminicídio, a discussão deixou de ser apenas social e passou a ser também uma questão de proteção à vida. A renda básica permitirá a milhares de mulheres saírem de situações de violência.

O roteirista está incontrolável, por André Borges

Folha de S. Paulo

No novo episódio que flerta com o surreal, ex-diretor da Abin é preso pelo serviço de imigração dos EUA

Novas peripécias de Daniel Vorcaro e sua turminha do barulho certamente vão agitar a sua sessão da tarde

Ninguém segura o roteirista. Está sem limites. No novo episódio que flerta com o surreal, o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem (PL-RJ) é detido pelo ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. Considerado foragido da Justiça brasileira, o ex-deputado cassado cai na malha trumpista que deporta imigrantes ilegais.

Húngaros revertem erosão da democracia, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Apesar de passar por período difícil, democracias continuam vivas

Caso húngaro se soma ao da Polônia, da Eslovênia e do Brasil

Viktor Orbán foi destronado pelo voto. Os relatos sobre a morte da democracia liberal são exagerados. É fato que esse sistema de governo já viveu dias mais brilhantes, mas é pouco provável que a atual maré recessiva leve a democracia à condição de espécie ameaçada. Substituí-la não é tarefa trivial. Nenhum sistema oferece melhor balanço de direitos individuais, responsividade à opinião pública e estabilidade política.

Bagunça de modais elétricos corre solta nas metrópoles, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Não há regulação, fiscalização ou campanhas educativas

Depois de tragédia no Rio, quase nada mudou nas ruas

"Ciclovias, ruas e calçadas são espaços anárquicos, onde motos, bicicletas e autopropelidos —patinetes e motinhas elétricas de rodas pequenas, muitas das quais usadas por adolescentes e marmanjões descuidados— disputam centímetros com outros veículos e com pedestres de olhos arregalados de atenção e medo."

É um trecho de coluna publicada neste espaço no início de março. No fim daquele mês, a geógrafa Emanoelle de Farias e seu filho de 9 anos morreram atropelados numa bicicleta elétrica por um ônibus. O acidente ocorreu no Rio, mas grandes cidades brasileiras vivem no limite da tragédia.

Atenciosamente, Deus, por Cláudio Carraly*

Eu te ouvi.

Antes da palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia. Eu te ouvi no intervalo onde o pensamento ainda não se organizou e a dor ainda não encontrou nome.

É ali que você mais se aproxima de mim.

Você pede resposta.

Mas a dúvida é o único lugar onde pode realmente me encontrar.

Não porque eu me esconda, mas porque, fora dela, você já decidiu por mim. E um Deus decidido por você não é encontro. É projeção.

Você quer certeza.

Mas a certeza te encerraria.

Se eu me tornasse evidente, você não escolheria. Você obedeceria. E a obediência é pouco para alguém capaz até de me negar.

Você aprendeu a me chamar de único. Indivisível. Absoluto.

Mas você não é único.

E, na verdade… nem eu sou.

Poesia | O Tejo, de Fernando Pessoa

 

Música | João Bosco e Orquestra Ouro Preto - Rancho da Goiabada ( Aldir Blanc e João Bosco)

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cláusula de barreira reforça depuração partidária

Por O Globo

Patamar mínimo de 2,5% dos votos assegurará recursos para menos partidos — os mais representativos

Na janela encerrada no início do mês, algo como 120 deputados trocaram de partido. O movimento reflete não apenas interesses eleitorais, mas também a consolidação mais coerente do espectro partidário brasileiro. A previsão é que a eleição de outubro tenha como resultado mais um enxugamento no número de legendas com acesso a fundo partidário e horário eleitoral gratuito. O patamar mínimo de votos para deputado federal que os partidos deverão atingir para manter tais recursos — conhecido como cláusula de barreira ou desempenho — será de 2,5%, com pelo menos 1% em nove unidades da Federação. Inicialmente, em 2018, a exigência era de 1,5% dos votos e chegará ao teto de 3% na eleição de 2030. Conjugada ao fim das coligações nos pleitos proporcionais ao Legislativo, ela tem contribuído para depuração do sistema partidário.

Derrota de Orbán é um alerta sobre apoio de Trump na eleição brasileira, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Resultado das eleições na Hungria sugere que o presidente americano continua tóxico em muitos países e que seu apoio pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro

A derrota do premiê Viktor Orbán nas eleições de hoje na Hungria sugere que Donald Trump provavelmente continua tóxico em muitos países e que o seu apoio eleitoral pode fazer mais mal do que bem. Isso cria um dilema para o candidato direitista Flavio Bolsonaro. Ele precisará analisar muito bem se convém ou não trazer o apoio explícito do presidente americano para a campanha eleitoral brasileira.

A derrota significa o fim de 16 anos de governo de Orbán, que é acusado tanto pela oposição interna como pelos parceiros da União Europeia de atentar contra o Estado de direito na Hungria. Seu governo adotou uma série de medidas que minaram a independência do poder Judiciário. Ele também “capturou” a mídia, o que resultou no controle direto ou indireto da maior parte da comunicação no país por aliados do governo. Por isso, a UE congelou o repasse de fundos europeus ao governo húngaro.

Hungria e limites da interferência de Trump, por Assis Moreira

Valor Econômico

A derrota de Viktor Orbán no domingo vira revés também para Donald Trump e Vladimir Putin

A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais.

O resultado foi uma vitória sólida do oposicionista Péter Magyar, com maioria parlamentar confortável para ajudá-lo a reconstruir instituições democráticas desmontadas ao longo de 16 anos de poder “iliberal” sob Viktor Orbán.

Na Hungria, a ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve, portanto, influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orbán.

Se isso trará grande alívio a outros governos que não estão exatamente alinhados com a administração trumpista é outra história. Trump parece pouco preocupado com limites para mobilizar seu poder com o objetivo de influenciar disputas no exterior.

Política econômica baseada no voto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Medidas contra inadimplência abrem temporada de estímulos governamentais em ano eleitoral

Em abril a Quaest foi a campo e questionou a eleitores de todo o Brasil sobre suas percepções sobre o estado da economia brasileira. 62% responderam que ela havia piorado no último ano, sendo que 59% sentiam que sua capacidade de pagar as contas tinha diminuído nos três meses anteriores. A inflação se mostrava como o grande vilão: 98% identificavam que os produtos estavam mais caros, e para 24% a culpa pelo aumento de preços dos combustíveis era do presidente: Jair Bolsonaro.

O que explica a valorização recente do real? Por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca e os juros continuam nas alturas

O real tem se fortalecido em relação ao dólar neste ano, como se vê no câmbio na casa de R$ 5. O cenário externo, embora conturbado, tem favorecido a moeda brasileira. Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) do país e os juros por aqui continuam nas alturas, estimulando operações para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas. Para completar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem perdido força nas pesquisas, o que boa parte do mercado vê como um sinal de que pode haver uma mudança na política econômica a partir de 2027, com mais ênfase no ajuste das contas públicas.

Um equilíbrio delicado entre os Poderes, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Risco à democracia não está só em presidentes fortes, mas em poderes que atuam sem limites

Durante muito tempo, o principal problema das democracias latino-americanas parecia claro: presidentes fracos, incapazes de governar, reféns de sistemas partidários fragmentados e de Legislativos indisciplinados. A consequência recorrente eram crises, paralisia decisória e, em casos extremos, rupturas institucionais.

A resposta a esse diagnóstico foi fortalecer o Executivo. Ao longo das últimas décadas, diversos países ampliaram os poderes presidenciais, conferindo aos chefes de governo mais instrumentos para aprovar políticas, coordenar coalizões e superar bloqueios. A aposta era simples: presidentes mais fortes significariam governos mais eficazes – e, portanto, democracias mais estáveis.

Não pode, companheiro Alexandre, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O presidente da República não tem nada que manter conversas reservadas com um ministro do Supremo

O presidente Lula deu dois conselhos ao companheiro Alexandre de Moraes, como ele mesmo se referiu ao ministro do STF. O primeiro foi direto: Moraes não pode participar de julgamentos envolvendo o caso Master. O segundo foi indireto. Disse Lula, quando sugeria mudanças no STF:

— Se o cara quiser ser milionário, não pode ser ministro da Suprema Corte.

Ora, a família Moraes ficou milionária em pouco espaço de tempo. O escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, recebeu nada menos que R$ 80 milhões do Banco Master em apenas dois anos de um contrato até agora pouco esclarecido. Lula não apresentou nenhum fato novo. Mas a palavra do presidente da República tem peso, sobretudo em público. Ele havia mantido conversa particular com o companheiro Moraes quando deu aqueles conselhos.

Geração atual não se identifica com referências políticas consagradas, por Preto Zezé

O Globo

Jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência

Os números chamam a atenção, mas o erro começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos, o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.

Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.

Irã, dez lições de um desastre estratégico, por Demétrio Magnoli

O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

Narcisos malignos, por Dorrit Harazim

O Globo

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.

Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche

Por Renáta Uitz e Thiago Amparo* / Folha de S. Paulo

Vitória do Tisza de Péter Magyar rompe ciclo de concentração de poder do premiê, mas herda máquina ainda ativa

Com maioria ampla, novo governo deve enfrentar dilema entre reformar sistema cooptado e punir adversários

Na noite deste domingo (12), a era Viktor Orbán chegou ao fim. Após 16 anos no poder, o premiê reconheceu a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições da Hungria. Não se trata de um feito menor: ao longo de quatro mandatos parlamentares, o sistema eleitoral foi inteiramente remodelado para favorecê-lo.

Depois da vitória esmagadora de 2010, que deu ao Fidesz uma maioria de dois terços no Parlamento, Orbán anunciou a construção de uma democracia iliberal, com o desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar o poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012.

O regime de Orbán sempre foi pragmático na maximização do poder e jamais escondeu suas inspirações. Seu projeto constitucional se inspirou em exemplos russos e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias, ao mesmo tempo em que mantinha o premiê como aliado próximo da Rússia.

Johannes Brahms -- Hungarian Dance No.5 - Hungarian Symphony Orchestra Budapest

 

Investigadores principais do V-Dem criticam relatório da instituição sobre a democracia, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A ideia de uma autocratização global generalizada não se sustenta empiricamente

Um dos críticos é o próprio arquiteto intelectual do projeto V-Dem

"Democracy Report 2026" do V-Dem tem gerado grande controvérsia —não apenas externa, mas também interna. Quatro dos cinco investigadores principais —inclusive o idealizador do projeto, Michael Coppedge— afirmam "não endossar parte das análises sobre a extensão do recente declínio global da democracia", consideradas "exageradas, pouco nuançadas" e marcadas por "linguagem inflada".

Universidade com a cara do povo brasileiro - parte 2, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Cotas nas instituições federais mudam radicalmente perfil dos estudantes

Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso de pessoas pretas, pardas e indígenas

Volto ao tema da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos caracteriza enquanto sociedade.

Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.

A mãe de Sua Senhoria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo

Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas

Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado. Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.

Poesia | Evocação do Recife, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola = Eu canto samba

 

domingo, 12 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Notícias inquietantes para Lula no Datafolha

Por Folha de S. Paulo

Avaliação positiva do governo não supera a negativa nem mesmo entre eleitores mais pobres

Na simulação de segundo turno, há empate com Flávio Bolsonaro, que surge numericamente à frente pela primeira vez

A nova pesquisa do Datafolha traz notícias inquietantes para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a apenas seis meses da disputa presidencial.

Entre os brasileiros aptos a votar, a avaliação do governo petista tem viés de baixa. Ademais, nas simulações de segundo turno, o incumbente aparece empatado com os principais adversários à direita, e Flávio Bolsonaro (PL) se encontra pela primeira vez numericamente à frente.

A “economia do afeto” já não é suficiente para a reeleição de Lula, Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O governo entra na corrida eleitoral com emprego elevado e programas sociais de grande alcance, mas isso não se traduz em percepção de bem-estar

O cessar fogo no estreito de Ormuz e as negociações entre Estados Unidos e Irã, que ainda não chegaram a um acordo, produziram um alívio no mercado internacional de energia, com reflexos diretos no Brasil. A queda do barril do tipo Brent — que havia ultrapassado US$ 118 no auge da crise — para a casa dos US$ 94 abriu espaço para uma redução, ainda que modesta, no preço dos combustíveis. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel recuou 0,2%, para R$ 7,43, interrompendo uma trajetória de alta que pressionava fortemente a inflação. Trata-se de uma boa notícia para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque o diesel é o principal vetor de transmissão de custos na economia, com impacto no transporte, nos alimentos e nos serviços.

CadÚnico completa 25 anos como eixo da transformação social no Brasil, por Wellington Dias e Rafael Osorio*

Correio Braziliense

Sem informação sobre os mais vulneráveis, o Estado atua no escuro. Com essa informação, é possível direcionar políticas para os públicos mais vulneráveis e as regiões com maior desigualdade

O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, ou CadÚnico, completa 25 anos em 2026. Desde a sua criação, tornou-se a principal base de identificação da população de baixa renda no país. Hoje, 42,2 milhões de famílias — cerca de 96 milhões de brasileiras e brasileiros — estão nele registradas. Isso representa quase metade da população brasileira, um retrato fiel da diversidade e das desigualdades do nosso país. 

Criado em 2001 como um formulário para beneficiários de todos os programas federais de transferência de renda, o Cadastro Único ganhou escala a partir de 2003, com a criação do Programa Bolsa Família. Até então, cada programa mantinha o próprio registro de beneficiários. A unificação reduziu sobreposições e inconsistências, como resultado atualmente temos uma base de dados robusta e atualizada periodicamente.

Uma nação perigosa? Por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Os pesos e contrapesos da democracia norte-americana hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize

Faltam quase 200 semanas: é assustador Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.

Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norteamericano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.