domingo, 26 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crescem riscos do controle de preços dos combustíveis

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula quer usar receita adicional com alta do petróleo para compensar desoneração dos derivados

Alguma mitigação do choque gerado pela guerra no Irã faz sentido, mas subsídios custosos não podem se prolongar indefinidamente

Há preocupações eleitorais, sobretudo, na proposta do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de reduzir tributos sobre a gasolina e o etanol com recursos oriundos da arrecadação adicional a ser obtida pela União com as cotações mais altas do petróleo.

Desde o início da guerra no Irã, os preços internacionais dispararam —o barril Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 100, com picos próximos a US$ 110. Até agora, porém, a alta dos preços da gasolina se limitou a 7,5% aqui, enquanto nos Estados Unidos já se aproxima de 50%.

A dupla asfixia de Cuba, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O caso cubano é daqueles que exigem capacidade de lidar com verdades antagônicas e até inconciliáveis

Cuba parece estar em suspensão, à espera de acontecimentos que remodelarão sua fisionomia em futuro mais ou menos próximo. Vive uma drôle de guerre, dir-se-ia, assemelhada à que acometeu os franceses em 1940, antes da guerra propriamente dita.

Bem verdade que as diferenças também são cruciais. Agora, prevalecendo minimamente a lógica, não se espera invasão por terra ou chuva de bombas aéreas. Em compensação, os sofrimentos humanos já são reais e não podem ser dissimulados, como se a vida pudesse seguir com a aparência de sempre. A crueldade de Donald Trump não só afeta a economia da ilha, mas irrompe na emergência dos hospitais, nos cortes de água, na escassez de alimentos e remédios.

EUA lutam sem vitórias, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A guerra no Irã contribuiu para reduzir a vantagem comparativa dos EUA perante a China no campo da defesa, num cenário de esfacelamento das alianças americanas, e ampliar o alcance do sistema financeiro chinês.

Dados do Departamento de Defesa e do Congresso americano revelam que a guerra custa quase US$ 1 bilhão por dia. Os EUA consumiram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance – metade do estoque –, projetados para uma guerra contra a China.

As forças armadas dispararam mais de mil mísseis de cruzeiro Tomahawk, e compram apenas 100 por ano. Entre 1,5 mil e 2 mil mísseis críticos para a defesa antiaérea, como Thaad, Patriot e Atacms, foram usados. A reposição dessa munição pode levar seis anos.

Crise global dá recado de prudência a Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Com ou sem crise internacional, as falhas da política interna são suficientes para manter desarranjada e insegura a economia do Brasil

As aventuras guerreiras de Donald Trump e de seu companheiro Benjamin Netanyahu foram insuficientes, até agora, para causar perdas – ou perdas visíveis – às exportações brasileiras. Com superávit de US$ 7,54 bilhões nas três primeiras semanas de abril e de US$ 21,72 bilhões desde o começo do ano, o comércio exterior do Brasil parece ter sido pouco afetado, por enquanto, pelo conflito no Oriente Médio e pela navegação restrita no Estreito de Ormuz. Desde janeiro, o País exportou US$ 103,58 bilhões, 7,6% mais que um ano antes. Para 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior projeta vendas externas de US$ 364,20 bilhões e superávit de US$ 72,1 bilhões.

Um mineirinho na parada, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Empurrado por STF, polarização e rejeição de Lula e Bolsonaro, Zema vai crescer nas pesquisas eleitorais

Romeu Zema, do Novo, pode surpreender e disparar nas pesquisas ou repetir os efêmeros quinze minutos de glória de Sérgio Moro em 2022, mas o fato concreto, hoje, é que ele se afirmou como o “anti Supremo” das eleições, usa a internet para massificar essa posição e conseguiu o principal: as atenções voltaram-se para ele.

Afinal, quem é esse mineiro de 61 anos, empresário, formado em Administração na FGV, sem lastro político antes do governo de Minas? Por ora, é seguro dizer que é craque em marketing pessoal, com jeitão de bom moço, sotaque caipira, mangas de camisa, dirige seu próprio carro e mora longe dos palácios. O “povo” adora.

STF e a questão democrática, por Míriam Leitão

O Globo

Os ministros precisam olhar com mais cuidado para as próprias ações e decisões com o objetivo de proteger a democracia

Quando o STF é atacado dentro do plano de um golpe de Estado é problema de todos e o país precisa se mobilizar em defesa do tribunal. Quando é atacado pelos erros de conduta de seus ministros, eles que se defendam sozinhos. Críticas ao Supremo podem ser um risco institucional, como vimos recentemente na estratégia usada pelo governo Bolsonaro. As dúvidas em relação à conduta dos ministros e seus familiares são legítimas e estamos vendo agora. No meio do caminho, há os oportunistas como Romeu Zema.

Visita real, por Dorrit Harazim

O Globo

O atual ocupante da Casa Branca tem dado provas de insanidade maior que a do amaldiçoado rei George III

Não é todo dia que um monarca britânico cruza o Atlântico para receber tratamento real na Casa Branca. O primeiro a ser recebido na antiga colônia foi George VI, em 1939, com a fúria nazifascista já em marcha na Europa. Sua sucessora Elizabeth II tratou de estreitar os laços, empreendendo uma visita de Estado a cada 20 anos de seu longo reinado. Dos quatro presidentes dos Estados Unidos que a receberam, ela manifestou apreço nítido apenas por Dwight Eisenhower, com quem trocou receitas de cozinha. De resto, manteve inalterado o sangue azul mesmo quando recebeu o mais improvável dos presentes, cortesia de Richard Nixon: um manual de autoajuda em oratória.

Freada de arrumação, por Merval Pereira

O Globo

A surpreendente performance até agora do senador Flavio Bolsonaro pegou Lula e os seus sem estruturas de defesa eficientes

A campanha eleitoral parece ter começado mesmo a partir da disputa entre o candidato Romeu Zema, ex-governador de Minas, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. O episódio parece ter aberto uma imensa avenida por onde pode passar uma candidatura alternativa à polarização entre o presidente Lula e o representante da extrema-direita Flavio Bolsonaro. Enquanto Lula mais uma vez tentará trafegar pela via da união nacional contra o golpismo, Flavio tenta se aproximar da direita moderada, ou do centro político. Ambos trilham um caminho conhecido por todos, pois a maioria do eleitorado é conservador e centrista e esse típico “swing vote” brasileiro é que define a eleição há muito tempo.

A caixinha da repressão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Telegramas reunidos em novo livro revelam que Fiesp criou falso fundo educacional para financiar centro de tortura

No fim de 1971, o comandante do II Exército, general Humberto de Sousa Melo, procurou a Fiesp com um pedido. Queria dinheiro dos empresários paulistas para montar o DOI-Codi, sucessor da Operação Bandeirante.

O americano Thomas Romanach, presidente da General Electric do Brasil, foi convidado para as conversas. Entusiasmado com o que ouviu, recrutou outros executivos de multinacionais para abastecer a caixinha da repressão.

As reuniões são detalhadas em “Olhares ianques: A ditadura brasileira nos arquivos americanos”, novo livro do historiador Felipe Loureiro. Professor da USP, ele leu centenas de telegramas diplomáticos em busca de novos dados sobre a colaboração entre o empresariado e os porões do regime.

O arquivo de Cyro Etchegoyen, por Elio Gaspari

O Globo

São 23 pastas, com 3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do 'Doutor Bruno' na casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE

Três repórteres do ICL Notícias (Juliana Dal Piva, Chico Otavio e Igor Mello) desvendaram um dos mistérios dos “anos de chumbo”: a conexão do aparelho repressivo da ditadura com os serviços de informação da Inglaterra. Conheciam-se algumas pistas, mas a trinca expôs o monstro nos seus detalhes, na série da reportagens “Bandidos de Farda”.

Eles trabalharam em cima do arquivo deixado pelo coronel Cyro Etchegoyen, um dos cabeças do Centro de Informação do Exército, o CIE, de 1971 a 1974. São 23 pastas, com 3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do “Doutor Bruno” na casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE. A chamada “Casa da Morte” era uma fábrica de “cachorros”, nome dado aos militantes de organizações de esquerda que eram presos, soltos e infiltrados na militância. Quem aceitava o novo papel vivia. Os demais morriam. Estima-se que lá tenham sido assassinadas 22 pessoas. Só Inês Etienne Romeu (1942-2015) contou o que viu.

Conheciam-se colaborações dos serviços americanos e franceses. Dos ingleses só se tinham pistas esparsas.

O poeta, o carteiro, o rombo dos Correios e o modelo logístico alemão, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A privatização dos Correios não é uma questão ideológica, nem a favor, nem contra, decorre de fatores econômicos, estruturais e políticos que tornam a estatal insustentável

O Carteiro e o Poeta (Il Postino) é um filme de 1995, belíssimo, que se baseia em fatos verídicos: a amizade, numa pequena ilha da Itália, em 1953, entre um carteiro que mal sabe ler e o poeta Pablo Neruda, que o governo italiano aceitou como exilado do Chile, desde que ficasse quieto em lugar distante e não perturbasse. O diretor Massimo Troisi brilha neste seu último filme: morreu do coração, aos 41 anos, em 1994, ano das gravações. A música é do maestro Luís Bacalov, que fez Os Saltimbancos. A fotografia e as locações são espetaculares.

PT coloca comunicação no centro da estratégia eleitoral de 2026

Por Vanilson Oliveira / Correio Braziliense

Partido aposta em narrativa digital e defesa do legado de governo para enfrentar os adversários

A estratégia eleitoral do Partido dos Trabalhadores para 2026, um dos temas discutidos durante o 8º Congresso Nacional do partido é a comunicação, eixo considerado decisivo pela direção da legenda. O PT, já vem, inclusive, investindo fortemente neste mês de abril em publicidades na redes sociais, com vídeos que defendem a soberania, o pix, entre outros temas.

Em meio a um ambiente político marcado por polarização e desinformação, o partido busca estruturar uma rede de divulgação capaz de fortalecer a imagem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva  e sustentar a disputa eleitoral nos próximos meses. O Correio conversou com o presidente do PT, Edinho Silva, que revelou que o desafio central é fazer com que as ações do governo cheguem à população de forma clara. 

Como punir a corrupção na Justiça? Por Flávio Dino*

Correio Braziliense

Os agentes públicos, como regra inafastável no exercício de seus cargos/funções, ou fora deles, devem orientar suas ações pela probidade, retidão, justiça, integridade, optando pelos caminhos que melhor alcancem o bem comum

Ingressei na magistratura federal em concurso público realizado em 1993/1994. Em uma análise comparativa entre o ontem e o hoje sobre corrupção no Sistema de Justiça, algo continua igual: a imensa maioria dos integrantes das carreiras jurídicas está longe desse mal, sem "comprar", "vender" ou falsificar decisões, pareceres, indiciamentos etc. Contudo, três aspectos mudaram para pior: o primeiro, a quantidade de casos aumentou; o segundo, esses casos se tornaram mais graves, envolvendo elevados montantes e sofisticadas redes de lavagem (inclusive fundos de mercado); e, por fim, aumentou o exibicionismo dos ímprobos.

O bafo quente das eleições de 2026, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

Proteger a verdade, lutar contra a desinformação e abraçar valores humanos são missões coletivas na campanha eleitoral

Já dá para sentir o sopro no cangote, como se diz no meu Nordeste. O ano voa e as eleições estão logo ali. Se as últimas duas campanhas eleitorais nos mostraram o poder das redes, das mídias sociais, do WhatsApp, além do fenômeno das fake news, nesta teremos a avassaladora presença da inteligência artificial generativa, uma ferramenta incrível, mas também usada para propagar desinformação em alta escala. Estamos correndo riscos.

Somada à polarização política exacerbada e à exposição ao excesso de informação e a todos os ruídos que isso provoca, a campanha promete ser uma prova de resistência longa, estressante, barulhenta e perigosa. O cenário mundial não é dos melhores e essa energia reverbera, provocando medo e angústia. Aqui, parece que não conseguimos superar a última eleição e já chega a próxima, animada por escândalos político-econômicos e crise institucionais entre Poderes.

Será que é infeliz a nação que precisa de heróis? Por Isabel Lustosa*

Folha de S. Paulo

Conceito inclui uma contradição intrínseca: a parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos

A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de seu ídolo, Napoleão, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais impressionantes

artigo "’Honrar heróis’ do passado só disfarça horror antigo" (11/4), do colunista Reinaldo José Lopes, publicado nesta Folha, trouxe-me à memória a frase final da peça de Bertolt Brecht que vi na adolescência, em Fortaleza, encenada no Teatro Oficina e tendo Renato Borghi no papel título: "Galileu Galilei".

A renúncia do astrônomo às teses que vinha difundindo sobre o sistema solar, depois das ameaças da Inquisição, decepcionou seus admiradores. Entre os instrumentos de suplício que lhe mostraram e a defesa de suas descobertas científicas, ele escolheu salvar a pele.

O lugar de Flávio Bolsonaro na história de truques e estelionatos eleitorais do Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato chamou de fake news reportagem da Folha que tratou de seu plano econômico

Quebras de promessas de campanha costumavam arruinar o prestígio de presidentes

Dias antes de Fernando Collor se sentar na cadeira de presidente, eu estava em uma fila de banco, como quase todo o mundo preocupado com mais um pacote econômico por vir. Uma poupança mirrada seria juntada na conta-corrente ao salário e ao 13º antecipados. Sairia de férias e temia confisco.

Perto de mim estava uma senhora miúda, que parecia de poucas posses, de lenço na cabeça como tantas mulheres então chamadas de "crentes". "O senhor acha que o homem [Collor] vai pegar o dinheiro que a gente tem na conta?" —perguntou algo assim. Respondi que temia o sequestro da poupança, mas achava difícil que mexessem "na conta".

Do petrolão ao Master: dez anos do impeachment de Dilma, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Uma década depois, a direita novamente consegue lucrar com a onda da indignação política, mas a manobra é muito mais impressionante

As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, e podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza

O caso Master é a melhor festa de aniversário de dez anos possível para o impeachment de Dilma Rousseff.

As perdas causadas pelo Master mal começaram a ser contabilizadas, mas já podemos dizer que se trata de um escândalo da mesma ordem de grandeza do petrolão, que parou o país por dois anos e foi a causa imediata do impeachment de 2016.

A alegria trágica das ruas, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Entre nós, trágica é a absoluta falta de lucidez das classes dirigentes quanto ao mal-estar que se inflige à cidadania por meio da corrupção do Estado

Violência estrutural e desalento coletivo atestam que o trágico, além de existencial, é histórico e social

As redes mostraram: em meio ao quase colapso total da infraestrutura civil de CubaChico Buarque, que tinha ido fazer uma gravação, despediu-se num passeio frente ao mar. Dele se aproximou um grupo afro-cubano, desses que povoam as ruas de Havana com instrumentos musicais às mãos. Abraçaram-no efusivamente, pediram que cantasse. Chico soltou a voz em espanhol, acompanhado por eles ao violão e maracas. E de repente parecia que o instante alegre resgatava a nação cubana do infame bloqueio que lhe cerceia há décadas acesso a recursos energéticos, alimentos, vida normal, enfim.

Flávio Bolsonaro tem obstáculos a vencer até as urnas, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A vida real impõe grandes desafios aos hoje favoritos nas intenções de votos para a eleição a presidente

A situação é mais difícil para o filho de Jair, que enfrenta divergências internas e resistências externas

Enquanto os pretendentes do PT e do PL figuram nas pesquisas como favoritos na eleição presidencial, a vida real impõe desafios às posições hoje de ponta de Luiz Inácio da Silva e Flávio Bolsonaro nas intenções de votos. O ponto de convergência nas dificuldades é a rejeição a ambos.

Queridas ênclises, próclises e mesóclises, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Jânio Quadros me bombardeou por três horas com dar-lhe-ias, lembrar-me-eis e enviar-vos-emos

Por que matar certas formas de escrever por serem antigas? Pound propunha fazer do velho o novo

Em 1983, repórter da Folha, fui a Guarujá entrevistar Jânio Quadros. Durante quase três horas de conversa, ele tomou uma garrafa do uísque Cutty Sark, a caubói. Eu, modestamente, dei conta de uma garrafinha gelada da vodca Wiborowa. Depois, Jânio convidou-nos a mim, ao fotógrafo e ao motorista da Folha para almoçar ("Eloá faz questão!"). O rango foi com cerveja e, após a sobremesa, Jânio serviu licores. Como tinha de voltar para o jornal e escrever a matéria, moderei nesses bebericos. Mas Jânio mandou cada gole para dentro e, ao fim da jornada etílica, continuava não apenas sóbrio como, com sua cômica voz de frango, colocando as ênclises, próclises e mesóclises com perfeição.

Angelo Agostini, por Ivan Alves Filho*

Ele foi, seguramente, um dos mais importantes artistas gráficos do Brasil no período que vai da transição da Monarquia à República, ou seja, durante boa parte do século XIX. Italiano da região do Piemonte, onde nascera em 1843, veio para São Paulo em 1859, acompanhando sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini.

Estamos falando de Angelo Agostini, cujos desenhos encantam ainda hoje pelo sopro libertário e alegria do traço. E também pelo pioneirismo tanto estético quanto político. Conforme salientou o respeitado historiador e crítico literário Nelson Werneck Sodré, "suas caricaturas, por vezes contundentes, puseram a nu os traços grotescos da classe dominante brasileira do tempo, suas irremediáveis mazelas, seu atraso insuportável". Autor de exatos 57 livros, versando sobre os mais diferentes domínios do conhecimento humanístico, o mínimo que se pode dizer é que Nelson Werneck Sodré sabia muitíssimo bem o que estava afirmando.

Poesia | Procura-se um amigo, de Vinicius de Moraes

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Música | Nara Leão - Nega Dina (Zé Keti)

 

sábado, 25 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Antagonizar Trump convém a Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista, que já se beneficiou da oposição ao tarifaço, agora se vale da rejeição ampla à guerra no Irã

Segundo o Datafolha, 70% são contrários ao conflito; Flávio Bolsonaro terá dificuldade em se dissociar das trapalhadas do americano

O antiamericanismo, amparado em momentos da história nos quais Washington exerceu sua vocação colonialista na América Latina, tornou-se há muito muleta retórica da esquerda brasileira.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre manipulou tal sentimento com um misto de cinismo e pragmatismo. Enquanto o mundo rejeitava as guerras de George W. Bush, o petista fez do republicano um aliado próximo.

Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o conflito era esperado, já que seu direitismo populista sempre foi farol de Jair Bolsonaro (PL) e seguidores.

Tempos movediços, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

O que um editorial não diz, por Vanessa Ribeiro Mateus*

O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

Um case do Supremo, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

Trabalho que mata, por Flávia Oliveira

O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.

O truque do bem, por Thaís Oyama

O Globo

Deputada desloca a discussão de projeto que defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais

Poucas falácias têm prosperado tanto no Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.

Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.

Novíssimo Dicionário de Carioquês, por Eduardo Affonso

O Globo

Graças aos investimentos maciços na linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua

Outono: Espécie de verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.

Faixa de pedestre: Pintura decorativa feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.

Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.

Candidatos em desfile, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Este é o momento em que as coisas não são exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a opinião pública

A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.

Juventude, redes e extremismo, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Empresas privadas poderosas, com imensa capacidade de lucro e influência, têm moldado sistemas políticos, impactado eleições e transformado o trânsito dos valores na sociedade, redimensionando a juventude e a tolerância com a violência

Durante a semana, uma entrevista com o jovem influenciador norte-americano Nick Fuentes viralizou nas redes sociais, alcançando milhões de visualizações não só nos Estados Unidos, mas em países do arco de influência da democracia americana, como o Brasil. Na entrevista, Fuentes é indagado: que direito retiraria das mulheres se tivesse a chance? Sem titubear, ele afirma que começaria pelo direito ao voto.

Não será trivial Lula negar ajuda ao BRB, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Quando governadora do DF formalizar pedido de aval do Tesouro a empréstimo, presidente será forçado a decidir

Licença é semelhante à que o Tesouro concedeu aos Correios, estatal com histórico de corrupção e má gestão

Não será trivial para o presidente Lula negar o aval do Tesouro Nacional ao empréstimo de R$ 6,6 bilhões que o governo do Distrito Federal pleiteia junto ao Fundo Garantidor de Crédito para salvar o BRB em pleno ano eleitoral.

O senso comum leva a pensar que cabe ao BRB, que se meteu nas falcatruas do Master, sair dessa encrenca sozinho, sem impor ônus à União e ao contribuinte, ou sofrer intervenção do Banco Central.

Que tal uma constituinte exclusiva? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Acuados, ministros do STF vão dando cada vez mais sinais de destempero

Não parece haver saída para a crise de credibilidade em que a corte se meteu

Não acho que o chilique de Gilmar Mendes com Romeu Zema, em que pese ter vitaminado o posicionamento do mineiro nas redes sociais, bastará para tornar sua candidatura presidencial uma alternativa realista à polarização. Aliás, nem sei se Zema pretende mesmo manter-se na disputa até o fim ou apenas tenta ganhar pontos para pleitear o posto de vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Um dos muitos problemas do Brasil é que a direita sem o sobrenome Bolsonaro não foi capaz de colocar-se inequivocamente na defesa das instituições e rejeitar golpismos e anistias.

Sob Castro, Palácio Guanabara virou um puxadinho bolsonarista, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Horas antes de sua condenação, ex-governador destinou R$ 730 milhões a prefeitos aliados

Ex-ministro da Saúde, general Pazuello ensinou a 'logística' da multiplicação de cargos

Cláudio Castro é um desmemoriado. No tempo recorde de um mês, esqueceu que no dia 24 de março o TSE o condenou por uso indevido da máquina pública nas eleições de 2022.

Castro faz caras e bocas de coitadinho. Reclama do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que promove uma faxina no Palácio Guanabara, transformado pelo antigo ocupante num enorme comitê eleitoral bolsonarista, com ramificações no crime organizado —a crise institucional explodiu com a prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, candidato governista à sucessão acusado de envolvimento com o Comando Vermelho.

Pesquisas e a experiencia da vida como ela é, por Marcus Pestana

A raposa política disse: “há dois seres ansiosos na política, os políticos e os jornalistas que cobrem a política”. Todas as semanas somos bombardeados com números de pesquisas de opinião. Lideranças políticas, especialistas, jornalistas, esmeram-se em torturar os números e extrair conclusões brilhantes e definitivas. Cravam resultados inevitáveis, menosprezam candidatos, elegem precocemente vitoriosos.

Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.

A república do medo, por Murillo de Aragão

Veja

O STF, o Congresso, o governo e a sociedade estão paralisados

Em coluna recente no Estadão, Fernando Schüler diagnosticou que nos tornamos uma sociedade do medo. O diagnóstico é preciso, mas pede ampliação: o medo que hoje nos define não é apenas aquele que a sociedade sente diante do crime. É o medo que atravessa o próprio aparelho do Estado, que habita gabinetes, plenários e antessalas das cortes superiores — e que, por isso mesmo, paralisa. É o medo que se instalou nas ruas por conta do crime organizado. Sociedade e estado paralisados pelo medo.

O Supremo temeu as CPIs e os vazamentos relacionados aos escândalos recentes. Ainda que protegido por fragilidades estruturais de fiscalização, teme que revelações possam vulnerar ainda mais a instituição. Por isso se defende com ataques, ações neutralizadoras e atua em tricô silencioso entre ministros, relatores e líderes partidários. Politizado ao extremo, o guardião da Constituição aprendeu a jogar xadrez preventivo com os outros Poderes, antecipando-se a ameaças reais ou imaginadas.

Três anos em trinta, por Cristovam Buarque

Veja

Os planos nacionais de educação são muito frágeis

A frase “50 anos em 5”, do tempo de Juscelino Kubitschek, simboliza o salto do Brasil para a industrialização. O governo da época elaborou um plano de desenvolvimento nacional com objetivos, estratégia, estrutura e ações federais de modo a fomentar o crescimento e a urbanização. Não é o que se pode dizer do resultado dos dois Planos Nacionais de Educação (PNEs), a partir de 1996.

As viagens de Lula, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

O conflito social, sempre latente, foi revigorado no Brasil pelo avanço do atraso das classes dominantes e de seus seguidores

Em sua viagem à Europa – Espanha, Alemanha e Portugal –, nosso presidente Lula reafirmou, de modo enfático, seu compromisso com a democracia, o multilateralismo e o combate às desigualdades.

A Agência Brasil nos informa que as reuniões com os chefes de Estado da Espanha, da Alemanha e de Portugal abordaram questões relacionadas ao multilateralismo, incluindo a sucessão da Secretaria-Geral da ONU; desigualdades, com o Brasil defendendo a inclusão de aspectos relacionados à violência política e digital de gênero; e o combate à desinformação.

Os caminhos do debate político em curso, no Brasil, sugerem que a mediação democrática entre os dois polos que se digladiam está em risco. Diante dessa polarização e da forma como está evoluindo, é conveniente imaginar que a eleição de outubro possa acomodar as tensões. Essas tensões são a expressão política de um conflito social, sempre latente nas sociedades modernas urbano-industriais.

Os novos templários, por Jamil Chade

CartaCapital

O governo Trump transforma o Pentágono em um braço armado do nacionalismo cristão fundamentalista

embate entre Donald Trump e o papa Leão XIV tem gerado polêmica e a imagem do presidente norte-americano como Jesus causou indignação, mas a realidade é que os episódios são apenas a ponta do iceberg de um fenômeno muito mais profundo. Nos últimos meses, a administração do republicano tem adotado normas e medidas para permitir que o exército mais poderoso do mundo seja sequestrado por uma ala radical do cristianismo. Essa base não esconde a intenção de fazer do Pentágono o braço armado de um plano global de hegemonia de uma versão da fé cristã. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, é considerado um dos líderes dessa ala e, não por acaso, leva tatuado no corpo lemas usados por guerreiros enviados às Cruzadas.