quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A questão colonial da Groenlândia. Por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Maior razão para Trump querer a maior ilha do Ártico é seu ego

Quem esperava cooperação contra o caos climático encara o colonialismo

Há muitas razões geopolíticas para que Trump queira a maior ilha do Ártico, mas nenhuma supera o que o motiva de fato: satisfazer seu ego. Foi o próprio Trump que colocou o imbróglio sobre a Groenlândia nestes termos em mensagem ao premiê norueguês. Ao relacionar o fato de não ter recebido o Nobel da Paz à sua insistência bélica de anexar a Groenlândia, Trump explicita sua política externa personalíssima, na qual o interesse nacional é condicionado à maximação errática de sua autoimportância.

Reação política e promessa de Guantánamo no gelo fazem Trump recuar na Groenlândia, por ora. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Americano teme poder de armas e dinheiro, mas União Europeia menos submissa ajudou

Acordo sugerido na Otan prevê entrega de bases maiores, sob domínio eterno dos EUA

Donald Trump recuou. Ao menos da boca para fora. Na manhã desta quarta, cancelou a ameaça de guerra na Groenlândia, mas disse que não abriria mão de tomar posse daquele "pedaço de gelo"; que um "não" europeu teria consequência.

O negocista imobiliário chegou a perguntar: "quem defenderia uma propriedade arrendada ou alugada?". De tarde, na prática passou a dizer a repórteres que não queria se apropriar da ilha. Mais importante, anunciou o cancelamento de novo tarifaço contra europeus e "diretrizes" para um acordo.

Como Trump recua? Como recuou, se foi isso mesmo que aconteceu? De mais novo, houve mais reação política. O que pode ter sido relevante?

Enfrenamos o mundo como ele é. Por Mark Carney*

*Discurso do Primeiro Ministro do Canadá Mark Carney no Fórum Econômico Mundial

É um prazer — e um dever — estar com vocês neste momento decisivo para o Canadá e para o mundo.

Hoje, falarei sobre a ruptura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal onde a geopolítica entre as grandes potências não está sujeita a quaisquer restrições.

Mas também afirmo que outros países, particularmente potências médias como o Canadá, não são impotentes. Eles têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados.

O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Parece que todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está desaparecendo. De que os fortes podem fazer o que podem, e os fracos devem sofrer o que devem.

Os EUA, polícia do mundo. Por Ivan Alves Filho

Os Estados Unidos se arvoram em polícia do mundo. A face externa dos Estados Unidos repousa em uma espécie de fascismo de exportação.

Senão vejamos. A História registra que os sucessivos governos norte-americanos promoveram invasões de todo tipo em mais de 70 países, e estamos nos referindo somente ao século XX. Assim, os Estados Unidos invadiram a Nicarágua em 1912, o Haiti em 1915, a República Dominicana em 1916, a Rússia Soviética em 1918, o Panamá em 1941, a Coréia em 1945, além de terem fomentado golpes militares em países como Guatemala em 1954, Laos em 1955, Indonésia em 1957-1959, Congo em 1961, o Brasil em 1964. A guerra contra o Vietnam, quando os Estados Unidos lançaram contra esse país do sudeste asiático duas vezes e meia a quantidade de bombas lançadas durante toda a Segunda Guerra Mundial, se configurou como uma das ações mais tenebrosas cometidas por um país contra outro ao longo da História. 

A liberdade e seu pulso, por Marcio Junior

Livro Resenhado: SNYDER, Timothy. Nossa moléstia: lições sobre liberdade extraídas de um diário hospitalar. Tradução de Fábio Lopes da Silva, André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2022.

O adoecimento faz parte da vida; é uma condição dela, na medida em que todos (inclusive outras formas de vida) estamos suscetíveis a situações em que o corpo não funciona como deveria funcionar, causando sofrimento e risco à vida e nos lembrando que, como sabemos, a sua finitude e a única certeza que temos.

Há, todavia, uma enorme complexidade em torno disso, e essa complexidade se faz maior na medida em que estarmos minimamente saudáveis é um fator fundamental para que possamos realizar não apenas as atividades cotidianas, mas aquelas que também nos fazem, como humanidade, melhores do que fomos ontem. Nesse sentido, é impossível a saúde não se fazer um tema essencial para o avanço civilizatório, e entendê-la e tratá-la com esta devida importância é contribuir em muito para caminharmos rumo ao bem-estar de todas e todos.

Poesia - Os três mal amados (Trecho), de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti - O Bom Sebastião

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Mark Carney*

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

*O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil deve instituir prova para formado exercer a Medicina

Por O Globo

Qualidade sofrível dos cursos, exposta por exame do MEC, põe em risco saúde da população

É alarmante a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, como demonstrou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Parcela considerável dos alunos prestes a terminar o curso não tem conhecimentos mínimos para exercer a profissão. Dos 351 cursos avaliados, 107 ficaram em patamar abaixo do aceitável — menos de 60% dos alunos atingiram nível mínimo de proficiência. Dos 39 mil estudantes perto de se graduar, quase um terço não foi capaz de comprovar deter a formação básica. Em pouco tempo, estarão em postos de saúde, clínicas e hospitais sem qualquer impedimento. Diante de tal realidade, é essencial impor como condição para a prática da Medicina a aprovação numa prova nacional compulsória, em moldes semelhantes aos adotados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a advocacia.

Ninguém pode, nem tenta, deter Trump. Por Vera Magalhães

O Globo

É estarrecedora a letargia completa das instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo

A cada dia com ao menos uma nova e grave arbitrariedade de Donald Trump, doméstica ou além-fronteiras, cresce uma dúvida tão básica quanto perturbadora: nenhuma instituição ou país será capaz de detê-lo? Há meses já não é exagero temer pela implosão não só da democracia americana, mas de todos os complexos mecanismos que configuraram a ordem mundial desde o Pós-Guerra, e, ainda assim, não se forma uma coalizão capaz de minimamente representar um freio à escalada.

O capítulo da semana é a inacreditável crise pelo controle da Groenlândia, que parece coisa de jogo de tabuleiro de criança, mas é séria. Trump reavivou sua antiga obsessão por adquirir o território, pertencente à Dinamarca, com desculpas para lá de delirantes. A ofensiva veio, uma vez mais, acompanhada de ameaças tarifárias contra os aliados da Europa, que, por sua vez, ditaram o anúncio de retaliações — dinâmica que vai se reproduzindo em relação a vários países e blocos e mina qualquer previsibilidade nas relações geopolíticas e comerciais.

O Enamed é uma vitória. Por Elio Gaspari

O Globo

Faculdades formam médicos incapazes

A má notícia veio na semana passada. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) queria barrar na Justiça a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Logo depois, veio a boa notícia: o pedido foi negado, e na segunda-feira os dados do Enamed foram divulgados.

O comportamento da Anup equivale ao de um médico que se recusa a mostrar ao paciente os resultados de um exame mandado pelo laboratório.

Deu o que se previa: de uma maneira geral, os melhores cursos são de universidades públicas (gratuitas) e os piores são de faculdades privadas (pagas).

Quem vai pagar a conta do rombo de R$ 41 bilhões do Banco Master. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O caso expõe o velho modelo brasileiro: privatização dos lucros, socialização dos prejuízos, e põe o STF e o Congresso em rota de colisão e sob forte desgaste na opinião pública

O ponto mais sensível do escândalo do Banco Master é o custo final do rombo de R$ 41 bilhões apurado até agora, que recai não apenas para seus controladores, mas sobre a institucionalidade do nosso sistema financeiro, as regras desenhadas para evitar pânico bancário e proteger depositantes, com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O banco liquidado pelo Banco Central, além desse montante em CDBs, tem uma carteira de 1,6 milhão de investidores a ressarcir. Essa não será paga pela Faria Lima no sentido abstrato, será por um sistema de “mutualização” que transforma o prejuízo de um agente econômico em risco de todos.

América nua. Por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

Donald Trump não se constrange ao expor o imperialismo norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um imperialista sem hipocrisia

Donald Trump foi eleito com o lema "America First", mas governa promovendo a "America Naked" (América nua). Faz o strip-tease da democracia norte-americana, como se a Estátua da Liberdade estivesse se despindo diante do mundo. Para começar, se desfaz da tocha que usa desde 1886 como ícone de boas-vindas aos imigrantes e impõe muros, deportações e mortes, divide famílias, tratando imigrantes como invasores indesejáveis, não gente.

Despe-se da máscara de intervenções em outros países travestidas de intenções democráticas e assume a face autêntica de roubar petróleo, terras raras e territórios. Quase todos os seus presidentes agiram de forma semelhante com discursos dissimulados. John Kennedy impôs o bloqueio a Cuba. Lyndon Johnson e Richard Nixon colocaram porta-aviões no litoral para apoiar golpes, inclusive no Brasil, impor ditaduras sempre sob discurso de promover democracia.

Um olho na UE e outro na reversão do tarifaço. Por Fernando Exman

Valor Econômico

Movimentos de Lula são exemplos da conduta pragmática do Ministério das Relações Exteriores e do Palácio do Planalto

O oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) abriu a porta do avião presidencial que acabara de pousar na base de Assunção na manhã do sábado (17), dia que marcaria a histórica assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia após décadas de negociação. Uma escada amarela conectava a aeronave ao solo da capital paraguaia, onde militares estavam perfilados em frente a um longo tapete vermelho para a recepção das autoridades estrangeiras. Mas, para a surpresa de muitos, a primeira pessoa a sair foi a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O drama da Venezuela e o papel do Brasil. Por Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia

Ninguém sabe com um mínimo de certeza o que ocorrerá na Venezuela. O acordo entre o governo Trump e o regime venezuelano tem bases frágeis.

Seja quem for o vencedor das eleições presidenciais deste ano no Brasil, terá de lidar com mais um capítulo da prolongada crise da Venezuela, a mais profunda e dramática jamais vivida por um país vizinho. Não é pequeno o risco de que o futuro presidente se depare com um cenário caracterizado pela escalada da intervenção dos Estados Unidos, com tropas estadunidenses no território venezuelano, em conflito com grupos armados ligados ao regime chavista. Até onde a vista alcança, é distante a perspectiva de uma transição organizada para a democracia.

Crise do Master é ‘ensaio para juízo final’. Por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Planalto avalia que terá de fazer mais concessões para aprovar indicação de Messias ao STF

O escândalo do Banco Master vai agitar ainda mais a Praça dos Três Poderes quando deputados e senadores voltarem das férias, no início de fevereiro. No Palácio do Planalto, ministros definem o impacto das investigações sobre as fraudes como “ensaio para o juízo final”, diante das conexões políticas de Daniel Vorcaro, dono do banco, com o Centrão e seus agregados.

O governo Lula avalia, agora, que terá de fazer mais concessões para que a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) seja aprovada pelo Senado no mês que vem. Até hoje, o movimento feito pelo Planalto, a contragosto do Ministério da Fazenda, não foi suficiente.

A eleição no preço do mercado. Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O divisor de águas para uma tomada de posição do mercado sobre as eleições será o dia 4 de abril

Foi relativamente tímida a reação do mercado à primeira pesquisa de intenção de voto do ano para a eleição presidencial, divulgada na semana passada. Além de a pesquisa mostrar um cenário praticamente inalterado em relação à virada do ano, com o presidente Lula (PT) mantendo-se na liderança e o senador Flávio Bolsonaro (PLRJ) consolidando-se em segundo lugar, a maioria dos investidores ainda não mexeu na alocação das suas carteiras mirando o desfecho de quem sairá vencedor do pleito.

Apesar de Tarcísio de Freitas (Republicanos) repetir que irá concorrer à reeleição ao governo paulista e que seu candidato na chapa presidencial é Flávio, os investidores mantêm, lá no fundinho do coração, a esperança de uma reviravolta e de que o nome da direita a disputar com Lula em outubro será o de Tarcísio. Ou seja, caso isso venha mesmo a acontecer – Flávio desistindo da candidatura ou, ao menos, de ser cabeça de chapa –, os preços dos ativos devem reagir estrepitosamente à injeção de otimismo da Faria Lima.

Se a Europa se render de novo a Trump, mundo fica ainda mais perigoso. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Projeto de tirano dos EUA foi contido apenas quando foi peitado ou por causa de risco doméstico

China, a Rússia de Putin, começo de pânico financeiro e impopularidade maior limitaram Trump

Donald Trump 2 foi contido até agora apenas por retaliações comerciais e armas nucleares chinesas, por um início de pânico no mercado financeiro americano (no tarifaço de abril de 2025), pela indiferença cínica e pelas armas nucleares de Vladimir Putin e pelo receio de que o mau humor do eleitorado aumentasse ainda mais, por causa de preços elevados por impostos de importação desmedidos. Por falar nisso, Trump 2 é ora menos impopular que no final do primeiro ano de Trump 1.

Trump foi parcialmente contido, de resto. A cada vitória sentiu-se mais à vontade para começar outro ataque bárbaro, contra outros países ou contra os próprios cidadãos e a Constituição dos Estados Unidos.

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Declaração franca do premiê canadense dá a receita para os tempos presentes

Recado de Mark Carney é simples e acertado: países têm de denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "ερων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "ερων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "λαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "λαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".

Falta uma agenda de Brasil nos discursos eleitorais. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo e oposição por enquanto estão juntos na falta de projetos de país a serem apresentados ao eleitorado

Ministros falam dos temas da campanha, mas deixam de fora as demandas por segurança e produtividade

Um dos temas que dominam as cogitações iniciais do ano eleitoral é justamente qual será o tema dominante na campanha. As pesquisas apontam a segurança pública, mas dois ministros que falaram recentemente sobre isso não incluem o assunto nos destaques.

Fernando Haddad (PT) disse ao UOL que a economia não definirá vencedor nem perdedor, ao contrário de eleições anteriores. Talvez tenha pretendido afastar sua gestão na Fazenda do escrutínio público.

Democracia é dever de casa do STF. Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A defesa do regime inclui rever hábitos institucionais

Caso Banco Master mostra que corte precisa impor-se limites republicanos mais estritos

Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal desempenhou um papel decisivo na contenção de investidas antidemocráticas reais. Não se trata de retórica nem de gratidão automática. Executivo, bolsonarismo, setores do Legislativo, militância e influenciadores digitais, jornalismo ativista de direita e até frações das Forças Armadas testaram os limites da ordem constitucional.

STF resistiu e reagiu quando outras instituições vacilaram.

Justamente por isso, causa inquietação crescente a constatação de que hoje a defesa da democracia passa, paradoxalmente, por proteger o próprio STF de práticas e comportamentos que corroem sua autoridade republicana. Um tribunal constitucional não pode ser, ao mesmo tempo, o guardião último da democracia e o violador contumaz das regras de impessoalidade, sobriedade e contenção que estruturam o ideal republicano.

Cenário insustentável para 2026 e temerário para 2027. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão *

Lula devia aproveitar essa chance que Donald Trump está lhe oferecendo de participar, em companhia de algumas personalidades mundiais, do Conselho da Paz, para discutir um entendimento entre Israel e o Hamas e a recuperação de Gaza . É uma chance concreta de entrar para a História. 

A solução saída desse Conselho terá reflexos sobre outros conflitos que estão acontecendo no mundo. Dificilmente , por aqui,alcançaria resultado igual, mesmo que o ego indique que poderá atrapalhar a sua pretensa reeleição.

Daqui há duas semanas, o Congresso Nacional retoma suas atividades, e ele não tem a maioria; o Judiciário deixará de falar monocratimente por um presidente de plantão. Os escândalos do Banco Master, do INSS, o dos Correios e , por analogia , ao Mensalão e ao Petrolão, que estão surfando no tempo , começarão a ser desenterrados e pautados na política, em praça pública, pelos carnavalescos.

Poesia | Poema em linha reta, de Fernando Pessoa

 

Música | Getúlio Cavalcanti -Velho Coração

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Opinião do dia – Rubens Ricupero*

Valor: A própria democracia americana está hoje em risco?

Ricupero: Ele é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência.

*Da entrevista no Valor Econômico, hoje, 20/01/2026.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ainda é a economia

Por Folha de S. Paulo

Haddad diz que tema não será tão decisivo na eleição, mas Lula aposta em renda elevada por gasto público

Quaisquer que sejam as preocupações primordiais do eleitorado, seu enfrentamento depende de crescimento duradouro e solvência do Estado

Em entrevista ao UOL, o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, disse acreditar que a economia não derrotará o governo nas eleições deste ano, assim como não garantirá sua vitória. A declaração é prudente e adequada a um ocupante do cargo, mas decerto não corresponde ao que aposta o chefe.

Haddad argumenta que, em recente pesquisa Datafolha, realizada em dezembro, economia, inflação e preços altos foram apontados como os principais problemas do país por não mais de 11% dos entrevistados, atrás de saúde (20%) e segurança (16%). Aponta ainda que o tema continua importante no mundo, mas é menos decisivo num cenário de polarização política.

A direita dividida. Por Merval Pereira

O Globo

Com a possibilidade de Tarcísio ficar oito anos à frente do governo, dificilmente os Bolsonaros terão papel relevante no jogo político

Temos cerca de dois meses e meio para entender o que a direita nacional levará para a campanha presidencial contra a reeleição de Lula. As pesquisas mostram que a soma dos diversos candidatos da direita é maior que os votos prometidos a Lula, sugerindo que, se houvesse um candidato único desse espectro político, a disputa seria acirrada. Só que não. Quando se vai para o segundo turno, Lula hoje venceria qualquer deles. Está garantida a vitória? Nada disso.

A rejeição a Lula continua alta, mas a de Flávio Bolsonaro é de igual magnitude. Teremos então, como em 2022, uma disputa entre rejeitados? Só se Flávio mantiver sua candidatura até 4 de abril. Ainda há pesquisas pela frente. Se nelas o candidato oficial do bolsonarismo não conseguir se manter estável, é provável que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, volte a surgir como candidato possível.

Lições do massacre. Por Fernando Gabeira

O Globo

As revoltas de agora em Teerã trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens

O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela liberdade.

Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi, é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma autobiografia interessante, “Things I've been silent about” (Coisas sobre as quais silenciei).

Bancos vão pagar uma conta alta. Por Míriam Leitão

O Globo

O BC criará um Índice de Liquidez de Ativos para as instituições financeiras, com objetivo de evitar casos como o do Banco Master

Chegou a hora de pagar a amarga conta da fraude do Master e ela será dos bancos, principalmente dos maiores. Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa poderão ter que despender de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões cada um para recompor o Fundo Garantidor de Crédito. Há quem fale em R$ 6 bilhões. Em outras palavras: haverá dinheiro público de bancos estatais na quitação do sinistro. Desde ontem, o FGC está restituindo aos investidores até o valor garantido, mas depois será necessário refazer o fundo. O rombo pode chegar a R$ 50 bilhões. As instituições terão que antecipar cinco anos de contribuição e aumentar o percentual da contribuição.

O velho cientista de IA. Por Pedro Doria

O Globo

Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial

Yann LeCun anunciou que deixaria a Meta, casa de Facebook, Instagram e WhatsApp, em novembro último. A saída parecia cordial. Aí, não faz uma semana, ele deu uma entrevista pesada — e a bomba estourou. A Meta deverá anunciar um número grande de demissões ainda nesta semana porque atravessa uma crise profunda. Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial. É nesse contexto que terminou se demitindo um dos três nomes que inventaram a tecnologia por trás da IA.

Entrevista: ‘Trump é a maior ameaça à democracia dos EUA desde a Guerra Civil’

Por Daniela Chiaretti e Roberto Lameirinha / Valor Econômico

América Latina é ‘irrelevante’ no contexto global, diz ex-ministro Rubens Ricupero

“Donald Trump é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência, anti-problema climático. Ele é um retrocesso de valores.”

As frases acima são de Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, que dirigiu por dez anos o braço das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento, a Unctad, e é um dos maiores diplomatas brasileiros. “Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos”, teme. “A situação é muito grave e perigosa.”

Prestes a completar 89 anos - 68 deles atuando em relações internacionais -, Ricupero diz que o mundo que conheceu está acabando. Nesta entrevista ao Valor explica por que considera que está se voltando a um mundo pré-guerras. Diz que a América Latina é irrelevante, a Europa, enfraquecida e desunida, também, e que é a China quem hoje dá estabilidade ao cenário global. As eleições do Congresso americano em novembro serão importantes para sinalizar como serão os três últimos anos do governo Trump. 

A seguir, trechos da entrevista:

O alto custo da diplomacia amadora de Trump. Por Jan-Werner Mueller

Valor Econômico

Trump acredita claramente que não saber nada sobre um conflito é a maneira mais fácil de resolvê-lo. Mas essa estratégia de “ignorância é força” ainda não produziu resultados estáveis

Muitos elementos da reunião recente do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com Donald Trump em Mar-a-Lago foram desconcertantes, para não dizer deprimentes. Para começar, nenhum funcionário americano recebeu o chefe de Estado ucraniano em sua chegada a Miami, o que contrasta fortemente com a pompa e circunstância dispensadas ao presidente russo, Vladimir Putin, em Anchorage (Alasca), em agosto passado.

Mas ainda mais perturbadora foi a completa ausência de diplomatas treinados e experientes do lado americano da mesa de negociações. Em vez disso, estavam a chefe de Gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e seu adjunto, Steve Witkoff, promotor imobiliário com ligações de longa data com a Rússia, além do genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner.

A dúvida atroz de Lula sobre Gaza. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quais as reais intenções de Trump em Gaza: paz, resort macabro ou se sentir dono do mundo?

Dúvida atroz de Lula: aceitar ou não o convite de Donald Trump para integrar o tal Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, sem saber ou compreender exatamente o que está por trás tanto do convite quanto da criação do próprio conselho? Em se tratando de Trump, tudo é possível e as piores respostas são sempre as mais prováveis. E se for uma armadilha?

Depois de ameaçar ser presidente da Venezuela, da Groenlândia e, quem sabe, do Canadá, Trump cria e assume a presidência do conselho de paz em Gaza passando por cima da ONU, escolhe os membros e estabelece as regras e condições, como mandato de três anos e o preço de US$ 1 bilhão, por país, para uma vaga vitalícia.

Caso Master expõe governador do DF. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Ibaneis precisa de pressa para socorrer os cofres do BRB, que não está imune a uma intervenção do BC

O Banco Central, regulador nacional do sistema financeiro, ainda calcula o tamanho do rombo nas contas do Banco de Brasília (BRB), como um dos desdobramentos do caso Master. A auditoria contratada pela própria instituição também está em andamento. Mas já é possível ter certeza de que o “projeto de nacionalização” que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), dizia promover no banco público não tinha fundamentos sólidos. E o máximo que ele conseguiu foi ver o banco envolvido em escândalo nacional.

Jungmann deixa legado nas políticas de Defesa, segurança e agrária. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Da militância no PCB clandestino à liderança no PPS e ao campo político que desembocaria no Cidadania, Jungmann representou a esquerda democrática e republicana

A morte de Raul Jungmann, aos 73 anos, em Brasília, devido às complicações de um câncer de pâncreas, contra o qual lutou dois anos, encerra a trajetória de um dos mais completos homens públicos de sua geração. O político pernambucano atravessou a clandestinidade da resistência democrática e, na democracia, assumiu responsabilidades de Estado em diferentes governos e momentos da vida nacional. Era muito respeitado até por adversários, pela capacidade de diálogo, pela integridade e pelo compromisso republicano.

Raul Jungmann. Por vários autores (nomes ao final do texto)

Folha de S. Paulo

Deixa-nos o legado do debate de ideias, da capacidade de ouvir, da conciliação

O seu exemplo há de ser levado em conta na polarização que divide o país

Recordar é viver. No caso de Raul Jungmann, 73, que nos deixou neste domingo (18), é viver um exemplo de vida. Tanto no plano pessoal como na vida pública.

O motivo desta manifestação é para que, em tempos de velocidade e fugacidade das informações e acontecimentos, este depoimento possa atravessá-los para que todos os que vierem depois possam conhecer, saber e praticar o exemplo que ele nos deixou.

Não apenas nós, que assinamos este artigo, somos testemunhas do seu exemplo. Certa e seguramente ele poderia ser assinado e referendado por centenas, senão milhares de seres da vida privada e da pública que com ele conviveram. Basta verificar os inúmeros depoimentos que já vieram à luz revelando imensa tristeza por tão significativa perda.

Trump está afundando os EUA. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Ao ameaçar a Dinamarca, americano coloca em risco aliança para segurança

Uso militar e econômico da Groenlândia poderia ser implementado sem a transferência da posse da ilha

Uma coisa é uma intervenção militar em ditaduras hostis, como Venezuela e Irã. Outra, bem diferente, é ameaçar uma nação que não apenas é uma democracia aliada como também membro da aliança mais importante para a segurança dos EUA. É "apenas" isso que Trump coloca em risco ao exigir a anexação da Groenlândia.

UE precisa dizer não a Trump. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pretensões do presidente sobre a Groenlândia não têm motivação racional

Entregar soberania da ilha aos EUA não pode ser considerado opção viável

Já passa da hora de traçar uma linha vermelha para Donald Trump. O uso de tarifas para retaliar países europeus que se manifestaram contra a pressão que os EUA exercem para que a Dinamarca lhes ceda a Groenlândia é um claro sinal de que o apetite do presidente americano é insaciável. Nem menciono ações dos EUA contra nações com as quais Washington tinha desavenças históricas, como Venezuela, Irã ou Cuba. Trump agora está se voltando contra seus mais tradicionais aliados.

Código de ética, sozinho, não contém o Supremo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ministros do STF ganharam poder e influência política a partir de 2012, com o julgamento do mensalão

Sem o exercício da autocontenção, manual de ética não seria suficiente para o controle de condutas no tribunal

Os clichês não existem apenas para serem depreciados por quem tem a escrita como ofício. Na origem, costumam encerrar verdades cujo uso abusivo os colocam no rol das trivialidades a serem evitadas na elaboração de raciocínios.

Candidatura de Flávio enfrenta Michelle, uma adversária íntima. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

A ex-primeira-dama está cada vez mais próxima de Tarcísio

Ciro Nogueira não consegue que o centrão fique ao lado do filho 01

Com a destreza e a velocidade de um mico, Ciro Nogueira pula de galho em galho, de árvore em árvore. Em outubro trabalhava diuturnamente por Tarcísio de Freitas no Planalto, almejando o lugar de vice. Menos de quatro meses depois, a luta é fazer com que a turma do centrão, que também muda de lugar de acordo com as conveniências, engula a candidatura de Flávio Bolsonaro.