domingo, 20 de outubro de 2019

Opinião do dia – Montesquieu*

O amor pela república, numa democracia, é o amor pela democracia; o amor pela democracia é o amor pela igualdade.

O amor pela democracia é também o amor pela frugalidade.

Nesse regime, devendo todos gozar da mesma felicidade e das mesmas regalias, devem fruir dos mesmos prazeres e acalentar as mesmas esperanças, coisa que só se pode esperar da frugalidade geral.

O amor pela igualdade, numa democracia, limita a ambição unicamente ao desejo, à felicidade prestar à sua pátria serviços maiores que os outros cidadãos. Todos não podem prestar-lhe serviços iguais; mas todos devem igualmente prestar-lhos. Ao nascer contraímos para com ela uma imensa divida da qual nunca podemos desobrigar-nos.

Assim, nas democracias, as distinções nascem do princípio da igualdade, mesmo quando essa parece destruída por serviços excepcionais ou por talentos superiores.

*Montesquieu (1689-1755), foi um político, filósofo e escritor francês. Ficou famoso pela sua teoria da separação dos poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais; ‘Do Espírito das Leis’ p. 84. Editora Nova Cultura,,2005 ( tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Marins Rodrigues

Luiz Sérgio Henriques* - Fado tropical

- O Estado de S.Paulo

Nada mau se nós pudéssemos recriá-lo, o Brasil se tornando um imenso Portugal...

Na vida cotidiana, geringonça é um mecanismo mal-ajambrado, de escassa utilidade para quem o concebe ou quer usar para fins práticos. As artes da política, por contraste, têm tal natureza que são capazes de transformar um mecanismo fadado a ter curta duração numa solução razoável e até bem-sucedida, unindo parceiros improváveis – daí o aspecto de “geringonça” – para dirigir um país moderno e arejado, que já registra expressivos ganhos civilizatórios desde que deu partida à “terceira onda” redemocratizadora nos anos 70 do século passado. A mesma onda, por sinal, em que, alguns anos depois, nosso próprio país ingressaria, tanto assim que não poucos especialistas associam as Cartas que, em ambos os países, assinalaram a ruptura com o antigo regime.

Referimo-nos, evidentemente, a Portugal, cujas recentes eleições devolveram alguma esperança aos que avaliamos, com preocupação difícil de disfarçar, a atual “estrutura do mundo”, trincada por ataques frontais à ideia de democracia que nos pareceriam inimagináveis ainda há alguns anos. Uma esperança, aliás, que rebrota aqui e ali – tal como a flor no asfalto do poeta – com os freios e contrapesos que ultimamente começaram a ser acionados contra as transgressões de Donald Trump ou de Boris Johnson, bem como contra as pretensões autoritárias de Matteo Salvini e outros arautos menores do antiliberalismo político.

Celso Lafer* - Estratégia

- O Estado de S.Paulo

A de Bolsonaro não leva em conta o provérbio ‘quem semeia ventos colhe tempestades’

A palavra estratégia vem do grego strategós, chefe de um exército, donde o verbo strateguein, comandar um exército. Sua origem é, portanto, de natureza militar. Mas o seu uso se alargou para outros campos do conhecimento e aplicação, como a política e a economia, na medida em que o fim, o caminho e a vontade são elementos não estritamente militares da estratégia.

Assim, estratégia, estrategista, estratagema tornaram-se termos de uso geral, que têm em comum conferir uma dimensão calculada, e não improvisada, às decisões que almejam fazer prevalecer uma política, na acepção de “policy”. É assim que a qualifica o general André Beaufre (1902-1973), importante estudioso da matéria. A estratégia é uma praxeologia voltada para ação, que associa a pluridisciplinaridade e a experiência. A estratégia, para ser bem-sucedida, além de ser bem concebida, requer sucesso tático. Tática, como também diz Beaufre, em formulação que tem alcance não exclusivamente militar, “é a arte de utilizar as armas em combate, tirando delas o maior rendimento possível”.

A superação ou a redução dos múltiplos obstáculos que a realidade opõe aos objetivos almejados pela praxeologia da ação estão no cerne da estratégia, como realça Thierry de Montbrial, grande estudioso do tema. Daí a construção, mais ou menos elaborada, de cenários que exploram alternativas viabilizadoras da ação estratégica.

Vera Magalhães - Moinhos de vento

- O Estado de S.Paulo

Presidente transforma inimigos imaginários em reais e ignora urgências do País

Uma mancha de óleo turva as águas do mar do Nordeste há mais de 40 dias (na verdade, cientistas estimam que o acidente que levou ao desastre pode ter ocorrido em junho!), sem que o presidente da República se envolva diretamente na adoção de um plano de contingência eficaz para contê-la. A reforma da Previdência, maior feito do governo até aqui e, provavelmente, nos seus quatro anos, está a uma votação de ser concluída, e o mandatário não esboça sequer um comentário a seu respeito, a não ser para lamentar a necessidade de fazê-la. Há quanto tempo não há uma reunião ministerial para coordenar todas as ações do Executivo? A última foi em agosto, e era emergencial para a questão da Amazônia.

Enquanto esses assuntos centrais para o sucesso do governo vão transcorrendo, o presidente duela contra moinhos de vento. Transforma inimigos imaginários em reais e, num prazo de duas semanas, levou à implosão de seu partido, o já fragmentado PSL, sem que se saiba ao certo o porquê da investida inicial e a utilidade de comprar esta briga neste momento, tanto tempo antes da eleição presidencial.

Uma das máximas mais surradas de Brasília é a de que bons presidentes têm a habilidade de tourear crises e fazer com que elas saiam menores do Palácio do Planalto do que entraram. Fernando Henrique Cardoso e Lula eram reconhecidos por esta habilidade, ainda que com diferentes estilos. Fernando Collor e Dilma Rousseff fracassaram na missão.

José Roberto Mendonça de Barros - Tempo para consolidar

- O Estado de S.Paulo

Não temos paciência para ver as coisas avançarem, porque crise pede resultados rápidos

Mudanças mais profundas exigem tempo para se consolidar. Isso é particularmente importante num país como o Brasil, onde as leis mais relevantes só “pegam” após alguns anos de muita discussão, especialmente, nas Cortes superiores.

Por exemplo, consideremos o caso da concessão de rodovias no Estado de São Paulo, cujo programa vai fazer 20 anos. Lançado por Mário Covas, a gestão privada de estradas foi arduamente questionada nos tribunais por vários anos, período no qual os contratos foram sendo aprimorados. Hoje, 19 das 20 melhores estradas do Brasil estão em São Paulo e sob gestão privada.

Temos aqui uma rede de rodovias duplicadas que têm uma densidade (km de rodovias/km2 de território) comparável a de países europeus, como a Espanha e a Alemanha. É o único Estado do País a dispor de uma rede rodoviária de qualidade.

Entretanto, não temos paciência para ver as coisas avançando, o que é compreensível dado que a crise que vivemos pede resultados muito rápidos.

É o que está ocorrendo em pelo menos dois casos: a reforma trabalhista e os avanços na área de crédito.

Paulo Paiva* - Crescer é preciso

- O Estado de S. Paulo

Emprego formal não virá sem crescimento econômico, que, por seu lado, não brotará espontaneamente

Estes tempos de incertezas e de excesso de informações virtuais, criando um senso de urgência e um estado de ansiedade, estão levando as pessoas à busca de soluções mágicas. Espera-se, por exemplo, que uma bala de prata faça a economia voltar a crescer rapidamente, restabelecendo o nível pré-crise de emprego formal. No entanto, crescimento econômico não é um processo natural, espontâneo; resulta de decisões corretas e coerentes dos agentes públicos e privados ao longo dos anos.

A história recente – nada animadora – do crescimento brasileiro expõe, sem retoques, o pífio desempenho da economia nas últimas quatro décadas. Depois de crescer 7% ao ano entre 1950 e 1979, a economia perdeu fôlego. A média anual de crescimento de 1980 a 2019 ficará em 2,2%, e da renda per capita, em 1,5%. A produtividade média da economia permanece estagnada. Mas não é só. Outro fator perturbador do crescimento brasileiro é sua alta volatilidade. Nas últimas quatro décadas, a economia cresceu acima de 5% em sete anos e ficou abaixo de zero em oito anos. Nos demais 25 anos, a expansão variou no intervalo entre zero e 5%. Além de pífio, o crescimento é espasmódico.

Consequências desse padrão errático de crescimento, entre outras, são a queda da produção industrial e o aumento do emprego informal. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), os impactos da recessão recente no mercado de trabalho formal não foram proporcionais à distribuição dos empregos pelos setores da economia. Dos 2,330 milhões líquidos de vagas fechadas, 955 mil foram na indústria de transformação e 866 mil, na construção civil, responsáveis juntas por 78% dos empregos perdidos, embora representem 24% do emprego formal. Ao contrário, os setores de comércio e serviços, que representam 68% do emprego formal, perderam 20% de todas as vagas fechadas.

Luiz Carlos Azedo - A Rota da Seda

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Bolsonaro mira não apenas a balança comercial com os países asiáticos, abalada pela mudança de nossa política externa, mas atrair investidores para o seu programa de privatizações”

O presidente Jair Bolsonaro embarcou ontem para a Ásia. Sua viagem deve durar duas semanas e inclui Japão, China, Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita, países com os quais o Brasil pretende intensificar relações comerciais. As más-línguas dirão que a crise viajou no mesmo avião, como costumava falar o então senador Fernando Henrique Cardoso numa de suas maiores maledicências em relação ao ex-presidente José Sarney (o que lhe custou sua inimizade), mas isso é uma tremenda bobagem: Bolsonaro tenta reposicionar geopoliticamente o Brasil, para melhorar o relacionamento com esses países, abalado por causa do seu alinhamento automático com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O retorno a Brasília está previsto para o dia 31.

Além disso, com os mercados conectados on-line e a comunicação instantânea nas redes sociais, o que pode acontecer é o Brasil amanhecer com o mercado reagindo às declarações e tuitadas do presidente da República da mesma forma como a Bovespa reage às bolsas de valores de Xangai, Tóquio e Hong Kong. Crises já não viajam com o presidente da República, elas se instalam e se propagam a partir de qualquer ponto, pelas redes sociais. A viagem é muito importante porque a lógica ideológica que levou Bolsonaro ao alinhamento com Trump e outros líderes de direita no mundo, como o húngaro Viktor Orban, não é mais forte do que os fundamentos da geopolítica. O fato objetivo é que o principal parceiro comercial do Brasil hoje é a China; e os demais países a serem visitados, são grandes compradores de nossas commodities. Todos fazemos parte do que os chineses chamam de a nova Rota da Seda.

A Rota da Seda era uma série de rotas interconectadas pelo sul da Ásia pelas quais se fazia o comércio da seda entre o Oriente e a Europa, mas não somente: toda sorte de produtos e especiarias circulavam por ali, por meio de caravanas de camelos e embarcações oceânicas. Surgiu a partir do comércio entre as regiões de Chang’an, na China, e a Antióquia, na Ásia Menor, região disputada por mongóis, turcos e bizantinos na Idade Média, chegando à Coreia e ao Japão. Era o eixo de comércio que fomentou a formação de impérios: Egito antigo, Mesopotâmia, China, Pérsia, Índia e Roma.

De certa forma, teve um papel fundamental para expansão portuguesa e o Descobrimento. Na Idade Média, o comércio entre Oriente e Ocidente passava pela Rota de Champagne, que foi interrompida pela Guerra dos 100 anos (1337-1453), entre a Inglaterra e a França. Isso fomentou o comércio por via marítima entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo, o que possibilitou o desenvolvimento da indústria naval e do comércio em Portugal. O resto da história todos conhecem: a expansão marítima portuguesa, após a Revolução de Avis, com ascensão de sua burguesia mercantil, levou os portugueses ao Brasil; por meio do périplo africano, à Ásia: China, Pérsia, Japão e Índia. Veneza e outras cidades italianas perderam o monopólio do comércio entre nações mercantilistas europeias e o Oriente.

Ricardo Noblat - Bolsonaro quer distância dos pobres

- Blog do Noblat | Veja

Nordeste está fora do radar do governo
Sabem quantas vezes o presidente Jair Bolsonaro sobrevoou a Amazônia em chamas desde que a destruição da floresta virou um escândalo internacional e foi parar no plenário da ONU, em Nova Iorque, e nos salões pontifícios no Vaticano?

Nenhuma. Com toda a frota de aviões da Força Aérea Brasileira à sua disposição, e mais de um Boeing presidencial, Bolsonaro não se deu ao trabalho, nem tão pesado assim, de sobrevoar a Amazônia, quando nada para tirar umas fotos ou fazer uma live.

A pergunta seguinte é mais fácil de responder. Sabem quantas vezes Bolsonaro molhou os pés para ver de perto a tragédia da derrama de petróleo nas praias nordestinas que não tem data para acabar – como, de resto, a da Amazônia tampouco?

Nenhuma até agora. Bolsonaro embarcou ontem à noite para uma visita à China e a outros países asiáticos sem deixar sequer uma mensagem de solidariedade aos que por sua conta e risco recolhem com as mãos as poças de petróleo nas praias.

Às primeiras denúncias sobre incêndios na Amazônia, Bolsonaro respondeu culpando ONGs internacionais interessadas em conspurcar a imagem do governo e contribuir para a ocupação daquela área por países que cobiçam suas riquezas.

Quando o petróleo começou a chegar às praias, matando parte da fauna marinha, ameaçando a pesca, a vida dos pescadores e a indústria do turismo, Bolsonaro correu a assegurar que a origem dele estava na Venezuela. Insinuou poder tratar-se de um crime.

Merval Pereira - Mudança de ventos

- O Globo

É provável que haja retrocesso, mas o resultado das pesquisas mostra que a opinião pública continua com sede de justiça

Embora o que não esteja nos autos do processo não exista tecnicamente, advogados, juízes e promotores são influenciados pelo que vêem, pelo que lêem, pelo que conversam com amigos ou mesmo na família.

A faísca que desencadeou um processo de reversão de expectativas no mundo jurídico e político contra a Operação Lava Jato foi provocada pelas conversas roubadas do celular do procurador-chefe da Lava Jato Deltan Dallagnol publicadas pelo site The Intercept Brasil.

As mensagens entre Dallagnol e o então juiz Sérgio Moro não revelam nenhuma ilegalidade, mas a proximidade entre partes do processo, que comum no cotidiano da Justiça, dá margem aos que já tinham a tendência de criticar os procuradores de Curitiba, por razões de poder ou política, pretexto para darem a suas críticas ares de verdade.

Vimos na semana passada três ministros do Supremo em contato fora da agenda com o presidente Bolsonaro, às vésperas do julgamento mais importante do ano, sobre o fim da prisão em segunda instância. Dois deles, ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, tomaram decisões recentes que beneficiaram diretamente o senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente, reduizindo a possibilidade de investigações criminais financeiras.

Bernardo Mello Franco - Omissão frente à tragédia

- O Globo

Senador acusa o governo de cruzar os braços diante do vazamento de óleo no Nordeste. Para Fabiano Contarato, o Congresso também é ‘omisso e conivente’

É o maior desastre ambiental registrado na costa brasileira. As manchas de óleo que começaram a aparecer em setembro já se espalham por nove estados e 2.200 quilômetros de litoral. Devastam a vida marinha, ameaçam o sustento de pescadores e atingem paraísos ecológicos como a Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e a Praia do Forte, na Bahia.

Depois de quase dois meses, o poder público ainda parece imóvel diante da tragédia. “O governo não sabe absolutamente nada. Não conhece a origem do óleo, não tem ideia de como recolhê-lo e não apresenta medidas para mitigar os danos”, afirma o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, Fabiano Contarato (Rede-ES).

Na quinta-feira, ele comandou uma audiência pública com representantes da Marinha e dos ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia. Ficou frustrado com a falta de informações e de planos de ação. “Saímos com mais perguntas do que respostas”, resume.
Para o senador, o presidente tem se omitido diante do caso. “Ele já deveria ter decretado estado de emergência ambiental há muito tempo. Até hoje, ele nem sequer se dignou a visitar ou sobrevoar a região”, critica.

Míriam Leitão - Tudo por acaso e na hora certa

- O Globo

Fernanda Montenegro chega aos 90 anos quando a potência da sua voz é mais necessária e seu relato nos ajuda a refletir sobre a história do Brasil

O que as decisões tomadas em duas aldeias da Sardenha — Bonarcado e Teulada — no final do século XIX têm a ver com o Brasil de hoje? Isso sabe quem seguiu a trilha dos imigrantes que foram parar num centro de triagem em Juiz de Fora. Deles descende Fernanda Montenegro, cujo aniversário foi comemorado como uma data nacional. Têm sido dias de refletir sobre sua inquestionável excelência profissional. Mas há mais além do ofício. Ela chega aos 90 anos quando a potência da sua voz é mais necessária, e seu relato nos ajuda a pensar na história do Brasil.

Oitocentos italianos contratados para trabalhar em fazendas de café em Minas embarcaram para o Brasil, pensando que ficariam pouco tempo e voltariam para a Itália. No mesmo navio estavam, ainda adolescentes, a avó e o avô maternos de Fernanda. O reencontro dos dois e o casamento vieram anos depois.

A saga vivida por esses imigrantes no Brasil, as incríveis histórias de alguns dos personagens deixam a ficção invejosa. A realidade a superou. E, assim, desde o começo do seu livro de memórias, a história do Brasil e a dela vão se confundindo. Os italianos dos quais descende por parte de mãe desembarcaram num país que tinha encerrado a escravidão havia apenas 10 anos. “Foram acomodados em senzalas parcamente adaptadas”, descreveu. Os portugueses do lado do pai também enfrentaram durezas. Mas, Fernanda narra tudo com a leveza de quem está ao seu lado na sala. Criar esse aconchego é um dos méritos da obra que ela escreveu com a colaboração da escritora Marta Góes.

Dorrit Harazim - De guerras e paz

- O Globo

Jimmy Carter continua sendo, até hoje, o único presidente dos Estados Unidos que cumpriu o mandato sem ter de recorrer às armas

Jimmy Carter é o mais longevo ex-presidente dos Estados Unidos. Acaba de completar 95 anos e está há quase quatro décadas fora da Casa Branca. Eleito em 1978, exerceu com teimosia, fé no gênero humano e temor a Deus o mandato de 39º comandante em chefe do país. Foi um presidente azarão que incomodou meio mundo — inclusive a ditadura militar brasileira da época — com sua mania de falar e agir em defesa dos direitos humanos, sem arrefecer. Mudou pouco, de lá para cá.

Durante recente evento beneficente na cidade de Nashville, Tennessee, Carter subiu à tribuna com 16 pontos cirúrgicos à vista numa sobrancelha e um imenso hematoma no olho esquerdo. Tinha sofrido uma queda em sua casa de Plains, na Geórgia, mas, como não queria faltar ao encontro do Habitat for Humanity, programa de construção de moradias sociais que dirige há 36 anos, passou num hospital, fez curativo e seguiu para Nashville.

No fim de semana passado, Carter recebeu um telefonema de Donald Trump. Notícia insólita, visto que o atual ocupante da Casa Branca vive entrincheirado, às turras não só com o mundo, como em estado de animosidade pública com seus antecessores ainda vivos — Barack Obama, Bill Clinton, George W. Bush, além de Carter. Tem sido norma desde George Washington que todo presidente americano inicie uma aproximação com os que o precederam no Salão Oval, em boa parte para recorrer ao variado baú de conhecimento e expertise de quem já ocupou o cargo.

Ascânio Seleme - Notre Dame do Brasil

- O Globo

Em torno da recuperação da catedral, há três círculos de poder cujos integrantes batem cabeça e se atrapalham na condução dos trabalhos

As obras de restauração da Catedral de Notre-Dame estão atrasadas. Em torno da sua recuperação, após o incêndio de abril, há três círculos de poder cujos integrantes batem cabeça e se atrapalham na condução dos trabalhos. Por vezes, parece que a catedral é brasileira e foi erguida no Centro do Rio de Janeiro. Há um desentendimento permanente e constrangedor entre a Igreja, o governo francês e a prefeitura de Paris, que têm tipos diferentes de autoridade sobre o templo. E, mais grave, acima destes três elementos foi instaurado um poder maior na figura, vejam só, de um general. Desde Charles de Gaulle, nenhum general assumiu qualquer posto na França de tamanha visibilidade.

Há uma tensão forte entre a Diocese de Paris, o Ministério da Cultura da França e a Subprefeitura da região da Île de la Cité, onde a catedral está efetivamente localizada. A diocese reclama precedência porque, afinal, o prédio é uma igreja católica, um local de culto. O Estado entende ser problema seu uma vez que se trata de um bem cultural da humanidade e, pela lei de 1905 que separou religião e Estado, todos os prédios religiosos pertencem ao poder público, que concede seu uso. Já a prefeitura julga ter sua parcela de responsabilidade porque é sobre seu território e sob suas regras de ocupação que a catedral está assentada. Diante disso, vem ocorrendo uma guerra de egos, que segundo o jornal “Le Monde” muitas vezes atrapalha o bom andamento das obras.

Janio de Freitas - Casos de suspense

- Folha de S. Paulo

O cinismo do vossa excelência e do senhor presidente cede à sinceridade explosiva

Um presidente chamado de vagabundo não é coisa para qualquer país. E assim tratado por duas vezes, pelo próprio deputado-líder do seu partido, ah, agora sim: Jair Bolsonaro e os bolsonaristas se põem a acabar com a velha política. O caquético cinismo do “vossa excelência” e do “senhor presidente” cede à sinceridade explosiva.

É natural um certo pasmo com o novo, agravado porque a má vontade identificada por Bolsonaro na imprensa negou à novidade o destaque merecido. Nem por isso a situação geral, incluída a tal estabilidade, está em menor suspense.

Bolsonaro ficou sem reação por 24 horas e depois agiu apenas com a formalidade óbvia. Se estiver angustiado por seu amor americano, é compreensível. Por algum motivo inexplicitável ao menos por ora, o noticiário aqui não sabe do cerco a Trump, o procedimento para impeachment avançando a cada dia. Seja como for, é a segunda obstrução a que Bolsonaro se impõe, sem ter superado a primeira.

Bolsonaro não pôde demitir o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, quando apontado em uso ilegal de verbas e de candidatas laranjas. Agora, a descumprida promessa de afastar todo suspeito já encara uma denúncia judicial. Com envolvimento também do candidato Bolsonaro. No episódio em curso, silêncio e mero pedido de processo contra o deputado inovador, Delegado Waldir, equivalem a uma fuga, tratando-se do valentão de mãos imitando armas. Duas omissões próprias de quem está pendente do que o outro sabe e é bem capaz de dizer.

Hélio Schwartsman - A charada do Coringa

- Folha de S. Paulo

Uma ou duas ideias sobre a relação entre condições sociais e crime que gostaria de discutir

Não assisti a "Coringa", mas tenho uma ou duas ideias sobre a relação entre condições sociais e crime que gostaria de discutir.

Para a esquerda, são determinações sociais, como a desigualdade ou o abandono, em especial na infância, que forjam o bandido, que seria mais uma vítima do que um perpetrador, enquanto, para a direita, o que importa são disposições individuais, que podem até ter base hereditária.

A realidade, como sempre, fica no meio do caminho entre as explicações mais caricaturais.

Para além dos estudos que ligam os maus-tratos na infância a comportamentos antissociais (ainda que não necessariamente criminosos), há toda uma família de experimentos psicológicos (Milgram, Zimbardo) que mostram que mesmo pessoas mentalmente saudáveis podem, diante de um pouquinho só de pressão dos pares ou de autoridades, ser levadas a cometer atos reprováveis e até ilegais.

Bruno Boghossian – O incrível exército de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

A crise desarticula tropa de choque brancaleônica e aumenta custo político no Congresso

Nos primeiros meses do ano, a turma do PSL se esqueceu de aparecer numa sessão da Câmara e deixou a oposição à vontade para atacar Paulo Guedes.

Semanas depois, um líder da sigla se confundiu e quase orientou a bancada a votar contra a nova Previdência. Se o partido já era um peso morto, por que a crise na legenda faria qualquer diferença para o governo agora?

O cisma no partido do presidente desarticula sua tropa de choque no Congresso. Os 53 deputados da sigla estão longe de formar maioria e, como se viu, não são lá muito eficientes. Ainda assim, numa inspiração brancaleônica, atrapalhados e mal equipados, cumpriam uma função.

A legenda que comanda o Planalto costuma exercer papéis práticos e simbólicos. Manobra as regras para blindar o Executivo, mas também tem a missão de dar o exemplo nas discussões de interesse do governo.

Mesmo desnorteado, o PSL se expôs ao apoiar, de saída, a reforma da Previdência. É verdade que o restante dos votos para aprovar a proposta dependeu de Rodrigo Maia e das legendas do centrão, mas o tema poderia ter ficado no solo se nem a sigla do presidente tivesse ficado unida.

Vinicius Torres Freire – A economia pode respirar em 2020

- Folha de S. Paulo

Recursos do FGTS, Pis, Bolsa Família, estados e cidades também devem causar alívio

Até a eleição de 2020, um bom dinheiro extra vai irrigar a economia. Deve ser mais de 1% do PIB, uns R$ 70 bilhões ou mais que vão cair na mão de estados, municípios e famílias. Se não houver desastres novos, o estímulo deve aliviar um pouco da depressão.

Como o país observa bestificado um governo dar tiros até na própria cabecinha, caso da turumbamba vulgaríssima do PSL e dos Bolsonaro, sempre pode haver tumulto político sério, com implicações econômicas. Suponha-se, por ora, que não seja assim.

Esse dinheiro extra não será a salvação da lavoura nem o começo do “milagre do crescimento”, nem mesmo de algum crescimento duradouro, necessariamente. Mas deve ajudar a colher umas couves até a escolha dos prefeitos. Que dinheiro é esse?

Entre o final deste 2019 e do ano que vem, devem cair na mão das famílias cerca de R$ 40 bilhões dos saques do FGTS. Outros R$ 2 bilhões de saques do Pis/Pasep. Mais R$ 2,5 bilhões do “13°” do Bolsa Família.

Ruy Castro* - As mulheres de Patricio

- Folha de S. Paulo

Ele era absurdamente talentoso e levava a plateia à histeria de tanto rir

O ator, cantor, cartunista, figurinista e transformista Patricio Bisso morreu em Buenos Aires nesta segunda (14), aos 62 anos. Em novembro de 1985, subi ao 8º andar do Edifício Copan, no centro de São Paulo, para entrevistá-lo. Era uma reportagem de capa para a revista Veja em São Paulo. Patricio, 28, tornara-se uma celebridade da cidade, atraindo 400 pessoas todas as noites ao Sesc Pompeia para seu show “Louca pelo Saxofone” e as levando quase à histeria de tanto rir.

Em uma hora e meia no palco, trocava 25 vezes de roupa, numa maratona de tailleurs, tomara-que-caias, rabos-de- peixe, saias plissadas, perucas, colares e anáguas, tudo de sua criação e tudo enquanto cantava —em português, espanhol, inglês, francês e italiano— e dançava. Uma troca de roupa a cada três minutos. Quase no fim, surgia vestido de nada menos que árvore de Natal. Era absurdamente talentoso.

O que a mídia pensa – Editoriais

- Leia os editorias de hoje dos principais jornais brasileiros:

O significado da República – Editorial | O Estado de S. Paulo

No próximo dia 15 de novembro, comemoram-se os 130 anos da Proclamação da República. Em homenagem à data, o Estado lançou na terça-feira passada no Twitter o projeto EstadãoRepública130. O objetivo é apresentar, por meio de tuítes de 14 personagens históricos – republicanos, monarquistas e militares –, o período que antecedeu à mudança de regime. Para reproduzir os comentários dos personagens históricos, foi feita uma ampla pesquisa na Biblioteca Nacional, no acervo do jornal e na bibliografia relativa ao período. O projeto está ancorado no perfil @_vivarepublica_ e as publicações podem ser acompanhadas também pela hashtag #ER130.

A história do jornal O Estado de S. Paulo está intimamente ligada à República. Inspirado nos valores do liberalismo clássico, este jornal foi fundado em 1875 – então se chamava A Província de São Paulo – com o objetivo de propugnar pela abolição da escravidão e pela instauração da República. Faz, portanto, todo o sentido o Estado reviver esse período tão especial da história do País, da qual tem sido personagem atuante, valendo-se de atuais ferramentas tecnológicas.

Acompanhar esse período histórico pode ajudar a dar uma dimensão mais precisa do que significou – e do que deve significar – a República. A luta pelo novo regime não consistiu apenas em destituir o Imperador d. Pedro II ou em instaurar um novo sistema decisório no poder público. Proclamar a República representava a inauguração de um marco jurídico completamente novo.

Poesia | Vinicius de Moraes - Onde anda você

E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer

E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

Música | Paraíso do Tuiuti 2020 | Samba 2020

sábado, 19 de outubro de 2019

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso*

• A democracia está em risco?

Sempre existe risco. Como dizia Octavio Mangabeira, a democracia é uma planta tenra, que precisa ser regada sempre. Se você não cultiva a democracia e a liberdade, elas morrem. A democracia não é só o formalismo, a eleição. É a crença num conjunto de valores e instituições. Essas instituições estão funcionando.

O Congresso existe, o Supremo está funcionando, a imprensa é livre. Os partidos estão meio arrebentados, mas existem. Temos que usar esses instrumentos para expressar opinião, não para acelerar o ritmo da História. O cara foi eleito.

Eu sei o que é viver num regime sem liberdade. Não é o caso atual. Você tem liberdade para concordar ou discordar do governo. Todo mundo sabe que eu não votei no Bolsonaro nem no candidato do Lula (Fernando Haddad), com quem me dou pessoalmente.


*Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República. Em entrevista: ‘Ainda não temos uma cultura realmente democrática’. O Globo, 18/10/2019

Merval Pereira - Gente fina

- O Globo

Áudio vazado tem o mesmo teor das negociações com o baixo clero político que levaram ao mensalão e ao petrolão

O áudio vazado por um deputado federal da bancada do PSL que revela o presidente Jair Bolsonaro cabalando votos para a destituição do líder Delegado Waldir tem o mesmo teor das negociações com o baixo clero político que levaram ao mensalão e ao petrolão.

A diferença é que o Fundo Partidário é fruto de dinheiro de origem controlada, o nosso dinheiro colocado no Orçamento para financiar os partidos políticos. O dinheiro do PT também era nosso, porém desviado das empresas estatais. Mas o caminho é o mesmo trilhado pelo PT com outros partidos, atraídos para sua base política por favores e dinheiro. Que acabou em escândalo e prisões.

Bolsonaro, na conversa gravada que tem sua legalidade garantida pelo Supremo Tribunal Federal, que já decidiu que o participante de uma conversa tem o direito de gravá-la sem a autorização da outra parte, mostra toda a sua habilidade política, muito diferente do parlapatão que surge em público sem travas na língua.

Em nenhum momento o presidente oferece vantagens ao interlocutor, mas sugere que o seu lado é mais confiável para concedê-las: “Que poder tem na mão, atualmente, o presidente, o líder aí? É o poder de indicar pessoas, de arranjar cargo no partido, é promessa para fundo eleitoral por ocasião das eleições. É isso que o cara tem, mas você sabe que o humor desse cara muda, de uma hora para outra, muda”, comentou Bolsonaro, durante a conversa com o deputado federal.

Bernardo Mello Franco - Fernando Henrique se diz dividido entre Huck e Doria

- O Globo

Fernando Henrique Cardoso continua a estimular as ambições presidenciais de Luciano Huck. No entanto, faz um alerta ao apresentador de TV:

— A decisão é dele. Vai ser político ou celebridade? Não é uma coisa fácil de se resolver. Para ser político, tem que sair na chuva e se molhar. Há espaço para ele? Há — disse o ex-presidente à coluna.

O tucano disse que precisa ser cauteloso porque o PSDB já tem um pré-candidato: o governo de São Paulo, João Doria.

— O Doria tem chance. Tem que ser realista. Na próxima eleição, o que vai estar em jogo é o Bolsonaro. Quem tiver capacidade de ganhar dele é com quem eu vou lidar.

Míriam Leitão - Como preservar e desenvolver

- O Globo

Há saídas sustentáveis para desenvolver a Amazônia. O cientista Carlos Nobre propõe a “bioeconomia com a floresta em pé”

Bioeconomia. Essa é a sugestão do climatologista Carlos Nobre no que ele chama de Amazônia 4.0. Ele foi um dos cientistas convidados a falar no Sínodo da Igreja Católica no Vaticano e conta o que ouviu e o recado que deixou. Nobre propõe que se aposte num modelo que já está se formando na Amazônia, a produção em sistemas agroflorestais. Neles, a biodiversidade é protegida até porque ela será parte do sucesso do negócio.

Carlos Nobre é um dos maiores climatologistas do mundo e já fez muitos estudos científicos sobre a região e seus impactos no clima. Desta vez, ele está falando de algo concreto para tentar responder à inquietante pergunta sobre como preservar a floresta, produzindo renda e desenvolvimento para seus habitantes.

— Chamamos de bioeconomia da floresta em pé. É a exploração de produtos da região plantados dentro da floresta, método que já se mostrou muito mais produtivo. Castanha, açaí, cacau, babaçu e outros que são exportados como produtos primários, mas que após um processo de industrialização teriam mais valor agregado. A ideia é industrializar esse potencial de biodiversidade — me disse Carlos Nobre em entrevista na Globonews.

Ricardo Noblat - Bolsonaro e a caça ao tesouro

- Blog do Noblat | Veja

Quem se habilita a dar abrigo a um presidente e aos seus filhos?

Onde já se viu um presidente da República recém-eleito brigar com o partido pelo qual se elegeu e não encontrar abrigo em nenhum outro de médio ou de grande porte?

Onde? Aqui, no país que o compositor Tom Jobim disse que não é para principiantes. Exagero ou apenas uma tirada espirituosa do autor de “Garota de Ipanema”?

Não é o que parece.

Depois de filiar-se e desfiliar-se de oito partidos em 28 anos como deputado federal, o ex-capitão Jair Bolsonaro, afastado do Exército por conduta antiética, ingressou no PSL em janeiro de 2018.

Havia rejeitado o convite de outros partidos nanicos porque eles não cederam a todas às suas exigências de mando. Alguns até se dispuseram a mudar de nome, mas isso não bastava.

Fez um bom negócio com Luciano Bivar, à época ex-deputado federal e antes candidato derrotado a presidente da República. Bivar cedeu-lhe o PSL sem impor maiores restrições.

O PSL era um partido de um único deputado federal. Bolsonaro crescia nas pesquisas de intenção de voto. E Bivar queria pegar carona na sua candidatura para voltar à Câmara.

O acerto de conveniência dos dois superou as expectativas de Bivar. O PSL elegeu 54 deputados. Mais tarde perderia um – Alexandre Frota (SP), que se mudou para o PSDB. Não faria falta.

Mas Bolsonaro precisava de um partido para chamar de seu, um partido disposto a curvar-se às suas ordens, e que contasse com muita grana para ele gastar ao seu gosto nos próximos anos.

Marcus Pestana - Ajuste fiscal e privatizações (II)

- O Tempo (MG)

Na última semana falamos sobre as privatizações como uma das ferramentas para o enfrentamento do estrangulamento fiscal e sobre o uso nobre de seus frutos contribuindo para o ajuste patrimonial de longo prazo. Não é razoável vender o patrimônio público para pagar despesas correntes.

Registramos também o ambiente contaminado por visões políticas e ideológicas anacrônicas que levantam polêmicas sem fundamento sólido ou evidências empíricas. Como foi dito, o cidadão não quer saber se a luz ou a água é estatal ou privada. Quer segurança no abastecimento, qualidade e tarifa justa. O conceito de “empresa estatal estratégica” funciona como um biombo para idiossincrasias, preconceitos e equívocos.

As empresas de serviços públicos, que não têm a natureza do serviço alterada pela privatização, precisam ser reguladas. É assim nas telecomunicações reguladas pela ANATEL, no petróleo, após a quebra do monopólio da Petrobrás, regulado pela ANP e na energia elétrica regulada pela ANEEL. Empresas privatizadas que não são de serviços públicos são reguladas pelo mercado. É assim com a Vale do Rio Doce, a EMBRAER, a CSN, a USIMINAS e a antiga AÇOMINAS.

Vou usar o exemplo de Minas no setor energético como exemplo concreto para tentar iluminar a polêmica e suas mistificações. A CEMIG e Furnas são símbolos do processo de desenvolvimento do estado com claras digitais de nosso maior estadista, JK. Cabe perguntar: a geração, transmissão e distribuição de energia elétrica sempre foram estatais? A resposta é não. A primeira usina hidrelétrica da América Latina, inaugurada em 1889, foi fruto de investidores privados que fundaram na minha cidade, Juiz de Fora, a Companhia Mineira de Eletricidade, tendo a frente o grande empresário inovador e empreendedor, Bernardo Mascarenhas. O objetivo era substituir a iluminação pública a gás pela elétrica na cidade e gerar energia para a Cia. Têxtil Bernardo Mascarenhas e outras empresas da região. Portanto, o argumento histórico não alimenta o forte preconceito contra as privatizações.

João Domingos - Jogar para perder?

- O Estado de S.Paulo

Difícil entender a estratégia de Bolsonaro na crise do PSL

A coluna deste sábado poderia se referir à aprovação da reforma tributária, uma proposta tão moderna e desburocratizante que se tornará modelo para o mundo. Ou sobre a reforma administrativa que acabou com privilégios e deixou a máquina pública enxuta e pronta para servir ao cidadão que paga impostos. Talvez a respeito do novo plano industrial. Quem sabe sobre o sucesso do programa de combate ao desemprego, que levou ao pleno emprego, fez a renda crescer e devolveu ao cidadão brasileiro esperança e felicidade.

Mas não será a respeito de nenhum desses temas. O governo nem conseguiu montar seu projeto de reforma tributária. A reforma administrativa é um sonho mais do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do que do presidente Jair Bolsonaro. O plano industrial, se existe, existe só no papel. O programa de criação de empregos ainda não apareceu. E a renda do cidadão é uma tragédia. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) com dados de 2018, divulgada na quarta-feira, 16, mostra que mais de 100 milhões de brasileiros – quase a metade da população – vivem com apenas R$ 413 mensais.

A vergonha nacional revelada pelo estudo da Pnad Contínua, com aumento ainda maior da desigualdade entre ricos e pobres, nem foi tão comentada porque um outro tema a encobriu. Trata-se da crise do PSL, o escândalo da arapongagem que grampeou todo mundo, até o presidente da República, e suas possíveis consequências para o projeto de reformas do País. Como até agora só a reforma da Previdência entrou na pauta, e esta parece estar resolvida, pois depende apenas da votação do segundo turno, pelo Senado, pode-se deixar as considerações sobre a agenda econômica para um futuro próximo. E ater-se ao comportamento político do presidente Jair Bolsonaro na crise do PSL.

José Eduardo Faria* - Negociação política e interesse coletivo

- O Estado de S.Paulo

Como pode negociar um governante que despreza a política e as regras democráticas?

A deterioração do ambiente político, decorrente da sucessão de decisões erráticas, intempestivas, insensatas e irresponsáveis do chefe do Executivo, vem tendo como consequência visível a perda da confiança dos mercados na aprovação de reformas estruturais convincentes, como a previdenciária. Isso decorre da percepção de que o capitão reformado, além de vulgar, ignaro e incompetente, não tem a habilidade necessária para negociar essas reformas com o Congresso Nacional. Os efeitos menos visíveis são a articulação cada vez mais eficiente, porém discreta, das corporações do funcionalismo na defesa de seus interesses e o modo como elas estão tratando o princípio da responsabilidade fiscal.

Essa polêmica envolve o sistema de representação de interesses e de relações entre a sociedade e o Estado. Em que medida esse sistema tem propiciado o estabelecimento de prioridades e metas com base em negociações entre os agentes representativos da sociedade brasileira?
Evidentemente, a resposta é negativa. Mas o que está ocorrendo entre nós não é muito diferente do que aconteceu em outros países em outros períodos históricos, como Portugal, depois da Revolução dos Cravos, a Grécia e a Espanha, após a crise bancária de 2008. São experiências distintas, cujo denominador foi uma reconstrução não só da economia, mas também das instituições políticas. Neste último caso, a reconstrução foi possível graças à substituição de sistemas anacrônicos de representação de interesses por estruturas novas, baseadas em grupos de interesses abrangentes e capilarizados.

Adriana Fernandes - Guerra das reformas

- O Estado de S.Paulo

Ninguém é capaz de responder com segurança a seguinte pergunta: depois da aprovação da reforma da Previdência, qual é a nova reforma prioritária?

A reforma tributária continua aprisionada à guerra fria que se instalou entre o Senado e a Câmara pela disputa da agenda econômica. Se não fosse esse embate, que ainda persiste, e a indecisão do governo Bolsonaro sobre o caminho de tramitação das propostas, muito provavelmente o projeto de reforma do sistema tributário já estaria mais adiantada no Congresso.

A verdade é que falta foco. Não se sabe até agora qual é a prioridade de fato. Ninguém é capaz de responder com segurança a seguinte pergunta: depois da aprovação da reforma da Previdência, qual é a nova reforma prioritária? Isso vale para a equipe econômica e também para as lideranças congressistas. As prioridades mudam todos os dias.
Na terça-feira passada, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse, no evento Empresas Mais do Grupo Estado, que a reforma administrativa pode andar mais rápido do que a tributária. Lideranças empresariais e da Câmara não gostaram.

Poucos dias depois, na sexta-feira, Maia voltou atrás e disse que a reforma tributária continua como prioridade da Câmara. “Não adianta reduzir gastos públicos se não trabalharmos para melhorar a produtividade das empresas”, escreveu no Twitter ao reproduzir reportagem do Estado que mostrava que o governo pode deixar para um segundo momento o envio da proposta de reforma tributária e focar na administrativa e nas medidas de ajuste fiscal para a redução dos gastos obrigatórios.

Empresários procuraram Maia para alertá-lo que não há reforma mais importante para a retomada do que a tributária. O líder do MDB, Baleia Rossi (SP), autor da PEC 45 de reforma tributária na Câmara, também reagiu no Twitter: “A reforma não vai parar”, postou. Ele e o relator da proposta, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), já estão com as negociações avançadas com setores.

Hélio Schwartsman - O mal do século

- Folha de S. Paulo

Querer determinar como os outros devem viver é praga que afeta a todos

O irrefreável desejo de determinar como os outros devem viver suas vidas se tornou o novo "mal du siècle". É uma praga que afeta a todos, dos religiosos que querem banir o pecado, à nova direita, que empastela exposições de arte, passando pela esquerda, em especial uma modalidade autoritária de feminismo que adora suprimir a autonomia das mulheres.

Esse grupo conseguiu com que o Congresso aprovasse um projeto de lei que obriga todos os serviços de saúde do país a comunicar à polícia, num prazo de 24 horas, toda suspeita de violência contra a mulher, independentemente da vontade da vítima. A notificação já é hoje compulsória, mas de forma anônima e em princípio só para as autoridades sanitárias, que não têm o poder de iniciar investigações criminais.

A mudança proposta me parece desastrosa, sob vários ângulos. É claro que o poder público precisa combater a violência contra a mulher, mas sem atropelar sua autonomia. Se é dado a um homem decidir se denuncia ou não uma agressão que tenha sofrido, não vejo por que a mulher não deva ter idêntica prerrogativa de escolha.

Julianna Sofia - Não será fácil

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro verá aliados se reposicionarem na votação da Previdência

Em sua versão original, a reforma da Previdência formulada pela equipe econômica de Jair Bolsonaro não tinha o condão de zerar o déficit do setor, mesmo com a potência fiscal estimada de R$ 1,2 trilhão em um período de dez anos. O propósito era conter a velocidade do aumento das despesas e elevar as receitas previdenciárias.

Pois bem. Já era bola cantada que o Congresso desidrataria a proposta. Na próxima semana, o Senado (espera-se!) deverá concluir a votação das mudanças no sistema de aposentadorias e pensões. Sem a chamada PEC paralela --um puxadinho criado pelos senadores, que terá tramitação arrastada--, o texto final deverá assegurar uma economia de aproximadamente R$ 800 bilhões em uma década.

O Tribunal de Contas da União esquadrinhou os dados e concluiu que, entre 2020 e 2029, essa reforma cobrirá menos de 20% do buraco calculado para os regimes previdenciários. Pelas projeções, seriam necessários R$ 5 trilhões para equilibrar os sistemas no período. Uma sinopse sobre a necessidade futura, e até premente, de nova revisão de regras.

Alvaro Costa e Silva - Antes que acabe

- Folha de S. Paulo

Em perigo, Amazônia vira destino preferido de visitantes estrangeiros

Uma das obras-primas do escritor Henry James é a novela "A Fera na Selva". Mas quem esteve para valer na selva foi o irmão dele, William James, que aos 23 anos visitou a Amazônia e ficou encantado com a região. Em 1865, ele percorreu o Brasil como membro da expedição Thayer e, em cartas para a família, discordou frontalmente de seu professor racista e escravista, Louis Agassiz, revelando enorme simpatia pelos povos do Alto Solimões:

"Os índios que vi até agora são ótimas pessoas, de uma linda cor acastanhada, com cabelos lindos e finos. Suas peles são secas e limpas, eles transpiram muito pouco. No fim das contas, acredito que eles são mais bem-apessoados que os negros e os brancos", escreveu o futuro filósofo. Adão no Éden, ele chegou a flertar com uma nativa: "Ah, Jesuína, Jesuína, minha rainha da floresta, minha flor do trópico, por que não pude fazer-me a vós inteligível?".

O que a mídia pensa – Editoriais

- Leia os editorias de hoje dos principais jornais brasileiros:

A estirpe e as práticas do PSL – Editorial | O Estado de S. Paulo

Desde o início do mandato, o presidente Jair Bolsonaro não manifestou interesse na formação de uma base de apoio no Legislativo. Agora, corre o risco de não poder contar nem mesmo com o seu partido para dar andamento às reformas no Congresso. O País assistiu nessa semana a verdadeiras batalhas tribais no PSL, que escancararam os piores costumes da chamada velha política. É de aguardar o que restará da legenda depois de tamanha dilaceração em praça pública. Seja como for, a disputa entre membros do PSL deixa claro que suas preocupações não estão alinhadas com o interesse nacional. Toda essa luta fratricida ocorreu a menos de uma semana de o Senado retomar a votação da reforma da Previdência. Esqueceram-se do País?

As divisões no PSL não são propriamente uma novidade. Vem de algum tempo a disputa pelo controle do partido entre o presidente Jair Bolsonaro e o deputado Luciano Bivar (PE), presidente da sigla. O grupo bolsonarista reivindica maior participação nas decisões sobre a distribuição dos recursos, o que inclui o preenchimento de cargos nos diretórios da legenda País afora.

Poesia | Carlos Pena Filho – Chopp*

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

*O poema Chopp, de Carlos Pena Filho (1929/1960), citado acima, é uma fidedigna descrição do auge do Centro do Recife, na época em que, além de ser o centro comercial e intelectual da cidade, recebia os bon vivants para o happy hour.

Fundado em 1944 por um imigrante espanhol, o Bar Savoy logo cairia nas graças da boemia devido a sua localização. Fincado em uma das principais vias do coração da capital pernambucana, ele se tornaria o preferido de Lula Cardoso Ayres, Capiba, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Carlos Pena, Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Gilberto Freyre e de tantos outros.

Em meio à ditadura militar instaurada no Brasil, o Savoy era um diretório velado de pensadores que discutiam a redemocratização do país, mas também recebia jovens que queriam apenas se exibir e paquerar.

Entre uma cerveja e outra, era comum ocorrer concursos literários, saraus e notáveis visitas. Foram os casos de Jorge Amado, Heitor Villa-Lobos, Roberto Rosselini, Jean-Paul Sartre, Roberto Burle Marx e Simone de Beauvoir que, segundo registrou Edilberto Coutinho (1938/1995) em sua obra póstuma Bar Savoy (1995), deram o ar da graça no lugar.

Música | João Gilberto - Recife, cidade lendária (Capiba)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Ricardo Noblat - Bolsonaro coleciona derrotas humilhantes

- Blog do Noblat / Veja

Dia inesquecível
O Supremo Tribunal Federal comprou o silêncio do presidente Jair Bolsonaro quando o ministro Dias Toffoli, em decisão solitária, suspendeu a investigação dos negócios suspeitos da dupla Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz.

Por isso Bolsonaro nada se arrisca a dizer sobre o julgamento das ações que pedem o fim da prisão em segunda instância. Está em dívida com o tribunal. E à espera de que ele confirme por maioria de votos a decisão de Toffoli, seu novo amigo de infância.

Mas como Bolsonaro é Bolsonaro e, a exemplo do escorpião, não renega sua natureza nem mesmo quando se vê em perigo, deixou que seu filho Carlos postasse em seu nome uma mensagem no Twitter favorável à prisão em segunda instância.

Foi por coerência que o fez, mas também por esperteza. Não foi um ato acidental. Tanto a postagem como o que aconteceu depois foi uma ação combinada por pai e filho. Carlos assumiu a autoria da mensagem para livrar o pai de culpa, apagou-a e pediu desculpas.

No futuro, se for conveniente para Bolsonaro, ele lembrará que se manifestou contra a decisão tomada pelo tribunal. Dirá que à época não fez maior barulho sobre ela em respeito à independência dos Poderes da República. Ficará bem com Deus e o Diabo.

A manobra do pai e do filho acabou como um episódio menor no dia em que o PSL, partido dos dois, ao que tudo indica implodiu de vez. Foi um dia inesquecível, mas que logo poderá deixar de ser dada à vocação de Bolsonaro para promover grossas trapalhadas.

Por culpa dele, por culpa exclusivamente dele, Bolsonaro colheu mais uma penca de derrotas. A primeira quando tentou, sem sucesso, emplacar Eduardo, o outro filho, no cargo de líder do PSL na Câmara dos Deputados. Um vexame.

A segunda derrota quando soube que fora traído por um deputado da sua confiança que o gravou conspirando para afastar o atual líder do PSL na Câmara, o Delegado Waldir (GO). A terceira quando foi obrigado a ouvir calado o líder chamá-lo de vagabundo.

Bolsonaro retaliou despejando a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) do cargo de líder do governo no Congresso. A retaliação, porém, pode ter sido a quarta derrota dele em um único dia. Hasselmann comportou-se bem como líder. Fará falta ao governo.

O deputado Luciano Bivar (PE), presidente do PSL, guarda farta munição para disparar contra Bolsonaro. Ameaça destituir Flávio e Eduardo do comando do partido no Rio e em São Paulo. Poderá levar o PSL a fundir-se com o DEM e outros partidos.

A Bolsonaro, as saídas que restam são humilhantes: recompor-se com Bivar na condição de derrotado. Ou transferir-se para um partido menor e com menos dinheiro que o PSL.

Lula faz as malas

Dora Kramer - Patota de caciques

- Revista Veja

Para dirigentes partidários, o controle do feudo está acima de tudo

De fato, a briga entre Jair Bolsonaro e Luciano Bivar é por causa da dinheirama a que terá direito o PSL a partir do ano que vem. Da parte do presidente e família, porém, não é só isso. Trata-se do controle do mais vantajoso dos cartórios em que se transformaram os partidos políticos no Brasil, com raras e pontuais exceções.

Bivar alugou, mas não transferiu a propriedade da legenda para Bolsonaro & Filhos, e aí reside o x de uma velha questão na qual, no entanto, ainda não tínhamos visto um presidente da República se envolver tão aberta e displicentemente. Essa é a única novidade nesse caso, que reúne os ingredientes da lamentável história recente dos partidos: domínio de caciques, inchaço artificial proporcionado pela conquista do poder, trato obscuro do dinheiro público, serventia como cabides de empregos, zero debate político-doutrinário.

Merval Pereira - Atraso secular

- O Globo

Profusão de instâncias recursais é herança da colonização portuguesa, quando chegou a haver 4 ou 5

A discussão que começou ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre prisão em segunda instância repete o que ocorreu em 1827, quando Bernardo Pereira de Vasconcelos, jornalista e deputado do Império, subiu à tribuna para criticar o que considerava um excesso de recursos no sistema judicial brasileiro. Passaram-se 192 anos, e ainda não chegamos a uma conclusão.

A mudança da jurisprudência em pouco tempo é outro obstáculo para uma decisão sensata. A prisão em segunda instância foi proibida apenas em 2009, quando passou a vigorar o entendimento de que somente depois do trânsito em julgado poderia ser decretada a prisão de um condenado. Em 2016, formou-se uma nova maioria a favor da volta da jurisprudência que permitia a prisão em segunda instância, que prevalecera muitos anos antes da mudança.

Agora, querem mudar novamente, pois o ministro Gilmar Mendes fez a maioria de um voto pender para o trânsito em julgado. Tudo indica que no próximo ano, quando o ministro Celso de Mello, favorável ao trânsito em julgado, se aposentar, a maioria poderá mudar novamente, dependendo de quem o presidente Bolsonaro indicar para o STF. E pode mudar novamente no ano seguinte, quando o ministro Marco Aurélio Mello, também favorável ao trânsito em julgado, for substituído.

Essa profusão de instâncias recursais é herança de nossa colonização portuguesa, quando chegou a haver quatro ou cinco instâncias: a primeira, uma segunda, que era o Tribunal da Relação, uma terceira, a Casa da Suplicação, uma quarta, o Supremo Tribunal de Justiça, que originou o STF, e a graça real, o último recurso ao Rei.

Míriam Leitão - Crise põe em risco a governabilidade

- O Globo

Partido com o qual Bolsonaro poderia construir a governabilidade está implodindo. Presidente segue à risca o manual do isolamento

A crise de vários megatons que explodiu no PSL é a prova mais clara da incapacidade política do presidente Jair Bolsonaro. A sucessão de conflitos foi detonada pelo próprio presidente de forma intempestiva e estabanada. E foi ele que a agravou. Todos os ingredientes seguem seu padrão de comportamento: palavras impensadas, falta de diálogo, privilégio para os filhos. O partido com o qual ele poderia começar a construir a governabilidade está implodindo.

O que alguns analistas disseram logo após a eleição era que Bolsonaro conseguira, com a força da onda em seu favor, eleger a segunda maior bancada.

A primeira é a do PT, com um deputado a mais. A partir daí, seria razoável supor que ele conduziria negociações para uma fusão com um ou vários partidos da direita e aumentaria a sua bancada. Que ele, por ter passado 27 anos no parlamento, saberia construir um diálogo com o Congresso, necessário para o seu projeto de governo.

Contudo, seu partido não cresceu, não recebeu adesões, entrou em várias guerras de falanges que ele jamais soube arbitrar. Ontem, no áudio vazado da reunião do PSL, o que fica claro, em meio aos inúmeros palavrões, é que muitos têm a mesma queixa: o presidente não os ouve, não dialoga, não demonstra que eles fazem parte da estrutura de poder.

Se Bolsonaro escanteia seus correligionários, o que dirá dos outros partidos que poderia ter atraído para uma coalizão. Desde o início da administração, ele fez críticas indiretas e genéricas ao Congresso ao afirmar que não faria a “velha política”. Ontem, nomeou um senador do MDB para líder do governo.

Nelson Motta - Segunda temporada

- O Globo

Assim como o antipetismo elegeu Bolsonaro, agora é o antibolsonarismo que cresce e poderá eleger um candidato de oposição em 2022. Acontece em qualquer democracia. Bolsonaro continua caindo nas pesquisas e, desde o início de seu governo, só perdeu eleitores, sem conquistar novos entre os que votaram na oposição. O aumento da truculência, da intolerância e da grossura do “Bolsonaro raiz” só agrada aos devotos do mito, é só para eles que fala, um terço do eleitorado. Mas esse estilo também incomoda e afasta parte de um terço dos independentes e moderados. Uma estratégia arriscada, em que a radicalização pode levar ao isolamento e a unir adversários: os antibolsonaristas são hoje um terço da população.

E se a economia melhorar, o emprego e o salário crescerem, a criminalidade cair? E se forem feitas as reformas da Previdência, a tributária, a administrativa, a eleitoral? Bolsonaro seria imbatível?

Bernardo Mello Franco - Neste ritmo, só vão sobrar os filhos

- O Globo

Os bolsonaristas arrependidos já conheciam todos os defeitos do capitão. Só não esperavam ser rifados tão cedo, em nome de um projeto que ninguém sabe dizer qual é

Não está fácil acompanhar a série de barracos do bolsonarismo. No capítulo de ontem, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir, chamou o presidente de “vagabundo” e prometeu “implodir” o governo. Antes disso, impôs mais uma derrota humilhante ao Planalto.

Com a caneta Bic no bolso e o telefone na mão, Jair Bolsonaro tentou derrubar o deputado do cargo. Queria trocá-lo pelo filho Eduardo, cuja indicação a embaixador está mais fritada que um hambúrguer. Recém-alçado do baixo clero, Waldir organizou o contragolpe parlamentar. Mobilizou a tropa de insatisfeitos e destronou o príncipe herdeiro.

Irritado, o presidente destituiu a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann. A deputada preferiu apoiar o delegado a bater continência para o capitão. Sentindo-se traída, ela acusou o governo de comandar uma “milícia digital”, reclamou de “ingratidão” e prometeu revanche.